Observei a última cápsula se afastar em silêncio, os propulsores aumentando sua intensidade deixando um rastro luminoso para trás, misturando-se rapidamente ao brilho das estrelas e nebulosas próximas. Permaneci quieto, absorvendo aos poucos o que seria o início de longas e difíceis semanas.
Após intermináveis minutos no corredor, ainda desnorteado, perdi de vista meu último contato humano.
Agora era oficial.
Eu era o único homem em Normandia, a última estação espacial humana ainda ativa.

Nada, não havia um movimento sequer além dos meus próprios, minhas passadas ressoavam solitárias formando um incomodo eco pelos corredores. O setor de convivência, antes cheio, agora parecia deprimente. No momento, não conseguia ver as mesas de jogos vazias, os tabuleiros de xadrez deixados para apenas um jogador, as prateleiras com alguns livros largados para acumular poeira... Tudo ainda estava fresco em minha memória, a festa de despedida realizada poucos dias atrás, os rostos alegres de meus amigos e colegas enquanto comemoravam a volta para a Terra.
Todos estavam lá, ou pelo menos quase todos. Ela, o motivo da minha permanência em Normandia, já havia voltado a nosso planeta natal, seis semanas antes, em uma viagem realizada apenas para uma pequena parcela da população.

- Por que está fazendo isto? Por que vai me deixar sozinha? – seus olhos amendoados me analisavam com tristeza e dúvida.
- Estou fazendo por você, querida. Esse emprego, essa oportunidade, é um pequeno sacrifício, pelo nosso bem.
- Pequeno? Seis meses... Vamos perder meio ano juntos. Não vou conseguir viver em um lugar estranho sabendo que você estará sozinho aqui.
- Não é estranho, é o nosso lar. – Segurei seu rosto delicado, olhando no fundo de seus olhos enquanto acariciava suas bochechas. – Não se preocupe, em um piscar de olhos estarei com você. Não poderia deixá-la aqui sabendo das possibilidades, de todos os benefícios que vão lhe dar na Terra.
Seu rosto perdeu o ar confuso à medida que aceitava nosso destino, um suspiro em desistência escapou por seus lábios rosados.
- Seis meses, não quero saber de um dia a mais, ou o Conselheiro Anderson que me desculpe, mas eu mesma o trago de volta.
- Seis meses. Eu prometo.


O suave sussurro das portas de minha cabine soavam incrivelmente tristes, como um uma bufada de ar lenta em um dia tumultuado. Não estava com ânimo para andar pela estação vazia, apenas para deitar por algumas horas antes dos testes rotineiros começarem. Havia exatas duas semanas desde que minhas responsabilidades com a manutenção do local tinham deixado de ser apenas treinamento.
Soltei meu corpo antecipadamente cansado na grande cama de casal, fechando os olhos para a luxuosa cabine que Anderson havia me dado acesso. Concentrei em minha respiração tentando desligar minha mente de qualquer problema externo. Minha vida agora se resumia ao bem da estação, pelo menos enquanto a preparava para a desativação.
Um sonho perturbador ocupou meu curto período de sono, acompanhado de um barulho abafado que se repetia a cada vinte segundos. Abri os olhos em desistência, não sabendo qual dos dois era pior enfrentar, um sonho ruim ou a realidade solitária.
Sentei na cama, calçando de volta minhas botas, desfocando minha visão enquanto os fechos automáticos se ajustavam ao formato do meu corpo. Tudo o que conseguia pensar era em como pude deixá-la ir.
- Aceite. Você sabe que era o melhor. – Repeti em alto e bom som, não havia ninguém ali para me escutar.
Meu F-TAS, Facility-Tech Assisted Sistem um aparelho de assistência instalado no pulso de todo trabalhador, vibrou em meu pulso, alertando atividade sonora na sala de comando, provavelmente Anderson trazendo informações dos tripulantes das últimas cápsulas.
Deixei minha cabine com pressa, sem conferir qualquer sinal em meu painel.

O dia seguiu cheio, me ocupando com testes e rondas de segurança de modo que Normandia fora meu único pensamento.
Terminava minha corrida pela estação quando parei próximo ao corredor do hangar auxiliar, o espaço enchendo minha visão pelas janelas, que horas mais cedo havia observado as cápsulas se distanciarem. A Terra estava lá com toda sua imponência, tão perto e ao mesmo tempo tão distante.
Perdi-me novamente nos mesmos pensamentos, permanecendo imóvel fitando o planeta em todo seu esplendor, o sol nascendo onde, antes das grandes guerras ficava Londres, hoje apenas um pedaço inutilizado de terra infértil.
Apesar de revelar as falhas causadas pela humanidade, o sol mostrava o quão bela a Terra conseguia ser mesmo após tanta destruição. A colonização seguia tranquila segundo as diversas vídeo-conferências de Dave, cidades já estavam sendo desenvolvidas e nos próximos meses já poderia ver as luzes durante a noite. Apenas desejava que tudo estivesse bem com ela.
O espetáculo me distraiu por mais alguns minutos, tirando das minhas costas o peso da responsabilidade ao mostrar o quanto a humanidade era pequena em relação ao universo. Voltei para minha cabine, trazendo reflexões e questionamentos na mente.

Pedras de Cancri podiam não ser os diamantes mais raros do espaço, mas eram os possuidores de maior brilho, refletiam como pequenas estrelas quando expostos a iluminação correta e davam os melhores anéis de noivado já produzidos. Girava a pequena joia em meus dedos, seu brilho refletia as luzes néon da cabine, jogando pontos furta-cor pelas paredes a minha volta.
Será que na Terra, ele faria tanto efeito quanto nos corredores iluminados artificialmente de Normandia? O Sol faria jus ao sacrifício de meses de salário? Um singelo anel de Cancri iria satisfazê-la?
- Mas é claro que vai. – Ouvi sua voz em minha mente, ressoando como pequenos sinos.
Um dia sozinho e já estava perdendo a cabeça.
Voltei o anel para sua caixa, secretamente guardada entre meus pertences antigos. Passei as mãos por meu rosto, nervoso, quase como se estivesse segundos de fazer o pedido e finalmente oficializar nosso relacionamento.
Minha mão buscou automaticamente o painel pessoal da cabine, ativando a única mensagem salva dos últimos dias.
Seu timbre doce invadiu o cômodo, segundos antes de sua imagem.
- Faz seis semanas que deixamos Normandia... Quarenta e dois dias que estou sozinha na Terra. Não houve um momento no qual não senti a sua falta. – Ela levou as mãos ao rosto, parecia cansada. – Tem sido difícil aqui, a adaptação é mais rápida do que pensamos, mas há muito que fazer. Lembra como imaginávamos uma casa como dos arquivos antigos, com vista para o mar e uma cerca branca? – sua voz falhou, trêmula não apenas pela estática. Ela disfarça com certa dificuldade, desviando o rosto por alguns segundos. - Por enquanto estamos vivendo em instalações nos campos, a grama verde até onde a vista alcança. Ah, como gostaria que você estivesse aqui para ver. Eu te amo, só quero que saiba disso.



Analisava meu reflexo no espelho, os pelos de minha barba começavam a crescer descontrolados, torcendo e apontando para lados diferentes. Ela sempre dizia o quanto gostava de barbas, mas eu nunca havia deixado a minha passar do ponto que lhe fazia cócegas em sua pele.
Respirei fundo antes de seguir para mais um dia de trabalho.



Dois meses sozinho, sessenta e um dias no silêncio de notícias, deixado com mensagens de funcionamento e alarmes de desgastantes testes. O trabalho tomava tempo de ambos os lados, mas a solidão vinha forte como uma bala de realidade aumentada.
Meus movimentos eram automáticos, quase robóticos, realizando cada teste com a perfeição de uma máquina.
Nada na cabine mudava, nunca, tudo ficava no mesmo lugar, deixado de lado como a caixa e o anel de Cancri.
Entrei no refeitório, aguardando a comida desidratada ficar pronta, desejando que melhorasse em algum tipo de milagre. Mesmo após cinquenta anos de sua invenção, ela ainda tinha gosto de ração.
Meu F-TAS vibrou como todo começo de noite, mensagens e dados sobre a Terra e o progresso da colonização. Mas, diferente de todas as noites, ele vibrou mais uma vez, repetindo a cada vinte segundos. O número de minha cabine pessoal piscava urgente em sua tela.
De repente, eu estava olhando novamente para aquele nascer do sol, sentindo a adrenalina correr por minhas veias enquanto corria pela estação. Só podia ser ela, tinha que ser ela.
No painel, a luz laranja indicava uma ligação ainda em espera. Pressionei com força, sem pensar em outra coisa além de seus olhos.
Mas não os vi de primeira, pois seu rosto estava abaixado, coberto por suas mãos e deformado pela estática. Seus ombros pareciam oscilar em um movimento rápido, sons baixos, confusos, invadiam o áudio como duas ligações misturadas.
Algo estava errado.
- Querida! – ela ergueu o olhar. Seu rosto, seus olhos...
- Não acredito. Dois meses! Quantas ligações, mensagens, todas as vezes que tentei falar com você. – Gritava enquanto lágrimas desciam por suas bochechas, ficando claras como o dia quando a estática diminuía – Qual o seu problema?
- Meu? Amor, não estou recebendo nada há tanto tempo. Vi as luzes na Terra surgirem, aumentarem, tomarem cada canto do planeta e nada! Cheguei a pensar o pior. Deus, quantas vezes me preocupei com você.
- E ao menos tentou me ligar? É isso que você diz que será o melhor para nós? Pois eu só me sinto cada vez mais distante de você... Não é um piscar de olhos. Não é mesmo.
- Eu vou voltar, meu amor, me dê alguns meses. É só o que te peço.
Ela riu, fria, ainda chorava.
- Já ouvi isso antes.
A vídeo conferência foi encerrada tão rápido quanto havia começado.



Três meses. Normandia se tornava minha parceira de jornada, conversando comigo através de seus sons. Suas dilatações noturnas cantavam melodias infelizes enquanto a insônia me torturava por longas horas. O dia passava como a estação em órbita, em seu lento ritmo, perdido em seus próprios problemas.

- Não sei como você está ai, sinceramente não sei. As tempestades aqui ainda interferem nos sinais, mal conseguimos falar uns com os outros. – Ela não olhava mais para os vídeos, sempre desviando como se não quisesse me ver.
Gravações, sempre mensagens prontas evitando respostas minhas. Eu sentia que a estava perdendo, a cada dia que passava parecíamos mais como estranhos, mantendo conversas que não faziam mais sentido.
- Fora isso, a Terra é incrível. Tenho certeza que você gostaria de ter feito diferente... – seu silêncio dura alguns segundos. – Eu gostaria.



Cinco meses. Sentia minha vida se perder como nos testes anti-grativacionais, a deriva de impulsos que nos levam para onde não queremos ir.
O estoque de bebidas diminuíra consideravelmente, minhas madrugadas se resumiam a pensamentos solitários, caminhadas sem rumo pelos corredores e noites em claro buscando aquele primeiro nascer do sol.
Com o tempo aprendi a hackear o sistema de áudio da estação, reproduzindo nossas primeiras conversas por todos os cantos desertos de Normandia. Os fantasmas de um passado remoto apreciavam as vozes irreconhecíveis que um dia declararam amor eterno, acima de todas as dificuldades que estariam por vir.
- Eu vou esperá-lo, não importa o quanto demore. Eu te amo.



Seis meses, os malditos cento e oitenta e três dias haviam se passado. Eles me levaram tudo, minha sanidade, meu desejo pela vida, minha humanidade... Mas, acima de tudo, eles a tiraram de mim. O sentido da minha existência, das minhas escolhas e principalmente do motivo de ter ficado em Normandia. A ironia era digna de dramas românticos antigos, como nos arquivos que ela gostava tanto de ler antes de dormir, recitando suas partes favoritas onde os heróis sempre se sacrificavam pelo amor.
Eu era digno de me tornar sua parte favorita? Como ela poderia enxergar a beleza, a nobreza em meus atos, quando nós quem sofríamos as consequências... A dor da distância?
Mas eu voltaria para ela, não importava como, o meu tempo havia chegado.
A cápsula que me levaria para a Terra não estava mais vazia a minha espera, estava cheia por um sentimento de ansiedade, medo e amor... Um amor sem limites ou fim.
Os propulsores levavam para o destino final tudo aquilo que precisava ser dito, a única coisa que precisava ser feita.
Observava daquele mesmo corredor, onde a incontáveis e torturantes dias tinha me despedido do meu último contato humano. Hoje, afastando-se com seu rastro luminoso, observava meu último ato, o fim de uma espera difícil. Guardada dentro da cápsula, a pequena caixa de Cancri ia para a Terra em meu último sacrifício por amor.

I know everything has changed
And I wish I was back home next to you


Mas eu não era o mesmo. Nós não éramos os mesmos.
Agora nós éramos estranhos conversando através de estática.




Fim.



Nota da autora: (23/11/2015) Sem nota.




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