Finalizada em: 19/06/2021

Capítulo Único

alternava seu olhar entre seu relógio de pulso, a mala recostada no sofá e a porta de seu apartamento, que, no momento, dividia com seu namorado.
Conheceu em uma comemoração entre amigos. Nunca havia visto um homem tão bonito, charmoso e engraçado. Os dois se deram bem logo de cara, apesar de algumas diferenças discrepantes entre as personalidades. Após alguns meses, a mulher o pediu em namoro. nunca foi de tomar iniciativas, sempre cautelosa e insegura, mas com era diferente. Ele sempre a encorajou e ajudou com seu crescimento pessoal e ela seria sempre grata ao homem por tudo que fez. Por isso estava sendo tão difícil, mesmo com as brigas e discussões que dominavam o último um ano de relacionamento, se importava e sentia muito carinho pelo, até então, namorado, não queria fazê-lo sofrer.
Estava ansiosa. Balançava a perna com inquietação, pensando em como falaria sobre o assunto. Não queria abordar mal, não queria deixar tão na cara que não aguentava mais passar muito tempo perto dele ou então que revirava os olhos internamente com tudo que falava. A realidade era que não queria que o homem soubesse que ela estava de saco cheio e ele não merecia isso, sempre foi muito bom com ela. Por isso, evitava ao máximo expor-se a decisões difíceis, não suportava o sentimento de culpa dançando freneticamente por suas veias, mas, naquele momento, não havia como escapar, o remorso e a penitência já haviam tomado cem por cento do seu corpo. Precisava falar.
Ouviu a porta se abrir. Preciso acabar logo com isso. Seria fácil, não? Assim como tirar um curativo. Pelo menos é assim que se consolava mentalmente, mas sua pontinha emocional sabia que acabar com um relacionamento de seis anos, por mais desgastado que estivesse e, em sua visão, fadado a dar errado, seria doloroso. Seria doloroso não apenas pelo pesar de sua consciência, mas, pra ela, o quão árduo ia ser seguir apenas com as memórias. Às vezes ela gostava da sua companhia, gostava de tê-lo por perto, mas não queria ser egoísta, apesar de tudo, não merecia alguém que estivesse com ele apenas por apego e conforto. A voz do homem tirou de seus devaneios melancólicos, a assustando de leve.
— Vamos viajar e você não me disse nada? — disse num tom bem-humorado, referindo-se às malas na perna do sofá.
— A gente precisa conversar — soltou, direta ao ponto. espantou-se um pouco, normalmente a mulher mantinha sempre sua voz macia com tom de voz descontraído, mas a seriedade na fala fez com que ele enrijecesse parcialmente.
— Aconteceu alguma coisa? Você parece tensa.
respirava tão fundo que seus pulmões poderiam explodir a qualquer momento.
— Não está dando mais, . Pra você isso pode ser uma surpresa, mas pra mim não. Todo dia tendo que conviver com esse sentimento de esgotamento, não tem como ser novidade pra mim — desabafou de uma vez. Precisava se livrar logo das palavras, senão a coragem poderia se esvair.
De início, paralisou, não pareceu entender. Depois de alguns segundos, que para pareceram uma eternidade, o homem andou de um canto da sala até o outro, passando as mãos em seus cabelos, parecendo um pouco atordoado. Os minutos de silêncio foram torturantes para a mulher sentada no sofá. Não sabia se esperava ou se continuava a falar. Não sabia o que devia fazer, não queria forçar e deixar a situação mais desagradável e desconfortável. Parecendo ouvir suas súplicas mentais, finalmente soprou:
— Por quê? — Apenas uma palavra. Uma dúvida. Queria entender o que aconteceu. O que ele fez de errado, né? Era o que sua consciência, trabalhada na ruína, o dizia.
— Eu não consigo mais fingir que os meus sentimentos continuam como eram antes. Ao mesmo tempo que tem muita briga e desentendimento, tem muito grude e sufoco, eu nunca sei o que sentir, é tudo uma bagunça, uma zona, a única coisa que eu sei é que tanto de um lado, quanto do outro, eu me sinto esgotada. — Suspirou pesadamente. — Eu queria que desse certo, . E eu tentei. Tentei inúmeras vezes me assegurar de que era uma só uma fase confusa e que ia passar, mas não passou. E você não faz ideia do quão doloroso isso está sendo pra mim. Eu tenho um carinho imenso por você, queria muito corresponder e te dar tudo que merece, mas não consigo e eu não posso te prender comigo por puro egoísmo e incerteza.
O silêncio dominou o ambiente mais uma vez. Uma batida de coração acelerada, uma respirada mais pesada, uma gota d’água que pingou da pia do lavabo, o vento que soprava e dava vida à noite fria de Nova Iorque. Tudo podia ser ouvido naquele momento, até mesmo os torturantes pensamentos sussurrados pela mente de . Autossabotagem. Antes dessa situação acontecer, o ego do homem nunca o deixaria confessar em voz alta o quanto sua mente o perturbava em situações de inseguranças. Pra ele, fragilidade era sinônimo de fracasso. Jamais poderia deixar alguém saber que possuía problemas de autoconfiança. Que imbecil. Foi o que pensou consigo mesmo, pois naquele momento a primeira reação que passou por sua cabeça foi humilhar-se para convencer a mulher à sua frente. Cogitado e feito.
, eu... — Respirou fundo. Não estava acostumado a estar em situações vulneráveis onde teria que demonstrar sentimentos. Apesar de estar em um relacionamento de seis anos, nunca precisou implorar pra ser amado, isso para ele era o auge. — Eu respeito seus sentimentos, não tenha dúvidas disso, mas talvez seja algo que dê pra ser consertado, não acha? Não você sozinha, mas nós dois juntos, como sempre foi. É algo muito delicado pra se lidar sozinha, ainda mais com algo que não envolve apenas você, mas a mim também.
sabia que se não fosse mais dura, ela acabaria cedendo por pura pena do homem.
— Você não entende. Não é justo eu continuar em um relacionamento o qual eu anseio o dia inteiro por você saindo porta afora. Tem horas que eu não consigo te suportar. E nas outras horas que sobram eu só estou carente, apegada às memórias.
As palavras o atingiram como uma faca muito bem afiada e o pegaram de surpresa. Apesar do distanciamento visível da namorada nos últimos tempos, não se preocupou tanto, achou que fosse besteira e que iria passar. Algo se formou em sua garganta, como se ela estivesse prestes a se fechar a qualquer momento. Sentiu que tudo estava acontecendo por sua culpa. Não se preocupou, não cuidou de seu próprio relacionamento, não reparou na insatisfação da mulher, não fez nada. Uma caçamba de lixo. Um fracassado. Impossível de se amar.
— Você é a única coisa que eu tenho, — disse num tom quase inaudível. A mulher precisou pensar um pouco antes de responder, pois não sabia se havia mesmo dito aquilo ou se sua mente havia inventado.
— Não é verdade, você sempre foi um cara independente. Eu fui apenas mais um acontecimento na sua vida. Coloca na sua cabeça que ciclos se iniciam e uma hora, de algum jeito, eles vão terminar, e você não vai deixar de existir pelo nosso vínculo ter terminado. Na verdade, ele nunca vai realmente desaparecer, nunca vai se extinguir da minha memória, sempre vou te carregar nas minhas lembranças. E se você quiser, nós podemos ser amigos ainda.
riu pelo nariz, parecendo não acreditar no que foi dito. Para ele, aquilo não fazia o menor sentido e pedir a amizade dele, em sua opinião, pareceu uma afronta.
— Então é isso? — Riu pela segunda vez. — Você é inacreditável. Fala tudo aquilo, que não suporta olhar na minha cara, que não me aguenta mais, só faltou dizer que me odeia, e agora quer ser minha amiga? Você é uma gracinha mesmo, sempre coerente — disse com a voz carregada de ironia e rancor.
Ela o olhou de sobrancelhas erguidas. estava puta. O pavio da mulher era curtíssimo e odiava o jeito passivo-agressivo, cínico dele. Se levantou do sofá com as mãos na cintura.
— Eu tava tentando ser agradável, mas se você começar a agir com esse seu jeitinho passivo-agressivo, eu vou perder as estribeiras.
— Agradável? Só pode ser piada. Só faltou você cuspir na minha cara e vem com “ai, tava tentando ser agradável” — afinou a voz na última frase e usou o balançar das mãos pra debochar.
— É surpreendente o quanto você consegue ser dramático, . — Riu com gosto. — Na verdade, não me surpreende em nada. E se quer saber, eu não falei nem metade das coisas que estão engasgadas na minha garganta por não querer te ferir e nem te ofender e você ainda tem a coragem de vir com essa sua voz embriagada em desdém e chacota.
— Pode falar o que você quiser, Miss Simpatia, sou todo ouvidos. Não precisa fazer a caridade de me poupar. — Deu de ombros e inclinou a cabeça pro lado.
semicerrou os olhos. Se sentiu muitíssimo atacada. Porra. Miss Simpatia? Quem ele pensa que é?
— Pois fique sabendo que, nos últimos três meses, mesmo não sendo nem um pouco religiosa, rezei muito pra que você acordasse, do nada, de um dia pro outro, com uma vontade enorme de terminar porque assim eu não precisaria estar aqui agora perdendo meu tempo e sendo vista como uma filha da puta.
— Você fala que não se surpreende com meu “drama” — fez aspas com os dedos —, mas eu que não me surpreendo com o quão fria você consegue ser nesses momentos. Sempre foi assim, se intitula boazinha, mas consigo sentir o prazer que você tem em me humilhar e sair como superior transbordando nos seus olhos. Tantos jeitos de contar sobre seus sentimentos e você escolhe pisar em cima de mim.
A mulher cruzou os braços na altura do peito e o olhou descrente.
— Nossa, mas é um coitado mesmo, né? Se você não aguenta meia dúzia de palavras duras, volta pra debaixo da asa da sua mãe, você não está preparado pra viver. E, sinceramente, com a sua idade, eu teria vergonha de não saber lidar com a rigidez de algumas situações.
Ele apenas a olhou e suspirou mais fundo do que nunca. Sabia que continuar discutindo não levaria a lugar algum, ou melhor, ao lugar que ele queria: a mudança de opinião de . Não queria que ela ficasse com mais raiva dele, não queria dar mais motivos pra mulher seguir com sua decisão. Parecendo ler seus pensamentos, continuou:
— Não queria que a conversa tomasse essa proporção, foi uma discussão idiota e infantil. Só gostaria de encerrar as coisas do melhor jeito possível.
, só me dê mais uma chance, por favor. Eu preciso te mostrar que o lugar certo é ao meu lado. Eu te amo e... porra, que droga. — Engoliu o choro e passou o dorso da mão com brutalidade nos olhos. Parecia que a pele de sua garganta estava sendo cortada. — Viver sem você vai ser uma merda, sabe? Vai ser realmente fodido. Eu não consigo nem imaginar como deve ser doloroso acordar e saber que você não vai estar mais lá pra iluminar o meu dia com a sua presença calorosa... com o seu rosto lindo, com a sua energia maravilhosa, com o seu corpo quente. Eu estou disposto a consertar tudo de errado, tudo que nos atrapalhou, tudo que estragou nossa história de continuar a ser escrita.
O homem pegou em sua mão e a olhou nos olhos. Olhos que suplicavam, imploravam. Ele só precisava de mais uma segunda chance. Precisava reconquistá-la. Usou toda a força que o restou. Sabia que se ela não mudasse de opinião, iria viver amargurado pra sempre. Não pra sempre, in real life, mas, em sua mente nublada, ele tinha total certeza de que nunca mais seria feliz. Apostou todas as suas fichas no relacionamento, fez coisas que estavam além do seu alcance. Nunca achou que amaria tanto alguém, além da sua família. Precisava dela, ele daria tudo que ele tinha por essa mulher, mesmo que ele tivesse muito pouco. Pra falar a verdade, daria um jeito de doar a até o que não tinha. Mas depois da curta discussão, a mulher só teve mais certeza de que precisava acabar com aquilo. Não merecia viver infeliz por pura piedade de um cara. Mas, ao mesmo tempo, seu coração doía. Porra, essa merda tá realmente doendo. Era a única coisa que ela conseguia pensar e sentir.
— O que nós vivemos foi lindo e intenso, mas durou o que tinha que durar. Acabou mesmo, . — Soltou sua mão e respirou fundo. — Me desculpe. — Seus olhos clamaram e a mulher caminhou pelo corredor até a porta de seu quarto e encostou-se no batente. — Apague a luz antes de sair. — E, simplesmente, adentrou o cômodo, trancando-o em seguida, deixando pra trás 6 anos e um homem com mágoas e algumas lembranças.

✉️🥀
Coluna de — 24 de junho de 2021

Carta aberta a .

“Hoje voltei aos meus velhos e novos hábitos por lembrar de você. Cada momento que paro pra te escrever me faz tombar nos becos mais sujos de Nova Iorque. Pode ter certeza de que essa é a última vez que escrevo sobre você. Eu realmente preciso acabar logo com isso, mas, querida, você me atingiu com a força de um milhão de cometas. Quando te conheci, foi como entrar em outra galáxia. E eu quis morar nela, quis morar no seu peito pra nunca mais ficar longe desse lugar magnífico que é você. Você foi como o Big Bang, mas os escombros que me acertaram provocaram-me danos irrecuperáveis e por isso você é a pessoa que eu preciso parar de amar agora. Então eu apenas entrelaço minhas duas mãos e dou as costas pra você.”


FIM



Nota da autora: Sem nota.

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