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Capítulo Único

“O rapaz riu, desdenhoso, se jogando de costas na cama.
— Não acredito que você vai começar com esse drama de novo.
— Drama, ? — A garota cruzou os braços, em pé ao pé da cama. Tinha o rosto vermelho de raiva e frio pelo tempo que passou na porta da casa do garoto esperando por ele. — Eu fiquei duas horas parada na droga da sua porta, porque a gente tinha combinado de se ver, hoje, e você estava fora, com os seus amigos.
— Eu esqueci que a gente tinha combinado, , já falei.
passou as mãos no rosto, irritada, e começou a caminhar em círculos pelo quarto. , agora apoiado nos cotovelos, já sem os sapatos e a camisa, rolou os olhos, impaciente. Esperava que a inglesa parasse logo de falar e se juntasse a ele.
, é a terceira vez essa semana que você convenientemente esquece de um combinado nosso. Semana passada você esqueceu da data de inscrição para a faculdade, e na anterior, uma entrevista de estágio. Quando você vai crescer e aprender a ter responsabilidade com os seus compromissos? A empresa do seu pai não vai te livrar disso para sempre.
— Está vendo? Eu sabia que isso ia acontecer, sabia! — se sentou na cama, começando a ficar irritado, também. — Você está falando exatamente como a minha mãe, e nem minha namorada você é, , que droga. Achei que você tivesse entendido o nosso lance.
parou de andar e encarou .
— Não, , pelo visto eu não entendi. Depois de quase um ano juntos, eu imaginei que fosse mais sério. Pelo menos, “lá na minha terra”, seria. Talvez eu esteja com saudades de lá, como você vive dizendo — a inglesa levou as mãos ao pescoço e tirou o colar que usava. Era um presente de , e conhecendo o jeito menos ortodoxo do dinamarquês, imaginou que fosse o equivalente a uma aliança de compromisso. Entregou o colar nas mãos do rapaz e ajeitou a bolsa no ombro. — Pode fazer o que quiser com isso. E pode esquecer esses últimos meses, também. Tenho certeza que não vai ser difícil para você.
Abraçando o próprio tronco, se preparando para encarar a noite fria com previsão de neve, saiu do quarto, da casa e da vida de , com passos menos firmes do que gostaria, mas sem olhar para trás.”

O dinamarquês acordou num susto, ouvindo a porta do quarto quase sendo derrubada aos socos. Passou a mão pelo peito, procurando o pingente do colar que usava há sete anos, ainda arfando, irritado por ter tido aquele pesadelo outra vez. Olhou para o relógio sobre a mesa de cabeceira e viu que estaria atrasado se realmente cumprisse o horário da empresa. O irmão, por outro lado, que cumpria, batia na porta sem parar chamando por .
, pelo amor de Deus, abre essa porta.
Ainda inquieto, se levantou e abriu a porta, encontrando o irmão já arrumado e pronto para sair.
— Ah, que bom, você está vivo. Escutei você resmungando a manhã inteira.
— Estou bem, . Só sonhei com as velhas histórias que o papai contava.
olhou desconfiado para o irmão mais novo, mas preferiu deixá-lo com a sua versão. Não queria um confronto logo cedo dizendo que o ouviu chamando o nome de repetidas vezes.
— Certo. Aquelas histórias realmente eram perturbadoras — riu fraco, mostrando compreensão. — Eu vou sair um pouco mais cedo, hoje, combinei de encontrar para o café da manhã, e devo chegar no escritório só depois da reunião com os investidores noruegueses. Vá comer alguma coisa e tente não chegar depois de mim.
— Ah, cala a boca, .


Uma última vaga na frente da delicada cafeteria aguardava , e ainda de dentro do carro ele podia ver a jovem sentada em uma das mesas da varanda. À sua esquerda, a ciclovia já movimentada pelos atletas matutinos era emoldurada pelo reflexo do sol nas águas do canal. respirou fundo, absorvendo aquela atmosfera agradável, e se perguntando como podia ser o oposto exato de tudo aquilo. Desligou o carro e entrou na cafeteria, indo até a mesa escolhida pela namorada de longa data. Cumprimentou a moça com um beijo rápido e se sentou, sinalizando para um garçom trazer o menu.
— Começou o dia bem, hoje, foi?
sorriu para o namorado, começando a sentir o cheiro de café vindo da cozinha. sorriu de volta e balançou a cabeça de leve, negando.
— Acordei com os gritos do e depois tive que fingir que não ouvi nada, e por isso decidi que o resto do dia vai ser incrível.
riu e concordou. Já estava habituada aos dois irmãos e suas constantes desavenças.
— Tenho certeza que será. Está ansioso para a reunião?
— Um pouco, sim, mas acredito que os noruegueses já estão convencidos pelas histórias que ouviram do meu pai e do Floki. A fama dos dois é mais relevante aos negócios do que os números da empresa. Grandes navegadores dinamarqueses… — riu, e pegou a mão da namorada sobre a mesa, ainda com a cabeça um pouco longe. Precisava aprender a deixar com seus problemas e se dedicar à própria vida. lhe dava a oportunidade perfeita para fazer isso, e sendo a garota incrível que era, não merecia menos que sua indivisível atenção. — E quais são os seus planos para hoje, mocinha, além de me fazer inveja com as férias que você conseguiu e eu não?
Apiedada do namorado, a garota sorriu, carinhosa e brincalhona, e lhe deu mais um beijo. Receberam o garçom com os pedidos que haviam feito e agradeceram.
— Combinei com a minha mãe de ir procurar vestidos de festa, hoje. Você recebeu o convite, né?
— Do casamento? — assentiu. — Recebi, mas não tive tempo de ler. Quando vai ser?
— Daqui a um mês, dia 20 de março, equinócio de primavera!
— Ah! Agora entendi porque você está tão animada — jogou a cabeça para trás e riu, levando um tapa de no braço.
— Estou animada porque a minha amiga vai se casar, apesar de tudo. A escolha da data pode ou pode não ter sido influenciada por mim, mas você nunca vai descobrir a verdade.
Apesar de tudo…
— Você sabe o que eu quero dizer, desviou o olhar, mas notou quando o sorriso de se fechou. Ouviu a namorada suspirar e se recompor, antes de prosseguir. — Você vai ao casamento comigo?
— O que? Acha que eu ia te deixar ir sozinha a um casamento no equinócio da primavera, sabendo que você vai estar mais bonita que a própria noiva? Não, não, mocinha. Não vai ser dessa vez que você vai se livrar de mim. — cobriu a boca com as mãos para abafar a risada alta que deu com o comentário de . — Você sabe que eu adoro casamentos.
— Acha que o não vai se incomodar?
se ajeitou na cadeira, apoiando a xícara de café de volta na mesa. Precisou se conter para não adotar um tom mais duro ao falar do irmão.
— Não me importo. teve tempo o suficiente para tomar uma decisão, e se essa foi a escolha dele, que seja. É problema dele.
encarou as mãos, desanimada.
— É uma pena que ele tenha se recusado a amadurecer.
— Humpf, acredite em mim. Foi a vida que teve pena dela.


sentiu o cheiro do molho que preparava antes mesmo de entrar em casa. Uma coisa ele tinha que admitir: o irmão entendia de comida.
Girou a chave na fechadura e abriu a porta, se arrependendo logo em seguida. O plano aberto do projeto moderno da casa que os irmãos dividiam permitia que a visão da porta de entrada fosse ampla e contemplasse toda a sala e a cozinha americana. Da soleira da porta, assistiu de costas, cozinhando e se mexendo pateticamente ao som — num volume desnecessariamente elevado — de George Michael. O saxofone icônico de Careless Whisper, trilha sonora que embalou inúmeras noites de amor e a que muitas pessoas deviam o próprio nascimento, agora fazia o rapaz pensar se dar repetidas cabeçadas na quina da parede era mesmo uma ideia tão ruim.

Entrou na sala e desligou a música, tão indignado com o que havia acabado de presenciar que sequer riu do susto que tomou ao perceber que não estava mais sozinho. Largando a mochila de qualquer jeito sobre o sofá, se sentou na ponta da mesa, e esperou que o irmão servisse o jantar.
— Espero que a reunião tenha sido tão boa quando o encontro com a .
rolou os olhos. Ignorou o tom de e sinalizou para que ele colocasse a mesa. O jantar estava pronto.
— Foi, sim, excelente por sinal. Halfdan virá passar uns dias na sede em Copenhague para alinhar os projetos. Parece que ele e o irmão querem nos propor uma fusão.
— Uma fusão? Por Deus, eles não deviam nem desperdiçar o nosso tempo. Papai e Floki não aceitariam abrir mão da liderança da fábrica.
encheu o prato com macarronada e começou a comer. remexia o prato, um tanto apreensivo, já arrependido da decisão de entrar no assunto.
— Conversei com eles, hoje, pareciam animados com a ideia. É bom, não é? A união. Esse tipo de compromisso que ajuda os dois a crescer… — parou de mastigar e olhou duro para o irmão. Soltou um resmungo impaciente e voltou a atenção ao prato, não sem antes correr os olhos pela mesinha de apoio onde estava a pilha de cartas que pegara na caixa de correio pela manhã. No topo da pilha, o convite, convenientemente esquecido aberto. — Quase como um casamento.
encolheu com o barulho dos talheres batendo no prato e observou , irritado, cruzando os braços e se encostando na cadeira. O rosto de tinha agora a mesma tonalidade do alerta vermelho que piscava na mente do irmão quando decidiu falar sobre isso. Ele sabia que era uma péssima ideia, e agora teria lidar com as consequências, mesmo que elas envolvessem um raivoso e cabeça dura, que apresentava claro risco à integridade física de .
— Está tentando dizer alguma coisa com isso, irmãozinho?
Tentando driblar o ódio direcionado, deu de ombros e enfiou uma garfada de macarrão na boca.
— Não, não é nada. Eu só vi o convite do casamento de , de manhã, e com falando tanto sobre como a cerimônia vai ser linda, no equinócio da primavera, acho que eu fiquei com o exemplo na cabeça.
Apenas se alguém conhecesse muito bem, poderia dizer que naquele momento ele vacilou, e precisou fazer um esforço enorme para manter a postura firme. Antes que cedesse, desviou os olhos de volta para o prato, e sem nem perceber, diminuiu o tom de voz, respondendo num muxoxo:
— Não conheço nenhuma .
— Ah, pode Deus, ! — Agora era quem largava os talheres e cruzava os braços, estressado. Em outro momento, faria uma nota mental para se lembrar de procurar um terapeuta familiar, mas ali, sua única observação era a de ser cruelmente sincero com o irmão. — Olha, chame ela do que quiser. ‘Jane Doe’, ‘s/n’, ‘Aquela-que-não-deve-ser-nomeada’, tanto faz. Finja que esqueceu o nome dela, se isso te faz se sentir melhor. Só não me trate como idiota, , eu te conheço melhor do que você imagina. e são amigas, você sabe disso, e ela me contou algumas coisas sobre esse casamento. Pense bem, meu irmão, pode ser a sua última chance de tomar a decisão certa.
Aturdido, processou o rompante de por alguns instantes antes de se levantar, pisando duro e indo para o quarto, fazendo questão de bater a porta com bastante força. , apesar de surpreso, assistiu à cena em deleite.
— Pirralho…


O último andar da sede da Njörðr Vandmobilitet, a maior fabricante de navios e outras embarcações da Escandinávia, estava praticamente irreconhecível. Bom, ao menos aos olhos dramáticos de . Depois de duas semanas de negociações e adaptação, e Floki, donos e fundadores da construtora naval, finalmente aceitaram a fusão com a frota norueguesa, para total desgosto do rapaz que não era muito fã de mudanças — nem da ideia de agora ser herdeiro de uma porcentagem relativamente menor da empresa.
Algumas reformas foram necessárias para comportar a equipe da Noruega, e por esse motivo, agora dividia a sala com o pai, , grande empresário e investidor nas ideias de Floki. também era conhecido por ser muito astuto e excelente estrategista, o que dificultava para os filhos tentarem enganá-lo, tanto na juventude quanto agora. Sabendo de tudo isso, fazia de tudo para disfarçar a inquietação naquele dia, mas o pai já havia percebido que algo estava errado.
, o que foi, meu filho? Ainda está incomodado com as decisões que eu tomo para a minha empresa?
O rapaz levantou os olhos e encarou o pai, assustado. Chacoalhou a cabeça, tentando afastar as imagens do maldito pesadelo que continuava lhe perturbando, e apertou o pingente do colar.
— Não é nada, pai. Só dormi mal, só isso.
— Hm — arqueou as sobrancelhas e se recostou na cadeira encouraçada. Evitou uma risada quando entendeu qual era o problema do filho. — Sendo assim, tudo bem.
voltou a digitar no computador, tomando um novo susto quando recomeçou a falar.
— Ah! Antes que eu me esqueça: alguns dias atrás, seu irmão me pediu para ser dispensado, acho que dia 20 ou 21, para ir a um casamento. Você não vai? Quer o dia de folga, também?
— Não, pai, eu não conheço o casal. São amigos de .
— Não conhece o casal, entendo — o homem se levantou, ajeitou a camisa, e apanhou as chaves do carro. Caminhou em direção ao filho, e colocou uma mão em seu ombro, tentando manter o tom paternal. — , honra e coragem são traços fundamentais para todo homem e mulher que desejam conquistar seu lugar em Valhalla, como diria seu avô. Mas a honra muitas vezes é confundida com orgulho, e o orgulho só nos afasta dos banquetes no Grande Salão dourado. Abra mão do seu orgulho, meu filho, e vai ver que o caminho sem ele é muito mais interessante.
Dando um tapinha nas costas de , saiu, deixando o filho sem reação para trás.

O sábado amanhecia tranquilo e revigorante, como gostava. O dia de folga vinha em boa hora: depois de quase um mês acompanhando negociações e treinando a equipe dos investidores noruegueses, tudo o que o rapaz queria era o merecido descanso, paz e sossego. Curtia o cheirinho familiar que vinha da cafeteira enquanto abria as janelas e deixava o sol entrar na casa, já pensando em qual faixa da playlist de músicas instrumentais colocaria para embalar seus alongamentos matinais. Deu play em Inverno em Fá Menor - Largo, de Vivaldi, e afastou a mesinha de centro da sala. Esticou os braços ao alto, e antes que pudesse levá-los o mais próximo do chão que conseguisse, tomou um susto com a porta do quarto de se abrindo num estouro, o irmão vindo de lá já arrumado e pronto para sair.
, onde está ? Preciso falar com ela.
— Bom dia para você também, meu irmão. Como está? Dormiu bem? Está com fome? O café já está quase pronto.
Fingiu que não ouviu a pergunta de e voltou a se alongar. Quanta falta de educação! , por outro lado, aproveitou a sinfonia para respirar fundo e se acalmar, tentando não socar a cara de até virar do avesso. Odiava quando o irmão agia como se fosse sua mãe.
— Anda, . Onde está ?
— Você sabia, irmãozinho, que hoje em dia existe uma coisa fantástica, realmente uma invenção revolucionária, chamada telefone? — sorriu cínico e rezou pela própria vida. Podia passar o tempo que fosse, ele jamais deixaria de provocar o irmão, mesmo sabendo que as consequências da raiva de podiam ser terríveis. — Antes de me atazanar desse jeito, ligue para ela, droga.
— Se eu tivesse o telefone dela, , não perderia meu tempo falando com você.
— Não faço ideia, , não coloquei um chip na minha namorada — desistindo dos exercícios, o mais velho dos irmãos se virou para o mais novo, dando de ombros. — Ela deve estar em alguma loja de vestidos no centro da cidade. Até onde eu sei, ela ia acompanhar a “Voldemorta” na prova final do vestido de noiva, hoje. Eu posso ligar par—
Antes que terminasse, saiu porta afora derrubando as chaves algumas vezes no caminho até o carro.


— Deixe-me ajeitar a tiara, querida. Isso, aí está.
A senhora desceu do pequeno palanque onde estava, deixando a moça se olhar no espelho, agora totalmente vestida com o figurino branco. Tinha um sorriso estampado no rosto, completando o visual angelical estrelado pelo vestido delicado. Os olhos, por sua vez, permaneciam opacos.
— Algum problema, querida? Tem algo errado com o vestido?
A costureira perguntou, apreensiva, com as mãos juntas ao peito, como em um desenho animado. sorriu para a senhora, agora com sinceridade, comovida pela preocupação da mais velha.
— Não, Ayla, está tudo perfeito. É só que.. será que a senhora poderia nos deixar a sós um instante?
— Mas é claro. Fiquem à vontade, e quando precisarem de mim, estarei no estúdio.
— Obrigada, Ayla.
assistiu a toda a cena do sofá do camarim especial onde fazia a última prova do vestido. Agora se iniciava a contagem regressiva até o grande dia, a última semana, finalmente. Já era possível aproveitar alguns dias de sol e o calor que fazia era suficiente para gerar certa expectativa para um tempo bom no dia do casamento. Quem não conhecesse muito bem a futura noiva e a visse nesse momento a parabenizaria, fazendo votos de felicidades ao casal, mas não era o caso de , que conhecia cada expressão da amiga.
— Desembucha. O que está errado?
soltou o resto do ar dos pulmões, deixando a pose de manequim e indo ao encontro da amiga no sofá. Os ombros curvados para frente e a cabeça solta, equilibrada por acaso sobre o pescoço, revelavam o verdadeiro estado de espírito da moça.
— Eu não sei, . Está tudo perfeito, mas ainda assim, eu tenho a sensação de que algo está fora do lugar. Provavelmente sou só eu sendo controladora, ou —
— Ou você está percebendo que eu tinha razão o tempo todo e você não está cem por cento certa de que quer se casar com Alfred.
, nós já conversamos sobre isso. Já te disse inúmeras vezes que a minha decisão está tomada.
— Sim, disse. Mas em nenhuma dessas vezes você disse que tinha certeza, .
se levantou e começou a caminhar pelo quarto, como fazia desde criança, sempre que ficava ansiosa.
— Nós vamos ter uma vida excelente juntos, . Ele é um bom homem, que me respeita e gosta de mim, e vai ser um pai carinhoso e amoroso com os filhos. O que mais eu poderia querer?
— Talvez poder dizer que o ama, como amava o—
!
?!

procurou por mais de vinte lojas de vestidos no centro de Copenhague, gritando o nome de em todas elas até ouvir seu nome sendo chamado em resposta, na pequena boutique de estilo francês. Seguiu o som até a salinha no fim do corredor e abriu a porta sem perguntar, congelando no lugar logo em seguida.
Ela estava linda.
Mais linda do que a mente dele o permitia lembrar, provavelmente como mecanismo de defesa. Se ele tivesse o registro exato de cada detalhe do rosto daquela mulher por todos esses anos, não teria sido capaz de lidar com a própria imbecilidade. Vê-la ali, vestida daquela forma, era a manifestação de um sonho, o único que tinha com ela além do pesadelo recorrente que não passava da lembrança da noite em que tudo terminou.
— Acho que ouvi o me chamar. Se vocês me dão licença…
desviou de e saiu, fechando a porta atrás de si. Fora do alcance dos olhares dos dois, comemorou. lhe devia algumas coroas dinamarquesas.
estava em choque, e por pouco não perdeu o resto de cor que tinha no rosto. Toda aquela ideia, secretamente, a apavorava, e por mais que negasse as investidas de , ver ali, depois de tanto tempo e em um momento tão oportuno, trazia à tona verdades que preferia — e precisava — manter enterradas no peito.
E , agora que estava ali, não sabia bem o que fazer.
— Você está linda.
— O que você está fazendo aqui, ?
O rapaz piscou algumas vezes, voltando a si.
— Eu precisava falar com você, antes de… — gesticulou desajeitado para o vestido. — , eu… eu fui um completo idio—
— Sete anos, . Sete anos, e você me diz isso agora? — Imitando o rapaz, apontou para o próprio corpo coberto de branco. Movia os olhos de para a porta, as sobrancelhas arqueadas e levemente franzidas, os lábios separados e o tom de negação na voz entregando o quanto ela esperava que entrasse no camarim novamente e a tirasse daquela situação confusa e sufocante.
O dinamarquês não conseguia olhá-la nos olhos. Encarava o chão, os próprios pés, a moldura da janela atrás dela, o que quer que encontrasse na sua linha de visão. Entretanto, sabia que se realmente estava disposto a assumir seus erros e amadurecer, precisava criar a coragem de olhar para ela e aceitar a sensação de estar exposto. Contou quantos botões prendiam a cortina da salinha enquanto respirava fundo, como havia aprendido nas sessões de terapia que frequentou anos antes, a pedido da mãe. Quando se sentiu preparado, buscou os olhos da moça, agora vibrantes em contraste com a letargia de antes.
— Eu passei esses sete anos fingindo que não lembrava quem você era. Sempre que falavam de você, eu dizia que não conhecia ninguém com esse nome, porque você me disse para te esquecer, naquela noite, e eu fui orgulhoso demais para admitir que eu não queria — desviou os olhos mais uma vez, nervoso, e respirou fundo. , confusa, tentava lidar com a própria contradição, absorvendo cada detalhe do que estava acontecendo. — Na verdade, mesmo se eu quisesse, eu não conseguiria esquecer você.
— Engraçado, . Não imaginei que alguém que “não era nem sua namorada” pudesse te marcar desse jeito.
Por mais que tivesse tentado, não resistiu ao impulso de jogar isso na cara de . Cruzou os braços, brava, sentindo novamente toda a mágoa que sentiu na noite em que conversaram pela última vez.
— Meu único arrependimento maior do que dizer aquilo é não ter ido atrás de você quando você saiu — passou uma mão pelo cabelo, e tentou reconectar na cabeça todos os pontos em que pensou no caminho até a loja de vestidos. — Eu não quero tentar me justificar com isso, mas eu era um moleque deslumbrado com as maravilhas de ser herdeiro de uma empresa de sucesso, rodeado pelos piores amigos que eu podia escolher. Eu tinha certeza de que a vida seria só festa e diversão, sem obrigações, e tinha pavor do quanto um relacionamento poderia tirar de mim naquele momento. Eu realmente achava que queria estar livre para fazer o que eu quisesse e ficar com quantas eu quisesse, mas eu descobri tarde demais que as coisas só pareciam estar tão boas porque você estava ali.
se jogou no sofá, de repente interessada no que acontecia na rua, através da janela. Sentiu o movimento nas almofadas e se encolheu, tentando se esconder de , que se aproximava. De , ou dela mesma, e dos sentimentos que ele escancarava na frente dela, agora.
, eu demorei muito para entender o quanto eu amava você. Demorei para admitir que sentia alguma coisa, três anos antes de a gente começar a sair, embora eu nunca tenha te contado isso — riu soprado da cara de espanto da garota. — Eu fui completamente rendido a você, e talvez seja por isso que eu nunca tenha sido sincero a respeito disso. O medo de estar tão vulnerável nas mãos de alguém era paralisante.
— A gente se conhece desde a infância, . Se você tivesse sido sincero comigo, acha mesmo que eu teria te machucado?
— Não, nunca achei que você seria capaz de qualquer mal a quem quer que fosse. Eu tinha medo de mostrar sem nenhuma máscara e não ser suficiente para você. Até hoje eu não sei se você estava com todos os parafusos no lugar quando disse que gostava de mim no acampamento da escola.
Riram baixinho, disfarçando as lágrimas que ambos carregavam nos olhos. brincava com as próprias mãos, controlando a vontade de esticar o braço e tocar .
— Meus parafusos sempre estiveram onde deviam estar, os seus é que estavam frouxos. Queria que você conseguisse se ver como eu te via, e entendesse que você é um cara incrível, que só precisava de um pouquinho de auto-estima, mas essa vai para a conta do seu pai.
riu mais uma vez, com vontade. Era bem verdade que não havia sido o pai mais presente na infância do garoto, e agradecia que hoje as coisas fossem diferentes.
— Eu divido o escritório com ele, hoje, sabia? — sorriu em resposta. Achou desnecessário interrompê-lo para dizer que, sim, ela sabia. a mantinha informada a respeito de desde que voltou do período com a família, na Inglaterra. — Muita coisa mudou nesse período, . Eu mudei. Mas se tem uma coisa que continua igual é que eu amo você. Eu amo você desde a primeira vez que eu te vi naquela caixa de areia, tentando conversar com as outras crianças em inglês e quase chorando porque ninguém te entendia. Eu amo você desde que você me abriu aquele sorriso porque conseguiu pronunciar as primeiras palavras em dinamarquês, depois de eu ter passado toda a tarde tentando te ensinar. Eu amo você desde que você me emprestou seu lápis de cor favorito na escola, quando eu esqueci meu material porque meus pais não paravam de brigar e eu saí correndo de casa. Eu amo você desde que eu te vi chorar pela primeira vez por uma nota ruim e precisei te consolar com chocolate e uma sessão inteira de filmes de comédia romântica. Eu amo você, , e não deixei de te amar um dia sequer desde o momento em que eu te dei motivos para ir embora.
A inglesa mal teve tempo de se sentir abalada ao ouvir seu antigo apelido saindo daquela boca novamente, antes de ser atingida por aquele mar de sentimentos reprimidos por tanto tempo. Agora não segurava mais as lágrimas; tentar seria inútil. Ainda debatia as ideias, que passavam a mil na cabeça, mas tinha uma certeza em meio a todo aquele caos.
— Eu também amo você, .
A confissão saiu num fio de voz. se aproximou, examinando a reação da moça, e quando viu que estava tudo bem, puxou a figura embolada no sofá para si, e abraçou-a, permitindo que se aninhasse em seu peito, como costumava fazer. — O que eu faço agora?
sentiu em si a confusão que perturbava a inglesa, e fechou os olhos, respirando fundo. Não queria se deixar levar pelas emoções quando precisava se manter firme para passar a segurança de que ela precisava agora.
— Vem embora comigo.
A garota levantou a cabeça, surpresa. Não negava que a ideia havia lhe passado pela cabeça, mas não esperava que ele realmente propusesse aquilo.
— Agora?
— E por quê não?
, eu não posso deixar tudo desse jeito. Preciso pensar no que fazer, com calma.
sorriu.
— Então você está considerando fugir comigo?
— Fugir para onde, ? As nossas vidas estão aqui em Copenhague — revirou os olhos, se divertindo com a situação. — Me dê uma semana para decidir o que fazer.
— Uma semana? Seu casamento é em uma semana, .
— Então você já sabe onde eu vou estar, não é? — sorriu, com ar de criança que sabia que estava aprontando. — No próximo sábado, no píer, terá uma lancha nos esperando para a lua de mel. Me espere lá ao entardecer. Se eu não aparecer, é porque decidi me casar e seguir minha vida como planejei nos últimos dois anos.
— E se você aparecer, é porque tomou a decisão certa. Parece justo.
A garota riu. Se fosse totalmente honesta consigo mesma, não precisaria de uma semana para tomar uma decisão, mas queria fazer as coisas direito. Despachou para poder tirar o vestido que, com certeza, ficaria lindo em outra noiva, e gargalhou ao ouvir o grito agudo de no andar de baixo, causado pelo bom humor de . Tinha que dar o braço a torcer: a amiga tinha razão todo esse tempo.


Fim



Nota da autora: OIÊ!!

Ufa! Achei que esse não ia sair, mas acabou sendo um dos meus ficstapes favoritos, hehe. Essa misturinha de Ivar com Alex me jogou num cenário completamente inédito para mim, e que foi uma delicinha explorar.
Quero deixar aqui meu MUITO OBRIGADA, SUA LINDA, para a Lumiya, que me ajudou com o plot, e para a Bianca, que organizou o ficstape desse álbum HINO. Confiram as fanfics delas, também, as meninas são incríveis!
Obrigada por terem lido até aqui ♥
Espero que tenham gostado!

Se vocês quiserem ler outras fics minhas e falar comigo, vocês podem encontrar a minha página de autora e redes sociais (aproveitem para conferir a moodboard da fic no meu Pinterest!) aqui: giormiranda.carrd.co ♥

J’adore,
Gior!



Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.


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