Finalizada em: 28/09/2017

Capítulo Único

11 de maio de 2016, Manchester, Reino Unido:

Russo POV

Eu oficialmente odeio despertadores. Assim como odeio acordar cedo. Assim como odeio o mundo todo. Ok, nem é pra tanto assim, sou um amorzinho na maior parte do tempo (risos eternos), porém meu mau humor triplica quando não durmo direito.
Sabe, é nessa minha luta diária contra o sono que sinto orgulho de mim mesma. Com 22 anos nas costas tenho dois empregos temporários e dou conta da faculdade (alô, John Mayer e Ed Sheeran, olha o mulherão que vocês estão perdendo!). Pra ser bem sincera mesmo, dava conta até dois meses atrás, quando me vi quase expulsa do apartamento que eu dividia com a desgraçada da Emily. Aquela filha de uma mãe. ELA ROUBOU MINHA MÁQUINA DE LAVAR LOUÇA PRA COMPRAR BASEADO. Não tenho absolutamente NADA contra quem fuma umas ervas, até eu já experimentei certo dia. Mas você sabe quanto é uma máquina daquelas? Provavelmente um mês de trabalho duro. Poxa, Emily, eu até gostava de você. Mas você fodeu com a minha vida. Você sabe como é horrível lavar a louça com a água congelante da Inglaterra já que a torneira elétrica do apartamento está estragada? Provavelmente não, PORQUE VOCÊ NUNCA LAVOU UM PRATO. Mas mesmo assim, Emily, eu relevava. Você me roubou, mas eu só desejo o melhor para a sua vida. O que provavelmente não acontecerá vendo que semana passada eu vi você deitada na rua (bêbada e chapada demais para prestar atenção em qualquer outra coisa) ao lado de um mendigo tendo uma conversa agradável sobre a vida enquanto eu ia para a academia de dança.
Para melhorar, minha mãe perdeu o emprego que ajudava a pagar minha faculdade, e com isso, resolveu voltar para a Itália e morar com minha avó, e me recusei a ir pra lá, muito menos aceitar qualquer dinheiro que elas insistiram em me mandar. Depois de minha vida estar pra lá de bagunçada, meu melhor amigo Matt viu que eu estava em situação de emergência e saiu do outro lado da cidade para morar comigo. Mas, de qualquer forma, nem tendo cinco empregos eu conseguiria me virar sozinha. Então eu teria duas opções: trancar a faculdade por tempo indeterminado até economizar o dinheiro necessário para voltar, ou então me juntar à Emily e ao mendigo passando fome, frio e sem um teto para sobreviver. Pensando no quanto tenho amor à vida, optei pela segunda opção e agora estou aqui. Já dizia o ditado: “tô rindo pra não chorar”. Só não estou me derramando em lágrimas por que realmente não choro, mas se fosse ao contrário, eu estaria sim, e muito. Veja bem: é de sentir vontade de chorar pensar que não dou conta de pagar METADE da faculdade com meus DOIS empregos (sendo que tenho bolsa, e a faculdade paga a metade do meu curso). Não é à toa que felizmente estudo em uma das melhores faculdades da Inglaterra. Ou estudava. Mas dói muito usar o verbo no passado então vou deixar assim mesmo. Enquanto o dia em que dinheiro nasça em árvores não chegar, infelizmente serei obrigada a sair da minha cama quentinha e aconchegante todos os dias 07h00min em ponto para ir trabalhar e ter que atender pessoas irritantes que vão tomar seu café da manhã.
Com uma dor gritante no coração, mando o celular para a puta que pariu (brincadeira, não tenho dinheiro para comprar outro kkkkkk cada k é uma lágrima), e levanto. Já vou correndo fazer minha higiene matinal porque para variar estou atrasada. Eu odeio esse uniforme, só para constar. A primeira coisa que farei quando terminar o curso de Moda e for uma influência nesse meio, será desenhar um uniforme adequado e confortável para todas as garçonetes do universo. E Matt vai criar uma lei para torná-los obrigatórios. Ninguém merece ter que aturar olhares desconfortáveis de homens tarados e babões enquanto você está apenas fazendo o seu trabalho.
Depois de estar devidamente vestida, tomar café e pegar a chave do carro – o carro que divido com o Matt, que na verdade é dele – saio voando de casa, dando antes um breve oi para o porteiro, o senhor Hector.

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A manhã foi normal como sempre. Essa rotina monótona me dá nos nervos, e eu falo sério. Acho que já perdi uns cinco anos da minha preciosa vidinha estressando-me com clientes idiotas. Na boa, quer tomar café da manhã? Ótimo. Mais dinheiro no meu bolso, mas tome seu cafezinho sem encher a minha paciência. Eu não quero sair com você só porque se acha o dono do mundo por vestir um terno idiota que provavelmente custa mais que o aluguel do meu apartamento. Até meus coleguinhas do primário tinham mais conteúdo que esses caras de hoje em dia, por Deus! Aquele passeio descontraído com uma alguém bacana e divertido acompanhado de uma conversa casual e agradável? Você se pergunta: isso ainda existe? Infelizmente não, coleguinhas. Ainda estamos no século vinte e um onde mulheres são vistas como um objeto de puro prazer sexual para 70% dos homens. Enquanto um cara legal não aparece na minha vida como num filme clichê, estou disposta a aturar essas cantadas baratas e ridículas apenas porque parte do dinheiro desses homens contribui para o ganho do meu, ao contrário, já mandaria meu dedo do meio para todos eles, pois se tem uma coisa que eu não sou, essa coisa é ser obrigada.
Abro meu armário para trocar de roupa sentindo-me vitoriosa por mais uma manhã de trabalho concluída. E também pensando no que irei almoçar hoje. É dificílimo manter uma alimentação saudável quando se tem dois empregos e nenhum descanso. Geralmente meu almoço se resume em alguma bobiça como torradas, macarrão instantâneo ou qualquer outra porcaria que seja rápida e prática de se fazer. Vejamos, na minha situação atual, o que eu irei encontrar na geladeira? Provavelmente um pão mofado e um presunto verde. Porém, lembrando-me de como Deus é maravilhoso, hoje foi dia de pagamento. E dia de pagamento significa grana no meu bolso, o que significa também que hoje é dia de almoçar no meu restaurante preferido do mundo inteiro (não que eu conheça algum outro restaurante fora de Manchester e redondezas, mas para mim sempre será esse). Saio do trabalho completamente diferente de como eu costumo sair: dando pulinhos de felicidade como uma criança que acabara de ganhar um doce.
Entrei no meu lugar preferido do universo já sentindo o cheirinho familiar. O restaurante não estava tão movimentado como o habitual, o que achei estranho. Geralmente o pessoal da faculdade almoçava ali, então há àquela hora, o local estaria como um formigueiro. Sentei na primeira mesa que vi, com fome demais para ficar procurando lugares melhores. Uma curiosidade sobre mim: eu como muito, muito mesmo.

- Bom dia, senhorita – quem é esse príncipe encantado juvenil? Estou acostumada com um “BOM DIA, MINHA PIRANHA PREFERIDA”.
- Hm... Bom dia, você sabe onde está o Matt? – Matt, vulgo meu melhor amigo, trabalhava ali.
- Ah... O Mattew teve um compromisso de última uma hora e pediu folga hoje.
- Entendi. E você sabe quando ele volta? Digo, ele é meu amigo e não falou nada sobre um compromisso – indaguei curiosa.
- Eu não sinceramente não sei, senhorita.
- Hm, ok. Eu vou querer o especial de hoje acompanhado por uma coca – entreguei o cardápio de volta pra ele. – E, por favor, você poderia parar de chamar assim? Sinto-me meio velha – sorri.

Nesse momento o menino passou da cor branca para a roxa. Não sei por que meu pedido soou tão assustador para o garoto, mas ele era uma gracinha vermelhinho. Ele sorriu amarelo e coçou a nuca, claramente envergonhado.

- É... Tudo bem, já estarei de volta com o seu pedido, qualquer coisa, estou à disposição para atendê-la – e o menino de aparentemente 16/17 anos começou a se afastar.

O que está acontecendo com o mundo hoje? Primeiro, encontro um dos restaurantes mais movimentados da cidade praticamente vazio. Aí meu melhor amigo some e não fala pra onde foi e depois um adolescente me chama de senhorita? Ok, , respire fundo. Você pode lidar com coisas muito mais bizarras. Após meu momento de reflexão e uma olhadinha básica nas redes sociais, o que não demorou muito visto que a comida aqui é feita na velocidade da luz, vejo o menino vindo com a comida. Será que eu estou ouvindo aquelas batatinhas fritas gritando "ME COMA, POR FAVOR!"? Acho que sim. Fiquem tranquilas, amores, pois eu vou devorar vocês todinhas.
Erik, vulgo nome eu identifiquei pelo crachá, depositou o prato de comida com tanta delicadeza que pareceu que aquela seria a ultima coisa que ele faria na vida, e não pude deixar de dar uma risadinha com a cena. Ele era o típico adolescente que está no primeiro emprego, coisa fofa. Vendo que Erick estava afastando-se novamente, a pergunta que não queria calar surgiu do nada em minha mente, fazendo com que eu fosse talvez, um pouco escandalosa.

- Ei! – eu berrei (não literalmente, berrei mesmo), Erick virou-se, caminhando em minha direção novamente. Se eu estivesse louca, poderia jurar que ele rolou levemente os olhos.
- Pois não?
- Eu queria perguntar uma coisa, atrapalho?
- Claro que não, pode falar, moça.
- Cadê todo mundo?
- Ah sim... O maior astro do pop/rock da atualidade está na cidade, me parece que ele vai ficar aqui uns dias.
- Ué, mas o que isso tem a ver com a baixa clientela daqui?
- Você parece ser mais jovem do que aparenta – Erick encarou-me exatamente como aquele emoji pensativo, dando risada. Lancei um olhar assassino para ele, rindo logo após, entrando na brincadeira. – Eu aposto que metade das garotas dessa cidade estão na frente do hotel dele agora mesmo, isso explica o fato de que não tem ninguém aqui.
- “Parece ser mais jovem?” – faço aspas, indignada com sua confissão. – Querido, eu tenho 22 anos. Estou entrando para a puberdade agora, para sua informação.
- Hm... Ok. Então você sabe de quem se trata. Ele é simplesmente o maior causador dos choros, ataques e hormônios femininos à loucura de todos os tempos. Todas as meninas da minha escola são apaixonadas por ele, sendo que eu nem acho ele tããão bonito assim – ele bufou e deu de ombros, ajeitando o cabelo.
- Uau! E qual é o nome do garanhão da vez?
- Aquele tal de ... .

E foi bem aí que esse nome me acertou como uma tijolada na cara. Tudo fazia sentido agora, mas é claro que teria que ter um dedo desse ser humano nessa história toda. Sabe qual é o problema? O problema é que Matt é SUPER FÃ desse garoto. Eu juro que não tenho nada contra esse cara, mas realmente não aguento mais Matt cantarolando e ainda para piorar, performando as músicas dele. Até porque, eu não sou obrigada a nada. Estava claro agora porque o Matt havia pedido “folga” hoje. Ele foi ver o maldito sabe se lá onde diabos ele estava.

- Ah, sei quem é sim. Obrigada, Erick – eu disse sem muita animação. Erick deu um sorrisinho seguido de um aceno e foi continuar seu trabalho.

Terminei meu almoço pensando em que roubada Matt estava se metendo. Estava apreensiva e com medo de ele se meter em confusão, ou pior, acabar se machucando. Levantei da mesa e mandei uma mensagem rápida para meu melhor amigo, pedindo para ele ter cuidado, enquanto caminhava lentamente até o caixa para pagar a conta. Após dolorosamente depositar 20€ na mão da mulher mal encarada, sai rolando dali. Quer dizer, voando.
Após estacionar Matilde, nome carinhoso que eu e Matt escolhemos para a camionete velha, coloco meu vans vermelho (tenho a mania de dirigir descalça) e tiro a blusa que estava usando para colocar a do trabalho, que é branca com o logo da loja. Penso em trocar a legging por outra calça, já que tinha caído maionese mais cedo no restaurante, mas resolvi ignorar esse fato. Feito isso, tranco Matilde, pego minha mochila e caminho em direção à entrada, tentando arrumar meu cabelo – que pra esclarecer estava enorme ¬– e parecia um ninho de rato por conta do coque desajeitado que fiz no restaurante.
Ao entrar no shopping, automaticamente assunto-me com a quantidade de pessoas ali. Mas que diabos?! Por qual motivo e razão aquilo estaria tão lotado em plena quarta feira? Lembrando que o Garten Shopping era monstruoso de grande, um dos maiores da Inglaterra. Pego a escada rolante, observando o aglomero de gente a minha volta. Famílias, namorados, pessoas sozinhas mexendo em seus celulares, ninguém se importando com ninguém... Ali estava à vida, correndo como o garotinho que teve a brilhante ideia de subir a escada rolante tentando imitar o Flash, o que obviamente não deu certo, então ele se espatifou no chão e eu ri junto com algumas pessoas. Já outras nem olharam, ocupadas demais com suas próprias vidas.

- Olá, Lilly! – entro na loja e cumprimento Lilly, a caixa.
- E aí, ? Viu o movimento aí fora? Que loucura!
- Sim, não tem como não reparar. Prepare-se que hoje vai ser cliente pra todo lado! – dei uma risada, e Lilly faz o mesmo.
- ! – Lauren, a americana mais doida que conheço me cumprimentou do jeito sorridente de sempre.
- Hey! Qual é a boa de hoje? – perguntei, enquanto ia ao lado dela para a sala onde ficavam os funcionários nas horas livres, para deixar a mochila lá.
- Boa nada, menina! Jack está com tanta cara de cu que parece que comeu a irmã ao invés das prostitutas dele – ela sussurrou rindo.
- “Cara de cu?” Isso é alguma novidade?
- Eu sei! Mas hoje ele está impossível, ! Aquele babaca do caralho é tão lindo, pra que ser tão idiota? – concordei com a cabeça. – Você sabe que ele sempre dá em cima de você, eu vejo! Que tal dar aquela moral pra ele hoje? – ela deu uma risadinha.
- Você sabe que eu nunca faria isso, né?
- Eu sei sim! Aliás, quem de nós aqui em sã consciência daria algum tipo de moral pra ele, não é mesmo?

Juro que se eu ganhar na loteria algum dia organizarei um protesto para mandarmos ele para a puta que o pariu e todas nós vamos viver felizes para sempre assim como nos contos de fadas. Com muitos boys, bebidas e sexo, é claro! – ela gargalhou.

- Que Deus te ouça! – a abracei de lado enquanto estávamos voltando para a loja, e ela deu um tapa na minha bunda, tipo, do nada.
- Ai, doeu! – fiz careta de dor, esfregando a bunda.
- Às vezes no silêncio da noite eu fico me perguntando se você tem uma bunda ou se é a bunda tem você, amiga – ela apertou a mesma. – Meu senhor, isso é uma obra de arte que merece ser apreciada!
- Cala a boca, sua doida, pelo amor de Deus! – nós gargalhamos. – Eu não a acho tão grande assim...
- O QUÊ?! Você é quase a Nicki Minaj de bunda, ! A diferença é que a sua não é falsa!
- A bunda da Nicki Minaj, Lauren, sério?
- Tá. Não é igual a da Nicki Minaj, até por que a sua é de verdade! – a encarei com cara feia. – Ok, a dela é grande pra caralho! Mas a sua é tão redondinha e grande na medida certa, ela passa um pouco ou talvez muito dos limites da normalidade... Quer dizer, não que eu fique reparando na sua bunda o tempo todo, mas não tem como não reparar! Pergunte pra qualquer um dessa loja, do shopping e dessa cidade! Não irão encontrar uma bunda tão linda como a sua por aqui... Tirando o fato de que você não tem nem a porra de uma gordurinha localizada, isso é uma injustiça contra nós, pobres mortais! – gargalhei.
- Então nós vamos ficar aqui falando sobre a minha bunda por quanto tempo mais? – rolei os olhos, brincando.
- Quanto tempo você quiser...
- OK! Agora chega – saí de seu abraço ao ver o querido chefinho. – Merda, ele está vindo e parece que quer matar alguém, aja naturalmente – fomos correndo para nossos lugares para não ter o desprazer de encarar a cara mal humorada de Jack logo de início e fazer o mais importante: trabalhar como condenadas até o fim de nossas vidas.

Faltavam exatamente duas horas para o shopping fechar. Como hoje eu faria hora extra, a loja resolveu ir à loucura. Estava contando os segundos para minha parada de 10 minutos e quando ela chegou, no exato momento em que estava virando-me pra sair dali, alguém me chama.

- Hey, moça! – uma mulher de aparentemente 40 anos vem correndo até o balcão. “Que foi, porra?” foi o que eu queria ter dito.
- Oi! Boa tarde, o que seria? – dou o sorriso automático de sempre, esperando ela chegar até mim, meio sem ar por estar correndo por aí como uma doida.
- Eu... Ufa! Estou morrendo, desculpe, querida. Minha filha não para de encher minha paciência, ela quer muito um CD e eu não encontro ele em lugar algum!
- Hm... Nós temos de tudo aqui. Qual CD ela quer?
- Você sabe aquele menino bonito super famoso que está por aqui? Ela quer pelo menos um autógrafo, porém não tem o novo CD dele.
“E eu com isso?” Eu disse em pensamento, é claro. Estava ficando zonza, mas quem diabos é esse cara? Seja quem for, já o odeio por ter atrapalhado meu momento de descanso.
- Ok, qual é o nome dele? Ou do CD? – tentei parecer normal.

“ATENÇÃO, NOTÍCIAS BOMBÁSTICAS!” A TV que estava em algum canal aleatório resolveu berrar, me assustando. E do nada todos prestaram atenção na mesma, inclusive eu e a cliente. Não me culpe, sou curiosa.
“NOSSOS REPÓRTERES ACABARAM DE FLAGRAR UM CARRO SUSPEITO SAINDO DO HOTEL ONDE O CANTOR E COMPOSITOR , NOSSO TALENTO NATO ESTÁ HOSPEDADO! SERÁ QUE ELE ESTÁ INDO PARA ALGUM PASSEIO? PARA ONDE O BOY ESTARIA INDO? JÁ, JÁ VOLTAMOS COM MAIS NOTÍCIAS PARA VOCÊS!”
Bufei e revirei os olhos ao perceber que tinha perdido alguns segundos da minha vida com aquilo. Talento nato? Aquele cantorzinho não poderia ser da mesma cidade que eu... Não é possível! Resolvi ignorar meus pensamentos e voltar ao trabalho.

- É ELE! – A mulher gritou.
- O que tem ele? – tentei parecer educada.
- O CD! É o garoto que a Hanna vai ao show! Será que ela sabe disso? – ela disse enquanto checava o celular.

Maldito.

- Mas que inf... Quer dizer, eu vou dar uma checada aqui, só um minuto.

Então comecei a vasculhar o computador em busca da merda do CD. Felizmente, não encontrei nada, o que significa que foram todos vendidos. O que esse garoto tem de tão especial, afinal?
Ouvi um hino de aleluia após concluir que realmente não havia nada, e tentei usar minha melhor cara de decepção vindo da minha atuação fajuta para dar a triste notícia à cliente.

- Hm, senhora, infelizmente já foram todos vendidos... Parece que ele é famoso mesmo, ein? – dei uma risada falsa.
- Ah, não! Hanna irá me matar... – a mulher colocou as mãos na cabeça, chateada.

Qual é! Que tipo de filha era aquela? Deixar a pobre mãe ir atrás da porra de um CD como uma louca enquanto ela provavelmente está na frente de um computador stalkeando o tal , isso é um absurdo! Alguém avisa para a Hanna que tem uma vida aqui fora?

- É... Desculpe por não poder ajudar... Ãm... Eu... – cale a boca! Meu subconsciente falava. – Eu... Eu posso dar uma olhada no depósito pra ver se tem algo novo lá, se você quiser – DROGA! Mas que diabos que eu acabei de falar? Eu sou muito imbecil e sentimental, mesmo!
- Você faria isso? Minha nossa! Seria maravilhoso! – os olhos da mãe de Hanna brilharam, e até que aquilo me deixou feliz, por algum motivo misterioso.
- Espere aqui que eu volto já, cruze os dedos! – eu sorri sincera, cruzando os dedos para ela e já me virando para ir até o depósito.
- Pode deixar!

Quando cheguei ao depósito, imediatamente comecei a busca. Após quase desistir, finalmente encontrei o maldito CD, que tinha uma foto ridícula do com um sorriso idiota de lado. Bela capa, ein! Super criativo. Provavelmente será indicado ao Grammy na categoria “álbum mais sem graça do ano”.

- ! – ouço alguém me chamar, e vejo que Jack está na porta de sua sala com um sorriso cafajeste nos lábios. Deus, eu não mereço isso!
- Estou indo! – digo, levando o cd em minhas mãos. Enquanto eu andava, sentia o olhar dele queimar em mim. E de novo: Deus, eu não mereço isso! Passei um trabalho para tentar passar na porta, já que meu chefe fez questão de ficar plantado na mesma torcendo para que eu esbarrasse nele. Sentei na cadeira de frente para a mesa grande, e ouvi Jack fechar a porta. Entrei em alerta.
- Você está linda hoje, – meu chefe sorriu, sentando na sua cadeira e me analisando como se eu fosse um prato apetitoso. E por que diabos ele estava me chamando pelo apelido?
- Hm... Obrigada – sorri, tentando não parecer intrigada com aquilo.
- Então, querida – esses elogios estavam me deixando apreensiva, então comecei a batucar as unhas na mesa para tentar amenizar o nervosismo. – Eu estou te demitindo.

O QUÊ?

- O QUÊ? Digo, o que eu fiz? – eu disse, já entrando em desespero.
- Sim, . Infelizmente estou te demitindo por que você é a funcionária mais nova aqui e não tenho mais como pagar seu salário, sinto muito – Jack falou, fingindo pena. Eu estava em choque e não ouvia mais nada. – Mas, você sabe que eu estarei aqui para qualquer coisa, não sabe? – senti uma mão tocando a minha, e voltei para realidade.
- O quê? – Jack levantou, e senti um arrepio de imediato.
- Como eu não posso, infelizmente, me relacionar com funcionárias, essa seria uma ótima oportunidade para nos conhecermos melhor, não acha? – Jack disse, tocando meus ombros com as mãos. Levantei, com quase medo do rumo que aquela conversa estava levando.
- Não quero nada com você – ouvi minha voz dizer, não entendendo muito como. Tinha certeza que tinha falado aquilo somente em pensamento, mas depois fiquei feliz por ter falado em voz alta. Meu chefe sorriu do jeito pervertido e nojento de sempre, caminhando lentamente até mim, enquanto eu ia para trás.
- Qual é, ! – senti minhas costas baterem na porta, era o fim da linha. Jack colocou uma das mãos no meu rosto quando ficou próximo o suficiente para isso.
- Eu disse que eu não quero nada com você. E não é me demitindo que você vai conseguir alguma coisa, então com licença – falei orgulhosa por ter pronunciado as palavras que queria, colocando a mão na maçaneta para sair dali de uma vez.
- A quem você está querendo enganar, princesa? – Jack encurralou-me com os dois braços, pressionando as mãos na porta, fazendo com que a mesma fizesse um barulho. Engoli em seco. – Eu sei que você quer isso tanto quanto eu, então que tal você facilitar as coisas para nós dois? – ele sorriu de uma forma maléfica, e aquilo me deixou nervosa. Não havia ninguém ali. Eu estava sozinha com um cara nojento que por acaso era o meu chefe – ex agora – e não sabia o que fazer. Ótimo. Tentei sair dali mais uma vez, mas novamente fui impedida. Ele estava próximo demais e faria algo a qualquer momento, eu teria que ser mais inteligente.

Então, lembrei-me de um vídeo que mamãe me mandou no WhatsApp, aqueles que a gente geralmente não olha. Mas, por algum milagre que não lembro, assisti. Ele mostrava golpes diversos que mulheres poderiam usar em situações em que elas estivessem em perigo. Eu estava em perigo. E bem, eu tinha duas pernas livres.
E como nos filmes, quando Jack iria me beijar a força, o chuto usando meu joelho direito em suas partes baixas, aproveitando e acertando o objeto inútil que nunca pensei que seria realmente útil em sua cara, fazendo-o se contorcer como uma barata que acabara de levar uma chinelada.

- MAS QUEM DIABOS VOCÊ PENSA QUE É? – gritei, ficando a uma distância segura enquanto ele estava em posição fetal, como um idiota. – NUNCA, MAS NUNCA MAIS FAÇA ISSO COM UMA MULHER, VOCÊ ME ENTENDEU? SEU NOJENTO DO CARALHO! – Ele apenas riu, fazendo cara de deboche e depois de dor.
- VOCÊ É UMA COITADA! – gemeu. – Eu deveria ter te demitido há tempos, sua vagabunda!
- Então fosse intitula como “vagabunda” as garotas que você agarra à força e não querem ficar com você? Parabéns, você é o cara mais idiota que eu já conheci – minha calma estava assustando-me, mas fiquei feliz por não estar desesperada ou algo do tipo. Nunca imaginei que passaria por situação parecida algum dia.
– Qualquer vadia por aí faria de tudo pra ficar comigo, está se achando especial? – Jack deu um gemido, colocando a mão no rosto.
- Por dinheiro, Jack, eu aposto que qualquer “vadia” ficaria com você. Ou por dó, talvez. Você se acha tão superior, não é? Não recebeu o que queria e ficou bravinho, foi? Deixa eu te contar um segredo? O mundo não gira em torno da merda do seu umbigo! E enquanto você não se tocar que é um completo idiota, machista, ignorante e insuportável, realmente sinto muito, mas você nunca será feliz de verdade! – e com isso, abro a porta e saio correndo dali, meio tonta e com uma raiva maior que qualquer outra coisa.
- ! O que aconteceu? Você está pálida! – Lauren veio correndo até mim, preocupada.
- Nosso chefe me demitiu e logo após isso me agarrou – eu disse, encarando-a. – Mas estou bem, eu o chutei– sorri.
- ELE O QUÊ?! Mas esse desgraçado vai ver o que é bom para tosse agora mesmo... – Lauren tentou sair de perto, e eu automaticamente agarrei seus braços.
- Lauren, calma! Estou um pouco assustada, mas estou bem, eu juro! Não quero que você faça nada que irá prejudicar seu emprego, estamos entendidas? – ela concordou meio triste. – Vou refrescar um pouco a cabeça e irei para a delegacia após isso – ela me abraçou forte.
- Sinto muito por isso, ! Cuide-se amiga, por favor.
- Eu irei me cuidar, pode deixar – sorri. – Quero que você entregue esse CD para aquela moça lá – eu apontei para a mãe de Hanna, que sorriu de orelha a orelha ao ver o objeto em minhas mãos. Se eu não estivesse louca, ela tentou falar algo. Ignorei aquilo, pois o que ela tentou dizer não fez sentido algum pra mim.
- Tudo bem. Nos vemos em breve? – ela sorriu triste, pegando minha mão.
- Pode ter certeza que sim – peguei minha mochila, indo para a saída em seguida.
- Ei, ! – Lauren gritou de longe.
- Oi?
- Você o chutou mesmo? – ela riu.
- Tenho certeza que ele está estéril à uma hora dessas! – eu sorri, acenando.
- Deus, eu amo essa garota!

Tinham poucas pessoas circulando por ali, metade das de hoje quando entrei, conclui. Enquanto andava, fiquei pensando para onde iria. Pensei em ir para casa, para o parque ou para qualquer outro lugar que eu pudesse ficar sozinha e fora daquele shopping. Mas um lugar especial me veio em mente no exato momento em que passei pelos banheiros: a sala de produtos de limpeza. Um lugar pequeno e perfeito onde eu poderia relaxar e ter um pouco de paz. Ninguém iria ali àquela hora, já que os faxineiros são dispensados umas duas horas mais cedo.
Entrei e tranquei a porta, e maravilhosamente tudo ficou escuro e silencioso, do mesmo jeitinho que eu queria. Prendi os cabelos em um rabo de cavalo enquanto tentava dar uma checada no local. A única luz presente vinha das frestas da porta, o que não iluminava nada e nem parecia que havia um mundo lá fora correndo sem parar. Permiti-me sentar no chão mesmo e dar um suspiro alto enquanto lembrava-me dos acontecimentos recentes, alertando meu próprio subconsciente que aquilo não iria nem de longe me afetar. Acho que estou tão acostumada com esses tipos de caras, que nem dou o trabalho de sentir-me triste com eles. É claro que nenhum nunca me agarrou a força, mas os comentários também são agonizantes.
Peguei o celular para verificar que horas eram, e o mesmo estava sem bateria. Ótimo. Resolvi apenas sentar, respirar fundo e navegar no meu universo paralelo onde comer pizza de café da manhã era obrigatório e acordar cedo era crime. Sem Jack’s, sem caras escrotos. Fechei os olhos.
Tudo certo, nada errado.
Bom, foi isso que eu pensei antes de alguém começar a bater desesperadamente na porta.

POV

Existem regras básicas que famosos devem seguir:
1º: Leve um segurança para aonde quer que você vá. (eu falo sério, EM QUALQUER LUGAR, até no banheiro, você nunca sabe o que pode acontecer).
2º: Não vá a um shopping e “acidentalmente” se perca. Isso é realmente ruim, provavelmente todos irão surtar com você.
3º: Não ache que um boné e óculos são bons disfarces, ainda mais se você sempre usa ambos no seu dia a dia.
Parece fácil, não? O problema é que, acabei de descobrir isso.

Flashback On
Duas horas antes, Crowne Plaza Manchester City Centre Hotel:

- Eu não entendo por que vocês não querem que eu saia! Eu não vou ser atacado ou algo do tipo! – bufei me levantando da cama, perdendo a paciência.
- ! Esse é o problema! – Erin falava tentando mudar minha mente.
- Qual é o problema, Erin?
- Você vai ser atacado ou algo do tipo! Não queremos que nada de ruim aconteça com você. Por favor! – ela chegou mais perto, olhando nos meus olhos. – Que tal você aproveitar esses último dia na sua cidade natal longe de repórteres e principalmente, de encrenca? Nós não podemos acobertar tudo, , você sabe disso – ela sorriu daquele tipo que faz quando tenta me convencer de algo.
- Mas, Erin, eu já fiquei trancado aqui o dia todo, não sou a porra de um animal de zoológico! Eu mal fiquei em casa!
- Eu sei, , e sinto muito por ter que ser assim! Mas você sabe tanto quanto eu o que acontece quando você vai para lugares públicos – Erin disse sincera, com certa pena no olhar.
- Eu estou decidido, Erin, sinto muito – sorri e peguei uma das mãos da minha empresária, tentando acalmá-la. – Você sabe que tem autoridade sobre mim até mais que minha própria mãe, mas eu sei me cuidar, tudo bem? – a abracei.
- Garoto, você é impossível! – ela soltou-se do meu abraço, beliscando meu braço.
- AI! Relaxa, eu tenho um disfarce – pisquei, virando-a e apontando para o ray ban preto, moletom capuz e o boné que estavam em cima da cama.
- Mas você sempre usa isso! Quem diabos disse para você que isso é um disf...
- Não pira! – a interrompi. – Eu vou ficar bem. Tenho certeza de que você vai mandar no mínimo três seguranças na minha cola – encarei John, que fez uma careta.
- Você vai se arrepender por não ter me escutado...

Flashback Off

MERDA! Por que eu não escutei a Erin mesmo? Ah! Já sei, porque eu sou um idiota do caralho.
A pergunta que não quer calar é: Mas que tipo de droga eu tenho na cabeça? “Uau! Olha esse shopping praticamente lotado e gigante pra caralho! Que tal me aventurar por aqui como se não houvesse amanhã?”, ou melhor: “Que tal andar por aqui tranquilamente e esquecer-me do fato de que tem paparazzis para TODA PORRA DE LADO E MILHÕES DE FÃS ESTÉRICAS?!” Nada contra minhas fãs, aliás, amo elas. Foi só um pensamento do momento mesmo.
É engraçado conseguir pensar em tantas coisas enquanto eu tentava correr de um bando de adolescentes e até algumas mulheres que pareciam meio loucas demais. Enquanto eu tentava não entrar em desespero, tive uma brilhante ideia: largar meu precioso boné para poder despistá-las. E deu certo.
Corri mais rápido do que nunca corri na vida, e ganhei uma grande vantagem, não havia mais fãs. Mas precisava me esconder, e rápido. Então vi uma porta perto dos banheiros. Até porque, me esconder em algum banheiro não seria uma decisão muito inteligente. Pelo o que notei, na porta tinha uma placa grande e brilhante com letras cintilantes “ME ABRA E SALVE SUA VIDA!”. Algo me dizia que se eu não a abrisse, estaria encrencado. Já imaginava as manchetes:

é encontrado morto em banheiro do famoso shopping de Manchester com marcas de unhas e batom pelo corpo” ou então: “ é perseguido por fãs e acaba perdendo um braço durante o ataque. Felizmente o jovem cantor não terá sequelas, tirando o braço inexistente”.

Era aquela porta ou nada.
Abro a maçaneta e vejo que a mesma está trancada. Mas é claro que está trancada! Irei morrer aqui mesmo, pensei. Após alguns segundos de pânico, não vejo alternativa a não ser gritar por socorro. Talvez dentro daquela sala estivesse Deus, ou então simplesmente algum faxineiro, já que a real placa era “entrada autorizada apenas para faxineiros”.

- SOCORRO! TEM ALGUÉM AÍ? ALGUÉM ABRE ESSA PORTA, PELO AMOR DE DEUS! – eu gritei, correndo para a beirada do corredor principal e vendo as garotas se aproximando cada vez mais. Felizmente, nenhuma delas havia me visto ainda.

Tentei arrombar porta, de uma forma discreta. Como se arromba uma porta de uma forma discreta? Também não sei. Mas aquela porra era de ferro. Porém, como um milagre, a porta se abriu, e fechei-a rapidamente, agradecendo a Deus por ter-me tirado daquela situação. Entretanto, não tive muito tempo, já que alguém me golpeou com um taco de golfe – ou algo parecido – bem na barriga.

- Mas que porr... – tentei reclamar, mas resolvi me jogar no chão, já que não conseguia respirar.
- QUEM É VOCÊ? – a criatura se ajoelhou para tentar me reconhecer, o que não deu muito certo, já que estava um escuro quase total ali. Senti um perfume doce feminino no ar. – PRECISAMOS SAIR DAQUI! NÃO TÁ PEGANDO FOGO? CORRE! – a garota gritou do nada. Segurei um braço dela antes de a mesma tentar levantar.
- NÃO!... Não tá pegando fogo em nada, eu nem disse isso! Eu só precisava de um esconderijo o mais rápido possível – disse ofegante.
- E o que eu tenho a ver com isso? Mas esse universo só pode estar tirando uma com a minha cara, não é possível! Que tipo de pessoa finge um incêndio? – a esquentadinha falou.
- O quê? Espera! O que eu fiz pra você, garota?! Você nem me conhece!
- ARGH, NADA! Eu só não estou em um bom dia – ela bufou. – Você pode sair da frente da porta, fazendo o favor? Nunca foi atacado por uma vassoura, não?
- Na verdade nunca fui, não... Parabéns por esse ato – ri, sarcástico.
- Há há há, você é engraçadão, ein? Assim, só por um acaso, você é algum piadista?
- O que eu faço é totalmente diferente disso – ri. – Completamente diferente, aliás.
- Uau! Um agente da Cia? Hm... Já sei! O príncipe Harry, não é?! Sempre quis conhecê-lo, vossa alteza – ela falou com a voz alterada.
- Você é sempre assim?
- Assim como, garoto?
- Assim, estressada e louca! Estou me sentindo mal só por estar perto de você – bufei.
- Nossa, senhor-eu-nunca-me-estressei-na-vida! Tô achando que você é um príncipe mesmo. Qual é o nome do reino encantado que você vive onde problemas não existem? Me leve para lá, por favor! – a garota falou debochando da minha cara.
- Você é muito chata!
- E você é irritante!
- Como assim EU sou irritante? –ri irônico. – Eu peço ajuda, você abre a porta e me ataca com uma vassoura. Depois é grossa e estúpida comigo como se eu fosse o causador dos seus problemas! Diga-me, quem é o irritante agora? – tentei parecer calmo, o que eu geralmente sou. Mas a garota era o diabo em pessoa e aquilo me deixava puto, e um pouco curioso pelo gênio tão forte, talvez.
- VOCÊ! Eu venho pra cá encontrar paz interior e um pouco de sossego, mas tudo o que consigo é um retardado que diz que o shopping está pegando fogo, mas na verdade está fugindo de sei lá o quê! E SAÍ DESSA MERDA DE PORTA, EU QUERO SAIR DAQUI! – a doida gritou do nada.
- SEM ESCÂNDALO! E eu não falei que o shopping estava pegando fogo! Qual é o seu problema? – gritei e levantei em seguida, ficando em uma distância consideravelmente pequena e perigosa dela. O medo de ser atacado com algum objeto inútil novamente veio à tona, então afastei o máximo que pude.
- Muito obrigada, você é um cavaleiro – se eu estivesse a quilômetros de distância daquele lugar, ainda assim poderia ter sentido o sarcasmo em sua voz.

Então ela puxou a maçaneta, e fiquei feliz por saber que esse pesadelo temporário iria acabar. Mas nada aconteceu, a porta não se abriu e minha felicidade momentânea foi jogada no lixo como um piscar de olhos enquanto ela puxava, e puxava de novo. Tentou uma ultima vez, mas foi um fracasso total. Tentou destruir a maçaneta com a vassoura assassina, mas foi inútil. Gritou palavrões diversos em todas as línguas possíveis enquanto chutava a porta, sem sucesso algum. Ela virou lentamente para trás, exatamente como a garota do exorcista. Bem, na minha cabeça foi o que pareceu. É, seria melhor se eu fosse atacado por aquelas fãs.

- Cadê. a. porra. da. chave? – ela disse entre dentes, como se quisesse matar alguém. E, infelizmente, esse alguém era eu.
- Eu não sei do que está falando, você que trancou a porta quando entrei – dei de ombros, tentando esconder o desespero na voz. Eu que tinha trancado a porta. O problema é que eu não fazia ideia onde tinha colocado a porra da chave.
- NÃO! – ela bufou. – Eu tenho certeza que não fechei essa porcaria! O que tá acontecendo, meu Deus?! Isso só pode ser uma pegadinha!
- Olha, essas coisas acontecem... Você não precisa fazer tanto drama...
- ARGH! CALA A BOCA E ME AJUDA A ACHAR A PORRA DA LUZ, GAROTO! – levantei rápido por puro medo de ser morto.
- Não seria mais fácil ligar a lanterna do celular? – falei óbvio.
- Você acha que eu ainda não pensei nisso, gênio?
- Então por que não pegou ainda?
- Está sem bateria.
- Que tipo de pessoa anda por aí com um celular sem bateria?
- Ok, sabichão. Então cadê o seu celular?
- Está aqui, senhorita... – enfiei a mão no bolso de trás da calça para pegar o celular, mas ele resolveu sumir. Meu coração chegou a parar. Eu tinha certeza que ele estava comigo!
- O que foi?
- Eu acho que perdi – disse, tentando procurá-lo de novo.
- Nossa, você é tão cuidadoso! COMO A GENTE VAI SAIR DAQUI SEM UM CELULAR?

Nem precisamos falar mais nada. A ideia de continuar preso com aquela louca me deixava com medo, mas, não vou mentir que era uma oferta tentadora. De alguma maneira, ela me deixava intrigado. Nunca havia conhecido uma garota com uma personalidade tão intensa como a dela. Deixava-me assustado de um jeito bom. Começamos a procurar um interruptor, nos esbarrando às vezes por o espaço ser pequeno demais para duas pessoas. Ela continuava usando palavras de baixo calão e pisava com força no meu pé – tentei considerar como acidentes, todas às vezes – desesperada pela luz como se a minha presença fosse insuportável. Mal ela sabia quem eu era, pensei. Já a imaginava falando “meu Deus, você é o ! Você é o amor da minha vida aaaaaaaaaaaaaa!”. Porém, fãs de verdade reconheceriam minha voz a quilômetros de distância, então rezei para que ela fosse somente uma pessoa normal (ou nem tão normal assim). Incomodado e sem sucesso na busca pelo interruptor, resolvo sentar como se o assunto não fosse comigo. Sentia-me estressado por a presença do estresse ambulante, o que considerei raridade vendo que sou uma pessoa relativamente calma.

- Você não pode simplesmente se sentar aí feito um idiota enquanto eu procuro a merda da luz sozinha! Quer ficar trancado aqui até quando? – a garota tirou-me de meu momento de paz, gritando e me tirando do sério.
- Eu não achei essa merda! Quer que eu faça o quê? Não sou mágico, nem nada do tipo pra encontrar as coisas no meio da porra do escuro! Você não quer paz? Eu estou sentado aqui com a boca fechada enquanto você se estressa com coisas que você mesma cria! – dei uma pausa para recuperar o fôlego. – Eu também não queria estar aqui, tá legal? – abaixei o tom, lembrando que ela era uma garota que provavelmente só não estava em seu melhor dia.

Um silêncio de alguns segundos que pareceram anos para mim pairou sobre o ambiente, fazendo-me levantar novamente e ver se a garota ainda estava viva.

- Você ainda tá aí? – falei apreensivo.
- Estou.
- Você quer descontar a raiva em mim ou sei lá? Por que ficou quieta do nada?
- Não eu... Eu peço desculpa, sério.
- Hm... Você não me fez nada, quer dizer, nada grave. Ainda estou vivo, isso que importa – dei uma risada nasalada.
- Sabe, por um segundo eu quase fiquei com medo. E geralmente eu nunca tenho medo, tipo, de nada – ela engoliu em seco antes de prosseguir. - Acontece que rolou uma coisa meio ruim comigo hoje, deve ser por isso que estou tão estressada e descontando em você que não tem culpa de nada. Meu dia realmente foi longo e tudo o que eu queria era ficar sozinha para pensar um pouco, não trancada com um estranho que pode ser um bandido ou um estuprador. Sem ofensas, eu acho.
- Hm... Eu entendo, acho. Fica tranquila, não sou perigoso – ri em pensamento pela minha resposta tosca. Pensei em um assaltante com um revolver falando: “fica tranquila, não sou perigoso”.
- Então tudo bem... É... – silêncio constrangedor – Eu... NOSSA! ACABEI DE TER UMA IDEIA! – e ela gritou do nada.
- Ai porra! Você me assustou! Pode parar de gritar do nada, por favor? – coloquei a mão no coração tentando de uma forma inútil acalmá-lo.
- Desculpa! Fica ai, vou tentar fazer algo.
- Hm... Ok.
Fiquei quieto escorado no que deduzi ser uma prateleira. Estava indo tudo bem até eu começar a sentir um tremor, entrei em alerta.
- Ei! Cadê você?
- Tô aqui!
- O que você está fazendo? – perguntei assustado.
- Só estou escalando a prateleira, mesmo.
- VOCÊ O QUÊ?! Quer se matar, garota? – tentei procurá-la no escuro.
- Eu só estou tentando alcançar a luz! Sabe, girar a lâmpada talvez funcione...
- Você não tem medo da morte, não? Já pensou se você cai aí de cima?
- Olha, você não está me ajudando em nada sendo irritante assim. Sou uma pessoa madura de vinte e dois anos subindo em uma prateleira, não uma criança de sete escalando uma árvore. Tente diferenciar.
- Custava pedir pra mim? Nós poderíamos trabalhar nisso juntos... Digo, eu tenho provavelmente o dobro do seu tamanho.
- Está tentando insinuar algo? – ela desafiou.
- Nada, só estou falando, senhora eu-não-preciso-de-ajuda.
- Ótimo, então fique quieto que eu já estou chegando.
- Então tudo b...
- DROGA! EU VOU CAIR! – algumas coisas caíram no chão.
- MERDA! EU DISSE PRA VOCÊ PEDIR AJUDA E VOCÊ NÃO ME ESC...
- CALE A BOCA E AJUDA ENTÃO, PORRA! – ela gritou.
- EU NEM SEI ONDE VOCÊ ESTÁ! – comecei a tatear as prateleiras na procura de um par de pernas, ou algo do tipo. Encontrei um pedaço de carne e me guiei por aquilo.
- EI! – ela resmungou.
- Que foi? Se você não quer cair tem que colaborar comig...
- Essa é a minha bunda, palhaço.
Senti minhas bochechas esquentarem na hora. Droga.
- Hm... Eu... Merda. – não consegui prender o riso diante daquela situação. – Só fica aí que eu vou me ajeitar pra você pular, tudo bem?
- MAS EU ESTOU PENDURADA, GAROTO! ANDA LOGO!
- CALMA! – me posicionei onde achei que ela estaria. Vi uma coisa brilhar no alto, o que era aquilo? – Você consegue virar e ficar de frente pra mim?
- Eu não sou um ninja, droga!
- Pelo menos tenta! – bufei.
- Se eu cair e quase morrer vou te processar e você terá que vender um rim para poder pagar a indenização, ouviu bem?
- Isso não seria um problema... – pensei alto.
- CONSEGUI! – a estranha disse como se tivesse alcançado o topo do monte Everest.
- Ótimo, eu vou contar até três e você pula, tudo bem? Estou bem aqui.
- Ok, eu já deixei o aviso, certo?

O três chegou, e ela pulou. Pulou como se eu tivesse a força do super-homem. Pulou como se tivesse certeza de que eu iria conseguir. E bem, eu tinha certeza de que iria conseguir.
Mas não consegui. Anos de academia, dieta e preparação física para nada? Nem para pegar uma garota de no máximo sessenta kilos? Estou decepcionado comigo mesmo. Estou com dor em alguma parte do corpo por conta do baque no chão. Estou com vergonha por ela ter caído bem em cima de mim, para falar a verdade. Por que eu estou com vergonha, afinal? Isso deveria ser uma coisa ótima, certo?
Errado.

- VOCÊ DISSE QUE IRIA ME SEGURAR, DROGA! – a estranha saiu de cima de mim, irritada e resmungando.
- Você reclama de tudo, não é? E para começo de conversa, eu não garanti nada... Ai! – um gemido involuntário escapou por conta da dor estrondosa que senti na cabeça quando tentei levantar. Pus a mão na parte de trás da mesma e senti um galo do tamanho do planeta Terra. Ótimo.
- O que aconteceu? – ela se aproximou. Aquele perfume... Era tão doce e suave que parecia ser o completo oposto de quem o usava.
- Nada, só tive um traumatismo craniano.
- Como você é dramático! Deixe-me ver isso aqui... – ela sentou do meu lado e tentou tatear minha cabeça. – É só um galo!
- Jura? Tá mais pra uma bola de beisebol.
- Você vai sobreviver, infelizmente.
- Sua doçura me encanta. Eu deveria ter deixado você se jogar no meio do chão, então você que estaria com esse galo, não eu.
- Uau! Mas como é cavaleiro esse rapaz, não?
- Você me faz ser assim! Eu quase me mato para tentar te salvar e tudo o que recebo é um “você disse que iria me segurar, droga!”. Não sei se sabe, mas a palavra piedade tem significado e é bom praticá-lo de vez em quando...
- Argh! Não é minha culpa, tá?! Eu juro que não sou assim o tempo todo... Já disse.
- Tá, tá. O que adianta eu ficar reclamando? Eu vou é procurar a luz nem que seja a ultima coisa que eu faça na vida – levantei determinado.
- Nossa, que atitude! Assim que eu gosto.
- Não me importo se você gosta ou não, linda.
- Linda?
- Sim, será horrível se você for uma ogra por fora também, né? – ri. – Estou esperando você professar aquela palavrinha, sabe? De agradecimento...
- Você é ridículo!– ela bufou.
- Não era bem essa a palavra mágica que eu esperava... Mas se te irritei, está ótimo.
- Sério, você é muito ridículo! Estou com vontade de socar a sua cara – a senti chegando mais perto.
- E estragar essa belezinha? Que audácia! Nem chegue perto de mim, sua louca! Você já me causou danos o suficiente por hoje.
- Eu vou me sentar aqui e rezar para que você morra eletrocutado, isso sim!
- Uau! Além de ogra, violenta e mal educada ela ainda é macumbeira! Essa garota é mil e uma utilidades, senhoras e senhores!
- Não me tente, garoto.
- Relaxa, linda. Mas eu preciso que você suba em cima de mim, beleza?
- O quê? Como assim subir em cima de você? E não me chame de linda.
- Não pense em safadeza ainda, linda. O plano é você sentar nos meus ombros e tentar alcançar a lâmpada, entendeu?
- E como eu vou saber que você não vai me deixar cair de novo? E para de me chamar assim, droga!
- O que você disse, linda? Não ouvi muito bem – me fiz de desentendido, e a ouvi bufar de raiva. – Existe certa diferença entre eu te erguer e você pular em cima de mim, certo? Você complica demais.
- Você que é um irrit... – bufei alto e impaciente, cortando-a. – Tudo bem, mas eu já avisei.
- Dá pra confiar em mim só uma vez? Vem aqui – pedi enquanto sentava no chão novamente.
- Tá – ela concordou e pisou na minha perna, sem querer.
- AI! Dá pra parar de ficar me machucando? Sinto que vou sair daqui e ir direto para o hospital!
- Desculpa – ela deu uma risada como quem diz "foda-se você e sua perna". – O que você quer que eu faça?
- Primeiro você tem que encontrar meus ombros – milagrosamente, ela fez o que eu pedi sem retrucar.
- Nossa! Nenhuma risadinha sarcástica? Estamos evoluindo por aqui, não?
- Eu só não falei nada por que sua voz é irritante – ela concluiu naturalmente, como se não fosse me afetar. E não afetou, de qualquer forma. Apenas achei engraçado.
- Não escuto muito isso... Vou levar como uma crítica construtiva.
- O quê? Você fala umas coisas sem sentido às vezes... Então por que não cala a boca?
- Você... Você... – eu travei. Então resolvi ficar quieto para não causar outra discussão. Senti mãos pequenas e quentinhas na minha cara e se eu não estivesse de óculos, quase que uma delas perfuraria um de meus olhos.
- Ops – ela disse dando a sua famosa risadinha irônica.
- Vou fingir que isso foi sem querer.
- Você usa óculos? Você não faz o tipo nerd.
- São óculos escuros. E você está julgando sem me conhecer – tirei os mesmos, enganchando na camiseta.
- Quem diabos anda de óculos escuros dentro de um shopping? – ela perguntou, me ofendendo pelo trigésima vez no dia.
- Sei lá, um cego?
- Há, há, há, como você é engraçado! – senti suas mãos em meus ombros, indicando que ela tinha os encontrado. – Pronto!
- Agora você dá um jeito de subir aí em cima.
- Nossa! Você me deixa impressionada a cada segundo... E não é de um jeito bom.
- Só sobe.

Após algumas manobras e chutes – acidentais – no meu pescoço, senti uma bunda grande bem em cima de mim. Se a situação fosse outra, eu estaria muito feliz.

- Eu queria dizer que essa é a coisa mais estranha que já fiz na vida, então anda logo.
- Você quem manda – com um impulso, agarrei suas pernas e fiquei de pé com a maior facilidade. Pelo menos nisso não fracassei.
- Devo rezar por ainda estar viva?
- De certa forma, sim – brinquei. – Ok, coloque os braços para o alto e tente alcançar o teto.
- Primeiro tire essas mãos das minhas coxas – ela ordenou.
- Sem problemas – obedeci, dando um passo para frente, fazendo-a desequilibrar e segurar forte minha cabeça com as mãos.
- Ok, pode colocar as mãos de volta – senti o peso em sua voz como se ela tivesse sido quase obrigada a dizer aquilo. Soltei uma gargalhada.
- Você é inacreditável!
- Isso é um elogio? – ela indagou.
- Em partes, sim.
- Ok, eu tô tocando o teto!
- Ótimo, vou começar a andar, e você me fala pra parar quando encontrar a lâmpada.
- Então comece a caminhar, cavalinho – ela falou rindo.
- Não direi nada quanto a isso – rolei os olhos. Comecei a dar passos lentos, sentindo as pernas dela pressionarem meu corpo por medo de cair.

Não demorou muito para que o grande momento chegasse. Após a estranha dar uma voltinha da lâmpada, a luz estava ali, entre nós. Vi prateleiras cinza por todos os lados com produtos diversos nas mesmas. Soltei o ar que não sabia que estava prendendo e agradeci a Deus e depois ao homem por inventar a eletricidade.

- CONSEGUIMOS! – ela gritou e tentou desastradamente me abraçar, animada demais. Ao perceber o que havia feito, rapidamente tirou os braços em volta da minha cabeça e bagunçou meus cabelos.
- Parece que finalmente vou conhecer o rosto da garota infernal, não?
- Ainda bem que eu não me ofendo com suas palavras, se não estaria ferrada – ela riu. – Não se apaixone, por favor – apenas ri com a resposta.
- Não será muito difícil... – provoquei. – Posso? – pedi permissão para pegar em sua cintura, para colocá-la no chão.

Tirei-a de cima de mim com mais facilidade do que antes e enquanto a colocava no chão com cuidado, não pude deixar de dar a famosa espiada. E caralho, como ela era bunduda! Sei que esse é um puta comentário machista, mas PORRA! Que bundão.
Ela virou e ficou de frente para mim, e tive certeza de que estava tendo a visão do paraíso. Poderia imaginar minha cara de idiota enquanto eu a encarava sem pudor, mas quem liga? Ela também me encarava. Nem nos meus pensamentos mais estranhos poderia imaginar que a garota infernal teria uma carinha de anjo. Seu cabelo tinha uma cor indefinida que ficava entre um tom de loiro e ruivo, e estava preso em um rabo de cavalo desajeitado. Seus olhos incrivelmente intensos tinham um tom de verde muito bonito. Uma sensação de deja vu se apoderou de mim, como se eu já tivesse encarado aqueles mesmos olhos em algum momento da minha vida, e senti-me até meio desconfortável por ficar encarando-os, como se eles fossem mágicos ou algo do tipo, mas resolvi ignorar esse fato. Ela tinha um piercing de argolinha no nariz e estava usando uma legging que marcava perfeitamente suas pernas e cintura, e usava uma camiseta branca com o logo de alguma coisa.

- Espera... – ela se pronunciou, chegando mais perto, me encarando como se eu fosse um extraterrestre. – Eu conheço você! Eu sei que conheço... – ela colocou as mãos sobre as têmporas, enquanto massageava as mesmas, pensando. – Não é possível... – sua expressão começou a me assustar. – NÃO É POSSÍVEL! – ela berrou, e seu rosto ganhou um tom assustador de vermelhidão.
- Sim! Eu sou o ! Engraçado, não? Quer um abraço? – resolvi brincar com a cena, ameaçando abraçá-la.
- Não encosta em mim! – ela estava claramente irritada, será que essa era a forma dela de amar? – EXISTEM SEIS FUCKING BILHÕES DE PESSOAS NO PLANETA TERRA, MILHÕES NESSA CIDADE E MILHARES NESSE SHOPPING E EU TENHO QUE FICAR TRANCADA NESSA MERDA DE SALA JUSTO COM VOCÊ? VIDA, O QUE VOCÊ TEM CONTRA MIM? – ela andava de um lado para o outro, penso eu que estava se segurando para não me atacar. Então eu percebi que aquilo não era amor, era raiva mesmo. Mas por quê? Será que eu neguei um autógrafo, ou algo do tipo? Mas eu nunca neguei nada! Por que ela me odeia? Aquilo estava ficando MUITO interessante.
- Bem, eu esperava outra reação... Geralmente as garotas me amam, se é que me entende. Não é uma coisa muito difícil de acontecer – relaxei os ombros, sentando no chão e rindo daquela situação, que era nova para mim. – Por que tanto ódio, pequena garota? – ela riu diabolicamente, balançando a cabeça.
- Eu não acredito que isso está acontecendo, sério! Eu devo ter feito algo muito ruim... MERDA! POR QUE DIABOS VOCÊ ESTÁ AQUI?
- Você tem algum problema de fala? – tapei meus ouvidos com as mãos, fingindo dor. – Eu tive que me esconder já que fui perseguido por umas fãs. Mas agora percebo que ter sido pego por elas seria algo muito mais seguro e inteligente de se fazer – a encarei, e a mesma lançou um olhar mortal em minha direção, com as mãos na cintura.
- Eu preciso sair daqui! EU VOU ENLOUQUECER! – ela desfez o rabo de cavalo, soltando os longos cabelos e ficando perigosamente mais linda.
- Por que você não vai com a minha cara? Poxa! Vai dizer que eu não sou bonitinho?
- Você... Você... ARGH! VOCÊ É TERRIVELMENTE IRRITANTE! E EU JÁ ACHAVA ISSO ANTES MESMO DE TER O DESPRAZER DE CONHECER VOCÊ! – ela começou a procurar algo no chão.
- Ódio gratuito? Isso é tão desnecessário... – encarei-a com incredulidade. – Sério, eu quero saber!
- É que o Matt fica falando de você o tempo inteiro e isso me deixa puta! – ela resmungou, fazendo um coque estranho no cabelo. Algo me dizia que ela tinha certo toque com o mesmo. Ri com minha própria conclusão. – Nem sei por que ainda estou falando com você! Você me irrita! – tinha uma coisa engraçada nela, porque ela parecia uma anã de jardim com cara de neném e ainda assim me deixava amedrontado.
- Oh, sério? Não tinha percebido isso ainda – ironizei, tentando olhar para qualquer outro lugar que não fosse para ela, encontrando um esfregão muito interessante à minha frente. – Mas diga que, por favor, esse tal de Matt é gay? – “é”, ela respondeu.
- Então eu já entendi tudo! – gargalhei. – Você tem ciúme porque o seu amigo me ama mais do que ama você! Que adorável!
- EU NÃO TENHO CIÚMES, OK? EU SÓ... EU SÓ... – ela se perdeu em meio às palavras, parando alguns segundos para inventar alguma desculpa. – Eu não preciso de motivos para não gostar de você. Pronto – disse emburrada.
- Que resposta madura a sua – rolei os olhos. – Aliás, com quem eu estou falando?
- Você não merece saber.
- Qual é! Nós vamos ficar trancados aqui a noite toda, provavelmente. Quer mofar aí?
- Eu me recuso a acreditar que terei que ficar trancada com você por tanto tempo assim. Acredito que Deus tenha alguma piedade e venha me buscar.
- Você sabe que o shopping deve estar quase fechando há essa hora, não sabe?
- Sua calma me irrita – ela ralhou.
- Eu estou aproveitando minha ultimas horas de vida, já que sei que todos vão querer me matar quando eu estiver fora daqui. Aliás, estou me divertindo. Minha vida não é como você pensa que é, pode ter certeza disso.
- Então você acha que pegar um violãozinho e começar a cantar para milhares de pessoas que te amam é passar trabalho?
- É claro que não, você não entend...
- Eu vou te falar umas coisas sobre a vida, garoto.

Então ela começou a contar uma longa história. Falou sobre a colega de apartamento pirada, ter trancado a faculdade de Moda por falta de dinheiro, sobre ter dois empregos, sobre como detestava lavar louças e outras coisas. Percebi que ela não estava em seu estado normal pelo simples fato de que ela não parece ser do tipo de pessoa que desabafa com estranhos, principalmente os irritantes que ela diz não gostar, tipo eu. De qualquer maneira, apenas concordava e escutava tudo como um bom ouvinte faria. Tentava não focar muito nela, já que sua beleza e seu jeito em si me deixavam meio enfeitiçado. Não querendo ser contraditório, mas ela era adorável. Adorável por em um segundo estar puta e raivosa e no outro claramente frágil e vulnerável. Senti vontade de abraçá-la, era bem verdade, mas guardei essa vontade para mim mesmo. O eu real dela poderia voltar a qualquer momento e eu deveria estar pronto para o combate.

- E tenho certeza que tudo isso é culpa da Emily! – ela finalizava a história, dando um longo suspiro. – Sempre soube que se eu fosse boa demais com as pessoas eu mesma acabaria me ferrando, mas sou teimosa! Estou sem emprego, e nunca mais vou conseguir voltar para a faculdade! Meu Deus! Minha vida está um caos, e eu contei tudo isso pra você! Estou ficando louca... Você deve achar que eu sou uma maluca! – ela falava sem parar, e quando lembrou que precisava respirar, parou a conversação, tapando o rosto com as mãos. Senti-me na obrigação de fazer algo. A vontade de arrombar aquela porta seja lá com o que for e dar um belo de um soco na cara do babaca do ex-chefe dela seja onde diabos ele estivesse estava grande, grande demais. Meus músculos se contraíam só de pensar na ideia de um otário daqueles tocando nela sem ser convidado. Aquilo, de uma maneira muito bizarra, já que eu nem conhecia ela direito, me deixava puto.
- Seu ex-chefe é o cara mais canalha que eu já ouvi falar – passei as mãos no cabelo, antes de continuar. – Mas você ter dado um chute nele foi mais do que incrível! – sorri, e ela soltou uma risada nasalada.
- Não foi só isso, eu acertei a cara dele com o seu cd – ela sorriu de um jeito adorável, olhando para os próprios pés.
- Você usou meu cd como objeto de defesa? Meu LINDO cd? – brinquei, e ela fez um careta. – Estou brincando, poxa. Eu fui útil para alguma coisa, não?
- Na verdade se você não existisse, eu não precisaria ter ido ao depósito e nada disso teria acontecido. Então obrigada por desgraçar a minha vida, – ela bufou, levantando e procurando algo no chão, a chave, provavelmente.
- Eu não acredito que você vai por a culpa em mim, estranha. Pense bem: se isso não tivesse acontecido, você nunca falaria para o seu ex-chefe o quanto ele é um ser humano repugnante. Então de nada – falei convencido, levantando para ajudá-la a procurar a chave também.
- Você tem um pouco de raz... – ela cortou a frase. – Quer dizer, você continua sendo o culpado. Estou trancada aqui por sua causa – ela pegou o elástico do pulso para amarrar o cabelo. Toque.
- Você tem um toque com o cabelo, né? Isso é engraçado.
- É claro que não – ela negou, passando a mão no mesmo.
- Viu? Toque no cabelo – ri. – Não negue. A primeira coisa a se fazer é aceitar.
- Isso não é verdade – ela contrariou- me, o que não me surpreendeu.
- Se você diz... – fingi olhar para outro lugar, e quando a encarei novamente, ela estava alisando o cabelo com as mãos. – Há! Te peguei.
- ARGH! VOCÊ PODE PARAR COM ISSO? – a esquentadinha disse, olhando dentro de alguns baldes que estavam nas prateleiras.
- O que te faz pensar que a chave esteja aí dentro? –rolei os olhos.
- Não custa tentar, ué.
- Você é estranha.
- Quer mesmo que eu comece a falar o que acho de você? – ela parou, cruzando os braços. – Posso começar com o fato de você ser um completo...
- Irritante? – cortei-a.
- É. E também...
- Lindo? Gostoso? – ri.
- Você se acha, não é?
- Eu sou sincero, é diferente. Vai dizer que eu não sou um pedaço de mau caminho? – parei para provocá-la.
- Hm... – ela parou também, encarando-me e dando uma boa analisada no que estava vendo, enrolando os malditos cabelos com o dedo. Gostei daquilo. – Eu gosto dessas tatuagens, acho muito atraente, sabia? – ela ia chegando mais perto, com um tom sedutor na voz. – Gostei do seu cabelo também, não tem um corte definido e isso o torna meio rebelde e extremante sexy a meu ver – ela sorriu provocante, chegando perto demais para a minha sanidade. Respirei fundo.
- O- o que você e-está fa-azendo? – gaguejei ao vê-la quase colada em mim, fazendo com que eu batesse as costas na prateleira.
- Não diga que não quer isso, ... – DEUS, POR FAVOR, TENHA MISERICÓRDIA DE MIM. O que ela disse não deixava de ser mentira, mas qualquer pensamento sujo foi para longe no momento em que ela contou sobre o que chefe otário fez hoje. Seria completamente ridículo e babaca da minha parte forçar a barra, nem que seja com palavras. Mas ela estava me provocando e apesar de ser uma pessoa difícil de lidar e me atacar tanto com palavras como com vassouras, não podia negar que ela era uma mulher linda e gostosa pra caralho.
- Eu sei que é o que você mais quer desde que colocou os olhos em mim – imaginava minha cara agora, certamente não estava nada sexy comparada a dela. Ela aproximou a cabeça, e senti sua respiração perto do meu ouvido. Perguntei até quando meu autocontrole poderia aguentar aquilo, deduzi que não muito. – Meu nome é , muito prazer – ela sussurrou de uma forma tão demasiadamente sexy que senti todos meus pelos se arrepiarem. – E você... – ela inalou meu cheiro, encostando o nariz no meu pescoço. – É UM OTÁRIO, REAL! – e ela começou a rir. É claro que sim, ela estava tirando uma com a minha cara.
- Você não presta, sinceramente – sai de perto, não que fosse muito possível, mas saí e fui até o outro lado da sala. Respirei fundo, tentando não parecer realmente um otário e recuperar-me dos acontecimentos recentes. E ela ainda ria.
- NOSSA, A SUA CARA ESTAVA ILÁRIA! – ela gargalhava. – Não acredito que você caiu nessa ladainha! Pensei que você fosse mais esperto, – disse tentando recuperar o fôlego.
- Queria que eu fizesse o quê? Olha o que você fez! Você, linda e com essa porra de olhos incríveis! Não tem como não ficar envolvido no seu joguinho – não sei por que soltei aquilo, mas me senti um idiota.
- Hm... Obrigada. Você também não é feio – ela deu uma risadinha.
- Se minha autoestima dependesse de você, eu estaria ferrado – peguei meu moletom que estava no chão, sentindo algo bolso.
- Mas o que eu falei sobre as tatuagens é verdade. Elas são maneiras! – não prestei atenção em mais nada. As palavras de não fizeram mais sentido após eu sentir o aparelho mais magnífico já criado pelo homem no bolso do meu moletom.
- MEU CELULAR! – exclamei, retirando o aparelho do bolso. – OLHA! – mostrei.
- O QUÊ? AAAAAAAAAAAAA – deu pulinhos de alegria, enquanto eu ainda não acreditava no que estava acontecendo. – PARA DE FAZER ESSA CARA DE DEMENTE E LIGA PRA ALGUÉM DE UMA VEZ!
- Vou fazer isso, calma! Você precisa subir em cima de mim de novo, nada de sinal aqui – eu disse puto, mostrando a tela sem um mísero pontinho.
- Ok, tudo pra sair daqui – ela respirou fundo. – Mas que diabos! Por que não pega sinal aqui? – ela questionou.
- Iria perguntar o mesmo – mexi no cabelo. – Vamos logo com isso, vem cá – deu a volta e pulou do nada nas minhas costas, me fazendo cambalear e segurar suas pernas.
- VOCÊ É LOUCA? – eu disse assustado, enquanto roubava o celular de minhas mãos.
- Você disse “vamos logo com isso” ué – ela deu uma risadinha. Comecei a andar de um lado para outro, e após alguns minutos, meus músculos se entregaram. Não queria desistir, afinal, era nossa única chance de sair dali. – PARA! TEM UM PONTINHO AQUI!
- FINALMENTE! Ligue para o John! – gritei, e logo após ouvi o som da vitória, mais conhecido como toque de chamada.
- Isso é tão emocionante! – disse e eu quis dizer alguma coisa, mas fui interrompido pelo som grosso da voz de John saindo do telefone.

?”

- John! É tão bom ouvir a sua voz! – eu disse, já prevendo o sermão em seguida.

“Você sabe que eu estou querendo te matar, não sabe? Onde você está, garoto?” – magicamente, eu conseguia ver a expressão do meu segurança bem na mim frente. E não era a mais bonita de todas.

- Eu estou preso com uma louca! – gritei, e recebi um tapa como resposta. – Ai! John! Você precisa falar com alguém para tirar a gente daqui!

“Você está bem? Quem está aí?”

- Olá, John, eu sou a e eu vou ficar aqui com o little para sempre! – disse com a voz assustadoramente afetada, me fazendo soltar uma gargalhada.

“Mas quem diabos é essa garota?”

- Mais respeito, eu sou uma dama, John! – disse, tapando minha boca com a mão antes de eu tentar reclamar.

, o que está acontecendo?” – o tom autoritário de John deu as caras.

- Eu estou trancado com uma garota que me odeia! – “eu não odeio mais você”, disse e eu ri. – É uma sala que fica perto dos banheiros... Vem logo, John! – choraminguei.

“Sinto muito, mas você ficará de castigo para aprender a não fugir mais de mim. E não têm como fazer nada agora, o shopping já está fechado. Vocês terão que passar a noite, estarei aí amanhã de manhã. ” E ele desligou. Deixando eu e com caras de taxo durante alguns minutos.

- Hoje é o pior dia da minha vida – ela disse enquanto eu a tirava de cima de mim.
- Eu geralmente escuto o contrário disso...
- Começou! – ela me cortou. – Esqueci você é o rei do mundo, desculpa! – bufou, cruzando os braços, raivosa.
- Linda, o que eu quero dizer é que você é diferente das outras garotas... E que de alguma forma eu gosto disso – disparei, me socando mentalmente por ter agido no impulso.
- Não me chame de linda. Você gosta de ser maltratado? Por que é isso que eu estou fazendo com você desde o inicio.
- Sinceramente, não sei, mas sua personalidade me deixa intrigado.
- Estou com fome – eu tive que rir. – Para de rir! Estou falando sério...
- Viu? Você muda de assunto do nada, isso é fascinante! Precisa me ensinar a fazer isso... E eu estou com fome também.
- Nada mal para um iniciante... Mas você precisa praticar mais – ela chegou mais perto, arrumando meu cabelo. – Assim está melhor – ela sorriu, afastando-se novamente e pegando sua mochila do chão.
- Me diga que tem algo aí dentro... Você fez com que a minha fome renascesse das cinzas – eu disse, tentando não parecer desconcertado pelo simples fato de ela ter sido legal.
- Bem... – ela vasculhou a bolsa. – Estamos com sorte, eu tenho aqui um salgadinho e uma maça – ela tirou a comida, largando a mochila onde estava.
- Eu quero a maça! – disse rapidamente, e ela jogou a mesma no ar. Aparei- a com uma mão só.
- Uau, ele é todo Fitness! – riu, abrindo o pacote e sentando no chão.
- Sou mesmo. Se eu quiser manter esse corpinho sarado, nada de porcaria – dei uma mordida na maça, sentando também.
- Como você consegue? – ela devorava o salgadinho como se fosse sua ultima refeição. – Faz quanto tempo que você não come fast food?
- Anos... – pensei.
Terminamos de comer em silêncio. Não conseguia tirar os olhos dela, e olha que sua maneira de comer não era lá tão encantadora assim.
- Por que você fica me encarando? Sou tão feia assim? – ela mordeu o lábio inferior, tirando-me do transe.
- Você perguntou isso só para eu dizer que você é gata pra caralho, não? – ri.
- Não, só quis perguntar – ela deu de ombros.
- Eu preciso responder mesmo?
- Você acha que vai conseguir alguma coisa comigo sendo assim? – ela deu uma risada nasalada, mexendo nas alças da mochila como se elas fossem mais interessantes do que conversar comigo.
- O quê?
- Sei lá, eu não tô sendo uma pessoa legal com você e mesmo assim você é legal comigo. Você acha que a gente vai transar ou algo do tipo? Porque eu não sou...
- , por favor, cala a boca! – levantei e sentei na frente dela, indignado, encarando-a. – Você acha que todos os homens são iguais? Olha pra mim! – disse, e ela parou de olhar para as próprias mãos, encarando-me de volta. Tive que fechar os olhos antes de prosseguir, já que os dela causavam um efeito estranho sobre toda a minha alma, não sei como. – Eu não sei o que você sabe sobre mim, nem o que acha que eu sou, mas não sou como os caras que você está acostumada a lidar, muito menos o babaca que os sites de fofoca querem que eu seja. Felizmente cresci com uma boa educação e aprendi a respeitar todas as mulheres que já passaram pela minha vida, desde minha avó até a garota que eu transo depois de uma festa. Gosto de tratar uma mulher como ela merece ser tratada. Eu poderia ser igual a todos os caras que já passaram pela sua vida, e olha que eu tenho de tudo pra ser mais um babaca desses. Mas eu prefiro ser o cara que deixa marcas, e marcas boas, em todos os sentidos – sorri pervertido, e ela sorriu sem mostrar os dentes, rolando os olhos. –Eu NUNCA vou forçar a barra com você, nem com nenhuma outra garota. Não sou covarde, tá legal? – suspirei, sentando ao lado dela. O silêncio pairou sobre o ar novamente.
- Desculpa – disse depois do que pareceu passar anos.
- Pelo o quê?
- Por achar que você é como os outros, eu nem conheço você.
- Você não tem culpa de achar isso, aliás, quem já teve a oportunidade provavelmente nunca te fez mostrar o contrário do que você pensa – eu disse, encostando a cabeça na prateleira.
- Isso nem vai acontecer – ela suspirou fundo, e me permiti olhar pra ela. Ela tinha um perfil lindo e até aquele piercing era perfeito pra ela. Mas o que diabos está acontecendo comigo?
- Eu estou aqui, não estou? – disse, pensando alto demais e querendo me dar um soco.
- Você? – ela riu, olhando para um ponto fixo da sala. – Você vai sair daqui, nem lembrar que esse dia existiu e viver a sua vida perfeita.
- Você realmente ouviu alguma coisa que eu te falei até agora? – ela olhou pra mim, e ficamos nos encarando pelo o que pareceram anos. Não consegui calcular quanto tempo ficamos ali, mas tenho certeza que aquilo não me fez bem.
- Olha, eu não sei – ela disse, quebrando o contato visual. – Não sei se acredito nisso, e sei que nem preciso me dar o trabalho de descobrir se é verdade ou não. Nós vivemos em mundos completamente diferentes.
- E isso importa pra você?
- Por que estamos falando sobre isso?
- Não sei!
- Nem eu – ela respirou fundo. – Estou com frio – desviou totalmente do assunto.
- Você muda de assunto quando sente que não tem palavras para responder certas situações? – perguntei, rindo de sua atitude.
- Não, só estou falando.
- Você sempre fala isso!
- Eu não acho que daríamos certo. Não sei como não nos matamos ainda. Não sei como eu não te matei ainda – ela riu.
- Bem, dizem que essa vontade é na verdade um disfarce pra esconder a atração – encarei-a.
- Eu não me senti atraída por você – ela me encarou de volta, rolando os olhos e sorrindo.
- Aí! –coloquei a mão no coração, fingindo que estava afetado. – Essa doeu, linda. Eu não acredito em você, olhe pra mim, querida – ri, fazendo-a sorrir de novo.
- Tá, eu vou ser sincera, essas malditas tatuagens... Elas são muito atraentes, droga! Eu tenho um fetiche por cara tatuado, aí você tem esses braços e essas tatuagens e eu...
- Fica toda desconcertada?
- Não enche.
- Você é muito linda.
- Por que você é assim? Você não tem vergonha, não?
- Por que eu teria vergonha de falar a verdade? – perguntei, enquanto ela batucava os dedos na perna.
- Eu não sei lidar com pessoas como você. Nem com elogios.
- Você não sabe lidar nem com você mesma – conclui, e ela me encarou, indignada. – Eu tenho a sensação de que não vou conseguir mais sair do seu pé, sabia?
- Por quê?
- Não sei, mas você me deixa curioso, e eu não posso te largar sabendo que você está nessa situação.
- Você não precisa sentir pena de mim, e eu não preciso do seu dinheiro, mesmo que seja uma proposta tentadora – ela riu. – Vou arrumar outro emprego logo, você não precisa se preocupar comigo.
- Eu sei que não preciso me preocupar com você. Mas uma ideia magnífica passou pela minha cabeça e eu não posso deixar isso passar batido – sorri malandro, vendo o ponto de interrogação estampado em sua cara.
- O que você vai fazer?
- Preciso conversar com algumas pessoas antes, mas entrarei em contato com você.
- E quem disse que eu vou te passar meu número? – ela desafiou.
- Você quer um emprego, não quer? – ela me encarou.
- E como diabos você vai arranjar um emprego pra mim?
- Ah, querida , isso é surpresa. Mas tenho certeza que você irá se surpreender – pisquei, levantando e pegando meu moletom que estava no chão. – Eu tenho muita sorte de ter um moletom grande e quentinho bem aqui, não? – ri, abraçando o mesmo.
- Não provoque. Eu estou morrendo de frio – ela disse, abraçando o próprio corpo. Joguei o moletom, que caiu bem em sua cara.
- Aí!
- Pode pegar, senhorita. Eu estou bem.
- Você poderia ter me deixado cega, sabia disso? – ela passou a mão no rosto.
- Sem drama – rolei os olhos.
- Você poderia ficar lá do outro lado, estou com medo de você acabar jogando um escovão na minha cara da próxima vez – ela disse, levantando para colocar o moletom.
- E estragar esse rostinho esculpido pelos anjos? Nunca! – ri, e dessa vez não me senti um otário por elogiá-la, já que descobri que aquilo a deixava sem graça. Meu sorriso aumentou ao ver que meu moletom tinha ficado um vestido nela. Ela parecia ter ficado mais adorável ainda. – Você parece aquelas crianças de quatro anos que vestem as roupas dos pais, que fofura! – peguei meu celular, pronto para registrar aquele momento. não estava prestando atenção em nada, já que o fato de o moletom ter ficado grande demais nela parecia que era muito interessante. Ela estava olhando para o próprio corpo, com uma careta engraçada. Era o momento perfeito.
- O que você pensa que está fazendo? – disse, após o flash do celular ter me entregado.
- Tirando uma foto?
- Eu disse pra você não se apaixonar, querido ... Já está até tirando fotos minhas!
- É para a sua foto de contato – enganei-a, ou tentei. – Pode ir falando seu número, não esqueça que é por uma boa causa.
- Af, tudo bem – ela falou o número e sentou no chão novamente. – Você tem SnapChat? Eu adoro brincar com aqueles filtros!
- Eu vou deixar só porque gosto de você. Odeio que mexam no meu celular.
- Sou especial mesmo, ein? Que moral! – entreguei meu celular para ela, sentando ao seu lado. – Eu pensei que meu iPhone 5s fazia milagres, mas esse, senhor! Sinto-me a Gisele Bündchen! – ela exclamou, já brincando com meu celular, fazendo várias caretas. – AAAA! Eu amo esse – ela se referiu ao filtro que deixava a boca enorme. – Olá, meninas, eu estou trancada no shopping com o ídolo de vocês, isso mesmo, o !
- Qual é o problema que você tem em falar meu primeiro nome? – ri, estragando o vídeo.
- Ele soa como um apelido, uma coisa fofa, parece que é intimo – ela fez uma careta ao falar a palavra intimo, salvando o vídeo.
- Mas é o meu nome! – eu disse, e ela deu de ombros.
- Bem meninas, o é um cara fofo e legal, mas é tããão irritante! Fale para elas o quanto você é irritante – ela disse, chegando mais perto de mim para o efeito pegar nós dois.
- Você que se irrita por qualquer coisa, linda – ri, roubando um beijo na sua bochecha.
- Além de tudo é tarado! Como vocês gostam dele, meninas? – ela riu, finalizando o vídeo.
- Você é louca assim desde sempre?
- Isso é genética. Você nem conheceu minha mãe! Ela é uma italiana doida! – senti que sua voz mudou ao falar da mãe. Provavelmente elas se amavam muito.
- Você é italiana? Isso é demais! E seu pai, é de onde?
- Eu nunca conheci meu pai – ela entregou o celular, puxando as mangas do moletom para que suas mãos ficassem protegidas. Senti-me um otário por ter feito aquela pergunta, mas ela pareceu não se abalar. – Mas eu adoro contar a historia de como minha mãe o conheceu. Na verdade, o que ela se lembra – ela riu e bocejou, esfregando os olhos, puxando o elástico que prendia o seu cabelo, bagunçando o mesmo. – Estou morrendo de sono! Que horas são?
- Meia noite e quinze – eu disse, olhando para a tela do celular. – Você quer deitar aqui? – apontei para as minhas pernas. Ela me encarou como se eu fosse um extraterrestre, tentando encontrar alguma malícia naquela frase. – É sério, estou sem sono. Mas se não quiser, a decisão é... – deitou no meu colo, sem aviso prévio, e não pude deixar de sorrir. – Eu pensei que você iria me bater agora, juro – sorri, e minha mão criou vida própria, parando em seu cabelo. Ela começou a fazer movimentos no mesmo, sem meu consentimento. Realmente, eu nem queria sentir aquele cabelo na minha mão, muito menos sentir o cheiro maravilhoso dela bem de pertinho.
- Por que você é assim, ? – ela sorriu, e suas bochechas ficaram vermelhas. – Isso é covardia! Não lembro a ultima vez que recebi um cafuné.
- E isso é bom? – perguntei.
- Isso é bom. Mas ao mesmo tempo não gosto de me sentir assim. Parece que você está tentando destruir a minha barreira – ela respirou fundo. – Eu sei que parece clichê, e nem eu mesma acredito que estou dizendo isso pra você, mas eu não sei lidar. Meu cérebro diz que a qualquer momento você vai jogar uma piadinha suja ou até tentar me agarrar, mas você está aqui fazendo cafuné em mim e ouvindo minhas maluquices mesmo depois de eu ter te acertado com uma vassoura. O que você quer de mim, ?
- Eu não sei por que estou fazendo isso – falei sincero. – Parece que eu te conheço há muito tempo, e isso é estranho. Você sente o mesmo? É uma sensação nova pra mim.
- Isso mesmo! Eu sinto que eu te conheço há muito tempo, como se fosse aquele irmão irritante que toda menina tem.
- Você está me comparando com um irmão? Poxa, e se eu te disser que planejo sair com você?
- Você nem tem tempo para sair, .
- Isso é bem verdade, mas durante a turnê sempre tenho day off. Mereço descanso também, né? – ela concordou. – Sabe, eu sei que parece ser fácil, mas vai muito além disso. Têm ensaios, composição, propagandas, idas a rádios, premiações, programas de TV... Eu nunca paro. E durante tudo isso tem muita exploração de todos os lados, principalmente da mídia.
- Isso deve ser um saco.
- E é. Mas estou acostumado.
- E o que você está fazendo aqui?
- Vim dar um oi para a família, mas já voltei para o hotel e amanhã vou para os Estados Unidos. Tenho vários compromissos antes de a turnê mundial começar.
- Essa turnê dura quantos meses?
- Muitos. Mas eu não quero falar disso agora. Será a maior turnê que já fiz e me sinto nervoso só por pensar – ri, voltando a fazer cafuné em seu cabelo. – Mas agora conte a história dos seus pais, estou curioso.
- Ah sim... É uma longa história!

POV off
sentia-se estranho. De algum modo, o prendia e o encantava a cada frase que saia da boca dela, e aquilo o deixava assustado. Assustado porque ele não conseguiu – em nem um segundo se quer – deixar de sorrir enquanto ela contava a história de como seus pais se conheceram. E nem era a história mais romântica de todas. Na verdade, nem romântica era. Pelo o que entendeu, a mãe de era uma jovem bem louca. Tão louca que acabou engravidando durante suas férias no carnaval do Rio de Janeiro, de um cara que ela nunca mais viu na vida. De um cara que primeiro ela achou que era alemão, pois o homem falava inglês com o "famoso sotaque sexy alemão", mas depois de um "eu te amo" durante o sexo intitulado como "selvagem", concluiu que era um brasileiro. estava fascinado com fato de que contava tudo àquilo divertida, como se fosse uma piada. Qualquer outra levaria isso como um trauma ou qualquer outra coisa do gênero, mas, como é uma garota definitivamente única – e isso ele concluiu desde os primeiros minutos de conversa – não podia esperar uma reação diferente daquela. tinha uma metade italiana, o que justificava sua mania de falar pelos cotovelos, os olhos fodidamente atraentes e a teimosia rotineira. E a outra metade era brasileira, cuja essa se mostrou bem forte em suas curvas, na cor de pele – com um bronzeado natural, coisa inexistente em um inglês – no seu carisma, no sorriso encantador e é claro, naquela bunda, que tinha que ser latina.
Vendo-a dormir agora, exatamente como um bebê em seu colo, o deixava tão mexido, que se perguntava o que faria pra que ela não se afastasse. Ele tinha tanta certeza de que aquele encontro não tinha sido por acaso que seus pelos se arrepiavam só de pensar que o destino tinha cruzado seu caminho com o dela. Sabia que se não fossem o que ele queria, seriam grandes amigos, pelo menos. E era tão clichê pensar daquela maneira, já que sua fama não era nada romântica, tão pouco imaginava sentir-se assim por uma mulher algum dia. A verdade é que, o dos tabloides – aquele garanhão, festeiro e mulherengo – não era o cara que é de fato. Por trás daquela fama, existe um cara que sempre quis encontrar sua garota, e, por mais que ele tentasse ser durão e implicante com , era impossível negar que ele não estava completamente atraído e envolvido por ela. Talvez fosse pela sua personalidade ou por aquela beleza surreal, mas ele sentia que tinha algo mais. não sabia ao certo, ainda mais que o sono resolveu dar as boas vindas depois de uma viagem nos próprios pensamentos. Com todo o cuidado do mundo, tentou sair dali, deixando – que parecia estar muito bem – deitada em cima do carpete. Estava um frio do raio, e ele pensou em como faria para ter pelo menos algumas horas de sono. Sem muitas alternativas, pegou alguns tapetes que estavam na prateleira, para fazê-los de travesseiro. Após organizá-los tentou com cuidado – de novo – colocar em cima de um deles. Feito isso, deitou-se no seu próprio, sem conseguir parar de pensar que quando acordasse, estaria muito ferrado e com um resfriado, provavelmente. Seus olhos pesaram, e, quando estava quase dormindo, o ser humano ao seu lado, que em qualquer outra circunstância nunca faria tal ato, o abraçou de lado, dando um suspiro, colocando a cabeça em seu peito e uma das pernas ao redor dele. Nesse momento, ele sentiu-se como um bobo por seu coração ter acelerado tanto, e, mesmo que talvez não soubesse o que estava fazendo, ele não sairia dali. Então ele dormiu, com um sorriso que insistia em não sair de seu rosto.

12 de maio de 2016, Manchester, Reino unido:

ainda estava dormindo – em cima de , para constar – quando a porta foi aberta – ou melhor, arrombada na quinta-feira de manhã, ou melhor, madrugada. Enquanto estava sendo carregada (lê-se arrastada) por um cara que ela pensou ser uma estátua de tão alta, lembrou-se de que não estava sonhando. Ela estava desempregada, ficou trancada com um astro do pop/rock, acordou em cima dele e no momento estava cega pelos raios solares que invadiram sua visão no segundo em que saiu para o lado de fora do shopping. Agradeceu por não ver nenhum paparazzi doido por ali – foi o que ela pensou. sentia-se angustiada por não poder se despedir de , que, durante o tempo todo que estiveram juntos, mostrou ser compreensível e agradável, mesmo ela sendo uma verdadeira otária. É claro que nunca admitiria isso para alguém, muito menos para ele, mas seu coração se apertava só de lembrar-se da cena em que ele acenava para ela, já de longe, cercado por caras iguais ao que a estava carregando agora. se perguntava que sensação era aquela que sentia toda vez que se lembrava dele, mas sua cabeça latejava tanto que pensar racionalmente era carta fora do baralho. O homem gigante que a acompanhava a colocou em um carro preto com cheiro de novo, e o mesmo sentou ao lado do motorista, que já acelerou. Lá dentro, ela percebeu que sua roupa tinha sido lavada com o perfume de – era o que parecia – e sua cabeça pareceu doer ainda mais. Ela definitivamente não sabia lidar. Teve uma conversa muito agradável com o grandão no caminho de sua casa, que ela descobriu ser o segurança de , John, o mesmo que eles falaram pelo telefone quando ainda estavam trancados. O homem foi um cavalheiro, e a levou até a porta de seu apartamento, desculpando-se por todo transtorno e soltando um “cuide-se, garota”. Depois daquilo, sentiu-se obrigada a dar um abraço no grandalhão, que se assustou com a reação dela, mas tentou retribuir o gesto de carinho ao mesmo nível. John tinha gostado da garota, que não era nada parecida com as outras que ele era acostumado a lidar, e pensou que ela seria uma boa companhia para . entrou em seu apartamento, tirou o moletom que parecia estar sufocando-a, e encontrou seu melhor amigo com um sorriso maior que o habitual. É claro que ela teve que contar tudo o que aconteceu para Matt – que já estava sabendo de tudo depois de ler uma matéria em um site de fofocas que tinha como capa ela de costas sendo acompanhada pelo segurança grandão, mostrando a raba e a cabeleira dela, o título era: “A garota misteriosa”, o que o fez ter um mini ataque cardíaco. Ele dava pulinhos de alegria e emoção, achando tudo um máximo. Cuidou da melhor amiga, que estava com uma enxaqueca horrível e parecia ter saído de uma guerra. Mandou mensagem para seu chefe do café, explicando tudo. Ele deu três dias de folga para , e a garota sentiu como se tivesse ganhado na loteria. Depois das horas de conversa com Matt, um banho de mais algumas horas e muitos pedaços de pizza e refrigerante, pôs a cabeça no travesseiro, agradecendo ao Deus dos tecidos por ter abençoado seu pijama inseparável e insubstituível do Batman. Pegou seu celular que estava no bidê, desconectando-o do carregador. apenas checou suas mensagens, exausta demais para checar outras coisas. Respondeu sua mãe, suas amigas e outras pessoas que a reconheceram nos sites de fofoca e ficaram sabendo do seu incrível dia de sorte. Abriu uma mensagem de um número desconhecido, e um sorriso automático surgiu em seu rosto ao ver o remetente:

“Linda, eu não acredito que você tem o mesmo sobrenome da família Russo de Os feiticeiros de Haverly Place, isso é demais! Mudando de assusto, estou sem palavras para descrever seus vídeos dançando no instagram, VOCÊ NÃO SABE QUE EU TENHO FETICHE POR GAROTAS QUE DANÇAM? QUE TIPO DE BRINCADEIRA VOCÊ ESTÁ FAZENDO COM O MEU CORAÇÃO? Enfim, descobri que nós temos um ídolo em comum, olha só! Algo em comum entre nós é bem raro, não? Vou parar de falar agora, aliás, relembrando, não procure emprego antes de eu voltar. E me siga de volta nas redes sociais. É só isso. Sonhe com os anjos, ou melhor, comigo. Te vejo em alguns dias! xx”

sentiu seu coração ridiculamente acelerar, com aquele sorriso mais ridículo ainda insistindo em permanecer em sua expressão. Por que isso está acontecendo? Ela se perguntou.
Bem, isso ela iria descobrir.

9 de agosto de 2016, Manchester, Reino unido:

- Matt! Abre a porta, esqueci minha chave! – berrou do outro lado da porta, louca para jogar-se em seu sofá de uma vez. Estava indo cada vez mais para a academia de dança, já que trabalhava a tarde quatro vezes por semana – sim, ela arranjou um emprego, não seria louca de ficar parada todo esse tempo – e não fazia nada durante a tarde de folga.
- Tô indo, docinho! Só um minuto! – ela ouviu passos, e logo Matt estava em sua frente com um avental, o que a fez rir.
- O que você está fazendo de avental? – ela entrou em casa, e um cheiro delicioso invadiu suas narinas. – Meu Deus, que cheiro maravilhoso é esse?
- Temos visita, esqueceu? – Matt passou por ela, dando um tapinha em sua bunda.
- Quem? – ela disse, jogando a bolsa na mesinha que ficava ao lado da porta, indo em direção ao sofá.
- Como assim, “quem?”? Não me diga que não sabia, da última vez você contou os dias, ou melhor, os minutos! Eu que sou o fã aqui, poxa!
- Se você está falando do , ele só vem terça feira que vem! Está louco? – ela suspirou, jogando-se em seu lindo sofá. Fazia alguns dias que não se viam, e ela não pensou que a próxima visita estava tão perto. Matt sentou com ela, e pôs suas pernas em cima dele, que estava com uma cara de desconfiado. – Você não lembra? Nós falamos com ele no skype! Ele disse que estaria aqui dia nove – ela espreguiçou-se, tentando demonstrar que não estava entrando em desespero internamente.

tentava não ficar tão ansiosa quando o assunto era e suas visitas – visitas essas, que eram exclusivas para ela – mas era algo quase impossível de fazer. O que aconteceu foi que, após o incidente do shopping meses atrás, eles não conseguiram mais ficar longe um do outro. Trocavam mensagens e ligações todos os dias, além dos Skypes quando tinha tempo, e, quando ele ganhava alguma folga (que não passava de três dias), pegava o primeiro voo para Manchester. Ele e conseguiram, apesar da distância, construir uma amizade maravilhosa – misturada com muita provocação, olhares que gritavam o que eles não tinham coragem de dizer e uma forte tensão sexual, era bem verdade – porém, o importante é que tinham virado confidentes, amigos de verdade. Matt quis agarrar – ou melhor, o agarrou real – da primeira vez em que ele apareceu no apartamento, mas depois conseguiu se acostumar com o fato de que o ídolo gostava da sua melhor amiga. E só ele percebia isso. A mídia já sabia de tudo, mas nunca conseguiram pegar os dois juntos publicamente, já que só era visto sozinho saindo do apartamento dela. Felizmente, acostumou-se com aquilo, com os milhares de seguidores que ganhou e até com as fãs – que constantemente alegavam que os dois eram namorados – mas adoravam ela e sua relação com o ídolo. postava vários SnapChats nos dias em que estavam juntos, e as fãs agradeceram a garota por ter ensinado ele a dar mais valor a tal rede social. Os dois sempre acabavam indo para os trending topics mundiais do Twitter, e o último deles foi com a hashtag #relationshipgoals, depois de ter postado uma foto no Instagram tirada por Matt, em que ele e ela apareciam cobertos por farinha e ovos, enquanto tentavam – isso mesmo, tentavam – fazer um bolo de aniversário para o amigo. Resumindo, a garota adorava a companhia de , que como todas às vezes, sempre a tratou como uma princesa, uma princesa muito doida, é bem verdade, mas ela amava o fato de que ele, em tão pouco tempo, a conhecia melhor do que ninguém. Era engraçado ela pensar no quanto sua perspectiva sobre ele havia mudado, e como tinham se aproximado tanto, já que em um passado não muito distante, nem que se ela fosse um alienígena deduziria que seria a melhor amiga de um famoso, muito menos de . Mas, vendo agora, ela só conseguia agradecer sabe se lá quem por ter colocado ele em sua vida, que era seu verdadeiro anjo da guarda. não se sentia muito diferente dela, aliás, sentia muito mais do que gostaria. Não gostava do fato de ter uma amiga fodidamente linda e gostosa, aquilo o deixava louco. Louco porque ela sabia que tinha total efeito sobre ele e parecia usar aquele dom para provocá-lo ainda mais. Mas, tirando este fato perturbador, ele sabia que não conseguiria mais viver longe dela, nem se tentasse muito. Tinham criado um laço forte demais pra ficarem muito tempo longe um do outro, e, mesmo que a distância fosse dolorosa, o sentimento nunca mudava. Ele sempre queria estar ao lado dela, como se fosse seu anjo da guarda.

- E que dia é hoje, teimosa? – Matt a encarou, com sua sobrancelha levantada e a famosa expressão de “eu tenho a razão, você não”.
- Não sei, mas não é dia nove – ela pegou o celular do bolso, para verificar. – DROGA! HOJE É DIA NOVE!? – ela levantou, tirando a camiseta que estava usando, e Matt riu de seu desespero.
- É! Eu pensei que você estivesse contando os dias, docinho – ele a provocou, levantando também, indo para a cozinha.
- Não mais que você! Droga, eu estou fedendo como uma porca. Vou tomar banho! Que horas ele chega? – ela disse já distante, correndo para o banheiro.
- Ele já...
- AAAAAAAAAAAAA! – Matt ouviu gritos uníssonos vindos do banheiro.
- O QUE VOCÊ ESTÁ FAZENDO PELADO, DROGA? – berrou, virando para o outro lado.
- Tomando banho? – riu. – Saudade de você também, aliás. Quer um abraço?
- ARGH! VOCÊ NÃO TEM CASA, NÃO? – falou, passando as mãos no cabelo.
- E você não tem uma blusa não? – ele pôs a cabeça para fora do box, sorrindo de um modo cafajeste. – Eu tento me controlar até certo nível, Russo, você sabe que esse seu corpo latino me dá nos nervos. Mas agora aparecer aqui com esse short e de sutiã? Eu não sei se minha sanidade é tão resistente assim.
- É melhor você tirar essa cabeça daí antes que eu mesma faça isso por você – provocou, rindo internamente daquela situação.
- Pare de rir internamente – ele disse, lendo sua mente – Pode virar, estou vestido.
- Até que enfim, não faça mais... – sua voz vacilou ao ver aquele corpo definido. Aquelas malditas tatuagens. Aquele abdômen. Maldita toalha que cobria demais. – DROGA! VOCÊ QUER ME MATAR?
- O que estou fazendo de errado? – olhou para o próprio corpo, sem tirar o sorrisinho sacana dos lábios.
- Você está... Está... Você está quase nu! E com essas tatuagens! Vá se vestir!
- Mas...
- Sem mas. Vai! – ela ordenou, puxando para fora dali. Um deles criou vida própria, escorregando e apertando o bíceps dele, mas foi uma coisa totalmente acidental. Ela nem queria sentir aqueles músculos, pufff.
- Tá, tá – ele saiu do banheiro, quase que rebolando enquanto passava pela sala, e ela não pode deixar de espiar a bunda dele, que era bem arrebitada.
- Eu vi isso ! – Matt gritou da sala.
- Você não viu nada!

- Ok, casal, a comida está pronta – Matt gritou da cozinha, vendo sair do quarto carregando sua melhor amiga nas costas.
- Não somos um casal – disse, bagunçando o cabelo de , um de seus hobby’s preferidos.
- A tá, e eu não gosto de pica – Matt rolou os olhos, fazendo cair na gargalhada. – Eu tenho um encontro agora, não me esperem – ele sorriu pervertido, tirando o avental. – Daqui a dez minutos tirem a lasanha do forno.
- VOCÊ FEZ LASANHA? – e disseram na mesma hora, e se encararam, rindo.
- Essa sintonia de vocês, ai, ai, acho que vou vomitar – Matt abriu a porta. – Usem camisinha, e, por favor, não transem no meu sofá. Você entendeu bem, ?
- ? – questionou. E Matt saiu.
- Foi só uma vez - ela riu, sentindo as bochechas corarem. – É uma história engraçada... Mas depois eu conto, preciso tomar banho. Tente não incendiar minha casa, por favor, – ela levantou.
- Tudo bem, garota que transa no sofá do melhor amigo – ele disse, deitando no sofá e cruzando as pernas. – Vou ficar aqui pensando em quanta nojeira estou deitado.
- Af, não seja tão ridículo – ela bufou. – Cuidado com o meu sofá, ele é mais meu do que do Matt! – ela saiu, indo em direção ao banheiro. sabia que era errado e que sempre deveria se conter, mas foi obrigado a olhar para a bunda dela.
- Eu vi o que você fez – ele se assustou, perguntando como diabos ela tinha o pegado no flagra. – Eu sei que ela é linda mesmo, mas seja mais discreto. E limpe a baba.
- Como você é má! – ele pode ouvir a risada dela de longe.

22 de setembro de 2016, Manchester, Reino unido:

- Você está com saudade dele, não está? – Matt entregou o pote de sorvete para , puxando um pouco do edredom que estavam dividindo no sofá, enquanto “assistiam” a um filme aleatório.
- É claro que eu estou. Já faz quase dois meses, Matt! Sabe o que é isso? – ela respirou fundo, literalmente mergulhando naquele pote, rezando para que as ondas de calda de chocolate levassem para longe aquele sentimento maldito.
- Ele está resolvendo as últimas coisas da turnê, temos que entender... Ele não pode vir aqui sempre.
- Eu sei. Eu queria que ele fosse uma pessoa normal, droga! Isso é um saco! – Matt a abraçou, sentindo-a fungar.
- Você vai chorar? – ele perguntou, rindo por um segundo. – É sério? Eu estou vendo isso mesmo?
- Estou de TPM, não tenho culpa por estar assim – ela entregou o pote de sorvete para ele. – Merda, nem o sorvete está resolvendo. Faça alguma coisa, Matt! Melhores amigos servem para isso! – ela cruzou os braços, emburrada consigo mesma por estar sensível.
- Eu estou acostumado com a ogra, não com a sentimental. Você sabe muito bem o nome e sobrenome de quem lida com a sua outra metade, e é o...
- Por favor, não fale – ela disse, enterrando sua cabeça no edredom. – Você está o dia todo tocando no nome dele e isso não está ajudando em nada! – alguém bateu na porta.
- MINHA NOSSA SENHORA DOS VOOS ATRASADOS, AMÉM! DEUS, OBRIGADO! – Matt exclamou, levantando e puxando o edredom de . – Vá atender essa maldita porta! E tente não assustar a pessoa que está do lado de fora com essa sua cara de morta-viva!
- Mas é só o entregador de pizza... – ela saiu do sofá, não porque quis, mas porque Matt a puxou de lá. Começou a arrastar-se até a porta, literalmente como uma morta-viva. Destrancou a mesma, que estava meio emperrada. – Quê? – ela teve quase certeza de que estava em sua frente.
- Surpresa!
- ? – seu coração pareceu triplicar a velocidade, e sentiu as borboletas fazerem a festa em seu estômago. Pensou que estava sonhando. – MEU DEUS! ! VOCÊ ESTÁ AQUI MESMO? – ela pulou em sua direção, entrelaçando seus braços e pernas ao redor dele, sem condições para abraços convencionais. cambaleou para trás, confuso pela reação dela, mas a apertou tanto quanto ela o apertava. Meu Deus, como ele sentiu falta daquilo!
- Uau, eu não esperava por isso! – ele disse entrando na casa, fechando a porta.
- Eu... Eu estava com saudade – sorriu a apertando ainda mais.
- Me desculpe, não sabia que eu fazia tanta falta assim... – ele sorriu a colocando no chão, sem desfazer o abraço. – Estou brincando, eu também estava morrendo de saudade, linda.
- Você é ridículo.
- Mas você me ama que eu sei – ele beijou a cabeça dela, sentindo o cheiro delicioso que vinha de seus cabelos.
- Não se iluda tanto... – ela desfez o abraço, e Matt agarrou .
- Olá, ídolo, ela é todinha sua agora, eu não aguento mais – ele lascou um beijo na bochecha dele. – Vou no mercado, cuidem-se, crianças! – e saiu porta a fora, deixando os dois rindo.
- Como você consegue ficar bonita até com esse pijama surrado do batman, Russo? – perguntou, enquanto seguia até seu quarto.
- Ei! Ele é surrado, mas é lindo de qualquer maneira.
- Tá, tá. Escuta, lembra-se daquele segredo que eu disse que iria contar?
- Aquele que você me atormenta tanto? Como eu iria esquecer? – ela jogou-se em sua cama, e foi ao seu lado, virando para ela e apoiando o rosto com um dos braços.
- Tudo bem – ele respirou fundo, como se estivesse ansioso, e de fato, ele estava. – Eu sei que você vai achar uma loucura, mas eu quero muito que aceite. Eu preciso que confie em mim, e eu sei que confia, então peço para que você não diga não na hora, tá? – ele sorriu de lado.
- Eu não acredito que você está fazendo um discurso desses pra transar comigo! – ela deu um tapa em seu braço. – Você sabe que podemos fazer isso à hora que quiser – ela fez um cara de safada, sorrindo.
- O quê?
- Estou brincando, bobinho – não estava não. – Conta logo!
– Lembra-se do dia que eu te liguei no meio da madrugada e você me xingou muito? – ela fez que sim com a cabeça. – Para começar, eu tinha me esquecido do fuso horário, mas enfim. Eu te perguntei sobre sua faculdade, né? Nós conversamos à beça sobre isso.
- Sim, aonde você quer chegar com isso? Estou ficando aflita!
- Calma. Desde o dia em que nós ficamos presos lá no shopping eu estava com essa ideia na cabeça, ela surgiu depois que você disse sobre fazer faculdade na Universidade de Manchester. Bem, naquele dia de madrugada antes de te ligar, eu estava em uma reunião com o pessoal da turnê e falei sobre você para a Erin.
- Erin, sua empresária que invadiu nosso Skype? – ela perguntou, ficando vermelha por lembrar daquilo.
- Essa mesmo – ele riu. – Eu pedi pra você esperar antes de sair para procurar emprego, certo? – ela confirmou com a cabeça, e tirou uma mecha que estava na frente do rosto dela. – Mas você não fez isso, porque é teimosa demais. Mas, de qualquer maneira. E eu consegui um pra você – ele pegou a mão dela, brincando com a mesma. – Ela disse que ficaria muito feliz se aceitasse fazer parte da turnê com a gente, sendo uma estagiária. Ela entrou em contato com a sua faculdade, e eles mandaram alguns dos seus desenhos. Você é incrível, . Seus professores disseram que você é uma das alunas mais talentosas da faculdade, e eu sei que isso não é pouco. Também sei que você merece muito mais do que isso, mas foi o máximo que consegui. Você não precisa fazer muito, só ajudar o estilista no que precisar, já que ele não vai poder nos acompanhar na turnê o tempo inteiro. Então, quando ele não estiver, você que vai ficar no lugar dele. Erin super apoiou a ideia, e ela gosta de como você sabe lidar comigo, e não discordo disso.
- O quê?
- Você ouviu.
- ... Você está falando sério? – ela levantou e começou a andar de um lado para outro, como sempre faz quando está nervosa.
- Por que eu brincaria com uma coisa dessas? ? – ele levantou puxando-a, segurando suas mãos que estavam suando um pouco. – Eu preciso que você aceite. Sei que parece loucura o que eu vou dizer, mas não quero nem pensar em ficar tanto tempo longe de você. E eu sei que você precisa desse dinheiro, e sei que você nunca vai aceitar eu te ajudar com isso, então diz que aceita, por favor – puxou levemente seu queixo, fazendo-a olhar para ele. – Bem, você não precisa decidir agora, mas...
- Eu... Eu quero.
- O quê? – o sorriso dele pareceu aumentar dez vezes de tamanho.
- , eu sinceramente não sei o que dizer – ela o abraçou, pegando o de surpresa. – Você não tinha nenhuma obrigação em fazer isso, mas você fez. Eu nem sei como te agradecer, eu...
- Linda, não precisa falar nada – a apertou mais, como se fosse possível. – Você já falou tudo o que eu queria ouvir – ele beijou a cabeça dela, e estremeceu. Não sabia quantas vezes ele tinha feito aquilo, mas para ela era um gesto tão familiar que seus pelos se arrepiavam. – Queria entender o que eu sinto por você, droga, estou ficando louco – soltou o ar que não sabia que estava segurando, soltando uma de suas mãos da dela para fazer carinho em seu rosto.
– Eu também gostaria de entender o que é isso...
- Tesão? – ele disse, rindo malandro, e não disse nada, ao contrário do ele esperava. Ela se aproximou ainda mais, fixando o olhar no seu. Aquela troca de olhares... Maldita friendzone.
- Não aguento mais isso, vou enlouquecer a qualquer momento! – ela disparou, passando a mão no cabelo, claramente agoniada. – É tão óbvio e claro que sentimos atração um pelo outro, por que ninguém faz nada, porra? – estava tendo uma crise de bipolaridade, ou?
- O quê? Mas... – ele não acreditava no que estava ouvindo.
- Argh! Cala a boca! – aquilo foi à deixa para que mesmo tomasse iniciativa, colando seus lábios no dele. Ela sabia que beijava bem, ou imaginava. Mas sentir a língua dele em perfeita sincronia com a sua como se já se conhecessem há milênios enquanto ele puxava os cabelos da nuca dela era uma das melhores sensações que já tinha experimentado. agarrou a bunda dela, dando impulso para que entrelaçasse as pernas em volta dele.
- Gostosa – ele disse, beijando o pescoço de , e descobriu que ficar tão colado a ela do jeito que estava era como a oitava maravilha do mundo. Caminhou até a penteadeira, sentando-a ali. tirou sua camiseta, ela mordeu o lábio inferior. Passou os dedos pelo o abdômen sarado, contornando suas tatuagens, sem pressa alguma. – Eu tenho tanto fetiche por essas tatuagens... – ela sussurrou bem contra o ouvido dele, mordendo o lóbulo de sua orelha em seguida, e ele sentiu todos seus pelos arrepiarem. Voltou a beijá-la com mais pressa do que antes, arrancando a camiseta dela, mostrando o sutiã de renda preto.
- Esse sutiã fica muito bem em você – ele a colocou no colo de novo, indo até a cama. – Mas aposto que sem ele fica mil vezes melhor – ele a jogou na cama, fazendo o mesmo, beijando o pescoço dela, ofegante. – Você tem certeza que quer levar isso à diante? Nós podemos parar aqui, se quiser – ele falou, no fundo rezando para que ela não mudasse de ideia.
- Pare de falar e aja de uma vez! – aquilo soou como música para seus ouvidos.
- Com prazer, linda. – ele sorriu cafajeste, beijando-a novamente, e de novo, e de novo...

17 de novembro de 2016, Hotel Pullman Paris Centre-Bercy, Paris, França, 01h40minam:

– Meu Deus, esse quarto é melhor que meu apartamento inteiro! Eu quero dormir nessa cama para sempre! – disse, rolando na cama como uma criança de cinco anos.
- Está louca? Temos muito que fazer hoje – caminhou até a beirada da cama, e pulou em cima dele, entrelaçando suas pernas em sua volta.
- Eu sei de muitas coisas que podemos fazer hoje – ela sorriu pervertida, dando um selinho e mordendo o lábio inferior dele.
- Não me tente, Russo, se não ficaremos fazendo essas tais coisas o dia todo – ele devolveu o selinho, soltando-a no chão. – Quero te levar para passear, só temos hoje para isso. Amanhã e sábado nossas vidas serão em função do show...
- Você pode-me dizer como vamos passear por fucking Paris sem você ser reconhecido? Sabe, só uma dúvida mesmo – ela olhou para o relógio de pulso, e já tinham passado de uma e meia da tarde. Agradeceu por seu estômago estar se comportando após o almoço (lê-se banquete) que comeram no hotel. – Você viu o que foi aquilo no aeroporto? ELAS ME PEDIRAM AUTÓGRAFOS, FOTOS. ELAS ME DERAM PRESENTES! Eu ainda não estou acreditando nisso... Elas são fofas demais, ! – ela riu, olhando os presentes que ganhou, que estavam em cima da cama.
- Eu nunca vi fãs tão agitadas... Perguntaram mais de você do que de mim! – ele deitou no sofázinho do quarto, relaxando as pernas.
- Seria louco se você dissesse o que andamos fazendo, não? – ela foi até , sentando no colo dele.
- Primeiro: você fica muito gostosa nessa calça jeans rasgada, droga – ele começou a brincar com os rasgos da calça dela. – Segundo: elas acham que somos namorados mesmo, então nem preciso me preocupar.
- E nós somos namorados?
- Não sei. O que você acha?
- Não pergunte pra mim, eu nem sei o que comi no almoço!
- Tudo, né, amor? Não sei para onde vai toda essa comida – ele deu um tapa levinho em sua perna. – Só pode ir para essa bunda enorme aí, parece que ela fica maior a cada dia! – apenas rolou os olhos, rindo, brincando com os botões da camisa dele. – Enfim, voltando ao assunto, nós já passamos da fase de amigos coloridos, certo? Já admitimos ter sentimentos um pelo outro, então somos o quê?
- Sei lá, ficantes? – ela fez um careta. – Mas ficantes não se gostam... Af, eu não sei! – ela saiu do colo dele, indo em direção à sua mala, pegando uma camisa xadrez vermelha e a jaqueta de couro preta, já correndo para o banheiro para se trocar.
- Eu iria te pedir em namoro agora, mas lembrei de que ainda sou um cara romântico. Então vou fazer isso no momento certo – riu, saindo do banheiro, calçando uma botinha preta de saltinho pelo caminho, logo em seguida tirando uma sacola de dentro da mala.
- Cale a boca, e me escute, . Finja que estamos em uma operação secreta, olha – ela mostrou a sacola, e ele fez uma careta de interrogação. – São disfarces – ela rolou os olhos. – Disfarces de verdade, mané.
- Isso foi uma ofensa? – ele levantou, pegando a sacola dela.
- Foi. Você tem cinco minutos para se transformar no Robert.
- Quem diabos é Robert?
- Robert é o nome falso que acabei de inventar para você, agora anda – ela o empurrou para o banheiro, fechando a porta.
- Robert? Russo, sério? Você não tinha um nome melhor? – ele gritou.
- Seu tempo está passando, e você sabe que eu não gosto de esperar ninguém!
- Você está tão ridículo! – ria, enquanto dirigia uma caminhonete que encontraram para alugar. Ele olhou para o retrovisor, vendo John e mais dois seguranças em outro carro não muito distantes. Sua barba falsa estava coçando, e aquele chapéu fedora, assim como a camisa florida estampada, era ridículo demais. Ajeitou os óculos escuros, enquanto ainda ria. Diferente dele, ela estava linda. Usava uma toca e óculos Ray Ban, que ela roubou dele . – Onde estamos indo? – ela secou as lágrimas que caíram pelo ataque de risos, dando uma olhada no relógio de pulso. Estava exausta, um cochilo não faria mal a ninguém, né?

Duas horas depois, Dieppe, França:
- Você sabia que tem praias muito perto de Paris? – ele saiu da rodovia, diminuindo a velocidade, entrando no centro da cidade.
- Eu já estudei, , não sei se sabe – ela espreguiçou-se, pagando o mapa enorme que estava no porta-luvas, lendo-o.
- Af – ele freou, parando no semáforo. – Bem, nós acabamos de chegar a uma cidade que tem uma dessas praias. – arrancou o carro, dobrando uma rua em seguida.
- NÓS VAMOS A UMA PRAIA? DEUS! FAZ ANOS QUE EU NÃO VOU A UMA PRAIA! – ela disse, animada, e ele estacionou o carro na frente de um café.
- Eu sei, você me disse uma vez. Achei que seria legal eu ser a primeira pessoa a te levar em uma depois de tanto tempo – ele sorriu, olhando para ela e tirando o cinto.
- Você é real mesmo? – ela tirou o cinto, assim como ele. – E ainda adivinhou que eu estava com fome! Eu sou uma sortuda, não sou?
– É sim, e em que momento você não está com fome, não é mesmo? – ele pegou a carteira, que estava dentro do porta-luvas, beijando a bochecha dela. – A partir desse momento somos Robert e Antonella, um casal comum de namorados turistando. John e os outros estarão sempre atrás de nós, o tempo todo, então vamos manter a calma e nos divertir – ela concordou, terminando de passar o batom matte vermelho.
- Antonella? Uau – ela riu, colocando os óculos de sol e a touca. – Como eu estou? – ela fez biquinho para ele.
- Gata demais para o pobre Robert – ele deu um selinho nela. – Vamos?
- Vamos. – eles saíram no carro, entrelaçando as mãos e entrando no estabelecimento. Receberam alguns olhares estranhos das pessoas que estavam na área aberta, e com isso, resolveram sentar lá dentro. – Meu Deus! Sinto que não durmo há 90 dias – sentaram-se à mesa, e ela tirou os óculos e a touca, fazendo um coque no cabelo. – Devo estar com umas olheiras horríveis.
- Você fica linda de qualquer maneira, boba – ele sorriu, apoiando os braços com o cotovelo na mesa assim como , e entrelaçou suas mãos.
- Por que você me olha assim? – ela sorriu, e aquele sorriso o fez sorrir.
- Porque eu sou apaixonado por você.
- Ai, essa tocou bem no lugarzinho certo do meu coração – eles juntaram as mãos, percebendo a diferença gritante de tamanhos das mesmas, e riram com aquilo. – Eu não sei o que você fez comigo, pois eu me sinto aquelas bobinhas apaixonadas!
- Olá, bom tarde! – uma moça apareceu do nada, entregando os cardápios, e literalmente enfiou um deles no próprio rosto. – Hm... – ela limpou a garganta. – Eu não sei como dizer isso, mas eu sei que você é o – ela riu, e pareceu congelar. – Não se preocupe, eu não vou falar nada para ninguém, só quero um autografo. – ela arrancou uma folhinha dos pedidos, entregando para junto com a caneta, que sorriu envergonhado para ela. – E você é mais linda ainda pessoalmente! Vocês dois são um casal muito bonito – sentiu as bochechas esquentarem, mas sorriu.
- Nós não somos...
- Muito obrigado, Marie – ele tinha lido no crachá, entregando a folha para a moça. – Nós realmente somos, não é? – ele pegou uma mão de , que soltou o ar que não sabia que estava prendendo, sorrindo sincera para ele.
- Desculpe, não estou acostumada com este posto – ela sorriu para a menina. – Você vai ao show, Marie?
- Ah... Eu não consegui ingresso, eles esgotaram muito rápido. Mas isso já valeu o show todo! – ele riu, ajeitando os óculos de grau.
- Nós daremos um jeito nisso, então. – falou. – Anote seu número em um desses papéis e no dia do show você só fala seu nome que eles te liberam – ele piscou, e a garota sentiu suas pernas fraquejarem.
- ISSO É SÉRIO? – ela falou um pouco alto de mais. – Minha nossa, muito obrigada! – eles sorriram, e a garota não tirava o sorriso do rosto, anotando seus pedidos.

Uma hora depois...

- Desconheço sensação mais libertadora que essa! – gritava na janela, enquanto pisava fundo no acelerador, no caminho para a praia. – Faz tanto tempo que eu não vejo o mar! Você é a melhor pessoa, ! – ela voltou para o banco, ajeitando os cabelos que grudaram em sua touca. não parava de sorrir, e seu sorriso triplicou ao ouvir uma das músicas favoritas dela tocando na rádio. Aumentou o volume, esperando pelo ataque. – O QUÊ? É A MINHA MÚSICA! – começou a cantar sua música favorita da Lana Del Rey, transbordando de felicidade, e a acompanhou, como segunda voz. – It's you, it's you, it's all for you, everything I do I tell you all the time heaven is a place on earth with you, tell me all the things you want to do, I heard that you like the bad girls honey, is that true? – eles cantavam não conseguindo parar de sorrir, enquanto fazia snaps do momento. - It's better than I ever even knew; they say that the world was built for two, only worth living if somebody is loving youuu, baby now you do! entrou em uma estrada à direita, descendo para a praia, e parou o carro. – Chegamos?
- Chegamos – eles tiraram o cinto, e arrancou a barba que estava usando, assim como o chapéu. Fazendo o encarar. – Desculpe, eu não estou aguentando mais – ele tirou a camisa ridícula, pegando sua camisa jeans de manga comprida e a boa e velha amiga que estava no banco de trás, a camiseta preta.
- Melhor você não mostrar esse peitoral definido agora, eu estou a fim de aproveitar a praia – ela abriu a porta, correndo dele.
- Ei, espera! – ele correu atrás dela, e tropeçou em seus próprios pés, caindo na areia. – DROGA! Russo, sua maluca! – ele a alcançou, sentindo o coração acelerar por medo de ela ter se machucado, mas estava rindo. – Você está rindo, isso é sério? – ele sentou na areia, ajudando-a a sentar também.
- Aí! Estava correndo tão feliz que nem olhei para os pés, tinha esquecido como era correr na areia! – ela limpou a calça preta, sentindo a areia nos rasgos.
- Droga, você me assustou – ele mostrou a mão para ela, que estava tremendo. – Enfim, você gostou? – ele mudou de assunto, olhando para o mar. O sol já estava se pondo.
- Se eu gostei? Está brincando comigo? , você é a pessoa mais incrível e fofa que eu já conheci em toda minha vida! – ela deitou no ombro dele, vendo o sol se pôr atrás do mar. – Muito obrigada, de verdade, e eu digo por tudo. Você me tornou uma pessoa melhor, você me ensinou coisas que até então eu não sabia e eu me sinto a pessoa mais sortuda do mundo por você ter me escolhido – ela sorriu, e seus olhares se encontraram.
- Linda – ele entrelaçou suas mãos na dela, fazendo um carinho com o polegar. – Eu nunca te escolhi. Você apenas confiou em mim e eu só estou aqui por que você me escolheu para estar aqui. Você não entende? Eu só estou aqui por que você me deixou ir ficando, você me deu uma chance para te mostrar que eu posso ser diferente dos outros caras que passaram pela sua vida, e eu estou tentando, de verdade, ser o cara que você merece ter. Nunca pense que a culpa foi sua por sempre terem te tratado de uma maneira tão idiota, a culpa é deles por serem imaturos demais para entender que você merece o mundo, e eles perderem a oportunidade. Eu sei que não sou um príncipe encantado, mas eu estou aqui para tentar sempre deixar vivo esse sorriso lindo no seu rosto – ele pôs uma mão no rosto dela, fazendo um carinho em suas bochechas. – Eu que falo muito obrigado, muito obrigado por você ter me escolhido. Muito obrigado por confiar em mim. – não pode conter a lágrima solitária que caiu em seu rosto, e limpou-a de pressa. Fechou os olhos, impedindo que mais lágrimas viessem e respirou fundo, sentindo a brisa maravilhosa batendo em seu rosto. Ela subiu em cima dele, dando-o um beijo apaixonado.
- Meu Deus, me diga que isso não é um sonho – ela limpou o rosto com as mãos, rindo – Eu nem sei como irei retribuir tudo o que você fez e está fazendo por mim, – pôs as mãos do rosto dele, traçando cada centímetro de pele.
- Tudo o que eu quero é que você fique comigo – ele a envolveu com os braços, e sorriu ao sentir o coração dele batendo forte, bem contra o ouvido dela, rezando para que aquele momento nunca acabasse. Ele beijou a ponta da cabeça dela, e se arrepiou, como sempre.
- Eu quero te mostrar uma coisa que descobri faz algum tempo, mas queria mostrar no momento certo – ela colocou a mão do bolso de trás, tirando uma correntinha com um pingente de coração dali. – E, sem sombra de dúvidas, esse é o momento certo – ela abriu o pingente e entregou para ele, mordendo o lábio inferior, esperando sua reação.
- Isso é sério? – ele olhou mais de perto, achando que estava louco por ver o que estava vendo. – Somos... Nós? – ele perguntou, olhando para ela, que riu.
- Não somos nós. Mas parece, não? – ela pegou o pingente, que mostrava a caricatura de um jovem casal, um soldado, que era muito parecido com , e uma moça jovem, que parecia ser irmã gêmea de . – Eu ganhei quando completei vinte anos. Não sei a história exata, pois preciso perguntar para a minha avó, mas pelo o que sei, ele está entre as moças da nossa família há gerações. Ele é passado para a próxima moça quando a que está com o colar, encontra o homem da sua vida, e bem, minha mãe encontrou o dela há dois anos, e então me entregou. Tanto ela como a minha avó ficaram horrorizadas ao perceberem que essa garota é a minha cara, e eu não discordei, achei bem louco, para falar a verdade, mas nem dei muita bola. Até que em alguns dias atrás, quando eu estava morrendo de saudade de você, lembrei-me desse colar. Matt não acreditou no que estava vendo, muito menos eu. Depois disso eu comecei a me perguntar como isso era possível. Mas sei que não tem explicação, assim como o que a gente tem – ela guardou a correntinha de volta no bolso, e olhou para , que parecia ter visto um fantasma. – Ei, ? – ela estalou os dedos no rosto dele, que se assustou.
- Isso é insano – ele disse, passando as mãos no cabelo. – Me diz que você acredita em destino agora, por favor?
- Talvez sim, mas vai que é apenas uma coincidência? – ela riu, provocando-o. – Tô brincando, é bizarro, não?
- Muito, estou todo arrepiado – ele mostrou o braço. – Você deveria ter me mostrado antes, poxa! Eu adoro pesquisar sobre isso, e meu Deus, somos nós dois ali!
- Quando passarmos pela Itália e você for conhecer minha família, nós tiramos todas as dúvidas – ela sorriu, e gargalhou.
- Família? Ih... É tarde demais para cair fora? – ele brincou, enquanto saia de cima dele, tirando a areia do bumbum.
- Nem nos seus sonhos, .

Quatro horas depois, Pont des Arts, Paris, França, 12h00minpm:

- Você é muito esperta por ter trazido outra roupa – falou, enquanto via se trocar pelo espelho retrovisor. Ela vestiu um vestidinho branco de bolinhas, que combinava com a jaqueta de couro e a botinha que já usava.
- Coloca a minha toca, se não vão te atacar a cada passo que você der – ela entregou a touca preta para . – Ufa! Sinto-me 50% limpa! – ela voltou para o banco do carona, e começou fazer duas trancinhas em cada lateral do cabelo, olhando para o espelho do quebra-sol. – Onde estamos, guia?
- Nós estamos naquela ponte dos cadeados do amor, sabe? – ele disse, enquanto digitava no celular.
- SÉRIO? Aquela dos filmes? – ela disse empolgada, e o celular dele não parava de vibrar. – O que aconteceu?
- Erin disse que ninguém sabe onde estamos, e isso é bom. Mas ela ficou p da vida quando eu disse que iríamos ficar aqui à noite – ele riu, guardando o celular no bolso da calça. – Mas eu disse que está tudo sob controle.
- John está aqui? – ela virou-se, vendo o carro preto bem atrás deles. – Ok, ele deve estar puto por estar nos seguindo o dia inteiro – ela deu uma risadinha, juntando as duas trancinhas do lado de trás do cabelo, amarrando-as com um elástico. Soltou um “yes” ao ver o resultado que queria. Pegou um delineador, rezando para que conseguisse fazer um olho de gatinho que preste. Era péssima em maquiagem.
- Não sei, só consigo pensar no quanto você está fofa nesse vestido e com essas trancinhas – ele ajeitou a touca do cabelo. – Não sei como consegue se passar de uma roqueira suave para uma menininha delicada – ela sorriu para ele, guardando o delineador. Não muito contente com o resultado dessa vez, mas não queria se estressar com isso.
- E você tá um amorzinho com essa touca – ela fez um carinho no rosto dele, dando um selinho. – Ok, chega de viadagem, eu quero passear!
- Nossa, como você é insensível! – ele pôs a mão no coração, fingindo estar triste. – Vamos sair logo daqui antes que entre em depressão! – eles abriram a porta do carro, e foi até ela, juntando suas mãos. – Eu acho que não dá mais pra sermos Robert e Antonella, né?
- Estou nervosa, – eles começaram a caminhar na calçada. – Nós nunca saímos assim antes, estou com medo de que algo dê errado - ela olhava para todos os lados, aflita.
- Nada vai acontecer, linda, John está com os caras bem atrás de nós - eles subiram a ponte, que tinha uma forma de arco.
- Eu estou apaixonada por essa cidade - eles andavam lentamente, quase sem piscar, admirando as luzes que vinham de todos os lados. olhava fixamente para um casal de velhinhos abraçados, que estavam sentados em um banquinho, à beirada do rio Sena. Ficou impressionada, pois, era quase de madrugada, e eles estavam ali. – Bem, chegou a hora do cadeado – ele pegou um cadeado do bolso, e não acreditava que ele já tinha planejado aquilo.
- Eu não acredito – ela pegou o objeto da mão dele, vendo seus nomes ali, com vários corações em volta. – Você é inacreditável, sério! – eles foram até a beirada da ponte, que já estava lotada de cadeados, e o pegou, girando a chave, abrindo-o. – Espera! Isso não é, sei lá, muito convencional? Algum dia eles vão ser retirados daqui! – fez uma careta, de algum modo admirado com o pensamento dela. – Eu tive uma ideia, vem – o guiou, e alcançaram o outro lado da ponte. Algumas garotas começaram a segui-los, mas resolveram ignorar enquanto podiam. aproximou-se do casal de velhinhos que vira mais cedo. – Boa noite, nós vimos vocês lá de cima da ponte e só queríamos dizer que vocês são muito lindos – sorriu para o casal, torcendo para que eles entendessem seu inglês. Eles sorriram e se entreolharam, achando o mesmo do jovem casal, e o senhorzinho abraçou sua companheira.
- É muito gentil da parte de vocês, queridos – a senhorinha elegante falou, encantada com o gesto. – O que fazem na França?
- Bem, nós... Nós... Estamos viajando pelo mundo – falou, trocando um olhar cúmplice com , achando um máximo ser tratado como uma pessoa normal. – E vocês?
- Nós estamos comemorando nossas bodas de diamante – a senhora falou, e e fizeram uma careta discreta, sorrindo, não fazendo a menor ideia do que aquilo significava. – 60 anos de casados – o senhor falou como se lesse o pensamento deles. – Nos conhecemos durante a segunda guerra. Ele me salvou, e desde então é meu anjo da guarda – a senhorinha disse orgulhosa, pegando na mão do amado. e se entreolharam não acreditando no que estavam ouvindo, e pareceram esquecer-se de como se respirava. tocou o colar que estava em seu pescoço, com o coração acelerado e uma vontade repentina de chorar. Aquilo não poderia ser real. – O que aconteceu, amados?
- É... É – gaguejou, levantando o rosto, emocionada com aquilo. – Nós queríamos que vocês ficassem com o nosso cadeado – completou a frase para ela, entregando pra a senhorinha, e os velhinhos sorriram alegremente. – Eu estou olhando para vocês desde que chegamos aqui, e senti que vocês tinham algo de especial – olhou para , apertando mais forte a mão dele. – Nós ficaríamos muito felizes se cuidassem dele para nós. A ponte já está muito cheia – ela abraçou de lado, e o casal à frente deles pareciam emocionados.
- Será uma honra – o senhor disse, pegando o cadeado da mão da esposa, guardando-o no bolso de sua camisa. – Nós o guardaremos em um lugar especial da nossa casa – ele concluiu.
- Muito obrigado! – disse, apertando a mão do senhor, fazendo o mesmo com a senhora.
- Posso abraçar vocês? – disse, e eles concordaram, rindo, achando a moça adorável. – Muito obrigada! Isso é muito importante para nós! – ela os abraçou, e a cutucou, mostrando que havia fãs acenando para eles de longe. – Nós precisamos ir – ele disse, pegando a mão dela. – Que vocês sejam muitos felizes! – eles acenaram e correram, mas foram parados por um grupo de fãs, as mesmas que estavam acenando antes. tirou foto com todas elas, e até tirou algumas. O grupo começou a aumentar, e eles ficaram quase cercados.
- Ok, meninas, nós precisamos ir agora, encontro vocês no show! – catou a mão de que estava conversando com algumas garotas pela multidão. – Essa é a hora que a gente corre, combinado? – ele a encarou sorrindo, e apenas concordou com a cabeça, afastando-se dali. – É só virar a direita que chegaremos à Allée des Cygnes, aquela passarela que fica entre o rio – ele disse ofegante, e eles viraram, correndo, literalmente, no meio do rio. Não sabiam exatamente por que e do que estavam correndo, mas a sensação era libertadora. Não conseguiam para de sorrir em momento algum. a rodava, como se estivessem dançando, parecendo um casal de crianças brincando. Atravessaram uma espécie de túnel, correndo mais um pouco de mãos dadas, até ficarem cansados. Subiram as escadas que davam inicio a ponte mais famosa de Paris, Bir Hakeim.
- Socorro! Sinto que corri uma maratona! – ela disse, recuperando o fôlego, assim como , que tirou a touca da cabeça. Olharam para trás, vendo John e os outros seguranças afobados, e riram com a cena. Era engraçado ver John sem terno. – Meu Deus, isso é lindo demais! – ela o puxou, correndo para o outro lado, no corredor de pedestres. Ficaram ali por alguns segundos, admirando a Torre Eiffel, que estava muito próxima agora.
- Eu nunca tinha vindo aqui antes – falou, admirado, abraçando-a por trás, cheirando seu pescoço. – Muito obrigado por estar aqui comigo. Acho que eu nunca teria coragem de ter feito isso – ela o abraçou de lado, e eles começaram a andar devagarzinho entre as colunas, felizes pelo pouco número de pessoas. – Vem aqui – a puxou, encostando-se a uma coluna da ponte, enroscando os cabelos dela em sua mão, o que sempre fazia quando estava prestes a beijá-la. E foi o que ele fez.
- Nossa! O que foi isso? – falou, completamente desconcertada.
- Não sei, estava com vontade de te beijar – ele a abraçou, e tinha certeza que o perfume dele era o melhor do mundo.
- Faça isso mais vezes que eu não respondo por mim – ela entrelaçou suas mãos na dele, atravessando a estrada, e foram para uma espécie de mirante, onde tinham uma visão privilegiada da Torre Eiffel. – Caralho! – eles disseram juntos, rindo, caminhando até a beirada, e seus olhos brilhavam.
- Você quer namorar comigo? – se pronunciou, tirando do transe. Ele pegou algo no bolso de trás da calça, e o coração dela gelou. Ele não...
- É claro que não é nada disso, você me jogaria daqui de cima – ele respondeu o que ela estava pensando, e deu um tapa nele, soltando o ar. – Eu encontrei lá na ponte dos cadeados – ele pegou na mão dela, colocando um anel de arame em seu dedo.
- Isso é sério? – ela riu, achando o momento muito fofo. – Mas eu nem disse se queria! – ela olhou a própria mão.
- Nem brinque com isso – ele pegou o outro anel, sorrindo, e entregou para ela. – Espero que sirva – ela pegou a mão dele, colocando o anel em seu dedo, que serviu perfeitamente. – Este anel está amaldiçoado, você nunca mais sairá do meu lado, Russo, está ferrada – ele riu maleficamente, como nos filmes.
- Nunca gostei tanto da ideia de ser amaldiçoada – ela riu, escorando-se na grade de proteção, dando um selinho nele, e ficaram ali abraçados por alguns minutos.
– Estamos sendo fotografados – virou para o outro lado, escorando os braços na grade. – Sabia que estava bom demais para ser verdade!
- Ok, calma. Onde eles estão? – ele olhou para todos os lados, vendo três caras escondidos entre as colunas da ponte. – Acabei de achar – ele sorriu, acenando para eles, e os flashes aumentaram.
- O que diabos você está fazendo? – virou-se, pegando a mão dele, receosa.
- É isso que eles querem. Se você está no jogo, tem que conhecer os jogadores. Ok, vamos dar o que eles querem. É só fazer algumas caretas e eles vão embora – não acreditou no que estava ouvindo, mas resolveu ficar quieta e fazer o que pediu. Eles começaram a fazer algumas caretas, se divertindo, por incrível que pareça. se empolgou, e subiu nas costas dele, lembrando-se do primeiro dia em que se conheceram. – Nossa, isso me lembrou o dia em que ficamos trancados – ele riu, caminhando.
- Eu estava pensando nisso agora mesmo – ele soltou “ah, é mesmo?”, referindo-se ao fato de que eles sempre liam o pensamento um do outro.
- EI, VOCÊS! – John gritou, vindo à direção deles. – Chega de pega-pega, vamos para o hotel, crianças! – eles riram, e saiu das costas de , pegando em sua mão.
- O que você achou de hoje? – perguntou, com deitada em seu ombro no banco de trás, enquanto estavam indo no carro de John para o hotel. – ? – ele virou-se, vendo que ela dormia feito um anjinho, e riu com a cena. Aquela carinha de anjo! Deus, ele era tão estupidamente apaixonado por ela!

19 de novembro de 2016, Arena AccorHotels, Paris, França, 05h00minpm:

estava sentada na beira do palco onde aconteceria o primeiro show da turnê mundial de , observando as vinte mil fucking cadeiras que preenchiam o local. Ela imaginava – ou tentava – imaginar a loucura em que aquilo estaria a dali apenas três horas, e, mesmo que nunca tivesse tido a oportunidade de estar por trás dos bastidores como estava agora, sabia como funcionava. Sabia a emoção e a energia que rolava quando os portões abriam, sabia que para várias garotas, hoje, seria o melhor dia da vida delas. Sabia disso por que já foi fã um dia, e entendia, nem que se fosse só um pouquinho, o que elas sentiriam quando vissem – o seu – entrando naquele palco. Sabia se divertir em um show, isso ela era especialista. Sabia gritar "eu te amo, porra!" na hora da adrenalina, ainda mais quando o show era do John Mayer. Ela só não tinha parado para pensar que, milhões de garotas – sem querer ser dramática nem nada do tipo, mas realmente eram muitas – já gritaram "eu te amo, porra!" para – o seu – e ela, que estava ao lado dele há meses, ainda não tinha professado às três palavras – ou quatro. Seria maneiro se não fosse quase assustador, pensar que o amor que elas sentiam, talvez fosse mais sincero e maior do que ela mesma sentia por ele. A verdade é que ela nunca soube como amar alguém, muito menos quando está amando ou não. É claro que ama sua família, mas a situação é diferente. Ela sabia que gostava muito dele, e não conseguiria nem se imaginar afastada daquele abraço caloroso e aconchegante. Sabia que era muito importante e que ela não saberia o que fazer longe daquela proteção que ele tinha com ela. Só não sabia se aquilo de fato, era amor. Não sabia onde ficava o limite entre paixão e amor, e ficava amedrontada por pensar que, se não descobrisse, a fila iria andar. Literalmente, pois a fila lá fora era gigantesca. Existiam garotas bem mais bonitas, legais e, principalmente, cientes do que era a porra do amor. Ela ficava com medo de que se não conseguisse retribuir todo o amor que tinha com ela, acabaria sendo insuficiente para fazê-lo feliz. E, ela via, mesmo que estivesse cega, que ele a amava. Ela sentia. Sentia nos gestos, no carinho e na maneira que ele sempre a tratou. Respirou fundo, tentando afastar aqueles malditos pensamentos. Sabia que estava sendo dramática demais pensando daquela forma. Soltou o elástico dos cabelos, tentando arrumá-los, e puxou o casaco de para si, sentindo o cheirinho único dele ali. Como era boba! Se não soubesse como amá-lo do modo certo, ele a ensinaria. E foda-se! Ela riu sozinha, lembrando-se do quanto fica sensível quando fica longe dele, e, mesmo que a sensível fizesse parte dela, a “ogra” como diz Matt, era seu verdadeiro eu. Por que se importar com a parte ruim, sendo que ela se ama, acima de tudo? Ela ama ser a . Ama ser corajosa, determinada, sem medos, e talvez, com alguns problemas sentimentais. Ama até seus defeitos. também a ama, bem, ela tem quase certeza que sim. Do que mais ela precisava, mesmo?
Ela levantou do palco, checando-a o horário no relógio de pulso. Os portões abririam a exatos 15 minutos, e ela estava ali, viajando no mundo da lua. Correu para os bastidores, encontrando Chris, o coreógrafo, pelo caminho.

- Ei, gatinha! – Chris a reconheceu de longe. – Você está um arraso, amei o cropped! E o casaco do namorado fechou com chave de ouro! – ele a girou, dando um assobio. – Esses coturnos com esse salto maravilhoso, pode ter certeza que roubarei!
- Hey ,Chris, obrigada! – ela deu um beijo em seu rosto, sorrindo. – Você sabe onde está? Não o vejo desde depois que almoçamos.
- Me parece que ele está no Meet&Great, mas já deve estar saindo – ele sorriu, dando uma mordida na maça que estava com ele. sorriu de volta, caindo na realidade e lembrando que seu namorado era um pop star.

Arena AccorHotels, Paris, França, 07h30minpm:

- Você não tem noção da vontade que eu estou de arrancar esse short – deu um selinho nela, pegando a água de suas mãos.
- Você acabou de fazer isso! – o tapeou, arrumando a camisa dele, que ela mesma tinha passado algumas horas atrás.
- Eu tenho a namorada mais gostosa do mundo, a culpa não é minha!
- Ok, rei do sexo, você tem que ir lá com o pessoal agora, suas fãs estão gritando por você! – sorriu, entrelaçando suas mãos na dele, fechando a porta. – Acho que estou mais nervosa que você, eu ein! – ela disse, enquanto passavam pelo corredor.
- Você me acalma – ele a abraçou de lado e beijou sua cabeça.

Quando deu-se por conta, já estava pronto para subir no palco, dando pulinhos de ansiedade. Ela estava mandando todas as energias positivas para ele, e não conseguia parar de sorrir, principalmente quando ele a olhava, de segundo em segundo, sorrindo ainda mais. O cronômetro começou a contar: um minuto. Um minuto e os gritos pareceram triplicar. A equipe estava toda ali, ansiosa, e não estava diferente. Para falar a verdade, estava mais nervosa do que qualquer um. 30 segundos. As fãs enlouqueceram quando os acordes da primeira música começaram a tocar, mas a garota estava passando por uma batalha entre seu cérebro e coração tão intensa que não conseguia ouvir nada ao seu redor. Ela precisava fazer algo, e queria fazer. olhou-a pela ultima vez, e ela sentiu seu coração palpitar na velocidade da luz. Precisava fazer algo, ela queria fazer. ainda a encarava, como se também estivesse esperando por aquilo.
E aconteceu. No décimo segundo, as três palavrinhas saíram da boca dela como um sussurro, fazendo-a soltar o ar que ela não sabia que estava segurando. Elas não foram forçadas, simplesmente saíram, fazendo com que sorrisse como nunca sorriu na vida, soltando um “eu te amo também”, quase que emocionado. Aquilo fez o coração de querer sair do peito, de tanto que saltitava, e ela pensou que teria um infarto, ali mesmo.

- PORRA! – ela completou. Ele a amava também. E era real e oficial. Todos presenciaram aquele momento, soltando um “awn” e indo abraçá-la, assim que entrou no palco, fazendo a arena tremer. Ela tinha absoluta certeza agora. Ela entendeu, nas frases exatas das músicas que ele cantava exatamente para ela, olhando pra ela, que sabe se lá quantos significados tinham as três palavras, sentia algo muito maior que aquilo. Ela nem sabia o que era, mas sentia. Sentia quando seus pelos arrepiavam e seu coração batia mais forte. Sentia quando ele estava ao lado dela, fazendo carinho em seu cabelo. Ela sempre sentiu. Tinha absoluta certeza de que tinha muita sorte por estar ali, de pertencer a ele, e a mais ninguém. Por encontrá-lo no meio de tanta bagunça, e, por ele entender que ela, por si só, era uma bagunça. E mesmo assim ter ficado.

Ela percebeu, depois de tudo, que, ninguém nasce com um manual, ditando instruções e regras de como você deve viver. Você apenas vive. E é assim com o amor. Não há explicação lógica para o amor, você não vai aprender como amar, você não vai saber a hora que isso vai acontecer e você não vai entender. Nunca vai entender. Você apenas vai amar.
As melhores coisas da vida acontecem quando você menos espera, já dizia o ditado. ficou ali, no mesmo lugar o show inteiro, trocando olhares com . Ela sentia-se amada, de verdade, como nunca se sentiu na vida. E o mais louco, era que ela não estava sonhando, nem lendo um livro clichê e romântico do Nicholas Sparks ou idealizando o namoro perfeito. Ela apenas estava ali, onde foi destinada a estar. Onde deveria estar. E ela sentia e queria ficar ali por mais meses, anos, séculos. E tinha certeza disso.

20 de novembro de 2016, Hotel Pullman Paris Centre-Bercy, Paris, França, 10h00minam:

-
Bom dia – sorriu, ao ver , que estava deitada em seu peito, abrir os olhos. Ficou feliz por ela ter dormido bem, diferente dele, que ficou o resto da noite que lhe sobrou, depois da festa que aconteceu no hotel, acordado.
– O que foi? – ela perguntou, vendo ele a encarar, espreguiçando-se, dando um selinho nele.
- Eu não consegui dormir – sorriu, fazendo cafuné em seu cabelo. – Não consegui tirar meus olhos de você.
- Por quê? Você tinha que descansar, . De tardezinha já vamos viajar.
- Eu sei, mas eu estava pensando em ontem... Em tudo. Nós nos acabamos na festa, depois fomos para o quarto e bem,... – ele deu um sorriso sapeca, lembrando-se do que fizeram. Só para comentar, dançou uma música sensual do Maluma para ele. E caralho, o que tinha sido aquilo?! – Enfim, sobre o que aconteceu antes de eu começar o show... Foi... Surreal. Apesar de meu coração ter quase saído do peito, você fez com que eu desse o melhor de mim no palco, e eu me sinto tão gay por estar falando assim, mas porra, você é incrível. Você falou aquilo na hora certa, entende? Parece que eu estava precisando daquilo, e você leu meus pensamentos. Então, obrigado. Obrigado por ser maravilhosa do jeito que é – sentou-se na cama, para ter uma visão melhor de . Ele estava sorrindo torto, sem mostrar os dentes, deixando-o mais fofo do que o habitual. Seus cabelos estavam bagunçados, os olhos cor de mel brilhantes e seus músculos contraídos, esperando uma reação dela, que o olhava encantada demais para conseguir dizer alguma coisa. Ela apenas sorriu, subindo em seu colo e abraçou-o, como nunca antes. Queria falar alguma coisa, mas nada saia. O perfume dele parecia mais viciante do que o normal, e queria que aquele momento não tivesse término.
- Eu te amo – disse a apertando mais. – E escrevi uma música para você, durante a madrugada – ele saltou da cama, pegando o violão que estava em cima do sofá.
- Ai, meu Deus, por que você é assim? – ela escondeu as mãos no rosto, sentindo-se apaixonada demais pelo cara a sua frente.
- Assim, maravilhoso?
- É! E convencido também... – ela rolou os olhos, brincando com ele. – Anda logo, já estou ansiosa!
- Tá, tá, esquentadinha – ele sorriu, tocando os primeiros acordes. – I wanna follow where she goes...





Fim?




Nota da autora: Eu nem sei o que dizer apenas sentir. PRIMEIRA FIC REAL OFICIAL!!!! Gostei muito de escrever essa história, e me diverti muito com as crises de imaginação e pesquisas que tive que fazer, tudo valeu a pena. Tentei – não sei se consegui – dar um significado maior para a música do Shawn, que é incrível por si só, e tem um vídeo clipe mais incrível ainda que se existe graças a Deus porque existe, já que ele me ajudou MUITO a ter criatividade para continuar a história. Desde já, agradeço quem ler, gostar e se apaixonar por essa fic assim como eu sou apaixonada, e pedir, de coração, que deixassem um comentáriozinho, critica construtiva ou qualquer outra coisa, gostaria MUITO de saber o que vocês acharam! Muito obrigada, lindas, até a próxima!



Nota da beta: Que fanfic mais fofinha, Mi! Parabéns pelo excelente trabalho, amei demais a forma como você desenvolveu e deixou tudo muito levinho! Enfim, arrasou, mana! <3

Lembrando que qualquer erro nessa atualização e reclamações somente no e-mail.




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