A Profecia dos Amantes

Última atualização: 18/08/26

Descrição

Por séculos, a Ordem Jedi temeu uma profecia esquecida: dois amantes, destinados a lados opostos da Força, poderiam trazer equilíbrio à galáxia ou condená-la à escuridão.

Em 944 ARR, Mestre Tarla Kesyk, um Jedi antigo, reservado e marcado por perdas, acredita já conhecer todos os caminhos da renúncia. Rum'ea Olphen, sua nova Padawan, chega ao Templo carregando feridas profundas, uma força inquieta e uma resistência que nem mesmo o medo conseguiu apagar. O que começa como treinamento logo se transforma em algo impossível de ignorar: um vínculo secreto, intenso e invisível aos outros, como se a própria Força tivesse unido suas almas.

Entre missões, provações e os limites rígidos da Ordem, Tarla e Rum'ea precisarão enfrentar uma verdade perigosa: o amor pode ser queda, salvação ou ambas as coisas ao mesmo tempo. E, quando a profecia enfim despertar, a escolha entre luz e trevas poderá mudar não apenas o destino dos dois, mas o futuro de toda a galáxia.

Prólogo

"Dois unidos pela Força, pensamentos protegidos por ela;

Um cairá em trevas, o outro permanece na luz.

Uma união testada pela distância, morte e esquecimento

Quando uma criança roubada escolher o que é certo

E a criança do gelo conhecer o abandono de tudo que esperou para amar.

Em vida, trilham o mesmo caminho,

Em morte, seguem lados separados.

Verde se torna vermelho nos olhos e na lâmina;

E, mesmo assim, a metade não se apaga, a amálgama não se desfaz...

Nem luz

Nem trevas

E, por isso, renegados por ambos.

Nunca um sem o outro podem ser,

Temidos por todos que os cercam."

Capítulo 1

O vento cortava os penhascos de Ossus como uma lâmina invisível. Não havia cidades ali, nem o brilho constante das rotas hiperespaciais, nem o rumor distante de guerras entre sistemas. Apenas pedra antiga, poeira dourada e as ruínas silenciosas do primeiro conhecimento Jedi, enterradas sob eras de abandono.

No alto de uma escadaria semidestruída, uma figura avançava lentamente sob a luz fria das luas. O manto pesado ocultava-lhe o rosto, mas não o cansaço nos movimentos. Cada degrau parecia carregar o peso de séculos.

As portas do antigo cofre já estavam abertas.

Isso, por si só, era impossível.

Os mecanismos daquela câmara haviam sido selados antes mesmo da formação da República moderna. Não respondiam a chaves comuns, nem a códigos, nem mesmo à maioria das técnicas da Força conhecidas pelos Jedi contemporâneos. Ainda assim, alguém entrara.

O interior cheirava a pergaminho queimado e chuva antiga.

Holocrones partidos repousavam espalhados pelo chão, alguns ainda emitindo fragmentos de vozes há muito mortas. As paredes circulares estavam cobertas de inscrições em idiomas esquecidos - símbolos que nem mesmo os arquivistas de Coruscant ousavam traduzir sem autorização do Conselho.

No centro da sala havia apenas um pedestal de pedra negra.

Vazio.

A figura encapuzada permaneceu imóvel diante dele durante vários segundos. Então, ergueu lentamente uma mão enluvada, passando os dedos pelo sulco deixado pelo objeto desaparecido.

Um livro.

Não um holocron.

Um livro físico.

As Escrituras de Ashla.

O último texto proibido da Primeira Ordem Jedi.

Atrás da figura, outra presença emergiu da escuridão.

— Então era verdade… — disse uma voz feminina, baixa e cautelosa. — Achei que fosse apenas mais um mito entre milhares.

A figura não se virou.

— Mitos não assustam o Conselho.

Ela observou o pedestal vazio.

— O que havia aqui?

O silêncio demorou a responder.

Quando veio, trouxe consigo algo semelhante à hesitação.

— Uma profecia.

As luas iluminaram parcialmente o rosto da recém-chegada: uma mulher ainda jovem, trajando vestes Jedi simples, embora o olhar carregasse uma inquietação incomum para alguém treinado, desde a infância, a esconder emoções.

— Sobre o Escolhido?

— Não.

A resposta saiu seca.

— Então, sobre guerra?

— Não.

Ela franziu a testa.

O homem finalmente virou o rosto. Era velho. Muito mais velho do que aparentava à distância. Cicatrizes cruzavam-lhe a pele como rachaduras em pedra antiga.

E havia medo em seus olhos.

Medo genuíno.

— Todas as grandes profecias Jedi falam sobre equilíbrio, queda, fome, morte ou redenção. Algumas mencionam impérios consumidos pelo orgulho. Outras descrevem eras inteiras mergulhadas em trevas. — Ele respirou devagar. — Mas apenas uma fala sobre amor.

O vento invadiu a câmara naquele instante, fazendo os pergaminhos espalhados se agitarem violentamente.

A jovem sentiu um arrepio percorrer-lhe os braços.

— Amor?

A palavra soava errada naquele lugar. Errada nas bocas dos Jedi.

O velho caminhou lentamente até uma parede coberta de inscrições apagadas pelo tempo. Com a ponta dos dedos, ativou símbolos antigos, que começaram a brilhar em azul-pálido.

Duas figuras surgiram projetadas na pedra.

Uma envolta em luz.

Outra cercada por sombras.

Mas ambas estendiam as mãos uma para a outra.

— "Dois unidos pela Força, pensamentos protegidos por ela; Um cairá em trevas, o outro permanece na luz. Uma união testada pela distância, morte e esquecimento. Quando uma criança roubada escolher o que é certo, e a criança do gelo conhecer o abandono de tudo que esperou para amar. Em vida, trilham o mesmo caminho; em morte, seguem lados separados. Verde se torna vermelho nos olhos e na lâmina; e, mesmo assim, a metade não se apaga, a amálgama não se desfaz..." — recitou ele, em tom quase ritualístico. — "...Nem luz. Nem trevas. E, por isso, renegados por ambos. Nunca um sem o outro podem ser, temidos por todos que os cercam."

A jovem permaneceu imóvel.

— O que isso significa?

— Ninguém sabe.

A projeção tremeluziu.

Por um breve instante, as figuras pareceram se abraçar.

Então, transformaram-se em ruínas flamejantes.

Planetas em colapso.

Frotas destruídas.

Corpos celestes partidos ao meio.

A jovem sentiu o coração acelerar involuntariamente.

— O Conselho acredita que seja uma advertência. — Continuou o velho. — Que um dos dois arrastará o outro para seu lado. Se a luz vencer, haverá equilíbrio. Se as trevas vencerem...

Ele não terminou.

Não precisava.

As imagens de destruição ainda queimavam nas paredes.

— E alguém roubou isso.

— Sim.

— Um Sith?

O velho demorou a responder.

Muito tempo.

— Não sei o que me preocupa mais... um Sith procurando essa profecia... — Os olhos dele voltaram lentamente para o pedestal vazio. — ...ou um Jedi.

Capítulo 2

O chamado chegou a Mestre Tarla Kesyk quando a luz de Coruscant ainda era uma coisa indistinta além das janelas altas do Templo Jedi, dissolvida em névoa, tráfego distante e no brilho interminável de uma cidade que nunca conhecia noite verdadeira. Ele estava no arquivo oeste, diante de uma fileira de mapas estelares antigos, comparando rotas mortas da Orla Média com registros migratórios de espécies sensíveis à Força, quando o pequeno sinal luminoso do comunicador sobre a mesa vibrou uma única vez. Não havia urgência no toque. Não havia explicação. Apenas o selo do Alto Conselho.

Tarla permaneceu imóvel por alguns segundos.

Chamados do Conselho não o inquietavam havia muito tempo. A inquietação era coisa de jovens, de Cavaleiros recém-promovidos, de Padawans que ainda confundiam o peso de um olhar com julgamento e a demora de uma resposta com reprovação. Ele tinha cento e cinquenta anos-padrão, e a maior parte dos seres humanos que cruzavam seu caminho o tomaria por um homem de quarenta, talvez quarenta e cinco, se fossem generosos com a prata discreta que corria por alguns fios de seu cabelo longo. Para sua espécie, aquilo não era estranho. Para os keshtaret, o tempo se movia como se a vida obedecesse a invernos mais longos, como se o corpo lembrasse os ciclos de Keshtara: as três luas lentas, os montes gelados sob céus violetas, os lagos escuros e imóveis como vidro negro e as Luzes Dançantes cruzando o firmamento em ondas de rosa, dourado e verde.

Ele quase não se lembrava do frio.

Essa era uma das crueldades pequenas que a memória lhe concedia. Lembrava-se da cor das luzes sobre a neve. Lembrava-se do contorno do rosto de Maree, sua mãe, embora as cartas semanais que ela ainda escrevia tivessem envelhecido mais do que a lembrança. Lembrava-se da voz do pai, Vinis, grave e paciente, dizendo que os lagos tinham congelado cedo naquele ano. Lembrava-se das histórias sobre Elyria, a irmã que nascera muito depois de sua partida e que já era crescida, embora ele jamais tivesse tocado sua mão. Mas o frio, o verdadeiro frio de Keshtara, aquele que mordia os pulmões e tornava cada respiração uma promessa, esse havia se tornado uma ideia.

Fora levado ao Templo havia cento e vinte anos. Tinha trinta anos-padrão, mas era uma criança aos olhos dos seus, pequeno de corpo, lento em certas compreensões, ainda preso à idade física e mental que os humanos associariam a oito anos. O Conselho da época o recebera como recebia todos os younglings raros: com reverência, cautela e a certeza tranquila de que a Ordem saberia moldar aquilo que a Força entregava.

Tarla acreditara nisso por muito tempo.

Ainda acreditava, na maioria dos dias.

Ao atravessar os corredores altos do Templo, seu manto claro roçou o piso polido sem pressa. Ele era alto mesmo entre espécies de constituição alongada, um metro e noventa e quatro de serenidade aparente, ombros amplos sob túnicas de tecido cru e mantos de lã leve, o cabelo castanho-acinzentado solto até abaixo dos ombros. Seus olhos verdes, levemente caídos nos cantos, davam ao rosto uma expressão de mansidão permanente, quase melancólica, que muitos confundiam com indulgência. Não era indulgência. Era apenas o modo como seu rosto havia sido feito. Tarla podia ser firme como pedra de montanha, e Oppo Rancisis, seu antigo Mestre, soubera disso antes de qualquer outro.

Quando as portas da sala do Alto Conselho se abriram diante dele, a luz da manhã entrou por trás das torres de Coruscant como uma lâmina dourada, atravessando o círculo de assentos elevados. Mestre Yoda estava em seu lugar, pequeno e antigo como uma raiz exposta do próprio Templo. Mestre Yaddle, serena e silenciosa, observava a sala com olhos que pareciam guardar mais perguntas do que respostas. Mestre Oppo Rancisis repousava enrolado em sua cadeira, as mãos dobradas diante de si, e, por um instante, Tarla sentiu, como sempre sentia diante dele, a sombra distante de sua juventude. Mestre Tyvokka, imenso, coberto pela presença grave dos wookiees e por uma autoridade que não precisava de palavras, ocupava outro assento. Mestre Dookan, para surpresa de Tarla, estava de pé junto a uma das janelas, o perfil nobre recortado contra a cidade, as mãos unidas às costas, a postura impecável demais para parecer repouso. Havia outros Mestres presentes, mas a atenção de Tarla se prendeu primeiro aos rostos que conhecia melhor, depois ao espaço vazio no centro da câmara.

Não. Não vazio.

Havia alguém ali.

Uma jovem.

Ela era pequena a ponto de parecer quase engolida pela vastidão circular da sala. Teria pouco mais de um metro e meio, talvez um metro e cinquenta e três, pensou Tarla com precisão involuntária, pois a diferença entre eles era tão grande que parecia ter sido desenhada para constranger qualquer tentativa de equilíbrio visual. Tinha os cabelos longos, negros, ondulados e selvagens, caindo ao redor do rosto e dos ombros como se pente algum tivesse conseguido domá-los. Os olhos eram grandes, desproporcionalmente expressivos, de um tom avelã profundo, e havia neles algo que o fez pensar nos Fathiers que vira uma vez em registros de corrida: criaturas belas, velozes, assustadas e prontas para fugir antes mesmo de entenderem a mão que se aproximava. A pele dela era pálida, não com a palidez delicada de quem fora poupada do sol, mas com a palidez dura de quem vivera sob céus hostis, poeira fria e dias sem ternura. Ainda usava roupas de Catadora: camadas escuras, gastas, ajustadas por cintos práticos demais para qualquer estética do Templo, tecido marcado por uso, luvas, fivelas, botas pesadas, uma capa que parecia ter conhecido lama, cinza, metal oxidado e noites ao relento. Havia nela uma beleza selvagem, não domesticada, quase desconfortável de se perceber naquele salão feito de disciplina, linhas limpas e silêncio.

E havia a Força.

Tarla parou antes que qualquer Mestre falasse.

A assinatura dela não se apresentava como as assinaturas costumavam se apresentar. Em younglings, a Força vinha como uma chama instável; em Padawans, como água aprendendo a encontrar leito; em Cavaleiros, como uma nota sustentada por vontade e treino; em Mestres, como uma paisagem. Naquela jovem, porém, a Força parecia chegar através de uma tempestade. Havia uma estática ao redor dela, uma interferência áspera, quase atmosférica, como se o próprio ar do planeta de origem tivesse entrado em sua carne e se recusasse a soltá-la. Não era escuridão. Não era corrupção. Era ruído. Uma brutalidade ambiental ainda colada ao campo vivo dela, mascarando a assinatura como neblina carregada de eletricidade.

Mas, por baixo...

Por baixo, algo brilhava.

Não como uma vela. Não como lâmina. Como uma estrela vista através de nuvens pesadas, distante, imensa, impossível de apagar.

— Mestre Kesyk — disse Yoda, inclinando a cabeça. — Chamado, você foi. Por vir, agradecemos.

Tarla curvou-se primeiro ao Conselho, depois, com a mesma medida de respeito, à jovem no centro da sala.

Ela percebeu.

O corpo dela reagiu antes do rosto. Os ombros se prenderam, os dedos se fecharam em torno da beira da própria capa, o peso mudou quase imperceptivelmente para a perna de trás. O olhar dela passou por ele, depois pela porta, depois pela distância até a janela, depois pelas mãos dele. Rotas de fuga. Ângulos. Altura. Alcance. Pontos vulneráveis. A Força ao redor dela estalou como gelo fino sobre lago escuro.

Tarla não avançou.

— Mestres. — disse ele, com a voz baixa, macia, carregada por um sotaque antigo que sobrevivera aos anos no Templo como sobrevivem certas canções de infância. — Recebi o chamado.

Mestre Dookan voltou o rosto para ele. Havia avaliação em seus olhos, não frieza exatamente, mas a precisão austera de alguém que preferia verdades desconfortáveis a consolos inúteis.

— Mestre Kesyk, esta é Rum'ea Olphen. Chegou há três dias ao Templo, trazida por uma equipe de reconhecimento da Orla Exterior. Vem de Kyrmora.

Tarla buscou o nome na memória e encontrou apenas silêncio.

Kyrmora.

Nenhuma rota lhe veio à mente. Nenhum tratado. Nenhuma batalha. Nenhum registro diplomático lembrado das aulas antigas. Era raro que um planeta habitado escapasse inteiramente ao tecido de mapas que um Jedi de sua idade carregava dentro de si. Raro, mas não impossível. A galáxia era grande o bastante para humilhar qualquer arquivo.

— Não conheço esse mundo — admitiu Tarla.

A jovem não disse nada, mas o queixo dela se ergueu uma fração, como se estivesse acostumada a ouvir aquela ignorância como insulto.

— Poucos conhecem — disse Yaddle, suavemente. — Sua atmosfera interfere com varreduras, comunicações e navegação de aproximação. Tempestades eletromagnéticas constantes. Naves caem com certa frequência, tendo todos os sistemas desligados sem aviso prévio. Solo instável. Ecossistemas agressivos. Colônias quebradas. Gerações isoladas.

— A assinatura dela na Força permaneceu escondida por isso — completou Oppo Rancisis, e a voz de seu antigo Mestre fez Tarla voltar os olhos para ele. — A atmosfera brutal e estática de Kyrmora a mascarou por vinte anos. Sentíamos ecos, às vezes, mas nada que pudesse ser localizado com segurança. Nada que sobrevivesse ao ruído.

Rum'ea virou o rosto apenas o suficiente para olhar Oppo de lado.

— Vocês falam como se eu fosse uma transmissão defeituosa — disse ela.

Foi a primeira vez que Tarla ouviu sua voz. Era mais baixa do que ele esperava, rouca nas bordas, como se tivesse sido usada pouco para pedir e muito para resistir. Não havia reverência nela. Também não havia insolência simples. Havia uma faca escondida sob cada palavra, uma espécie de prontidão amarga.

Tyvokka emitiu um som grave, não exatamente uma risada, mas algo que suavizou, por um instante, a tensão da sala. Dookan, porém, não se moveu.

— Falamos de fenômenos, não de valor pessoal — respondeu ele.

A mão de Rum'ea se fechou com mais força.

Tarla sentiu o movimento antes de vê-lo. Não pela visão. Pela Força. A estática ao redor dela saltou e, por baixo daquilo, veio uma coisa clara, rápida, dolorosa: não ataque, não raiva, mas medo. Medo real. Medo de homem. Não de Dookan especificamente, não dele ainda, nem de Tyvokka por ser grande e talvez sequer pertencente à categoria "homem", mas de uma ameaça geral que a mente dela aprendera a reconhecer antes da razão. A suavidade não a acalmava; a suavidade a fazia travar. Uma voz masculina baixa, educada, gentil podia ser pior do que um grito, porque o corpo dela parecia saber que muitas armadilhas começavam com brandura.

Tarla respirou devagar.

E então aconteceu.

Não houve som. Não houve luz. Nenhuma das cadeiras se moveu, nenhum dos Mestres ergueu a cabeça, nenhum sensor oculto do Templo registraria coisa alguma. Ainda assim, entre um batimento e outro, a Força abriu um caminho direto entre eles.

Não foi como tocar uma mente durante uma técnica ensinada em meditação. Não foi como enviar uma impressão a um aliado em combate. Foi mais antigo, mais íntimo e mais estranho. Uma porta que não deveria existir se abriu sem dobradiças. Tarla sentiu a presença de Rum'ea não diante dele, mas ao lado de seu próprio pensamento, abrupta, desconfiada, luminosa sob ruído e cheia de lâminas erguidas.

Ela arregalou os olhos.

Quem está aí?

O pensamento dela não veio em palavras perfeitamente formadas, mas Tarla o compreendeu como se tivesse sido falado dentro de uma sala pequena. Havia pânico nele e fúria imediata por ter demonstrado pânico.

Tarla manteve o rosto imóvel.

Tarla Kesyk, respondeu, também sem mover os lábios. Não estou invadindo você.

O olhar dela se fixou nele com força. As pupilas pareciam maiores.

Mentira.

Eu também acharia.

Saia.

Não sei como.

Então aprenda. Rápido.

O quase humor da resposta, mesmo envolto em ameaça, teria feito outro homem sorrir. Tarla não sorriu. Ela teria interpretado um sorriso como triunfo, condescendência ou isca. Em vez disso, baixou levemente o olhar, não em submissão teatral, mas para diminuir a pressão direta entre eles.

Yoda observava os dois.

Não. Observava a sala. Observava a respiração de cada um, talvez a maré da Força. Mas não o vínculo. Tarla sentiu isso com uma certeza impossível. O caminho entre ele e Rum'ea estava oculto, não por habilidade dela, nem por disciplina dele, mas por algo maior, por uma camada de silêncio que a própria Força parecia colocar ao redor dos dois. Como neve fresca cobrindo pegadas antes que alguém pudesse lê-las.

Eles sabem? Rum'ea perguntou.

Não.

Como você sabe?

Porque Mestre Yoda teria olhado diferente.

Houve uma pausa mental, cheia de estática.

O pequeno verde?

Tarla quase perdeu a serenidade.

Sim. O pequeno verde.

O pequeno verde macho ou o pequeno verde fêmea?

Macho.

Ah.

— Mestre Kesyk. — disse Oppo, e Tarla ergueu os olhos. — O Conselho debateu longamente a situação de Rum'ea Olphen. Sua idade tornaria a aceitação formal no treinamento Jedi incomum em qualquer circunstância. As condições de sua vida antes da chegada tornam a situação ainda mais delicada. Ela não pode ser tratada como youngling. Não pode ser inserida entre iniciados. Tampouco seria prudente deixá-la sem orientação.

— Faz sentido. — disse Tarla.

Rum'ea não olhou para ele ao ouvir sua voz em alto e bom som, mas a reação dela veio pelo vínculo como uma mão procurando uma parede no escuro.

Sua voz é diferente fora da cabeça.

Isso é ruim?

Ainda não decidi.

Yaddle inclinou-se um pouco para a frente.

— A Força nela é forte. Crua, ferida pelo ambiente, mas forte. Há instinto. Há resistência. Há uma sensibilidade incomum para perigo, intenção e sobrevivência. Mas há medo também. Medo profundo.

Rum'ea olhou para Yaddle com uma espécie de traição contida.

— Eu estou aqui. — disse ela. — Podem falar comigo, não sobre mim.

O silêncio que se seguiu não foi de reprovação. Foi algo mais difícil: reconhecimento.

Yoda assentiu devagar.

— Correta, você está.

Dookan observou a jovem por um instante, e sua expressão mudou quase nada.

— Então falaremos diretamente. O Conselho considera que você deve ser treinada. Não como uma criança do Templo, porque já não é uma. Não como uma prisioneira, porque não o é. Não como uma ameaça, embora sua falta de treinamento possa tornar-se perigosa para você e para outros. A proposta diante de nós é estabelecer um vínculo formal de Mestre e Padawan.

Rum'ea ficou imóvel demais.

O pânico não apareceu no rosto dela de maneira óbvia. Não havia lágrimas, nem súplica, nem recuo dramático. Mas Tarla sentiu quando o corpo dela se transformou em cela. O ar desapareceu primeiro. Depois veio a matemática desesperada: quantos homens havia na sala, quem estava mais perto da porta, quantos passos até a saída, se conseguiria quebrar o nariz de alguém baixo com o joelho, morder uma mão, arranhar olhos, chutar uma articulação. Imagens soltas, não desejos. Planos de sobrevivência. A palavra "Mestre" não era neutra para ela. A palavra "pertencer" era pior.

E então veio, pelo vínculo, afiada e pequena:

Não.

Tarla não respondeu de imediato.

Não, não, não, não.

Do lado de fora, ela apenas respirava, rígida.

Oppo olhou para Tarla com uma gravidade que nele pesava mais do que qualquer ordem.

— Mestre Kesyk, desejamos que aceite Rum'ea Olphen como sua Padawan.

A sala pareceu distanciar-se.

Setenta anos.

O número não passou por Tarla como cálculo; passou como rosto. Um menino de quatorze anos, mãos pequenas tentando parecer firmes ao ajustar o sabre no cinto, trança de Padawan presa com cuidado excessivo, sorriso contido de quem queria que o Mestre visse coragem e não expectativa. Kairn. A missão. A chuva ácida naquele mundo sem importância. O erro de leitura. Coragem demais. Compaixão demais. Vontade de salvar demais. Três segundos de atraso. O corpo leve demais em seus braços. Catorze anos. Um Padawan que confiara nele para voltar. Oito vidas salvas em troca da dele.

Tarla não aceitara outro desde então.

O Conselho soubera não pedir. Oppo soubera não pedir. Yoda, que raramente aceitava a palavra "nunca" sem examiná-la por todos os lados, deixara o silêncio permanecer. Cavaleiros vieram e foram. Iniciados cresceram. Guerras pequenas nasceram, consumiram sistemas e foram registradas em arquivos. E Tarla ensinara em salas, aconselhara missões, negociara rendições, curara medos, enterrara amigos, mas nunca mais caminhara com uma trança de Padawan ao seu lado.

Rum'ea o fitou.

Talvez tivesse sentido algo. Não a lembrança inteira, pois Tarla não a entregou. Mas o peso dela, sim.

Você também tem medo, ela disse.

Tenho.

A resposta pareceu surpreendê-la mais do que qualquer explicação teria feito.

De mim?

Por você.

Isso é uma frase bonita para dizer que não confia em mim.

Não. É uma frase simples para dizer que lembro o que é perder alguém que estava sob meus cuidados.

A estática dela recuou uma polegada invisível, não por confiança, mas por desorientação.

Tyvokka falou pela primeira vez em uma sequência grave de shyriiwook, profunda o suficiente para vibrar no peito de Tarla. O tradutor da cadeira não era necessário para quem o compreendia, mas a cadência da língua pareceu preencher a sala com casca de árvore, vento e distância.

— Mestre Tyvokka lembra — traduziu Yaddle em voz baixa, embora muitos ali não precisassem — que pares de Mestre e Padawan entre sexos opostos não são impossíveis, mas exigem discernimento, sobretudo em casos de idade incomum, trauma e adaptação tardia.

Rum'ea ouviu aquilo, e o pânico se tornou mais gelado.

O rosto dela não mudou, mas a mente gritou:

Não. Não com um homem. Não vou dormir onde ele possa entrar. Não vou ficar de costas. Não vou deixar que ele toque em mim. Eu arranco sangue se ele tentar.

Tarla baixou as mãos lentamente, mantendo-as visíveis, dedos relaxados, palmas sem ameaça. Não olhou para o Conselho ao responder; olhou para ela, mas não direto demais.

— Antes que eu responda, há algo que Rum'ea Olphen deve ouvir.

Dookan ergueu ligeiramente uma sobrancelha.

— Prossiga.

Tarla respirou uma vez. A lembrança de Keshtara lhe veio de súbito, inesperada e clara: o lago sob três luas, sua mãe falando das Luzes Dançantes, as histórias dos keshtaret que entregavam o coração uma única vez na vida, não por voto moral, não por proibição, mas porque a própria espécie parecia reconhecer o amor romântico como um alinhamento raro, absoluto, nascido apenas sob o céu natal, quando as luzes rosa, douradas e verdes cruzavam o gelo e duas almas se escolhiam sem retorno. Um costume? Uma biologia? Uma espiritualidade? Para os de fora, talvez tudo isso parecesse superstição. Para Tarla, era apenas verdade herdada.

— Entre meu povo — disse ele, devagar — vínculos românticos não se formam como se formam entre muitas espécies da República. Os keshtaret amam dessa maneira uma única vez. Desejam apenas uma única vez. E apenas sob as Luzes Dançantes de Keshtara. Não voltei ao meu planeta desde que fui trazido ao Templo, há cento e vinte anos.

Rum'ea estreitou os olhos.

O Conselho permaneceu em silêncio.

— Isso não significa que sejamos incapazes de ternura. — continuou Tarla. — Ou cuidado. Ou afeto. Ou lealdade. Significa apenas que não há, em mim, a possibilidade que talvez a preocupe. Não por disciplina. Não por virtude. Por natureza.

Você está dizendo isso para eles ou para mim? ela perguntou.

Para você. Eles já sabem.

Em voz alta?

Para que não pareça segredo.

Ela não respondeu. Mas a mente dela parou de correr por meio segundo.

Yoda apoiou as mãos no cajado.

— Verdadeiro é o que diz. Conhecida do Conselho, a natureza dos keshtaret é.

Dookan, sempre preciso, acrescentou:

— Ainda assim, Mestre Kesyk, a ausência de risco romântico não elimina as demais dificuldades. Rum'ea não confia na Ordem. Não confia em hierarquias. Sua relação com a autoridade é, pelo que observamos, combativa.

— A autoridade me encontrou tarde demais para fingir que é sagrada. — disse Rum'ea.

Yaddle não desviou o olhar dela.

— Talvez isso a proteja de algumas ilusões.

A frase pousou na sala com uma delicadeza inesperada. Mesmo Dookan pareceu considerá-la sem refutar.

Tarla deu um passo — apenas um — e parou antes que a distância se tornasse ameaça. Rum'ea percebeu a medida. Ele soube que ela percebeu porque o olhar dela caiu brevemente para os pés dele, depois para o espaço que ainda havia entre ambos.

— Rum'ea Olphen. — disse ele em voz alta. — Se o Conselho me pedir que a aceite, eu aceitarei apenas se você compreender uma coisa. Ser minha Padawan não significará que me pertence. Não significará que deve abandonar sua vontade na minha mão. Não significará que sua obediência vale mais do que sua consciência. Haverá disciplina. Haverá regras. Haverá treinamento, estudo, silêncio quando o silêncio for necessário e resposta quando a resposta for exigida. Mas eu não serei seu dono.

A palavra dono fez algo se romper dentro dela.

Não para fora. Para dentro.

A Força sob a estática brilhou, e, por um instante, Tarla viu a estrela sem nuvens. Era feroz. Bela. Faminta de céu.

Todos dizem isso de algum jeito, ela murmurou no vínculo. Ninguém usa essa palavra, mas todos querem ser.

Eu não quero.

Porque é Jedi?

Porque já enterrei uma criança que confiou em mim. Porque tive um Mestre que me ensinou que guiar não é possuir. Porque minha mãe ainda me escreve toda semana, embora eu não veja o rosto dela há cento e vinte anos. Porque meu pai me conta sobre lagos que talvez eu nunca toque. Porque minha irmã me chama de irmão em cartas, mesmo sem nunca ter ouvido minha voz fora de uma gravação. Nada que importa de verdade para mim nasceu de posse.

Rum'ea ficou em silêncio.

Pela primeira vez desde que ele entrara, ela pareceu não encontrar resposta pronta.

Oppo Rancisis observava Tarla com uma expressão que teria parecido neutra a qualquer outro. Tarla, porém, conhecia seu antigo Mestre. Havia uma tristeza branda ali e orgulho também, ambos escondidos sob o controle impecável de décadas.

— Rum'ea... — disse Oppo. — O Conselho não ignora sua resistência. Nem sua idade. Nem a violência do mundo de onde veio. Se houver treinamento, ele exigirá consentimento e adaptação. Mas a Força a trouxe ao Templo, e sua presença nela não é pequena. Sem instrução, o que a protegeu em Kyrmora pode feri-la em outros mundos.

— E se eu disser não? — perguntou ela.

Yoda respondeu antes dos outros.

— Forçada, não será.

Rum'ea o encarou, procurando mentira.

— Vocês me deixariam ir?

A pergunta era simples demais para ser simples. Havia nela ruas sem nome, noites escondidas, fome, perseguição, talvez anos aprendendo que portas abertas eram apenas outra forma de armadilha. O Conselho inteiro sentiu a densidade daquilo, embora não o vínculo.

— Ir, sim. — disse Yoda. — Mas, sem ajuda, não desejaríamos que fosse. Caminhos, ofereceríamos. Escolha, sua seria.

Rum'ea respirou pelo nariz. A mão direita dela relaxou, depois se fechou de novo, como se relaxar fosse descuido.

Eles mentem? ela perguntou a Tarla.

Ele poderia ter dito não. Poderia ter escolhido a resposta devota, institucional, esperada. Mas o vínculo entre eles era novo demais e antigo demais para sobreviver a uma mentira inaugural.

Eles acreditam no que dizem.

Não foi isso que eu perguntei.

Eu sei.

Os olhos dela se fixaram nele.

Você mente?

Às vezes.

A surpresa dela veio como um clarão.

Agora?

Não.

O canto da boca de Rum'ea quase se moveu. Quase. Não chegou a ser sorriso. Talvez apenas o corpo dela lembrando, de modo remoto, que expressões assim existiam.

Dookan deu um passo para longe da janela.

— Mestre Kesyk, sua resposta?

Tarla olhou para Oppo.

Por um instante, o Alto Conselho desapareceu, e ele voltou a ser um Padawan diante do Mestre serpentino que o havia ensinado a pensar antes de erguer o sabre, a escutar antes de interpretar, a desconfiar do medo quando ele se vestia de prudência. Oppo nada disse. Não precisava. O passado entre eles era longo o bastante para conter a pergunta e a despedida.

Tarla voltou-se para Rum'ea.

A jovem de Kyrmora parecia pequena no centro do Conselho, mas não frágil. Nada nela era frágil. Ela era sobrevivente de um mundo que escondera sua estrela sob estática, e talvez fosse por isso que a Força a havia trazido ali: não para ser polida até perder as arestas, mas para aprender que lâmina alguma precisava cortar tudo que se aproximava.

Eu não vou tocar em você sem pedir, disse ele pelo vínculo. Não vou ficar atrás de você, se puder evitar. Não vou fechar portas sem avisar. Não vou exigir que confie em mim antes que eu mereça. E, se algum dia minha voz suave a fizer procurar uma saída, eu esperarei até que encontre uma.

A resposta dela demorou.

Isso é ridículo.

Provavelmente.

Você é alto demais.

Já me disseram.

Eu posso chutar seu joelho antes de você sacar o sabre.

Eu acredito.

E morder.

Também acredito.

E arrancar seus olhos se você entrar no meu quarto.

Não entrarei.

Rum'ea sustentou o olhar dele por um tempo longo. Depois, bem devagar, desviou-se para o Conselho.

— Eu não aceito coleira. — disse ela em voz alta, antes de Tarla responder.

Yaddle inclinou a cabeça.

— Ninguém lhe ofereceu uma.

Rum'ea olhou para Tarla de novo.

— E se eu aceitar... Eu posso mudar de ideia.

Tarla assentiu.

— Pode.

— E se eu fugir?

— Eu a encontrarei se estiver em perigo. Não a caçarei por orgulho ferido.

— E se eu quebrar alguma coisa?

— Dependerá do que quebrou.

Dessa vez, o quase sorriso dela foi um pouco mais real, mas desapareceu depressa, como uma criatura selvagem recuando para dentro da mata.

Yoda observou os dois por um momento longo demais e, ainda assim, não viu o que havia entre eles. Tarla sentiu a proteção da Força ao redor do vínculo como sentia, em lembranças antigas, a cortina luminosa de Keshtara escondendo estrelas menores sob seu brilho. O Conselho via uma escolha difícil, uma jovem ferida, um Mestre relutante e a possibilidade de treinamento. Não via a ponte mental. Não via a estrela tocando o gelo. Não via a primeira linha de uma profecia que nenhum deles, naquele momento, saberia nomear.

— Então, Mestre Kesyk? — perguntou Yoda.

Tarla curvou a cabeça.

— Aceito Rum'ea Olphen como minha Padawan, se ela aceitar caminhar comigo.

A palavra Padawan não pareceu suavizar a sala. Tornou-a mais pesada. Mais verdadeira.

Rum'ea permaneceu parada, pequena, pálida, envolta em roupas de Catadora que pareciam uma afronta viva ao mármore impecável do Templo. Seus olhos grandes passaram por Yoda, Yaddle, Dookan, Tyvokka, Oppo, pelos outros Mestres, pela porta, pelas janelas, pelas mãos de Tarla, pelo espaço entre eles. Ela ainda estava pronta para fugir. Ainda estava pronta para ferir. Ainda estava pronta para não sobreviver ao que todos chamavam de salvação.

Mas a estrela sob a estática brilhou outra vez.

Se você mentiu, ela disse apenas para ele, eu vou saber.

Espero que saiba.

E se eu odiar você?

Então treinaremos com honestidade.

Rum'ea ergueu o queixo.

- Eu aceito. - Disse ela em voz alta.

Nenhum sino tocou. Nenhuma visão tomou a sala. Nenhuma das três luas de Keshtara apareceu no céu de Coruscant, e nenhuma Luz Dançante atravessou o Conselho em rosa, dourado e verde. Ainda assim, para Tarla, houve uma mudança quase imperceptível na Força, como o primeiro estalo de um lago congelado antes da primavera, como se algo antigo tivesse ouvido uma palavra esperada havia muito tempo.

Oppo Rancisis fechou os olhos por um breve instante.

Yaddle sorriu com tristeza.

Dookan observou em silêncio, talvez já avaliando consequências que ninguém mais desejava nomear.

Yoda apoiou as duas mãos no cajado e inclinou a cabeça, grave.

- Então decidido está. Mestre Tarla Kesyk, Padawan Rum'ea Olphen. Com ambos, que a Força esteja.

Rum'ea estremeceu ao ouvir o título antes do nome, e Tarla sentiu a onda de desconforto atravessar o vínculo. Não corrigiu o Conselho. Não ali. Haveria tempo para descobrir quais palavras ela suportava, quais a feriam, quais poderiam um dia se tornar abrigo.

Quando as portas se abriram para que saíssem, Tarla deu passagem primeiro a ela.

Rum'ea não se moveu de imediato.

Você vai andar atrás de mim?

Posso andar ao seu lado.

Ela olhou para a largura da porta, calculou o espaço entre o corpo dele e a parede, depois franziu a testa.

Você ocupa metade do corredor.

Tentarei ocupar menos.

Isso também é ridículo.

Provavelmente.

Ela passou por ele com cautela, sem lhe dar as costas por completo até o último instante possível. Tarla esperou. Quando entrou no corredor ao lado dela, manteve distância suficiente para que a respiração dela não mudasse. O Templo se estendia à frente, luminoso, antigo e cheio de regras que Rum'ea ainda não conhecia e talvez jamais aceitasse sem luta.

A jovem olhou de lado para ele, os cabelos negros caindo sobre o rosto, avelã e desconfiança sob cílios escuros.

- Eu tenho que usar essas roupas marrons?

Tarla considerou a pergunta com a solenidade de uma negociação diplomática.

- Eventualmente.

Ela fez uma careta.

Eu odeio marrom.

Há tons piores.

Isso era para ajudar?

Ainda estou decidindo.

Pela primeira vez, o sorriso dela apareceu de verdade, pequeno, rápido e perigoso como uma faísca no escuro. Durou menos de um segundo. Mas Tarla viu.

E, sob toda a estática que Kyrmora ainda deixara nela, a estrela respondeu.

Capítulo 3

O quarto designado a Rum'ea Olphen era limpo demais.

Essa foi a primeira coisa que ela pensou ao atravessar a soleira naquela manhã, alguns passos à frente de Mestre Kesyk, ainda não acostumada ao modo como as portas do Templo se abriam sem rangido, sem resistência e sem exigir força nos ombros. Estranho. Em Kyrmora, portas boas eram as que emperravam, porque ao menos avisavam quando alguém tentava entrar. Portas silenciosas pertenciam a lugares onde pessoas desapareciam misteriosamente. Ali, porém, tudo parecia feito para não ferir: o piso aquecido sob as botas gastas, a janela alta com vista para as torres de Coruscant, a cama estreita coberta por lençóis claros e leves, o armário embutido esperando, vazio, e a bacia de água refletindo a luz. Sobre a bancada baixa, uma escova, uma toalha e um pequeno espelho oval, apoiado em uma moldura de metal fosco, pareciam esperar em silêncio.

Limpo demais. Calmo demais. Aberto demais.

Rum'ea parou no meio do quarto como se tivesse sido colocada dentro de uma armadilha elegante e agora esperasse pelo momento da captura.

Tarla permaneceu do lado de fora. Não atravessou a soleira sem pedir.

Ele usava as mesmas vestes claras do dia anterior — e Rum'ea suspeitava que fossem as mesmas de todos os dias que haviam passado e de todos os que ainda viriam —, camadas de tecido cru presas por uma faixa escura na cintura, o cabelo comprido caindo sobre os ombros e alguns fios prateados tocando-lhe a barba curta, também já levemente prateada. A altura dele continuava sendo um absurdo, mesmo depois de uma noite inteira tentando convencer a si mesma de que não era. Visto dentro daquele quarto pequeno, parecia ainda maior, como se uma parte da arquitetura tivesse decidido respirar. Uma pilastra, talvez.

Ainda assim, mantinha as mãos visíveis e relaxadas, segurando uma caixa, sem bloquear a saída. Rum'ea percebeu isso de imediato. Percebeu também que ele havia deixado espaço suficiente para que ela passasse por ele se quisesse fugir.

E aquilo a irritou.

Não porque fosse uma ameaça.

Justamente porque não era.

- Posso entrar? — Perguntou ele.

Rum'ea olhou para a janela, para a porta, para o espelho, para as mãos dele, para a própria cama. Depois ergueu o queixo, quase que em desafio.

- O quarto é de vocês.

- Sim. Mas foi dado a você.

- Por vocês.

Tarla aceitou a correção com um leve inclinar da cabeça. A paciência naquele homem, pensou Rum'ea, ou era gigantesca, ou era falsa.

- Então posso entrar no quarto que foi dado a você por nós?

Ela estreitou os olhos.

“Você faz isso de propósito?”

“Faço muitas coisas. Você vai precisar ser mais específica.”

“Falar como se cada palavra tivesse que pedir licença antes de sair da sua boca.”

Pelo vínculo, ela sentiu a resposta dele antes de vê-lo sorrir. Não foi um sorriso grande, nem aberto demais. Foi apenas uma curva suave no canto da boca, algo quente e paciente, que não exigia nada dela.

“Com você, talvez as palavras precisem mesmo pedir licença.”

Rum'ea desviou o rosto depressa, fingindo examinar a bancada. A resposta era estranha.

Ele era estranho.

- Entra logo.

Tarla entrou após um leve aceno de cabeça, mas não fechou a porta. O detalhe passou por ela como uma lâmina sendo guardada na bainha. A porta aberta não a acalmou completamente, mas impediu que seu corpo entrasse em guerra antes que sua mente conseguisse decidir se havia, de fato, uma guerra a travar.

Ele caminhou até a pequena mesa próxima à janela e depositou sobre ela a longa caixa de madeira escura que carregava, já polida pelo tempo. Não era uma caixa do Templo, definitivamente. Não possuía a geometria lisa dos objetos Jedi nem a impessoalidade perfeita das coisas de Coruscant. A madeira tinha veios profundos, avermelhados, e marcas finas talhadas à mão percorriam as bordas. Letras, talvez. Rum'ea sentiu, antes mesmo de perguntar, que aquele objeto havia atravessado muitos anos com ele.

- A trança de Padawan será feita atrás da orelha direita. — Começou Tarla. — É a posição tradicional. As linhagens variam os adornos, mas o lugar permanece quase sempre o mesmo. A menos que tenha alguma objeção ao lado direito.

Rum'ea levou a mão automaticamente ao cabelo. Os fios negros, longos e ondulados, ainda estavam soltos, caindo sobre os ombros e pelas costas como uma cortina pesada, cheios. Ela jamais os cortara por escolha estética. Ou por qualquer escolha. Em Kyrmora, cabelo comprido podia ser escondido sob um capuz, trançado para prender pequenas ferramentas, usado como isolamento contra o frio seco ou simplesmente deixado crescer, porque pequenos objetos podiam ser escondidos ali e, por isso mesmo, "trabalhadores" — porque, aparentemente, a palavra "escravos" era forte demais para ouvidos republicanos sensíveis e inconveniente demais para quem estava no topo daquela cadeia — de cabelos curtos eram mais confiáveis. Ainda assim, a ideia de alguém tocá-lo a fez endurecer, porque era assim que se arrastava gente pequena demais para becos escuros demais.

Tarla percebeu.

Claro que percebeu.

Ele sempre percebia antes que ela decidisse se odiava isso ou não, afinal, estava dentro da cabeça dela.

- Não preciso fazer se você preferir fazer sozinha. — Disse ele, tranquilo. — Posso apenas orientar.

Rum'ea encontrou os olhos dele no espelho. Ver Tarla refletido era diferente de encará-lo diretamente. No espelho, ele parecia um pouco menos imediato. Ainda enorme, ainda claro, ainda absurdamente tranquilo, mas contido por uma moldura. Ela se agarrou a isso.

- Eu não sei fazer trança de Jedi.

- De Padawan.

- E Padawan não é Jedi?

- É. Mas esta trança é específica de Padawans.

- Que seja. Não sei fazer trança nem de Jedi nem de Padawan.

- Ninguém nasce sabendo.

Rum'ea parou por alguns segundos, pensando.

- Eu sei fazer nós que não arrebentam com vento.

Tarla também parou por um instante e, em seguida, fez um pequeno aceno com a cabeça, como quem considera um ponto válido.

- Isso pode ser mais útil do que muitas tranças de Jedi.

Ela ficou quieta, e os olhos avelã baixaram.

Pelo vínculo, a pergunta saiu mais baixa do que teria saído em voz alta.

“... Você vai puxar?”

A expressão dele não mudou, mas alguma coisa se enterneceu ao redor da presença dele na Força, não como pena, e sim como cuidado se dobrando para não ocupar espaço demais - gentil.

“Não.”

Rum'ea ergueu os olhos de novo, em desafio.

“Bom. Porque se puxar, eu vou bater em você.”

“Imagino que sim.”

“Com força.”

“Também imagino que sim.”

“E posso morder.”

“Você já me avisou disso ontem.”

“Estou avisando de novo.”

“Aviso recebido novamente, então.”

Rum'ea sentou-se no banco diante do espelho como se estivesse aceitando um interrogatório, não uma cerimônia. As botas permaneceram firmes no chão, os joelhos prontos para o impulso, a coluna rígida sob as camadas escuras das roupas de Catadora. Tarla não foi imediatamente para trás dela. Primeiro, abriu a caixa, e Rum'ea espiou dentro com mais curiosidade do que admitiria.

Havia muitos adereços ali. Muitos. Pequenas contas metálicas, fios coloridos enrolados em círculos, fragmentos de madeira polida, argolas estreitas, peças minúsculas de osso, cristais opacos, tiras de couro fino, contas de pedra, marcadores de cobre, pequenas lâminas cerimoniais sem corte e objetos tão delicados que Rum'ea não conseguia imaginar como sobreviveriam presos ao cabelo de alguém que corria, lutava, dormia em chão duro e entrava em ruínas abandonadas.

Ela piscou uma vez, confusa.

Depois, outra.

“Tudo isso vai na trança?”

Tarla olhou para a caixa, depois para o reflexo dela, e dessa vez o sorriso veio um pouco mais nítido.

“Não.”

Rum'ea continuou encarando os adereços como se eles pudessem atacar.

“Tem certeza?”

“Absoluta. Se eu colocasse todos, a trança sozinha pesaria mais de um quilo e poderia ser usada como arma. Também suspeito que tilintaria demais em missões que exigem furtividade.”

“Então por que você tem tantos?”

“Porque Jedi gostam de fingir que são desapegados enquanto acumulam objetos cheios de significado emocional.”

Rum'ea soltou um riso curto antes de conseguir impedir.

O som pareceu deslocado dentro da serenidade dos aposentos. Não desagradável, não exatamente. Apenas raro. Tarla ergueu os olhos para o reflexo dela no espelho, parecendo se divertir.

"Você é Mestre e acabou de insultar toda a Ordem Jedi."

"Sim. Mas o fiz com precisão histórica."

"Então você é o que chamam de 'Jedi cinzento'?"

"Creio que o termo preferível é 'maverick'."

"Que seja. É?"

"Depende do meu humor quando acordo."

Tarla escolheu uma escova simples e a ergueu para que ela visse pelo espelho.

- Posso?

Rum'ea olhou para a escova. Depois para a mão dele. A mão era grande, com dedos longos, marcada por pequenas cicatrizes pálidas, unhas curtas e limpas. Mãos de Jedi. E, ainda assim, mãos de homem. Mãos que poderiam prender o pulso dela inteiro sem esforço. O pescoço. O corpo quis travar. A mente procurou saída. A Força ao redor dela estalou com interferência, a estática brutal que ainda se agarrava à assinatura dela como tempestade grudada à pele.

Mas Tarla não se moveu.

Ele apenas esperou.

Enorme, sim. Ainda homem. Ainda forte. Ainda definitivamente capaz de subjugá-la com facilidade risível.

Mas esperou.

"Eu vou ficar olhando", disse ela pelo vínculo.

"Eu esperava que ficasse."

"Não olhe para o meu pescoço."

"Olharei apenas para a trança."

"Se eu mandar parar, você para."

"Antes de terminar a palavra."

"Porque eu tenho uma adaga."

"Eu sei."

"E não vou ter pena de usar em você."

"Não esperava que tivesse."

Ela engoliu em seco, odiando que a garganta tivesse denunciado qualquer coisa.

- ... Pode.

Tarla aproximou-se devagar, parando atrás dela, mas não perto o bastante para que suas vestes tocassem suas costas. Pelo espelho, Rum'ea viu que ele se inclinava apenas o necessário, a atenção fixa no lado direito da cabeça dela. Quando a escova tocou os fios pela primeira vez, ela prendeu a respiração.

Não houve puxão.

A escova atravessou uma mecha com uma delicadeza quase irritante. Tarla começou pelas pontas, desfazendo pequenos nós antes de subir, paciente, como se tivesse todo o tempo de Coruscant à disposição. Rum'ea observava cada movimento pelo espelho, procurando descuido, pressa, posse. Não encontrou. Os dedos dele seguravam o cabelo como se aquilo fosse algo emprestado e frágil, não porque ela fosse frágil, mas porque a permissão era.

O silêncio se alongou, quebrado apenas pelas cerdas passando pelos fios.

Fora do quarto, o Templo seguia em sua ordem habitual. Passos distantes, portas suaves, vozes baixas, o rumor quase imperceptível de naves muito longe, na cidade. Dentro, havia apenas a respiração dos dois, o som da escova e aquela ponte mental invisível que nenhum Mestre do Alto Conselho notara.

“Você já fez isso antes,” ela pensou.

A mão de Tarla hesitou por uma fração quase imperceptível.

“Sim.”

A resposta veio com uma sombra junto. Não uma imagem inteira. Tarla era cuidadoso demais para deixar memórias escaparem sem intenção. Mas Rum'ea sentiu idade, chuva, perda e uma trança menor entre dedos que ainda não tinham tantas cicatrizes. Mais jovens. Com menos perdas.

“No Padawan que morreu.”

A escova parou.

As mãos também.

Rum'ea se arrependeu no mesmo instante, mas o arrependimento nela parecia irritação, então foi isso que a superfície mostrou.

"Desculpa", pensou, rígida. "Não era pergunta. Eu só... vi. Na sala redonda. Quando isso abriu."

Tarla retomou o movimento, mais devagar, não por hesitação, mas por escolha.

"Às vezes, o vínculo deixa passar o peso antes da história."

"Eu não queria pegar."

"Eu sei."

"Ele tinha quantos anos?"

"Quatorze."

"Ele era pequeno."

"Era."

Rum'ea olhou para o próprio reflexo. A dureza do rosto dela pareceu deslocada por um instante. Em Kyrmora, crianças de quatorze anos já roubavam peças de motores, carregavam lâminas, mentiam por comida, escondiam febre e aprendiam que chorar custava caro, embora não mais caro do que voltar com peças inúteis. Mas ainda eram pequenas quando dormiam. Disso ela lembrava com clareza. O mundo podia chamar de adultos; o sono desmentia.

"Você não aceitou outro por causa dele?"

"Por causa de mim depois dele", respondeu Tarla.

Aquilo a fez erguer os olhos para o reflexo dele.

"Qual é a diferença?"

"Se eu dissesse que foi apenas por causa dele, pareceria devoção. Parte foi medo. Parte foi culpa. Parte foi arrogância disfarçada de prudência."

Rum'ea franziu o cenho.

"Jedi admitem essas coisas?"

"Alguns. Mas apenas em quartos fechados. Para Padawans que podem mordê-los se mentirem."

Dessa vez ela soltou ar pelo nariz, uma quase risada silenciosa. Tarla não comentou. Apenas separou uma mecha fina atrás da orelha direita, medindo a espessura com os dedos. O toque próximo à pele fez Rum'ea ficar imóvel outra vez, mas ele não tocou sua orelha, não roçou seu pescoço, não deixou os dedos se demorarem onde não precisavam. Dividiu a mecha em três partes praticamente iguais com uma precisão tranquila.

- Vou começar. - Ele avisou.

- Eu estou vendo.

- Ainda assim.

Rum'ea não respondeu, mas também não mandou parar. A trança começou apertada o suficiente para manter a forma, solta o bastante para não doer. Tarla cruzou a primeira mecha sobre a segunda, depois a terceira, criando o início de uma linha escura e ordenada no meio do cabelo selvagem. Rum'ea observou aquilo com estranhamento. A trança era pequena, quase discreta, mas parecia alterar tudo. Não mudava suas roupas, claro, nem apagava Kyrmora de suas botas, tampouco limpava a poeira antiga das unhas levemente crescidas. Ainda assim, era uma marca. Um anúncio. Uma frase que o Templo inteiro saberia ler antes mesmo de perguntar seu nome.

Padawan.

Ela ainda não sabia se gostava da palavra. Não sabia se a odiava. Talvez ambos.

Tarla pegou o primeiro adereço: um fio dourado, muito fino, flexível como luz transformada em linha. Ele o ergueu junto ao reflexo dela para mostrar.

"Esse é o quê?"

"Um fio dourado."

A irritação ondulou na mente dela.

"Eu estou vendo que é um fio e que é dourado."

"Então sua observação está correta."

Ela estreitou os olhos no espelho.

"Você está sendo engraçado?"

"Estou tentando."

"Não faça isso enquanto segura meu cabelo. Você é péssimo."

"Anotado."

Tarla passou o fio dourado junto às mechas e começou a trançá-lo junto ao cabelo negro, de modo que o brilho aparecia e desaparecia entre os fios como um caminho de sol atravessando pedra escura.

O dourado marca início, explicou ele. Nem sempre é usado. Em algumas linhagens, como a minha, aparece quando o treinamento começa fora da idade comum. Não como vergonha. Nunca como vergonha. Como reconhecimento. Um começo tardio carrega peso próprio. Você não chegou vazia. Chegou com vinte anos de mundo, medo, força, escolhas, feridas e instinto. A trança precisa saber disso.

Rum'ea olhou para o fio dourado pelo espelho.

Ele não parecia acusá-la de atraso. Parecia insistir que o atraso era também história.

"E se eu não quiser que ela saiba?"

"Então ela saberá em silêncio."

"Que coisa de Jedi."

"Coisa de cabelo. Ele guarda tudo mesmo quando ninguém pergunta."

Ela abaixou os olhos, mas continuou acompanhando o movimento. O fio dourado mergulhava e retornava, às vezes brilhante, às vezes oculto, como se a trança respirasse.

Tarla então escolheu uma pequena conta de prata. Era simples, arredondada, gasta nas bordas por anos de uso. Não tinha o brilho de objeto novo; tinha o brilho macio de coisa tocada muitas vezes. Batida. Segurada. Roçada. Gasta, mas bem tratada. Antes de colocá-la, ele a segurou na palma da mão por um momento para mostrar.

Rum'ea percebeu.

“Essa é velha.”

“Sim.”

“De onde vem?”

“Da minha trança de Padawan.”

Ela sentiu a memória dele se aproximar, mas não invadir. Um menino Keshtari, pequeno para seus trinta anos padrão, olhando para uma sala muito grande. Um Mestre serpentino de presença paciente, mas rígida. Uma trança recém-feita. O peso de não entender ainda o tamanho da galáxia. A saudade de três luas que ele não veria por mais de um século.

“Por que está me dando?”

Tarla encaixou a conta de prata na trança com cuidado, prendendo-a onde o fio dourado já se misturava aos cabelos.

“Emprestando. E porque meu treinamento começou com perda também. Não da mesma forma que o seu, claro. Nenhuma perda é igual. Mas houve separação. Houve um planeta deixado para trás antes que eu pudesse compreendê-lo. Houve uma família transformada em cartas. Quando meu Mestre colocou esta conta em mim, disse que prata lembrava reflexo, não luz própria. Luz recebida, devolvida, transformada. Eu não entendi na época.”

“E agora?”

“Agora acredito que entendo um pouco mais.”

Rum'ea observou a pequena conta de prata junto ao cabelo escuro e ao fio dourado. Era bonita. Bonita de um jeito discreto, quase perigoso, porque coisas discretas conseguiam entrar onde coisas grandiosas eram rejeitadas.

"Você não quer guardar?"

"Já guardei por muitos anos."

"Isso não responde."

"Responde, sim. Só não da forma que você queria."

Ela não gostou de admitir que aquilo a fez sentir alguma coisa. Então não admitiu.

"Você teve uma também, então?"

"Tive."

"Pesada?"

"Um pouco."

"Menos de um quilo?"

"Bem menos."

"O que acontece com a trança depois?"

"O Mestre corta. Ou o Cavaleiro."

"Então um Padawan pode ser Padawan de um Cavaleiro?"

"Sim. Quando o Padawan se torna Cavaleiro, o Cavaleiro se torna Mestre."

"Que bagunça."

"Nem tanto. Faz sentido, se analisado com atenção."

"Você disse 'corta'. Isso é literal ou é mais linguagem Jedi simbólica?"

"Literal."

"Com uma tesoura?"

"Não."

"Adaga cerimonial feita de metais nobres que brilham bonito sob as luzes de um salão requintado?"

"Com o sabre."

O vínculo ficou silencioso por longos segundos.

"Você vai cortar meu cabelo com um sabre de luz?!"

"Quando for elevada a Cavaleira, sim."

"Isso é preocupante."

"Não precisa se preocupar. Até hoje, nunca cortei nenhuma orelha junto."

"'Até hoje'?!"

"Não sou arrogante o suficiente para fingir que sei o que acontecerá no futuro."

"Péssimo."

Em seguida, Tarla escolheu um pequeno adereço de madeira. Era estreito, alongado, polido, com uma coloração que parecia indecisa entre castanho, verde profundo e cinza. Quando a luz da janela tocava sua superfície, o tom mudava ligeiramente, como se a madeira ainda lembrasse seiva, estação, tensão e sombra. Rum'ea inclinou a cabeça quase sem perceber.

"Esse parece... vivo."

"Um pouco."

"Madeira viva?"

"Não mais. Mas veio de uma árvore que reage ao frio de Keshtara, chamada Kyyti. A cor muda conforme a tensão da fibra, a umidade e o calor da mão. Toda trança de Padawan precisa de algo de madeira."

"Que estranho. Por que precisa de madeira?"

Tarla inseriu o adereço com uma delicadeza cerimonial, prendendo-o abaixo da conta de prata.

"Porque madeira muda sem deixar de ser madeira. Ela tensiona, curva, escurece, clareia, guarda marcas de corte, de arranhões, de batidas. Mesmo depois, lembra o que foi. Para um Padawan, isso importa. Treinamento não é pedra. Pelo menos, não deveria ser."

Rum'ea encarou o pedaço de madeira.

"Em Kyrmora, madeira boa era rara."

"Então justamente por ser rara, talvez pertença à sua trança."

A resposta pareceu ficar entre eles como uma brasa pequena. Rum'ea pensou nas coisas raras de Kyrmora: água limpa, comida, sono seguro, abrigo, mãos que não tomavam, silêncio que não antecedia violência. Nenhuma delas caberia numa trança. Nenhuma delas deveria ser rara.

Tarla voltou à caixa e retirou um fragmento pequeno de osso claro, talhado em forma irregular, quase como um dente achatado ou lasca de costela polida pelo tempo. Havia inscrições minúsculas gravadas na superfície, tão finas que Rum'ea só as viu porque o reflexo captou a luz de lado, criando pequenas sombras. Aquele parecia muito antigo, embora não fosse quebrado. Antigo no sentido de ter sido guardado por mãos cuidadosas.

O sangue do rosto dela desapareceu.

"Isso é osso."

"Sim."

"... De quê?"

"De mörën, um animal das florestas de Keshtara. Morreu antes de eu nascer. Minha família guardava fragmentos para cerimônias de infância."

Ela não piscou.

"Você ganhou isso quando?"

"Quando eu tinha quatro anos keshtari."

A mão dele ficou imóvel por um instante, o fragmento entre os dedos, e os olhos verdes pareceram se perder em lembranças.

"Foi após a Vigília. Em Keshtara, crianças entre quatro e sete anos vão para as cavernas durante o meio do inverno. Não sozinhas no caminho, mas sozinhas no silêncio. Os adultos nos levam até a entrada e esperam fora. Lá dentro, ficamos sem falar. Ouvimos o planeta. Ouvimos a água sob o gelo, o vento nos túneis, as rachaduras da pedra, nossa própria respiração. A ideia é aprender que o mundo fala antes das pessoas, e que nós também fazemos barulho demais por dentro."

Rum'ea ficou muito quieta.

"Vocês deixam crianças sozinhas em cavernas no inverno?"

"Sim."

"E vocês acham isso normal?"

"Vocês em Kyrmora deixam crianças fazerem coisas perigosas?"

Ela quase respondeu com agressividade, mas a resposta morreu antes de virar forma porque a respsota era óbvia. Sim. Claro que sim. Mas em Kyrmora ninguém chamava aquilo de cerimônia porque não havia cerimônia alguma. Chamavam de necessidade, quando chamavam de alguma coisa.

"Alguém fica perto?", ela finalmente perguntou.

"Do lado de fora. Sempre."

"E se a criança gritar?"

"Entram."

"E se não gritar porque acha que não deixam?"

Tarla olhou para o reflexo dela. Os olhos verdes, levemente caídos nos cantos, estavam muito calmos e muito tristes.

"Então a Vigília e a própria Keshtara falharam com aquela criança."

Rum'ea não desviou o olhar.

Tarla prendeu o fragmento de osso na trança.

"Esse simboliza escuta", disse ele. "Não obediência. Escuta. Há diferença. Escutar o planeta, escutar a Força, escutar o medo sem torná-lo seu senhor, escutar o outro sem entregar a garganta. Escutar a si mesma quando todos ao redor tentarem nomeá-la antes de você."

Rum'ea sentiu a garganta apertar de novo e odiou aquilo com uma força quase cômica.

"O que está escrito?"

Tarla passou o polegar muito levemente pela inscrição antes de soltá-la. O cabelo não puxou.

"A neve não responde a quem grita. Ela espera quem aprende a ouvir."

Ela fez uma careta.

"Keshtaret gostam de falar como se todo mundo tivesse tempo para virar poema?"

Ele soltou o ar pelo nariz, parecendo achar graça.

"Gostamos."

"Isso explica muita coisa."

"Você diz isso porque ainda não conheceu minha mãe."

"Ela é pior?"

"Muito."

"Então sua mãe é perigosa."

"Você não faz ideia..."

Houve algo quente na resposta dele quando falou de Maree. Não a saudade dolorosa do menino arrancado, mas uma afeição antiga, sobrevivente, alimentada por anos de envelopes recebidos e páginas redigidas. Rum'ea sentiu isso pelo vínculo como se visse uma luz atrás de uma porta. Não entrou, embora a curiosidade quisesse. Apenas soube que estava ali.

O próximo adereço era um pequeno círculo prateado, fino como um anel minúsculo, sem pedra, sem inscrição, sem ornamento evidente. Tarla o segurou diante dela, e Rum'ea o analizou.

"Esse é simples demais."

"Paciência costuma parecer simples para quem não está tentando praticá-la."

Rum'ea bufou, sem realmente achar graça.

"Paciência é uma palavra que pessoas confortáveis usam para mandar as outras suportarem coisas ruins sem reclamar."

Tarla não colocou o círculo imediatamente.

"Às vezes, sim."

Ela ergueu os olhos, desconfiada da concordância.

"Mas não é esse o sentido aqui", continuou ele. "Paciência não é submissão. Não é espera vazia. Paciência é força que não se entrega ao primeiro impulso de ferir, fugir ou acreditar. Paciência para observar antes de decidir. Para aprender sem se ajoelhar por dentro. Para dar nome às coisas quando elas tentarem obrigá-la a reagir antes de pensar."

Rum'ea olhou para as próprias mãos apoiadas no colo. Os dedos estavam meio fechados. Ela os abriu devagar, como se aquilo fosse uma afronta ao corpo que respondia por conta própria.

"Só que eu não sou paciente."

"Ainda assim, aqui está. Você. E o círculo."

"Você vai colocar símbolos de coisas que eu não tenho?"

"Às vezes colocamos símbolos de coisas que vamos aprender a reconhecer."

"E se eu não aprender?"

"Então ele continuará na trança, sendo irritante."

Ela soltou uma risada curta, quase inaudível. Pequeno, áspero, surpreendido por si mesmo.

Tarla prendeu o círculo prateado na trança. Ele deslizou por um trecho dos fios e repousou ali, simples e inteiro, refletindo uma linha pálida da janela, seguro pela próxima sobreposição do cabelo.

Por fim, Tarla escolheu um fio azul.

Não era azul brilhante como algumas lâminas Jedi, nem escuro como céu noturno. Era todos ao mesmo tempo, um azul profundo e suave, com um brilho discreto que parecia se mover quando a luz mudava. Ele o passou entre os dedos e, por um instante, Rum'ea sentiu a atenção dele voltar-se não para o adereço, mas para ela. Não para o rosto, não para o corpo, não para as roupas de Catadora, mas para aquilo que ele havia visto no Alto Conselho: a Força nela sob ruído, a estrela sob a atmosfera brutal de Kyrmora.

"Esse é o último?"

"Por hoje, sim."

"'Por hoje'?"

"Tranças de Padawan mudam. Ganham marcas. Perdem marcas. Símbolos de provas superadas, afinidades de estudo, missões. Algumas contam histórias curtas. Algumas contam histórias longas."

"Eu não pedi uma história longa."

"Histórias longas raramente pedem permissão antes de começar."

Ela olhou feio para ele pelo espelho.

"Isso foi muito Jedi."

"Foi um pouco Keshtari também."

"Pior ainda."

Tarla aceitou a crítica com um sorriso quase invisível e começou a atar o fio azul ao final da trança, prendendo-a. O gesto era mais lento do que os outros. Não por dificuldade, mas por significado.

O azul é a Força em você, disse ele. Não a estática. Não a interferência. Não Kyrmora tentando esconder sua assinatura. A Força por baixo. Quando a senti pela primeira vez, ela parecia distante porque havia tempestade demais entre você e o resto do mundo. Mas não era fraca. Era uma estrela vista através de atmosfera hostil. Forte. Luminosa. Ali. Apenas escondida. Não inexistente. Escondida.

Rum'ea parou de respirar por um instante, e ele apertou o nó com cuidado, sem puxar o cabelo.

Este fio ata o fim da trança para lembrar que a interferência não é sua essência. Ela esteve em você porque você sobreviveu onde ninguém deveria ter precisado sobreviver. Mas há algo sob ela. Algo que brilha por conta própria.

Rum'ea encarou o fio azul no espelho e não falou nada, nem em voz alta, nem pelo vínculo.

Tarla retirou as mãos devagar e recuou meio passo antes que ela pudesse precisar pedir distância. A trança repousava atrás da orelha direita, fina, escura, atravessada pelo dourado do começo tardio, pela prata de uma memória antiga, pela madeira mutável, pelo osso inscrito de escuta, pelo pequeno círculo de paciência e pelo azul final que parecia segurar uma estrela em silêncio. Estranho. O resto do cabelo dela continuava solto, indomado, ondulado e negro sobre os ombros, cheio. Vivo. A trança não domesticava Rum'ea. Não a transformava em uma criatura do Templo, em uma Padawan criada sob aquele teto, entre aquelas paredes. Apenas acrescentava a ela uma linha nova, uma promessa estreita, uma marca que não apagava as marcas anteriores.

Rum'ea levantou a mão direita com cautela., e parou antes de tocar.

"Pode tocar", disse Tarla.

"É minha trança."

"Sim."

"Então eu sei que posso."

Mesmo assim, ela não tocou como se soubesse. Os dedos encontraram primeiro o fio dourado, depois a conta de prata. Detiveram-se no osso por mais tempo, onde a unha passou de leve pelas inscrições keshtari que ela não sabia ler, as letras pequenas e retas de um alfabeto estranho. Depois desceu até o fio azul no fim.

- É pesada. - Disse ela, por fim.

- Um pouco.

- Mas menos de um quilo.

- Fui comedido.

Ela olhou para ele pelo espelho, e havia algo novo no rosto dela. Não confiança inteira, não gratidão exposta, não paz. Nada tão simples. Mas a suspeita havia mudado de forma. Ainda estava ali, armada e viva, só que agora observava em vez de apenas morder. Agora havia também curiosidade.

"Você deu coisas suas", ela disse.

"Emprestei."

"Emprestou."

"Sim."

"Por quê?"

Tarla recolocou a escova na caixa, mas deixou a tampa aberta.

"Porque uma trança de Padawan não deve ser apenas uma regra presa ao cabelo. Deve carregar testemunhas."

"Testemunhas de quê?"

"De que você começou. De que alguém viu. De que, quando a estática ficou alta demais, ainda havia estrela. De que, se um dia você esquecer, haverá objetos pequenos e irritantes pendurados atrás da sua orelha para lembrar. E também para que você tenha algo que já caminhou comigo agora caminhando com você."

Rum'ea virou-se no banco, devagar. Ele já havia recuado o suficiente para que ela pudesse encará-lo sem erguer demais o rosto e, ainda assim, precisava inclinar a cabeça para cima. O contraste entre os dois quase a fez franzir a testa: ele era claro, alto, calmo como neve antiga; ela era pequena, escura, envolta em camadas de sobrevivência, com uma trança nova atrás da orelha como se o próprio cabelo também estivesse aprendendo a respirar.

- Eu não sei ser Padawan. - A voz de Rum'ea veio baixa.

Tarla fechou a caixa com cuidado.

- Eu sei.

Ela ficou dura.

- Isso era para confortar?

- Não. Era para ser verdade.

"E se eu fizer errado?"

"Vai fazer."

"Você realmente não sabe confortar alguém."

"Estou aprendendo isso também."

Rum'ea abaixou os olhos para as próprias botas. O fio azul no fim da trança tocou seu peito quando ela moveu a cabeça, leve e estranho. Uma parte dela queria arrancá-lo apenas para provar que podia. Outra parte, menor e mais perigosa, queria protegê-lo de tudo, inclusive de si mesma.

- Eu posso tirar quando dormir? — Perguntou, os dedos procurando inconscientemente o fim do fio.

- Não recomendo. Mas pode.

Ela olhou rápido para Tarla.

- Posso?

- É sua trança, Rum'ea.

O nome dela, dito daquele jeito, sem comando depois, sem posse antes, pareceu preencher o quarto mais do que deveria. Quente. Gentil.

"E se eu tirar e não conseguir colocar de novo?"

"Eu refaço."

"Todas as vezes?"

"Quantas forem necessárias."

Ela engoliu em seco.

"Isso é ridículo."

"Provavelmente."

Por um momento, nenhum dos dois se moveu. Lá fora, Coruscant brilhava em linhas de tráfego e torres impossíveis, os sons entrando abafados pelas janelas. Dentro do quarto limpo demais, uma jovem de Kyrmora usava atrás da orelha direita uma trança de Padawan feita por um Mestre de Keshtara que não aceitava Padawans havia setenta anos. Nenhum dos Mestres do Alto Conselho estava ali para ver. Ainda assim, a Força pareceu se aquietar ao redor deles, protegendo o vínculo como antes, escondendo-o do mundo, como se aquela conversa silenciosa, aquela trança pequena e aqueles adereços escolhidos fossem uma coisa que ainda não devia ser tocada por interpretação alguma. Como um segredo que o mundo ainda não tinha o direito de saber.

Rum'ea ergueu os olhos para o espelho uma última vez. A trança parecia estranha nela. Estranha, mas não feia. Atrás da orelha direita, o fio azul brilhou de leve quando ela inclinou a cabeça, e por baixo da estática que ainda arranhava sua presença na Força, Tarla sentiu a estrela responder outra vez. Bem baixo, quase contra a vontade, ela pensou:

"É... Não ficou ruim."

Tarla pegou a caixa e caminhou até a porta aberta.

"Vindo de você, Rum'ea Olphen, aceitarei como um grande elogio."

Rum'ea quase sorriu.

Quase.

Dessa vez, porém, não tentou esconder completamente.

Capítulo 4

O primeiro treino de Rum'ea começou quando Coruscant ainda parecia só sombra e vidro.

O céu além das arcadas altas do Templo ainda não tinha decidido se continuaria noite ou se cederia, finalmente, ao azul pálido que antecedia o nascer do sol. As luzes da cidade, infinitas e distantes, pulsavam abaixo como um coração mecânico, artificial, e o ar daquela hora tinha um silêncio raro, do tipo que só existia antes de os corredores encherem-se de passos, antes de os younglings serem conduzidos às primeiras aulas, antes de os Cavaleiros e Mestres se tornarem novamente parte do organismo vasto e estranhamente disciplinado do Templo.

Rum'ea chegou a uma das plataformas de treino abertas para o leste com a sensação pouco confortável de estar adiantada demais, mesmo para um lugar que parecia nunca dormir. Ainda assim, Tarla já a esperava.

Ele estava junto à borda da plataforma, olhando para a cidade e para o céu ainda escuro, como se tivesse sido colocado ali antes mesmo de a madrugada existir. Usava vestes do Templo em tons terrosos e claros, ajustadas por faixas e couro trançado na cintura, e havia nele algo que fazia a quietude parecer menos ausência de movimento e mais uma escolha antiga. Seu cabelo longo caía solto até abaixo dos ombros, com a parte superior amarrada discretamente atrás da cabeça para manter os fios levemente ondulados longe do rosto. A barba curta apanhava a luz fria das lanternas do corredor, iluminando gentilmente os fios prateados. Alto demais, como sempre. Imóvel demais, como sempre. E com aquela presença que, para Rum'ea, continuava parecendo uma contradição: ele não fazia esforço para se impor, mas o espaço ao redor dele reorganizava-se mesmo assim, como se até mesmo o ar soubesse onde terminava o resto do mundo e onde começava Tarla.

Rum'ea diminuiu o passo ao vê-lo.

Ela vestia, pela primeira vez, roupas do Templo.

A túnica era de um tom claro, entre areia e marfim envelhecido, com textura discreta no tecido e faixas cruzando o peito de maneira correta demais, limpa demais, ordeira demais. Havia, porém, detalhes azuis nas bordas internas, finos e bem colocados, como pequenos caminhos de cor acompanhando o decote cruzado, as fitas que prendiam os punhos ajustados e certos remates do traje. Era o bastante para serem percebidos sem realmente gritarem por atenção. A faixa da cintura e o cinto, porém, marcavam-lhe o corpo de um jeito que Rum'ea não previra e definitivamente não apreciava. Em vez de fazê-la parecer com os outros jovens do Templo que vira atravessando os corredores nos últimos dias, com suas silhuetas mais retas, mais neutras, mais facilmente dissolvidas na uniformidade serena da Ordem, as vestes nela pareciam fazer justamente o contrário: destacavam a curva dos quadris, a plenitude do busto, a cintura mais estreita, embora ainda cheia, o modo como o tecido caía e se ajustava sobre uma forma que ela jamais conseguira esconder de verdade, nem mesmo sob capas, cintos ou panos utilitários de Kyrmora.

Por isso, enquanto se aproximava, puxava discretamente as vestes para baixo. Depois para os lados. Depois ajustava os ombros. Depois tentava soltar um pouco a faixa do peito, como se algum gesto insistente pudesse convencer o tecido a moldar-se de forma diferente.

Não funcionava.

Nada funcionava. Ela sentia o desconforto como pequenas ondas de calor irritado sob a pele, uma consciência física demais de si mesma, e isso bastava para deixá-la tensa antes mesmo de o treino começar.

Tarla percebeu.

Claro que percebeu.

Seus olhos verdes, com aquela leve queda melancólica nos cantos que poderia enganar qualquer um que não soubesse o que esperar, desceram sobre ela com atenção calma, não invasiva, mas nítida o bastante para que Rum'ea imediatamente largasse a borda da túnica, como se tivesse sido flagrada em algo pior do que insegurança. Por um segundo, ela pensou que ele fosse dizer alguma coisa sobre o corte das roupas, sobre padronização, sobre uniformidade, sobre a cor, sobre a discrição necessária aos Jedi. Mas, antes que qualquer palavra viesse — em voz alta ou pelo vínculo —, a mente dela falhou em manter-se inteiramente fechada.

A imagem escapou.

Foi rápida, mas clara o bastante para que ele a recebesse: Rum'ea durante a madrugada, sentada no quarto silencioso junto à mesa com as lanternas baixas para não chamar atenção por baixo da porta; um pequeno frasco de pigmento azul aberto ao lado de um copo de água; um pincel finíssimo entre os dedos; a concentração cuidadosa com que ela pintara delicadamente as bordas das vestes, quase escondendo a mão quando um ruído do corredor a fizera sobressaltar e o coração pulsar com tanta força que abafava os sons do mundo; o jeito como examinara o resultado com o cenho franzido, não por vaidade, mas por medo de que aqueles pequenos detalhes fossem vistos como insubordinação, como rebeldia, como desafio; e, por trás de tudo, o pensamento cru e desprotegido que escapou junto com a imagem: o medo de sumir dentro de algo neutro demais, de desaparecer em tecidos que não traziam sequer uma lembrança visível de si.

Rum'ea sentiu o próprio erro no instante em que o cometeu, e os olhos dela se arregalaram um pouco.

“Não olha isso”, pensou quase que por reflexo, mas já tarde demais.

Tarla não comentou a invasão acidental. Não lhe ofereceu piedade, nem surpresa, nem aquela bondade cuidadosa que às vezes parecia outra forma de exposição. Ele apenas se aproximou um passo, parou diante dela e ergueu as mãos devagar.

— Posso? — Perguntou, indicando o cinto.

Rum'ea hesitou por um segundo, ainda sem jeito por dentro por causa da imagem que lhe escapara e com o corpo reagindo primeiro à ideia de ele a tocar.

Respirou fundo uma vez.

Duas.

— Pode.

Tarla tocou apenas no cinto, e nada mais. Ajustou a faixa de couro na cintura dela com movimentos breves e precisos, não para escondê-la nem para apertá-la mais, mas para fazer o tecido cair de maneira mais estável, sem que Rum’ea precisasse ficar puxando as camadas o tempo todo. O gesto foi tão simples que, por um instante, ela ficou irritada com a própria tensão anterior. Quando Tarla terminou, ele recuou imediatamente.

Ela baixou os olhos para as vestes. Continuavam sendo as mesmas roupas. Continuavam acentuando o que acentuavam mesmo que não devessem, se ela tivesse o corpo certo. Mas assentavam melhor: menos como algo emprestado à força ou como um disfarce ruim.

“Você não vai me repreender pelo azul?” perguntou ela pelo vínculo, desconfiada.

Tarla encontrou os olhos dela, e a resposta veio pelo mesmo caminho, tranquila como água que não precisa correr depressa.

“Não.”

Rum'ea sentiu que havia mais, então esperou.

“Contanto que não seja vaidade, você não precisa se anular para caber nas roupas do Templo.”

Ela piscou.

A frase ficou ecoando por um instante longo demais para ser só entendimento. Não se anular. O Templo, até então, parecia feito justamente de coisas que pediam anulação: passos mais leves, voz mais baixa, reações mais controladas, roupa mais neutra, presença mais lisa. Não podia ameaçar ninguém. Não podia puxar a adaga. Não podia morder alguém que se aproximasse demais. Não que a Ordem exigisse explicitamente que ela desaparecesse, mas tudo nela ainda associava disciplina à invisibilidade, e invisibilidade à segurança dura de quem aprende cedo a não oferecer superfície demais ao mundo. Ouvir dele que aquilo não era necessário — não daquela forma, não ali — produziu dentro dela uma alegria tão súbita que quase doeu.

Tarla, sem qualquer mudança drástica no rosto, completou:

"Além disso, acho os detalhes azuis esteticamente agradáveis."

Rum'ea arregalou os olhos.

"Esteticamente agradáveis?"

"Sim."

"Isso foi a coisa mais elegante que alguém já disse sobre uma desobediência minha."

"Oh. Foi desobediência?"

Ela quase sorriu.

"Talvez."

"Então foi uma desobediência esteticamente agradável."

O sorriso veio de verdade desta vez: pequeno, involuntário, rápido demais para que ela pudesse contê-lo. Foi tão raro e tão genuíno que pareceu transformar-lhe o rosto por um instante inteiro. Tarla viu, mas, misericordiosamente, não comentou.

Em vez disso, ele indicou o centro da plataforma de treino, onde esteiras simples haviam sido deixadas sobre o piso liso de pedra clara.

— Sente-se. — Disse Tarla em voz alta. — Quero ver primeiro se você consegue meditar.

A alegria recém-nascida em Rum'ea sofreu uma queda imediata e visível.

— Isso é crueldade antes do sol nascer.

— É observação pedagógica.

— Parece muito com crueldade.

— Muitas coisas úteis podem parecer.

Ela lançou a ele um olhar enviesado, depois foi até a esteira e sentou-se no chão de pernas cruzadas, ainda um pouco desconfiada do modo como as novas roupas se comportavam quando ela se movia. Tarla sentou ao lado dela, não em frente, o que Rum'ea já começava a reconhecer como um dos hábitos gentis dele: não colocá-la sob um olhar direto quando não era necessário. O céu à frente começava a clarear devagar, como um pano escuro perdendo tinta.

Rum'ea fechou os olhos.

Tentou.

Depois tentou com mais vontade.

Respirou uma vez, duas, três. Tentou ouvir o ar entrando, depois saindo. Tentou lembrar das poucas instruções de meditação que ouvira nos últimos dias, vindas de vozes serenas demais, de exemplos limpos demais, de pessoas que pareciam já nascer em paz. Tentou deixar os ombros caírem. Tentou soltar a mandíbula. Tentou não pensar nas roupas novas, nem no cinto, nem no azul, nem no fato de estar sentada ao lado de um homem com os olhos fechados, nem no ruído que sempre existia dentro dela.

Mas a mente não parava.

Nunca parava.

Os pensamentos vinham em sequência, mas não como linha.

Vinham como enxame.

“O tecido está marcando demais, o chão está frio, alguém vai passar e olhar, eu devia ter comido menos ou mais, o azul está reto? e se secou manchado? e se alguém viu? e se eu abrir os olhos e ele estiver me observando demais? por que meditação exige que eu fique parada? parada é como se é pega, e se o som lá embaixo for uma nave de abastecimento, e se eu cair no sono sentada, e se ele perceber, e se ele já percebeu, ele sempre percebe, como alguém consegue não pensar, isso parece uma habilidade fisiologicamente suspeita…”

Então, pelo vínculo, alguma coisa mudou.

A mente de Tarla, que até então ela percebia como uma presença profunda, calma, distante e viva ao lado dela, tornou-se, de repente, uma imagem tão vasta que Rum'ea quase abriu os olhos por reflexo. Não foi ele mostrando, pelo menos não intencionalmente. Foi mais como se, por estar tão perto, com o vínculo tão silencioso e a própria defesa mental dela tão desorganizada pela tentativa frustrada de meditar, ela tivesse escorregado até a superfície do estado em que ele entrava.

Era um lago.

Um lago imenso, espelhado, quieto a ponto de fazer o silêncio parecer uma forma de luz. Não havia margem visível de imediato, apenas a superfície vasta, lisa, escura e clara ao mesmo tempo, como os lagos gelados de Keshtara que ela jamais vira pessoalmente, mas que, de algum modo, reconheceu. E lá no fundo — não abaixo, exatamente, mas no fundo daquela vastidão interior — estava a presença de Tarla. Não como uma figura humana inteira, mas como um centro consciente, tranquilo e paciente, imóvel sem estar ausente.

Rum'ea abriu um olho.

E viu que Tarla estava flutuando.

Não alto. Não dramaticamente. Apenas alguns centímetros acima da esteira, as pernas cruzadas, as mãos apoiadas sobre os joelhos, o manto caindo em linhas tranquilas enquanto a gravidade ao redor dele parecia ter esquecido, por um momento, como deveria funcionar. Rum'ea ficou olhando aquilo com uma indignação silenciosa que não sobreviveu nem cinco segundos antes de se transformar em outra coisa.

Ela estendeu a mão, agarrou de leve a borda do manto dele e puxou para baixo.

Tarla desceu um pouco, como se obedecesse ao puxão, ainda de olhos fechados. Rum'ea soltou.

Ele subiu de novo.

Ela piscou, puxou outra vez, um pouco mais.

Ele desceu.

Soltou.

Ele subiu.

Rum'ea ainda tentou sustentar a seriedade por um instante, mas foi inútil. O riso escapou de forma abrupta, verdadeira, sonora e leve, surpreendendo até a si mesma. Não foi uma risada grande, mas foi inteira, e saiu antes que pudesse prendê-la de volta. Tarla abriu apenas um olho para ela. Havia um brilho de divertimento muito discreto ali, acompanhado de um sorriso pequeno, sereno, quase preguiçoso. Depois fechou o olho novamente, como quem aceitava a própria condição temporária de brinquedo estranho com uma dignidade impossível.

— Você parece um brinquedo com ímãs repelentes. — Murmurou Rum'ea, ainda contendo os últimos restos do riso.

Tarla não respondeu em voz alta, mas o vínculo trouxe de volta uma onda branda de diversão, seguida de um silêncio convidativo, como se ele dissesse, sem dizer, que ela já tivera sua vitória do momento e podia agora tentar outra vez.

Rum'ea fechou os olhos mais uma vez.

O lago estava lá.

Vasto. Espelhado. Sem pressa.

Desta vez, ela não recuou de imediato. Ficou olhando mentalmente para a superfície com certa desconfiança. A própria presença dela, em contraste, parecia um aglomerado de vento elétrico e fragmentos, uma criatura de estática parada à beira de algo muito liso. Havia certa humilhação nisso. Mas havia também curiosidade.

Devagar, com a incerteza de quem toca pela primeira vez algo que pode ser gelo fino ou profundidade sem fundo, Rum'ea se ajoelhou à beira daquele lago interior e estendeu a mão. Seus dedos tocaram a água.

A superfície abriu pequenas ondulações. Delicadas. Quase reverentes.

Elas se espalharam do centro, abrindo círculos que se expandiram preguiçosamente.

Rum’ea ficou imóvel imediatamente.

“Eu machuquei?” perguntou depressa pelo vínculo, a pergunta saindo antes de ela pensar no quão absurda soava.

A resposta de Tarla veio com uma suavidade que pareceu nascer do próprio lago.

“Não. Não machucou. Apenas senti o toque.”

Rum'ea olhou para as ondulações alargando-se e desaparecendo, absorvidas pela vastidão sem que nada se quebrasse. A mente dele continuava ali, profunda, quieta, sem se fechar por causa da presença dela, e isso a desconcertou mais do que qualquer repreensão teria.

Ela franziu o cenho, ainda dentro da própria tentativa de meditação.

“Eu…” começou, sem saber direito como formular. “Posso tentar entrar?”

Houve um intervalo quase divertido antes da resposta.

“Não recomendo. Água funda entope os ouvidos.”

Rum'ea soltou uma risada curta pelo nariz, olhos ainda fechados.

"Isso foi horrível."

"Foi preciso."

"Você treinou essa frase?"

"Não. Mas, se quiser tentar, pode ir até o meio do lago e se deixar afundar."

Ela ficou em silêncio.

O convite parecia simples dito assim… Mas não era. Rum'ea se aproximou mentalmente da água, primeiro com cautela, depois com um esforço mais decidido, e avançou superfície adentro. Não houve frio. Não houve resistência. Era como caminhar sobre algo que aceitava o peso dela sem exigir nada em troca, não exatamente líquido, mas também não realmente sólido. Ela foi até o que lhe pareceu ser o meio, — embora “meio” fosse uma ideia quase ridícula naquele espaço vasto — parou e tentou se deixar afundar.

Nada aconteceu.

A água continuava sustentando-a.

Ela expirou, frustrada.

Tentou de novo, relaxando ombros, soltando os joelhos, cedendo o peso.

Nada.

O lago a mantinha na superfície como se conhecesse muito bem o fato de que Rum'ea passara a vida inteira aprendendo a não ceder de verdade.

“Não funciona”, disse ela, irritada.

“Quer ajuda?” perguntou Tarla.

A irritação dela vacilou um instante. Aceitar ajuda ainda soava como uma porta mal vigiada, especialmente em algo tão desconhecido e novo como o vínculo. Ainda assim, ali, à beira do lago dele, com o céu real começando a clarear e o corpo sentado ao lado do dele no mundo físico, a pergunta não trouxe ameaça. Trouxe somente possibilidade.

“Sim,” admitiu, por fim, muito baixo.

O que aconteceu em seguida foi tão gentil que Rum'ea quase não percebeu de início. A presença de Tarla, lá no fundo do lago, moveu-se sem pressa e sem invadir. Não veio como mão fechada, nem como onda cobrindo tudo, nem como poder impondo-se à força. Veio como uma atenção cuidadosa que se aproximava apenas o suficiente para ser sentida e, então, se fechava levemente ao redor de um dos pés dela, como água mais densa, como um toque submerso e tranquilo. A mensagem veio junto, clara e imediata.

“Se você não quiser mais, eu solto. Se você não conseguir subir, eu empurro.”

Rum'ea sentiu isso antes do puxão começar.

Ele a puxou lentamente.

Sem arrancá-la da superfície. Sem brusquidão. Sem arrastá-la para um lugar onde ela não pudesse mais escolher. Apenas um convite sustentado, uma tração delicada para baixo, até que a água cedesse e começasse a recebê-la. Rum'ea teve tempo de recusar. Teve tempo de recuar. Teve tempo de se debater, de travar, de ordenar que ele parasse, mas não fez nada disso.

Aos poucos, o lago subiu-lhe pelas pernas, pela cintura, pelo peito, pelos ombros. Não havia afogamento. Não havia pânico. Havia profundidade, sim, uma vastidão silenciosa envolvendo-a por todos os lados, e, embora a água agora estivesse acima de sua cabeça, ao redor do rosto, sobre os cabelos, sobre os olhos fechados, ela ainda respirava normalmente. O som do mundo afastou-se sem desaparecer por completo. Mais do que isso: transformou-se. Tudo ficou distante e íntimo ao mesmo tempo, como se a realidade tivesse sido coberta por camadas espessas de quietude.

A estática de Kyrmora, que sempre a circundava como um campo de interferência afiada, não desapareceu.

Mas se aquietou.

Não foi anulada. Não foi purificada. Não foi vencida. Apenas deixou de estalar. Tornou-se imóvel, quase como nuvens elétricas estáticas em suspensão perfeita, sem chicotear tudo em volta. A brutalidade do planeta permanecia nela, mas parou de arranhar por um momento. E, por baixo dela, a estrela pôde respirar.

Rum'ea soltou um suspiro longo dentro daquele lago impossível, e a sensação de contentamento que veio em seguida foi tão nova que ela quase abriu os olhos por medo. Não abriu. Permaneceu ali, submersa e serena, a mente enfim sem correr em círculos, o corpo no mundo real sentado sobre a esteira antes do amanhecer, e a presença de Tarla ainda ao fundo, vasta e estável, como quem lhe emprestara não paz pronta, mas um lugar onde a paz podia acontecer sem ser exigida.

O primeiro raio do sol rompeu o horizonte de Coruscant alguns minutos depois, dourando a borda da plataforma de treino, as pedras claras e o perfil dos dois Jedi sentados lado a lado. Tarla continuava suspenso alguns centímetros acima da esteira, manto quieto, respiração lenta, e Rum'ea, ao lado dele, estava enfim imóvel de um jeito que não parecia alerta, nem congelamento, nem resistência armada.

Parecia descanso.

Muito tempo depois — ou talvez não tanto, pois dentro do lago o tempo parecia ter desaprendido a marcha habitual — Tarla deixou que a própria presença se afastasse um pouco, não retirando dela o apoio de forma brusca, apenas devolvendo-lhe, devagar, a superfície, a margem e a escolha. Rum'ea emergiu da meditação como quem volta de um lugar estranho e muito bom, abrindo os olhos lentamente para a claridade rosada do amanhecer.

Ela virou o rosto para ele, surpresa.

Tarla já a observava com aquele mesmo sossego quase irritante, agora sem flutuar tanto quanto antes, embora ainda não completamente comprometido com a gravidade.

Rum'ea ficou em silêncio por um instante, como se temesse que qualquer palavra dita em voz alta pudesse espantar o que acabara de encontrar. No fim, escolheu o vínculo.

“Foi… Quieto.”

Tarla inclinou um pouco a cabeça.

"Sim."

"Eu não sabia que dava para ficar quieto sem parecer morto."

"Agora sabe."

Ela desviou os olhos para a cidade e depois de volta para ele. O azul das bordas da própria túnica pareceu ainda mais vivo sob a luz nova.

"Você faz isso com todo mundo?"

"Flutuar? Creio que isso independe de plateia."

Ela quase revirou os olhos.

"O lago."

"Não."

Rum'ea sentiu a resposta inteira antes mesmo de as palavras seguintes chegarem.

"Só comigo, então?"

Tarla sustentou o olhar dela com calma.

"Só com você."

Alguma coisa aquecida e leve se abriu no peito dela, discreta, mas inegável. Rum'ea não soube dar nome. Não tentou. Apenas baixou os olhos para as mãos no colo e deixou que um sorriso muito pequeno existisse sem precisar ser escondido imediatamente.

O sol enfim nasceu por completo, e a luz dourada tocou os fios negros dela, o cabelo longo, ondulado e cheio, a pele pálida, o azul pintado à mão nas vestes e também o rosto de Tarla, os olhos verdes, o castanho dos cabelos e seus fios prateados, a serenidade. O primeiro treino fora extremamente simples e, mesmo assim, algo essencial já havia acontecido: Rum'ea não aprendera a meditar sozinha naquela manhã, mas aprendera que, ao lado dele, seu ruído não precisava ser combatido como inimigo. Podia, ao menos por um tempo, tornar-se água imóvel.

Capítulo 5

Rum'ea encontrou Tarla pelo vínculo.

Depois do jantar, o Templo parecia diferente. Durante o dia, tudo ali se movia com propósito: younglings em fileiras guiados por instrutores, Cavaleiros atravessando passarelas, Mestres indo de uma reunião a outra com a calma de quem carregava o peso de sistemas inteiros dentro das mangas. À noite, porém, a vastidão do Templo se tornava outra coisa. Mais profunda. Mais oca. As colunas pareciam crescer no silêncio, as janelas altas seguravam o brilho distante de Coruscant como se a cidade fosse uma constelação invertida, e cada som pequeno — o roçar das botas dela, o tecido claro das vestes novas, a trança de Padawan batendo de leve atrás da orelha direita — parecia grande demais.

Rum'ea não sabia exatamente por que estava procurando por ele.

Essa era a pior parte.

Não havia uma pergunta definida, nem uma necessidade urgente, nem uma crise que justificasse atravessar corredores depois do jantar seguindo uma sensação que ainda a irritava justamente por ser fácil demais de seguir. Tarla, pelo vínculo, não era como as outras presenças do Templo. Os Mestres eram fortes, alguns quase esmagadores em quietude: Yoda parecia uma raiz viva sob o chão da galáxia; Dookan era lâmina guardada em seda; Yaddle era uma canção antiga que não precisava ser cantada. Tarla, porém, era lago. Mesmo quando não meditava, mesmo quando falava com outros, mesmo quando desaparecia em alguma ala do Templo, havia no vínculo uma direção. Não era uma ordem. Tampouco era um puxão. Era apenas uma espécie de norte silencioso.

Ela o seguiu com a expressão fechada de quem não admitiria estar seguindo nada, nem mesmo sob tortura.

O corredor que a levou até uma das salas de treino secundárias estava quase vazio. As luzes estavam baixas, e a porta, parcialmente aberta, deixava escapar flashes rápidos, verdes e brancos, acompanhados por estalos secos de energia. Rum'ea parou antes da entrada.

O primeiro disparo cruzou a sala rápido demais para que seus olhos o acompanhassem por inteiro.

O segundo veio de outro ângulo.

Depois o terceiro, o quarto, o quinto, todos em velocidade alta, intensidade total, sem a cadência gentil dos exercícios que ela vira os jovens do Templo praticarem em grupos supervisionados quando voltou da meditação pela manhã. Eram esferas remotas, várias delas, girando em trajetórias imprevisíveis, disparando feixes contra uma única figura no centro da sala.

Tarla estava vendado.

A faixa escura cobria-lhe os olhos verdes, passando firme ao redor da cabeça, prendendo alguns fios do cabelo longo para trás, enquanto outros caíam soltos sobre os ombros e rosto. Estava de pés descalços sobre o piso de treino, e isso, por algum motivo, prendeu a atenção de Rum'ea tanto quanto o sabre. Os pés dele se moviam sem ruído, plantando-se, girando, deslizando, mudando de eixo com a segurança de quem conhecia a distância do próprio corpo até o mundo com precisão ridiculamente absoluta. O sabre de luz verde desenhava arcos no ar, não amplos demais, não teatrais demais, mas perfeitamente necessários. Cada disparo era recebido, desviado, ou devolvido com uma economia tão exata que parecia menos combate e mais uma conversa violentíssima entre luz e instinto.

Rum'ea ficou imóvel junto à porta.

A primeira coisa que sentiu foi avaliação.

Perigo.

Altura: muita. Alcance: enorme. Força física: evidente, mas não rígida. Velocidade: melhor do que a estrutura do corpo sugeria. Idade: absurda; cento e cinquenta anos, mesmo com um rosto de quarenta e poucos, mesmo com a pele firme, mesmo com o cabelo caindo como se o tempo tivesse preferido apenas tocá-lo de leve. Competência: alta. Muito alta. Alto demais. Um homem daquele tamanho, com aquele controle, aquele silêncio, aquela capacidade de lutar sem ver, era uma ameaça se decidisse ser. O corpo dela reconheceu isso antes de qualquer outra coisa, e a velha matemática de Kyrmora acendeu-se em algum canto: distância até a porta, ângulo das esferas, posição do sabre, chance de correr se ele se virasse rápido demais, um arrepio que subia da base das costas e eriçava os pelos dos braços.

Mas então houve outra coisa, algo que atravessou a avaliação como um erro de sistema.

Bonito.

O pensamento não veio como uma palavra organizada. Veio como uma constatação involuntária, bruta e confusa, acompanhada de uma sensação que Rum'ea não examinou porque sequer percebeu que estava deixando escapar. Tarla girou o sabre para trás do próprio ombro, desviando um disparo que teria atingido a base de sua nuca, e a luz verde iluminou por um instante os contornos do rosto vendado, a linha da mandíbula, a barba curta, a boca séria, o pescoço e os ombros largos sob a túnica de treino. Não havia mangas longas como nas vestes que ele normalmente usava, e o movimento revelava a estrutura dos braços: não músculos secos e marcados como os de alguns humanos treinados para parecerem lâminas, mas uma força mais densa, mais resistente, coberta por uma leve camada de gordura natural da biologia keshtari, como se aquele corpo tivesse sido feito menos para posar em combate e mais para tarefas brutas... Como atravessar tempestades de neve carregando troncos de árvore sobre o ombro, quebrar gelo, erguer pedra, proteger calor no próprio centro.

Bonito, sim. Mas também grande. Perigoso. Homem. Mestre. Velho demais e não velho o bastante. Forte demais para ser ignorado. Gentil demais para ser simples.

Rum'ea não percebeu que tudo isso passava pelo vínculo como uma correnteza cheia de fragmentos. Não percebeu a própria confusão, nem a irritação por reconhecer beleza em um homem, nem a maneira como a constatação vinha imediatamente seguida por alerta, não desejo; por cálculo, não entrega; por uma espécie de espanto quase ofendido diante do fato de o universo permitir que uma coisa pudesse ser bonita e perigosa ao mesmo tempo sem avisá-la antes.

Tarla percebeu.

E não disse nada.

No centro da sala, ele moveu-se para o lado antes de um disparo atingir sua costela, desviou outro com a parte da lâmina quase próxima demais da empunhadura, girou sobre o calcanhar nu e devolveu um feixe com precisão suficiente para acertar uma das esferas sem destruí-la, apenas desestabilizando-a por meio segundo. O vínculo recebia o vazamento de Rum'ea como quem sente chuva quente tocar a superfície de um lago e apenas deixa as ondulações se abrirem. Não houve surpresa vitoriosa nele. Não houve vaidade. Não houve constrangimento projetado de volta. Tarla compreendeu, com aquela serenidade irritante que às vezes parecia anterior à própria linguagem, que Rum'ea achá-lo bonito não significava nada além disso: uma constatação seguida de imensa confusão. O olhar dela para o corpo dele era o mesmo olhar que lançaria a uma ponte, a uma arma, a um animal de carga forte demais para ser provocado sem motivo. Observava função, risco, resistência. A beleza, se estava ali, vinha presa à análise como uma peça que ela não sabia onde guardar.

Esquisito.

Rum'ea, enfim, tocou o vínculo de propósito.

“Estou aqui.”

O sabre de Tarla desviou dois disparos em sequência antes que a resposta viesse, tranquila, como se ele não estivesse cercado por pequenas máquinas tentando acertá-lo com intensidade máxima.

“Eu sei.”

Ela estreitou os olhos, apesar de ele estar vendado e de costas para ela naquele instante.

“Claro que sabe.”

“Pode ficar, se quiser. Mas fique perto da porta. Se entrar mais, pode se ferir por acidente.”

Rum'ea olhou para as esferas, para os feixes, para o modo como um disparo ricocheteou no sabre e atingiu a parede acolchoada com força suficiente para deixar uma marca luminosa que logo se dissipou em uma mancha escura. Pela primeira vez naquele dia, obedeceu sem sequer pensar em discutir. Encostou-se à lateral da entrada, suficientemente dentro para ver, suficientemente fora para fugir, e cruzou os braços.

"Seu sabre."

"Sim."

"É verde."

"Sim."

"Verde."

"Sua observação continua correta."

Ela sentiu, pelo vínculo, a sombra de um sorriso nele. Não no rosto, que seguia sério, vendado e atento, mas em algum lugar de sua presença.

“Eu esperava azul,” disse ela.

Tarla abaixou-se no exato instante em que três disparos cruzaram o lugar onde estivera sua cabeça. A lâmina verde subiu em seguida, quase vertical, desviando um quarto feixe para o teto.

“Por quê?”

“Você luta bem demais para verde.”

Dessa vez, a resposta dele demorou porque a sala pareceu tentar matá-lo com mais dedicação. Duas esferas vieram de trás, uma pela esquerda, outra em diagonal baixa. Tarla recuou um pé, girou o punho, deixou a lâmina passar tão perto do próprio corpo que Rum'ea sentiu os músculos dos ombros dela prenderem em protesto, e desviou ambos os disparos com a mesma sequência fluida. A luz verde brilhava sobre a venda, sobre os cabelos, sobre a boca imóvel.

"Verde é de diplomata", acrescentou ela, com a desconfiança de quem acusa uma peça de estar no lugar errado. "Consular", eles dizem.

"Às vezes, o kyber sabe melhor do que o portador."

"Isso não responde."

"Responde de modo Jedi."

"Então responde pior ainda."

Um dos disparos veio alto. Tarla saltou, mas o salto não pareceu salto. Pareceu uma suspensão breve, quase uma lembrança da gravidade esquecida do treino da manhã. Ele girou no ar, desviou o feixe, pousou sem ruído sobre os pés descalços e continuou como se nada tivesse acontecido.

"Ser melhor em diplomacia não significa que eu seja ruim em luta", respondeu ele enfim.

Rum'ea soltou um som baixo pelo nariz, não exatamente um riso, não exatamente desprezo.

"Eu consigo ver isso claramente. Mas é uma coisa muito diplomática para dizer."

"E, ainda assim, verdadeira."

"Diplomatas gostam dessa palavra."

"Verdadeira?"

"Não. 'Ainda assim'. Serve para enfiar uma faca macia entre duas frases, igual a uma faca real entre costelas."

Tarla desviou outro disparo. A esfera que o emitira girou para trás dele; sem virar o rosto, ele ergueu a lâmina sobre o ombro e a fez recuar com um ricochete calculado.

"O que você acha de diplomacia, Rum'ea?"

Ela olhou para ele com suspeita imediata, embora a venda tornasse o gesto inútil.

"Eu? Por quê?"

"Porque perguntei."

"Essa resposta também é uma faca macia."

Um fio de divertimento cruzou o vínculo.

"Talvez eu esteja praticando."

Rum’ea pensou por um momento. Não porque lhe faltasse opinião, mas porque havia muitas, e a maior parte delas vinha com farpas demais para atravessar o vínculo sem arranhar algo.

“Cheia demais,” disse por fim.

O sabre verde cortou o ar em uma diagonal baixa.

“Cheia?”

“Cheia. Polida demais. Mentira demais. Cálculo demais. Gente dizendo palavras longas para esconder palavras curtas. Gente sorrindo quando quer comprar, vender, ameaçar ou prender. Gente fingindo que uma mesa limpa muda o que acontece embaixo dela. Cheia.”

A sala continuou disparando contra Tarla, e Tarla continuou respondendo. Mas Rum'ea sentiu que ele a escutava por inteiro. Não como alguém tolerando uma ignorância temporária, nem como um Mestre esperando o momento de corrigir uma Padawan. Escutava mesmo. A presença dele no vínculo tinha aquela qualidade de lago recebendo pedra: a água se movia, mas não rejeitava o impacto.

“Ótimo,” disse ele.

Rum'ea piscou.

"…'Ótimo'?"

"Sim."

"Essa deveria ser a parte em que você diz que eu não entendo as nuances da República."

"De fato. Você ainda não entende muitas delas."

"Isso é repreensão?"

"Não. É informação."

"Então por que 'ótimo'?"

Tarla girou o sabre em uma sequência tão rápida que a lâmina verde deixou um círculo incompleto de luz no ar. Três disparos voltaram para três esferas diferentes, atingindo-as com precisão suficiente para desligá-las em ordem. Ainda restavam outras, e elas aumentaram a velocidade, compensando a perda.

“Porque eu já preenchi os formulários para levar você comigo na minha próxima missão diplomática.”

Rum'ea ficou tão parada que, por um instante, até a estática de Kyrmora pareceu parar junto.

— Você o quê?! – Perguntou ela em voz alta.

A palavra bateu na sala exatamente no momento em que Tarla desligava a última esfera com um ricochete limpo. O silêncio que veio depois pareceu ainda mais absurdo por contraste. A lâmina verde permaneceu acesa por um segundo, iluminando a venda sobre os olhos dele e a curva muito pequena de seu sorriso. Então o sabre se apagou com um sibilo suave.

Tarla ergueu a mão e retirou a venda.

Os olhos verdes estavam tranquilos demais para alguém que acabara de lançar uma catástrofe burocrática sobre a noite de Rum’ea.

— Eu disse que já preenchi os formulários para levar você comigo na minha próxima missão diplomática. — Repetiu ele em voz alta, com uma clareza quase cruel.

Rum'ea descruzou os braços.

— Você não pode fazer isso.

— Posso. Fiz.

— Eu acabei de dizer que diplomacia é cheia de mentira.

— Por isso mesmo.

Ela encarou-o, tentando decidir se aquilo era piada, punição, teste, armadilha ou alguma forma extremamente sofisticada de crueldade Jedi.

"Você está me castigando por causa do azul nas vestes?"

"Não. Já lhe disse que as achei esteticamente agradáveis."

"Por eu ter puxado seu manto de manhã?"

"Também não."

"Por eu ter mordido mentalmente metade do Conselho quando cheguei?"

"Você não mordeu mentalmente metade do Conselho."

"Mas quis."

"Isso não aparece nos formulários."

Rum'ea apertou os olhos.

— Eu não sei falar como vocês.

Tarla caminhou até o painel de controle, ainda descalço, e desligou completamente o sistema das esferas. Algumas delas recolheram-se aos suportes nas paredes com pequenos cliques metálicos. Só então ele se voltou para ela. Sem a venda, parecia menos uma estátua em combate e mais ele mesmo outra vez: alto, calmo, cansativo em sua paciência, com o cabelo desalinhado pelo treino e pela venda removida, e a empunhadura do sabre desligado preso à mão como se fosse uma extensão natural do corpo.

— Eu sei. – Disse ele.

— Eu vou dizer algo errado.

— Provavelmente.

— Vou perceber mentira na cara de alguém e minha própria cara vai mostrar no mesmo instante.

— É possível.

— Vou odiar a roupa.

— Quase certo.

— Então por que eu vou?

Tarla a observou por um momento, e a resposta veio primeiro pelo vínculo, mais íntima que a voz.

“Porque você sabe quando uma sala está cheia demais. Isso é útil. Muitos Jedi se encantam com a superfície limpa das palavras. Você não se encanta facilmente.”

Rum'ea não respondeu. Ele se aproximou apenas até a distância segura que ela já reconhecia como dele, deixando o espaço entre ambos respirar.

— Diplomacia não é fingir que não há facas sob a mesa, Rum’ea. – Disse Tarla em voz alta. – É saber onde estão, quem as colocou ali, quem espera que você veja, quem espera que você não veja, e como impedir que alguém precise usá-las.

Rum'ea sustentou o olhar dele.

— Isso é horrível.

— Às vezes.

— E vocês chamam de paz?

— Às vezes chamamos de começo.

Ela olhou para o sabre preso à mão dele, ainda lembrando a lâmina verde cortando disparos rápidos demais para um corpo comum. “Verde,” pensou. “Diplomata. Lago. Homem perigoso. Homem bonito. Homem que preenche formulários sem avisar.”

Dessa vez, percebeu tarde demais que a palavra “bonito” tinha passado.

Tarla apenas prendeu o sabre no cinto e não olhou diferente.

A ausência de reação dele foi, de algum modo, mais desconcertante do que qualquer comentário.

"Você ouviu isso", acusou ela pelo vínculo.

"Ouvi."

"E não vai dizer nada?"

"Não há nada que precise ser dito."

"Você sempre diz coisas."

"Nem sempre."

Ela odiou um pouco o alívio que sentiu.

Tarla pegou as botas deixadas junto à parede, mas não as calçou ainda. Ficou ali, de pés descalços sobre o piso, segurando-as com uma mão, absurdamente composto para alguém que acabara de destruir a ideia de noite tranquila dela.

— E quando é essa missão? – Perguntou Rum'ea.

— Em quatro dias.

— Quatro dias.

— Sim.

— Para onde?

— Alderaan.

A palavra não significava muito para ela além de uma associação vaga com riqueza, política e gente que provavelmente falava como se tivesse nascido dentro de uma taça limpa.

Rum'ea respirou fundo depois de franzir o nariz.

— Eu vou odiar.

— Provavelmente.

— Vou reclamar.

— Assim espero.

— Espera?

— Sim. Se você não reclamar, vou achar que há algo seriamente errado.

Ela o encarou, tentando encontrar a parte em que ele cederia, explicaria que havia sido apenas uma ideia, talvez perguntaria se ela desejava ir antes de simplesmente tomar uma decisão daquelas. Mas Tarla não parecia disposto a retirar a dificuldade apenas porque ela o reconhecia como difícil; ele era, afinal de contas, o Mestre e, portanto, responsável por decisões pedagógicas que ela talvez não fosse gostar. E, estranhamente, aquilo não tinha o gosto de ser arrastada. Tinha o gosto irritante de ser considerada capaz.

"Você acha mesmo que isso é uma boa ideia?", perguntou ela.

Tarla calçou uma bota, depois a outra, sem pressa.

"Não."

Rum'ea piscou, surpresa.

"Não?"

"Boas ideias costumam ser mais limpas. Esta, creio ser uma ideia necessária."

A sala de treino, agora silenciosa, ainda guardava o cheiro leve de energia aquecida e ozônio. Rum'ea olhou para as esferas recolhidas, para o espaço onde ele estivera vendado, para a empunhadura que parecia feita de aço envelhecido com adornos de madeira e algo negro no cinto, para os pés agora cobertos pelas botas, para o homem grande demais que lutava como azul, carregava verde e falava de facas sob mesas como se aquilo fosse uma forma de misericórdia.

— Eu não vou usar vestido algum. – Disse ela.

Tarla inclinou a cabeça, pegando a parte externa das vestes e colocando-a.

— Não mencionei vestido.

— Estou mencionando antes que alguém tente.

— Anotado.

— E se algum diplomata falar comigo como se eu fosse decoração, eu posso morder?

— Em Alderaan, preferimos respostas verbais antes de mordidas.

— “Preferimos”?

— Estou tentando incluir você na cultura da missão.

Ela quase sorriu.

Quase.

Mas dessa vez deixou que o quase ficasse visível.

“Diplomacia é cheia demais,” repetiu ela, pelo vínculo.

Tarla pegou a venda e dobrou-a com cuidado antes de guardá-la no bolso interno das vestes.

“Então aprenderemos onde há espaço.”

Rum'ea olhou para ele por mais um instante. Depois, ainda desconfiada, ainda confusa, ainda irritada por ter ido procurá-lo sem motivo e encontrado uma missão inteira esperando por ela, afastou-se da porta para deixá-lo sair.

Quando Tarla passou, manteve a distância exata para não obrigá-la a recuar.

O vínculo entre eles permaneceu quieto, protegido, sem que ninguém no Templo pudesse adivinhar o que se movia ali: a lembrança da lâmina verde, a constatação incômoda de beleza, o medo sem nome, o alívio sem nome, e, em algum lugar sob a estática de Kyrmora, uma curiosidade pequena começando a sobreviver ao próprio pânico.

Rum'ea caminhou ao lado dele pelo corredor silencioso.

— Alderaan tem comida boa? – Perguntou, depois de algum tempo.

Tarla olhava para frente.

— Excelente.

Ela considerou isso com toda a gravidade de uma Padawan prestes a enfrentar sua primeira missão diplomática.

— Então talvez eu morda menos.

— Um começo promissor. – Disse Tarla.

E, pelo vínculo, onde a voz dele era lago e a dela ainda era tempestade aprendendo a ficar imóvel, Rum'ea sentiu o sorriso dele antes de vê-lo.

Comentário da beta: Amando demais essa história! 🥹💙 A dinâmica entre Rum’ea e Tarla é simplesmente maravilhosa: ela toda desconfiada, afiada e pronta para morder qualquer um, enquanto ele responde com uma paciência quase irritante e um humor seco maravilhoso KKKKK.

Amei especialmente a construção do vínculo entre os dois. A trança, os pequenos objetos, as conversas mentais e até a meditação vão mostrando essa confiança surgindo aos poucos. E o Tarla??? Um querido. O homem ganhou uma Padawan que ameaça mordê-lo e simplesmente pensa “ótimo, vamos trabalhar com isso”. 😭 Já estou completamente investida nesses dois e quero muito acompanhar onde essa relação vai chegar!!



Continua...



Nota da autora: Sem nota.

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