Última atualização: 27/04/2021

Prólogo

— O nome dela é . - A mulher disse fraca, olhando para o bebê no colo do homem. — Ela verá o mundo, conhecerá as pessoas, terá uma vida normal… , seja feliz.
— Lília… - O homem apertou a mão da mulher. As mãos de Lília eram suaves, mas por causa da doença pareciam mais apenas ossos.
— Hades… - Ela olhou nos olhos pretos do homem. - Obrigada, muito obrigada. Ela é tudo que eu tenho… Cuide bem dela.
Aquelas foram as últimas palavras de Lília Diehl, ela faleceu minutos após dar à luz a sua única filha, . Hades ficou com o bebê nos braços. dormia tranquila, ela não herdará os cabelos dourados da mãe, muito menos os olhos esmeralda. Os olhos vermelhos de pareciam dois rubis e os cabelos tão escuros quanto a noite brilhavam à luz da lua.
— Obrigado, Lília. Eu vou cuidar bem da , durma tranquila. - Hades prometeu passando a mão pálida pelo rosto corado da mulher e então deu passos para trás, desaparecendo com o bebê.


Capítulo 1

Talvez um dente de leite não tenha sido suficiente.


Está escuro, não consegue ver nada, nem ela mesma. Ela anda, ouvindo seus passos que ressoavam por todo lugar. Não tinha começo, muito menos fim, não era um labirinto, muito menos um caminho reto. Ela está confusa, então se agacha com as mãos sob o joelho, tinha andado bastante.
"Eu quero sair daqui" choramingou.
Um ponto de luz se acende, embaixo de um poste de luz está uma garotinha conversando com uma pessoa que está no escuro. se aproxima se dando conta de que aquela criança era ela, estava segurando as mãos de uma pessoa e olhava nos olhos.
", essa é a sua nova casa."
Atrás dela tinha uma casa modesta, ela não conseguia ler o que estava escrito. Sua visão embaçou.
"Quero que viva uma vida normal, querida. A sua mãe queria isso também." O homem disse apertando de leve as mãos da criança. " Você não irá se lembrar, mas eu te amo muito."
"Eu também te amo muito, papai." respondeu junto da criança. Ela não sabia o porquê. "Sempre vou amar você."
"…" O homem hesitou.
"Hum?"
"Me desculpe."


!
acordou se pondo de pé, ela olhou em volta percebendo que estava na sala de aula no meio da aula história sobre a mitologia grega. Limpando uma baba seca no queixo dirigiu o olhar para o professor furioso a sua frente. ao lado segurava o riso, igual a grande maioria dos seus colegas.
— Me desculpa, professor. Isso não vai se repetir! - Assegurou envergonhada.
— Essa é a quarta vez nesta semana, senhorita . - O homem barrigudo disse sério. - Se está com tanta saudade assim do seu pai, então deveríamos chamá-lo.
— N-não, não é necessário! - nervosa tentou se desdobrar. Ela não queria atrapalhar o trabalho de seu pai com algo tão trivial. - Ele está muito ocupado por causa da nova exposição, ent...
— Com certeza irá arranjar um horário neste exato momento para poder conversar com o diretor. Fora! - Apontou para a porta.
— Por favor, por favor, professor. Eu não posso ir para a sala do diretor. - implorou desesperada. - Eu faço qualquer coisa, por favor.
O professor suspirou, não era uma má aluna, ela tinha notas boas o suficiente para entrar nas faculdades mais conceituadas do país. Mas nas aulas de mitologia grega sempre a pegava dormindo ou matando aula. Ela é filha de um pintor em ascensão, , ele tem bastante voz no colégio, além de fazer doações generosas.
— Muito bem. Se conseguir responder às seguintes perguntas corretamente, não irá para a detenção.
— Obrigada! - comemorou e, quando o professor virou, trocou olhares com .
Na frente da classe, olhou para todos enquanto o professor pegava uma folha contendo perguntas. Richard, esse é o nome do professor, ele tem 40 anos, Calvo, aproximadamente 1,74 não tendo muita diferença dos 1,72 de . Não tem filhos, muito menos esposa. Ele é o típico professor que gosta de ficar no pé do aluno por qualquer coisa, ainda mais no de , ela não tem mais dedos para contar o quanto ele já tentou a deixar na detenção.
— Primeira pergunta. - Ele disse alto e claro, enquanto andava pela sala. - Quais são os três deuses principais da Mitologia Grega.
— Zeus, Poseidon e Hades. - respondeu dando um sorrisinho. Apesar de ela dormir nas aulas, seu pai a faz estudar a parte em casa. Ele diz que é conhecimento essencial para ela.
— Correto. - Richard respondeu contra gosto. - Próxima.
Ele deixou um sorrisinho escapar por seus lábios finos. olhou para que parecia preocupada com algo.
— Por qual motivo Ártemis se tornou a protetora dos recém-nascidos.
— Pois ela ajudou no parto de seu irmão gêmeo, Apolo. - Respondeu confiante e agradeceu mentalmente seu pai.
— Quem decapitou a Medusa? - Tentando manter o controle de sua paciência, Richard continuou sem aviso prévio.
— Perseu. - deixou um sorrisinho escapar.
— Engoliu seus filhos após nascerem?
— Cronos. - A cara de triunfante estava estampada no rosto de , se sentia invencível.
— Muito bem, Senhorita . - Ele suspirou.
O sinal do fim da aula tocou. Todos se levantaram para sair e foi ao encontro de que logo agarrou o braço da garota e elas rumaram para fora da sala no meio dos outros.
***

colocou seus livros na mochila, não tinha mais tantos alunos no corredor já que as aulas já haviam terminado. tinha ido atrás do professor de Álgebra implorar para mudar a nota para B-.
— Sobrevivi. - Ela suspirou fechando o armário vermelho.
— AAAAAAAAAARGH!
escutou um grito no outro corredor, ela não percebeu, mas já estava correndo em direção do grito. Era normal para ela ajudar quem precisa, ela nunca se perdoaria se virasse as costas para alguém em apuros.
Ao chegar, viu três garotos do último ano e um deles ela reconheceu. Um garoto magrelo do primeiro ano está encostado no armário verde perplexo, uma de suas bochechas está ficando vermelha,
— Elliot! - Chamou se aproximando. – Deixe-o em paz!
Elliot e sua dupla de encrenqueiros são conhecidos no colégio desde o fundamental.
, já tem bastante tempo. - Ele debochou ficando frente a frente com ela. - Veio bancar a heroína?
Elliot é bem mais alto que , mas ela não deu passos para trás.
— Não cansa de atormentar os novatos?
— Hum… Não. É bem divertido na verdade. - Sorriu se abaixando para olhar nos olhos dela.
— Você! - Ela disse para o garoto encostado no armário. - Vai embora.
Ele apertou a mochila contra o peito e correu dizendo obrigado para a morena. voltou sua atenção para Elliot que tinha um sorrisinho no rosto.
colocou a mão nos bolsos da jaqueta branca e se virou para ir embora. Elliot segurou o braço dela, a virando para o encarar.
suspirou bem alto
— Não somos mais crianças. - Ela disse cansada e tentou se soltar do aperto dele, mas sem sucesso. - Elliot!
— Isso me traz boas lembranças do fundamental. Eu te empurrei da escada no sétimo ano, você quebrou a perna. Foi hilário ver a sua cara de quando ninguém acreditou em você quando disse que era eu. Mas então, , você criou força e autoestima o suficiente para me enfrentar.
sentiu algo, como se não tivesse que ter feito aquilo. Os olhos de Elliot, tinha algo nele, e esse sentimento é algo que nunca tinha sentido na vida.
com a outra mão segurou o braço de Elliot, o sangue fervia em suas veias, ela olhou de forma tenebrosa mostrando seus olhos cor de sangue através das lentes de contato verde. Ela não seria intimidada por ele, nunca mais.
— Me solta. - Ela disse fria ainda olhando bem fundo nos olhos dele.
— Eu te achei. - Ele disse e os olhos tomaram outra cor, um amarelo.
sentiu como se o mundo estivesse desabando. Um tremor chacoalhou a escola, as paredes vibraram, as luzes piscaram, enquanto os dois garotos da gangue de Elliot caíram no chão lá estava ela e o intimidador Elliot de olhos amarelos em pé. A batalha que tinha sido encerrada quando arrancou um dente — felizmente de leite — da boca de Jones. Talvez um dente de leite não tenha sido suficiente.
Durante anos ele vinha a ignorando mesmo que a garota defendesse a grande maioria de suas vítimas, ele nunca tinha esses olhos, ódio.
pensou nas mais malucas explicações, sendo uma delas: Talvez esse não seja Elliot?
'Não, isso é impossível!' constatou.
Elliot largou o braço dela, então cobriu com a mão o sorrisinho de felicidade. Passando a mão sob seus cabelos castanhos claros, ele riu e disse.
— Nos veremos em breve.
O garoto deu a volta e, assim que ele sumiu virando em outro corredor, se sentiu sem ar, ela procurou em sua mochila sua bombinha de asma. Achando o objeto, ela colocou na boca e aspirou.
Um alívio passou pelo seu corpo. Desde pequena ela tem problemas respiratórios, seu pai fica constantemente preocupado, pois o efeito diminuía cada vez mais.
Se virando para trás, ela viu pálida. Ela não se movia, apenas suava frio, parecia perdida em seus pensamentos.
, tudo bem? - colocou a mão sob o ombro dela.
— S-sim! - Ela respondeu sem olhar nos olhos de . - Você pode ir na frente, seu pai já chegou. Eu tenho que falar com o sr. Patrick, ele disse que vai mudar a minha nota.
e se conhecem desde o fundamental, foi a própria que a ensinou a se defender e não deixar que Elliot Jones pisasse nela. não gagueja, sob hipótese nenhuma. Então ver a garota daquele jeito foi totalmente novo para a morena.
— Que bom! Vou pedir comida chinesa pro jantar, sua favorita. - sorriu, mesmo que a outra não tenha visto. - Não se atrase.
Então a deixou, todos têm um dia ruim, e para não é diferente. Foi o que pensou.
Ela estava extremamente equivocada.


Capítulo 2

O fantasma do banheiro não me assusta.


Já tinha duas semanas desde o acontecimento. planejava evitar Elliot essa última semana do semestre, mas nem precisou. Elliot Jones tinha desaparecido, ninguém no colégio tinha o visto. Não que se importe com isso, ela até acha bom, porém, algo a incomoda bem lá no fundo. Aqueles olhos amarelos não eram humanos, não eram de Elliot, não daquele Elliot.
passou a noite inteira pensando nisso e foi nessa conclusão que chegou.
Era hora do almoço, ela estava sentada em uma mesa redonda com outras colegas de classe. não se fez presente, ela deu a desculpa que precisava fazer algo na sala dos professores.
está com a cara colada na mesa tentando tirar um cochilo, mas todo aquele barulho de conversa não a ajuda.
— Você ouviu falar do fantasma do banheiro? - Uma menina cochichou para a outra.
A morena levantou a cabeça, se espreguiçando e, então, prestou atenção na conversa das garotas que ela mal lembrava o nome.
— Do que vocês estão falando? - cochichou brincando.
— Você não sabe? - A garota A olhou surpresa para .
negou com a cabeça, ela não ligava muito para fofocas, mas de certa forma aquelas garotas tinham muitas informações, como aquela.
— No banheiro feminino no fim do corredor, as meninas disseram que tem um fantasma. Elas dizem que as luzes se apagam do nada, as portas ficam balançando, o espelho embaça e, quando se percebe, tem algo escrito. - A garota C contou com certo temor.
— Mas o banheiro não tinha sido interditado? - perguntou entediada fechando os olhos pensando.
— Sim. - A garota se levantou inclinando o corpo para chegar perto de que abriu novamente os olhos, prestando atenção na garota. Ela cochichou. - Dizem que o banheiro foi interditado por causa desse fantasma. Parece que uma garota da turma D se machucou.
— O quê? - perguntou incrédula.
— Eu ouvi que o nome dela é Madson Travis, aquela novata das líderes de torcida.
tentou controlar sua ansiedade tomando um pouco de seu suco de morango.
— Você adora histórias de fantasma, não é? - A garota B perguntou ao lado de .
Para , quando criança, os fantasmas eram mais como gasparzinho, porém, ao longo dos anos, ela aprendeu que existem fantasmas bons e ruins. Não é ruim pregar peças e assustar os outros, são coisas de fantasma normais. No entanto, é diferente quando ele machuca alguém, isso quer dizer que ele vai se tornar um fantasma maligno e ter poder o suficiente para machucar mais pessoas.
— Sim, de certa forma.
Ela consegue ver fantasmas desde que se conhece por gente. O pai de ficava assustado quando ela conversava com um ou queria apresentar o fantasma para ele. Afinal, tem medo de fantasmas. Mas a pequena não sabia naquela época.
A morena parou de conversar com fantasmas na frente do pai depois de crescer mais, além de também os ajudar a atravessar para o outro mundo, ela tem esse poder e só tomou consciência aos 12 anos.
Foi nessa época que Ariadna recebeu uma adaga totalmente preta e com um rubi incrustado de presente de aniversário. disse que era presente de uma pessoa muito importantes, mas ela nunca soube quem era.
, o horário do almoço acabou. - A garota B tocou o ombro de que estava descoberto pela jaqueta. - Você está um gelo, está tudo bem?
— Sim, sim. Não se preocupe. - deu um sorriso se levantando e ajeitando a jaqueta. - Vocês vão na frente, eu preciso ir em um lugar.
— Tem certeza? Hoje é aula de Latim. - A garota A disse. deu um sorrisinho como modo de pedir desculpas. - Tudo bem, nós vamos dar uma desculpa para o professor, mas só dessa vez!
— Vocês são as melhores!
— Nos falamos na aula de artes. - A garota C disse.
— Tudo bem. - deu um tchauzinho com a mão para as garotas antes de ir no caminho contrário do que elas foram.
Ariadna foi até o corredor onde fica o banheiro. As salas que ficam próximas são a D e a E. Felizmente todos estavam no laboratório de ciências no 3º andar. A morena ficou de frente a porta do banheiro trancada com fitas amarelas de plástico atravessadas nela com as palavras 'Não ultrapasse'. Sem pensar duas vezes arrebentou as fitas e entrou, deixando a porta aberta.
O banheiro não era tão grande, tem cinco cabines e as pias ficam de frente fixas ao mármore branco. O enorme espelho na parede se estende até próximo a janela que fica perto da última cabine. As paredes vermelhas combinavam com a cor das cabines ou vice-versa.
— Ugh! - tampou o nariz ao sentir o fedor daquele lugar. Tinha tanto tempo assim que não limpavam? Talvez nem o pessoal da limpeza queira entrar aqui.
Ela foi até a janela perto do último box e a abriu, o vento fresco entrou dissipando um pouco o odor. se virou e olhou para baixo sentindo seu tênis molhado, o chão estava molhado e a água parecia vir da cabine a sua frente. Respirando fundo, a morena se aproximou empurrando a porta ouvindo o barulho das dobradiças que pareciam não ver óleo a um tempo.
A água vasava para fora do vaso, mas o que aquilo queria dizer? Ela não conseguia entender. Então, ela escutou a porta de entrada fechar e logo ser trancada.
As luzes do banheiro explodiram, ela viu o teto rachar, de lá saiu um fio que logo reconheceu ser de eletricidade. Ela subiu para cima do balcão de mármore onde ficam as pias. O chão cheio de água agora estava carregado com eletricidade, ele conseguiu limitar o espaço dela.
não conseguia ver o fantasma, isso quer dizer que ele não quer se mostrar. Mesmo fantasmas podem controlar para quem aparecer, pessoas sensíveis como a garota conseguem sentir a presença deles.
— Meu nome é Ariadna. - Ela começou. - Ariadna Lily , você está preso nesse mundo e ainda mais nesse banheiro, deve ser horrível e solitário. Se você me permitir posso lhe ajudar a atravessar para o outro mundo que é um lugar melhor.
Silêncio.
Um tremor na bancada da pia. Ariadna olhou para a primeira torneira da fileira vendo-a tremer.
O único chuveiro do banheiro abriu, a água quente saindo começou a encher o local com vapor. A morena ouviu a janela que tinha aberto fechando brutalmente ficando com uma enorme rachadura no vidro.
'Ótimo!' Pensou cansada, tentando. Aquela situação era totalmente diferente de todas as que ela já tinha vivido.
O espelho ficou totalmente embaçado por conta do chuveiro de água quente aberto, e com dificuldade palavras foram escritas.
'Fuja. Saia daqui'
olhou para todos os lugares, mas nada foi visto, só ficava cada vez mais difícil de respirar. Tirou sua jaqueta branca e enrolou em seu punho. Antes que ela pudesse quebrar a janela, um barulho agudo de algo arranhando o vidro do espelho soou, ela cobriu os ouvidos com as mãos e olhou para trás, as palavras de antes foram apagadas do espelho dando lugar a novas.
'Eu vou te matar'
Escrita, pegando metade do espelho e letras grandes.
Ariadna quebrou a janela sem pensar duas vezes, ela não tinha rota de fuga a não ser aquela. Aquele é o segundo andar, mas a distância até o chão era enorme. Era suicídio.
Batidas violentas foram ouvidas vindo da porta. Alguém queria desesperadamente entrar.
O chão estava cheio de água carregada de eletricidade, Ariadna estava coberta de suor por conta da quentura vinda do chuveiro. Ela jogou a jaqueta para baixo, não tinha ninguém naquele lado do colégio, ainda mais àquela hora. Sentindo o ar fresco do lado de fora, a morena escutou passos vindo em sua direção, ela se apressou ficando no batente olhando para baixo.
— Senhorita, vá! - Ela olhou para trás, vendo um fantasma lutando contra si mesmo. Metade do seu corpo é coberto por algo preto que parecia doloroso. - Fuja!
Ariadna estendeu a mão esquerda para o fantasma, ela precisa tocar nele para poder livrar esse mal temporariamente. Ela disse para o fantasma se aproximar em sua forma atual, ele levantou a mão trêmula. Está a centímetros.
— Vamos!
Ele segura a mão de agonizando. A garota profere as palavras que vinham em sua mente em grego.
— Libertar! - Ela disse e o lado tomado por uma mancha preta subiu no ar. O fantasma arfou aliviado como se tivesse sido liberado de um estrangulamento.
Antes que a morena pudesse contar vitória, aquela mancha preta se transformou em uma sombra. Foi tudo muito rápido, a sombra tocou o braço esquerdo dela, deixando a marca de uma mão, aquilo queimou a pele de como lava, ela perdeu o fôlego por alguns minutos. Sentiu seu corpo tentar ser tomado, mas um estranho colar que estava envolto ao seu pescoço, pulou para fora de sua camiseta preta. O colar provocou uma luz, afastando a coisa, porém se desequilibrou e caiu.
Tudo passou rápido, mas antes que chegasse ao chão algo segurou seu pulso. Ela ouviu a pessoa gemer de dor, olhou para cima vendo uma mão marrom e então, cabelos cor de mel cacheados, era…
!
… Agarre! – , com toda a força que tinha, começou a trazer a garota para mais perto da janela. Ela tinha colocado quase todo seu corpo para fora para poder salvar .
, mesmo com dor no outro braço, alcançou a parte de baixo da janela, com o resto da força e ajuda da amiga, conseguiu subir e caiu no chão gelado. Sentiu seu coração bater tão alto e tão rápido que com certeza conseguia escutar.
A garota riu alto e descontroladamente, lágrimas desceram de encontro ao azulejo branco. Tudo era surreal demais, parecia impossível e interessante. Um fantasma sendo possuído por algo, ela nunca tinha visto algo daquele tipo antes. Em sua lista mental de coisas para fazer antes de morrer esse tópico foi adicionado, era o começo de uma batalha.
***


— Ariadna Lily , você é maluca! Doida! Pirada! - brigava enquanto limpava os cortes feitos por vidro na mão de . - E se eu não tivesse te pegado?!
, calma! - ainda tinha um sorriso no rosto e um pouco de adrenalina em seu sangue. - Eu já te falei muitas e muitas vezes, eu não tenho medo de morrer, muito menos tenho medo de algo.
— Esse é o problema, Ariadna! Se você não tem medo, como vai evitar de fazer essas loucuras que faz?! Se o tio sabe dessa…
, você tem que me prometer que não vai contar para o papai. - olhou sério nos olhos cor de mel de . A cacheada baixou a cabeça concordando a contragosto. - Ótimo, obrigada.
— Mas, , você tem que me prometer que não vai fazer uma loucura dessas, de novo. - colocou gases e então enfaixou a mão da mais nova. - Me prometa, !
— Tudo bem, tudo bem. - cedeu irritada.
Bem, aquilo era meio mentira, tinha que voltar lá e enfrentar aquilo de um jeito ou de outro. Sentindo a marca em seu braço arder ela olhou, estava ficando pior que antes. Ela se afastou de antes que a garota tocasse na marca com o algodão ensopado de soro fisiológico.
— O que é isso? - perguntou vendo a marca no braço da garota.
— Eu não sei. Ele me tocou e essa marca ficou. - Ela respondeu enquanto olhava melhor para a marca. - Nunca tinha visto isso antes.
— Você tem que começar a tomar mais cuidado, . - falou guardado o kit de volta ao armário de vidro.
Elas estão na enfermaria, é um pouco maior que a sala, tem várias camas com lençóis brancos, cortinas de divisão, um armário cheio de remédios e acessórios médicos. O professor de Álgebra com o qual estava, conhecido como senhor Fawley, permitiu que as duas ficassem lá para evitar escândalos maiores. Apesar de não ser fã de Matemática, tinha certeza de que o professor é gentil e se preocupa com elas. Mesmo que quem o veja mais é .
As paredes totalmente brancas deixavam tonta, como se tivesse sido pega em um redemoinho. Se levantou sendo amparada por , mais uma vez.
— Deuses. - disse apoiando da melhor forma que conseguia. - Você precisa descansar.
— Eu estou bem! - sentada na cama protestou. - Aliás, eu preciso de um favor.

***


Ariadna se sentia estranha, o seu estômago se remexia e a dor no braço parecia não desaparecer. Ela gemeu de dor, felizmente ninguém escutaria, está sozinha no quarto depois de dar a desculpa para a governanta que estava cansada.
— Isso não é nada bom. - Disse a si mesma.
Ela se sentou na cama, apenas a luz do abajur iluminava o quarto da garota. olhou em volta, parecia vazio. Já tinha três anos que se mudou para outro quarto, já que as garotas cresceram, disse que seria melhor elas terem quartos separados. Ariadna gostava de ter o quarto só para si, mas sentia falta da companhia da mais velha.
Atrás de tem várias fotos grudadas na parede branca, muitas delas são da garota e o pai, e outras com . As fotos de quando era criança são poucas, ela só tem de quando tinha oito anos em diante, talvez seja pelo fato dela ter sido adotada com essa idade. A garota não se lembra dos seus pais, não sabe quem são e muito menos quer saber quem são, eles a abandonaram na frente do orfanato com apenas uma pequena placa de identificação onde tinha seu primeiro e segundo nome e idade. Sua data de nascimento estava um pouco apagada, então seu pai tentou ao máximo descobrir quando era.
E bem, ele descobriu, pelo menos metade.
"Primeiro de Abril, o ano presumido é 1990."
Ela pegou a foto em cima da sua escrivaninha ao lado da cama, é a primeira foto que ela tirou com o pai. Foi no dia que ele comprou a casa em que eles moram até hoje, em College Points. Eles estão na frente da casa, carrega a pequena no colo que está com um enorme sorriso no rosto.
Essa foi a primeira memória em seus oito anos de vida.
'Toc Toc'
Duas batidas foram ouvidas de sua porta, ela se levantou, pegando um cardigã para cobrir a marca e então abriu a porta.
— Pai! - exclamou surpresa. Ele não devia estar em casa esse horário.
, apesar de seus quase 40 anos, seu rosto não mostra nada disso, suas leves rugas nos olhos apenas denunciavam que era mais velho. Seus cabelos curtos são tão escuros quanto de , olhos verdes como um campo no verão, a pele branca que, apesar de passar mais tempo dentro de um ateliê, ainda é mais escura que a de .
Apesar da diferença no tom de pele, se Ariadna colocar as lentes verdes ela se parece com o pai.
? - Ele perguntou virando a cabeça de lado para olhar nos olhos da filha. - Tudo bem, querida?
— Hã? Sim, sim. - Ela respondeu, tirando aquele pensamento de sua mente. Deu passagem para o pai entrar, então fechou a porta atrás de si. - O senhor não costuma chegar tão cedo em casa, algum problema?
— Hum… - Ele, com as mãos atrás das costas, andou pelo quarto da garota observando tudo. Pegou em mãos uma medalha dourada que estava pendurada junto a um troféu. - Lembra de quando ganhou essa medalha?
— Foi na competição de Artes no fundamental. Eu desenhei um jardim muito bonito. - Ela lembrou do que era, mas não como era.
— E esse troféu? - Ele apontou para o enorme troféu dourado.
— Primeiro lugar no campeonato juvenil de Arte. Mas acredito que o senhor não está aqui para ver meus prêmios, eu sei que a grande maioria fica no seu ateliê.
— Você me pegou. - Ele riu fraco logo sorrindo sem jeito para a garota. - Eu sei que você talvez não queira me contar algumas coisas... E eu respeito seu espaço pessoal. Só que às vezes me pego pensando no seu futuro.
— Meu futuro?
… - Ele se aproximou e tocou o ombro da garota. - me disse que esse ano nas férias de verão, ela vai voltar para o acampamento.
— Ah... Ela não me disse nada disso. - respondeu triste. Quando elas eram crianças, disse a garota que sua mãe é instrutora em um acampamento de Verão em Long Island, mas por causa de várias situações, a mais velha teve que vir para o Queens estudar e a acolheu todos esses anos. - Já tem muitos anos que elas não se veem, então fico feliz por ela.
— Você vai com ela. - disse por fim. - O acampamento vai ser bom para você.
— Mas eu não quero ir. Por que não vamos visitar a vovó nessas férias? Ela sempre liga perguntando quando vamos ver ela e o vovô. - Tentou mudar de assunto aflita.
— Não é um pedido, Ariadna, é uma ordem.
— Mas.... Por quê?
— Quando chegar lá, você vai entender. - Ele respondeu melancólico. – Por favor, obedeça a seu velho pai, só dessa vez.
— Mas a exposição… O senhor estava tão animado em me levar!
— A situação mudou! – Berrou, mas logo baixou a cabeça pedindo desculpas. – Querida, não estava nos meus planos, mas…
— …Tudo bem. – Ela respondeu baixo.
Beijando o topo da cabeça da filha, saiu do quarto, enquanto ainda pensava em tudo que estava acontecendo. Estranho, tudo aquilo era estranho, algo em sua mente gritava que tinha algo errado. Seu pai sempre fez de tudo para ficarem juntos, encontrar um colégio a poucos metros de seu trabalho, colocar seu ateliê em um enorme quarto no 2º andar da casa que é onde o quarto dela fica, passarem as férias juntos em algum lugar dos estados unidos, mas agora, ele a quer mandar para um acampamento de verão em Long Island?
Que situação tinha mudado? Como ela entende algo em um acampamento? Se tinha algo que ela odiava era acampamentos.
Voltando a se sentar na cama com uma dor latejante em sua cabeça.
"Acampamento…"
Mais dor.
— Argh! - Segurou sua cabeça entre as mãos.
"Me desculpe."
Alguém disse fazendo seus tímpanos doerem.
— Não…
Ela estava conseguindo suprimir a voz.
"Acampamento Meio-Sangue"
Ela fechou os olhos sentindo o sangue escorrer por seu nariz. Então contou, aquilo sempre funcionava.
— 1...
""
— 2...
""
— 3...
"4"
Ela abriu os olhos, não reconhecendo onde estava, tinha muitas árvores enormes e mato. A sua frente uma grande faixada escrita Acampamento Meio Sangue. Sentiu um aperto em sua pequena mão, olhou para cima vendo um homem de cabelos pretos médios e pele pálida.
"" Ele começou, se virando e ajoelhando de frente para a garotinha. "Esse é o acampamento Meio Sangue."
"Acampamento Meio Sangue?" A garotinha perguntou, alternando o olhar entre a grande entrada e o homem.
"Eu espero que você nunca precise vir para cá, querida. Mas, se um dia, isso acontecer, não deixe ninguém te fazer mal."
"Certo!" A garotinha respondeu com convicção. "Mas se eles me tratarem muito mal, eu posso voltar para casa?"
O homem abraçou a pequena bem forte.

***


não conseguiu dormir, aquele pesadelo a fez suar frio e pensar a noite inteira. Era algo recorrente, dormir para ela é um luxo do qual não pode desfrutar. Ela não conseguia entender seus pesadelos, e o porquê de eles serem pesadelos.
“Um homem. É sempre esse homem, essa pessoa. Quem é? Por que eu sonho com ele?”
Muitas perguntas rodavam sua mente e toda vez que tentava lembrar de algo específico sua cabeça doía como se quisesse explodir. A bolsa escura embaixo de seus olhos vermelhos é o resultado de uma semana sem dormir direito. tem a sorte de que seu cérebro não aguenta a falta de sono, então ela aproveita quando ele a desliga.
Ou seja, ela desmaia de cansaço.
Mensagem —
pegou seu celular de cima da escrivaninha, ela estava sentada na ponta da cama olhando para o lado já tinha cinco minutos.
“Não vou questionar o porquê de você ter me pedido para vigiar a Madson, mas nada de anormal aconteceu com ela. Me deve um café da manhã completo.”
não respondeu, talvez ter mandado a amiga vigiar a garota tinha sido demais. Seu cérebro parecia não querer funcionar direito, tudo estava escuro, fora de atividade.
— Eu estou enlouquecendo de verdade dessa vez. - Se levantou ouvindo o barulho do cordão em seu pescoço, ela segurou com força sentindo algumas lágrimas em seus olhos querendo descer por sua bochecha gelada. - Louca e chorona, ótimo…
Momentos como esse, não mostraria para ninguém, seu coração não a deixava ser tão fraca na frente de outra pessoa.

***


Era cedo, bem cedo, mas o colégio já estava aberto. saiu de casa sem falar com seu pai, ela estava chateada por causa do que ele tinha dito, apesar do que o homem tinha dito, ela não queria ir a um acampamento de verão.
“Acampamento de Verão...”
Uma pontada em sua cabeça. Ela parou de pensar e olhou para seu café da manhã: um suco de laranja, panquecas feitas na hora e com melado por cima, uma torta de morango para acompanhar e melhorar seu humor.
“Torta de morango, a minha favorita!”
Tomou um gole de seu suco geladinho, sentindo sua mente clarear. Um bom dia, sim, será um bom dia. Não tinha muita gente na cantina naquele horário, apesar dos alunos que moram longe geralmente chegam cedo e tomam café lá mesmo por um preço aceitável. O espaço é bem grande para acomodar grande parte dos estudantes, além de ter várias mesas do lado de fora também.
... - A garota sibilou, sentando-se de frente para a mais nova, puxando o prato de panquecas e o suco para si.
— Ah… - Triste, olhou para a sua frente. - Eu também não tomei café da manhã ainda.
— Eu mereço depois de ficar a noite toda na casa da árvore da Madson ouvindo-a falar baboseira com as amigas. - Cortou um pedaço grande da panqueca e então apontou para com o garfo. - Para que os óculos?
tinha colocado óculos escuros enquanto seus olhos não desincharam por ter chorado mais cedo. Claro, não teria problema saber, mas ela não queria falar sobre.
O longo silêncio de foi o suficiente para a cacheada saber que a morena não responderia, muito menos falaria sobre. Se ela aprender algo com Ariadna , é não forçar a barra, ela vai contar quando sentir que precisa.
— Como é o acampamento?
terminou de mastigar e então ponderou olhando para a amiga.
— É bem grande, tem muitas crianças e enormes chalés. - disse, não é como se fosse descobrir só com essas especificações. - Tem várias atividades, um lago bem grande e um campo de morangos.
— Campo de Morangos?
— Sim, eu sei que você gosta de morangos, vou roubar alguns para você. - Sorriu rindo.
sempre teve um enorme sorriso no rosto, mas aquele é bem diferente, os olhos de sua amiga brilham quando fala do acampamento. não fazia ideia de que ela sentia tantas saudades da sua casa. Aquela seria a primeira vez em anos que a garota voltava para seu lar, não queria ser estraga-prazeres, nunca acabaria com a alegria de uma das pessoas que ela mais preza. Enquanto a cacheada continuava contando sobre seu lar, escutava e fazia algumas perguntas vez ou outra.
— Eu costumava correr de um lado para o outro com os outros, subia nas árvores, desafiava outros chalés. Espero poder dividir o chalé com você.
— Em que chalé você ficava?
— Chalé 15, meus primos o dividem comigo.
— Primos?!
Apesar de serem amigas há anos, nunca comentou sobre ter primos, na verdade não fala muito sobre sua família. não sabe o que é ter primos, a família dela se constitui por apenas seus avós, seu pai e ela. É bem pequena.
— Quatro, o mais velho é o Clóvis, o segundo é o David apesar de ser apenas alguns dias mais velho que o Willie. O mais novo é o Levi, ele foi contra eu sair do acampamento já que eu era muito nova, mas já faz cinco anos. - riu terminando o suco e olhando para o relógio em seu pulso. - Eu tenho que ir.
— Treino de basquete? - perguntou.
— Sim, apesar de não ter dormido, me sinto com bastante energia. - Se levantou pegando a bandeja em mãos. - Não esqueça que o jogo é hoje à noite.
— Como eu poderia esquecer? - riu nervosa. Ela tinha esquecido completamente. – Vão, Queen Bee!
A morena se levantou, sentindo sua cabeça rodar, se segurou na mesa, fechando os olhos. Respirou fundo. Desde a noite passada, sentia um grande vazio em seu coração, como se ela tivesse perdido algo muito importante, mas o que?
Sua mente estava confusa, aquilo são memórias? Não… Impossível!
Memórias…
"Memórias perdidas"
Uma voz disse em sua mente, ela se assustou abrindo os olhos. Ainda estava no refeitório quase vazio, as cozinheiras conversavam sobre algo animadas. voltou a se sentar, com sua cabeça latejando.
Ela alcançou o colar dentro de sua camisa e o puxou para fora o apertando.
— Memórias perdidas. - Repetiu.
"Perigo".
"Perigo".
"Perigo".
"Perigo".
— O que está fazendo? - Ela sentiu um arrepio subir sua espinha ao ouvir a voz.
Era como se tivesse uma enorme sirene de alerta em sua cabeça, estava apitando cada vez mais alto. Ela se virou, vendo Elliot, já tinha tempo que não o via, o ar ao redor dele parecia diferente.
"Olhos castanhos…"
— Está tudo bem? - Ele perguntou sentado no banco ao lado.
— O que você quer? - perguntou, sentindo a sirene em sua mente ainda a incomodar. Aquilo estava piorando seu humor.
— Eu estava te procurando. - Ele disse sem olhar nos olhos. Aquilo de fato é incomum. - Aquele dia no corredor… Me desculpa.
deixou um riso debochado escapar, aquilo realmente era sério? Elliot Jones estava mesmo se desculpando com ela? Se levantou, sentindo sua cabeça doer mais. Elliot a olhou assustado.
— Quem é você? - Ela perguntou, batendo a mão na mesa, se aproximando do rosto dele.
Algo mudou no rosto do garoto por uma fração de segundos, ela pode ver claramente. Elliot nunca pediu desculpas por ter feito bullying com ela no fundamental e muito menos quando quebrou a perna dela. Se ele tivesse consciência pediria perdão por essas duas coisas e não por aquela besteira.
— Eu sou eu. - Ele respondeu.
As pessoas dizem que os olhos são a chave para a alma e naquele momento, ela comprovou isso. A alma do garoto estava deturpada.
"Perigo"
— Tenho que ir. Adeus. – Ela se afastou sentindo como se algo a repelisse de perto do garoto naquele momento.
Se virou, indo até a saída, estava a poucos metros à sua frente.

Elliot era arrogante e violento, mas não mentiroso. Nunca mentiroso. Mas por que sua alma estava daquele jeito?
Ela foi até a saída de emergência e se sentou na escada, pegou a bombinha de dentro de sua jaqueta de couro e levou até a boca conseguindo respirar. Algo estava acontecendo as suas costas, ela não conseguia raciocinar direito por causa da maldita dor em sua cabeça. Felizmente a sirene tinha parado, mas algo em seu coração a fazia hesitar, ela sente como se estivesse encurralada.




Continua...



Nota da autora: Sem nota.

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