Are you returned to me? And if I ask you to...

- Mas ela é a mais nova, mãe! – Foram as primeiras palavras que entraram pelo meu ouvido, fazendo com que eu acordasse.
Abri lentamente um dos olhos, aquele que não estava no travesseiro. Levei a mão com o relógio de pulso de meu pai até os meus olhos para poder ver as horas. 8h16. Por que a voz irritante de minha irmã entrou pelos meus ouvidos justamente a essa hora? E por que a luz do meu quarto estava acesa?
- Por isso mesmo! – A voz da mamãe estava aguda demais! Qual era pior? Não, e o pior. E o respeito por mim? Eu sou algo tão repugnante ao ponto de fingirem que não tenha ninguém dormindo naquele cômodo? – Você já, já se casa com o Carlos, e ela vai ter que se mudar pro seu quarto. Será que você poderia fazer o favor de facilitar pra gente, Nathália?
- Mas por que ela tem que ter tudo novo e eu tudo usado?
A voz dela foi abafada por causa da porta do armário que ela mexia. E, pela voz de sua mãe, provavelmente estava no cômodo ao lado, a cozinha. E pelo barulho a mais, dava para perceber que ela estava assistindo à televisão. Jornal da matina. Os jornalistas do programa sempre me dão sono. Muito sono.
Escutei algo se mexendo no quarto e logo vi a porta sendo fechada. Tá, semi-fechada. Dava para ver a luz vindo da cozinha e as vozes ainda eram escutadas perfeitamente bem.
- Não será usado, já lhe disse. Nós vamos reformar.
Ah, bate boca logo de manhã é algo totalmente estressante! E além de tudo, sua mãe estava dando corda!
Barulho de água correndo, e algo como se estivesse sendo girado...
- E eu não posso comprar a minha cama? – Nathália perguntou, como se estivesse com algo na boca. Acho que ela estava escovando os dentes.
- Você já prometeu a seu pai que vai pagar o box. Primeiro você compra o box e, se sobrar dinheiro, você compra sua cama de casal.
Cama de casal. A única coisa realmente boa que ia ficar para mim quando ela fosse morar com o noivo e futuro marido. Sem contar o quarto maior, que também ficaria para mim. Ai, desculpa, sou esperta demais. Tá, mentira.
- Mas a vai ficar com tudo novo, e sabe-se lá com o que eu vou ficar – ela protestou.
Menina teimosa! E olha que ela nem é taurina. Não, eu não ligo para esse treco de horóscopo, simpatia e afins... Minha professora de Biologia que um dia disse que ela era teimosa porque ela era taurina... Vá saber!
- Nathália! – eu praticamente gritei com a minha voz rouca. Chega de escutar uma discussão super construtiva. – Fecha a merda da porta e pára de berrar porque o meu ouvido não é penico, muito menos a essa hora da manhã.
Escutei-a interromper o que ela ia continuar a falar, fazendo um barulho estranho com a boca. E logo depois, com um gesto bem simpático ela bateu a porta. Virei-me para o lado, vitoriosa, e dormi de novo.


Barulho agudo demais, barulho agudo e frenético demais. Ah, telefone. Odeio acordar com telefone. E o que mais me irritava era o fato de ter que dormir na beliche, porque tinha que descer aquele rio de degraus pra chegar no chão. Tá, eu sempre descia de costas para a escada, apoiava o pé na mesinha do computador, que fica do lado, e depois da mesinha pulava no chão, ou então na cadeira giratória do computador. Era uma aventura incrível!
Não dei o trabalho de correr, tanto porque eu estava morrendo de sono, tanto porque eu sabia que seria trabalho em vão. Fazia tempo que ele tocava; já, já, pararia. Dito e feito. Pisei no assoalho de madeira da sala e ele parou de tocar, como se fosse um truque do destino. Tá, exagerei e percebi. Fui até o telefone só pra olhar na bina quem era o importuno que me acordou, mas não reconheci o número.
Voltei para o meu quarto e só então eu reparei na bagunça que minha simpática e doce irmã tinha deixado. Ela podia muito bem ter arrumado a cama, enquanto ela gritava com a minha mãe, ao invés de ficar se olhando no espelho para ver se o cabelo estava bom, ou qualquer coisa que uma patricinha feito ela poderia fazer ao invés de dar ao trabalho de arrumar sua bela cama. Sem contar que parecia que um furacão passara por lá. Na mesa do computador, estava o secador (ah, descobri o que eu tinha chutado sem querer!), com escovas e piranhas, sem contar um brinde que vinha com aquilo tudo: cabelos que caíram quando ela puxava ou para alisar com a chapinha, ou com o secador. Ew, ok? Ew. Na cama, o edredom estava todo embolado, e dentro dele, estava enrolada a camisola dela. Ew, de novo. Na cadeira da escrivaninha, estava um monte de roupas que ela usara no dia anterior, e, logo embaixo, um montinho de sapatos. Eu era a empregada dela. Empregada particular.
Eu fiz tudo do jeito mais rápido e fácil: peguei tudo e joguei no armário dela. Ah, gente, modo de falar, né? Arrumei a minha cama, na beliche, e a dela. E depois dobrei as coisas dela e coloquei na parte lisa de seu armário. Ela que colocasse na gaveta depois. Guardei tudo e deixei aquilo um brinco. Tá, um brinco na aparência; tinha que limpar. Mas naquele dia, não.
Barulho agudo e frenético demais mais uma vez. Sai do quarto e de novo fui para a sala até o meu objetivo, que era fazer, da maneira mais rápida, aquele silvo cessar.
- Alô? – perguntei seca, ainda com a voz rouca, pela carência de usá-la naquela manhã.
- ? – Awn, voz fofinha demais, voz fofinha demais.
- Naju? – perguntei, com um sorriso de orelha a orelha, e, de repente, todo meu mau-humor desapareceu.
- É! É a Naju! , que saudades de você! Que saudade de escutar a sua vozinha linda. Ah, esqueci, você é toda perfeitinha!
Uma das qualidades da Naju é quando ela se empolga. Ela se empolga e fica muito fofinha. A nossa amizade era assim mesmo. Uma falando que a outra era fofa. A mais fofa é ela, pode ter certeza. E bom, a Naju é uma das minhas melhores amigas. Uma das melhores mesmo. Ela é a pessoa que qualquer um pode querer conhecer, todo mundo vai se apaixonar de primeira. Ela tem um espírito que faz com que ela seja a pessoa com energia indiscutível. Ela tem todas as qualidades que me fazem ser fã dela. E dizem que nos parecemos, muito! No jeito de falar, de escrever, de brincar, em tudo! E é por isso que eu sempre estava com um sorriso estampado no rosto. Quem não gostaria de se parecer com seu ídolo?
Eu comecei a rir do desespero dela, e várias vezes tentei falar um “Naju, calma. Respira!”, sempre interrompido por ela.
- Ah, desculpa, ! Fala, pode falar. Fala, ! – ela falou, quando ela percebeu que eu tentava lhe dizer algo. Era minha vez de empolgar.
- Naju, me fala: Aonde você está? Por que você sumiu? – eu lhe perguntei, ainda com ar risonho.
- , o Ramon tá do meu lado me impedindo de falar aonde a gente tá. Ai, Ramon, calma é a ! – Escutei alguns barulhos estranhos no outro lado da linha e imaginei que o Ramon estava tentando tirar o telefone da boca da Naju. Eu ri de novo. – Mas eu quero falar, . Eu juro que eu quero. Mas eu não posso. Tá, posso, sim, porque de um jeito ou de outro você vai descobrir. Então vou dar uma dica, ok? Vou dar dica, sim, Ramon! Ela é a minha melhor amiga linda, então sai! – Eu ria o tempo todo. Como ela pode ser tão fofa? Quero apertá-la, sério. – , EU TE AMO! – ela gritou e eu gelei. Não que ela tivesse gritado no meu ouvido, porque não foi. Foi de outro lugar. Não sei como, mas eu consegui escutá-la perto de mim. – ! ! ! AQUI! – Olha lá! Eu escutei de novo. Será que a saudade me deixou tendo alucinações? Escutando vozes? – AQUI FORA, LINDA! – Ah, ela leu meus pensamentos? Deixei o telefone cair e, no meu ato desesperado, desatei a correr até a porta, destrancando-a com força. Olhei para baixo, lá para fora do quintal. Lá estava Naju acenando freneticamente com Ramon do lado, não sabendo se ria da namorada ou se escondia por tal escândalo.
Tirei a chave da porta e desci a escada pulando de dois em dois degraus. A Mel, minha cachorra, veio correndo atrás de mim, pulando, como se eu fosse brincar com ela. Ela parecia uma coelha. Pra falar a verdade, ela parecia tudo, menos uma cachorra.
Coloquei a chave do portão meio que tremendo e abri a porta. Tá, escancarei. E antes que eu pudesse fazer qualquer coisa, eu senti alguma coisa me apertando, me sufocando. A Naju, né? Retribui o seu abraço, mas só depois que o Ramon agarrou a Naju falando para ela se acalmar para que eu conseguisse respirar. Acho que ele viu a minha cara ficando roxa... Mas eu comecei a rir. Awn, a Najuzinha ali, pertinho de mim. Não agüentei quando eu a vi sorrindo, fui até ela e a abracei forte. Na verdade eu que a esmaguei, dessa vez.
- Ok, ! Eu acho que vocês duas querem ir pro hospital – disse Ramon, tentando esfriar o momento ternurinha entre eu e a Naju. – E, tipo, se acontecer algo com vocês, tudo bem, vocês estarão salvas. Mas e eu? Eu vou pra cadeia, sabiam? Suspeito de homicídio. Destino cruel o meu, urgh. – Eu o olhei por cima do ombro da Naju, que começava a subir e descer de acordo com sua risada. – Não quero nem saber o que vai ser do meu destino.
Ele fez uma careta que me fez rir; rir alto. Aquela minha risada asmática, sabe? Tá, não sabe. Mas é uma risada tão asmática, que parece que eu vou morrer asfixiada.
Eu o olhei novamente enquanto via Naju e ele olhando para mim com uma cara assustada e, ao mesmo, tempo rindo da minha risada, não sabendo se eu estava bem ou se eu estava mal. Só riam de mim.
- Sinto muito, meu bem! – eu lhe disse, quando finalmente consegui respirar e me acalmar. – Mas eu não vou abraçá-lo e nem lhe falar “oh, quanto tempo!”, porque eu lembro que quando vocês estavam fora, você tirava o telefone da mão da Naju só pra falar pra mim que você estava a abraçando. – Eu fiz uma cara de magoada. Aquele meu típico biquinho. – E agora, você sofrerá as conseqüências, porque eu vou seqüestrá-la, pra mim. – Eu me virei e abracei a Naju como se não fosse mais soltá-la, rindo.
- Chata! – Ele me deu língua e eu ri de novo.
Eu olhei para os dois lentamente. Ta, eu olhei mais pra Naju. Mas eu os olhei e sorri. Sorri tão veementemente que eu podia sentir minhas bochechas doerem. Alguém nunca saberá o quanto me faria feliz poder ver a Naju assim de perto de novo. Mas na última vez, eu a vi de relance e nós duas estávamos tão apressadas que nem deu para eu reconhecê-la. Ou ela me reconhecer. Também porque estávamos muito afastadas na época. Metrô. Quem se acha num metrô, em São Paulo, e em plena Hora do Rush? Mas minha felicidade de estar lá ao lado deles eram tão grande que eu nem sabia o que dizer ou falar. Fui pela minha obediência, digo, educação.
- Vem, entrem! – Sorri a eles. – Meus pais estão fora, comprando coisas para a casa nova, e tal. – Eu entrava na garagem para dar-lhes passagem, e eles subiam o primeiro degrau da escada para que eu pudesse fechar a porta. Falta de espaço, é, eu sei. – Tipo, graças a Deus! Não agüento mais meu pai me controlando. Tipo, seguindo todos os meus passos e tal. – Eu passei ao lado deles e subi as escadas, vendo-os me seguirem enquanto eu falava. – Desde que hora vocês estão aqui? – Eu passei ligeiramente a mão na cabeça da Mel, que pulava em mim, pedindo colo. Mas isso foi antes de ver os mais novos visitantes. A traíra, quando viu os outros atrás de mim, foi até eles pulando nos dois, ficando tonta, porque não sabia se pulava primeiro na Naju ou no Ramon. Eles riram e tentavam fazer carinho na cabeça dela. – Mel, desce! – Traíra! Eu disse, ela é uma trairazinha! Continuou ali, pulando. Como se a dona dela não tivesse falado nada. – Mel! – Eu praticamente gritei, sendo repreendida pelo Ramon.
- Pára de ser chata, ! Deixe-a aqui! Ela é simpática, um amor. – Gay. Tá, brincadeira.
A Naju, sim, era um amor. Ela se agachou e ficou segurando o rosto do pequeno ser canino fazendo careta, falando com uma voz infantil como se a outra a entendesse. Já disse que às vezes a Naju parece tanto comigo que me assusta? Pois é, me assusta.


- Mas então! – Ramon gritou. – Eu me chamo Ramon e eu existo, nem sou invisível.
Eu adoro irritá-lo, é engraçado. Mas dessa vez eu não fiz por mal, juro! Eu fiquei tão empolgada com a Naju que me esqueci dele. A Naju correu até o sofá que ele estava sentado, rindo. Own, que bonitinho. Parecia um eminho ali, no mundo excluído dele. O cabelo ajudava, é... Tá, parei! Mas é sério, eu adoro irritar o Ramon.
- Eu vou até a cozinha ver se tem algo pra beliscar antes que os meus pais cheguem – anunciei, vendo que eu parecia uma luminária. Pelo menos não estava no meio dos dois. – Eles disseram que vamos comer churrasco e, até esquentar a churrasqueira e aquelas coisas todas, eu morro de fome.
Eles riram, e eu me levantei indo até a cozinha. Tinha uns pratos na louça, e não que fosse da minha livre e espontânea vontade, mas eu fui lavar as coisas que tinham na pia. Isso é um milagre, sério. Minha mãe sempre pede para eu limpar, não sou eu que vou até lá. Muito menos quando estamos no inverno, nem sei de onde eu tirei tal coragem para lavar aquilo, na água gelada. Mais gelada que o normal.
Quando eu estava quase terminando de lavar a louça, eu senti a presença de alguém e me virei sorridente, para ver quem era o espião-ninja. Não era ninja, porque eu o descobri, mas você entendeu. Era a Najuzinha, e eu me assustei ao vê-la com uma expressão tão séria no rosto. Ok, admito, ela não estava sorrindo, só isso.
- ... – Fechei a torneira e me virei, ficando de frente para ela. Ela estava com a voz meio chorosa. Ou foi só eu que percebi? – Eu sei que você odeia falar desse assunto, porque você se sente mal e tal... Mas... – Ah, não! Se ela for falar o que eu estou pensando, melhor nem falar! Mas eu não sou mal-educada, então lhe lancei um olhar, como uma resposta muda de que ela poderia continuar. – Bem... o... Digo, eu falei com ele na internet esses dias porque ele estava perdido online lá na minha lista e, bem... – Ela fez uma entonação forte demais no “ele”, e, como ela sempre me falou no telefone esse “ele”, já podia imaginar quem era. Eu a interrompi.
- Fazem quase três anos, Naju.
- Mas ele lembra de ti – ela disse, num fôlego só, com a mesma voz chorosa. – Ele me disse que queria falar contigo. Ele... Ele tem uma surpresa pra ti. Não seria bem uma surpresa, mas é algo que quer... mostrar... Dar a ti, não sei qual seria a palavra. – Ela balançou a cabeça, como se espantasse algum mosquito que ficava fazendo aquele zumbido irritante.
Eu ergui a sobrancelha, e ela pareceu arrependida de ter começado aquilo, e eu me arrependi de ter feito tal ato.
- Desculpa, , eu não devia... – ela começou, e eu a interrompi, mais uma vez. Não sei se foi porque ela se desculpou ou se eu lembrei da “Rainha das Desculpas”.
- Tudo bem, Naju. – Apressei-me a dizer. – Eu sei que você veio por uma boa causa, e tudo o mais. – Eu me virei de novo e continuei a lavar os pratos, vendo-a se aproximar e encostar-se à pia, ao meu lado, para poder ver o perfil do meu rosto. – Mas eu acho que não devíamos mais nos preocupar com o... – Droga, eu não ia conseguir falar o nome dele! Ia começar a chorar. – Com ele.
- Por quê? Ele ainda lembra de ti e é muito provável que ele ainda goste de você.
Eu segurei o prato com força, mas acho que ela não notou.
- Ele não gosta de mim! – falei com firmeza. – Primeiro porque, como eu disse, fazem três anos. Três anos que eu não tenho mais contato com ele. E segundo, nós sabíamos que nunca ia dar certo! Um monte de gente sabia que não ia dar certo, e eu, tonta, não os escutei! “Quero viver com emoção!” era o meu lema quando me diziam que eu sofreria mais cedo ou mais tarde. Se passou o que passou, passou! – Nossa, quanto “passou”. Percebi. E isso foi muito... ele. – Nunca mais terá volta! – Eu abri os braços num gesto amplo. Acho que foi até mais amplo do que eu imaginava. Talvez era para conter as lágrimas. – Nunca dará certo. Nunca – eu terminei, com a voz fraca.
Ela se aproximou de mim e me abraçou forte. Ah, merda. Comecei a chorar. Não me abrace quando vocês virem meus olhos marejados, eu sempre começo a chorar.
- Não chora, ... – ela murmurou no meu ouvido. Droga, comecei a soluçar. Nunca me abrace quando eu estiver prestes a chorar e muito menos diga “não chore”, que eu começo a soluçar. Regra, ok?
Eu a apertei forte, como se ela me desse forças para tentar amenizar aquelas lágrimas malditas.
Mas... eu não conseguia entender. O que ela queria me dizer com “surpresa”, “ele” e coisas do tipo? Afastei-me dela mais uma vez, para que eu pudesse encarar seu rosto, lentamente, e com a voz lacrimosa, lhe perguntei:
- Por que você está me falando dele aqui e agora?
- Não me faça perguntas, você sabe que eu não consigo esconder as coisas de você, poxa! – ela disse num sorriso fraco. – Ele tá aqui, pronto, falei.
Ou ela tinha algum poder do gelo, tipo o carinha do “Os Incríveis”, ou ela era a Florzinha de “As Meninas Superpoderosas”, ou coisa parecida, porque eu congelei, de novo. Como assim, “ele tá aqui”?
- Lá embaixo? – Eu arregalei os olhos.
- Er... Não. – Ela riu baixinho.
- Onde? – Minha voz parecia estar tão desesperada que eu não sabia o que fazer. E também acho que minha voz saiu um pouco alta demais. Nunca sei quando eu grito ou quando eu falo. Eu falo alto demais!
- Naju, posso entrar? – Ramon perguntou da sala.
E, quando eu pisquei os olhos, ele já estava na porta, sem esperar resposta. Fez uma cara de “ops, acho que não era bom eu estar aqui” quando viu meu rosto. Acho que eu estava meio vermelha.
- São Paulo! – ela respondeu, fazendo um gesto com as mãos pra que ele se aproximasse.
- Como assim? – Juro que não era minha culpa, a informação não queria entrar.
- São Paulo, ! – Ramon tentou ajudar.
- Santo André?
- São Bernardo, na verdade – Naju respondeu, sorrindo. – Falando em São Bernardo, me mostra o hospital que você e a Fany nasceram?
Eu ri e senti uma luz iluminando meu rosto. Não só meu rosto, como meu corpo inteiro. Senti um calor percorrê-lo por toda sua extensão, e o frio de nove graus Celsius lá fora nem parecia existir.
- O que ele está fazendo em São Bernardo?
Ramon e Naju se entreolharam, meio que desesperados. Er, oi! Tô aqui!
- Na casa da Dominike.
Sou a Alice e estou caindo num túnel. Mas estou caindo lentamente; tão lentamente que posso pegar as coisas ao meu redor que aparecem. Será que estou indo para o País das Maravilhas? Ou será que é para o Fim da Fossa? Acho que a segunda opção. Senti um frio percorrer meu corpo mais uma vez. Será que a sensação térmica estava mais baixa do que nove graus Celsius?
- Ele não mudou – simplesmente respondi, quando consegui recuperar a fala. – Bom saber, fico muito feliz que ele esteja em São Paulo! E muito mais feliz sabendo que ele está com a Dominike. – Podia sentir uns foguinhos saindo dos meus olhos, de tanta raiva que eu estava. – Deixe-me ver se eu adivinho. Está com a Paloma também? Não, espera, já sei! Fernanda. É! Com a Fernanda.
- , calma! Pára! – Ramon gritou. Uh, achei alguém mais escandaloso que eu. – Ele está, sim, com a Dominike e com a Paloma, fazendo uma visita. São amigas dele, esqueceu? Melhores amigas.
- Que gostam dele. Gostavam, sei lá – eu retruquei.
- Ele veio por ti, – Naju me disse, olhando com uma cara que eu não sabia distinguir se era pena ou arrependimento. – Ele está aqui, só por ti.
- Estou vendo, hein? Bem claramente – eu disse, quase cuspindo as palavras. Só não cuspi porque a Naju estava na minha frente, e coitada. Ficar babada?
Eu respirei fundo, tentando me acalmar e vi os dois tentando respirar por causa da tensão também.
- Então você vai jogar tudo pro alto, ? – Naju perguntou. – Eu sempre te disse que você é forte, que você consegue tudo o que quer. E nunca foi da boca pra fora. Vai amarelar agora?
Ela feriu meu orgulho. Cruzes, senti no estômago!
- Naju...
- Eu esperava mais de você, . – Decepção na voz? Decepção? Ah, não... Najuzinha, não!
Abaixei meu olhar para o chão, com medo do olhar rígido dela sobre mim. Nunca quis decepcioná-la. Ela era a pessoa que mais admirava e que eu mais queria impressionar. E ela me dizia isso?
- Eu vou... – comecei – falar com ele? – Fechei um olho com força e com o outro a olhei, como se pedisse desculpas.
- Grande idéia, gênio! – Ramon bateu nas minhas costas, sorrindo ironicamente.
Retribui-lhe um com sorriso triste, enquanto disfarçava a minha liça interna. Na verdade, eu estava confusa o suficiente para não saber se eu agradava a Naju ou se eu fazia o melhor pra mim mesma.
Qual era o melhor pra mim mesma? Ver-me o mais longe possível dele, para não correr o risco de me apaixonar novamente pelo dito cujo. Ok, quem eu estava tentando enganar? Droga, parecia que, com esses pensamentos na minha cabeça, me fizessem com que eu me apaixonasse novamente por ele. Ok, parei de tentar enganar a mim mesma. Eu ainda gostava dele, nunca deixaria de gostar dele, de verdade. O que eu poderia fazer foi o que eu fiz: guardar esse amor que eu sentia por ele num cantinho lá no fundo, isolado de qualquer outro tipo de sentimento ou coisas relacionadas. E mesmo que aquele amor brigasse por esse tal “lugar isolado”, eu iria deixá-lo lá, para que, se um dia eu voltasse a encontrá-lo, eu pudesse continuar a amá-lo. E mesmo que eu sofresse mais uma vez por esse sentimento não ser recíproco, eu nunca ia parar de sentir algo realmente forte por ele. É como eu sempre repeti para mim mesma: o primeiro amor a gente nunca se esquece.
Mas metade desses meus pensamentos me dizia que eu não estava pronta emocionalmente para me encontrar com ele. E por mais que eu não quisesse decepcionar a Naju, eu teria que o fazer, porque eu não estava realmente preparada. Mas depois, quando eu ficasse sabendo de sua volta para sua origem, eu me xingaria internamente, por ter sido tão fraca, que nem a própria Naju me disse.
Eu só acordei desses meus pensamentos quando eu escutei as chaves virando a porta da sala. E só depois eu percebi que eu estava sentada no sofá, com a Naju e o Ramon sentados no chão, vendo algo na televisão, mas depois se ajeitando no chão quando viu que pessoas que eles não conheciam estavam prestes a entrar. Não sabia que os meus pensamentos eram tão lentos assim! Eu devia ter acreditado quando a Ni me disse que eu era muito lerda. Ou até mesmo ele, brincando, também.
- Alô! – saudei-os, quando vi o sorriso enorme do meu pai se abrindo e logo fazendo uma ligeira cara de assustado ao ver meus amigos ali sentados no chão, com minha mãe com umas sacolas na mão logo atrás, empurrando-o pra dentro. – Esses são Naju e Ramon. – E os apontei com as respectivas cabeças.
Meu pai sorriu e entrou, finalmente, na casa, indo cumprimentá-los. Minha mãe veio logo atrás e lhes depositou um beijo na bochecha de cada um. Eu sorri e, quando eles passaram para a cozinha, me levantei do sofá indo atrás deles, vendo os olhares assustados e ainda incomodados me seguindo, como se quisessem saber o que eu ia fazer.
- Tem carne suficiente pra esses dois carnívoros comerem? – perguntei a eles, simpática.
Minha mãe balançou a cabeça energeticamente e completou o gesto, com medo de que eu fosse lerda demais para entendê-lo:
- Claro que tem! Eles comem a sua parte.
- Certo, e eu fico com a polenta e queijinhos coalhos. – Sorri mais abertamente. Sendo repreendida.
- Têm mais pessoas que vão comer, não se esqueça.
- Tá, então faz bastante vinagrete. – Dei de ombros e voltei pra sala, sorrindo para os dois.
Joguei-me no sofá e apertei o play do controle do DVD, sem ao menos lembrar qual era o filme que eles assistiam, e nem saber se eles estavam vendo algum filme do DVD mesmo.
Quando olhei para tela, logo pude ver o gato... Digo, o John Travolta com aquele seu topete super sexy... Ok, parei! Com aquele topete super fora de moda. E aquelas calças grudadas nos glúteos e aqueles sapatos de salto alto. Aquelas jaquetas de couro, então, nem se fala. Se bem que eu tinha uma jaqueta de couro preta, e todo mundo falava que ela era gata. Vá entender, essa tal moda dos anos setenta. Mas que John Travolta era gato, ele era mesmo, ui.
E todos esses pensamentos pervertidos desvaneceram ao escutar aquela música, do Bee Gees, “How deep is your love”. Um outro dia, eu tinha falado que aquelas palavras eram as coisas que eu queria saber dele. Quanto que era o seu amor, quanto ele me amava. Porque no mundo só existem tolos e que se apaixonam fácil. Algo assim, não lembro direito a tradução, e muito menos conseguia prestar atenção na música ali no filme. Ah, droga! Viu? Era qualquer detalhezinho, que para qualquer um, como a Naju e o Ramon, passou despercebido, e pra mim, fez com que eu percebesse que ele não queria sair da minha cabeça.
Detalhes. “O amor está nos detalhes”. Olha lá ele de novo! Acho que isso iria me perseguir para sempre. Ou pelo menos até eu souber que ele estava lá. E só ia cessar quando eu soubesse que ele fora embora. Ou nem assim. Ah, droga!
Peguei a almofada que estava mais próxima, flexionei minhas pernas no sofá, com a almofada em cima e apoiei a minha cabeça no vão em “v” na junção dos meus joelhos, assistindo ao filme. Ou pelo menos tentando.


- ? – Naju me chamou, depois de algum tempo em que a luz da sala fora apagada.
Eu estava deitada no chão com a minha típica “Cama no Chão”, como eu e meus primos mais novos batizamos. Eu olhei para ela, um pouco mais acima de mim, no sofá menor. Mas logo comecei a segurar o meu riso quando escutei um ronco alto do Ramon, no sofá maior, sendo acompanhada com uma virada de olho da Naju.
- Oi?
- Você ainda gosta dele, não gosta? – ela me perguntou, num sussurro.
- Não sei bem ao certo – confessei e sustentei parte do meu corpo com o cotovelo, pra poder olhar sua silhueta. – As coisas que passamos “juntos” – fiz aspas no ar com os dois dedos das duas mãos - vieram à tona na minha cabeça. Não sei o que fazer, Naju. Ajude-me, poxa! Eu não sei se eu vou vê-lo ou não. Medo, sei lá. Eu não consigo entender, entende? – Olhei-a, com uma cara de cachorro sem dono. Mas não que eu quisesse, era o momento naquela hora.
- Desculpa se eu te pressionei, – ela simplesmente disse. – Sei que você deve estar confusa com isso tudo. Então esquece a minha chantagem emocional e faça o que quiser, ok?
Eu assenti e lhe sorri fraco. Subi no sofá, ao lado dela, onde ela logo cruzou as pernas pra me dar espaço. Eu a abracei forte, muito forte. Ai, como eu amo a minha melhor amiga. Só ela me entende, e isso é fato.


Eu abri os olhos lentamente quando escutei alguém me chamar e me balançar devagarzinho; para que eu acordasse, imagino. Mas logo, por causa do sono, fechei novamente meus olhos.
- Não é pra voltar a dormir, sua dorminhoca! – Escutei a voz do Ramon, sonolenta.
Nem abri meus olhos, virei para o lado, puxando a coberta mais para cima, cobrindo meus ombros.
- ? – Agora foi a Naju que me chamou. Abri os olhos e logo pude vê-la um pouco acima de mim, no sofá ainda. – Acorda?
- Mas pra quê? – Eu arrastei o “quê”, por causa do sono.
- Nós vamos para o Parque Central fazer piquenique, esqueceu, foi? – Ela me sorriu.
Ah, o piquenique! Eu tinha me esquecido completamente, cara! Levantei-me, ficando sentada com pernas de índio enquanto eu sentia meus pés descobertos e o cobertor cobrindo só as minhas pernas. Cocei meu olho, abri os braços bem grande, espreguiçando-me e dando um longo bocejo. Meu ritual de manhã.
- Ew! – Fez o Ramon, quando me viu com a boca aberta e me jogou uma almofada bem na cara. Eu peguei a dita cuja que caiu sobre minhas pernas e taquei nele com força, fazendo-o rir.
- Vocês vão se trocar, certo? – perguntei, enquanto me levantava energeticamente. Eles assentiram. – Ramon, pro banheiro. Naju vamos para o quarto.
- Ah, por que eu não posso ir com a Naju para o quarto? – Ramon protestou, fazendo Naju rir e jogar almofada nele. – TÁ! Entendi.


- Luzes ultravioletas, cruzes. – Foi a primeira coisa que disse, seguida de uma careta, quando saí do carro.
Corri até a Naju e comecei fuçar na bolsa dela, à procura dos meus óculos de sol que eu joguei por lá um pouco mais cedo.
- Fresca. – Ramon deu de ombros e me seguiu, indo até a Naju e a abraçando pelos ombros. Fiz uma falsa cara de nojo, e andei ao lado dos dois.
Eles caminharam lentamente, atrás de mim. É, eles eram os lerdos, pareciam que queriam aproveitar o sol, enquanto eu queria fugir dele. Resmungava alto, para que eles me escutassem, coisas como “eta, mas ‘cês são lerdos!”, e às vezes, até era seguida de um palavrão, enquanto eles riam alto.
Quando chegamos ao pé das maiores árvores, onde a luz do sol era bloqueada, segui até aquelas mesinhas de concreto e fiquei batucando, irritando aos que estavam mais próximos, deitados na grama. Eu era anti-ecologia, confesso. Mas aquele lugar era lindo. Mais à frente, tinha um lago enorme, e do outro lado desse tal lago, dava para ver a concha acústica, onde a maioria das bandas lá tocavam de graça. Apesar de ter ido pouquíssimas vezes por lá, conhecia aquele lugar de cor. Não como a palma da minha mão, mas conhecia.
- Você é a pessoa mais mesquinha e egoísta que eu conheço, – Ramon disse rindo e segurando minhas mãos ao chegar mais perto de mim, com a Naju logo atrás, e me impedindo de fazer barulho na mesa, por causa dos altos bufos que davam. Olhei-o indignado, até que ele me soltou e começou a bater na mesa. – O ritmo é assim?
Ele fez uma cara de babaca, que eu não resisti e tive que rir, retomando a minha batucada pra que ele pegasse o ritmo. Naju também riu e abraçou o namorado por trás, apertando-o lentamente e dando beijinhos na bochecha dele. Eu sorri; eles eram uma graça. Eu amava a Naju com toda minha força, e, apesar de adorar encher o saco do Ramon, também sabia que ele era um amor de pessoa. Se a Naju estava feliz, para mim, era o melhor presente de todos.
- ? Digo... “”, tsc, quem eu penso que sou? Erm... ? – Escutei uma voz me chamando por trás e, sem parar de batucar, olhei para trás, achando graça na parte da pessoa por ter um conflito com si próprio. Os olhares de Naju e Ramon seguiram o meu ao mesmo tempo.
Quando vi quem era, quase tive um ataque cardíaco. Tá, não literalmente... Mas eu tive um treco. Sabe quando o seu coração começa a pulsar forte e parece que vai sair pela boca? E quando você sente um frio na barriga? Ah, sem contar o seu cérebro trabalhando sem parar para assimilar as coisas e tentar entender o que era aquilo tudo. Como o processamento é lerdo, eu fiquei muda, e aposto que estava com a cara de “you’ve got just seven days”.
Ele me sorriu de lado, um sorriso meio tímido. Um sorriso lindo. Aquele sorriso que, um dia, eu me derretera, só de olhá-lo. Por foto, mesmo. Mentira, olha eu lá me derretendo por ele de novo. Pelo sorriso, não pelo dono. Acho. E eu ainda fiquei ali, imóvel.
- Certo, acho que é melhor eu ir embora – ele disse, por fim.
Não, não, não! Não vai não, hey, espera aí. É, eu o vi se virando para sair de perto, e tomei o maior fôlego que pude, desesperadamente.
- ! – Erm, não me pergunte por que o sobrenome, mas foi a primeira coisa que me veio a cabeça pra chamar a atenção dele. Ah, lá poderia ter algum , né?
Ele me olhou e, mais uma vez, me abriu um sorriso. Ele estava tão perto de mim. Mentira, estava longe, mas estava perto. Eu podia vê-lo, ali, perto de mim. Por um momento, esqueci de tudo o que nos tinha acontecido. Por um momento, esqueci que um dia eu tinha o odiado. Por um momento, esqueci que Naju, Ramon, e um bando de gente estava ao meu redor. Por um momento, esqueci até de respirar.
Aproximei-me dele, quase que correndo. Queria poder tocá-lo, droga.
- ... – Ele, que ainda não tirara os olhos de mim enquanto eu me aproximava, sorriu, só que um sorriso triste. Quando estava perto o suficiente dele, toquei-lhe o rosto com a ponta dos dedos, acariciando-o. – Sei que eu deveria estar te batendo, te estapeando, ou até chamando o segurança por você ter se aproximado demais de mim, e ainda falaria calúnias ao teu respeito a ele, pra te levar bem mais longe – eu disse séria, enquanto ele ria, baixinho. Aquele risada gostosa que eu tanto escutei pelo telefone, e tanto adorava escutar, ali, pertinho de mim. – Mas eu estaria sendo muito monstruosa. Mentira, não estaria. – Tirei minha mão do rosto dele, como se tivesse tomado um choque, e ele parou de sorrir instantaneamente. – Droga, por que você fez aquilo tudo comigo, ? – Eu lhe dei um tapa forte no braço dele e ele se encolheu, apalpando o braço. – Pô, cara! Você dizia ser apaixonado o suficiente por mim, para até sermos marido e mulher, um dia. Por que você me fez tudo aquilo, então?
- ... ! – Ele fechou os olhos com força e eu pensei que o meu tapa teria doído mais do que eu imaginava, ou então que ele estava tendo uma briga interna. Ele abriu a boca para falar e depois a fechou de novo, abrindo os olhos. – Adivinha o que eu fui?
Pensei. Mas não pensei muito. Conheci-o por bastante tempo; acho que eu o conhecia, não é?
- Um tremendo filho da puta? – Ergui uma sobrancelha.
- Pior, Peque-- . – Ele não ajudava, não é possível. Ah, droga! Ele ainda se lembra de como me chamava, antigamente. Senti meus olhos úmidos demais, mas não deixei nenhum fio de lágrima sair. Continuei o olhando, séria. – Dê-me uma chance de te explicar?
Olhei-o, com a intenção de decifrar sua feição. Parecia arrependida, talvez. Olhei para trás, a fim de olhar para Naju e Ramon. Eles estavam conversando e se acariciando, e eu podia perceber que lançavam alguns olhares a mim e . Levei meu olhar novamente ao de .
- Vou avisá-los que nós vamos sair. Não demoro.
Caminhei rapidamente até Naju e Ramon, sem esperar a resposta dele, e quando abri minha boca pra falar, Ramon interrompeu o que já estava por vir. Eta, menino intrometido, vou mandar a Naju dar um trato nele, porque... “Né” possível, cara!
- Pode ir dar uns catas nele. A gente te espera. Mas não demora muito. – Naju olhou-o e esmurrou o braço dele.
- Cala a boca, seu idiota! – ela exclamou rindo, enquanto eu sentia minhas bochechas corarem. – Fala, !
- e eu vamos dar uma saidinha rápida. Aproveitem o piquenique, e eu prometo que nós faremos outro, tá? – eu falei rápido, olhando significadamente pra Naju, enquanto ela negava com a cabeça.
- , tudo bem, sério – ela me disse com firmeza. Sorri a ela e me virei para Ramon.
- Você sabia que ele estaria aqui, cachorro! – eu praticamente gritei, e ele riu alto. – Não, não. Enganei-me. Você avisou que nós estaríamos aqui! Vou te esganar, velho! – Ele ria alto. Filho de uma boa égua!
Aproximei meu rosto do da Naju e lhe depositei um beijo, fazendo o mesmo com o de Ramon, mas segurando seu rosto com as mãos e apertando-o forte demais, até ele resmungar algo como “sutil como um elefante”.
- Aonde vamos? – perguntei a quando me aproximei dele, que tinha encostado na pequena subida com grama que tinha perto das quadras. Ele me olhou, com cara de indignação.
- Você que mora aqui, Francesinha! – Eu ri, quando ele me chamou de “Francesinha”. Adorava quando ele me chamava daquele jeito. – E eu vou lá saber pra onde nós vamos?
- Vamos pra casa... – eu disse, por fim. – A que ainda não está sendo usada. Importa-se em se sentar no chão, donzela?
- Seu quarto tem cama? – ele me perguntou, fazendo uma cara de pervertido. Eu ri e lhe dei o dedo. – Brincadeira, .
Sorri. Ele continuava o mesmo. Peguei na mão dele e o puxei, fazendo com que ele andasse ligeiramente atrás de mim. Refizemos todo o caminho de volta até a saída do parque. Atravessamos a rua, para entrarmos no estacionamento, e deixei que ele me guiasse até seu carro. Não seu, era alugado. Mão-de-vaca. Deveria ter comprado outro para rodar aqui. Tá, mentira.
Seguimos o caminho todo em silêncio, só com o som daquela rádio pop, que eu só conhecia as músicas por ser as únicas que tocavam o dia inteiro. Eu às vezes até cantarolava algumas, mas me olhava com uma cara do tipo “eu não acredito que você está cantando isso, !” que tantas vezes eu o imaginava fazer, enquanto ele via no meu subnick do MSN escrito “Britney Spears”, “Kelly Key”, “High School Musical”, ou das bandinhas toscas da época, me fazendo rir.
Não tinha me acostumado ainda com a sua presença. Ainda estava sendo estranho demais para mim. No nosso relacionamento via internet, ele me dizia que queria estar perto de mim para poder me beijar, me abraçar, fazer tudo o que lhe desse vontade comigo, e eu sorria e lhe dizia que poderia fazer o que quisesse, mas no devido limite. Mas agora, depois do tão sonhado “quando eu te ver”, estávamos indo para casa ter uma conversa boba, como sempre tínhamos via internet. Mentira, não era boba. Era um dos “papos cabeça” que tínhamos, quando acontecia algo. Mas ah, deu para entender.
- Vira aqui, mas cuidado com a vale... – Nem terminei de falar e escutei o carro dele raspando embaixo. - ...ta. Tudo bem, na hora da revisão, nem vão olhar a parte de baixo do carro. – Eu disse, rindo.
Ele me fez uma careta e seguiu com o carro, em uma baixa velocidade, esperando eu apontar a tal casa, e quando eu o fiz, ele parou o carro ao lado da pracinha que tinha ali perto.
- Vai que seu pai acha que somos ladrões, ou algo do tipo. – Ele deu de ombros, enquanto eu pegava a minha chave no meu bolso da calça, rindo.
Entrei na garagem e o mandei entrar, para depois trancá-la e ir até a porta da casa, abrindo aquela porta também. A casa estava inteiramente oca, mas inteiramente limpa, já que minha mãe tinha ido limpar a casa antes da mudança várias vezes.
olhou para a casa, admirado e fazendo uma cara de interessado.
- Bela casa, Francesinha! – Eu ri. Como ele era bobo, cara!
- Vamos lá pra cima, aqui podem nos ver pela janela. – E apontei a enorme janela de vidro que dava para a rua.
Subi as escadas e logo o vi subindo atrás de mim. Parei abruptamente nos últimos degraus da escada, fazendo-o esbarrar em mim, sem querer. Virei-me para olhá-lo.
- Melhor sentar aqui mesmo, lá dentro não tem nada. – Sentei no degrau e dei espaço para que sentasse ao meu lado. Ele olhou-me e eu esperei que ele começasse a falar.
- Eu vou ser sincero, ok? – ele me disse, depois de sentar ao meu lado.
- Ok, então seja sincero! – respondi energicamente, sem tirar os olhos dele.
- Vou começar do início, do começo dos começos, e eu quero que você acredite em mim e só fale quando eu terminar de falar. – Ele fez uma cara de pouco caso e eu ri brevemente. Ele pegou fôlego e me olhou, começando a falar lentamente. – , quando eu te conheci, você me encantou. Em todos os sentidos, eu não parava de pensar em você, eu respirava você, eu sonhava e imaginava loucuras contigo. E eu realmente te amei de primeira. Mas eu sempre fui um tanto mulherengo e enrolado, e quando você me apareceu, já pôde notar isso. Como me dizem, eu sou e sempre fui uma máquina de repetir o mesmo erro. E chegou um momento que eu achei que você seria como as outras. – Ele me olhou, com medo de que eu lhe fizesse algo, mas continuou. – Que, com o tempo, você se afastaria e eu ia acabar gostando de outra garota. Houve todas aquelas merdas, e você quase saiu da minha vida. E esse “quase” me fez notar o quanto eu estava errado. E você voltou de novo, mas estava diferente, e eu estava “em outra”. E mais uma vez, achei que você tivesse sido como as outras, e que tinha realmente te esquecido. Só que daí, eu voltei atrás de novo, e você ainda não tinha “saído” por completo da minha vida. Voltei atrás, e você estava ali de novo. E como antes, pensei que você fosse totalmente minha e acabei esquecendo de cuidar do que era pra ser meu.
“De repente, eu me vi rodeado de garotas. E confesso que isso era ótimo pro meu ego. Ficava me sentindo o rei da cocada preta, e achava que podia conquistar a garota que quisesse. E como um jogo, eu comecei a ser um mulherengo moderno.
“De certa forma, ‘gostei’ de umas quinhentas garotas em poucos meses. E eu falava pra todas que as amava, e algumas esperavam por mim. Achavam que eu realmente poderia mudar a situação e ficar com elas. Algumas vezes, eu fui muito além e, tentando consertar o erro, eu errei ainda mais. Isso aconteceu nas poucas vezes que eu me envolvi de verdade com alguém... Falo, namorei.
“Você não é criança, e eu fui ao inferno quando notei que você tava cansando. Pensei em mandar você tomar teu rumo e sumir...
“Mas em nenhum momento eu notei o que eu acabaria notando. Eu percebi que tava te perdendo, eu percebi que você não era apaixonada por mim, e sim por aquele de antes. E sabe o que aconteceu? A ficha caiu. Agora eu penso tanto antes de falar que amo alguém. Mas eu não nego que ainda falo pra muitas garotas que as amo.
“Mas porra, eu não sei, mas me bateu uma merda de arrependimento. E meu coração tá uma droga, eu tô sofrendo. Tô sofrendo por culpa minha mesmo, entende? E depois de ter errado tanto, de ter falado tantas asneiras, de ter brincado com o tempo, com os sentimentos das pessoas... eu notei que talvez eu não seja tão monstro. Não mais. Há algum tempo eu tô tentando te encontrar, pra tentar te impressionar, tô tentando voltar a ser como antes, tô tentando largar essa vida, tô tentando fazer com que todo mundo me esqueça. E que você goste de mim, goste como gostava antes. Não que eu duvide de você, porque eu não duvido.
“Eu tô tentando arrumar toda a bagunça que eu fiz. Porque mesmo sabendo que no final, eu vou ser, finalmente, sou mais um que te amou, você não vai ser só mais uma que eu amei. Você é e sempre será, mesmo eu não demonstrando, o amor da minha vida. E eu não sei, de outro modo, concertar as coisas, eu não vou pedir que você espere por mim, porque eu me cansei de ser esse lixo. De ser tão pequeno e desprezível diante de uma coisa que não é brincadeira. Que não acaba facilmente, e vai além do que qualquer capricho. Do que qualquer besteira de , vai além do meu orgulho hipócrita, vai além de tudo. E se agora eu não consigo demonstrar o quanto eu te amo mesmo, é porque eu tô sentindo novamente aquele primeiro amor... Aquele que me fazia escrever teu nome em folhas de caderno e, em um ato desastroso, se cortar com um compasso. O que me fazia escutar músicas melosas, que me fazia querer gritar ao mundo o quanto eu te amo. Que me fazia querer largar tudo, como agora, pra ficar ao teu lado e ser somente eu e você.” Ele falou a última frase de um fôlego só, e pegou ar mais uma vez, para continuar, em tom de súplica. “Minha Pequena, me perdoa... Eu te amo mais que tudo, e me perdoa, me perdoa por ter levado tanto tempo para notar isso.”
Eu escutei tudo aquilo com o meu coração pulando até a boca e voltando ao seu lugar, freneticamente. Queria gritar ao mundo que ele era quem eu amava de verdade, e que o meu amor todo tinha voltado à tona, e todos os outros sentimentos ruins tinham desaparecido. Queria pular, queria beijá-lo. E OLHA ELE ALI, pertinho de mim. Tipo, me segura, senão eu te beijo, meu bem. Mas não grite para não chamar atenção dos vizinhos. Vem cá que eu preciso te beijar, benhê! Parei. Tive um pequeno surto, eu sei.
Eu abri e fechei a boca várias vezes. Juro que eu tentava fazer de tudo pra falar! Juro mesmo. Eu queria que a minha voz saísse! Queria gritar. Queria sentir minha garganta arranhar, para depois dizer que eu o amava, de verdade.
- Agora é a hora em que você fala algo, Francesinha – ele disse, meio rindo, meio incomodado.
Não sei bem dizer. Acho que ele ficou meio constrangido com o fato de que eu não lhe disse nada, e fiquei sem reação. Droga. Não conseguia dizer nada, absolutamente nada. Estava diante dele, do amor da minha vida e nenhuma palavra eu conseguia dizer. E então, com o meu cérebro trabalhando à tona, me veio uma luz. Sempre tinha escutado ou lido em algum lugar coisas do tipo “siga o seu coração e não o seu cérebro” ou então um “aja sem pensar”. Ahá, minha salvação e minha vez de usar esse tipo de frase.
- Pra que usar nossa língua pra falar coisas totalmente sem sentido, se podemos usá-la de modo mais divertido? – Tá, da onde eu tirei aquilo? Que horror, ando saindo muito com o Ramon.
Segurei a nuca daquele guri maravilhoso que se encontrava na minha frente e aproximei nossos rostos. Podia sentir sua respiração, podia sentir os nossos peitos arfando rápidos e pedindo por mais aproximação. Podia, se quisesse, até descobrir o que passava naquela cabeça que eu sempre achei tão enigmática. Mas todas aquelas coisas que eu podia e deixava de poder fazer saíram da minha cabeça quando eu senti o lábio macio dele contra o meu. E agora, sim, eu poderia até morrer. Afinal, eu já estava completa. Todos aquelas coisas que desejávamos estava acontecendo. A nossa separação causada pela distância, o nosso primeiro encontro, o nosso primeiro beijo. Ah, o primeiro beijo tão esperado. Agora me dê licença, estou beijando o cara mais perfeito do mundo. Morram de inveja, cocotas.
Senti os braços dele envolver minha cintura e podia sentir meu corpo todo amolecer com aquele toque. Apertei-me mais seu corpo contra o meu. Precisava saber se ele estava realmente ali, se ele era realmente real. Mas foi quando a língua dele roçou à minha que eu pude jurar que eu tinha morrido. Ah, é o que ele faz comigo. Faz-me sentir a pessoa mais amada com pequenos gestos, com os gestos novos que eu tinha acabado de presenciar. E é sério, eu ia morrer. E o culpado? , só ele. Quem mais poderia ser? Quem?
Mas, ah, droga, ali não estava confortável, realmente não estava, e, como num passe de mágica, como num feitiço de oclumência, tipo Harry Potter mesmo, ele me segurou mais firmemente e nos levantou, sem deixar que nossos lábios se descolassem um segundo sequer. Quando eu percebi, eu estava sendo prensada contra a parede pelo mais velho. E se eu disser que a minha espinha ficou totalmente arrepiada, vocês vão me chamar de boboca que fica toda coisadinha só com um beijo? Levei minhas mãos até a barra da camiseta que ele usava e com a ponta dos dedos levantei o suficiente para acariciar sua cintura nua. Vai que ele me chame de pervertida. E não passava pela minha cabeça fazer nada mais do que... um beijo, mesmo. Talvez uns amassos mais calientes, mas só. Droga, esqueci de avisar: fico pervertida mesmo quando o assunto é o . Cara, pensa comigo: quem resistiria a um cara tão bom e gostoso que nem ele? Gente, sério! Olha esse tanquinho que eu acabei de tocar, olha, olha. Calma, deixa eu tocar de novo. Ah, olha isso, olha! Agora olha o braço dele, olha o músculo do braço dele, meu Deus! Não, me deixa voltar pra barriga dele, porque a barriga dele é a barriga dele. E, bom, a barriga dele continua sendo a barriga dele. Mas a barriga dele é... é... É indescritível o que a barriga dele é. Mas que ela é boa, ela é. Mentira, não é a só ela. Ele é inteiramente bom. E ah, merda! Tô falando que nem aquelas cocotinhas, droga, droga, droga! Ok, juro que parei, nunca mais vou falar assim.
Parecia que nós não queríamos nos desgrudar um do outro. E eu acho que se nós desgrudássemos, eu morreria. Já pensou o jornal? “Garota morre após trocas de salivas com um desconhecido”. Tá, agora imagina o fazendo depoimento: “Eu só descolei os meus lábios dos dela e ela... Pum! Caiu morta nos meus braços. Não sabia o que fazer. Não sabia nem o que ela estava fazendo nos meus braços daquele jeito. Era pra gente estar fazendo outra coisa e não morrendo no braço da outra pessoa!”. Ok, parei. Não sou ninguém importante pra sair num jornal. Tô falando que quando o assunto é eu fico estupidamente idiota e isso me irrita.
Quando eu tomei por mim, eu já tinha tirado a camiseta dele, e podia jurar que ele ia ficar ardendo depois, por causa das minhas arranhadas, que ficaram vermelhas. E então, ele fez a pior coisa do mundo inteiro. E, é sério, eu nunca mais vou perdoá-lo por isso. Ele descolou os lábios do meu e eu gemi. Gemi protestando a ousadia do garoto de ter feito isso! Quem ele pensa que é? Ainda protestando o afastamento dele, eu o se abaixando e pegando a blusa no chão e rindo. Riu baixinho e colou nossos lábios mais uma vez, num selinho, para depois me dizer em voz quase que inaudível:
- O problema, , é que estão girando a chave na maçaneta e... – Enquanto ele me fazia envolver minhas pernas na cintura dele, pra depois segurar em minhas coxas, pra que ele pudesse se locomover, eu havia congelado e aposto que se ele não estivesse me segurando eu cairia. Se fossem meus pais (como era a coisa mais óbvia de ser), eu estaria numa encrenca danada. Imagina se eles descobrem que eu estive na casa nova, vazia e com um garoto! – Nós precisamos nos esconder o mais rápido possível.
Eu engolia em seco e ele percebia isso. Só não sabia se ria ou se tentava me tranqüilizar. Eu estava aflita e ele aí, na maior tranqüilidade! Que abusado!
- Fica quieto! – Bati no braço dele com força e ele protestou. – No último andar, no sótão. Lá em cima tem uma caixa d’água e dá pra se esconder atrás dela, acho. – Eu lhe dizia muito rápido e baixo, enquanto ele escutava o que eu dizia e me levava por mais um lance de escadas. – E não quer que eu desça, não? Bem mais simples, e nem sou leve.
- Fica quieta, você, agora! Eu sou o macho da relação, e eu quero que você fique perto assim de mim. Já fiquei longe demais de você. Não é esforço nenhum te levar escada a cima.
Eu queria rir. Era bonitinho, juro que era! Só que eu fiquei sem graça, e quando eu fico sem graça, eu quero rir! Mas eu não podia rir, porque meus pais estavam entrando na casa! Dá para reconhecer a voz do meu pai de longe. E com o meu ataque de riso, eu escondi a cara no pescoço do e ri ali, abafando o som. E que relação ele estava falando? Não tínhamos nada. Só estávamos ficando. É, eu estava ficando com o meu ex-namorado, quem eu nunca tinha ficado antes. Interessante, não? Mas... Hm, pescoço do . Hm, de novo. Quando cessei meu ataque e quando a gente já se encontrava no andar de cima, eu lhe dei um chupão, nem me importando se iria deixar marca ou não. Ele me olhou, e pude reconhecer um olhar a la “, mas que potranca caliente e atrevida que você é!” e novamente tive vontade de rir. Desci de seu colo, procurei pela mão dele e, quando eu a achei, enlacei meus dedos nos dele, para depois sorrir-lhe e o puxar para dentro o mais rápido possível, já que eu escutava minha mãe reclamando algo sobre “casa imunda” ou coisa do tipo. Nem acendi a luz e empurrei para trás do sótão.
Era extremamente escuro ali; a única luz eram os feixes de luz teimosos que atravessavam as ligações dos telhados descobertos por lá. O chão, sem piso, era de concreto e estava muito empoeirado. Ew, odeio lugares escuros e sujos. Mentira, mamãe diz que eu poderia morar num chiqueiro. Mentira de novo; a parte do “poderia morar num chiqueiro”, porque bagunça me irrita, e quando me irrita, eu arrumo. Enfim, não sei explicar. Mas o caso é que eu sou muito bagunceira e odeio bagunça. Ah, deu pra entender, vá pescar você que não entendeu.
se sentou no chão e, vendo a minha cara de fresca por estar naquele lugar tão obscuro, me puxou, fazendo com que eu sentasse em seu colo.
- Você é a fresca mais linda que eu já vi – ele disse, logo depois que jogou meus cabelos que estavam no meu pescoço para o lado, para poder falar no meu ouvido. Eu sorri, mas logo fiz bico e me virei, a fim de poder encará-lo.
- Não sou fresca. Mas eu tô com medo de que tenha barata, rato e eu odeio escuro. – eu falei, e ele levou a ponta dos dedos de uma das mãos até o meu nariz, apertando-o. – Cuida de mim, Grandão?
Se estivesse um pouco mais claro, poderia jurar que teria dado o maior sorriso de todos, só de me escutar o chamando de “Grandão”. Eu me senti bem com aquilo, porque eu, de certo modo, me achei a pessoa mais horrível e sem sentimentos do mundo por ter feito o sofrer. E eu queria recompensá-lo. Aos poucos. E esse “aos poucos” poderia começar naquele instante, certo? Certo!
- Eu cuido, Pequena. Você sabe, eu cuido – ele me disse tão baixinho que quase não pude escutá-lo. Mas meu coração deu um pulo. Deu um pulo, mas não sei porquê. Talvez seria porque ele tinha me chamado de “Pequena”, ou porque ele me disse uma coisa de um jeito tão fofo e carinhoso. Awn, eu amo o , eu amo, eu amo.
Virei-me, a fim de ficar de frente para o mais velho. Coloquei minhas pernas ao redor de sua cintura e mais uma vez aproximei meu rosto do dele. Ele não fez nada para impedir e eu logo encaixei nossos lábios, num beijo lento e totalmente carinhoso. Se não fosse a língua dele roçando à minha, poderia jurar que era ele me fazendo cafuné na cabeça, de tão bom que era aquilo. Ele diminuiu o ritmo do beijo, até pará-lo por completo, e eu não protestei. Segurei em suas mãos entrelaçando nossos dedos e olhando os olhos dele a fundo.
Se os meus pais estavam lá embaixo, eu não me importava. Se meu coração estivesse parando aos poucos, eu não me importava. Não importava, porque eu estava com o meu Grandão. Tá, um dia ele foi meu. Eu estava com o Grandão.
Estava totalmente entorpecida, observando aquele menino tão perfeitinho diante mim. Menino, sua idiota? Ok, eu estava totalmente entorpecida observando . Comecei a fazer movimentos circulares com o dedão na mão dele, numa tentativa de carinho, enquanto não conseguia tirar o ímã que tinha entre os meus olhos positivos e os olhos negativos dele. Ele aproximou o rosto do meu e, carinhosamente, encaixou nossos lábios num selinho demorado e o meu coração foi até a minha boca, voltando ao normal, e voltando para a minha boca. Ele se afastou e me olhou nos olhos mais uma vez.
- Oi, eu acho que você é o amor da minha vida.
Se aquelas palavras não estivessem saindo da boca dele, poderia jurar que era miragem. Eu sorri e não conseguia dizer nada. Lacei meus braços no pescoço dele e o apertei, abraçando-o afetuosamente, como se tentasse assim lhe dizer algo. E não me sentindo satisfeita, lhe disse baixinho:
- Oi, eu não acho que você seja o amor da minha vida. – Levei minha boca até a bochecha dele, depositando-o um beijo estalado nela. – Tenho certeza de que você é o amor da minha vida.
Senti a mão dele na minha cintura me apertar levemente. E o vi abrindo a boca pra falar algo:
- Hm, sabe, – Ele sorria de lado – quando eu falo “eu acho”, eu fico mais sexy – ele me disse, e eu ri baixinho. Egocêntrico. – Mas eu tenho certeza de que você é o amor da minha vida. A minha vida se resume em você, tudo é você. – Calma, acho que tem um bunda Le-lê ali dentro do meu estômago, calma, só acho.
Ele aproximou o rosto dele do meu mais uma vez e eu pude sentir a pontinha dos dentes dele no meu queixo.
- Eu te amo, minha Pequena. Mais que qualquer pessoa possa amar.
Morri, agora minha alma que vai lhe contar essa história. Porque acho que depois do meu cérebro trabalhando sem parar e o cheirinho de queimado infestando minha narinas, meu coração estando numa dança frenética e super agitada, meu estômago ter ficado fora do lugar de tantas cambalhotas que eu senti, nem devo mais estar respirando, não é?
- Você é a coisa mais perfeita que existe na minha vida – eu falei, sorrindo, enquanto eu o via se afastar para poder me olhar. Eu respirei fundo, para depois lhe dizer com a maior sinceridade do mundo, e queria que ele percebesse uma coisa que realmente era verdade: – Eu queria entender por que eu te amo tanto assim, por que eu faço tudo por você, por que você me deixa tão apaixonada por ti, cada vez mais e mais, e por que esse amor não pára de crescer... Eu queria saber por que você é tão único comigo, por que você é o único que eu mais amo nessa vida. E por que você eu não encontro em mais ninguém, mesmo que um dia eu tenha tentado te esquecer. Mas é algo que simplesmente não dá, porque você é único, mesmo. E eu só quero é me perder em você e nunca mais ser achada ou me achar.
Encaixei nossos lábios. Queria sentir aquele guri perto de mim. Eu queria sentir que ele era só meu. Não literalmente, mas ele era meu o suficiente para eu poder beijar o quanto eu quisesse, abraçar o quanto eu quisesse. Enfim, tocá-lo quando eu quisesse. Era o meu Grandão, não era? De algum modo, ele era algo meu. Tá, meu ficante, né? Mas era meu, não era? Pronto, era meu, já estou feliz, beijos pra minha mãe.
Ora ele roçava a língua dele na minha, ora ele fazia movimentos circulares e aquilo me fazia sentir a pessoa mais feliz e completa do mundo. Mas a felicidade parecia ter ido embora mais uma vez, quando ele diminuiu mais uma vez o ritmo do beijo, até pará-lo por completo, para depois sorrir. Roçou seu lábio no meu e depois se afastou o suficiente para que eu só sentisse sua respiração, e ele fazia o mesmo com a minha.
- Parece que você dá um sentido a tudo, entende? – Enquanto ele falava, eu podia ver sua pupila se movimentando lentamente pelo meu rosto todo. – Você é tudo pra mim, de verdade. – Ele levou as duas mãos até o meu rosto, e eu automaticamente segurei suas mãos, sorrindo e a acariciando com a ponta do dedão. Ele afastou uma de minhas mechas que temia em cair sobre meu olho com uma mão, enquanto com a outra, fazia um carinho delicado no meu queixo, com a ponta dos dedos. – E, caramba, como eu te acho linda. – Aproximou sua boca até a minha testa e eu derreti. Gente, como eu amo beijo no topo da cabeça, como eu amo, awn. – Esse nariz perfeito... – Desceu a boca e beijou a pontinha do meu nariz, me fazendo cócegas. – Essas suas bochechas rosadas que eu tanto amo. – Ele me olhou novamente nos olhos e sorriu, e eu podia ver a sinceridade naquele sorriso. – Essa boca... – Ele desceu o olhar para minha boca com um sorriso malicioso. – E que boca! Parece que foi toda desenhada, e sabe, ela é toda minha. – Ele se aproximou mais uma vez de mim e encostou sua boca na minha, e ficou assim. Só encostou nossas bocas. Eu sentia sua respiração lenta e tranqüila. E aquilo me deixou serena. Era muito bom aquilo tudo. Era demais pra ser verdade! Como eu deixei escapar uma coisa tão amável de minhas mãos? Se eu ainda estivesse com ele, eu teria tudo. Porque ele é realmente tudo de mais amável, perfeito e lindo. Gente, como esse guri é perfeito em todos os sentidos!
- E aqui é o só... – Quando eu escutei aquela voz, a porta fazendo aquela barulho estridente, eu poderia jurar que eu tinha congelado! – ...tão.
Eu não sei como, mas só sei que eu em questão de fração de segundo, eu tinha empurrado o contra a parede, atrás da caixa d’água, até nós dois ficarmos extremamente apertados. Merda, merda, merda! Por que meu pai veio aqui? E por que ele veio mostrar o sótão pra alguma visita? Que merda, meu pai é um babaca, merda.
- Ele ainda está meio desarrumado, só trouxemos algumas coisas que ficava no closet. – Quem descobrir quem falou isso, ganha prêmio! Sim, minha querida dona Iara Odeia-Bagunça .
Eu sentia a respiração pesada do contra o meu pescoço, e sentia o seu coração batendo freneticamente contra meu peito. Não que eu estivesse muito diferente, mas eu praticamente nem queria respirar! E eu via a sombra do meu pai no chão, como se fosse a coisa mais horripilante do mundo. Tipo um enxame de baratas (Aliás, qual é o coletivo de “baratas”?). Se ele descobrisse que eu estava ali... eu acho que ele me deserdava, e não é mentira! Sua filha caçula, mais linda, modéstia parte, de todas (não posso fazer nada se eles não capricharam na Nathália, né?), com um guri na casa vazia? E o que eles estariam fazendo ali?
Ok, mentira, eu não sou a filha mais linda, a Ná ganha de lavada, merda.
- Hum, mesmo assim, muito lindo! Parabéns! Adorei a casa de vocês. – Alguém gravou um disco e mandou pela internet, porque todo mundo que passa aqui fala isso, já encheu o saco, e é verdade. Ah, sim, foi a minha avó quem disse essa frase já clichê demais. Awn, eu amo a minha vovó Anna, mas a frase é clichê é chata, mesmo.
Escutei aquele mesmo barulho irritante da porta, e o sótão ficou mais escuro que antes. Como se tivesse tirado um peso das minhas costas, eu me afastei de , já que eu estava o esmagando. Minha respiração ainda estava pesada, como a dele, mas eu tentava me recuperar. Foi então que eu olhei para ele nos olhos. Ele tava com uma cara assustada tão bonitinha que eu não resisti, comecei a rir.
- O quê? – ele me perguntou, sorrindo, mas com cara de interrogação.
- Assustado, você é a coisa mais linda do mundo. Mas só assustado, tá? – eu lhe disse e selei meus lábios no dele, enquanto ele passava as mãos pelo meu braço e me apertava forte, que eu entendi como se fosse uma repreensão, e eu ri, me afastando dele. – Precisamos sair daqui, – falei séria.
- E vamos pra onde? – ele me perguntou e depois beijou a ponta do meu queixo, me fazendo rir.
- Pr’um motel. Quero você dentro de mim, homem. – eu lhe disse, tentando fazer voz de secretária sexy, que tem na maioria dos filmes. E ele fez uma cara de safado. Safado, isso é o que ele é. – É brincadeira, babaca. Só precisamos sair daqui.
Ele se levantou e me levou junto. Eu disse que teríamos que dar um tempo, até que os meus pais saíssem, e ele concordou com a cabeça, sorrindo. Eta guri radiante, esse meu Grandão.
Eu sempre imaginei o uns trinta centímetros mais alto que eu, e eu tendo que ficar na ponta dos dedos para poder beijá-lo, ou como ele brincava, às vezes, que eu teria que subir num banquinho. Mas quando eu descobri sua altura, fiz as contas e percebi que ele era quase dez centímetros maior que eu, e desde então fiquei procurando alguém com a altura dele, porque eu nunca tive noção de tamanho, de lugar, de nada. O primeiro foi meu primo, Cecil. Mas ele era da minha altura, e às vezes até menor, então nem contei. Depois fui pro meu outro primo, o Mário. Só que ele tem quase um metro e noventa, e desisti. Depois, foi o Brito, no colégio. Só que ele tinha um metro e oitenta, e no final da história, nunca encontrei alguém com a altura dele, pra fazer as medidas. E com ele, ali, na minha frente, pude fazer. Ele tinha realmente que se abaixar para me beijar. Mentira, ele só baixava o pescoço. E eu sempre gostei de caras mais altos. Tipo, o foi, realmente, o melhor namorado do mundo. Em tudo! Físicamente e na pessoa que ele é.
Lembro muitas vezes quando nós namoramos pela última vez, que ficamos muito tempo. Muito mesmo. E ele tinha ficado muito ausente, o que fez com que eu percebesse o quanto ele me fazia falta. E eu sempre fui fiel no tempo que ele estava longe, e que não tinha tempo para entrar. Tanto porque eu era muito conservada e estava nem aí para quem quisesse ficar comigo, ou deixar de ficar, e tanto porque eu o amava demais para traí-lo com qualquer um que flertasse comigo. Mentira, eu não conseguia achar interesse nenhum em nenhum garoto que eu poderia ver, do que no , que tirava a minha atenção pra tudo e em tudo.
Aproximei-me dele e o abracei. Abracei apertado, mesmo. Além de querer beijá-lo e tocá-lo, uma das minhas maiores vontades era abraçá-lo assim, apertado. E senti-lo colocando a mão na minha cabeça e enlaçar os dedos nos meus cabelos, como se fosse suspender minha cabeça, pra depois fazer carinho nela, foi a melhor coisa que eu poderia sentir. Awn, preciso dizer que pela milésima vez o meu coração até doía, de tão rápido que ele batia? Aninhei minha cabeça no peito dele e ele me apertou mais forte contra seu corpo. E então, da maneira mais sutil que consegui, lhe perguntei:
- Bê... – Ele me olhou e sorriu. Ver aquele sorriso acima da minha cabeça e tão perto de mim me fez sorrir ao extremo. Ai, que coisa mais gostosa, esse . Leve para os dois sentidos, porque ele é, realmente, gostoso em todos os sentidos. E tô nem aí, sou pervertida mesmo. Mentira, não sou, o é. – Nós somos o quê, agora? – Eu sempre fui direta assim com ele, e ele sempre me respondia sem o menor medo. Éramos assim mesmo.
Ele me olhou e suspirou. Não que fosse algo impaciente ou que ele não quisesse responder tal pergunta, foi um suspiro meio que... “aliviante”.
- Pequena, somos ficantes, não é? – Ele me olhou com um olhar triste. – Não podemos levar isso muito adiante, ou seja, te pedir em namoro, porque nós dois sabemos que não vai dar certo. Crescemos, deixamos de ser sonhadores. – Revoltei-me. Eu nunca fui sonhadora! Tá, eu fui, mas não passava só de um sonho impossível. Poderia acontecer e aconteceu. Droga, por que ele estava sendo tão insensível? Ele não é assim. Ele mudou, foi? – Volto pra casa daqui dois dias, ou três. E eu só quero aproveitar você, porque eu sei que você é a mulher da minha vida, só que não vai dar certo com a distância. Sou homem, tenho minhas necessidades, e não sei se vai ser como antigamente. Tenho medo, Pequena.
Soltei-me dele e me afastei. De repente, eu tinha ficado com nojo dele. Assim, de uma hora pra outra mesmo. Então ele estava só me usando. Já deveria ter ficado com Paloma, Dominike e até Fernanda. E eu, ele me deixou como última opção. E tem a cara de pau de dizer que eu sou a mulher da vida dele, HÁ-HÁ! Tô rindo. Asshole.
Sei que vai parecer meio cena de novela mexicana, e acho que já até posso fazer escândalo, porque eu escutei um pouco antes a porta de um carro se fechando e o dito cujo dando partida, lá embaixo.
- , você é a coisa mais desprezível que eu tive a infelicidade de conhecer – eu lhe disse, cerrando os dentes. É impressionante como eu conseguia achar o cara mais lindo e perfeito do mundo num momento, e no outro desprezá-lo e achando-o a coisa mais assustadora do mundo. Mentira, ele continua sendo o cara mais lindo do mundo, merda. – Agora, saia da minha casa, por favor. – Sempre tive vontade de falar isso, HÁ-HÁ! Se ele vier pra cima, eu vou dar um tapa na cara dele, e aí, sim, minha novela mexicana vai ser uma legítima novela mexicana, direto do México. Mentira, do Brasil.
Ele me olhava incrédulo. Que cínico!
- Mas, ... – Ele tentou falar, mas com a raiva que eu estava, até a voz dele me irritava.
- , pra você. Sou sonhadora, não é? Éramos sonhadores, não é? Não vai dar certo, não é? Então go to hell, .
- Me deixa explicar, !
- Sai daqui.
- Peque--
- SAI AGORA!
Vi-o ainda me olhando incrédulo, pegando a blusa que estava jogada no canto do sótão e colocando-a em instantes. Ele mexeu no bolso da calça e pegou seu celular, apertando um botão e só então eu percebi que ele tocava.
- Já estou indo, me espera. – E desligou. Urgh!
- Quem é, agora? A Júlia? Flávia? – Eu estava com tanta raiva que eu nem pensava direito, e acabava falando o que vinha na telha.
Ele me olhou como se eu fosse a coisa mais idiota do mundo, me respondeu um “não te interessa” e saiu de lá, pra depois bater a porta com tudo. Odeio porta batendo, urgh!
Sentei no chão, flexionei minhas pernas, e a abracei, colocando a cabeça no “v” que fazia meus joelhos um do lado do outro. Oh, man! Como eu odeio brigar com as pessoas, como eu odeio! Até quando “as pessoas” são aquelas que você mais ama no mundo, ou quando você briga com aquele por quem você é apaixonado. En merda, eu sempre odiei brigar com . Mas não dava pra engolir o fato de que ele “não era mais sonhador e que não ia dar certo”. Como assim? Então aquilo o que tivemos pela internet foi o quê? Uma merda? Ah, tomara que ele morra, também. Mentira, seria desperdício uma coisinha tão linda como aquela morrer, mas argh.
Escutei batidas fortes na porta, logo atrás de mim e fui abri-la. Só poderia ser .
- Quê é? – eu perguntei, sem olhá-lo.
- Porta trancada, me empresta as chaves? – Calma, eu ri! Ele subiu os dois lances de escadas para pedir as chaves. Mas é burro, gente. Mentira, burro não é. É lerdo.
- Não. Vire-se. Pula pela janela e depois pula o portão... Sei lá!
- Você está sendo infantil, – ele me dizia, tão calmo e tão sério.
- Obrigada pela parte do infantil, pai! – Fiz joinha com a mão e sorri irônica.
Empurrei-o levemente fechei a porta. Ele bateu na porta, várias vezes, com força gritando um “, abre!”. Eu fiz o que ele mandava, e com o sorriso mais irônico que podia, lhe perguntei:
- Atrasado para o seu encontro, ? Quantos mais encontros você tem até acabar seus dias aqui?
- O que você acha que sou? Um gigolô? Não, já sei. Um filho da puta, que não mudou nada. Acertei?
- Na mosca!
- Ora, , vê se me erra. – E segurou meu braço, pegando as chaves que eu tinha colocado no meu bolso da calça. Filho de uma boa égua!
- Devolva-me! – eu gritei, enquanto eu o seguia, descendo as escadas.
- Já vou devolver, espera.
- Eu quero agora!
- Quando eu sair. E, pelo amor, pare com isso.
- Eu paro quando quiser e me devolva a chave, !
Quando vi, estávamos já no andar térreo, e ele abria a porta com a chave. Quando abriu a porta, esperei que ele me devolvesse, mas ele levou até o quintal.
- Hey! – eu exclamei.
- O portão.
Odeio o ar de superioridade dele. E odeio ele estar sendo tão arrogante. Ele estava errado, porque ele não vinha se desculpar. Oh, man! Que cara importuno.
Peguei as chaves no ar quando ele jogou a mim e o vi indo até o carro. Escutei-o dando partida e depois o vi sumindo de vista. Agora era a hora de esquecê-lo pra o todo sempre, mesmo. Eu, burra, já tinha quase conseguido isso. Certo, daqui uns cinco anos.
Merda, uma lágrima caiu do meu olho. Limpei-a com a manga da blusa e só então percebi que uma manga só não iria adiantar para o meu rio de lágrimas. Por que garotas são tão sensíveis? Que raiva, cara. Odeio chorar, odeio, odeio, odeio.
Peguei o meu celular no bolso e disquei o número da Naju, tentando parecer o mais normal do mundo.
- Naju?
- ? – ela me perguntou de volta e eu pude escutá-la dizendo um “fica quieto!”. Provavelmente para o Ramon. – O que aconteceu?
- Nada – respondi, e acabei sendo seca. – Poderia me buscar, por favor?
- Num momento, ! – E desligou, tipo, na minha cara, mesmo.
Fechei a porta e a tranquei de chave, sentando no degrau da escada. Estava começando a ficar escuro e, conseqüentemente, a esfriar. E eu odeio passar frio! Minha roupa era totalmente inapropriada para o frio que estava começando a fazer: uma calça jeans e uma camiseta baby look do Ramones. Sem contar a sapatilha que eu tinha nos pés. Mas eu estava sem blusa, sem nada! Arght, e a Naju estava demorando! Será que ela ainda lembra de mim? Tipo, ela se esqueceu? Peguei meu celular e disquei mais uma vez o número dela.
- Naju? – Mas não recebi resposta. Ao invés disso, recebi uma buzinada e logo vi o clarão do farol do carro do Ramon no meu rosto. Imprestável, adora me encher.
Caminhei até o portão e abri a porta com a maior dificuldade possível e existente, por causa daquele portão horrível. E olha que eu já tinha escutado minha mãe falar várias vezes pro meu pai: “Mário, tem que trocar isso, tá emperrando”.
Por causa do chuvisco que começou a cair, eu corri até a porta traseira do carro e praticamente me joguei lá.
- Ai, obrigada, gente! – eu disse, enquanto pegava impulso para ir pra frente dos bancos e dar beijinho de agradecimento na Naju e no (babaca do) Ramon.
- Tudo bem, ? – ela me perguntou, enquanto o Ramon dava partida no carro.
- Uhum – eu lhe respondi, preocupada em esconder meus olhos. Droga, devia ter lavado meu rosto.
- Nós vamos pra sua casa, você toma banho e a gente vai sair – Ramon me disse, olhando-me pelo retrovisor.
Estranhei. Nós não tínhamos combinado nada! Olhei pra Naju, com a esperança que ela negasse de alguma forma, mas vi que ela sorria. Ok, há algo estranho ali. Olhei de novo pro Ramon.
- Aonde nós vamos?
- Jantar, ! – Naju se virou no banco para poder me encarar e eu percebi o quanto simples era a coisa toda. Ai, minha lerdeza me mata. – Lembra que você disse que ia me recompensar pelo piquenique? Então, vamos jantar fora.
Ah, era só isso? Então tudo bem. Dei de ombros, para que ela percebesse minha indiferença, e quando Ramon parou o carro, na rua mais sossegada, eu fui a primeira a descer.
Corri até o portão e o abri rapidamente, deixando encostado pra que Naju e Ramon pudessem entrar, enquanto eu subia as escadas correndo. Não sabia por que, mas minha ansiedade era enorme! Sempre gostei de jantar fora. Jantar, porque eu sempre almoço fora. Tá, mentira, não sempre, mas deu pra entender.
Ao perceber o silêncio na casa, ou talvez porque o som da televisão do meu pai estava desligado, eu dei grito, procurando pelos meus pais e nada deles responderem. Como sou uma menina muito inteligente, conclui, sozinha, que eles deviam ter saído também.
- Você ainda não está no banho, não? – Ramon me perguntou, assim que entrou em casa e fechou a porta depois que a Naju linda passou.
- Não, preciso saber o lugar que vocês vão me levar pra escolher a roupa depois. Pra não vir aqui na sala de toalha, entende. Tenho vergonha, sou tímida – eu disse, apontando para o Ramon com a cabeça, segurando o riso.
- Não lembro o nome... É... acho que é na Avenida Dom Pedro – Naju me disse, pegando algo na bolsa dela, enquanto se sentava ao meu lado. Awn, que bonitinha a Naju, toda comportadinha. Awn, me segura, senão eu vou abraçar a Naju e prometo nunca mais soltá-la. Acho que nem prestei atenção no que ela me disse. – Tendall.
Olhei pra ela com a maior cara de nóia. Tendall? O que ela tava falando? TENDALL? AH, TENDALL! CARA, EU AMO O TENDALL!
- AH, LÁ? – eu disse com os olhos brilhando. – Sério mesmo? Faz um tempão que eu não vou lá, estou morrendo de saudades.
- , você sente saudades de um restaurante? – Ramon perguntou, com a sobrancelha erguida.
- Quando você teve uns dez aniversários seus e da sua família lá, – eu respondi, enumerando as coisas com meus dedos, toda feliz – quando você encontrou o seu primo favorito almoçando com os amigos dele lá, quando você vai desde pequena até lá, claro que se sente saudades, né, Monmon?
A Naju riu. Mentira, ela gargalhou. Viu? Eu a fiz rir! Morra de inveja, Ramon! Eu a faço rir e você não! Ela até falou um “awn, , você é a coisa mais linda desse mundo!” e apertou minhas bochechas. Morra de inveja.
- Naju, a te supera, Momô – ele disse, indo até a coisa mais linda desse mundo e a abraçando forte. Enfim, momento ternurinha deles.
- Vou tomar banho! – anunciei, assim que me levantei do sofá. E o Ramon se sentou onde? No meu lugar. Trambolho, esse menino.


- Anda, ! – Quem descobrir quem foi que me encheu ganha prêmio. – Tá ficando tarde, cara! AI, NAJU! - Aposto que ela pisou no pé do Ramon.
Detalhe: ela tomou banho depois de mim e já estava pronta. É, estava lerda, mesmo. Estava porque eu sou bem rápida, geralmente. Estava me arrumando mais que o normal. E veja bem, eu não sou aquelas gurias frescas que demoram anos pra se arrumar, pentear o cabelo e blábláblá, aí quando está pra sair, ela vê que o vestido está ultrapassado, e troca pra um da coleção mais nova da Chanel e super chique. Pelo amor, vai. Odeio gente assim, abomino gente assim, eu quero que morra gente assim. É, revoltei.
- ? – Naju me chamou e, vendo que eu não tinha gritado numa repreensão ou algo assim, ela abriu a porta bem devagar. – Você está pron... – Não sei como aconteceu, só sei que foi rápido demais. A Naju escancarou a porta e depois veio correndo pra mim, dando um gritinho bem histérico e bem engraçado, confesso, e depois, quando eu vi, ela estava grudada em mim, num abraço apertado. – , já disse que você é perfeita? Pois é, você é perfeita. E linda? Quantas vezes eu já te falei? Não foram suficientes, porque você tá muito, muito, muito, muito, muito... – Calma, tô ficando tonta! Quem vai contar os “muitos” da Naju? – ...muito linda, ! – Eu vi os olhos dela brilhando. Cara, que exagerada! Eu só estava de... vestido. Ah, entendi. Quase ninguém me vê de vestido. – Awn, como eu queria ser linda que nem você, ... – ela disse com o sorriso mais lindo e meigo que eu já vi estampado no rosto dela. Awn, que fofa! Uma fofa exagerada, cruzes. Fofa exagerada e cega! A única “linda” naquele quarto era a Naju, não eu. E droga, eu fiquei com vergonha.
- Estou, er... pronta – eu falei, sem encará-la diretamente.
Eu estava me sentindo a menina mais brega do mundo. Odeio sombra, e passei uma rosa. Odeio rímel, e tava lotada. Odeio batom e minha boca não dava pra ficar mais vermelha. Acho que a única coisa que eu estava usando, e que eu apoiava, era o lápis, mesmo.
- Eu preciso te mostrar pro Monmon! Mas estou com medinho que ele se apaixone por você, – ela disse, rindo, e com aquele brilhinho nos olhos. - O que você precisa mostrar pr... – Ramon parou de súbito na porta e me olhou. – Quem é você? Cadê a ?
- Haha, Ramon – eu disse, fazendo uma cara de cínica e o fazendo rir junto com a Naju. – Vamos embora logo, estou morrendo de fome. E pra constar, a única linda aqui é a Naju – disse, apontando à mesma com a cabeça. Eu estava com vestido, e ela também. Mas o dela era mais longo que o meu. Vinha até um pouco abaixo do joelho. E o meu era rodado, uma graça. Mas o da Naju ganhava.


Ramon teve que parar o carro na frente do portão de casa, já que o chuvisco não tinha parado, e nós que éramos damas, com nossos sobretudos, tinha que exigir um pouquinho mais daquele cavalheiro. É, estava me sentindo a deusa. Só me sentindo. A deusa era aquela guria ali, do meu lado, que tinha um namorado babaca. Babaca no bom sentido!
A Naju me fez sentar no banco do carona, para explicar o caminho pro Ramon, já que eles não queria se perder. E, cara, o Ramon tinha se perfumado tanto que eu torcia o meu nariz consecutivamente, pra evitar um espirro. Odeio perfumes com doses exagerados e fortes. Ok, já reparei, odeio muita coisa.
- Cara, seu carro não tem som, não? – eu perguntei e comecei a vasculhar o porta-luvas, na maior cara-de-pau.
- Eu já falei pro Ramon que é pra ele ligar o som logo que a gente entra, mas ele diz que tem que ligar primeiro o carro e eu espero. Mas depois esqueço de ligar e ele também tá nem aí. Bate nele, ? – Eu ri, e falei mentalmente que a semelhança dela comigo era assustadora.
- QUEEN! – Eu dei um berro tão estridente que fez o Ramon colocar um dedo no ouvido que ficava mais perto de mim e a Naju rir descontroladamente, quando achei o tal CD jogado no porta-CD dentro do porta-luvas do carro do Ramon. – Como mexe nisso? – eu perguntei, olhando que o rádio não tinha lugar pra colocar o CD. Ele clicou num botão e o rádio ficou suspenso por dois botões, embaixo, mostrando o tal espaço pra colocar o CD. – Ahá! Sabia, estava testando a inteligência dele. – Enfiei o CD que logo começou a tocar “I Want Break Free”, sendo acompanhado por uma Naju, uma e um Ramon desafinados. Mentira, os únicos desafinados era eu e o Ramon, porque a Naju cantava maravilhosamente bem. Ai, minha melhor amiga é a melhor, fala sério.


Se eu disser que eu parecia uma criança, você acredita? Porque eu estava, realmente, parecendo uma criança. Não fisicamente, nem o que eu vestia, era... eu. Eu, , com aptidão inata de criança. Fui a primeira a entrar no hall do restaurante, fui a primeira pessoa que a moça que nos mostrou a mesa que nós íamos ficar, viu. Fui a pessoa mais simpática do mundo quando disse “lugar pra três” para a mesma moça e que me retribuiu a informação com um sorriso bem forçado. Talvez pela hora tardia, talvez por ser chata mesmo. E, bom, não fazia de propósito, eu estava feliz por estar lá. Havia muito tempo que eu não ia pra lá, lembra? Ela olhou para Ramon e Naju e fez um sinal com a cabeça, nos levando para a tal mesa. Sabe, tem uma área reservada, que era a dos fumantes. Tinha aquelas paredes de vidro e as janelas ficavam escancaradas. Se estivesse frio, o exaustor era que puxava a fumaça. E eu nunca gostei do cheiro de cigarro, mas sempre quis sentar por lá. Era um lugar reservado, e eles eram até mais privilegiados, porque tinha uma televisão de tela plana enorme e o som era bem maior do que as outras quatro que ficam na área dos não-fumantes. Mas não sei por que nos levaram até lá, afinal, não éramos fumantes. Mas fiquei quieta. É, fiquei, queria me sentar lá. Qualquer coisa eu dava chilique e mandava todo mundo parar de fumar. Eu ia ter que me retirar, sutilmente por aquela mesma moça, do local. Então era melhor eu ficar quieta mesmo. Ah, lembra que eu falei que o pessoal do espaço reservado era mais privilegiado? Pois é, tinha alguns instrumentos num palco improvisado, ali na frente. Aliás, bem na minha frente! Ah, adoro essas bandas que improvisam algo em local de alimentação. Que nem a do shopping! Eu sempre me empolgo e fico cantando alto. Mas o Tendall era um restaurante chique-não-chique. Não sei explicar. Ele tinha toda a pinta de ser restaurante chique, mas eram quinze reais por pessoa, sem contar os refrigerantes, que fica entorno dos dezoito reais, tudo. E bom, é rodízio de... churrasco. Por isso que era chique-não-chique. Ok, parei.
Naju falou para o Ramon ficar na mesa e cuidar de nossas bolsas enquanto eu e ela íamos pegar comida no balcão. Deduzi que ela queria conversar comigo. Algo sobre... ahn, talvez, er, bem, ? Afinal, eu fiquei a tarde inteira com ele. Mas eu não queria falar dele. E também não queria cortar a Naju.
- Lembrei que um dia você tinha me dito que você amava o Tendall. E que você estava saindo pra vir aqui, almoçar, quando eu entrei na Internet logo que cheguei da escola. – Ela sorriu para mim e eu lhe retribui o sorriso. – Você gostou, ?
- Obrigada, Naju! – eu disse, ainda sorrindo e colocando alguma coisa no meu prato, sem olhar para ela. – Sério, obrigada mesmo. E eu tenho que lhe pedir desculpas, porque eu devia ter ficado com vocês dois lá no Parque Central. Não ter vindo pra casa.
Ela riu levemente e fez um “tsc!” com a boca. E não perguntou absolutamente nada. Nada! Nada do que aconteceu lá. Não que eu esteja reclamando, mas é estranho. Ok, captei, não é estranho, eu que sou lerda. Eu pedi pra ela ir me buscar com uma voz meio chorosa, dã. Ela sabia que algo tinha acontecido, e só vai me perguntar quando eu estiver menos... sensível.
Escutei aquele barulho irritante de microfonia, que ficou fazendo aquele “pi!” constante. Olhei para Naju e ela olhou para mim.
- Acho que o showzinho vai começar, ! – ela me disse, enquanto terminava de pegar as coisas quentes.
E realmente iria começar. E eu, achando que ia ser algo só para a gente, do pessoal privilegiado, que iria escutar, me desapontei. As televisões, que passava um show da Laura Pausini em algum lugar, ficou naqueles fundos azuis, que estão arrumando algo, sabe? E aí, depois, apareceu aquele mesmo palquinho, que estava na frente da minha mesa. E as caixas de som, a mesma coisa, fazendo aquele barulhinho como se alguém estivesse ligando a algo. Sabe quando ligam a guitarra no amplificador? A mesma coisa. E aí, depois um cara apareceu, tocando um violão elétrico, preto.
- Vamos, ! – Naju me puxou para ir para a mesa, enquanto eu olhava apreensiva para a televisão que ficava mais perto dos banheiros.
Sempre gostei de ver o pessoal ligando os instrumentos em ampliadores. Quando Cecil, meu primo, me levou pra ir ao estúdio da banda dele assisti-lo, fiquei simplesmente fascinada. Olhava para um lado, ele estava ligando a guitarra. Pro outro lado, o guri estava arrumando os pratos da bateria. Na minha frente, o vocalista colocava o suporte do microfone na altura exata e o baixista dedilhava algo, enquanto se sentia confortável em cima do amplificador enorme. E eu me maravilhava quando meu primo ia beber água, e pedia pra que eu segurasse sua guitarra. Eu ficava dedilhando aquelas poucas coisas que ele me ensinou, e estava totalmente hipnotizada. Na realidade, eu me diverti demais naquele dia. Porque eu lembro que ele tinha sugerido à banda de tocar Hands Down, do Dashboard Confessional, e todo mundo reclamou. Que a letra era difícil demais, que o baterista não tinha conseguido pegar direito ou, então, o baixista tinha esquecido a cifra. E ele sempre toca essa música, pra que eu cante. Mesmo que ele me diga “porra, , tu canta mal demais.” depois. Mas sempre cantávamos. E naquele dia, depois que insistiu tanto (porque é de família sermos insistentes), os integrantes começaram a cantar. E o vocalista se embananou todo, literalmente. Aí o Cecil pegou o pedestal e colocou na minha frente, pra que eu cantasse. Porque, como eu, ele estava empolgado. E como eu estava empolgada, eu fui.
Sentei-me ao lado oposto de Naju e Ramon, que estavam um do lado do outro. E o Ramon reclamou um “como vocês demoraram, hein?”, entregou nossas bolsas e foi pegar sua comida. Eu comia lentamente, olhando o cara dedilhando algo pra ver se o violão estava afinado. Vi-o se ajeitando no banquinho de madeira, com o violão no colo, e pegando o microfone, pra ficar mais perto.
- Boa noite, pessoal do restaurante Tendall – ele começou, com uma voz muito potente e grossa, que intimidaria a qualquer um. E ele tinha uns vinte e cinco anos, pela aparência! Não parecia que ele tinha aquele vozeirão todo. É muito desproporcional. E ele olhava para todos nós da parte reservada e tentava até olhar os outros, por cima da parede de vidro e de cabeças a sua frente. – Vim aqui deixar a noite de vocês um pouco mais agradável, com uma pequena apresentação minha. Espero que gostem.
Vi algumas pessoas capengas baterem palmas. Tá, sei que isso pode ser incentivador para o astro e tal, mas ele não fez nada, só... falou. Socializou com seu público. E ele começou a dedilhar uma introdução de alguma música, e como eu sou detalhista em quase tudo, descobri que era o solinho de “Apesar de Você”, do Chico Buarque. Quem acha que eu me empolguei, levanta a mão. Sério, a Naju riu de mim, e o carinha olhou pra mim, também, sorrindo! Ele achou a maior graça! E nesse meio termo o Ramon, sentou-se à mesa sussurrando um:
- Eu saio e você já apronta, ? Acha isso bonito?
Eu lhe dei o dedo e continuei a cantar, enquanto ele falava um “, você está me deixando com vergonha! Pare agora!”. E eu só parei quando a música acabou, e o cara cantava bem melhor que eu, mas fiz pirraça, por causa do Ramon mesmo.
Eu já tinha cansado de recusar carnes e não me incomodava nem um pouco com a Naju e o Ramon, que comiam todas as carnes que vinham. Eu pegava ou lingüiça, ou picanha, que era a única coisa que eu comia, sem reclamar. Fraldinha, carneiro, e coisas do tipo? Tudo não. Não quero comer nenhum animal, depois que eu comi carne de avestruz. É nojenta. Tão nojenta que eu vou te contar como é: sabe aqueles trecos que você coloca o garfo e já desmancha? Ela é assim. Aí, parece com um frango. Quando você coloca na boca, um gosto meio refrescante, ardente, sei lá, vem na boca. E aí eu fiquei com nojinho, que não me importei nem com o fato de estar num restaurante de trinta reais por pessoa, de um hotel, e cuspi mesmo. Ninguém manda meu pai aceitar almoçar com o tio dele. Ele sabe que ele é fresco e quer torrar o dinheiro dele mesmo.
E a outra música que ele começou a tocar, não foi nada mais, nada menos que “A melhor banda dos últimos tempos, da última semana”, do Titãs. E vou lhe dizer, essa música é a melhor. Mentira, tem música melhor, mas é a melhor, não sei explicar. Mentira, sei explicar, mas eu vou usar um palavrão e nem é legal falar que a música é foda. Parei.
Cantei, pra variar com ele. E comia muito lentamente, nem prestava atenção na Naju e no Ramon. Respondia um “aham!” pra eles, qualquer coisa que eles me falavam.
Depois ele começou a tocar Beatles. Ah, meu Beatles, amo Beatles, beijos. Paul McCartney, meu Deus grego. Mentira. E bom, ele começou a tocar “All my Loving”. Chuta de quem eu lembrei, na parte do “I’ll pretend that I’m kissing the lips I am missing, and hope that my dreams will come true”. Sim, aquele demônio em forma de gente, chamado , e que eu, infelizmente, amo mais que a minha própria vida. Que da minha própria vida, o quê! Minha vida não é nada “oh!”, e eu o amo mais do que um simples “oh!”. Eu o amo de uma maneira inexplicável, mas, oi, não quero falar dele. Nunca vai dar certo, não é mesmo?
Fingia que nem estava escutando nada, ou que nem conhecia essa tal banda. E aí a comida começou a sumir do meu prato, e eu, formiguinha como sou, já estava de olho nos doces. Olhei pra Naju, e falei:
- Pergunta qual é o meu nome.
- Ér, qual o seu nome, ?
- Fu.
Aí a Naju começou a rir, e aposto que já tinha até entendido o que eu ia falar com aquela piada. Aí ela continuou:
- Fu do quê?
- Fumiga! – eu disse toda feliz. – E o seu?
- Ota. – A Naju ria tão alto, que eu sentia o olhar de todo mundo na nossa mesa. E o Ramon, bom, o Ramon colocou a mão no rosto e fingiu que nem estávamos na mesma mesa.
- Ota o quê?
- Ota Fumiga. – E aí eu desatei a rir bem alto.
Não ligava se estavam olhando pra gente, não ligava que a moça antipática ia nos dar um come, não ligava para nada. Só queria me concentrar na Naju, ou em qualquer outra coisa que não fosse os doces e a música.
- Mas, , você vai nos levar pra um outro lugar pra comermos algo bem gostoso, fechou? – ela me disse, sorrindo, depois que cessamos os risos. E assenti com a cabeça.
- Certo – eu respondi e dei graças que a música tenha acabado.
E aí, começou outra. “Hey there Delilah”, do Plain White T’s. Meu queixo caiu, literalmente. Mentira, não foi literalmente. Mas caiu. Como assim, “Hey There Delilah”? Não é uma música nem de uma banda conhecida aqui! Como esse cara sabia tocar isso? Cantar isso? Por que ele conhecia isso? Essa música... Essa música... Ai, droga.
Naju olhou pra mim e cantou o refrão.
- Oh, it’s what you do to me. Oh, it’s what you do to me. A thousand miles seems pretty far, but they've got planes and trains and cars... - Eu olhei para ela chorosa, e ela não parou, só me fez com que eu começasse a cantar com ela, bem baixinho:
- I'd walk to you if I had no other way. Our friends would all make fun of us and we'll just laugh along because we know, that no one of them have felt this way.
Até o Ramon cantou com a gente! Ah, droga. Não tava gostando daquilo. Queria tentar esquecê-lo, e começavam a fazer isso? Ah, vá. Esperei a música acabar, ainda cantarolando, e eu não queria sair de lá. Queria escutar as músicas. Não importava se eu tinha acabado de comer, nem que estava tarde.
Outra música, e dessa vez foi Pull Down. Cara, quem escuta Pull Down? Nem um por cento da população brasileira! É uma banda totalmente... escondida, que nunca foi descoberta... Enfim, impopular. E foi, bem, “Promete”. Nessa, eu quis tirar o violão da mão dele e bater o violão na cabeça dele, ou então tocar com ele. Ele era extremamente bom, era mesmo. Confesso! Todas as músicas pareciam realmente com as originais, e não foi diferente com essa música. Eu senti até inveja do cara por conseguir fazer o solinho de “Hey there Delilah”, que eu sempre quis aprender, que até minha irmã sabe fazer. Mas aquela música... Já era pra ter começado a cantar e nada do cara. HAHA, otário, errou. Quem dera que tenha sido ele que tinha errado.
- Promete que nos veremos logo. Promete que isso não vai ficar assim. Não consigo suportar a falta do teu olhar. – Calma, eu estava perplexa demais. Acho que a Naju estava com o poder da Florzinha ainda. Mas não, não era ela a questão. Era ele. Não, não era o Ramon, nem o cara que tava cantando, da voz desproporcional. Era ele, o meu Grandão, o meu Bebê, o meu Gordo, o meu Gatinho! Ele estava cantando, pra mim! Bom, pelo menos acho que a Paloma, a Dominike ou a Fernanda não estavam ali. Ah, tem a Naju. Será que ele está cantando pra Naju? É, melhor eu me controlar. Será que o e a Naju têm um caso? E tipo, à três? Ramon junto. Ok, parei, é a perplexidade e incredulidade talvez. Não, já sei! O leu Sábado à Noite, da Babi Dewet, que eu tanto falei que gostava e... e... E quis fazer que nem o Dougie! Que era o meu personagem principal, oi. E awn, sério, eu tava tipo, tremendo! Tremendo nada, eu tava vibrando! Vibrando de excitação! Ai, o ! Calma, não dá pra acreditar! Eu sei, ele já cantou muitas vezes pra mim, pelo telefone, mas ali, com ele ali, na minha frente, era a coisa mais linda do mundo! – Promete que vamos ficar de novo, promete que comigo será feliz. Que mesmo essa distância não vai roubar você de mim... – Ele me olhava, e eu sentia como se fosse só eu e ele ali. Não tinha outros, não tinha nem sequer a Naju e o Ramon, que eu depois esfolaria de porrada por serem tão traidores e ajudar o . – Quanto tempo mais vou agüentar ficar sem te abraçar? Sinto a falta do calor que encontro no nosso amor.
E aí, ele repetiu aquela parte e eu comecei a cantar com ele, baixinho pra não estragar. E ele abriu o maior sorriso do mundo. Ai, meu coraçãozinho dando um pulo, oh. Mentira, vários pulos. Ahá, ele estava numa cama elástica. Ou numa panela, feito pipoca, pulando. E aposto que muitos estavam achando a coisa mais tosca do mundo, mas vai, me diz, em quantos relacionamentos tem um integrante que canta para seu parceiro? Não que eu tenha algum relacionamento com ele, digo, somos só amigos. Ex-ficante. Ex-namorado. Mas somos amigos. Sei lá o que somos, mas tá. Você entendeu o que eu quis dizer. E pra mim, estava sendo a coisa mais linda. Tá, sei que talvez nem fosse pra mim, fosse pra outra guria ali, que ele deve ter tido um rolo, à distância, também... Talvez nem fosse comigo! Por que eu poderia achar que era pra mim? Tá, ele estava olhando pra mim, mas mesmo assim, vai saber. Tipo, sou gata demais, vai que eu o hipnotizei. Mentira.
- Sem promessas, só o calor. Quero aproveitar esse momento, com você. Só com você. Viver esse sentimento. – Ele me deu um olhar tão penetrante, que eu até fiquei meio tonta. Mas não desviei o olhar, fiquei olhando ali, e ele olhava pra mim, com uma espécie de ternura, misturada com... amor! Espera, eu vi amor no olhar do , eu vi! E então ele desviou o olhar para o... Vamos dizer, público. E começou a falar com eles. E ele estava nervoso, dava pra ver! Ele tinha feito o maior show e só depois ficou nervoso? Não é o contrário, não? – Eu peço que me desculpem a mudança repentina de cantor, ou melhor, fizemos um dueto aqui. Mas eu queria dedicar essa música totalmente e especialmente para a única pessoa que sabe o que ela significa. – E olhou para mim. Meu coração ia pifar. – Pra minha Pequena. – E ele apontou para mim. Eu acho que senti minhas bochechas arderem, estava sentindo. Até minha orelha ardia! Aposto que eu estava um pimentão, e logo foi confirmado pelo risinho da Naju. – Na realidade, ela não é “minha”, porquen afinal, somos dois desconhecidos. Não desconhecidos ao pé da língua. Vou resumir nossa história. – E ele olhou pra mim, mais uma vez. Eu sorri verdadeiramente. E a Naju olhou pra mim e depois apontou com a cabeça pra trás. E eu olhei, mesmo não querendo. Todo mundo estava olhando, o restaurante inteiro! Era uns pirralhos que estavam se divertindo, correndo por lá. Bem simpáticos, esse público, escutam a vida alheia. Ah, já sei, eles são intrometidos. Olhei para o mais uma vez e ele começou. – Nós namoramos virtualmente.
E ele olhou para o público e sorriu abertamente. E eu, curiosa como sou, olhei pra onde ele olhava. Confesso, meu queixo caiu. Estavam ali, paradas na portinha das paredes de vidro a Paloma, a Dominike e a outra garota, que eu deduzi ser a tal Fernanda. E elas sorriam tão declaradamente que eu senti certa compaixão por elas. Era estranho, vê-las ali. E muito mais vendo uma... vamos dizer, declaração do pra mim. E o mais estranho era a parte em que elas apoiavam! Sério, era muito estranho. Virei de novo para e sorri sincera. De repente, eu me sentia até mais leve. - Aposto que não fomos os únicos, nem os primeiros, fomos só mais um casal de vários. Ficamos quase um ano juntos. E era tudo perfeito, até quando eu precisei estudar pra ir pra faculdade e fazê-la. Não lhe dava atenção suficiente e ainda me sentia culpado. Na verdade, eu era o culpado daquilo tudo. E talvez, por medo de decepcioná-la, piorei as coisas. Menti a ela, disse que a tinha traído. Porque assim, ela teria raiva de mim e talvez poderia ser mais fácil pra esquecê-la. Sabendo que ela me odiava. Mas meu coração não deixou. Fui um tremendo filho da pu... – Ele olhou para mim e deu um sorrisinho sem-graça quando viu que eu ia rir. – Digo, filho de boa mãe, e tentava esquecer aquela boca, que nunca toquei, em boca de outras, mas não conseguia. Logo depois, vinha a imagem da Pequena na minha cabeça. Era uma tortura. Então vi que não adiantaria esquecê-la por meio de outras garotas. Fiquei em casa, mofando, bebendo, e se não tinha bebida, eu tentava arranjar algum cigarro, pra tentar aliviar a dor. Vários amigos meus tentavam me tirar daquela situação, mas eu simplesmente ignorava-os. – Eu acho que eu prestava tanta atenção nessa parte, que se eu piscasse, perderia algum detalhe e acabaria com a minha vida inteira. – Passei três anos assim. Eu até sai algumas vezes com amigos meus, mas eu sempre ficava jogando de lado, enquanto o via ficando com aquelas garotas, que no dia seguinte, nem se lembrariam do nome. Ou porque beberam demais, ou porque queriam usá-las pra... Bem, vocês sabem, e só digo coisas assim depois da meia-noite. – E riu, sem-graça, tirando até alguns risinhos daqueles que comiam ali. Eu coloquei a mão na boca, pra não rir. Ele, daquele jeito, era a coisa mais linda do mundo! – E, cara, eu vivia como se fosse um morto-vivo. Não queria nem comer. Minha casa parecia um chiqueiro. E eu me barbeava só quando aqueles pêlos começavam a me incomodar. Um lixo em forma de gente, confesso. – E ele passou a mão nos cabelos, tentando achar outras palavras. – E não agüentando mais toda essa tortura, depois de uns três anos desse jeito, resolvi dar um jeito na minha vida. Começando a arrumar minha casa... Ok, não fui eu que arrumei, foi a Marlene, minha empregada. – E riu, outra vez. Ai, eu morro com a risada dele um dia, eu morro. Ai, que coisa gostosa, gente! – Barbear meu rosto, cortar os cabelos, enfim, primeiro a aparência e tal. E depois, corri para a minha meta, que era fazer algo que eu tinha que ter feito há um bom tempo antes: correr atrás da Menina-Mulher da minha vida. – Ele me olhou com tanta ternura que eu quase desmaiei. Sério, sou uma menina boba apaixonada. Melhor, besta apaixonada. Destino cruel, o meu. Mentira, é gostoso! – E então, eu a encontrei, e todas as minhas possibilidade de encontros que imaginei foram frustradas, porque foi o melhor encontro que eu nunca pude imaginar. Ok, admito, no começo, eu pensei que minhas tentativas teriam sido por água abaixo, mas logo depois o sonho se concretizou. Ela me levou pra casa, pra que nós conversássemos, aquele negócio de acertar as coisas, colocar os pingos nos I, etc. e tal. – Ele articulou com as mãos, e depois levou uma até os cabelos, com uma expressão engraçada. – E aí, sabe aquele primeiro beijo que você sempre esperou? Certo, esse não era esse beijo aí. Parecia que era o meu primeiro beijo, e eu poderia morrer daquele jeito, que eu já morreria feliz. Passamos a tarde inteira juntos. Passamos por uma pequena-grande aventura, e depois discutimos por algo bobo. E bom, ela não sabe, acha que tudo o que eu lhe disse foi verdade, porque eu sou um bom ator, né? – Ele sorriu irônico e eu quis matá-lo. Que história era aquela? – Ela caiu direitinho na minha armação. Não era bem armação. E a Naju e o Ramon – Ele apontou pros dois, que sorriram – me ajudaram, em tudo. Obrigado, meninos. E, Naju, você é linda, e se você fosse a , eu iria querer ficar com você, ok? – Eu o olhei e estressei os olhos, enquanto a Naju ria, junto a Ramon. – Brincadeira, Docin de Goiaba. – Ok, ele falou. Ele me chamou de “Docinho de Goiaba” na frente de uma platéia, e eu escutei risinhos. É bom descer logo, porque eu vou matá-lo. – Mas enfim, há uma questão que não quer calar a todos. Mentira, a mim. E é agora ou nunca: , volta pra mim? – Eu escutei um monte de “oh!” consecutivo, e acho que meu rosto estava um pimentão. Por que eu sempre ficava assim quando ele me pedia em namoro? Tá, foram umas três, quatro vezes, e mesmo assim! Urgh. Calma... O que eu falei? O QUE ELE FALOU? ELE ME PEDIU EM NAMORO, É ISSO? Ah, calma, não caiu a ficha. Ele me pediu em namoro? Escutei-o rir no microfone e depois descer do palco, e eu, automaticamente, levantei-me da cadeira, enquanto ele se aproximava de mim. Aí, eu fiquei com medinho e meio que me afastei, meio tonta. Mas logo depois parei ao vê-lo com as mãos na minha cintura. – E aí, neném, você aceita namorar comigo, só mais uma vez? – Enquanto ele falava isso, ele pegava uma mexa dos meus cabelos, e a colocava atrás da orelha, sem descolar os olhos do meu. Acho que eu estava meio paralisada, e assim, eu apenas sorri, mordi os meus lábios e levei meus braços até os ombros dele.
- Claro que eu aceito, Gordinho – eu disse, ainda sorrindo. – Você sabe que é o homem da minha vida.
- Hm, bom saber... – ele falou e depois sorriu, e eu fiquei esperando o beijo, tipo em cinema, que o mocinho volta pra mocinha e aí eles se beijam. Mas não, ele só falou um “bom saber” como se eu fosse um... nada! Que negando ou aceitando daria na mesma. Foi aí que ele pegou minha mão esquerda. – Fecha os olhos. – Eu o olhei, desconfiada. – Vai logo, ! – Eu logo fiz o que me mandou, e assim, senti-o segurando meu dedo anelar. – Pode abrir – ele me disse tão baixo que mal pude escutá-lo. Mas escutei, e assim o fiz. Abri os olhos lentamente e me deparei com o sorriso mais lindo do mundo e, não conseguindo evitar, sorri também. Ele aproximou seu rosto do meu, sua boca do meu ouvido, e perguntou, num sussurro: – Já que você é a minha namorada, quer ser minha mulher?
E assim acaba nossa história. Mas ela foi trágica. Logo depois que ele me perguntou aquilo, eu senti que morri, de tão rápido que o meu coração pulava. Então eu estou mortinha, mortinha. Mortinha por saber que eu vou me casar com o melhor namorado, digo, noivo, digo, vou ter o melhor marido do mundo. O meu Grandão. Só ele.


Fim



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