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Última atualização: 26/06/2021

Prólogo

Não é como se a corrida fizesse parte de seu DNA desde o começo. Não é como se desde o berço fosse fascinada por carros, mas tudo relacionado a esportes chamava a sua atenção.
Sempre foi mais espectadora do que praticante e entre as partidas de futebol, vôlei e basquete que assistia quando tinha a chance, acompanhar as corridas de Formula 1 todos os domingos virou um hábito que adquiriu com o seu avô, Luís.
Com 8 anos assistiu a sua primeira corrida completa pela TV e não parou mais. Amava falar sobre os carros com o mais velho.

morava em uma casa simples, num bairro simples de São Paulo, juntamente com seus pais e seu avô, que antes morava em outra casa no mesmo bairro, mas após o falecimento da esposa, ele passou a dividir o teto com o resto da família para que não ficasse muito sozinho.
Também em seu bairro havia um kartódromo que costumava receber bastante gente aos finais de semana. As pessoas alugavam karts para correr por 30 minutos ou 1 hora por puro lazer, sendo que às vezes aconteciam algumas etapas de campeonatos amadores por lá. Durante a semana, era comum que a pista ficasse à disposição para algumas equipes amadoras que usavam o espaço para treinar.
já tinha ido algumas vezes com os pais assistir algumas competições, mas só virou um hábito quando completou 12 anos e seu avô passou a levar a garota para o kartódromo todos os domingos após as corridas de Formula 1. Juntos, eles comiam pipoca e tomavam refrigerante enquanto assistiam as pessoas pilotando de um lado para o outro.
Foi no ano de 2009, que tudo mudou na vida de de uma maneira que ela não poderia prever. Era um domingo como outro qualquer, o kartódromo estava cheio e seu avô exibia um sorriso sorrateiro no rosto. Foi só quando terminaram de ver a última bateria de corridas, que ele se virou para a garota com um brilho no olhar.

— Faltam poucas semanas para seu aniversário de 14 anos e faz muito tempo que eu venho planejando algo especial. Como no dia do seu aniversário iremos celebrar em casa, eu pensei em adiantar o meu presente.
— O que é vovô? — disse mergulhada em curiosidade.
— O que acha de correr em um daqueles? — apontou para os karts na pista e arregalou os olhos.
— Seria incrível, vovô! Mas é muito caro pra correr num desses. Eu já pedi para a minha mãe e ela disse que não é acessível para todo mundo.
— De fato é um pouco caro, mas eu venho guardando dinheiro faz um tempo, porque eu queria que você aproveitasse de verdade e como nunca entrou num desses antes vai precisar de um tempinho para se acostumar. Então, eu tenho o suficiente para 1 hora e meia. Eu conversei com o Sr. Francisco e ele deixou que você corresse no último horário do dia, que é quando está mais tranquilo. O que me diz?

Ele nem precisava esperar por uma resposta, a garota já comemorava antes mesmo que ele terminasse de contar tudo. O idoso foi arrebatado por um abraço apertado, seguido de infinitos dizeres de “muito obrigado”, que não poderiam nunca expressar de fato toda a gratidão que a menina sentia.
Quando chegou o momento, teve a experiência completa. Desde vestir o uniforme, até receber instruções de como dirigir e como funcionavam as coisas na pista. A animação dominava todo o seu corpo. Estava acostumada a assistir e não a ser quem estava atrás do volante. O mais próximo que esteve de se aventurar com carros foi nos carrinhos de bate-bate.
A adrenalina que sentia parecia se espalhar por cada músculo de seu corpo no momento em que acelerou dentro do kart. No início, sentiu um pouco de medo, mas depois aquilo se transformou em uma vontade absurda de permanecer imersa naquela sensação única. Seu coração estava disparado, mas seus olhos estavam cravados na pista como se fosse um predador atrás de uma presa. Ela não ouvia nada do que acontecia ao redor, nem mesmo os aplausos e gritos de incentivo de seu avô podiam ser notados.
Enquanto a garota de 13 anos dava voltas e voltas na pista, o Sr. Francisco, responsável pelo kartódromo, se aproximou do avô de esbaforido.

— A sua neta corre em algum lugar? — questionou sem tirar os olhos do carro número 54.
— Não. É a primeira vez que ela dirige um desses. — comentou, também atento a cada movimento da neta.
— Então, ela é um talento raro. Sei que é um esporte complicado, mas vocês deviam investir nela. A garota tá engolindo os outros dois garotos que estão na pista e eles correm aqui há pelo menos quatro anos. Acho que estamos diante de alguém com um futuro muito promissor. Eu sinto isso.

O palpite do Sr. Francisco estava mais do que certo. Assim que deixou a pista e foi em direção aonde estava seu avô e o responsável pelo kart, desatou a falar sobre tudo o que sentiu e de que era aquilo que ela queria fazer.

— Minha neta, não temos como colocar em uma equipe, você sabe das nossas condições. — explicou Luís.
— Não preciso de uma equipe agora, eu só quero correr, vô. Podemos fazer um acordo com o Sr. Francisco. Ele me deixa correr na pista algumas vezes na semana quando estiver vazia ou com pouca gente como hoje. Meus pais pagam metade da mensalidade e eu venho todos os dias após a aula ajudar a cuidar do kartódromo. Eu posso limpar os karts, varrer a pista, organizar as coisas nos cadastros, verificar os uniformes, eu faço qualquer coisa! Eu só preciso correr, vô! Eu não sei explicar o que eu senti, eu só sei que é uma sensação que eu quero ter pelo resto da minha vida. Eu quero correr. Por favor, vô! — juntou as mãos em uma súplica.
— Mesmo se o Francisco aceitar essa loucura, pagar meia mensalidade ainda é um valor alto para nós, meu amor. — Não queria despedaçar os sonhos da neta, podia ver no olhar da garota o quanto ela desejava aquilo.
— Nós damos o nosso jeito. Eu posso fazer alguns doces e vender pelo bairro com a mamãe. Você sempre disse que nós somos o melhor time e o melhor time não desiste nunca. Temos que tentar!
— Ela tem razão. — Francisco se meteu na conversa. — Dá pra ver o quanto ela quer isso e o quanto ela é talentosa. Eu já vi muitos passarem por essa pista, mas poucos como ela. Eu aceito as condições dela caso queiram tentar.
— Muito obrigada, Sr. Francisco! — abraçou as pernas do senhor, que assim como seu avô também tinha cabelos brancos, apesar de ser mais novo que Luís.
— Tudo bem, mocinha. — sorriu o seu avô, colocando o indicador na ponta do nariz da neta. — Temos que convencer os seus pais e é você quem vai argumentar com eles.
— Obrigada, vô! — o abraçou, um gesto que sempre lhe deu uma sensação de conforto e segurança. — Eu vou convencê-los!

Não foi fácil, mas três semanas depois de sua primeira experiência com um kart, já estava dentro do número 54 mais uma vez e isso passou a se repetir com frequência. Até que perto do final do ano, Francisco sugeriu que a garota se inscrevesse em dois campeonatos curtos de kart amador que ocorreriam na cidade. Ele cederia o carro para que ela competisse, mas sua família tinha que arcar com o deslocamento.
conseguiu números expressivos em ambos os campeonatos, terminando na sexta colocação na primeira competição e na quarta colocação na segunda.

No começo de 2010, se uniu a uma pequena equipe amadora de kart.
Para ajudar e a sua família, o Sr. Francisco - que se auto proclamava como o “patrocinador de baixo orçamento” da garota - vendeu o kart número 54 em diversas parcelas para os pais de , desse modo, ela poderia se juntar à equipe. Mesmo não vencendo nada com o carro que tinha, ela tirava o melhor que podia do mesmo e isso não passava despercebido por ninguém. A garota sempre brigava forte no meio do pelotão e chamou atenção de uma equipe profissional da modalidade, que também era pequena, mas tinha visibilidade.

De 2011 a 2012, disputou nos principais campeonatos de kart do país. Para que pudesse fazer melhorias no carro e também contribuir com os custos gerais, abriu mão de seu pequeno salário na equipe.
Seus pais sabiam que devido a realidade, o único modo para que ela continuasse correndo era esse, além de sempre estarem colocando uma quantia significativa de todo o seu pagamento no que fosse necessário para ajudar no desempenho da filha.
Todo o esforço gerou resultados surpreendentes, a garota conseguiu chegar no pódio diversas vezes na terceira colocação, além de ter beliscado quatro vitórias em dois anos competindo no profissional.
se destacava pela sua garra e perseverança, também por ser a única mulher na pista em grande parte das vezes em que competiu, o que fazia a sua presença ser sempre notada.

O primeiro passo internacional veio no final de 2012, quando o chefe de uma pequena equipe europeia - que estava participando de uma etapa curta em Interlagos -, viu o desempenho da brasileira e se apresentou a ela. A equipe de kart de ajudou bastante na comunicação e membros de equipes maiores fizeram a gentileza de checar as informações dadas pelo tal chefe, apenas para confirmar a veracidade do que foi apresentado. Descobriu-se que a XTR era uma equipe inglesa, que estava há apenas 3 anos competindo profissionalmente nos campeonatos europeus e com a expansão da equipe estavam em busca de novos talentos internacionais.
Depois de muitas conversas e acordos, decidiu arriscar e em 2013 foi para um país completamente novo no auge de seus 17 anos.
Deixar os pais, o avô e o Sr. Francisco para trás, além de todos os seus amigos, foi a parte mais difícil, mas era o seu maior sonho se tornar uma grande piloto e sabia que teria que abrir mão de muita coisa em prol disso.
Após passar dos testes e integrar oficialmente a equipe, em seu contrato de dois anos, aceitou correr pela XTR sem receber pagamento, já que a equipe era novata e pequena, ela queria que todos os recursos possíveis fossem usados para melhorias no carro. A única coisa que precisavam fazer era garantir moradia, comida e todo o suporte necessário para treinos e questões médicas.
Em seu primeiro ano pela XTR, ganhou algumas corridas de campeonatos regionais e seu auge foi o décimo lugar conquistado no Campeonato Mundial de Kart.

Em 2014, recebeu o apoio da família Fittipaldi, que após saberem da história de , contribuíram com um apoio financeiro significativo e também conseguiram o contato de um bom agente para cuidar da carreira da jovem.
Brett Hughes era inglês e tinha muita experiência no ramo do automobilismo, tendo ajudado na carreira de diversos pilotos que brilharam em categorias como a Indy, Formula E, Formula 1 e Nascar. Ter alguém agenciando a sua carreira, possibilitou que a brasileira pudesse focar ainda mais nas corridas. Por isso, em seu segundo ano de XTR, venceu três dos seis campeonatos de kart regionais que participou, além de conseguir um excelente segundo lugar no Campeonato Mundial de Kart.

Em 2015, ingressou na Formula 3 European Championship (que depois viria a se fundir com a GP3 a partir da temporada de 2019), onde conheceu George Russell, que corria pela equipe Carlin. Os dois se tornaram amigos rapidamente, bem como a colombiana Tatiana Calderón - na época companheira de equipe de Russell -, que logo criou um laço com a brasileira e encontraram uma na outra o apoio feminino que muitas vezes faltava no esporte. competiu pela equipe Fortec Motorsports, que tinha Pietro Fittipaldi no seu time de pilotos, alguém que havia conhecido pessoalmente 1 ano antes, quando a família de Pietro decidiu “apadrinhar” a garota. A brasileira terminou a competição em 12º lugar.

Em 2016, a piloto foi para a equipe Carlin, onde teve Lando Norris como um de seus companheiros de equipe, entretanto, como o britânico era piloto convidado, não podia somar pontos na competição. brigou firme entre os dez primeiros colocados, disputando posições ao longo do campeonato com Anthoine Hubert, Callum Ilott e Sérgio Sette Câmara. Terminou em 7º lugar, na frente de Hubert e atrás de Ilott.

Ainda investindo todo o dinheiro obtido como piloto profissional em sua própria carreira, em 2017, migrou para a GP3 e teve que correr atrás de patrocinadores juntamente com o seu agente para poder ingressar em alguma equipe. Mesmo com seus bons resultados na F3 - sendo que venceu algumas das corridas que disputou -, as grandes marcas ainda não apostavam as suas fichas em mulheres. Com muita luta, conseguiu dois novos patrocinadores, que não tinham um super aporte financeiro, mas já era o suficiente para o mínimo que precisava para entrar na GP3.
Ingressou na Arden International, se tornando a principal piloto da equipe que ficou em quarto lugar entre os times do grid. Já no campeonato de pilotos, conquistou a quinta posição, chamando a atenção da principal equipe da categoria, a ART Grand Prix, que a contratou para a temporada seguinte.

A temporada 2018 foi muito especial para a brasileira em diversos aspectos.
Para começar, teve um aumento em seus patrocinadores, o que possibilitou que pela primeira vez em anos pudesse guardar um dinheiro para si mesma. Estava doida para rever a família - já que não havia retornado ao Brasil desde que saíra do país 5 anos antes - e também gostaria de enviar dinheiro para ajudar seus pais e seu avô com as despesas de casa, sabia bem que as coisas não estavam fáceis e queria proporcionar uma vida melhor a eles.
Já dentro das pistas, a temporada foi marcada por uma disputa acirrada pelo topo entre todos os pilotos da ART Grand Prix. Com exceção de Nikita Mazepin, que a garota detestava com todas as forças devido a diversos comportamentos ridículos que o mesmo tinha dentro e fora do grid, poder competir com Anthoine e Callum era divertido. Mesmo que dentro da pista nada mais além do que vencer importasse, no instante em que tiravam seus capacetes e se livravam da balaclava, eles deixavam a pose de piloto para trás e se reuniam para conversar e jantar juntos.
Ao final da temporada, os pilotos da ART ocuparam as quatro primeiras posições. sagrou-se a grande campeã e teve Anthoine Hubert como seu vice, seguido por Callum Ilott na terceira posição e Mazepin em quarto. O melhor de tudo é que estendeu as comemorações até a categoria acima, já que seu melhor amigo, George Russell, venceu a Formula 2 naquele ano e garantiu a sua entrada na Formula 1, sendo um piloto Mercedes correndo pela Williams no ano seguinte.

A brasileira entrou na Formula 2 em 2019, correndo pela equipe Carlin e já como prospecto da McLaren que enxergava um grande potencial na piloto, por isso, entraram com um grande suporte financeiro. A temporada também marcou um dos momentos mais difíceis que todos ali viveram: a morte de Anthoine Hubert no GP de Spa-Francorchamps.
jamais se esqueceria do silêncio ensurdecedor que dominou o paddock após o ocorrido. Foi um lembrete do quão frágil a vida é e do quão perigoso é o esporte que praticam mesmo com tantos recursos para preservar a integridade do piloto.
Seu desempenho sofreu algumas oscilações nas corridas seguintes, mas de um jeito ou de outro, conseguiu encontrar seu ritmo na reta final da temporada para cravar um 3º lugar, ficando atrás de Nicholas Latifi e Nyck de Vries, que sagrou-se campeão.

Em 2020, em sua segunda temporada na Formula 2 e ainda correndo pela Carlin, a garota que brigava forte pelas primeiras posições no campeonato de pilotos, foi selecionada como piloto reserva da McLaren na Formula 1 e com chances de estar no grid pela equipe laranjinha na temporada seguinte, uma vez que o espanhol Carlos Sainz, havia assinado com a Ferrari para 2021.

O momento pelo qual ela sempre batalhou havia chego. Tinha que elevar a potência ao máximo, desafiar os limites da velocidade e de sua própria mente, ser a melhor versão de si mesma para provar que o assento ao lado de Lando Norris na lendária equipe inglesa merecia ser seu.
Ela não podia se dar ao luxo de ser boa.
Ela tinha que ser a melhor.

Era tudo ou nada.


Capítulo 1


Agosto de 2020
Reino Unido



O tilintar dos talheres indicavam a agitação que tomava conta do restaurante do hotel em que estavam hospedados. Na mesa, o papo entre os pilotos acontecia de maneira animada e os assuntos iam desde os últimos lançamentos do mundo dos games e música, até as próximas corridas do calendário modificado graças ao Novo Coronavírus.

— E como está a vovó do grid? — Shwartzman se aproximou da mesa provocando a piloto brasileira.
— Haha, engraçadinho. Admiro seus esforços, mas esse apelido não vai pegar. — sorriu para o russo com ar brincalhão.
— Vale a pena tentar, né? Até porque você realmente é a vovó do grid.
— Olha aqui garoto, você me respeita! Vou enfiar essa colher na sua garganta! — ameaçou erguendo o talher na direção de Robert, o que fez todos os presentes na mesa focarem a sua atenção nos dois.
— Denúncia! Tão querendo me agredir aqui, hein? Vou te reportar para a FIA te acusando de má conduta e comportamento violento! — O russo aumentou o tom de voz, enquanto dava voltas na mesa para fugir da brasileira que corria atrás do mesmo. Eventualmente, ela acabou o alcançando e lhe deu alguns tapas no peito. — Ai! Ai! Não tá mais aqui quem falou. Juro!
— Você não vale o euro que te pagam, Robert. Mick, como é que você aguenta? — riu, se virando na direção do alemão que era companheiro de equipe de Shwartzman na Prema Racing.
— Eu não aguento, eu finjo que aturo. Além de um ótimo piloto, eu sou um bom ator também. — provocou.
— Tá rolando um complô contra mim? É isso mesmo?
— Finalmente ele percebeu. — entrou na brincadeira o brasileiro Felipe Drugovich, fazendo um high five com em seguida.
— Callum, me salva! — Shwartzman apoiou as mãos no ombro do amigo, que estava apenas rindo de tudo.
— Se vira. Ninguém mandou mexer com a .
— Nossa! Nunca mais quero falar com nenhum de vocês, exceto o Tsunoda, porque ele é a única pessoa com caráter nesse grid. Parabéns, Yuki. Você foi promovido ao posto de meu melhor amigo do grid inteirinho. — Robert sentou-se na cadeira vaga que havia ao lado esquerdo de Tsunoda e passou um de seus braços por cima dos ombros do japonês, o deixando completamente vermelho.
— Pode parar de tentar corromper o meu companheiro de equipe, Shwartzman. — protestou , deixando Yuki com um tom carmesim ainda mais forte.
— Vocês estão deixando o Tsunoda mais vermelho do que o círculo na bandeira do Japão. — interrompeu Callum Ilott em meio a gargalhadas. — Parem de enfiar o Yuki no meio da treta de vocês.
— Infelizmente, essa é a minha deixa. — comentou erguendo o olhar para a porta do salão, onde viu Nikita Mazepin entrando.
— Não precisa sair, . Fica aqui com a gente. — falou Mick.
— Desculpa Mick, mas diferente de você, eu não sou uma boa atriz. Além disso, já tive a minha cota de aguentar as merdas que o Mazepin falava e fazia quando a gente era da mesma equipe na GP3. Hoje em dia, eu passo reto. Vou tomar um ar. — disse a piloto da Carlin dando um breve aceno para todos e pegando o seu copo de suco. Antes que deixasse a mesa por completo, passou por Callum dando um tapinha leve em sua cabeça, brincadeira que era comum entre os dois desde que foram companheiros de equipe pela ART Grand Prix em 2018.

Ao chegar na área externa, onde possuía uma bela vista da cidade - já que se encontrava em uma altura considerável -, sentou-se em uma das mesas, suspirando. Às vezes, se pegava pensando no quão sortuda era por estar onde estava, mas logo tratava de corrigir a linha de raciocínio, porque sim, tinha que contar com um pouco de sorte também para estar nesse ramo, mas por trás de tudo aquilo havia uma história de muita luta, muito choro, muito medo, mas também muita certeza de estava trilhando o caminho certo e essa certeza foi o que a fez colher bons frutos, foi o que a fez rir mais, sonhar mais e acreditar que um dia estaria entre os melhores do mundo.

— Deixa eu advinhar. Tá fugindo do Mazepin? — A voz do britânico invadiu seus ouvidos e ela nem precisou olhar para saber quem era.
— George! — exclamou animada, observando o amigo que se sentou em uma cadeira ao seu lado. — É impressionante como você me conhece tão bem.
— Te aguento faz cinco anos, alguma coisa eu tinha que saber sobre você. — disse rindo. — Mas me conta as fofocas da F2. O que tá rolando?
— Nada diferente do que enfrentamos todos os dias nesse meio, mas confesso que tá rolando uma pressão a mais de minha parte. Eu estou um pouco nervosa e tô tentando não deixar isso me dominar. Zak e Andreas vieram conversar comigo ontem, disseram que todos na Mclaren estão com grandes expectativas em relação ao meu futuro na Formula 1.
— O mesmo papo que rolou comigo quando fui abordado pela Mercedes e a Williams. Eles dizem que admiram o seu talento ao mesmo tempo em que jogam toda a pressão do universo nas suas costas. — comentou Russell.
— Pois é. Eu sei que eles fazem isso porque sabem que uma vez que você chegar lá, a pressão é infinitamente maior, então, querem nos testar para ver se vamos saber manter a cabeça erguida diante de adversidades. O problema não é a pressão em si, é a expectativa. Eu não quero decepcioná-los. Eles esperam que eu seja campeã e eu vou lutar para isso. Eu quero vencer. Mas e se eu não vencer? Será que a McLaren vai me considerar um fracasso e achar que jogaram todo o seu dinheiro fora ao investir em mim? — suspirou ela, sentindo-se mentalemnte casada.
— Epa! Epa! Epa! Vamos parando aí, . Que papo é esse? Como piloto você não pode inundar a sua cabeça de “e se”. Quando você faz isso, você abre brechas para dúvidas. É por isso que piloto tem que ser cheio de si. Bata no peito todo dia com orgulho e entre na pista com a certeza de que vai levar esse campeonato. Se no final irá vencer ou não, só chegando na última corrida para saber, mas até lá, enquanto houver uma chance, em todas as corridas você entra com a possibilidade de ser campeã. É nisso que você tem que colocar todo o seu foco. — George fez um leve carinho nos ombros de , a confortando e transmitindo o apoio que ela precisava.
— Você sempre sabe o que dizer. — colocou uma de suas mãos sob a de George que ainda estava apoiada em seu ombro.
— Eu aprendi com a melhor e sou um bom amigo.
— Você não é um bom amigo, George, você é o melhor amigo. O que você e a sua família fizeram por mim durante todo esse tempo que passei sem voltar ao Brasil para ver os meus parentes, eu nunca vou esquecer. Cada natal, cada ano novo, cada aniversário, cada celebração de vitória e suporte emocional nas derrotas. Vocês me acolheram e fizeram de tudo para que eu tivesse um lugar que eu pudesse chamar não de casa, mas sim, de lar. — disse tudo olhando diretamente na imensidão azul dos olhos do britânico, queria que a gratidão ficasse mais do que clara, embora, não precisasse, porque George sabia disso.
— Você não precisa me agradecer, eu fiz o que um amigo faz, que é ajudar quem importa pra mim. E eu já te disse isso um milhão de vezes e digo de novo, a minha família é a sua família e isso nunca vai mudar. — apertou levemente a bochecha da brasileira, que riu com o gesto e em seguida pegou o seu copo de suco, finalizando em um gole o que restava.
— Prometa para mim que se daqui, sei lá, uns 10 anos, nós dois estivermos na briga por títulos na Formula 1, a pressão das equipes estiverem acabando com a gente, a mídia criando todo dia situações para quebrar o nosso laço, que mesmo assim, a gente não vai deixar isso subir a nossa cabeça. Você promete? — Ela o encarou séria.
— Eu prometo. Até porque quero você como vice na celebração de todos os meus títulos. — brincou.
— George! — protestou.
— Tá bom, tá bom. Eu deixo você beliscar uns dois ou três títulos mundiais, só pra dar uma variada.
— Ok, cancela tudo o que eu disse antes sobre você ser o meu melhor amigo. Você não me merece, George Russell. — cruzou os braços como se estivesse brava com ele.
— Você sabe que é brincadeira. Apesar de todas as tentativas de quebrarem a gente nesse meio, eu vou tá sempre do teu lado. Você me conquistou com caipirinha, pão de queijo e brigadeiro. Não tem como te deixar ir.
— Você é inacreditável, Russell. Só não te bato, porque achei fofo. — riu e foi acompanhada por George.

Havia tantas histórias e momentos únicos que compartilhavam e geralmente situações simples como aquela, onde estavam sentados em uma mesa olhando a paisagem ao redor, era o que mais ficava marcado em suas mentes.
Um silêncio confortável se fez presente e os dois se ajeitaram nas cadeiras apenas apreciando cada segundo. Logo, cada um iria para um lado oposto do hotel. No dia seguinte, eles tinham a sua própria agenda para cumprir, que ia desde treinos físicos até reuniões com engenheiros e chefes de equipe.
O segundo final de semana em Silverstone se aproximava e ambos precisavam dar o seu melhor dentro das possibilidades que tinham.


▧▣▧



Devido a pandemia, o paddock estava bem menos agitado do que estava acostumada a ver e todos seguiam o protocolo de saúde à risca.
A brasileira passou uma parte da manhã treinando com o seu preparador físico, um homem negro e norte-americano chamado Peter Jones, que treinava desde a entrada dela na GP3. Ele sempre a levava ao limite e extraía o melhor dela. Também era dono de um bom humor inabalável e o responsável por manter a confiança da piloto elevada.
Depois do treino, se reuniu com a sua assessora de imprensa, Susan Evergreen, para ficar por dentro de todos os seus compromissos do dia. Evergreen era uma loira neozelandesa, que antes mesmo de ser assessora de já a conhecia, pois cuidava de um outro piloto da Carlin na época que a brasileira foi membro da equipe em 2016 na Formula 3. Ela acabou se tornando a assessora oficial de quando ela retornou para a Carlin, já na Formula 2, em 2019. A intenção era que Susan seguisse na função após a possível ida da brasileira para a McLaren no ano seguinte.

— Bom dia, Mark. O que me conta de bom? — perguntou , jogando seus cabelos para trás enquanto fitava o seu engenheiro da Carlin. Mark Bennet tinha uma barba rala, cabelos curtos e pretos e um óculos de formato quadrado rente ao nariz.
— Checamos o carro e está tudo conforme o planejado. Já foi resolvido o problema com a roda traseira esquerda, substituímos os difusores e você provavelmente não irá mais sentir um desequilíbrio ao pilotar como foi na semana passada. O atraso que estava acontecendo para o sistema DRS* ser ativado também foi resolvido. — explicou o engenheiro indicando no carro as alterações feitas.
— Tudo bem. Obrigada pelas alterações, Mark. — agradeceu, alisando a parte da frente da lataria do número 54. — Vamos ver como essa belezinha vai se sair na corrida longa de hoje. Espero que eu possa dar o troco no Schumacher pela semana passada.
— Conte comigo para isso. — Mark falou firme. O engenheiro estava confiante de que iriam conseguir um bom resultado.
— Alguém está animado para hoje. — brincou, empurrando o engenheiro levemente pelo ombro.
— É Silverstone! Estamos correndo em casa. Tem um sabor diferente vencer em casa, mesmo que no momento não possamos ter torcida.

De fato, o ano atípico gerou modificações no esporte em escala global e com a Formula 1 e 2 não foi diferente. O calendário ficou mais limitado a alguns países, sendo que em casos como o Reino Unido, o circuito se repetiu.
Na semana anterior, já haviam competido por lá e o piloto alemão da Prema Racing, Mick Schumacher, filho do lendário piloto Michael Schumacher, havia vencido a corrida longa e ficado com o segundo lugar na corrida curta de domingo. Já a piloto brasileira ficou em quarto lugar na corrida longa e em terceiro na corrida curta. Ela teve alguns problemas com o carro nas duas provas e isso fez com que não conseguisse acompanhar o ritmo de um de seus principais rivais da temporada.
A meta para aquele final de semana era conseguir vencer a corrida longa e conseguir no mínimo um terceiro lugar na corrida curta. A pontuação entre os quatro primeiros pilotos era muito apertada e se as coisas se mantivessem daquele jeito, as chances de o campeão ser descoberto só na última prova da temporada eram bem grandes.

Quando o momento da prova finalmente chegou, entrou no box da Carlin completamente concentrada com o que tinha que fazer. Seu objetivo era muito claro e ela sabia que todas as equipes da F1 iriam acompanhar a corrida como já era de praxe.
Porém, tentou por um instante esquecer das expectativas da McLaren sobre si, esquecer da pressão enorme que existia em ser “a garota que pode mudar tudo para as mulheres na Formula 1”, que era o título da matéria que havia lido naquela manhã em um dos principais portais sobre o esporte.
Ao entrar em seu cockpit, ela só queria ser a garota de 13 anos que entrou num kart despretensiosamente e encontrou o seu propósito.
Era com esse espírito que ela iria para o GP de Silverstone.
Livre.

queria correr apenas por si mesma e ninguém mais.

Quando a largada foi dada, ela cravou seus olhos na pista e esqueceu do mundo exterior. Nada mais importava. Era o momento de conexão dela com o seu carro. A adrenalina que percorria suas veias era o combustível que a fazia acelerar cada vez mais, aproveitando todas as oportunidades que tinha a seu favor, como passar pelo apex* com perfeição e abrir o DRS no segundo exato.
, que havia largado na terceira posição, conseguiu em poucas voltas assumir a liderança. A sintonia entre ela e seu engenheiro estava no ponto, cada estratégia aplicada era feita com uma precisão absurda e quanto mais a piloto da Carlin completava as suas voltas de forma arrebatadora, aos olhos dos espectadores que acompanhavam em sua maioria pela TV e internet, o que se via era como uma dança extremamente sincronizada.

A de 13 anos havia vencido aquela prova.

— Parabéns pela vitória . Você foi perfeita e ainda bateu o recorde de volta mais rápida de um piloto da F2 nessa pista. Ninguém merecia esse P1 mais do que você hoje. — celebrou seu engenheiro via rádio.
— Obrigada! Obrigada a você e a toda equipe pelo empenho. Essa conquista é nossa! — respondeu emocionada, enquanto erguia uma das mãos para o alto. Vencer era a melhor sensação do mundo.

Após comemorar com sua equipe e no pódio, onde foi completamente encharcada de champanhe por Callum Ilott e Mick Schumacher. A brasileira tomou um rápido banho, deu curtas entrevistas - já que a quantidade de imprensa liberada no circuito era quase nula por questões de segurança - e gravou um vídeo para o Youtube. Depois acompanhou os treinos classificatórios no box da McLaren e em seguida fez uma entrevista via zoom para a ESPN.
Seu último compromisso do dia era no motorhome da McLaren.
No caminho ela foi parada por Susan, que veio correndo em sua direção lhe dar o boné da escuderia inglesa. havia esquecido o objeto em cima da mesa da sala que usou para o seu compromisso anterior. Apesar de estar vestida com o uniforme da Carlin, como prospecto da McLaren, ela sempre tinha que usar algo que remetesse à equipe quando estava no motorhome ou nos boxes da laranjinha por uma questão de protocolo e vínculo com os patrocinadores.

— Parabéns pela vitória na corrida de hoje, . Você foi incrível! — Pierre Gasly, que passava por ali com alguns membros da AlphaTauri, a cumprimentou apertando a sua mão.
— Muito obrigada. E parabéns pela sétima colocação na classificação de hoje. Você vem fazendo um trabalho absurdo na AlphaTauri e alguma coisa me diz que você vai ganhar uma corrida em um GP próximo. Marque as minhas palavras e de preferência num lugar onde possa ver. — brincou e o piloto francês a acompanhou.
— Obrigado pelos elogios. Espero que esteja certa na sua teoria.
— Não é teoria, Pierre. É intuição. — comentou já voltando a seguir o seu caminho, mas manteve o contato visual com ele enquanto caminhava de costas. — E a minha intuição raramente dá um sinal de vida, mas quando dá, não falha.
— Vou me lembrar disso quando eu estiver no lugar mais alto do pódio! — falou em um tom de voz elevado para que a brasileira pudesse ouvir e sorriu, acenando uma despedida para ela.
— É bom se lembrar. Eu vou cobrar! — gritou de volta, retribuindo o aceno e dando as costas para Gasly.
— E essa gritaria aqui no meu paddock, hein? Sinceramente, esse povo da F2 não podem vencer uma corrida que ficam se achando. — A voz inconfundível da pessoa mais brincalhona que existia naquele meio, chamou a atenção de , que girou o corpo para o lado e viu o australiano vindo em sua direção.
— Aussie! Aussie! Aussie! — A brasileira colocou as mãos nas laterais da boca, sob a máscara que usava, imitando o grito de torcida típico dos australianos.
— Oi! Oi! Oi! — respondeu Daniel Ricciardo do mesmo jeito que a brasileira e sorriu de maneira acolhedora, mesmo que ela não pudesse ver, mas seu olhar o entregava. — Que corrida incrível a de hoje, hein? Você acabou com os caras.
— Sabe como é, né? Mais um dia comum na minha vida. — disse ela, entrando na brincadeira, o que fez Daniel rir. — Mas foi sim uma boa corrida. Eu estou muito feliz com o meu desempenho, mas sei que a briga vai ser muito acirrada até o fim. E eu fico chocada com a quantidade de piloto de 17, 18 anos, que tá vindo com tudo nos últimos anos. Do jeito que está, em breve vai ser impossível ter alguém de 25 anos como eu correndo na F2.
— Isso é verdade, a tendência é essa, mas enquanto houver talentos como você que conseguem encontrar meios de chegar nesse esporte mesmo não sendo de famílias privilegiadas, sempre há chances de pilotos considerados mais velhos do que o resto encontrarem seu espaço. E você ainda é nova. Na próxima temporada tem grandes chances de estar correndo contra mim e os outros. — cruzou os braços enquanto encarava os olhos da brasileira, que era a mais baixa entre todos os pilotos do grid.
— Espero que eu consiga mesmo. Vai ser uma honra correr contra você.
— Só diz isso, porque ainda não competimos um contra o outro. No ano que vem você vai me odiar. A cada ultrapassada que eu te der, você vai xingar muito no rádio. — provocou.
— Fala isso como se você também não fosse socar o volante em cada vez que eu te jogar para o canto da pista em uma curva. — franziu o cenho, como se aceitasse o desafio proposto nas entrelinhas.
— Você tem atitude, brasileira. Gosto disso. — sorriu, mantendo o seu olhar fixo no dela por mais tempo do que o normal. — Boa sorte na temporada. Vou manter meus olhos em você.
— Você faz bem, porque se eu subir para a Formula 1, vou te dar trabalho.
— Não espero menos de você, . — Daniel estendeu a mão para a brasileira, que retribuiu o gesto e eles apertaram as mãos. — Parabéns, você foi oficialmente escolhida como minha vice quando eu for campeão mundial.
— Argh! O George sempre faz a mesma coisa comigo e eu sempre caio nessa. Vocês são dois panacas. — riu, segurando a sua vontade de dar uns tapas em Ricciardo como costumava fazer com o Russell, mas não tinha intimidade o suficiente com o australiano para tal ação. — Bom, eu preciso ir. Te vejo por aí. Se cuida.
— Você também. — Daniel a encarou uma última vez antes de seguir para a saída do circuito.

Assim que adentrou o motorhome da McLaren, conseguiu ouvir a risada aguda de Lando Norris e os resmungos de Carlos Sainz em espanhol. Era sempre assim o clima da equipe, exceto, quando se reuniam para analisar as coisas referentes ao desempenho dos carros e dos pilotos. Não havia espaço para outra coisa senão seriedade em situações como aquela.
A McLaren havia passado por uma grande transformação e a mudança de ares, gerou bons frutos. O desempenho do time estava melhor, os funcionários estavam se sentindo mais estimulados e apesar de Zak Brown e Andreas Seidl viverem sob constante tensão, tentavam ao máximo manter o clima leve.
gostava de como todos pareciam dialogar na mesma altura, não tinha aquilo do chefe palestrar por duas horas e o resto entrar mudo na reunião e sair calado. As pessoas participavam, traziam sugestões, apresentavam mudanças. A reconstrução ainda estava no meio do processo, mas era algo que estava sendo feito por toda a equipe como um todo e não somente com base na decisão de uma ou duas pessoas, que mal botam os pés numa pista de corrida.

— Não me diga que você perdeu no jogo de F1 2020 de novo, Norris?
! — Lando se levantou da poltrona para cumprimentá-la, sendo seguido por Carlos.
— Señorita! — A saudou calorosamente. — Como você está após o incrível dia de hoje?
— Estou muito feliz, mas ainda há muito a ser feito. — falou a brasileira.
— Ah, por favor. Guarde essa polidez para os jornalistas. — Zak surgiu na sala com uma prancheta nas mãos. — Você venceu a corrida. Não segura esse sentimento, até porque ele só pode durar até amanhã de manhã. Quando pisar no paddock de novo, já será outra prova, então aproveite os momentos de glória.

riu dos gestos exagerados que Brown fez com as mãos enquanto falava. Ele se sentou em uma das poltronas, ajeitou a máscara que cobria parte de seu rosto e indicou um lugar para a brasileira, que acatou o pedido.

— Minha mãe costuma me dizer a mesma coisa, que eu tenho que aprender a celebrar as minhas vitórias do jeito certo. — mexeu no zíper da jaqueta da Carlin que usava, como uma forma de disfarçar a súbita timidez que tomou conta de si. Sempre sentia-se um pouco intimidada quando estava na presença de diretores executivos e chefes de equipes. E depois do episódio onde derrubou água nos pés de Toto Wolff na temporada anterior, ela se sentia mil vezes mais desconcertada.
— E ela está certa. — Zak apontou brevemente na direção de e logo ajeitou a postura. — Bom, reuni vocês hoje para falar do óbvio, até por isso que será algo breve. Ainda temos toda uma temporada pela frente e temos que pensar nela. Sei que a mídia anda falando muito sobre o Sainz ir para a Ferrari em 2021, mas não podemos nos dar o luxo de ir para esse caminho. Isso no caso de vocês dois. Já se tratando de você , sei que está sob pressão não só pelo campeonato de F2, mas também com toda essa expectativa em relação a você ser a possível nova piloto da McLaren. Não vou mentir. Precisamos de resultados e é isso que você tem nos dado. Infelizmente, a pressão faz parte do jogo, se é algo que você quer vai ter que lidar com isso.
— O que está achando do nosso desempenho até o momento? — Carlos questionou, atento aos movimentos de Zak, que tirou a prancheta que estava em seus braços e deixou em cima de uma mesa de vidro localizada no centro.
— O desempenho está dentro do que projetamos e a tendência é que isso suba, ou seja, os carros estão indo melhor do que a gente esperava e vocês estão pilotando cada vez melhor. Acredito que podemos ficar entre as principais equipes no campeonato de construtores se a gente seguir firme. Vamos prosseguir com os testes de desempenho de motor na próxima semana. Por isso, você está aqui, . Quero que acompanhe de perto o trabalho da equipe principal e viaje conosco para os circuitos onde não tiver Formula 2. Já conversei com o chefe da Carlin, temos uma parceria e você está liberada para nos acompanhar. — informou, cruzando os dedos na frente do peito.
— Certo. — assentiu e mordeu os lábios. Estava diante de uma grande oportunidade. — Será uma honra, Zak.
— Na próxima semana estaremos em Barcelona. Sainz tem algumas questões familiares para resolver, por isso, Norris e , vocês farão os testes de velocidade para averiguarmos se os últimos ajustes foram 100% efetivos. Alguma dúvida?
— Não. — responderam os três juntos, rindo em seguida pela coincidência e o breve momento de tensão após todas as informações dadas por Zak.
— Então, acabamos por aqui. O que acha de celebrarmos a vitória da senhorita como se deve? Mas sem muito alarde, porque amanhã todo mundo aqui tem corrida. — Zak se levantou, já liderando o caminho para a saída do motorhome.
— Para onde vamos? — perguntou a brasileira.
— Voltar para o hotel e depois vamos para o restaurante que eu reservei. Hoje o jantar é por conta do chefe e antes que me deem os créditos, não foi ideia minha, foi do Andreas. — sorriu.
— Então, essa que é a tal motivação da McLaren que você tanto fala para a imprensa. — deduziu Lando. — Tá vendo, Carlos? Esse é o caminho! Precisamos pegar pódio para ter comida de graça.
— Quem vê você falando assim, nem parece que o seu pai nada em dinheiro e que a McLaren te paga para estar aqui. — Carlos comentou, enquanto ambos cutucavam um ao outro e ria da brincadeira entre os dois.
— Olha só quem fala, Carlos Sainz. — rebateu.
— Mas uma coisa eu vou concordar com o Lando, não se perde a chance de se ter comida de graça. — A brasileira bateu seu cartão na catraca de saída do paddock enquanto o sol do meio da tarde do verão londrino marcava presença.

O caminho até o hotel foi regado de brincadeiras entre os pilotos e com Zak sempre soltando uma piadinha oportuna. Quanto mais tempo passava com eles, mais sentia que ser parte daquele time era o seu lugar.
A temporada ainda estava em seu estágio inicial, as coisas estavam confusas com a pandemia rolando solta pelo mundo, mas naquele instante, a brasileira respirou fundo e agradeceu pelo o que estava vivendo.
A vida era assim, um passo de cada vez e como um livro não se escreve com uma página só, se agarrou nos conselhos de sua mãe e abriu o seu melhor sorriso enquanto olhava pela janela.
iria celebrar a sua vitória do jeito que ela merecia.



Glossário do capítulo

*DRS: Sigla em inglês para Drag Reduction System (Sistema de Redução de Arrasto). Trata-se de um sistema para ajudar nas ultrapassagens, onde em determinadas partes da pista, o piloto pode “abrir” os flaps da asa traseira e o carro ganha muita velocidade em reta. Durante treinos os pilotos podem usar o sistema onde quiserem, mas durante a corrida somente no(s) ponto(s) determinado(s) pela FIA e se o piloto estiver até a 1 segundo de distância do carro à sua frente.

*Apex: É o ponto de uma curva que o piloto tem como seu objetivo fazer o carro passar. Se localiza no que é considerada a linha mais rápida da curva. Algumas curvas tem mais de um apex.

(Informações retiradas e adaptadas do site Auto Racing)


Capítulo 2


Agosto de 2020
Espanha



A animação dos engenheiros mal podia ser contida após o sucesso dos testes de velocidade realizados por Lando e ao longo daquela manhã.
havia usado o carro de Carlos Sainz e a equipe teve que fazer algumas adaptações para deixar um pouco mais próxima do acelerador, uma vez que a ponta de seu pé apenas triscava por ali.
Ambos os carros haviam desempenhado bem e dentro das expectativas aguardadas pela equipe.

— Estão deixando a gente criar esperança de conseguir uma boa posição no campeonato de construtores. — Andreas falou animado após um abraço apertado em Lando, que ria com a reação do chefe de equipe.
— Tudo é possível, chefe. Tá na mão desses dois aí! — disse , com o macacão azul de corrida da McLaren caído até a cintura e apontando para dois grandes posters que ostentavam os rostos de Lando e Carlos.
— Boa parceira! Jogando tudo pra cima de mim e saindo de fininho só porque ainda ta na Carlin. — brincou Lando, que se encontrava do mesmo jeito que a brasileira, mas com a adição de sua inseparável garrafa vermelha de água que levava para todo lugar.
— Cada um com os seus problemas, Norris. Já estão com muita expectativa em cima de mim na Carlin, preciso dividir a pressão com alguém. Sei que vocês vão dar conta do recado. — piscou para Lando, que sentiu a timidez lhe atingir quando as suas bochechas ficaram vermelhas e desvencilhou-se do contato visual. decidiu não comentar para não deixar o britânico envergonhado diante dos outros membros da equipe.
— É disso que eu gosto! Dessa sinergia! O time todo na mesma frequência, todo mundo acreditando em todo mundo, apoiando todo mundo, é isso que tá levantando a McLaren de novo. Com um trabalho bem feito e paciência, eu sinto que podemos chegar ao nosso devido lugar, que é o topo! — Zak Brown andava pela sala empolgado e todos mantiveram a sua atenção no homem que estava muito orgulhoso de tudo o que vinham fazendo até ali. — Parabéns pela dedicação de cada um de vocês. Eu sou muito grato por todo o empenho.

Todos os presentes aplaudiram e em meio a gritos de comemoração, abraços e risos, aos poucos, cada membro foi deixando o espaço onde estavam em direção a saída do circuito. Já era quase uma da tarde e um delicioso almoço era tudo o que precisavam.
Lando e decidiram comer no restaurante do hotel e voltaram juntos com um motorista da McLaren designado para esses deslocamentos de membros do time papaya.

— Me diga que meu carro está inteiro, por favor! — Foram surpreendidos por Carlos no momento em que pisaram no lobby do hotel.
— Tá tudo sob controle, Carlos. Causei no mínimo um leve amassado no lado direito da asa dianteira e raspei a lataria toda da lateral do carro no muro da pista, mas deu tudo certo e os testes foram perfeitos. — sorriu exibindo todos os dentes, enquanto via o espanhol perder a cor.
— Ela está brincando, né? — Carlos olhou para Lando alarmado.
— Não. — Lando fechou a expressão e se aproximou do amigo colocando uma mão em seu ombro. — Visualmente a coisa foi feia, mas pelo menos o objetivo foi cumprido e o teste foi um sucesso.
— Nunca mais te deixo pilotar a minha bebê. — choramingou Carlos, fazendo bico.
— Não seja dramático, os mecânicos já estão cuidando de tudo. Até amanhã vai estar 100% nova. — A brasileira podia ver a expressão de derrota na cara de Sainz. Ela entendia esse sentimento. Pilotos eram muito ciumentos com os seus carros.
— Eu não acredito. — lamentou.
— Sainz, olha pra mim. Você acha mesmo que eu não ia cuidar bem do seu carro? Não responda! — o cortou assim que o viu abrir a boca. — Ele tá inteiro. Eu não quebrei e nem risquei nada, está como novo, como se tivesse acabado de sair da fábrica.
— Sério? — Carlos a olhou de maneira intensa, procurando pelo menor vestígio de hesitação. Queria pegá-la na mentira.
— Sério.
— Sério mesmo?
— Carlos! — A brasileira bateu o pé. — Juro pela minha vaga na McLaren que seu carro está inteiro.

O espanhol suspirou aliviado colocando a mão sob o peito, Lando revirou os olhos enquanto ria do momento dramático do companheiro de equipe e juntos prosseguiram em direção ao restaurante do hotel. Carlos, que já havia almoçado, optou por um suco e ficou na mesa acompanhando ambos, que devido a toda fome que sentiam, devoraram o que estava em seus pratos em tempo recorde.

Mais tarde naquele mesmo dia, foi até o quarto de Callum Ilott convidada pelo mesmo. Era normal que alguns dos pilotos da F2 se reunissem para jogar videogame, às vezes, alguns pilotos da F1 também apareciam, mas costumavam ser sempre os mesmos. Porém, a brasileira se surpreendeu ao abrir a porta e ver um rosto que não aparecia com muita frequência nas jogatinas.

— Energético! — brincou com o piloto da Red Bull, Max Verstappen, que era uma das pessoas que ela não esperava ver por ali.
— Vitamina de Papaya! — devolveu, sorrindo para a brasileira e a cumprimentando com um beijo no rosto. — Fiquei sabendo que foi fazer testes com a McLaren. Como foi?
— Foi ótimo. E é só isso que você precisa saber, não vou ficar compartilhando os detalhes com o inimigo. — semicerrou os olhos, como se tentasse ler as verdadeiras intenções de Max com aquele papo.
— Como se fosse fazer alguma diferença eu saber disso. Na pista eu não brigo com o fundo do grid. — Max comentou em tom de provocação, enquanto estava cumprimentando os outros pilotos presentes.
No momento em que Max disse isso, todos que estavam na sala - com exceção da brasileira e do neerlandês - ecoaram juntos um coro de “uuuh” emendado com um “vai deixar, ?”, o que fez a brasileira balançar a cabeça em negação.
— Acho que você está precisando fazer uma leitura mais precisa do campeonato Max, a McLaren não está no fundo do pelotão, inclusive, tem chances reais de brigar pelas primeiras posições no campeonato de construtores. Se eu fosse você, ficaria esperto. Pode ser que a vitamina de papaya supere o energético. E aqui entre nós... — falou se aproximando de Max, como se fosse lhe contar um segredo, embora, todo mundo pudesse ouvir. — A gente sabe qual dos dois é mais saudável.

Os gritos foram ecoados novamente na sala e Max riu por ter compreendido as entrelinhas. Sabia que a metáfora usada por sobre a vitamina ser mais saudável do que um energético, não era uma referência apenas às bebidas, mas sim, ao ambiente nas equipes.

— A garota já é 100% papaya, nem entrou na equipe ainda e já tá defendendo com unhas e dentes. Isso que eu chamo de amor à camisa! — comentou Robert Shwartzman, que estava no meio de uma luta contra Lando no Mortal Kombat e sentiu o tapa que a brasileira deu de leve em sua cabeça.
— Cala a boca. — riu.
— Você só me maltrata, credo.
— Vocês sabem bem o que falam sobre toda essa implicância, né? — Callum deixou subentendido.
— Ah, não começa! Se for assim, eu sou extremamente apaixonada por você, porque não tem outro piloto que eu agrida mais nesse grid da F2 do que você. — sentou-se no chão ao lado Ilott, que passou um de seus braços pelo ombro dela.
— Tem razão. A gente ia formar o casal mais foda que já existiu na história do automobilismo.
— Isso eu concordo 100%. Caso no futuro nada dê certo pra gente no campo amoroso, a gente casa. — virou a palma da mão para cima para que Callum pudesse segurar e ele o fez.
— Negócio fechado. — disse o britânico, entrelaçando seus dedos com os da brasileira.
— Sinceramente, ainda bem que vocês dois não são namorados, ia ser uma melação completa. — comentou Jack Aitken, que estava jogado em um segundo sofá que ficava na lateral e próximo da porta que levava para a sacada.
— Isso aí é inveja, é? — Robert provocou e foi atingido no rosto por uma almofada jogada por Jack. — Caralho! Mas eu só apanho! Eu realmente devia fazer uma reclamação formal à FIA.
Antes que recebesse qualquer resposta para a sua reclamação, no jogo, Lando conseguiu fazer um fatality do Scorpion em cima do Kung Lao - personagem que Shwartzman jogava - e venceu a partida.
— Realmente você só apanha! — gargalhou Lando. — Próximo!
— Não valeu! O Jack me atrapalhou! — bufou e se levantou de onde estava para que Alexander Albon, que até então nada havia dito e só ria com as palhaçadas dos presentes, pudesse ter a sua chance de derrotar Lando.
— Chore menos, Shwartzman. — falou George, entrando na sala, após ter ouvido o final da conversa. Ele havia ficado um bom tempo na sacada do quarto falando ao celular com a mãe.
O russo apenas deu o dedo do meio para George que retribuiu o gesto.
— É tão bom estar cercada de pessoas educadas e finas. — ironizou , sendo acertada por uma almofada que Aitken jogou nela. — Você tá querendo guerra, garoto?

A brasileira se colocou de pé e com um movimento rápido, devolveu a almofadada. Isso foi o suficiente para que o caos completo começasse no quarto de Callum.
Enquanto Albon e Norris jogavam videogame, atrás deles os pilotos se dividiram inconscientemente em dois grupos e passaram a atirar almofadas e travesseiros para todo lado. Alguns estavam mais próximos da área dos sofás e da TV e outros um pouco mais distantes dali e próximos da cama.
Em meio a gritarias e correrias, os pilotos pareciam crianças e de fato sentiam-se assim. Ali, naquele breve instante, não tinham que conter as emoções ou adotar a postura de uma frieza absoluta, como muitas vezes faziam antes de entrar no cockpit para uma corrida. As gargalhadas tomaram conta do ambiente até que perdessem o fôlego, o que não demorou muito.

— Tem certeza... que somos.... pilotos profissionais? — questionou Russell, ofegante e fazendo breves pausas entre as palavras para puxar o ar. — Porque tivemos uma guerra... que durou menos de 5 minutos... e eu já me sinto esgotado.
— Estamos ficando velhos. — Max passou a mão no rosto suado e encarou o teto.
— Se alguém entrar aqui agora, vão achar que a gente fez uma suruba. — Robert falou rindo.
— Shwartzman, seu mente suja. Só fala merda! — condenou entre risos.
— Alguém tem que cumprir esse papel, não é mesmo? — piscou para a brasileira.
— Realmente, eu to certa quando digo que você não vale o euro que te pagam. Essa carinha fofa só engana quem não te conhece.
— Você me acha fofo? — O russo, que estava sentado ao chão e no lado da cama, apoiou os cotovelos sob a mesma e deixou o rosto apoiado nas mãos.
— Sempre te achei fofo. Você sabe disso. — levou uma de suas mãos aos lábios e depositou um beijo ali, lançando na direção de Robert, que simulou ter sido atingido em cheio no peito.
— Vocês são muito trouxas. — reclamou Max, rindo com a reação exagerada de Shwartzman.
— Não vem amargurar o nosso momento, Energético. Só porque na F1 vocês arrancam a cabeça uns dos outros, não significa que na F2 fazemos o mesmo. Aqui o amor ainda sobrevive. — mostrou a língua para Max.
— As discussões ferrenhas com o Nikita nos bastidores provam o contrário. — disse Verstappen, já de pé e passando as mãos nos cabelos para ajeitar os fios bagunçados.
— Ele tem um bom ponto aí. — Callum ergueu o dedo indicador para enfatizar que concordava com o que o piloto da Red Bull havia dito.
— Mas ele faz por merecer e mesmo assim ele é bem popular por aqui. O caso dele é diferente, porque ele faz coisas ridículas dentro e fora da pista. Vocês na F1 quando discutem parecem um bando de crianças da pré-escola, sempre arranjam uns motivos nada a ver para virar a cara um para o outro.
— Nada que algumas cervejas e videogame não resolvam. — falou Albon, se aproximando do grupo que formava quase que um círculo na área próxima a cama.

A partir dali emendaram uma conversa sobre a próxima corrida do campeonato. Por mais que tentassem se desvencilhar, sempre acabavam voltando a falar sobre a Formula 1 e 2, sobre carros de um modo geral e sobre tudo o que envolvia aquele mundo que faziam parte. O assunto foi ganhando uma proporção tão grande, que ninguém nem reparou no momento em que Lando desligou o videogame e se enfiou no papo.
Com alguns xingamentos, protestos e gargalhadas, os pilotos ali reunidos passaram horas e horas na companhia uns dos outros, inclusive, fizeram todo um esquema de furar a dieta e comer pizza escondido no quarto de Callum, com a desculpa de que se as provas fossem encontradas - no caso as caixas de pizza - somente o piloto da UNI-Virtuosi levaria a culpa.
Obviamente, que isso foi o estopim para uma nova discussão que se estendeu por longos minutos, com o britânico choramingando sobre ninguém naquele meio ser confiável e que todos queriam puxar o seu tapete.
E de fato quando toda a bagunça e comilança acabou, todo mundo foi embora, deixando as evidências do crime para trás.
Callum Ilott que lidasse com aquilo.


▧▣▧



— Você acha que o resultado que teve neste final de semana pode comprometer o interesse da McLaren na sua possível contratação para a próxima temporada? — questionou um jornalista do site alemão Überholspur.
— Esse final de semana foi muito ruim em diversos aspectos. É o que muitos consideram como um dia ruim no escritório, sabe? — riu sem graça. — E sobre a história da McLaren, por mais que exista um interesse, nesta temporada eu não corro pela McLaren, eu corro pela Carlin, eles são a minha equipe. Toda vez que eu entro na pista, são neles que eu tenho que pensar. Nos engenheiros, nos mecânicos, na equipe de dados, no time de comunicação. Cada um deles é uma peça fundamental que faz com que eu possa entrar no carro e dar o meu máximo na pista. Eles são a minha prioridade. A McLaren é consequência. O que eu fizer pela Carlin é o que vai contar para a McLaren. Então, neste momento eu não estou preocupada com o futuro, eu estou preocupada com o presente, porque o futuro é consequência do hoje.
— Houve uma declaração polêmica do chefe de equipe da Prema, dizendo que você é uma boa piloto, mas está na equipe errada e nunca poderia se destacar como merece estando na Carlin. O que você tem a dizer sobre isso? — Um jornalista italiano lançou a pergunta já concentrado no que a brasileira iria dizer, uma vez que a Prema é uma equipe italiana e qualquer resposta atravessada ou mal interpretada poderia estampar os principais portais sobre a categoria na Itália.
— Eu agradeço o elogio que ele fez para mim e acho que ele faz um ótimo trabalho na Prema, mas estou feliz na Carlin e discordo do que ele falou sobre não se destacar onde estou, porque se isso realmente fosse verdade, eu não estaria na mira da McLaren e nem o Tsunoda estaria sendo acompanhado de perto pela Red Bull. — respondeu a brasileira com calma e um sorriso simpático no rosto.
— A próxima etapa será no circuito de Spa-Francorchamps, onde você não tem um bom retrospecto e um resultado ruim pode te colocar longe das primeiras posições. Você acha que tem chances de conseguir vencer na pista onde costuma ter um de seus piores desempenhos? — perguntou uma jornalista francesa, que sempre estava presente no paddock.
— Caramba! Hoje tá todo mundo me motivando mesmo, hein? — brincou , o que gerou risos por parte das poucas pessoas presentes e que estavam afastadas dela por conta dos protocolos de segurança. — Nenhum piloto entra na pista para perder e cada um de nós tem seus próprios desafios para encarar. Sim, Spa não é um lugar que eu costumo ir bem, mas dificuldades existem para que possamos superá-las e eu sempre espero que eu possa ir melhor do que fui na última vez. Obrigada.

acenou para os poucos jornalistas presentes e se afastou do microfone, indo em direção a sua assessora de imprensa, que estava a aguardando e juntas foram em direção aos boxes da Carlin. A brasileira só queria pegar as suas coisas e ir embora para o hotel o quanto antes.
Era um final de semana para se esquecer.
Já conseguia prever a longa reunião de equipe que teria que encarar no dia seguinte, com seu chefe pontuando tudo o que ela fez de errado e o que poderia ser feito de ajustes para melhorar o desempenho do carro.
Ela sabia que esse tipo de assunto era normal e primordial, sempre era necessário rever tudo o que aconteceu, mas naquele momento, ela só queria fingir que nada de ruim tinha acontecido, queria ficar uma semana sem se preocupar com competição e carros, queria fugir temporariamente do caminho que ela mesma escolheu.
Mas não podia.

Depois de chegar no hotel, ficar no quarto foi uma tarefa quase impossível, sentia-se sufocada. A todo instante a cena dela derrapando na pista e perdendo o primeiro lugar na corrida longa se repetia em sua mente, e quando a autossabotagem cansava de rever o mesmo episódio, migrava para a falha mecânica que aconteceu em seu carro na corrida curta.
Sentiu as lágrimas se acumularem e escorrerem pelo canto de seus olhos, molhando suas orelhas, o que lhe causou desconforto suficiente para que se levantasse de sua cama e enxugasse o rosto. Não podia se dar ao luxo de chorar, não naquele momento em que ainda estava brigando pelo topo.
Respirou fundo e colocou uma touca na cabeça, sua máscara no rosto e se encaminhou para uma das áreas externas do hotel.
Estava tão presa em si, que nem viu George acenar para ela no final do corredor do andar em que estava hospedada, tampouco percebeu o olhar de Charles Leclerc em sua direção quando passou por um dos espaços lounge do hotel. Também passou direto por Lance Stroll, que estava em uma das mesas da área externa que ficava voltada para a piscina.
passou por tudo até chegar num jardim esplendoroso que ali havia. Seus olhos se preencheram pelo verde das folhas e as inúmeras cores das flores. A imersão foi tanta, que ela nem se direcionou para as mesas, as espreguiçadeiras ou os balanços disponíveis. Sentou-se em dos degraus no final da escada que dava acesso a aquela área e suspirou. Sua cabeça girava.
Perdida em pensamentos, pode até não ter notado nenhum dos olhares direcionados a ela enquanto fazia sua trajetória até o jardim, mas de todos os rostos que cruzaram o seu caminho, um deles que também se encontrava por ali notou a angústia da piloto.

— Eu posso me sentar aqui? — perguntou uma voz calma, que de primeira ela reconheceu. — Sei que provavelmente quer ficar sozinha e se não quiser minha presença tudo bem, mas gostaria de lhe fazer companhia.
— Claro, Seb. Acho que vai ser bom não ficar duelando com a minha própria cabeça. — Sorriu fraco.
— Dia difícil no escritório, né? — Vettel sentou-se ao lado dela, sempre a fitando de maneira acolhedora.
— Você viu a entrevista? — ficou verdadeiramente surpresa.
— Sim. Eu vi ambas as corridas e a entrevista. Sabe, eu entendo esse sentimento de frustração consigo mesma, ainda mais em um momento tão único como esse que está vivendo agora, mas não deixa isso te engolir. Sei que já teve ter ouvido isso um milhão de vezes e que é mais fácil falar do que fazer, mas adversidades acontecem e você é uma piloto muito talentosa. Nunca duvide da sua capacidade de ser melhor por causa de um momento ruim. Todo mundo tá tão preocupado em aparecer bonito na foto, que esquecem que campeões não vencem campeonatos do dia para a noite, existe todo um processo, mas insistem em pular o processo. — desabafou.
— Por que eu sinto que isso não é só para mim? As coisas estão difíceis na Ferrari, né? — lhe lançou um meio sorriso e um olhar complacente, como em um gesto silencioso de “sinto muito”.
— Nada está indo de acordo com as ideias que eu desenhei na minha cabeça. Dói demais aceitar o fato de que eu não tenho mais espaço aqui. Apesar de eu amar essa escuderia, sinto que nosso relacionamento se desgastou e não tiro a minha parcela de culpa nisso. Só acho que algumas coisas poderiam ter sido evitadas e acho que eu poderia ter batido mais o pé em alguns momentos. Independente de qualquer coisa, tudo serve de lição e eu vou sair da melhor forma possível, porque não sou o tipo de pessoa que fecha as portas que se abriram pra mim, eu as deixo abertas.
— Eu tenho esse mesmo pensamento. Em todos os lugares que eu fui, tendo experiências positivas ou negativas, eu sempre procuro sair agradecida por todos os altos e baixos e lições aprendidas. Isso nos fortalece. — encarou Sebastian com carinho. Tinha muita admiração por ele.
— Sem dúvidas. Mas se quer uma dica, quando estiver em posição de exigir, exija. Quando tiver oportunidades de sugerir mudanças, sugira. E o mais importante, seja parte do seu carro sempre. Pelo o que soube, você trabalha sempre próxima dos engenheiros e mecânicos, se mantenha assim por toda a sua carreira. E se em algum momento tentarem te deixar de fora dessas decisões, mesmo que esteja em um lugar que ame, não faça como eu fiz. O amor cega às vezes e não nos deixa enxergar que estamos sendo submissos em momentos que devemos levantar a voz. — Vettel disse tudo encarando a piloto, estava abrindo completamente o seu coração para alguém que ele não tinha proximidade. Não era comum que ele fizesse isso, mas naquele momento, de alguma forma, Sebastian se via nela. Enxergava-se anos mais novo, quando ainda estava procurando seu lugar ao sol naquela categoria tão exclusiva.
— Eu não sei porque, mas não consigo te ver como alguém que precisa elevar a voz para conseguir o que quer. — comentou a brasileira, encostando a ponta dos dedos de uma mão na outra, como forma de tentar aliviar o nervosismo que sentia com a presença do piloto do carro número 5.
— De fato eu não sou assim, não gosto de levantar a voz, não gosto de confusão, eu gosto de trabalhar em harmonia. Mas às vezes você precisa se impor. É óbvio que existem mil formas de fazer isso, mas após tentar todas as alternativas, às vezes, só o que resta é aumentar alguns decibéis e eu acho que eu falhei nisso. Me faltou elevar alguns decibéis.
— Eu não acho. Você já tem um nome, se provou inúmeras vezes. Ninguém é tetracampeão de Formula 1 por pura sorte. Existe muito trabalho. Você transformou cada lugar que passou, a RBR é a maior prova disso e mesmo com todos os altos e baixos, você transformou a Ferrari também. Você teve seus erros, ok, acontece. A equipe também errou bastante com você e ok, também faz parte. Só acho que um time é um time nos momentos bons e ruins. Na minha ótica, faltou acolhimento nos momentos ruins por parte da equipe. Mas claro que essa é uma opinião de alguém de fora, eu não vivo o que você vive.
— E eu não vivo o que você vive e mesmo assim vim aqui me meter na sua vida e no final quem acabou sendo aconselhado fui eu. — Sebastian riu e o acompanhou.
— Você também me aconselhou, me deu dicas valiosas. A gente aprende com nossos erros e acertos, mas também podemos tirar lições através da vivência dos outros e você é um dos pilotos que eu mais admiro. Eu realmente vou lembrar para sempre desse nosso momento nas escadarias de um jardim de um hotel aleatório na Espanha. — A brasileira disse com a maior sinceridade e viu o rosto do alemão se iluminar. Sebastian abriu um enorme sorriso e ela sentiu uma onda de felicidade atravessar o seu peito. Nem sabia qual foi a última vez que viu Vettel daquela forma.
— Você é muito perspicaz e muito coração. Dizem que para ser bem sucedido nesse campo, só dá para se guiar pela razão e eu discordo. A razão pode ser cada peça do motor, a coleta de dados, o plano de uma corrida. Mas é o coração que te faz se manter correndo, mesmo quando tudo dá errado num GP e você tá em último lugar, longe do resto do pelotão. Coração é o que te faz seguir tentando quando o carro começa a engasgar e você está a poucos metros de cruzar a linha de chegada e mesmo com todo mundo te passando, você ainda se mantém determinado em atingir o objetivo. Coração é se permitir se emocionar com as próprias conquistas sem medo de julgamentos. Você é coração, . Razão gera escuderias, constrói carros e forma pilotos. Coração gera fãs, constrói carreiras e forma campeões. Eu não tenho dúvidas de que você será uma grande campeã um dia. — Sebastian sorriu docemente e viu os olhos da brasileira se inundarem de lágrimas.

Diferente de quando saiu de seu quarto, não tentou segurar o que sentia. Ainda baqueada com os acontecimentos do final de semana e sentindo-se acalentada pelas palavras de Sebastian, as lágrimas que tanto se esforçou para impedir, caíram feito cachoeiras. Com as mãos no rosto, a brasileira murmurou um “obrigado” que saiu entrecortado de seus lábios, mas não impediu que Vettel a compreendesse.
Levando uma de suas mãos às costas de , o piloto da Ferrari aos poucos foi a acalmando. Não disseram mais nenhuma palavra.
Aos poucos a respiração de foi se normalizando, o choro não mais existia e seu peito estava mais leve. Vettel apareceu no momento certo, pois estava mais do que claro que não iria conseguir passar por aquilo sozinha e não estava em condições de verbalizar sobre sem que alguém de fora desse o primeiro passo por ela. Encontrava-se fragilizada e sua mente entrou em um parafuso, onde mantinha a mentalidade de piloto em momentos que só precisava ser ela mesma.
Felizmente, Sebastian sentou-se com ela na escada naquela noite. Sem perceber, o alemão girou a chave que estava emperrada e que ela não conseguia de forma alguma mover.
Sentia-se aliviada.
O carro que corria sem parar na mente de , decidiu entrar no pit lane e ir em direção aos boxes. Pela primeira vez em dias, o silêncio se fez presente, seus músculos relaxaram e respirar não era mais uma tarefa difícil.
Perdeu a noção do tempo e mesmo após Sebastian lhe desejar boa noite e ir descansar, ela permaneceu sentada entre os últimos degraus da escadaria imersa em um grande nada.
E com a mente completamente quieta e o coração tranquilo, em algum momento foi para seu quarto e nem teve forças para trocar de roupa. Caiu na cama do jeito que estava e dormiu profundamente como há muito tempo não conseguia.
O mundo era silêncio e no contexto em que se encontrava, silêncio era paz.
, enfim, foi P1 em seu próprio campeonato.


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Setembro de 2020
Itália



— Fique atenta ao ERS*, você está forçando em algumas curvas lentas e desperdiçando potência. Mantenha-se no CLN2. — disse o engenheiro, Mark Bennet, através do rádio. A corrida em Monza estava disputadíssima.
— Entendido. — respondeu, se preparando para passar pela curva 11, conhecida como Parabolica. A disputa entre ela e Felipe Drugovich estava bem grande. O piloto brasileiro da MP Motorsport se encontrava à sua frente e estava na terceira posição. — Tudo bem, . É hora de se concentrar e ir atrás dessa vitória.

Aproveitando a longa reta que veio logo após completar a curva, pisou fundo e utilizou sua potência ao máximo, colocando o carro colado na traseira de Drugovich. Com um movimento rápido, fingiu jogar o carro para a esquerda, mas virou o volante para a direita em uma agilidade impressionante e ultrapassou Felipe.
O box da Carlin foi a loucura com a ultrapassagem. Um bom resultado era tudo o que ela precisava. Na etapa anterior em Spa-Francorchamps, a brasileira conseguiu obter um bom desempenho, ficando em terceiro na corrida longa e em quarto na corrida curta. Nunca havia chegado em posições tão boas quanto aquelas correndo em Spa, por isso, uma vitória em Monza significaria assumir o primeiro lugar no campeonato de pilotos.
Na segunda posição estava Callum Ilott, que estava com a volta mais rápida da pista naquele dia e parecia um verdadeiro foguete que se aproximava cada vez mais de Mick Schumacher, que estava na liderança. levou quatro voltas para conseguir se aproximar de Callum e tentou ultrapassá-lo duas vezes - após a curva 7 e a curva 10 - sem sucesso.

— Poupe energia na próxima volta, se mantenha próxima a ele e assim que passar pela 7 de novo use o DRS* e assuma a posição! — orientou o seu engenheiro.
— Entendido. Posso iniciar a volta já no CLN1? — perguntou, utilizando o código que se referia a uma das estratégias da equipe.
— Pode. Inicie em CLN1, mantenha-se próxima do Ilott e na volta seguinte ative o DRS após a 7. Entendido? — Mark repassou o plano.
— Entendido.

grudou o seu carro de número 54, no carro de número 4 de Ilott. O piloto britânico comentou em seu rádio sobre como a brasileira estava cada vez mais rápida e que seu carro estava perdendo força. Seria questão de tempo para que ela o ultrapassasse. O pesadelo da equipe UNI-Virtuosi se tornou real, quando a brasileira executou a estratégia montada por seu engenheiro e após a curva 7 abriu o DRS na reta e assumiu a segunda posição de Callum.
Novamente, o box da Carlin foi contagiado pelos gritos de todos os presentes, que comemoravam balançando os braços de maneira frenética.
Na pista, os olhos de só conseguiam visualizar Mick Schumacher, que parecia cada vez mais perto de si. Faltavam três voltas para o fim da corrida.

, cuide dos pneus. Cuide dos pneus. — Mark falou no rádio.
— Entendido. — respondeu ela, concentrada em diminuir cada vez mais a distância entre ela e Schumacher. Quando passou pela curva 3, conhecida como Biassono, faltando uma volta e meia para o final da corrida, ela percebeu que mesmo sendo arriscado, aquele momento era sua chance. — Vou tomar a posição do Mick.

Após passar pela curva 5 e antes que entrasse na 6, veio pelo lado esquerdo de Mick, o forçando para a direita. A brasileira moveu a alavanca giratória esquerda em seu volante, aumentando brevemente o consumo de combustível e ultrapassou Mick assim que terminaram a curva 6. O alemão a pressionava e ela quase perdeu a posição recém-adquirida na entrada da curva 7, mas ela segurou as pontas e impediu qualquer ataque feito pelo piloto da Prema.
Ao cruzar a linha de chegada, mal podia conter a emoção e apenas gritos eram ouvidos através de seu rádio.
A festa no box da Carlin era sem igual. Todo mundo se abraçava como se tivessem acabado de conquistar um campeonato e o clima de todo o paddock estava eletrizante.
A verdade é que praticamente todos os membros de todas as equipes de F1 e F2 prestigiaram a corrida que foi uma das mais emocionantes da história da Formula 2.
foi envolvida por um abraço apertado de seu engenheiro, Mark Bennet, assim que deixou o seu carro. Aos poucos, todo mundo acolheu a piloto, mesmo que não fosse muito indicado tanto contato devido a pandemia, mas naquele momento, todos estavam tomados pela emoção.
O lugar mais alto do pódio era verde e amarelo.

No dia seguinte, estava com um misto de emoções dentro do peito. Ainda encontrava-se em êxtase pela corrida do dia anterior, mas sabia que naquele domingo a história era outra. Grid invertido significava ter que largar no fundo e com tanta gente rápida na sua frente e com menos tempo para alcançar um por um, considerava quase impossível sair com a vitória novamente.
E como se não bastasse tudo isso, Zak Brown e Andreas Seidl, marcaram uma reunião com ela e seu agente Brett Hughes naquela manhã, após a corrida da F2, em uma das salas privadas do paddock. Mesmo que não tivessem falado sobre a natureza do assunto, em seu âmago ela sabia que tinha a ver com o seu futuro na Formula 1.
A brasileira já tinha 25 anos, sabia que a McLaren era a sua única oportunidade e no ano seguinte novos pilotos iriam ingressar na Formula 2. Por mais que a Carlin a mantivesse no time por mais uma temporada, estava na hora de se aventurar em outro ambiente. Como se não bastasse toda essa incógnita sobre o seu futuro, sabia que a McLaren estava flertando com Daniel Ricciardo e perto dele, ela não tinha nenhuma chance. Entretanto, a Renault entrou com uma oferta ainda mais tentadora para o australiano, uma vez que o negócio sobre o possível retorno de Fernando Alonso às pistas não foi adiante e a equipe francesa iria passar por algumas mudanças entre 2021 e 2022, sendo que iniciaria 2021 já com um outro nome da marca, no caso, passaria a se chamar Alpine.
Nenhum martelo havia sido batido, ou seja, Daniel não tinha confirmado nada, tampouco a McLaren ou a Renault.
Ela iria ser contratada pela McLaren? Já sabia que se a resposta fosse negativa, tentaria arranjar algo na DTM, na Formula E ou na Indy. Embora, em seu coração, não conseguisse se ver em nenhum outro lugar que não fosse a Formula 1.

— Por que essa cara de tensão? — perguntou George, já se sentando na mesa onde a brasileira estava.
— Decisões sobre o futuro. — suspirou. Sentia-se inquieta e seu estômago estava começando a embrulhar. — To tentando não pensar muito nisso, se não eu vou pirar, mas tá difícil.
— Calma. Eu não tenho dúvidas que você vai ser contratada pelos papayas.
— Não, não fale isso! — ergueu seu dedo indicador em riste.
— E por que, não? Acha que eu acreditar em você é sinônimo de dar errado? — George cruzou os braços e sentiu o leve tom de chateação em sua voz.
— Claro que não, George. Eu sempre apreciei o seu apoio, mas se eu for recusada, isso só vai fazer com que eu me frustre mais. — colocou uma de suas mãos sob a de George e olhou em seus olhos como se lhe transmitisse uma mensagem. Passaram a conversar com o olhar.
— Epa! Acho que tô atrapalhando. — A voz de Daniel se fez presente e ambos quebraram o contato.
— Claro que não. Nós dois estávamos conversando. — falou se ajeitando na cadeira.
— Sem falar nada? — O australiano ergueu uma de suas sobrancelhas.
— Temos esse dom, aussie. Muitos anos de convívio. — A brasileira sorriu para Ricciardo, que tamborilou os dedos na mesa. — Ok, Daniel, desembucha. Posso não te conhecer tão bem quanto conheço o George, mas você está estranho.
— Eu concordo e olha que te conheço um pouco melhor do que ela. — brincou George.
— Eu soube que é hoje que o Zak vai falar com você. — começou Daniel.
— Caramba, tá todo mundo do paddock sabendo é? Fofoqueiros! — cruzou os braços, imitando a mesma pose que Russell havia feito minutos antes.
— Não, não. Eu só sei porque o Zak veio falar comigo sobre isso e pediu para que eu e meu agente nos juntássemos a vocês também. E eu já me decidi, .
— Oh, isso era tudo o que eu precisava saber antes de entrar na pista, Daniel. Muito obrigada. — bufou.
— Não é isso. Me escuta. — disse Daniel, preocupado com a reação dela.
— Desculpa. — Ela balançou a cabeça. — Eu acabei de agir como uma idiota, você tem todo o direito de decidir para onde vai. A culpa não é sua. Na verdade, a culpa não é de ninguém, é só a vida e...
! Respira! — Daniel orientou, inspirando e expirando algumas vezes, de modo que ela o imitasse até que ficasse menos ofegante.
— Desculpa. Eu estou nervosa e ansiosa. — olhou para George e sentiu um nó em sua garganta. Ele a fitou de maneira reconfortante.
, vai dar tudo certo. — George segurou uma das mãos da brasileira. — Sinto que esse assunto não diz respeito a mim, ouça o que o Daniel tem a dizer e fique calma.
— Tem razão. Eu vou manter a cabeça no lugar. — falou e observou George dar a volta na mesa e depositar um beijo carinhoso em sua testa, antes de se afastar. — Ok, Daniel. Podemos prosseguir.
— O que eu vim dizer é que eu já tomei uma decisão e foi muito difícil para mim, porque a McLaren é uma equipe incrível e a Renault me acolheu de uma maneira única, então, não é fácil estar no meu lugar também, assim como eu sei que está diante do seu sonho. Eu não quero que fique um clima ruim entre a gente. É por isso que eu vim conversar com você antes da reunião.
— Eu entendo. Me desculpe pela reação que eu tive, eu só... é muita coisa em jogo e estou com medo. — mordeu os lábios, apreensiva.
— É normal sentir medo. Eu tenho muitos medos, o maior deles é conviver com o constante questionamento de até quando vão querer me manter aqui? Eu quero ser campeão, . E o relógio não para, o tempo não espera, ele apenas passa e eu vou ficando mais velho. Tic, tac. Tic, tac.
Daniel se perdeu em seus próprios pensamentos e o viu despido pela primeira vez. Ele não vestia o seu sorriso tão típico, sua expressão estava carregada de preocupação. Nunca tinha visto o australiano tão vulnerável.
— Nós vamos ficar bem, Daniel. Independente do que aconteça, iremos ficar bem. — abriu o seu melhor sorriso, em um claro convite para o australiano fazer o mesmo. Ele entendeu o recado e sorriu de volta na mesma proporção.
— Vamos ficar bem, .

Os dois passaram mais alguns minutos na mesa conversando. Decidiram mudar de assunto e falaram de suas famílias, hobbies e sonhos malucos. descobriu a paixão de Daniel por churrasco e ele descobriu que ela tinha lasanha como o seu prato favorito. A brasileira quase passou mal de tanto rir quando ele contou algumas coisas que havia aprontado com a sua irmã mais velha, Michelle Ricciardo, quando era mais novo. Mas o feitiço virou contra o feiticeiro quando revelou as suas aventuras com seus primos mais velhos, aí foi a vez de Daniel rir até sentir falta de ar.
A conversa só cessou quando deu a hora de irem para o circuito. Ambos sentindo-se um pouco mais tranquilos e com a mente menos bombardeada de incertezas sobre o futuro.

Ao passar das catracas de acesso ao paddock, começou a caminhar entre os membros das diversas equipes presentes e seu olhar percorreu o motorhome da McLaren e poucos metros depois o motorhome da Renault invadiu o seu campo de visão. Lembrou-se de Daniel.
Sorrindo para o boné da Carlin que estava em suas mãos, o colocou na cabeça e focou na corrida de sprint que teria pela frente. Deixaria a reunião para o momento da reunião. Naquele instante, ela tinha uma corrida para vencer.


Capítulo 3


Setembro de 2020
Itália



A música alta e as vozes animadas preenchiam o enorme salão de festas privado do hotel cinco estrelas em que estavam hospedados.
girou a sua garrafa de cerveja no balcão do bar, enquanto sorria boba para o rótulo. Sua mente voltava de tempos em tempos para a reunião que havia acontecido no mesmo dia mais cedo. A decisão de Daniel Ricciardo de permanecer na Renault, carimbou a oportunidade que ela tanto esperava, no ano seguinte, a brasileira seria piloto da McLaren na Formula 1 e aquilo parecia absurdo demais para ser real, por mais que tivesse lutado tantos anos por aquele momento.
Além disso, a sua intuição estava certa mais uma vez e naquele dia, o piloto francês da AlphaTauri, Pierre Gasly, sagrou-se campeão do GP de Monza, um feito que definitivamente o colocou na história da categoria, já que a última vitória de um francês havia sido em 1996 com o piloto Olivier Panis no GP de Mônaco.

! — Pierre apareceu diante da brasileira apontando o dedo indicador na direção dela e com um sorriso enorme no rosto. Ele já estava levemente alterado pelo álcool. — Você é incrível! Tinha razão sobre eu ganhar um GP. Eu venci e é surreal isso!
— Parabéns! Eu te disse que a minha intuição raramente falha. Você merece, Pierre. — sorriu, sentindo ele passar o braço por sua nuca, já a conduzindo para uma das diversas mesas.
— Obrigado. E eu estou muito feliz por você ter conseguido a sua vaga na McLaren. Sei que vai mandar muito bem.
— Assim eu espero. Tomara que eu não decepcione. — falou enquanto acenava de volta para Charles Leclerc, que indicou que havia um lugar vago ao lado dele na mesa. — E obrigada por me convidar para a sua festa da vitória.
— É nossa festa! — comentou apenas para ela ouvir e em seguida ergueu a garrafa de sua cerveja, aumentando o tom de voz e chamando a atenção de todos. — Pessoal! Obrigado por virem nessa celebração. Além de comemorar a minha vitória em Monza, dedico esse momento para a , que conseguiu a sua vaga para a Formula 1 e estará competindo conosco no próximo ano pela McLaren. Um brinde a nossa nova colega!
— Seja bem-vinda, ! — gritou Daniel Ricciardo, sendo acompanhado de outros gritos de empolgação.
Todos brindaram erguendo seus copos e garrafas, beberam um pouco e em seguida deram continuidade ao que estavam fazendo antes da interrupção de Pierre.

A música eletrônica ecoava pelo ambiente, mas em um volume que não atrapalhava as conversas que estavam em decibéis elevados por causa da bebedeira. Enquanto seguia para se sentar ao lado do piloto monegasco da Ferrari, parou duas vezes para cumprimentar um engenheiro da Alfa Romeo e outro da Racing Point, que foram lhe dar os parabéns pela vaga na equipe papaya.

— Hey! — Charles sorriu em sua direção no instante em que a brasileira sentou ao seu lado.
— Oi, Charles. Como está? — devolveu o sorriso.
— Indo muito bem, obrigado. E você?
— Muito bem, monsieur. — riu, empurrando levemente o ombro do monegasco com o seu próprio ombro. — Como somos cordiais, não é mesmo?
— Muitíssimo! Aqui é o mais alto nível de conversa, mademoiselle.
— Eu nem sei mais o que eu estou falando, acho que o álcool está tomando conta de tudo. Eu deveria parar. — abaixou a cabeça, rindo sozinha para a mesa de madeira maciça.
— Também acho, até porque piloto da F2 tem que ir pra cama cedo. — provocou.
— Ah, cala a boca, Leclerc! — fitou os olhos azuis do monegasco, que estavam levemente vermelhos. — Você acabou de sair das fraldas. Sou mais velha do que você.
— É verdade. Você é a vovó do grid.
— Eu não acredito que até você sabe disso. O Robert é um fofoqueiro de primeira e você também é. Os dois são donos da rádio paddock. Onde tem fofoca na F2 tem o Shwartzman e onde tem fofoca da F1 tem Leclerc. — brincou.
— Assim você me ofende, eu tenho uma reputação a zelar. — fez bico.
— Que reputação? Todo mundo sabe que você é o maior fofoqueiro e não sou quem está dizendo, basta você jogar na área de pesquisa do Twitter “Leclerc fofoqueiro” que aparece.
— Isso quer dizer que você procura sobre mim na internet? — ergueu a sobrancelha falando com um tom de voz sedutor.
— Às vezes. — deu de ombros como se não se importasse.
— Gostou das minhas fotos para a Armani? — piscou tomando um gole de seu drinque.
— É, até que não ficaram ruins. Poderiam ter arranjado um modelo melhor, mas era o que tinha disponível, né? — segurou o riso enquanto dava um outro gole em sua cerveja.
— Nossa! Depois dessa eu estou me retirando da festa com o ego completamente ferido. — levantou-se pronto para sair da mesa.
— Ele faz o drama dele. Senta aí, Charles! — puxou o monegasco pelo braço, fazendo com que ele voltasse ao lugar.
— Você é cruel.
— Não to aqui para alimentar o seu ego. Você tem seus fãs e a sua namorada para fazer isso. Mas as fotos ficaram boas, eu preciso admitir.
— Ahá! Eu sabia! — apontou para a brasileira com um sorriso vencedor no rosto.
— É melhor se contentar com isso. É o máximo de um elogio vindo da minha parte que você vai receber.
— Eu repito. Você é cruel. — Charles sorriu, tomando mais um gole de sua bebida, enquanto ela revirou os olhos em resposta, rindo em seguida.
— E como estão as coisas com a família? Tudo bem? — mudou de assunto, se ajeitando na cadeira.
— Estão sim. Minha mãe abriu uma confeitaria em Mônaco e está indo muito bem nos negócios e o Arthur tá disputando a Fórmula Regional com a Prema, ele tem conseguido bons resultados, além de todo apoio que recebe da academia de pilotos da Ferrari.
— Estar dentro de uma academia de pilotos ajuda muito na parte do suporte. Sei bem como é, porque não fiz parte de nenhuma academia. Já é difícil se manter nesse mundo por conta dos custos, sem uma academia de piloto, é mais difícil ainda. — suspirou.
— Você tem muito talento, merece estar aqui.
— Eu e vários outros pilotos com o mesmo sonho, infelizmente, muitos deles nunca vão correr na Formula 1. É triste, mas é como esse jogo funciona. Agora, eu preciso batalhar para conseguir me manter na F1. Porém, estou tentando deixar esse pensamento para o ano que vem, agora quero me concentrar no campeonato da F2. A minha equipe está fazendo de tudo para que eu e o Tsunoda possamos ir bem e eu quero esse título. Vou brigar com o Schumacher até o fim. — falou determinada e deu um último gole em sua cerveja.
. — disse Lance Stroll, se aproximando de onde a brasileira estava juntamente com Esteban Ocon. — Eu estava vindo para cá e o George pediu para te avisar que ele quer que você o encontre no quarto dele.
— Aconteceu alguma coisa? — sentiu seu corpo gelar.
— Não sei. Ele apenas disse que era para você ir até lá e que era importante.
— Certo. Eu tô indo. Obrigada pelo aviso. — se levantou no mesmo instante e acenou para Charles, sentindo-se nervosa. — Eu preciso ir.
— Tudo bem. Nos vemos depois. — Charles devolveu o gesto e observou a brasileira deixar a festa até que ela sumisse de seu campo de visão.
— O que rola entre ela e o George? — perguntou Esteban, sentando-se na frente do piloto da Ferrari.
— Até onde sei eles são apenas amigos. — respondeu Charles. — Os dois se conhecem há um tempo considerável e a família do George acolheu ela durante todo esse período em que ela está na Europa e longe da família.
— Sei lá, às vezes, eu tenho a sensação de que o George sente algo a mais por ela. — disse Lance. — O Latifi comentou comigo que o George fala dela pra caramba.
— Mas o George não tava de rolo com uma garota que é amiga de um amigo dele? — Charles questionou curioso, pegando um pedaço de queijo que estava em uma das bandejas de aperitivos dispostas na mesa.
— A tem razão sobre você ser o mais fofoqueiro do paddock, Charles. — Pierre, que até então estava entretido com outra conversa, se meteu no assunto.
— Você nem tava participando do papo. Como sabe que ela falou isso?
— Meus ouvidos estão sempre atentos a tudo. — afirmou.
— Você é um enxerido! Aliás, todos vocês se metem onde não são chamados seus fofoqueiros. Se não fossem pilotos, eu tenho certeza que seriam donos de Instagram de fofoca. — Charles cruzou os braços diante do peito.
— Olha só quem fala, né? O fofoqueiro mor! — Pierre disse entre risos, sendo acompanhado dos outros pilotos que passaram a prestar atenção no que estavam dizendo.
— Seus hipócritas! Cuidam da vida de todo mundo e sou eu quem leva a fama. É muita injustiça. Isso aí é inveja da minha beleza. — riu, recebendo xingamentos dos colegas e devolvendo na mesma moeda. — Invejosos!

Alguns andares acima de onde a festa da vitória da AlphaTauri acontecia, , que podia jurar que nunca havia utilizado um elevador mais lento do que aquele - ou apenas era a ansiedade de chegar logo -, bateu na porta do quarto 1106 sentindo-se aflita.
Quando o olhar abatido de George encontrou-se com o seu, tudo o que a brasileira fez foi abraçar o britânico bem forte, em uma mensagem silenciosa de conforto. Ficaram um tempo considerável naquela posição, até que ele encerrasse o abraço para fechar a porta.

— O que aconteceu, George? — o fitou preocupada, já sentada em sua cama e observando cada movimento do amigo que se sentou de pernas cruzadas na frente dela.
— A minha avó não tá bem. Eu estava terminando de me arrumar para descer para a festa e aí eu recebi uma ligação da minha mãe. Ela tá bem mal, . — contou, sentindo a mão de sobre a sua.
— O que aconteceu? É o coração? — perguntou, puxando da memória uma das conversas que tiveram no passado, onde George revelou que sua avó tinha problemas cardíacos.
— Sim. Ela teve um infarto e o coração dela está bem fraco. Estão considerando um transplante, mas não sabem se é o ideal a se fazer já que ela pode não sobreviver à cirurgia. No momento, ela está em observação.
— Eu sinto muito, George. Mas ela vai ficar bem, você vai ver. — procurou os olhos do amigo com o seus e ergueu o seu queixo. — Ei! Olha pra mim. Você tem que manter o pensamento positivo por ela, é o que a sua avó precisa no momento. Você se lembra de três anos atrás, no natal de 2017, quando a gente fez bonecos de neve no quintal da sua casa?
— E que ela veio toda animada ajudar a gente a vestir os bonecos utilizando as roupas do vovô. — fungou em meio a um sorriso tímido. O momento passava como um filme em sua cabeça.
— O som da gargalhada dela ao se deitar no chão e fazer anjos de neve com a gente.
— O gosto bom do chocolate quente que ela fez para nós quando voltamos para dentro de casa. — George fechou os olhos e ficou observando a expressão que ele sustentava em seu rosto.
— Quando a sua mãe e ela começaram a contar várias histórias engraçadas de você pequeno. Como quando usou a tampa da lixeira para imitar um volante, enquanto corria pelos cômodos da casa com uma capa do Super-Homem nas costas e só de cueca.
— E eu gritava falando que ia ser o melhor piloto de corrida do mundo! — riu ainda de olhos fechados e ergueu os braços como se fizesse uma pequena celebração. — Cada momento com ela sempre foi incrível.


A neve caía intensamente na pequena cidade portuária de King’s Lynn, localizada em Norfolk, na Inglaterra.
Apesar do frio cortante que tomava conta da região naquele dia, o calor dentro das casas se fazia presente, não só por conta dos aquecedores, mas também por conta da alegria.
A época de natal era contagiante para a maioria das pessoas, principalmente em King’s Lynn, onde o porto ficava completamente enfeitado e você podia encontrar os mais diversos tipos de guloseimas caseiras natalinas que eram típicas da cidade.
Depois de passarem um bom tempo andando de um lado para o outro no centro da cidade, com seus cachecóis enrolados até o nariz, George e voltaram para o carro do britânico prontos para rumarem para a casa dos pais de George, onde toda a família estava reunida.

No dia anterior, os dois amigos haviam conversado por telefone e ele ficou inconformado ao saber que a brasileira iria passar as festividades sozinha. Já faziam dois anos que se conheciam, ela havia estado com a família dele nessas mesmas ocasiões nos anos anteriores, mas ela sempre sentia que estava incomodando, embora, ninguém demonstrasse que não gostava de sua companhia.
havia decidido que aquele natal ficaria em casa, sem ser intrusa no ambiente familiar de ninguém, mas quando George ligou para ela e a avó do garoto praticamente implorou pela sua presença, a brasileira não conseguiu resistir à fofura e ao amor que emanava da mulher. Foi por isso que no dia seguinte, Russell estava a esperando na porta de seu prédio, com uma música suave tocando no carro e um sorriso enorme estampado no rosto ao vê-la.

— Olha só quem veio passar o natal com a gente! — anunciou George, como se ninguém soubesse.
— Querida! — disse a avó do garoto, abrindo os braços em sua direção para abraçá-la. O gesto foi muito mais do que bem-vindo, porque ela sentia falta desse tipo de afetividade.
— Surpresa! — riu da situação.
— Às vezes, eu tenho vontade de apertar as suas orelhas com força. — Alison, mãe de George, se pronunciou. — Quando ele me contou que você não queria vir, porque achava que iria incomodar, eu quase me teletransportei para o seu apartamento pra te trazer pelos cabelos. Você nunca foi um incômodo e nem nunca será. Amamos ter você conosco.

sentiu os olhos se encherem de lágrimas.

— É que é um momento tão pessoal e nos últimos dois anos eu sempre estive aqui e sei lá, não queria parecer estar forçando uma situação, entende? — confessou, apertando levemente o forro dos bolsos de seu casaco, um sinal que claramente indicava o seu nervosismo.
— Eu já te disse isso antes e digo de novo, você sempre será bem-vinda dentro dessa família. Não importa a ocasião, aqui é a sua casa também. — Alison encarou os olhos de e lhe abraçou em seguida.
— Muito obrigada por tudo, Alison. — disse , ainda envolvida no abraço.
— O que acham de tirarem esses casacos, colocarem essas bolsas lá no quarto do George e virem tomar um ótimo chocolate quente com o bolo de nozes feito com a receita secreta da família? — A avó de George ofereceu, animada com a presença do neto e da amiga do mesmo no ambiente. Ela sempre dizia que voltava a se sentir jovem quando estava com eles.
— Eu nunca negaria uma oferta dessa, vovó. Mas onde estão a Cara e o Benjy? — perguntou George, se referindo a sua irmã do meio e o seu irmão mais velho.
— Foram com o seu pai e o seu avô comprar enfeites novos para a árvore de natal. Você sabe bem como seu avô é quando coloca uma ideia na cabeça. Ele insistiu que alguns enfeites precisavam ser mudados, porque já estavam quebrados. — disse Alison, colocando as mãos na cintura e soltando uma leve risada ao falar do próprio pai.
— Mas o Sr. Tutti ainda está intacto, né? — perguntou ele com uma leve preocupação.
— Está um pouquinho arranhado e desgastado pelo tempo, mas segue inteiro.
— Quem é Sr. Tutti? — perguntou curiosa.
— É o meu enfeite de natal favorito da infância. Uma rena com nariz azul e um cachecol xadrez, que possui um pequeno azevinho na região do pescoço, que serve como um fecho para manter o cachecol sem cair. Eu amo esse enfeite e todo ano o coloco na árvore. É meio que uma tradição pra mim. É minha conexão com o George criança. — revelou, com os olhos se perdendo por um instante, como se tivesse voltado no tempo por alguns segundos.
— É especial, porque foi ele quem fez. — disse a sua avó. — Sempre tem umas feiras com temática natalina na cidade e tinha um espaço para que você pudesse fazer o seu próprio enfeite. O George fez o dele com papelão, tinta e tecido.
— Ah, eu lembro desse enfeite! Só não sabia que era seu, porque nas outras vezes em que eu estivesse aqui, a árvore já estava montada.
— Só não está montada agora, por causa da insistência do meu pai em trocar algumas coisas. — reclamou Alison.
— Não se irrite com isso meu bem. — disse a avó. — Pense pelo lado positivo, está aqui, é um par de mãos a mais para ajudar a enfeitar a árvore. E também para fazer a ceia, lavar a louça, passar um pano no chão da cozinha.
— Vovó! — George chamou a sua atenção entre risos.
— O que foi? Tô errada? — questionou o neto fazendo uma expressão forçada de surpresa.
— Você não tem jeito, dona Anette. — falou ele em completa negação, enquanto ria junto com e puxava a garota pela mão rumo ao seu quarto para que pudessem guardar os seus pertences.



— É nisso que você precisa concentrar os seus pensamentos. — segurou ambas as mãos de George, os dois se encararam e ele lançou um sorriso na direção dela.
— Tem razão. Tudo vai ficar bem.


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Novembro de 2020
Inglaterra



Havia uma sensação completamente diferente em estar em seu próprio lar do que em um quarto de hotel. O apartamento no bairro de Kensington ainda era o mesmo desde que se mudara para a Europa, nem os móveis de madeira antigos, que já faziam parte do local quando pisou ali pela primeira vez, tinham sido trocados.
A verdade é que ela gostava de como as coisas eram no apartamento.
Não faltaram oportunidades para mudar para algo mais moderno, porém, de alguma forma, aqueles móveis a faziam se lembrar de casa. Dos armários simples pintados em um tom cinza que se fez presente em toda a sua vida, da mesa quadrada que seu pai havia feito e que de tempos em tempos passava verniz para manter a qualidade da madeira, ou da cadeira de balanço de seu avô, que ficava na área externa da casa e de onde ele podia ver o movimento da rua através do portão branco desgastado por conta dos anos sem uma manutenção.
Depois de fazer o seu café, a brasileira debruçou-se na janela para acompanhar o movimento de Londres naquela manhã fria, entretanto, tudo estava agitado de um jeito que não tinha visto durante todo o ano, afinal, a pandemia do Coronavírus tinha mantido as pessoas dentro de casa por muito tempo. Mas com o natal se aproximando, as lojas voltaram a funcionar seguindo os devidos protocolos de segurança e as pessoas estavam se organizando para as festas de fim de ano. O anúncio de que as vacinas começariam a circular em dezembro também fez com que a população se animasse e o clima era de esperança por dias melhores.
Ainda iria demorar para o mundo voltar ao normal, mas de alguma forma, as coisas estavam ficando mais leves.

Mais tarde naquele mesmo dia, após fazer uma rápida chamada de vídeo com a família, tomou um banho e se arrumou para encontrar as amigas, Evie e Martina, em um de seus cafés favoritos da cidade.
Evie Edwards era uma organizadora de eventos britânica que a brasileira conheceu através de Callum Ilott, eles eram amigos desde pequenos por conta da relação próxima de suas famílias. Em um dos aniversários de Ilott, foi apresentada a Edwards e no mesmo instante se deram bem. Acabaram se encontrando em algumas outras ocasiões - tanto de cunho profissional, quanto pessoal - e acabaram estreitando seus laços.
Já Martina Agnellutti, era uma jogadora italiana de futebol muito prestigiada na Europa e que jogava pelo Milan. a conheceu em uma premiação esportiva, elas trocaram os contatos e tempos depois a italiana foi prestigiar um dos GPs que ocorreram na Itália e elas saíram para comer juntas. A amizade cresceu com o tempo e foi a ponte entre a Agnellutti e a Edwards. Logo, o trio estava formado.
O Combeferre, era uma pequena cafeteria de origem francesa, que ficava situado no bairro Pimlico, que costumava se camuflar entre os bairros Chelsea e Knightsbridge, por não ser tão badalado quanto os outros dois, embora, guardasse grandes surpresas como a cafeteria que as amigas gostavam de frequentar.
Faziam meses que não pisavam no Combeferre, não somente por conta da pandemia, mas também devido aos compromissos profissionais de cada uma.

— Eu não acredito que fiquei tanto tempo sem ver vocês. Eu estava morrendo de saudades! Sei que falei isso pelo menos umas cem vezes desde que chegamos aqui, mas é como eu me sinto. — Evie comentou, mordendo seu muffin e tomando um grande gole de seu chá fumegante em seguida.
— Menina! Eu não sei como não queima a boca. — Martina falou alarmada ao ver a maneira como Evie mal assoprava o líquido antes de beber.
— Isso aqui se chama prática. — Edwards piscou e mandou um beijo na direção da italiana, arrancando um riso de .
— Eu também estava com saudade de vocês suas palhaças. Me contem as novidades. — mexeu seu cappuccino com o olhar atento nas duas, tentando premeditar qual delas iria começar a falar primeiro.
— O mundo dos eventos ficou parado, como vocês sabem, então, passei boa parte do ano remarcando os eventos que já tínhamos agendado. De certa forma, não me sinto no direito de reclamar, porque consegui me manter bem diante de tudo isso. Sei que muitas pessoas pelo mundo não têm a mesma sorte.
— Isso é verdade. — comentou Martina. — O campeonato feminino italiano terminou um pouco depois do previsto, mas conseguimos finalizar a temporada deste ano e já estamos para iniciar a próxima no final do mês. Por um lado é ruim, porque tá tudo apertado, mas sabemos que é melhor começar logo para não atrasar o calendário de novo.
— E como estão as coisas entre você e o Felix? — perguntou . Felix era italiano e namorado de Martina, assim como elas, também fazia parte do mundo dos esportes e jogava vôlei por um clube dinamarquês, além de integrar a seleção nacional italiana.
— Estamos indo muito bem, sofremos um pouco com a distância, mas nada que já não estejamos acostumados. Mas iremos passar o final de ano juntos, vamos visitar as nossas famílias no natal e depois decidimos relaxar no interior só os dois. O que queríamos mesmo era viajar para algum país mais quente, mas sabemos que o momento ainda não é propício para isso e precisamos nos cuidar, porque eu já volto a jogar no fim deste mês e o campeonato dinamarquês de vôlei vai começar no final de janeiro. — explicou.
— É. Não dá pra vacilar. — concordou. — A temporada da F2 está quase acabando e irei passar o fim de ano por aqui mesmo, queria visitar a minha família, mas a pandemia no Brasil está complicada e em janeiro eu já tenho que começar a minha preparação física, assim como os treinos no simulador.
— Mal consigo acreditar que depois de tantos anos, finalmente, vamos voltar a ter uma mulher competindo na Formula 1. Isso é algo tão grandioso. Inclusive, já tô enchendo o saco do Callum, porque você vai subir para a F1 primeiro do que ele. — brincou Evie.
— Tadinho, Evie. O Callum foi injustiçado. Todo mundo no grid sabe que era para ele subir junto comigo, o Yuki e o Mick. Mas o Nikita tem um pai trilionário, que possui muita influência e a Haas é uma equipe pequena precisando de dinheiro, então...
— Pois é. Ainda fico inconformada que esse cara subiu. Ele faz um monte de coisa ilegal na pista. Além de tudo, ainda teve a vez em que o Nikita ficou irritado com uma situação que aconteceu entre ele e o Callum em uma corrida. Após a prova, ele agrediu o Callum até tirar sangue. — Evie relembrou a situação e apertou os punhos. Ela se recordava de como sentiu raiva por ver Callum machucado.
— E o Callum mesmo assim não revidou. Pior que agora vai ter que lidar com esse cara estando na Formula 1 e ele não. Esse esporte não é justo. Eu só entrei, porque tive sorte. Sei que tenho talento, mas só isso não basta. Só estou tendo uma chance, porque a McLaren foi a equipe que investiu em mim e o Daniel Ricciardo decidiu ficar na Renault.
— Mas não tem nenhum espaço para o Callum? — Martina perguntou tentando compreender a situação do grid.
— Não, porque tanto o Callum quanto o Mick são prospectos da Ferrari. A Alfa Romeo e a Haas usam o motor da Ferrari e tem meio que uma parceria com eles. Como o Kimi Räikkönen decidiu correr por mais um ano e a Alfa Romeo renovou o contrato com o Antonio Giovinazzi, não ficou nenhuma vaga disponível nessa equipe. A ideia inicial era que tanto o Mick quanto o Callum fossem para a Alfa Romeo, ou pelo menos o Mick fosse para a Alfa e o Callum entrasse na Haas, mas no fim, não teve vaga na Alfa Romeo e a Haas era a única equipe disponível com duas vagas, já que os dois pilotos dela estão saindo. Com isso, o Mick entrou na Haas e o Nikita mexeu os pauzinhos para garantir uma vaga também. — suspirou e mordeu os lábios. Toda vez que a brasileira pensava no panorama geral do enredo que também fazia parte, ficava inconformada.

Era normal que pilotos com famílias bilionárias conseguissem vaga na Formula 1, isso não era novidade, o problema é que Nikita era problemático dentro e fora das pistas desde que começou a correr. Ele sempre passava por cima das regras e colocava em risco a integridade dos outros pilotos.
Não fazia sentido algum ter alguém como ele no mais alto nível do automobilismo, mas como Lewis Hamilton havia dito uma vez: cash is king.

— O Yuki Tsunoda vai para a AlphaTauri, né? — perguntou Evie.
— Sim, ele é um piloto Red Bull e como a AlphaTauri é a equipe B deles, o Yuki vai entrar no lugar do Kvyat e será colega do Pierre Gasly. — explicou e em seguida pegou o cardápio. Ela queria escolher alguma coisa para comer junto com o próximo cappuccino que iria pedir.
— E como é que está sendo a recepção dos pilotos da Formula 1, agora que você é praticamente uma deles? — Martina jogou os cabelos pretos para trás, ajeitando a postura na cadeira. Ela não entendia muito bem sobre automobilismo, mas achava tudo fascinante.
— Eles estão sendo bem legais comigo. Eu não tenho contato com todo mundo, a relação que temos é basicamente de “oi” e “tchau”. Com quem eu converso mais é o George, por razões óbvias. Também falo com o Lando, porque como ele é da McLaren, o nosso contato é maior e ele será meu companheiro de equipe. O mesmo se aplica ao Carlos, mas não falo com ele tanto quanto falo com o Lando. Também tem o Charles de bônus, porque ele sempre joga videogame com o George e como o Charles é amigo de longa data do Pierre, eu também falo com ele. Mas acho que é basicamente isso. O resto é só conversa de elevador.
— E o Daniel Ricciardo? Você sempre comenta dele. — Evie sorriu, erguendo a sobrancelha.
— Pode tirar esse sorriso da cara. O Daniel é o Daniel. Ele é legal com todo mundo. Só tivemos uma conversa mais profunda uma vez, de resto, é como todos os outros, só temos conversas simples, porém, com ele é mais divertido, porque ele é um cara divertido. Já podemos mudar de tópico?
— Só mais uma coisa que eu quero saber. — disse Evie se entreolhando com Martina.
— Lá vem... desembucha! — riu.
— E você e o Nyck de Vries?

balançou a cabeça negativamente e mordeu os lábios, soltando um sorriso em seguida. Desde que entrara no mundo do automobilismo, decidiu que não iria se envolver com ninguém que fosse desse meio, porém, no começo de 2020, Nicholas Latifi deu uma festa de pós ano novo em uma das propriedades de sua família em Mônaco e como ele havia corrido com na Formula 2, a brasileira estava em sua lista de convidados.
Entre todos que tinham autorização para estar lá, havia um outro piloto da Formula 2, Nyck de Vries, que havia sido campeão da categoria na temporada 2019. Como um prospecto da Mercedes, não havia vaga para Nyck ingressar na Formula 1, por isso, o piloto foi para a Formula E, onde a Mercedes tinha uma equipe com vaga disponível.
Nyck era um cara bem tranquilo e focado, sempre tratou muito bem e com a ausência de George no grid da F2, ele acabou se tornando o seu confidente nos momentos em que precisava desabafar com alguém.
Havia algo magnético em Nyck, um certo charme que deixava a brasileira imersa em uma sensação de quase embriaguez.
Nunca havia acontecido nada entre eles. Não tinha rolado uma indireta, um flerte, nada de diferente.
Até a festa de Nicholas Latifi.
Como dois ímãs que se atraem no mesmo instante em que se aproximam. Em um momento estavam apenas tomando alguns drinques e conversando. No outro, estavam se beijando fervorosamente em algum canto da enorme mansão do piloto canadense.
se lembrava dos toques de Nyck pelo seu corpo e de como ela gostou de sentir os cabelos do neerlandês entre os seus dedos. Foi a primeira vez que passou por uma experiência de combustão instantânea, onde o corpo parecia queimar e o seu libido estava no auge.
Não ficaram muito tempo na festa de Latifi, pois sabiam que não aguentariam.
O resto da noite foi desfrutado no apartamento de Nyck, que também morava em Mônaco.
Depois daquele dia, os dois chegaram a ficar algumas vezes naquele mesmo mês, mas não passou disso. Sexo casual.
Isso era outra coisa completamente fora do normal para ela.
não era do tipo que conseguia se entregar tão facilmente assim, ela preferia se satisfazer sozinha na maior parte das vezes, já que para ela o sexo tinha que ter uma ligação emocional.
Antes de Nyck, ela só havia transado com o único namorado que teve na vida, um rapaz britânico que se envolveu um pouco depois de chegar na Inglaterra, o conheceu através de amigos e eles ficaram juntos por um ano, até a vida dela se tornar cada vez mais complicada e perceber que não o amava tanto quanto pensava.
O relacionamento acabou nos melhores termos, inclusive, ainda se seguiam nas redes sociais e ele sempre deixava mensagens de incentivo em suas fotos.
Ter se envolvido com Nyck, lhe apresentou um lado de si mesma que ela não conhecia. A experiência havia sido boa, entretanto, não conheceu ninguém depois de Nyck que despertasse esse seu lado mais primitivo.
Ela sabia que estava cercada de caras que chamavam a atenção por onde passavam, porque eles exalavam poder, mas quando se está há muito tempo em um meio dominado por homens, é comum ficar na defensiva para proteger a si mesma.
tinha que lutar por seu espaço e não queria ser mais uma na lista dos pilotos, não queria virar assunto no paddock e na imprensa por outro motivo que não fosse automobilismo. Por isso, não se permitia baixar a guarda.
Ela não estava procurando por um amor, ela estava brigando por um título, por uma vaga, por uma chance de mostrar que era capaz de competir de igual para igual com qualquer homem dentro das pistas.
Assuntos amorosos tinham que ficar em segundo, terceiro... até quinto plano.

— Eu e o Nyck foi apenas coisa de momento. Não vai mais acontecer. — afirmou.
.
— Eu tô falando sério. Sentimos atração um pelo outro, foi muito bom, mas eu não tenho sentimentos pelo Nyck, eu não penso nele, eu não sonho com ele, não me imagino construindo uma vida com ele. E vocês sabem como eu sou para isso. Sexo casual não é para mim. Se acontecer, tudo bem, mas eu não fico procurando, sabe?
— Somos completamente opostas se tratando disso. E tá tudo bem. — Evie sorriu. — Você tem seu jeito e eu respeito isso. Só gosto de pegar no seu pé.
— Eu sei. — mostrou a língua para a amiga.
— E eu to aqui para ser a amiga responsável, que te lembra de todos os seus compromissos mesmo eu tendo os meus. — Martina bebericou seu chocolate quente com um semblante brincalhão no rosto.
— Pior que é verdade. Não sei o que seria de mim sem você. — disse colocando a mão na testa, como se fosse uma donzela em perigo. — Eu te contei que a Martina salvou o meu voo?
— Como assim? — Evie perguntou abismada com a nova informação.
— Eu tinha que pegar um voo para a Noruega, porque ia participar de um evento da Carlin lá, só que eu dormi demais e eu quase perdi a hora, porém, dois dias antes eu tinha comentado sobre isso com a Martina e você acredita que ela programou o despertador dela para tocar três horas antes do meu voo?
— Agnellutti você é maravilhosa! Já sei para quem falar a data de todos os meus compromissos importantes. — disse Evie, enquanto mexia a sua nova xícara de chá que havia acabado de chegar na mesa.
— Sai fora, Edwards. Não posso ser babá de todo mundo. É o Felix, a , meu irmão Theo, a Dorothy que joga comigo, além de eu ter que lembrar das minhas próprias coisas. Vai chegar num ponto em que eu nem saberei mais qual compromisso é meu e qual não é.
— Seus amigos são todos folgados. Você devia dar um chega para lá em todos eles. — brincou .
— Eu concordo. Eu mereço mais. — fez bico e ergueu o queixo, fazendo uma pose de superioridade que não combinava com ela.

As amigas riram, depois um momento de silêncio se fez presente enquanto consumiam as comidas e bebidas que estavam na mesa. Elas estavam felizes por estarem juntas, fazia tanto tempo que não paravam para conversar sobre a vida, o que estavam fazendo e seus planos para o futuro.
Os assuntos seguiram se desenrolando um atrás do outro, sem pressa de ter um fim, embora, em algum momento o ponto final precisasse ser dado.

— Quando o público puder voltar a acompanhar os jogos ao vivo, nós com certeza iremos assistir a uma partida do Milan. É sempre ótimo te ver em ação. — elogiou a amiga. Ela amava ver a camisa 8 em campo.
Agnellutti era rápida, ágil e fazia passes que encantavam até o mais saudosista fã de futebol.
— Vai ser maravilhoso ter o apoio de vocês duas lá. Mal posso esperar para que tudo se normalize.
— Nem me fale. To com saudade de poder viver a vida como se deve. — lamentou Evie.
— Esse momento vai chegar de novo. Se cada um fizer a sua parte, já é mais do que meio caminho andado para isso. — assegurou .

Ela não tinha certeza de nada, mas sempre fora sonhadora e esperançosa, ao invés de focar no lado negativo, tentava acreditar que as coisas poderiam melhorar. E iriam, simplesmente, porque ela confiava na força das pessoas e apesar de todos os problemas, havia muita gente no mundo se dedicando dia e noite para que tudo pudesse entrar nos eixos.
Ainda bem que existia o estudo, o conhecimento e que as pessoas podiam contar histórias, compartilhar seus pensamentos e ideias.
Todo mundo precisa de alguém.
Por mínimo momento que seja, todo mundo sempre vai precisar de um outro ser para lhe trazer conforto, lhe ajudar ou até mesmo o desafiar. Mas a gente precisa do outro para evoluir.
Era por causa disso, que ela podia compartilhar aquele momento com as amigas e falar sobre a vida, rir e chorar, refletir e se preocupar, para após todas essas sensações diversas, encontrar o seu ponto de paz, que era o instante em que percebia que seu peito não pesava mais e ela sentia-se leve e revigorada.
Ainda bem que a gente tem a gente. Ainda bem.


▧▣▧



Dezembro de 2020
Barém



Os dedos das mãos de estavam doloridos de tanto que ela os pressionava. Com os olhos grudados na tela que exibia a corrida dentro do box da McLaren, ela tentava manter os pensamentos positivos e sentia-se tensa ao ver George dando tudo de si dentro do carro da Mercedes.
Lewis Hamilton havia testado positivo para Covid-19 e com isso, não poderia correr no GP de Sakhir, o que gerou uma oportunidade para Russell deixar o seu assento na Williams e ir substituí-lo na Mercedes, por consequência, isso abriu uma oportunidade para Jack Aitken - que corria com na Formula 2 e era piloto reserva da Williams -, fazer a sua estreia na Formula 1 correndo pela equipe branca e azul.
George era bem mais alto do que Hamilton e isso gerou uma série de dificuldades para fazê-lo caber dentro do carro. Ele agarrou a oportunidade e tirou o máximo que podia da Mercedes de Lewis, tendo um ótimo desempenho nos treinos e na classificação.
O nível de sua pilotagem permaneceu o mesmo no instante em que as luzes se apagaram e a corrida começou. Ele tampouco se intimidou com Valtteri Bottas, o ultrapassando nos primeiros metros da corrida e assumindo a liderança da prova.
Estava claro para todos o quanto George queria mostrar o seu valor. Ele pilotava de maneira agressiva e certeira, lembrando os dias em que estava na Formula 2.

Naquele mesmo dia, mais cedo, entrou na pista para a última prova da temporada. Ela estava a seis pontos de Mick Schumacher e brigou ao longo do final de semana todo para superá-lo, mas as estrelas estavam alinhadas para o alemão, que teve um bom desempenho na corrida longa, ficando em segundo lugar, enquanto a brasileira ficou fora do pódio já que terminou na quarta posição e na corrida curta ele terminou em terceiro lugar, em um de seus melhores desempenhos da carreira, já que veio do fundo do pelotão. , por sua vez, ficou em sexto. Com isso, Mick Schumacher sagrou-se campeão da temporada 2020 da Formula 2, tendo como vice-campeã.
Apesar da evidente frustração e tristeza por perder o título, a brasileira sabia o quão significativo era para Mick ter essa conquista. Em sua imaginação, ela podia visualizar o pai dele sorrindo, do jeito que ela se lembrava como Michael sorria ao vê-lo na TV. Era assim que ela gostava de se recordar dele.
Era assim, que ela desenhava a cena de Mick comemorando com seu pai.

Após chorar em seu quarto privado para aliviar o misto de emoções que estava sentindo e algumas entrevistas depois, se camuflou entre os mecânicos da McLaren para acompanhar a corrida de Russell. Aquele era um momento único na carreira dele e não perderia de jeito nenhum.
Era bonito vê-lo com o uniforme da Mercedes, até o jeito do britânico andar pelo paddock ficava diferente e, em seu âmago, ela sabia que a equipe de Toto Wolff era onde George deveria estar.
Entretanto, nada vem de graça e ele tinha que provar o seu valor e quando a corrida retomou após ter sido paralisada por conta da batida de Charles Leclerc e Max Verstappen, ele se manteve firme na primeira posição, impossibilitando qualquer chance de Valtteri Bottas superá-lo.
Quando na volta 46, George fez o pit-stop para colocar pneus novos, Bottas assumiu a sua posição momentaneamente, o que era esperado. Os engenheiros e mecânicos trabalharam rápido e Russell voltou para a pista aproveitando o máximo da potência do carro, tanto que marcou a volta mais rápida.
Na vez de Bottas ir para a troca de pneus, na volta 50, Russell voltou para a liderança e abriu 8 segundos de vantagem, mostrando a sua dominância.

A ironia da vida se mostra diante de pequenos detalhes e justamente na volta de número 63 - número esse que significava muito para George por ser a numeração de seu carro -, que o caos começou.
A Mercedes pediu para que Russell e Bottas fizessem um pit-stop.
Com um problema na fixação da roda dianteira esquerda após a parada, Valtteri teve a sua chance de vitória impossibilitada, o que deixou o britânico como a única opção de triunfo da equipe alemã. Porém, tudo desmoronou no momento em que perceberam o erro gigantesco que haviam cometido na parada de George, uma vez que cada piloto tem seus próprios jogos de pneu e colocaram os pneus do finlandês no carro de Russell. Tiveram que chamá-lo de volta para fazer a troca e diante disso, George perdeu diversas posições.

— Não é possível. Vamos, George! — murmurou para si mesma, com as mãos juntas, quase como em uma prece e com os dedos rente aos lábios. — Não desiste. Você consegue!

Mesmo em quinto lugar quando voltou para a pista, George não se colocou em posição de derrota e brigou muito por cada décimo em cada setor.
Ultrapassou Bottas e em seguida, na volta 72, deixou Lance Stroll para trás e entrou na zona de pódio, assumindo a terceira posição. Não demorou muito para que ele também alcançasse a Renault do francês Esteban Ocon.
Ele voava na pista como uma águia em posição de ataque. Feroz, certeiro, imbatível. Até mesmo os membros de outras equipes, vibravam em seus respectivos boxes ao ver a maneira em como George não hesitava em partir para cima.
O britânico chegou a ficar colado em Sérgio Perez, piloto da Racing Point, mas um furo de pneu fez com que Russell fosse chamado aos boxes novamente, na reta final da corrida.
Voltando para a pista na 14ª posição, era agoniante vê-lo naquela situação, onde mesmo com tudo dando errado, ele continuava tentando.
As mãos apertavam o volante com força, o suor escorria por todo o seu corpo de maneira excessiva, a exaustão batia na porta, mas ele continuava brigando. Lutava como alguém que estava no meio de águas agitadas e nadando contra a correnteza

assistia a cena com os olhos cheios de lágrimas. George terminou a corrida na nona posição e a maneira em como ele saiu do carro cabisbaixo e sentou-se em um canto da pista com um semblante triste, fez seu coração se comprimir dentro do peito.
A brasileira nem sequer olhou para trás quando deixou o box da McLaren às pressas e se dirigiu para o motorhome da Mercedes, indo até o quarto de George. Ela sabia que ele iria demorar para chegar até ali, mas ela não se importava em esperar. O conhecia bem o bastante para saber que ele ficaria um bom tempo deitado na grama, com as mãos atrás da cabeça e de olhos fechados, tentando manter a respiração em modo regular e lidar com a crescente pressão que dominava a sua mente. Ele impediria as vias lacrimais de agirem ao máximo que pudesse, a garganta secaria, um formigamento iria se iniciar na ponta de seus pés e subir até a região dos joelhos, enquanto as mãos lesionadas de tanto que apertara o volante, começariam a pulsar com a dor crescente.

Depois desse momento de breve luto, George caminhou com dificuldade em direção aos boxes da Mercedes, todos da equipe foram confortá-lo, disseram que seu desempenho foi incrível, que ele não fez nada de errado e que se tinha alguém para culpar eram eles mesmos.
Em uma sala privada, Toto Wolff teceu elogios ao desempenho de Russell, ao mesmo tempo em que observava ele tirar as sapatilhas de corrida dos pés. Assim que ele se livrou do calçado, o chefe da Mercedes pode notar o sangramento que havia entre seus dedos.
Como ele era grande demais para o carro de Hamilton, teve que dobrar os joelhos muito mais do que o normal para conseguir pilotar e com a adrenalina da corrida, era normal que tirasse a pressão dessa região ao tentar, naturalmente, esticar um pouco a perna após tanto tempo na mesma posição. Entretanto, isso fez com que seus dedos se esgamassem nos pedais, gerando cortes que ele só foi notar após tirar as sapatilhas.

Depois de falar rapidamente com a imprensa, George se dirigiu para o motorhome da Mercedes e foi direto para seu quarto privado. Ele queria gritar, espernear feito uma criança pequena, porém, no instante em que abriu a porta e se deparou com ali dentro, toda a sua frustração diluiu-se em lágrimas, que escorreram feito cachoeiras no instante em que seus olhares se cruzaram e ela envolveu o seu corpo em um abraço.
Choraram juntos.
Choraram por si mesmos, choraram um pelo outro, choraram por lutarem tanto por algo e não conseguirem atingir esse objetivo.
Choraram para aliviar seus corações agoniados, que a todo tempo os faziam questionar onde foi que haviam errado.
Naquele dia eles perderam, mas também ganharam.
Afinal, havia garantido a sua vaga na F1 meses antes e George havia provado a sua capacidade para a principal equipe da maior categoria do automobilismo.
Mas ainda assim, os dois ganharam na derrota e perder naquelas circunstâncias doía demais.
Apesar de tudo, naquele mesmo dia ambos aprenderam uma lição valiosa, que só iriam compreender anos depois:
Nem sempre as coisas ocorrem do modo em que você as planeja, entretanto, o que você projetou não é o único caminho para realizar aquilo que você sempre quis.


Continua...



Nota da autora:
ERRATA CAPÍTULO 2: No trecho: “com a desculpa de que se as provas fossem encontradas - no caso as caixas de pizza - somente o piloto da Prema Racing levaria a culpa. “
Foi feita a correção, porque em 2020, Callum corria pela UNI-Virtuosi.

No trecho: “Mas o feitiço virou contra o feiticeiro quando Kaya revelou as suas aventuras com seus irmãos mais velhos, aí foi a vez de Daniel rir até sentir falta de ar.”
Foi feita a correção para “primos” e não irmãos, porque a pp é filha única.


Mais um capítulo entregue com muito carinho e espero que vocês estejam curtindo a história ♥

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