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by Pucca
betada por Anna



Capitulo 1 – A Proposta

Uma fina chuva começara a cair quando eu encarava a enorme fachada da revista Poise, onde a digníssima pessoa que vos fala trabalha. Sentia cada uma daquelas finas gotas entrarem em contato com minha face, a princípio nem me preocupei com aquilo, mas eu não poderia me atrasar. Afastei qualquer pensamento de minha mente e abri a enorme porta de vidro fumê vendo várias pessoas se movimentar por todos os lados, não era somente quem trabalhava na revista que tinha muito trabalho. Cada uma das pessoas, que quase esbarravam em mim, tinha uma função naquele prédio de mais de dez andares e muitas delas sonhavam em passar do andar térreo.
- Olá, Gabriel. – cumprimentei o recepcionista, que sorriu para mim, e fui direto em direção aos elevadores.
Olhei para as minhas unhas, muito bem feitas, fingindo estar completamente alheia ao mundo à minha volta, mas a minha intenção verdadeira era escutar as conversar paralelas. Ser redatora de uma revista de fofoca era realmente lucrativo quando se trata de saber o que ocorria na vida dos outros. Logo as portas de um dos elevadores abriram e eu entrei apertando o botão do sétimo andar, o andar responsável pela sessão de fofocas ou na língua de nós, meros redatores, a sessão que dá vida a revista.
Quando as portas voltaram a se abrir e, finalmente, pude dizer que havia entrado no meu mundo, pessoas andando de um lado para outro com caixas contendo modelos de capa, modelos de matérias, entre outras coisas. Além do som dos telefones tocando a cada segundo e, claro, pessoas conversando sobre os acontecimentos da vida dos famosos. Caminhei, com muita elegância, até a minha sala que se encontrava mais ao fundo daquele andar. Já havia me esquecido quanto tempo trabalhava ali, dois anos? Três? Com certeza não. Foram cinco anos de trabalho duro para chegar aonde cheguei, foram muitas horas de lazer jogadas fora procurando uma matéria bombástica, não é pra menos que a minha irmã quase me matava por não comparecer a alguns jantares de família ou, até mesmo, a alguns aniversários. Tem vezes, diversas vezes, que me sinto culpada por isso, já que estar ali não era exatamente o meu sonho e sim escrever sobre vida de pessoas inexistentes, pessoas que, posso dizer, não existem no nosso plano de vida.
- Terra chamando ! – ouvi alguém me tirar de meus devaneios. Quando me virei deparei com a melhor visão masculina que uma mulher poderia ter: cabelos ruivos caídos sugestivamente sobre o rosto, olhos profundamente verdes, poucas sardas e um físico completamente escultural. Com certeza William Fogg é o homem perfeito para qualquer mulher, pena que era gay.
- Falou alguma coisa Will? – perguntei depois de um longo suspiro de pesar.
- Eu estou te chamando desde que você passou pela porta daquele elevador. – ele apontou para a porta de onde eu havia acabado de passar.
- Desculpe, estava um pouco aérea. – disse um pouco desconcertada, depositando a minha bolsa sobre a minha mesa.
- Você é aérea . – o ruivo disse passando o braço por meu ombro e eu abafei uma risada, por mais que eu venerasse o físico atlético dele, não podia negar que ele era o meu melhor amigo .
- O que você veio falar comigo? – perguntei o abraçando pela cintura.
- Ah, claro, você já viu a matéria da Sanderson? – ele me perguntou e fiz uma careta de desgosto. Emilia Sanderson era a pessoa mais imatura, chata e sem profissionalismo que eu já conheci em toda a minha vida. Claro que eu digo que ela também me detesta, mas isso é um caso a parte.
- O que a nossa querida Emilia escreveu? – perguntei fingido falso carisma ocasionando uma crise de risos em Will.
- Leia você mesma. – William me passou uma folha após se recuperar de seu pequeno ataque, quando peguei o papel e o encarei, o ruivo estava com o semblante muito sério.
“Amor proibido” somente lendo aquele título poderia ter certeza que a matéria era boa, um perigo para mim, pois nós duas éramos concorrentes pela atenção da dona da revista. Comecei a ler linha por linha daquele texto e os meus olhos arregalavam cada vez mais, ao terminar tive vontade de rasgar aquele papel em mil pedacinhos.
- Pode rasgar se quiser, há várias cópias. – o ruivo me disse lendo os meus pensamentos.
Nem pensei três vezes, comecei a rasgar aquela folha com toda a raiva que estava sentindo. Aquela loira oxigenada estava ganhando de mim, não poderia deixar aquilo quieto, tinha que passá-la e, para isso, teria que arranjar uma matéria mil vezes melhor do que a dela.
- Você sabe se o que ela escreveu é realmente verdade? – perguntei espumando de raiva.
- Eu não sei. Mais da metade das pessoas daqui acham que é mentira o que a Emilia escreveu. – Will me disse com o semblante transpirando sinceridade – Já tem gente que já está atrás de informações pra ver se é verdade. – ele me disse num tom de voz mais baixo, como se estivesse me contando um segredo.
Naquele mesmo momento eu iria responder, mas o barulho de uma porta batendo e um choro interrompeu completamente a minha fala. Quase que automático, eu e Will fomos para porta e ver o que estava acontecendo. Não foi o meu espanto quando vi que era Emilia Sanderson saindo do escritório da diretora aos prantos, provavelmente algo aconteceu. Quando ela passou por nós não pude deixar de perguntar.
- O que aconteceu, Sanderson? – no mesmo instante ela me encarou com aqueles enormes olhos já vermelhos e cobertos de lágrimas.
- O que aconteceu foi que a nossa querida e amada diretora Clarice Baker não sabe a diferença da verdade do meu texto com a mentira de um jornalzinho de quinta categoria.
– O que você quer dizer com isso? – enruguei o cenho e quando ela iria responder a porta da sala da Sra. Baker e a própria saiu e caminhou em nossa direção.
Não é pra menos que todos a chamam de Dama de Ferro quando ela não está escutando. Aquela mulher coloca medo em várias redatoras somente com o olhar, ela tem um ar imponente como se dissesse que ninguém está acima dela e nunca estará. Descrevê-la em poucas palavras é terminantemente impossível já que Clarice Baker é indescritível.
- Srta. e Srta. Sanderson, na minha sala. Agora! – ela disse aquelas poucas palavras com a voz firme e logo voltou a caminhar até a própria sala comigo e Emilia ao seu encalço.
Quando entramos naquele local pude sentir o desespero da minha colega de trabalho quase que imediatamente, não era nada natural Clarice Baker chamar uma funcionaria até o seu escritório e muito menos ainda quando são duas. E com certeza agora eu também estava ficando desesperada. Um silêncio constrangedor se apossou do local, pois nenhuma das três resolvera se pronunciar, somente nos encarávamos e posso dizer que aquele jogo de olhares não era nada reconfortante.
- O que a senhora quer falar conosco, Sra. Baker? – perguntei um pouco receosa, o que não passou despercebido pela minha chefa.
- Cada uma é boa no que faz, apesar dos erros graves... – naquela hora ela deu um olhar significativo para Emilia que se encolheu um pouco – E nós precisamos fechar a ultima edição deste ano com chave de ouro, para isso preciso que vocês duas encontrem um história e me mostre, a melhor será capa da revista. Só tinha isso para dizer, podem ir! – ela fez um aceno com a mão para nos dispensar. Eu e Emilia nos encaramos com os olhos levemente arregalados e depois caminhamos até a porta, mas antes de a abrirmos ouvimos a voz da nossa chefa nos chamar – Não quero noticias que sejam um fiasco e muito menos fajutas! – novamente ela encarou Emilia com um olhar significativo, senti que a minha querida companheira havia gelado naquele momento e eu tive que me segurar para não rir naquele momento, ela fez um aceno com a cabeça e nós duas saímos da sala um pouco mais aliviada já que não havíamos sido demitidas.
- Desejo todo o azar do mundo! – Emilia disse com um sorriso totalmente falso saindo de perto de mim e caminhando para a sua sala.
Dei um suspiro cansado e revirei os olhos começando a caminhar em direção a minha sala, sentindo alguns olhares sobre mim, os ignorei e continuei caminhando. Teria muito trabalho para fazer, encontrar uma história não seria uma coisa fácil e ainda mais em três semanas! Seria um trabalho quase que impossível.
Entrei na minha sala e me sentei na minha cadeira enterrando o meu rosto entre as minhas mãos tentando pensar numa saída para esse nó que eu acabei de entrar. Toda aquela situação pelo menos teve uma coisa boa, descobri que a maravilhosa história da Emilia não passava de uma fraude. Aquilo realmente foi muita coragem, já que nada passava despercebido pelos olhos atentos da nossa querida chefa! Soltei um grito abafado pelas minhas mãos e ouvi batidas vindas da minha porta, olhei para a pessoa parada na minha frente com um olhar cansado.
- Como foi à conversa com a dama de ferro? – William me perguntou se sentando na cadeira em frente a minha mesa.
- Às vezes eu me pergunto se você trabalha. – disse com um sorriso debochado – Achei que iria se demitida.
- E você foi?? – o ruivo me encarou com os olhos arregalados.
- Não. Ao invés disso eu e a Sanderson temos que escrever uma matéria bombástica, a melhor será a capa da revista. – expliquei em poucas palavras toda a agonia dentro daquela sala.
- Ótimo! Você escreve e poderá ser promovida. – William me disse animado até demais, às vezes, penso que ele vive num mundo que não é o mesmo que o meu. - Will, não é tão fácil assim! As noticias não caem do céu! – eu acabei falando já num completo desespero.
- , olha pra mim! – ele me disse sério e o encarei com uma expressão lamentável – Eu sei que você não gosta de trabalhar aqui, que o seu mundo é outro, mas pense que após escrever essa matéria você poderá escolher se quer ficar aqui ou ir embora. – naquele momento eu senti uma luz invadir a minha mente, o que William havia dito naquele momento era verdade e me fez ter esperanças além de me fazer sorrir.
- Você tem razão, agora tudo depende dessa matéria.
- Ah, você consegue! Sabe que eu te conheço desde a época do colégio!

Flashback on

Havia acabado de fechar a porta do meu armário com uma força incondicional tamanha era a minha raiva. Não sabia dizer o porquê de tudo aquilo, mas é que simplesmente havia acordado daquele jeito e se eu acordo de mau humor pode dizer que iria continuar assim até o final do dia. Virei-me e comecei a visualizar a movimentação dos corredores, cada estudante caminhava vestido adequadamente a sua tribo, era um tipo de norma a se seguir, se suas roupas não eram adequadas podia dizer adeus ao grupo de “amigos” que andavam com você todos os dias.
- Raiva acumulada ou TPM? – ouvi uma voz ao meu lado e sorri automaticamente ao ver Will ao meu lado. Com toda a certeza ele era o motivo pelo qual a escola não era tão insuportável.
- Eu não sei talvez os dois. – disse ajeitando os meus cadernos entre os meus braços.
- Vamos, senão vamos nos atrasar pra aula. – o ruivo disse passando o braço em volta do meu pescoço e me conduzindo para a sala de Álgebra.
- Olha se não é o casal do ano! A florzinha e a nerd! – fechei automaticamente os meus olhos contando mentalmente até dez ao ouvir o comentário feito por Emilia Sanderson e sua gangue de riquinhos.
Todo dia era a mesma coisa, por ser bolsista naquela escola eu e a minha irmã,, vivíamos ouvindo comentários daquele tipo e, o William também ouvia já que... Bem, por ele ser gay. Ninguém dos populares deixava de debochar de nós, éramos uma espécie de “alvo” a que eles tentavam acertar todos os dias e vou dizer: é frustrante.
- Vai cuidar da sua vida, Sanderson! – falei sem mais nenhuma gota de paciência me virando para encarar aquela loira azeda.
- Vejo que alguém acordou do lado errado da cama. – ela disse se aproximando de mim com um ar de superioridade.
- Vejo que alguém acordou mais feia do que normalmente. – rebati com um sorriso de lado e pude ouvir que o Will contraiu um riso. Acho, não, tenho certeza que a loira não gostou nada do meu comentário, pois havia levantado a mão para me dar um tapa, mas alguém havia a segurado. Quando olhei era um dos amiguinhos dela, . Oh, garoto insuportável! É tão nariz empinado quanto a Sanderson!
- Emilia não suje as suas mãos com ela. – ele me olhou de cima a baixo com aqueles olhos dele e deu um sorriso debochado – Você é muito superior a ela!
Aquilo havia sido a gota que fez o copo trasbordar, a minha vontade era de dar um soco bem no nariz dele, mas não vou me rebaixar ao nível dele. O que eu fiz? Bem, eu simplesmente segurei William pelo braço e praticamente o arrastei pelo corredor até a sala de Álgebra. Se eu já estava irritada e o meu dia estava péssimo, pode ter certeza que ficou casa vez pior.

Flashback off


Sinceramente, as lembranças do meu colégio não eram muito boas, na verdade, eram péssimas. Nunca mais eu queria voltar para lá e quando eu soube que iria trabalhar com aquela loira oxigenada entrei no maior desespero, por um momento havia pensado que, ao sair daquele inferno, minha vida iria melhorar por completo, mas estava completamente enganada. O inferno me perseguiu e trabalha a algumas portas perto de mim.


Capitulo 2 – Loft

Depois do estresse do dia, o máximo que eu poderia fazer era ir beber. Não que eu seja uma bêbada condicional, muito pelo contrário, eu quase não bebo, é raro isso. Por isso quando esses momentos raros acontecem, eu vou, ao Loft, a boate em que a minha irmã trabalha como bartender. Não é o melhor emprego do mundo, mas ela ama fazer malabarismo com as bebidas e tudo mais e eu gosto de vê-la feliz.
é um ano mais nova do que eu e, sinceramente, nunca ocorreu aquelas rixas entre irmãs, uma briguinha boba de vez em quando, mas nada de mais.
Quando nós nos formamos fomos trabalhar ali, mas eu só fiquei pouco tempo, pois havia conseguido um emprego na revista. Ou seja, eu saí, mas continuou lá até hoje.
Ao entrar no local notei um número grande de pessoas espalhadas por todos os lados, não é pra menos que é o lugar mais procurado por toda a Londres. Sabia que vários jovens de dezoito anos amavam aquele lugar, mais um ponto positivo por ser redatora de uma revista de fofoca, e eu já fui um desses jovens, mas com o passar do tempo o trabalho começou a dominar a minha vida e menos ainda eu freqüentava aquele lugar.
Muitos ficariam até admirados que uma mulher jazendo nos seus vinte e cinco anos estaria solteira e trabalhando até demais, não que eu goste disso, mas é necessário. Minha vida, desde quando eu era muito nova, nunca foi fácil. Meu pai morreu quando eu tinha quatro anos, cujo motivo nunca soube, e desde então minha mãe fez de tudo para fazer com que a minha vida e a da minha irmã fosse perfeita. Quando começamos a freqüentar o colégio ela conseguiu duas bolsas de estudos permanentes no colégio Stayn High, no começo tudo era muito bom para nós, mas à medida que fomos ficando mais velhas os outros alunos começaram a nos negligenciar por sermos de uma classe social bem mais baixa do que as deles e ser tratada mal no colégio por causa disso faz com que as coisas ficassem cada vez mais insuportáveis.
Tentei me esquecer do meu passado naquele momento e me divertir aquela noite, precisava de um momento somente meu para esquecer de todo o estresse do trabalho e focar todos os meus pensamentos em mim. Olhei em volta e notei um pequeno aglomerado de pessoas mais concentrado no balcão e quando eu consegui passar por todos consegui ver quem estava tomando a atenção de todos. Minha irmã. Ela fazia uma série de malabarismos com duas garrafas azuis e fazia vários drinks ao mesmo tempo e, sinceramente, aquilo não me surpreendeu, sabia que ela era boa. Consegui encostar o meu corpo no balcão e sorrir ao notar que ela nem havia me visto.
- O que você pode me recomendar? – perguntei com o tom da minha voz aumentado cinco vezes mais devido a música que tocava. Com a minha pergunta consegui chamar a atenção da minha irmã e fazer com que a mesma quase soltasse um grito de tão animada que havia ficado. depositou as garrafas no balcão atrás de si e olhou para mim com o semblante admirado.
- Resolveu deixar as fofocas de lado e se juntar as pessoas de verdade? – ela me perguntou apoiando o cotovelo no balcão.
- Vim tentar me divertir. – sorri.
- Então o que você está fazendo desse lado do balcão? Vem pra cá e me ajuda. – me chamou e eu olhei em volta vendo o número enorme de pessoas que ela estava atendendo ao mesmo tempo. Olhei para as outras bartenders e vi que não estava tão diferente para elas. Sorri e me apoiei no balcão, assim, conseguindo pulá-lo e ficar ao lado da minha irmã.
- Eu estou enferrujada, não sei mais fazer isso. – disse algo que era verdade, fazia tantos anos que eu não pegava numa garrafa que eu não sabia mais se iria quebrá-la ou girá-la.
- Ah, deixa de ser modesta. Coloca esse casaco lá trás e vem me ajudar. – fez pouco caso e eu sorri balançando a cabeça. Se for algo que eu saiba era que ela nunca iria mudar.
Fiz o que a minha querida mana me disse pra fazer e logo voltei para o balcão sentindo a típica sensação de nostalgia ao lembrar os momentos que eu passava ali naquele lugar. Senti uma mão no meu ombro, me tirando dos meus devaneios, e sorri meigamente ao olhar para a minha irmã. Num movimento rápido ela se afastou de mim e me jogou uma garrafa, na qual eu peguei facilmente e rodei em minha mão. E assim, continuei a fazer uma série de malabarismos por toda a noite até chegar à madrugada onde o movimento no balcão começou a diminuir, já que os clientes começaram a se direcionar para a pista de dança, onde os garçons e as garçonetes começaram a servir as bebidas.
- Me vê duas. – vi um homem se aproximar do balcão e pedir as bebidas para a minha irmã. Uma das minhas insistentes manias é de analisar as pessoas e naquele momento não havia sido diferente. O tal tinha um físico firme e bem altivo, uma mecha do cabelo recaia sobre os olhos dele e posso ter certeza de, quanto mais ele tentasse, aquela mecha sempre cairia sobre a face. Analisei o olhar dele e isso fez com que um sorriso se formasse em meus olhos, ele estava encarando a minha irmã com cobiça. Mas não uma cobiça dominadora e sim, uma que demonstrava respeito.
preparou as bebidas e entrego-as ao homem, ele, por sua vez, lhe lançou um olhar que fez as orelhas da minha irmã ficar levemente vermelhas. Um fato que eu nunca deixava de rir, ela era a única que eu conhecia que ao invés de corar as bochechas, corava as orelhas. Ri comigo mesma e vi o homem se afastar, dando-me a deixa de me aproximar.
- Cobre as orelhas com o cabelo. – disse baixo quando me aproximei dela.
- Como? – me encarou incrédula naquele momento.
- Ele até que é bonito. – me apoiei no balcão e segui o com o olhar - Mas não era pra tanto.
- Onde você está tentando chegar ? – me perguntou desconfiada se apoiando também no balcão e olhando para tudo em volta.
- Fala, você fico interessada nele, não é? – perguntei dando um leve empurrão nela com o meu ombro, ela deu uma pequena risada e me empurrou de volta.
- E daí? Eu sempre fico interessada por algum cara, não tenho culpa que os que freqüentam aqui são realmente bonitos. – nós duas acabamos sorrindo maliciosamente ao mesmo tempo provocando um ataque de risadas nas duas. Tem vezes que acho que nós duas deveríamos ter nascido gêmeas devido ao número exagerado de vezes que fazemos coisas iguais.
- Sabe, aquele cara me lembra alguém. – disse quando recuperei o fôlego. O que havia acabado de falar, não havia sido mentira. Quando analisei bem aquele homem tive a sensação de que o conhecia de algum lugar, no qual não me lembrava.
- Eu... – iria dizer algo quando o no qual estávamos falando, há poucos segundos atrás apareceu novamente, só que dessa vez com um amigo ao seu lado. E mais uma vez a minha mania veio à tona, o homem que estava ao lado do também era muito bonito. Tinha os cabelos e perfeitamente alinhados, ele tinha o semblante sério e os olhos demonstrando uma profunda melancolia. Meus olhos caminharam até o corpo dele, era perfeito, mesmo não podendo ver perfeitamente por causa das roupas, era atlético como o do amigo, mas conseguia ser mais definido do que o do .
Nem sei se dava para notar que eu o encarava descaradamente, mas levei uma leve cotovelada na boca do estômago dada por e eu agradeci por ter acordado dos meus devaneios a tempo, pois eles haviam se aproximado. O se sentou num dos bancos colocados próximos ao balcão enquanto o permanecia em pé e, pelo o que pareceu, estava tentando tomar coragem de dizer alguma coisa.
- Ah... – ele deu uma rápida gaguejada e o reprimiu uma risada, o que me confirmou que ele só estava ali para ver o que o amigo faria. – Você quer dançar? – o perguntou olhado diretamente para minha irmã e foi a minha vez de reprimir uma risada quando vi as orelhas dela voltarem a ficarem vermelhas.
- Não posso... Tenho que trabalhar. – quando ouvi dizer aquilo, senti uma pontada de arrependimento vinda dela.
- Pode ir, eu cuido de tudo. – disse dando um sorriso confiante para ela e vi o abrir um sorriso ao ver a minha irmã pular o balcão e o acompanhar até a pista.
Naquele momento uma das garçonetes apareceu me falando os pedidos que haviam sido feitos e logo estava preparando os drinks enquanto via a própria garçonete apoiada no balcão esperando eu terminar. Em poucos segundos ela já estava se infiltrando no meio do mar de pessoas segurando a bandeja bem acima da cabeça, sorri com a cena e comecei a arrumar alguns copos limpos sentindo a estranha sensação de estar sendo observada. Olhei para os lados e vi o par de olhos do me encarassem como se quisessem atravessas a minha alma.
- Deseja alguma coisa? – perguntei a ele da maneira mais educada que encontrei.
- O que você recomenda? – ele me perguntou com um sorriso de lado me fazendo sorrir. O que eu mais gostava, quando trabalhava ali, era quando os clientes me perguntavam o que eu recomendava, pois me davam liberdade de fazer qualquer drink. Com uma agilidade, que impressionou a mim mesma, já havia preparado a bebida e colocado na frente do com um sorriso de lado estampado no meu rosto – Há quanto tempo trabalha aqui? – ele me perguntou dando um gole na bebida – Pra ser tão rápida tem que ter trabalhado bastante.
- Trabalho tempo o bastante. – disse disfarçando muito bem a verdade, não podia simplesmente dizer que não estava mais trabalhando ali já fazia anos. Era uma completa falta de sanidade.
Um silêncio se instalou entre nós dois, eu estava mais preocupada em organizar os copos e ele em tomar a sua bebida, o único som que eu poderia ouvir era da música que ecoava por toda a parte do Loft. Ao terminar o meu serviço olhei para todos os lados observando toda a movimentação e não foi a minha surpresa quando notei que não estava mais a minha vista, provavelmente ela deveria estar no meio da pista. Olhei novamente para o na minha frente e o vi com um olhar perdido e por um momento pensei que havia visto aquele olhar em algum lugar, aliás, a fisionomia dele não me era estranha, talvez eu o conheça, mas não me lembre.
- Você não dança senhor...? - por um momento havia esquecido que eu não sabia o nome dele.
- . Chamo-me . – ele respondeu com um sorriso de lado e eu senti como se um enorme balde de gelo tivesse caído sobre as minha costas.
Senti como se a minha garganta se fechasse e as palavras não saíssem por ela, o ar me faltou ao ouvir aquele nome. De tantos homens que eu poderia encontrar, teria que ser bem ele?
Estava bem ali, na minha frente, parte do meu passado que havia se tornado o meu presente, naquele momento. Pensava que só iria vê-lo somente nas notícias das revistas e não pessoalmente. Como eu sou idiota, como não havia o reconhecido? Depois de tantas fotos dele que haviam sido publicadas na Poise eu, simplesmente, não o reconheci! Acho que ele havia percebido que havia algo de errado comigo, pois me encarou com o semblante um pouco preocupado.
- Está tudo bem? – ele me perguntou e eu voltei ao presente tentando apagar algumas cenas que começaram a passar pela minha mente naquele momento.
- Sim, só me distrai por um momento. – forcei um sorriso que me pareceu natural demais. – Então, o senhor não me respondeu a minha pergunta.
- Primeiro: não me chama de senhor, me sinto velho. Me chame de , é melhor. – dessa vez ele sorriu para mim de uma maneira diferente, como se estivesse se sentindo bem com a minha presença – E segundo: não danço.
- Não dança? Como um homem pode vir ao Loft e não dançar? – perguntei achando estranho aquele fato, nunca pensei que não dançava.
- Eu até que danço. – virou o rosto para olhar as pessoas que estavam na pista – Só que eu não me sinto muito a vontade dançando com quem eu não conheço, por isso que eu espero conversar bem com a pessoa para depois chamá-la para dançar ou sair. – posso dizer que fiquei impressionada em ter descoberto aquilo. Ele conseguiu passar para mim uma imagem mais humana dele e não superficial como eu sempre visualizei. – Sabe... Você me lembra alguém, como se chama?
- Ah, . – meu sangue havia gelado quando ele havia me perguntado aquilo. Por isso que omiti o meu sobrenome, não sabia se ele se lembraria de mim e não queria que tudo retornasse naquele momento, quanto mais me afastasse do meu passado, melhor para mim.
sorriu para mim e um garçom apareceu no balcão com um novo pedido. Li a enorme lista de bebidas que havia escrito no papel que ele havia escrito e novamente a sensação de nostalgia se apossou de mim. Havia me lembrado que já havia preparado muito mais bebidas ao mesmo tempo, o que ocasionou que eu teria que ensinar a minha irmã a trabalhar ali quando ela era uma novata. Não sabia como ainda tinha pique para fazer tudo tão rapidamente, mas até que eu gostava e em alguns minutos o garçom já estava saindo de lá com a badeja cheia de copos e taças. Meu olhar se recaiu sobre o , novamente, e ele estava com os olhos ligeiramente arregalados.
- O que foi? – perguntei achando estranha aquela expressão.
- Você é rápida, se fosse eu teria derrubado metade dos copos no chão. – ele deu uma pequena risada com o comentário.
- Eu já fui assim, tive que passar muitas tardes em casa quebrando alguns copos. – disse dando uma risada, me lembrar daqueles tempos me fazia rir.
- Era só usar os de plástico pra treinar.
- Eu sei, só que eu só percebido isso quando já tinha pegado a manha. – naquele momento nós dois rimos juntos da minha idiotice passada.
Muitas vezes, quando era mais nova, fiquei imaginando se eu estaria viva para ver aquela cena. O cara, que eu sempre odiei no colégio, sentado na minha frente e rindo comigo. Era uma cena nova para minha mente. Olhei em direção a pista e vi retornar com o ao seu encalço, ela voltou a pular o balcão e se postar ao meu lado com um sorriso que me fez ter certeza de que algo havia acontecido. Olhei de volta para o e vi que ele já estava de pé e me deu um sorriso de lado, deu um aceno com a mão e foi embora com o sem nem dizer adeus ou algo do gênero. É! Tem vezes que as pessoas não mudam.


Capitulo 3 – Aprendendo a viver novamente

Tomei um susto quando escutei o barulho do meu despertador ecoar por todo o meu quarto, com um movimento rápido peguei o objeto e o coloquei dentro da gaveta do criado-mudo abafando o seu som, mas não o parando. Passei a minha mão pelo meu rosto, com os olhos ainda fechados, e senti o cansaço misturado com preguiça me impossibilitar de me levantar. Fui abrindo as minhas pálpebras vagarosamente ainda ouvindo o som do meu despertador.
Não ter ido dormir cedo ontem havia acabado com o meu relógio biológico. Levantei-me e abri a gaveta do criado-mudo, tirando de lá o despertador, que insistia em continuar tocando, e o desligando para o meu alívio.
- Tenho que ir trabalhar. – disse para mim mesma cambaleando um pouco ao ficar em pé no chão.
Comecei a caminhar, quase me arrastando, até o banheiro vendo o meu reflexo no espelho; quando passei pela porta. Estava mais do que visível que não estava, nem um pouco, bem naquela manhã. Vi que pequenas olheiras se formaram na base dos meus olhos e que meu cabelo estava desalinhado de uma maneira que, pensei, poderia se formar inúmeros nós. Os penteei de uma maneira cuidadosa e fiz um coque frouxo para me dar liberdade para lavar o meu rosto, sem me preocupar com a invasão dos fios na água.
Sai do banheiro me sentindo mais revigorada e dei uma rápida olhada no relógio, que se encontrava em cima da minha mesa - onde eu deixo o meu laptop -, 07h35min sendo que meu horário de entrada é as 09h00min em ponto. Passei pela porta do meu quarto entrando no pequeno corredor de meu apartamento, de maneira que eu consegui chegar à cozinha rapidamente e comer umas três torradas com um pouco de leite adoçado – já que não consigo tomar aquele líquido, estando 100% puro -, para poder retornar para meu quarto e trocar de roupa.
Olhei novamente para o relógio quando atravessei a porta branca do meu quarto, 08h00min, tinha, exatamente, menos de uma hora para poder me arrumar. E isso não demorou muito, já que optei por uma calça jeans escura e uma camiseta vermelha de mangas ¾. Rapidamente fui para o banheiro para me maquiar, cobri as olheiras com um corretivo e passei uma sombra clara com um delineador, era bem básica, mas conseguia disfarçar bem as poucas horas de sono que tive. Soltei os meus cabelos e os vi cair como uma cascata sobre meus ombros para eu poder, finalmente, contemplar uma completamente diferente da que tinha acordado de manhã. Voltei para o quarto e me sentei na minha cama desarrumada colocando um par de botas pretas, com um salto moderado, sobre a minha calça.
Já era 08h30min quando eu sai pela portaria do prédio apertando o meu sobretudo sobre meu corpo, chamei um taxi e logo estava em frente a fachada da revista com quinze minutos de adiantamento. Entrei no prédio e, em pouco tempo, já estava no andar que eu trabalhava. Caminhei até certo ponto do corredor quando ouvi uma voz atrás de mim, me chamar. Virei-me e encarei Clarice Baker, que me encarava com uma das sobrancelhas arqueadas.
- O que faz aqui Srta.? – me aproximei dela com certo receio.
- Vim trabalhar Sra.Baker. – disse o que era bem obvio, mas parece que a mulher não se deu por satisfeita.
- A senhorita escutou bem o que eu havia pedido ontem para a senhorita? – a minha chefa parecia um pouco irritada, quando abri a boca para responder, ela me cortou – Pensei que havia sido bem clara, quando eu disse que queria uma matéria para a capa da última edição do ano.
- A senhora foi bem clara quando falou. – percebi que o andar inteiro olhava para nós e sabia que havia vários sorrisos debochados sobre mim.
- Então, por que a senhorita não está à procura da história que eu pedi? – iria abrir minha boca novamente, mas a mulher apontou para a porta do elevador e me disse quase gritando – Vá logo e só quero ver a senhorita aqui com uma matéria nas mãos ou só volte para pegar as suas coisas.
Fiquei estática por alguns segundos, mas logo estava dentro do elevador tentando pegar fôlego. Nunca pensei que iria ouvir a minha chefa falar daquele jeito comigo, aquilo, decerto, era assustador. Sai do prédio e fiquei parada na calçada, pensando no que iria fazer. Pela primeira vez, dentre anos, eu estava com a tarde livre. Em parte, já que eu, ainda, estava trabalhando. Mas o que mais me preocupava era, onde iria encontrar a tal história? Teria que me dobrar em três para achar uma fonte e um alvo e, com certeza, aquilo, no mínimo, necessitava de dois meses de antecedência. Olhei para os lados e vi várias pessoas olharem para mim e, provavelmente, estão se perguntando por que eu estou parada na calçada.
Caminhei sem rumo pela rua, eram 09h10min da manhã e eu não tinha, absolutamente, nada para fazer. Sentia-me sem chão, sem a minha rotina diária, e sem nenhum pensamento na minha mente.
Escolhi um dos lados da calçada e comecei a caminhar, sem rumo. Podia sentir que meu corpo estava presente, mas a minha mente pareceu estar numa atmosfera completamente diferente. O sentimento de nostalgia havia retornado e comecei a lembrar de alguns fatos do meu passado, muitos deles enterrados no mais profundo esquecimento.

Flashback on

Eu e entramos animadas na locadora, mamãe havia nos deixado fazer uma sessão “Star Wars” aquela noite, por isso não tardamos em nos embrenhar pelas dezenas de prateleiras a procura das tão tentadoras fitas de vídeo. Na procura, acabamos por bisbilhotar alguns títulos paralelos e foi quando eu tirei um daquelas fitas que eu consegui ver, do outro lado da prateleira, uma pessoa conhecida. Aquela cascata de cabelos não me enganava, era que eu vi de lado lendo o verso de uma caixa.
Cutuquei no ombro e fiz um sinal com a cabeça, para que ela olhasse na mesma direção que eu. Parei por um momento somente observando o perfil do garoto, ele podia somente ter dez anos, mas já tinha uma beleza diferente. Mordi meu lábio inferior e senti as minhas bochechas queimarem tamanha a vergonha que sentia dos meus pensamentos bem poucos inocentes para a minha idade.
- Vai me ajudar ou vai ficar encarando o senhor cabelos sensuais? – me perguntou quase num sussurro me fazendo ficar mais vermelha.
- Eu não estava encarando ele. – disse firme prestes a começar mais um monólogo sobre os meus sentimentos, quando sinto alguém me tocar no ombro me fazendo desviar o olhar da minha irmã mais nova para a pessoa que havia me cutucado. E, para a minha surpresa, era o nosso assunto, . - Com licença, por acaso vocês viram o filme “De volta para o futuro” por ai? – ele nos perguntou.
- Não, é melhor perguntar para alguém que trabalha aqui. – eu falei de uma maneira tão natural que, acho que impressionou .
- como o chamavam no colégio – deu dois passos se afastando de nós, mas no momento em que iria desaparecem por mais uma prateleira, voltou, me encarando de uma maneira que eu não sabia distinguir se era curiosidade ou surpresa.
- Te conheço? – ele perguntou me encarando.
- Ah, a gente estuda no mesmo colégio. – respondi olhando para com um olhar confuso.
- Legal. – o garoto abriu um sorriso satisfeito – A gente se vê lá, então. – ele disse por fim desaparecendo pela imensidão de prateleiras.

Flashback off


Naquela época não existia separação de grupos ou tribos, todos eram amigos e muito unidos, não havia competição de popularidade e muito menos insultos devido à classe social de algumas pessoas, era tudo livre e divertido, uma época que era boa de ser lembrada.
Estava tão distraída que não notei que havia chego numa rua que nunca havia postos os pés antes. Não era diferente das outras, mas também não era igual. Caminhei encarando algumas pequenas lojas que havia ali, quando meu olhar parou em um pequeno pet shop, mais precisamente para a vitrine, onde estava exposto um pequeno beagle que, para mim, deveria ter uns seis meses de idade. Os pêlos da cabeça eram na tonalidade chocolate, enquanto as costas dele havia várias manchas pretas, que o deixava cada vez mais gracioso.
Lembrei-me, imediatamente, que só tive um cachorro somente uma vez na minha vida, quando eu tinha seis anos. Mas com o passar do tempo, as despesas aumentaram muito e tivemos que dá-lo para nossa vizinha, na qual sempre nos deixava vê-lo de vez em quando. Depois disso, nunca mais tive um e, sinceramente, me sentia sozinha no meu próprio apartamento. Olhei para o pequeno ser que me encarava com aqueles grandes olhos cor de mel e uma vontade imensa de comprá-lo se apossou pelo meu corpo.
Aquele cachorrinho havia me conquistado.
Não hesitei em entrar na loja e em menos de meia hora estava voltando para casa com uma grande sacola num braço – contendo ração, potes e alguns brinquedos – e com o Rony – como o havia chamado – no meu outro braço. Quando estava próxima do meu prédio, senti Rony lamber a curvatura do meu pescoço, já que era o máximo que ele conseguia alcançar, e aquele gesto me fez sentir querida e amada.
Cheguei à portaria do enorme prédio em que morava - graças ao meu salário eu poderia me beneficiar de várias mordomias como esta - e apresentei o meu novo companheiro ao porteiro, Gabriel, que, mesmo sendo bem mais velho do que eu, era um ótimo confidente. Logo estava dentro do elevador de serviço em direção ao quinto andar, não conseguia morar num apartamento muito alto, pois teria diversas vertigens. Quando a grande caixa de aço parou, no andar que eu havia indicado, sai da mesma e caminhei pelo extenso corredor e logo estava dentro do meu apartamento.
Coloquei Rony no chão e o acompanhei com o olhar, vendo que ele estava reconhecendo sua nova casa. Aproveitei para observar tudo no meu apartamento também. Quem entrasse ali desconfiaria que um lugar tão limpo e organizado fosse a minha morada, já que, quando era mais nova e morava com a minha mãe, ela vivia reclamando o quanto o meu quanto era bagunçado. “Seu quarto parece de um garoto, .” Era o que eu mais ouvia dela, toda vez que minha mãe entrava no meu quarto.
Dei um grande suspiro ao me lembrar da minha mãe, sentia saudades dela e dos seus conselhos. A considerava mais como uma irmã mais velha do que como minha mãe, não era minha culpa que ela havia me tido aos dezessete anos.
- Rony? – olhei em volta e não conseguiu o visualizar por nenhuma parte da sala, me deixando preocupada.
Coloquei a sacola e minha bolsa sobre o sofá e ouvi um latido abafado. Agachei-me e comecei a olhar por de baixo dos móveis da sala, não o encontrando em lugar algum, comecei a engatinhar até corredor conseguindo chegar até o meu quarto sem muito esforço. Olhei por debaixo da minha cômoda, para depois encontrar o filhote em baixo da minha cama. Olhei diretamente para o rosto dele e vi que Rony me encarava com uma expressão sapeca, como se estivesse pronto para fazer uma traquinagem. Fui me aproximando – ainda agachada - vagarosamente, para não assustá-lo. O pequenino percebeu o que eu iria fazer e começou a abanar o rabo, começando a latir.
Comecei a rir da brincadeira que ele estava fazendo e consegui pegá-lo, me levantando e recebendo em troca, várias lambidas pelo meu rosto. Afastei a cabeça dele do meu rosto, para que Rony não se intoxicasse com a minha maquiagem, não queria causar problemas futuros a ele. O carreguei até a sala e me sentei no sofá, depositando Rony no meu colo enquanto pegava o controle remoto e ligava a televisão. Fui mudando de canal até que parei num que estava passando alguns filmes.
A princípio eu assistia ao filme concentrada, mas o sono acumulado da noite anterior começou a retornar e quando dei por mim, estava deitada no sofá, dormindo tranquilamente e com meu mais novo companheiro dormindo sobre a minha barriga.


Capitulo 4 – Mr. Crow

Acordei na manhã seguinte 100% renovada, me levantei da cama e fui para o banheiro para fazer a minha higienização matinal. Quando eu acordei ontem de tarde – após dormir no sofá – percebi que a noite já havia caído e meu sono sumido. Ou seja, acabei passando a noite inteira vendo vários DVDs que eu havia comprado, mas nunca visto, devido à falta de tempo. O resultado foi que eu acabei indo dormir depois das três da manhã e acordado agora, 13h00min da tarde. Sai do banheiro, vi um pequeno bolo em cima da cama e sorri, caminhei até o móvel e peguei Rony no colo, vendo o mesmo abrir os olhos vagarosamente e soltar um bocejo.
- Você é muito preguiçoso, sabia disso? – disse dando um pequeno beijo no topo da cabeça dele.
O pequeno deu uma pequena espreguiçada e se aninhou entre meus braços. Sorri e caminhei para fora do quarto, o deixando deitado sobre uma almofada que se encontrava em cima do sofá. Fui até a bancada da cozinha – não havia divisória de paredes entre a sala e a cozinha, a única coisa que separava os cômodos era uma enorme bancada –, pegando uma maçã na geladeira. O gosto doce da fruta descia pela minha garganta enquanto eu caminhava de volta para o quarto, olhei para o relógio novamente, vendo que não havia se passado muito tempo desde que despertei. Vi uma pequena luz refletir no chão e fui até a janela, abrindo-a, recebendo em troca um jato de luz sobre os meus delicados olhos. Arrependi-me de ter feito uma ação tão rápida, pois minha retina ainda estava se acostumando com a pouca claridade do apartamento e o excesso de luz não me fez bem.
O céu de Londres não estava muito ensolarado, mas também não estava nublado, em minha opinião, estava no tempo certo. Meus olhos percorreram por todos os locais possíveis de ser visualizados por mim e me deparei com a London Eye e sua imensidão. Lembro-me de ter levado minha mãe ali quando ela veio visitar e a mim, riu somente de lembrar, pois ela havia ficado branca de pavor por causa da altura.
Estava tão distraída que o momento de nostalgia foi cortado por um latido abafado e agudo, olhei para trás e vi Rony sentado em frente ao meu armário com a língua para fora. Aquela cena era, deveras, linda. Mas, como se criasse vida, meus olhos desviaram para a porta do enorme armário. Caminhei até o móvel e abri a porta, pousando minha visão sobre uma calça preta de lycra. Olhei da peça de roupa para meu cachorro com um pequeno sorriso nos lábios e uma idéia na cabeça.


A grama já nem mais existia, pois uma grossa camada de neve cobria todos os lugares que podiam ser vistos. Eu estava com um grosso moletom cinza, minha calça de lycra e tênis de corrida, fazia muito tempo que eu não caminhava pelo parque que havia aqui perto e sabia que, principalmente naquela época do ano, não existia muitas pessoas que aderiam a minha idéia. Caminhava distraidamente com os braços cruzados sobre a minha barriga, minha mente estava alheia a tudo, quando senti um esbarrão, me fazendo quase cair no chão.
- Me desculpe. – ouvi a pessoa que esbarrou em mim, me segurar pelo braço, evitando a possível queda. Levantei um pouco a cabeça e meu olhar se encontrou com um belo par de olhos negros profundo. Senti-me paralisada.
Não sei quanto tempo fiquei parada olhando para aquele mar de escuridão, mas estava sendo, de fato, reconfortante. Consegui me recompor e me ajeitar, ainda sentindo aquele belo desconhecido me segurar pelo braço. Um sorriso tímido se formou no canto da minha boca e consegui ver melhor as feições dele. O tal homem era bem mais alto que eu, nem muito musculoso e nem raquítico demais, os fios da cabeça dele era exageradamente escuros – assim como seus olhos – e liso, dando um ar de garoto, sua face era pálida, dando idéia que ele poderia ser uma pessoa doente, mas era muito atraente. Os lábios eram bem delineados e finos, proporcionais ao tamanho do nariz e dos olhos. Ou seja, ele era bem bonito.
- Eu que deveria ter me desculpado, estava distraída. – disse, tirando uma das minhas mãos da minha barriga e ajeitava uma mecha do meu cabelo atrás da orelha.
- Tudo bem, a culpa foi sua. – o moreno me disse dando uma breve risada – Sou Scott, Scott Crow. – me estendeu a mão e eu a apertei com um sorriso no rosto.
- Me chamo . – nunca gostei de dizer o meu sobrenome. Para mim não era uma coisa muito boa, já que muitas pessoas podem usufruir disso para beneficio próprio, como criar um nome falso utilizando o meu.
- Não sendo da minha conta, mas por que uma mulher tão bonita faz andando sozinha por esse parque? – Scott me perguntou com um sorriso galante.
- Como não te conheço, concluo que essa foi uma cantada. – eu disse com uma das sobrancelhas arqueadas, provocando outra risada no moreno.
- Você é esperta. – o ouvi dizer e sorri convencida. Senti algo se mexer dentro do meu casaco e logo uma pequena cabeça peluda saiu pelo buraco do meu moletom. Comecei a rir pela cara que o homem na minha frente havia feito ao ver Rony. O fato era que havia trazido o pequeno comigo e como estava muito frio, o coloquei dentro do meu casaco percebendo que, em poucos minutos, ele havia dormido – Quem é?
- Rony. – olhei para o cachorro e vi o mesmo encarar Scott com as orelhas erguidas, em sinal de alerta. O moreno se aproximou de mim e ergueu a mão, quase encostando as costas da mesma no nariz do cachorro, somente para ele sentir o seu cheiro.
Quando notou que o pequenino já havia o analisado perfeitamente, levou a mão até o topo da cabeça dele, começando a fazer carinho. Fiquei feliz por Rony não ter mordido Scott, pois, de alguma maneira, me identifiquei com ele. Era extremamente gentil e, pelo o que pareceu, gostava de cachorros.
- Tenho dois boxers. – as palavras saíram da boca dele de uma maneira que nem notei os lábios dele se mexerem – São ótimos animais de estimação.
- Como sempre dizem “o cachorro é o melhor amigo do homem”. – recitei a famosa frase que já foi escutada pelos meus ouvidos diversas vezes.
- Pode ter certeza que isso é verdade. – o moreno disse com um belo sorriso no rosto, parando de acariciar Rony.
Um silêncio se instalou entre os dois, somente estávamos numa troca de olhares na tentativa de conversarmos por meio de telepatia. Se não fosse pelos carros que passam próximos a nós, poderia ter certeza que ouviria o compassou do ar saindo de nossas narinas para se misturar com o resto do vento. Sorri tímida e abri levemente a minha boca, tentando acabar com aquele constrangimento, mas Scott foi mais rápido do que eu.
- Não quero que leve isso como uma cantada, mas eu gostei de ter esbarrado em vocês dois. – disse me fazendo reparar que o pequenino havia se alojado dentro do meu casaco novamente. – Foi a melhor coisa que aconteceu comigo hoje.
O encarei por alguns segundos, na tentativa de pensar em algo que não fosse sentimental demais e nem muito grosseiro. Por mais que a segunda opção fosse inexistente na cena, já que havia simpatizado com ele.
- Nos últimos anos, a minha vida vem se limitando a somente o trabalho, me esquecendo do mundo a minha volta. – confessei – Somente agora comecei a viver novamente. E pode ter certeza, que você foi uma novidade. – dei uma pequena risada, não me sentindo incomodada por ter dito aquilo para um completo estranho. Olhei para o caminho oposto, que percorria, e comecei a andar, com o moreno ao meu encalço.
- Se escondia? – ele me perguntou e murmurei um “quase”, continuando a caminhar – Quando nos sentimos perdidos, em relação a algo, sempre acabamos nos escondendo para nos proteger, mas acabamos nos colocando em mais perigo.
- Como assim? – perguntei com o cenho enrugado, ajeitando o cachorro no meu colo. Por mais que ele fosse um filhote, ainda, era um pouco pesado, para ser carregado por muito tempo.
- Se nos escondemos, não estamos preparados para enfrentar o que a vida nos dá. – Scott disse colocando as mãos no bolso da calça jeans escura que usava. Um vento fraco passou por nós dois, necessário para levantar nossos cabelos.
Meus olhos entraram numa espécie de transe quando acompanharam a dança que os fios negros dele. Pisquei diversas vezes para retornar a minha realidade, sabia que Scott é um homem extremamente atraente, mas não era tanto para me deixar parecida com uma adolescente de treze anos de idade.
- Então... Trabalha aonde? – perguntei, tentando voltar a minha triste realidade.
- Trabalho numa firma de Propaganda e Marketing. – o moreno me disse, fechando levemente os olhos quando mais uma corrente de ar passou por nós – A maioria das propagandas que você vê na televisão é feita pela minha empresa. – não sabia se havia sido alucinação minha ou verdade, mas tive certeza que vi um sorriso ambicioso nos lábios dele. Poderia ser muito pequeno, mas tenho certeza que vi – E você?
- Trabalho numa revista, Poise.
- Já ouvi falar, mas, para ser sincero, ler revista de moda não é a minha praia. – dei uma pequena risada, assim como ele e continuamos a caminhar.
Não sei como consegui ficar amiga de alguém tão rápido, acho que isso é um dom que acabei obtendo sem mais nem menos. A minha própria mãe ficava admirada quando nós íamos há um lugar estranho e, em menos de cinco minutos, eu já estava conversando com alguma garota da minha idade. Era, deveras, cômico e me trazia belas lembranças da maior parte do meu passado que foi feliz.


Girei a chave na fechadura e abri a porta, deixando com que Rony descesse do meu colo e desse descanso para os meus braços, que já estavam quase dormentes de tanto carregá-lo. Tranquei a porta e comecei a caminhar até o meu telefone, vendo que a luz da secretária eletrônica piscava descontroladamente. Rapidamente apertei o botão e a tão conhecida voz de gravação informou que eu tinha duas mensagens.
“Vou ser rápida e direta.” Era a minha irmã me chamou para ir numa festa amanhã e eu disse que só iria se você fosse e você, Srta. . Vai! Ouviu bem, você vai!” dei uma pequena risada ao ouvir o tom de ordem que usa usava comigo, como se eu fosse a mais nova das duas. “Passo ai, amanhã, as oito e espero que esteja pronta, senão prepare-se para ser atirada pela janela! Te amo, beijos.”
Minha risada se estendeu depois que a mensagem havia sido encerrada. Ficava admirada pela mudança de humor de , poderia ser a pessoa mais nervosa do mundo, mas repentinamente, ela te recebe com beijos e abraços. Um apito soou pela caixinha de som do telefone e a segunda mensagem começou.
“Esqueci de dizer, o é aquele que convidou para dançar quando você foi ao Loft.” Consegui ouvir uma risada nervosa dela “Estranho ele me chamar assim para uma festa, não? Amanhã a gente se vê.” Um longo apito soou por toda a minha sala, mostrando que não havia mais mensagens. Fiquei encarando o telefone com a minha sobrancelha esquerda ligeiramente arqueada, se eu pensava que algo iria acontecer com aqueles dois, agora eu tinha certeza.
Ignorei o telefone e comecei a abrir o meu casaco, enquanto caminhava até meu quarto. Foi quando um clarão de lembranças invadiu a minha mente. Na noite que conheceu o , ele estava acompanhado com e, pelo o que me lembro, o próprio tinha um amigo no colégio com as mesmas características de e com o mesmo nome.
Meus olhos arregalaram imediatamente, não poderiam ser a mesma pessoa? Poderia?


Capítulo 5 – Nosso destino é se encontrar

A fina chuva que caia sobre a minha cabeça começou a engrossar aos poucos, ao ponto de se tornar uma tempestade, me obrigando a correr pelo gramado extenso e sem fim que me encontrava parada sem fazer absolutamente nada. Meus pés começaram a escorregar pela grama molhada e tive que me equilibrar várias vezes, sentindo o meu corpo cada vez mais pesado pelo número de casacos.
Aos poucos comecei a avistar uma pequena casa de madeira. Uma casa que eu conhecia perfeitamente, pois havia passado vários verões brincando de boneca com a minha irmã naquele local. Corri mais rápido até lá e senti os meus pés perderem o rumo e escorregarem me fazendo quase cair no chão, se não fosse um par de mãos me segurando a tempo. O que me fez olhar diretamente para meu salvador, com as gotas de chuva caindo com mais intensidade sobre os nossos corpos.
Aquele par de olhos me hipnotizava, aqueles malditos olhos que me encantavam há vários anos sem o próprio dono deles saber. Tentei desviar o meu olhar deles, mas o máximo que consegui foi encontrar todos os traços do rosto dele, me deixando com um pouco de falta de ar. Na tentativa de tentar disfarçar o efeito que causava em mim, fiz com que meus pés conseguissem se equilibrar na grama molhada.
- Teria levado um tombo feio se eu não a tivesse segurado. – ele disse após ver que era bem seguro me soltar.
- É teria. Obrigada! – agradeci me esquecendo completamente da chuva – O que faz em Surrey? – perguntei o encarando, mas aquilo só me fazia com que eu sentisse palpitações no meu peito.
- Eu... – passou a mão pelo cabelo molhado, uma ação que demonstrava que ele estava bem nervoso – Eu... Estava te procurando por causa...


Meus olhos se abriram assustados ao ouvir o som da campainha do meu apartamento começar a tocar. Levantei a minha cabeça e percebi que acabei dormindo com a mesma sobre o braço do sofá o que acabou me causando uma maldita dor no pescoço, além de, é claro, aquele sonho ter me deixado completamente confusa. Em primeiro lugar, o que eu fazia em Surrey e segundo, o que o fazia nele?
Comecei a caminhar até a porta, com aqueles pensamentos na cabeça, e a abri, olhando para a pessoa que estava parada bem na minha frente com os olhos arregalados.
- Vivian!!! – exclamei abraçando a mulher com vontade.
A mulher que eu abraçava era a minha empregada. Bem... Para mim Vivian Mitburk havia se tornado mais do que uma simples empregada. A conheci quando tinha acabado de me mudar para o prédio. Na época o trabalho era muito duro e de fácil acumulação o que não me dava tempo para cuidar do meu lar, entre outras coisas, foi ai que achei necessário contratar alguém. Então escrevi um anuncio num jornal e esperei pela aparição das candidatas.
Após uma semana, eu já estava desistindo da idéia de ter uma empregada, pois nenhuma, aos meus olhos, parecia apropriada para o serviço. Foi quando eu escutei a mesma campainha tocar e da porta surgir uma senhora aparentando ter mais de quarenta anos, com uma estatura média e os cabelos castanhos claros – um tom que conseguia disfarçar perfeitamente os fios brancos que estavam para nascer -. No início da entrevista eu não estava muito confiante com ela, já que várias havia me decepcionado antes, mas ao final já estava com uma pitada de confiança, o que deu a Vivian uma semana de experiência.
E não tive mais dúvida, além dela ser uma ótima empregada, era uma ótima amiga. O que fazia com que os anos que estive morando no apartamento não fossem tão solitários, pois ela se tornou como uma tia para mim, fazendo com que meu apartamento se tornasse um lar de verdade.
- Vejo que a falta da minha presença foi bem grande. – Vivian disse entrando no apartamento.
- Como sempre. – disse fechando a porta – Como foi a viagem até a casa do seu irmão na Irlanda?
- Foi ótima. Senti-me nos tempos de quando eu mais nova. – os olhos amendoados da mulher ganharam um brilho especial, o que sempre acontecia quando ela se lembrava dos momentos bons do seu passado.
O fato era que Vivian não tinha marido nem filhos, pois os mesmos haviam morrido num trágico acidente de automóvel, onde ela foi a única sobrevivente. Uma época não muito feliz, pelo o que a morena me contou, pois havia se refugiado na casa do irmão e só havia saído de lá dois meses mais tarde, se mudando para Londres, na tentativa de esquecer o que havia acontecido.
Com o tempo, percebi que para Vivian eu era como uma filha. Sendo que ela me tratava como tal, mas não de uma maneira obsessiva e sim de uma maneira simbólica.
- Você é nova. Ainda está na flor da idade. – disse dando uma piscadela, quando acabei sentindo alguma coisa pular no meu colo ao me sentar no sofá.
- Quem é? – Vivian perguntou fazendo carinho na cabeça de Rony.
- Não é uma graça? O comprei já faz três dias, se chama Rony. – falei com um sorriso bobo nos lábios.
- Por que sinto que essa não é a única novidade nessa casa? – a morena me encarou com uma das sobrancelhas arqueadas, provocando em mim um suspiro cansado.
- Nada escapa por você, não é?!
Relatei todos os acontecimentos, desde que ela havia viajado – um fato que aconteceu há uma semana -, sem deixar nenhum detalhe para trás, pois sabia que uma hora ou outra acabaria descobrindo. Nunca descobri como, mas Vivian sempre acabava descobrindo algum acontecimento omitido por mim, o que fazia com que eu ficasse frustrada a maioria das vezes por nunca ter muitos segredos guardados para mim. Claro que ela respeitava quando eu não quisesse contar, mas com o tempo eu necessitava de uma confidente e contava os acontecidos e ela me consolava como a minha mãe fazia comigo.
Não é culpa dela que a própria more em Surrey até hoje e eu e a em Londres. Um lugar isolado de nós duas, mas não podemos a culpar de querer continuar a morar lá, pois, apesar, da distância, nos falamos sempre que podíamos.
- Conseguiu alguma coisa para a matéria? – Vivian me perguntou séria.
- Não. – respondi completamente desanimada, porque nem ao menos eu fiz a tentativa de querer procurar a matéria. Estava mais preocupada em querer aproveitar um pouco da minha vida – Espero que nessa festa que a vai me levar tenha algo interessante.
- Eu sei que você consegue querida, acredito em você. – um sorriso brotou em meus lábios ao ouvir o que ela havia me dito – Bem... Melhor eu ir para o meu quarto desfazer a minha mala. Depois vou fazer uma vistoria pela casa para ter certeza que a senhorita cuidou bem dela.
Dei uma pequena risada e vi a castanha se levantar e carregar a mala até o seu quarto que ficava na área de serviço, deixando a sala num completo silêncio. Olhei para baixo e vi Rony deitado no meu colo olhando fixamente para um pequeno inseto que sobrevoava o ar na altura dos olhos dele. Observei a cena, completamente curiosa com o que poderia acontecer, já que o pequeno parecia estar à espreita para caçar a sua presa. Uma coisa que não demorou muito, pois, segundos mais tarde, Rony pulou do meu colo em direção ao inseto, começando a persegui-lo pela casa.
Iria aparatar a pequena briga que estava se formando na sala, quando a campainha mais uma vez foi tocada. Enruguei o cenho e me levantei do sofá, caminhando até a porta novamente, enquanto olhava para o meu relógio de pulso. 12h45min, um horário estranho para a minha campainha tocar, já que eu não estava esperando ninguém.

- Que demora! – vi exclamar, quando eu abria a porta, e a mesma entrar no meu apartamento sem a menor cerimônia.
- Não quero ser grossa, mas o que faz aqui? – perguntei me apoiando na porta, ainda aberta.
- Ando vendo a sua secretária eletrônica? – a morena me perguntou e eu, finalmente, fechei a porta, colocando as minhas mãos na cintura – Te deixei mensagens ontem, porque, como sempre, você não estava em casa. – pelo o que deu para notar, ela estava nervosa por um motivo que eu não sei. Ainda! - É. Eu ouvi as suas mensagens e não imaginava que você viria tão cedo aqui. – disse algo que era realmente verdade.
- A gente já precisa pensar no que vamos usar, não é uma festa qualquer na casa de qualquer um. – disse como se fosse obvio.
A encarei por breves segundos e consegui entender o motivo pelo qual ela estava tão nervosa. Aquilo tudo não era por causa da festa e sim de quem vai levá-la a festa! Algo nem um pouco inédito, pois sempre ficou um pouco ansiosa demais quando estava com um garoto – no caso de agora, anos depois, um homem -, sempre tinha expectativas demais e muitas vezes se decepcionava no final.
Mas, de alguma forma, eu sentia que daquela vez não daria errado. Como se eu pressentisse que algo iria acontecer com esse dois e iria durar bastante. Não era algo muito normal na minha vida, pois, por mais que ajudasse as pessoas a ficar juntas, eu sempre ficava receosa quando a pessoa em especial era muito ligada a minha vida. Como era o caso da minha irmã. Era uma espécie de sexto sentindo ou algo do gênero.
- Eu ainda vou almoçar. Acabei de acordar. – informei, dando um bocejo.
- Não foi trabalhar? – ela me encarou com a testa enrugada.
- Não. Tenho que ir atrás de uma matéria e a minha chefa me dispensou até eu consegui, senão eu não preciso mais voltar para a redação. – expliquei bem resumidamente o acontecido com um sinal de frustração bem evidente.
- Isso é bom e ruim ao mesmo tempo.
- O que você quer dizer com isso?
- Ah... Bom porque você tem mais tempo para si mesma e para as pessoas a sua volta. – por mais que isso seja duro, é verdade! – E ruim porque você está trabalhando enquanto está de férias.
Dei um sorriso de lado e comecei a guiar a minha irmã, a segurando pelo ombro, até a cozinha, vendo que Vivian já estava lá dentro inspecionando a dispensa. Rolei os olhos e vi soltar uma exclamação indo abraçar a castanha.
- Quanto tempo não a vejo, Vih!!
- Eu também não te vejo a um bom tempo . – Vivian disse se soltando do abraço – Você não vem aqui.
- Ninguém me convida. – senti que a indireta era para mim, mas não falei nada, somente me apoiei na pia e observava a cena que se estendia – Ainda bem que nós duas vamos sair hoje, senão eu não teria a visto. Mas o que está fazendo?
- Pelo visto, ninguém nessa casa almoçou. – no mesmo instante eu olhei para o lado e fingi que não era para mim que as duas morenas direcionavam os olhares – Então estava vendo o que poderia fazer de comida rápida.
- Eu confio em você Vivian! – eu disse dando uma piscadela – Mas como a está tão animada para escolher algo para vestir, não vamos te atrapalhar. – falei puxando a minha irmã para fora da cozinha, sentindo algo acompanhar os meus pés e não foi a minha surpresa quando vi o Rony aparecer novamente, completamente feliz.
- Quem é? – perguntou se agachando e pegando o pequeno entre os braços, vendo o mesmo lamber o seu rosto. Uma atitude que, pelo o que deu para perceber, demonstra dizer que o cachorro gostou da pessoa.
- Meu novo cachorro, o nome dele é Rony. – disse fazendo um leve carinho na cabeça dele e entrando no meu quarto, com a minha mana ao meu encalço.
Caminhei pelo cômodo que eu conhecia tão bem e parei em frente à janela, vendo que o tempo estava um pouco melhor do que antes, apesar do frio intenso daquela época do ano. Muitas pessoas não gostavam do inverno, mas era a estação do ano que eu mais gostava, pois eu detesto calor demais e Sol demais. O frio fazia com que tudo a minha volta ficasse mais aconchegante e a vontade de estar ao lado de alguém que gostamos ficava cada vez maior.
Soltei um suspiro sonhador e me virei para a minha cama, onde estava sentada, já sem o pesado casaco que carregava, com Rony no seu colo. Comecei a caminhar vagarosamente até ela e vi que a sua expressão facial era preocupada e cheia de medo. Quando estava numa distância bem próxima me sentei ao seu lado e coloquei a minha mão em seu ombro, a fazendo me encarar.
- Aconteceu alguma coisa? – perguntei preocupada.
- Não... Ainda. – me disse colocando Rony deitado ao seu lado.
- Como assim? - não havia entendido o que ela queria dizer com aquilo.
- Sabe aquela sensação que algo vai acontecer com você? – me perguntou e afirmei com a cabeça – Estou sentindo isso desde que recebei o convite de .
Vi-a morder o lábio inferior e apertar as mãos uma contra outra, algo que ela sempre fazia quando estava extremamente nervosa ou agitada.
- Não se preocupa. Tudo vai dar certo. – segurei o rosto dela com as duas mãos – Eu te prometo. – ao dizer aquelas três palavras, nós duas sorrimos, pois sabíamos que se uma fazia uma promessa ela teria que ser levada a sério, até o fim.


Capítulo 6 – A festa - Parte I


Não foi difícil de saber que estávamos no endereço certo. O número de carros e de pessoas que adentravam pelo portão principal de uma das maiores mansões da cidade, fazia com que qualquer pessoa tivesse inveja do anfitrião. Devido ao meu trabalho, eu sabia exatamente que a pertencia àquela magnífica e milionária casa. Algo que não era muito difícil já que Philip Wember era um dos homens mais ricos que se podia conhecer e, para ser mais estranha aquela noite, minha irmã e eu estávamos saindo de um táxi para ir exatamente à festa dada por Philip Wember.
Não tinha mais como acontecer algo mais estranho.
- Onde ele disse que iria te encontrar? – perguntei a enquanto via o veículo, que havíamos vindo rodar pela rua, longe de nós duas.
- Na entrada. – dei um pequeno sorriso para tentar espantar o nervosismo da garota-mulher.
Passei os braços em volta dos ombros dela, puxando-a para um abraço. Como sempre fazia, enquanto sussurrava no ouvido dela o típico “Tudo vai dar certo”. Ficamos daquele jeito por rápidos segundos, antes de nos soltar e atravessarmos o enorme portão da frente, desviando de alguns carros que entravam ao mesmo tempo em que a gente.
Para chegar até a entrada da festa não foi muito dificultoso, a caminhada até que era revigorante. Todo o imenso jardim da mansão estava iluminado por diversos archotes, dando um ar mais simples ao local. Realmente, o decorador da festa foi muito esperto, pois conseguiu fazer com que eu ficasse analisando cada canto do local completamente interessada. Só que toda essa atenção foi tirada quando senti alguém apertar a minha mão com força.
- Ele está ali. – segui o olhar de e vi o motivo por ela estar tão nervosa desde que havia entrado pela porta do meu apartamento. estava parado em frente a uma das pilastras de sustentação da mansão e, pelo meu olhar observador, dava para notar que ele estava bem nervoso, pois andava de um lado para o outro com um dos dedos na boca. Provavelmente estava roendo as unhas.
- Vá até lá. – sussurrei e ela sorriu para mim, soltando a minha mão e caminhando a passos apressados em direção a ele, enquanto eu permanecia parada, observando o encontro deles.
Ver o sorrir e dar um beijo na bochecha da minha irmã me fez querer ter alguém para mim. Um cara que gostasse de mim de verdade e me tratasse bem, mas o fato era que fazia anos que eu namorava alguém. O meu ultimo namorado havia se mostrado um péssimo erro.
Jonathan não tinha nada de ruim. Era um ótimo homem. Sempre tentava me agradar o máximo possível, mas tanto agrado me fez ficar desconfiada. Um homem não era tão amável 24 horas por dia. Por isso uma tarde, após ele ter me deixado em frente ao prédio da Poise, eu o segui ao invés de seguir a minha rotina diária. Para a minha surpresa, o encontrei em frente a uma cafeteria no centro da cidade, aos beijos com uma ruiva sensual. E isso só me fez ter certeza que eu, , não tinha sorte com os homens. Eu conseguia ser um imã de idiotas.
- Não esperava te encontrar aqui. – escutei uma voz bem familiar aos meus ouvidos. Girei o meu corpo e um pequeno sorriso satisfeito brotou em meus lábios. - Scott! O que faz aqui? – inclinei um pouco a minha cabeça para o lado, um pouco confusa com a aparição dele.
- Eu que deveria fazer essa pergunta, não é? – ele me lançou um sorriso malicioso e correi rapidamente, algo que não deu para ser notado por ninguém – Tudo bem. – o moreno se deu por vencido – Sou conhecido do anfitrião da festa. E você? Está aqui como repórter ou convidada?
- Convidada. – meus olhos rondaram toda a região em que estávamos conversando, vendo que as pessoas que chegavam preferiam ficar se esquentando dentro da mansão do que enfrentar o gelo que estava o lado de fora – Minha irmã foi convidada por um cara e ela me obrigou a vir.
- Certo. – analisei o homem na minha frente e concordei comigo mesma, que Scott estava muito atraente com aquele sobretudo preto cobrindo o seu belo físico de atleta – Não querendo ser muito intrometido, mas quem a convidou? Talvez eu o conheça para lhe dizer se o cara é confiável.
- Ah, bem... Só sei que ele se chama Dougie e é . – eu não tinha muitas informações sobre ele. Somente após uma longa conversa com que poderia ter a ficha completa do rapaz.
- Está falando de , a sombra particular de ? – vi o nariz do moreno se torcer ao dizer o último nome. Pelo menos eu não era a única pessoa que detestava o .
- Os conhece? – perguntei, sendo a pessoa mais neutra no assunto. Talvez não seja tão mau saber o grau de simpatia que tinha, pelos olhos de outra pessoa.
- Não conheço muito bem o . – a utilização de sobrenomes não que dizer que eles são fieis amigos – Mas tenho uma rixa longa com o . – os olhos negros de Scott se estreitaram até se transformarem em duas finas linhas.
- Quer falar do assunto? – perguntei um pouco preocupada. Qualquer coisa que tenha acontecido entre esses dois homens, deve ter sido muito séria.
- Desculpe, mas, no momento, não. – recebi um pequeno sorriso em troca – Espero que se divirta bastante na festa.
- Não irá ficar? – o encarei, espantada. A companhia dele me deixava feliz.
- Não posso. Recebi uma ligação de emergência e tenho que ir embora o mais rápido possível. – ele me explicou com uma devida pressa. Eu deveria o estar atrasando.
- Tudo bem. Esbarro com você outra hora. – Scott sorriu e me deu as costas, acenando com a mão enquanto caminhava em direção a um Porsche vermelho sangue, que estava estacionado ao lado de dois carros da mesma magnitude.

Depois que vi Scott essa noite já não esperava mais que a festa foi uma completa chateação. Poderia agüentar qualquer riquinho bêbado, tentando me dar uma cantada mal ensaiada. Ou até um velho milionário que pensar ainda ter vinte anos de idade. A única coisa a fazer era ajeitar o meu vestido e caminhar diante todo o salão, visualizando todos os milionários que nunca tive chance de conhecer.
Uma pequena quantidade de casais dançava mais ao centro – onde eu conseguia enxergar com perfeição o casal mais bonito que já tinha visto; e -, outras pequenas porções estavam espalhadas por cada canto da grande mansão – bebendo ou conversando sobre algo não tão interessante a ouvidos alheios -. Só sabia que estava no lugar errado. Estar no meio de tantos ricos não era a minha vida, não estava adaptada a esse meio, por mais que tivesse convivido com tantos durante a minha adolescência.

Dei mais um retoque numa mecha do meu cabelo, que havia saído do coque incrivelmente bem feito. Não havia muita escolha, tinha que me arrumar devidamente para não levantar suspeitas da minha mãe. Se ela descobrir que eu não cheguei nem perto dos terrenos da escola, estaria completamente perdida, aquele dia era muito especial para ela.
A campainha da casa soou e tive toda a certeza que o William havia acabado de chegar. Sorri para o meu próprio reflexo do espelho e ajeitei a barra do meu vestido. Era tão bonito, pena não seria usado da maneira que deveria. Abri a porta do quarto e caminhei corredor a fora. Quanto mais rápido saísse daquele local, melhor para mim.
Não foi nenhuma surpresa para mim, quando a minha intuição se mostrou completamente certa. William Fogg estava parado ao lado do sofá, da maneira mais cavalheiresca que poderia fazer, com um smoking caindo perfeitamente sobre o corpo dele e os cabelos ruivos, sem nenhum gel, alinhados da maneira de sempre.
- Nossa. Você está um pão. – ri da minha gíria dos tempos da minha mãe – Aonde arranjou o smoking.
- Era do meu irmão. Ele nunca usou. – Will respondeu passando a mão no próprio ombro, como se estivesse limpando uma sujeira – Mas que tem que ser elogiada aqui é você. Está esplêndida, me faz ter orgulho de ser seu amigo.
- Eu também me sinto orgulhosa em ser sua amiga, mas é em todos os momentos, não, somente, quando você está bem vestido. – me fingi de ofendida, cruzando os braços acima do peito.
- Não seja tão exagerada, . Você sabe que é muito importante para mim. – o ruivo se aproximou de mim e me deu um beijo na bochecha – Precisamos ir logo, o baile não vai durar por muito tempo. – ele piscou um dos olhos, me fazendo dar uma risada discreta.
- Tudo bem. Vamos aproveitar que a minha mãe saiu com a . – expliquei entrelaçando as nossas mãos e o puxando para fora de casa.
O fato era que, enquanto todos os alunos estariam no baile da escola, nós dois estaríamos rodando pela cidade, sem sequer se aproximar dos terrenos escolares. Era um plano nosso, que estava sendo arquitetado desde o começo do ano. Ambos sabíamos que o baile seria um fracasso em nossas vidas, como foi sobreviver a cada dia da Surrey High School, então resolvemos burlar a noite mais importante de tantos adolescentes, para, somente, viver a nossa própria noite especial.
Corremos pelo imenso campo que havia em frente a minha casa. Era um lugar muito bonito na primavera, pois a grama ficava extremamente verde, mas, no inverno, a neve forrava todo o chão, deixando uma aparência muito mais tranqüilizadora do que normalmente. Tomei cuidado para não afundar o alto na neve, enquanto nos afastávamos mais da minha casa e nos aproximávamos mais da cidade. Sabia que, se não corresse, minha mãe nos veria e iria querer nos levar até o ginásio, acabando completamente com o nosso plano.
- Aonde nós iremos? – Will me perguntou, enquanto abria um imenso portão de madeira, para que pudéssemos passar e caminhar por uma rua estreita. - Eu não sei. Ao Louie’s? – perguntei, apertando o meu casaco um pouco contra o meu tronco.
- Boa idéia. É melhor do que nada. – o ruivo deu os ombros, começando a desabotoar o próprio paletó e o tirando – Toma. Você deve estar morrendo de frio. – disse me oferecendo o paletó.
- Não. Pode voltar a vesti-lo. Não quero que passe frio por minha causa.
- Come on, , você sabe muito bem que eu não sinto frio. Pra mim Surrey chega a ser até quente. – era impossível dobrar o William, ele sempre se fazia de mais forte.
- Tudo bem. Tudo bem, mas é a última vez. – apontei o dedo indicador, ameaçadoramente, deixando com que ele colocasse o paletó sobre os meus ombros.
A essa altura da caminhada, já estávamos na cidade, vendo as pequenas lojas se sobressaírem diante a pequena rua de paralelepípedos, que havia ali. Mais duas quadras e estávamos em frente a uma pequena porta de formato retangular, com a maçaneta cortando-a pela metade. Olhamos para cima e um pequeno letreiro em neon com os dizeres “Louie’s” pairava sobre boa parte da fachada - era uma pequena maneira de chamar a atenção dos clientes ou do publico adolescente? -. Empurramos a porta e o meu mundo simplesmente desabou, naquele mesmo momento.
Um pequeno grupo de alunos se concentrava ao fundo do pub. O mesmo grupo que eu não queria que estragasse a minha noite ou qualquer momento do meu dia.
- Vamos sair daqui. – William sussurrou para mim, me confirmando que ele também havia visto o grupinho liderado por Emilia Sanderson e .
Confirmei com a cabeça e deixei ser conduzida para fora do local, porém, nós já estávamos na metade do pub, quando avistamos o grupo, nos dando uma vantagem muito inferior de não sermos vistos.
- Nossa, olhem quem encontramos tão cedo por aqui? – a voz fina e irritante de Emilia só fez com a minha raiva batesse com mais força contra a parede de proteção que criei para ela. Se eu a deixasse sair iria arrancar cada fio loiro da cabeça daquela garota e a faria engoli-los.
- Boa - noite para você também, querida. – dei o meu melhor sorriso sínico, quando girei o meu corpo para encará-la.
- Nós não estamos a fim de olhar para o seu nariz falsificado por muito tempo, então já iremos nos retirar. – William falou aquilo com tanta naturalidade que foi quase impossível segurar o riso. O vi colocar as mãos em cada lado dos meus ombros e me girar para podermos sair o mais rápido possível do local.
- Até que você está apresentável, . – aquela voz masculina me fez ficar estática no...


- Eu juro que não esperava vê-la aqui. – as minhas lembranças foram tiradas de foco, ao ouvir aquela voz. Aquela mesma voz que soava com música e como ruído aos meus ouvidos.



Capitulo 7 – A festa: Parte II

O encarava inebriada, não estava acreditando que ele viria falar comigo. Não que eu esperasse isso, mas... Nem eu mesma conseguia explicar o que se passava pela minha cabeça. Só sabia que ela trabalhava de uma maneira estranha ao deslumbrar as feições dele ou quando tentava descrever cada passo que ele dava.
- Também não esperava o ver aqui, também. – disse com um pequeno sorriso de lado – Só vim acompanhar a minha irmã. – foquei os meus olhos em e notei que fez o mesmo para saber de que eu estava falando.
- Ah... havia me falado dela. Provavelmente você foi obrigada a acompanhá-la. – ele sorriu.
- É o meu trabalho. Protegê-la. – estava sendo mais do que sincera naquela hora.
Um garçom passou próximo a nós, oferecendo taças de champanhe aos convidados e ao se aproximar de nós dois pegou duas taças, me entregando uma da maneira mais gentil que podia. Consequentemente eu aceitei por pura educação, já que eu não estava com vontade de beber nada no momento.
- Pensei que só a veria quando eu fosse ao Loft novamente. – deu um gole na bebida.
- Ah... – não sabia o que dizer, pois sabia que ele pensava que eu trabalhava lá ainda. Então não tive outra escolha a não ser dar um bom gole no champanhe para disfarçar – Você queria me ver?
- É... Bem – ele parecia confuso -, não estou te devendo uma dança?
- Pensei que não dançava senhor . – sorri com malícia ao me lembrar que ele não gostava que o chamassem de senhor.
- E eu já expliquei...
- Para chamá-lo de .
- Que danço com quem eu me sinto à vontade. – ele cortou a minha rápida fala com um sorriso vitorioso nos lábios – Mas, de alguma maneira, me sinto a vontade com você.
Sorri satisfeita. Nunca pensei que poderia fazer algum efeito nos homens, nem, em especial, nesse. O garoto – agora homem – que atormentava os meus sonhos quando eu era uma reles adolescente apaixonada. Sim, nisso eu posso ser completamente sincera. Por mais que odiasse até o interior dos meus ossos aquele garoto, o amava ou achava que amava, pois ele se mostrava cada vez mais um idiota.
- Tudo bem, eu aceito. – sorri, deixando que ele pegasse a taça de champanhe da minha mão e a depositasse sobre uma pequena mesa ao lado da sua taça.
segurou a minha mão e me conduziu até o local onde os casais se aglomeravam e dançavam, seguindo a batida agitada que saia das enormes caixas de som. Posicionei-me em frente a ele e comecei a me mexer junto com a música, não me importando se alguém me encarava, pois sabia que uma coisa de me orgulhava era que eu sabia dançar muito bem. Aulas de dança desde os cinco anos sempre foram muito lucrativas para mim e , pois esse foi um outro motivo por termos sido admitidas no Loft.
Olhei para o homem na minha frente e o vi sorrir para mim, enquanto se aproximava mais de mim, deixando um espaço de poucos centímetros entre nossos corpos. Quase corei com esse fato, pois o único que conseguia chegar tão perto de mim era o William, sendo que ele só chegava perto somente para me abraçar e não para me provocar; como foi o que eu percebi o que estava fazendo comigo.
Tentei me afastar um pouco, mas foi em vão, pois senti alguém esbarrar nas minhas costas, me fazendo bater contra o corpo do meu acompanhante e sentir uma parte dos músculos dele. Senti-me envergonhada por isso. Vi me segurar pela cintura, me ajudando a ficar de pé corretamente.
- Obrigada. – murmurei, sabendo que ele não escutaria devido à música alta.
Fiquei parada por um tempo, tentando colocar a minha cabeça no lugar, quando notei que ainda estava com as mãos na minha cintura. Fiquei rígida. Nunca senti o toque dele tão diretamente em mim. Era algo completamente novo para o meu corpo. Algo que nunca pensei que sentiria em mim, já que, na minha cabeça, eu pensava que não o veria desde a noite do quase baile de formatura.

- Até que você está apresentável, . – aquela voz masculina me fez ficar estática no chão. Nunca pensei que ouvia a voz dele àquela noite.
Girei o meu corpo, ignorando as mãos de Will, para poder encará-lo seriamente. Tive que focar os meus olhos na parede ao fundo, pois se ficasse fitando-o por muito tempo iria perder o controle da razão.
Ele não usava o paletó do smoking, assim como William, trajando apenas as calças pretas e a camiseta da mesma cor. Sem nenhuma gravata na gola, apenas com dois botões abertos. Engoli a seco, disfarçadamente; não queria ser pega por de baixo das minhas defesas. Sustentava o sorriso malicioso de sempre, fazendo com que parte da minha raiva retornasse, junto com a razão.
- Vou considerar isso como um elogio. – disse sorrindo na mesma intensidade que ele – Você também não está nada mal. – disse com toda a audácia que tinha dentro de mim.
- Rapha, vamos embora. – senti novamente o meu amigo tentar me tirar daquele espaço cheio de parasitas.
Dessa vez eu me deixei ser conduzida por William, não sabia qual seriam as conseqüências se eu continuasse a aspirar a fragrância do perfume de quinta que Emilia estava usando nessa noite. Talvez meu Q.I. diminuísse por causa disso. Não era algo que eu tinha 100% de certeza que poderia acontecer, mas eu sabia que meus instintos poderiam ficar descontrolados se a minha raiva ficar acima da média esperada.
- Hey, ! – escutei uma voz gritar meu sobrenome enquanto nós dois já estávamos do lado de fora do pub. Girei o meu corpo e coloquei as minhas mãos na cintura, olhando seriamente para . O que ele estava fazendo ali, parado, atrás de nós?
- O que você quer ? – Will perguntou com a voz enraivecida. O encarei de esguelha por breves segundos, vendo sua face contorcida numa expressão de raiva, algo que nunca havia visto na minha vida. Era muito raro vê-lo tão nervoso.
- Eu não falei com você, Fogg. – crispou, o encarando com a mesma intensidade de raiva – Eu chamei a .
Uma pequena ruga se formou na minha testa. Por que ele me chamou pelo nome? Só o vi ser pronunciado da boca dele uma vez e era quando éramos muito mais novos, quando não existia rixa entre nós todos. É difícil de admitir, mas eu já fui amiga de Emilia Sanderson. Só que a diferença entre nossas personalidades fez com que um grande buraco se abrisse entre nós duas, nos separando terminantemente.
- O que você que ? – fingi não me abalar com a pronunciação do meu nome.
- Vim te entregar isso. – ele estendeu o braço, trazendo na mão um pequeno pacotinho de embrulho de presente. O peguei com uma dúvida enorme na minha cabeça – Eu acabei te tirando no amigo secreto, mas como eu estava fora da cidade nos últimos dias, então não pude entregar. Então... Feliz Natal. – disse com um sorriso torto no rosto, nos dando as costas e voltando para dentro do pub.
Fiquei estática encarando o pequeno pacotinho na minha mão. Não sabia o que poderia ser. E se fosse alguma espécie de brincadeira contra mim?
Minha cabeça fervia de possibilidades, mas nenhuma se encaixava perfeitamente. Abri o pacote e virei o seu conteúdo na minha mão. Uma delicada pulseira de prata com um simples pingente de uma estrela vazada na sua ponta. Tão simples e tão belo ao mesmo tempo. Não pude deixar de sorrir, por mais que ele fosse um grosso comigo, ainda tinha jeito com as garotas.
- É bonita. – Will comentou provavelmente para não deixar que o silêncio dominasse entre nós dois, já que não senti nenhuma emoção no seu tom de voz.


Fui acordada das minhas lembranças quando a música mudou. Agora bem mais calma do que a anterior, onde só se podia dançar estando acompanhada de alguém. Passei os meus braços em volta do pescoço dele, tentando olhar para qualquer lugar daquele salão, de modo que eu não pudesse olhar para o rosto dele. Estava demasiadamente difícil ter algum pensamento sensato estando perto dele. Principalmente enquanto ele ficasse quase colado em mim.
- Calma, eu não vou fugir. – eu disse com um sorriso malicioso nos lábios. Do jeito que ele me segurava, parecia que ele estava prevenindo alguma fuga.
- Eu sei, mas eu gosto de estar perto de você. – sussurrou próximo ao meu ouvido.
Um frio passou pela minha espinha, não estava entendendo o que acontecia comigo. Normalmente eu conseguia ser fria com os homens, por que com ele meu corpo se comportava daquela maneira? Era pra ele estar nas minhas vagas memórias de infância. Era pra ele estar escondido dentro do baú que eu criei para não me lembrar dos fatos que eu mais odeio de recordar. deveria pertencer ao meu passado e não ao meu presente e, possivelmente, ao meu futuro. Não posso pensar num futuro, sendo que ele não irá existir.
me segurou forte, rodando nossos corpos pela pista, mas sem perder o ritmo. Eu tinha que concordar, ele é um bom dançarino.
- Está tudo bem com você? – sussurrou novamente, me fazendo rezar para que ele parasse com aquilo, senão eu não me responsabilizaria pelos meus atos. - Está, mas por que a pergunta? – o encarei confusa, não havia fundamento nenhum para aquela pergunta.
- Não sei... Você parece... Deixa pra lá. – ele olhou para o outro lado.
- Não. Pode me dizer. – insisti.
- Parece que você está tentando me evitar. – me pareceu desanimado ao dizer aquilo. Senti-me mal por deixá-lo assim – Tudo bem, pode dizer que eu sou um maluco.
- Você não é maluco. – sorri meigamente – E eu não estou tentando te evitar... É só que... Não sei o que eu devo ou não falar na frente de caras. – acho que essa era a primeira vez que estava sendo sincera com ele.
- Aconteceu alguma coisa?
- Não é algo de que eu gosto de falar.
Por mais que o conhecesse fazia anos, não podia contar tudo o que aconteceu na minha vida, pois, aparentemente, essa era a segunda vez que eu o via.
O assunto havia sido encerrado rapidamente, nos deixando num completo silêncio, apenas ouvindo a música que ainda tocava. Tudo estava ficando muito confuso pra mim. Sempre pensei que o sentia por esse homem era somente superficial, uma fantasia de uma menina sonhadora, mas, talvez, eu esteja enganada. Ou poderia ser o fato de que fazia muito tempo que eu não tinha alguma relação com algum homem. Não podia deixar de admitir que seja muito atraente e provavelmente era isso o que estava fazendo tanto efeito em mim. Se eu não o tivesse conhecido antes diria que ele é o homem mais gentil e maravilhoso do mundo. Mas só seriam palavras superficiais.
Voltei a encará-lo e quase tomei um susto quando notei o seu rosto tão próximo do meu, praticamente colado. Minha respiração acelerou. me olhava diretamente nos olhos, olhando de relance, às vezes, para a minha boca, me fazendo saber o que ele queria. Fiquei completamente travada, vendo-o se aproximar cada vez mais de mim. Uma parte de mim queria que ele me beijasse, mas a outra dizia que não; era uma batalha interminável na minha cabeça.
O rosto dele estava mais próximo, mais e mais. Quando ele roçou os lábios dele nos meus eu virei o rosto, recebendo um beijo no rosto ao invés de na boca. Fechei os meus olhos e mordi o meu lábio inferior. Não havia como voltar atrás.

A nossa conversa foi cortada pelo toque do celular de William. Nós dois olhamos para o bolso da calça dele e ele bufou pegando o aparelho com um ar de frustração bem iminente.
- Alô?
Fiquei ao seu lado esperando o termino da ligação. Eu pisava num montinho de neve acumulada na beira da calçada, fazendo alguns buracos com o meu salto, no intuito de passar o tempo já que Will pareceu estar numa discussão interminável com sua mão. Só pude ouvir algumas frases cortadas como “Não é justo” ou “não sou a babá dele” me dando certeza de que falavam do irmão mais novo dele, Joshua. Por isso não quis interromper, era um assunto de família. Uma família na qual não era a minha.
Abracei-me forte, fechando o paletó mais forte contra o meu corpo. Aquela noite parecia três vezes mais fria do que o normal, me fazendo arrepender-me por ter deixado o meu casaco em casa, na pressa de sair de casa. Olhei para o meu pulso direito e vi o meu presente brilhar com a luz do poste incidindo sobre ele. Ainda não entendia o motivo por ter ganhado aquela pulseira, por mais que fosse muito bonita, mas simplesmente não entendia. Uma pessoa podia ser insuportável e suportável ao mesmo tempo? Às vezes me pergunto se sou o único ser normal da Terra.
- Droga. – Will me acordou dos meus devaneios fechando o celular com força – Rapha me desculpa, minha mãe quer que eu vá pra casa imediatamente. - Aconteceu alguma coisa? – perguntei preocupada.
- Chamaram a minha mãe no hospital e eu vou ter que voltar pra casa para cuidar do meu irmão. – ele coçava a nuca – Me desculpe mesmo, eu sei que a gente pensou nessa noite o ano inteiro e, agora, aconteceu isso. Sou um péssimo amigo.
- Não diga isso. – falei indignada, me aproximando mais dele – Você é um ótimo amigo. Só não teve culpa que precisassem da sua mãe hoje. Vá pra casa.
- Mas e você? – ele ainda se sentia mal pelo o que devia fazer, o conhecia muito bem, que seria capaz de dar qualquer desculpa para não me deixar sozinha.
- Vou voltar para casa. Vou dizer pra minha mãe que você teve ir embora pra cuidar do seu irmão e que eu voltei porque não tinha mais nada pra fazer sem você lá. – dei uma piscadela – Pode se dizer que só estou omitindo a parte de que nem entramos no baile.
- Você não presta. – Will riu.
- Você também não. – rebati.
- Tudo bem, tem certeza que está tudo bem? – afirmei com a cabeça – Tudo bem. Compenso-te essa falta outro dia. – me deu um beijo na testa e se afastou de mim, correndo rua abaixo.
Sorri e dei a volta, caminhando vagarosamente pela rua. Não havia muitas pessoas passando por ali àquela hora, apostava perfeitamente que a maioria preferia ficar confortavelmente aquecidos em suas casas a enfrentarem o frio que estava o lado de fora. Eu já tinha tudo o que tinha que falar pra minha mãe na minha cabeça. Fiquei relembrando tudo para não esquecer nenhuma parte, não queria ser descoberta.
Comecei a cantarolar uma música qualquer, não me importando com o ritmo, o importante era passar o tempo e acabar com o silêncio constrangedor que se instalou em mim. Odiava ficar sem ter o que fazer. O tempo sempre andava cada vez mais devagar, por isso sempre arranjava um meio de fazê-lo passar rápido; como cantarolar uma música ou tentar pensar em coisas aleatórias, que me distraíssem.
Aquilo estava fazendo um efeito tão bom na minha cabeça que entrei em um completo pânico quando senti alguém me puxar para dentro de um beco que eu passava em frente. O meu coração começou a acelerar demasiadamente ao me lembrar do que poderia acontecer comigo. Não queria pensar, mas as possibilidades são grandes. Senti-me ser prensada na parede, numa área onde estava tão escuro que ninguém poderia me ver.
Estava preparada para gritar ou pedir por socorro, quando uma mão tapou a minha boca. O meu raptor pronunciou um breve “shiiu” com a boca, me assustando cada vez mais. Eu não estava preparada para o que poderia acontecer a seguir, não estava mesmo. Poderia ficar traumatizada para o resto da minha vida.
- Calma, sou eu. – escutei uma voz conhecida, aliviando as palpitações do meu coração – Vi quando seu amigo foi embora. Não vou te fazer nenhum mal. – por mais que eu não conseguisse ver seu rosto eu reconhecia aquela voz. Sabia que era . – Me desculpe pelo o que vou fazer, mas é inevitável.
Duas coisas eu senti depois do que me disse. Primeiro: alivio por ele tirar a mão da minha boca. Segundo: confusão por ele ter me beijado.
Permaneci com os olhos abertos por rápidos segundos, mas logo me entreguei ao beijo, realizando o meu sonho de adolescente. Passei os meus braços em volta do pescoço dele, sentindo ele me segurar fortemente pela cintura, me pressionando com mais força contra a parede. O beijo era apressado, como nós dois estivéssemos querendo aquela mesma coisa há muito tempo. Era uma corrente de energia renovadora ao meu corpo e alma, como se um enorme peso estivesse sendo retirado das minhas costas. Mas logo aquela sensação acabou quando nos soltamos.
- Não conte isso a mais ninguém. – ele disse me dando um selinho demorado, em seguida – Adeus.
Nisso ele partiu, foi pelo menos o que eu entendi, pois escutei os passos dele se afastarem cada vez mais até estarem fora do alcance dos meus ouvidos. A minha cabeça não funcionava corretamente, estava cada vez mais confusa com o que havia acabado de acontecer. Porém, por mais que tinha sido confuso, eu gostei e muito. O bastante para fazer um sorriso bobo se formar nos meus lábios no exato momento que a ponta dos meus dedos os tocaram levemente.


Relativamente devo estar fora de órbita nesta noite. Eu estava agindo muito impulsivamente, ao ponto de aceitar que me levasse para casa, depois de tanto tempo que passamos juntos dentro da mansão. A noite havia sido muito agradável, mais do que eu havia esperado.
Caminhamos em silêncio pelo jardim; na verdade, eu o seguia já que não sabia qual era o carro dele. O vi tirar as chaves do bolso e destravar um Camaro conversível verde escuro com as listras pretas. Meus olhos brilharam, o carro era maravilhoso.
- Gostou? – virei o meu rosto para olhar , sendo que o mesmo estava com um pequeno sorriso no canto do rosto. - Ele é lindo. – confessei, dando a volta no carro, para poder ir ao banco do passageiro.
O sorriso dele ainda estava bem visível para mim, me fazendo desconfiar do que ele poderia estar pensando sobre o que eu havia acabado de falar.
Provavelmente me achou uma Maria gasolina ou uma bela interesseira. Sorri e entrei no carro, logo depois dele.
Por rápidos segundos me lembrei da pulseira que ele havia me dado na última vez em que nos vimos. Exatamente na noite da formatura e na mesma noite em que nunca mais esqueci. Aquele beijo me corroeu por semanas, principalmente depois que eu descobri que ele não estava mais na cidade, que havia ido embora sem dizer nada a ninguém. Foi nessa hora que eu tinha entendido o motivo do “adeus”. O beijo era uma despedida dele da cidade ou de mim? Fiquei me perguntando por vários dias após a notícia.
Mas aquela dúvida não durou muito tempo. Com o meu trabalho no jornal do colégio, eu consegui um emprego na Poise, primeiramente como uma ajudante qualquer, mas fui subindo aos poucos até chegar onde eu estou no momento. Não precisei de um diploma pra conseguir tudo, só precisei de experiência. O excesso de trabalho me fez esquecer tudo, até agora.
Olhei para onde dirigia e percebi que ele estava exatamente perto do meu prédio. Fazendo-me sentir péssima por ter pensado algo ruim dele. Porém, me sentir feliz por não ter me crucificado rápido demais, pois ele havia parado o carro em frente de um enorme prédio, o qual não era o que eu morava.
- Onde estamos? – perguntei, o encarando confusa.
- Moro aqui. – respondeu ainda sorrindo – Não se importa com essa parada, não é?
- Sim, me importo. Deveria ter me dito antes. – falei grosseiramente, saindo de dentro do carro. Parando para alisar o meu vestido.
- Calma, desculpa. Errei, mas não precisa ficar assim. – ele disse já parado na minha frente – Só pensei que...
- Eu fosse uma mulher qualquer que você pode encontrar em qualquer balada. – aquilo não foi uma perguntar, eu estava descaradamente insinuando que ele era sem caráter – Às vezes as pessoas precisam saber com quem estão falando.
Nisso, sai de perto dele, o deixando parado ao lado do carro. Por um momento pensei que ele poderia ser diferente do que eu sempre achei, mas as pessoas nunca mudam. Ele sempre será aquele arrogante que era. Como eu pude ser tão idiota.
Uma pequena lágrima quis escorrer pelo meu rosto, mas eu não a deixei passar da área do meu olho. Eu sabia que ele não me seguia, pois o único som que eu ouvia era do meu salto batendo no concreto da calçada. Para minha sorte eu estava perto do meu querido lar. Ainda bem que não sabia desse fato.


N/a: Primeiramente, desculpe a demora do capitulo... Acabei me esquecendo. Hehe. Segundo, este foi o capitulo mais longo que eu já escrevi para essa fic. Nunca pensei que ele chegaria a ficar tão grande, claro que tantos acontecimentos deveriam ter um número consideravel de palavras.
Ah, mas eu gosto dele. s2
Espero que vcs também gostem da mesma maneira e comentem, pq eu reparei que o número de comentários diminuiu. Gente, não se acanhem, comentem o quanto quiserem, não me importo. As mensagenzinhas são sempre bem vindas. =DDD
beijos.


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