Postada: 29/06/2017

Prólogo


Fazia um pouco de frio, mas eu nunca me senti tão disposta a levantar da cama antes, o sol brilhava, mas não esquentava nada e estava tudo certo. Me sentia viva. Era difícil ignorar aquela sensação de bem estar.
Eu estava feliz.
Desempregada, solteira, ainda perdida com a vida, sem saber qual seria o próximo passo, num país completamente diferente, mas pela primeira vez em muito tempo, podia dizer com orgulho, de peito estufado que aqui e agora é onde eu queria estar.

Primeiro aviso


Há quanto tempo eu estava deitada naquela cama? Para ser sincera, não sei. A única coisa que sabia era que o relógio gritava que eram 17h. WOW! Aquele deveria ser algum novo tipo de recorde, estou presa a essa cama desde ontem, quando cheguei de um passeio com minha mãe. O que aconteceu por volta das 19h da noite. Quase 24h em uma cama, o que eu to fazendo com a minha vida?!
Sabe o que é pior? Não sinto a mínima vontade de levantar, nem para pegar um copo de água que seja. Me sinto cansada do mundo e com o mundo, tudo parece requerer um esforço maior do que eu posso fazer, sem contar as pessoas sempre fazendo as mesmas perguntas, te olhando com essa cara de pena.
Será que elas não percebem que eu consigo vê-las?
Evito falar com as pessoas porque já decorei o discurso do ‘você tem emprego, tem carro, tem pais maravilhosos, amigos com quem pode contar, o que mais quer?’. Apenas balanço a cabeça, dizendo que está tudo bem. Ou quando perguntam: ‘O que aconteceu para você estar assim?’. Que eu respiro fundo e sorrio, ignorando. Porque, bem, se as pessoas quisessem mesmo saber, eu gritaria na cara delas que NADA está acontecendo e é por não acontecer nada que eu estou assim. Tédio. Marasmo. Essa sensação de que a vida tá passando sem nada de legal acontecer nela, de que eu existir ou não existir não fará nenhuma diferença no mundo. O que eu tenho? Nada. Que coisa importante eu já fiz? Nada. Sinto apenas um carimbo bem grande na minha testa com a palavra IRRELEVANTE.
Às vezes imagino como essas pessoas não se sentem assim também, já que muitas vezes a vida delas parecem bem mais difíceis que a minha.
E quanto mais elas falam o quanto a minha vida é perfeita, mais me sinto a pior pessoa do mundo. Porque é verdade, eu tenho um emprego (que não gosto, mas eu tenho um e paga bem para alguém que acabou de se formar em direito), tenho um carro, amigos que conseguem me tirar dessa dimensão e não preciso me preocupar com as contas pois moro com meus pais. Aí, olhando essa imagem eu sei que deveria me sentir grata (e me sinto), mas quando esse monstro resolve atacar eu fico mal por estar mal, pois não deveria me sentir assim.
É bem complexo e contraditório, né? Eu sei.

“Vamos dar uma saidinha?”

Vi meu celular piscar com a mensagem recebida. Era , minha melhor amiga. Que bom, pois pelo menos eu não precisava inventar uma desculpa qualquer.

“Nesse exato momento, minha cama tá me amando mais que tudo nessa vida”

“Ahhh não, miga. Não vou ter que te fazer levantar dai não né? Você sabe que eu trabalho com tratamento de choque”

“hahahahahaha Não, miga, não precisa. Eu to bem, não é como se tivesse tido uma recaída e qualquer coisa assim. Ta tudo bem.”

“Espero que sim, por que dessa vez não vou esperar quase um mês para te tirar do seu quarto.”


Outch.
Odiava quando ela lembrava dessa parte.

Já vinha um tempo sentido umas coisas estranhas, mas eu estava na faculdade. Qual estudante não fica nervoso por uma prova ou um trabalho? Quem não perde o sono e começa a roer unha e pensar que o mundo vai acabar se você for mal? Não via isso como um grande problema, era só esperar o semestre acabar e tudo ficaria bem.
Mas, cara, como demorou a passar.
Demorou tanto que, um dia, estacionei meu carro na faculdade e chorei, mais do que eu podia aguentar. Só que eu precisava apresentar um trabalho. Cara, o aperto no coração foi tão grande que acreditei que estava tendo um infarto. Não sei se é possível descrever, mas é como se alguém estivesse com seu coração na mão, esmagando, fazendo até o seu pulmão parar.
Tentei me recompor e sai.
Entrei na sala. E tudo piorou. No mesmo segundo que sentei e olhei meus colegas apresentando seus trabalhos, não era mais aperto, era dor e então sai correndo, a tempo de esconder as lágrimas de quem estivesse lá dentro.
Uma colega, , me acompanhou e perguntou o que tinha acontecido. Só sibilava que nada tinha acontecido, me desesperando ainda mais, porque nada tinha acontecido, na verdade, e eu estava me sentindo destruída. Queria perguntar por que sentia aquilo, no entanto, só vinham as lágrimas.
Mais nenhuma palavra, mais nenhum controle.
chamou a professora e eu fui embora - acho que por compaixão a professora me deu um sete, só para eu passar na matéria.
Depois disso, vim para casa e tudo o que fiz foi me trancar no quarto e dormir. Dormi até ficar cansada de dormir.
Minha mãe sempre vinha perguntar o que estava acontecendo, mas acredito que ela não prestava muita atenção, pois acreditava que depois que saia para o trabalho eu ia para a faculdade e para o estágio. Não. Eu perdi o estágio. Perdi matéria por falta.
Eu fiquei na cama 28 dias.
VINTE E OITO DIAS. No meu primeiro ‘break down’. Claro que eu levantava para ir à cozinha, tomar banho um dia ou outro, mas foram dias em que a humanidade não estava nem um pouco satisfeita comigo. Não abri as janelas para ver o sol. Não liguei a televisão. Fazia que nem o mogli: somente o necessário (claro que não era sobre isso que se falava na música, mas a interpretação é minha, eu a coloco no sentido que eu quero, né não?).
Respondia as mensagens do meu celular monossilabicamente, sem deixar transparecer o que acontecia de verdade. Até que a irrompeu pela porta do meu quarto como um furacão pronto para acabar com o que visse pela frente.
- Que diabo você pensa que tá fazendo?
- Me deixa, . - tapei meu rosto com o travesseiro, por conta da luz que entrou quando ela abriu a janela.
- Não deixo, não. Te procurei todos os dias na faculdade, você mentiu para mim. Agora só de castigo, você vai colocar um biquíni e tomar uma cerveja comigo na praia. Nem que eu tenha que colocar a sua roupa e te carregar até o carro.
Como eu tinha certeza que ela falava sério? Porque sem dizer muita coisa, simplesmente saiu do quarto e voltou com a minha escova de dentes nas mãos e a enfiou dentro da minha boca.
- Você não quer que escove seus dentes também, né? - a filha da puta disse com um sorriso no rosto, que devolvi com uma expressão de deboche.
Tinha que ir.
No momento em que meus pés tocaram a areia quente e o sol me presenteou com toda aquela vitamina D, comecei a pensar no que estava errado comigo.
- Não quero voltar para a faculdade. - soltei inesperadamente, enquanto nos ajeitávamos nos nossos lugares. - Não quero advogar, não sirvo para isso.
- E o que você quer fazer?
- Não sei. - choraminguei.
- Bom, já é um começo saber o que não quer.
- Como você sempre soube o que queria fazer, hein? - perguntei curiosa.
- A gente nunca tem certeza de nada, . Você sabe o quanto eu gosto de arte, mas não de pintar. O quanto eu gosto de meter a mão na massa. Arquitetura me pareceu a opção mais correta e ainda bem que foi, mas com cada um é diferente. Olha a Lara, terminou nutrição e foi fazer o quê? Estudar para medicina. Aiala entrou em psicologia, foi para enfermagem e agora tá bem feliz em farmácia. A gente só precisa se ouvir e ter coragem. Não existe alguma coisa que você fecha os olhos e se vê?
Parei por um minuto.
- Existem coisas que eu gosto de fazer, mas não me vejo trabalhando nelas.
- Tipo?
- Línguas. Aprender um novo idioma é como um hobby para mim, você sabe. Aprendi a falar inglês sozinha, consigo cantar umas músicas em francês quase perfeitamente e agora to bem focada no espanhol.
- Talvez isso não ajude, mas vou repetir o que sempre digo: Desde os tempos de colégio, nunca te vi numa faculdade de direito. Você sempre teve o poder de me surpreender e quando recebi a notícia de que você estudaria para ser advogada, meu queixo foi no chão.
Eu ri. Era verdade, talvez eu tivesse desistido muito cedo. Talvez não tivesse tido muito tempo para pensar em tudo isso. Vi todo mundo passando em um vestibular e eu ficando para trás, então fiz a prova sem pretensão e quando recebi a notícia que tinha passado, foi como um alívio. Não precisaria mais me preocupar com o que faria depois do colégio, iria para algum lugar.
No entanto, aquele não era o lugar certo.
- Sinto que perdi meu ‘time’. Deveria ter largado muito antes e pensado no que deveria fazer com a minha vida. Agora é tarde, sabe? To indo para o último ano, não posso desistir agora. O tempo tá passando e ninguém está ficando mais novo.
- Odeio quando você fala isso. - bufou irritada. - Como se tivesse um tempo determinado para tudo na vida. Com não sei quantos anos tem que ter uma casa, em tal época tem que casar, antes dos 30 ter o primeiro filho. A vida não tem roteiro não, sempre é tempo de fazer o que você sente que deve fazer, sem se importar com isso. É bem clichê, mas é a mais pura verdade quando as pessoas falam que cada um tem seu tempo. Uns já nascem sabendo o que vão fazer na vida, outros só descobrem com 40 anos.
- Deus me livre passar por isso até os 40. - tentei ser engraçada.
- NÃO, ! - ela me repreendeu irritada de verdade dessa vez – Não é Deus me livre, a gente não escolhe essas coisas. Se acontecer, não é errado, não é nada para se ter vergonha. É o seu tempo. É a sua vida!
Me encolhi no meu lugar, estava certa, mas eu ainda precisava terminar a faculdade ou isso mataria meus pais.
- Você precisa de duas coisas: tirar um tempo para você e procurar um psicólogo.

Segundo aviso


Bem, eu deveria ter procurado ajuda profissional mais cedo, mas era bem difícil aceitar que eu tinha algum problema. E os meses que se passaram não foram nada tranquilos, pois havia chegado a temida época de fazer o exame de ordem da OAB.
Sentia que estava melhorando, com todas as preocupações, até mesmo em aceitar um pouco mais a minha escolha profissional.
Faltava essa etapa, ia ser tranquila, certo?
Certo.
Exceto se você fosse aluna de um dos professores mais escrotos da faculdade.
Como não me identificava com nenhuma das matérias que cairiam na prova prática, eu escolhi pelo número de peças que precisaria aprender.
Talvez eu tivesse sido burra o suficiente para escolher tributário, matéria que todas as pessoas juram de pé junto que é a pior de todo curso de direito, que fala sobre o complexo sistema de impostos, taxas, contribuições etc, etc, desse nosso Brasil. No entanto, não acreditava que poderia ser tão complexo assim. A matéria, porque o sistema é bem louco mesmo.
Minha grade estava uma bagunça e naquele semestre peguei de uma vez duas matérias voltadas para o assunto, então pensei: ‘Se eu já vou ter que estudar tanto para essa matéria, por que não aproveitar o conhecimento fresco e usar na prova da OAB também?’. Foi uma boa lógica, admitam!
- Quem vai fazer a prova da OAB esse semestre? - o professor perguntou parecendo bem-intencionado. Quase a totalidade da classe levantou a mão. - E quantos desses vão ser corajosos para enfrentar a prova de tributário?
Não queria levantar a minha mão, nem queria que ninguém soubesse que eu faria aquela prova. Quanto menos expectativas, melhor. Exceto que eu havia contado para minha colega de faculdade, a mesma que no semestre passado havia me ajudado na minha primeira crise.
Somente três pessoas levantaram as mãos. Uma delas era que apontava para mim.
- A , professor. Ela vai fazer também.
- Então temos 3 corajosos? - ele olhou diretamente para mim, o que me fez arrepender imediatamente de ter contado para alguém e até mesmo escolhido essa porcaria de matéria para início de conversa. - Ótimo, vou fazer uma aposta. Quem passar vai ganhar um jantar no restaurante mais caro da cidade.
Vocês achando que ele falava acreditando nos alunos? Nada disso, seu olhar era de desdém, procurando a próxima pessoa que falharia miseravelmente.
Por um momento eu também acreditei que a sua aposta era um modo de nos incentivar a vencer, tanto que, com minha inocência, ao final da aula fui pedir alguns conselhos.
- Oi, professor. - cheguei educadamente na sua mesa – Sou uma das alunas que fará a prova da OAB na sua matéria, será que o senhor aconselharia um curso específico a fazer? Eu estive procurando alguns, mas não estou certa de qual seria o melhor.
Ele sorriu encantadoramente.
- Pode fazer qualquer um, não fará diferença. Você não vai passar. - assim, no cru. Sem nenhum disfarce, só aquela cara de deboche para mim.
Ali eu me senti muito forte, porque me segurei para não dar um belo murro na sua cara, porém, ao mesmo tempo era a frase que faltava para eu desabar e recomeçar a duvidar das minhas escolhas. Talvez eu tivesse mesmo metido os pés pelas mãos. Onde que minha cabeça estava para eu escolher a matéria mais difícil de um curso que não me identificava?
Quando eu me sentei ao lado da na hora do intervalo, estava tão na cara que algo havia acontecido que ela nem abriu a boca, só esperou que eu falasse alguma coisa.
- Não vou fazer a prova mês que vem. - disse encostando minha cabeça em seu ombro.
- Tá louca? Vai sim.
- Sabe quando eu digo que existem coisas que só acontecem comigo? Acabou de acontecer novamente. - então contei o que havia passado. Aquilo era motivo suficiente para desistir.
- Nada disso, muito pelo contrário. Você sabe muito bem o que deve fazer.
- Não sei, não.
- Você vai estudar tanto, mas tanto, que vai fazer um doutorado nessa matéria aí. Vai saber mais que esse professor ridículo e vai tirar a maior nota de todo o Brasil. Não aceito menos, certo? Esquece o que ele disse, a única pessoa que precisa genuinamente acreditar nessa vitória é você mesma, .
Fiz minha melhor cara de desanimação.
O próximo mês e meio da minha vida envolveu apenas: estudar, ir para o estágio, chorar, sofrer, desistir, recomeçar e ir ao Pilates. Foi o período mais cansativo de toda a minha vida.
Sabe o que foi pior? O dia do resultado.
Eu e decidimos que veríamos juntas as nossas notas, então resolvemos ir à um barzinho perto das nossas casas.
- Você está nervosa? - ela me perguntou sorrindo.
Estava. Muito. Não sabia ao certo como tinha ido na prova aberta e por mais que tivesse visto as respostas do gabarito anteriormente, ainda não estava segura de que passaria. Se tinha uma coisa pela qual a banca que corrigia as provas da OAB era famosa, era por ser uma caixinha de surpresa.
- Um pouco e você?
- Não que eu esteja nervosa, mas minhas respostas batem bem com o gabarito e to bem feliz com isso.
- Que bom, você merece.
E eu disse aquilo com todo meu coração. Nunca havia conhecido ninguém mais estudiosa e preparada para a profissão de advogada que ela. Desde o início da faculdade este sempre foi seu objetivo e eu não tinha dúvidas do quão bem sucedida seria.
- Olha, saiu. - ela disse animada olhando para o seu celular – Pronta para ver?
Assenti com a cabeça e peguei o meu aparelho para ver a bomba chegar. Queria dizer que estava pronta para receber um REPROVADO bem grande, mas isso era uma mentira cabeludíssima. Se eu não passasse ali, jogaria tudo para cima, nunca mais voltaria para aquela faculdade na vida.
Aquela página da internet levou uma vida para carregar. Quando completou, demorou uma eternidade até chegar à minha letra e eu finalmente ver meu nome completo no meio daquela tonelada de pessoas que passaram.
Sorri verdadeiramente, como há um bom tempo não fazia, mas não durou muito porque logo voltei minha atenção para e, bem, ela não precisou dizer nenhuma palavra. Dava para ver a decepção em seu olhar, aquilo cortou meu coração.
Congelei sem saber o que fazer.
- , minha mãe tá me chamando em casa, depois a gente se fala, tá? - como um foguete, ela pegou as coisas, levantando-se para ir embora. A voz embargada deixava claro que era uma desculpa esfarrapada, mas ela nem esperou alguma reação da minha parte para sumir da minha vista.
Procurei seu nome na lista e não encontrei.
E dali em diante tudo o que eu conseguia fazer era me questionar por que alguém como eu, que não queria estar no curso, passou logo de primeira e que tinha certeza do seu futuro não conseguiu passar.
Me senti culpada pela sua infelicidade e quando não a vi na sala de aula no outro dia minhas pernas não pararam de balançar. Não consegui sorrir para ninguém que me deu os parabéns, nem mesmo o professor filho da puta.
Havia o colocado em seu lugar, mas o que seria de agora?

Terceiro aviso


Em algum momento entre me sentir péssima e me sentir mal, me surgiu uma ideia bem boba. Talvez eu só precisasse de um namorado, talvez estar em um relacionamento diminuiria essa sensação de vazio existencial.
Não que eu fosse encalhada. Sempre que saia encontrava alguém para passar a noite, mas nunca dava certo levar isso além. Talvez eu sempre mandasse os sinais errados ou os caras simplesmente olhavam para mim e falavam: essa não vale a pena ter um relacionamento sério. Então pensei que se conseguisse alguém para chamar de mozão as coisas melhorariam.
Foi assim que conheci João.
Tá. Não conheci ele com esse intuito, nós conversamos por quase dois meses antes do primeiro encontro e isso foi essencial, porque eu sentia que podia conversar com ele sem ser julgada. Ele gostava da natureza, adorava surfar e me ensinou a meditar.
O que não posso negar, foi extremamente relevante para mim.
- É importante a gente encontrar um momento para conversar com nosso eu interior, . - ele me dizia sempre.
- Mas eu não consigo me concentrar o suficiente para me desligar. - eu reclamava
- Não precisa ficar 5 minutos, começa aos poucos. Coloca uma música tranquila, foca na sua respiração. Começa com 30 segundos, quando você menos esperar vai ficar 10 minutos desligada de tudo e vai se sentir melhor.
Me esforcei o quanto pude. Todos os dias pela manhã, parava, colocava minha playlist especial no spotify e não pensava em mais nada.
Eu nunca consegui ficar mais de dois minutos daquela forma, mas eram dois minutos que fizeram a diferença para mim. Aos poucos as coisas foram se colocando em seu lugar, mas infelizmente aquele vazio continuava ali.
Ainda não sentia nada e aquilo me incomodava. Eu estava morta por dentro. E, contraditoriamente, tinha medo de ficar assim para sempre. Sem conseguir sentir uma coisa que seja. Passei de sentir tudo a não sentir nada, e aquilo me assustava profundamente.
Foi aí que, conversando com João, ele me chamou para ir ao cinema. E eu pensei: Por que não? Estava sendo ótimo conversar com ele e ainda corria na minha mente a ideia maluca de arranjar um namorado para curar as feridas do ser. Era perfeito!
Saímos mais duas vezes e com minha mente correndo contra um tempo fictício, achei que já era tempo suficiente.
- Ele vai te pedir em namoro. - me puxou de lado em um churrasco de nossos amigos. - Hoje.
- Sério? - fiquei animada por um instante. - Como você sabe?
- Ele me perguntou se era uma boa ocasião. Obvio que não é, mas também não soube como dizer isso. - ela gesticulou de nervoso - , você não acha que é um pouco precipitado não? Beleza, vocês passaram bastante tempo conversando, mas você gosta dele?
- Eu gosto de conversar com ele. - fui sincera – Mas o amor se constrói, não é?
E simplesmente deu de ombros.
- Ainda acho muito apressado da parte de vocês.
Então, como havia dito, a primeira coisa que ele me disse quando chegou no churrasco foi: ‘Como você vai me apresentar para os seus amigos? Porque gostaria muito que fosse como namorado’. Eu sorri, mas parece que tudo mudou de repente com aquela simples frase.
A gente se viu todos os dias pelo resto da semana e tudo o que eu conseguia me perguntar era se era certo o que estava fazendo. Não tinha química, não tinha paixão. Era tudo muito normal e eu me entediei muito rápido. No fim dessa semana, já nem conseguia mais olhar na cara dele, o beijo era horrível e o sexo terrível. Eu inventei muitas desculpas. E foram apenas uma semana juntos.
Me desesperava quando eu pensava daqui a um ano junto com ele, o casamento, os filhos.
- Já falei com minha mãe sobre você, ela não vê a hora de conhecer a nora. - ele disse singelo e carinhoso, porém meu coração só mandava eu correr léguas dali. - Aposto que ela vai te adorar.
Que tipo de pessoa já fala da namorada com apenas alguns dias de namoro? Ele não podia ter esperado um pouco mais? O medo de ser a nora mais decepcionante cresceu imediatamente. Minha sogra não ia gostar nem um pouco de mim, ainda mais sendo desse meu jeito.
E aquilo tudo ficou rodando na minha cabeça por dias, até que não foi mais possível levar aquilo para frente. Estar em um relacionamento era um peso muito enorme para alguém como eu.
Duas semanas depois de começar o namoro, o chamei para um café.
- João, eu te chamei aqui, pois queria te dizer uma coisa. - estávamos em uma mesa e fiquei de frente a ele.
- Aconteceu alguma coisa? - ele me perguntou surpreso.
Óbvio que eu não sabia nem por onde começar. Eu via transparecer em sua face a preocupação genuína com alguém com quem se importa e aquilo me matava aos pouquinhos.
- Aconteceu. - nem esperei ele abrir a boca para perguntar o quê, precisava tirar aquilo de mim de uma vez – Eu queria te dizer uma coisa que não fosse clichê para que você não pensasse que fez algo mal ou coisa assim, mas tenho muita coisa mal resolvida comigo mesma e não é justo eu te arrastar sendo que minha intenção não é verdadeira.
- Ainda não compreendo. - Ele me perguntou superconfuso.
- Eu quero terminar. - disse de uma vez, num só suspiro. Eu ia ficar calada, mas precisava esclarecer as coisas antes que alguém ali me matasse – E eu não queria dizer aquela frase escrota: ‘não é você, sou eu’, mas não tenho para onde fugir. Você fez tudo certo, eu que sou louca e não sei lidar com isso, então me desculpa se eu fiz você perder seu tempo. Me perdoa mesmo.
- Não consigo entender, sabe? - ele disse de forma resiliente – Achei que estivesse tudo bem, não há mesmo nada que possamos fazer?
- Não, João. - disse certa – Por que sou eu que tenho que me ajeitar primeiro.
- Só me responde uma coisa. - ele pegou na minha mão, segurando-a com firmeza – Não tem outra pessoa não, né? Se tiver pode dizer, só quero que você seja sincera.
Sorri. Queria eu que meus problemas amorosos fossem causados por conta de estar apaixonada por duas pessoas, mas não era. Era a falta de paixão por mim mesma que estava me impedindo de continuar com aquilo.
Fui sincera. Disse que não havia mais ninguém e nos despedimos com um abraço apertado. Queria querer estar com alguém como ele, mas não era possível para mim.

Quarto aviso


Colocar um ponto final no meu relacionamento me deu forças para finalmente reconhecer que não seria possível alguma melhora sem uma ajuda profissional, porque para mim já tinha virado costume sentir toda aquela agonia, aquele vazio, mesmo sabendo que não era o que deveria sentir sempre.
Comecei uma busca maluca por um psicólogo. Pedia um número para todo mundo que eu sabia que tinha frequentado um, mas nunca tive coragem para ligar.
Foi num dia quando voltei do trabalho, me sentei na mesa com os papéis e o celular na mão, que me dei conta de que nunca conseguiria sair dali sozinha; me frustrei. Abaixei a cabeça escondendo minha derrota e comecei a chorar timidamente.
Tudo o que eu conseguia pensar era que jamais conseguiria sair daquela prisão, nem nunca conseguiria ser feliz de verdade se não dividisse minhas angustias. E eu queria, mas discar qualquer número daqueles fazia meu coração tremer forte, sentia que era jogar a toalha branca e desistir de mim mesma.
Até que eu senti uma mão carinhosa passando por minha cabeça, naqueles longos segundos de paz. Voltei no tempo, quando eu era bem criancinha e deitava junto com a minha mãe na sua cama e tudo o que ela fazia era aquele carinho bom no meu cabelo que relaxava muito mais ela do que a mim, já que a vida resumia em ir desenhar na escola, aprender a ler e dividir merenda com a amiguinha.
Eu havia me distanciado desde a adolescência. Minha mãe e eu nunca fomos boas com diálogos profundos, de expor sentimentos pessoais. À medida que fui crescendo, tudo o que nos restou foram cobranças, pressões intercaladas com momentos amenos de pouca intimidade. Ela era uma das primeiras pessoas a gritar que não tinha por que eu reclamar de nada, pois as contas estavam pagas e a comida estava na mesa, aquilo doía. De todas as pessoas, para mim, não ser compreendida por aquela que convivia comigo todos os dias era o pior dos golpes.
Mas ali, naquele momento, tudo se dissipou.
- Que tanto número é esse? - minha mãe disse puxando a cadeira e sentando-se perto de mim.
Levantei meu rosto, vendo o seu choque disfarçado em me ver triste.
- São números de psicólogos, mas não consigo fazer a ligação. - suspirei desapontada.
- Tudo bem, eu te ajudo. Qual você quer que eu marque? - ela pegou o celular, mirando para todos aqueles números.
Apontei para um dos números no papel, sentindo o coração apertar fininho.
Enquanto ela falava ao telefone meu coração ia se esquentando aos pouquinhos. Sabe, aquele gesto tão simples, tão sem intenção, me deu tanta coragem.
- Pronto, sua primeira sessão será sexta, às 11 da manhã. - disse, colocando o telefone em cima da mesa. - Quer comer uma pizza?
- Obrigada. - dei um abraço forte, tentando transmitir o meu calor.

A sexta da primeira sessão chegou muito rápido, parece que eu nem tinha fechado meus olhos direito. Estava ansiosa, nervosa para saber como seria. O que eu encontraria, se é que encontraria alguma coisa. Mantive meu coração aberto e assim que aquela mulher chamou meu nome, dei um pulo da cadeira, entrando em sua sala.
A sala tinha um cheiro bom e me dava sensação de conforto. Havia um sofá, que deduzi ser o lugar onde eu me sentaria e em frente a ele uma poltrona. Em cima da mesa, um bloco de anotação compunha o ambiente, me levando imediatamente à como os filmes mostravam um consultório. Atrás estava sua mesa, com o computador pessoal e em outro canto uma mesinha infantil, cheia de brinquedos, indicando que ela também tratava de crianças.
Me peguei pensando em uma criança de oito anos já tão perturbada com essa vida que precisava de um psicólogo. Que mundo de merda era aquele que a gente tava vivendo?
- É a sua primeira vez em um consultório assim? - fui interrompida por sua voz determinada, porém levemente angelical.
- Sim. - respondi desconfortável.
- E no que você está pensando agora?
Fiquei um pouco receosa, mas a gente tava ali para falar, não é mesmo?
- Em crianças indo para o psicólogo. - continuei falando somente o essencial.
Ela riu de leve.
- Os motivos são diversos dos adultos, nossas crianças ainda tem solução, fique tranquila. - explicou – Às vezes é sobre um divórcio entre os pais, às vezes quem precisa mais são os pais do que as crianças em si… Mas e você, pode me contar um pouquinho por que está aqui?
Então contei tudo, desde o primeiro dia em que me dei conta que estava diferente.
Nas primeiras sessões ela apenas me escutava, escutava, escutava e, para ser sincera, me parecia um pouco chato ficar ali só falando, sem nenhuma solução prática, mas com o tempo fui percebendo uma diferença em mim.
Até o dia que ela realmente fez uma pergunta que me fez refletir.
- , você nunca pensou em passar um tempo fora do país?
Aquela pergunta me pegou desprevenida. Sempre pensei nisso, desde que me conheço por gente e meu amor pelas línguas em geral começou. Meu desejo maior era fazer cursos de idiomas nos lugares nativos, mas sempre tinha um empecilho. No começo, eu era nova demais, depois meus pais se recusavam a pagar, durante a faculdade tive medo de que um tempo fora pudesse atrapalhar tudo e me atrasar e depois que me formei então veio o trabalho. Esse tempo todo fico pensando se não deveria ter largado tudo para seguir o que gostava, mas a verdade é que eu nunca tive coragem.

Primeiro passo


Então, voltamos à esse dia em que eu dormi quase 24 horas seguidas. Continuava com a terapia, com a meditação. A ioga não, isso eu já tinha desistido e como minha psicóloga me explicou, haveria dias em que me sentiria com energia baixa e estava tudo bem se sentir assim, se mantivesse em mente que era apenas temporário, porém por mais ok que fosse, em dias como esse eu me esforçava a ver as coisas de outra forma. A ter coragem de fazer pequenas tarefas e foi o que eu fiz.
A meta era apenas tomar banho. Assim que a cumpri, a segunda meta era comer. Até que de pequenas em pequenas metas me vi sentada no sofá, assistindo a um programa qualquer e me veio uma vontade de sair de casa.
Comemorei internamente e mandei uma mensagem para .

“A saidinha envolve um cinema? Porque se sim, vamos!”

Em poucos segundos, recebi uma mensagem de resposta comemorando a companhia.
Aí que as coisas começam a ficar engraçadas.
Sabe aquela história de que você nunca sabe quando será o dia mais importante da sua vida até que esteja vivendo nele? Foi como eu me senti vivendo aquele momento.
Não pareceu importante, é verdade, só depois que eu me toquei.
Avistei de longe caminhando sozinho em minha direção a pessoa que, depois de tanto tempo, não esperava encontrar: João. Desde o dia do nosso rompimento eu nunca mais o havia visto, inclusive acreditava seriamente que ele tinha mudado de cidade, mas não, ali estava ele. Apesar de tudo, ainda tinha alguma esperança de ter continuado amiga dele, porém quase dois anos se passaram e o contato foi exatamente igual à zero. Eu o compreendia, afinal.
Mesmo assim abri meu sorriso e antes que eu falasse qualquer coisa, João apenas me recebeu com surpresa dizendo:
- Jurava que você não estava mais no Brasil, aqui não é bem o seu lugar.
- Ah, não. - sorri amarelo – Nunca sai daqui dessa cidade, pra falar a verdade.
Nós ainda falamos mais duas frases cordiais e seguimos os nossos caminhos, porém aquilo ficou na minha cabeça. Como alguém conseguia me impactar tanto com uma única frase!
- Você sabe que não é só ele que acha isso, certo? - me disse levantando as sobrancelhas.
- Eu sei, até minha psicóloga já me disse isso, mas eu queria tentar ser alguém melhor aqui, porque não é o lugar que conta, . É a pessoa. Se eu não estiver bem aqui, não estarei em lugar nenhum. - afirmei, no entanto, com pouca convicção do que falava.
- , tudo bem, você pode estar um pouco certa, mas mudar também ajuda. É outro modo de ver as coisas, são pessoas novas e até novos problemas. Às vezes tudo o que a gente precisa é uma mudança de perspectiva e isso todo mundo já se deu conta que é o que você precisa, agora só tá faltando você criar coragem e partir.
A olhei pensativa. Talvez ela tivesse razão, talvez todos ao meu redor tivessem razão e eu apenas estava tentando me sabotar e me fechar para as alternativas. Precisava me convencer a fazer o que era melhor para mim, não o que era certo.
Passei a noite pensando nesse encontro com João e, sem perceber, minha memória me levou aleatoriamente a uma aula de mediação e arbitragem, em que a professora contou como foi fazer seu mestrado em uma das universidades mais antigas da Europa.
Corri para o meu celular buscando fotos e informações do lugar. Parecia perfeita para mim. Cidade importante, porém não era pequena, nem grande. Sem aeroporto, mas perto de Madrid. Cheia de histórias e lendas urbanas. Meu coração gritou mandando pegar o primeiro avião para ali.
- Amanhã, você e eu temos uma missão. - Não deixei dizer ‘alô’ direito quando atendeu seu telefone, sustentando o maior sorriso do mundo – Vamos organizar minha mudança para Salamanca, na Espanha.
- YEY! - gritou animada – Já estou mais ansiosa que você.

No dia seguinte, liguei para o trabalho dizendo que estava doente. Eu e percorremos cada agência de intercambio dessa cidade para vermos preços. Estava encantada com as coincidências, em cada lugar que chegávamos eu apenas dizia que queria ir para a Espanha e quando a pessoa procurava as cidades mais em conta, o nome Salamanca gritava na tela do computador.
- E por quanto tempo você pretende ficar lá?
Essa era a pergunta que comia minhas entranhas. Ir era uma perspectiva muito boa, mas também precisava voltar para a minha vida. Quanto tempo seria suficiente para que me desse por satisfeita? Em quanto tempo eu poderia dizer ‘‘ok, agora é hora de voltar, tá na hora’’?! Mas precisava pensar objetivamente, aquilo era apenas um tempo para mim, para eu me acertar. Era como o ano sabático que os jovens tiram antes de entrar na faculdade, com a exceção que eu já tinha passado desse há muito tempo.
- Quanto tempo você acha que seria bom para aprender o idioma? - perguntei para a moça da agência.
- O curso completo está planejado para seis meses, passando por todos os níveis.
- Então será o tempo que ficarei.
- Você não quer ficar mais tempo? - me perguntou com o cenho enrugado.
- Não, amiga. É o suficiente. - disse decidida – É tempo de me encontrar, colocar a cabeça no lugar e voltar para minha vida. deu de ombros, aceitando a minha resposta.
O tempo que durou de fechar o pacote até o dia da viagem foi de pura tensão, minha família simplesmente não conseguia aceitar eu largar tudo, meu emprego certo, minha vida, para viver esse momento de incertezas. Minha mãe lavou as mãos e deixou que eu organizasse tudo sozinha, nenhuma ajuda para dobrar uma peça de roupa, e mesmo assim eu estava satisfeita, porque eu me sentia bem com a decisão.
Num espaço de três meses, entre decidir e ir embora, minha psicóloga me deu os parabéns pela minha evolução. Não tive nenhum sentimento negativo. Claro que a ansiedade estava lá fazendo as perguntas erradas como ‘e se você não conseguir ninguém?’, ‘e se você não gostar?’, ‘e se ninguém entender o que você tá falando?’, porém eu só respondia a mim mesmo que se nada desse certo, eu tentei. Tive coragem de fazer o que eu queria uma vez na vida e o que quer que aconteça tinha que acontecer para que eu tivesse certeza de onde eu estou.
A vida é um desafio e eu estava preparada para mais um.
Espanha, não sei o que você reserva para mim, mas pode vir.

Mudança definitiva


Havia pouco mais de três dias que meu ônibus parou na estação de Salamanca e, assim que larguei minhas malas na casa onde ficaria, fui dar uma volta sem destino pela cidade. Aquelas ruas sem sentido, cheias de becos, porém de uma cor dourada tão especial. Prédios tão antigos, porém tão conservados.
Quando entrei me deparei com aquela Plaza Mayor, respirei fundo sentindo aquele ar gelado entrar por meus pulmões. Salamanca no inverno sabia ser bem fria e seca, mas era tão charmosa! Peguei um mapa na informação turística e passei minha tarde conhecendo minha nova cidade. Passei pela ‘Casa das Conchas’ que nada parecia com uma biblioteca e pela sua catedral impressionantemente enorme e bem conservada. Fui atrás do sapo na Universidade, não encontrei, mas não deixei me levar pela crença de que não teria sorte porque não o havia visto, já me sentia muito sortuda de estar ali. Conheci ‘El Cielo de Salamanca’ e me apaixonei. Era indescritível estar naquela cidadezinha, bem menor do que eu imaginava, mas tão acolhedora, tão simpática e confortável. Apesar de estar só, solidão era a última coisa que eu estava sentindo.
Meus professores eram superlegais e eu me sentia tão tranquila, como se fosse aluna há 10 anos.
- , tem outra aluna brasileira aqui na sala 14, acho que ela tem a sua idade inclusive. - minha professora me disse – Se quiser depois a gente vai lá.
- Eu vou adorar, muito obrigada.
E aqui vou dizer uma coisa muito pessoal: Todo mundo antes de enfrentar um país novo, uma língua totalmente diferente afirma com tanta veemência que não quer encontrar outros brasileiros, não quer sair com brasileiros etc, sem saber que não há nada de errado nisso. Inclusive, tinha adorado a ideia de verdade.
Logo depois soube que Amanda já estava aqui há um mês, mas só ficaria por mais dois.
- Hoje tem um botellon na casa de um brasileiro que também tá fazendo intercambio aqui, quer ir? - ela me convidou.
- Botellon? - perguntei confusa com a nova palavra.
- Melhor palavra do espanhol que você vai aprender. É o nosso esquenta brasileiro, sabe? Todo mundo leva uma bebida para a casa de alguém antes de ir para a festa e hoje vai ser nesse brasileiro, lá na Plaza Mayor. Vamos? Aproveito e te apresento para o povo que eu conheci aqui.
Tinha como recusar? Claro que não!

A sala da casa de Thiago estava lotada de gente, não é sendo exagerada. Só naquele cômodo deveria ter umas 25 pessoas e não era a maior sala de estar do mundo, não cabia mais gente sentada, nem em pé, ainda assim tinha alguns gringos jogando um estranho beerpong que eu nunca tinha visto na vida. Entrar naquele espaço cheio de gente estranha trouxe de volta aquela medrosa e envergonhada a tona, mas fingi que não a conhecia e comecei a cumprimentar todos que estavam ao meu redor. Eu tinha uma personalidade muito foda, estava decidida a deixá-la tomar conta de mim a partir daquele momento, não tinha por que escondê-la, eu estava no meu caminho.
Tinha gente de todos os lugares do mundo, Alemanha, Holanda, Marrocos, era uma mistura de sotaques tão gostosa que eu passei bons minutos só ouvindo o que eles falavam, só pelo prazer de ouvir um espanhol muitas vezes incompreensível para mim, pela simples falta de costume.
Naquele momento, eu me permitir ser feliz. Olhar a vida com outros ares, deixar de pensar em mim como alguém que não merecia tudo o que estava vivendo, porque outra pessoa não tinha o que eu possuía.
Eu merecia.
Era a minha vida e se eu tinha chegado até ali era por que tinha construído meu próprio caminho. Me fiz uma promessa de nunca olhar para trás com pena de mim ou sentir culpa por tudo o que já havia me acontecido. Foi uma construção. Onde mais eu estaria se não tivesse passado por tudo isso? Não sei, mas estou aqui agora e completamente grata por tudo.
- , vem aqui. - Thiago me chamou em outro canto, simpático. - Deixa apresentar meus colegas de piso. Giulia, e Alessandro. É todo mundo novo na cidade e eu já vou mês que vem, então passo o bastão para vocês que chegaram agora. Não me desapontem, hein? Façam os melhores botellons esse semestre.
Nós quatro rimos.
- Não somos loucos de deixar isso acontecer! - O que se chamava respondeu e perguntou para mim – Também é brasileira?
- Sou, sim. - sorri alegre – E pelo seu nome, posso deduzir que é da , não é?
- Com certeza! - ele me respondeu animado.

Epílogo


Cinco anos se passaram desde que eu resolvi fazer o intercambio na Espanha. Cinco anos sem voltar a morar no Brasil, indo apenas para visitar meus pais e meus amigos. Quem diria que a teve que vir me visitar na ? Lugar que eu morava agora com meu marido, .
Sim, o mesmo que encontrei em Salamanca.
No início, nós não nos falávamos tanto, mas a cidade não era grande e não havia tanto lugares assim para ‘salir de fiesta’, como os espanhóis falam quando querem sair noite afora. Curiosamente, nós tínhamos a mesma preferência, um lugar meio alternativo para os brasileiros, que tocava um rock em general, do indie ao clássico, numa mistura muito louca, com as paredes rabiscadas, que fugia um pouco da batida do regueton que infestava os outros locais, chamado ‘Paniagua’. A gente sempre se cumprimentava, às vezes bebia junto, mas nada muito cheio de intimidade sabe?!
E um dia com muita surpresa recebi um ‘Hola, guapa’ no whatsapp. Era perguntando se eu podia ajudá-lo com uma tradução de um texto em português para o espanhol, para uma bolsa de estudo na Universidade de Brasília. Eu não estava fazendo nada demais, por que não, certo? Foi o primeiro dos ‘sims’ que mudaram totalmente a minha vida.
Ele mostrou a tradução para sua orientadora que achou incrível meu trabalho, que me indicou para outra aluna, um amigo dessa aluna, um conhecido desse amigo e quando eu dei por mim, estava completamente envolvida na tradução de textos acadêmicos. E quando descobriram que eu também falava inglês, o trabalho duplicou.
Estendi meus seis meses por mais outros seis, para poder fazer um curso específico de tradução e, nesse meio tempo, foi crescendo em meu coração aos pouquinhos. Minha professora do curso gostava tanto do meu trabalho que me indicou um mestrado profissional e depois disso fui criando raízes e mais raízes na Europa até o dia em que terminou a faculdade na Espanha e eu decidi que voltaria com ele para a .
Depois de quase 3 anos de namoro, casamos.
Descobri sem querer minha vocação e hoje trabalho numa grande editora.
Tudo o que eu sei é que levou tempo, resisti bastante a ajuda profissional, mas depois que eu escolhi não ser mais triste, tudo deu muito certo.


Fim



Nota da autora: Sem nota!
Ficstape TOFTT


Nota da Beta: Que história inspiradora, não é mesmo?! Adorei, já quero seguir o exemplo da PP e ser feliz mundo afora hahaha Achei uma gracinha e quem também tiver gostado deixa um comentário pra Ceci aqui embaixo. Ah e não se esqueçam de ler as outras fics desse ficstape maravilhoso, okay?! Xx-A




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