Postada: 29/06/2017

Prólogo


Girou as chaves na fechadura, finalmente adentrando o seu apartamento após aquele dia longo e cansativo. Começou a se livrar das roupas e sapatos como sempre fazia quando sabia que ficaria só na casa, caminhou apenas de roupas intimas até a cozinha, retirando a caixinha de leite e bebendo direto do bico, gesto que sua avó provavelmente condenaria. Foi quando seus olhos notaram o envelope sobre a bancada que separava a cozinha da sala de estar da casa. Apanhou, sabendo exatamente o que era.
Provavelmente Pedro, seu novo colega de quarto e de faculdade, havia deixado lá antes de partir em sua viagem para a casa dos pais. Podia ser ilusão, mas o envelope parecia queimar em suas mãos.
Quis apenas rasgá-lo, sem ao menos ler uma linha.
Mas a curiosidade matou o gato; era o que diziam.
Então em poucos minutos seus olhos já percorriam cada palavra descrita naquela carta.
Era a quinta carta que recebia naquela semana.
Sempre uma por dia, desde que havia completado um ano do dia que se conheceram.
Em uma época em que as pessoas estavam mais acostumadas a enviar mensagens rápidas pelo celular, onde nem e-mails mais eram tão usados. Aqueles envios constantes de cartas escritas à mão foram uma surpresa no inicio. E no fundo o motivo para aquele gesto era conhecido.

Mas aquilo definitivamente tinha que acabar. E seria naquele dia.
Pegou papel e caneta. E finalmente resolveu enviar uma resposta.

Querida Sophia...

Capítulo Único – A Carta.


Porto Alegre, 15 de agosto de 2012.




Querida Sophia,


Foi muito fácil me apaixonar por você. Sim, eu tinha que começar esta carta como uma pessoa trouxa e apaixonada que fui um dia.
Foi fácil, rápido e certeiro, como quando um raio atinge uma árvore em uma tempestade.
E também foi tão destrutivo quanto.
Lembro-me daquele dia como se tivesse sido ontem. Ah, se eu soubesse que você iria foder com a minha vida de tantas formas, nunca teria ido até você.
Lembra-se como aconteceu?
Um ano atrás.
Eu era tão idiota. Talvez ainda seja.
Mas uma dentre tantas crianças criadas pela avó. Minha avó paterna. A minha mãe havia falecido no parto. E o escroto do meu pai só dava as caras uma vez ao ano e não era no dia do meu aniversário. Era no dia em que minha avó recebia a aposentadoria, você deve imaginar o porquê ele só aparecia nesse dia.
Minha avó era uma santa, mas havia posto no mundo mais um ser humano de merda.
Pobre vovó Isa.
Mas eu tentei compensar. Tentei ser um bom exemplo, na vida e na escola. Tentei fazer tudo certo. E eu estava conseguindo, até conhecer você, Sophia.

Eu tinha 17 anos, meus amigos tanto insistiram que acabaram me convencendo a ir pra uma balada estranha na Augusta, usando identidades falsas, em um sábado a noite qualquer.
Não queria ir, ficava imaginando a cara de decepção da vovó Isa caso algo desse errado e ela tivesse que, por exemplo, me buscar na cadeia. Minha mente de adolescente certinho que nunca fez nada errado imaginava diversos tipos de merdas que poderiam acontecer naquela noite. Mas entenda uma coisa, Sophia. Um adolescente de 17 anos, mesmo sendo o mais certinho, detesta ser zoado pelos amigos.
Então, lá estava eu, me borrando de medo de que alguém me pegasse com documento falso na fila da balada, como se ninguém nunca tivesse feito isso antes. Mas eu tinha tanto azar, que tinha certeza que algum problema daria pro meu lado.
Lá estava eu, quando te vi pela primeira vez.
Tão linda, usando só um blusão longo do Def Leppard e botas de cano alto. Ruiva, parecia uma sereia. Me enfeitiçou com o seu canto, mesmo sem querer, mesmo sem se dar conta da minha presença.
Eu sempre tentei ser uma boa pessoa e fazer tudo certo, mas não era um poço de santidade. E naquele momento eu senti algo que nunca havia sentido por ninguém antes. Eu senti desejo. Eu quis te ter nos meus braços. E aquilo me deu medo.

Enfim, você passou diante de mim. Cortando a fila da balada, cercada pelas suas amigas ricas e mimadas, falou algo com o segurança que sorriu querendo te comer com os olhos e deixou vocês entrarem mesmo sobre os protestos dos pobres mortais que permaneciam na fila, pobres mortais como eu e meus amigos. Obviamente você não me notou, mas eu nem achei que notaria. Já tinha me acostumado com esse tipo de reação. Eu era invisível. E provavelmente não fazia o seu tipo.
Deixei pra lá e uma hora depois eu e meus amigos finalmente adentramos o local, eu ainda me cagando de medo.
Usamos as identidades falsas pra pedir bebidas. Eu fiquei apenas em uma cerveja, não iria me arriscar mais e também não era muito fã de bebida alcoólica.
Logo eles se infiltraram numa rodinha de pessoas conhecidas e eu acompanhei, ouvindo os papos sem noção e os tocos que eles levavam sem querer arriscar tomar igual.
Eu praticamente te esqueci, Sophia. Praticamente.
Até que você surgiu novamente.
Uma Ariel em meio aquele mar de gente.
Sim, eu sei quem é a Ariel. Eu tento não demonstrar diante dos meus amigos, mas no fundo sempre gostei das histórias da Disney. Mas vamos continuar porque já estou divagando.

Você e suas amigas se juntaram à nossa rodinha de amigos, conversa vai, conversa vem. Os casais se formaram e começaram a se afastar em direção a algum canto escuro da boate. E eu fiquei ali, porque a timidez sempre me travava, mas o que mais me surpreendeu foi ver que você também ainda estava ali, parecendo deslocada.

Ela fazia muitos planos.
Eu só queria estar ali.
Sempre ao lado dela.
Eu não tinha aonde ir...


Legião Urbana tocava naquele momento, eu nunca vou me esquecer disso, porque aquela meio que se tornou a nossa musica.
Tomei coragem e sobre a musica alta puxei conversa com um sorriso tímido no rosto, falei que amava aquela banda, você me disse que era apaixonada por aquela musica, cantamos o refrão em alto e bom som, nos misturando a multidão que dançava livre pelo local.

E eu dizia ainda é cedo.
Cedo, cedo, cedo, cedo.
Ah, eu dizia ainda é cedo...


Conversamos sobre tantas coisas depois disso, falamos sobre nossos livros favoritos, você disse que adorava escrever, que ainda escrevia cartas pras pessoas que amava, principalmente pro seu pai, quando ele estava trabalhando longe de casa. Revelamos nossas idades, você já tinha 18, mas ainda estava no ultimo ano do colégio porque você havia perdido um ano, graças ao seu pai militar que fazia com que a família tivesse que se mudar sempre por conta da profissão, e por coincidência você ia começar a estudar na minha turma na próxima semana, no colégio católico e particular onde minha avó havia feito sacrifícios econômicos para poder pagar as mensalidades para que eu pudesse ter uma educação melhor pra ser alguém bem sucedido na vida. Eu contei a você que meu pai era um babaca ausente e que eu devia a vida que tinha a minha avó. E nós falamos até sobre os signos dos zodíacos. Você era de Sagitário e eu de Áries. Eu gostava de astrologia, mas naquela hora fui idiota e não notei o quanto essa combinação era incompatível.
Você me encantou com o canto da sereia e eu me deixei levar, me deixei levar até o fundo do oceano.

- Gostei de você, que tal combinarmos de sair outro dia? - você perguntou simpática, eu nem pude acreditar, mesmo imaginando que você provavelmente estava mais a fim de uma amizade do que de romance, por motivos óbvios.
- Claro, anota meu telefone. - e eu te dei o meu numero. E nós nos despedimos com você me brindando com um beijo no canto dos lábios que me deixou em uma total confusão. Eu não queria estar imaginando coisas, mas imaginei. Eu tinha esses desejos estranhos há muito tempo, mas nunca havia chegado tão perto de satisfazê-los. Eu tive medo, mais uma vez.


E nós saímos no fim de semana seguinte. Você me convidou para ir ao cinema, havia um filme do Tarantino em cartaz no Cine Belas Artes que você queria muito ver. Eu não era muito fã de filmes do Tarantino, mas decidi deixar esse fato de lado. Nós nos sentamos na ultima fileira, escondidos do mundo, numa sala de cinema quase vazia e então lá pelo meio do filme, após alguns sorrisos bobos e trocas de olhares constantes, você me beijou. Meu primeiro beijo de verdade.

- Me desculpa, eu não devia ter feito isso. – você pediu, se afastando de repente, preocupada com a minha reação, eu era novamente uma grande confusão. Meu cérebro dizia pra eu me mandar dali, que aquilo era errado, mas meus hormônios me diziam o contrário, então em um impulso eu te puxei, te beijando de volta, enquanto o filme rodava na grande tela.

E a partir daquele dia você mudou o meu mundo, Sophia.
A partir daquele dia eu tive certeza de que tudo ia ficar diferente.
A partir daquele dia eu soube que infelizmente iria decepcionar a minha avó, depois de todo o trabalho para ser uma pessoa certinha. A partir daquele dia eu quis ser livre.
E você de certa forma me deu essa liberdade, Sophia.
Mesmo tendo ferrado comigo depois.

Nós continuamos saindo. Só que escondido. Ninguém sabia, pois eu tinha medo de contar pros meus amigos e principalmente pra minha avó. E você parecia querer guardar segredo também.
Pena que eu não sabia que para você eu era um tipo de segredo sujo.
Ficamos por várias vezes, mas nunca chegamos a nominar o que tínhamos. Eu pensava que era sério, que era só você e eu. Já haviam se passado meses. A sua mãe achava linda a nossa amizade, assim como a minha avó. Elas nunca cogitaram que o que rolava entre a gente não era só amizade, pelo menos pra mim. Pra mim era paixão. Arrebatadora e fulminante. Mas pra você, hoje eu vejo que era apenas curiosidade, era apenas uma menina entediada querendo algo novo.

- Quer ir lá pra casa hoje? Meus pais viajaram. – você sugeriu um dia após as aulas. Eu fiquei em duvida, mas acabei topando.
- Tudo bem, vou dizer à minha avó que tenho um trabalho pra fazer na sua casa. – essa era sempre a desculpa. Eu nunca havia mentido pra minha avó antes, mas você me ensinou isso também, Sophia.


Ao invés de trabalho escolar, naquela noite nós fizemos amor. Era outra primeira vez minha. E de novo havia sido com você. E eu me apaixonei ainda mais. Fui trouxa ainda mais.
Eu pensei que era amor.

- Eu acho que te amo. – murmurei após te aconchegar nos meus braços. Você me encarou, com um sorriso estranho nos lábios e me deu um beijo rápido como resposta, pegando no sono logo depois. Eu pensei que ainda era cedo pra você dizer e me achei idiota por ter dito aquilo naquele momento. Mas logo o sono tomou conta de mim também e eu joguei aquela confissão feita aos sussurros para o fundo do meu subconsciente.

Um dia quando saímos com os seus amigos pra mais uma balada alternativa, já que eu havia me afastado dos meus amigos estranhos por sua causa, acabamos esbarrando no merda do meu pai, que ainda vivia como se fosse um eterno adolescente, pegando garotinhas mais novas em baladas jovens na cidade. Ele me ignorou após um rápido e seco cumprimento, mas logo te encarou com um sorrisinho nojento de cobiça. Ele te comeu com os olhos e eu me senti mal por aquilo. Mas você pareceu não ligar, Sophia.

- E você, quem é, linda? – ele tocou a sua cintura, mas você não se afastou.
- Sophia, uma amiga. – você respondeu apenas isso. Mas nada. “Amiga”, sem rótulos.
- Vamos! – eu te puxei pra longe dele. Você encarou confusa. Depois eu te expliquei quem ele era. E você lamentou por mim, mas no seu olhar eu enxerguei algo estranho, eu enxerguei curiosidade.
E eu deveria ter-me atentado àquilo. Mas ingenuidade era meu sobrenome do meio naquela época.


No colégio começaram a surgir alguns boatos algum tempo depois, boatos sobre mim. Alguns me chamavam de aberração. Aqueles seus amigos, que eu achava que eram meus também, aos poucos foram se afastando de mim e como eu não saia mais com os meus, acabei ficando sem ninguém. Em pleno século XXI, as pessoas continuavam a ser tão baixas e preconceituosas, mesmo que em suas redes sociais inflassem o peito e fizessem diversas postagens e compartilhamentos sobre aceitar as diferenças.
Você me disse pra não ligar, que aquilo era uma bobagem, foi maldosa dizendo que logo todos iriam se esquecer de tudo quando a próxima adolescente grávida surgisse no colégio.
Mas você não entendia, pois ninguém nunca falava nada ruim sobre você, Sophia.
Você era uma garota popular, linda. Todos os caras queriam sair contigo e eu, idiota, sentia orgulho, mesmo não podendo anunciar pra todo mundo, orgulho em saber que por mais que eles te quisessem, na verdade você era só minha.
Pelo menos era o que eu achava.
Amarga ilusão, porque de doce não teve nada.

- Pervertidos não deveriam ser permitidos nessa escola. – uma das garotas populares falou alto enquanto eu passava pelos corredores em direção à minha sala de aula.
- Verdade, que nojo! – outra concordou. Eu me encolhi diante daquela intimidação escrachada.


Os boatos aumentaram, Sophia. Adolescentes podem ser tão cruéis.

Eu preciso te confessar que apanhei algumas vezes no banheiro da escola. Mas você não parecia se preocupar quando me encontrava com algum hematoma. Eu nunca te disse, por vergonha, nunca disse a ninguém. Mas estava tão na cara.
Quando eu comentava algo sobre as intimidações constantes que estavam me deixando mal, você apenas dizia pra que eu não ligasse, que o melhor ataque era a indiferença. Você não diria isso se tudo estivesse acontecendo contigo, disso eu tenho certeza. Mas você era uma boa mentirosa, Sophia. Você conseguia enganar a todos eles. Você conseguiu enganar a mim também.

- Acho melhor a gente se manter distantes no colégio por um tempo, você entende né? Vai ser melhor assim.

Lembro como se fosse hoje quando você passou a me ignorar nos corredores da escola, dizendo querer que dessa forma os boatos acabassem. Dizendo que fazia isso por mim. Mas então você passou a ignorar os meus telefonemas, as minhas mensagens.
O seu grupo de amigos sempre me provocava e você nunca estava disposta a me defender. Por que Sophia? Nós não éramos iguais? Pelo menos quando estávamos a sós.

Infelizmente eu acabei descobrindo tarde demais que não.

Era um fim de tarde de quarta-feira, eu decidi ir até a sua casa conversar sobre tudo. Conversar sobre como não estava mais dando certo. Conversar sobre como me sentia só. Sobre como eu era uma imensa confusão novamente. Sua mãe estava chegando mais cedo do trabalho quando eu parei em frente ao seu portão. Ela era sempre tão simpática, provavelmente ela não me trataria assim se soubesse o que eu de fato era na vida da filha dela.

- Pode subir até o quarto dela, ela me disse por mensagem mais cedo que não sairia de casa e que iria estudar essa tarde. – ela abriu a porta e indicou as escadas e eu agradeci seguindo até o seu quarto.

Eu não deveria ter ido até o seu quarto. Aquela foi a pior decisão que eu tomei, pois assim que eu abri a sua porta, após bater e não obter resposta, eu tive mais uma primeira vez com você.
A minha primeira decepção amorosa.
Naquele momento você partiu o meu coração, Sophia.

Eu ouvi você gemer, como um tempo atrás gemia comigo. Mas aquela pessoa na sua cama não era eu.
Você estava com um cara, ele parecia mais velho. E eu conhecia aquele cara. Eu não conseguia acreditar. Meus olhos arderam. Meu estômago se embrulhou completamente. Eu estava prestes a vomitar.
E os dois estavam tão envoltos naquela nevoa de sexo sujo que a principio não me notaram.
Mas então eu continuei em transe diante daquela cena e ele me viu, enquanto gozava dentro de você.
Ele me viu e surpresa passou pelo seu olhar, mas logo a raiva com que ele sempre me encarava tomou o lugar da surpresa.

- O que essa merda está fazendo aqui?! – ele esbravejou, te empurrando pra trás dele e se cobrindo com o lençol. Eu senti o ar faltar nos meus pulmões.

Você finalmente me encarou, mas aquela não era você. Aquela não era a Sophia que eu achava conhecer. Ele me xingou como sempre fazia, me diminuiu, riu da minha cara assustada e você não fez nada. Não tentou se explicar, não saiu do lado dele. Você apenas sorriu como uma vadia sem coração e montou sobre o colo dele, me ignorando completamente, enquanto meus olhos se enchiam de lágrimas.

- Vai querer continuar a ver o seu próprio pai transar, garota? Sua doente, vaza daqui! - ele disse e eu finalmente saí.
Desci correndo as escadas, a sua mãe na cozinha me chamou, confusa. Provavelmente ela subiria até o seu quarto pra perguntar o que havia acontecido e te flagraria com aquele homem mais velho, que havia contribuído com espermatozoides pra gerar a minha vida. Mas eu não estava ligando. Pra mim você poderia ir se foder sozinha. Eu saí daquele quarto, sai correndo da sua vida. E pretendia nunca mais voltar. E por sorte nunca mais voltei.


Você não me procurou no dia seguinte e nem nos dias que se passaram, simplesmente desapareceu, eu idiota ainda tinha esperanças de ouvir algum tipo de explicação. Fiquei sabendo pelas fofocas nos corredores da escola que você não voltaria pra lá. Que sua mãe havia te flagrado com um cara bem mais velho na cama, que havia chamado a policia, mas o homem não havia sido preso, porque você era maior de idade e afirmou ter consentido o sexo. Eles diziam que você iria ser enviada pra um colégio militar, daqueles cheios de regras e disciplina, a pedido do seu pai. E pelo que eu soube da minha avó, o merda do meu pai tinha ido parar no hospital, após ter levado uma surra em uma briga de bar. Eu desconfiava que quem tinha batido no babaca havia sido algum cara do exército, isso sim. Eu me lembro de como seu pai era ciumento.
E eu me lembro também do quanto você temia estudar em colégios militares, mas eu estava pouco me fodendo, Sophia. Na verdade, eu senti o doce sabor da vingança quando soube de tudo aquilo. Mesmo com meu coração quebrado, eu senti prazer naquele momento.
No fim você acabou virando fofoca no colégio.
Espero que tudo tenha valido a pena, Sophia.

E agora, todo esse tempo depois, as suas desculpas fajutas tardaram, mas vieram, em formato de cartas. Cartas onde no inicio você me diz que amou o que tivemos na época, que curtia de tudo, mas que não achava que eu era tão ingênua em achar que nós éramos exclusivas. Você me disse que era imatura. Você pediu perdão pelo lance com o merda do meu pai, disse que não queria me magoar, mas que você sempre pensou que não era de ninguém e que se sentiu atraída por ele aquele dia na boate e quando vocês se encontraram por acaso no supermercado naquele dia mais cedo, você acabou o chamando pra sua casa. Me disse que gostava de ser livre. Gostava de sentir a sensação de perigo que ser pego em flagra quando se está com alguém em uma situação comprometedora daria. Só que seus pais quadrados nunca poderiam saber sobre isso, sobre as suas diversas aventuras amorosas. Eles nunca poderiam saber que você tinha ficado também com garotas. E que gostava muito disso.
Na frente deles você tinha sido a filha perfeita, até eles te flagrarem com aquele idiota e as suas mentiras irem por água abaixo.

Hoje eu sei que não sou exatamente a pessoa que a minha avó lutou para que eu fosse, mas sou o melhor que posso ser. E por um tempo fingir que era a pessoa que eu era me matava por dentro. Até que eu não aguentei e contei tudo a ela. Eu não queria ser uma mentirosa em série como você e também não queria mais esconder quem eu realmente era.
Mas minha avó me surpreendeu quando em uma noite de chuva, enquanto preparávamos o jantar e eu despejava sobre ela tudo o que eu estava escondendo, ela disse que sempre soube quem eu era. E que aquilo não mudava nada. Ela sempre me amaria por quem eu era. E que só se decepcionaria se eu tivesse me tornado alguém como o seu filho, o que Deus felizmente a havia livrado. Havíamos nos livrado dele também, já que depois da tal surra ele havia sumido da cidade, sem deixar rastros.
Pelo menos para isso você serviu, Sophia.
Pra me mostrar que família de verdade é a única coisa que vale.

Eu agradeci quando finalmente deixei aquele inferno que era o colégio pra trás, quando finalmente deixei os seus rastros pra trás, Sophia. Nós éramos tão boas juntas, mas eu nunca vou conseguir lidar com tudo o que você fez.
Hoje estou numa faculdade a quilômetros de distância, sinto falta da vovó, mas nos vemos sempre que tenho alguma folga no curso. Hoje eu me aceito como eu sou. Hoje eu sou livre.
Você disse ao final dessa ultima carta que agora se arrepende de ter brincado comigo, se arrepende de ter dormido com o meu pai. Pede perdão novamente milhares de vezes. Diz que sente minha falta, que no fundo você sempre soube que me amava. Que espera que eu esteja bem e feliz. Quer que eu te dê outra chance, que eu esqueça o passado, pra que possamos recomeçar juntas.
Mas quero lhe dizer Sophia, que eu acho que estou muito melhor agora sem você. Hoje eu encontrei alguém que gosta de mim de verdade. E eu seria louca se a deixasse por você! Lembra-se da Dani? Uma das minhas antigas amigas, de quem eu me afastei por tua causa? A Dani é maravilhosa e eu não a trocaria por você nem em mil anos.
Talvez eu devesse era te agradecer por tudo, porque depois de tudo eu finalmente aprendi a prestar atenção e a dar valor a quem realmente merece.
Mas você não merece nenhum agradecimento.
O que desejo pra você é que você conheça alguém novo, que você se apaixone por ele perdidamente e me esqueça de vez.
E que no fim, quando você não puder mais viver sem essa pessoa, que ela parta o seu coração em dois. Como um dia você fez com o meu coração confuso.
Esquece que eu existo, Sophia. Não me envie mais cartas com pedidos de desculpas, não me envie mais cartas dizendo que se arrependeu. Dizendo que sente minha falta. Hoje faz um ano que te conheci. E hoje eu decidi te esquecer de vez. Porque pra mim, a partir de hoje, você não é nem mais uma lembrança.

Se há uma coisa nessa vida que eu tenho certeza, é que eu queria nunca ter te conhecido.


Atenciosamente.

Nina.



*P.S: Eu te odeio.

Fim



Nota da autora: Demorou, mas saiu! Confesso que foi um pouco difícil escrever essa short e eu não estou muito segura com esse final, mas espero que vocês tenham gostado. Quero agradecer a Lari por ter criado esse ficstape desse álbum maravilhoso, que até me fez voltar pra ativa depois de tanto tempo sem escrever.
E quero dedicar a fic à Any Valette, obrigada pela ajuda!
E também às minhas amigas que sempre me ajudam lendo antes e opinando.
Até a próxima!
Ju.


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Ficstape TOFTT


Nota da Beta: Adorei, Ju! Fiquei bem confusa, confesso, porque sou um pouco lenta, mas no final quando entendi amei bem forte hahaha Espero que todo mundo goste como eu e deixe um lindo comentário aqui embaixo pra ti, porque tu merece! Xx-A




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