Última atualização: Fanfic finalizada.

Capítulo Único

Para o holandês que me deu o céu e as estrelas. E todo amor necessário.


O céu é recheado de estrelas, o mundo recheado de humanos e somos recheados de coisas, mas apenas as que possuem algum significado, que recebem algum sentimento, têm valor. Como aquele cobertorzinho que levamos na infância, nosso brinquedo favorito da hora de ir ao médico ou então nosso pingente da sorte para algum momento especial. Ou até mesmo quando se torna uma aliança o nosso símbolo de amor.
Alguns colecionam moedas de diferentes origens, outros colecionam livros, alguns, figurinhas e outros até mesmo carros antigos em miniatura. Revistas, jornais de grandes épocas ou dentes de leite. As pessoas guardam o passado com uma preciosidade íntima, uma admiração e orgulho do que tem ou aconteceu. Um pedacinho de um ano que não volta.
Praticamente, eu também coleciono o passado. E como em cada coleção, eu tenho meu objeto de ouro, o maior e máster. Minha coleção é o suficiente para me deixar ser um homem completo, mas principalmente por causa do sentimentalismo que eu deposito em cada pequena coisa.
Eu sou um homem que coleciona estrelas, e fiz dela minha star girl.

Hey, I'm looking up for my star girl
I guess I'm stuck in this mad world
The things that I wanna say
but you're a million miles away
and I was afraid when you kissed me
on your intergalactical frisbee
I wonder why, I wonder why you never asked me to stay


Tudo começou numa grande cidade da Inglaterra, com uma biblioteca e um refrigerante extremamente gelado.
Tinha aquela garota na ala de Geologia, com fones de ouvidos brancos e cabeça balançando no ritmo – quase que insano da versão remix de Girls Just Wanna Have Fun, que dava para ouvir de onde eu estava – da música, enquanto analisava os livros da prateleira. Como o dia era frio e a biblioteca tinha aquecedor, usava apenas uma blusa de manga longa que demonstrava transparência, que não combinava nada, NADA com seu short jeans. Que tipo de pessoa usava short jeans morando na Europa?
Mas de todo jeito, ela era... inusitada. Vez ou outra seus ombros balançavam com a cabeça na melodia, vez ou outra ela pegava algum livro para ler a sinopse e vez ou outra dava um gole na sua bebida. Era uma maravilha de se admirar, na verdade. Havia uma graça em todos aqueles movimentos nada exagerados, no jeito que ela franzia o nariz quando achava um livro chato demais ou quando franzia a testa e arregalava aqueles olhos gigantes quando se encantava por um livro, colocando-o logo na sua lista.
Ela parecia estar presa no seu próprio mundo e ao mesmo tempo em um teatro, cada gesto ensaiado e com maestria para sua plateia árdua. Fazendo o ambiente e as pessoas da biblioteca parte do seu espetáculo pessoal.
E ela era assim talvez sem nem perceber.
Já com uma lista de quase dez livros em fila nos seus braços, a garota foi atrás de um lugar para sentar e começar sua leitura. O copo que estava equilibrado em cima dos livros estava sempre quase caindo, mas ela conseguia equilibrar. Era merda na certa. E quando eu vi que realmente ia cair, eu me levantei e preparei as cordas vocais para avisá-la.
Mas foi tarde demais.
Estava tão concentrado na garota e seus problemas que nem reparei que: a) ela estava perto de mim, b) o alvo do copo seria eu, c) meu quase grito só faria ela se assustar mais; que foi o que aconteceu.
Em pouco tempo eu estava molhado e as demais pessoas em volta olhando para mim; inclusive ela, que parecia se divertir levemente.
- Desculpa! É claro que eu não ia dar conta de segurar esse tanto de livros grossos, mas... – segurou a risada e pousou o resto dos livros no chão, evitando olhar para a bibliotecária furiosa. – Eu vou te ajudar e você me paga outro refrigerante. Combinado? Isso aí.
Eu tirei meu casaco e olhei para a garota. Ela só podia estar brincando.
Ela continuou com o meio sorriso firme e me encarando, como se o que tivesse acabado de dizer não fosse nada além do normal.
Ela não estava brincando.
- Te comprar um novo refrigerante? – Me limpei com a parte seca do casaco. Estava frio para caralho. – E você me ajudar? Como ajudaria?
Ela sorriu mais e ergueu o ombro, logo se abaixando e colocando os livros em cima da mesa. Em fila. Do mais grosso ao mais fino. Com uma calma invejável e quase irritante.
- Pronto! – Se levantou e bateu as mãos nos joelhos nus. – Agora nós vamos lá cuidar do seu problema.
Continuei olhando para ela. Quando ela percebeu que eu estava questionando-a com os olhos, resolveu explicar.
- Vamos te comprar um novo casaco – disse como se eu tivesse 5 anos.
Ela era tão linda que eu me sentia bobo como se tivesse 5 anos.
- Ah, não vamos não.
- Vamos, sim.
- Não, não vamos. Não vou gastar dinheiro com algo que molhou e eu posso muito bem ir para minha casa, pegar outro e colocar este para lavar.
- Pode. Mas assim não iria sair comigo.
Espera, o quê?
Eu acho que congelei nessa hora porque fiquei meio atordoado com o quanto ela foi direta comigo. E então reparei uma coisa: eu pagar uma bebida com ela, nós irmos a algum lugar e ter um assunto/motivo para debater. Mesmo que a bebida seja um refrigerante, o lugar uma loja de roupas e o assunto seja o casaco molhado. E mesmo que eu seja bem babaca por não ter me tocado antes no que isso ia dar. Eu deveria saber o mínimo de flertes básicos, não? Os filmes clichês já jogam isso na cara.
Ela continuava sorrindo e me analisando, até eu me tocar que eu tinha ficado calado e estava parecendo um adolescente tímido.
- Então vamos. E os livros? – perguntei.
Ela deu de ombros e colocou a fila deles no canto da mesa, perto da parede. Começou a caminhar para fora enquanto eu a seguia.
- A bibliotecária é minha mãe. – E saiu Londres afora.
***

O nome dela era . Ela estudava Geologia e parecia nunca se cansar: um amor em círculos inquebráveis. Bebia soda enquanto comia pão com chocolate derretido. Eu me sentia tímido perto dela. Eu nunca fui tímido. Ela irradiava luz, alegria e personalidade. Eu estava ficando cego de tanto olhar, admirado e incrédulo. Ela era diferente. Como se tivesse vindo de outro planeta. Ela gostava das mesmas bandas que eu.
- Uma vez vi um garoto falar que não fazia ideia do que eram os Beatles – contou. – Eu quis chorar. Sério! Aí depois ele disse que a melhor banda do mundo era uma tal de Blink alguma coisa e que The Beatles, “seja lá quem for”, nunca chegaria aos pés dela! Aí eu olhei para o garoto e quase perguntei em que mundo ele vive. Mas como eu sou bem educada, quase francesa, saquei o fone de ouvido do bolso, como se fosse uma arma do bem e coloquei I Wanna Hold Your Hand para tocar e mostrei ao garoto como é música de verdade. E adivinha.
- Ele odiou?
- Não!
- Amou?
- Não!
- Então... Eu não sei. – Ri e franzi a testa. – Ele te mostrou a banda Blink-Alguma-Coisa?
- Ele pegou meu celular e saiu correndo. E foi aí que eu aprendi que não posso sair falando com estranhos, mesmo sendo um espinhento de 14 anos e um assunto tão leve quanto música – disse com simplicidade.
Não pude segurar a gargalhada.
Estávamos numa lanchonete do shopping, agora. O café estava gostoso e o croissant derretia na boca. Ela me contava histórias da sua vida e eu achava cada vez mais interessante, como se ela fosse um extraterrestre e estivesse falando do clima de Marte. E eu, um cientista fascinado. Claro que não era o caso, mas eu não podia deixar de me sentir puxado para ela, com o mesmo fascínio. E o quanto isso soa adolescente bobinho? Eu não sei. Mas eu realmente não me importava. Não tinha tempo para isso, estava quase implorando para que ela continuasse a falar e me sugar com suas palavras.
não parava de balançar as pernas e batucar na mesa. O sorriso de sempre estava lá, firme e forte. Ela não era do tipo que olhava no relógio como se quisesse sumir de lá, mas do tipo que sempre arranjava mais assuntos ao passar do tempo. E assuntos variados, como o meu novo casaco novo – que claramente eu não a deixei pagar, só escolher – e como meus olhos mudavam de cor em questão de luz.
- Como é a área de Geologia?
- Muito apaixonante! – Soltou um gritinho eufórico. – Adoro as provas que temos que sentir a textura e o gosto das pedras para identificá-las. Me sinto doidinha... E o que você faz da vida? – perguntou.
- Você come pedra? – Gargalhei. - Escrevo um livro. E sou professor universitário.
- Praticamente. Legal! Livro de quê? Sobre o quê? Tem alguma lá?
- Livro sobre autoajuda e filosofia, mesmo. Um dos meus alunos, mesmo com vinte e dois anos está passando pela fase de invisibilidade e sente como se fosse inútil, em meio a um mundo gigante e poderoso como o nosso, onde ele não vai poder fazer nada contra grandes autoridades... erradas, entende? Então é mais para filosofia.
“Tento mostrar o caminho para isso tudo, como não perder a fé e continuar lutando, com exemplos de sacrifícios passados e sonhos de grandes líderes. Como se manter sã em relação e lutar contra uma maré de ignorância, fugindo dela – completei.
Ela ficou me olhando, com um sorriso de canto.
- Eu leria – garantiu. E eu acreditei nela.
- E não tem nenhuma lá...
- Retiro o que disse – brincou.
- ...mas eu posso colocar.
- Isso é o início de uma chantagem? – Sorriu.
Entreguei o dinheiro para o garçom, pagando a conta e peguei a sacola, esperando ela me acompanhar. O que logo fez.
- Talvez seja.
Eu sentia que era o início de algo muito maior.
***

e eu nos tornamos amigos com uma rapidez incrível, que eu já podia a chamar de e ela me chamar de – apesar que ela preferia Doutor das Galáxias. O porquê do apelido? Digamos que ela adorava Doctor Who (que nem eu) e eu sou professor de Astronomia. Ligando uma coisa à outra... Bem, você entendeu. No final das contas, era um apelido realmente foda e eu não deixei de me gabar quando fomos ver Guardiões da Galáxia.
Conversávamos sobre tudo mesmo. Eram horas conversando – o que fez meus amigos desconfiarem um pouco – e até íamos ver filmes, como um casal de jovens adolescentes.
Em uma noite, estávamos mascando chicletes e assistindo Friends como dois adultos responsáveis. O pedido foi dela, o dinheiro meu.
– Como o Joey consegue ser tão legal e tão idiota? – perguntei incrédulo, e ganhei uma careta como resposta. E um dedo do meio. Um.
- Faz parte do charme dele! Você não vê?
- Bom, já o Ross...
- NEM VEM COM O CARETA.
- Agora quem está me ofendendo é você.
- Você gosta dele é porque vocês são iguais, né? – sorriu sapeca. Quando eu dei meu olhar supremo e mortal ela gargalhou e foi pro sofá.
- Também não te dou mais chiclete. – Foi tempo de eu piscar e o chiclete sumiu das minhas mãos do nada. Do nada por uma mão bem menor e rápida, cuja dona saiu correndo para se esconder a mascar tudo, gulosa como era.
- VAI NARRANDO O EPISÓDIO AÍ! – gritou com a voz meio estranha por mascar vários ao mesmo tempo.
- Eu vou te achar! E vai ser pior quando eu o fizer.
- Sentiu o cheiro do meu medo? – provocou.
- Não, mas eu soube seguir o som da sua voz. – Abri a porta do armário a assustando e soltando uma bola enorme em mim. – Essa é a hora que você me dá os chicletes.
Ela se levantou, risonha como sempre e passou os lábios perto dos meus. Eu gelei completamente e o sorriso no meu rosto se alargou. Minha mão logo se agarrou na cintura dela.
- Vem tirar da minha boca.
***

Praticamente meu mundo virou na base daquela garota. Depois de quase quatro meses conversando, a coisa tinha ficado mais pessoal. Como eu nunca fui muito próximo das pessoas, tal contato ainda era meio estranho para mim. Mas eu pensava em me jogar de cabeça. Parecia envolvente.
Mas não adiantava muito quando minha cabeça tinha marteladas palavras da minha ex namorada – e colega de trabalho.
- , pela última vez, eu vou repetir: não tem mais como eu ficar com ele. Ele está atrapalhando minha vida.
- Não pode falar assim do bebê – resmunguei.
- Ah, posso, sim! Ele baba demais. Sem contar que ele vive choramingando de saudades de você e eu praticamente não tenho tempo para mimá-lo.
- Poderia te chamar de sem coração, até. Ele é uma gracinha e só precisa de amor.
- Amor que eu não posso dar. – Ela suspirou irritada e continuou corrigindo a prova de física em suas mãos. – Esses garotos não conseguem entender nem a Teoria da Relatividade, coisa de Ensino Médio. O que estão fazendo no Ensino Superior?
Concordei mentalmente.
- O que vamos fazer em relação à criança?
- Não é uma criança, . É um cachorro. – Voltou o olhar para mim.
A sala dos professores foi preenchida pela voz alegre do professor de matemática, Robert, que tinha acabado de passar de fase de um dos jogos do celular.
Eu e Lizandra olhamos para ele, meio sérios e inquisitivos.
- Ainda estão falando sobre o buldogue?
- Sim – respondeu Lizandra.
- Não fale assim dele, como se ele fosse apenas um cachorro – retruquei, meio brincalhão.
Robert nos analisou por um minuto.
- Quando terminarem, avise. Eu tenho mais uma fase até zerar essa merda. – Sorriu triunfante e voltou a atenção para o celular.
- Se você gosta tanto deste animal, por que ainda não o levou para sua casa? – Lizandra voltou ao assunto, ainda parcialmente concentrada no monte de provas na sua frente.
Eu, por minha vez, estava bastante ocupado organizando os horários dos seminários para a semana que vem.
- Já disse que moro em apartamento...
- E? – Seus olhos verdes me fitaram, poderosos e realçados por uma sobrancelha fina. Por um instante eu perdi a fala e o fôlego. Ela tinha aquele poder de Medusa.
- Eu viajo. Eu não posso lidar com essa responsabilidade.
- E sobra para mim? – perguntou incrédula.
- Claro. – Sorri de canto e continuei organizando as datas. Marquei um dia sem nenhum seminário ou qualquer coisa do gênero, com um estampado perfeitamente. – Aliás, deixe-o comigo por um final de semana.
Lizandra me olhou confusa e juntou os lábios, como sempre fazia quando estava magoada ou extremamente delicada.
Quando, Senhor, que eu vou entender as mulheres? Onde raios eu irritei ela?
- Vou poder participar deste final de semana? – murmurou, sentida. Como sempre fazia quando queria dengo.
E eu entendi aquela mulher. Eu preferia não ter entendido jamais. Não sacaneia, Senhor.
Nosso relacionamento durou dois anos completos e alguns dias. E acabou apenas há seis meses. Lógico que me pesava. Lógico que ainda era estranho não tê-la na minha vida. Mas voltar não era algo que qualquer um de nós cogitava. Ou eu, até aquele momento sabia.
Aquela mulher poderosa me encarou com aqueles olhos verdes tímidos e desafiadores. Lizandra tinha um cabelo negro ondulado e invejável pelas outras mulheres, um rosto fino e de modelo. E um crânio dos céus. Um coração dos infernos.
Antes que eu pudesse lembrar o porquê do último adjetivo, rabisquei o no calendário e logo troquei por um L, perdido e concentrado em seus encantos.
- Claro.
O momento foi quebrado pelo grito de triunfo do loiro que tinha acabado de zerar o jogo do celular. Ou foi por que paramos de brigar?
***

Eu não via fazia semanas. Era a época de aplicação de provas do meu setor e eu estava passando mais conteúdo para eles memorizarem, dando dicas de ouro e provas de ácido. Pelo que ela me falou, ela também estava estudando para suas provas finais e não queria nenhuma distração na jornada. Nem mesmo eu.
Com todo respeito, a escolha dela é justa e eu teria muito tempo para colocar as coisas em ordem. Eu tive uma noite maravilhosa com Lizandra, mas não iríamos voltar, não. E acho que tinha algum interesse por mim, porque ela ficou bem desagradável quando soube do encontro. Talvez seja por isso que me tocou tanto eu ser adjetivo de distração em relação ao seu principal objetivo.
Desmarquei algumas coisas banais, por precaução para quando tivesse passado e me chamasse para comemorar – evitando cometer o último erro. Organizei o apartamento e comprei algumas coisas para o cachorro, e quando eu estava no meio do supermercado, indo para a seção de alimentos, onde estava o açougue, uma mão tocou meu ombro.
- ? – uma voz grossa chamou e eu arregalei os olhos na hora. Girei os calcanhares e quando vi David, um velho amigo meu, meu coração voltou aos batimentos normais.
Não pude deixar de sorrir e cumprimentá-lo. Conheci David em um bar anos atrás, e por mais incrível que pareça, ele se tornou uma das melhores influências que eu tive na vida. Perdemos contatos por um longo tempo, mas meu velho amigo estava ali. Na minha frente. Sorrindo para mim. E eu com medo do brutamontes que supostamente me esperava.
- David! Por onde andou? – Empurrei o carrinho para perto do dele, logo parando para conversar. Não estava muito interessado para ir para casa fazer um monte de nada e ali estava eu, num bate-papo interessante com um dos meus únicos e distantes amigos.
Na primeira rodada de assuntos, reparei que tinha uma garota pequena ao lado dele, teclando com força no celular. Ele tratou logo de me apresentá-la, com certo orgulho. Ela levantou a cabeça e sorriu para mim. Depois alternou os olhares entre Dav e eu.
A grande pergunta comum partiu dele:
- Como você anda?
E eu não soube responder. Coisa boba, simples, mas não havia nada direto para falar. O simples “bem” soava errado na minha cabeça. Eu não estava bem. Coisas importantes e especiais tinham acontecido. Parece que dar um resumo simples sobre todo esse tempo longe era complicado demais, porque dessa vez algo realmente tinha mudado. Não era um só “estou bem, realizado e tudo mais”. Pela primeira vez, era mais um livro de quinhentas páginas cheio de reviravoltas em menos de apenas três anos.
E eu estava feliz por isso. Orgulhoso, até.
E tinha , no centro de tudo. Eu queria falar sobre ela com alguém, contar detalhes e até apresentá-la. Porque era a primeira vez que eu estava mexido com alguém que eu nem sequer havia beijado, fora o tempo gigante que eu demorei a reparar isso. Mas como eu iria fazer isso? “Essa é a , minha...” Minha nada. Pensar nisso chegava a incomodar.
A garota ao lado do David parecia querer vomitar em alguém, mas não deixava de tentar transparecer uma simpatia acolhedora. Um pouco mais acima – o cara tinha um e noventa e tantos de altura, era um bem mais para cima mesmo - David estava sorrindo divertido, pegando algumas carnes e colocando no carrinho.
- Ela está bem? – perguntei.
Ele riu e olhou para a garota, com olhos brilhando.
- Ela é vegetariana – respondeu simplesmente, fazendo-a bufar de raiva do sorriso provocante dele.
Foi aí que eu notei toda a maldade. O setor todinho era composto por açougue e carnes sangrentas.
- Eu tive uma ideia. Você vai lá à minha casa hoje, eu cozinho para nós, damos uma festinha com o Thiago e toda a galera para colocar os anos no trilho – sugeriu, com aquele jeito garanhão que na escola convencia até professores. Ri do seu golpe baixo e ele desarmou, rindo junto.
Uma piada interna nossa.
Olhei no relógio. Já era seis e quinze. Uma festa não seria algo agradável agora, porque eu estava nervoso e distraído demais para esse tipo de coisa. Mesmo sem planos futuros, eu queria ter tempo. Um tempo meu. Sem esforço. Ler um livro, talvez? Apesar de que um amigo nessas horas seria bem-vindo, eu simplesmente não conseguia. E nem queria saber o porquê.
Depois de um breve tempo, sendo fitado pelo casal ansioso na minha frente, eu respondi:
- Acho melhor não, está tarde. Por que não me passa seu número? Eu te ligo amanhã depois da faculdade e a gente combina algo mais detalhado.
- Um jantar! – comentou a garota. Só então eu reparei que ela beliscava a palma da mão do meu amigo, enquanto ele tentava pegar seus dedos, distraidamente. E eu saquei logo o que estava acontecendo ali. Não era mais um dos simples casos de David. – Você tem namorada? Você tem cara de quem tem namorada. Você parece apaixonado. Leve-a amanhã, a apresente. Vai ser divertido.
Eu pensei em virando amiga da mulher na minha frente. Pensei em conhecendo meus amigos. Meus pais. Eu me senti novamente um adolescente estúpido quando reparei no que estava pensando.
Me recompus, e antes que eu pudesse dizer algo mais concreto, o moreno se pronunciou:
- Temos que ir, agora. Estaremos te esperando, não se atrase. – Me entregou o cartão e se despediu de mim. – Vamos, gatinha. Vamos comprar seu mato. – Deu um tapa na bunda da garota, que riu, e seguiram em frente.
Duas coisas: Ou eu precisava escapar dessa, ou eu tinha que arranjar uma garota para amanhã.
E a opção 2 pareceu uma desculpa cabível para ir até a casa da .

***

Quando estava prestes a tocar a campanhinha da casa da garota, reparei o quão estúpido era meu motivo.
O que eu ia dizer? “Ei, , como está? O que acha de ir para a casa de uns amigos meus e fingir ser minha namorada da noite? Sei lá. E, não, eu não tenho 15 anos mais, apesar de parecer. Mesmo você estando com raiva de mim e podendo me colocar para fora nesse frio dos infernos... Do que custa tentar?”
No meio do caminho um temporal forte para caramba começou a cair, e eu estava a pé. Estava na metade do caminho, então a distância era a mesma; de todo jeito eu ia pegar chuva. A única diferença era que a opção de voltar não me traria nada proveitoso.
Será que a opção de ir até ela traria?
A chuva batia em gotas gordas e pesadas contra minha cabeça e meus ombros enquanto eu corria controladamente para não escorregar e cair. Eu já não tinha mais controle com meus dentes que se batiam freneticamente. Mas uma coisa me movia: eu estava morrendo de saudades dela. Morrendo.
Era algo que me consumia. O corpo dela. O rosto dela. Os beijos. A voz. As piadas. O sotaque. As manias. As expressões. Tudo. E eu estava bêbado de paixão, como anteriormente confessado. Eu precisava dela e não ia esperar mais nenhum minuto para vê-la. Nenhum.
Ou talvez os minutos a mais que minha perna cansada implorava.
E agora eu estava de frente à porta de , com mil pensamentos na cabeça e sem coragem no pulso. Mas eu fiz. Eu toquei a campanhinha três vezes enquanto o frio atingia meu corpo. Alguns minutos mais tarde, a porta foi aberta por uma loira cheia de moletons.
Se ela estava surpresa em me ver, não demonstrou.
- Entra.
estava linda, como sempre. Deslumbrante. Pálida demais, mas isso só a deixava mais bonita. O nariz e a boca vermelhos, olhos atentos e gentis e um cabelo louro e esvoaçado lá atrás, decorando como uma paisagem.
Sem mais cerimônias, eu entrei rápido. O choque térmico fez minha cabeça doer, mas era melhor o choque do frio indo para o quente do que vice-versa. E eu teria que bolar um plano para que não acontecesse.
Ela me olhava com os enormes olhos curiosos.
- Aceita um chá?
- Eu... – Suspirei. – Não.
Eu não tinha reparado o tamanho esmagador da saudade que eu sentia até vê-la ali, parada, na minha frente. Meu coração estava quase que um botão de uma flor, e vendo ela ele desabrochou.
O sentimento é lindo, mas eu devo ter sido um poeta gay em outra vida, porque não é possível que eu descreva de uma maneira tão melosa.
- Você estava aqui perto e resolveu dar um oi? – Ela olhou pela janela, admirando a chuva grossa que caía loucamente.
- Não. Eu estava em casa. – Consegui chamar sua atenção e pude ver nos seus olhos que fazia a conta mentalmente do caminho percorrido.
- Você está molhado. Vai adoecer. – Seu tom ainda era frio, indiferente. A garota sorridente não estava sorrindo. – Tire seu casaco.
Estremeci. Era uma brecha. Não era?
Esse era meu vínculo com : sempre um casaco molhado. Sempre molhado por ela. Sempre o meu casaco.
- Sinto muito por estar ocupado com a Lizandra quando você precisou.
- Eu não precisei de nada, na verdade.
- Homens são... complicados para entenderem essas coisas. Uma coisa nunca é o que é para as mulheres. É confuso. Mas eu quero entender. – Peço aos céus que ela não esteja lendo agora, e que você, leitor, não me julgue por ser tão meloso ali em cima e tão machudo aqui. Chega a ser contraditório.
Eu não sabia o que pensar, mas sabia que não queria mais ter que passar por isso de novo; todo o processo enlouquecedor no qual não posso conversar com ela sempre, todos os dias e ter que lidar com a chata rotina da vida.
- E espera que eu o explique? O professor aqui é você. – Ela seguiu em direção à cozinha para preparar algo enquanto abria o armário do corredor atrás de um edredom e uma toalha para – suponho – mim. Eu fui logo atrás.
E novamente a sensação de dejà-vu me atingiu. Eu molhado. Atrás de uma bebida e uma roupa. Eu a seguindo.
Só que desta vez eu iria fazer o próximo passo certo. O que eu deveria ter feito desde que a vi, com aquele rosto lindo e desenhado por Michelangelo.
Como se tudo fosse pistas e eu o detetive insaciável.
Eu a beijei. Molhado, mesmo. Sem vergonha na cara e com medo de levar um tapa. Ou de ser expulso. Ou de perder uma – hipotética – amiga. O prêmio parecia muito melhor em relação às chances de fracasso.
E... Rufem os tambores! Ela retribuiu!
Seus lábios estavam quentes e molhados, enquanto eu estava quase soltando fogos porque ela correspondeu o beijo. E de repente, estávamos no sofá. Eu sem minha camiseta molhada e um cobertor felpudo cobrindo a gente.
- Eu preciso de você, – comecei, murmurando contra o seu pescoço. – E não quero ficar mais sem.
Podemos terminar isso dizendo que o jantar na casa do David foi bem divertido, e que fez ótimas amizades.

***


“Colorado, Estados Unidos da América.
Star,
Há muitas de coisas que eu queria poder estar te dizendo agora, olhando para o seu rosto e sorrindo com seus olhos, mas infelizmente estou há milhares de quilômetros de você. E você não tem ideia do quanto isso me machuca, por mais banal que possa ser.
Seria apenas dois meses aqui nos EUA, mas terei que adiantar mais a viagem. Como você sabe, era apenas para divulgar o livro nas escolas e faculdades, mas eu consegui duas palestras de astronomia e astrofísica em renomados lugares que sinto não poder recusar. Chances únicas. Mostrar a ciência para esses garotos é gratificante. Sinto como Carl Sagan deve ter sentido, por menor que sejam meus atos.
Queria que estivesse aqui comigo. Mas eu entendo. E parei de me culpar por tudo, já. Afinal, você nunca me pediu para ficar.
Eu volto o mais rápido possível, nem que seja no segundo seguinte que eu terminar a segunda palestra e correr para um aeroporto.
Saudações e adeus,
.”

***

Gostaria de dizer que quando voltei de viagem foi tudo ótimo e meu atraso foi recompensado por muitas saudades.
Da parte da família, podemos considerar que sim. Minha mãe estava morrendo de amores e orgulho que seu filhinho tinha ido até os Estados Unidos e “feito um sucesso danado lá!”. O meu cachorro eufórico estava lá como sempre bem... bom, eufórico. Me lambeu todo e me derrubou exalando felicidade.
Eu não pude dizer o mesmo da minha namorada. Eu tinha feito merda de novo com ela. E minha comunicação tinha sido uma carta e umas poucas ligações. Vale lembrar para você leitor que eu não vivo no século XVII. E eu simplesmente não sei o motivo pelo qual não liguei mais para ela; talvez seja porque eu fiquei bem ocupado durante a boa parte do tempo...
Sei que desculpas não adiantam mais, porque ela está magoada e com razão. E eu nem sei o motivo do que eu fiz. Apenas fiz. E eu não a traí. Juro que me segurei. Só que eu acho que não é a maior das preocupações dela agora.
Quando bati na porta dela – que agora morava em um prédio da zona sul – a primeira coisa que fez foi dar a vingança da porta, batendo-a na minha cara. Seguido de um “Cretino.”
Juro pela minha memória e minha consciência que eu não a traí ou tive envolvimentos com mulheres que não fossem as que giravam em volta do meu trabalho. Mas ela não queria ouvir.
Suspirei fundo e tentei de novo. E de novo. E de novo.
Eu senti como doía ser ignorado como eu fiz com ela. Eu senti como era ser deixado para trás ou parecer não ter importância na vida de alguém. Eu entendi como era não saber o que estava acontecendo, mesmo quando a vi conversando com um cara no “Modo ” de ser. Eu entendi. E precisava mostrar para ela.
Depois de conversar bastante com as amigas dela (“Coloque seus sentimentos para fora, .” “Diga como se sente!” mas e quando ela não quer ouvir, criaturas??????) eu tomei a decisão de criar uma pequena música para ela.
Acho que todo mundo na face da Terra já percebeu que eu sou o Senhor Inseguro e que só tomo decisões arriscadas e malucas, né?
Pois bem. Foi tudo programado, com aquelas coisas fofas que mulheres gostam – um salve para as amigas da , que me ajudaram na decoração e me fizeram ver que valia a pena deixá-las com meu cartão de crédito -, e um violão verde gosma já estava na minha mão.
Foi tudo preparado na faculdade em que ela estudava, em uma grande sala que era boa o suficiente para o acústico e chamar a atenção dela.
A sala estava escura, com alguns efeitos fumaça e umas luzes por todo lá. As amigas estavam lá, claro. E alguns rapazes mexiam e conectavam meu violão no som; mas o que mais me preocupava era que ela ainda não estava lá.
- Muito obrigado, rapazes – eu disse e eles acenaram com a cabeça, saindo logo depois de me desejarem um “Boa sorte”.
Tudo finalmente estava pronto e uma das mulheres – Alexandria – fez o favor de trazer a – que faltava gritar de tanta relutância e teimosia.
- Eu não vou perder meu tempo que eu tenho estudando para ir à uma fes... – ela parou de falar quando me viu, parado e sentando no pequeno palco montado. – O que ele está fazendo aqui? Que merda vocês fizeram com a sala do professor Harris?
- Escuta e relaxa, . – Hilay a puxou e a loira a encarou meio irritada, meio séria. Logo o olhar estava sendo direcionado à mim.
Eu suei frio. Ela não parecia do tipo que iria se encantar com o que eu estava prestes a fazer.
Procurando uma coragem de onde não tinha, me concentrei no seu rosto e tive o flashback de toda a nossa história, das noites em claro escrevendo a música e tentando raciocinar o que eu deveria fazer para tampar o buraco que a falta dela me fazia.
E como se eu revigorasse de uma hora para a outra, fiz meu melhor e comecei os acordes calmos.
- Oooh... – cantarolei com calma, dando início. - Your gravity's make me dizzy...
Criando ritmo, comecei a tocar e dar batidas leves na madeira do violão. Fiz a melhor voz que conseguia e segui.
- Hey, there's nothing on Earth that can save us, when I fell in love with Uranus. I don't wanna give you away, 'cause it makes no sense at all! – a última parte foi olhando exatamente nos olhos dela.
suspirou e eu vi seu lábio tremer, com o início de um sorriso teimoso.
- And, Houston, we've got a problem! The ground control couldn't stop them. I wonder why, I wonder why you never asked me to stay, yeaaah.
Como mágica, os anjos – aka Fadas Madrinhas, aka Melhores Amigas da , aka Cúpidas Românticas – começaram com o coro de “Oooh” enquanto estrelas passavam por toda sala, como efeitos magníficos.
Não era só eu, mas a loira também ficou bem impressionada com as luzes e... ela entrou no clima! A cabeça balançou levemente no ritmo da música e as palavras pareceram acertá-la em cheio.
Estava dando certo.
Afinando a voz um pouco, cantei os últimos versos:
- Fly away... Watch the night turn into day, dance on the Milky-Way... Melt me with your eyes, my Star Girl rules the sky...! – Me empolguei e cantei feliz, sem medo. Cantei só para ela. - Looking up for my star girl! I guess I'm stuck in this mad, mad world! The things that I wanna say, but you're a million miles away...
Minha Star Girl se aproximou de mim e sorriu pequeno.
- Não estou mais. – E me beijou.

So wouldn't you like to come with me?
Go surfing the sun as it starts to rise
Woah, your gravity's make me dizzy
Girl, I gotta tell ya, I feel much better
Make a little love in the moonlight


estava toda estabanada – e estranhamente graciosa – enquanto corria, sendo arrastada por mim, pelos campos da Austrália. Seus cabelos louros brilhavam enquanto o sol ia se pondo no horizonte e logo estava de noite, com ambos deitados olhando para as abstratas nuvens durante um debate seriíssimo sobre Física pairando sobre eles.
- Ainda acho Hooke um babaca – ela torceu o nariz, irritadinha. – Ele não tinha o direito de acusar Newton, já que ele não tinha provas sobre a teoria da gravidade.
- É. Mas o crédito seria bem aceito no nome dele.
- Mesmo assim! É revoltante. O cara tinha “tudo”, porque já estava com suas teses na Sociedade Real de Londres e famoso por vários outros méritos. Reais.
- Não pode odiar ele agora, . Ele meio que já morreu. – Sorri. – E, bem, o homem ainda assim foi um gênio, que deu grandes avanços à física e astronomia. E à biologia também, com aquele negócio de células. Eu acho.
- Do que adianta ser um gênio e ser um canalha que tenta roubar os créditos da teoria dos outros? – Ela juntou as sobrancelhas, formando uma ruga fina entre elas.
- Bom, nos grandes livros não vai aparecer que você foi um... – ela me interrompeu.
- Não interessa! O caráter é o que conta. – E então, fez a coisa mais engraçada e improvável que eu imaginei que fizesse: Ela emburrou com um bico, cruzando os braços e encarando o nada.
Tive que gargalhar alto.
O que não melhorou a situação com ela, porque ela quase me atacou, argumentando e ficando cada vez mais vermelha. Com isso, me senti quase que voando em torno de sua gravidade, como – quase que clichê – uma câmera lenta, me puxando cada vez mais para aquele rosto lindo e corado.
Ela era o centro do meu universo.
- Vem comigo. – Levantei e ergui a mão para ela.
- Hein? – Seu olhar voltou para mim, ainda emburrado.
Sorrindo, tive que repetir:
- Vem comigo. Vou te mostrar algo ainda mais incrível. Antes que fique tudo na escuridão. Vem! – Puxei e ela se levantou, batendo suas mãos contra as nádegas para tirar os vestígios de grama da calça e sacudindo o cabelo.
O caminho não era muito estreito, mas não era um plano perfeito. Eu praticamente corri, sabendo que ela vinha atrás de mim, porque não queria perder o show. Ironicamente, ainda tínhamos a noite toda e aquelas estrelas não iriam para lugar algum.
A grama já era bem mais baixa e macia naquela parte, e as nuvens quase não apareciam. A sensação era de estar no topo do mundo e poder tocar o céu.
Percebi que sentia o mesmo que eu quando eu a vi entreabrir a boca olhando para o céu, surpresa. Seus olhos arregalaram e eu pude sentir a onda de prazer que invadia seu corpo, lembrando-me da primeira vez que eu tinha visto tal maravilha.
Deite-me novamente no chão, cutucando para que se deitasse ao meu lado e ter uma visão mais... plana. Ela riu e voltou a encarar a imensidão na sua frente.
- Isso é incrível, Doutor – murmurou.
O céu era numa escuridão abundante, mas era lotado de estrelas de todos os tamanhos e brilhos. Era visível até mesmo poeiras espaciais, formando desenhos com a escuridão, como um contorno de prata e algumas outras cores puras. Estrelas cadentes dando espiadas pelo céu.
- Quase certeza que aquele contorno ali é de um cisne gigante – sussurrei no pé do seu ouvido. deu uma risadinha e me olhou com um olhar teimoso e risonho.
- Ainda não acredito que essas coisas existam.
- Cisnes? – disse. – Eu acredito. Eles são tão psicóticos quanto patos.
- Não! Digo, isso... – Apontou para o céu. – Tudo tão perfeito. Tão maravilhoso.
- O passado é sempre admirável. Acho que é porque não podemos voltar nele, nem alcançá-lo. O passado é a versão do futuro inválida.
- Passado?
Ela me olhou, com aqueles olhos de devorar paisagens e admirar maravilhas, e sorriu.
- Como sabe que vê o passado? – Fez carinho no meu nariz e eu ri fraco em resposta.
- Bem capaz que aquela estrela já não esteja mais viva, porque a luz leva anos para chegar aqui. Pode ser mais de milhões de anos, desde a nossa superfície até o ponto no espaço onde ela brilhou. Pode ser que até que ela chegue aqui, a sua fonte de origem já tenha explodido em supernova. Então admiramos o passado, para preencher nosso presente e melhorar nosso futuro.
- Você as ama. Sabe constelações? – Vi seus olhos brilharem e seus músculos do rosto se curvarem em um sorriso.
- Não – disse, simplesmente.
- Como pode não saber informações de algo que tanto ama? – franziu a testa e voltou a olhar para as estrelas. Quando seu rosto foi iluminado totalmente pela luz da Lua, eu tive uma total certeza. Aquela certeza que faz o mundo ter sentido e o coração querer bater até depois da morte; a certeza que compõe a existência da vida.
- Eu a deixo livre para mudar e ser. Eu guardo seu tamanho, sua cor, sua posição. Como ela mergulharia em direção a mim em forma cadente, se estivesse ocupada demais presa em uma constelação?
me fitou. Ela parecia pensativa, enquanto uma mecha de cabelo caía em seus rosto, ainda – graças a Deus – iluminado pela luz pálida da Lua. Por um instante, seu olhar desviou de mim e ela fez aquele seu tão famoso hábito: mordiscar a unha do dedinho.
Seus olhos estavam perdidos nas possibilidades de sua mente, que eu não fazia ideia do que pensava. Mas eu sentia que era relacionado a mim. Porque parecia que eu fazia parte daquela mistura complexa que era e todos os seus mistérios.
Ela parecia tão calma e serena e meu peito se enchia de calor, como se tudo que existisse ao redor de nós – a grama, as pedras, os montes, os problemas e até mesmo o destino – desaparecesse. E, surpresa! Lá estava ela, loira, com os cabelos voando com o vento se misturando na escuridão estrelada. Os olhos me analisando de novo e sua boca em uma curva quase que romântica, que de um sorriso formava palavras beijadas.
- E se eu fosse uma estrela? – sussurrou. – De todas elas, qual eu seria?
- A minha estrela guia – sussurrei de volta. Seus olhos se encheram de uma coisa que eu não sei explicar, mas eu pude sentir. Porém aquilo me ativou, como uma adrenalina dos céus, que fez tudo ficar bem. – A mais brilhante, que faz o Sol ter inveja, mesmo estando tão perto da Terra e em outra parte do dia.
E ela me beijou. Devagar e cuidadosa, como se contasse um segredo. Meus braços a envolveram e fizemos amor ali mesmo, um espetáculo para a Lua. Da maneira mais explícita e imponente que imaginar. Novamente, aquela certeza invencível pulsou dentro de mim, a cada batida dizendo que eu a amava.




Conhecemos pessoas que nunca iríamos imaginar a posição que elas terão na nossa vida no futuro. Pessoas que conhecemos em bares – pode até ser o barman sexy, mesmo –, em festas, em hospitais ou em bibliotecas. Pessoas que nos fazem o que somos hoje, que acabam se tornando uma parte inseparável de nós ao longo do tempo.
Pessoas que nos mostram o amor arrebatador, verdadeiro e imponente. O Amor, com letra maiúscula e digno de artigo. Que surgem da poeira e se tornam montanhas. Pessoas que até nem sabem que fazem isso. Pessoas como eu, como você, como o vizinho ou o desconhecido na rua. São essas pessoas que movem o mundo, independente de qualquer coisa.
Essa é a minha história de amor – o meu momento de triunfo! – que eu dedico àquelas pessoas que não desistem do seu. Que já amaram, que amam, que fazem valer a pena. Que sabem perdoar e aceitar, se entregar e entrar de cabeça e alma. Porque no final, quando você for só pó e um nome numa lápide, só isso que irá te restar.
Porque é para isso que estamos aqui. Esqueça filosofia, esqueça ciências, esqueça toda aquela merda que você vem ouvindo dos seus avôs e tudo que já pensou sobre a existência da vida: você acaba de encontrar a resposta.
Amor. É isso. Fomos feitos para amar. Seja negro, branco, doente, saudável, triste, gay ou até mesmo na beira da morte: Você foi feito para amar. Você é como o maior defensor da galáxia. Então acredite no seu poder. Dê mais uma chance a si e ao seu parceiro/a. Dê mais uma chance à vida. Consideramos justa e necessária toda forma de amor para todas as estrelas, galáxias, universos e vidas. Não desista. Eu não desisti.

Que os defensores das galáxias fiquem para sempre.
Atenciosamente,
.




FIM



Nota da autora: Minha primeira fucking short, inspirada na tag #LoveWins e pelo dia de hoje – 26/diaqueeutermineideescrever – me trouxe. YAAAAAAY! EU TERMINEI ALGO NESSA VIDA! Espero não ter exagerado na astronomia ao longo da história e que eu tenha conseguido trazer a essência da música realmente para a história. E se você for um ser humano cujo o sobrenome é Harris, e for o ser humano que eu espero que seja, mais um pouco para você: “Quando o mistério é impressionante demais, a gente não ousa desobedecer.”

Outras Fanfics:
18. Do Watcha - Ficstape McFly Memory Lane/Finalizada.
/ficstape/18dowatcha.html
09. Transylvania - Ficstape McFly Memory Lane/Finalizada.
/ficstape/09transylvania.html
Tic-Tac - Outros/Em Andamento.
/ffobs/t/tictac.html

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