14. Azul sem Fim

Última atualização: 03/10/2018

Capítulo único

pov's

Olhei pro relógio pela quinta vez e descobri que só haviam se passado 2 minutos desde a primeira vez que eu havia olhado. Eu nunca fui de ficar ansioso para o fim das aulas, gosto de absorver o máximo que posso de cada professor, até porque o que me diferencia dos outros seres humanos não tão providos de inteligência que estudam comigo.
Ok, você pode me chamar de Nerd.
Mas hoje eu preciso ir embora daqui e voltar para o meu quarto, voltar a conversar com a menina misteriosa que vem me tirando do eixo perfeitamente correto que é a minha vida.
Eu conheci a há alguns meses, e desde então ela vem se tornado um ponto de interrogação na minha vida. E eu sei que o nome dela não é , e ela também sabe que o meu não é , pra ser sincero, a única coisa que sabemos um sobre o outro é que estudamos na mesma escola.
OK, vou explicar:
Há uns 6 meses a escola inventou que fazer um site para promover a confraternização entre os alunos, desde que eles se conhecessem por identidade secretas, sem julgar popularidade ou aparência. Óbvio que acabou virando uma espécie de Tinder especial do EastSchool (o nome é americano porque a escola queria fazer graça, porém estamos no Rio de Janeiro mesmo), mas de certa forma funcionou e, conforme as pessoas foram revelando suas identidade, fomos vendo casais cada vez mais "estranhos" pelos corredores da escola. Só não durou! Depois de um mês, 80% dos usuários já haviam revelado sua identidade e acabado com a magia do aplicativo. Os 20% que duraram, incluindo eu e a , fariam exatamente como o planejado e revelariam a identidade apenas no baile que a escola estava organizando no fim do semestre. (Eu disse que eles gostam de fazer graça, quase uma escola de filme)

TRIIIIIIIM
Acho que nunca guardei o material tão rápido na vida, mas 1 minuto após o sinal bater, e a visível cara de confusão do meu professor por eu ser um dos primeiros a sair de sala, eu já estava a caminho do ponto de ônibus. Jamais havia agradecido tanto pelo meu ônibus ser o mais comum na região e chegar tão depressa como naquele dia, mas fica aí o meu “valeu, Deus!” por mais essa.
~ está online
: Hey!
~ está online
: Olá, menino mistério! Mais perguntas hoje?
: Você não vai sossegar enquanto não descobrir quem eu sou, né?
: Definitivamente não! hihihi
: Mas você pode facilitar tudo me contando...
: Hm, deixa eu pensar...
: ...
: Não!
: Aaah, deixa de ser chato!
: Você sabe que não vai me convencer, né?
: Tá bem, tá bem.
: Vamos às perguntas??
: A gente não pode só conversar sobre o dia?
: Hm, deixa eu pensar...
: Não!
: Primeira pergunta do dia, então
: Qual a cor dos seus olhos?
: Próxima
: Nem pensar! Responde
: Azuis, e os seus?
: Afe, totalmente sem graça responder agora
: Mas são castanhos
: CLAROS
: Mas ainda sim, castanhos.
: Aposto que são lindos!
: Não começa com essas suas cantadas baratas hahaha
: OK, sorry.
: Hm, bilíngue

Me endireitei sobre a cama e ajeitei o notebook que quase caia do meu colo, enquanto ria e pensava como alguém por trás de uma tela, exatamente como a minha, podia me fazer sentir uma ligação tão real. : Pergunta: Você vai me encontrar no baile ou vai me deixar plantado que nem um idiota esperando por você?
: Com certeza te deixarei esperando que nem um idiota, até porque a parte do idiota nem é tão difícil, já que você já é um!
: EI!
: HAHAHAHAHAHAHA
: Eu to brincando, ok? Eu vou aparecer!
: Sei...
: Ei, tenho que ir! Até amanhã. Bjos!
: Até amanhã, olhos castanhos.
: 15 dias, menino mistério. 15 dias e sua máscara cai...
~ está offline

Fechei o notebook, pensando em quanto eu queria que aqueles 15 dias passassem voando, e ao mesmo tempo nunca chegassem...

– 7 dias depois –

Faltavam menos de 10 dias pra eu descobrir quem era a , também conhecida como a garota que destraçalhou minha vida, e eu tava em pânico! O que eu faria se ela não gostasse de mim? Ou se tudo isso fosse uma pegadinha? Eu ainda não tinha pensado nessa possibilidade, mas agora me parece totalmente certa e real.
Cheguei no colégio e me deparei com mais um dos tumultos cotidianos daquele lugar, tentei passar despercebido, mas foi impossível e em dois minutos naquela multidão e eu comecei a entender o porquê de todo aquele auê, e...
PUTA QUE PARIU
CARALHO!
CARALHO!
CARALHO!
CARALHO!
ISSO DEFINITIVAMENTE NÃO PODERIA ESTAR ACONTECENDO!
Olhei para aquela lista pregada no mural, que agora já estava na minha frente graças ao empurra-empurra, e eu tenho a sensação de que parei de respirar! Ali na minha frente, nada mais, nada menos que o nome de TODOS os alunos que participavam do “tinder escolar”, inclusive os que já haviam contado sua identidade!
Eu acho que meu olho inconscientemente procurou o nome de , e quando eu encontrei, fiquei na dúvida se realmente queria ter visto. A lista estava bem clara,
3101
Ok, só mais uma vez pra garantir que todo mundo entender:
PUTA QUE PARIU!
PUTA QUE PARIU!
Mais uma palavra só pra garantir que a situação está compreendida: FUDEU!
A foi minha amiga até o começo do ginásio, depois acabamos nos afastando. Não foi culpa dela, muito menos minha, mas quando reparamos já estávamos em situações que representariam uma perfeita antítese, afinal, ela tinha se fechado com o grupo dela e eu tinha me fechado, basicamente. E de todas as meninas daquele colégio, eu jamais imaginaria que seria ela, já que ela era a primeira a sempre falar como esses aplicativos de relacionamento eram estúpidos quando debatíamos isso em alguma aula.
E por falar em praga, quem me aparece? Isso mesmo, amigos! Meu melhor amigo, também conhecido como Ryan, também conhecido como a única pessoa que sabia de toda essa história.
- Caralho, o que foi isso, hein?
- Você viu quem ela é?
- É claro! Se deu bem hein, irmão - ele riu enquanto dava repetidos tapas nas minhas costas
- Me dei bem?? Você tá de sacanagem né? É a !
- Exatamente
- Cara, de todas as garotas desse lugar, só não podia ser ela.
- Falando nela, olha quem tá chegando aí! Fui...
Ele passou por mim e seguiu pelo corredor, enquanto eu xingava ele com todos os palavrões existente e inexistentes inventados por mim e via se aproximar
- hm, oi, !
- Oi! Tudo bem, ? - acho que meu desconforto ficou visível com cada palavra que saiu da minha boca
- Tudo! Então...
- Então...
- Você já viu a lista né?
Acho que se isso fosse como nos desenhos infantis que meu irmão assistia, teria dois "mini-s" no meu ombro, um vestido de anjo dizendo "fala a verdade pra ela" e outro de diabinho falando "fala que não viu nada, não quer nem saber dessa palhaçada" porque era exatamente essa confusão que estava se passando na minha cabeça.
- É, eu vi sim.
- E então...
- Olha, , eu sinceramente não sei como você tá reagindo a isso, mas eu sinceramente não esperava descobrir que você era a .
- Nossa, tão ruim assim ser eu? - ela respondeu dando uma risada constrangida
- Não, não é isso, eu só acho que isso não vai dar certo.
- Realmente não vai dar se você não tentar.
- Bom, prefiro ser covarde e me abster dessa situação. Desculpa!
Acho que atropelei todo mundo até conseguir sair do colégio, até encontrar uma árvore pra me esconder, pelo menos durante os dois primeiros tempos.
- Ei! Ei! Acorda, ! Bora!
- O que quê foi, Ryan?
- Você dormiu todo o tempo das aulas nesse lugar, nojento, vamos embora!
- Tá, deixa só eu lavar o rosto.
- Dois minutos, ! DOIS MINUTOS.
- Tá, tá
Entrei na escola ainda sem acreditar que havia dormido todo aquele tempo, corri pelos corredores vazios de uma EastSchool depois de 12h, entrando no banheiro, lavei o rosto e aproveitei pra me olhar no espelho, mas acabei tomando um susto com minha cara de acabado, parecia que um caminhão tinha passado por cima de mim.
Sai do banheiro revisando que aulas eu teria naquele dia, apesar do ano letivo já ter praticamente terminado visto que não fiquei de final em nenhuma matéria, mas perdi o raciocínio quando ouvi um choro no corredor ao lado do banheiro, andei pra lá tentando fazer o máximo de silêncio possível e vi chorando abraçada com sua melhor amiga.
- Eu gostava tanto dele, amiga. E eu sinceramente não esperava que o fosse ele!
- Mas, amiga, isso é tão ruim assim?
- Pra mim, não, mas você tinha que ter visto a cara dele quando ele me viu, ele disse que preferia que fosse qualquer outra pessoa - ela disse e soluçou forte no colo da amiga
- Ei, eu não disse nada disso! - entrei no corredor assustando-as.
- , por favor! - Carla disse me pedindo com o olhar pra sair dali.
- SAI DAQUI, ! Eu não quero olhar pra sua cara, você é covarde! UM COVARDE que vai viver na sobra dos outros porque não tem coragem pra se arriscar.
Saí dali enquanto as palavras de ecoavam pela minha cabeça. E ela estava certa! Eu era um covarde, e deixei a primeira garota que mexeu com a minha cabeça e com a minha vida de forma tão boa, escapar sem nem ao menos tentar.
- Irmão, que cara horrorosa é essa?
- Acho que eu fiz merda, e preciso de ajuda!

– 8 dias depois –

Eu não vou surtar!
Eu não vou surtar!
Eu não vou surtar!
Eu não vou surtar!
O que eu tava pensando quando inventei isso? Por que eu simplesmente não consigo deixá-la pra trás?
- Preparado, galã? - Ryan surgiu entre as cortinas da coxia do palco do baile.
- NÃO! Eu vou embora, Ryan! Isso não vai dar certo.
- Pode parar com isso, parceiro! Você escreveu uma música pra ela, agora tu vai cantar.
- Mas...
- Sem "mas", você me fez convencer o diretor de te deixar cantar, e tu não sabe como foi difícil, irmão! Ele ainda acha que eu tô preparando uma pegadinha.
- Você sabe bem o porquê que eu te obriguei a ir falar com o diretor.
- Ah, foi só uma brincadeirinha...
Durante esses dias, o Ryan ficou lá em casa me ajudando a preparar a música e as outras coisas pra que eu pudesse pedir desculpas pra . Eis que um dia o babaca tá na janela e ela passou pela minha rua, e ele fez questão de gritar bem alto pra ela ouvir ", O TE AMA". Ela respondeu levantando o dedo do meio na direção da janela, e eu ri da cara de espanto dele a semana inteira.
- Cara, acorda! Estão te chamando.
- Ela já está aí, né?
- Sim, e eu já estou com o presente dela aqui - ele respondeu levantando a caixa que estava na sua mão.
- OK, me deseje boa sorte!
- Tu vai arrasar, irmão! Precisa de sorte, não.
Entrei no palco, e meu pânico aumentou quando todas as pessoas presentes no salão olharam pra mim. Ouvi exclamações de surpresa dos meus colegas.
Entrei no palco, e meu pânico aumentou quando todas as pessoas presentes no salão olharam pra mim. Ouvi exclamações de surpresa dos meus colegas de classe, o resto da escola nem me conhecia, então provavelmente eles achavam que eu era algum cantor que a escola tinha contratado.
Sentei no banquinho em frente ao microfone e ajeite o violão no meu colo, respirei fundo e procurei o par de olhos castanhos claros para quem aquela música seria destinada e me recusei a quebrar o contato visual quando ela encontrou meus olhos também. Comecei a dedilhar o violão, sem tirar os olhos dela, e a música que já era tão comum para os meus ouvidos começou a ecoar por todo o salão.

"Ah se eu pudesse voltar, e novamente escrever
A minha história no ar, pudesse me refazer
Não posso desanimar, há muito o que aprender
Não que eu só queira ganhar, mas já cansei de perder

Em algum momento da música eu quebrei o contato visual, pois fechei os olhos e deixei apenas a letra falar por mim.

Penso em você, em seu olhar
Penso em fugir e te levar
Sonho pra nunca acordar
Eu nunca fui de acreditar
Mas me perdi ao te encontrar
Amor que veio pra ficar

Vou confessar, que era eu
Aquele azul sem fim, que você mergulhou
Me disfarcei de mar, pra ganhar seu amor"


Quando abri os olhos no fim da música, reparei que ela também estava de olhos fechados, e quando ela abriu e nossos olhos se encontraram novamente, eu tive a sensação de saber exatamente porque tinha me apaixonado por ela, mesmo que através de uma tela.
Desci do palco depois de agradecer pelos aplausos e fui, meio desesperado e atropelando todo mundo, pro salão procurando por . Tive que parar pra agradecer alguns elogios pela apresentação e quando cheguei ao local que ela estava durante o tempo que eu estava no palco, não a encontrei! Olhei pro Ryan com um certo desespero, e ele estava pulando e apontando pra trás de mim. Virei pra trás e me deparei com o sorriso mais lindo do mundo.
- Então você canta?
- É, acho que eu nunca te contei isso. Gostou?
- Olha, fazer uma música pra mim é covardia. E esse chocolate, - ela levantou a caixa que antes estava com Ryan. - Esse chocolate é muita covardia.
- Covardia é você, linda desse jeito! - Ela sorriu, e meu sorriso se espelhou no dela.
- Mais uma cantada barata?
- Você sabe que eu não resisto! - eu disse enquanto puxava ela pra perto, enroscando minhas mãos na cintura dela e me inclinava para beijá-la. Quando paramos por falta de ar, eu olhei pra ela sorrindo e ela sorriu de volta.
- Então, você vai afundar comigo?
- Só se for nesse azul sem fim dos teus olhos.




Fim



Nota da autora: Sem nota.



Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.


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