Postada: 15/01/2018

Capítulo Único

“Chega, ! Eu não vou mais encobrir as suas besteiras! Dessa vez você vai arcar com as consequências dos seus atos!”
“Quando voce vai entender que eu fiz isso pro seu bem? Que droga, ! Foi pra merda do seu bem!”

Bufei irritado ao lembrar das duas frases que pareciam pertencer a um disco velho em minha cabeça e que eram as principais responsáveis por eu estar na merda em que estou agora. Por que o meu pai, um dos mais respeitados promotores de justiça da cidade de Montreál, tinha dado aquele showzinho todo sobre eu precisar assumir responsabilidades, afinal de contas? Ah claro, porque o amigo da onça que se intitulava meu melhor amigo – além disso, é meu primo. Estou bem, não é mesmo? – Resolveu abrir o bocão para o meu pai, dizendo que eu havia invadido a propriedade de um mauricinho qualquer. Isso mesmo, ele foi correndo contar tudo para o meu pai, com a terrível desculpa de que era para o meu próprio bem. Conta outra, , comigo essa não cola. E o resultado dessa apunhalada pelas costas? 6 meses de pena alternativa no Orphanate for Special Care of Montréal. Isso mesmo, um orfanato para crianças que possuem algum tipo de deficiência e, portanto, não possuem as mesmas chances de adoção do que as outras. Eu não tinha preconceito, mas não sabia lidar com isso e estava lá contra minha vontade. Querendo ir embora dali o mais rápido possível. Eu precisava sair dali o mais rápido possível, era uma questão de necessidade!
- Oi! – Uma voz adentrou meus ouvidos. Ergui meus olhos apenas para constatar o óbvio, era uma das crianças do orfanato, um menino que não devia ter mais do que 12 anos, e em seguida abaixei a cabeça novamente.
- Quero brincar! Vamos jogar bola! – Apontou animadamente para uma bola colorida que carregava embaixo de um dos braços.
Limitei-me a um sorriso fechado, voltando a arrancar uns pedacinhos de inço perto da árvore onde eu estava encostado e que haviam passado despercebidos por mim há dois dias, quando havia cortado a grama dos quintais da frente e dos fundos do orfanato.
- O gato comeu sua língua? – Quando me dei conta, a criança já estava com o rosto a poucos milímetros do meu. Respirei fundo, tentando controlar meu estado de irritação. Eu só queria ficar alguns minutos sozinho. Era pedir demais?
- Não, o gato não comeu a minha língua. E eu também não quero brincar. – Respondi, seco, voltando a apoiar minha cabeça no tronco da árvore e fechando os olhos.
- Mas, tio....
- JAKE! – A voz estridente da minha adorável supervisora da condicional pôde ser ouvida, chamando a atenção da criança levemente chorosa que até então tentava me convencer a brincar. – O Henry e a Mary estão te chamando para jogar bola com eles. Vai lá, querido! – Sorriu grande, o incentivando, recebendo o sorriso animado do garoto em resposta.
- Eu vou! – Jake soltou um grito, parecendo bastante animado com a proposta feita pela monitora. – Se você quiser ir, pode ir. – Olhou para mim, como se estivesse deixando claro que aquela era sua última tentativa. Como não esbocei reação, ele deve ter entendido que eu não mudaria de opinião. Por isso, sorriu novamente para e saiu correndo atrás dos amigos. Por falar em , logo após a saída da criança, ouvi um suspiro alto. Ia começar...
- ! – Gritou, esganiçada, com as duas mãos postadas na cintura, me encarando com um semblante raivoso de quem tinha como a maior vontade do momento a de matar.
- O que foi? – Perguntei, irônico, esticando uma das pernas sobre o chão. – Eu não posso me sentar por um tempo? Trabalhei duro, para sua informação! – Bufei irritado, rolando os olhos.
Sabe no desenho do Perna Longa, em que o Velhinho quando está com raiva fica muito vermelho e com fumacinhas saltando de suas orelhas? era a perfeita personificação disso, eu realmente podia quase ver fumaça saindo de suas orelhas e era engraçado, realmente engraçado. Tanto que eu poderia rir, se já não tivesse tão irritado com suas atitudes. Ela enchia o meu saco mais do que respirava. Não, não era exagero!
- Claro que pode. Se você realmente tivesse feito alguma coisa. O que DEFINITIVAMENTE não é o caso! – Berrou, com os olhos extremamente arregalados e postura de quem está pronto para arrancar a cabeça de alguém. Esse alguém com certeza era eu. Mas eu me importava? Claro que não. Eu queria mesmo era ver o circo pegar fogo!
- Eu conheço o seu tipinho, ah, conheço mesmo! – Esbravejou, me fazendo arquear a sobrancelha. Meu tipo? – Você é um filhinho de papai mimado que vive fazendo merda e quando tem que fazer uma coisa que preste, reclama mais do que uma velha chata e não faz direito!
O jogo havia virado. E muito bem virado. Porque agora era eu que com certeza parecia ter saído de um desenho animado e uma certeza maior ainda é que se eu não saísse agora eu ia matar a supervisora marrenta e aí sim que eu estaria ferrado. Mas que a vontade estava grande, enorme, isso estava. Quem diabos ela pensava que era para falar comigo daquele jeito?
- Chega! Pode ir descendo agora desse pedestal que só você acha que existe e para de me dar lição de moral! Você não tem droga nenhuma a ver com a minha vida! – Gritei, me segurando ao máximo para não avançar naquela garota, e saí andando sem me importar se ela continuaria lá ou não.
- Eu não estou um pedestal nenhum, seu filhinho de papai que não aguenta ordens! – Esbravejou, irritada, piorando seu estado quando me viu dar as costas.
– Não ouse me deixar falando sozinha, ! – Esganiçou, com aquela voz mais chata que eu já tinha ouvido e eu não fazia ideia de como conseguiria continuar ouvindo durante os próximos meses da condicional. A cadeia não parecia mais um lugar tão ruim, pelo menos lá eu não precisaria aguentar . - Não esquece que eu sou sua supervisora! Se eu quiser, posso te ferrar muito com o juiz!
- O que você quer, supervisora? – Ironizei, com os olhos focados em meu braço, que ela segurava com certa força. – Brigar comigo porque eu não brinquei com a criança? Sempre achei que fosse apenas um servente aqui e agora estou levando bronca porque não quis ser babá?
- Não é porque você não brincou com ele, caramba. É pelo jeito que você tratou ele! – A garota gritou, completamente transtornada e segurando mais forte meu braço a cada palavra. – Ele é um amor de criança e veio te fazer um pedido muito simples! Eram 5 minutos, !
- Mas eu não quero! – Gritei. Era tão difícil assim para aquela garota entender? – Eu não quero me envolver! O que eu quero fazer é a droga do trabalho comunitário e dar o fora daqui.
- Você quer mesmo fazer o seu trabalho, ? – Perguntou, com a voz mais contida, mas me encarando com chamas nos olhos. – Você desperdiçou o seu trabalho!
- Como? – Perguntei, com ironia, cruzando os braços em cima do peito.
- Aqueles cinco minutos eram o seu trabalho! Você está em um orfanato. Queria o quê? Trabalho de escritório? – Usou de ironia, me fazendo rolar os olhos, coisa que eu já tinha feito tantas vezes nos últimos dias que já havia até perdido as contas.
- Meu trabalho é limpar a droga do canteiro, os jardins, carregar coisa pesada e na cozinha. Eu não estou aqui para brincar com criança. – Usei o tom mais calmo que conseguia diante daquela situação, falando pausadamente, querendo que, de uma vez por todas, a professorinha perfeitinha entendesse que não, eu não estava lá para fazer mais do que o determinado pelo juiz. Apenas o estritamente necessário.
- Beleza, . Tudo bem mesmo. – Suspirou, como se tivesse esgotada. Mas é óbvio que era apenas atuação, ela não perderia a chance de me dar mais uma alfineta. – Aproveite a cadeia! – Piscou, na maior ironia de todos os tempos. Não falei?
- Pode deixar. - Respondi, cheio de sarcasmo, acenando despreocupadamente e deixando para trás a garota que com certeza arquitetava vários métodos de tortura para mim em sua mente e os quais eu simplesmente não me importava. Que comecem os jogos...

XXXX

’s POV ON

Terminei de guardar a última boneca no caixote de madeira onde as crianças guardavam seus brinquedos e suspirei, pronta para levantar e continuar meus afazeres. Mas antes que pudesse ao menos me mexer, ouvi movimentação de passos, barulho de pneus e algumas batidas metálicas no piso laminado. Eram as crianças, com certeza. Parei para observá-las e franzi a testa. Elas pareciam cabisbaixas, conversando baixinho umas com as outras. Não conseguia compreender o que elas diziam, por estarem longe de mim, mas tinha uma boa ideia de qual era a pauta do assunto dos pequenos. Rolei os olhos e respirei fundo. Eu precisava falar com eles, não podia deixar que aquele panaca mimado os deixassem tristes daquele jeito.
- Crianças! – Chamei alto para que elas me escutassem e automaticamente sete pares de olhos se focaram em mim. Sorri e gesticulei com a mão para que eles viessem até onde eu estava.
- Oi, tia ! – Todos me cumprimentaram com beijos na bochecha, os quais retribui com abraços apertados e beijos na testa.
- Agora me digam o motivo para essas carinhas tristes. – Perguntei, fazendo carinhos nos cabelos de Charlotte, que estava sentada em meu colo.
- O tio . – Henry respondeu, suspirando igual a um adulto. Seria engraçado, se o motivo não fosse não ruim. E se eu não estivesse com vontade de matar . O que definitivamente eu estava. – Ele não gosta da gente.
- Por que vocês acham isso? – Gaguejei. Tudo bem que eu tinha a mesma impressão, mas não queria que as crianças percebessem isso, apesar de ser impossível.
Não queria que elas se sentissem rejeitadas. A última coisa que elas precisavam era isso e eu não deixaria que o filhinho de papai com quem eu trabalhava fosse o responsável por isso.
- Porque ele é um chato! – Mary declarou, cruzando os braços e fazendo bico, em uma demonstração clara de seu descontentamento.
- A gente chamou para brincar e ele não veio! – Christopher completou, demonstrando tristeza em seu tom de voz.
- Aquele dia eu chamei e ele não veio. – Jake respondeu, bastante chateado. Eu me lembrava muito bem daquele dia. Tinha sido a ocasião da minha briga mais feia com . Naquele dia eu sentia como se pudesse matá-lo a qualquer momento e naquele momento, relembrando tudo, o sentimento voltava tão forte quanto a primeira vez. – E não foi só daquela vez, é sempre assim!
- Ele fez mais alguma coisa? – Perguntei, com receio. Se eu soubesse que ele tinha encostado em um fio de cabelo das crianças, quem seria presa era eu, porque eu cometeria um assassinato.
- Não, ele só disse que não podia. E voltou a limpar o jardim. – Jake garantiu, cabisbaixo. Todas as outras crianças afirmaram, como se comprovassem as palavras do amigo. Aquilo vinha acontecendo com todos eles. Suspirei.
- Por que ele é tão chato? – Mary perguntou, enrolando distraidamente uma mecha de seu cabelo castanho perfeitamente liso. – Não ri, não brinca e vive de cara feia. Não gosto disso! – A garotinha bateu o pé, emburrada.
- Sentem aqui. Vamos conversar sobre isso, tudo bem? – Dei uma batidinha no chão e todos sentamos em roda. Respirei fundo, procurando uma maneira de conversar sobre aquele assunto com eles.
- Tia sabe por que o tio é tão chato. – Soltei, observando o rosto de cada um. Eles me encaravam com a maior expressão de confusão em seus rostos.
- Ele não comeu hoje? A gente fica chato quando tá com fome! – Henry pontuou, como se sua teoria fosse a mais correta possível. Ri baixo e depois afirmei, mostrando que sim, ele tinha comido.
- E o que ele tem? – O garotinho perguntou, curioso.
- Sabem as historinhas de contos de fada que as irmãs leem pra vocês antes de dormir? – Todos afirmaram, bem atentos. – Em muitas delas tem uma bruxa má, muito má, que faz coisas ruins com a princesa, certo?
- Certo, tia !
- Foi isso que aconteceu com o tio . Uma bruxa má lançou um feitiço nele e agora ela está sempre assim, triste, sem sorrir e sem querer brincar. – Fiz careta para comprovar minhas palavras e ela foi repetida pelos pequenos.
- Ele é uma princesa? – Jake sustentava uma careta muito engraçada. Prendi a risada, imaginando a cena de usando um vestido bufante.
- Ele é menino, Jake. É um príncipe! – Corrigi, segurando a careta de descontentamento. Se tinha uma coisa que não tinha se mostrado ser até o presente momento, essa coisa era príncipe.
- E como a gente reverte o feitiço? – Henry perguntou, interessado.
- Um beijo! TIA , BEIJA ELE! – Jammie, a apaixonada por história de príncipes e princesas gritou, me fazendo arregalar o olho com a proposta.
- Quê? Não, não. Não cura com beijo, gente! – Ri nervosa. Eu beijar o ? Não, muito obrigada. Isso não aconteceria.
- E como cura? – Jake perguntou, com uma careta.
Na certa ele já tinha várias teorias doidas de como seria possível curar o tio . E eu não conseguia me decidir se gostaria de saber quais eram essas teorias ou não. Repliquei a careta, procurando uma boa resposta para eles.
- A gente precisa fingir que ele é invisível! Como o Harry quando coloca a capa da invisibilidade! – Arregalei os olhos para os convencer de que a ideia era boa e que eles deveriam segui-la.
- SÉRIO? – Gritaram, animadas!
Não devo ter comentado, mas aqueles sete eram loucos pelo bruxinho mais famoso do mundo.
- Jura que assim ele volta a ser um príncipe, tia? – Jammie perguntou, baixo, com os dedinhos na boca. Sorri e afirmei.
- Sim! Ele volta a ser um príncipe muito legal e vai brincar muito com vocês! – Usei o tom mais convicto que consegui.
As crianças comemoraram animadas que agora tinham um plano de fazer o tio voltar a ser legal, eles estavam convictos de que iam ajudar o moço. Vieram até mim e me abraçaram, o que retribui prontamente e da melhor forma que conseguia. Eu estava feliz pela repentina felicidade das crianças, ainda que eu não soubesse se aquilo daria certo, se adiantaria de alguma coisa. Mas eu esperava que sim. Aliás, eu rezava com todas minhas forças para que desse certo. Tinha que dar certo!

’s POV OFF

XXXX

Saí da casa carregando uma vassoura e um rastelo em uma das mãos e uma pá e um saco de lixo na outra. Caminhei até o canteiro de rosas da Irmã Louise, do qual eu estava cuidando. Varri as folhas e as pétalas, as coloquei em um monte para colocar no saco de lixo.
Algum tempo depois, um barulho me chamou a atenção, eram risadas altas. Ergui os olhos e sorri com a cena que se desenrolava em minha frente. As crianças brincavam, todas juntas, de uma brincadeira educativa. Era uma cena encantadora que eu daria tudo para fazer parte. Mas infelizmente eu não podia, pois eles estavam me ignorando há uns bons dois meses. Não me chamavam para as brincadeiras, não puxavam conversa, nem sequer olhavam para minha cara por muito tempo. Eu já não aguentava mais, simplesmente não aguentava. Queria e precisava mudar a situação. Quando uma música infantil foi ligada e eles começaram a dançar todos juntos, vi minha chance.
Peguei a vassoura e aproximei do meu corpo, começando a dançar com ela, como se ela fosse um par de dança. Eu dançava de forma engraçada, fazendo movimentos e giros exagerados. Quem visse de fora, com certeza poderia imaginar que eu estava louco. E na verdade eu estava, louco para que as crianças me notassem outra vez. Em um dado momento, percebi pelo canto do olho que Jammie me observava, mas, assim que olhei para ela, virou o rosto, voltando a atenção para os amigos. Poxa, Jammie, até você? Suspirei, mas não deixaria aquilo me abater. Pelo contrário, seria um impulso para eu conseguir recuperar a atenção e o carinho deles.
Voltei a dançar, mas dessa vez eu cantava junto. Alto, a plenos pulmões. Sim, uma música infantil! Comecei a pular como se eu fosse um astro do rock, balançando as mãos e a cabeça para cima e para baixo. Foi aí que me distraí, pisei sem querer no rastelo e o treco se mexeu, me fazendo cair de bunda no chão e pernas para o ar. Resmunguei pela dor, mas logo abri um largo sorriso. As crianças estavam rindo! De mim!
- CONSEGUI! – Gritei, feliz, com o braço para cima como se comemorasse um grande feito. E era! Depois de décadas eu estava sendo notado outra vez! – YEAH! TIO É O MELHOR!
- Você caiu engaçado, tio ! – A pequena Jammie já se encontrava vermelha devido às suas gargalhadas.
- Eu tropecei no rastelo. – Ri alto, levantando e limpando minha camiseta com estampa do Super-Homem usando o banheiro enquanto lia jornal. Eu era orgulhosamente geek!
- Tapado! – Jake zoou, rindo.
- Onde você aprendeu esse palavreado feio? – Me fiz de ofendido, mas na verdade tudo que eu queria era rir.
- Com você!
- Comigo nada! – Neguei veementemente, enquanto o garoto soltava uma gargalhada alta.
- Posso brincar com vocês? – Soltei de uma vez e todas se retraíram, como se não soubessem o que responder. Me encolhi também, com um sorriso sem graça. Mas eu não podia desistir. Eu precisava tentar tudo que fosse possível. – Por favor, eu tive que cair para chamar a atenção de vocês! Vai, gente, deixa eu brincar. Eu conheço um monte de brincadeira legal! – Fiz bico. – Jammieeeeeee! – Apelei para a garotinha mais fofa do mundo. Se tinha alguém que poderia me ajudar, esse alguém era Jammie.
- Eu? – Perguntou, surpresa, com os dedinhos na boca. Ela sempre fazia isso quando se sentia tímida ou triste. No momento acho que era um pouco dos dois sentimentos. Ela me encarou desconfiada. - Você gosta de bincar?
- Claro que sim! – Garanti, pulando, instantaneamente animado. Começava a surgir uma pontinha de esperança em meu coração.
- O Jake e o Henry disselam que não! – Apontou para os dois meninos, que deram de ombros. Senti uma pontada em meu coração. Eu sabia exatamente por que eles pensavam assim, eu havia feito eles acreditarem nisso.
- A gente chamou para brincar várias vezes e você não foi! – Henry respondeu, chateado.
- É, você não quis jogar bola! – Jake resmungou, mostrando seu claro descontentamento com minhas atitudes.
- Desculpa. – Pedi, sinceramente, com uma careta que podia se passar por cara de dor.
- A gente achou que você não gostava de nós. – Jammie declarou, tristemente e eu senti meu coração se quebrar em vários pedaços.
- Claro que eu gosto, eu gosto muito de vocês! – Usei toda a sinceridade do mundo em minhas palavras. Eu tinha me apegado a eles, eu sem dúvida os amava e precisava que eles acreditassem nisso.
- Eu sei que não fui legal com vocês muitas vezes, e eu espero que vocês me desculpem por isso, não era culpa de vocês. Nunca foi. Eu só estava triste. – Suspirei. Eu já me sentia mais preparado para contar a história. Já doía um pouco menos, ainda que a situação não estivesse resolvida até o momento.
- A tia disse que você estava triste. – Todos falaram juntos e arregalei os olhos. Ela tinha percebido? E falado com as crianças sobre isso?
- Ela estava certa, a tia estava certa mesmo! – Declarei, depois de um suspiro.
- Por que você tava tiste, tio? – Jammie perguntou, se embolando um pouco nas palavras, mas já abrindo os braços para que eu a pegasse no colo. O que eu fiz prontamente e beijei sua bochecha. Ela se encolheu em meus braços, deitando a cabeça em meu ombro.
- Vocês têm um melhor amigo? – Todos afirmaram, falando o nome de seus respectivos melhores amigos. – Eu também tenho. Mas a gente brigou. E eu estava muito triste e irritado por causa disso.
- Bigou? Não pode bigar, tio! – Jammie perguntou, alarmada, com os olhinhos grandes.
- Eu sei, pequena Jammie. – Beijei sua cabeça e sorri fechado. – Eu queria pedir desculpa, mas não sei se ele vai aceitar. E eu achei que eu podia brincar com vocês e aí eu ia pensar em um jeito legal de pedir desculpa.
- Vocês são amigos de jogar vídeo game e bola juntos? – Jake perguntou, sério e eu afirmei.
- A gente viaja junto, joga vídeo game, futebol, brinca na piscina. – Ri.
- Então ele vai aceitar, tio. Relaxa! – Jake respondeu, abanando a mão, a que não tinha se formado direito antes do nascimento, certo de sua afirmação e eu ri da pose no garoto. Ri mesmo. Alto!
- Mesmo? Se me pôr pra correr, eu levo você lá! – Zooei e o menino riu, mas afirmou, bem seguro do que dizia. Tudo o que eu mais queria no mundo era que ele estivesse certo e tudo voltasse a ser como era antes desse furacão aparecer.
- Você pode ser nosso amigo, tio ! – Jammie declarou, sorrindo largo e quase me fazendo chorar e derreter!
- EBA! POSSO MESMO SER AMIGO DE VOCÊS? – Eu estava muito, muito feliz com aquilo. Muito mesmo!
- PODE! – Gritaram em coro, completamente animados e a próxima coisa que senti foi os pares de braços ao meu redor, me abraçando e enchendo de cócegas. Eu só sabia espernear e rir, completamente feliz! Feliz de verdade!
- Vocês são incríveis! Meu Deus! – Sabe a sinceridade? Pois é, ela era a maior do mundo.
E foi ali, entre bonecas e bonecos de super-heróis, risadas, histórias mirabolantes e muita alegria, que eu me reencontrei. Eu era o outra vez. Não o moleque mimado que não media as consequências de seus atos, mas sim o nerd que não media esforços para ver aqueles que ama felizes. E era ali, no meio daquelas adoráveis criaturas, que eu queria ficar. O Orphanate for Special Care of Montréal era o meu lugar.

XXXX

Limpei minha calça, que estava cheia de grãos de pólen das flores do jardim em que eu estava trabalhando, antes de entrar na casa e me dirigir para a despensa onde eu guardava os equipamentos de jardinagem. Porém, antes de conseguir chegar ao meu destino, me deparei com uma cena estranha. As freiras e conversavam no escritório e elas pareciam preocupadas. Franzi o cenho e me aproximei cautelosamente da porta para tentar descobrir o assunto daquela conversa. Bom, eu já não tinha mais certeza se gostaria de ter feito isso, pois o assunto não era bom. Não era bom mesmo e fazia minhas mãos suarem frio. Mas eu já tinha ouvido e não tinha como voltar atrás. Minha única solução era fazer o possível para ajudar a reverter a situação. E era isso o que eu faria.
Alguns minutos depois a conversa acabou e as freiras voltaram a seus afazeres, deixando apenas no cômodo, analisando vários papeis. Respirei fundo e entrei no cômodo com cuidado para que ela não achasse que eu estava bisbilhotando e ouvindo a conversa escondido. Sim, era o que tinha acontecido. Mas a intenção não era ruim, pelo contrário, era a melhor possível. Eu queria fazer de tudo para ajudar!
Ao me aproximar de , notei que ele estava com a cabeça baixa e seus ombros subiam e desciam de maneira descompassada. Espera... Ela estava chorando? Ai meu Deus, ela estava chorando! Arregalei os olhos, assustado. Eu nunca tinha a visto chorando e sinceramente nunca achei que ia.
- . – Comecei, receoso e bem assustado. A verdade era essa, eu estava assustado! – E-eu ouvi a conversa sem querer.
- Não se preocupa, o juiz vai te redirecionar para outro lugar. – Respondeu, com a voz embargada. Franzi a testa, totalmente confuso, até me dar conta de que ela estava falando da condicional, achando que a minha preocupação era essa.
- Não! Não! Você não está entendendo! – Eu estava nervoso, bem nervoso. Ela tinha que entender que a condicional era minha última preocupação do momento!
- Então não vejo como essa pode ser uma preocupação para você. – Respondeu, me encarando com os olhos cheios de lágrimas.
Meu coração parou naquele momento. Simplesmente estava odiando vê-la daquele jeito, ver o orfanato naquela situação. E como diabos isso não seria minha preocupação? Era do orfanato que estávamos falando! Das crianças!!
- E as crianças pra onde vão? O que vai acontecer com vocês? E com as freiras? E a casa? , esse lugar tem história! Não pode acabar assim! – Disparei o monte de perguntas, nem parando para respirar. Mas é que eu realmente estava muito nervoso e assustado. O orfanato não podia fechar! De jeito nenhum!
- A casa não tem outra solução, vai ser leiloada. As Irmãs colocadas no convento ou algum outro orfanato. E as crianças provavelmente vão ser colocadas em outro orfanato. Com crianças normais. – Finalizou, com uma careta e a voz embargada.
Dessa vez meu coração realmente havia parado devido ao choque. Como assim orfanato com crianças normais? Não, não era certo! As crianças precisavam de cuidados especiais! Elas precisavam de nós, caramba!
- Eu quero e posso ajudar, , por favor! Me deixa ajudar vocês! – Pedi, não, aquilo era quase uma súplica. Eu precisava fazer alguma coisa! Eu precisava ajudar!
- A gente vai dar um jeito. – dispensou, me encarando com os olhos fundos e desacreditados. Eu queria morrer, simplesmente morrer. Sim, eu tinha feito um monte de bobagem, mas eu estava falando sério dessa vez. Eu queria ajudar!
- Eu estou falando sério, eu quero ajudar! – Tentei de novo, morrendo por ela não acreditar nas minhas intenções. Que elas eram as melhores possíveis.
- Não venha querer dar uma de bom samaritano, ok? Todos sabem que o que você quer é dar o fora daqui o mais rápido possível. Essa sempre foi sua intenção! – Era, , essa era a minha intenção. Passado, um passado que já havia ficado para trás fazia algum tempo.
- Não! – Respondi, em um esganiço. – Deixa eu ajudar! Eu posso!
- Não, , você não quer. E outra, a gente não teria como te pagar depois, então... não, sem chance. – Meu Deus do céu, por que diabos tão cabeça dura? Era teimosia demais para uma pessoa tão pequena.
- Só me deixa ajudar! Eu não quero saber se eu vou receber ou não, eu quero ajudar. Apenas ajudar! – Praticamente gritei. Eu realmente não sabia mais o que fazer, eu só queria morrer!
- Não, . Não! – Decretou, séria e parecendo calma enquanto eu arrancava os cabelos. Droga de garota teimosa!
- Algum problema? Aconteceu alguma coisa, Sr. ? – Irmã Dulce perguntou, calmante, com a cabeça para fora da porta da cozinha, onde ela provavelmente começava a ajudar a auxiliar na preparação do jantar das crianças.
- Nada, irmã, é só que... – Comecei, mas logo fui interrompido por .
- Nada, irmã! Estou de saída, ok? Vou passar no banco! – Sorriu para a freira, logo levantando e pegando sua mochila.
- , você está liberado por hoje! – Irmã Dulce se dirigiu a mim com um aceno de cabeça.
- Mas...
- Você está liberado. – A freira reforçou seu comunicado anterior, me lançando um sorriso fechado.
Suspirei derrotado e me retirei. Mas com a certeza de que eu não estava conformado com a recusa. Eu iria fazer alguma coisa para ajudar a salvar o orfanato da falência. Ainda não sabia o que faria, mas, com certeza, ficar de braços cruzados não era uma opção que me agradava.

XXXX

Finalmente minha vida estava verdadeiramente voltando ao normal, eu me sentia novamente o garoto nerd que havia perdido o rumo, o que tanto fez questão de esfregar na minha cara. E o fato de as crianças estarem correndo perigo de perder o próprio lar era o que impulsionava a dar o meu melhor. Resultado disso? Eu tinha finalmente e graças a eles, feito as pazes com o e ainda da melhor maneira possível, fazendo eu me dar conta de que amizade de verdade ia muito mais além de sair, beber e curtir, as amizades de verdade te acompanham nos piores e melhores momentos e de uma coisa eu tinha certeza, meus amigos eram incríveis. Incríveis por não desistirem de mim e nem daquelas crianças.
Estacionei meu carro em frente à casa e imediatamente abri sem dúvidas um dos maiores sorrisos que já havia dado na vida. O motivo de tanta felicidade? A cena que se apresentava em minha frente. Os meninos brincando no quintal da frente do orfanato, acompanhados de e Jennie, a outra voluntária que trabalhava no orfanato. Respirei fundo e deixei o veículo, logo indo em direção à carroceria do mesmo. Peguei os dois grandes sacos que havia trazido e os arrumei em meus braços, em seguida me dirigindo para onde as crianças se encontravam.
- OLÁ, CRIANÇADA! – Anunciei minha presença, gritando bem animado.
E as reações foram as mais diversas. No mesmo momento as crianças viraram na direção de minha voz, enquanto Jennie sorria parecendo feliz pela minha presença e mantinha os olhos arregalados, parecendo chocada. E por quê? Bom, porque era domingo, nesse dia da semana eu estava dispensado do meu “castigo”. Mas claro que eu não o considerava mais como algo ruim, eu amava passar meus dias com aquelas crianças, com aquelas pessoas, não podia deixar que tudo se acabasse só por que o orfanato passava por dificuldades financeiras. Mas agora eu tinha um plano, e esse era o motivo principal para eu ter ido até lá em pleno domingo.
- OI, TIO ! – Gritaram em coro e todos os que conseguiam, ainda que com dificuldade, correr, vieram até mim. Abri os braços, os esmagando ali.
- OI, MEUS AMIGUINHOS! – Gritei mais uma vez, os abraçando o mais forte que podia e acenando animadamente para os que estavam um pouco mais longe. – Sabem que ontem me bateu uma saudade louca de vocês? – Ri e todos comemoraram. E não era mentira, nem de longe. Na última semana, desde que tinha ficado sabendo da dificuldade financeira que o orfanato enfrentava, não conseguia tirar aqueles sete anjinhos da minha cabeça nem por um momento sequer.
Depois de me soltar do aconchegante abraço, peguei novamente os dois sacos e me dirigi até onde o restante do grupo se encontrava. Larguei os sacos para beijar e abraçar o grupo de pequenos que havia ido me encontrar na chegada. Depois virei para as duas adultas, vendo que elas ainda me encaravam com as mesmas expressões.
- Oi, Jennie! Oi, ! – Cumprimentei, acenando.
- Oi! – Jennie respondeu ao cumprimento, acenando alegremente.
- Olá, ! - Tentei mais uma vez, prendendo o riso quando vi Jake a cutucar para que acordasse do seu transe. Balançou a cabeça, atônita. HÁ! Ponto para mim!
- O que é isso? – Apontou para o saco dos presentes, com voz baixa.
- Presentes! – Respondi, sorrindo. – Todo mundo gosta de presente, criança gosta de presente. Pelo menos eu adorava!
- Sim, sim. Eles adoram! – Respondeu, com um sorriso grande no rosto. 2X0 para ! – Crianças, tio trouxe presente! Legal, né! – Exclamou, feliz. Muito feliz.
As crianças arregalaram os olhos, completamente animadas e agarram minhas pernas, as abraçando em agradecimento e me fazendo rir. Meu Deus, eu realmente amava todos eles, como demorei tanto tempo para perceber?
- Então, vamos lá! Eu não sabia o que todo mundo gostava, trouxe vários para cada um, ok? – Sorri, mesmo que por dentro me sentisse um pouco chateado por não conhecer tanto as crianças como eu gostaria.
Eu tinha perdido tanto tempo! E por idiotice minha! Mas agora não era hora de me lamentar e sim de aproveitar tudo aquilo, aproveitar aqueles serezinhos que, mesmo já tendo enfrentado tanta dificuldade na vida, não perdiam o brilho no olhar e se alegravam por qualquer coisa, por mais pequena que fosse. Eu tinha aprendido muito com eles, e com certeza precisava aprender muito mais. Todo o mundo precisava, porque era só daquele jeito que as coisas poderiam mudar. Só a gente enxergando o mundo com os olhos de uma criança.
- Aqui tem roupa! – Ergui a sacola amarela. – E aqui tem brinquedo! – Foi a vez da sacola vermelha.
Todas as doações vieram do hospital que os pais da minha melhor amiga mantinham no centro da cidade. Entreguei a sacola de roupas para Jennie, para que depois as peças pudessem ser guardadas nos armários onde eram guardadas as roupas das sete crianças. Depois entreguei a sacola de brinquedos para para que ela distribuísse às crianças, conforme as preferências de cada uma. Depois de receber mais uma enxurrada de abraços, peguei os dois últimos presentes que faltava entregar.
- Esse é para a Tia Jennie. – Entrei para a adolescente, que sorriu grande ao ver a camiseta com estampa de cachorrinhos. Eu estava para conhecer alguém que gostasse mais de cachorro do que ela. Duvidava muito que existisse.
- E esse é para a Tia ! – Entreguei para a garota, que me encara de novo com os olhos arregalados e se encontrava meio estacada. – Não sei se você gosta, mas.... – Ri um pouco envergonhado, dando de ombros.
- ! – Ralhou, mas rindo e pegou o pacote de minhas mãos. – Não precisava, de verdade, apenas para as crianças era mais do que o suficiente!
- Claro que precisava! Não reclama e abre logo! – Também fingi ralhar, rindo.
- Calma, já vai! – Respondeu, soltando uma risada enquanto rolava os olhos. Por fim, abriu o embrulho e na hora eu soube que ela tinha gostado do pingente. Seus olhos brilhavam!
- Obrigada, , é lindo! – Agradeceu sorrindo um sorriso muito bonito e me fazendo imitá-lo sem ao menos perceber. Puxei ela para um abraço e ela depositou um beijo em minha bochecha. Depois disso, me juntei a eles, participando dos mais variados tipos de brincadeiras que a imaginação sempre fértil dos meninos e das meninas pudesse inventar.

XXXX

Algum tempo depois, olhei no relógio em meu punho e me assustei. Já era tarde e as crianças haviam passado muito tempo sem comer.
- Quem está com fome? – Perguntei, rindo e todos levantaram as mãos. Alguns até mesmo as duas, o que me fez rir.
- Tia ! Me ajuda a preparar? – Direcionei minha atenção para a garota, que riu e concordou. Estiquei minha mão para ajudá-la a levantar e fomos até a cozinha preparar salada de fruta.
- Legal você ter aparecido aqui no seu dia de folga, ! – sorriu grande para mim. Era bom ver ela orgulhosa de mim para variar um pouco. – E os presentes são lindos! Eles adoraram, com certeza!
- Eles merecem! – Pisquei rindo e ela concordou, sorrindo. Voltamos ao nosso trabalho de descascar as frutas. Percebi que nós éramos uma dupla e tanto, trabalhávamos em sincronia.
- ?
- Oi. – Respondeu, dividindo a atenção entre mim e o trabalho que continuava executando.
- Eu quero de verdade ajudar com as dívidas da casa. Muito, muito mesmo! – Falei, convicto, a encarando. Ela suspirou, parecendo cansada.
- Já falei, . Não dá!
- Por que não dá? Me dá um motivo! – Dessa vez eu não deixaria ela me enrolar. Eu iria convencê-la, nem que precisasse vencer no cansaço!
- Porque é complicado! – Esganiçou, nervosa.
- Não é complicado se você não quiser que seja! Para de ser chata e me deixa ajudar! – Peguei em sua mão, querendo fazer que, com aquele gesto, ela acreditasse em mim. Suspirou, parecendo exausta.
- Eu sei que eu sou um liso encostado que não tem dinheiro para nada e que vocês não aceitariam o dinheiro dos meus pais. Aliás, de ninguém diretamente. Mas eu e meus amigos encontramos uma solução. Nós temos um plano!
- Solução? Que solução, ? – A garota me encarou desconfiada e eu abri o maior sorriso do mundo.
- Um leilão, . Nós vamos fazer um leilão!

XXXX

Girei nos calcanhares, observando cada mínimo detalhe do que havíamos feito nos últimos dois dias no quintal dos fundos do orfanato. Estava tudo lindo, simplesmente lindo. E eu não poderia estar mais satisfeito! Eu havia cortado a grama, enquanto arrumava as fileiras de cadeiras, onde as crianças, nossos vendedores, e os compradores – vulgo, meus amigos – se sentariam. Depois disso, as meninas confeccionaram a faixa onde se lia “Bem-vindos ao 1° Leilão de objetos mágicos do Orphanate for Special Care Of Montreal”, enquanto nós, garotos, construíamos um pequeno palco de pallets. O sorriso grande e orgulhoso nunca mais sairia da minha cara, essa era uma certeza muito presente para mim, junto com aquela de que sim, nós salvaríamos o orfanato! Virei novamente para frente, já vendo meus amigos sentados em suas respectivas cadeiras. Respirei fundo e subi no pequeno palco. Hora do show!
- Boa noite, compradores! – Saudei, conseguindo a atenção de todos.
- Boa noite, ! – A resposta veio em coro. Até as crianças, que geralmente me chamavam de “tio”, adotaram uma postura mais adulta para a ocasião.
- Eu e minha ajudante, , estamos aqui para leiloar alguns objetos mágicos! – Ri, arregalando os olhos, como se para reforçar minhas palavras e recebendo um coro de comemoração em resposta. – Então, crianças, vendam bem o produto, temos ótimos compradores! – Pisquei, recebendo olhares cúmplices.
- Todos prontos? – Perguntei, focando a atenção nos vendedores, que fizeram um coro de “SIM” mais do que animado. – Então vamos começar!
- Quem quer ser o primeiro? – Perguntei, olhando para as crianças, esperando que alguma se manifestasse. Vi uma mãozinha estendida e abri um sorriso que eu sabia que poderia rasgar minha boca a qualquer momento.
- A JAMMIE! – Gritei, animado, logo descendo do palco para buscá-la.
Sim, buscar as crianças para que elas apresentassem seus itens era a função de , mas eu não me importava. Havia estabelecido uma ligação muito forte com Jammie, que até agora eu não sabia definir o motivo. E duvidava que algum dia fosse conseguir. Aquela pequena garotinha tinha me encantado! Desci e a peguei no colo, arrumando seu vestido clarinho de rendinhas, que a deixava parecendo um anjinho. Beijei sua bochecha e voltamos ao palco.
- Então, Jammie, que objeto incrível você tem pra gente?
- Posso levar ela pra casa? DEIXA! – se manifestou, quase babando e dando a impressão de que, se fosse possível, corações sairiam de seus olhos. Não, . Se alguém vai levar ela para casa, esse alguém sou eu!
- É uma tiala de pincesa, tio ! – Levantou um arco metálico, igual aos que eu já tinha visto colocar tantas vezes em sua cabeça, e sorrindo um sorriso largo. Provavelmente aquele era um dos arcos dela, o que tornava tudo ainda melhor. Ela estava oferecendo algo importante para ela! – Ela tlansforma a menina na pincesa mais bonita de todas!
- EU QUERO! – O coro desesperado de meus amigos pôde ser ouvido.
Sim, até os meninos estavam no páreo. Do jeito que ia, o leilão tinha tudo para ser um sucesso! Jammie colocou o arco em sua cabeça, sorrindo tímida, certamente aquilo era uma demonstração do produto. Era oficial, eu me encontrava total e completamente rendido por uma criança de três anos!
- SOCORRO! QUE PRINCESA LINDA! – gritou, com o sorriso bem esticado.
- Tira o olho, ! Essa tiara vai ser minha! – David apontou o dedo em riste para o amigo, como se aquilo fosse um leilão dos mais importantes já feitos e aquele fosse um item extremamente raro e valioso.
- SAI! É MINHA! – , a desesperada do grupo, gritou, de olhos arregalados. Alguém tinha dado muito açúcar para ela, não era possível ela estar normal.
- Não é sua, ! Eu quero ser uma princesa linda! – Jeff fez sua voz se sobrepor. Quase ri, imaginando o careca usando aquela tiara. Ia, com certeza, ser a cena mais engraçada do mundo.
Jammie riu tímida por estar recebendo toda aquela atenção para ela, se encolhendo no meu colo. Ri, achando a coisa mais lindinha do mundo, e a esmaguei em meus braços.
- Ela também serve para menino, Jammie? – Chuck perguntou, fazendo um bico gigante. Jammie repetiu o gesto, pensativa, e em seguida colocou o objeto em minha cabeça, sorrindo satisfeita.
- SIM! SERVE, TIO! – Gritou, animada e foi minha vez de fazer bico. Mas quem eu queria enganar? Eu colocaria vestido e dançaria Macarena se aquela pequena me pedisse.
- Demonstração feita, que comecem os lances! – Gritei animado, anunciando o começo daquilo que, eu tinha certeza, seria uma das melhores noites da minha vida.
Depois de muitos lances, gritos, agitação, o vendedor foi finalmente conhecido...
- VENDIDA PARA O SENHOR COMEAU, ALI! – Anunciei animado, para um Chuck que fazia uma dancinha comemorativa totalmente ridícula. Coloquei Jammie no chão e, juntamente com , ela foi entregar a mais nova aquisição do meu amigo, que a pegou no colo.
- Você tá lindo, tio! – Disse, esmagando o rosto do mais velho com as mãozinhas e arrancando suspiros de todos os adultos presentes.
- Eu sabia! Yey! – Chuck comemorou. – Mas mais linda que você eu não estou! – Sorriu todo galante, fazendo a pequena rir toda encabulada, com os dedinhos na boca. Coloquei a mão no peito, diante daquela cena mais linda do mundo,
- ‘Bigada’, tio! – Agradeceu, baixinho, se acomodando no colo do mais velho para tirar a foto que confirmava a venda. Feito isso, cada um voltou para o seu respectivo assento.
- Podemos continuar? – Novamente recebi gritos animados e uníssonos como resposta, o que me fez rir. – Quem quer ir agora?
- EU! – Ouvi um grito repentino e arregalei levemente os olhos, tentando identificar quem era o dono daquela vez. Quando vi, minha única ação foi rir. Aquele moleque era doido!
- VEM, JAKE, VEM! – Gritei empolgado, gesticulando com as mãos para que o menino subisse no palco. O que ele fez sem a menor cerimônia, pois subiu pulando.
- OLÁ, COMPRADORES! – Cumprimentou a todos como se fosse um apresentador de programa de TV ou algo do tipo.
- OI, JAKE!
- E aí, campeão, o que trouxe hoje? – Perguntei, ainda rindo do jeito espontâneo com que ele se portava.
- Um boné da invisibilidade! – Informou, com os olhos grandes, deixando claro que aquele era um ótimo produto, quem sabe até mesmo o melhor da noite.
- VOCÊS TIREM O OLHO, PORQUE ESSE É MEU! – Algum palpite de onde veio a ameaça desesperada? Quem disse vai ganhar os doces que ela certamente havia ingerido em proporções astronômicas antes de vir para o orfanato e que eu, com a maior certeza do mundo, confiscaria. e doce é uma combinação perigosa. A deixa mais agitada do que de costume.
- Óbvio que não! É MEU! – David rebateu. Se eles não acabassem o leilão se pegando pelos cabelos, poderíamos nos contar satisfeitos. Brincadeira, eles não fariam isso. Eu espero.
- VENDIDO PARA A MOÇA LINDA LÁ DO CANTO! – Jake gritou, apontando freneticamente para e me fazendo arregalar o olho. Como assim, Jake? A gente nem começou! Calma, garoto! Muita calma nessa hora! Mas eu não era o único surpreso. Pela visão periférica, notei a expressão de . Ele estava totalmente confuso e contrariado com as palavras de Jake. Meu Deus, o cara nem conseguia disfarçar!
- SOCORRO! EU SOU A MOÇA BONITA! – A essa altura, já pulava sentada, devido à sua animação. Eu só esperava que ela não caísse. Não seria bonito e ela ainda tinha grandes chances de virar meme. Não se pode confiar nos nossos amigos quando o assunto é zoeira. Não se pode!
- CALMA, JAKE! – Pedi, de olhos arregalados, com medo de que o menino estivesse falando sério sobre a venda para . Que foi? Estávamos falando do Jake. E com aquela criança, todo cuidado é pouco! Já falei que ele é doido da cabeça? Pois ele é. Completamente pirado! – Deixa ela primeiro pagar por ele!
- To brincando, tio! – Garantiu, rindo da minha preocupação. Acho bom mesmo, moleque! A gente precisa salvar esse lugar, não é hora de bancar o Dom Juan! – Mas vamos lá! Jake, mostra pra gente como funciona esse boné!
- É tipo, o boné da invisibilidade, melhor que a capa em Harry Potter! – Garantiu, convicto. – Vou mostrar para vocês. – Então ele coloca o boné e em seguida fecha os olhos. Soltei uma risada. Aquele menino era uma figura!
- ALGUÉM VIU O JAKE? – perguntou, entrando na brincadeira.
- JAKE, VOLTA! – Foi a vez de Jeff sair olhando para os lados, como se tivesse procurando o menino.
Logo Jake tirou o boné, fazendo pose como se ele fosse um grande mágico ilusionista, o que rendeu palmas de todos os presentes.
- COMPRADORES, COMECEM SEUS LANCES. – Novamente decretei o recomeço do leilão. E foi outra leva de gritos exagerados e muita provocação por parte de meus amigos. Coincidência do destino ou não, dessa vez foi quem levou a melhor.
- Quero meu boné! Quero meu boné! – pediu em meio a pulos e dancinhas exageradas. Jake nem esperou companhia, foi ele mesmo que entregou o prêmio para a nova dona.
- Faça bom proveito, ! – Jake pediu, em meio ao abraço apertado que dava na garota, que retribuía quase o esmagando. Devo admitir, a foto deles havia ficado muito boa. Eles pareciam até... irmãos.
- Vou fazer! – garantiu, piscando para o garoto, antes de deixar que ele voltasse para o seu lugar.
- E voltamos ao nosso leilão! – Avisei, já vendo uma mão levantada. Sorri mais uma vez.
- Tiana! O tio vai aí te buscar, querida! – Avisei, já descendo do palco e pedindo para os meninos me ajudarem a colocar a cadeira de rodas de Tiana em cima do palco.
- Tia , fica aqui comigo! – Pediu para minha amiga, que se encontrava ao seu lado. – Pode, tio ? – Perguntou, com os olhos pidões. Para ela, era eu que mandava na programação da noite. Ri com isso e apertei de leve suas bochechas.
- Claro que pode, moça linda! – Sorri. – Mas diz pro tio , o que você tem aí? O que trouxe para a gente?
- Uma coisa muito, muito legal! – Declarou empolgada e batendo palminhas. Coisa que foi repetida por e eu. – A caneta que torna os desenhos reais!
- DÁ PRA MIM! – mais uma vez aos gritos. Se a gente deixasse, com certeza ela sairia pobre daqui. Meu Deus!
- Você não pode mais, . Você já comprou! – Declarei, rindo do desespero da minha amiga. – Cada um tem sua vez, não é? – Perguntei para as crianças, que me deram respostas afirmativas, aumentando a cara de choro exagerada de .
- Vamos dar uma chance para os coleguinhas! – zoou, fazendo rolar os olhos, mas depois rir.
- Você quer desenhar alguma coisa, princesa? – Voltei a pergunta para Tina, pois essa era a forma com que ela demonstraria os poderes de sua caneta mágica.
Com a resposta afirmativa, entregou algumas folhas de ofício para que a pequena pudesse desenhar. Agora vocês me perguntam: o que ela desenhou, ? E eu respondo: uma nuvem! Esperta? Até demais.
- FUNCIONA! – Ouvi o grito empolgado de e virei em sua direção. Ela segurava uma pelúcia em formato de nuvem que havia encontrado na cadeira de Tina. Realmente, a menina era muito esperta!
- EU QUERO PRA MIM! – Minha ajudante tinha encontrado os doces de , pois agora era ela que parecia empolgada demais com a venda.
- ENTRA NA FILA, BONITINHA! – gritou, em uma voz exagerada que me fez praticamente cair de tanto rir.
- EU VOU ARREMATAR ESSA BELEZINHA! – David olhava centrado para a caneta. Se eu não o conhecesse bem e soubesse que tudo aquilo era encenação, ficaria com medo. Sério mesmo.
- Tina! – suplicou, com um bico gigante e as mãos juntas, como se estivesse rezando. – Imagina o tanto de coisa que eu posso desenhar!
- Você precisa comprar, tia! – A garotinha riu da reação exagerada da mais velha.
- Você não pode comprar, moça. É a ajudante! – Decretei, rindo e vendo seu bico aumentar. Suspirou, parecendo frustrada, o que me fez rir. Eu achava incrível como ela conseguia equilibrar bem seu lado responsável com seu lado moleca.
- Okay, meninos! É a vez de vocês! Quem leva essa?
E o grande vencedor...
- VENDIDO PARA O DESRO! – Apontei para meu amigo, que pulou da cadeira, feliz e fez a maior bagunça do mundo, arrancando gargalhadas de adultos e crianças.
- Espero que você goste, tio! – Desejou Tina, com um sorriso lindo, grande e contagiante no rosto e foi esmagada em um abraço de urso por David.
- Eu vou adorar! – Desrosiers garantiu, apertando ainda mais a menina em seus braços e beijando sua bochecha. – Vou desenhar muitas coisas e te mandar foto!
- Oba! Eu quero! – Tina bateu palminhas bem animadas, o que causou o derretimento de todos os adultos presentes.
Depois de Tina, veio Mary e o espelho que era um portal do tempo, Charlotte com a super escova que fazia qualquer penteado, Christopher com uma bola murcha que tinha o poder de transformar qualquer um em um astro do esporte – a demonstração foi feita com e devo dizer: a tal da bola realmente funciona. Por último, veio Henry e uma pulseira que te transformava no The Flash – confesso que o nerd que mora em mim precisou se conter para não oferecer a casa dos meus pais em troca daquela pulseira de plástico. Mas já haviam terminado as crianças, mas o montante da dívida ainda não. Por isso, lá estava eu, quebrando a cabeça para encontrar um objeto a mais para ser leiloado, até que uma coisa prendeu minha atenção e fez um sorriso maldoso surgir em meus lábios. Quem sabe matava dois coelhos de uma vez só...
- ! – Gritei pela garota, que retocava o gloss em seus lábios, recebendo um aceno animado em resposta. – Afim de leiloar um beijo?
- SIM! – Pulou da cadeira, empolgada com a nova participação que ela teria no leilão.
- Crianças, vocês também podem participar dessa vez! – Anunciei, voltando ao centro do palco para reassumir meu papel de ‘leiloeiro’.
Das crianças, recebi comemorações agitadas, felizes por serem incluídas no outro lado do leilão, agora eles eram potenciais compradores! Mas a reação mais hilária foi a de . O cara encarava o palco com uma expressão de total desconforto e o maior sorriso amarelo que alguém já havia dado na vida. Algo me dizia que ele estava com medo de não ser o ganhador do tal beijo e nada poderia ser mais engraçado do que isso.
- Qual é o prêmio? – Henry perguntou, interessado, sentando com um pouco de dificuldade na cadeira de madeira.
- Um beijo com gloss da tia ! – Informei, rindo e vendo total as crianças se agitarem. Mas o mais empolgado entre eles era, sem dúvida, Jake. Opa, isso seria interessante!
- E vocês escolhem onde! – sugeriu, rindo. Garota, não faz isso! Não brinca com fogo! Criança não tem maldade, mas o tapado do nosso melhor amigo tem. E de sobra!
- Sacanagem, , sacanagem! – reclamou, estreitando os olhos para mim. E eu? Bom, eu só conseguia rir.
- , quanto foi o gloss? – Perguntei, para saber o valor inicial dos lances.
- 25 Dólares. – Respondeu, rindo.
- OK, vamos começar os lances em 25 dólares. E... VAI! – Baixei as mãos em um movimento rápido, como se desse início a uma corrida de Fórmula 1.
- 40! – O garoto mais arteiro do Orphanate for Special Care of Montréal iniciou os lances.
- 500! – Alguma ideia de quem era o desesperado?
- 1000! – Christopher gritou, rindo.
- Mary tá dando 3000, ! – Zooei meu amigo, que arregalou os olhos.
- 4000! – Jake, fazendo pose de homem de negócios. Os olhos de já quase saltavam de seu rosto, de tão arregalados que estavam.
- DEZ! DEZ MIL!
- Dez? Não sei, Jake me disse que tá nos 15 já! – Me fiz de sério, trocando um olhar cúmplice com a criança. Sabia que faria de tudo para ganhar, mas se por acaso fosse Jake, eu pagaria o valor.
- VINTE! – David gritou rindo, entrando na jogada. Mas todo mundo sabia que aquilo não era verdade. A única intenção era pirraçar .
- Henry disse 30, quem dá mais? – A essa altura, eu tinha certeza que meu rosto estava completamente vermelho de tanto rir.
- 50! – Novamente Jake anunciou seu lance astronômico, com os olhos arregalados. Calma, criança! o encarou com os olhos extremamente arregalados e pálido. Eu só esperava que ele não passasse mal.
- SOCORRO! – soltou um grito esganiçado, rindo alto com a mão sobre a barriga.
- MEU CARRO! Meu carro, . Você sabe o quanto vale aquela coisa? – Se esganiçasse um pouco mais, ele só poderia ser compreendido por baleias, isso era certo!
- Droga, , você não sabe brincar! – Eu quase gritava de tanto rir, mas em meio ao divertimento existia uma risada nervosa. Sim, eu sabia o quanto valia o carro de . E era muita coisa. Quem sabe apenas ela já sanava as dívidas que o orfanato havia contraído. Ele sabia que o leilão era pra valer, não sabia? Claro que sabia!
- Vendido para o desesperado ali! – Apontei para o meu amigo, que na mesma hora se levantou pulando e gritando alto, como se tivesse algo extremamente valioso, a coisa mais valiosa do mundo. E, bom, era. era como uma joia rara para e eu, apesar de zoar, admirava muito isso.
- EU GANHEI! EU GANHEI O BEIJO! YEY! – A comemoração era tanta que eu não duvidava que seus gritos pudessem estar sendo ouvidos do outro lado da cidade. – Onde eu quiser? – Perguntou, se ajeitando para subir no palco e receber seu prêmio.
- Tem criança aqui! Respeita! – Ralhei, de olhos arregalados.
- Eu sei, pelo amor de Deus. – Ele rolou os olhos. - Não vou fazer nada que não pode. – Garantiu e eu afirmei. O que foi? Com ele todo cuidado era pouco!
- Onde vai ser, ? – perguntou, rindo, após ele estender a mão, a trazendo para mais perto dele.
- Na boca pode? – Perguntou, com um sorriso maldoso. Era um capeta mesmo!
- Claro que não, ! – Respondemos em um coro totalmente tedioso e ele apenas riu, dando de ombros.
- Então no nariz! – Sorriu com as bochechas esticadas, em completo oposto com o sorriso anterior.
então riu baixo e se aproximou ainda mais de , dando um singelo beijo na ponta do nariz do amigo e soltamos gritos de comemoração. O sorriso do cara era completamente besta e a coisa mais certa do mundo era que depois eu pegaria a foto que havia tirado do momento. Se não zoasse meu amigo, não era eu.
Depois do beijo, se soltou de e foi até Jake para estalar um beijo em sua bochecha. Preciso dizer que o moleque parecia mais feliz do que pinto no lixo? Acho que não. E sabe o mais engraçado? No final das contas, o garoto havia ganhado o que queria de graça, enquanto só faltou vender a alma.

XXXX

O 1 Leilão de objetos mágicos do Orphanate for Special Care Of Montreal havia sido um sucesso! Verdadeiro sucesso! O levantamento do dinheiro arrecado ainda não tinha sido efetivado, mas eu já tinha certeza que tínhamos conseguido atingir nossa meta e nada no mundo poderia me deixar mais feliz. O lugar que eu havia aprendido a amar e no qual eu deixaria um bom pedaço do meu coração estava salvo! As crianças mais especiais do mundo continuariam com seu lar garantido!
Observei o lugar, as luzinhas que insistira em colocar ao redor dos troncos das árvores e que deixaram o clima ainda mais aconchegante e, principalmente, as pessoas. As minhas pessoas. Os melhores amigos que alguém poderia desejar ter, que mesmo com o monte de mancada minha, não desistiram de mim. Amor era uma palavra muito simples para definir o que eu sentia por eles e eu não tinha vergonha nenhuma de assumir isso. Respirando fundo, eu bebi o último gole do suco de uva que preparara. Larguei o violão que até então eu tocava com os meninos e me pus de pé, chamando a atenção de todos para mim.
- Posso falar uma coisinha com vocês? – Perguntei, rindo baixo. Todos afirmaram com um aceno de cabeça, concentrados e esperando que eu continuasse. Respirei fundo mais uma vez. Eu não tinha um discurso pronto, mas eu precisava falar, então seria de improviso mesmo. – Então, eu queria agradecer por tudo que vocês fizeram por mim, sabe? – Olhei para cada um dos presentes, que sorriam largamente de volta. – Antes daqui eu era uma pessoa incompleta! Tinha perdido um pedaço de mim no meio do caminho e não sabia o que fazer para achar. Na verdade, eu nem queria mais o encontrar. – Suspirei. Eu tinha sido um grande idiota por um grande período de tempo e tinha plena consciência disso. – Fiz muita coisa errada, mas eu não posso dizer que esteja totalmente arrependido, porque foi isso que me trouxe pra cá. Foi isso que me fez conhecer as crianças mais incríveis, maravilhosas e perfeitas de todo o mundo. Verdadeiros anjinhos! Os anjinhos mais lindos! – As crianças sorriram, algumas mais encabuladas e outras mais soltas. Virei meu olhar para as freiras, que agora nos acompanhavam na comemoração. Sorri em gratidão. – Agradeço às freiras, por terem me acolhido ali, me ajudado e me mostrado o que é o amor mesmo! – E agora era a vez da supervisora carrasca que tinha se tornado uma pessoa extremamente especial, que eu esperava levar para a vida. – , obrigado por tudo! Tudo mesmo! Só eu sei o tanto de vezes que eu quis te matar por ser tão carrasca comigo. – Ouvi a risada alta dela, me contagiando a rir também. Com certeza ela teve os mesmos pensamentos milhares de vezes. – Mas hoje tudo que eu posso é agradecer do mundo do coração. O seu coração é do tamanho desse orfanato e eu espero conseguir um dia ser como você.
Respirei fundo, engolindo o bolo que começava a querer se formar em minha garganta e puxei a garota para um abraço apertando, bagunçando seus cabelos enquanto repetia os agradecimentos. Sem soltar , puxei o resto dos meus amigos para o abraço. Era a hora de agradecer as pessoas que mais tornaram essa noite possível.
- Galera, eu não tenho palavras para agradecer vocês o suficiente, vocês são incríveis! E eu tenho o maior orgulho de dizer... NÓS CONSEGUIMOS! – Gritei, completamente feliz e sendo acompanhado por palmas e gritos dos meus amigos. – Nós conseguimos salvar esse lugar incrível e maravilhoso! Porque separados nós não somos nada, mas juntos... meus amigos, juntos nós somos um monstro! JUNTOS NÓS SOMOS UM!



FIM



Nota da Cam L.: COROS DE ALELUIA!!!
Sempre escutava as autoras falando sobre o que tinham sentido depois de escrever sua primeira fic e achava que algumas exageravam. Mas não, não é nem um pouco de exagero, estou em misto de emoções que eu nem sei explicar!
Foi um desafio tremendo escrever essa fic, não tenho como negar isso. Quem me conhece, sabe a importância que o Simple Plan tem na minha vida e transcrever um dos maiores hinos da história da banda e uma música que eu gosto tanto em uma fanfiction foi algo que em muitos momentos achei que não fosse conseguir. A insegurança bateu forte! E como se isso não bastasse, durante o processo da escrita, aconteceram vários momentos onde eu simplesmente queria largar tudo e desistir de tudo e não mostrar 10. One para o momento. Inclusive, foi de um desses momentos que surgiu a ideia da parceria. Só tenho a agradecer à Tatye por todas as brigas pra que eu escrevesse, por não ter me deixado desistir dela de jeito nenhum. Se hoje eu to escrevendo essa nota, depois de ter terminado a escrita, é por causa dela. A culpa é toda dela HAHAHAHA.
Mas agora chegou a hora de falar especificamente da fic... Gente, QUE COISINHAS MAIS AMADAS ESSAS CRIANÇAS! Só dá vontade de esmagar em um abraço e nunca mais soltar, nem com decreto do Papa! Juro, eu quero elas pra mim!!!! Quando me inscrevi pra escrever 10. One, a primeira coisa que me veio à cabeça foi o orfanato “diferente”, para crianças com deficiência, por causa de algumas partes da letra da música que me remeteram a essa ideia. Tudo, absolutamente todo o restante surgiu dessa pequena ideia. Ela não foi tão aprofundada quanto talvez precisasse, mas espero de coração que a ideia de rejeição x superação x redenção tinha sido passada. Se consegui passar apenas isso, já me considero extremamente satisfeita. E o nosso , que foi de me fazer passar raiva para me fazer cair de amores por ele? O nerd gato é perfeito demaaaaais e eu sei que vocês concordam comigo, ele é maravilhoso! Confesso que amei os momentos em que a professorinha perfeitinha colocou o moleque mimado de volta no lugar dele, amei mesmo! Arrasou, garota!!!
Mas e o leilão? Gente, essa cena eu quero guardar em um pote bem grande e bonito, sério mesmo! Essa cena tem meu coração para sempre! O discurso do foi lindo e me deixou bem chorosa e orgulhosa desse menino lindo e fofo, mais fofo do mundo!
E não posso esquecer da parte mais engraçada de toda fic para mim. O desespero do pra ganhar o beijo é uma coisa que vai me fazer rir provavelmente pro resto da minha vida! Toda vez que eu lembrar, vou gargalhar alto e isso é uma certeza hahahaahahaha. Tão fofo esse casal que – infelizmente – não é um casal. OTP supremo digno de pote!
Mas então é isso galera, se vocês quiserem saber o que aconteceu para o ter ido pra condicional e como ele conseguiu ajuda dos amigos pra salvar o lugar, a resposta está em 04. Thank You, a outra fic dessa parceria doida com a maravilhosa Tatye.
Beijos e até a próxima!



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