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Finalizada em: 11/09/2020

Capítulo Único


- Não foi um incêndio de verdade! Só a lata de lixo pegou fogo - enrolou uma mecha de cabelo nos dedos e piscou os longos cílios - Bom, e uma parte da cortina...
- Eu juro que você só está piorando as coisas.
Tive vontade de soltar uma gargalhada ao ver massageando as têmporas ao encarar a irmã. era, realmente, inacreditável.
- Ah, , seja mais divertido. A faculdade é para essas coisas.
- Não! - ele levantou uma das mãos - Eu entenderia se precisasse te resgatar em uma festa inapropriada, talvez até seria compreensivo se você aparecesse com uma tatuagem. A faculdade é para essas coisas. Mas ninguém é expulso do dormitório por iniciar um incêndio.
- Veja pelo lado bom - a garota empurrou as duas malas cor-de-rosa porta adentro, dando o primeiro passo para dentro do apartamento - Você vai poder passar mais tempo comigo.
- É. É realmente tudo o que eu queria - meu amigo rolou os olhos ao fechar a porta.
Do sofá, observei olhar com cautela para cada canto do apartamento. Seus olhos passaram pela bancada que dividia a sala da cozinha, pelo comprido corredor mais adiante, onde ficavam os quartos e, por fim, caíram em mim.
- O que é que ele tem? - a garota jogou uma mecha dos cabelos para trás antes de apontar para mim.
- Ele acabou de terminar com a namorada - balançou a mão na minha direção - Está na merda há dois dias.
- tinha uma namorada? - o tom de escárnio veio seguido de uma sonora gargalhada.
Tá legal. Por que aquilo era engraçado?
- Vocês podem parar de falar de mim como se eu não estivesse aqui? - passei as mãos pelos cabelos e me ajeitei no sofá, me perguntando se era mesmo tão evidente que eu, de fato, estava meio na merda. Meio.
- Ah, meu Deus. Me desculpe. Eu realmente te devo uma saudação mais apropriada - ela largou as malas no meio da sala e abriu um sorriso exultante e aparentemente genuíno; um sorriso que dizia que eu e apenas eu era a única pessoa que ela queria ver naquele instante.
Eu tinha ciência que aquilo não era verdade - mas essa era uma das poucas coisas que eu ainda sabia sobre a irmã do meu melhor amigo. Seu olhar, seu sorriso e seus gestos conseguiam fazer qualquer um pensar e se sentir exatamente como ela queria. Era como se suas ações fossem sempre premeditadas, mas, ainda assim, ela parecia a naturalidade em pessoa.
Uma porção coisas brilhantes caminhou em minha direção. E eu não estava falando apenas do tecido cintilante de sua saia, e nem do que quer que fosse que fazia refletir o alto de suas bochechas. Eram seus olhos e seu sorriso que, surpreendentemente, brilhavam mais quando a garota tomou o lugar bem ao meu lado no sofá.
Não apenas ao meu lado. Praticamente em cima de mim.
Senti o cheiro de flores que eu jamais saberia dizer o nome e, instintivamente, pensei em me afastar. Mas fui detido pelo seu cruzar de pernas, que fez com que o peso do seu corpo caísse superficialmente sobre mim e a palma delicada de sua mão que repousou em meu peito.
- Faz tempo que não te vejo, . Como você está? - a voz macia soou perigosamente perto de meus lábios, vindo junto a um inclinar de cabeça que me obrigou a encarar seus olhos.
E, cara, que erro.
Engoli em seco. Procurei com os olhos; mas o filho da puta mexia distraidamente nos armários da cozinha em busca de algo e nem pensava em me salvar. Talvez tivesse se acostumado com o jeito da irmã. E talvez eu estivesse errado em tratar aquilo como qualquer coisa além de naturalidade.
Porque essa era . E não tinha por que eu ser tratado de forma diferente.
- Achei que já tivéssemos entendido que eu estou na merda - dei um sorriso amarelo ao colocar a mão sobre a dela e a afastar de mim.
soltou um suspiro, desgrudando o corpo do meu no instante seguinte. Respirei em alívio, podendo relaxar todos os músculos retesados do meu corpo.
- O que aconteceu vocês? Os dois eram mais divertidos - ela se levantou em um pulo, caminhando na direção das suas malas.
- As pessoas só não vivem como se todo dia fosse uma festa, maninha - a voz de ecoou da cozinha.
- Errado - apontou para o irmão - Eu vivo.
- E olha como isso acabou, não é mesmo? - externei as palavras da maneira mais irônica o possível.
Ela olhou em minha direção. Ergueu uma sobrancelha. Seus lábios se separaram para que ela dissesse alguma coisa, mais se fecharam antes que qualquer som saísse dali. E então um pequeno sorriso iluminou seu rosto.
- ? Pode me mostrar qual o meu quarto? - por mais que dirigisse as palavras para o irmão, seus olhos estavam cravados em mim.
- Eu ainda não acredito que está aqui - praguejou em um sussurro, pegando as duas malas da garota antes de guiar o caminho até a última porta do corredor.
Os olhos de pairaram em mim por alguns segundos. E, diante do nervosismo que corria por minhas veias, os segundos transfiguraram-se em minutos, para depois virarem horas.
Ela sempre foi boa nisso - fazer com que a terra parecesse se mover mais lenta em direção ao sol. Como se sua presença fosse o sopro aguardado na manhã seguinte, trazendo a calmaria do dia após o caos da noite.
Diante de seu olhar, eu me sentia sem reação. Como se o tempo não tivesse passado. Lembrei-me de quantas vezes, no dia anterior, havia me perguntado se estava tudo bem ela passar um tempo com a gente. E, quando eu concordei veemente diante de todas as indagações, eu realmente acreditei que estava tudo bem.
Mas bem não chegava nem perto de como eu me sentia ao vê-la e ao premeditar como seria morar com .
Foi somente quando ela deu meia volta e, com um pequeno sorriso, seguiu os passos do irmão, que eu finalmente pude relaxar meu corpo no sofá e nublar meus pensamentos com coisas aleatórias que manteriam, por hora, ela longe de mim. Mas não sem antes, ainda êxtase, murmurar a incredulidade que bombardeava em meu peito ao concordar com .
- Eu também não acredito.




- Me promete que vai pegar leve com ele.
- , isso faz quanto tempo? Dois anos? Ele nem me conhecia direito.
- Só me prometa que vai se comportar, por favor. Ele acabou de sair de um relacionamento.
Meu irmão soltou um suspiro e eu estava quase o chacoalhando pelos ombros incessantemente para que parasse. Era admirável a preocupação dele com o amigo, mas era meio grandinho para ter uma babá.
E eu não era um monstro.
- Eu prometo.
me encarou por alguns segundos, como se procurasse alguma falha em minha expressão antes de validar minha resposta. E então deu-se por vencido, finalmente saindo do batente da porta do meu novo quarto e a fechando logo que seguida.
Certo. Talvez eu não tivesse pensado direito antes de bater na porta do meu irmão.
Eu estava sentada na cama que passara a ser minha nos últimos dois dias, tentando encontrar um equilíbrio entre o natural e o glamuroso ao me maquiar. Era sábado à noite e os meninos iam receber alguns amigos em casa; mas eu tinha certeza de que a pequena reunião havia saído do controle, pois eram apenas onze horas e eu já estava ouvindo vozes altas demais misturadas com uma música nada agradável vindo da sala.
Encarei meu reflexo no espelho mais uma vez, repetindo mentalmente para mim mesma o que havia acabado de falar.
Pegar leve com .
Ele acabou de terminar com a namorada.
Ele pode gostar de você.
Soltei um suspiro exausto. Era exatamente esse o tipo de drama que eu preferia evitar.
Toda a história com era complicada demais. Eu sabia que, há dois anos, quando o conheci, ele havia sentido alguma coisa por mim. E eu sabia que ela havia ficado ressentido quando tentou alguma coisa comigo e eu apenas me afastei.
E eu entendia por quê.
Todas as noites, eu beijava e ia para a cama com caras que eu nem ao menos sabia o nome. E ele sabia disso. Céus, ele via isso.
E então , alguém que havia se tornado um amigo em tão pouco tempo, tentava me dar um mísero beijo e eu apenas o empurrava e saia correndo?
O que ele não entendia era que o exato fato de se ter se tornado um amigo era o que me aproximava e me afastava dele ao mesmo tempo.
O que acontece quando se beija alguém que convive quase diariamente com você? Você não pode fugir no dia seguinte e fingir que não o conhece. E era exatamente isso o que me apavorava - a ideia de nutrir sentimentos. De ter qualquer coisa próxima a um relacionamento.
O fato era que, mesmo sem o beijo, eu acabei fugindo no dia seguinte. E ele também. O desconforto venceu e nos evitávamos dia após dia. Até o ponto em que não podíamos ser chamados de amigos. Éramos apenas duas pessoas que, um dia, haviam cruzado os caminhos e, eventualmente, seguido diferentes direções.
Se me chamava para sair e me dissesse que estaria lá, eu não ia.
Se eu vinha ao apartamento dos dois para visitar meu irmão, não estava em casa.
Para mim, sempre fora e sempre seria assim - eu sempre fugiria ao menor sinal de intimidade.
Por outro lado, faziam dois anos. Não era como se o passado fosse se repetir. Era perfeitamente aceitável que colocássemos o que aconteceu para trás e agíssemos como duas pessoas maduras, certo? Certo.
Me encarei no espelho uma última vez antes de levantar da cama e ajeitar a barra do meu vestido. Quando abri a porta do quarto, minhas suspeitas foram confirmadas. Estava mesmo cheio por ali. Do corredor, eu podia ver algumas pessoas amontoadas no sofá e outras espalhadas pela sala e pela cozinha.
Meus olhos, automaticamente, procuraram e ; já que eu não conhecia ninguém além dos dois por ali.
Encontrei meu irmão perto da janela, ao lado de uma morena com as maiores pernas que eu já tinha visto, e precisei conter meu riso ao perceber a cara que ele fazia enquanto os dois conversavam. Parecia que ele estava prestes a atacá-la a qualquer momento. estava no sofá, com outros quatro garotos que eu não conhecia. Decidi que meu melhor destino era a cozinha, onde peguei uma cerveja no cooler e me sentei em uma das cadeiras que ficavam em volta da bancada.
Fiquei por alguns minutos ali, os olhos correndo pelo ambiente e, vez ou outra, me prendendo em uma conversa aleatória. Quando dei por mim, meus olhares estavam fixos em e as recomendações do meu irmão estavam, mais uma vez, rondando minha cabeça.
De longe, deu um sorriso quase simpático. E eu devo ter retribuído com ainda mais simpatia, pois no instante seguinte, ele estava caminhando em minha direção. Ele vestia uma jaqueta de couro e os cabelos estavam jogados do jeito despreocupado que ele conseguia fazer parecer legal.
- está sozinha em uma festa ou eu estou vendo coisas? - ele disse ao tomar o lugar na cadeira ao lado da minha.
- Não sei o que está sugerindo com isso, - levantei os ombros e dei mais um gole na minha cerveja.
Um sorriso singelo apareceu em sua expressão. Quando encarei, finalmente, seus olhos , me perguntei por que, há dois anos, eu não havia beijado .
- Não sabe ou não quer entender? - ele se inclinou levemente em minha direção, abaixando o tom de voz quase em um sussurro.




- O que você está fazendo? - a voz serena de soou bem atrás de mim. Espiei por cima dos ombros no mesmo instante, apenas para vê-la apoiada na parede do corredor, me encarando enquanto vestia um pijama branco que mal cobria seu corpo inteiro.
Ótimo. Eu realmente estava pagando todos meus pecados.
Meus olhos foram dela para o controle em minhas mãos e depois para a TV.
- Não está óbvio?
- Você podia ser menos mal humorado, não acha?
Eu não precisava virar novamente para saber que ela se direcionava ao sofá.
- O que posso fazer? Você desperta o pior em mim - murmurei sem tirar minha atenção por um segundo sequer da televisão.
Quando afundou na almofada ao meu lado, apoiou os pés na mesa de centro e eu precisei lutar contra todos os meus instintos para não encarar descaradamente as pernas da garota.
É só um jogo, . Quem ceder primeiro, perde.
- Ótimo - antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, tirou o controle da minha mão - Isso fica comigo, porque você claramente não sabe escolher um bom filme.
Rolei os olhos, soltando um suspiro pesaroso.
Eu quase tinha esquecido que ela tinha essa mania de se fazer contável aonde quer que fosse, mesmo quando não era bem-vinda. Podia ser adorável, mas era, também, irritante.
- O que tem de errado com American Pie?
- Ah, . Se você não sabe a resposta dessa pergunta, filmes não são para você - a sua resposta veio acompanhada de um sorriso altamente irritante.
- E desde quando você faz parte da academia? - cruzei os braços, um tanto irritado por ela, realmente, ter mudado de canal.
- Estou te ignorando - disse, completamente concentrada nas opções que saltavam na tela, e eu não pude fazer nada além de soltar uma risada - Bingo!
Meu olhar acompanhou o seu, completamente cravado na tela do aparelho, onde coisas brilhavam demais e imagens frenéticas de uma festa caótica enchiam meus olhos.
O milésimo suspiro do dia escapou pelos meus lábios.
- O que vamos assistir? - abaixei os ombros, dando-me por vencido. Um sorrisinho divertido se formou no canto dos lábios de .
- Você nunca assistiu The Great Gatsby? - ela se dirigia a mim, mas sua atenção pouco vacilava da TV.
- Hm, não?
- Nunca leu o livro?
- Eu deveria…?
- Certo. Você está prestes a assistir uma das maiores obras já feitas - ela se ajeitou no sofá e pegou uma almofada para abraçar - Muita gente prefere a versão de setenta e quatro, com Robert Redford. Eu concordo que a fotografia é incrível, mas fala sério, Leonardo DiCaprio é charmoso como ninguém e o Gatsby precisa ser charmoso.
- Qual a história? - meus olhos oscilaram entre ela e o filme em questão.
- A história é contada pelo Nick, vizinho do Gatsby e primo da Daisy. Claro que tem todo um mistério sobre a vida de Gatsby e sobre o porquê de ele dar festas tão grandiosas como essa - sua mão apontou para a TV - E ele nunca aparece. Ninguém sabe ao certo quem ele é, embora todos tenham as teorias mais absurdas. Mas qual o ponto de abrir sua casa para milhares de estranhos e nem tentar levar o crédito?
- Deixe-me adivinhar. Tem algo a ver com a garota
- Daisy. Isso! - um gritinho animado saiu de sua garganta, me fazendo sorrir - Ele a conheceu quando ainda não tinha dinheiro, antes de ir para a guerra. E, quando ele volta, ele diz que não pode mais ficar com ela. E ela? Acaba se casando com sujeito preconceituoso que não a suporta.
- E o que Gatsby acha disso? - eu não sabia como ele havia feito aquilo, mas, em um instante, eu estava interessado e meus olhos contemplavam a tela tão intensamente quanto os dela.
- Jay. Jay Gatsby. Acho que você já pode chamar ele de Jay agora - soltou uma risada e eu não pude deixar de pensar o quanto ela podia ser fascinante - Ele não gosta, é claro. O grande problema é que ele idealizou uma vida inteira para eles dois e ele não se contenta em ser apenas o amante dela. Ele quer construir uma vida ao lado dela, como ele sempre sonhou. Ele quer repetir o passado.
- E o que acontece?
Um sorriso satisfeito atravessou seu rosto.
- Sinto muito, lindinho, mas você vai precisar assistir ao filme para descobrir.
Como se suas palavras fossem um comando ditado exclusivamente para meu corpo, eu nem ao menos hesitei. Em um instante, meus olhos estavam grudados na TV e eu mal podia esperar para descobrir qual seria o destino de Gatsby, Daisy e Nick.
De uma maneira muito mais profunda do que eu gostaria de admitir, eu pude ver naquele filme. Pude vê-la na confiança de Jordan. Na sensibilidade e intensidade de Gatsby. Na insegurança de Daisy. E no modo cativante de ver a vida e as pessoas à sua volta de Nick. Mais do que isso, a via nas passagens poéticas, nas cenas vertiginosas e nas diversas vezes que coisas brilhantes demais saltavam da tela.
Em um momento ou outro, minha atenção se voltava para . Olhá-la era, no geral, algo difícil de se evitar. E toda vez que eu a observava, encontrava em seus olhos um brilho travesso; um brilho que me dizia que ela havia conseguido o que queria. Ela havia escolhido o filme e eu estava assistindo, sem reclamar e ansioso para o acontecimento da próxima cena. Não era preciso conhecer profundamente para saber que aquele era o exato tipo de coisa que a deixava feliz - ter razão sobre algo, o que quer que fosse. Eu sabia que ela me perseguiria por dias e que iria se referir àquele momento como “o dia em que eu fiz virar fã de filmes de verdade”.
O que era uma droga.
E, bom, se tratando de … adorável, ao mesmo tempo.




Quando me disse que ele e tinham uma banda com outros dois amigos, eu não sabia ao certo o que esperar.
Quando ele me convidou para vê-los tocar no The London Pub, eu hesitei ao menos quatro vezes antes de aceitar.
E se eles fossem ruins e me perguntassem o que eu tinha achado depois? Eu conseguiria mentir? geralmente sabia dizer quando eu estava mentindo.
Por isso, foi uma grata surpresa quando os vi durante cinco músicas no palco. O que eu podia dizer? cantava como se tivesse nascido para aquilo e a energia de era contagiante. Não apenas isso… Ele era hipnotizante. Era adorável a forma que ele apertava os olhos quando, vez ou outra, cantava. Os cabelos , balançando e grudando em seu rosto davam o davam um charme que certamente deixaria qualquer garota louca e jogada aos seus pés.
Da mesa que eu dividia com alguns amigos dos dois, os vi descer do palco com sorrisos radiantes em seus rostos ao som dos aplausos fervorosos da plateia.
- E então? O que achou deles? - o moreno de olhos claros que mais cedo havia sido apresentado a mim como Dean cutucou meus ombros.
- Eles são ótimos! Não sei por que nunca me convidou para vir aqui antes - respondi com um sorriso sincero, ainda contagiada pela energia dos meninos.
- É… é realmente uma pena - Dean deu um sorriso atravessado e quando eu entendi o real significado de suas palavras, o mesmo sorriso se refletiu em meus lábios.
- Não me diga que detestou! - a voz repentina de chamou nossa atenção e eu me levantei em um pulo, abraçando-o pelo pescoço ao dar um gritinho animado.
- Tá brincando, ? Vocês deviam estar fazendo turnês mundiais. Estou falando sério! - exclamei ao me desvencilhar do abraço e me deparar com o sorriso gigante do meu irmão.
Ele deu um passo para o lado para falar com Dean e, logo atrás dele, vi me encarando com as mãos nos bolsos em meio a um passo hesitante. Suas bochechas estavam avermelhadas e os cabelos completamente desgrenhado. Apesar de toda a história catastrófica, eu não podia deixar de perceber o quanto ele era bonito.
- Ei, rockstar - dei um sorrisinho em sua direção e ele finalmente deu o último passo para parar em minha frente - Foi um ótimo show.
- Você parece surpresa.
- Você também parece por eu ter gostado.
Seus lábios se curvaram levemente para cima e eu apenas observei enquanto ele se afastava. Ainda estava olhando quando ele ocupou uma das cadeiras do outro lado da mesa, ao lado de uma garota com longos cabelos castanhos e os lábios pintados de vermelho.
- Então, onde estávamos? - fui abordada por Dean no instante em que me sentei novamente.
- Em lugar nenhum - sorri e, por mais que seus olhos verdes chamassem minha atenção, por algum motivo meus olhos estavam grudados em , e eu não pude evitar que a pergunta seguinte escapasse - É a ex namorada dele?
Os olhos de Dean seguiram os meus até onde conversava com a garota e a sua expressão não estava nada agradável.
- Charlotte? É sim - ele se inclinou brevemente em minha direção - Parece que ela pediu para voltar e ele não quer aceitar. Se quer saber minha opinião, acho que tem outra pessoa. nunca fica sozinho por muito tempo.
Apenas assenti com a cabeça, sem ser capaz de formular qualquer resposta.
E, sem saber o porquê, passei o resto da noite assim - o olhar vago entre as bandas que subiam ao palco e , que seguia conversando com a garota que, agora, eu sabia chamar Charlotte.
Talvez fosse toda a preocupação de acerca do amigo, que fez-me pensar que realmente gostava da menina e, agora, alguma parte de mim estivesse ligeiramente preocupada com ele.
Talvez Nick Carraway estivesse errado e fosse, sim, possível repetir o passado. Pois, naquele momento, ao menos por um instante, eu me senti dois anos de volta no tempo.
Eu senti que era alguém com quem eu ainda me preocupava. Senti que ele não era apenas um conhecido perdido no acaso - ele ainda era um amigo.




Se existia um fato incontestável sobre mim, era que meu humor era uma merda pela manhã.
Pela manhã, eu sempre andava pela casa odiando a minha existência e xingando tudo ao meu redor.
Eu nunca admitiria em voz alta - mas isso havia mudado desde que começara a morar aqui.
Ela sempre era a primeira a acordar, e toda vez que eu a encontrava pela sala ou pela cozinha, não cansava de pensar o quando ela ficava linda logo nas primeiras horas do dia, com os olhos ainda sonolentos e sem uma gota de maquiagem no rosto.
Naquela manhã, em particular, eu havia acordado na merda por toda a conversa exaustiva com Charlotte na noite anterior. Eu não sabia dizer, ao certo, qual era o problema entre nós dois. Eu gostava da garota - mas ela estava me pedindo, de um dia para o outro, para amá-la, e eu não podia dizer que me sentia assim quando não era verdade.
Meu mau humor melhorou, no entanto, no instante em que entrei na cozinha e ouvi cantarolando uma música qualquer enquanto fazia panquecas distraída no fogão. Ela ainda não havia percebido minha presença, então eu apenas cruzei os braços e fiquei a observando dançar e cantar em um dos pijamas quase obscenos que ela vestia.
Eu estava prestes a chamá-la quando a vi dando um passo para o lado e tentando pegar uma frigideira que ficava em uma das prateleiras mais altas da cozinha. Precisei me controlar para que meus olhos não caíssem sobre sua bunda, e me concentrei apenas na graça da situação. Ela deu um pulinho, dois e três - e ainda assim, seus dedos não alcançavam.
- Precisa de ajuda?
Um grito agudo escapou de sua garganta no instante que minha voz reverberou pela cozinha.
- , você quer me matar de susto? Há quanto tempo está aí? - ela se virou para mim e, além de me divertir com a sua expressão de susto, não pude deixar de notar que ela vestia um daqueles aventais que pareciam uma mini saia. Era… sexy.
- O suficiente para estar me divertindo.
- Então você me viu sofrer e não disse nada?
- Estava esperando você subir na bancada ou algo assim. Seria realmente engraçado - dei uma piscadinha e ela rolou os olhos, voltando a atenção para as panquecas
- Você realmente sabe ser um babaca quando quer.
Soltei uma risada e caminhei até seu lado, pegando sem dificuldade a frigideira para ela. Ela me agradeceu com um sorriso e, mesmo sem ela saber, a agradeci em pensamentos; por tornar minhas manhãs melhores e os dias em casa, mais divertidos.




- ! !
O barulho alto de batidas ferozes na porta me fez pular da cama em um segundo. Olhei pra Emma, que parecia assustada demais para levantar ao cobrir seu corpo com o meu lençol.
- ! Eu não posso passar a noite aqui fora! - a voz ligeiramente arrastada reverberou pelo quarto, eu tive a certeza do que havia suspeitado segundos atrás.
Era . E ela estava bêbada.
Soltei um suspiro, passando as mãos pelos cabelos ao encarar a expressão quase atônita da garota em minha cama.
- Eu já volto - murmurei antes de pegar uma camiseta no chão e sair como um furacão em direção a porta.
- ! - ela gritou mais uma vez e o barulho do seu punho contra a madeira pareceu entrar em minha cabeça de tão alto.
- Que merda é essa? - esbravejei ao abrir a porta - , são quatro horas da manhã.
- ! - ela deu um passo para a frente e se jogou em cima mim, o corpo mole se sustentando apenas pelo contato com o meu - Você precisa parar de ser tão preocupado.
Soltei um suspiro ao olhar para ela. Seus olhos, sempre brilhantes, estavam opacos. Os cabelos levemente bagunçados e, de onde eu sempre encontrava o aroma de flores, um cheiro insuportável de álcool emanava.
Ainda assim, estava linda.
Fechei a porta com o pé, tentando equilibrá-la ao segurá-la pela cintura.
- Vou te levar para o seu quarto, ok?
- Eu não quero! - ela praticamente gritou entre as palavras emboladas, tentando se desvencilhar dos meus braços - É cedo demais para dormir. Vamos aproveitar a noite, .
Um breve sorriso assomou à sua expressão, evidenciando suas maçãs rosadas.
- O que você tem contra diversão, ? - ela travou o corpo por um instante, me impedindo de dar mais um passo - Eu tenho certeza que seria incrível se você se soltasse um pouco comigo - ela aproximou o rosto perigosamente do meu, ficando na ponta dos pés ao encostar seu queixo no meu enquanto uma das mãos deslizou pelo mísero espaço entre nossos corpos, acariciando meu peitoral.
Precisei fechar os olhos com força e respirar fundo para que o controle voltasse ao meu corpo e para que eu conseguisse apoiar as mãos em sua cintura e, em vez de trazê-la para mais perto, afastá-la de mim.
- Talvez quando você não tiver bebido tanto, ok? Por favor, só vá dormir agora.
- Argh! Eu odeio quando você soa como meu pai. Não, pior! - colocou uma das mãos ao lado da boca e chegou perto do meu ouvido, sussurrando como se estivesse prestes a me contar um segredo - Odeio quando você soa como o .
- O que está acontecendo aqui? - uma terceira voz se juntou a nós, e, quando eu olhei para a direção de onde ela vinha, encontrei uma Emma incrédula encarando a cena.
Eu sei o que parecia. com a boca quase grudada em meu pescoço. Minhas mãos em sua cintura. Nossos corpos juntos como se fossem um só. Merda.
- Quem é ela? - exclamou, colocando as mãos em meu peito e me empurrando levemente para trás. Ela deu alguns passos cambaleantes em direção à Emma e eu só consegui fechar os olhos, prevendo um desastre - Eu sou , namorada dele. Você é uma amiga? - ela estendeu uma mão na direção da ruiva.
Um grito estridente arranhou a garganta de Emma, e seus olhos moveram-se frenéticos entre e eu.
Merda, merda, mil vezes merda.
- Emma. Ela não é… - tentei contestar, mas antes que eu pudesse terminar a frase, Emma entrou voando em meu quarto apenas para sair instantes depois, segurando desajeitadamente sua bolsa e o que restava de suas roupas.
- Eu não acredito! - ela bradou ao passar pelo meu lado, correndo em direção à porta.
- Ela não é minha namorada - dei um passo para trás, me colocando entre ela e a saída - É a irmã do meu amigo que mora aqui. Só achei que gostaria de saber.
A ruiva me encarou por alguns instantes. Eu sabia, e ela também, que éramos caso de uma noite só; mas isso não significava que ela não tinha o direito de ir embora sabendo que não havia se metido no meio de uma relação.
Emma balançou a cabeça negativamente, a expressão ainda inflexível.
- Bom, deve ter algum motivo para ela ter referido a si mesma assim. Até nunca mais, - as palavras raivosas vieram seguidas do som da porta batendo.
Soltei um suspiro, apertando os olhos com força por alguns instantes ao pensar que merda havia acontecido ali. Quando os abri, procurei pela sala; e ela estava sentada no sofá, com os olhos gigantes brilhando, sorrindo como uma criança.
Me xinguei mentalmente por não conseguir dar um sermão na garota, nem mesmo quando ela realmente precisava.
- Eu vou preparar um café para você - disse, um tanto exausto, e apontei em sua direção - Não saia daí, certo?
Caminhei até o espaço atrás da bancada e, por alguns minutos, me concentrei apenas em passar o café. O silêncio que pairou sob o ambiente me fez pensar que havia adormecido no sofá - mas, quando eu virei, com a xícara em mãos, quase a derrubei no chão.
Meu coração bateu mais rápido em meu peito. Minha boca secou instintivamente e eu senti tudo o que havia abaixo de minha cintura formigar.
Por que ela tinha que ser assim?
No meio da sala, estava apenas de calcinha e sutiã, ambos vermelhos, com as mãos na cintura enquanto me encarava com um olhar que gritava luxúria.
- ! - ela gritou e eu mal pude raciocinar quando a vi caminhar em minha distância, parando a poucos centímetros de distância de mim - Tenho uma pergunta para você. O que você pensa sobre tatuagens?
Abri e fechei a boca algumas vezes, sem saber se havia entendido mesmo suas palavras desconexas e tentando manter meu olhar apenas eu seu rosto.
- E-eu… - tentei dizer alguma coisa, mas soei tão inseguro como um garoto de doze anos ao ver uma garota pela primeira vez na vida.
soltou uma gargalhada, jogando a cabeça para trás e, cara, ela ficava irresistível quando fazia isso.
- Acho que posso ser mais específica - ela olhou para baixo e, sem ao menos pensar, eu segui seu olhar - O que você acha dessa tatuagem? - suas unhas compridas puxaram para baixo uma parte do tecido vermelho da calcinha, revelando ali o desenho de uma pequena e delicada rosa.
Puta. Que. Pariu.
Senti o ar fugir dos meus pulmões. Pelo meu corpo percorreu uma vontade quase incontrolável de tocá-la, descobrir como era a textura de sua pele contra a minha.
- Eu acho… - minha voz saiu em um fio enquanto eu ainda encarava a tatuagem. Me forcei a erguer os olhos para o seu rosto, pois eu sabia que encontraria ali o vestígio de sanidade que eu precisava - Eu acho que você precisa ir deitar, .
- O que você…
- Eu sei, eu não sou divertido. Mas você vai me agradecer por isso amanhã.
Sem deixá-la responder, coloquei as mãos atrás do seu corpo e a ergui, olhando para qualquer coisa que não fosse ela. Ignorei os protestos que saíram de seus lábios - o que durou apenas cinco segundos e acabou com um leve suspiro. Enquanto eu caminhava em direção ao seu quarto, relaxou o corpo e apenas apoiou o rosto em meu peito, esperando que eu a colocasse na cama. E a sensação que atingiu meu estômago fora algo que eu não sentia há tempos; o bater de asas das borboletas, assomado à batida quase frenética de meu coração.
A coloquei na cama com cuidado e joguei a manta que encontrei dobrada em uma cadeira em cima do seu corpo. E então observei seu rosto sereno por alguns instantes antes de apagar a luz e, do vão da porta, sussurrar:
- Boa noite, .




Minha cabeça estava explodindo.
Minha cabeça estava explodindo e minhas bochechas ardendo de vergonha.
Eu queria que aquela fosse uma das ressacas em que eu não lembrava de nada no dia seguinte; mas a verdade é que eu lembrava de cada detalhe do que havia acontecido.
Eu não sabia se teria coragem de olhar pra .
Mais do que isso, eu não sabia por que havia me atirado para ele na noite anterior.
Eu havia chegado à conclusão de que ele era um amigo, certo? Eu não beijava meus amigos. E eu certamente não me sentia atraída por ele… Certo?
Me levantei da cama com dificuldade e me esgueirei para fora do quarto, ensaiando todo o discurso de desculpas que havia criado em minha mente. Estava pronta para andar até a sala e encontrá-lo por lá, mas detive meus passos quando ouvi o som de um violão vir de seu quarto.
A porta estava entreaberta. E eu provavelmente era masoquista pois, sem pensar, encostei as mãos na superfície de madeira e a empurrei suavemente, colocando apenas minha cabeça para dentro.
Meu coração disparou sem aviso ao vê-lo ali. Ele vestia apenas uma calça de moletom cinza e um corro na mesma cor, de onde saíam alguns fios de cabelo displicentes. O violão estava em seu colo e ele murmurava algo tão concentrado que nem notou minha presença. Instintivamente, prendi o lábio inferior com os dentes, não sabendo como lidar com a sensação febril que havia acometido meu corpo.
- O que está tocando? - minha voz saiu quase em um fio e me surpreendi por ele ter ouvido.
Quando seus olhos caíram em mim me senti, mais uma vez, com vergonha pela noite passada. Mas em instantes seu sorriso apareceu para me assegurar de que estava tudo bem entre a gente.
- É uma composição nova - ele levantou os ombros, os dedos inquietos ainda dedilhando o instrumento.
- Eu não sabia que você compunha - a nova informação me fez dar um sorriso ao ajeitar o cabelo atrás da orelha - Eu posso ouvir?
Eu não sabia por que havia perguntado aquilo. E , claramente, não sabia como responder, pois ficou me olhando por alguns segundos com o cenho franzido, sem dizer nada
- Ainda não está pronta. Mas, se você quiser…
- Eu quero - minha voz saiu firme enquanto eu ocupava o lugar na beirada de sua cama, bem em sua frente.
Ele me olhou por mais algum tempo. E então ajeitou o violão no colo e seus dedos fizeram as primeiras notas que eu havia escutado minutos atrás saltarem do violão.

Well my ex girlfriends took hours
Getting ready but you don't take half as long
But you always smell of flowers
And it's like you wake up with your makeup on

Too good to be true
There's something about you
There's something something something about you
There's something about you
There's something about you

Not because you're beautiful
More than I deserve
Something more unusual
Yeah, like you're sent to rock the Earth

Assim como na noite que o vi cantar no palco, ele fechava os olhos para sentir cada palavra quando as pronunciava. E assim como aquela noite, eu achei hipnotizante. Mas havia algo mais no ar… havia algo mais em mim. Meu coração, antes calmo, intercalava entre batidas rápidas e frenéticas em meu peito. E meu corpo formigava com uma vontade ainda desconhecida de tocá-lo; descobrir se seu abdômen era tão rijo quanto parecia e se a sensação de seus lábios nos meus seria tão deliciosa como parecia.
- ... É ótima! - foi tudo o que consegui dizer após tentar, por alguns segundos, retomar meu controle. E eu havia, de fato, sido sincera.
- Ainda não está pronta - ele disse quase tímido ao coçar a nunca.
Uma tensão perceptível, aos poucos, cresceu entre nós. E, não aguentando o silêncio que havia se formado, vi as palavras que eu tanto queria perguntar saltando de minha boca antes que eu pudesse controlá-las.
- É sobre alguém? A letra…
me encarou por alguns segundos, parecendo tanto confuso como surpreso.
- Sobre ninguém em especial. É só… - ele deixou a frase morrer e eu apenas assenti com a cabeça.
- É realmente boa, . Vocês têm muito potencial - disse e sua resposta veio na forma de um pequeno sorriso - Olha, eu queria te pedir desculpa por ontem. Eu não sei o que aconteceu, eu só… Não sei. Me desculpa.
Ai meu Deus, aquele era o pedido de desculpas mais patético que eu já havia visto na vida.
- Está tudo bem. Não era você ali. Era a bebida falando mais alto.
Forcei um sorriso, assentindo com a cabeça, embora não conseguisse deixar de aterrorizar minha mente ao me perguntar se aquela era, de fato, eu.




Da casa inteira dos meninos, tinha um lugar que, particularmente, eu gostava mais.
Era a parede lateral da sala, onde não havia nada - apenas uma janela que ia quase do chão ao teto.
Olhar para o céu era efetivo quando se precisava pensar; algo entre o brilho das estrelas e aquela imensidão azulada não falhava em me lembrar que havia muito mais do que eu podia imaginar pelo mundo e que, com certeza, meus problemas eram pequenos demais se colocados lado a lado às outras questões do universo.
Passei as mãos por minhas bochechas, sem acreditar que eu estava chorando. Céus, eu nem sabia por que eu estava chorando.
Não era novidade alguma que eu não sabia lidar com sentimentos, mas a verdade é que nos últimos dias eu me sentia apenas… vazia. Sentindo um turbilhão de coisas e, ao mesmo tempo, não sentindo nada.
Talvez meu coração estivesse cansado de fazer tanto esforço para criar um tipo escudo que eu julgava ser necessário. Talvez ele estivesse apenas gritando dentro do meu peito para que eu tentasse sentir alguma coisa.
Eu sabia, no entanto, que inquietação em meu peito tinha nome e sobrenome.
- Está tudo bem? - a voz de surgiu repentina e, quando virei para olhá-lo e percebi a expressão preocupada em seu rosto, senti as lágrimas caindo ainda mais rápidas e pesadas.
- Eu nunca fiz isso, .
- Olhar as estrelas? - apesar do humor em sua voz, seus olhos beiravam à tristeza.
Dei uma pequena risada e observei enquanto ele tomava o lugar ao meu lado, deitando-se no chão e prendendo o olhar no céu junto comigo.
Soltei um suspiro, prendendo minha atenção apenas na cintilância em meio à escuridão. Eu sabia que seria mais fácil conversar sem encarar seus olhos.
- Não. Conversar, me aproximar de alguém. Me sentir atraída tempo o suficiente para não ser apenas uma atração.
Por um instante, apenas o silêncio seguiu minhas palavras e eu me perguntei se imaginava que eu estava, de fato, falando sobre ele.
- nunca se apaixonou?
- Uma vez. Pelo meu professor de inglês - confessei, com um sorrisinho nos lábios e o ouvi soltar uma risada.
- E como isso terminou?
- Eu fiquei com ele e acabou perdendo a graça - levantei os ombros e o ouvi soltar uma gargalhada.
- Você é mesmo inacreditável. Eu me surpreenderia se alguém rejeitasse você.
Pela primeira vez naquela conversa, virei o rosto para o lado, encarando seu perfil irretocável.
- Você meio que faz isso o tempo todo.
Uma risada de escárnio escapou de sua garganta enquanto ele deitava o rosto para o lado para corresponder o meu olhar.
- Eu só não levo suas provocações a sério. Você brinca desse jeito com todo mundo. Eu levei uma vez, e olha lembra onde terminamos?
Senti uma fisgada em meu peito. Eu sabia que era verdade, mas ainda assim, doía saber que era o que ele pensava sobre mim.
- Você não pode me culpar por ter me assustado, , eu...
- Não - sua voz me interrompeu, firme - Eu entendo que você se assustou. Você só não precisava ter desaparecido no dia seguinte.
E então meu coração doeu um pouquinho mais. Não apenas pela veracidade de suas palavras; mas porque eu, finalmente, percebi que ainda estava magoado comigo.
Respirei fundo, os olhos cravados nos seus. Antes que eu pudesse pensar no que eu estava fazendo, me vi aproximando nossos corpos. Virei de lado e esperei ele fazer o mesmo, apenas para chegar ainda mais perto e praticamente grudar nossos rostos.
- É a segunda vez em três dias que eu te digo isso, mas… Não acredito que nunca me desculpei por ter agido daquela forma. Me desculpa.
Meu olhar dançou indeciso entre seus olhos e sua boca e a sensação das nossas respirações, ligeiramente descompassadas se misturando, me fazia pensar em jogar o bom senso pro ar e beijá-lo sem pensar nas consequências.
E eu quase fiz isso. Me movi mais um milímetro para a frente, a ponto de roçar nossos lábios. Fechei os olhos com a sensação e, quando um gemido rouco escapou de sua garganta, senti meu corpo estremecer.
- Eu te desculpei antes mesmo de ficar magoado com você, - o movimento de seus lábios fez as nossas bocas se acariciarem enquanto sua voz flutou suave, e a frase que devia me trazer alívio, fez o nó em minha garganta apertar ainda mais.
Um estrondoso raio de lucidez caiu sobre mim. Eu não merecia . Eu não podia magoá-lo mais uma vez, era egoísta demais da minha parte.
- E-eu… - minha voz saiu falha enquanto eu afastava meu rosto do seu lentamente - Eu não posso fazer isso, .
A última lágrima escorreu solitária pelo meu rosto e eu me levantei em um pulo, correndo em direção ao meu quarto.
- Não ouse fugir de mim novamente - a voz raivosa me causou um sobressalto quando eu já estava no corredor. Girei nos calcanhares, apenas para encontrá-lo com olhar colérico como eu nunca havia visto antes.
- Você vai me agradecer por terminar as coisas antes mesmo de começar. Você quer um relacionamento e eu não sirvo para isso - dei um passo em sua direção, o arrependimento evidente em minha voz.
- Se você já sabia disso, por que brincou comigo mais uma vez? - ele esbravejou, se aproximando ainda mais de mim.
- Porque é difícil não gostar de você, droga! É tão difícil assim perceber isso? - dessa vez eu gritei ao parar bem em sua frente; meu rosto, mais uma vez, quase encostava no seu, mas, agora, o desejo havia dado lugar a ira.
- Você brinca com todo mundo, . E você nem liga - era como se estivéssemos competindo para saber quem gritava mais alto e pronunciava as palavras com mais raiva e eu agradeci por não estar em casa.
- Eu ligo para você, seu idiota. Se não a gente já tinha ido para a cama e eu nunca mais olharia na sua cara.
- Você diz como se não tivesse feito isso.
- Eu estava tentando proteger você!
- Eu nunca pedi para você fazer isso!
- Vai à merda, . Eu te odeio!
- Eu te odeio mais.
Quando a gritaria e o jogo de frases furiosas terminaram, estávamos nos encarando a milímetros de distância, tentando fazer as respirações se normalizarem.
E então aconteceu. Quando eu achei que estava prestes a me matar com seu olhar ferino, me segurou pela cintura e pressionou os lábios com força contra os meus.
Minha garganta deixou um grito escapar e meu primeiro instinto fora espalmar as mãos em seu peitoral e o empurrar para trás.
Ele cambaleou um pouco, me lançando um olhar magoado e confuso. Meus lábios estavam tremendo e meu corpo parecia flutuar, sem saber ao certo o que fazer.
E então, no instante seguinte, como se nossos corpos tivessem entrado em um acordo silencioso de que era aquilo que queríamos, nossos lábios estavam juntos novamente.
Sabe toda aquela história sobre ser ruim criar expectativas em cima de algo, por que quando finalmente acontece pode não ser tão bom quanto parecia? Era mentira. Pois a sensação dos lábios de nos meus só podia ser descrita como maravilhosa.
Nossos lábios se acariciaram frenéticos, como se tivessem esperado a vida toda para, finalmente, estarem juntos. Nossas línguas dançaram no mesmo compasso, um convite desesperado para descobrir o sabor que, há tanto, parecia enigmático o suficiente para nos encher de vontade.
Ele era tão macio quanto eu imaginava. Tão saboroso quanto eu sonhava. Em seus toques descontrolados pelo meu corpo, era tão carinhoso e erótico quanto eu podia desejar. Suas mãos passeavam por minha cintura, a ponta dos dedos pressionando a minha pele como se quisesse fazer parte do meu ser. Minhas unhas arranhavam suas costas, em uma tentativa desesperada de trazê-lo para perto de mim.
Eu me perdi no beijo de e mergulhei nele inteiro. Abandonei todas as preocupações que nos rodeavam, acreditando que toda história externada naquele pequeno momento de volúpia e ternura, era mesmo onde tudo precisava começar. Porque, naquele instante, eu não me via fazendo outra coisa pelos restos dos meus dias que não fosse beijar .
Para elevar ainda mais o estado latente do meu corpo, ele fincou seus dentes em meus lábios, em uma mordida provocante.
- … - chamei seu nome baixinho, o sussurro batendo contra seus lábios - Eu quero você aqui e agora.
Suas mãos deslizaram pelas minhas costas e, quando chegaram em meus cabelos, ele agarrou os fios e puxou minha cabeça para trás, escorregando a boca para toda a área livre em meu pescoço.
Meus olhos procuraram os seus. E quando os encontraram, mais escuros do que costumavam ser, eu soube o que viria a seguir. E tinha certeza de que ele havia encontrado em meu olhar a validação necessária para o próximo movimento.
Ele apoiou minha bunda com as mãos e, com um pequeno impulso, minhas pernas estavam envolta de sua cintura. Um passo para trás e seu corpo me prensou na parede, e um gemido sincrônico preencheu o silêncio quando pressionou o quadril contra o meu. Grudei nossos lábios mais uma vez enquanto suas mãos puxavam a sua calça pra baixo, e me apressei em levantar meu vestido. Quando ele puxou minha calcinha para o lado, estremeci ao sentir a cabeça do seu pau roçar em minha entrada úmida. Arfei em resposta, dando uma mordida forte demais em seu lábio. me encarou e o olhar faminto direcionado a mim fez o tesão crescer ainda mais pelo meu corpo. Apertei seus ombros, tentando fundi-lo em mim ao trazer seu corpo para mais perto. E então, em um movimento rápido, ele havia escorregado inteiro para dentro de mim, forte e de uma só vez.
Um grito escapou de minha garganta quando me senti completamente preenchida e um urro de prazer fez seu corpo tremer quando o apertei dentro de mim. Ele começou a me foder, as estocadas rápidas e profundas que faziam meus olhos virarem e os gemidos frenéticos escaparem de meus lábios ininterruptos. Sua mão procurou meu decote, puxando o tecido para baixo para que seus dedos apertassem meus seios com tanta força que eu não me surpreenderia se encontrasse um hematoma ali. Ele me fodia com tanta vontade que o prazer era quase doloroso, e as pontadas em meu ventre pareciam tão intensas que eu quase não era capaz de aguentar.
Sua mão roçou por toda extensão de pele entre meu colo e meus lábios, e ele colocou dois dedos em minha boca para que eu lambesse. Dei uma mordidinha provocante na ponta deles e suguei, indo a loucura quando o gemido sensual que ele soltara chegou aos meus ouvidos. Seus dedos alcançaram meu clitóris e eu precisei apertar minhas pernas em volta de seu corpo para não cair. Ele brincou com meu ponto mais sensível, o apertou entre os dedos, soltou por um instante e apertou novamente antes de me torturar com os movimentos lentos. O movimento de seus quadris acompanhou seus dedos, diminuindo a velocidade, em um vai e vem lento e intenso. Eu estava prestes a pedir por mais quando, de repente, ele meteu mais fundo, e então mais rápido. Seus dedos roçaram meu clitóris com a mesma velocidade caótica que seu membro entrava e saía de mim e, em alguns segundos, eu estava entregue. Senti meu corpo inteiro estremecer e meu pensamento tornar-se nublado. Pequenas explosões aconteceram da ponta dos meus pés até cada canto do meu corpo, tensionando meus músculos para deixá-los completamente letárgicos instantes depois. Um gemido longo tremulou meus lábios e, quando o orgasmo fez-me apertar minha boceta em volta do seu pau, senti o corpo de estremecer junto ao meu enquanto seus urros roucos de prazer me levavam à loucura.
Com o corpo anestesiado, abri os olhos e encontrei no mesmo êxtase que eu. Seus olhos estavam semicerrados e ele tentava normalizar a respiração. Ele encostou a testa na minha e um pequeno sorriso tão sincero preencheu seus lábios que eu não tive outra escolha, se não sorrir junto.
Senti seu corpo amolecer e ele me segurou um pouco mais forte para que caíssemos no chão. Ainda em seu colo, deixei meu corpo relaxar e plantei um beijo em seus lábios antes de me aninhar em seu peito e escutar as batidas descompassadas de seu coração.
Tentei não pensar em nada. Eu não sabia onde aquilo ia dar, mas podia me assegurar que não machucaria ele; não mais uma vez. Era a primeira vez que eu transava com alguém por quem eu tinha algum tipo de sentimento e a sensação era nada mais do que etérea.
E talvez eu pudesse me acostumar com isso.




A sexta-feira de manhã chegou como um sopro de felicidade. Eu ainda não sabia como raciocinar tudo o que havia acontecido entre mim e .
Talvez Gatsby estivesse certo; era mesmo possível repetir o passado e, da segunda vez, fazer as coisas do jeito certo.
Eu ainda não sabia onde aquilo iria dar e, conhecendo , não seria nada fácil. Mas ela também havia me ensinado que, vez ou outra, o certo a se fazer era apenas viver o momento.
Eu havia acordado cedo. Cedo o suficiente para andar até a cafeteria da esquina de casa e comprar um café para acordar ela. Quando voltei para casa, fui recebido pelas notas de um violão soando pelo apartamento. Quando pensei que seria tocando, percebi que o som vinha do meu quarto e quase gritei para que ele saísse de lá. Eu havia o encontrado diversas vezes com algumas garotas por ali; ele sempre dizia que meu quarto impressionava por ser mais arrumado e ele sempre usava o violão para conquistá-las.
Bom, eu não podia culpá-lo. O lance de ter uma banda realmente ajudava.
No entanto, quando abri a porta do meu quarto, prestes a expulsá-lo de lá, quase derrubei os dois copos térmicos de café no chão.
Não era . Uma outra estava sentada em minha cama, vestindo uma de minhas camisetas e com meu violão no colo, linda como sempre ao sorrir para mim enquanto dedilhava as notas da música que eu havia escrito para ela.
E, pelo seu olhar, ela sabia disso.
Senti meu coração dar cinco voltas completas em meu peito, apenas para depois bater no ritmo das sílabas do seu nome.
Realmente, havia algo sobre aquela garota…
Não me importei de deixar o mais e mais bobo sorriso do universo tomar meu rosto.
Caralho. Eu estava mesmo ferrado.
E o último detalhe? Ela tocava ainda melhor que eu.


Fim



Nota da autora: Alguém em belisca que eu devo estar sonhando. Eu tô mesmo escrevendo um ficstape de uma música nova do McFly em pleno 2020?
Something About You é minha música preferida das Lost Songs, justamente porque me lembra o McFLY lá de 2006, com as músicas do Motion in the Ocean. Então simplesmente não tinha como não escrever um clichêzinho à lá fanfics antigas dos meninos, né? Hahahaha
Espero que tenham gostado da leitura e se apaixonado por esses pps tanto quanto eu! <3
Um beijo e nos vemos em outras histórias!

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Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.


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