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Última atualização: 20/02/2021

Prólogo

Não é como se a corrida fizesse parte de seu DNA desde o começo. Não é como se desde o berço fosse fascinada por carros, mas tudo relacionado a esportes chamava a sua atenção.
Sempre foi mais espectadora do que praticante e entre as partidas de futebol, vôlei e basquete que assistia quando tinha a chance, acompanhar as corridas de Fórmula 1 todos os domingos virou um hábito que adquiriu com o seu avô, Luís.
Com 8 anos assistiu a sua primeira corrida completa pela TV e não parou mais. Amava falar sobre os carros com o mais velho.

morava em uma casa simples, num bairro simples de São Paulo, juntamente com seus pais e seu avô, que antes morava em outra casa no mesmo bairro, mas após o falecimento da esposa ele passou a dividir o teto com o resto da família para que não ficasse muito sozinho.
Também em seu bairro havia um kartódromo que costumava receber bastante gente aos finais de semana. As pessoas alugavam karts para correr por 30 minutos ou 1 hora por puro lazer, sendo que às vezes aconteciam algumas etapas de campeonatos amadores por lá. Durante a semana, era comum que a pista ficasse à disposição para algumas equipes amadoras que usavam o espaço para treinar.
já tinha ido algumas vezes com os pais assistir algumas competições, mas só virou um hábito quando completou 12 anos e seu avô passou a levar a garota para o kartódromo todos os domingos após as corridas de Fórmula 1. Juntos, eles comiam pipoca e tomavam refrigerante enquanto assistiam as pessoas pilotando de um lado para o outro.
Foi no ano de 2009, que tudo mudou na vida de de uma maneira que ela não poderia prever. Era um domingo como outro qualquer, o kartódromo estava cheio e seu avô exibia um sorriso sorrateiro no rosto. Foi só quando terminaram de ver a última bateria de corridas, que ele se virou para a garota com um brilho no olhar.

— Falta poucas semanas para seu aniversário de 14 anos e faz muito tempo que eu venho planejando algo especial. Como no dia do seu aniversário iremos celebrar em casa, eu pensei em adiantar o meu presente.
— O que é vovô? — Disse mergulhada em curiosidade.
— O que acha de correr em um daqueles? — Apontou para os karts na pista e arregalou os olhos.
— Seria incrível, vovô! Mas é muito caro pra correr num desses. Eu já pedi para a minha mãe e ela disse que não é acessível para todo mundo.
— De fato é um pouco caro, mas eu venho guardando dinheiro faz um tempo, porque eu queria que você aproveitasse de verdade e como nunca entrou num desses antes vai precisar de um tempinho para se acostumar. Então, eu tenho o suficiente para 1 hora e meia. Eu conversei com o Sr. Francisco e ele deixou que você corresse no último horário do dia, que é quando está mais tranquilo. O que me diz?

Ele nem precisava esperar por uma resposta, a garota já comemorava antes mesmo que ele terminasse de contar tudo. O idoso foi arrebatado por um abraço apertado, seguido de infinitos dizeres de “muito obrigado”, que não poderiam nunca expressar de fato toda a gratidão que a menina sentia.
Quando chegou o momento, teve a experiência completa. Desde vestir o uniforme, até receber instruções de como dirigir e como funcionavam as coisas na pista. A animação dominava todo o seu corpo. Estava acostumada a assistir e não a ser quem estava atrás do volante. O mais próximo que esteve de se aventurar com carros foi nos carrinhos de bate-bate.
A adrenalina que sentia parecia se espalhar por cada músculo de seu corpo no momento em que acelerou dentro do kart. No início, sentiu um pouco de medo, mas depois aquilo se transformou em uma vontade absurda de permanecer imersa naquela sensação única. Seu coração estava disparado, mas seus olhos estavam cravados na pista como se fosse um predador atrás de uma presa. Ela não ouvia nada do que acontecia ao redor, nem mesmo os aplausos e gritos de incentivo de seu avô podiam ser notados.
Enquanto a garota de 13 anos dava voltas e voltas na pista, o Sr. Francisco, responsável pelo kartódromo, se aproximou do avô de esbaforido.

— A sua neta corre em algum lugar? — Questionou sem tirar os olhos do carro número 54.
— Não. É a primeira vez que ela dirige um desses. — Comentou, também atento a cada movimento da neta.
— Então, ela é um talento raro. Sei que é um esporte complicado, mas vocês deviam investir nela. A garota tá engolindo os outros dois garotos que estão na pista e eles correm aqui há pelo menos quatro anos. Acho que estamos diante de alguém com um futuro muito promissor. Eu sinto isso.

O palpite do Sr. Francisco estava mais do que certo. Assim que deixou a pista e foi em direção aonde estava seu avô e o responsável pelo kart, desatou a falar sobre tudo o que sentiu e de que era aquilo que ela queria fazer.

— Minha neta, não temos como te enfiar em uma equipe, você sabe das nossas condições. — Explicou Luís.
— Não preciso de uma equipe agora, eu só quero correr, vô. Podemos fazer um acordo com o Sr. Francisco. Ele me deixa correr na pista algumas vezes na semana quando estiver vazia ou com pouca gente como hoje. Meus pais pagam metade da mensalidade e eu venho todos os dias após a aula ajudar a cuidar do kartódromo. Eu posso limpar os karts, varrer a pista, organizar as coisas nos cadastros, verificar os uniformes, eu faço qualquer coisa! Eu só preciso correr, vô! Eu não sei explicar o que eu senti, eu só sei que é uma sensação que eu quero ter pelo resto da minha vida. Eu quero correr. Por favor, vô! — Juntou as mãos em uma súplica.
— Mesmo se o Francisco aceitar essa loucura, pagar meia na mensalidade ainda é um valor alto para nós, meu amor. — Não queria despedaçar os sonhos da neta, podia ver no olhar da garota o quanto ela desejava aquilo.
— Nós damos o nosso jeito. Eu posso fazer alguns doces e vender pelo bairro com a mamãe. Você sempre disse que nós somos o melhor time e o melhor time não desiste nunca. Temos que tentar!
— Ela tem razão. — Francisco se enfiou na conversa. — Dá pra ver o quanto ela quer isso e o quanto ela é talentosa. Eu já vi muitos passarem por essa pista, mas poucos como ela. Eu aceito as condições dela caso queiram tentar.
— Muito obrigada, Sr. Francisco! — abraçou as pernas do senhor, que assim como seu avô também tinha cabelos brancos, apesar de ser mais novo que Luís.
— Tudo bem, mocinha. — Sorriu seu avô, colocando o indicador na ponta do nariz da neta. — Temos que convencer os seus pais e é você quem vai argumentar com eles.
— Obrigada, vô! — Se enfiou nos braços que sempre lhe deu uma sensação de conforto e segurança. — Eu vou convencê-los!

Não foi fácil, mas três semanas depois de sua primeira experiência com um kart, já estava dentro do número 54 mais uma vez e isso passou a se repetir com frequência. Até que perto do final do ano, Francisco sugeriu que a garota se inscrevesse em dois campeonatos curtos de kart amador que ocorreriam na cidade. Ele cederia o carro para que ela competisse, mas sua família tinha que arcar com o deslocamento. conseguiu números expressivos em ambos os campeonatos, terminando na sexta colocação na primeira competição e na quarta colocação na segunda.

No começo de 2010, se uniu a uma pequena equipe amadora de kart.
Para ajudar e sua família, o Sr. Francisco - que se auto proclamava como o “patrocinador de baixo orçamento” da garota - vendeu o kart número 54 em diversas parcelas para os pais de , desse modo, ela poderia se juntar à equipe. Mesmo não vencendo nada com o carro que tinha, ela tirava o melhor que podia do mesmo e isso não passava despercebido por ninguém. A garota sempre brigava forte no meio do pelotão e chamou atenção de uma equipe profissional da modalidade, que também era pequena, mas tinha visibilidade.
De 2011 a 2012, disputou nos principais campeonatos de kart do país. Para que pudesse fazer melhorias no carro e também contribuir com os custos gerais, abriu mão de seu pequeno salário na equipe.
Seus pais sabiam que devido a realidade, o único modo para que ela continuasse correndo era esse, além de sempre estarem colocando uma quantia significativa de todo o seu pagamento no que fosse necessário para ajudar no desempenho da filha.
Todo o esforço gerou resultados surpreendentes, a garota conseguiu chegar no pódio diversas vezes na terceira colocação, além de ter beliscado quatro vitórias em dois anos competindo no profissional.
se destacava pela sua garra e perseverança, também por ser a única mulher na pista em grande parte das vezes em que competiu, o que fazia a sua presença ser sempre notada.

O primeiro passo internacional veio no final de 2012, quando o chefe de uma pequena equipe europeia - que estava participando de uma etapa curta em Interlagos -, viu o desempenho da brasileira e se apresentou a ela. A equipe de kart de ajudou bastante na comunicação e membros de equipes maiores fizeram a gentileza de checar as informações dadas pelo tal chefe, apenas para confirmar a veracidade do que foi apresentado. Descobriu-se que a XTR era uma equipe inglesa, que estava há apenas 3 anos competindo profissionalmente nos campeonatos europeus e com a expansão da equipe estavam em busca de novos talentos internacionais.
Depois de muitas conversas e acordos, decidiu arriscar e em 2013 foi para um país completamente novo no auge de seus 17 anos.
Deixar os pais, o avô e o Sr. Francisco para trás, além de todos os seus amigos, foi a parte mais difícil, mas era o seu maior sonho se tornar uma grande piloto e sabia que teria que abrir mão de muita coisa em prol disso.
Após passar dos testes e integrar oficialmente a equipe, em seu contrato de dois anos, aceitou correr pela XTR sem receber pagamento, já que a equipe era novata e pequena, ela queria que todos os recursos possíveis fossem usados para melhorias no carro. A única coisa que precisavam fazer era garantir moradia, comida e todo o suporte necessário para treinos e questões médicas.
Em seu primeiro ano pela XTR, ganhou algumas corridas de campeonatos regionais e seu auge foi o décimo lugar conquistado no Campeonato Mundial de Kart.

Em 2014, recebeu o apoio da família Fittipaldi, que após saberem da história de , contribuíram com um apoio financeiro significativo e também conseguiram o contato de um bom agente para cuidar da carreira da jovem.
Brett Hughes era inglês e tinha muita experiência no ramo do automobilismo, tendo ajudado na carreira de diversos pilotos que brilharam em categorias como a Indy, Formula E, Formula 1 e Nascar. Tendo alguém agenciando a sua carreira, possibilitou que a brasileira pudesse focar ainda mais nas corridas. Por isso, em seu segundo ano de XTR, venceu três dos seis campeonatos de kart regionais que participou, além de conseguir um excelente segundo lugar no Campeonato Mundial de Kart.
Em 2015, ingressou na Formula 3 European Championship (que depois viria a se fundir com a GP3 a partir da temporada de 2019), onde conheceu George Russell, que corria pela equipe Carlin. Os dois se tornaram amigos rapidamente, bem como a colombiana Tatiana Calderón - na época companheira de equipe de Russell -, que logo criou um laço com a brasileira e encontraram uma na outra o apoio feminino que muitas vezes faltava no esporte. competiu pela equipe Fortec Motorsports, que tinha Pietro Fittipaldi no seu time de pilotos, alguém que havia conhecido pessoalmente 1 ano antes, quando a família de Pietro decidiu “apadrinhar” a garota. A brasileira terminou a competição em 12º lugar.

Em 2016, a piloto foi para a equipe Carlin, onde teve Lando Norris como um de seus companheiros de equipe, entretanto, como o britânico era piloto convidado, não podia somar pontos na competição. brigou firme entre os dez primeiros colocados, disputando posições ao longo do campeonato com Anthoine Hubert, Callum Ilott e Sérgio Sette Câmara. Terminou em 7º lugar, na frente de Hubert e atrás de Ilott.
Ainda investindo todo o dinheiro obtido como piloto profissional em sua própria carreira, em 2017, migrou para a GP3 e teve que correr atrás de patrocinadores juntamente com o seu agente para poder ingressar em alguma equipe. Mesmo com seus bons resultados na F3 - sendo que venceu algumas das corridas que disputou -, as grandes marcas ainda não apostavam as suas fichas em mulheres. Com muita luta, conseguiu dois novos patrocinadores, que não tinham um super aporte financeiro, mas já era o suficiente para o mínimo que precisava para entrar na GP3.
Ingressou na Arden International, se tornando a principal piloto da equipe que ficou em quarto lugar entre os times do grid. Já no campeonato de pilotos, conquistou a quinta posição, chamando a atenção da principal equipe da categoria, a ART Grand Prix, que a contratou para a temporada seguinte.

A temporada 2018 foi muito especial para a brasileira em diversos aspectos.
Para começar, teve um aumento em seus patrocinadores, o que possibilitou que pela primeira vez em anos pudesse guardar um dinheiro para si mesma. Estava doida para rever a família - já que não havia retornado ao Brasil desde que saíra do país 5 anos antes - e também gostaria de enviar dinheiro para ajudar seus pais e seu avô com as despesas de casa, sabia bem que as coisas não estavam fáceis e queria proporcionar uma vida melhor a eles.
Já dentro das pistas, a temporada foi marcada por uma disputa acirrada pelo topo entre todos os pilotos da ART Grand Prix. Com exceção de Nikita Mazepin, que a garota detestava com todas as forças devido a diversos comportamentos ridículos que o mesmo tinha dentro e fora do grid, poder competir com Anthoine e Callum era divertido. Mesmo que dentro da pista nada mais além do que vencer importasse, no instante em que tiravam seus capacetes e se livravam da balaclava, eles deixavam a pose de piloto para trás e se reuniam para conversar e jantar juntos.
Ao final da temporada, os pilotos da ART ocuparam as quatro primeiras posições. sagrou-se a grande campeã e teve Anthoine Hubert como seu vice, seguido por Callum Ilott na terceira posição e Mazepin em quarto. O melhor de tudo é que estendeu as comemorações até a categoria acima, já que seu melhor amigo, George Russell, venceu a Formula 2 naquele ano e garantiu a sua entrada na Formula 1, sendo um piloto Mercedes correndo pela Williams no ano seguinte.

A brasileira entrou na Formula 2 em 2019, correndo pela equipe Carlin e já como prospecto da McLaren que enxergava um grande potencial na piloto, por isso, entraram com um grande suporte financeiro. A temporada também marcou um dos momentos mais difíceis que todos ali viveram: a morte de Anthoine Hubert no GP de Spa-Francorchamps.
jamais se esqueceria do silêncio ensurdecedor que dominou o paddock após o ocorrido. Foi um lembrete do quão frágil a vida é e do quão perigoso é o esporte que praticam mesmo com tantos recursos para preservar a integridade do piloto.
Seu desempenho sofreu algumas oscilações nas corridas seguintes, mas de um jeito ou de outro, conseguiu encontrar seu ritmo na reta final da temporada para cravar um 3º lugar, ficando atrás de Nicholas Latifi e Nyck de Vries, que sagrou-se campeão.

Em 2020, em sua segunda temporada na Formula 2 e ainda correndo pela Carlin, a garota que brigava forte pelas primeiras posições no campeonato de pilotos, foi selecionada como piloto reserva da McLaren na Formula 1 e com chances de estar no grid pela equipe laranjinha na temporada seguinte, uma vez que o espanhol Carlos Sainz, assinou com a Ferrari para 2021.

O momento pelo qual ela sempre batalhou havia chego. Tinha que elevar a potência ao máximo, desafiar os limites da velocidade e de sua própria mente, ser a melhor versão de si mesma para provar que o assento ao lado de Lando Norris na lendária equipe inglesa merecia ser seu.
Ela não podia se dar ao luxo de ser boa.
Ela tinha que ser a melhor.

Era tudo ou nada.


Capítulo 1


Agosto de 2020

Reino Unido



O tilintar dos talheres indicavam a agitação que tomava conta do restaurante do hotel em que estavam hospedados. Na mesa, o papo entre os pilotos acontecia de maneira animada e os assuntos iam desde os últimos lançamentos do mundo dos games e música, até as próximas corridas do calendário modificado graças ao Novo Coronavírus.

— E como está a vovó do grid? — Shwartzman se aproximou da mesa provocando a piloto brasileira.
— Haha, engraçadinho. Admiro seus esforços, mas esse apelido não vai pegar. — Sorriu para o russo com ar brincalhão.
— Vale a pena tentar, né? Até porque você realmente é a vovó do grid.
— Olha aqui garoto, você me respeita! Vou enfiar essa colher na sua garganta! — Ameaçou erguendo o talher na direção de Robert, o que fez todos os presentes na mesa focarem a sua atenção nos dois.
— Denúncia! Tão querendo me agredir aqui, hein? Vou te reportar para a FIA te acusando de má conduta e comportamento violento! — O russo aumentou o tom de voz, enquanto dava voltas na mesa para fugir da brasileira que corria atrás do mesmo. Eventualmente, ela acabou o alcançando e lhe deu alguns tapas no peito. — Ai! Ai! Não tá mais aqui quem falou. Juro!
— Você não vale o euro que te pagam, Robert. Mick, como é que você aguenta? — riu, se virando na direção do alemão que era companheiro de equipe de Shwartzman na Prema Racing.
— Eu não aguento, eu finjo que aturo. Além de um ótimo piloto, eu sou um bom ator também. — Provocou.
— Tá rolando um complô contra mim? É isso mesmo?
— Finalmente ele percebeu. — Entrou na brincadeira o brasileiro Felipe Drugovich, fazendo um high five com em seguida.
— Callum, me salva! — Shwartzman apoiou as mãos no ombro do amigo, que estava apenas rindo de tudo.
— Se vira. Ninguém mandou mexer com a .
— Nossa! Nunca mais quero falar com nenhum de vocês, exceto o Tsunoda, porque ele é a única pessoa com caráter nesse grid. Parabéns, Yuki. Você foi promovido ao posto de meu melhor amigo do grid inteirinho. — Robert sentou-se na cadeira vaga que havia ao lado esquerdo de Tsunoda e passou um de seus braços por cima dos ombros do japonês, o deixando completamente vermelho.
— Pode parar de tentar corromper o meu companheiro de equipe, Shwartzman. — Protestou , deixando Yuki com um tom carmesim ainda mais forte.
— Vocês estão deixando o Tsunoda mais vermelho do que o círculo na bandeira do Japão. — Interrompeu Callum Ilott em meio a gargalhadas. — Parem de enfiar o Yuki no meio da treta de vocês.
— Infelizmente, essa é a minha deixa. — comentou erguendo o olhar para a porta do salão, onde viu Nikita Mazepin entrando.
— Não precisa sair, . Fica aqui com a gente. — Falou Mick.
— Desculpa Mick, mas diferente de você, eu não sou uma boa atriz. Além disso, já tive a minha cota de aguentar as merdas que o Mazepin falava e fazia quando a gente foi da mesma equipe na GP3. Hoje em dia, eu passo reto. Vou tomar um ar. — Disse a piloto da Carlin dando um breve aceno para todos e pegando o seu copo de suco. Antes que deixasse a mesa por completo, passou por Callum dando um tapinha leve em sua cabeça, brincadeira que era comum entre os dois desde que foram companheiros de equipe pela ART Grand Prix em 2018.

Ao chegar na área externa, onde possuía uma bela vista da cidade, já que se encontrava em uma altura considerável, sentou-se em uma das mesas, suspirando. Às vezes, se pegava pensando no quão sortuda era por estar onde estava, mas logo tratava de corrigir a linha de raciocínio, porque sim, tinha que contar com um pouco de sorte também para estar nesse ramo, mas por trás de tudo aquilo havia uma história de muita luta, muito choro, muito medo, mas também muita certeza de estava trilhando o caminho certo e essa certeza foi o que a fez colher bons frutos, foi o que a fez rir mais, sonhar mais e acreditar que um dia estaria entre os melhores do mundo.

— Deixa eu advinhar. Tá fugindo do Mazepin? — A voz do britânico invadiu seus ouvidos e ela nem precisou olhar para saber quem era.
— George! — Exclamou animada, observando o amigo que se sentou em uma cadeira ao lado da brasileira. — É impressionante como você me conhece tão bem.
— Te aguento faz cinco anos, alguma coisa eu tinha que saber sobre você. — Brincou. — Mas me conta as fofocas da F2. O que tá rolando?
— Nada diferente do que enfrentamos todos os dias nesse meio, mas confesso que tá rolando uma pressão a mais de minha parte. Eu estou um pouco nervosa e tô tentando não deixar isso me dominar. Zak e Andreas vieram conversar comigo ontem, disseram que todos na Mclaren estão com grandes expectativas em relação ao meu futuro na Formula 1 e etc.
— O mesmo papo que rolou comigo quando fui abordado pela Mercedes e a Williams. Eles dizem que admiram o seu talento ao mesmo tempo que jogam toda a pressão do universo nas suas costas. — Comentou Russell.
— Pois é. Eu sei que eles fazem isso porque sabem que uma vez que você chegar lá, a pressão é infinitamente maior, então, querem nos testar para ver se vamos saber manter a cabeça erguida diante de adversidades. O problema não é a pressão em si, é a expectativa. Eu não quero decepcioná-los. Eles esperam que eu seja campeã e eu vou lutar para isso. Eu quero vencer. Mas e se eu não vencer? Será que a McLaren vai me considerar um fracasso? Um grande erro e que jogaram todo o seu dinheiro fora ao investir em mim? — Suspirou.
— Epa! Epa! Epa! Vamos parando aí, . Que papo é esse? Como piloto você não pode inundar a sua cabeça de “e se”. Quando você faz isso, você abre brechas para dúvidas. É por isso que piloto tem que ser cheio de si. Bata no peito todo dia com orgulho e entre na pista com a certeza de que vai levar esse campeonato. Se no final irá vencer ou não, só chegando na última corrida para saber, mas até lá, enquanto houver uma chance, em todas as corridas você entra com a possibilidade de ser campeã. É nisso que você tem que colocar todo o seu foco. — George fez um leve carinho nos ombros de , a confortando e transmitindo o apoio que ela precisava.
— Você sempre sabe o que dizer. — Colocou uma de suas mãos sob a de George, que ainda estava apoiada em seu ombro.
— Eu aprendi com a melhor e sou um bom amigo.
— Você não é um bom amigo, George, você é o melhor amigo. O que você e a sua família fizeram por mim durante todo esse tempo que passei sem voltar ao Brasil para ver meus parentes e amigos, eu nunca vou esquecer. Cada natal, cada ano novo, cada aniversário, cada celebração de vitória e suporte emocional nas derrotas. Vocês me acolheram e fizeram de tudo para que eu tivesse um lugar que eu pudesse chamar não de casa, mas sim, de lar. — disse tudo olhando diretamente na imensidão azul dos olhos do britânico, queria que a gratidão ficasse mais do que clara, embora, não precisasse, porque George sabia disso.
— Você não precisa me agradecer, eu fiz o que um amigo faz, que é ajudar quem importa pra mim. E eu já te disse isso um milhão de vezes e digo de novo, a minha família é a sua família e isso nunca vai mudar. — Apertou levemente a bochecha da brasileira, que riu com o gesto e em seguida pegou seu copo de suco, finalizando em um gole o que restava.
— Prometa para mim que se daqui, sei lá, uns 10 anos, nós dois estivermos na briga por títulos na Formula 1, a pressão das equipes estiverem acabando com a gente, a mídia criando todo dia situações para quebrar o nosso laço, que mesmo assim, a gente não vai deixar isso subir a nossa cabeça. — O encarou séria.
— Eu prometo. Até porque quero você como vice na celebração de todos os meus títulos. — Brincou.
— George! — Protestou.
— Tá bom, tá bom. Eu deixo você beliscar uns dois ou três títulos mundiais, só pra dar uma variada.
— Ok, cancela tudo o que eu disse antes sobre você ser o meu melhor amigo. Você não me merece, George Russell. — Cruzou os braços.
— Você sabe que é brincadeira. Apesar de todas as tentativas de quebrarem a gente nesse meio, eu vou tá sempre do teu lado. Você me conquistou com caipirinha, pão de queijo e brigadeiro. Não tem como te deixar ir.
— Você é inacreditável, Russell. Só não te bato, porque achei fofo. — riu e foi acompanhada por George.

Havia tantas histórias e momentos únicos que compartilhavam e geralmente situações simples como aquela, onde estavam sentados em uma mesa olhando a paisagem ao redor, era o que mais ficava marcado em suas mentes.
Um silêncio confortável se fez presente e os dois se ajeitaram nas cadeiras apenas apreciando cada segundo. Logo, cada um iria para um lado oposto do hotel. No dia seguinte, eles tinham a sua própria agenda para cumprir, que ia desde treinos físicos até reuniões com engenheiros e chefes de equipe. O segundo final de semana em Silverstone se aproximava e ambos precisavam dar o seu melhor dentro das possibilidades que tinham.


▧▣▧


Devido a pandemia, o paddock estava bem menos agitado do que estava acostumada a ver e todos seguiam o protocolo de saúde à risca.
A brasileira passou uma parte da manhã treinando com o seu preparador físico, um homem negro e norte-americano chamado Peter Jones, que treinava desde a entrada dela na GP3. Ele sempre a levava ao limite e extraía o melhor dela. Também era dono de um bom humor inabalável e o responsável por manter a confiança da piloto elevada.
Depois do treino, se reuniu com a sua assessora de imprensa, Susan Evergreen, para ficar por dentro de todos os seus compromissos do dia. Evergreen era uma loira neozelandesa, que antes mesmo de ser assessora de já a conhecia, pois cuidava de um outro piloto da Carlin na época que a brasileira foi membro da equipe em 2016 na Formula 3. Ela acabou se tornando a assessora oficial de quando ela retornou para a Carlin, já na Formula 2, em 2019. A intenção era que Susan seguisse na função após a possível ida da brasileira para a McLaren no ano seguinte.

— Bom dia, Mark. O que me conta de bom? — Perguntou , jogando seus cabelos para trás enquanto fitava o seu engenheiro da Carlin. Mark Bennet tinha uma barba rala, cabelos curtos e pretos e um óculos de formato quadrado rente ao nariz.
— Checamos o carro e está tudo conforme o planejado. Já foi resolvido o problema com a roda traseira esquerda, substituímos os difusores e você provavelmente não irá mais sentir um desequilíbrio ao pilotar como foi na semana passada. O atraso que estava acontecendo para o sistema DRS* ser ativado também foi resolvido. — Explicou o engenheiro indicando no carro as alterações feitas.
— Tudo bem. Obrigada pelas alterações, Mark. — Agradeceu, alisando a parte da frente da lataria do número 54. — Vamos ver como essa belezinha vai se sair na corrida longa de hoje. Espero que eu possa dar o troco no Schumacher pela semana passada.
— Conte comigo para isso. — Mark falou firme. O engenheiro estava confiante de que iriam conseguir um bom resultado.
— Alguém está animado para hoje. — Brincou, empurrando o engenheiro levemente pelo ombro.
— É Silverstone! Estamos correndo em casa. Tem um sabor diferente vencer em casa, mesmo que no momento não possamos ter torcida.

De fato, o ano atípico gerou modificações no esporte em escala global e com a Formula 1 e 2 não foi diferente. O calendário ficou mais limitado a alguns países, sendo que em casos como Silverstone, o circuito se repetiu.
Na semana anterior, já haviam competido por lá e o piloto alemão da Prema Racing, Mick Schumacher, filho do lendário piloto Michael Schumacher, havia vencido a corrida longa e ficado com o segundo lugar na corrida curta de domingo. Já a piloto brasileira ficou em quarto lugar na corrida longa e em terceiro na corrida curta. Ela teve alguns problemas com o carro nas duas provas e isso fez com que não conseguisse acompanhar o ritmo de um de seus principais rivais da temporada.
A meta para aquele final de semana era conseguir vencer a corrida longa e conseguir no mínimo um terceiro lugar na corrida curta. A pontuação entre os quatro primeiros pilotos era muito apertada e se as coisas se mantivessem daquele jeito, as chances de o campeão ser descoberto só na última prova da temporada eram bem grandes.

Quando o momento da prova finalmente chegou, entrou no box da Carlin completamente concentrada com o que tinha que fazer. Seu objetivo era muito claro e ela sabia que todas as equipes da F1 iriam acompanhar a corrida como já era de praxe.
Porém, tentou por um instante esquecer das expectativas da McLaren sobre si, esquecer da pressão enorme que existia em ser “a garota que pode mudar tudo para as mulheres na Formula 1”, que era o título da matéria que havia lido naquela manhã em um dos principais portais sobre o esporte.
Ao entrar em seu cockpit, ela só queria ser a garota de 13 anos que entrou num kart despretensiosamente e encontrou o seu propósito.
Era com esse espírito que ela iria para o GP de Silverstone.
Livre.

queria correr apenas por si mesma e ninguém mais.

Quando a largada foi dada, cravou seus olhos na pista e esqueceu do mundo exterior. Nada mais importava. Era o momento de conexão dela com o seu carro. A adrenalina que percorria suas veias era o combustível que a fazia acelerar cada vez mais, aproveitando todas as oportunidades que tinha a seu favor, como passar pelo apex* com perfeição e abrir o DRS no segundo exato.
, que havia largado na terceira posição, conseguiu em poucas voltas assumir a liderança. A sintonia entre ela e seu engenheiro estava no ponto, cada estratégia aplicada era feita com uma precisão absurda e quanto mais a piloto da Carlin completava as suas voltas de forma arrebatadora, aos olhos dos espectadores que acompanhavam em sua maioria pela TV e internet, o que se via era como uma dança extremamente sincronizada.

A de 13 anos havia vencido aquela prova.

— Parabéns pela vitória . Você foi perfeita e ainda bateu o recorde de volta mais rápida de um piloto da F2 nessa pista. Ninguém merecia esse P1 mais do que você hoje. — Celebrou seu engenheiro via rádio.
— Obrigada! Obrigada a você e a toda equipe pelo empenho. Essa conquista é nossa! — Respondeu emocionada, enquanto erguia uma das mãos para o alto. Vencer era a melhor sensação do mundo.

Após comemorar com sua equipe e no pódio, onde foi completamente encharcada de champanhe por Callum Ilott e Mick Schumacher. A brasileira tomou um rápido banho, deu curtas entrevistas - já que a quantidade de imprensa liberada no circuito era quase nula por questões de segurança - e gravou um vídeo para o Youtube. Depois acompanhou os treinos classificatórios no box da McLaren e em seguida fez uma entrevista via zoom para a ESPN.
Seu último compromisso do dia era no motorhome da McLaren.
No caminho ela foi parada por Susan, que veio correndo em sua direção lhe dar o boné da escuderia inglesa. havia esquecido o objeto em cima da mesa da sala que usou para o seu compromisso anterior. Apesar de estar vestida com o uniforme da Carlin, como prospecto da McLaren ela sempre tinha que usar algo que remetesse à equipe quando estava no motorhome ou nos boxes da laranjinha por uma questão de protocolo e vínculo com os patrocinadores.

— Parabéns pela vitória na corrida de hoje, . Você foi incrível! — Pierre Gasly, que passava por ali com alguns membros da Alpha Tauri, a cumprimentou apertando a sua mão.
— Muito obrigada. E parabéns pela sétima colocação na qualificatória hoje. Você vem fazendo um trabalho absurdo na Alpha Tauri e alguma coisa me diz que você vai ganhar uma corrida em um GP próximo. Marque as minhas palavras e de preferência num lugar onde possa ver. — Brincou e o piloto francês a acompanhou.
— Obrigado pelos elogios. Espero que esteja certa na sua teoria.
— Não é teoria, Pierre. É intuição. — Comentou já voltando a seguir o seu caminho, mas manteve o contato visual com o piloto francês enquanto caminhava de costas. — E a minha intuição raramente dá um sinal de vida, mas quando dá, não falha.
— Vou me lembrar disso quando estiver no lugar mais alto do pódio! — Falou alto para que a brasileira pudesse ouvir e sorriu, acenando uma despedida para ela.
— É bom se lembrar. Eu vou cobrar! — Gritou de volta, retribuindo o aceno e dando as costas para Gasly.
— E essa gritaria aqui no meu paddock, hein? Sinceramente, esse povo da F2 não podem vencer uma corrida que ficam se achando. — A voz inconfundível da pessoa mais brincalhona que existia naquele meio, chamou a atenção de , que girou o corpo para o lado e viu o australiano vindo em sua direção.
— Aussie! Aussie! Aussie! — A brasileira colocou as mãos nas laterais da boca, sob a máscara que usava, imitando o grito de torcida típico dos australianos.
— Oi! Oi! Oi! — Respondeu Daniel Ricciardo do mesmo jeito que a brasileira e sorriu de maneira acolhedora, mesmo que ela não pudesse ver, mas seu olhar o entregava. — Que corrida incrível a de hoje, hein? Você acabou com os caras.
— Sabe como é, né? Mais um dia comum na minha vida. — Provocou, entrando na brincadeira, o que fez Daniel rir. — Mas foi sim uma boa corrida. Eu estou muito feliz com o meu desempenho, mas sei que a briga vai ser muito acirrada até o fim. E eu fico chocada com a quantidade de piloto de 17, 18 anos, que tá vindo com tudo nos últimos anos. Do jeito que está, em breve vai ser impossível ter alguém de 25 anos como eu correndo na F2.
— Isso é verdade, a tendência é essa, mas enquanto houver talentos como você que conseguem encontrar meios de chegar nesse esporte mesmo não sendo de famílias privilegiadas, sempre há chances de pilotos considerados mais velhos do que o resto encontrarem seu espaço. E você ainda é nova. Na próxima temporada tem grandes chances de estar correndo contra mim e os outros. — Cruzou os braços enquanto encarava os olhos da brasileira, que era a mais baixa entre todos os pilotos do grid.
— Espero que eu consiga mesmo. Vai ser uma honra correr contra você.
— Só diz isso, porque ainda não competimos um contra o outro. No ano que vem você vai me odiar. A cada ultrapassada que eu te der, você vai xingar muito no rádio. — Provocou.
— Fala isso como se você também não fosse socar o volante em cada vez que eu te jogar para o canto da pista em uma curva. — Franziu o cenho, como se aceitasse o desafio proposto nas entrelinhas.
— Você tem atitude, brasileira. Gosto disso. — Sorriu, mantendo o seu olhar fixo no dela por mais tempo do que o normal. — Boa sorte na temporada. Vou manter meus olhos em você.
— Você faz bem, porque se eu subir para a Formula 1, vou te dar trabalho. — Sorriu ladina.
— Não espero menos de você, . — Estendeu a mão para a brasileira, que retribuiu e eles apertaram as mãos. — Parabéns, você foi oficialmente escolhida como minha vice quando eu for campeão mundial.
— Argh! O George sempre faz a mesma coisa comigo e eu sempre caio nessa. Vocês são dois panacas. — Riu, segurando a sua vontade de dar uns tapas em Ricciardo como costumava fazer com o Russell, mas não tinha intimidade o suficiente com o australiano para tal ação. — Bom, eu preciso ir. Te vejo por aí. Se cuida.
— Você também. — Daniel a encarou uma última vez antes de seguir para a saída do circuito.

Assim que adentrou o motorhome da McLaren, conseguiu ouvir a risada aguda de Lando Norris e os resmungos de Carlos Sainz em espanhol. Era sempre assim o clima da equipe, exceto, quando se reuniam para analisar as coisas referentes ao desempenho dos carros e dos pilotos. Não havia espaço para outra coisa senão seriedade em situações como aquela.
A McLaren havia passado por uma grande transformação e a mudança de ares, gerou bons frutos. O desempenho do time estava melhor, os funcionários estavam se sentindo mais estimulados e apesar de Zak Brown e Andreas Seidl viverem sob constante tensão, tentavam ao máximo manter o clima leve.
gostava de como todos pareciam dialogar na mesma altura, não tinha aquilo do chefe palestrar por duas horas e o resto entrar mudo na reunião e sair calado. As pessoas participavam, traziam sugestões, apresentavam mudanças. A reconstrução ainda estava no meio do processo, mas era algo que estava sendo feito pela equipe como um todo e não somente com base na decisão de uma ou duas pessoas, que mal botam os pés numa pista de corrida.

— Não me diga que você perdeu no jogo de F1 2020 de novo, Norris?
! — Lando se levantou da poltrona para cumprimentá-la, sendo seguido por Carlos.
— Señorita! — A saudou calorosamente. — Como você está após o incrível dia de hoje?
— Estou muito feliz, mas ainda há muito a ser feito. — Falou a brasileira.
— Ah, por favor. Guarde essa polidez para os jornalistas. — Zak surgiu na sala com uma prancheta nas mãos. — Você venceu a corrida. Não segura esse sentimento, até porque ele só pode durar até amanhã de manhã. Quando pisar no paddock de novo, já será outra prova, então, aproveite os momentos de glória.

riu dos gestos exagerados que Brown fez com as mãos enquanto falava. Ele se sentou em uma das poltronas, ajeitou a máscara que cobria parte de seu rosto e indicou um lugar para a brasileira, que acatou o pedido.

— Minha mãe costuma me dizer a mesma coisa, que eu tenho que aprender a celebrar as minhas vitórias do jeito certo. — Mexeu no zíper da jaqueta da Carlin que usava, como uma forma de disfarçar a súbita timidez que tomou conta de si. Sempre sentia-se um pouco intimidada quando estava na presença de diretores executivos e chefes de equipes. E depois do episódio onde derrubou água nos pés de Toto Wolff na temporada anterior, ela se sentia mil vezes mais desconcertada.
— E ela está certa. — Zak apontou brevemente na direção de e logo ajeitou a postura. — Bom, reuni vocês hoje para falar do óbvio, até por isso que será algo breve. Ainda temos toda uma temporada pela frente e temos que pensar nela. Sei que a mídia anda falando muito sobre o Sainz ir para a Ferrari em 2021, mas não podemos nos dar o luxo de ir para esse caminho. Isso no caso de vocês dois. Já se tratando de você , sei que está sob pressão não só pelo campeonato de F2, mas também com toda essa expectativa em relação a você ser a possível nova piloto da McLaren. Não vou mentir. Precisamos de resultados e é isso que você tem nos dado. Infelizmente, a pressão faz parte do jogo, se é algo que você quer vai ter que lidar com isso.
— O que está achando do nosso desempenho até o momento? — Carlos questionou, atento aos movimentos de Zak, que tirou a prancheta que estava em seus braços e deixou em cima de uma mesa de vidro localizada no centro.
— O desempenho está dentro do que projetamos e a tendência é que isso suba, ou seja, os carros estão indo melhor do que a gente esperava e vocês estão pilotando cada vez melhor. Acredito que podemos ficar entre as principais equipes no campeonato de construtores se a gente seguir firme. Vamos prosseguir com os testes de desempenho de motor na próxima semana. Por isso, você está aqui, . Quero que acompanhe de perto o trabalho da equipe principal e viaje conosco para os circuitos onde não tiver Formula 2. Já conversei com o chefe da Carlin, temos uma parceria e você está liberada para nos acompanhar. — Informou, cruzando os dedos na frente do peito.
— Certo. — assentiu e mordeu os lábios. Estava diante de uma grande oportunidade. — Será uma honra, Zak.
— Na próxima semana estaremos em Barcelona. Sainz tem algumas questões familiares para resolver, por isso, Norris e , vocês farão os testes de velocidade para averiguarmos se os últimos ajustes foram 100% efetivos. Alguma dúvida?
— Não. — Responderam os três juntos, rindo em seguida pela coincidência e o breve momento de tensão após todas as informações dadas por Zak.
— Então, acabamos por aqui. O que acha de celebrarmos a vitória da senhorita como se deve? Mas sem muito alarde, porque amanhã todo mundo aqui tem corrida. — Se levantou, já liderando o caminho para a saída do motorhome.
— Para onde vamos? — Perguntou a brasileira.
— Voltar para o hotel e depois vamos para o restaurante que eu reservei. Hoje o jantar é por conta do chefe e antes que me deem os créditos, não foi ideia minha, foi do Andreas. — Sorriu.
— Então, essa que é a tal motivação da McLaren que você tanto fala para a imprensa. — Deduziu Lando. — Tá vendo, Carlos? Esse é o caminho! Precisamos pegar pódio para ter comida de graça.
— Quem vê você falando assim, nem parece que o seu pai nada em dinheiro e que a McLaren te paga para estar aqui. — Carlos comentou, enquanto ambos cutucavam um ao outro e ria da brincadeira entre os dois.
— Olha só quem fala, Carlos Sainz. — Rebateu.
— Mas uma coisa eu vou concordar com o Lando, não se perde a chance de se ter comida de graça. — A brasileira bateu seu cartão na catraca de saída do paddock enquanto o sol do meio da tarde do verão londrino marcava presença.

O caminho até o hotel foi regado de brincadeiras entre os pilotos e com Zak sempre soltando uma piadinha oportuna. Quanto mais tempo passava com eles, mais sentia que ser parte daquele time era o seu lugar.
A temporada ainda estava em seu estágio inicial, as coisas estavam confusas com a pandemia rolando solta pelo mundo, mas naquele instante, a brasileira respirou fundo e agradeceu pelo o que estava vivendo.
A vida era assim, um passo de cada vez e como um livro não se escreve com uma página só, se agarrou nos conselhos de sua mãe e abriu o seu melhor sorriso enquanto olhava pela janela.
iria celebrar a sua vitória do jeito que ela merecia.




Glossário do capítulo

*DRS: Sigla em inglês para Drag Reduction System (Sistema de Redução de Arrasto). Trata-se de um sistema para ajudar nas ultrapassagens, onde em determinadas partes da pista, o piloto pode “abrir” os flaps da asa traseira e o carro ganha muita velocidade em reta. Durante treinos os pilotos podem usar o sistema onde quiserem, mas durante a corrida somente no(s) ponto(s) determinado(s) pela FIA e se o piloto estiver até a 1 segundo de distância do carro à sua frente.

*Apex: É o ponto de uma curva que o piloto tem como seu objetivo fazer o carro passar. Se localiza no que é considerada a linha mais rápida da curva. Algumas curvas têm mais de um apex.

(Informações retiradas e adaptadas do site Auto Racing)


Capítulo 2


Agosto de 2020
Espanha



A animação dos engenheiros mal podia ser contida após o sucesso dos testes de velocidade realizados por Lando e ao longo daquela manhã.
havia usado o carro de Carlos Sainz e a equipe teve que fazer algumas adaptações para deixar um pouco mais próxima do acelerador, uma vez que a ponta de seu pé apenas triscava por ali.
Ambos os carros haviam desempenhado bem e dentro das expectativas aguardadas pela equipe.

— Estão deixando a gente criar esperança de conseguir uma boa posição no campeonato de construtores. — Andreas falou animado após um abraço apertado em Lando, que ria com a reação do chefe de equipe.
— Tudo é possível, chefe. Tá na mão desses dois aí! — Disse , com o macacão azul de corrida da McLaren caído até a cintura e apontando para dois grandes posters que ostentavam os rostos de Lando e Carlos.
— Boa parceira! Jogando tudo pra cima de mim e saindo de fininho só porque ainda ta na Carlin. — Brincou Lando, que se encontrava do mesmo jeito que a brasileira, mas com a adição de sua inseparável garrafa vermelha de água que levava para todo lugar.
— Cada um com os seus problemas, Norris. Já estão com muita expectativa em cima de mim na Carlin, preciso dividir a pressão com alguém. Sei que vocês vão dar conta do recado. — Piscou para Lando, que sentiu a timidez lhe atingir quando as suas bochechas ficaram vermelhas e desvencilhou-se do contato visual. decidiu não comentar para não deixar o britânico envergonhado diante dos outros membros da equipe.
— É disso que eu gosto! Dessa sinergia! O time todo na mesma frequência, todo mundo acreditando em todo mundo, apoiando todo mundo, é isso que tá levantando a McLaren de novo. Com um trabalho bem feito e paciência, eu sinto que podemos chegar ao nosso devido lugar, que é o topo! — Zak Brown andava pela sala empolgado e todos mantiveram a sua atenção no homem que estava muito orgulhoso de tudo o que vinham fazendo até ali. — Parabéns pela dedicação de cada um de vocês. Eu sou muito grato por todo o empenho.

Todos os presentes aplaudiram e em meio a gritos de comemoração, abraços e risos, aos poucos, cada membro foi deixando o espaço onde estavam em direção a saída do circuito. Já era quase uma da tarde e um delicioso almoço era tudo o que precisavam.
Lando e decidiram comer no restaurante do hotel e voltaram juntos com um motorista da McLaren designado para esses deslocamentos de membros do time papaya.

— Me diga que meu carro está inteiro, por favor! — Foram surpreendidos por Carlos no momento em que pisaram no lobby do hotel.
— Tá tudo sob controle, Carlos. Causei no mínimo um leve amassado no lado direito da asa dianteira e raspei a lataria toda da lateral do carro no muro da pista, mas deu tudo certo e os testes foram perfeitos. — Sorriu exibindo todos os dentes, enquanto via o espanhol perder a cor.
— Ela está brincando, né? — Carlos olhou para Lando alarmado.
— Não. — Lando fechou a expressão e se aproximou do amigo colocando uma mão em seu ombro. — Visualmente a coisa foi feia, mas pelo menos o objetivo foi cumprido e o teste foi um sucesso.
— Nunca mais te deixo pilotar a minha bebê. — Choramingou Carlos, fazendo bico.
— Não seja dramático, os mecânicos já estão cuidando de tudo. Até amanhã vai estar 100% nova. — A brasileira podia ver a expressão de derrota na cara de Sainz. Ela entendia esse sentimento. Pilotos eram muito ciumentos com os seus carros.
— Eu não acredito. — Lamentou.
— Sainz, olha pra mim. — se colocou na frente do espanhol. — Você acha mesmo que eu não ia cuidar bem do seu carro? Não responda! — O cortou assim que o viu abrir a boca. — Tá inteiro. Eu não quebrei e nem risquei nada, está como novo, como se tivesse acabado de sair da fábrica.
— Sério? — Carlos a olhou de maneira intensa, procurando pelo menor vestígio de hesitação. Queria pegá-la na mentira.
— Sério.
— Sério mesmo?
— Carlos! — A brasileira bateu o pé. — Juro pela minha vaga na McLaren que seu carro está inteiro.

O espanhol suspirou aliviado colocando a mão sob o peito, Lando revirou os olhos enquanto ria do momento dramático do companheiro de equipe e juntos prosseguiram em direção ao restaurante do hotel. Carlos, que já havia almoçado, optou por um suco e ficou na mesa acompanhando ambos, que devido a toda fome que sentiam, devoraram o que estava em seus pratos em tempo recorde.

Mais tarde naquele mesmo dia, foi até o quarto de Callum Ilott convidada pelo mesmo. Era normal que alguns dos pilotos da F2 se reunissem para jogar videogame, às vezes, alguns pilotos da F1 também apareciam, mas costumavam ser sempre os mesmos. Porém, a brasileira se surpreendeu ao abrir a porta e ver um rosto que não aparecia com muita frequência nas jogatinas.

— Energético! — brincou com o piloto da Red Bull, Max Verstappen, que era uma das pessoas que ela não esperava ver por ali.
— Vitamina de Papaya! — Devolveu, sorrindo para a brasileira e a cumprimentando com um beijo no rosto. — Fiquei sabendo que foi fazer testes com a McLaren. Como foi?
— Foi ótimo. E é só isso que você precisa saber, não vou ficar compartilhando os detalhes com o inimigo. — Semicerrou os olhos, como se tentasse ler as verdadeiras intenções de Max com aquele papo.
— Como se fosse fazer alguma diferença eu saber disso. Na pista eu não brigo com o fundo do grid. — Max comentou em tom de provocação, enquanto estava cumprimentando os outros pilotos presentes.
No momento em que Max disse isso, todos que estavam na sala - com exceção da brasileira e do neerlandês - ecoaram juntos um coro de “uuuh” emendado com um “vai deixar, ?”, o que fez a brasileira balançar a cabeça em negação.
— Acho que você está precisando fazer uma leitura mais precisa do campeonato Max, a McLaren não está no fundo do pelotão, inclusive, tem chances reais de brigar pelas primeiras posições no campeonato de construtores. Se eu fosse você, ficaria esperto. Pode ser que a vitamina de papaya supere o energético. E aqui entre nós... — Falou se aproximando de Max, como se fosse lhe contar um segredo, embora, todo mundo pudesse ouvir. — A gente sabe qual dos dois é mais saudável.

Os gritos foram ecoados novamente na sala e Max riu por ter compreendido as entrelinhas. Sabia que a metáfora usada por sobre a vitamina ser mais saudável do que um energético, não era uma referência apenas as bebidas, mas sim, ao ambiente nas equipes.

— A garota já é 100% papaya, nem entrou na equipe ainda e já tá defendendo com unhas e dentes. Isso que eu chamo de amor à camisa! — Comentou Robert Shwartzman, que estava no meio de uma luta contra Lando no Mortal Kombat e sentiu o tapa que a brasileira deu de leve em sua cabeça.
— Cala a boca. — riu.
— Você só me maltrata, credo. — Fez bico.
— Vocês sabem bem o que falam sobre toda essa implicância, né? — Callum deixou subentendido.
— Ah, não começa! Se for assim, eu sou extremamente apaixonada por você, porque não tem outro piloto que eu agrida mais nesse grid da F2 do que você. — sentou-se no chão ao lado Ilott, que passou um de seus braços pelo ombro dela.
— Tem razão. A gente ia formar o casal mais foda que já existiu na história do automobilismo.
— Isso eu concordo 100%. Caso no futuro nada dê certo pra gente no campo amoroso, a gente casa. — Virou a palma da mão para cima para que Callum pudesse segurar e ele o fez.
— Negócio fechado. — Disse o britânico, entrelaçando seus dedos com os da brasileira.
— Sinceramente, ainda bem que vocês dois não são namorados, ia ser uma melação completa. — Comentou Jack Aitken, que estava jogado em um segundo sofá que ficava na lateral e próximo da porta que levava para a sacada.
— Isso aí é inveja, é? — Robert provocou e foi atingido no rosto por uma almofada jogada por Jack. — Caralho! Mas eu só apanho! Eu realmente devia fazer uma reclamação formal à FIA.
Antes que recebesse qualquer resposta para a sua reclamação, no jogo, Lando conseguiu fazer um fatality do Scorpion em cima do Kung Lao - personagem que Shwartzman jogava - e venceu a partida.
— Realmente você só apanha! — Gargalhou Lando. — Próximo!
— Não valeu! O Jack me atrapalhou! — Bufou e se levantou de onde estava para que Alexander Albon, que até então nada havia dito e só ria com as palhaçadas dos presentes, pudesse ter a sua chance de derrotar Lando.
— Chore menos, Shwartzman. — Falou George, entrando na sala, após ter ouvido o final da conversa. Ele havia ficado um bom tempo na sacada do quarto falando ao celular com a mãe.
O russo apenas deu o dedo do meio para George que retribuiu o gesto.
— É tão bom estar cercada de pessoas educadas e finas. — Ironizou , sendo acertada por uma almofada que Aitken jogou nela. — Você tá querendo guerra, garoto?

A brasileira se colocou de pé e com um movimento rápido, devolveu a almofadada. Isso foi o suficiente para que o caos completo começasse no quarto de Callum.
Enquanto Albon e Norris jogavam videogame, atrás deles os pilotos se dividiram inconscientemente em dois grupos e passaram a atirar almofadas e travesseiros para todo lado. Alguns estavam mais próximos da área dos sofás e da TV e outros um pouco mais distantes dali e próximos da cama.
Em meio a gritarias e correrias, os pilotos pareciam crianças e de fato sentiam-se assim. Ali, naquele breve instante, não tinham que conter as emoções ou adotar a postura de uma frieza absoluta, como muitas vezes faziam antes de entrar no cockpit para uma corrida. As gargalhadas tomaram conta do ambiente até que perdessem o fôlego, o que não demorou muito.

— Tem certeza... que somos.... pilotos profissionais? — Questionou Russell, ofegante e fazendo breves pausas entre as palavras para puxar o ar. — Porque tivemos uma guerra... que durou menos de 5 minutos... e eu já me sinto esgotado.
— Estamos ficando velhos. — Max passou a mão no rosto suado e encarou o teto.
— Se alguém entrar aqui agora, vão achar que a gente fez uma suruba. — Robert falou rindo.
— Shwartzman, seu mente suja. Só fala merda! — Condenou entre risos.
— Alguém tem que cumprir esse papel, não é mesmo? — Piscou para a brasileira.
— Realmente, eu to certa quando digo que você não vale o euro que te pagam. Essa carinha fofa só engana quem não te conhece.
— Você me acha fofo? — O russo, que estava sentado ao chão e no lado da cama, apoiou os cotovelos sob a mesma e deixou o rosto apoiado nas mãos.
— Sempre te achei fofo. Você sabe disso. — levou uma de suas mãos aos lábios e depositou um beijo ali, lançando na direção de Robert, que simulou ter sido atingido em cheio no peito.
— Vocês são muito trouxas. — Reclamou Max, rindo com a reação exagerada de Shwartzman.
— Não vem amargurar o nosso momento, Energético. Só porque na F1 vocês arrancam a cabeça uns dos outros, não significa que na F2 fazemos o mesmo. Aqui o amor ainda sobrevive. — mostrou a língua para Max.
— As discussões ferrenhas com o Nikita nos bastidores provam o contrário. — Disse Verstappen, já de pé e passando as mãos nos cabelos para ajeitar os fios bagunçados.
— Ele tem um bom ponto aí. — Callum ergueu o dedo indicador para enfatizar que concordava com o que o piloto da Red Bull havia dito.
— Mas ele faz por merecer e mesmo assim ele é bem popular por aqui. O caso dele é diferente, porque ele faz coisas ridículas dentro e fora da pista. Vocês na F1 quando discutem parecem um bando de crianças da pré-escola, sempre arranjam uns motivos nada a ver para virar a cara um para o outro.
— Nada que algumas cervejas e videogame não resolvam. — Falou Albon, se aproximando do grupo que formava quase que um círculo na área próxima a cama.

A partir dali emendaram uma conversa sobre a próxima corrida do campeonato. Por mais que tentassem se desvencilhar, sempre acabavam voltando a falar sobre a Formula 1 e 2, sobre carros de um modo geral e sobre tudo o que envolvia aquele mundo que faziam parte. O assunto foi ganhando uma proporção tão grande, que ninguém nem reparou no momento em que Lando desligou o videogame e se enfiou no papo. Com alguns xingamentos, protestos e gargalhadas, os pilotos ali reunidos passaram horas e horas na companhia uns dos outros, inclusive, fizeram todo um esquema de furar a dieta e comer pizza escondido no quarto de Callum, com a desculpa de que se as provas fossem encontradas - no caso as caixas de pizza - somente o piloto da Prema Racing levaria a culpa.
Obviamente, que isso foi o estopim para uma nova discussão que se estendeu por longos minutos, com o britânico choramingando sobre ninguém naquele meio ser confiável e que todos queriam puxar o seu tapete.
E de fato quando toda a bagunça e comilança acabou, todo mundo foi embora, deixando as evidências do crime para trás.
Callum Ilott que lidasse com aquilo.

▧▣▧


— Você acha que o resultado que teve neste final de semana pode comprometer o interesse da McLaren na sua possível contratação para a próxima temporada? — Questionou um jornalista do site alemão Überholspur.
— Esse final de semana foi muito ruim em diversos aspectos. É o que muitos consideram como um dia ruim no escritório, sabe? — Riu sem graça. — E sobre a história da McLaren, por mais que exista um interesse, nesta temporada eu não corro pela McLaren, eu corro pela Carlin, eles são a minha equipe. Toda vez que eu entro na pista, são neles que eu tenho que pensar. Nos engenheiros, nos mecânicos, na equipe de dados, no time de comunicação. Cada um deles é uma peça fundamental que faz com que eu possa entrar no carro e dar o meu máximo na pista. Eles são a minha prioridade. A McLaren é consequência. O que eu fizer pela Carlin é o que vai contar para a McLaren. Então, neste momento eu não estou preocupada com o futuro, eu estou preocupada com o presente, porque o futuro é consequência do hoje.
— Houve uma declaração polêmica do chefe de equipe da Prema, dizendo que você é uma boa piloto, mas está na equipe errada e nunca poderia se destacar como merece estando na Carlin. O que você tem a dizer sobre isso? — Um jornalista italiano lançou a pergunta já concentrado no que a brasileira iria dizer, uma vez que a Prema é uma equipe italiana e qualquer resposta atravessada ou mal interpretada poderia estampar os principais portais sobre a categoria na Itália.
— Eu agradeço o elogio que ele fez para mim e acho que ele faz um ótimo trabalho na Prema, mas estou feliz na Carlin e discordo do que ele falou sobre não se destacar onde estou, porque se isso realmente fosse verdade, eu não estaria na mira da McLaren e nem o Tsunoda estaria sendo acompanhado de perto pela Red Bull. — Respondeu a brasileira com calma e um sorriso simpático no rosto.
— A próxima etapa será no circuito de Spa-Francorchamps, onde você não tem um bom retrospecto e um resultado ruim pode te colocar longe das primeiras posições. Você acha que tem chances de conseguir vencer na pista onde costuma ter um de seus piores desempenhos? — Dessa vez a pergunta foi feita por uma jornalista francesa, que sempre estava presente nas etapas.
— Caramba! Hoje tá todo mundo me motivando mesmo, hein? — Brincou , o que gerou risos por parte das poucas pessoas presentes e que estavam afastadas dela por conta dos protocolos de segurança. — Nenhum piloto entra na pista para perder e cada um de nós tem seus próprios desafios para encarar. Sim, Spa não é um lugar que eu costumo ir bem, mas dificuldades existem para que possamos superá-las e eu sempre espero que eu possa ir melhor do que fui na última vez. Obrigada.

acenou para os poucos jornalistas presentes e se afastou do microfone, indo em direção a sua assessora de imprensa, que estava a aguardando e juntas foram em direção aos boxes da Carlin. A brasileira só queria pegar as suas coisas e ir embora para o hotel o quanto antes.
Era um final de semana para se esquecer.
Já conseguia prever a longa reunião de equipe que teria que encarar no dia seguinte, com seu chefe pontuando tudo o que ela fez de errado e o que poderia ser feito de ajustes para melhorar o desempenho do carro.
Ela sabia que esse tipo de assunto era normal e primordial, sempre era necessário rever tudo o que aconteceu, mas naquele momento, ela só queria fingir que nada de ruim tinha acontecido, queria ficar uma semana sem se preocupar com competição e carros, queria fugir temporariamente do caminho que ela mesma escolheu.
Mas não podia.

Depois de chegar no hotel, ficar no quarto foi uma tarefa quase impossível, sentia-se sufocada. A todo instante a cena dela derrapando na pista e perdendo o primeiro lugar na corrida longa se repetia em sua mente, e quando a autossabotagem cansava de rever o mesmo episódio, migrava para a falha mecânica que aconteceu em seu carro na corrida curta.
Sentiu as lágrimas se acumularem e escorrerem pelo canto de seus olhos, molhando suas orelhas, o que lhe causou desconforto suficiente para que se levantasse de sua cama e enxugasse o rosto. Não podia se dar ao luxo de chorar, não naquele momento em que ainda estava brigando pelo topo.
Respirou fundo e colocou uma touca na cabeça, sua máscara no rosto e se encaminhou para uma das áreas externas do hotel.
Estava tão presa em si, que nem viu George acenar para ela no final do corredor do andar em que estava hospedada, tampouco percebeu o olhar de Charles Leclerc em sua direção quando passou por um dos espaços lounge do hotel. Também passou direto por Lance Stroll, que estava em uma das mesas da área externa que ficava voltada para a piscina.
passou por tudo até chegar num jardim esplendoroso que ali havia. Seus olhos se preencheram pelo verde das folhas e as inúmeras cores das flores. A imersão foi tanta, que ela nem se direcionou para as mesas, as espreguiçadeiras ou os balanços disponíveis. Sentou-se em dos degraus no final da escada que dava acesso a aquela área e suspirou. Sua cabeça girava.
Perdida em pensamentos, pode até não ter notado nenhum dos olhares direcionados a ela enquanto fazia sua trajetória até o jardim, mas de todos os rostos que cruzaram o seu caminho, um deles que também se encontrava por ali notou a angústia da piloto.

— Eu posso me sentar aqui? — Perguntou uma voz calma, que de primeira ela reconheceu. — Sei que provavelmente quer ficar sozinha e se não quiser minha presença tudo bem, mas gostaria de lhe fazer companhia.
— Claro, Seb. Acho que vai ser bom não ficar duelando com a minha própria cabeça. — Sorriu fraco.
— Dia difícil no escritório, né? — Vettel sentou-se ao lado dela, sempre a fitando de maneira acolhedora.
— Você viu a entrevista? — ficou verdadeiramente surpresa.
— Sim. Eu vi ambas as corridas e a entrevista. Sabe, eu entendo esse sentimento de frustração consigo mesma, ainda mais em um momento tão único como esse que está vivendo agora, mas não deixa isso te engolir. Sei que já teve ter ouvido isso um milhão de vezes e que é mais fácil falar do que fazer, mas adversidades acontecem e você é uma piloto muito talentosa. Nunca duvide da sua capacidade de ser melhor por causa de um momento ruim. Todo mundo tá tão preocupado em aparecer bonito na foto, que esquecem que campeões não vencem campeonatos do dia para a noite, existe todo um processo, mas insistem em pular o processo. — Desabafou.
— Por que eu sinto que isso não é só para mim? As coisas estão difíceis na Ferrari, né? — lhe lançou um meio sorriso e um olhar complacente, como em um gesto silencioso de “sinto muito”.
— Nada está indo de acordo com as ideias que eu desenhei na minha cabeça. Dói demais aceitar o fato de que eu não tenho mais espaço aqui. Apesar de eu amar essa escuderia, sinto que nosso relacionamento se desgastou e não tiro a minha parcela de culpa nisso. Só acho que algumas coisas poderiam ter sido evitadas e acho que eu poderia ter batido mais o pé em alguns momentos. Independente de qualquer coisa, tudo serve de lição e eu vou sair da melhor forma possível, porque não sou o tipo de pessoa que fecha as portas que se abriram pra mim, eu as deixo abertas.
— Eu tenho esse mesmo pensamento. Em todos os lugares que eu fui, tendo experiências positivas ou negativas, eu sempre procuro sair agradecida por todos os altos e baixos e lições aprendidas. Isso nos fortalece. — encarou Sebastian com carinho. Tinha muita admiração por ele.
— Sem dúvidas. Mas se quer uma dica, quando estiver em posição de exigir, exija. Quando tiver oportunidades de sugerir mudanças, sugira. E o mais importante, seja parte do seu carro sempre. Pelo o que soube, você trabalha sempre próxima dos engenheiros e mecânicos, se mantenha assim por toda a sua carreira. E se em algum momento tentarem te deixar de fora dessas decisões, mesmo que esteja em um lugar que ame, não faça como eu fiz. O amor cega às vezes e não nos deixa enxergar que estamos sendo submissos em momentos que devemos levantar a voz. — Vettel disse tudo encarando a piloto, estava abrindo completamente o seu coração para alguém que ele não tinha proximidade. Não era comum que ele fizesse isso, mas naquele momento, de alguma forma, Sebastian se via nela. Enxergava-se anos mais novo, quando ainda estava procurando seu lugar ao sol naquela categoria tão exclusiva.
— Eu não sei porque, mas não consigo te ver como alguém que precisa elevar a voz para conseguir o que quer. — Comentou a brasileira, encostando a ponta dos dedos de uma mão na outra, como forma de tentar aliviar o nervosismo que sentia com a presença do piloto do carro número 5.
— De fato eu não sou assim, não gosto de levantar a voz, não gosto de confusão, eu gosto de trabalhar em harmonia. Mas às vezes você precisa se impor. É óbvio que existem mil formas de fazer isso, mas após tentar todas as alternativas, às vezes, só o que resta é aumentar alguns decibéis e eu acho que eu falhei nisso. Me faltou elevar alguns decibéis.
— Eu não acho. Você já tem um nome, se provou inúmeras vezes. Ninguém é tetracampeão de Formula 1 por pura sorte. Existe muito trabalho. Você transformou cada lugar que passou, a RBR é a maior prova disso e mesmo com todos os altos e baixos, você transformou a Ferrari também. Você teve seus erros, ok, acontece. A equipe também errou bastante com você e ok, também faz parte. Só acho que um time é um time nos momentos bons e ruins. Na minha ótica, faltou acolhimento nos momentos ruins por parte da equipe. Mas claro que essa é uma opinião de alguém de fora, eu não vivo o que você vive.
— E eu não vivo o que você vive e mesmo assim vim aqui me meter na sua vida e no final quem acabou sendo aconselhado fui eu. — Sebastian riu e o acompanhou.
— Você também me aconselhou, me deu dicas valiosas. A gente aprende com nossos erros e acertos, mas também podemos tirar lições através da vivência dos outros e você é um dos pilotos que eu mais admiro. Eu realmente vou lembrar para sempre desse nosso momento nas escadarias de um jardim de um hotel aleatório na Espanha. — A brasileira disse com a maior sinceridade e viu o rosto do alemão se iluminar. Sebastian abriu um enorme sorriso e ela sentiu uma onda de felicidade atravessar o seu peito. Nem sabia qual foi a última vez que viu Vettel daquela forma.
— Você é muito perspicaz e muito coração. Dizem que para ser bem sucedido nesse campo, só dá para se guiar pela razão e eu discordo. A razão pode ser cada peça do motor, a coleta de dados, o plano de uma corrida. Mas é o coração que te faz se manter correndo, mesmo quando tudo dá errado num GP e você tá em último lugar, longe do resto do pelotão. Coração é o que te faz seguir tentando quando o carro começa a engasgar e você está a poucos metros de cruzar a linha de chegada e mesmo com todo mundo te passando, você ainda se mantém determinado em atingir o objetivo. Coração é se permitir se emocionar com as próprias conquistas sem medo de julgamentos. Você é coração, . Razão gera escuderias, constrói carros e forma pilotos. Coração gera fãs, constrói carreiras e forma campeões. Eu não tenho dúvidas de que você será uma grande campeã um dia. — Sebastian sorriu docemente e viu os olhos da brasileira se inundarem de lágrimas.

Diferente de quando saiu de seu quarto, não tentou segurar o que sentia. Ainda baqueada com os acontecimentos do final de semana e sentindo-se acalentada pelas palavras de Sebastian, as lágrimas que tanto se esforçou para impedir, caíram feito cachoeiras. Com as mãos no rosto, a brasileira murmurou um “obrigado” que saiu entrecortado de seus lábios, mas não impediu que Vettel a compreendesse.
Levando uma de suas mãos às costas de , o piloto da Ferrari aos poucos foi a acalmando. Não disseram mais nenhuma palavra.
Aos poucos a respiração de foi se normalizando, o choro não mais existia e seu peito estava mais leve. Vettel apareceu no momento certo, pois estava mais do que claro que não iria conseguir passar por aquilo sozinha e não estava em condições de verbalizar sobre sem que alguém de fora desse o primeiro passo por ela. Encontrava-se fragilizada e sua mente entrou em um parafuso, onde mantinha a mentalidade de piloto em momentos que só precisava ser ela mesma.
Felizmente, Sebastian sentou-se com ela na escada naquela noite. Sem perceber, o alemão girou a chave que estava emperrada e que ela não conseguia de forma alguma mover.
Sentia-se aliviada.
O carro que corria sem parar na mente de , decidiu entrar no pit lane e ir em direção aos boxes. Pela primeira vez em dias, o silêncio se fez presente, seus músculos relaxaram e respirar não era mais uma tarefa difícil.
Perdeu a noção do tempo e mesmo após Sebastian lhe desejar boa noite e ir descansar, ela permaneceu sentada entre os últimos degraus da escadaria imersa em um grande nada.
E com a mente completamente quieta e o coração tranquilo, em algum momento foi para seu quarto e nem teve forças para trocar de roupa. Caiu na cama do jeito que estava e dormiu profundamente como há muito tempo não conseguia.
O mundo era silêncio e no contexto em que se encontrava, silêncio era paz.
, enfim, foi P1 em seu próprio campeonato.

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Setembro de 2020
Itália



— Fique atenta ao ERS*, você está forçando em algumas curvas lentas e desperdiçando potência. Mantenha-se no CLN2. — Orientou o engenheiro Mark Bennet através do rádio. A corrida em Monza estava disputadíssima.
— Entendido. — respondeu, se preparando para passar pela curva 11, conhecida como Parabolica. A disputa entre ela e Felipe Drugovich estava bem grande. O piloto brasileiro da MP Motorsport se encontrava à sua frente e estava na terceira posição. — Tudo bem, . É hora de se concentrar e ir atrás dessa vitória.

Aproveitando a longa reta que veio logo após completar a curva, pisou fundo e utilizou sua potência ao máximo, colocando o carro colado na traseira de Drugovich. Com um movimento rápido, fingiu jogar o carro para a esquerda, mas virou o volante para a direita em uma agilidade impressionante e ultrapassou Felipe.
O box da Carlin foi a loucura com a ultrapassagem. Um bom resultado era tudo o que ela precisava. Na etapa anterior em Spa-Francorchamps, a brasileira conseguiu obter um bom desempenho. Ficando em terceiro na corrida longa e em quarto na corrida curta. Nunca havia chego em posições tão boas quanto aquelas correndo em Spa. Por isso, uma vitória em Monza significaria assumir o primeiro lugar no campeonato de pilotos.
Na segunda posição estava Callum Ilott, que estava com a volta mais rápida da pista no dia e parecia um verdadeiro foguete que se aproximava cada vez mais de Mick Schumacher, que estava na liderança. levou quatro voltas para conseguir se aproximar de Callum e tentou ultrapassá-lo duas vezes - após a curva 7 e a curva 10 - sem sucesso.

— Poupe energia na próxima volta, se mantenha próxima a ele e assim que passar pela 7 de novo use o DRS* e assuma a posição! — Orientou seu engenheiro.
— Entendido. Posso iniciar a volta já no CLN1? — Perguntou, utilizando o código que se referia a uma das estratégias da equipe.
— Pode. Inicie em CLN1, mantenha-se próxima do Ilott e na volta seguinte ative o DRS após a 7. Entendido? — Mark repassou o plano.
— Entendido.

grudou o seu carro de número 54, no carro de número 4 de Ilott. O piloto britânico comentou em seu rádio sobre como a brasileira estava cada vez mais rápida e que seu carro estava perdendo força. Seria questão de tempo para que ela o ultrapassasse. O pesadelo da equipe UNI-Virtuosi se tornou real, quando a brasileira executou a estratégia montada por seu engenheiro e após a curva 7 abriu o DRS na reta e assumiu a segunda posição de Callum.
Novamente, o box da Carlin foi contagiado pelos gritos de todos os presentes, que comemoravam balançando os braços de maneira frenética.
Na pista, os olhos de só conseguiam visualizar Mick Schumacher, que parecia cada vez mais perto de si. Faltavam três voltas para o fim da corrida.

, cuide dos pneus. Cuide dos pneus. — Mark falou no rádio.
— Entendido. — Respondeu ela, concentrada em diminuir cada vez mais a distância entre ela e Schumacher. Quando passou pela curva 3, conhecida como Biassono, faltando uma volta e meia para o final da corrida, ela percebeu que mesmo sendo arriscado, aquele momento era sua chance. — Vou tomar a posição do Mick.

Após passar pela curva 5 e antes que entrasse na 6, veio pelo lado esquerdo de Mick, o forçando para a direita. A brasileira moveu a alavanca giratória esquerda em seu volante, aumentando brevemente o consumo de combustível e ultrapassou Mick assim que terminaram a curva 6. O alemão a pressionava e ela quase perdeu a posição recém-adquirida na entrada da curva 7, mas ela segurou as pontas e impediu qualquer ataque feito pelo piloto da Prema.
Ao cruzar a linha de chegada, mal podia conter a emoção e apenas gritos eram ouvidos através de seu rádio.
A festa no box da Carlin era sem igual. Todo mundo se abraçava como se tivessem acabado de conquistar um campeonato e o clima de todo o paddock estava eletrizante.
A verdade é que praticamente todos os membros de todas as equipes de F1 e F2 prestigiaram a corrida que foi uma das mais emocionantes da história da Formula 2.
foi envolvida por um abraço apertado de seu engenheiro, Mark Bennet, assim que deixou o seu carro. Aos poucos, todo mundo acolheu a piloto, mesmo que não fosse muito indicado tanto contato devido a pandemia, mas naquele momento, todos estavam tomados pela emoção.
O lugar mais alto do pódio era verde e amarelo.

No dia seguinte, estava com um misto de emoções dentro do peito. Ainda encontrava-se em êxtase pela corrida do dia anterior, mas sabia que naquele domingo a história era outra. Grid invertido significava ter que largar no fundo e com tanta gente rápida na sua frente e com menos tempo para alcançar um por um, considerava quase impossível sair com a vitória novamente.
E como se não bastasse tudo isso, Zak Brown e Andreas Seidl, marcaram uma reunião com ela e seu agente Brett Hughes naquela manhã, após a corrida da F2, em uma das salas privadas do paddock. Mesmo que não tivessem falado sobre a natureza do assunto, em seu âmago ela sabia que tinha a ver com o seu futuro na Formula 1.
A brasileira já tinha 25 anos, sabia que a McLaren era a sua única oportunidade e no ano seguinte novos pilotos iriam ingressar na Formula 2. Por mais que a Carlin a mantivesse no time por mais uma temporada, estava na hora de se aventurar em outro ambiente. Como se não bastasse toda essa incógnita sobre o seu futuro, sabia que a McLaren estava flertando com Daniel Ricciardo e perto dele, ela não tinha nenhuma chance. Entretanto, a Renault entrou com uma oferta ainda mais tentadora para o australiano, uma vez que o negócio sobre o possível retorno de Fernando Alonso às pistas não foi adiante e a equipe francesa iria passar por algumas mudanças entre 2021 e 2022, sendo que iniciaria 2021 já com um outro nome da marca, no caso, passaria a se chamar Alpine.
Nenhum martelo havia sido batido, ou seja, Daniel não tinha confirmado nada, tampouco a McLaren ou a Renault.
Ela iria ser contratada pela McLaren? Já sabia que se a resposta fosse negativa, tentaria arranjar algo na DTM ou na Indy. Embora, em seu coração, não conseguisse se ver em nenhum outro lugar que não fosse a F1.

— Por que essa cara de tensão? — Perguntou George, já se sentando na mesa onde a brasileira estava.
— Decisões sobre o futuro. — Suspirou. Sentia-se inquieta e seu estômago estava começando a embrulhar. — To tentando não pensar muito nisso, se não eu vou pirar, mas tá difícil.
— Calma. Eu não tenho dúvidas que você vai ser contratada pelos papayas.
— Não, não fale isso! — Ergueu seu dedo indicador em riste.
— E por que, não? Acha que eu acreditar em você é sinônimo de dar errado? — George cruzou os braços e sentiu o leve tom de chateação em sua voz.
— Claro que não, George. Eu sempre apreciei o seu apoio, mas se eu for recusada, isso só vai fazer com que eu me frustre mais. — colocou uma de suas mãos sob a de George e olhou em seus olhos como se lhe transmitisse uma mensagem. Passaram a conversar com o olhar.
— Epa! Acho que tô atrapalhando. — A voz de Daniel se fez presente e ambos quebraram o contato.
— Claro que não. Nós dois estávamos conversando. — Falou se ajeitando na cadeira.
— Sem falar nada? — O australiano ergueu uma de suas sobrancelhas.
— Temos esse dom, aussie. Muitos anos de convívio. — A brasileira sorriu para Ricciardo que tamborilou os dedos na mesa. — Ok, Daniel, desembucha. Posso não te conhecer tão bem quanto conheço o George, mas você está estranho.
— Eu concordo e olha que te conheço um pouco melhor do que ela. — Brincou George.
— Eu soube que é hoje que o Zak vai falar com você. — Começou Daniel.
— Caramba, tá todo mundo do paddock sabendo é? Fofoqueiros! — Cruzou os braços, imitando a mesma pose que Russell havia feito minutos antes.
— Não, não. Eu só sei porque o Zak veio falar comigo sobre isso e pediu para que eu e meu agente nos juntássemos a vocês também. E eu já me decidi, .
— Oh, isso era tudo o que eu precisava saber antes de entrar na pista, Daniel. Muito obrigada. — Bufou.
— Não é isso. Me escuta. — Balançou as mãos, preocupado com a reação dela.
— Desculpa. — Balançou a cabeça. — Eu acabei de agir como uma idiota, você tem todo o direito de decidir para onde vai. A culpa não é sua. Na verdade, a culpa não é de ninguém, é só a vida e...
! Respira! — Daniel orientou, inspirando e expirando algumas vezes, de modo que ela o imitasse até que ficasse menos ofegante.
— Desculpa. Eu to nervosa e ansiosa. — olhou para George e sentiu um nó em sua garganta. Ele a fitou de maneira reconfortante.
, vai dar tudo certo. — George segurou uma das mãos da brasileira. — Sinto que esse assunto não diz respeito a mim, ouça o que o Daniel tem a dizer e fique calma.
— Tem razão. Eu vou manter a cabeça no lugar. — Falou e observou George dar a volta na mesa e depositar um beijo carinhoso em sua testa, antes de se afastar. — Ok, Daniel. Podemos prosseguir.
— O que eu vim dizer é que eu já tomei uma decisão e foi muito difícil para mim, porque a McLaren é uma equipe incrível e a Renault me acolheu de uma maneira única, então, não é fácil estar no meu lugar também, assim como eu sei que está diante do seu sonho. Eu não quero que fique um clima ruim entre a gente. É por isso que eu vim conversar com você antes da reunião.
— Eu entendo. Me desculpe pela reação que eu tive, eu só... é muita coisa em jogo e estou com medo. — Mordeu os lábios apreensiva.
— É normal sentir medo. Eu tenho muitos medos, o maior deles é conviver com o constante questionamento de até quando vão querer me manter aqui? Eu quero ser campeão, . E o relógio não para, o tempo não espera, ele apenas passa e eu vou ficando mais velho. Tic, tac. Tic, tac.
Daniel se perdeu em seus próprios pensamentos e o viu despido pela primeira vez. Ele não vestia o seu sorriso tão típico, sua expressão estava carregada de preocupação. Nunca tinha visto o australiano tão vulnerável.
— Nós vamos ficar bem, Daniel. Independente do que aconteça, iremos ficar bem. — abriu o seu melhor sorriso, em um claro convite para o australiano fazer o mesmo. Ele entendeu o recado e sorriu de volta na mesma proporção.
— Vamos ficar bem, .

Os dois passaram mais alguns minutos na mesa conversando. Decidiram mudar de assunto e falaram de suas famílias, hobbies e sonhos malucos. descobriu a paixão de Daniel por churrasco e ele descobriu que ela tinha lasanha como seu prato favorito. A brasileira quase passou mal de tanto rir quando ele contou algumas coisas que havia aprontado com a sua irmã mais velha, Michelle Ricciardo, quando era mais novo. Mas o feitiço virou contra o feiticeiro quando revelou as suas aventuras com seus irmãos mais velhos, aí foi a vez de Daniel rir até sentir falta de ar.
A conversa só cessou quando deu a hora de irem para o circuito. Ambos sentindo-se um pouco mais tranquilos e com a mente menos bombardeada de incertezas sobre o futuro.

Ao passar das catracas de acesso ao paddock, começou a caminhar entre os membros das diversas equipes presentes e seu olhar percorreu o motorhome da McLaren e poucos metros depois o motorhome da Renault invadiu o seu campo de visão. Lembrou-se de Daniel.
Sorrindo para o boné da Carlin que estava em suas mãos, o colocou na cabeça e focou na corrida de sprint que teria pela frente. Deixaria a reunião para o momento da reunião. Naquele instante, ela tinha uma corrida para vencer.




Glossário do capítulo

*ERS: Sigla em inglês para Energy Recovery System (Sistema de Recuperação de Energia), o ERS é um sistema projetado para recuperar, armazenar e tornar disponível a energia para impulsionar o carro e, opcionalmente, acionar todos os auxiliares.

*DRS: Sigla em inglês para Drag Reduction System (Sistema de Redução de Arrasto). Trata-se de um sistema para ajudar nas ultrapassagens, onde em determinadas partes da pista, o piloto pode “abrir” os flaps da asa traseira e o carro ganha muita velocidade em reta. Durante treinos os pilotos podem usar o sistema onde quiserem, mas durante a corrida somente no(s) ponto(s) determinado(s) pela FIA e se o piloto estiver até a 1 segundo de distância do carro à sua frente.

(Informações retiradas e adaptadas do site Auto Racing)




Continua...



Nota da autora:
Finalmente decidi me aventurar com uma fanfic no mundo dos esportes, que eu tanto amo e faz parte da minha vida desde criança.
Escolhi o universo da Formula 1, porque é um desafio escrever sobre, mas ao mesmo tempo é muito divertido explorar algo que eu gosto tanto.

Mais um capítulo entregue com muito carinho e espero que vocês estejam curtindo a história ♥


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Slytherpuff


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