Última atualização: 15/01/2018

Capítulo Único

01 de dezembro de 2018

O vento frio balançava as folhas das árvores do lado de fora, isso ganhara minha atenção me fazendo observar atentamente as folhas caindo. Bebia meu vinho ainda atento àquelas folhas, quando a voz doce de minha mulher me chamou e senti seus braços entrelaçarem meu corpo, logo me virei devagar vendo um sorriso brotar em seu rosto. — Amor, Sofie está inquieta, disse que se você não for até lá não irá dormir de modo algum, está lhe esperando para que possa contar a nossa história – Sorri ao ouvir – Ela nunca se cansa de ouvir, mesmo sabendo tudo do começo ao fim.
— Puxou você todinha – revirou os olhos, mas ainda sorrindo.
— Vamos – minha bela esposa disse e eu apenas lhe segui pelo pequeno corredor que levava até o quarto de nossa filha.
— Até que enfim chegaram, pensei que não iriam contar mais a história – Disse minha filha fazendo um biquinho fofo, abraçada ao urso ao qual nomeou de Lizzie.
— Dê um espaço para o papai e a mamãe se sentarem, sua sapeca – Sofie deu uma risadinha gostosa, me sentei na cama para poder iniciar a história.
— Começa logo, papai – Falou minha garotinha impaciente.
— Tudo bem, apressadinha.

[...]

1989 (E.U.A)

02 de outubro de 1989, mais um dia comum e tedioso, como todos os outros nesse novo país. Bem, pelo menos para mim. Naquela segunda-feira eu completei meus 16 anos, que era algo que eu não me importava muito, afinal, era só uma data insignificante que significava mais um ano de vida. Meus pais resolveram fazer uma pequena comemoração nesta noite, segundo eles eu estava me tornando um homem de responsabilidades, dei de ombros enquanto assistia ao jogo de beisebol.
— Apesar da pequena bagunça, ainda consigo encontrar minhas cervejas no cooler – disse papai se sentando em sua poltrona almofadada e já gasta, com sua atenção voltada ao jogo. — Está quanto, filho?
— 1x2.
Bem, vou tentar explicar minha vida em pequenos resumos, meus pais e eu nos mudamos para os Estados Unidos há duas semanas por conta de uma proposta de emprego oferecido pelo chefe de meu pai, proposta essa que ele aceitou rapidamente sem ao menos nos perguntar se queríamos ou não vir com ele, somente nos avisou e tivemos que arrumar nossas malas o mais rápido possível e empacotar os objetos da casa. E olha aonde viemos parar, em um lugar estranho, sem nenhum amigo e com uma "pequena bagunça" espalhada pela casa inteira. Assim que o jogo finalizou com o time rival ganhando do nosso time, subi as escadas. Adentrando em meu mais novo quarto, peguei algumas fitas e coloquei no rádio para tocar enquanto arrumava minha mochila para meu primeiro dia de aula em uma escola americana. Só depois de uma semana inteira arrumando a casa e tentando se adaptar a tudo, é que meus pais conseguiram me matricular em uma escola. Escola nova, pessoas novas e cidade nova me deixavam um pouco irritado, pois sempre gostei da minha velha escola, dos meus velhos amigos e de minha cidade natal, não que lá fosse melhor do que aqui. Ao anoitecer meus pais compraram um bolinho para comemorarmos meu aniversário. Mamãe adorava tirar fotos minhas quando estava distraído e eu odiava esse seu ato... Enquanto eles achavam tudo lindo, eu achava mórbido ter apenas os meus pais cantando parabéns para mim.



O despertador tocava de um modo estrondoso, como se estivesse me avisando que haveria um grande terremoto e que eu deveria sair correndo. Bom, fica a seu critério se foi ou não um exagero. Após desliga-lo, tratei de me arrumar, fazendo minhas higienes e pondo meu uniforme escolar – que na minha humilde opinião era horroroso – passando apenas um gloss para finalizar. Minhas amigas sempre me diziam "Em plena década de 90, no augi de seus 16 anos, não gosta de passar batom?!" e uma sempre saia "ferida" com respostas dignas a altura. Minha mãe me aconselhava a não segui-las cegamente, que eu poderia usar o que me fizesse sentir bem e a curtir minha juventude com responsabilidade. Desci as escadas e segui os murmurinhos vindos da cozinha com minha mochila nas costas.
— Bom dia, família – Disse servindo um pouco de suco de laranja ao me aproximar da mesa onde minha mãe e meu irmão estavam.
— Bom dia, querida, fiz panquecas.
— Uh, hoje a senhora está inspirada – Mamãe riu e pôs as panquecas caramelizadas na mesa.
— Mais cedo ela estava dançando ao som de Cyndi Lauper – Meu irmão mais novo disse.
— Não posso nem ficar animada que meus filhos zombam de mim. Oh, Deus, o que eu fiz para merecer filhos assim? – Sorri por conta de seu teatro.
— Pena que eu não vou poder ficar para ver sua animação, mãe – Falei acabando o suco e pegando uma panqueca para comer no caminho – Preciso ir, senão vou chegar atrasada.
— Tenha uma boa aula, não fale com estranhos e não use drogas – Ela falou, como sempre.
Segui de carro até a escola, como de costume. Achei que seria mais um dia normal, mal sabia o que me esperava, ou melhor, que encontraria um garoto que mudaria minha vida inteira.
Como de costume, encontrei minhas amigas ao chegar e conversamos até a campainha soar, quando fui para a aula de inglês. Tudo normal, até que no meio do tempo o abrir da porta sem nenhuma batida antecipada roubou a atenção de todos. Lá estava ele... Não sei qual foi minha reação, mas aposto que fiquei boquiaberta ao vê-lo entrar com seu jeito bad boy, parecendo o John Bender.



Ouvi minha mãe abrir a cortina de meu quarto, fazendo o sol bater em meu rosto. Ela resmungava algo como "Você não irá passar de ano se continuar dormindo". Bufei quando finamente decidi levantar. Ao ficar pronto, me olhei no espelho decepcionado com meu novo "visual".
— Uau, você está magnífico – Disse para mim mesmo.
Desci as escadas indo direto para a cozinha, onde encontrei mamãe preparando o café da manhã.
— Bom dia, preguiçoso – Disse ao me notar.
— Bom dia – Respondi sem animo, colocando café em minha xícara.
— Você está atrasado, não demore que hoje eu vou levá-lo.
— Até ontem eu era um homem de responsabilidade e logo de manhã já não sou mais?
— Se você não se atrasasse e fosse responsável, poderíamos levá-lo a sério e confiar em você.
— Realmente a senhora me magoou – Falei colocando a mão no peito, fingindo estar magoado antes de pôr minha louça na pia – Enfim, vamos? – Indago pegando minha mochila e indo em direção à porta.
— Claro – Respondeu pegando as chaves – Ah, seu pai já começou a trabalhar, saiu hoje cedinho e só irá voltar de noite.
— Nossa, que notícia ótima – Ironizei.
— Garoto, você pare de ser irônico em tudo – Mamãe disse elevando a voz, mas até que era divertido fazer isso com ela.
— Desculpe – Revirei os olhos e, em troca disso, levei um beliscão – Aí!
— Isso é para aprender a me respeitar! – E assim eu não abri a minha boca para mais nada no caminho para a escola. Não queria arrisca levar uma surra de minha mãe.
Ao chegarmos à sala da diretora, minha mãe explicou o motivo de meu atraso e ela me deu uma breve advertência por conta disso, junto a um papel para permitir minha entrada tardia na sala de aula. Então saí e procurei a sala do primeiro tempo sem pressa, pois não estava nada animado. Ao achá-la, pedi licença ao professor só pelo fato de ter esgotado a quantidade de sermões do dia, mas meu esforço para ser educado não o impediu que me olhasse sério ao entrar, mas dei de ombros.
— Chegar atrasado no primeiro dia de aula não me dá uma boa impressão sobre você – O professor me disse quando entreguei a autorização – Da próxima vez, bata na porta ou ficará do lado de fora. Mas, enfim, se apresente aos seus colegas de classe – Ele finalizou ficando ao meu lado.
— Meu nome é , completei 16 anos ontem, sou brasileiro e me mudei pra cá faz uns 10 dias... É isso – Disse enquanto olhava para a sala.
Eles todos pareciam meio chatos, os uniformes com certeza ajudava com isso. De cara percebi que algumas meninas olhavam e cochichavam sobre mim, enquanto outros mal esperavam que eu fechasse a boca – com certeza eu estaria da mesma forma se estivesse no lugar deles –, mas tinha uma menina peculiar sentada em uma cadeira mais à frente. Ela me olhava de um jeito diferente das outras, parecia curiosa, com sua boca entreaberta e um lápis apoiado nos lábios, além de um brilho único nos olhos. Não fiquei olhando-a por tempo demais, apenas acabei de falar e escolhi uma mesa para fazer a tarefa que tinha sido passada.
Enquanto eu estava fazendo a lição, ouvi um dos rapazes falar sobre o time de futebol americano e que precisavam de alguém para entrar nele, pois um tal de Henry havia se mudado. Isso me interessava, então decidi que iria tentar. Duas aulas e trocas de salas depois, finalmente o intervalo havia chego e eu pude ir até a diretoria, bati na porta e imediatamente ouvi ela me dizer para entrar.
— Olá, senhor , sente-se – A diretora indicou a cadeira à sua frente – O que deseja?
— Bem, eu queria saber como posso entrar para o time de futebol da escola.
— Bom, no início do semestre acontecem testes para a seleção de novos jogadores, mas como você os perdeu, a única forma para entrar é com a indicação dos veteranos. Fale com os garotos do time, eles treinam todos os dias depois das aulas.
— Tudo bem, obrigado – Me levantei, saindo da sala da diretora, ouvindo-a dizer um "boa sorte" antes de bater a porta.
No final do dia, fui ao campo de futebol e encontrei alguns jogadores se aquecendo. No caminho para eles, passei por algumas líderes de torcida que também estavam treinando.
— Ei – Falei para o cara que se encontrava no centro da roda, pois parecia ser o capitão – Eu sou novo por aqui e queria saber como faço para entrar no time!
— Você já falou com a diretora? – Ele perguntou com um ar de superioridade.
— Sim, ela me disse para falar com vocês.
— OK, você tem sorte, calouro, pois estamos com uma vaga, mas para consegui-la terá que atender a duas exigências – Seu ar intimidador não me fez hesitar.
— É só falar.
— Primeiro: terá que ser talentoso, pois não admitimos perdedores nesse time.
— Essa é fácil – respondi sorrindo.
— Segundo: terá que nos convencer que merece andar conosco.
— E como faço isso?
— Como você perdeu a primeira semana de aula, também perdeu o ritual de trote dos calouros, então seu desafio não será nada leve. Você terá que ganhar uma aposta – Os outros ao redor olhavam animados, assim como eu.
— E qual será essa aposta? – Indaguei ansioso. Ele olhou para os lados como se procurasse por algo, até parar e sorrir ao achar.
— Está vendo aquela garota ali? – Disse apontando para uma das lideres de torcida, que eu reconheci imediatamente como a bonitinha da aula de inglês – Você terá que conquistá-la, temos que ver vocês se beijando como prova, caso contrário não poderá entrar para o time.
— Tudo bem, em menos de duas semanas eu estarei no time.
— Antes disso você terá que passar pelo estágio um, então vá se trocar que nós veremos se você aguenta um treino. A propósito, meu nome é Frank – ele estendeu a mão para mim.
– Falei ao apertá-la.
Estava determinado a entrar no time, estando assim disposto a conquistar aquela garota ou eu não me chamo .

Quarta-feira

Adentrei na sala de aula e dessa vez na hora certa. A matéria do primeiro tempo da manhã seria química, umas das matérias que eu odeio mais que matemática e não consigo imaginar por que ainda consigo ir bem nela. Sentei-me em uma das cadeiras vagas, ao lado de uma garota muito bonita. Talvez a coincidência de o lugar ao lado dela estar vazio fosse um sinal de que a sorte estava ao meu favor.
— Posso me sentar aqui com você? – Sorri tentando soar simpático. "Ela é a pessoa ideal para a aposta, será simples e fácil então vamos agir, " pensei comigo mesmo.
— Oh, claro – Ela respondeu retribuindo o sorriso e abrindo seu caderno. Me sentei e comecei a pensar em algo para iniciar uma conversa.
— Meu nome é e eu sou novato aqui – "o clássico sempre funciona".
— Eu sei – ela respondeu ajustando o cabelo para trás da orelha, o que realçou a beleza de seu rosto.
— O sotaque entrega tanto assim?
— Também – sorriu – Além disso, eu vi a sua apresentação ontem na aula de inglês.
— Ah, verdade – Comentei, pensando no que mais poderia falar.
— Eu sou , , seja bem-vindo ao colégio.
— Obrigado.
— Então, está gostando daqui? – Ela me perguntou. O fato de puxar assunto foi um bom sinal para mim. Estava me preparando para responder quando o professor entrou na sala exigindo o silêncio de todos.
— Sim, mais tudo ainda é bastante confuso para mim – Respondi em cochicho.
— Com o tempo você vai se adaptar – Cochichou de volta.
—... Olhem para a pessoa que está ao seu lado agora, pois será seu parceiro de trabalho nesse semestre – O professor, que eu descobrir se chamar Hawkins por estar escrito na lousa, disse.
— Pelo menos acho que você poderá me ajudar com isso.
— Pode deixar – Disse sorrindo e eu soube que estava começando bem. Sorri animado, eu iria mesmo entrar para o time de futebol. Andar com os caras descolados e ser desejado por várias garotas era um sonho cada vez mais próximo. Comecei a fazer a lição que o Sr. Hawkins havia passado, claro que sempre pedindo sua ajuda, pois não podia deixá-la saber que eu estava indo bem nessa matéria e perder a chance de puxar outros assuntos para ficarmos mais próximos.
— Obrigada pela ajuda, , se não fosse por você eu estaria totalmente perdido – Falei no final da tarefa.
— Não é nada, química fica fácil depois de alguns exercícios.
— Até parece – Meu tom foi grosso, mas ela pareceu não se incomodar e riu – Sei que pode parecer meio estranho, mas eu realmente acho que não vou conseguir esse assunto sozinho, então será que poderíamos nos encontrar no final de semana para você poder continuar me ajudando a estudar? – Perguntei guardando o material, mas ainda assim com uma atenção voltada a ela.
— Pode ser – respondeu começando a arrumar seu material – Vou te passar o número do telefone da minha casa, assim combinamos melhor depois, ok? – Anotou em um papel e me dando.
— Pode deixar.
— Espero sua ligação, . – Ela sorriu e se dirigiu para fora da sala. Fui animado falar com os caras do time e contei meu progresso, eles começaram a tirar sarro e dizer várias coisas. Mais um pouco e eu conseguiria ganhar aquela aposta e iria entrar para o time. A semana passou rápida e nos falamos poucas vezes durante as aulas ou troca de tempos, mas sempre trocávamos olhares. No sábado acordei cedo, até eu fiquei surpreso com o horário que havia acordado, desci as escadas com o papel que havia me dado com seu número. Ao discar ouvi uma voz masculina atender. "Droga, só falta ela ter namorado".
— Hã... aqui é um amigo da , , posso falar com ela?
— Só um minuto que vou chamá-la – O garoto respondeu e eu resolvi esperar. Ao ouvir a voz de fiquei mais aliviado, e mais ainda depois de um pouco de conversa, pois descobri que o cara com quem falei era somente seu irmão mais velho.
— Eu estou livre hoje, se você quiser estudar.
— Ótimo! Pode ser às 14 horas?
— Às 14 horas está ótimo. Por favor, não esqueça o seu material e eu também vou precisar que você me diga os assuntos que estudou no Brasil – Seu sotaque ao falar do Brasil era um pouco cômico.
— Pode deixar comigo. Te encontro na lanchonete perto da escola então?
— Sim. Até mais tarde, .
— Até, .
O plano estava indo bem, mais um pouco e daria tudo certo e eu entraria para o time. Confesso que estava um pouco impaciente, decidi então assistir TV com meu pai, para apenas depois tomar um banho demorado e relaxar meu corpo. Me vesti com uma camiseta com estampas e calça jeans, arrumei meu cabelo e peguei uma bala de hortelã que estava sobre a escrivaninha. Desci vendo que meu pai ainda permanecia na sala e mamãe na cozinha fazendo algo que não pude identificar, mesmo vendo que ele estava entretido com um jogo eu resolvi pedir que me deixasse, o que ele não relutou em fazer tanto por saber que havia uma garota envolvida, quanto por seu time estar perdendo novamente. Ao chegar, percebi que tinha sido o primeiro a chegar, mesmo eu não tentando ser pontual. Decidi esperá-la, me sentei em uma das mesas vazias mais ao canto e olhei para o relógio que estava pendurado em uma das paredes da lanchonete. Já eram 14:30 e ela não havia aparecido. Estava quase certo de que não apareceria, porém depois de algum tempo a vi entrando na lanchonete e vindo em minha direção. Ela usava um vestido soltinho de flores e devo confessar que sem aquele uniforme horroroso ficava ainda mais bonita.
— Olá, me desculpe a demora, tive um pequeno imprevisto – Disse se sentando a minha frente — Vamos começar? – Perguntou com um sorriso simpático em seu rosto que quase me fez esquecer a espera.
— Claro, mas vamos pedir algo antes – Disse e ela assentiu, chamei o garçom que logo veio em nossa direção com seu bloquinho de notas. Pedimos um refrigerante, que o rapaz entregou rapidamente, e abrimos nossos cadernos. explicou tudo com tanta clareza, melhor do que os professores de nossa classe, e por incrível que pareça eu estava entendendo os detalhes novos com tanta facilidade quanto os que eu já conhecia. — Já pensou em se tornar professora, ?
— É o que eu pretendo fazer. Adoro dar aula para crianças – Ela sorriu e eu achei que fosse uma piada relacionada a mim.
— Há, há, muito engraçado.
— Não estou brincando – Disse num tom sério.
— Oh... me desculpe, achei que estava – Falei sem graça.
— Tudo bem.
Após horas estudando e alguns refrigerantes depois, nós havíamos terminado de revisar química e mais algumas matérias que eram muito diferentes da do Brasil, como inglês e história. Então pudemos descontrair e conversar sobre assuntos que não cairiam em nenhuma prova: eu lhe ensinei umas palavras em português, pois a mesma dizia estar muita curiosa para aprender algumas e me encheu de perguntas sobre como era o Brasil, perguntou também de nossos costumes por lá e ficou chocada quando lhe disse que não sabia dirigir porque no Brasil só era permitido com 18 anos, assim como beber. Era cômico o modo como ela tentava pronunciar as palavras ou ria de cada fato que achava estranho, assim como eu ao ouvir as coisas que ainda não sabia sobre a América.
— Quer dizer que vai ter um baile daqui a uma semana? – Perguntei após ela comentar sobre.
— Sim, o Homecoming – respondeu, mas continuei com uma expressão de confuso – É um baile de boas-vindas aos alunos, que acontece em todo início de ano letivo.
— Ah... – Seria a oportunidade perfeita pra concluir a aposta – E você já tem par?
— Bem... Eu e minhas amigas combinamos de ir todas juntas, então posso dizer que sim.
— Ah, que pena, eu adoraria te chamar para ser meu par – Fiz meu melhor olhar de cachorro pidão – É que você é a única garota que eu conheço na escola e acho que não me sentiria bem indo sozinho ao meu primeiro baile.
Com toda essa jogada sentimental, ela seria uma sem coração se me negasse, mas mesmo todo o meu charme de coitadinho não a faz ter uma resposta imediata. Ela olhou para mim e depois ao redor, ponderando sobre o assunto.
— Vou falar com minhas amigas, acho que elas podem abrir uma exceção pra mim dessa vez.
— Ah, seria um grande favor para mim.
— Tudo bem, é o seu primeiro baile – Ela sorriu e eu pude ver seus olhos brilharem – Ligo pra sua casa depois para confirmarmos.
— Ótimo – Olhei para o relógio e percebi que estava na hora de ir – Gostei de ter estudado com você, , já pode substituir os professores – Sorri.
— Também gostei de ter aprendido algumas palavras em português.
— Até segunda então – Falei deixando-a em seu carro.
— Até – disse beijando minha bochecha, o que surpreendentemente eu gostei, e entrando no carro. Apesar de eu estar fazendo isso para entrar no time, sou um cavalheiro, meus pais me ensinaram isso desde pequeno mesmo que eu não estivesse seguindo ao pé da letra, bati a porta do carro para ela e a esperei ir embora para finalmente chamar meu pai.



A semana pareceu demorar meses e ao mesmo tempo segundos pra passar. De repente o vestido que eu havia comprado para ir com minhas amigas não parecia mais tão bom para ir com um garoto, mesmo que ele fosse o brasileiro novato, então uma saga para encontrar um novo vestido começou. Tive sorte que minha amigas, além de me entenderem e deixarem que eu as trocasse pelo novato, me ajudaram a comprar o vestido. Um lindo e leve vestido rosa. me ligou todos os dias após eu confirmar que iria com ele para o baile, era sempre depois da aula e conversávamos por um bom tempo. Às vezes era só sobre a tarefa de casa que era muito diferente das que passavam no Brasil, mas outras eram sobre assuntos diversos: consumes americanos, receitas que ele nem sabia que existiam e até falei sobre uma das brigas dos meus pais. Fazia tão pouco tempo que eu o conhecia, mas mesmo assim me senti confortável, como se o conhecesse há anos. O mais engraçado de tudo é que como no Brasil a idade mínima para tirar a carteira de habilitação é diferente, uns dois ou três anos a mais, fui eu quem teve que buscá-lo em casa para irmos ao baile. Era isso ou um dos pais dele teria que nos levar, e essa opção parecia mais desconfortável ainda. Quando cheguei, me esperava sentado em um banco na frente de sua casa. Eu saí do carro e ele se pôs de pé a me ver.
— Legal, você é pontual – Falei ao me aproximar. Não foi a melhor das falas, mas foi o que eu consegui formular no momento. Era tudo muito novo e minhas pernas tremiam por isso.
— Achei que seria um absurdo fazê-la esperar – Olhou para mim por inteiro – Wow, você está linda.
— Obrigada – Agradeci meio tímida – Você também não está nada mal para o seu primeiro baile. — Eu me esforcei – ele sorriu e vê-lo assim só fez minhas pernas ficarem mais fracas.
– E também não esqueci disso – então revelou a caixa que estava em suas costas. Era uma flor de pulso – Tradição é tradição.
Eu havia contado para ele sobre nosso costume americano onde os garotos dão uma pulseira com uma flor para as suas acompanhantes de baile em uma de nossas ligações e fiquei aliviada por ele ter lembrado. Logo ele a tirou da caixa e começou a pôr no meu braço.
— Não sabia qual seria a cor de seu vestido, então comprei essa branca. Pelo menos o laço rosa combina com ele – falou ao terminar de colocá-la.
— Essa é perfeita – E lá estava o sorriso dele de novo, me deixando mais bamba – Bem, vamos? Você não quer chegar atrasado no seu primeiro baile, quer?
— Não, principalmente por ter você como companhia.
Eu não conseguia acreditar em como ele era gentil e doce com suas palavras, porém isso é porque eu não sabia suas verdadeiras intenções. Em menos de 10 minutos estávamos na escola. Um dos benefícios de se morar numa cidade pequena com poucos carros é a ausência de trânsito. Logo na entrada tiramos uma foto, eu o expliquei que ele poderia pedi-la depois no clube do anuário. Foi a primeira vez que eu o apresentei para as minhas amigas e ele me apresentou para os dele, mesmo que não precisasse, já que eram todos do time de futebol. Eu diria que o baile estava igual aos outros, em relação à decoração, comida e estilo musical, mas aquele brasileiro fez muita diferença nesta noite, pelo menos para mim. O jeito dele de dançar era diferente, mais solto e mais divertido, e ele fazia questão de me envolver em sua dança. Por volta das 22h a primeira música lenta tocou e de cara isso me deixou sem jeito, ao contrário de que abriu um largo e receptivo sorriso enquanto se aproximava de mim e envolvia minha cintura em suas mãos. Eu não relutei, apenas entrelacei meus braços ao redor de seu pescoço, me certificando de deixar um bom espaço entre nós para que minha pele não ficasse mais ruborizada do que eu já sentia que estava.
— Obrigado, me disse olhando em meus olhos.
— Pelo quê?
— Por ter me recebido tão bem, por ter sido gentil e amigável, por ter me ajudado a estudar química e por aceitar vir comigo essa noite.
— Não foi nada – Disse seguindo o ritmo lendo da música e me sentindo cada vez mais confortável.
— Eu realmente não sou expert no assunto cultura americana, mas não deveriam coroar um rei e rainha do baile?
— Não – respondi rindo de leve de sua ingenuidade – No Homecoming nós não fazemos isso, já que é um baile de boas vindas, normalmente fazemos no Prom, que é o baile de formatura do High School, e no baile de inverno.
— Ah, ok, mas eu votaria em você.
— Para de besteira – Respondi colocando minha cabeça apoiada em seu peito para que ele não visse o quão vermelho meu rosto estava.
— Estou falando sério! Não só porque você é a única garota com a qual eu converso no colégio, mas sim porque eu não preciso conhecer as outras para saber que você é a melhor entre todas – Me afastei para olhar em seu rosto e tentar desvendar se ele falava sério – Além disso, a rainha deve ser a garota mais bonita da noite e essa eu posso afirmar que é você.
Em seguida, ele se aproximou lentamente de meu rosto e eu não recusei pois queria o mesmo. Quando nossos lábios se tocaram eu senti a tremedeira voltar muito mais forte do que antes, mas não tive medo, pois estava lá, me segurando pela cintura, e eu soube que não cairia por nada. Foi um beijo leve e curto, mas suficiente para acender uma chama em meu peito que me fez sentir mais viva do que nunca.
— Espero não ter passado dos limites – Seu olhar parecia preocupado.
— Não, está tudo bem – Sorri e encostei a cabeça em seu peito novamente – Você foi perfeito.
Então ficamos balançando de um lado para o outro até aquela música acabar, parecendo que existia apenas nós dois no salão. Quando a música acabou falei que precisava ir ao banheiro e ele disse que tudo bem, que iria ficar com os seus amigos enquanto eu não voltasse. Ao sair de seu campo de visão, eu procurei minha melhor amiga o mais rápido que pude e a puxei para um canto da quadra. Contei tudo o que ele havia me dito e tudo que havia acontecido, fiquei extasiada.
—... Não acredito que ele possa ser tão maravilhoso.
— Você merece, .
— Meu Deus, preciso voltar antes que ele pense que estou tendo uma dor de barriga.
— Tudo bem, vai lá – Me abraçou – Boa sorte.
— Obrigada.
Então eu voltei às pressas ao meu par, mas ao chegar percebi que ele não esta mais lá. Procurei ao redor e percebi que ele estava na mesa de comidas, se servido de ponche ao lado de Frank, arrumei a saia de meu vestido e fui na direção deles com um sorriso no rosto, mas parei ao perceber que conversavam.
— Vou avisar para os outros que temos um novo jogador – Frank disse. Eu sorri mais largamente pela sua conquista e ia me aproximar para parabenizá-lo, mas parei ao ouvir o que disse.
— Eu disse que ganharia essa aposta em menos de duas semanas.
"Aposta? Que aposta?!" foi o que pensei no mesmo instante e, mesmo que meus pais tenham me ensinado que é falta de educação escutar a conversa alheia, me pus a escutar sem fazer nenhum barulho.
— Pensei que escolhendo a as coisas ficariam mais difíceis pra você – Frank falou e eu percebi que a aposta me envolvia. – Ela sempre teve fama de querer as coisas do jeito dela e tentar controlar tudo, achei que perceberia um cara se aproveitando dela.
— Conquistá-la foi muito simples e o melhor é que ela não desconfia de nada – sorriu vitorioso no final e isso transformou qualquer mágoa que senti em raiva. Não precisava ouvir mais nada, pois eu entendi tudo que estava acontecendo naquele exato momento e não ficaria calada para isso.
— Eu realmente não desconfiava de nada, – Disse surpreendendo os dois – Porque eu escolhi confiar e ser gentil com o estrangeiro com quem ninguém falava, mas tudo bem. Se seu objetivo era ganhar essa aposta, eu fico feliz por você e mais ainda pela minha descoberta, assim tenho menos um babaca na minha vida.
, eu... – Ele começou a falar, mas não lhe dei a chance de terminar.
— Não precisa falar nada, , eu acho melhor você poupar suas energias já que vai voltar a pé para sua casa.
Sua expressão era confusa, diferente da minha que deixava clara quão enfurecida estava. Dei minhas costas aos dois e fui embora dali. não foi atrás de mim e eu realmente não queria que ele fizesse isso. Ao dar a partida no carro prometi a mim mesma que só choraria por essa noite, pois depois disso seria como se eu nunca tivesse o conhecido.



O final de semana passou e não nos falamos nem uma vez. Era estranho olhar para o telefone e não vê-lo tocar.
Na segunda-feira de manhã, eu e Frank fomos até a sala do treinador, pois ele era o único que poderia confirmar a minha adesão ao time. Foram minutos agonizantes, onde eu imaginava que talvez todo o meu esforço – e até minha perda – poderia ter sido em vão, mas no final das contas ele me disse que estava dentro. O estranho, no final das contas, foi que a primeira pessoa pra qual eu tive vontade de contar era justamente a única que não tinha vontade alguma de olhar na minha cara, muito menos para comemorar comigo.
não falava comigo durante as aulas e nem olhava para mim durante o almoço ou quando nos cruzávamos pelos corredores. No fundo eu preferia olhares zangados e xingamentos, pois saber que me odiava era melhor do que ter sua total indiferença.
Quanto mais os dias passavam, mais eu me arrependia do que tinha feito e mais sentia a sua falta.Tinha feito novos amigos, os caras do time, no entanto eles não a substituíam e nem as nossas conversas.
E assim se passaram as duas semanas seguintes, até que o meu primeiro jogo chegou e lá estava ela, torcendo pelo time todo. Mentalmente eu mentia para mim mesmo achando que um pouco daquele ânimo era pra mim e quando a partida acabou, comigo fazendo um touchdown, eu fui até ela, pois todos estavam comemorando e me parabenizando por ter garantido a vitória, mas seu olhar continuava frio.
— Então... – disse ao me aproximar, esperando alguma parabenização.
— Então o quê? O que você quer, ? – Toda sua animação havia sumido.
— Um parabéns, talvez?
— Você tem muita cara de pau pra vir falar comigo – Sua expressão era de indignação – O time está de parabéns, já você não fez mais do que a sua obrigação, afinal, não se dedicou tanto pra entrar nele?!
E em seguida ela saiu. Achei que depois de duas semanas e uma vitória para a escola, teria deixado sua mágoa de lado, mas pelo visto aquilo não era suficiente.
Eu tentei ligar para ela na mesma noite, mas no segundo em que ouviu minha voz, desligou. Não liguei de novo, pois era orgulhoso demais para isso e só para fazer a primeira ligação tive que passar horas encarando o telefone pra ter coragem.
Lembro-me de pensar: tudo bem, na segundo eu tendo falar com ela de novo, nada demais. E na segunda mandei um bilhete durante a aula perguntando se ela poderia me encontrar na saída, mas, ao invés de responder, preferiu levantar no meio da classe para jogá-lo no lixo. Mesmo sem resposta, eu a esperei em seu carro depois da aula, encostado na porta do motorista, achando que tinha uma ótima desculpa para isso.
— Saí – Foi só o que ela disse ao me ver.
— Eu mandei um bilhete pra você, mas você não respondeu. Então eu vim aqui saber a resposta – Disse sem me mover um centímetro e a vi revirar os olhos imediatamente.
— Será que ainda não ficou claro que a resposta é não?!
— Bem, agora ficou – Respondi sem sair do lugar.
— Então por que será que você ainda está no meu caminho?!
— É porque eu realmente acho que temos que conversar.
, eu não quero falar com você, não quero ver você e nem ao menos ouvir a sua voz, então eu acho melhor você sair do meu caminho, senão eu vou gritar e dizer que você estava me assediando – Sua expressão era séria, a mesma de quando estava sendo mandona, e eu sobe que ela era realmente capaz de fazer isso – Sabe o que fazem com alunos estrangeiros que assediam outras alunas?
Me dando por vencido, no momento, desencostei do carro e a vir entrar e ir embora. A menina que me recebeu nesse país e me explicou tantas coisas das quais não fazia ideia era boa, não tinha dúvidas disso, e perceber que havia mudado por minha causa me fez sentir ainda pior.
Na terça-feira a história se repetiu. Eu mandei um bilhete para ela no primeiro tempo de aula, mas dessa vez ele não só perguntava se podíamos conversar depois da aula, como também vinha com um "Me desculpe pelo baile" antes da pergunta, o que não adiantou já que o destino do segundo bilhete foi igual o do primeiro. Pelo menos poderia usar a mesma desculpa de antes.

— Não, a resposta é não – disse enquanto se aproximava do carro. Nem pude usar a minha desculpa para alongar a conversa.
— Eu falei sério, não deveria ter feito aquilo com você – Foi o máximo de orgulho que consegui engolir de primeira.
— Todos os brasileiro são burros ou você é um caso especial de burrice? – Seu olhar permanecia frígido.
Sua indiferença doía mais do que seu ódio por mim, pois o ódio significava que ela ainda sentia algo por mim, mas a sua indiferença me matava por eu não merecer nem o pior de seus sentimentos.
— Será que você não pode deixar essa sua mágoa de lado e tentar conversar comigo civilizadamente?
Então arregalou os olhos e ergueu suas sobrancelhas, tinha um pouco de ódio ali, então respirou fundo e voltou com a sua frigidez.
— Cinco – foi apenas o que disse, o que me deu certa esperança.
— Cinco minutos para conversarmos? – Perguntei me aproximando, no entanto a vi recuar um passo para trás em resposta a isso.
— Cinco segundos é a quantidade de tempo que você tem pra sair do meu caminho ou eu vou gritar – Abaixei a cabeça e pus minha mão no rosto por frustração – Cinco... Quatro... Três... Dois...
Então eu saí antes que ela pudesse dizer "um". entrou no carro, deu a partida e olhou para mim uma última vez antes ir embora.
Mesmo assim, lá estava eu, quarta-feira animado por ter aula de química e também por ter um plano diferente. Era o primeiro tempo, cheguei sem dizer nada e sem olhar para , como se fosse deixá-la em paz, e sentei na mesma bancada que ela, afinal ainda éramos uma dupla, pois o professor negou seu pedido de mudança. Esperei a campainha bater e o Sr. Hawkins começar sua aula para pôr meu plano em ação. Talvez comigo ao seu lado e com uma coisa diferente, não tivesse coragem de jogar meu pedido no lixo.
Silenciosamente eu abri minha bolsa e tirei a caixinha da confeitaria que tinha comprado no dia anterior, pus em cima da mesa com a tampa entreaberta e empurrei para a sua frente sem desviar o olhar da explicação do professor. ainda empurrou de volta, mas eu insisti e devolvi. Então ela finalmente abriu e se deparou com um cupcake red velvet – pois eu lembrava que não tinha no Brasil e era seu sabor preferido – escrito "Sorry" na cobertura. Sua expressão era de curiosidade. Ela puxou a caixa para si e por um momento eu pensei que fosse jogar fora como os bilhetes, mas ao invés disso tirou o cupcake da caixa como se fosse comê-lo e eu pensei que estaria aceitando minha oferta de paz, só que ela tinha outra intenção. Ao invés de comer o cupcake ou jogá-lo no lixo, se virou para mim e o enfiou na minha cara bem na direção de meu nariz.
No mesmo minuto pude notar que nossos colegas, um a um, começaram a olhar e cochichar sobre. Não demorou muito para que até o professor notasse o que tinha acontecido, pelo menos em parte.
— Sr. , posso saber por que sua cara está suja de cobertura? – Ele perguntou.
— Ah, Sr. Hawkins, eu disse ao que não era uma boa ideia comer na sala de aula, mas ele insistiu e quando foi morder o cupcake acabou espirrando e enfiando a cara na cobertura.
Fiquei pasmo como ela estava sendo dissimulada, tanto que colocou o bolinho na minha frente entre as minhas mão para que sua história tivesse mais credibilidade. Olhei para ela sem achar graça alguma, ao contrário de nossos colegas que riram da minha cara.
— Sr. , é proibido comer em sala de aula. Espero que tenha aprendido sua lição.
— Com certeza eu aprendi – Disse ainda olhando para e voltei-me para o professor apenas para dizer seu nome, pois todo o resto era indiretamente relacionado a – Sinto muito, Sr. Hawkins.
— Tudo bem, apenas vá se limpar.
Fiz exatamente como ele disse. Se fosse qualquer outra pessoa, com toda certeza eu pensaria numa vingança, mas aquela era a e de certa forma era culpa minha o que tinha acontecido.
No resto do dia, a vir olhar em minha direção algumas vezes. O motivo podia ser apenas por contar a história da aula de química pras suas amigas, mas falar de mim era melhor do que fingir que eu não existia.
No final das aulas fiz o mesmo que nos dois dias anteriores. Dessa vez, foi acompanhada de duas amigas e eu pude as reconhecer dos jogos: eram líderes de torcida.
— Agora estamos quites? – Falei quando elas se aproximaram.
— Nem de perto – Ela falou sorridente. Estava vitoriosa e deixou evidente.
, eu sinto muito. Sei que errei, mas me arrependo – O sorriso sumiu de seu rosto e ela engoliu em seco, criando uma expressão séria.
— Eu não vou cair no seu papinho de novo, , então vê se desencosta logo do meu carro e se manda daqui – Seu tom nunca tinha ficado não grosseiro, com certeza era por causa da presença das amigas.
...
— Cinco... – Ela me interrompeu – Quatro... Três...
Não esperei seu "dois" para sair. Apenas comecei a andar para uma direção qualquer, mas ainda pude escutar algumas gozações de suas amigas.
Aquela realmente tinha sido a pior das vezes. Fui pra casa de cabeça cheia, pensando que talvez ela não me perdoasse nunca.
No dia seguinte não teríamos aula juntos, mas foi a primeira vez que eu a vi olhando para mim sem parecer que estava falando mal de mim para suas amigas. Parecia ter olhado por curiosidade, ou por costume, e essa imagem não saiu da minha cabeça pelo resto do dia. Pouco tempo depois, quando sai de uma das minhas aulas para ir ao banheiro, vi andando sozinha e cabisbaixa em um corredor, percebi que estava chorando e meu primeiro impulso foi ir em sua direção para tentar ajudá-la, mas ao me perceber ela correu para o banheiro feminino que tinha ali perto. Esperei por um tempo, mas ela não saiu, então segui meu caminho. Agora tinha mais um motivo para não tirar da cabeça: preocupação.
Nesse dia, antes de ir para o colégio, prometi para mim mesmo que não esperaria por ela em seu carro, mas lá estava eu no final da aula, esperando-a encostado nele. Ela vinha sozinha e permanecia cabisbaixa. Seu rosto não estava com marcas de choro, mas isso não me deixou menos preocupado.
— Hoje não é um bom dia para as suas gracinhas, .
, você sabe o que eu vi. Tá tudo bem? – minha vontade era de abraçá-la, mas sabia que não tinha mais esse direito.
— Não é da sua conta – Respondeu seca – Sai logo, .
...
— Cinco... – Me interrompeu de novo.
– Para com essa mágoa, eu já disse que me arrependi, e me deixa te ajudar.
— Quatro... – Sua perna estava inquieta e ela olhava para o chão enquanto contava.
— Eu só quero ajudar.
— Três... – Insistiu.
Eu bufei e saí de sua frente. Talvez o mínimo que eu pudesse fazer naquele dia fosse dar o espaço que ela queria. Mas no dia seguinte seria diferente.
Na sexta-feira ela parecia a mesma líder de torcida sorridente e mandona que eu havia acontecido. Parecia estranho, mas era melhor do que vê-la chorando. Durante a aula de história eu mandei um bilhete para ela perguntando se poderia me encontrar depois da aula. Para minha surpresa, ela respondeu.
Um simples "OK" foi suficiente para me fazer contar os minutos para que as aulas acabassem. Mas isso era só porque eu não sabia dos seus reais planos.
Eu esperei. Como todos os dias daquela semana, eu a esperei. Dessa vez levei uma coisa comigo: um buquê de flores. Talvez ajudasse a enfeitar o discurso que tinha preparado mentalmente, ou só ajudasse a aliviar o nervosismo por ter algo para apertar enquanto ela não chegava.
Não demorou muito para que aparecesse, só que ela não estava sozinha. Pelo visto mais quatro amigas participariam da conversa, ou apenas assistiriam a tudo por diversão. Minha animação diminuiu e um branco começou a dar em partes do discurso que havia elaborado durante a madrugada.
— Então, eu estou aqui – disse ao chegar. Sua expressão era de superioridade.
— Ótimo, mas será que não poderíamos conversar a sós?
— Hum... Não – respondeu e era claro que estava querendo zoar com a minha cara – Eu e as meninas marcamos de ir para o shopping hoje, depois das aulas, e já aprendi que não vale a pena trocá-las por você.
— Tem certeza? – Ela apenas assentiu – Ok... , como eu já disse antes, eu sinto muito por...
— Desculpa, mas se for pra repetir o que você já disse na semana inteira eu prefiro ir embora logo e não perder tempo – Suas amigas riram e isso pareceu um incentivo para continuar quando ela olhou para as flores em minha mão – Own, pena que você não trouxe algo que eu pudesse usar para lambuzar sua cara novamente – Finalizou fazendo um biquinho como se estivesse extremamente triste.
, eu to falando sério! Sei que eu errei e quero me redimir, então me diz o que eu posso fazer para que você me perdoe?
— Hum, que tal plantar bananeira durante o intervalo do jogo de futebol enquanto o resto do time dança ballet ao som de Like a Virgin com um macaco batendo pratos e durante uma chuva de pirulitos?! – falou como se fosse um pedido real.
— Sério?!
— Ah, desculpa, esqueci que brasileiros são burros – Seu comentário fez com que suas amigas rissem ainda mais – Eu estou sendo irônica. Isso nunca vai rolar.
Ela parecia satisfeita com que havia dito, até orgulhosa, e seu largo sorriso junto a sua sobrancelha arqueada comprovava isso.
— Ok – Respondi olhando para o chão, tentando organizar minhas ideias – Se é assim que você quer jogar, por mim tudo bem.
Larguei as flores no chão e saí de lá sem dizer mais nada, apenas ouvindo as risadas das meninas ficarem cada fez mais longe.



A quinta-feira não tinha sido um bom dia para mim, e por isso na sexta eu decidi tomar o controle.
Mesmo que não tivesse me sentido bem emocionalmente depois das discussões entre meus pais e a presença diária de , que era uma lembrança constante da minha ilusão, eu decidi que nesse dia pareceria poderosa e deixaria meus problemas de lado. Foi assim que escolhi uma das minhas melhores roupas pra ir à escola e humilhei o brasileiro na frente das minhas amigas. Ele merecia, pelo menos era o que eu achava, mas no fundo sabia que não deveria ter feito.
O final de semana passou e não recebi nenhuma ligação sua. Na segunda-feira ele não fez questão de olhar para mim ou mandar algum bilhete, estava sempre com a cara enfiada no caderno e na hora do almoço conversava com seus amigos. Ele parecia ocupado organizando algo, parecia até em uma discussão de ideias, mas o mais estranho foi na hora da saída.
Saí da escola e olhei meu carro: não tinha ninguém encostado nele. "Talvez ele tenha se atrasado", eu pensei, então decidi enrolar no banheiro por mais dez minutos, aproveitando para dar um toque na minha aparência e saí com o nariz mais empinado que consegui, só que não adiantou, pois não tinha ninguém lá pra receber minha arrogância. Olhei em volta e nada. "Talvez ele tenha desistido" conclui antes de entrar no carro e ir embora.
E a história se repetiu na terça, na quarta, quinta e até na sexta, quando eu arranjei um pretexto entrando em seu caminho numa das vezes que ele estava com a cara enfiada num caderno, fazendo-o se esbarrar em mim. Claro que soltei um "Olha por onde anda" na tentativa de conseguir alguma atenção, mas ele se desculpou sem ao menos olhar para a minha cara.
Era estranho sentir falta de ago que antes eu rezava para me deixar em paz.
Os dias passaram e nada do comportamento de voltar a ser o que era antes de humilhá-lo. Porém tive sorte por ter uma intensiva de treinos para outro jogo que estava próximo, assim não tive muito tempo para pensar sobre.
O jogo seria em casa e por isso nossa escola estava em peso na torcida pelo nosso time: Lions. Desde que entrou no time, torcer pelos jogos era meio confuso: meu dever era incentivar o time da escola, mas a minha vontade era de que se ferrasse. Pena que não havia como ter o melhor dos dois mundos.
A disputa estava acirrada. Mesmo com uma torcida bem menor, os Tigers não pareciam querer dar uma trégua. A primeira parte do jogo estava acabada e o resultado era um belo empate de 7 pontos. Os meninos logo se retiraram do campo para recuperar as energias, era visível que estavam se dedicando ao máximo, mas nós, as líderes de torcidas, tínhamos que manter a platéia animada até que eles voltassem.
Para a surpresa de todos, entre uma de nossas coreografias do intervalo, uma música alta começou a tocar nas caixas de som e não havia uma alma entre aquelas arquibancadas que não a conhecesse: Like a virgin.
Todos estavam confusos e olhavam ao redor em busca de uma resposta. Foi quando os Lions voltaram com belos tutus rosa em volta de suas cinturas com aqueles uniformes grotescos embaixo, em seguida Tommy, o menino que vestia-se como mascote, tinha trocado sua fantasia de leão por uma de macaco – com chapéu e pratos na mão. Não tinha como ter dúvidas, era ele quem estava organizando tudo aquilo. Procurei entre os garotos de tutu, mas ele não estava entre eles. Em seguida escutei gritos mais altos e animados da plateia "Talvez ele saia do meio dela" eu pensei e me virei imediatamente para ela, só que ele não estava lá. Os gritos tinham ficado mais autos, pois quatro jogadores reservas jogavam pirulitos para todos, como se fosse uma chuva digna de Halloween. Não consegui manter minha postura de frígida, pois eu sorri. O sorriso saiu tão espontâneo e leve que nem pude contê-lo.
De repente, enquanto sorria olhando para a plateia, senti quatro de minhas amigas – as que sabiam o que estava acontecendo – puxarem meu braço e roubarem minha atenção de volta ao campo, apontando para o meio dos garotos que ainda rodopiavam nas pontas dos pés e davam saltos nada graciosos.
Lá estava ele, completamente vestido como a bailarina mais feia de toda a história, plantando bananeira, mas não apenas isso, ele andava – se é que se pode chamar de andar – em minha direção usando apenas as mãos como apoio.
Não dava para deixar de rir da sua aparência, principalmente por piorar de cabeça para baixo. Ao chegar perto, ele se pôs de pé com os pés como base e ficou em minha frente, vendo meu sorriso bobo que não consegui esconder e que o fez sorrir bobo também.
— Eu sei que não estou na melhor das minhas aparências, mas era a única forma de convencer o time inteiro a dançar ballet de tutu – então pegou minhas duas mãos e as segurou – Não tinha como arranjar um macaco de verdade, mas eu espero que sirva, pois todo o resto está exatamente como você pediu. Então, , você poderia me perdoar e me dar uma segunda chance?
Não tinha como guardar mágoas depois de tudo o que ele fez, muito menos porque eu sentia sua falta, mas eu não queria dizer que sim imediatamente.
, você terá o meu perdão se, e somente se, os Lions ganharem esse jogo – Falei, quando no fundo já tinha o perdoado.
, depois de passar dias treinando bananeira, convencendo o time a dançar ballet de tutu e de me vestir de bailarina na frente da escola toda, ganhar desses caras vai ser a coisa mais fácil do mundo.
— Então prove – Larguei suas mãos e continuei a olhar em seus olhos – Se vocês ganharem, você terá direito a um encontro.
— Então se prepare para me buscar às 20 horas – piscou com todo o seu charme antes de sair correndo.

[...]

— Naquele dia os Lions ganharam de 23 a 9 e seu pai ganhou o prometido encontro na mesma noite – Falei enquanto acariciava os cabelos de minha caçula e vendo seus olhos pesarem – Um dia depois ele me pediu em namoro para o meu pai e dois anos depois nos casamos no dia 23 de Setembro, em homenagem àquele jogo tão especial.



Ao terminarmos de contar a história para nossa pequena, eu e lhe desejamos boa noite e beijamos o topo de sua cabeça antes de sair do seu quarto.
— Ela não iria dormir mesmo, se não contássemos, eu não estava brincando – Sorri enquanto caminhávamos para nosso quarto.
— Eu tenho certeza que sim, ela puxou a sua teimosia – A parei no meio do caminho, segurando em sua cintura e olhei no fundo de seus olhos – Sabe, querida, eu nunca vou cansar de contar a nossa história à ela, pois só me faz lembrar o quanto eu te amo.
Ela sorriu e me deu um selinho. O brilho nos seus olhos ainda era o mesmo da primeira vez que a vi. Fazia meses que eu pensava em fazer essa surpresa a ela, mas não adiantava planejar, esse era o momento perfeito. Soltei sua cintura apenas para tirar a caixa que tinha em meu bolso e me ajoelhar em sua frente, revelando o anel que tinha nela.
– Você quer se casar comigo, de novo? – Ela ficou estática de surpresa.
— Mas é claro que quero – Disse finalmente, se abaixando para ficar na minha altura e me dando mais um beijo.
— Aquela aposta me trouxe coisas ruins e boas, mas ter você é o lado bom dela. Ter conhecido a pessoa que hoje se tornou minha mulher e mãe dos meus filhos foi algo magnífico e especial, mesmo que não tenha sido de um jeito muito bom e eu faria tudo de novo para tê-la aqui. Eu amo você, .
– Eu também te amo, meu marido – Ela sorriu largo mais uma vez antes de selar nossos lábios.

— Meses depois —

E lá estava a mulher da minha vida, a pessoa que amo mais do que a mim mesmo, adentrando na mesma igreja onde nos casamos há 26 anos. Sofie jogou as flores brancas pelo caminho até mim, antes de sair correndo em direção a minha mãe, toda animada para assistir a noiva caminhar até o altar.
Meu pai trazia todo emocionado, desde o nosso namoro ele a considerou como uma segunda filha. O pai de morreu em um acidente de carro, mas mesmo assim sua mãe nunca deixou sua alegria, animação e carisma de lado, o que me fazia ter orgulho de minha sogra.
Talvez tenha puxado sua força de sua mãe, uma das suas características que sempre admirei em todos esses anos, e vendo-a caminhar até mim para nos casarmos por uma segunda vez eu só tive mais certeza de que nunca deixaria de amá-la ou de achá-la bela. Os anos podiam ter lhe dado algumas rugas e fios de cabelo branco, mas eles nunca roubaram nem um pouco de sua beleza e nem diminuíram o meu amor, só o fez aumentar cada vez mais e mais.

E assim foi contada nossa história.
Às vezes, um erro que cometemos pode trazer pessoas boas para nossas vidas, para amarmos, para nos guiar e nos fazer felizes, desde que estejamos dispostos a lutar por isso... E hoje sou o homem mais feliz que existe nesse mundo, tenho uma mulher maravilhosa e uma família feliz que amo mais do que tudo, pois prometi que nunca mais magoaria a mulher que me deu tudo isso.


Fim.



Nota das autoras:

Ema Mafra: Sim!! Essa fic ficou muito amorzinho, eu sei! Acho que isso foi uma forma de compensar pela deathfic do último ficstape do Simple Plan que participei HaHa. Foi bem desafiador escrever essa estória por N motivos, mas está aí e eu espero que vocês tenham gostado <3
Só quero agradecer a Anny C. e a Mila C., porque sem elas eu realmente não teria conseguido.
Ah! E se quiser ver outras fics minhas, é só ir no grupo do Facebook.
Bjs e seja feliz!

Mila C.: Foi um desafio e tanto escrever sobre Promise, foi algo que eu não sabia ao menos se iria terminar a tempo, mas aqui estamos nós com esta beleza de história. Espero que vocês, leitores fiéis de ficstape, tenham gostado. Quero agradecer à Emanuelle que me ajudou e me deu todo apoio, obrigada Manu por não desistir de mim. Beijos de luz crianças.





Nota da beta: Awwwnnn, que coisa mais fofa 💙
Morri de ódio dele no começo porque vi que tinham dado tão certo que só poderia acabar em tragédia aquela aposta estúpida. E gostei bastante dela não ter perdoado ele fácil porque ele deu uma mancada enorme. E ele ter se esforçado horrores pra conquistar o perdão dela foi melhor ainda! Adorei a fic, meninas, parabéns! Xx-A

Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.

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