12. Wild Hearts Can't Be Broken

Finalizada em: 24/09/2018

Capítulo Único

estava sentada, com as pernas encolhidas contra o peito. Escondia-se atrás de seu grande baú de madeira, adornado com curvas vistosas de prata. Todos os pertences de maior valor para ela estavam ali, cobertos por vários vestidos longos e pesados como aquele que usava no momento. Era como um baú do tesouro, mas isso de nada servia quando o mundo lá fora estava ruindo.
Suas mãos tremiam enquanto buscavam cumprir a missão de vedar ao máximo suas orelhas contra o barulho externo. Não aguentava mais ouvir os gritos, o tilintar das espadas, o som de um corpo sendo apunhalado e destroçado logo em frente à porta de seu quarto. As lágrimas corriam por seu rosto com toda ferocidade que pareciam apostar quem molhava primeiro o tecido que cobria seu colo.
Por quê? O que nós fizemos para eles? O que eles querem de nós? Seria ouro? Terras? Qualquer que fosse o seu desejo, poderiam simplesmente levar. Não precisavam ter invadido o reino. Não precisavam machucar o povo e nem os funcionários do castelo. Para que tanta violência? O que aquelas mortes conquistariam?
ouviu outro grito. Mais alto. Mais próximo. Mais doloroso. Mais fatal.
As palmas de suas mãos começavam a arder e sangrar pelos cortes que suas unhas tinham feito ao pressioná-las com toda a força que o nervosismo e o desespero lhe conferiam. Estavam vermelhas. Vermelho era absolutamente tudo o que ela via. O escarlate bagunçava sua visão e afogava seus olhos. Era como se o demônio da morte rondasse os corredores escolhendo aqueles de pouca sorte para uma viagem só de ida.
Ela não aguentava mais pensar naquilo e, muito menos, viver aquilo. Seu choro se tornou mais intenso, mais profundo, mais dolorido. Como estariam suas criadas? Será que ao menos as vidas de suas damas de companhia teriam sido poupadas? Existiam crianças no castelo, tão inocentes e puras que a sensação de vê-los perder suas famílias era como um punhal no próprio peito.
Foi então que a ideia letal percorreu sua mente e acertou todo o seu corpo em cheio. Era como um grande soco na boca do estômago. sentiu a bile subir à própria boca quando as palavras se uniram para concretizar aquele pensamento horrendo. E se ela também fosse uma das crianças órfãs? E se o seu pai também estivesse morto?
tinha apenas quinze anos. Não se considerava uma criança quando o assunto era maturidade, mas era nova o suficiente para se perceber desamparada em um mundo em que o Rei Augusto não mais estivesse ali para acariciar seus cachos e lhe dizer todas as noites que tudo ficaria bem. Fora exatamente o que ele dissera no dia anterior e lá estavam eles batalhando pelas próprias vidas. Ela se sentia culpada por se esconder. Sentia-se inútil e egoísta por ter deixado que o medo a trancasse em prantos atrás de uma grande porta enquanto o mundo lá fora estava sendo destruído a uma velocidade avassaladora que desdenhava de todo o trabalho que dera erguê-lo.
Quando o silêncio veio, ele era mais assustador do que os exasperos de dor e os sons de batalha. Era aterrorizante porque significava o fim e a garota pressentia em seu âmago que aquele não era um final feliz. O mundo pareceu em suspensão por um tempo. praticamente se esquecera da necessidade de respirar.
Ouviu passos pesados se aproximando. Passos distintos, pertences a mais de uma pessoa. Foi nesse momento que ela soube: tudo estava acabado. Qualquer membro do castelo teria simplesmente batido e perguntado por ela, mas as pessoas ao lado de fora estavam forçando abaixo o último obstáculo que a protegia de todo o caos. Ela era a última vítima dos invasores cuja origem não havia tido tempo de definir em sua mente.
Os barulhos aumentavam de intensidade a cada ataque à porta. Instintivamente, ela se encolheu mais, apertando os braços ao redor do corpo. Queria sumir. Queria se esmagar até que desaparecesse. Percebeu em um estalo que não sabia o verdadeiro significado de medo até aquele instante. Estava completamente apavorada. A sensação de total impotência estava lhe dando nos nervos. Compreendeu que o pior sentimento do universo era esse: saber que algo horrível estava acontecendo e não poder fazer absolutamente nada a respeito. No fundo, sabia que estava sozinha.
Em um som mais alto, sua porta foi aberta de uma só vez. viu apenas os sapatos parados à entrada de seu quarto, enquanto dois mais refinados davam passos em sua direção.
— Princesa, Alcaluz foi tomada. - A voz grossa do homem ressoou, ocupando todo o ambiente. — Você virá comigo para Rivvara.
ousou pela primeira vez levantar o olhar. Fuzilou o homem com todo o seu ódio.
— O senhor não pode destruir o meu reino e me ordenar que abandone os seus destroços - ela cuspiu as palavras, exaltando todo o treinamento real que recebera praticamente desde o berço. — Esse ainda é o meu lar, minha terra e a morada de meu povo.
O rei meneou a cabeça de uma forma que tendia a uma demonstração um tanto irônica de piedade. Achava quase engraçada a afronta da princesa. Divertia-o a tentativa da jovem de se manter firme mesmo que não tivesse mais nada para se agarrar. Nada para chamar de seu além de um campo devastado e uma pilha de corpos mutilados e, em sua maioria, sem qualquer sinal de vida.
— Você tem razão. Mas é a rainha agora. A rainha de um castelo vazio - caçoou. — Por isso, irá para Rivvara comigo e terá o prazer de desposar-me. Terá sob controle dois grandes reinos. Quer dizer, teremos.
sentiu seu coração acelerar contra o peito. Eram muitas emoções em um só momento. Estava andando em uma longa corda bamba que pendia entre o terror e o ódio mais completo. Queria fugir, mas estava cansada de se sentir impotente. A coragem que lhe restava ordenava que ela se mantivesse em pé e de queixo erguido, com a perfeita postura de superioridade e grandeza que um membro da realeza é treinado a manter em toda e qualquer circunstância. Seu pai morrera em guerra. Seus soldados haviam sido assassinados em uma batalha que sequer tivera a decência de anúncio prévio. Seus compatriotas tinham sofrido a violência de um reino baixo e covardemente ambicioso, temeroso de dar a eles ao menos a chance de lutar de igual para igual.
— Deveria se enojar por ser tão baixo.
— Não tenho tempo para me preocupar com isso, criança. Tudo o que está sob seu poder de decisão é a escolha entre ir por bem ou por mal. Meus soldados estão prontos para usar a força, mas eu odiaria machucar minha futura esposa tão cedo.
estava cercada. Cercada por homens muito maiores e mais fortes que ela. Era como estar rodeado por uma matilha de lobos famintos. A opção de correr não existia mais. Não havia opção.
A contragosto, ela seguiu os soldados e o rei de Rivvara.


+++



O caminho do palácio à Abadia do Norte foi silencioso e pesado como se todo o céu fosse chumbo sobre seus ombros. desejava silenciosamente poder se esconder sob o tecido de seu grosso vestido. Contraditoriamente, queria se livrar daquele tom escarlate que a lembrava de toda a dor e a destruição que a levaram até aquele momento. Desejava estar mais perto da porta para poder se atirar da carruagem. Queria que as rodas passassem por seu corpo, que os cavalos pisoteassem-na. Queria ser esquecida para trás. Queria esquecer. A presença de à sua frente, no entanto, não permitia que sua mente descansasse por um instante sequer.
Aos poucos, a velocidade foi cessando até se anular por completo. A jovem recusou a ajuda para descer, fugindo do toque repulsivo daqueles que tinham destruído tudo o que ela tinha. Seu estômago vivia constantemente embrulhado ao rever as faces dos membros da Guarda Real.
Dirigiu-se à Porta Oeste da Abadia. Ao ouvir as trombetas começarem a tocar, respirou fundo cinco vezes, exatamente da forma que seu pai lhe ensinara. Era quase como sentir sua presença e sua sabedoria abraçando-a pelos ombros.
Quando abriram a porta, a jovem caminhou até o teatro, passando pelo coral a passos lentos enquanto as famílias reais vizinhas e o clero entoavam o hino dinástico a plenos pulmões e um tom, honestamente, mais alto que o necessário e recomendado para a audição. O som retumbava por seus tímpanos como um cântico de batalha. Era exatamente o que todo aquele rito significava afinal. Era a evidência de suas cicatrizes abertas e expostas a quem quisesse ver. Era a nudez de sua dor e o fardo de ter que acomodá-la em algum canto distante do peito para que seguisse com o papel que lhe fora destinado no berço, mas estava prestes a ser assumido cedo demais.
se ajoelhou em frente ao trono e deu início à sua prece a Deus. Terminada a oração, ela se levantou graciosamente, sentindo o tecido pesado voltar a cair sobre seus joelhos. Respirou mais cinco vezes antes de dar às costas ao grande assento e se sentar. Dali, via todos a encarando em um misto de feições diferentes. Alguns pareciam em completa expectativa. Outros tinham olhares ferozes que aparentavam prestes a dar o bote, como uma víbora faminta e ávida por destilar seu veneno pela corrente sanguínea da vítima.
O arcebispo se aproximou e deu início à cerimônia. Fez um longo discurso que reconhecia como rainha de Alcaluz por ser a herdeira legítima. Rezaram rapidamente pela alma do Rei Augusto, lamentando pela triste notícia que circulava. Diziam que o monarca tinha morrido por uma parada cardíaca antes mesmo da invasão. A garota, no entanto, sabia bem que a saúde do pai era das mais fortes. só estava tentando se safar do fardo de regicida. Mas os soldados estavam ao seu lado e sustentariam a mentira, não importava qual era a verdade.
nem percebera o momento em que o clérigo havia finalizado seu longo e pomposo discurso. Tudo o que seu cérebro processou foi o grito a uma só voz de “Deus salve a Rainha!” em meio a altos aplausos e algumas reverências da Guarda.
A jovem repousou sua mão sobre as Sagradas Escrituras e iniciou seu sucinto juramento, prometendo total fidelidade e comprometimento ao seu povo, à justiça, às leis e à Igreja. O arcebispo, então, se aproximou para a unção. Despejou o conteúdo da ampola de ouro na colher com uma lentidão delicada. Passou o óleo sagrado pelas mãos da garota e seguiu para sua testa, fazendo o sinal da cruz no meio do gesto. Era esta a passagem que simbolicamente garantia que o monarca estava apto a assumir sua posição.
foi vestida com um manto dourado e começou a ser apresentada às Joias da Coroa. Cada um dos objetos recebidos ia sendo depositado sobre o altar. Lá estavam as esporas, a espada, os braceletes e o orbe. Um grande anel foi encaixado em sua mão direita, representando a união inabalável da monarca com seu povo, e, por fim, o cetro com a cruz lhe foi entregue, bem como a haste.
Sob posse e cuidado destes dois objetos, a jovem curvou levemente a cabeça antes de receber a grande e pesada coroa. Seu coração estava tão acelerado que ela tinha medo de que ele decidisse parar de uma só vez. Os oficiais que seguravam as joias ao seu redor não eram os seus oficiais. Sua guarda era improvisadamente composta pela guarda de Rivvara. Ela se sentia exposta e desprotegida, em constante estado de alerta. Era difícil até mesmo se concentrar nas homenagens que os convidados começavam a fazer.
— Que Deus lhe dê força e sabedoria à Vossa Majestade e guie o seu caminho. Longa vida à Rainha!
ofereceu pão e vinho ao altar para a execução da Santa Comunhão. Findado o rito, a nova rainha se dirigiu à capela para orar. Lá, seu manto foi trocado por um de tom roxo. Recebeu uma coroa mais leve e melhor ajustada à sua cabeça.
Ajoelhada em frente ao altar, ela sentiu uma aproximação que automaticamente fez seu sangue subir. Já conhecia o som daqueles passos de cor e os odiava com todas as forças que podia acumular.
— Não me toque - reclamou entre dentes ao sentir os dedos resvalando em seu ombro.
— Logo estaremos casados, . - Ele riu, de forma debochada. — O toque será constante é inevitável.
A garota se levantou, erguendo a cabeça o suficiente para fuzilar .
— Só por cima do meu cadáver, mas não é como se isso fosse realmente um problema para você, não é?
E, com essas palavras, deixou a capela, sem se importar com o quanto sua capa se enrolava com as duras e firmes passadas. Foi nesse momento que ela se deu conta do quão forte era e do quão mais forte teria que ser dali para frente.


+++



estava completamente entediada. Não aguentava mais contar os tijolos de seu novo - e indesejado - quarto no Palácio de Rivvara, por mais que ainda estivesse se acostumando com o novo ambiente. Era difícil dormir à noite. Vivia tendo pesadelos que pareciam puxá-la pelos cabelos e manter seus olhos abertos por meio do uso de longas e pontiagudas garras. Eles faziam com que ela fosse obrigada a reviver todo aquele caos e toda aquela dor. Acordava constantemente de madrugada, esbaforida e suada, com o coração completamente aterrorizado e fora de controle. Era impossível dormir, sabendo que dividia o mesmo teto que seus inimigos. Afinal, ao fim do dia, não importava qual a palavra bonita que utilizavam. Ela permanecia sendo uma prisioneira arrancada do próprio lar e praticamente abandonada à própria sorte em um local que não era o seu.
Cansada, decidiu andar pelas alas do castelo. Perdeu as contas de quantos serviçais dispensou no meio do caminho ao lhe oferecerem uma ajuda que ela não desejava. Só queria andar. Por Deus, por que não podia sequer usar sua anatomia e fisiologia como bem entendesse? O que seus passos pelos corredores mudavam na vida dos outros? Tinha vontade de gritar “Deixem-me em paz!”, mas sabia que estavam apenas cumprindo ordens. O culpado estava longe dali, seguro em seus intentos autoritários por algum canto.
A caminhada dela foi interrompida quando encontrou algo que finalmente lhe chamou atenção. Após tanto tempo, ter algo que lhe despertava ao menos uma centelha de curiosidade e deslumbramento era praticamente vital.
Os rapazes que treinavam com suas espadas no pátio não pareciam muito mais velhos que ela. Muitos, na verdade, aparentavam ainda mais jovens. Mesmo novos, eram incrivelmente precisos com seus movimentos.
— O que está fazendo aqui? - a puxou pelo braço de uma forma brusca demais, chamando a atenção de todos os garotos com seu tom de voz alto e autoritário demais. — Você deveria estar em seu quarto!
— Estava cansada e com sensações claustrofóbicas por ficar trancada. Só estou vendo o treinamento.
— Pois já viu o que tinha para ver. - O rei a puxou novamente, tentando arrastá-la. — Volte para dentro.
— Não - respondeu simplesmente, firmando os pés nas pedras do chão. — Eu vou ficar. E quero uma espada.
riu, como se tivesse acabado de ouvir o mais engraçado disparate de toda a sua vida. , por sua vez, permanecia impassível. Não tinha ainda visto a graça.
— Mulheres não pegam em armas. Seu lugar é do lado de dentro. Não vai querer sujar o vestido.
— Para sua informação, eu fui treinada desde os cinco anos. Nunca fizemos distinção de sexo para aqueles que se interessavam em aprender a lutar em Alcaluz.
— E é por isso que seu reino ruiu. O máximo que você deveria tentar aprender é a cozinhar faisões e leitões.
sentiu o ódio queimar todo o seu corpo internamente. Arrancou os sapatos e caminhou até o centro do pátio.
— Quero uma espada e um oponente.
Dessa vez, não se opôs. Tinha a plena certeza de que ela se machucaria e a ideia não lhe desagradava. Com um meneio de cabeça, deu permissão para que um dos jovens entregasse sua espada, enquanto outro se aproximava com sua lâmina já empunhada.
A garota puxou o longo vestido até o joelho e deu um nó desajeitado em sua barra, conseguindo alguma mobilidade para suas pernas. A saia não era a melhor veste para aquilo, mas ela jamais daria o braço a torcer. Muito menos na frente de um homem presunçoso que se julgava tão superior a tudo e todos.
Com uma primeira investida de seu oponente, sentiu seu cérebro começando a trabalhar em uma sucessão rápida de reflexos. Movimentava-se quase inconscientemente, bloqueando cada um dos ataques e devolvendo a ofensiva na mesma intensidade.
Com um giro e um movimento de punhos, ela conseguiu arrancar a espada do garoto, lançando-a para longe.
O olhar de surpresa dos jovens não poderia ser mais satisfatório para seu largo sorriso. A única coisa melhor que isso era sentir o ódio incancelável do rei após sua performance.
— Vou participar dos treinos - disse simplesmente, enquanto colocava seus sapatos de volta aos pés.
— Não vai - respondeu.
— Não estou pedindo.


+++



estava retornando à Rivvara de uma longa e cansativa viagem até um de seus domínios - especificamente, aquele que lhe fornecia o minério de ferro, considerado um dos recursos mais importantes para o reino. Ao se aproximar do castelo, deparou-se com os jovens soldados acompanhando em um contato direto com o povo.
— O que é isso? - O rei murmurou ao se aproximar da garota, expondo um sorriso amarelo e falso para as pessoas à sua volta.
— Estamos distribuindo cereais para aqueles que ainda não conseguiram retomar suas vidas após serem desterrados em Alcaluz - ela respondeu simplesmente, enquanto preparava um punhado extra de grãos para uma mãe e seus dois filhos que aguardavam na fila.
— Você não pode dar a comida do meu povo para o seu. Não estamos com essa fartura toda para fazer caridade sem motivos.
— Não é caridade. Na verdade, chama-se assumir a responsabilidade. Essas pessoas estão passando fome por sua causa, logo, é sua obrigação prezar ao menos pela sobrevivência das mesmas. Até porque essas pessoas não têm culpa alguma e, mesmo assim, foram atingidas pelo seu joguinho de poder e ganância.
respirou fundo, prestes a espumar de vez. , no entanto, foi mais rápida e retornou a falar.
— Mas não se preocupe. Não é a comida do seu povo. Na verdade, pegamos da despensa do palácio.
— Eu já estou ficando exausto de você.
— Uma pena, porque foi você quem causou tudo isso.
— Você vai se arrepender profundamente, criança.
— Veremos.


+++



tinha recusado ajuda para tomar seu banho. Achava completamente ridícula aquela necessidade de mobilizar serviçais para tudo, em especial ações tão simples - e até íntimas - como lavar o próprio corpo. Não queria outra pessoa limpando seu suor após o treino, localizado em partes do corpo que ela mal sabia que poderiam acumular a sua transpiração.
Já fazia algumas semanas que ela estava participando das aulas de fundamentos de guerra e defesa com os outros jovens. Aos poucos, foi ganhando a simpatia deles e das novas calças. Não a aceitaram de pronto, mesmo sabendo que ela estava em uma posição hierárquica ridiculamente superior a deles. Ainda era uma mulher desafiando o que as mentes rasas e conservadoras permaneciam considerando como atividades exclusivamente masculinas. Contudo, eles tiveram que dar o braço a torcer e mostrar respeito pelas habilidades da garota. Ela era melhor que a maioria deles e era muito mais proveitoso aprender com ela do que menosprezá-la.
reclamava por isso em todos os jantares que sentava junto dela. Não eram muitos, já que ele estava constantemente em viagens diplomáticas. Toda vez que ele saía, torcia em silêncio para que não voltasse. Para que caísse do cavalo e batesse a cabeça com força em uma pedra pontuda. Para que despencasse de um penhasco ou fosse picado por um animal peçonhento aguardando à espreita no meio das folhagens da floresta. Mas também torcia para que ele fosse uma vítima solitária. Tinha conquistado a confiança de boa parte da Guarda Real e compreendia que apenas cumpriam ordens superiores. Não desejava mal algum a eles.
— Majestade, o jantar começará a ser servido. - Uma das serviçais anunciou, surgindo à porta de forma a tirar a rainha de seus devaneios.
— Não estou com fome, Magdalena. Talvez tome um chá apenas. Pode providenciar, por favor? Não estou com humor para esbarrar com hoje.
— Perdão, Majestade. O rei ordenou que eu solicitasse sua presença imediata no salão de jantar. Existe um assunto que apenas a senhorita pode tratar. Diz respeito a Alcaluz e não querem outra pessoa nas negociações, nem mesmo o Rei .
A última frase foi o que fez com que a garota se levantasse da penteadeira e seguisse até o salão rapidamente. Ao chegar lá, percebeu que não estava sozinho.
— Majestade, é realmente uma surpresa encontrá-lo aqui - admitiu, ao reconhecer o Rei Helmo de Heinefeld, território vizinho a Alcaluz e seu principal parceiro comercial.
— É um prazer vê-la como rainha, . Mas, claro, sinto muito pela fatalidade que acometeu meu caro amigo Augusto.
— Sei dos seus sentimentos pelo meu pai e os agradeço. Bom, Magdalena disse que havia assuntos a tratar sobre Alcaluz.
— Sim, há. E queria que fosse tratado necessariamente contigo.
A jovem percebeu a raiva e o despeito de ao ser abertamente ignorado e rejeitado em prol de uma negociação com alguém que tinha acabado de chegar ao trono. Alguém com menos da metade de sua idade. Alguém do sexo oposto. Alguém que ele considerava tão importante quanto um carrapato podia ser mais necessária que ele.
— Inclusive, preferiria tratar desse assunto a sós. Sem ouvidos curiosos por perto - Helmo acrescentou, olhando diretamente para ao proferir aquelas palavras tão sugestivas e acusadoras.
O monarca de Rivvara se retirou do salão, mas não foi muito longe. Encontrou um vão na parede do outro cômodo e lá ficou no mais completo silêncio, evitando até mesmo respirar fundo. Tinha grande interesse naquele assunto, sabendo que poderia se aproveitar dele. Não haveria outro motivo para quererem que se distanciasse.
— Encontramos o que parece ser uma mina na fronteira entre Heinefeld e Alcaluz. Pensamos que seja ouro, mas ainda não sabemos sobre seus aspectos qualitativos e quantitativos. De qualquer forma, em respeito ao nosso histórico de parceria e em honra à amizade que nossas famílias sempre tiveram, decidi avisá-la, pois pretendemos dar início à exploração em breve. Pretendemos dividir as arrecadações com vosso reino também, uma vez que os recursos foram descobertos na faixa fronteiriça. Creio que será de grande valia para iniciar a reestruturação de setores destruídos pela guerra.
sorriu, sentindo-se verdadeiramente agradecida por ter alguém como Helmo como aliado. Ele, sim, era um bom homem e um bom rei.
— Não tenho palavras para expressar minha gratidão. Todo o meu povo será eternamente grato por essa colaboração.
— Não tem o que agradecer. Sei que faria o mesmo se nossas posições estivessem invertidas.
Ela concordou de maneira singela. Ele estava certo, afinal. Eram essas as pessoas que eles eram. Pessoas boas. Pessoas preocupadas. Pessoas decentes e justas. Coisas que aquele que os ouvia furtivamente atrás da parede com certeza não era.
nunca fora uma pessoa de boas intenções e essa característica não seria nem de longe facilmente passível de mutação.


+++



estava sentada à ponta da mesa do salão de reuniões, tendo a guarda principal e a guarda jovem em treinamento ao seu redor. Enquanto todos os homens cobertos de armadura da cabeça aos pés se organizavam pela sala, a garota correu os olhos pelo cômodo, observando rapidamente a mobília de madeira nobre e grossa que exaltava a beleza das tapeçarias estampadas e bordadas que decoravam as paredes. A iluminação fraca, fornecida pelas altas velas posicionadas nos castiçais de prata, dava um tom escurecido que reforçava os tons avermelhados. Era bonito de um jeito intenso. Assim como seus motivos para estar ali.
— Bom, vamos direto ao ponto. Eu vos convoquei aqui para sugerir uma ideia para essa semana que passará fora. Sei que os senhores, como soldados, estão exauridos do trabalho de segurança diário. Devem sentir falta de vossas famílias e de um tempo de descanso. Afinal, são seres humanos como qualquer outro, não? Por outro lado, os jovens em treinamento almejam a chance de mostrar serviço e de adquirir alguma experiência. Dessa forma, como os dias vêm sendo calmos e sem grandes transtornos nos muros e portas, pensei em um revezamento na segurança. Os jovens podem cuidar da mesma por esses dias e vocês, cavalheiros, podem descansar e tomar um tempo de proveito com vossos parentes. Podem, inclusive, trazê-los para o palácio. Temos espaço para todos e serão recebidos com muito carinho de minha parte e cuidado dos demais funcionários.
— Não queremos causar transtorno algum, Majestade - respondeu o segundo-chefe da guarda. — Cumprimos nossa função com honra e devoção.
— Sei disso - ela respondeu calmamente. — Mas todos merecem um período de paz. Creio que todos os lados só têm a ganhar com essa interferência pelo resto da semana.
— Se é o desejo de Vossa Majestade, descansaremos.
— E nós cuidaremos da segurança do castelo e de nossa futura rainha - emendou o líder dos jovens guerreiros.
— Apenas do castelo. Eu participarei da ronda convosco. Estou treinando para isso, afinal. Terão minha companhia. Faço questão.
E, se existia nesse mundo um motivo para respeitar e criar consideração por alguém, este com certeza era a identificação e a proximidade de ideal. Ver o outro ao seu lado, sem presunções ou ar de superioridade, era como equivalê-lo a si. Era como esquecer dinastias, hierarquias e enxergar apenas outro ser humano. Afinal, era isso que todos eram.


+++



retornou triunfante de sua viagem com motivações não declaradas ao lado apenas de seu chefe da guarda. Confiara apenas em um homem para acompanhá-lo, buscando evitar que suas reais intenções fossem expostas e seus planos posteriormente prejudicados. Distribuía sorrisos ao céu e aos ventos, vangloriando-se por sua sorte e por ser tão bom a ponto de merecê-la de braços amplamente abertos. Considerava-se um homem de extrema sorte e sabedoria, protegido pelo Deus para o qual dizia orar e abençoado com as justas e merecidas conquistas de seu reinado. Não importava por quais povos e vidas tinha passado brutalmente por cima. As perdas eram apenas um meio justificável de atingir o fim ao qual estava destinado. Ao menos, era nisso que ele acreditava e era também o que repetia para si mesmo todos os dias. Como um mantra de justificativas de destruição.
Quando ultrapassou os portões do castelo, avistou de pronto de calças compridas e carregando sua espada, ao lado dos jovens em treinamento. Seus longos cabelos estavam fortemente trançados para não atrapalharem seu rosto e vista. Todos eles rondavam o pátio como uma grande muralha.
— O que está acontecendo aqui?
— Estamos aguardando os guardas para a troca de turno - respondeu prontamente, assumindo a dianteira da situação. Era sua obrigação se manifestar e as calças compridas lhe davam uma confiança a mais, mesmo que ela não precisasse de nada daquilo para cumprir sua posição.
— Que absurdo é esse de troca de turno? Onde estão os meus guardas?
— Aqui, senhor - respondeu o segundo-chefe da guarda, aproximando-se com os demais soldados já prontos para o trabalho.
— Quem lhes deu a permissão para saírem de seus postos e deixarem as crianças vigiando os portões?
— Eu dei - respondeu a rainha de Alcaluz. — Foi uma ideia que tive e todos colocamos em prática conjuntamente. Deu muito certo, por sinal. Talvez o rei devessse ser um pouco menos teimoso e aceitar ideias melhores e mais produtivas que as dele. Afinal, é o reino que deve estar em primeiro lugar, certo?
riu ironicamente daquela indireta que não poderia ter sido mais direta.
— Até a última vez em que chequei, quem mandava no reino era o seu respectivo rei e não uma pirralha sem teto. Você só terá alguma voz sobre meu reino quando estivermos casados. E, mesmo assim, não espere grande coisa além de ordens sobre o cardápio e as decorações de bailes.
— Não vou me casar contigo, . Nem agora e nem nunca. Eu prefiro ter o mesmo destino de meus compatriotas a me curvar frente a um tirano como você.
— Trate-me por Majestade - ele a repreendeu. — Ainda sou um rei.
— E eu, uma rainha. E não é o que tenho entre as pernas que fará com que eu abaixe a minha cabeça para o seu reinado violento e injusto.
O rei sentiu a raiva subindo por seu sangue, latejando por seus mais finos capilares sanguíneos. Se já não tolerava qualquer desrespeito ou insubordinação vinda dos nobres, quem diria ser tratado como igual por uma mulher.
Mas ele tinha uma carta escondida nas mangas.
— Sabe por onde eu andei, ? Decidi checar com meus próprios olhos as minas na fronteira de Alcaluz. Não tive paciência para aguardar a lentidão oriunda da incompetência de seu aliado Helmo. É mais um inútil sobre um trono. Vocês combinam.
— Bom, aparentemente, os inúteis sobre o trono têm algo que o grande rei quer. Tenho nojo de suas intenções. Não vou me casar para ser seu pote de ouro. Não vou me casar de forma alguma.
— Uma pena não podermos fazer isso do modo correto e pacífico, . Infelizmente, terei que apelar para o uso da força. Terei de prendê-la enquanto exploro as minas antes que aquele incompetente do Helmo destrua todos os metais.
— Como quiser. - Ela deu de ombros. — Não vou fugir. Estou cansada de ser fraca. Você pode me prender, mas não há como amordaçar a chama que acenderá nas ruínas de meu povo. Pode me calar, mais jamais silenciará a voz de um povo oprimido, que, mais cedo ou mais tarde, conhecerá a própria força. Poderá retirar a minha vida como fez com a de meu pai, mas jamais sairá impune. E sabe por quê? Porque nosso grito de batalha é composto por uma multidão de vozes e não pela covardia de um tirano. Vá em frente, . Faça como quiser, mas esteja preparado para as consequências. Tenho a consciência tranquila de que, nesse pouco tempo de reinado, fui uma monarca muito superior ao que você jamais poderia ter sido.
O ódio não poderia mais ser contido. Como um barril de pólvora que começava a ser tocado pela faísca, o rei foi tomado pela fúria que cuspiu as palavras agressivamente.
— Guardas! Prendam-na agora!
Mas nenhum deles se mexeu. Nem um movimento. Nem um passo. Nem uma palavra. ouviu sua própria respiração pesada enquanto olhava ao seu redor.
— Vocês por acaso são surdos? Eu mandei prendê-la!
Um a um, os guardas se ajoelharam, apoiando os braços sobre a perna de apoio antes de abaixarem suas cabeças em sinal de respeito e reconhecimento. Curvavam-se na direção da rainha, dando as costas ao seu próprio rei. A identificação era mesmo a chave para a confiança e a lealdade de alguém. E, enquanto gritava a plenos pulmões que todos pagariam por aquilo, sorriu orgulhosa e tranquila, pois sabia que eram dezenas contra um. Os corações selvagens e rebeldes não seriam destruídos.




FIM



Nota da autora: Mais um dos mil ficstapes em que eu me enfiei. Espero que tenham gostado, mesmo sendo curtinho.
Por favor, digam o que acharam aqui nos comentários.
Para mais informações sobre minhas histórias, entrem no grupo







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