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25. Blindness


O pior cego é aquele que se recusa a enxergar o que sabe estar nítido diante de si.
-R. M. C.


Prólogo


Nunca acreditei em carma.
Mas, enquanto corro alucinada pelos corredores da Universidade de Chicago, carregando a minha mochila em farrapos, molhada da cabeça aos pés pela chuva inesperada e com o cheiro de café impregnado na blusa que foi o último presente que recebi da minha tia que morreu na semana passada, avalio se deveria ter comprado os biscoitos daquelas escoteiras no dia anterior.
Sacudo a cabeça, rindo do efeito do desespero sobre mim. Se eu não conseguir entrar na classe da Sra. Hamilton depois de tanto esforço, juro que sou capaz de decepar a cabeça do primeiro que passar.
A imponente porta de madeira me aguarda no fim do corredor. Suspiro, contente por ter chegado apesar de todos os empecilhos que se materializaram no meu caminho nesta manhã de terça feira.
Paro em frente à porta e pondero se devo bater antes de entrar. É a minha primeira aula com essa professora e, apesar de não conhecê-la pessoalmente, na teoria estou apta para narrar todo o seu histórico na universidade.
A despeito das belas pernas, dos cabelos loiros e do porte elegante, Eloise Hamilton não faz o tipo querida pelos alunos. Seu método é rigoroso, suas aulas cansativas e seu sorriso macabro. Aos 53 anos, essa mulher conserva mais inimigos do que amigos, sendo o primeiro grupo composto majoritariamente por ex-alunos reprovados em sua disciplina. O estudo das teorias da dinâmica capitalista não é nem de longe tão complexo quanto os trabalhos que ela passa no primeiro dia de aula para duplas de alunos que terão até o final do semestre para entregar o documento.
A minha preocupação instantaneamente desaparece porque prevejo que Susan, uma companheira de classe, já está na sala e como combinado já me designou como sua dupla. Percebo, durante este momento de serenidade, que há uma fresta na porta e posso discernir a voz ruidosa de Hamilton. Empurro a porta lentamente, não querendo chamar a atenção ou interromper a sua fala. Contudo, para meu azar, quando já estou encostando-a e procurando por Susan na sala lotada, a professora me nota.
- Bem, senhor Palance, parece que sua parceira chegou.
Engasgo. Lanço um olhar de desentendimento em sua direção e ela aponta discretamente para o relógio no pulso e entendo que esta é a razão para eu não ter o direito de argumentar. Procuro uma cadeira vazia e me alojo ali, entre dois asiáticos concentrados, aguardando pelo intervalo e rezando para que a fala da professora tenha sido apenas uma brincadeira de mau gosto, um meio de me fazer pagar pelo meu atraso.

***


- Isso não é justo. Tenho o direito de escolher a pessoa com quem quero trabalhar até o fim do semestre. – meu tom é educado, apesar de estar visivelmente irritada.
Os passos de Hamilton ecoam pelo espaço enquanto eu a sigo, e tenho vontade de pegar o maldito salto fino de seu sapato e cravar em sua cabeça.
- Não acredito que esteja em posição de exigir algo, senhorita...
- . – completo. – Sei que chegar atrasada em sua primeira aula revela certo descaso, mas eu fui impedida por forças cósmicas de chegar até aqui a tempo.
- Bom, não acho que o fato de o universo conspirar contra você seja problema meu. O caso é que avalio meus alunos e formo as duplas de acordo com o grau de interesse e, já que não conheço o coeficiente de rendimento de todos na sala, estabeleço que a frequência e a pontualidade sejam os quesitos responsáveis pela composição das duplas.
- Esse seu sistema de seleção tem sérias falhas. – aponto e ela para de caminhar imediatamente. – A maioria dos indivíduos que hoje chegam cedo para as aulas é porque sofreram nos períodos anteriores e, preocupados com o atual, tentam consumir o máximo de conteúdo possível. O resto da turma é composto por pessoas assustadas com o seu legado de reprovações. – sei que estou passando dos limites com tanta petulância e, receosa com o que possa acontecer, aperto o casaco em volta de meu corpo.
- Se a senhorita demonstrasse o mínimo de inteligência também estaria roendo as unhas até sangrarem, contudo, permanece a contestar meus métodos. – sua voz soa altiva e eu me encolho. – Portanto, se quiser continuar a assistir minhas aulas e ter a ínfima chance de ser aprovada nesta disciplina deve aceitar os meus termos. Vai encarar as consequências da sua falta de pontualidade passivamente, desenvolver o projeto com quem eu estabelecer e respeitar a minha autoridade sem questionamentos. Estamos de acordo?
Uma veia na minha testa salta e tenho de fechar minhas mãos em punho para me impedir de esbofeteá-la. Penso no sacrifício que terei que fazer para suportar esses seis meses ao lado do aluno mais descompromissado da classe. Aceitar a perspectiva de que provavelmente vou acabar tendo que fazer o projeto sozinha e ainda acrescentar o nome do infeliz não parece muito motivadora, mas concordo com um resoluto meneio de cabeça.
O sorriso macabro, então, aparece em seus lábios vermelhos.

Capítulo 01


O aroma de café me entorpece. As olheiras que se formam debaixo de meus olhos me envelhecem uma década e, sentada em uma cadeira pré-histórica, eu já posso ser confundida como parte da mobília. Ouço o barulho da porta da cafeteria batendo e, mesmo estando de costas para ela, posso identificar com clareza quem acabou de entrar.
- Está atrasado. – digo sem nem sequer me virar para vê-lo.
- Isso é doentio. – ele diz puxando uma cadeira e sentando-se à minha frente.
É incrível como nem mesmo virar a madrugada afeta o humor de . Seu sorriso é contagiante e ele está tão animado que eu poderia jurar que está a caminho de mais um evento em memória de Shakespeare. Não que ele goste de romance, na verdade, o que ele aprecia é a veia trágica de William.
Corro os olhos pela sua vestimenta tentando achar o motivo para o atraso. veste o de sempre: camisa xadrez, calça jeans e tênis, apesar de ser exageradamente vaidoso. Sigo, então, para seu rosto. Os olhos sempre brincalhões e um tanto quanto maliciosos; o sorriso cafajeste despontando em seus lábios; seus cabelos propositalmente bagunçados, que, com toda certeza, levaram um século para ficar do jeito que ele desejava. Um conjunto que, devo admitir, é estranhamente bonito.
- Admirando-me outra vez, ? – insinua e eu rolo os olhos teatralmente.
- Sabe que não. Estou apenas tentando aceitar o fato de que você passa mais tempo em frente ao espelho do que eu. – respondo prontamente.
- Nossa! – exclama e eu sorrio, me deliciando com a vitória.
- Esfolei seu ego?
- Imagina. Apenas me surpreende você saber o que é um espelho, já que certamente nunca teve acesso a um. – seu humor é ácido e eu tenho que controlar meu instinto de agredi-lo.
- Idiota. – limito-me a murmurar e beberico o meu café já morno. – A propósito, já finalizou o suporte teórico do nosso projeto?
- Sim. Também revisei a definição e fiz algumas alterações.
- Essa é minha parte, . – alerto-o incomodada. – Não deveria modificá-la sem a minha autorização.
- Se você a fizesse da maneira certa, eu não precisaria pedir para ajustá-la.
Encaro-o, chocada com a sua prepotência. Dois meses atrás, quando descobri que ele seria minha dupla no projeto, fiquei estupefata porque pensei que o trabalho recairia todo sobre mim. Agora que sei que sua expressão de indiferença nas aulas do curso de Economia não revela seu descaso, mas sim esconde seu brilhante potencial, estou possessa. Sinto meu rosto queimar de raiva e meus lábios se crispam. Então, pateticamente, ele ri.
- Estou brincando, . Divirto-me quando você fica à beira de um ataque de nervos. – ele esclarece ainda com o maldito sorriso no rosto.
- Você tem o melhor rendimento do curso. Seu ego está bem respaldado nas suas notas invejáveis. – finalmente revelo o que descobri na primeira semana de aula do semestre, assim que comecei a elaborar um dossiê sobre o meu parceiro.
- Gosto de tratar as pessoas de igual para igual. – ele diz, enquanto analisa o cardápio pouco variado da cafeteria.
- Está sendo bem sucedido? – arrisco-me a perguntar.
Tenho ciência de que meu relacionamento com não é dos mais cordiais. Não somos amigos, não conversamos sobre amenidades e só nos encontramos em locais públicos quando queremos discutir algum detalhe do trabalho. Tudo que sei sobre ele é resultado das minhas pesquisas virtuais, arquivos da universidade e conversas triviais com amigos em comum que às vezes deixam escapar alguma informação. Não que eu o persiga, apenas gosto de ter a sensação de que sei com quem estou lidando. Não que esse seja o caso também.
É ridículo admitir, mas Palance é praticamente um desconhecido.
- É difícil quando o indivíduo em questão não é muito diferente de uma pedra. – ele debocha e eu rio a contragosto.
- Patético. – digo, e tento focalizar a conversa mais uma vez em nosso trabalho. – Entrei em contato com a secretária daquela empresa que reverte parte de seus lucros em projetos sociais. Pedi, educadamente, que ela tentasse conseguir uma hora com a diretora da empresa para que nós pudéssemos entrevistá-la para o nosso trabalho de conclusão de disciplina. – ajeita a postura na cadeira enquanto eu me preparo para dar a péssima notícia. – Ela disse que é impossível. Segundo ela, Heather Sinfield é incrivelmente ocupada e jamais teria tempo para alunos do 6° período de economia da Universidade de Chicago. Ela também deve ignorar o fato de que esta é uma das mais respeitadas faculdades do país e um dos principais centros de estudos econômicos do mundo, mas tudo bem. – dou de ombros sendo corroída pelo meu próprio sarcasmo.
Bufo, nervosa, e põem suas mãos sobre as minhas de forma condescendente.
- Vou conseguir isso. – ele pisca maroto.
- Vantagem de se ter um pai rico que é dono da metade da cidade suponho. Aliás, poderíamos falar com ele e o inserirmos em nosso trabalho. Ele faz várias obras de caridade também. – recordo-o e faz uma careta de reprovação.
- Ridícula. – ele aponta e se afasta, levantando-se em seguida. De início, penso que ele está realmente zangado e que está me abandonando, mas depois de ficar de pé por algum tempo, ele me chama impaciente. – Venha logo, . Vou te mostrar o que sou capaz de conseguir sozinho.
Ao acompanhá-lo, tenho a plena noção de que aquilo é um desafio.

***


Estou perplexa.
E completamente furiosa.
Saio caminhando pela calçada movimentada, me desviando das pessoas que carregam seus enormes guarda-chuvas enquanto eu sou atingida por uma enxurrada de pingos grossos e gelados. De qualquer forma, não é isso o que me incomoda, mas sim o fato de Palance ter conseguido em 15 minutos o que eu não consegui em 30 dias.
Ouço gritar meu nome diversas vezes e, a contragosto, viro-me na direção do seu chamado. Após procurar por ele durante algum tempo, observo que se encontra seco, resguardado na entrada da empresa que acabamos de visitar. Reviro os olhos quando ele me chama com um gesto manual e, pateticamente, me vejo seguindo-o como um cachorro.
- Você é algum tipo de suicida? O céu está desmoronando e você, seguindo uma linha de raciocínio brilhante, quer se aventurar a chegar a sua casa embaixo de uma chuva dessas. Vai acabar adquirindo uma pneumonia e morrendo. Daí terei que fazer todo o trabalho sozinho. – ele cospe as palavras em minha direção, tentando mascarar sua preocupação, e eu o ignoro, vendo a água escorrer vagarosamente pelo meu corpo.
- Olha, eu não quero discutir com você, mas...
- Não há discussão. Vamos esperar a chuva cessar antes de voltarmos para casa.
Revolto-me com o fato de ele se achar no direito de dar as ordens, desconsiderando a minha opinião. De súbito, levanto-me na ponta dos pés e mordo sua bochecha. Ele geme e coloca a palma no lado esquerdo da face, tentando através de uma massagem aliviar a dor.
- Está maluca? Por que fez isso? – ele está chocado com minha ação inesperada.
Passo a língua pelos lábios como se os tivesse saboreando e, após uma análise cuidadosa, revelo os fatos:
- Tenho certeza de que não é feito de açúcar.

***


- Você me seguiu? – pergunto impressionada, com uma toalha na cabeça, ao dar de cara com parado na soleira da porta do meu modesto apartamento.
- Você mordeu minha bochecha sem razão admissível, não acho que te devo alguma explicação.
Então, sem ser convidado, ele adentra o cômodo deixando um rastro de água por onde passa.
- Imbecil, você está molhando minha casa. – alerto-o.
- Isso não é exatamente uma casa, não é mesmo? – ele ironiza após uma análise criteriosa do espaço. – É brincadeira, . – conclui, antes que eu me emburre. –Arranje-me uma toalha.
- Não sei se notou, mas não gosto de receber ordens. – cruzo os braços em frente ao peito.
- Foi um pedido.
- Não ouvi você dizer “por favor”. – arqueio a sobrancelha, tentando intimidá-lo.
- Está implícito, querida. – ele zomba e eu desisto de guerrear com o babaca.
Após trazer a toalha para e secar o chão molhado, vou até a cozinha preparar um café para tomarmos. Enquanto a água ferve, me direciono até meu quarto e noto assustada ao passar pela sala que está apenas de cueca.
- O que significa isso? Que indecência é essa? – questiono exasperada.
- Bom, você não esperava que eu continuasse dentro de roupas encharcadas, não é mesmo? Não há lógica alguma nisso. – ele responde como se fosse óbvio – Você também deve fazer o mesmo se tem algum apreço pela sua saúde.
- Não vou ficar nua.
- Ainda não estou pedindo para que fique.
Escancaro minha boca. Isso é um atentado ao pudor e eu, definitivamente, sou o pudor.
- Você está me desrespeitando, Palance. – aviso e ele parece achar isso genuinamente engraçado porque se dobra de tanto rir. – O que é tão engraçado, seu tarado?
- Você leva a vida tão a sério que não é capaz de distinguir nem piadas de assédio. Por favor, , não estou interessado em você sexualmente e muito menos romanticamente. Então, fique tranquila quanto a isto. – ele pisca e por algum motivo me sinto ofendida. - Se você tiver alguma roupa larga talvez eu possa vestir para amenizar seu constrangimento.
- Não será necessário, Palance. Afinal, não estou interessada em você sexualmente e muito menos romanticamente.
Após copiar suas palavras, ponho-me a tirar as roupas.
Não sei se ficou desconcertado com a minha atitude, não sei se demonstrou algum sinal de bel-prazer enquanto me despia, pois evitei encará-lo durante o profano espetáculo.
- Consegui te convencer de que tenho a capacidade de resolver as coisas por mim mesmo? – pergunta relaxado, apoiando os braços atrás da cabeça. – Posso ser bastante persuasivo quando quero.
- Há uma linha vigorosa entre persuasão e perversão, meu caro. – saliento e vou em direção à cozinha buscar café e biscoitos.
- Está me acusando de seduzir aquela secretária? – ele pergunta pasmo, me seguindo.
- Por favor, você desperdiçou uma quantidade espantosa de energia e charme para tentar convencê-la de marcar uma hora com Sinfield. – rebato atrevida – Contra fatos não há argumentos.
- Os fins justificam os meios. - ele revela e me ajuda a levar as coisas para a sala. Vira a cabeça para trás durante o percurso e completa ao me encarar malicioso - Gosto mais desse.
O sofá pequeno nos deixa a uma distância indecente e, só com roupas intimas, tenho que me esforçar para ocultar a vergonha que estou sentindo. Contudo, não posso o deixar vencer esse jogo de quem menos se importa e por isso me equilibro habilmente na ponta do sofá, na esperança que esse maldito perfume que ele usa não me induza a fazer uma loucura.
- No que está pensando, ?
- Nas perguntas que iremos fazer para Heather. Elas precisam ser boas para mostrá-la de que seu tempo não foi desperdiçado com universitários tolos. – minto e assente em concordância.
- Iremos os dois?
- É melhor ir apenas você, por via das dúvidas. – ele vinca a testa, sem entender a razão e eu esclareço sarcástica – Porque você sabe, caso as perguntas não a impressionem é só você tirar a roupa e fazer seu show.
- Está me chamando de prostituto? – ele se finge de ofendido.
- Se a carapuça serviu. – pisco maldosa e ele não consegue conter uma risada acalorada.
Um silêncio se instala no cômodo assim que as risadas cessam e, novamente constrangida pela falta de roupas, saio em busca de um cobertor dando o frio como desculpa. Quando retorno para a sala, encontro observando meio abobalhado algumas fotos que estavam presas em um mural.
- Você parece feliz. – ele diz entusiasmado.
- Pois é. - concordo me juntando a ele para observar as imagens.
- Essa é a sua irmã? – ele pergunta ao apontar para a imagem de uma garota com um olhar mal-intencionado e com uma torta na mão. Ela é incrivelmente parecida comigo a não ser pela cor do cabelo que é oposta a do meu.
- Sim, mas agora Estella está grávida, então, sabe, parece uma baleia que engoliu uma porca. – dou de ombros.
- Quanta delicadeza. – ele revira os olhos. – Vocês não são próximas?
- Ah, somos muito próximas. Tão próximas que ela me incumbiu de organizar todos os eventos de sua vida. Casamento, chá de panela, despedida de solteira e, agora, estou responsável por planejar o chá de bebê. Espero que ela dê meu nome à criança. – digo, zombando do excesso de responsabilidade em mim investido.
- É uma garotinha, então?
- Não se sabe ainda. Na última ultrassonografia o bebê estava com as pernas fechadas, tímido que nem o pai, então não deu para ver. Se ela não descobrir rápido, o enxoval vai ser todo amarelo. – faço uma careta e ri. É estranho, mas ele parece verdadeiramente interessado em descobrir coisas sobre a minha nada-interessante-vida.
- Falta muito para nascer?
- Bom, ela está com cinco meses, mas tem que tomar certos cuidados, pois foi diagnosticada com pré-eclâmpsia. – parece não entender, portanto, explico o que significa – Ocasiona a elevação da pressão arterial e a placenta é pouco vascularizada.
- É muito grave?
- Bom, se não for tratada essa condição pode trazer sérias complicações para a gestante e seu bebê, até mesmo fatais. – ele arregala os olhos e eu tento anuviar as informações tanto para ele quanto para mim. – Mas relaxa, ela está sendo muito bem acompanhada por uma equipe de médicos e se mudou recentemente para Naperville porque não dá para permanecer em Chicago já que esta é cidade mais estressante dos EUA. – no fim, tento convencer não só , mas a mim também.
segura as minhas mãos frias e oberva meus dedos longos e finos. Delineia o contorno da minha mão com seus dedos e há algo em seu toque que me acalma. Pensar na situação da minha irmã é complicado demais para mim, visto que ela é a única integrante viva da minha família. Digo, ainda tem a vovó Anne, mas ela vive em Melbourne e não tenho condições financeiras de viajar até à Austrália sempre que precisar de conselhos e de sermões. Ou simplesmente de abraços.
- Vai dar tudo certo. – sussurra em meu ouvido e passa os braços em volta do meu corpo em um abraço bizarro.
Estou sensível demais para dizer o quanto isso é indecente e obsceno, portanto, me aconchego ainda mais nele, tentando suprimir as sensações incomodas que me invadem. Não sei exatamente quanto tempo ficamos ali, agarrados um ao outro compartilhando calor, mas foi tempo suficiente para eu adormecer em seus braços.
E quando eu abri meus olhos, já havia ido para muito longe. E ao estender minha mão tudo o que eu sentia era frio. No fim, não sei precisamente quanto tempo ele demorou a se retirar e muito menos se fui trazida para cama com dignidade e sem abusos. Apenas sinto cócegas na bochecha esquerda e mesmo sabendo que não há a marca de uma mordida ali, caso contrário eu teria despertado, sei que ele pressionou seus lábios demoradamente sobre meu rosto com a intenção de que, quando eu acordasse, recordasse da sensação esquisita que ele deixou em mim.

Capítulo 02


- Eu não acredito que você fez isso! – estou histérica – Você marcou um encontro entre eu e um amigo seu que desconheço?
Me seguro para não jogar os livros que estão em cima da mesa da biblioteca da universidade e recebo uma reprimenda da bibliotecária pelo volume da minha voz.
- Fez isso de propósito não foi? – ele me encara desentendido – Fez questão de me contar sua trama na biblioteca para que eu fosse impedida de reclamar em alto e bom som da sua ação patética. – cuspo as palavras com um ódio tremendo de que agora esboça um sorriso travesso.
- Talvez. – ele murmura – Ele gosta de você, sabe. Observa você caminhando pelos corredores da universidade e até já fuxicou seus arquivos na secretaria desta instituição. Pode parecer coisa de psicopata, mas ele é um cara maneiro. É doentio, eu sei, mas ele é legal de verdade.
- Ainda não creio que veio conferir se seu amigo tem chances de se dar bem. – minha descrença se apropria de minha expressão.
- Sou um amigo excelente o que posso fazer? – ele levanta as mãos como se não houvesse saída, simulando que sua bondade e gentileza é algo inerente a ele.
- Tudo bem. – aceito e ele parece surpreso. – Vou a esse encontro.
- Sério? – ele questiona cético.
- Você disse que ele faz engenharia molecular nesta universidade e, você bem sabe, os tempos estão difíceis, sendo assim, temos que nos agarrar a quem mais tem. – faço um gesto com as mãos simulando dinheiro e, apesar de minha voz estar incrivelmente carregada de ironia, fica atônito.
- Está dizendo que as pessoas se aproximam de mim por conta da grana que meu pai tem no banco? – ele questiona e eu não estou pronta para responder, pois não esperava que ele levasse a brincadeira por esse lado.
- Não quis dizer isso. – informo, mas ele arqueia a sobrancelha evidenciando que discorda – Olha, você sabe que muitos se aproximam de você por causa do dinheiro, não sei por que está ofendido.
- Porque, apesar de ter noção de que sou um ticket de vantagens, não gosto que as pessoas sugiram isso. É como se estivessem me usando para conseguir algo e essa sensação é péssima. – ele afunda a cabeça nas mãos.
- Sei como é... – acaricio sua cabeça, tentando confortá-lo - Esses malditos nem pagam pela hora. Você realmente deve se sentir um lixo. – brinco e vejo um sorriso escapulir de seus lábios quando ele levanta a cabeça.
- Você vai mesmo? – ele pergunta sobre o encontro.
- Claro, vai ter comida lá.
- E jogo dos Chicago Bulls. – ele acrescenta e eu me controlo para não me jogar em seus braços.
- Disse a ele que gostava de basquete? – ele assente – Como eu posso resistir a você?
E, enquanto rimos pateticamente de tudo e de nada ao mesmo tempo, eu percebo que a linha tênue que antes nos unia está cada vez mais vigorosa. De alguma forma não explicitada, sei que posso contar com ele para qualquer coisa. Faça chuva ou faça sol, sei que ele estará lá, embaixo de um toldo gritando pelo meu nome e tentando me resgatar de uma pneumonia dando uma desculpa para camuflar a sua preocupação exagerada. Porque é isso o que amigos fazem.

***


- Não seja um idiota. – é a primeira orientação que dou a assim que ele estaciona seu carro em frente à casa de minha irmã.
Descemos do automóvel preto e nos dirigirmos até a porta da casa. Mesmo sendo a quinta cidade mais populosa do estado de Illinois, a paisagem de Naperville destoa consideravelmente do amontoado de prédios e construções de Chicago e sei que posso respirar sem medo de contrair alguma doença transmitida pelo ar.
Toco a campainha e minutos depois Estella aparece para nos receber com seu enorme barrigão. Seu sorriso é esfuziante e ela parece ser a pessoa mais feliz do mundo. Até que abre a boca e solta admirado a frase:
- Uau! Parece que você engoliu uma bola de basquete!
A expressão feliz de minha irmã se converte em uma carranca e ela ameaça fechar a porta em nossa cara, mas eu a impeço.
- Foi mal é que, eu já vi mulheres grávidas e tudo, mas o que está acontecendo com você é ridículo. – sua admiração é hilária e estou me controlando para não rir.
Estella pisca três vezes, incapaz de acreditar que tenha dito algo tão imbecil.
- É... Estella, esse é . Ele é um babaca, eu sei, mas trouxemos presentes. – ergo as sacolas em minha mão, mas isso não parece animá-la.
- Não acredito que cogitei dar o seu nome ao meu filho. – ela murmura descrente e abre espaço para entrarmos na casa – Espero que tenha trago um sapato Jimmy Choo para mim , porque, apesar de não poder calçá-los por conta dos meus pés inchados, é a única coisa que livrará sua barra comigo.
Então, minha irmã se encaminha em direção à cozinha enquanto eu paro e o repreendo.
- Qual a parte de não seja um idiota você não captou? – questiono embravecida. – Agora tenho uma dívida de quase mil dólares com minha irmã!
- Não me culpe! Você disse que ela estava parecida com uma baleia que tinha engolido uma porca, não com uma porca que tinha engolido uma baleia! Não consegui controlar meu choque.
- Deu para notar. – rolo os olhos e bufo – Olha, é melhor você tentar corrigir isso porque não quero minha irmã falando o quanto você é um idiota e má companhia. Não é como se eu já não soubesse disso. – digo e ele cerra os olhos, irritado. – Isso é algo que você também é capaz de fazer sozinho?
E o desafio está lançado.

***


Solto um suspiro desolado. Meus músculos se contraem e tudo o que eu mais quero é uma cama para dormir, entretanto, sem energia elétrica, esse se torna um feito impraticável já que, convenientemente, é uma das noites mais quentes de Chicago.
E, não bastasse isso, eu tenho a certeza absoluta de que o universo conspira contra mim. Irritantemente, está mexendo no meu cabelo, desprendendo-o do coque e desarranjando-o. Ele resmunga sobre o fato de não conseguirmos terminar o projeto e me lembra do quanto a companhia de Estella seria muito mais interessante.
Depois da terrível primeira impressão, minha irmã, mesmo com um pé atrás, concordou que ele era um cara razoavelmente legal e que eu estava habilitada a andar com ele. Bom, eu também mudaria meu julgamento depois de ser paparicada durante todo o chá de bebê por que, além de conquistar três quartos das mulheres presentes no evento, havia comprado um carrinho de bebê ultramoderno. Contudo, ele ainda estava sendo alvo de uma investigação mais apurada.
- Quer parar?! – esbravejo quando Palance começa a enrolar meu cabelo em seus dedos na intenção de fazer cachos.
- Chata. – ele murmura e agressivamente desprende meu cabelo de sua mão.
- Irritante. – tento ordená-lo novamente, mas não é uma tarefa exatamente fácil.
- Metódica. – ele reclama e se empertiga despreocupadamente sobre a escada de madeira de três degraus na entrada de sua casa.
-Pragmática. – corrijo-o e me concentro nas poucas velas bruxuleantes que clareiam o local com a ajuda das estrelas que brilham majestosamente.
Obviamente, neste momento ele preferiria estar em qualquer outro lugar a estar em minha companhia e a recíproca é verdadeira.
- Estou indiscutivelmente entediado.
- Você é uma pessoa entediante. – novamente o corrijo.
- E você é hilariante. – ele sorri dissimuladamente – Não, espera, acho que devemos dar fim a esse jogo de calúnias. – ele emenda rapidamente.
- Tem algo melhor em mente? – questiono, aborrecida.
- Que tal aquele dos dedinhos? – ele sugere e faz um movimento tosco com o polegar.
Sim, eu sei do que ele está falando.
- Tudo bem. – concordo, pois não creio que existam opções mais satisfatórias.
Então nos posicionamos um de frente para o outro. As mãos de agilmente seguram as minhas.
- Nossa, que mãos de pedreiro você tem!
A delicadeza de Palance me faz revirar os olhos teatralmente, sua sinceridade é algo que definitivamente deve ser reprogramada de forma a levar em consideração sentimentos e emoções. As pontas de seus dedos acompanham os contornos da minha palma calejada e ele parece curiosamente admirado. Passo, de repente, a notar com mais clareza a suavidade de seu toque. Ele tem mãos macias.
- Você tem mãos de moça, mas nem por isso te julgo. – revido e ele me encara indignado.
- São mãos hidratadas, não de moça. – ele tenta argumentar.
- São mãos de quem nunca lavou um prato na vida.
- Que seja. – e, estranhamente, ele não tenta discutir.
Sendo assim, o jogo começa e rapidamente Palance imobiliza meu polegar-lutador.
- Qual a sua cor favorita?
Surpreendo-me com a pergunta. Analiso sua expressão que inexplicavelmente não demonstra sinal algum de deboche, mas sim um genuíno interesse em descobrir a resposta. Apesar de tudo, não estou convencida.
- Então é assim que isso vai funcionar? Um jogo de perguntas estúpidas? – a minha descrença finalmente é verbalizada.
- Muitas mulheres ficariam lisonjeadas com a minha manifestação de interesse até nas coisas mais supérfluas.
- Acho que já deveria ter registrado que eu não sou como a maioria.
- Ah, sim, eu anotei no meu bloco de notas que a senhorita individualista não gosta de compartilhar informações pessoais. Sei mais sobre a sua irmã que conheço a três dias do que sobre você que conheço há três meses.
- Sua descrição me faz parecer egocêntrica. – eu reflito.
- Então eu atingi com sucesso a minha meta. – o sarcasmo transborda de sua boca.
- Finalmente compreendo como consegue companhia para levar para a cama. – racionalizo, espantada com a minha conclusão – Você deve agradecer bastante por possuir um rostinho bonito. Caso contrário, com seu papo maravilhoso, estaria em alarmante estado de miséria.
- Você está enganada. Não comprova que estou desesperado quando questiono por informações aparentemente tolas, mas sim que eu me importo.
- É mesmo? E o fato de você ser ridiculamente atraente não ajuda em nada? – interrogo e no instante seguinte percebo a minha imprudência com as palavras.
ri tão discreto como um elefante em uma bicicletinha, e eu percebo que inflei seu ego além da conta.
- É impressão minha ou o lance de eu ser incrivelmente bonito está afetando seu psicológico?
Tento rapidamente me livrar desta acusação buscando por argumentos plausíveis e eficientes.
- Por favor, você dormiu com metade de Chicago. – o incrimino e ele se apruma antes de se justificar.
- Isso é um exagero. Apenas um terço das mulheres da cidade passou por minha cama. O que é reflexo claro da minha experiência.
- Reflexo da sua carência incurável. – constato e ele morde o lábio inferior conferindo até que ponto eu estou certa.
- A sua sorte é que eu não destruo relacionamentos. – ele sibila e pisca de forma marota como se estivesse me fazendo um grande favor.
Engasgo, pois é constrangedor admitir que foi o meu cupido. Ao conhecer William, o amigo com quem me arranjou um encontro, e ter certeza de que ele não era nenhum maníaco, resolvi me abrir e aceitar suas investidas. Ele é um cara bonito, porte atlético, 23 anos e vocabulário extenso. Conquistou-me com facilidade e é ridículo o fato de que deve receber metade do crédito por sempre fornecer informações a meu respeito a Will.
- A minha sorte é que seu caráter dilui substancialmente a sua beleza. – retifico e ele põe a mão sobre o peito de forma afetada. Suprimo um riso.
- É melhor você parar antes que eu me apaixone, .
- Azul.
A palavra salta de minha boca velozmente.

Capítulo 03


Eu havia desistido. Desistido de entender o que se passa com Palance. Entretanto, há algo sublime no esquecimento. A preocupação se esvai e tudo o que vem a seguir se torna inesperado. Por isso, estou pasmada por estar deitado ao meu lado em cima de um lençol maltrapilho e admirando o céu nesta amena noite.
Apesar de a cena parecer quimérica por si só, o que torna tudo mais absurdo é o fato de Palance estar me instigando a fazer um pedido a uma estrela cadente que risca o plano azul com incrível celeridade.
Então eu fecho os meus olhos, motivada a fazer o que ele me pede. Estimulo meu sistema sensorial, tentando com sua ajuda pensar em algo realmente bom para desejar. Eu poderia pedir que o nosso projeto fosse um sucesso, mas não quero contar com a sorte provinda dos astros para que isso se concretize. Poderia desejar que a fome fosse erradicada, mas também poderia almejar políticos que não fossem corruptos e o desejo anterior poderia ser materializado.
E estou quase certa do que pedir quando sinto o calor do corpo de junto ao meu. Ele está buscando uma posição mais confortável ao que parece e por isso seu braço roça delicadamente no meu, mais uma brisa do que um toque. Então eu sei exatamente o que pedir. Não parece muito justo quando comparado a todos os problemas globais, mas esse é realmente um bom desejo.
- O que você pediu? – pergunta e vira seu rosto para mim.
- Não posso falar, caso contrário, não vai se realizar. – respondo gentilmente e o encaro com um sorriso brando nos lábios.
Sua testa vinca e percebo que ele está curiosamente confuso.
- Deve ser por isso que meus pedidos anteriores foram ignorados. – ele analisa e eu tento rir discretamente, mas não sou exatamente boa nisso. – Bem, não gosto de segredos, por isso já vou avisando que pedi uma Lamborghini de presente de Natal.
- Que pedido mais egoísta!
- Hey! Que acusação mais desmedida. Obviamente, se você for uma pessoa legal, eu posso te oferecer uma carona.
- Ah, muito obrigada pela consideração. Isso com certeza te coloca na lista dos indicados ao Prêmio Nobel da Paz.
- Ah, qual é! Até parece que fez algum pedido altruísta.
E é difícil admitir, mas ele está certo.
- Não, mas o meu pedido não diz respeito unicamente a mim. – tento me justificar.
- E qual foi o seu pedido?
- Eu desejei saber qual é o seu problema, Palance.
- Fuxiqueira. – ele simula uma tosse e eu tento não rir, o encarando seriamente.
De repente, sua expressão muda drasticamente. O que antes era um sorriso cínico se transforma em uma careta que reproduz o seu desconforto. Ele aperta os lábios na tentativa de reprimir suas palavras. Seus olhos mais intensos do que nunca me olham firmemente, mas por um momento breve demais para significar algo. Ele suspira penosamente e volta seu olhar para as constelações com um interesse renovado em identificá-las.
- Você.
Ele diz tão repentinamente que fico confusa e a pergunta que se segue é automática.
- O que?
- Você é o meu maior problema. – e eu careceria de ficar irritada, mas ele completa a frase antes que eu possa demonstrar meu descontentamento. – E, por incrível que pareça, o único do qual eu não tenho pretensão de me livrar.
Tento esconder um sorriso, mas é completamente impossível esconder algo de Palance.

***


Eu estou completamente bêbada, logo, inacreditavelmente insana. me auxilia a andar com dificuldade, já que eu insisto em ser capaz de me locomover o que, obviamente, é uma mentira, pois eu no máximo me arrasto.
- Eu não quero perder minha dignidade. – murmuro e sorrio por não soar incoerente.
Palance comprime uma risada e por isso o barulho que se segue é como um coçar de garganta.
- Você já a perdeu faz tempo.
Finalmente, alcançamos a porta do meu apartamento. Com alguma dificuldade eu consigo encontrar a chave em minha bolsa, mas estou falhando no que diz respeito a abrir a porta. Vendo meu estado de pura decadência, se apieda de mim e toma o molho em suas mãos, encontrando a chave certa e a inserindo na fechadura. Com um estalo, percebo que a porta está aberta e me atiro para dentro do cômodo.
Imediatamente me vejo correndo, às cegas na sala escura, em busca de um sofá, poltrona ou qualquer coisa que seja confortável o suficiente para eu repousar sobre. Entretanto, antes de ter a chance de realizar meu desejo, tropeço em uma das pontas emboladas do enorme tapete felpudo e caio no chão com um baque surdo. O impacto reverbera por todos os meus ossos e ilogicamente me sinto entorpecida.
Ele havia me feito cometer o meu maior erro. Pela primeira vez, fui derrotada por uma bebedeira desenfreada depois que descobri que William não era um cara tão legal assim. Pelo menos não depois de traçar minha querida companheira de classe, Susan.
Começo, então, a murmurar coisas incompreensíveis e se abaixa para me acudir. Vejo o sangue em sua camisa branca e percebo o quanto ele foi corajoso ao não ter medo de que o sangue do nariz de William manchasse sua camisa. De repente, eu percebo, de verdade e sem nenhuma vergonha em admitir, o quanto ele é atraente. Obviamente, é o álcool me fazendo apreciar até as coisas mais repugnantes. Contudo, quando ele fixa seus olhos em mim não posso evitar o sentimento imoral que toma conta do meu ser. Esses malditos olhos.
De súbito, me vejo partindo para cima de , derrubando-o no chão e sobrepondo-o. Ele está desnorteado com meu ataque psicopata, todavia, minimamente surpreso – como se ele houvesse imaginado que isso aconteceria. Apoio meus braços de forma estratégica, aprisionando-o debaixo de mim. Encaramo-nos, eu com a expressão de uma maníaca e ele com o semblante conturbado, como se estivesse escolhendo que expressão facial deveria usar para a ocasião. Cômica ou de espanto? Talvez desprezo? Não importa. Estou decidida: irei estuprar Palance.
Encaminho-me com ferocidade em direção a sua boca, mas ele desvia, virando o rosto para longe de mim.
- Você vai se viciar. – ele diz, e eu entendo isso como uma recomendação médica, ignorando completamente.
Então, eu novamente tento beijá-lo, mas sou interceptada. Ele arqueia o corpo e eu sou erguida, dando a ele espaço o suficiente para apoiar os cotovelos no chão e levantar as costas. O fito, e tenho certeza que por trás de tanta vulgaridade eu estou deixando transparecer meu constrangimento.
- E esse será um vício que você não vai poder manter. – ele finaliza a recomendação e eu murcho, sendo inflada por vergonha enquanto o vejo se levantar e se encaminhar para a porta.
Encolho-me no chão, tentando ao máximo parecer invisível.
- Eu tenho que ir. – ele informa após se recompor.
Por instinto, porque não há nenhuma outra explicação plausível, eu me alarmo.
- Não! – meu grito é o suficiente para impedi-lo de avançar mais qualquer centímetro em direção à porta. –Por favor, fica. – humilhantemente me vejo implorando. Este deve ser o melhor dia da vida de Palance.
Ele suspira penosamente, tentando organizar as ideias antes de tomar qualquer decisão precipitada. Engatinho de modo patético até seus pés e seguro sua perna para impossibilita-lo de partir. Apesar de ter ciência de que com um chute eu alcançarei a janela.
- Por quê?
E eu estou desprevenida, sem nenhuma justificativa meramente razoável.
- Não sei. – respondo com a voz mais comovente possível, tentando persuadi-lo.
- Não é uma razão muito forte. – ele observa sarcástico. E sei naquele momento que ele vai me abandonar.
Para minha surpresa, ele me recolhe do chão e me carrega até o sofá. Sentando em seguida ao meu lado. Tateia o estofado e encontra o controle remoto, ligando a TV e zapeando os canais.
- Mas o que...? – estou confusa e a frase sai pela metade.
- Tudo bem, eu fico. –sua resposta acaricia meus ouvidos e eu encosto-me a seu peito.
- Está com pena de mim, não é mesmo? – questiono, pois apesar de ter soado patética do início ao fim, não suporto a ideia de estar sendo alvo de piedade.
- Estou receoso de que faça alguma bobagem. – ele deixa no canal de esportes e parece entretido, mas eu não estou convencida da veracidade de suas palavras.
- E o que te leva a pensar isso? – me aprumo, distanciando-me de seu corpo e encarando-o em busca de respostas.
Ele se move em minha direção, o sorriso cafajeste e debochado despontando naturamente de seus lábios. Ele fixa seus olhos em mim, e eu posso ver que eles estão escarnecendo das minhas ações alucinadas ao longo da noite.
- Bem, você tentou me beijar.

Capítulo 04


Não sei o que está acontecendo comigo. Não sei por que estar perto de desperta sensações ridículas no meu estômago, como se borboletas estivessem alçando voo e recuperando o tempo perdido. Não sei de nada, mas ao mesmo tempo, sei de tudo. O engraçado é que eu sempre havia o deixado no brilho técnico, marginalizado, mas agora, em uma reviravolta mirabolante, eu nem posso mais cobrir minha mente disto: estou terrivelmente, inadmissivelmente e estupidamente apaixonada pelo meu melhor amigo.
Como não percebi os sintomas antes? Como me deixei enganar? Eu me fechei por tanto tempo, apenas fantasiando com as possibilidades que não o incluíam. E de repente comecei a ver a alteração na minha mente. Será que estou louca? Mas era evidente que isso iria acontecer. A garota mais estudiosa tem que se interessar justo pelo mané que anda pela rua se sentindo o cara, que sai para comprar pão e só retorna no dia seguinte, que te faz rir das maiores desgraças, que te consola nos momentos mais difíceis e que sabe que mesmo fazendo a maior burrada do mundo sempre poderá voltar para seus braços porque, apesar de você ser uma pessoa inteligente, está arrebatada demais para distinguir uma sacanagem de uma puta sacanagem.
As saudades dolorosas que se instalam no meu peito são incômodas e me contorço a fim de não sentir as pontadas que ela proporciona. Estou fora a uma semana recolhendo dados que possam ser relevantes para a conclusão de nosso trabalho sobre os impactos da economia na sociedade. Ao tentar mudar o foco dos meus pensamentos, direciono-os à minha irmã e em como ela deixou de ligar para dizer que estava tudo bem e isso me preocupa bastante.
Três dias atrás, recebi a notícia de que a pré-eclâmpsia havia se agravado um pouco e minha irmã teve que se adaptar ao repouso absoluto recomendado pelos médicos, tendo que ficar deitada sobre o lado esquerdo do corpo o tempo todo ou a maior parte do tempo. Apesar de odiar toda essa situação, já que sempre possuiu uma energia invejável, Estella aceitou resignada, pois sabe que é o melhor para ela e o seu bebê. Melhor do que a hospitalização pelo menos.
Mas agora, sem receber notícias de seu estado, sou corroída pelas conjecturas desencadeadas pelo meu cérebro que promovem constantemente um final trágico, uma razão nefasta para a comunicação ter cessado. Expiro, organizando minha bagagem e tentando me concentrar em outras coisas. Vou voltar. Logo estarei em Naperville e poderei conferir seu estado de perto, analisar como vai a gestação e ajustar todos os preparativos para receber animadamente daqui a trinta dias o pequeno .
Um sorriso surge em meus lábios. É ridículo como minha irmã mudou uma letra do nome, pois se recusava a deixar seu filho ser xará de . Apesar de aceitá-lo muito melhor agora, ela ainda não acredita que ele seja totalmente confiável e teme pela minha vida. Puro drama de irmã mais velha demasiadamente protetora.
Enquanto estou mais tranquila e até rindo de algumas lembranças engraçadas, escuto meu celular tocar. Atendo-o, com o sorriso no rosto, e conforme Andrew, o marido de minha irmã, vai falando, ele vai se dissipando. Tenho dificuldade em permanecer de pé e lágrimas estão deslizando descontroladamente por minha face enquanto fecho a bolsa de qualquer jeito e deixo o hotel. Eu nunca deveria ter saído de Naperville.

***


- Como ela está? – pergunto desesperada, após percorrer um milhão de corredores, um labirinto que nunca termina.
- Ela está estável, , assim como o bebê. – Andrew esclarece com um sorriso no rosto. Aperta meus braços e me sacode, está muito contente. – Era para você ter me deixado terminar de falar antes de desligar o telefone na minha cara e vir correndo para o hospital.
- Não consegui esperar, perdoe-me. – digo encabulada por ter pensado o pior - Posso vê-la?
- Claro, ela está meio grogue por conta da morfina, mas acho que pode te compreender bem o suficiente. – sorrio, agradecida – Ah, ela está dormindo, então, seja gentil ao acordá-la.
Meneio a cabeça positivamente e entro no quarto branco e asséptico. Há apenas um solitário balão azul ao lado de sua cama, comprado às pressas, onde se lê: É um menino!
Aproximo-me cuidadosamente da cama e acaricio os cabelos macios de minha irmã. Ela dorme serena e tenho pena de acordá-la. Estella passou por tanta coisa que soa ridículo ela não ganhar algum prêmio ou medalha. É uma verdadeira heroína. E, agora, mãe. Resolvo deixá-la descansando, haverá sempre outras oportunidades. Contudo, quando estou prestes a sair, ela segura fracamente meu pulso.
- Pensou que iria se livrar de mim, foi? – questiona, lenta e preguiçosamente – Ainda vai me aturar bastante. – ela boceja e um sorriso se expande em meu rosto – Já viu o quanto ele é lindo? Tem o nariz da vovó Anne.
- Ainda não, passei para visitar a mãe dele antes. Você me deu um susto enorme. – advirto-a, mesmo sabendo que ela não tem culpa de seu estado.
- Eu sei, mas agora está tudo bem. Graças a...
- Deus. – completo, por instinto.
- A Ele também, mas eu ia agradecer ao . Foi para ele que eu liguei quando vi que algo estava errado.
Estou perplexa e por conta disso minha irmã se apressa em explicar mais detalhadamente o que aconteceu.
- Andrew foi até Chicago porque eu senti desejo de comer a comida do Girl & the Goat, você sabe, aquele restaurante com a decoração simpática de celeiro. – ela revira os olhos - Sabia que ele não iria chegar a tempo e que ligar para ele seria catastrófico, então, liguei para o primeiro número que vi. Com várias de minhas amigas pedindo o número do , eu simplesmente anotei em um post-it e deixei colado na geladeira para não ter o trabalho de procurar na agenda. Ele nunca seria a primeira pessoa para quem eu ligaria, mas você não estava na cidade, Andrew não daria conta e eu estava desesperada, então, liguei.
- Mas ele mora em Chicago também, sendo assim, como chegou a tempo? – pergunto e Estella faz uma expressão confusa, mas ela rapidamente se recorda e me conta.
- Bom, por algum motivo ele estava em Lisle, que só fica a sete quilômetros de Naperville. Chegou em dez minutos a minha casa – ela revela e acrescenta em seguida – e recebeu algumas multas por isso. Daí me trouxe até o hospital e eu fui atendida rapidamente. Ele ligou para Andrew a meu pedido e ficou esperando. – ela diz.
- Quanta sorte. Que bom que ele estava por perto.
- Ele é uma boa pessoa, agora tenho certeza disso. Testa sua paciência algumas vezes, mas é incrivelmente centrado e habilidoso. Fiquei surpresa dele não ter entrado em pânico quando me viu sangrando. Ele manteve a calma e salvou a minha vida e a do . Sou extremamente grata a esse rapaz. – ela avisa e aperta gentilmente minha mão. – Pode casar com ele agora. Já tem o meu aval. – ela pisca marota e eu enrubesço.
- Nem brinque com isso.
- Ah, vamos, , só você para não sacar o quanto gosta romanticamente dele. E nem falo sexualmente porque, sejamos honestas, é um orgasmo com pernas. Parece que foi atingida por uma cegueira. Por que não pode vê-lo? Prefere continuar presa no preto e branco ao invés de se arriscar. Então, faça o que deve ser feito, ok? Feche os olhos e se concentre porque é claro como o dia.
Então, resignada e confusa, eu vou abandonando lentamente o quarto. E quando estou a ponto de girar a maçaneta, ouço a voz de minha irmã.
- Ele ainda está esperando.

***


Ele está lá.
Sentado a uma das mesas da cafeteria do hospital, com o cabelo desgrenhado e curvado pelo cansaço. A cabeça está abaixada enquanto ele mexe distraído seu café. Olheiras se formam embaixo de seus belos olhos e mesmo estando fisicamente devastado pela lassidão, Palance está mais bonito do que nunca.
Direciono-me até ele, contornando as mesas e as pessoas que estão por ali, vagueando e conversando em sussurros. Sento-me a seu lado e ele está tão absorto que nem percebe.
- Obrigada. – digo e ele parece acordar do transe e sorri quando me vê.
- De nada, . – sua voz está rouca e isso multiplica seu efeito sobre mim.
- Há quanto tempo você não dorme? – pergunto quando ele boceja e pisca demoradamente, como se estivesse tirando um cochilo a cada fechar de olhos.
- Não faço ideia. – parece que é a primeira vez que ele pensa sobre o assunto e calcula rapidamente com o auxílio dos dedos. – Umas 48 horas, acho.
- , você precisa dormir. Precisa descansar um pouco.
- Eu estou bem.
- Querido, você está colocando sal no seu café. – alerto-o e ele percebe o saleiro em sua mão.
- Me leva para casa.
E, apesar de parecer uma ordem, eu sei que é um pedido.
O por favor está implícito.

Epílogo


Uma brisa úmida sopra em meu rosto e os calafrios me fazem abrir os olhos preguiçosamente. Minha visão está embaçada e demoro um pouco para distinguir os contornos da paisagem a minha volta. De repente, aquele aroma de terra molhada me desperta totalmente. Aprumo-me, retirando a manta de cima do meu corpo e respirando o perfume da chuva. Os pingos cortam o céu nublado e, apesar de não saber ao certo que horas são, sei que os convidados estão prestes a chegar. Entretenho-me com a dança das folhas na copa das árvores altas, majestosas; o sol parece estar brincando de pique esconde e por isso apenas uns riscos de seus raios luminosos estão surgindo dentre as nuvens fofas de algodão cinza. Minha vontade é de correr até o centro do espetáculo para poder participar, mas, ao olhar para o indivíduo que está há alguns metros de distância, sou obrigada a sufocar meus anseios.
Minha irmã me chama com um gesto e ela parece estar bem brava. a está deixando louca com tantas estripulias e hoje, em seu aniversário de quatro anos, parece estar mais agitado do que nunca. Saio de perto da janela, triste por não poder me deliciar com a visão da chuva, e vou ao seu encontro.
- O que deseja? – pergunto enquanto agarro meu sobrinho em um abraço de urso. Ele gargalha e tenta escapar.
- É sério que não está sentindo falta de ninguém por aqui? – ela questiona e eu a encaro desentendida. Observo o meu redor por uns instantes em busca de ninguém em especial.
- Não. Mas se está falando da vovó Anne, ela está na casa da vizinha. – aviso e tasco um beijo na bochecha rosada de , logo em seguida ele foge.
- Tenho pena de . Ou a noiva dele está cega ou possui um incrível grau de indiferença. – minha irmã diz e eu fico chocada que depois do grande feito de no dia do nascimento de ela passou a defendê-lo com unhas e dentes. Até mesmo quando ele está errado.
Vejo o anel com um brilhante singelo e sorrio involuntariamente. Minha mente vai para dezembro e eu me lembro da xícara de café com as palavras “Casa comigo?” gravadas no fundo. Ridiculamente encantador.
- Onde ele está? – indago e arqueio a sobrancelha constatando que realmente faz um bom tempo que não o vejo.
- o trancou no banheiro. Não era para ter deixado esse garoto escapar, ele está com a chave. – ela diz e no momento seguinte vai em direção a porta atender o chamado da campainha.

***


- A heroína chegou para resgatá-lo. – digo, enfiando a chave na fechadura e girando-a. O clique indica que a porta está aberta e eu a empurro. Entro no banheiro. – Levante-se. É hora de irmos.
está encarando o teto e me questiono se é porque está entediado com a solidão ou esperançoso com a possibilidade de o teto abrir um buraco milagrosamente para que ele fuja.
- Odeio quando me dá ordens. – ele murmura, sem desviar o olhar do teto. – É irritante. Faz-me parecer um fantoche.
- Não estou te manipulando. Se estivesse você já estaria em pé. – provoco desinteressada.
deixa uma espécie de grunhido escapar de sua garganta e me encara debochado. Levanta-se lentamente e caminha em minha direção, desafiador.
- Não sou uma vítima e isso não é um resgate. Que fique claro.
- Ok, senhor autossuficiente. Com toda certeza aquele seu olhar ia derreter as placas de gesso do teto mesmo. Vou ficar no aguardo.
Então, viro-me e me dirijo até a saída. me alcança e segura o meu braço.
- O que quer que eu faça?
- Quero que seja grato.
E, subitamente, me vejo enlaçada pelos braços de . Rostos próximos, olhares interligados e uma onda de um estímulo tentador percorrendo meu corpo. Os segundos que se passam são insinuantes e eu me questiono como ele pode ser agradavelmente implicante.
- O que está fazendo? – pergunto automaticamente.
Meus lábios tremem em expectativa. Ele deixa uma risada sacana escapar e se aproxima cada vez mais de mim. É ridículo como mesmo depois de tanto tempo seus toques continuam a provocar essa sensação esquisita em mim. Ele cola nossas testas e aqueles olhos maravilhosos já estão a me encarar como se eu fosse a única pessoa que existe, o centro do seu mundo. E antes que una nossos lábios, ele sussurra:
- Expressando gratidão.

FIM.



Nota da autora: 28/11/2014 Bem, antes de tudo “obrigada por ler” e “espero que tenha gostado” são as primeiras coisas que desejo expressar. Em segundo lugar, gostaria de ressaltar que nem acredito que estou de volta ao FFOBS depois de tanto tempo. Gostaria de agradecer também à minha amiga, Lima, por gastar seu precioso tempo analisando a minha escrita, fornecendo conselhos e dizendo se estava bom o suficiente. Então, se você acha que esta história ficou uma porcaria, culpe-a por ter me orientado errado. Haha. É isso aí. Beijos de luz e boa sorte com a próxima fanfic. ;)



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