09. Vapor

Última atualização: 19/10/2017

Capítulo 1


MEUS saltos iam de encontro ao piso escuro enquanto eu caminhava por entre as pessoas, mas era impossível ouvir minhas passadas por conta da música extremamente alta. Com certa facilidade, me desviava dos presentes ao mesmo tempo em que vasculhava o local com os olhos, à procura de qualquer conhecido. Pude ouvir alguns assobios e cantadas baratas, porém, as ignorei, continuando a minha busca.
Ao perceber que não teria sucesso graças a pouca luz, soltei um suspiro derrotado e resolvi ir para um lugar com menos circulação. O pub estava cheio e para mim isso era um incomodo, pois não suportava ambientes assim. Sem ao menos olhar para os rapazes que continuavam a me cantar, segui na direção do bar mais ao fundo do local. Deixando as cerimônias de lado, sentei-me num dos bancos, pedindo uma bebida qualquer ao barman.
Enquanto esperava, batucava os dedos sobre o balcão, pensando em como seria bem melhor estar em casa, debaixo de minhas cobertas, assistindo alguma série na Netflix. Mas eu não poderia fazer nada. Não quando tinha a pior amiga do mundo que me obrigava a vir a festas mesmo contra a minha vontade. Era incrível como conseguia me convencer com seus argumentos baratos e sentimentalistas. Quando eu percebia, já estava concordando com suas ideias.
- , qual é! – abriu os braços enquanto sustentava um olhar de espanto. – Você precisa ir a essa festa!
- Já conversamos sobre isso e eu disse que não. – revirei os olhos, dando-lhe as costas e voltando ao meu trabalho. – Vá você e se divirta.
- Mas, ... – ela choramingou, parando ao meu lado. – Sabe que não é a mesma coisa sem você.
- É bom saber que sou tão especial. – debochei, continuando a arrumar as roupas nos cabides.
- , essa festa só acontece uma vez no ano. – ela insistiu. – A gravadora convida vários artistas e vai ser a nossa primeira vez no meio de tanta gente importante.
- Corrigindo, vai ser a sua primeira vez. – arrumei os cabides na arara sem deixar de falar. – Esse é o meu terceiro ano.
- Por isso mesmo! – a garota me segurou pelos ombros, obrigando-me a parar o que fazia. – Eu não conheço quase ninguém, preciso de você pra que possa me enturmar.
- Claro que não precisa. – fiz uma careta. – Os meninos vão estar lá.
- Os meninos são um zero a esquerda em questões de socialização. – dessa vez ela revirou os olhos. – Sem contar que eles vão logo atrás de um rabo de saia e aí eu vou ficar sozinha. , por favor.
- , pelo amor do Deus, será que poderia me deixar terminar essa droga? – olhei para ela já começando a ficar irritada. – Essas roupas não vão se guardar sozinhas.
- Eu posso sim. Na verdade, posso até te ajudar. – ela abriu um sorriso largo, mas que eu sabia estar cheio de segundas intenções. – Mas... só se você for comigo.
- Vai mesmo me ajudar? – semicerrei os olhos em sua direção.
- Não duvide de minha palavra. – ela me lançou uma piscadela. – E então?
- Não acredito que vou dizer isso, mas... – suspirei, me virando para ela. – Que seja.
Soltei um riso abafado ao me lembrar de como minha amiga havia ficado eufórica ao ter minha resposta positiva. Ela sabia que eu odiava festas, especialmente as que eram cheias de artistas e pessoas desse meio, entretanto, deixá-la sozinha naquela selva não seria justo. Resolvi ir e ficar pelo menos um pouco para situá-la melhor naquele mundo estranho, depois voltaria para minha casa quente e confortável.
Quando a bebida chegou, agradeci ao rapaz. Dei um pequeno gole no que descobri ser um coquetel de um sabor indecifrável, mas não me importei muito, pois era bom. Enquanto bebia, me remexi impaciente por conta daquele vestido justo e dos meus saltos. Não que eu não gostasse deles, eu amava, afinal amar roupas fazia parte do meu trabalho como personal stylist. Entretanto, eu não estava num bom dia e quando meu humor não estava bom, a última coisa que desejava era andar sobre um salto quinze. Para piorar a situação, eu não conseguia encontrar em lugar algum.
- Você me paga por isso, sua pirada. – murmurei, levando o copo à boca.
- Eu me pergunto o motivo de tanto rancor num coração tão jovem. – de repente, alguém disse ao meu lado.
Parei o movimento assim que reconheci a voz da pessoa. Seu perfume insubstituível chegou até mim e, imediatamente, meu coração se descompassou. Meus olhos correram em sua direção e lá estava ele. Com um sorriso de canto, me encarava diretamente e eu conhecia aquele olhar. Ele estava entediado e por isso puxava conversa. Tentando disfarçar o efeito que ele causou em mim, soltei um riso leve e me ajeitei no assento.
- Eu não tenho rancor no coração, só estava amaldiçoando por ter desaparecido como fumaça. – eu dizia enquanto o olhava de baixo a cima. – Pensando bem, a única coisa que me faz ter rancor é essa camisa quadriculada horrenda.
- Ah, eu adoro essa camisa. – ele fez bico, me fazendo rir.
- E isso me faz pensar seriamente em queimá-la. – balancei a cabeça negativamente. – , eu já disse pra não usá-la quando estiver num evento importante.
- Mas isso não é um evento importante. – ele deu de ombros.
- Ah, claro. – voltei a fitar meu coquetel. – É apenas uma pequena festa promovida pela gravadora que os contratou, onde você não vai encontrar ninguém importante, só os chefões do mundo da música.
- Não exagera. – ele se sentou no bando ao meu lado, ficando mais próximo ainda. – Só precisamos bater um papo com algumas pessoas e fingir estar interessados no que eles dizem. Se tivermos sorte, vamos sair daqui bêbados.
- Você não vale nada. – o fitei de soslaio.
- Mas eu sei que você gosta. – ele respondeu.
Ao perceber o duplo sentido em sua fala, o encarei diretamente, levemente surpresa. Dessa vez, sustentava um sorriso malicioso que fez meu coração falhar uma batida. Ele sabia o que causava aos meus nervos e fazia questão de me provocar. Tentando esconder o meu embaraço, soltei um pigarro e voltei a olhar para frente.
- Por acaso viu a por aí? – perguntei.
- Eu vi sim. – ele respondeu, também se virando para o balcão. – Ela estava na pista de dança com um cara.
- Sério isso? – franzi o cenho. – E eu achando que ela ia precisar de minha ajuda pra se misturar.
- A precisar de ajuda? – riu pelo nariz. – Até parece.
Em seguida, ele chamou o barman, pedindo uma dose de vodca. Eu observava seus movimentos de maneira discreta enquanto pensava no que ele acabara de dizer. Realmente, não precisava de ajuda para se enturmar. Na verdade, ela era melhor do que eu nesse quesito. Bufando, cheguei à conclusão de que aquela pilantra só me queria aqui.
- Algum problema? – perguntou e eu o olhei um pouco surpresa.
- Não. – neguei, torcendo o nariz. – Só não gosto de lugares muito cheios.
- Mas infelizmente está em um. – dando um último gole na bebida, ele se levantou. – Então o melhor a fazer é aproveitar.
- Ah é? – ainda sentada, me virei em sua direção. – E o que sugere, ?
- Vamos dançar. – me estendeu sua mão.
- E o que seria isso? – a aceitei, descendo do banco. – Um baile de debutantes?
- Engraçadinha. – ele piscou pra mim.
Sorri enquanto ele me levava para o meio da pista. O lugar era mais escuro do que os outros e a visão era ainda mais comprometida por conta do globo de luzes acima de nossas cabeças. Era praticamente impossível reconhecer alguém, mas eu ainda tentava enxergar no meio daquele mar de gente. Todavia, assim que colou seu corpo no meu, segurando minha cintura com firmeza, me esqueci completamente do que estava fazendo. Prendendo a respiração, agarrei as extremidades de seus ombros, pois não esperava por aquilo.
Ouvi um risinho vir de e engoli seco, mandando embora a minha apreensão. Com calma, passei meus braços ao redor de seu pescoço, mantendo nossos rostos a uma distância segura. Mas ele não parecia querer nenhuma segurança e tive a certeza disso quando senti sua mão livre parar um pouco acima de meu quadril.
- Onde estão os meninos? – perguntei, desviando o olhar a um canto qualquer para evitar olhá-lo. – Eu não os vi ainda.
- Devem estar se pegando com alguém por aí. – ele respondeu como se aquilo fosse nada.
- Nenhuma novidade. – revirei os olhos.
- Sabe... – aproximou a boca de meu ouvido. – Acho que essa não é uma má ideia.
Congelei no mesmo segundo ao sentir seus lábios roçando em meu lóbulo. Fechei os olhos com força, reprimindo minha vontade de agarrá-lo ali mesmo. Eu não podia fazer aquilo outra vez. Não podia olhá-lo nos olhos ou então estaria perdida. Mas eu queria tanto senti-lo novamente. Seu calor em minhas veias. Seu toque em minha pele. Mas eu não podia.
- Realmente não é. – resolvi fingir que não estava abalada. – Onde está a sua namorada? Poderia estar dançando com ela.
- Não estamos mais juntos. – ele respondeu, deslizando sua mão até meu quadril. – Além disso, não é com ela que gostaria de estar.
- Não? – a pergunta saiu antes que eu conseguisse impedir.
- Sabe que não. – balançou a cabeça sem deixar de me encarar.
Sua outra mão subiu até meus cabelos soltos, afastando-os para trás de meu ombro. Com movimentos calculados, seus dedos seguiram até minha nuca e ele se aproximou, deslizando a ponta de seu nariz em meu pescoço. Prendi a respiração quando um arrepio subiu pela espinha, mas não tive forças para me afastar. Especialmente quando passou a distribuir beijos por aquela área.
- ... – murmurei, agarrando sua camisa com força.
- Não sei se alguém já disse isso, mas você está muito linda. – ele me ignorou, falando contra minha pele.
Me afastei um pouco por conta das cócegas que senti e nossos rostos ficaram frente a frente. Mordi o lábio inferior ao olhá-lo bem nos olhos, vendo exatamente o que ele queria. Ainda assim, eles eram tão belos e profundos que foram capazes de me hipnotizar. Eu estava em suas mãos.
Mais uma vez.
Eu sabia bem que não tinha muito a me oferecer. Pelo menos não o que eu desejava. Mas eu não conseguia largá-lo. Meu corpo pedia por ele. Eu queria tudo que aquele homem tinha para me dar, mesmo que fosse pouco. Mesmo que fosse por apenas uma noite.
Mais uma noite.
Eu havia prometido a mim mesma que tentaria deixá-lo ir. E quando ele arrumou uma namorada vi a minha chance de estar livre. Mas agora dizia que eles tinham terminado. Não havia nada entre nós. Nada que nos impedisse de nos entregarmos. E, como a garota iludida que sempre fui, senti que estava quebrando a trégua. A fina camada de vidro em volta do meu coração mal havia se solidificado e já se rachava de lado a lado. Bastou pouco.
Um olhar.
Algumas palavras.
Um toque.

Eu não podia mais resistir. E quando ele acariciou meu rosto, fechei os olhos, permitindo que fizesse o que bem entendesse. E fez. Sem demora, senti seus lábios sobre os meus. No mesmo instante, a música que enchia os meus ouvidos desapareceu, assim como o chão sob os meus pés. Para não cair, voltei a abraçá-lo pelo pescoço, nos unindo ainda mais.
Fazia tanto tempo que ele havia me procurado que até estranhava sentir o seu gosto. Por meses sonhei com nossos momentos juntos e em como suas palavras soavam doces contra o meu ouvido, mas agora podia tê-lo de verdade. E eu iria aproveitar. Mesmo que ele não me procurasse depois.
Mandando meus pensamentos para longe, levei meus dedos aos seus cabelos, apreciando a maciez de seus fios. Quando sua mão deslizou até minha bunda, a apertando, parti o beijo, arfando contra seus lábios. riu e foi impossível não acompanhá-lo. Sem mais o que temer, tomei a iniciativa, beijando-o novamente. Um beijo cheio de desejo e que ele correspondeu com a mesma intensidade.
- Vamos sair daqui. – sugeriu assim que nos afastamos outra vez.
- Vamos. – falei sem pensar duas vezes.
Nos aproveitando da pouca luz e da euforia das pessoas graças a uma música agitada que se iniciava, nós saímos dali. Enquanto seguíamos na direção da saída, permanecíamos de mãos dadas, evitando falar com qualquer pessoa. Escapamos por um acesso que não era o principal, evitando chamar atenção desnecessária e fomos até meu carro, já que tinha vindo com seus colegas de banda no automóvel da gravadora.
Enquanto controlava a minha respiração, eu dirigia até minha casa, pois seria muito mais fácil despistar quaisquer paparazzi. Não demoramos e logo estávamos lá. Estacionei o carro na garagem e seguimos por meio de uma entrada que dava na lavanderia. No meio do caminho, me segurou pela cintura, me virando em sua direção. Antes que eu dissesse algo, ele me beijou com voracidade, me imprensando contra a porta que separava a lavanderia da cozinha. Minha única ação foi procurar a maçaneta, girando-a.
Adentramos o cômodo sem nos separar, dando passos em falso, esbarrando em tudo pelo caminho, pois as luzes estavam apagadas. Ao perceber que não chegaríamos a lugar algum, me pegou no colo e me fez enlaçar seu quadril com minhas pernas. Isso diminuiu consideravelmente nosso esforço de encontrar a sala. Ainda assim, derrubamos mais alguns objetos pelo caminho, inclusive um abajur perto de uma poltrona.
Quando finalmente alcançou seu objetivo, se deitou no grande sofá que ficava de frente para uma TV, deixando-me sob si. Usando um dos braços, ele se apoiou no estofado, evitando que todo seu peso fosse depositado sobre mim e aproveitando para me encarar. Com a respiração ofegante sustentei nossa conexão, distinguindo seus traços com dificuldade, pois a única iluminação era a que vinha dos postes da rua e que entrava pelas janelas.
Esquecendo-me de qualquer sensação ruim que ele já me causara, de como meu coração era partido vez após vez, acariciei seu rosto com o polegar, sentindo o calor de sua pele contra a minha.
- Eu senti a sua falta. – sussurrei as palavras que vieram de meu coração.
- Eu também senti. – para minha surpresa, ele respondeu.
- O meu maior medo é que isso passe. – mordi meu lábio inferior. – Que amanhã não precise mais de mim.
- Estou aqui agora. – desviou os olhos, passando a depositar beijos em meu maxilar. – É o que importa.
Respirei fundo, mordendo os lábios diante de suas carícias. Mas não foi isso que me causou arrepios e sim o fato de que ele fugia mais uma vez daquele assunto. De que respondia mais uma vez sem me olhar de frente. Quando não me encarava nos olhos, suas palavras pareciam até mais verdadeiras. Quase como uma mentira perfeita. E era melhor assim, pois se meu olhar estivesse sobre o seu, eu decifraria sua verdadeira intenção.
Permitindo que ele abrisse o zíper que ficava ao lado de meu vestido, minha mente vagou por alguns instantes, raciocinando que talvez nunca tenha ficado na manhã seguinte por eu não ter sido boa o suficiente. Se eu me esforçasse mais um pouco... Quem sabe pudéssemos finalmente ficar juntos.
Passei as mãos por baixo de sua camisa, tocando sua pele quente, fazendo-o arfar. Sorri quando ficou de joelhos e abriu os botões, livrando-se do tecido. Em seguida, ele se inclinou em minha direção, puxando meu vestido para baixo, me deixando apenas com as peças intimas. Quando voltou a deitar sobre mim, suspirei ao sentir seu calor me abraçar como o vapor de um dia de verão. Era deliciosamente aconchegante, fazendo meu coração se preencher em contentamento.
Estávamos na primavera e o clima era ameno, porém, naquele momento tudo era chamas. Enquanto as carícias perduravam, o suor já brilhava em nossas peles, me ocasionando o pensamento de que aquele homem era o que eu precisava. Eu queria sentir seu amor como o clima. Duradouro e inabalável. Verdadeiro e incontestável. Todo sobre mim.
Quando ele se afastou de mim para se livrar de suas calças, também me levantei. Sem deixar de fitá-lo nos olhos e sustentando um sorriso maroto, o empurrei na direção oposta, o obrigando a se deitar. Então subi sobre seu corpo, aproximando nossos rostos.
- Hoje vamos fazer do meu jeito. – sussurrei, mordendo seu lábio inferior em seguida.
não respondeu nada, apenas deixou que um sorriso malicioso enfeitasse seu rosto. Espelhando seu gesto, uni nossos lábios com urgência. Eu o faria ter uma noite inesquecível. Seria de mim que ele se lembraria quando estivesse longe. E isso o faria voltar para meus braços.
Após mais uma sessão de beijos e toques provocadores, finalmente terminamos o que havíamos começado.
Sem ânimo para subir as escadas que nos levariam ao meu quarto, vestimos algumas peças de roupa e continuamos ali. Sem me importar com as piadas que soltava sobre o meu ódio mortal por sua blusa quadriculada, a vesti, me deitando ao seu lado. Ficamos no sofá sem dizer nada, apenas apreciando o silêncio da noite.
Com os olhos pesando por conta do cansaço, encostei meu ouvido do seu peitoral, me aninhando mais em seu abraço. Antes de apagar, necessitava ouvir o seu coração. Eu só precisava de uma outra batida.
- ... – murmurei quase sem entender o que eu mesma dizia.
- Hm... – ele respondeu apenas.
- Eu amo você. – as palavras saíram tão baixas que ao menos soube se ele as ouviu.
Apenas senti me puxar para mais perto, depositando um beijo em minha testa. Não soube se ele respondeu algo, pois dormi logo em seguida. Ainda assim, não me importava. Queria apenas que ele soubesse quais eram meus verdadeiros sentimentos.


Capítulo 2


NÃO sei quanto tempo dormi, mas assim que o despertador de meu celular soou ao meu lado, soube que era a hora de ir trabalhar. Abrindo os olhos lentamente, suspirei, virando-me para o lado. Por alguns segundos, permaneci desorientada pelo sono que ainda sentia, entretanto, logo me situei percebendo algo estranho. Eu estava em minha cama, sob o cobertor. Analisando-me, vi que ainda usava a camisa de , o que acelerou meu coração.
Olhei ao redor, procurando qualquer vestígio de que ele esteve ali, mas não havia nada. Por isso, levantei desesperada, descendo as escadas de dois em dois degraus até estar na sala.
- ! – chamei seu nome enquanto olhava no banheiro.
Vasculhei todos os cômodos da casa, mas não se encontrava em lugar nenhum. Ele havia ido embora. Mais uma vez. Desolada, cambaleei até o sofá, me jogando nele. Assim que o fiz, o seu cheiro que estava impregnado no estofado escuro alcançou minhas narinas, trazendo à minha mente todos os momentos da noite passada. À medida que recordava de suas palavras faladas ao pé do ouvido, meu coração se apertava. E o aperto foi tão insuportável que ele se transformou em lágrimas que logo escorriam pelo meu rosto.
Me encolhendo em posição fetal, agarrei sua camisa ao mesmo tempo em que soluçava. O que eu havia feito de errado dessa vez? Havia dado a ele todo meu amor, então por que ele partiu? Sem conseguir entender, continuei chorando, esperando que tudo aquilo não passasse de um terrível pesadelo e quando despertasse estaria ao meu lado.
Só após um longo tempo é que reagi. Me arrastando até o andar superior, fiz minha higiene matinal. Lavei os cabelos, tentando mandar embora toda a tristeza que insistia em me incapacitar. Apesar de tudo, eu precisava trabalhar. Saí do banheiro, procurando uma roupa para vestir. Pelo menos aquilo me acalmaria. Sempre que precisava mandar os aborrecimentos para longe, passava horas criando combinações mesmo que nunca fosse usá-las.
Passei uns vinte minutos ali, até decidir o que usar. Optei por um vestido escuro com uma estampa florida com mangas longas, levemente preso na cintura. Nos pés, calcei uma bota preta de cano médio com o salto baixo e coloquei um relógio dourado no pulso. Após fazer uma maquiagem de olhos marcados e lábios nude, coloquei um chapéu preto nos meus cabelos soltos e peguei minha bolsa e as chaves do carro.
No meio do caminho comprei algo para comer e enquanto dirigia, liguei o rádio para me distrair. Como se fosse obra do destino, que resolvia brincar com a minha cara, uma música dos garotos começou a tocar.

Vou levar o que você tem, tem, tem
Eu sei que não é muito, muito, muito
Porque eu só preciso de uma outra batida
Você é a coisa que eu não consigo largar

Assim que a voz de chegou aos meus ouvidos, um arrepio tomou conta de mim, me obrigando a agarrar o volante com mais firmeza.
- Só pode ser sacanagem... – revirei os olhos, mas não consegui mudar de estação.

Você tem o que eu quero, quero, quero
Odeio quando você se foi, foi, foi
Se você me dissesse que terminamos
Você sabe que eu iria quebrar a trégua

Eu já os tinha visto cantar aquela canção inúmeras vezes, mas agora que analisava a sua letra, percebia como ela descrevia perfeitamente minha relação com .

Eu quero respirar você como o seu vapor
Eu quero ser a pessoa que você se lembra
Eu quero sentir seu amor como o clima
Todo sobre mim, sobre mim

Quando o refrão chegou, mordi o lábio inferior, permitindo que a melodia preenchesse minha mente.

Quero imprimir nossas mãos na calçada
Saborear suas palavras, eu nunca vou desperdiçá-las
olhar em seus olhos e saber exatamente o que você sente falta

- Então minta para mim, apenas minta para mim. – acompanhei a música, soltando um riso sem humor em seguida.
Levemente irritada, estendi a mão, trocando de estação. Mas isso não fez muita diferença, pois não demorei a chegar à gravadora. Ergui o crachá no pescoço ao passar pela recepção, desejando bom-dia ao rapaz sentado atrás do balcão e segui pelos corredores, cumprimentando quem encontrava, até me aproximar da sala onde costumávamos arrumar os garotos.
Ao adentrar, a varri com os olhos, dando graças a Deus por ninguém além de estar ali. Falando nela, minha amiga caminhava de um lado para o outro segurando várias peças de roupas nas mãos, assim como alguns sapatos. Franzi o cenho, confusa e deixei minha bolsa sobre o sofá que havia na sala, indo até ela.
- Está tudo bem aí? – perguntei, chamando sua atenção.
- ?! – a espevitada me olhou assustada, mas logo sua expressão se suavizou. – Até que fim você chegou, estou perdida com tanta coisa pra fazer.
- Vai com calma. – me aproximei, tirando metade das peças de seus braços.
- Não dá. – choramingou.
- E por que não? – ergui as sobrancelhas.
Minha amiga estava pronta para responder meu questionamento, porém, ela fez uma careta, fitando meu rosto com bastante atenção. Continuei com meu gesto de sobrancelhas, mostrando que não entendia nada, até que seus dedos tocaram as bolsas sob meus olhos.
- do céu... – sua voz saiu alarmada. – Essas olheiras estão terríveis!
- Obrigada pela parte que me toca. – rolei os olhos.
- Estou falando sério. – ela insistiu. – De longe a maquiagem até que conseguiu disfarçar, mas agora que te vi de perto... amiga, a coisa está feia.
- Eu sei disso. – suspirei, me afastando.
Sentei no sofá enquanto analisava algumas camisetas que os garotos poderiam usar, mas não parecia querer esquecer aquele assunto, se sentando ao meu lado. Por vários instantes ficamos ali, caladas. Eu avaliava as peças e ela me encarava. Então, de repente, ela resolveu falar.
- Você andou chorando. – ela afirmou.
- Ah é? – resolvi me fazer de desentendida.
- Não tente bancar a espertinha comigo, . – sua voz saiu um pouco mais séria. Algo realmente difícil de se ver. – Vi quando deixou a festa com o .
Olhei-a com espanto. Definitivamente, não havia como fugir daquela vez. tinha visto e aquilo bastava. Engolindo seco, baixei o rosto, tentando segurar o choro que fez minha garganta doer.
- ... – sua voz saiu suave e ela pousou a mão em meu ombro. – O que ele fez dessa vez?
- Nada, . – respondi com dificuldade. – Ele não fez nada e esse é o problema.
- O que quer dizer? – ela franziu o cenho.
- O que eu fiz de errado dessa vez? – questionei, mesmo sabendo que ela não teria uma resposta. – Eu dei tudo a ele, entreguei o meu coração, mas parece que não é suficiente.
- Eu não sei toda a história de vocês dois, mas tenho certeza de uma coisa. – ela suspirou antes de falar. – não merece você.
- E como pode saber? – a encarei chocada.
- Amiga, olha pra você! – apontou as mãos em minha direção. – Está arrasada. Mesmo depois de ter dado tudo de si, ele não te deu nada em troca. não tem noção do quanto você o ama.
- Eu disse a ele. – tentei rebater sua fala.
- Mas ele a deixou mesmo assim. – ela negou com a cabeça. – O que significa que talvez o erro não tenha vindo de você, mas sim dele.
Continuei a encará-la, completamente abismada. Eu não tinha palavras para rebater o que dissera. Mesmo abrindo e fechando a boca diversas vezes, nada saiu. Era raro vê-la conversar com tanta seriedade, mas quando o fazia, sempre me deixava daquela forma. Aquela garota estabanada conseguia tocar fundo e me obrigava a refletir, como agora.
Com um sorriso bondoso, ela acariciou meu rosto com delicadeza e então se levantou, caminhando até os espelhos onde a maquiagem era feita. Permaneci estática, segurando uma blusa preta, com as mãos apoiadas no colo. As palavras de insistiam em viajar pela minha cabeça, mesclando-se com as de . Era como se elas travassem uma batalha em meu subconsciente para saber em qual delas eu acreditaria.
Mas não consegui ir muito longe, pois me distraí ao ouvir a porta ser aberta. Por ela os quatro garotos passaram como furacões. Gritavam e pulavam, comemorando algo que não era de meu conhecimento. Apesar de meu conflito interno, foi impossível não me sentir contagiada por toda aquela animação.
- Posso saber o motivo de tanta euforia? – me levantei, indo até eles.
Para minha surpresa, veio em minha direção, me arrebatando em seus braços. Foi um abraço firme, que me fez tirar os pés do chão. Quando encostei o solado da bota de volta ao piso, pude contemplar o enorme sorriso que o garoto sustentava. A felicidade era nítida em sua íris clara, o que me fez sorrir também.
- Acabamos de fechar mais um contrato pra uma nova turnê. – ele respondeu.
- Uma turnê? – abri a boca, maravilhada, esquecendo por um momento de minha agonia. – Isso é demais!
- Eu sei. – ele me abraçou de novo.
Dessa vez de maneira mais contida. Compartilhando de sua alegria, acariciei seus cabelos e ele apoiou seu queixo em meu ombro. Ainda sorrindo, fitei o outro lado da sala, encontrando os outros garotos conversando com e eles riam muito. Foi quando, em certo momento minha amiga me lançou um breve olhar junto com um sorriso fraco. Respirei fundo e preferi ignorar aqueles gestos, afundando meu rosto na curva do pescoço de .
Quando finalmente nos separamos, corri para cumprimentar os outros. Eles transbordavam felicidade e rimos demais imaginando como seria essa nova turnê.
- Eu não acredito que serão quase seis meses na estrada. – arregalou os olhos, se ajeitando no sofá.
- Eu não vejo problemas com a duração. – deu de ombros. – Na verdade, quanto mais, melhor.
- Pra você vai ser uma beleza, . – a garota lançou um olhar mortal para o rapaz. – Vai ficar de boa, só esperando a hora de subir no palco pra tocar.
- Acha que é fácil assim, gata? – ele ergueu as sobrancelhas.
- E não é? – ela fingiu dar de ombros e desviou o rosto, porém era nítido o quanto suas bochechas ficaram vermelhas por ele a ter chamado daquela forma.
- Quando estivermos lá, eu vou te mostrar. – piscou para ela.
- Só sei que vamos passar um bom tempo organizando looks pra no fim vocês falarem que não gostaram. – rolando os olhos, ela nos fez rir.
- Faz parte do trabalho. – o garoto cruzou os braços. - Falando em looks, é bom que estejam bonitas no sábado.
- E por quê? - eu quis saber.
- Nosso produtor vai dar uma festa em sua casa pra comemorar o acordo que fechamos. – respondeu.
- Será que tudo se resume a festas? - fiz uma careta. – Por Deus!
- O que seria da vida sem festas, minha cara ? – me abraçou pelos ombros.
- Com certeza, bem mais tranquila. – revirei os olhos. – E, dona , nem pense em tentar me persuadir a ir a essa festa, pois eu não vou.
- Mas...- ela arregalou os orbes. – Eu não disse nada.
- Não disse ainda. – apontei o indicador para ela. – Eu te conheço bem.
Rindo da situação, puxamos mais assuntos sobre como conseguia convencer as pessoas com sua lábia de garota fofinha. A conversa se alongou por algum tempo, mas logo os meninos foram chamados e tiveram que sair. Sozinhas, continuamos nosso trabalho até o fim do expediente.
- Tem certeza que não vai pra festa? – perguntou vestindo sua jaqueta de couro.
- Absoluta. – respondi, colocando meu chapéu.
- Às vezes você é tão sem graça, sabia? – minha amiga bufou, contrariada.
- Eu só quero descansar um pouco, . – ri abafado.
- Claro, claro... – resmungando, ela abriu a porta e saímos pelo corredor. – Mas e quanto a aquilo que eu te disse?
- Que seria? – a olhei de soslaio.
- Sobre o . – ela disse.
- Ele só precisa de tempo. – respondi apenas.
- , sei que gosta muito dele, mas... – após uma pequena hesitação ela continuou. – Precisam conversar sobre isso, deixar claro o que há entre vocês.
- Eu não sei... – balancei a cabeça.
- Não sabe o quê? – um riso escapou pelos seus lábios com batom escuro.
- Não sei o que faria se a resposta fosse... – engoli seco. – A que estou pensando.
- Amiga, não tenha medo. – ela passou a mão em minha cintura. – É o melhor que pode fazer. Por e por você.
Eu sabia que ela estava certa. Precisava colocar em panos limpos o que estava acontecendo entre e eu. Fazia muito tempo que mantínhamos aquele relacionamento, se é assim mesmo que poderia chamar. Eu me apaixonei por ele assim que comecei a trabalhar com a banda e esse sentimento só cresceu. Agora eu me sentia sufocada. Sim, essa era a palavra. Eu precisava apenas da verdade.
Mas eu tinha medo. Na verdade, sempre tive. Minha mente insistia em me dizer que eu não suportaria saber seus verdadeiros sentimentos por mim, que era melhor da forma que estava.
Então eu fugia.
E continuei fugindo.


Capítulo 3


DURANTE toda a semana, me ocupei com o trabalho de organizar o guarda-roupa dos garotos de uma forma que eles se agradassem, mas que ainda assim os fizesse parecer com artistas de bom gosto. era minha assistente e foi de grande ajuda. Enquanto isso, e os outros tiveram que resolver muitas coisas por conta da turnê e só nos vimos poucas vezes na semana.
Em outro momento eu acharia aquilo ruim e daria uma forma de contatá-lo. Porém, a última coisa que eu queria era conversar com . Não por não ter o que dizer, mas sim pelo temor que me consumia cada vez que eu pensava sobre nós.
não me pressionou e eu agradeci mentalmente por isso. Sobre a festa na casa do produtor da banda, ela só tocou no assunto umas duas ou três vezes, mas ao notar que eu realmente não iria, deixou o assunto de lado.
Quando o sábado finalmente chegou, recebi algumas mensagens de amigos do meu ramo esperando me encontrar lá, mas apenas agradeci pela consideração. Passei o restante do dia pesquisando sobre alguns tecidos que poderia usar em algumas peças de inverno e quando dei por mim, a tarde já chegava ao fim.
O que me despertou foi uma a mensagem que fez o celular vibrar ao meu lado, no braço do sofá. Tirando meus óculos de descanso e deixando o notebook sobre a mesinha de centro, peguei o aparelho, sorrindo ao ver o nome de da tela. Sem demora, li o que ela escreveu.

“Ainda dá tempo de mudar de ideia”


Revirei os olhos, soltando um riso divertido e digitei uma resposta logo em seguida.

“Estou bem, obrigada”


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Ri ainda mais quando abri a foto que ela me mandou. Era o seu look para a festa e estava simplesmente fantástico. Minha amiga estava parada na frente de um espelho de corpo todo, usando um vestido tubinho branco, tomara que caia. Nos pés, calçava um sapato preto de bico fino e salto alto. Os cabelos soltos caiam pelos ombros em ondas bem arrumadas. A maquiagem impecável marcava seus olhos e os lábios tinham um tom alaranjado fraco, quase nude. Aquilo me fez ter orgulho, pois sabia que ela era consideravelmente nova na profissão.

“Uau! Está um arraso. Desse jeito eu não me aguento.”
“É isso que vai perder se não vier”
“Isso não é problema, meu bem. O pode suprir a minha ausência.”
“Pode ir parando por aí. Eu não tenho nada com aquele babaca”
“Babaca, sei...”
!!!”
“Vá se divertir, colega. Te vejo na segunda. Bjos”


Ela me respondeu algo, mas eu não vi, pois deixei o celular na mesa e segui para a cozinha. Vasculhei a geladeira, pegando algo para comer. Após tomar um iogurte de morango, subi para meu quarto. Precisava de um banho quente para relaxar os músculos.
Depois do banho bem demorado, fui ao closet buscar uma roupa confortável para usar. Talvez eu fizesse uma maratona de alguma série na Netflix. Todavia, quando já pegava uma calça de moletom, meus olhos caíram sobre a peça pendurada no cabide ao lado. O longo vestido vermelho parecia me chamar e foi o que fiz, me aproximando dele. Analisei com admiração a peça que havia ganhado de presente de um estilista que era meu amigo há certo tempo.
Delicadamente, acariciei o tecido com a mão livre, soltando um longo suspiro. Eu já o havia experimentado e nunca tinha ficado tão bem em um vestido de costas nuas. Baixei o rosto, encontrando as sandálias que comprei para acompanhar o look e mordi os lábios. Erguendo os olhos, fitei o nada e aos poucos um sorriso surgiu em meu rosto. Aquele modelo era muito bonito para ficar tanto tempo trancado. Talvez fosse a hora de estreá-lo e eu tinha o lugar perfeito para isso.
Após quase duas horas me arrumando, por fim tomei coragem para deixar minha casa. Enquanto dirigia, sentia meu coração pulsar contra meu peito. E eu nem havia chegado. Quando estacionei, vi vários paparazzi parados na entrada da mansão do produtor dos garotos. Sem me preocupar, já que não era a mim que eles procuravam fotografar, desci do carro e caminhei na direção da entrada.
Enquanto o vento batia nos meus cabelos soltos e completamente alisados, meu vestido que tinha um corte de cada lado à altura de minhas coxas, modelava as curvas do meu corpo, deixando minhas pernas parcialmente expostas. Senti alguns flashs sobre mim, mas passei reto, segurando minha bolsa preta com firmeza. Andando com confiança sobre a sandália dourada com um salto altíssimo, parei, dizendo meu nome ao segurança. Sem problemas, entrei, seguindo na direção da multidão.
Eu não deveria estar ali, afinal, não suportava festas muito grandes. Mas eu tinha um motivo. À medida que eu avançava, olhava para todos os lados, tentando encontrar a pessoa que me fez sair de meu conforto. Antes que a encontrasse, senti uma mão em minha cintura, me fazendo pular pelo susto que levei.
- Você por acaso é louco? – fitei o garoto à minha frente.
- Desculpa,. – respondeu, rindo e segurando uma bebida azul.
- AH, AÍ TÁ VOCÊ! – de repente ouvi uma voz esganiçada logo atrás de mim.
Ao me virar, dei de cara com . E a quantidade de glamour que ela exalava era a mesma de fúria. Entretanto, ao me ver ali sua expressão se suavizou em cinquenta por cento.
- ! – ela abriu um sorriso e me abraçou. – Você veio!
- Eu não queria perder tudo isso. – brinquei, segurando sua mão e a fazendo girar.
- Essa areia é demais pra nosso caminhãozinho, . – disse, chamando nossa atenção.
- Talvez pra o seu, querido. – minha amiga revirou os olhos.
- Eu posso saber o que está rolando aqui? – franzi o cenho.
- Nada. – ela respondeu rápido.
- Na verdade, eu estava indo pegar uma bebida pra ela. – disse.
- E estou te esperando há quase uma hora. – a garota apoiou as mãos na cintura.
- Não exagera, gata. – ele fingiu se render. – Só me perdi de você e, pra completar, encontrei a .
- Que seja. – ela cruzou os braços, emburrada. – Não estou mais com sede mesmo.
- Como é que é? – o garoto fez uma careta. – , eu quase perdi um braço pra conseguir essa bebida...
Balançando a cabeça negativamente, resolvi deixar aqueles dois se entendendo sozinhos. De forma discreta, caminhei na direção oposta, me misturando ás pessoas. Rindo de meus amigos, deixei que meus olhos vagassem pelo ambiente sem nenhuma pretensão. Foi então que o vi e no mesmo minuto meu sorriso murchou.
Observei quando colocou o cabelo da garota para trás de sua orelha. Em seguida, ele sussurrou algo bem perto de seu ouvido, fazendo-a rir. Eles trocaram mais algumas palavras e então se encararam, sorrindo. Paralisada, vi quando ele a segurou pela nunca, beijando-a com vontade. Sem ação, fiquei ali até que se separaram.
Já sentindo um nó em minha garganta, tentei sair dali, mas minhas pernas não me obedeciam. Era como se quisessem que eu presenciasse um pouco mais a cena à frente. Meu corpo só reagiu quando, em certo momento, desviou o olhar da garota morena, olhando em volta. Arregalei os olhos quando os seus caíram sobre mim e soube imediatamente que ele me reconheceu, pois franziu o cenho em minha direção.
Dizendo algo para a moça, ele se desvencilhou dela e veio até onde eu estava. Entretanto, eu não esperei, dando-lhe as costas e andando apressada para longe. Eu não sabia para onde ir, por isso segui ao primeiro lugar com menos pessoas. A escada que dava ao andar superior. Ouvi me chamar, mas o ignorei, subindo os degraus sem sequer olhar para trás. Mas daquela vez, por incrível que pareça, eu não estava fugindo. Pelo contrário, eu queria que ele me seguisse para longe da multidão, para um lugar livre do barulho.
Olhando por cima do ombro, vi me seguindo a uma curta distância. Chegando a um corredor cheio de portas, abri uma delas, entrando sem hesitar. Deixei a porta escancarada e a luz se ascendeu automaticamente. Logo após, também entrou, mas fechou a porta. Permaneci de costas, ouvindo a música que agora soava abafada. Com os olhos marejados, fitava um quadro pendurado sobre a cabeceira da cama do quarto, provavelmente, de hóspedes. Então o senti se aproximar e cerrei os punhos.
- ... – sua voz saiu suave, mas eu pude identificar uma pontada de preocupação nela. – Eu posso explicar.
- Eu não quero que explique nada, . – continuei de costas. – Eu só quero que me diga uma coisa.
Me virei até ele, que permanecia parado a poucos passos e sustentava uma expressão confusa. Criando coragem, caminhei lentamente parando em sua frente e o fitei nos olhos.
- ... – murmurei. – Eu... eu preciso saber.
- Saber o quê? –seu polegar limpou uma lágrima em meu rosto que havia escapado sem eu ao menos perceber.
- O que você sente por mim? – falei de uma vez antes que voltasse atrás.
- ... – ele franziu o cenho, dando um passo pra trás.
- Por favor, eu precise que me diga. – mordi os lábios.
Ficamos nos encarando em silêncio. Eu apenas aguardava uma resposta enquanto o via abrir e fechar a boca diversas vezes, mas nenhum som saia. A expressão que carregava, mostrava a surpresa que ele sentia por conta daquele questionamento e eu me sentia uma estúpida por estar o pressionando. Entretanto, eu não podia mais esperar. Quanto antes soubesse, melhor.
Para nós dois.
Mais uma vez, tentou dizer algo, porém, desistiu e desviou o rosto, passando as mãos sobre ele.
- ... – sua voz saiu abafada enquanto ele começava a caminhar pelo lugar. – Que... que conversa é essa?
- Só me responde. – insisti.
- Por que quer saber isso justo agora? – voltou a se aproximar. – É por causa do que acabou de ver? , eu não tenho nada com aquela garota.
- Não tem nada a ver com aquela garota. – elevei um pouco o tom. – Tem a ver com tudo!
- Tudo o quê? – um riso sem humor escapou por seus lábios.
- Nós... – comecei a enumerar. – Os nossos sentimentos, o motivo de nunca termos ficado juntos...
- Nós ficamos... – ele tentou dizer.
- De verdade! – continuei mesmo com sua interrupção. – Juntos de verdade, .
- Então pra você o que passamos não foi nada? – ele abriu os braços, franzido o cenho.
- Todas as manhãs quando eu acordava você não estava mais lá. – passei a língua entre os lábios. – E cada vez eu tentava dar o meu melhor, mas ainda assim você partia.
- Eu sempre estive lá quando você precisou, . – rebateu.
- Não. – neguei com a cabeça, começando a perder o controle. – Eu sempre estive lá quando você precisou. Eu amo você e por isso preciso saber o que sente por mim. Eu preciso...
- EU NÃO SEI! – ele berrou, me calando no mesmo segundo.
Perplexa, deixei que a sentença morresse entre meus lábios, fitando-o com os olhos arregalados. Naquele instante, nada fez mais sentido e a única coisa que eu conseguia fazer era tentar continuar respirando. Mordendo os lábios, suspirou fundo e baixou o rosto.
- Eu não sei dizer o que é isso que sinto por você. – ele balançou a cabeça ainda fitando o chão escuro. – Me desculpe.
- Não se desculpe. – engoli seco, tentando prender o choro e não gaguejar. – Você não é obrigado a me amar.
Sem mais palavras, caminhei a passos apressados, pronta para deixar o local. No entanto, ao passar por , senti sua mão segurar meu braço, me obrigando a parar. Nos encaramos de perto, mas lhe lancei um olhar mostrando que eu não queria mais continuar aquela conversa. Mesmo hesitante, ele me largou e fitando-o uma última vez, lhe dei as costas e saí do quarto.
Enquanto seguia pelo corredor, comecei a correr, pois sabia que a qualquer momento minhas lágrimas cairiam. Desci as escadas apressada, me desviando de todos os presentes. Por sorte, não esbarrei em ninguém. No meio do caminho, ouvi me chamar algumas vezes, mas a ignorei. De tudo o que eu desejava agora, conversar com qualquer pessoa era uma das últimas opções. Com o rosto abaixado, deixei a mansão e segui até meu carro. Sem pensar muito, o liguei e saí cantando pneus, pensando que sair de casa foi a pior de minhas decisões.
Assim que cheguei, guardei meu automóvel e segui para meu quarto, me desfazendo de todo o meu look pelo caminho. Sapatos, brincos, pulseiras, colar, bolsa, tudo foi jogado por qualquer parte da casa e não me importei como os encontraria depois. Adentrei o cômodo que buscava e parei em frente ao espelho de corpo todo ao lado da janela e me encarei por um longo tempo, tentando entender várias coisas ao mesmo tempo.
Mas não havia respostas.
Pelo menos, não as que eu queria.
Se não me amava, não podia culpá-lo. Só havia uma coisa a fazer a respeito e ter certeza disso despedaçou meu coração em milhares de pedaços. Na realidade, os pedaços que, vez após vez eu vinha remendando com as mentiras em que acreditava, não suportaram a verdade. Como um espelho rachado, um pequeno movimento em falso fez com que terminassem de se fragmentar.
Destruída, cambaleei até a cama, me deitando sob os lençóis. Me encolhi, abraçando o travesseiro e, não suportado mais, comecei a chorar livremente. Ao mesmo tempo em que as lágrimas molhavam o tecido branco, me recordava que havia chorado por há poucos dias, quando pensei que ele poderia ser meu. Mas, naquele minuto, eu sabia que não.
Ele nunca seria.


Capítulo 4


BATI a porta do carro com a força que me restava, soltando um longo suspiro. Olhando em volta, vi alguns carros estacionados, inclusive o da pessoa com quem eu gostaria de falar no momento e agradeci por isso. Sem esperar mais, caminhei apressada para dentro da gravadora, ganhando de volta o som dos meus altos contra o piso claro, pois pouquíssimas pessoas tinham chegado. Segui até o camarim e abri a porta, entrando e jogando minha bolsa sobre o sofá.
Fui até o closet onde as roupas ficavam e entrei, procurando por . Não nos falamos durante todo o domingo e agora, na segunda-feira, eu precisava que ela me ouvisse. A garota estava arrumando alguns tênis, mas não demorou a me notar ali, parada. Arregalando os olhos, ela se ergueu e me encarou com preocupação, esperando que eu dissesse algo. Sem conseguir pronunciar uma palavra sequer, apenas dei um sorriso fraco e balancei a cabeça negativamente. Isso foi suficiente para que minha amiga entendesse.
- ... – sua voz carregava um tom compassivo.
Então ela veio até mim e me abraçou. Imediatamente, percebi que precisava daquilo. Precisava de alguém para me sustentar, pois sozinha seria praticamente impossível. Não pensei sequer em resistir e afundei meu rosto em seu ombro, passando meus braços em sua cintura, sentindo as lágrimas voltando.
Chorar cansava, mas de certa maneira, era uma forma de me libertar da dor que sufocava meu interior. Todas as vezes que sucumbia ao pranto, me sentia mais leve e conseguia pensar com mais clareza. Por isso, ignorando o orgulho, deixei as lágrimas molharem a blusa de minha amiga e ela foi paciente. Ficamos ali até que eu me acalmasse e meu lamento cessasse.
Quando pensei ter colocado todo o líquido necessário para fora, me afastei dela e passei as mãos sob os olhos. Bondosamente, me puxou para um canto, ao lado de onde as camisetas ficavam, e nos sentamos no chão. Eu sabia que ela queria que eu contasse tudo, mas era tão difícil falar. Cada vez que tentava pronunciar uma sentença, um bolo em minha garganta me impedia e a garota ao meu lado notou.
- Amiga, eu sei que é difícil... – sua voz continuava terna, como nunca tinha visto antes. – Mas foi melhor pra vocês.
- Você sabe o que aconteceu? – eu fitava o chão.
- Eu vi quando subiram. – ela explicou. – até quis saber o que estava acontecendo, mas dei um jeito de levá-lo para longe e deixá-los sozinhos.
- Nós discutimos. – engoli seco, continuando. – Eu perguntei o que ele sentia por mim e isso o deixou assustado. tentou fugir do assunto e quando insisti... ele respondeu.
Respirei fundo enquanto apenas me deixava falar. Criando coragem, a encarei e completei o que dizia.
- “Eu não sei!” – repeti as palavras de .– Foi exatamente isso que ele praticamente berrou pra mim. E foi como um tiro. No começo eu congelei e quando reagi, a única coisa que fiz foi fugir.Passei o fim de semana inteiro me afogando em minha tristeza. Afinal, Hemmins não me ama.
- Eu nem sei o que dizer. – ela balançou a cabeça.
- Não há o que dizer, . – imitei seu gesto. –Mas existe uma solução pra tudo isso.
- Posso perguntar que solução seria essa? – ela estava realmente interessada.
- Em breve. – eu disse apenas, tentando sorrir.
Suspirando, revirou os olhos, mas não insistiu. Nos levantamos e voltamos ao trabalho, organizando mais algumas roupas para a nova turnê dos garotos. Pelo tempo que estava com a banda, conhecia a forma como eles se vestiam e do que costumavam usar no palco, então não teríamos dificuldade.
Durante o horário de almoço, fomos até um restaurante que ficava logo à frente da gravadora. Ao passo que minha amiga tagarelava sobre a festa e os bons momentos, voltando a ser a de sempre, eu permanecia calada, apenas rindo de sua euforia. Por fora, fingia estar interessada, mas minha mente vagava em outra dimensão.
Ao retornarmos, demos de cara com o agente da banda. Ele vinha pelos corredores olhando para todos os lados e assim que nos viu, uma expressão de alívio tomou conta de seu rosto. Troquei um olhar confuso com e aceleramos os passos, chegando até ele.
- David, algum problema? – eu perguntei.
- Precisamos de vocês duas agora! – ele disse e vi o tom preocupado.
- Por quê? – questionou.
- Conseguimos uma entrevista de última hora para divulgar a turnê. – David respondeu. – Eles precisam estar na rádio daqui a duas horas.
-E qual o motivo de tanto estresse? – minha amiga cruzou os braços.
- A entrevista será transmita ao vivo pelo youtube. – o homem disse. – Precisam dar um jeito neles logo.
- Pode deixar. – balancei a cabeça positivamente. – , vamos.
Corremos para o camarim, mas não estávamos tão alarmadas como David, pois já havíamos lidado com situações assim outras vezes. Ao adentramos a sala, vimos os quatro garotos sentados, conversando como se nada de mais fosse acontecer. Apoiando as mãos na cintura, parei no meio deles, que se calaram imediatamente.
- O papo dever estar muito bom, mas está na hora de vestir vocês como pessoas legais. – brinquei, deixando que um sorriso zombeteiro surgisse.
- Muito engraçado, senhorita estilosa. – jogou a cabeça pra trás, fingindo achar graça.
- É melhor deixarem de gracinha. – se aproximou. – Só temos duas horas.
- E o que estamos esperando? – de repente, falou, me causando um calafrio.
- É... – concordei, mas não o encarei. – O que estamos esperando?
- Vamos, vamos, vamos! – batia palmas, seguindo para o closet.
Os garotos se levantaram e nos seguiram, soltando resmungos e piadas. Ao passo que eu limpava a pele deles para iniciar a maquiagem, voltou do closet com várias peças. Um a um,eles escolheram o que queriam usar e, enquanto eu e minha colega maquiávamos uns, os outros trocaram de roupa.
Fiz de tudo para não precisar me aproximar de , porém, perdeu um pouco de tempo trocando os tênis de , pois ele se recusou a usar o que ela trouxe.Assim, fui obrigada a terminar sua arrumação. Tentando não parecer ansiosa, parei em sua frente, pegando um corretivo para disfarçar suas olheiras e algumas marcas. Enquanto usava um pincel para distribuí-la por seu rosto, percebi que ele me encarava de maneira estranha.
- Algum problema? – perguntei sem encará-lo.
- Não. – sua voz saiu baixa.
- Então por que está me olhando assim? – continuei meu trabalho.
- Porque eu conheço essa cara. – disse e eu lhe lancei uma breve olhada.
- Essa é a minha cara de sempre. – dei de ombros.
- Não é, não. – ele negou. – Está com o cenho franzido mesmo sem perceber. O que significa que está chateada.
- Desistiu de ser cantor para seguir a carreira de psicólogo e não me avisou, ? – sorri de forma debochada.
- Só estava dizendo. – ele espelhou meu gesto.
- Não estou chateada. – eu disse, parando por um segundo. – Só estou preocupada com o tempo que temos pra arrumá-los.
- Mesmo depois do que... – começou a dizer, mas hesitou por um segundo, logo retomando sua fala. – Do que aconteceu na festa?
- Sim. – por incrível que parece, fui sincera. – Nós precisávamos ter aquela conversa.
acenou positivamente com a cabeça e não disse mais nada. Preservando o silêncio, terminei a maquiagem, usando apenas a base e um pó translúcido para evitar oleosidade em seu rosto. Nos lábios, passei um batom de cacau apenas para hidratá-lo. O próximo passo foram os cabelos que também não me deram trabalho. Depois de arrumar o penteado simples, usei um spray fixador para deixar os fios no lugar.
- Prontinho. – deixei o spray sobre a bancada.
pensou dizer algo, mas desistiu e trocamos um breve sorriso. Quando ele se levantou, lhe dei espaço para que se juntasse aos outros. Alguns minutos se passaram e David passou pela porta, chamando nossa atenção.
- Estão prontos? – ele perguntou, segurando um celular perto do ouvido.
- Sim. – respondi.
- Ótimo. – ele disse, voltando a atenção para o telefone. – Os garotos já estão prontos, estamos saindo.
- Arrasem! – fez um sinal de positivo.
Depois de trocarmos abraços, os garotos seguiram o agente e nós voltamos para dentro da sala para reorganizar o material utilizado. Por fim, nos sentamos no grande sofá branco do local e pegou seu notebook para que pudéssemos assistir a entrevista. Acessamos o youtube e abrimos o link do canal. Eles já estavam no estúdio, sentados em volta de uma mesa de som, com fones no ouvido.
- Eles estão tão lindos. – cruzou as penas para cima do estofado.
- Fizemos um bom trabalho, meu bem. – falei e joguei o cabelo para o lado. – Mas agora vamos ver o que eles vão dizer.
Prestando atenção, aumentei um pouco o volume para que pudéssemos ouvir melhor e logo o entrevistador disse algo que fez todos rirem. Em seguida, ele fez mais perguntas para a banda.
- Então quer dizer que vocês estão saindo numa nova turnê. – o homem careca cheio de tatuagens perguntou. - O que estão achando disso?
- É algo incrível! – respondeu com um largo sorriso. – Estamos muito animados pra cair na estrada.
- Falando em estrada. – ele continuou. – Por quanto tempo a banda vai rodar pelo mundo?
- São quase seis meses. – respondeu.
- Estamos realizando um sonho. – completou. – E agradecemos a nossos fãs por isso. Sem eles não estaríamos aqui.
- A banda tem fãs bem dedicadas. – o homem disse, dando uma breve olhada num papel sobre a mesa. – Mas é bastante tempo longe de casa. Como vão lidar com isso?
- Eu estive pensando sobre isso desde que recebemos a notícia. – voltou a falar, deixando um riso divertido escapar. –E, falando sério, vamos ter a oportunidade de conhecer vários lugares e pessoas, além de estarmos fazendo o que amamos. Então, ficar longe por um tempo não vai ser um problema. Na verdade, vai ser como uma descoberta.

Enquanto falava, eu permanecia concentrada em suas palavras. Os outros garotos disseram mais coisas sobre a turnê, entretanto, o que havia dito sobre o tempo deles longe de casa me fez perder o fio da meada. Naquele instante, eu concordava com ele, me fazendo confirmar o que eu já vinha pensando desde a nossa conversa na noite da festa.
Sem poder esperar mais para tomar uma atitude, respirei fundo e me levantei, seguindo na direção da saída.
- Aonde vai? – perguntou um pouco confusa.
- Preciso resolver uma coisa. – respondi, segurando a maçaneta.
- E, por acaso, essa coisa tem a ver com a solução que citou mais cedo? – ela estava curiosa.
- Tem sim. – a olhei por cima do ombro. – Te vejo mais tarde.
- Só não faça nenhuma besteira. – ela pediu.
- Não se preocupe. – pisquei.
Fechei a porta atrás de mim e segui pelo corredor, encontrando alguns colegas de trabalho. Os cumprimentava por educação, mas minha mente estava longe, refletindo sobre vários assuntos ao mesmo tempo.
“...ficar longe por um tempo não vai ser um problema. Na verdade, vai ser como uma descoberta.”
Sim, seria. E foi pensando nisso que bati duas vezes na porta do diretor da gravadora. Eu tinha assuntos a resolver e não podia mais adiar. Não quandohavia um coração partido para sarar.

~o~


Os dias passaram depressa. Atolada com o trabalho e novos projetos, ocupei todo meu tempo para não pensar em minha vida pessoal. No entanto, quando a noite chegava, era inevitável não ter minha mente vagando até estar no mesmo assunto: e eu.
Todavia, não existia mais nada entre nós, assim eu fazia de tudo para não pensar nele. Mas como, se o via praticamente todos os dias? Passávamos o dia dividindo o mesmo ambiente e trocando palavras. Para completar, por conta da turnê, a banda lotou a agenda com entrevistas em rádios e programas de TV, então nossa convivência aumentou.
Apesar disso, eu já havia resolvido minhas questões. Pelo menos a maioria delas. Me faltava apenas a coragem para revelar isso aos meus amigos.
Após duas semanas, os garotos terminavam os preparativos antes de partir para o início dos shows. Junto com , mostramos a eles tudo que foi separado para as apresentações e, por incrível que pareça, os rapazes aprovaram. Estavam eufóricos demais para sequer questionar algo.
Quando o grande dia finalmente chegou, acordei cedo, ansiosa por eles. Me arrumei e não demorei a estar na gravadora, pois o ônibus da banda sairia de lá. Ainda que estivesse animada, o temor também tomava conta de mim, fazendo minhas pernas tremerem. Seguindo pelo corredor, vi os garotos correndo pelo lugar enquanto David ia atrás deles, gritando como um louco. Aquilo me fez rir, mas segui na direção contrária, procurando por .
Não demorei a encontrá-la no banheiro, retocando a maquiagem. Adentrei o local, fechando a porta e me aproximando dela. Ao me notar, ela parou de passar o rímel, me encarando pelo espelho com um sorriso de lado a lado.
- É hoje! – ela deu alguns pulinhos.
- É, é hoje. – ri abafado.
- Falando nisso, onde estão suas coisas? – perguntou, guardando o rímel dentro de um nécessaire. – Já colocou no ônibus ou quer que eu te ajude?
-Sobre isso... – mordi os lábios, olhando para os lados antes de continuar. – Eu tenho uma coisa pra dizer.
- Ah claro. – minha amiga continuou remexendo sua bolsa sem me dar muita atenção. – Mas acho melhor conversamos quando estivermos na estrada. Podemos nos atrasar e não seria nada legal se...
- , eu não vou. – a interrompi, finalmente dizendo o que queria.
- O quê? – seus olhos se arregalaram. – Como... como assim não vai?
- Não é algo muito difícil de entender. – tentei diminuir a tensão.
- É sim! – deixando sua maquiagem de lado, ela se aproximou. – Já parou pra pensar o que isso significa?
- Que vocês vão para uma turnê de seis meses e eu não. – dei de ombros.
- ... – minha amiga respirou fundo. – Pare de falar como se essa fosse a coisa mais normal do mundo, porque não é. Se ainda não percebeu, estou quase surtando.
- Não precisa se preocupar. – sorri.
- Querida, você é a personal stylist e maquiadora oficial da banda e eu sou apenas a sua assistente. – ela me segurou pelos ombros. – Acha mesmo que não vou me preocupar?
- Eu resolvi tudo direitinho, você não vai ficar só. – expliquei. – Apenas troquei de lugar com um outro personal daqui da gravadora mesmo.
- Não é a mesma coisa. – fez bico.
- É temporário. – eu disse. – Só enquanto a turnê durar.
Minha amiga respirou fundo, reprimindo a vontade de dizer algo que julguei ser inapropriado. Eu podia ver em semblante que ela não estava nada contente, porém, parecia compreender, em parte, a minha decisão.
- E por que isso justo agora? – ela quis saber.
- Preciso colocar minha cabeça no lugar. – respondi após um suspiro. – E só o tempo vai me ajudar.
- Então essa é sua solução. – um sorriso de canto surgiu em seus lábios. – Bem radical, senhorita .
Também sorri e, já pensando no quanto sentiria saudades daquela cabeça oca, a puxei pelo braço. Com carinho, a abracei forte e retribuiu o gesto. Apesar de ela ter entrado depois de mim na gravadora, criamos um vínculo muito forte. De fato, eu podia afirmar que aquela garota barulhenta e inovadora, era minha melhor amiga.
- Acho que já chega de carinho por hoje. – ela finalmente me largou e eu ri.
- É bom saber que me ama. – debochei, vendo-a pegar o nécessaire.
- Eu te amo sim. – ela disse enquanto saíamos do banheiro. – Só não sou tão dramática quanto você.
- Eu não sou dramática. – deixei o queixo pender.
- Viu! – riu, apontando para minha cara.
Ainda que tentasse parecer brava, o riso escapou. Gargalhando de nossas piadas internas, fomos até o ônibus que já esperava do lado de fora do local. De braços dados, avançamos pelo corredor, mas antes que chegássemos à recepção, demos de cara com e . Eles estavam bem animados e riam de um áudio no whatsapp do celular de .
- O que estão fazendo aqui? – perguntou.
- Ah, oi gata! – se aproximou, a abraçando pelos ombros. – Eu tinha esquecido minha jaqueta, então o voltou comigo pra pegarmos.
- Mas já encontramos, então podemos voltar. – disse.
- É melhor, pois o ônibus sai em quinze minutos. – a garota praticamente ordenou.
- Tudo bem, mamãe. –ele fez bico pra ela. – Vamos logo então.
Juntos, voltamos ao nosso trajeto. Dessa vez, os garotos e falavam besteiras e riam. Eu, ao lado de , permanecia calada, pensando nos minutos à frente. De soslaio, olhei para e me alegrei ao ver o quanto ele transbordava felicidade. Por outro lado, um aperto em meu peito me fez lembrar de que não veria aquele sorriso por um longo tempo.
Chegamos até a recepção e, sem coragem para sair e me despedir do outros garotos, parei na entrada. Minha ação fez com que os meninos me olhassem de uma maneira estranha.
- , algum problema? – perguntou.
- Não. – respondi.
- Então, por que parou? – dessa vez, questionou.
Engolindo seco, direcionei meu olhar para , parada um pouco mais à frente. Sem dizer nada, lhe lancei um sorriso fraco. Um pedido mudo para que me ajudasse. E ela, prontamente, entendeu.
- Er... . – colocando o cabelo atrás da orelha, minha amiga chamou a atenção do rapaz.– Será que poderia me ajudar com uma coisa?
- Claro. – ele respondeu, ainda que confuso.
- Ótimo. – forçando um sorriso, ela começou a puxá-lo para fora.
Entretanto, antes que saísse, parou por um segundo, largando-o e vindo até mim. Sem que eu esperasse, ela me abraçou novamente, passando as mãos em meu pescoço.
- Estou orgulhosa de você. – ela sussurrou em meu ouvido, suspirando em seguida. – Vou sentir sua falta, .
- Também vou sentir a sua. – respondi no mesmo tom.
Então se afastou. Sorrindo, me deu as costas e voltou até . Dizendo algo para ele, os dois seguiram para fora da gravadora, me deixando sozinha com . Fiquei longos instantes observando meus amigos se distanciando, até senti-lo ao meu lado. Mordendo o lábio inferior, criei coragem e o encarei.
me fitava de maneira estranha. Parecia confuso e preocupado ao mesmo tempo. E era difícil vê-lo daquela forma.
- , o que está acontecendo? – ele franziu o cenho.
- Precisamos conversar. – respondi.
- Mas agora? – sua expressão continuou a mesma.
- É, agora. – balancei a cabeça uma vez.
Sem esperar mais questionamentos, o agarrei pelo pulso, puxando-o para um canto onde pudéssemos conversar sem impedimentos. Abri a primeira porta que vi e entrei, o levando junto. Ao fechar a porta, acendi o interruptor, dando de cara com a pequena sala repleta de materiais de limpeza.
- Um quartinho de limpeza? – um sorriso malicioso surgiu no rosto de . - Sério?
- Não tem nada a ver com o que está pensando. – revirei os olhos.
- E então o quê? – ele abriu os braços, soltando um riso fraco. – , você está muito estranha.
- Só estamos aqui pra conversar. – apoiei as mãos na cintura.
- Tá. – olhou para os dois de forma sugestiva. – Estamos aqui.
Passando a língua entre os lábios, o encarei por alguns segundos, mas não podia demorar, logo ele precisaria voltar para o ônibus. Assim, resolvi que deveria parar de enrolar e revelar o que havia decidido.
- ... – comecei, dando dois passos em sua direção. – Antes de tudo, quero que saiba que estou muito feliz por essa conquista, vocês merecem.
- Mas... – erguendo as sobrancelhas, ele me incentivou a continuar.
- Mas você sabe o que aconteceu entre nós. – completei. – Não podemos fingir que não foi nada.
- , eu sei. – ele concordou, mas parecia mais confuso ainda. – Mas podemos conversar sobre isso depois, não podemos nos atrasar.
- É exatamente por isso que estamos aqui. – engoli seco, fixando meu olhar no seu. – Eu não vou com vocês.
- Como assim não vai? – arregalando os olhos, ele diminuiu a distância entre nós. – Isso é....é algum tipo de brincadeira?
- Não, . – neguei. – Nunca fale tão sério em minha vida.
- Você... – ele murmurou. - É minha culpa, não é?
- , não. – o segurei pelos ombros. – Apesar de ter a ver com o que sinto por você, é uma decisão minha.
- ... – ele passou a mão em meu cabelo. - Por que isso agora?
- Porque precisamos de tempo. – sorri por conta de seu gesto. – Desde o dia que soube que os nossos sentimentos não eram correspondentes, essa foi a conclusão a que cheguei.
- Quer um tempo pra pensar? – ele inclinou a cabeça um pouco para o lado.
- Quero tempo pra tudo. – disse. – Meu coração está despedaçado e continuar ao seu lado todos os dias sem poder... Eu não consigo.
Ficamos em silêncio por um tempo. Eu tentava segurar meu choro e parecia procurar as palavras certas para se expressar. Só após longos instantes é que ele falou.
- Vai mesmo ficar? – ele fitou o chão.
- Sim, mas não precisamos nos preocupar. - respondi. - Como você disse “vai ser como uma descoberta.”
- Está usando minhas palavras contra mim, senhorita ? – um riso abafado escapou por seus lábios entreabertos.
- Vamos reorganizar nossa vida, . – mordi os lábios. – E entender o que é isso entre nós.
- É o que quer? – ele perguntou.
- Vai ser o melhor para todos. – balancei a cabeça. – Vá, viva o seu sonho, . Eu estarei aqui fazendo o que amo. São seis meses para vivermos nossas vidas, separados, sem influências. Talvez eu não deixe de amá-lo, mas posso reconstruir o que sobrou do meu coração.
- Eu nunca quis fazê-la sofrer. – mordeu os lábios.
- E essa é a sua chance de se redimir. – soltei o ar pela boca. – Entenda, eu preciso ficar longe de você. Preciso...largá-lo de uma vez.
Continuamos nos encarando por um longo tempo. As lágrimas ameaçavam cair, mas eu me segurava, pois queria parecer forte. Se não resistisse, iria mudar de ideia e segui-lo. Esperei por um resposta, mas o que recebi de foi apenas um acenar positivo de cabeça. Mesmo que não entendesse minha decisão, ele aceitava e eu agradeci mentalmente por isso.
Achando ter dito tudo o que queria, virei na direção da porta, pronta para sair. Se continuasse ali, não aguentaria mais me segurar. Entretanto, antes que meus dedos tocassem a maçaneta, senti os de envolver meu pulso. O olhei confusa, mas não tive tempo para nenhuma pergunta. Me puxando em sua direção, passou seu braço livre em minha cintura, unindo nossos corpos num abraço.
Apesar da surpresa, retribuí o gesto, abraçando-o pelo pescoço.Me apertando mais contra si, ele afundou o rosto em meus cabelos e suspirou.
- Vou sentir sua falta. – as palavras saíram baixas.
- Eu também. – murmurei, acariciando seus fios.
Permanecemos assim por minutos incontáveis. Se pudesse, continuaria ali pelo resto da vida, sentindo aquele vapor que emanava de seu corpo quente. Era aconchegante e familiar. Todavia, eu não suportava mais viver uma mentira. Não fui feita para sofrer por alguém que não me amava. Mesmo que fosse uma boa pessoa, eu sabia que merecia mais.
Sentindo que meu limite se aproximava, o larguei e nos afastamos. Trocando sorrisos gentis, demos as mãos e saímos da sala de limpeza. Caminhando em silêncio, alcançamos a saída e nos dirigimos até o ônibus. Paramos ao lado deste e ficamos frente a frente.
- Então... – coçou a nuca. – Acho que isso é um... adeus?
- Não é um adeus. – sorri com sinceridade. – Nos vemos logo.
- Certo. – ele acenou com a cabeça. – Até mais então, senhorita estilista.
- Até mais, . – pisquei para ele. – Diga aos garotos que desejo a eles boa sorte.
Respirando fundo, o garoto soltou minha mãe e, após trocarmos um último olhar, ele se afastou.Lentamente, subiu as escadas do veículo, sumindo da minha visão. Quando a porta se fechou, me afastei, parando ao lado de mais alguns empregados da gravadora que também assistiam à partida.
Quando o ônibus finalmente começou a se movimentar, respirei fundo, sentindo uma pequena lágrima escorrer pelo canto do olho. Rapidamente a limpei, puxando ar para os pulmões. Renovando minha coragem, ergui a cabeça e cerrei os punhos. Agora, era a vez de pensar em mim.
Seis meses não seriam suficientes para deixar de amar e apagar todas as lembranças de minha mente, eu bem sabia. Além do mais, não esperava que quando ele voltasse, fosse me jurar amor eterno. Pelo contrário, era o momento para fortalecer as minhas barreiras, para seguir em frente.
Enquanto voltava para dentro da gravadora, percorrendo os longos corredores, me sentia mais leve a cada minuto. Pela primeira vez, tinha decidido a meu favor. Nunca iria odiar , mas talvez amá-lo não fosse a melhor opção. Por isso, precisava de uma nova.
E, sem sombra de dúvidas, a melhor delas seria enfrentar a realidade e aproveitar o tempo a meu dispor para que eu, finalmente, aprendesse a amar a mim mesma.


Fim.



Nota da autora: Hello, como estão, minhas caras? o/
Eu sou péssima nessas coisas de notas, mas queria dizer aqui o quanto foi especial escrever essa fic.
Peguei essa música de última hora, quando já escrevia outras histórias, porém, resolvi dar total atenção até que ela estivesse pronta. E, de certa forma, Vapor me cativou. Tudo fluiu da melhor forma possível e posso afirmar que amei escrevê-la. Me coloquei no lugar da pp e sofri junto com ela, sentindo tudo o que ela sentia, o que me fez mergulha no desenvolvimento da fic. Espero que gostem tanto quanto eu gostei do resultado.



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