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Última atualização: 06/05/2021

Capítulo I

Acordei com um grunhido úmido contra meu travesseiro, precisando tomar sérios cuidados para não me afogar na poça de baba formada no cetim ao erguer a cabeça. Empurro os lençóis e cobertores que me envolvem, sendo engolida pelo ar frio de meu quarto e logo o chão de madeira gelada. Bom, tecnicamente é culpa minha não ter posto uma meia antes de dormir, mas ainda xingo baixinho a maldita vizinha pelo frio. Tenho certeza de que é ela, a senhora do 402 batendo em minha porta. A velhinha que outra vez decidiu cuidar do neto – quando é quem realmente precisa de uma cuidadora – e ainda não conseguiu colocar o pequenino para dormir. Posso ouvir as batidas graves soando em conjunto com um desesperado lamurio de bebê e meu coração aperta.
Quem mandou, ? Quem mandou você oferecer, seis anos atrás, os seus serviços como pediatra de plantão para os vizinhos? Recém-formada e louca para ajudar o máximo de pessoinhas possíveis? Não quero soar amargurada ou cansada, e muito menos desiludida com minha profissão. Mas pego bebês adoráveis no colo todos os dias, receito anti-inflamatórios e sorvete para crianças gordinhas com dor na garganta e dou o papo sobre sexo seguro e alimentação saudável para adolescentes. E, céus, eu amo o que faço mais do que tudo neste mundo. Amo os bebês chorões, a criancinhas que correm para o consultório para me entregar adesivos de joaninhas e os adolescentes que ficam de cara fechada até que eu menciono Sex-Education ou qualquer outro tema da cultura pop. Essa é a minha parte favorita.
Agora os pais? Jesus, eu odeio os pais. As mães que leem blogs de lifestyle sobre gestação e acreditam saber mais do que quem ficou oito anos estudando e se especializando em como colocar o miudinhos no mundo da forma mais segura. Odeio os pais engravatados que ficam no celular durante toda a consulta e ainda pedem por atestados pois perderam o trabalho para trazer o filho. Quero pular na garganta das mãe que tentam me catequisar no instante que ofereço uma camisinha para uma adolescente de dezessete anos que claramente já teve mais infecções urinárias que um terço da população. Mas é necessário que para minhas pestinhas estarem ali, os pais também estejam, mesmo que deem nos meus nervos e eu precise de bastante paciência e sorrisos.
Mas, não posso negar auxílio para quem quer que seja. Posso segurar o bebê, fazer arrotar, passar uma das infinitas pomadas de assadura que tenho e massagear as barriguinhas gorduchas para livrá-los da cólica. Foi isso o que nasci para fazer e não posso dar as costas assim. Mesmo que tenha tido apenas duas horas de sono e esteja vendo duas de mim no espelho do banheiro. Apanho o robe azul claro de seda no gancho perto da porta de meu quarto, demorando para acertar o buraco de meu braço e o visto por cima da camiseta enorme da Yale. Acendo a luz do corredor antes de deixar o cômodo, ainda tendo o raciocínio de uma criança no caso de espíritos mal intencionados assombrando minha sala.
A sala do apartamento é grande: sofá, mesa pequena de jantar, televisão e o amontoado de plantas. Plantas, muitas plantas e mais plantas para todo o lado. Planta o suficiente para que no momento que minha mãe vier de visita e questionar sobre os “netinhos”, eu não tenha que pensar para onde apostar e ela tenha um treco. Ainda descalça e na ponta de meus pés, me aproximo do espelho ao lado da porta, quase saltando quando um grito especificamente alto escapa por baixo da madeira e me faça pular. Empurro uns fios rebeldes de volta para o rabo de cavalo antes de girar a tranca e puxar a porta, tentando suprimir um bocejo horrendo.

- Boa noite, Sra. Lee, como está o Ming... - Cortei minha fala costumeira pela metade quando realmente observei quem estava na porta.

Surpresa: Não é um velhinha com camisola florida e um bebê bochechudo.

Um homem um pouco distante do trinta anos segura um bebê, a manta azul e com dinossauros verdes entregando de imediato o gênero do pequenino. Minha principal observação é que ele embrulhado em uma manta de aparência abafada e – quem imagino ser o pai – o balançando em um tentativa frustrada de acalmar a criança que remexia os pequenos dedinhos para fora do tecido. Antes de querer esticar a mão e pegar a criança em meu colo, dou uma boa olhada para o homem que o segura e mesmo que seu aparente cansaço o traia, meu intuito é imaginar que ainda é jovem demais para ser um pai. Em qualquer outro momento, iria fechar a porta com toda a força que posso e ligar para Bumsoo, meu querido porteiro, e alertar de um louco estar batendo em minha porta as quatro da manhã.
Contudo, meus olhos se assentam no olhar e na expressão de puro desespero dele, desfazendo a estrutura óssea e as feições que seriam divinas se os olhos não estivessem tão fundos e avermelhados. Posso ver rastros secos de algumas lágrimas em sua face angulosa, indicando que o filho não foi o único a entrar em desespero. Nos ombros largos uma frauda de pano descansa e eu preciso de alguns segundos para entender que, o homem alto, belíssimo e provavelmente o dobro de meu tamanho, precisa de ajuda com a trouxinha barulhenta em seu colo. Oi, , tudo bem? É a sua consciência. Será que você poderia não babar e dar uma olhada no bebê? Ok? Beijinhos. Engulo em seco, piscando algumas vezes ao decidir que deveria ter colocado uma roupa decente antes de abrir a porta.

- Você é a pediatra? – Sua voz está rouca e vibra em seu peito, competindo com o som alto e agudo que escapa de seu filho e eu me afasto da porta ao concordar com a cabeça, permitindo que adentre meu apartamento antes que algum outro vizinho venha gritar comigo pela janelinha da cozinha. O rapaz fica parado no meio da sala, ainda balançando a pobre criança nos braços e eu tranco a porta, dando uma rápida olhadinha para a extra que escondi debaixo de uma samambaia. – M-me desculpe por vir assim tão tarde, mas eu não sei o que fazer com ele. – Soltou as palavras assim que me aproximei e eu apenas apertei a boca em um sorriso fechado.

É pai de primeira viagem. A mãe deve estar viajando ou algo do tipo.

- Sem problemas. – Indico o sofá e não preciso insistir para que se sente, o que me leva a imaginar que já deveria estar a horas andando de um lado para o outro. Puxo o pufe creme de debaixo do painel da televisão, me sentando diante dos dois enquanto a montanha de homem domina meu sofá minúsculo. Seria cômico se eu não estivesse com tanto sono. – Primeiro: Não o balance assim. – Levo minha mão até o braço quente dele, parando os movimentos no mesmo instante. – É legal balançar bem devagar, não como se estivesse tentando tirar as moedas do bolsos dele. – Alertei com o melhor humor que pude, esticando minha mão para apoiar a cabeça macia da criança. - Segundo: Qual seu nome e o nome dessa criaturinha? – Com o dedão, acariciei os ínfimos fios do bebê.

O cara se enrijeceu e isso chamou minha atenção, me levando a analisar o misto de emoções que se transcorre em seu rosto. Seria este mais um pai engravatado que nem mesmo sabe o nome do filho? Vagueio para a mão esquerda e então a direita, percebendo então a ausência de aliança.

- Jeon JeongGuk. – Flagrei a sombra de um sorriso educado em seus lábios antes deste se tornar um dos beicinhos mais apertados e cansados do mundo quando o menor chorou, ainda balançando as mãozinhas. Me indago outra vez como ainda não os vi no prédio. Céus, já moro aqui a quase dez anos. Isso é impossível. - Sou o seu novo vizinho no fim do corredor. Nos mudamos ontem. – Passando a língua pelos lábios rosados, lançou um olhar para baixo como se pedisse piedade para o barulhento bebê em seu colo. Concordo com a cabeça. Certo, passei o dia inteiro fora. Por isso é desconhecido. – Esse aqui é o SeoJun. – Ao ouvir seu nome, os prantos agoniados se acomodam e eu me seguro para não sorrir. – Dê "olá" para a doutora, pequeno SeoJun! - Segurou a mão do filho e a balançou em minha direção.

Acabo sorrindo.

- É um belo nome este seu, hein, SeoJun? E bem-vindo, Sr. Jeon. – Evitei reparar o olhar maravilhado direcionado a mim quando voltei a acariciar a cabeça do bebê com meu dedo, avaliando a possibilidade de seu desconforto ser um torcicolo. Pelo seu tamanho, arrisco seis a sete meses e meio e torcicolos são terríveis nesta idade. – O que você já tentou fazer para que ele parasse de chorar? - Perguntei novamente mas desta vez para Jeon, pois preciso excluir algumas coisas da lista de possíveis causas e talvez quisesse dar uma olhada rápida nos fios um pouco longos demais que emolduram sua face.

Depois de um longo momento a resposta vem:

- Fraldas, água, tentei até mesmo aquela massagem que falam ser para gases... – Ouço atentamente, mordendo a parte interna de minha bochecha. – Tentei dar purê de abóbora, batatas amassadas e maçã, mas ele não quer comer nada disso nos últimos dias então... – Jeon deu de ombros, os olhos vidrados no filho que parece ter se acalmado repentinamente. Nesta fração de segundo, enquanto o silêncio toma conta do ambiente e um pai olha com tanto amor, carinho e preocupação para o filho, tenho certeza que fiz bem em deixar minha confortável cama. Segundo rápidos se passam até que JeongGuk olhe para mim, a face rosada. – E-eu sei o que você deve estar pensando, mas eu não sou um idiota, ok? – Abro minha boca para argumentar, mas deixo que continue. – O Jun já tem mais de seis meses então já pode comer comida sólida, não é?
- Na verdade, não. – Vacilo e apoio minhas mãos em meus joelhos, tomando cuidado para cobrir minhas pernas com o robe. – Ele já pode sim, comer comida sólida, Sr. Jeon, mas ainda precisa do suplemento materno. A marca dos seis meses é apenas uma alerta para que a família introduza as papinhas e tudo isso. O ideal mesmo é intercalar os dois, entende? – O pai mantem os lábios entreabertos, não parecendo acreditar que havia deixado escapar este pedaço de informação. Abaixo meus olhos quando uma nuvem de arrependimento paira sobre ele. Engulo em seco, entendendo muito bem como algo assim pode afetar um familiar, principalmente quando parece estar tão preocupado como Jeon. – O SeoJun precisa de imunização e nutrientes. Aquela comida que estava dando a ele estava correta, porém em condições equivocadas, e por isso ele não comia e agora está com fome. – Lentamente, o maior concorda com a cabeça. – Se tiver leite materno é exatamente o que ele vai precisar para dormir direitinho.

Os lábios de JeongGuk se contraem.

- A mãe dele e eu não estamos nos melhores termos. – Assinto com a cabeça, a sua confissão me levando a entender melhor como ajudar o pequeno SeoJun. Não menciono sobre como isso não deve afetar o bebê ou algo do tipo, apenas dou o meu melhor para poder auxiliá-los. – Ela nos deixou há alguns dias e não tenho estoque algum de leite materno. – Explica-se em um murmuro. Mais para o filho do que para mim. SeoJun está fungando, parecendo mais calmo e isso dá mais forças para seu pai.

Alguém pode me explicar por que eu gosto tanto de histórias tristes?

- Sinto muito por isso. É uma pena. – Tento ser o mais sincera, mesmo que a condição me dê vontade de gritar. Mães que abandonam os filhos são raras, mas não inexistentes. Mas, céus, não consigo suportar algo deste jeito. É revoltante e nojento. Como alguém deixaria uma coisinha assim? Como alguém abandona um filho? – Já que não tem leite materno e este rapazinho já está ficando grande, pode comprar leite de soja que substitui fácil. Acho que a mercearia do outro lado da rua está aberta, fica aberta a noite toda. - Expliquei, vendo o quão interessado ele estava. - Se for lá agora, posso lhe ajudar a alimentá-lo e a colocá-lo para dormir.
- P-pode ajudar? Sim?

JeongGuk virou-se para mim com os olhos arregalados como se não acreditasse no que eu tinha dito a ele e realmente fosse lhe ajudar. Evito pensar nas portas que devem tem sido batidas em sua cara para chegar a se surpreender tanto. O rapaz alto se levantou com rapidez, colocando a mão livre no bolsos a procura de dinheiro e o outro braço parecia ter o tamanho ideal para acomodar o pequeno bebê de maneira confortável sozinho. Apressada, me levantei junto a ele, esticando meus braços para segurar o resto de SeoJun mesmo que ele estivesse bem apoiado. As pontas de meu peito encostaram-se no braço de JeongGuk, nos pelos esparsos e macios e na textura aveludada da tatuagem abaixo de seu filho.
Então algo que eu não esperava acontecendo em seguida: o homem alto – e mais semelhante a um esportista que um pai – olhou para o filho, como se pedisse permissão para soltá-lo mesmo que por poucos minutos e eu pude perceber, novamente, até que ponto ele se dedicaria a seu bebê. Ergui meu rosto para encarar o seu que pairava severos centímetros acima do meu, os fios escuros de seu cabelo enevoando o olhar até que se direcionaram para mim. O desconforto se instalou em minhas bochechas, já tenras com o sangue e certamente avermelhadas. Sustentei seu olhar por alguns segundos, apertando meus dentes em um sorriso gentil, tentando lhe garantir que a criança ficaria segura em meus braços e em minha vigia.

- Confia em mim. – Dei uma bela olhada no rostinho rosado e confuso que me encarava por baixo de inúmeras camadas de tecido. – Não vou machucar ele. – Garanto novamente, arrastando a costa de minha mão pelo braço de Jeon até segurar na pequena cabeça do bebê e então usando a outra mão para erguê-lo e puxar para encostar-se em meu peito de imediato. – Pode colocar a frauda no meu ombro? – A maioria das vezes que crianças choram no braço de desconhecidos é pela diferença de temperatura e cheiros, então espero que o tecido o ajude. JeongGuk coloca em meu ombro com cuidado para não encostar no rosto do bebê e tocar-me com o máximo de respeito que pode. Mesmo assim sinto uma onda de arrepios em meu braço.

Sinto o seu olhar cravado em mim, mas estou focada demais nos de SeoJun.

- Leite de soja, certo? - Pergunta coçando a cabeça e atraindo minha atenção de novo. Por uma fração de segundo me deixo surpreender pelo envoltório negro que flagro por baixo da manga longa de sua camisa assim que estica os braços que devem estar cansados de tanto segurar o menor. Já tinha reparado nas ondulações de tinta no seu colarinho, essas que brilham com um reflexo azulado (quando pretas) e arroxeados (quando vermelhas) na luz de meu apartamento. Acabo me questionando a quantidade que deve ter antes de sentir os dedinhos de SeoJun se enroscarem nos fios que caíram de meu penteado.
- Isso. – Movi a cabeça de cima para baixo, percebendo o quanto firme é o aperto em meu cabelo, não segurando um sorriso ao observar os olhos cintilantes, negros e curiosos de SeoJun. – Em pó e orgânico, que é o mais saudável. – Meus dedos escapolem para as orelhinhas macias e eu aperto o sorriso quando o direciono a JeongGuk, este que me agora me observa como se fosse digna de um pedestal. É. Fazer bebês se acalmarem normalmente gera estas reações. Contudo não reações que também fazem o meu coração parecer crescer em dois tamanhos. Umedeço meus lábios. – Mas lembre-se: Se você sumir e me deixar com o seu filho, eu vou perseguir você até o inferno. – Fiz o meu melhor olhar de médica louca que uso em minhas amigas enfermeiras para conseguir materiais rápidos.

Parece funcionar quando Jeon engole em seco.

- Certo. – Sussurra, as mãos nos bolsos de trás da calça. – Volto em cinco minutos.

Quase esqueço que estou segurando seu filho e dou para trás quando se aproxima de maneira abrupta, pressionando um longínquo beijo na testa do pequeno. Desvio meu olhar para o abajur na mesinha de centro, ainda que o cheiro mentolado do que imagino ser o seu shampoo se infiltre por meu nariz. Quando se afasta, faço o favor de lhe seguir até a porta e fechá-la com a chave atrás de mim antes de direcionar toda a minha atenção para o miúdo pacotinho de felicidade em meu colo. Infelizmente, é claro para mim que está abaixo do peso e faço questão de lembrar e lhe oferecer uma consulta quando estiver em meus dias de clínica. Me sentei no sofá e liguei a televisão, a deixando no mudo para admirar o pequeno milagre que tenho nos braços. Nesta idade, algumas crianças são difíceis de serem reconhecidas, mas, simplesmente não consigo entender: SeoJun é lindo: com minúsculos olhinhos brilhantes e bochechas gorduchas e rosas pelo chororô.
E que Deus que faça chover terra se Jeon JeongGuk não for o pai mais gato que eu já vi em minha vida. Bem, não o mais gato, mas está na lista ainda que abaixo do pai da pequena Milicent Shin, um compositor famoso que está sempre com um sorriso gentil no rosto e até se atreveu a tomar uma vacina antes dela para “Provar que não dói nadinha, Mia”. Entretanto, sim. Jeon é algo a mais. Desde os piercings na orelha quase imperceptíveis pelo cabelo até as tatuagens que indicam ter todo o braço fechado. É necessário me segurar e não mandar uma mensagem para SeolHyun e anunciar que meu vizinho novo é um gato e tem o bebê mais fofinho do mundo, já imaginando que deve estar presa debaixo de Kim SeokJin, o chefe da dermatologia e plástica, e aproveitando cada segundo disso. Para ser bem sincera, admiro muito o setor de recursos humanos daquele hospital.

- Olá, como você está? – Faço a voz que Jin apelidou ser minha “voz de mãe”, afastando um pouquinho de tecido que cobre o rosto da criaturinha que me olha, correndo meus dedos por sua testa até o vale de seu narizinho até a ponta. Estou agradavelmente surpresa por não ter aberto outro berreiro, distraído com minha presença. – Jeon SeoJun, hum? – Engulo em seco quando pega o meu dedo e o puxa até tocar os seus lábios, antes que eu o retraia. Isso foi o suficiente para que lágrimas inundassem a borda de seus olhinhos e um som espremido lhe escapasse. – Shi, shi... – Sequei as lágrimas que caíram por seu rosto, o balançando só um pouco para que voltasse a se acomodar. – Você não pode colocar qualquer coisa não boca, neném. Não é muito sanitário.

Percebi uma gota de suor escorrer por sua testa, secando a mesma e tentando desembrulhá-lo do enorme bolo de tecidos em que o pai o havia lhe enfiado, agora de pé e com minha bunda para cima após lhe deitar no meu sofá. Quando ele ficou apenas com um pequeno macacão branco e amarelo, comecei a caminhar pela sala o embalando distante de meu corpo, não querendo que volte a suar novamente e sem ainda abrir a janela. O mais simples vento frio pode o deixar resfriado. Então, enquanto apoiado em minhas mãos e com os pezinhos próximos a meu peito, uma pequena contração lhe escapou; erguendo as pontas de seus lábios e me mostrando as gengivas rosadas. Oh, certo. Ele “sorriu”.

- Sabe de uma coisa? – Questiono, alisando suas orelhinhas tão macias que se assemelham a os pelinhos de um pêssego. Err, pensar em pêssego após assistir Parasita é uma má ideia, mas não consigo não comparar. Uma outra contração e sua língua se move, alargando o sorrisinho e as bochechas se erguendo. Balanço a cabeça com um suspiro, disfarçando o calor tenro em meu peito. – Qualquer um que te visse agora iria dizer que isso aí... – Mordo meus lábios ao ouvir um gorgolejo lhe escapar, revirando os olhos para me manter sob controle. – Isso aí mesmo, mocinho. – Indico sua face com meu queixo. – Um bobo diria que foi um sorriso, sabia? – SeoJun boceja, mas os olhos permanecem bem abertos. – Mas como eu sou uma mulher da ciência, eu sei que foi apenas uma contração muscular involuntária deste seu cerebrozinho ou o reflexo de gases. – Mal me reconheço quando dou um beijo na sua bochecha, me mantendo próxima agora que agarra meu cabelo com os dedinhos. – E você não me engana.

A campainha toca duas vezes seguidas, alertando que Jeon JeongGuk havia retornado. Mordo a língua para não soltar um comentário sarcástico por ele ter, até que enfim, ter encontrado a campainha.
*

Aqueci o leite que comprou em um panela e com uma colher de plástico, misturando com meia colher de chá de mel e um pouco de água filtrada, sem deixar que engrosse e o pobrezinho tenha dificuldade de engolir. JeongGuk levou SeoJun quando foi correndo em sua casa para pegar uma mamadeira e a colocou no balcão de minha cozinha. Deixando a mistura de lado para esfriar, cruzo meus braços, dando uma boa olhadela em como observa admirado os adesivos e algumas fotos grudadas em minha geladeira. Já havia ouvido de Jimin, um amigo tão incrível que tive a sorte de manter da universidade, mencionar que nunca poderia usar essa geladeira. Disse que os “cacarecos” coloridos o irritavam demais, mas eu não consigo evitar me orgulhar. Tenho uma foto de uma menininha com uma cicatriz do lábio leporino que tive a honra de consertar, na celebração do transplante de um garoto de doze anos viciado em Overwatch e tantas outras.

- Com o que trabalha, Sr. Jeon?

Virando-se para mim, JeongGuk continua acalentando a costa do filho.

- Sou o dono da DaredEvil Tattoo, no sul da cidade. É um estúdio de tatuagem meio famoso, na verdade. – Quero me socar no instante que ele adiciona um sorriso presunçoso, acomodando o bumbum de SeoJun em apenas uma mão. Evito o brilho de seus dentes para relembrar o nome do tal estúdio. DaredEvil? Certo, eu já ouvi este nome de algum lugar... Acho que minha face não demonstra muita admiração pois logo uma risada soa vinda dele. – Pensei que você ia falar alguma coisa depois disso. – Jun dá um outro gorgolejo e Jeon mantem o carinho em sua costa. – Ou chamar a Secretaria da Infância.

Meus lábios se curvam e eu solto o ar.

- Eu chamaria a Secretaria da Infância se você houvesse tatuado um cupcake no seu filho. Ademais... – Dou de ombros, ainda tentando cavoucar em minha mente de onde o nome de seu estúdio me é familiar. Talvez tenha atendido algum paciente com muitas tatuagens em meus anos como interna ou... Aha! Bingo! – Conhece Kim NamJoon? O RM? – O olho por baixo dos fios caídos em meu rosto e dou um sorriso quando o seu parece se iluminar, o distraindo novamente de minha geladeira colorida. A mão do bebê agarra a sua gola e eu evito encarar a tatuagem vermelha escura em seu pescoço e tentar descobrir a imagem que forma. – Eu o atendi uns cinco anos atrás. Descobri um aneurisma quando me mostrou um caderno de desenho na sala de espera. – A memória me deixa orgulhosa. Foi o meu primeiro caso e que abriu os olhos do Chefe Bang para mim.

O sorriso de JeongGuk é ofuscante e eu quase perco o ar.

- Você é a Doutora Gatinha do NamJoon? – Abaixo minha cabeça, a risada tímida borbulhando em minha barriga e que também faz a sua ressoar pelo cômodo. Kim NamJoon havia me chamado de Doutora Gatinha umas cinco vezes enquanto zonzo pela anestesia e pedido em casamento outras duas. Cubro minha boca no momento que olho para a panelinha com a fórmula de SeoJun e percebo que seu pai me imita, cobrindo sua boca para impedir o som de irritar o neném em seu colo e revelando mais e mais de seu braço tatuado quando a manga escorrega. – Ele diz que deve a carreira a você. Que estava tão atenta que notou como a qualidade dos desenhos estavam decaindo. – Sussurra.
- Pelo o que vi nas primeiras páginas, ele é um artista muito talentoso. – Informo verdadeiramente ao abrir algumas gavetas atrás de um funil e começar a lavá-lo quando solta um ruído de confirmação. RM tinha desenhos muito bonitos e senti uma vontade extrema de marcar minha pele com alguns, mas não lhe contei isso. Posiciono o objeto em cima da mamadeira do Batman e começo a despejar o leite já morno ali dentro. – Aí conforme ia passando as páginas, as linhas ficaram mais desleixadas e eu fiquei com medo de perguntar. Mas quando pedi para ele assinar o nome num papel e eu mal entendi? – Maneio a cabeça, convencida. – Estava na cara.

Fecho a mamadeira, já tendo a lavado com água quente e tudo mais.

- Pronto.

Estendo-a em sua direção, mordendo a parte interna de meu lábio quando nossos dedos se encostam ao tomá-la de minha mão. Enfio as minhas no bolso do robe quando me dirijo a sala, ouvindo seus passos ecoarem atrás de mim. Indico o sofá novamente e JeongGuk se senta sem muita cerimônia, apoiando o filho nas coxas vestidas com um jeans preto ao manusear a mamadeira. A sua experiência com isso é uma imagem agradável. Infelizmente sendo difícil afastar da minha cabeça o clichê que imaginava lhe servir: transou com alguém no primeiro encontro, nunca mais se falaram e nove meses ou quase um ano depois surgiram com um bebê em sua porta. Mas ao analisar o seu conhecimento sobre crianças, até mesmo entendendo sobre a alimentação e como segurá-lo de forma correta... JeongGuk parece ser um bom pai e ter tido tempo para se preparar.

- Toda essa confusão por que você estava com fome, hein? – Questiona sorrindo torto ao colocar a mamadeira delicadamente na boca de SeoJun. Volto ao me sentar no pufe, encolhendo meus ombros e pegando uma das almofadas e lhe entregando, ajudando a por debaixo do bebê que agarra o recipiente com as mãozinhas. – E nós tivemos de perturbar a Doutora Gatinha do RM, sabia? – É difícil compreender o que passa por mim, mas mesmo assim acaricio a pele macia e perfeita de Jun, um pouco preocupada por sentir os ossos por baixo. Engulo em seco com o apelido, minhas bochechas queimando. – Não me disse o seu nome a noite inteira. Fiquei preocupado em como explicar para a polícia que deixei meu filho com uma estranha. Acho que iria preso.
- Poderia perguntar para praticamente todos os nossos vizinhos. – Murmuro impressionada com as goladas avidas de SeoJun. Já havia cuidado de muitos bebês em minha vida. Ajudado a se alimentarem e tudo. Mas SeoJun é algo mais e seu pai, que me olha em busca de mais informações, também é. Engulo em seco. – Cuidei da maioria dos bebês deles. – Corrijo minha postura ao me afastar, sorrindo com conforto quando Jun vira o rosto para mim e quase deixa a mamadeira cair, sendo seu pai que a segura e encaixa em seus lábios de novo. – Me chamo . É um prazer, Sr. Jeon. – Não lhe estendo a mão por razões obvias.
- JeongGuk. Jeon soa como se você falasse com o meu pai. – Incita e eu confirmo com a cabeça ainda que embaraçada pela proximidade. Seguro em minhas mãos, as recolhendo para meu colo a fim de não tocar mais muito em seu filhos ou acabar a deslizando para as tatuagens em seus dedos e mão. Principalmente a enorme com um ramo de rosa na lateral de sua destra. – Obrigado pela ajuda. Sério mesmo. – Não respondo, a final é meu dever. Dentro de um hospital, uma sala de cirurgia ou em meu apartamento no meio da noite. – Acho que o que ele realmente tinha era fome. - Suspirou, encostando a cabeça em meu sofá. Ele parece extremamente cansado. – Não sei como não lembrei desse detalhe sobre os dois tipos de alimentação ter de ir junto.
- É normal. – Lhe garanto para o confortar, erguendo as mãos. Céus, o quão rápido SeoJun finalizou essa mamadeira? – Deixe-me encher de novo. – Com um “pop” baixo, JeongGuk remove-a da boca do garotinho que já está inclinado a cair no sono. Imagino que a próxima o faça dormir direto. – As pessoas esquecem os detalhes quando tem filhos ou responsabilidades muito grandes assim. – Afirmo enquanto me dirijo a cozinha e agito o líquido na panela, tendo de lavar o funil de novo e só assim repetir o processo. Ouço daqui os sons baixinhos que SeoJun solta. – Não imagino o quão estressante é ter alguém que depende de você 100%. Ou 200% no seu caso, já que está lidando com isso sozinho. – As palavras são verdadeiras e eu realmente não consigo imaginar.

- Tive de ler umas coisas que nunca pensei que leria. Ir a aulas, até.
Sinto a pitada de humor em sua voz, mas não arrependimento. Ergo a sobrancelha em sua direção ao fechar o bico da mamadeira. Jeon está me olhando por baixo dos fios negros de seu cabelo, um meio sorriso puxando a extremidade de sua boca. Esse cara está fazendo isso de propósito? Sorrindo assim de propósito?

- Sobre como fazer ele dormir, os carrinhos de bebê mais confortáveis do mundo, como trocar fraudas mais rápido e evitar assaduras e tantas coisas que eu acabo esquecendo quando preciso mais... – Lhe devolvo a mamadeira, meus braços se cruzando sobre meu peito e um sorriso sacana em meus rosto pois isso era a última coisa que eu esperava do cara que chegou na porta de minha casa com cara de choro e um bebê chorando. Correndo a mão pelo cabelo, Jeon o empurra para trás da orelha e dá uma bela análise em seu filho. – Mas valeu a pena, huh?
- Sempre vale... Bom, se precisar de ajuda de novo, não hesite em me chamar.

Me adianto a uma estante próxima a televisão, ficando na ponta dos pés para alcançar a caixa em que guardava o cartões de visita da clínica pediátrica do hospital. Escolho o com o meu nome, já que tenho alguns de outros amigos para indicar como referência. Lhe entrego o cartão, vendo que SeoJun havia caído no sono ainda com metade de sua mamadeira cheia. Jeon a segurava entre os joelhos quando me aproximei e peguei, auxiliando para que ponha o filho no colo e inicie batidinhas leves em sua costa. Agora me sento na mesa de madeira diante dos dois.

- O SeoJun está um pouco abaixo do peso ideal e nessa idade é algo que deve considerar importante. Então, assim que puder, agende uma consulta para ele, por favor. – Os olhos negros de Jeon estão cravados em mim e ele assente. – Eu estarei na clínica provavelmente na quinta-feira, então se quiser, pode marcar comigo ou qualquer outro médico. – Dou uma boa olhadinha no pequeno, cujo dedo indicador já voou para a boca, os outros dedinhos se curvando enquanto agarra a camisa do pai. – Nossa... Ele vai dormir direto. – Estou rindo quando JeongGuk suspira, os lábios se partindo e olhos fechados em alívio. – Acho que vai descansar agora, não é?

Jeon abriu os olhos para mim, aconchegando o pequeno em seus braços.

- Essas foram as quarenta e oito horas mais difíceis da minha vida. – Uma onda de compaixão me atravessa e minha mão pousa sobre o seu joelho, a pele alva e quente abaixo de minha palma. O homem ri baixinho quando o filho solta um arroto quase inaudível, mas ainda me olha, agora que também estou rindo. – Valeu mesmo, Dra. . Eu não sei o que ia fazer sem a ajuda. – Levanto minhas mãos dispensando o seu agradecimento, em princípio por ser em um momento que precisava de ajuda e logo em seguida por ter sentido a firmeza de seus músculos com minha mão em sua perna. – Vou levar o Jun na clínica, sim. E também te deixar descansar, ok? Foi mal, por qualquer coisa. Por tudo, na verdade.

Me ponho de pé com um suspiro, nem querendo ver o horário no relógio que descansa em meu pulso enquanto sigo para a cozinha, falando por cima de meu ombro para JeongGuk que não havia com o que se desculpar e bebês podem ser difíceis. Junto a embalagem de leite de soja com a mamadeira após limpá-la bem, colocando tudo em uma sacola plástica enquanto o vejo se levantar com todo o cuidado do mundo, ambas as mãos ocupadas em manter SeoJun o mais confortável possível. Opto por outra sacola ao voltar para a sala, recolhendo a mantinha de dinossauros e a enfiando dentro. Sinto uma pequena chama de felicidade em meu peito, semelhante a que tenho ardendo após longas cirurgias com êxito e consultas produtivas, algo que me lembra o motivo de minha profissão.

- Aqui está! – Cantarolo ao voltar, estendendo as sacolas em sua direção. JeongGuk está escorado na parede ao lado de minha porta, lutando para enfiar os pés no tênis e não se mover muito e acordar o filho. Sorri com isso. Ele se assemelha mais a um adolescente confuso e não um pai em um momento destes. Finalmente calçado, moveu a cabeça de cima para baixo várias vezes e então me olhou com o que pude identificar como vergonha e humor reprimido antes de apontar com o queixo para a sacola em minha mão.
- Pode colocar isso na minha boca, por favor? E fingir que é algo normal pelo bem da minha sanidade de pai-solo?

Mordo meu lábio para segurar uma risada e algo mais quando abre a boca.

JeongGuk quase morde meu dedo ao fechar a boca e cerrar os dentes, mantendo a alça plástica bem segura e cabeça erguida para que ela não encoste em seu menininho. Tento abrir a porta da forma mais silenciosa que posso, apertando o bolo de chaves em minha mão ao sair do caminho e permitir que saia, nem perto de não notar a piscadela lançada em minha direção antes de sumir pelo corredor mal iluminado com um grunhido que deveria soar como “Noite” mas acabou mais como algo semelhante a “Iti”. Tranco a porta atrás de mim, ainda sem entender a pequena flama quentinha em meu peito quando me enrosco na colcha de meu sofá e decido encerrar a noite por ali.
E talvez a vizinhança aproveitadora não seja tão mal, por fim.

Capítulo II - No New Friends

- Bom dia, amor da minha vida.

O croissant gelado e com queijo azedo quase escapa por entre meus dedos no instante que um selar úmido é pressionado contra minha bochecha, me fazendo pular e algumas gotas de café quente molharem meu jaleco. Minha reação é imediata e se não estivesse tão ocupada já teria pulado no pescoço do aproveitador que dá uma risadinha, as mãos deslizando de minha cintura para quadril até se afastar o suficiente para apanhar um dos iPads disponíveis para os médicos. Estou xingando a temperatura da bebida que ensopa minha roupa quando largo tudo sobre o balcão e defiro um tapa no braço magricela de Jung Hoseok. O bastardo nem mesmo se move e me dá uma piscadela antes de pegar meu café da manhã com a mão banhada em bactérias do aparelho e arrancar uma mordida enorme.

- Você é um porco, Hoseok! – Reclamo ao bater o pé no chão, enfiando minha mão por baixo de seu braço e dando um belo beliscão em seu mamilo, o fazendo gemer de dor da forma mais suja e imoral que consegue. – Bem feito. – Dou uma última mordida furiosa no pastelzinho antes de jogar o papel no lixo. Não estou nem um pouco interessada em alimentar o buraco negro que é o estômago dele. – Você me deve quinze.

A risada exagerada de meu amigo se assemelha a um rugido.

- Tá cheirando cola? – Ele está usando a caneta digital para assinar alguns formulários de alta hospitalar, um sorrisinho lindo em seus lábios rechonchudos. – Joga uma água sanitária nisso, . – Me esforço para não revirar os olhos enquanto removo o jaleco, meu pijama hospitalar com inúmeros desenhos de planetas e estrelinhas chamando a sua atenção por um instante. O seu sorriso se torna mais amigável. – Lembro quando te dei isso de aniversário. – Lhe mando língua, balançando o jaleco branco na sua frente e ele bufa com irritação claramente falsa. Puxando o tecido pálido de minha mão, Hobi se vira e eu ouço o som de alguns suspiros e engasgos. Ah, não... Quando eles chegaram aqui? – Você do topete, o nerd e a bonitinha. Venham cá.

Apoiada no balcão, observo quando três dos quinze internos se aproximam. Todos estão bem vestidos, com seus adoráveis pijamas rosados e bloquinhos nas mãos nervosas. Metade das mulheres mantem uma imagem impecável, devo admitir; a maquiagem bem feita que tenho certeza de que não irá durar duas horas em um centro cirúrgico cheio de oxigênio puro em um espaço confinado. Já os homens estão com os fios bem arrumados e com camadas de gel de cabelo, barba bem feita e lentes de óculos cristalinas. Minha única expectativa é não ter de banir algum deles de minha cirurgia quando um óculos ou um cílio postiço cair.

- Engraçadinho, Tédio e Miss Ivy League. – Decreta. – O que acha, meu bem? – Dou de ombros para os novos apelidos de seus internos da semana, levando o copo de papel para meus lábios. Os jovens médicos se entreolham e decidem ficar mudos. Hoseok joga meu jaleco de cento e cinquenta dólares no colo de um deles. – Como me deram os internos mais lerdos, os três vão até a sala de descanso dos residentes e vão pegar o outro jaleco da Dra. . Conseguem fazer isso? – Tédio engole em seco antes de concordar com a cabeça dando uma boa olhada para a direção aleatória que meu amigo aponta. – Bom menino, Ted! Ivy e Engraçadinho, acompanhem o Tédio. Sinto que ele vai se perder.
O três recém-formados zarpam pelos corredores sem mais perguntas.
- Hoseok? – Indago ao me aproximar, evitando os olhares esperançosos que os outros lançam para nós. – Você notou que eles foram pelo caminho errado, não foi? – Com um sorriso na minha direção, ele assente. – Acha que eu devo mandar os meus acharem um bisturi ocular para mim? – Rindo, ele assente. A caçada por materiais e remédios inexistentes sendo uma velha tradição do hospital. Aprendemos bem cedo a decorar os medicamentos disponíveis na farmácia e todo o aparato do hospital e salas cirúrgicas.
- Que tal vocês pararem de azarar os internos e virem dar uma olhada em algo, hum? Tenho um presentinho para você, .

Com um tapinha em meu ombro, SeokJin se aproxima e nos chama para seu lado no balcão das enfermeiras. Os prontuários em suas mãos são uma breve indicação do quão divertido o resto de nosso dia será. Ergo meu dedo, impedindo de imediato que as crianças curiosas se aproximem após a breve oportunidade. Jin dá uma risadinha, já tendo comentado inúmeras vezes que tenho a disciplina de um militar quando se trata dos internos. O médico mais velho puxa um eletrocardiograma de um dos prontuários, segurando na direção da luz para que tenhamos uma boa olhada.

- Sobrecarga arterial esquerda. – Indica com uma caneta, mesmo que o exame seja óbvio. Também é obvio que é o exame de uma péssima qualidade visual e de uma criança muito, muito pequena. – Bloqueio do ramo. – Desliza a caneta mais para cima. – E gradiente de pressão do VE. – Tomo o exame de sua mão, dando uma melhor olhada nos sintomas da paciente. Hoseok me acompanha e eu só noto que SeoHyun está atrás de mim quando o cheiro doce de seu perfume invade minhas narinas e sua mão delicada se prostra em meu braço. Posso sentir o buzz de animação ao poder tratar algo assim. – O JaeBum vai chegar em vinte minutos.

Algo se remexe em meu estômago e eu engulo o meu coração que havia ido parar em minha garganta. “Perdão?” É Seo que exige uma explicação da situação inesperada, as unhas se fincando em minha pele em um instinto protetor.

- Doutor Im JaeBum. – SeokJin explica devagar sem envolvimento algum ou importância, e sinto minha boca ficar seca. Onde está aquele maldito café, hein? – Ele é cardiologista.

Hoseok olha para o amigo como se ele houvesse criado uma segunda cabeça no ombro. SeoHyun solta o ar com um resquício de chacota, me envolvendo em um abraço lateral. Eba! Me sinto uma criança!

- Doutor Im JaeBum. Cardiologista. – O desgosto na voz de Hobi é nítido. – Ex-noivo da . Um tremendo filho da pu...
Jin tapa a boca do amigo, os olhos gigantescos alarmados.
- O hospital virou frevo agora?
É a minha vez de dizer algo.
- Aparentemente virou um puteiro, agora que o JaeBum está vindo. – Dou de ombros, o ato sendo o suficiente para Seo me soltar. Ela o faz ainda relutante. Volto a ler alguns dados insuficientes sobre a paciente, esta que parece ser jovem demais para estar com o coração tão comprometido assim. Assim como o meu está agora que a notícia do retorno de JaeBum surge e eu não tenho certeza se conseguirei efetuar o meu trabalho corretamente. – Por que diabos vocês o chamaram, Kim? Temos outros cardiologistas.
- Você não vai acreditar! – Jin ousa, enfiando as mãos no bolso e com um falso semblante sonhador no rosto bonito. – Vamos fazer um banho de lua mais tarde no heliporto. Nós dois peladinhos na luz do luar e Mai Tais.
Hoseok torce o nariz e força um som de vômito. Seo e eu damos um pequeno sorriso.
- Espero que ele esteja vindo para uma vasectomia. – Arrisco sem muito humor agora que realmente tenho de pensar. – Ou um Papa Nicolau. Qualquer procedimento onde estejam enfiando alguma coisa nele ou cortando algo fora. E se for a segunda opção, eu posso auxiliar, Jinnie? – Provoco utilizando-me do apelido que minha amiga costuma usar com ele. O mais velho assume um leve rubor, cruzando os braços sobre o peito.
- Ele está cuidando de uma missão humanitária. – O Doutor Kim inicia e eu quero bater com cabeça na parede de tanta raiva. Como devo odiar meu ex-noivo? Como devo sequer sentir alguma aversão ao homem quando ele faz este tipo de coisa? Quando gastou o dinheiro que tinha guardado para nossa lua de mel em doações para o Médicos Sem Fronteiras e passou um mês no Afeganistão? Oh, certo! Quem sabe seja motivo suficiente que ele decidiu arruinar tudo em um piscar de olhos, desfalecendo no fundo do poço e me levando consigo. – E está ajudando no tratamento de uma menininha com estenose da válvula aórtica.
- Esse é o meu sonho realizado, meus amigos! – É a minha vez de celebrar um pouco, logo recebendo olhares horrorizados dos outros. Fecho a cara de imediato. – O meu sonho, no caso, é salvar a vida deste anjinho aqui. – Aponto para o minúsculo coração, certa de que meus amigos não acreditam que esta é a minha única intenção. Céus! É claro que eu quero ajudar uma criancinha, mas este é um feito médico! Remediar um órgão tão pequeno e frágil é algo mágico. – Tá, desculpa.

Hoseok encosta a cabeça em meu ombro, suspirando em exaustão pois sabemos o que vem agora. Me viro para os ínfimos internos, alguns nas pontas dos pés para dar uma olhadinha nos exames e outros fingindo estarem despojados. Os despojados me lembram bem demais de quando eu tinha catorze anos, estava no show dos Jonas Brothers e tinha certeza de que o Nick Jonas iria se apaixonar por mim por ser “diferente das outras fãs”. Claramente não funcionou. Poxa, Priyanka!

- Alguém me diz o que é estenose e o tratamento. – Exijo em alto e bom som. Os murmurinhos e discussões começam e eu tenho total conhecimento de onde iniciaram. – Você aí do esparadrapo no óculos, - Aponto com a queixo com um rapaz, o mais alto de todos. – você foi o primeiro a falar. O que é? – Dizer que ele é bonito é um entendimento, assim como dizer que é adorável. Hoseok me dá uma cotoveladinha, pedindo preferência com o jovem. Quando ele vai parar de dormir com os meus internos?
- Estreitamento da válvula que bloqueia o fluxo de sangue para a aorta. – Sua voz é grave e tremula um pouco, mas não gagueja. – Podem basear o diagnóstico em um sopro cardíaco e em resultados de ecocardiogramas. – Concordo com a cabeça, surpresa por sua atenção no que falávamos e apontar para o exame em minha mão. – Recomendam um balão e substituição da válvula.
- Como você explicaria isso para a mãe da paciente? Alguém que pode não ter um ensino-superior direcionado a saúde como nós e não vai entender grande parte do que fala? – Questiono. Isso parece lhe tirar dos trilhos por um tempo e os outros internos também demonstram o mesmo semblante. – Se passaram a faculdade inteira decorando conceitos médicos, excluíram o atendimento ao paciente da formação de vocês. Recomendo que aprendam a falar com leigos no assunto da forma mais completa possível. – Estou erguendo a mão para dar a chance para outro aluno quando ele se pronuncia de novo.
- Eu, eu diria que um dos canais, um dos tubos, que o sangue passa, estava diminuindo o tamanho. E o sangue demorava para chegar. – É a minha vez de dar uma cotovelada em Hoseok. Ele havia me dito há alguns anos que depois de ’95 não nasceu um hétero sequer e eu me esforço para imaginar que o rapaz não se encaixa nisto. É um colírio para olhos cansados e o que eu preciso se vou passar a manhã com JaeBum. – É um defeito de nascença, então a cirurgia é uma tentativa de remediar danos futuros.
- Esse é Jung JaeHyun, . De Harvard e fez o programa com MIT. – É SeolHyun que apresenta o garoto. Ah, este é o JaeHyun... Não poderia esperar menos preparo de quem fez o Health Program das duas melhores faculdades americanas. – O da sutura em barra grega. – Ergo a sobrancelha, concordando com a cabeça. Na semana anterior ela havia me contado sobre sua técnica impecável de sutura quando lhe deixou fechar uma correção de calcificação óssea.
- Muito bem, bonitão. Você está no meu serviço. – O chamo para frente com meu dedo, SeokJin suspirando atrás de nós. Bem, ele não é a pessoa certa para falar sobre relacionamentos no trabalho, é? SeoHyun me contando sobre as últimas escapadas dos dois ontem não prova a sua tese.
JaeHyun está extasiado, mas controla bem a ansiedade ao se aproximar de nós.
- A senhora vai fazer uma valvotomia por balão?

Jung Hoseok se esforça para segurar uma risada, virando-se para longe de mim e cobrir a boca, afinal sabe muito bem como detesto ser chamada de “senhora” em qualquer situação da minha vida. Seo assobia e eu ouço quando Jin se despede, tendo de ir procurar o chefe de cirurgia para decidir alguns pontos do nosso trabalho pro bono. Fecho o prontuário e o empurro no peito do rapaz.

- Quantos anos você tem?
Ele engole em seco e eu ouço mínimas risadas dos outros internos.
- Vinte e quatro, Dra. .
Assinto.
- Eu tenho vinte e oito. Me formei dois anos mais cedo no ensino médio. Poderíamos ser colegas, não é? – Dou um tapinha em seu ombro, satisfeita com o rubor insano que havia pintado suas orelhas. Hoseok assobia, provocando-o. Olho para os seus colegas com uma expressão severa. – Eu passei os últimos doze anos da minha vida com a cara enfiada em livros ou em salas de cirurgia. Quem me chamar de “senhora” outra vez e não de “doutora” está fora do meu serviço pelos próximos dois meses. E eu tenho certeza de que todos vocês estão ansiosos para passarem pela Pediatria sem problemas, certo? – Todos assentem veemente. – Muito bem. – Bato as mãos, recebendo meu jaleco de Tédio, Engraçadinho e Ivy que acabavam de voltar. – MIT, pegue um café para mim. Temos uma manhã bem longa pela frente.
No caminho para o elevador, dou um sorrisinho para Hoseok.
- Jung, não se esqueça do meu dinheiro!

*


O nome dela é Nahal.
Nahal é uma garotinha afegã, mal nutrida e que, segundo a irmã mais velha, chorou o voo todo pois tem pavor de aviões e sons altos. Ela tem três anos e os olhos verdes mais expressivos que já vi em minha vida. Enquanto discutíamos a cirurgia, estes mesmo olhinhos se focaram em mim, mesmo que não entenda bulhufas do que eu disse, ou me esforcei para dizer – a presença de JaeBum sendo incomoda em diversos níveis. No caminho para a sala de cirurgia, seus minúsculos e magros dedinhos se fecharam em meu pulso, os olhos fechados com força enquanto eu a empurrava na maca da maneira mais cuidadosa que pude.
Residentes não se dão o trabalho de levar os pacientes, mas tento fazer isso o máximo que posso a fim de mostrar para os pequenos que realmente estou ali. Que minhas intenções são verdadeiras e no caso da pequena Nahal, parece funcionar. Permito que JaeHyun e Maggie, minha enfermeira favorita, sigam com ela quando tenho de fazer a escovação cirúrgica, um vidro enorme nos separando e eu estico o meu pescoço para dar uma boa olhada em seus vitais enquanto a anestesiam. Abaixo minha cabeça para a esponja que tiro da embalagem, acenando para a pia que começa a dispersar água de imediato. Estou me dirigindo ao sabão quando a porta atrás de mim se abre e reconheço o som insuportável dos sapatos de borracha obrigatórios no chão úmido.

- Então o Jin e a Seo, hein? – JaeBum inicia, me imitando mas mantendo duas pias de distância entre nós. Engulo em seco antes de apenas concordar, apertando meus lábios em um sorriso duro. Uso a esponja para molhar meus braços, a água fria sendo um alívio para minha pele que queima na sua presença. – Eu nunca teria imaginado, sabia? O Jin sempre tão certinho, com a SeoHyun... É loucura. – A primeira esfregada em meu braço é bruta, a pele ardendo logo depois. Repito por todo o contorno, o sabão apenas auxiliando no pinicar desconfortável. – Foi ele que me contou sobre o seu programa pro bono. Recebeu a cesta de muffins que eu mandei para você? Tinha de chocolate com amendoim, os seus favoritos. Adiciona em uma tentativa falha de me fazer falar, mas volto a mexer a cabeça sem ousar lhe olhar vez alguma. – É incrível, . Incrível mesmo. Sempre soube que você era uma médica brilhante mas filantropia é novidade. – Uma pausa me permite respirar e passar para o outro braço. Im JaeBum fecha a sua torneira, cessando a risadinha sem graça. Ouço quando se aproxima. – Só que seria ainda mais incrível se você ousasse responder as minhas mensagens, e-mails ou até mesmo falar comigo agora.

O pedido é tão revoltante que sinto uma vontade súbita de rir, incrédula que não tenha entendido o recado depois de quase dois anos. Repuxo meu lábio entredentes, me esforçando para manter o borbulhar feroz em meu peito o mais calmo possível. Esta não é a primeira vez que trabalhamos juntos desde o término, mas nas outras vezes tínhamos ora Hoseok ora SeokJin aqui para preencherem o silêncio desconfortável. Infelizmente, mesmo que vá operar Nahal, Jin está ocupado e apenas irá dar o ar da graça quando sua chance de atuar chegar. Jogo a esponja de uma mão para a outra antes de fechar minha torneira, olhando de soslaio para a figura de meu ex-noivo. Curvado sobre sua pia da mesma maneira que estava um ano atrás quando soluçou o seu erro minutos antes da cirurgia que mudaria a minha vida.
Mesmo depois de tanto tempo, me forço a admitir que JaeBum é um homem lindo. Com fios negros grossos e sempre assentados. Mandíbula proeminente e lábios bem desenhados. É com pesar que me lembro das noites em claro quando decorei cada parte de seu corpo, memorizando cada curva e sinal com a ponta de meus dedos. Quando conhecia cada ponto de sua forma, cada músculo e nossas mãos se entrelaçavam acima de minha cabeça e eu permitia que se perdesse em mim. Aperto meus olhos com força, um suspiro pesado escapando meus lábios pois catorze meses se assemelham a catorze dias e eu não consigo olhá-lo. Não consigo ver a pessoa que costumava amar. Não reconheço os olhos que tanto gostava ou o sorriso que forçava um em mim. JaeBum se tornou um estranho.

- Conversemos, então. – É um alívio quando minha voz não falha, agora que deixo a água voltar a escorrer e dou alguns pumps de sabão na esponja amarela e me dedico a meu outro braço. Com o canto de meus olhos, percebo quando ele me olha finalmente. Não tenho necessidade e lhe dar atenção para perceber o curvar de suas sobrancelhas. As mesmas sobrancelhas esperançosas que pingavam naquela noite. – A HeeJin gostou de Tóquio? – Questiono da forma mais casual que consigo até que minha visão se torna turva. Um som estrangulado deixa a boca de meu ex-noivo, um arfar descrente e amargurado. O choque molhado e grudento de sua esponja caindo no chão reverbera pela salinha. – O que ela achou do hospital? O que achou da minha bolsa de pesquisa? – Uma risada sôfrega me escapa, meus olhos se apertando para conter a raiva e punhos cerrando. – Ela está gostando de viver a minha vida?
- , meu bem, por favor... – JaeBum me pede, agarrando meu braço.
Esfrego meus dedos e punhos com a sua resistência.
- Ela está gostando de transar com você sem a sua noiva para atrapalhar?

Lanço a minha esponja na sua direção e JaeBum não se preocupa em manter a distância, sendo atingido em cheio no peito e com sorte encharcando o seu pijama cirúrgico. Fecho minha torneira, a água ficando quente para me avisar que já havia higienizado as mãos por tempo suficiente e assopro os fios rebeldes de cabelo que cai sobre os meus olhos e podem acabar sujando as lentes de meu óculos. Quando o olho, suas pálpebras estão fechadas com força, como se a ideia de me olhar depois de tudo seja impossível para ele e demais para a sua cabeça. Estou sorrindo agora, afinal a sua coragem e cara de pau é inacreditável até mesmo para ele e eu faço o favor de lhe empurrar ao me adiantar para o dispersor de papel-toalha.

- Sei que não vai acreditar, mas eu vou dizer do mesmo jeito: Não importa com ou porque eu fiz, todo o amor no meu coração sempre foi seu.

O acesso de riso que solto corta o ar como uma tesoura afiada, tão alta que preciso jogar a cabeça para trás e controlar o volume, com medo de atrapalhar os outros na sala ao lado. Assinto ainda sorrindo, buscando sua face e as maças do rosto vermelhas, olhos brilhando com lágrimas de crocodilo. Im JaeBum é patético, percebo de pois de um tempo. Como pude amar alguém tão idiota é algo fora de cogitação. Lhe dou o meu melhor olhar de atenção, interessada até onde ele pode ir com isso.

- Tudo bem, . Pode rir. Eu sei que vai soar estúpido, mas não sabia o que estava fazendo, . Por favor... – Seu lábios tremulam. – Eu te amo tanto, e estou tão arrependido pelo o que fiz. Eu te amo, meu bem. – Fecho os meus olhos, as palavras soando como zumbidos infelizes em meus ouvidos quando segura em meus ombros. Seu toque me enoja. - E não importa o que eu fiz, nada no mundo vai mudar isso. Dei para a HeeJin meu tempo, energia e afeição, mas não amor. Eu sei que deve ser difícil acreditar que alguém que te ama faria isso, mas foi um erro. – Assinto, cruzando meu braços, um sorriso mínimo em meu rosto quando seca uma lágrima traiçoeira. É sádico, mas o ver tão triste me conforta. – Estava atrás de uma aventura que vou pagar pelo resto da vida e me arrependo de ter arrastado você comigo nisso, amor. As coisas podem ter mudado, mas eu vou fazer o que quiser por uma segunda chance.
Meus olhos duros e expressão irritada se derretem para uma emotiva.
- Eu não mereço alguém como você, Jae. – Sussurro em um som manhoso e forçado, atraindo a sua atenção que buscava desesperadamente uma resposta emotiva. Sustento o seu olhar esperançoso e imito o suspirar fundo e aliviado que o bastardo solta, mas acabo substituindo o meu por uma gargalhada explosiva. Cubro a minha boca, olhos apertados de tanto rir quando reparo no rubor violento em sua face e as mãos em punhos enfadados pela minha atuação. - Não mereço um alguém que não sabe consertar o que fez. Não mereço alguém que só é bom em pedir desculpas, Jae. – Jogo o papel no lixo, decidida a não o atingir com ele para não me por em problemas com o RH. - Queria poder te machucar tanto quanto você me machucou. Queria poder te atrasar tanto quanto você me atrasou. Não pra te ferir, mas mostrar o quanto eu estou certa em te negar. – JaeBum corre as mãos molhadas pelo rosto, desfazendo toda a higienização que fez.
- , por favor... – Céus, como pode ser tão estúpido?
- Cale a boca! – Ordeno e interrompo sua nova tentativa, apontando meu dedo em sua cara. É impossível controlar a minha irritação. – Eu era a mulher que faria tudo por você. A única que escolheria você ao em vez de todos os caras do mundo. Mas desistiu de mim, JaeBum. – Assumir isso é doloroso, mas é minha única oportunidade e não posso me desfazer dela tão fácil. – E eu tenho todo o direito de desistir de ti. Um traidor nojento e irresponsável. O culpado do nosso relacionamento acabar! - Quando abre a boca para dizer algo, faço o favor de elevar a minha voz. – Foda-se a situação, o momento não importa! Ninguém merece botar a cabeça no travesseiro e se questionar por que não foi o suficiente. Eu não mereci! – Controlo meu tom quando me torno ciente que curiosos podem estar nos ouvindo no corredor e que não deixarei minha voz falhar. Engulo em seco, sustentando a sua expressão igualmente irritada. – Eu sou genial, JaeBum. Primeira da minha turma na faculdade. Bolsa integral por seis anos.Uma médica incrível e uma mulher melhor ainda. Tenho uma família que me ama e amigos maravilhosos. – Sustento o meu ego no máximo. – E mereço muito mais que um lixo de homem como você ao meu lado.
Sei que atingi um nervo quando meu ex-namorado chuta um cesto de lixo.
- Eu sou o lixo? – Anos atrás o seu rugido me faria recuar, mas agora apenas me faz inflar o peito em desafio. – Eu sou o lixo por que você não tem o bom senso de me dar uma segunda chance? De entender que tudo o que eu fiz foi um erro? Que se pudesse voltar no tempo mudaria aquilo? – A cada passo ele se aproxima e eu avanço, pronta para revidar se ao menos pensar em erguer a mão para mim. Não o reconheço, então uma ação violenta não me assustaria. – Você não tem coração, . Sabe para quantos hospitais eu poderia ter me inscrito? Quantas chances incríveis teria? Mas não, eu escolhi Tóquio por você! Escolhi conciliar um estudo de uma língua incrivelmente difícil por você; porque era o seu sonho! – É a sua voz que falha e me satisfaz. – E você não pode me oferecer a porra de um cartão amarelo? Antes de me chamar de lixo e me xingar na frente dos seus amigos, mencione tudo o que fiz por você por cinco anos. Diz o quanto eu elogiava você. O apoio que te dava. Como lembrava de cada aniversário. De como recusei metade deste hospital por você. Então tenta me humilhar, que tal?
- JaeBum, você fez o mínimo que qualquer namorado deveria fazer e não pode pensar que é um príncipe encantado por isso, e eu não tenho que perdoar você por ser um ser humano decente. – Meu sorriso é a arma que uso, percebendo com isso o irrita ainda mais, a orelha brilhando em um tom rosado por baixo da touca vermelha do Deadpool. - E isso não é sobre amor, Im. Nunca foi. É sobre você ser imaturo e infantil e não ter o mínimo de responsabilidade para manter um namoro. Eu não sou a sua mãe. Não é dever meu te moldar para ser um homem de verdade. E quer ouvir mais? Sim, Im JaeBum, eu desisti de você.

Me contenho antes de acabar dando um soco em seu peito, mas todo meu corpo vibra em um calafrio e uma onda de calor o segue. Estou realmente fazendo isso? Esfregando em sua cara tudo o que pensei desde que terminamos? É quase como um sonho se tornando realidade.

- Ninguém traí e diz que ama, pois consideraria o que ia fazer. Se pode trair, não é amor. – Me recomponho da melhor forma que posso quando ouço o som alto e alarmado da voz de SeokJin no corredor, passos apressados de outros médicos e enfermeiros que deveria estar na porta. JaeBum parece perceber o que acabou de acontecer. – E se você foi canalha para fazer isso uma vez, é porco o suficiente para fazer de novo. E eu vou estar aqui neste mesmo hospital, com o título de Chefe da Pediatria, com o melhor programa de tratamento pro bono do país e rindo de mais um relacionamento desastroso seu.
- Você nunca vai encontrar alguém como eu, .
A porta se abre atrás de JaeBum e eu olho para o chão, me afastando.
- É essa a ideia de um término, se me lembro bem. – Kim SeokJin afirma ao adentrar a sala de higienização, a irritação suprimida em sua voz dura e muito distante do médico risonho que se senta em um barzinho comigo todo fim de plantão. A sua presença e resposta ao ego de JaeBum o pega de surpresa e imediatamente a sua atenção é direcionada ao cirurgião mais velho. Jin o ignora e lança um olhar sério e ameaçador para mim, acenando para que o encontre do lado de fora. Solto um suspiro ao passar por JaeBum, ouvindo quando força alguma desculpa desconexa e Kim imediatamente pede que se cale. – Se recomponha, Dr. Im. Não quero crianças na Sala de Cirurgia a não ser que estejam na mesa. – Abro a porta, ouvindo ainda mais agitação da staff que me aguarda do lado de fora. – Lave as mãos e comece o procedimento. Irei me juntar em breve. , saia daqui.

Bato a porta com força atrás de mim, correndo as mãos por meu rosto de forma exasperada e jogando minha touca no chão em seguida, consumida pela raiva do resultado de nossa briga. Como JaeBum, sucumbo ao ódio e dou um chute com força em um carrinho de emergência, o metal se chocando com os medicamentos e instrumentos dentro dele. Ser expulsa de uma Sala de Cirurgia é a coisa mais humilhante do mundo a este ponto de minha carreira. Então vem a vergonha, não de Jin ou do arrombado do JaeBum, mas da pequena Nahal. Céus, como devo ir falar com ela agora? SeokJin provavelmente vai me expulsar do caso. Minha respiração se torna irregular e eu estou quase dando um tapa em uma das estantes com soro quando uma mão maior e mais forte me para.

- Já não acha que deu cena o suficiente, Dra. ? – Suspiro alto e puxo a minha mão devagar do aperto de Jin, mordendo a minha língua para não lhe dizer algo que possa me arrepender. Ele não está olhando para mim e sim para os staffs que esvaziam o corredor com rapidez. Ótimo, agora preciso ouvir uma bronca. – O que diabos aconteceu contigo, ? – Fico calada quando Jin cutuca meu braço sem carinho algum. Onde está o maldito RH? Meu chefe está me cutucando, isso dever ser ilegal em algum nível. – Você tem noção do papelão que pagou? Com todas aquelas enfermeiras te olhando através do vidro? Sabia que eu tive de ir verificar se a criança já estava apagada?
- O nome dela é Nahal. – Corrijo.
- Nahal! – Jin ergue as mãos para o céu, ainda enfezado com minhas ações e displicência. – A pobre Nahal que não vai ter a assistência de uma pediatra durante a cirurgia porque os seus problemas com o seu ex não podem ser deixadas de lado! – Eu engulo em seco, entendendo que cada palavra sua é algo vindo do Chefe de Cirurgia, e não o meu amigo. – Sabe que tipo de médico discute na Esterilização? Médicos desleixados e que não dão a mínima para o paciente do outro lado do vidro. – Nahal se torna um peso absurdo em minha consciência. Concordo com a cabeça. – Quando eu te conheci você batia portas e discutia porque o JaeBum te deixava doida. E é terrível ver que ele ainda te deixa assim, quando você deveria ser o pilar de calmaria em um Centro Cirúrgico. Dentro desse hospital a sua vida pessoal não é problema meu, da minha staff ou dos pacientes, ! Lá fora, no Jay's, a gente vai sentar e eu pago quantas rodadas quiser. Mas aqui preciso que seja o mais profissional possível. – Seu desapontamento soma a questão de Nahal. – Eu estou sendo claro?
- Sim, chefe. – Minha voz é mínima. Jin aponta para a minha touca no chão.
Apanho ela com cuidado e enfio no bolso de meu scrub.
- Por essa sua gracinha, você está fora do Quadro Cirúrgico por uma semana ou até quando eu estiver irritado pelo descuido que mostrou ao discutir tão perto de uma paciente. – Mordo minha língua, decidida a não piorar a situação. A primeira coisa que surge em minha mente são as cirurgias e outros procedimentos agendados para os próximos dias e um em especial. Posso muito bem pedir a SeoHyun para amaciar SeokJin e conseguir que diminua minha pena, mas sei que estive errada desde o começo. Decido deixar minha amiga fora dessa. – Está de plantão na clínica começando por, deixe-me ver... – SeokJin ergue a manga do jaleco e finge olhar em um relógio imaginário. Bufo e aperto meus olhos por sua expressão pensativa, tentando não acabar rindo pois ele quebrou o personagem apenas para me fazer rir. – Olhe só! A partir de agora, você manda na clínica! – Dois tainhas em meu braço me fazem assentir e um sorriso irônico. – As suas cirurgias vão ser transferidas para o Dr. Jung.
- Sim, Dr. Kim. – Bato minhas palmas juntas de forma desanimada, dando um passo para frente e amaciando a ruga ligeira que surge entre suas sobrancelhas. Jin dá um ronquinho. – Me desculpe por causar algum problema para o hospital. Isso não vai se repetir. – Dou de ombros, nem um pouco surpresa com a habilidade que JaeBum tem para me exaustar. Lhe dou um joinha antes de sair de sua frente.
- ?
- Oi?
- Não aceite mais namorar ninguém que não entenda o teu valor.
Cruzo meus braços sobre o peito, saboreando o rubor tímido em meu rosto.
- Obrigado, Jin. Me paga um Sex on the Beach mais tarde?
- Seo que ir ao cinema, alguma coisa envolvendo o Homem de Ferro. – Ele coça a nuca, apoiado no vão da porta de Esterilização e eu lhe dou um sorriso torto quando menciona a namorada. Por um instante, esqueci que ele também iria tratar Nahal e consigo respirar aliviada. A sua presença ali dentro com a garotinha me reconfortando. – Amanhã rola? – “Sim, chefia.” – E, não te preocupa. – Ergo a sobrancelha, andando de costas para poder lhe olhar. – O Im vai embora assim que a Hanal estiver estável.
Soco o botão do elevador e aceno para ele.
- O nome dela é Nahal, vovô.

*


- Prontinho! – Dou um sorriso, massageando as bochechas do bebê. – Muito bem, bom menino.

Kang YoonSon estava aos prantos quando chegou na clínica e teve de cortar alguns pacientes pela necessidade de agilizar o seu atendimento. Os grandes olhinhos que agora piscam em deleite com minha massagem antes exibiam um adorno avermelhado, lábios tremendo e o dentinho em um pacotinho que sua mão havia guardado no bolso da sua camisa do Homem-Aranha. A história, para quem já está acostumada, não foi tão inusitada assim: estava brincando com os amiguinhos em um pula-pula. Daí para frente, o resto do conto já estava óbvio no instante que vi o desespero de sua mãe e o seu braço enfaixado de maneira desleixada mas completamente concebível por uma mãe ou pai em momento de desespero.
A risada de sua mãe e Irene ressoa pelo consultório, principalmente quando o garotinho estende o seu braço bom em minha direção com o intuito que eu o pegue em meu colo. Nego seu pedido, assentando o cabelo no topo de sua cabecinha ao me abaixar em sua altura e explicar que não posso lhe carregar para não machucar ainda mais o seu braço. Irene, uma das enfermeiras da pediatria, me entrega as requisições enquanto a mãe de YoonSon o ajuda a descer da maca e o coloca no colo ao se sentar diante de mim. O choque principal do menininho parece ter passado, agora apenas fungando e o nariz escorrendo ao enfiar o rosto no pescoço da mãe.

- Bom, senhora Lee, o YoonSon parece ter fraturado o rádio, que é um dos ossos do braço. – Explico devagar e com total atenção direcionada a mãe que também já tinha permitido que algumas lágrimas caíssem durante o exame. – Por sorte, como a senhora disse que a altura foi curta, a fratura não foi aberta e não houve deslocamento. Então o que imagino ter acontecido foi uma “rachadura”. Mas vou encaminhar vocês para um raio-x só para garantir. – Entrego minha requisição para Irene, quem já estava trocando a bolsa de gelo do paciente, já entretido demais com a beleza de minha colega. Seguro um sorriso conhecedor ao me direcionar a mãe, que ainda mantém um olhar arrependido e os lábios estão apertados com a culpa. – Senhora Lee, crianças se machucam. – Ponho minha mão sobre a sua que estava na mesa quando ela ergue os olhos para o teto afim de aparar as lágrimas. – Meninos ainda mais e está tudo bem. É natural e eu ficaria surpresa se encontrasse uma criança que nunca quebrou osso algum. O YoonSon vai ficar bem e a senhora também, ok?

Lhe dou alguns segundos para se recompor e me levanto, agradecendo Irene por ajudá-la com a sacola de fraldas. Meus sapatos fazem barulho no assoalho de madeira quando me aproximo dos dois, minha mão sobre o ombro da mãe e a outra segurando o ursinho de pelúcia que havia caído da bolsa dela. Abro a porta e deixo que saiam primeiro, ouvindo o som baixo da conversa de outros pais de pacientes e as atendentes dos planos de saúde, assim como enfermeiras e médicos que entram e saem da clínica e consultórios com pacientes. YoonSun ainda me olha abismado quando o deixo sair e lhe entrego o seu ursinho, o aninhando no braço bom. A mãe também consegue exibir uma expressão mais calma para mim.

- YoonSun, agora essa enfermeira super bonita, - Uma risada nasalada escapa de Bae Irene, ridicularizando meu elogio e eu finjo estar ofendida apenas para arrancar uma gargalhada do menininho. – essa enfermeira linda vai te acompanhar para tirarem uma foto do seu braço com uma câmera super legal, tá? – Seguro uma patinha do ursinho para lhe explicar. – E enquanto isso, quero que você pense em uma cor para o gesso. – Percebo de imediato a animação em sua expressão. – Azul, verde como Hulk, oh, tem também duas cores e você pode colocar vermelho e dourado como o Homem de Ferro... – Exemplifico e ele concorda com a cabeça, um sorriso banguela pelo dente de leite que caiu. – Muito bem! Na volta, eu vou colocar um adesivo maneiro no seu gesso, prometo.
Após mais algumas especificações para a mãe e Irene, deixo que partam.
- Você quer que eu corte o pau do SeokJin fora? Eu corto por você.

Quase salto quando SeoHyun sussurra em meu ouvido e ergo minha mão para deferir um tapa por sua linguagem chula perto das crianças, mas ela desvia a tempo e se enfia detrás do balcão com um sorrisinho ladino e ironicamente compreensivo. Suspiro ao balançar a cabeça, não querendo arriscar que acabe destruindo o seu brinquedinho favorito. Ela abre uma garrafinha de café gelado e enfia uma no bolso de meu jaleco para mim ao se sentar na cadeira de uma das atendentes, balançando nas rodinhas. Não é surpresa alguma que ela já saiba sobre o incidente e que Jin tenha me botado para fora do caso. O hospital inteiro já deve saber. Apanho uma das fichas de pacientes e me debruço sobre o balcão.

- Se você quiser fazer isso com o JaeBum...
SeoHyun solta um ronquinho, dando uma olhada no seu relógio.
- Vou pegar um microscópio.
Lhe dou um sorriso ao passar a ficha para o próximo paciente.
- Jeon SeoJun? – Leio o nome no automático, minha mente levando alguns segundos para registrar o nome e ligá-lo ao paciente em si.

Ergo a cabeça, escaneando a sala de espera com rigidez até encontrar as figuras conhecidas em um canto distante e não consigo suprimir um sorriso ao observar a plateia que observava meus vizinhos. Até mesmo Seo ergue a cabeça, dando uma bela olhada até encontrar o ponto da comoção coletiva. Praticamente todas as mulheres da sala estão focadas nos dois e não há motivações suficientes para fazer o contrário, devo admitir. Jeon JeongGuk, meu vizinho que há alguns dias atrás havia me acordado no meio da noite com seu filho no colo e o desespero evidente, aposentou a calça de moletom e camisa com mancha de leite, sua aparência nova sendo o suficiente para atrair atenção de todos aqui. Bom, todos menos o único homem que acompanha a esposa e filho, que apenas revira os olhos para o rapaz.
JeongGuk segura o filho com a mão livre, a outra acomodando uma bolsa-maternidade (ou paternidade) e ele passa uma tira longa da mochila por seu ombro, o couro negro da bolsa e uma mamadeira colorida que se distingue da cor principal me chamando atenção. É uma cena cômica e destoante de todos os outros pais e pacientes no local, as roupas escuras e em camadas com um toque final de um casaco enorme de JeongGuk não combinando com as paredes creme e amarelas, ou as mães com vestido floridos e criancinhas com roupas coloridas. Até mesmo a estatura e ombros largos o destoam, pairando como uma montanha em meio a castelinhos, carrinhos e blocos de letras. Ele corre a mão pelos longos fios negros antes de avançar até mim. Com uma criaturinha animada em seus braços.
Até mesmo o pequeno SeoJun se difere das outras crianças que já atendi hoje, os fios negros apontando em todas as direções pois o cabelo não parece ser tão comportado como o de seu pai e esse detalhe o torna ainda mais adorável. Com um hoodie branco, calças pretas folgadas com o bumbum rechonchudo da fralda e mini-botas de combate pretas, ele se assemelha a um mini-me de seu pai. A criança parece me reconhecer, os enormes olhos se alargando ainda mais e as bochechinhas erguendo-se e assumindo um tom rosado. Seu pai até mesmo precisa firmar o braço ao seu redor quando as mãozinhas se esticam para mim como todas as outras crianças do mundo, mas meu intuito de segurar as suas é ainda mais forte.

- Ei, você! – Aceno com ambas as mãos para o bebê, percebendo quando JeongGuk ergue a cabeça ao enfiar o celular no bolso e balança SeoJun, atiçando ainda mais a animação do filho que surpreendentemente não se esqueceu de mim após alguns dias. Quando estão perto o suficiente, ouço um assobio que SeoHyun solta e me controlo para não revirar os olhos. – Que bom que você veio, SeoJun! – Quando estão perto, JeongGuk maneia a cabeça para mim em um sinal de respeito, o cabelo caindo sobre seus olhos e lábios rosados curvados em um sorriso. É a minha vez de o cumprimentar e eu retribuo, mantendo meus olhos nos seus. – Sr. Jeon, é um prazer vê-lo quando não está batendo na minha porta as quatro da manhã.
Recolho a ficha sob o balcão quando ouço um arfar de Seo e entro na sala.
- Boa tarde para você também, Dra. . E eu me lembro de dizer que pode me chamar de JeongGuk. – Sua voz não se assemelha a que ouvi quando nos conhecemos, algumas possíveis noites decentes de sono fazendo maravilhas para suas cordas vocais que revelam um timbre harmonioso. Seguro a porta para auxiliar o tatuador, a mochila grandona e com dois bolsos para mamadeiras e copinhos de água parecendo pesada demais para mim, mesmo que ele consiga a carregar sem muita dificuldade. – Eu até pensei em marcar para outro dia, mas... Bem, achei que era melhor esperar até que estivesse na clínica. – Estreito meus olhos ao fechar a porta atrás de mim. – Ia agendar mas a moça disse que você estava aqui hoje, então...
Aponto para a cadeira na sua frente, ansiosa para ver a sua figura massiva na cadeira delicada.
- JeongGuk, digo... Então ligou, soube que eu estava aqui, e decidiu vir na mesma hora? Que lisonjeiro. – Provoco com uma coragem desconhecida, me dirigindo a cadeira confortável de meu consultório e um sorriso surgindo em meu rosto quando SeoJun solta um gritinho agudo e balbucia algo para nós, o rosto torcido em animação. Suas emoções são cômicas quando comparadas a que mantinha na última vez que o vi. Ele está balançando as mãos quando seu pai me olha de maneira instigante, a sobrancelha erguida até se esconder em seu cabelo, os lábios se partindo em um sorrisinho que repuxa algo em meu estômago, ainda que suas bochechas brilhem com o sangue debaixo da pele pela vergonha. Volto a me atentar ao bebê. – SeoJun, você ficou muito mais animado depois de uma refeição, não foi? – O som de minha voz atiça outra reação igualmente adorável. Ele é adorável! – Bom, como ele está? Está comendo bem? Você tem regulado a rotina de substituições? – Me mantenho o mais profissional possível.
JeongGuk acena com a cabeça de imediato, parecendo ter despertado.
- Sim, sim. – Confirma ao se arrumar na poltrona clarinha e deixar a mochila ao seu lado, seu corpo curvando-se sobre o do filho de maneira desengonçada e o pobrezinho aperta os olhos até que possa se esticar de novo. JeongGuk afasta o cabelo do rosto ao se concentrar em mim. – Eu fiz até esse purê? De carne com batata? – É com certo esforço que mantenho minha expressão neutra pois é impossível para mim relacionar uma receita assim a um homem todo de preto e com tatuagens como hastes de rosas com espinhos ao redor de seu pescoço. – E ele comeu. Depois, à noite, eu dei o leite de soja e ele ficou na paz, também.
- Isso é bom. A ideia mesmo é intercalar para ele se acostumar. – Autorizei a entrada de uma técnica de enfermagem quando bateu em minha porta e me pus de pé, acenando para que JeongGuk me imite. É Yeri que entra e traz a nova balança consigo, a deixando no meio do consultório. – Você pode trazer ele aqui? Eu tenho que fazer o gráfico de crescimento com altura e peso. Aí vai poder ver em que nível de crescimento ele está.

Jeon traz o filho consigo ao se aproximar da balança que também mede a altura do bebê e estica as perninhas curvadas e mecânicas do pequeno para que fique de pé, ainda que parcialmente auxiliado por ele. Enquanto dou risada dos pezinhos minúsculos e que não param de sapatear no metal junto com as botas, o cheiro do perfume dos dois se mistura, a lavanda clara da colônia de SeoJun e o cheiro forte e reconhecível do que seu pai usa, o último me inebriando ao pressionar um botão e instruir que mantenha o filho parado. Uma tala alta pousa na cabecinha de SeoJun enquanto me abaixo para estar próximo a sua altura, e toco em seu queixo para o alinhar corretamente. Dou um pulinho para o lado quando o maior me imita e seu joelho quente toca na pele nua de minha perna. Após algumas idas e vindas com o bebê mais alegre do mundo, o resultado surge.

- Oh, isso é... – Divago ao reler sua altura, ainda um pouco surpresa.
A criança imediatamente está em seus braços quando Jeon se levanta.
- Ruim? – Sua voz soa quebrada e eu me apresso em recompor-me, estando de pé na mesma agilidade dele. Quando busco seu rosto, me surpreendo pelo curvar irritado de sua sobrancelha e as singelas rugas entre elas assim com a expressão dura. É desequilibrado, mesmo sabendo que esconde a preocupação atrás da seriedade. – Disse na semana passada que ele estava abaixo do peso mas não esperava que fosse tanto.
- Não, não! – Solto uma risada nervosa, pela primeira vez me sentindo com uma tonta por reagir mal as informações da balança. Não parece nada com a médica que acalmou uma mãe cinco minutos atrás, minha mente informa. De imediato, a face de JeongGuk relaxa e o pressionar insistente do garotinho em seu peito também. – É bom. – Garanto ao ir para minha mesa, puxando o livreto onde mantenho um gráfico de desenvolvimento infantil. – Regular na questão do peso, porém bom e saudável. – A poltrona range quando o pai se senta nela ainda esbaforido, protestando contra o tamanho alheio. Dou uma boa análise nos dados e projeto a escala de SeoJun em uma ficha em branco, esta que irá conter todo o seu histórico médico. Fico satisfeita com os resultados. – Aqui está. – O artista se aproxima da mesa com desenhos debaixo do vidro do tampo, ainda extremamente concentrado. Aponto para o resultado. – O SeoJun está na escala dos 89% populacional no peso, 92% na circunferência da cabeça que vocês mediram lá fora e na 64% da altura.
- Ele espichou, não é? – Questiona retoricamente após um tempo, os olhos também grandes como o do bebê buscando minha confirmação. Assinto, agora olhando para o menor e as suas mãozinhas agitadas que se fecham e abrem contra minha mesa, tentando pegar os desenhos coloridos. – Mas e o peso? Tem algo relacionado? – Me forço a lembrar de dar um adesivo de arco-íris para o garotinho depois.
- Sim, e isso é ótimo: significa que ele vai ficar alto, talvez até mais alto que você. – Jeon encosta a coluna na cadeira, lançando um olhar cumplice para o filho que não entende bulhufas do que falamos mas dá um sorrisinho assim que o pai começa a tremer sua perna e ele se balança na coxa alheia. – E como ele está crescendo rápido, o corpo está gastando energia na mesma proporção então por isso queima calorias mais rápido e o peso decai. – Explico ao remover o esteto de meu pescoço e me por de pé mais uma vez, sendo acompanhada por Jeon para a maca. – Eu vou receitar uma fórmula de leite artificial reforçada pro SeoJun, e você pode continuar com a alimentação solida. – Afirmo ao entregar o diafragma de meu esteto para o garotinho.
- Babadabada... – O bebê gorgoleja, os dedos se fechando de imediato no objeto.
- Viu isso? – Questiono quando ele balança o objeto, ainda que eu o segure na outra ponta. JeongGuk se curva mais para perto, ainda sem entender do que estou falando e eu solto uma risada, chamando a atenção dos dois para mim e eu quero bater com o dedo mindinho na quina de um móvel para ver se meu coração se acomoda novamente. Ainda assim, estou olhando para seus olhos escuros quando continuo. – O aperto é seguro e ele demonstra interesse. Um bebê que está se desenvolvendo devagar não faz esse tipo de coisa. – Conforto-o, agora acendendo a mini lanterna de minha caneta. – Vou testar a visão, ok?

Enquanto balanço a luz de um lado para o outro frente a seus olhos, sinto quando larga meu esteto e logo a mão do bebê se fecha ao redor de meus dedos.

- Ei, SeoJun, você está ficando bem forte também, não é? – Indago ao passar essa mão ao redor de seu corpo e o manter apoiado, aproveitando a sua distração. – JeongGuk, eu vou erguer a roupinha dele, tudo bem? Pode me ajudar? – Questiono a pergunta obrigatória, recebendo a confirmação imediata.

A sua presença ao meu lado é intensa enquanto serpenteia seu braço por baixo do meu, puxando as mangas do bebê para baixo afim de facilitar a tarefa. Removo seu capuz, sorrindo com o som agradável que emite e os tufos de cabelo desgrenhado que surgem. Estou apoiando SeoJun quando JeongGuk tira o hoodie do filho, ainda se atrasando na cabeça do mesmo que começa a choramingar quando o tecido fica preso em suas orelhas e eu preciso desviar o rosto para que ambos não percebam o sorriso enorme que toma conta de mim pois ver criancinhas com a roupa presa e as barrigas gorduchas de fora é uma das partes mais engraçadas e fofas de minha profissão. Só percebo que meu vizinho também está rindo quando pede para que o filho se acalme e sua voz ondula com uma risada.

- Te juro que isso sempre acontece... – JeongGuk está com a cabeça para trás como uma criancinha cansada de rir tanto, o som soando agradável e verdadeiro mesmo que o garotinho esteja com o lábio inferior tremendo assim que a peça de roupa sai. – Ele é muito cabeçudinho, eu não sei o que fazer! – Já estou gargalhando e abaixo minha cabeça na maca quando adiciona: - O meu melhor amigo chama ele de Cabeça de BigBig.
- Desculpa, eu não devia estar rindo... – Confesso ao colocar o esteto em meu ouvido e respirar fundo, apenas para rir ainda mais do olhar de perdido do bebezinho que batuca na barriga com as mãos gorduchas. – BigBig é cruel. – Abano meu rosto a tempo de ver o sorriso branquíssimo e radiante de JeongGuk quando morde o lábio e bagunça ainda mais o cabelo do filho que o lança um beicinho pidão. – Oh, céus... BigBig...

Quando as risadas param e o calor tímido em minhas bochechas some, consigo iniciar e finalizar o exame, satisfeita por eles estarem perfeitos e SeoJun estar saudável. Me desconcentro e preciso repetir algumas vezes, minha mente indo para Nahal em uma mesa de cirurgia com JaeBum e Jin, a possibilidade de algo dar errado me deixando preocupada. Empurro esse pensamento para longe ao ajudar JeongGuk a vestir SeoJun de novo e só assim percebo que sua mão ainda agarra meus dedos com força e a outra, com patinhas do casaco, se estica em minha direção. Troco um olhar rápido e confuso com seu pai, que mantém um meio-sorriso estampado no rosto com a interação e me olha antes de se voltar ao filho.

- Junnie, se você quer que alguém te carregue, tem que pedir “por favor”.

Estou decidida a não o soltar jamais quando o bebê, apoiando-se no pai, coloca uma mãozinha sobre a outra e solta outro “bababada” para mim, os olhinhos piscando como se não houvesse amanhã. Suspiro alto para tentar constringir minha cara de abobada mas falho miseravelmente, o tomando em meu colo pois não poderia dizer não, ainda que isso seja explicito no manual de minha profissão como “não profissional”. Com um sopro baixo, o rosto de SeoJun se encaixa em meu ombro e eu dou uma risadinha envergonhada ao acariciar sua costa. É bem diferente o segurar em meus braços com seu pai presente, mas confortante quando parece reconhecer o calor de meu corpo. Seus dedos cutucam o broche do Capitão América em meu jaleco.

- Hum... – Aperto os meus lábios quando JeongGuk também desvia o rosto, o brilho nos postos altos de sua face evidenciando o seu embaraço. Penso por meio segundo no que deveria estar fazendo. – Ok, bem, o SeoJun está com o coração ótimo e os pulmões também, mas como estamos na primavera, precisa ficar atento aos sinais de alergia a pólen, Jeon. É bom que mantenha um nebulizador em casa, também, aí é só colocar uns quinze mililitros de soro e deixar ele até que termine.
Isso parece o acordar de novo e SeoJun respira em minha nuca.
- Jeon? – O mais alto indaga em afronta, a malicia clara em sua voz.
- Disse que “senhor” era proibido, não o seu sobrenome em si. – Retruco ao manter o carinho na costa de seu filho ao voltarmos para minha mesa, logo me sentando devagar para não assustar o bebê cujo braço está em meu pescoço. – De volta a você, mocinho, - Cutuco a lateral do corpo do neném, frisando meu nariz quando se remexe em meu colo. – está muito, muito bem. – Olho para Jeon como uma garantia da veracidade de minhas palavras, jamais inclinada a mentir para pai algum sobre o estado de saúde de seu filho. Mesmo quando queira agradar um pai cujos olhos me observem como uma divindade encarnada e um filho que gira os cachos de meu cabelo nos dedinhos. – Ele está ótimo. Um crescimento físico acelerado, mas saudável. E pela fralda que troquei na semana anterior, o cocô também está ó! – Faço um sinal de joinha para o rapaz que abaixa a cabeça para rir. Claro. Todos amam falar sobre o cocô dos filhos.
- Qual é a do cocô e por que todo mundo me diz para me atentar nisso?
Encosto minha cabeça na de SeoJun quando tateia meu ombro.
- É um assunto muito importante, tá? – Dou um tapinha no bumbum do bebê, sentindo a fralda macia por baixo. JeongGuk presta atenção, mesmo sorrindo. – Se ele tiver uma diarreia, por exemplo, você tem que entrar com líquidos, sabe? Dar bastante água para ele e frutas como melancia, mas nada de suco. Pode ser uma infecção, uma alergia e se ele ficar com febre, tem que correr para o hospital. – Seu sorriso diminui e se torna a mesma careta de concentração de antes, lábios apertados e olhos cerrados. Ui, que calor é esse? Eu estou falando de cocô, pelo amor de Deus... – Verde é infecção, branco também, mucosa também... São muitas variáveis. Mas o ideal é sempre prestar atenção e ir com o extinto, entende? Dois dias de cocô verde não é legal.
- Cocô verde: mau. – “Dadada...” Assinto após a confirmação dos dois.

Ainda com seu filho calminho em meus braços, termino a ficha e envio para o sistema do hospital, requisitando exames de sangue, fezes e urina que faço questão de explicar nos detalhes para um vizinho curioso, também como faço a receita da fórmula fortificada com ferro e vitaminas, ainda mais necessária quando me lembro da questão de sua mãe. Meu celular toca no meio de minhas explicações porém o ignoro, ainda dedicada a meu paciente que não parece nem pronto para me soltar. Quando está tudo feito, me encosto na cadeira, observando o jovem pai puxar uma pasta desorganizada e cheia de papeis para enfiar tudo que lhe entreguei. Acomodo o pequeno em meu colo quando termina e observo seu entretenimento direcionado ao meu broche.

- Bom, se você não tiver mais pergunta nenhuma, estamos terminados por hoje.
Estou afastando o cabelo da testa do bebê quando se pronuncia:
- Mais uma pergunta. – Lhe ofereço minha atenção, nem ligando quando um dedinho delicado replica o formato de meu cabelo em retorno. Jeon pressiona a língua contra a bochecha, mãos tatuadas cruzadas no espaço entre seus joelhos separados. – Seria antiprofissional se aceitasse ir jantar comigo? – Entreabro meus lábios pela franqueza de sua pergunta, sentindo um mornar se iniciar em meu peito e escalar para minhas maçãs do rosto e orelhas. Kim SeokJin surge em minha mente com o carinha chato do RH do seu lado. Minha reação “sem ação” parece apenas intensificar a coragem de JeongGuk, que aperta os lábios em um sorrisinho pretensioso. – Conosco, na verdade. – Adiciona ao acenar com o queixo para o filho e depois para a mochila do seu lado. – Tem uma mamadeira pronta só esperando por ele.
Abaixo o rosto e dou outro tapinha gentil no bumbum de seu filho.
- Sinto muito, Sr. Jeon; seria extremamente antiprofissional ir jantar com o pai e um paciente. – Mesmo que sinta um desconforto ao lhe negar algo que parece também tão convidativo para mim, sou obrigada a dizer não. Serio mesmo, ? Logo quando pensei que íamos dormir com o bonitão? Ignoro minha mente, tendo completa noção do quão incorreta está. – E o RH, mais conhecido como Namorado da Minha Amiga, vai me comer viva se descobrir.
Estou ainda mais surpresa quando sua expressão não se altera.
- Isso significa que eu não posso chamar a Dra. para um jantar inocente com o meu filho; mas posso chamar a minha vizinha, uma mulher bonita no meu andar, para comer comida chinesa do Uber Eats? – O seu senso de humor é inesperado e eu troco um olhar com o inocente bebê, tentando amenizar o calor e o embaraço que acompanha sua esperteza e o elogio. SeoJun encosta a cabeça em meu ombro enquanto me ponho de pé, balançando a cabeça ainda que um sorriso sem graça e quase tão sacana quanto o de seu pai ilumina minha face. – Juro que sem compromisso nenhum e ainda dou dois biscoitinhos da sorte pra você.
- Ual, dois? – Finjo estar maravilhada com um quê explicito de ironia e isso lhe arranca uma risada gostosa, essa substituindo toda a sua expressão de pretensão e patifaria até que seus olhos estivessem sumindo pela largura de seu sorriso. Jeon se põe de pé e isso chama a atenção de SeoJun, que aperta os bracinhos em meu pescoço, o rosto voltando para a curva de meu ombro.
- Falando sério, você salvou a minha vida no outro dia. – Seu tom está agradável e gentil de novo quando coloca a mochila do filho nos ombros. Evito me atentar muito para as formas e curvaturas extensas das tatuagens em seus braços quando ergue as mangas do casaco. – Pagar um jantar pra ti é o mínimo que eu posso fazer, . – Afirma com seriedade, sem muita brincadeira em sua voz. – Sem compromisso, de verdade. Eu compro um jantar decente pra você e tento te convencer a ir em um encontro comigo no meio tempo, que tal? – Jogo a cabeça para trás quando ondula as sobrancelhas com humor no final do pedido, sua personalidade saltando ainda mais agora quando não está desesperado no meio da noite.
Aperto o bebê em meus braços, passando a mão em seu cabelo de novo.
- Um jantar. – Confirmo com um dar de ombros, incrédula com a sua necessidade de me agradecer. – E é só! Você não precisa me agradecer por ajudar alguém em claro desespero e o bebê mais adorável do mundo. – Ergo um dedo para apontar em seu rosto, meus olhos apertados quando ergue as mãos em rendição, disposto a aceitar minhas condições. – E eu não vou comer um yakisoba vegetariano ou qualquer coisa sem gordura que não vá entupir as minhas artérias; eu estava tendo um sonho muito bom quando você me acordou semana passada, Jeon.
Seu sorriso é amigável, agradecido e também com um pingo de malicia saudável.
- Sim, Dra. . Felizmente trabalha em um hospital que deve ter cardiologistas à disposição. – Aceita sem mais delongas e eu aponto para a porta, me adiantando assim como ele e com o seu filho agarrado a mim como um bebê coala por todo o percurso. Jeon espera que eu abra a porta para poder pegar SeoJun, suas mãos debaixo das axilas do neném que me segura com mais força, mesmo que eu esteja apenas lhe apoiando. A expressão de JeongGuk se transforma em muitas no meio tempo antes que irrompa em um sorrisinho tímido que combina tão bem quando a careta pretensiosa que sustentava ao me convidar para jantar. – Ah, Jun... – Sussurra ao dar uma bela olhada ao nosso redor e as pessoas que nos olham do lado de fora.
- Jun? – Chamo e sinto quando a cabeça do bebê se ergue, sempre atentivo quando seu nome é chamado. Me inclino um pouco para frente e ele solta minha nuca, os olhos brilhando com lágrimas debaixo do cabelo longo e um beicinho formado, aparentemente já entendendo o que está acontecendo. – Ei, bonitinho... – Faço o favor de sorrir enquanto o ergo por baixo dos braços, o afastando de mim o mais devagar que posso até seu pai entender o que faço e nossas mãos esbarrarem quando as suas substituem a minha. A temperatura elevada e seus dedos longos me distraem por meio segundo e eu não estou preparada quando um pranto algo escapa de um SeoJun contrariado. – Não, não, não!

JeongGuk aperta os olhos e faz uma careta pela reação do filho, o segurando sentadinho na minha direção quando o pequeno joga a cabeça para trás, sua face formando um rubor inesperado para mim. Já segurei muitos bebês em toda a minha vida e dúzias já choraram quando os entreguei para outra pessoas, mas não para os pais e nem com tanta intensidade. Um breve olhar assustado para seu pai me garante que isto também é novidade para ele. Estou a cem por hora tentando imaginar o que fazer quando percebo os seus dedinhos distraidamente tentando alcançar algo especial no meu jaleco e eu nem penso duas vezes antes de correr para remover o broche de escudo mesmo com a negação de JeongGuk que tenta acalmar o filho com os mesmo pulinhos de sempre.

- Você pode me devolver depois, Jeon! – Repreendo, as lágrimas grossas que escorrem pelas bochechas redondas de SeoJun me afetando de forma inesperada e apertando meu peito. – Jun! Olhe só! – Chamo a atenção do menor de novo, sorrindo para disfarçar quando seu pai pressiona um selar em sua cabeça e eu me aproximo ainda mais dos dois, trocando um pedido e confirmação silenciosa com o maior ao puxar uma das alças da mochila de fraldas e enfiar o broche ali, o segurando com a borrachinha atrás. – Viu? O seu papa também tem um broche do Capitão América! – Aponto quando começa a fungar e soluçar pela voracidade de sua reação ao nosso afastar, delicadamente segurando sua mão gordinha que agarra meu dedão e a levando para o pin que tanto tinha gostado.
- Desculpa por isso. – É o tatuador que pede baixinho quando o acesso de choro se resume a fungadas profundas e um bico enorme vindo de SeoJun, este ocupado demais em traçar a textura do metal com a ponta do dedo indicador. A imediata calmaria após tempestade me faz rir e eu me permito esquecer da plateia que nos observa. – Mas, sabe o que isso significa? – Uma ruga se forma em minha testa quando Jeon sorri com embaraço para mim, acomodando a criaturinha melhor em seus braços. – Outro jantar! Sushi, o que acha?
Seu senso de humor é revoltante.
- Até breve, Sr. Jeon. – Instigo com um revirar de olhos dramático, o tipo de coisa que jamais faria para outro pai de paciente, mas que agora parece adequado para meu vizinho insistente e engraçado e, Santo Deus, atraente demais para o bem de minha sanidade. Jeon está sorrindo largamente quando se curva em respeito outra vez, esmagando o filho no ato. Ignorando sua patifaria, aceno com um sorriso enorme para SeoJun, que encostou a cabeça no ombro do maior, agarrando o casaco do pai com uma mão e meu broche com o outro. – Tchau, tchau, SeoJun! – Ainda fungando, ele sorri para mim, um dentinho minúsculo na beira de seu lábio inferior. Como se estivesse envergonhado, o garotinho esconde o rosto nas roupas de JeongGuk, este que caminha de costas para manter os olhos cintilantes em mim no caminho para fora da clínica.
- Tchauzinho, Dra. !

Estou me esforçando para manter meu rosto sério e falho com orgulho.

Capítulo III

(Dois meses depois)


“Adolescente de dezesseis anos. Falta de ar. Causa desconhecida.”

É isso o que diz no meu pager. Estou correndo o mais rápido que posso quando JaeHyun se junta a mim, as mãos imediatamente enfiadas em luvas e a respiração transcortada enquanto ata o nó da calça do pijama cirúrgico. Quero questionar sobre as ações sórdidas que praticava segundos atrás, mas já estamos virando a esquina para o Pronto-Socorro, seus episódios sexuais durante sua estadia em meu serviço não sendo mais o meu único problema. Paro em meus trilhos acelerados quando os socorristas atravessam as portas com uma adolescente na maca, seu rosto rosado e lágrimas roliças escapando de seus olhos. A palidez dos pais são claros sinais de desespero parental, contudo eles parecem mais aterrorizados que deveriam.

- Nós tentamos ajudar ela! – A mãe informa enquanto cobre a boca, um soluço alto escapando por entre seus dedos ao se aninhar no peito do marido, este também movido demais com a situação enquanto socorristas trazem sua filha para dentro. Ainda assim, os dois não soltam da mão da menina que agoniza sem ar. – Ela está indo para o curso bíblico e...

Jung é o primeiro a se aproximar e pegar um relatório com os pais. Nina.

- Oi, Nina. – Meu tom é apressado e infelizmente não posso me atentar para seus parentes que conversam com meu interno calmíssimo, a mãe soluçando e o pai vermelho e suando a camisa salmão. O esteto que pressiono em seu peito, acima da camiseta de pijama é o suficiente para que suas lágrimas pinguem em minhas mãos e eu olho em seus olhos aterrorizados ao anunciar: - Batimentos acelerados mas pulmão parece estar limpo. Jung, verifique para mim. – O interno ajuda a menina a se erguer, apoiada em meus braços e chiando em angústia, e pressiona o seu estetoscópio na costa dela, mesmo que por cima da roupa. Ele me confirma após certa análise devido a inexperiência. – Nina, o meu nome é Dra. e esse o Dr. Jung, o que está acontecendo?

Os dedos finos e com unhas roídas acenam para sua boca seca.

- Tudo bem, eu vou dar uma olhada. – Lhe conforto ao remover a caneta de meu bolso e acender a lanterna, apoiando meu pé sobre o pedal da maca para poder olhar de cima. – Bote a língua para fora. – O movimento do músculo me permite dar uma boa olhada na causa do desconforto. Uma ponta cinza circundada por madeira me encara e meu estômago parece congelar quando pulo de volta para o chão com os breves segundos de susto. Jaehyun está me olhando com expectativa quando ordeno para que me arranje uma sala vazia e os pais agarram a mão da filha com mais força, a fazendo ganir contra o objeto preso. – Ela engoliu um lápis. Vou precisar fazer uma endoscopia de emergência para remover. Enfermeira Kang, cuide dos pais dela, por favor.

Empurro a maca com a ajuda dos socorristas prestativos enquanto um JaeHyun acelerado nos guia para a sala que havia reservado para nós, o desespero de seus pais ficando para trás enquanto Kang Seulgi tenta os levar para longe de nós. Quando um chiado agoniado se forma na sala e todos estão ocupados demais preparando a mim e materiais para a retirada do lápis, eu ergo a cabeça acima do som de máquinas ligando e se conectando a ela e os sacos de materiais sendo rasgados as pressas.

- Nina, você vai ficar bem. – Repito o seu nome mais uma vez e isso parece acalmar o seus estado de pânico pois, em sua cabeça, o simples fato de ter me atentado tanto a seu nome é o bastante para que imagine que estou ciente de sua dor. JaeHyun abaixa a maca para a posição correta quando me entregam o instrumento. – Dr. Jung, quero que abra as vias dela. – Diferente dos outros internos que também invadiram a sala para dar assistir, ele não parece se assustar ou preocupar com o pedido, agora que termina de se preparar e arrasta duas banquetas de apoio para que eu possa ver o seu desempenho. – Nina, querida, não temos tempo para anestesiar você por completo, então vai sentir um desconforto na garganta por um tempo.

Jung JaeHyun é merecedor do tratamento que lhe ofereço sempre que está em meu serviço, jamais tendo me dado trabalho algum e sendo um aprendiz esforçado e genuinamente interessado pela Pediatria, diferente da maioria que adora puxar meu saco enquanto odeia minha especialidade. Eu me sento no banco ao seu lado, observando com atenção quando Nina fecha os olhos com força devido o sabor metálico do laringoscópio em sua língua. Gotículas de saliva espirram em nós, aparadas por todo o material de proteção e os óculos. Ainda que um pouco demorado, Jung consegue posicionar e abrir apenas a parte superior de seu esôfago, a ponta brilhante do lápis cercada pelo metal.

- Bom trabalho. – Sussurro pois me nego a mentir, aceitando o seu êxito ainda que sua mão que mantém o instrumento parado e seguro esteja tremendo minimamente. – Já aplicaram xilocaína, certo? – Pergunto para a enfermeira ao meu lado, seu nome me escapando ainda que ela concorde com a voz delicada. – Pinça Randal, por favor. – O instrumento é colocado em minha mão estendida e eu evito olhar para o rosto da adolescente pois tenho vergonha de começar a tremer como ela. Meu coração está acelerado e não é pelo procedimento. – Jung, está prestando atenção? – O rapaz bonito é a minha escolha de distração, agora que a saturação da paciente aumentou e eu posso me dar certo tempo para educar o outro. – Por que estou usando-a Randal?
- Ela serve para a remoção de cálculos renais e outros sólidos, doutora. – Explica me olhando por baixo da touca azul escura, piscando algumas vezes para mim antes de soltar o resto da explicação. – E porque a senhora parece gostar muito dela ao contrário das outras.
- E você acabou de ganhar uma semana na Dermatologia, espertinho. – Ele sorri para mim.

As pontas da pinça se fecham contra o lápis e com auxílio da textura dele, cheio de bolinhas, consigo um aperto seguro, respirando fundo antes de o remover. As pálpebras de Nina estão se frisando e os lábios tremem quando o material escolar desliza de sua garganta, coberto em mucosa gástrica e um pouco de sangue. Eu o deixo sobre a bandeja cirúrgica antes de pedir que JaeHyun vá dar um parecer para seus pais mas não os deixe entrar, agora dedicada a aplicar mais uma camada de xilocaína em pasta no anel de seu esôfago, o anestésico com sorte diminuindo o desconforto e ardor da extensão que foi feita. Percebo no último segundo que Jung ainda está na porta e me olha por baixo dos seus óculos de grau, uma admiração muda brilhando em seus olhos. Reviro os meus e o mando para fora ao remover o instrumento da paciente.
Conseguir fechar a boca e respirar é um alívio imediato para Nina, que encosta a cabeça nos travesseiros que enfermeiras colocam para ela enquanto a sala de procedimentos esvazia. Removo minhas luvas e jogo no lixo, respirando tão fundo quanto a menina pois esta é a parte mais difícil de meu atendimento e preciso me concentrar para não estragar tudo. Tiro minha máscara e gorro no caminho de volta para a sua maca, parando ao seu lado ao calçar uma luva limpa antes de pedir que abra a boca só um pouco. Na gaveta abaixo da pia, encontro um espelho bucal que pouco usamos e é ele que uso para analisar a parte posterior de seus dentes, mesmo que me olhe com terror visível. Removo o objeto e o jogo em uma bandeja, agora as luvas saindo definitivamente.

- Eu estudava muito na sua idade, sabia? – Nina é uma menina linda. Com as maçãs do rosto elevadas e elegantes, um pescoço longo e lábios rechonchudos ainda que seja pelo procedimento que passou. A camisa amarela do Gutedama está banhada com a saliva que deve ter escorrido de sua boca no caminho para cá e amassada nas beiradas que ainda segura com força entre os dedos pelo nervosismo. – Estudava feito uma condenada mas não ao ponto de um lápis ir parar na minha garganta. – Lhe dou um sorriso amigável ao me sentar na sua maca, as minhas mãos em meu colo para não lhe tocar. – Mas tenho uma ideia de como esse foi parar na sua. – Um soluço dolorido e estrangulado escapa dela, o rosto vermelho com vergonha enquanto olha para cima e tenta não manter contato visual comigo.
Jogo os protocolos no teto quando seguro sua mão fria. Ela não reage.
- Você teve perda de esmalte dentário, se engasgou com um objeto que provavelmente usou para forçar vômito e não deixou esguichar bile em mim quando tirei aquele “alargador” da sua garganta. Esses são sinais de bulimia.

A palavra soa estrangeira em minha boca. Há quantos anos evito a pronunciar?

- A senhora está enganada. – Murmura entredentes, a mandíbula apertada e voz áspera e antes que eu possa pedir que não force sua voz, ela continua: - Não tenho bulimia.
- Sabe como eu reconheço esses sinais? – Questiono ao soltar de sua mão, essa se flexionando contra a camiseta de imediato enquanto a adolescente vira o rosto para longe de mim, mesmo que eu ainda possa identificar os rastros de lágrimas em suas bochechas. – Eu reconheço esses sinais porque tive de aprender sobre eles da maneira mais difícil, Nina. – Meu estômago se revira e eu me forço a manter a voz calma. – A minha irmã me deu um baita susto uns doze anos atrás devido a bulimia, sabia? O sistema de eletrólitos dela ficou desregulado e isso interferiu com a energia do músculo que faz o coração dela bater. Ela chegou bem pertinho de morrer. – Aproveito que não me olha para encarar o chão do meu lado ao falar, engolindo em seco pois esta é a primeira vez no ano que o assunto ressurge e isso me deixa cansada. Mesmo assim, busco o rosto de Nina ao terminar e percebo que seus olhos estão fechados. – E depois disso eu aprendi tudo sobre o assunto para ajudar quem quisesse minha ajuda. – Os seus lábios se frisam como se sentisse dor. Lhe dou um tempo para pensar. – E então, Nina? Quer a minha ajuda?

Estou prestes a desistir quando ela sussurra:

- Meus pais são fotógrafos para a People Korea. – Pisco para afastar as emoções que a informação me traz, meus lábios curvados em um sorriso de apoio mesmo que ela não o veja. – E tem essas modelos bonitas. – Seu timbre desregula e eu imagino que seja pela dormência em seu esôfago e o seu engolir incessante que espalha o anestésico. – E eles tiram muitas fotos de pessoas bonitas... E eu ficava feia porque era gorda. – Seguro a minha intensão de dizer um “não”, a autoimagem distorcida da menina apertando meu peito. – Eu tenho feito isso desde os catorze anos e por isso o lápis entrou. – Nina corre a língua pelos lábios inchados, ombros tremendo quando as lágrimas ressurgem. – Eu não consigo parar. Juro que tentei mas... Não dá.

Aperto meus lábios, memórias amargas surgindo em enxurradas em minha mente.

- O seu reflexo para engasgo se acostumou com objetos estranhos e agora você tem dificuldade para provocar o vômito? Por isso o lápis escapuliu? – Questiono apenas para ter certeza e ela assente devagar, como se algum movimento brusco fosse me fazer sumir. Me indago há quanto tempo ela aguarda por alguém com que possa falar sobre isso. – Eu vou tentar te ajudar, okay, Nina?

Ela me olha por baixo do mar de lágrimas, implorando.

- Nós temos um time incrível de psiquiatras no andar de cima. – Sua expressão assume uma fração de pânico e eu instintivamente ponho minha mão sobre a sua de novo. Evito suspirar com alívio quando seus dedos frios se entrelaçam com os meus, garantindo sua aceitação a minha proposta. Faço questão de olhar em seus olhos a todo momento. – Eu posso agendar uma consulta para você ainda hoje sem me esforçar muito. Então, enquanto você se recupera pelas próximas vinte e quatro horas, vai ter o apoio total de uma equipe completa e que vai tentar te ajudar da melhor maneira possível. – Ponho outra mão sobre a sua, aquecendo sua destra enquanto lhe garanto meu suporte. – Se eles acharem correto, podem pedir que fique mais um tempo na ala psiquiátrica. Lá tem uma biblioteca, jogos de videogames e outras coisas legais assim como terapia e uma nutricionista maravilhosa.

Para minha surpresa, Nina balança a cabeça.

- Os meus pais não vão deixar. – Sussurra de novo, como se as paredes tivessem ouvidos e seus pais pudessem saltar de trás do lixeiros. A ideia de seus pais serem contrários ao tratamento me entristece ao mesmo nível que irrita. – Eu preciso ir para a escola, Dra. . – Seu semblante se afunda, tristonho e envergonhado. Sinto além de raiva, muita pena da menina que aperta minha mão. – E eles não acreditam nisso de psiquiatra. Estão me levando para a Igreja todos os domingos e estava funcionando, mas eu perdi o controle então...
- Eu sou responsável por você enquanto estiver nesse hospital, Nina.
- Mas... – Ela intervêm apenas para que eu a corte.
- Eu sou a responsável por todos os âmbitos do seu tratamento, Nina. – Afirmo com certeza ao me por de pé e sentir o aperto ainda mais forte em minha mão. Retribuo ele com voracidade, respirando bem fundo ao buscar os seus olhos brilhantes e amedrontados. – E você não vai colocar os pés para fora desse hospital sem ter sido direcionada para um tratamento. – Quando concorda devagar com a cabeça, as lágrimas cessando e um filete de sorriso surgindo em seu rosto, tenho total garantia que farei tudo em meu poder para a manter o mais segura e saudável possível. – Agora, você vai ficar quietinha aqui e eu vou tentar convencer os seus pais a procurarem um aconselhamento tão eficiente quanto a sua fé e não enfiarem um processo pela minha goela, ok?
É um deleite quando uma risadinha dolorida a escapa.

- Essa minha da “goela” foi cedo demais, não foi, gatinha?

*


- Pingu? – Minha soa aliviada quando abro a porta. – Guk? Já voltaram?

O apartamento alheio já é conhecido e eu não preciso de incentivo para colocar meu casaco no cabide próximo a porta, meus dedos traçando uma pequena capa amarela de chuva no meio tempo. A chave havia sido cedida semanas atrás quando minha visitas se tornaram mais recentes e o próprio dono a jogou em minha bolsa quando tinha decidido que a possibilidade de deixar o forno ligado ou esquecer o filho era alta demais, mesmo que ambas as chances fossem mínimas e o seu intuito estivesse disfarçado por baixo delas como o corretivo disfarça minha olheiras. Deixo meus sapatos do lado da porta, o salto creme parecendo uma ofensa para a bota de combate ao lado e os outros sapatos tão chamativos.
Jogo minha bolsa sobre o sofá largo, posicionando o molho de chaves na mesa lateral e adentrando ainda mais no generoso apartamento. Ainda é o tipo de coisa que me deixa surpresa, mesmo após várias visitas, pois é o completo oposto do estereótipo que mantinha para com um tatuador. Imaginava um loft miúdo, com paredes estilosas de tijolo e um pufe no lugar do sofá. Contudo, devem existir severas discrepâncias quando se é dono do estúdio de tatuagem mais conhecido e querido pelas celebridades. A priori, o piso de mármore no corredor e em todo o apartamento. A casa é opulenta. Preto e marrom destacados com detalhes em ouro, uma breve fuga para mármore branquíssimo com incrustações negras. A cor tão presente não é nem tão opressiva como soaria se a descrevessem para mim, de fato alarga o espaço, o cômodo aberto sendo mais acolhedor.

- Saindo do banho!

É a resposta que ouço do fim do corredor, distante, mas com o eco acentuado pela ausência de muitos móveis no lar relativamente novo. O local cheira como sempre: mogno e molho de tomate com queijo, o último originando-se das sacolas cheias de vapor sobre a mesa no alongar da sala de jantar. O teto, mesmo alto demais, mantém um grande lustre de vidro sobre a área entre alguns sofás de couro marrom escuro como chocolate amargo. Estico meus dedos quando o calor da lareira a minha esquerda esquenta meus dedos congelados pelo corredor frio do nosso andar, meus olhos ocupados demais com o móbile de animaizinhos pendurado próximo ao painel da televisão, um cercado infantil do tamanho de um sofá de três lugares sendo o novo centro das atenções. O branco pálido e os ursinhos coloridos são o ponto-chave para que eu queira rir do espaço destoante.
Ouço os passos apressados e viro a cabeça para flagrar uma cabecinha com fios molhados e longos demais me encarando pela dobra do corredor, um sorriso banguela animado surgindo na face do bebê. “Pingu!” Cumprimento com o meu sorriso mais vivo pois esta é uma cena adorável e não importa quantas vezes isso aconteça, a recepção de um Jeon SeoJun saído do banho se tornou a parte mais querida de minhas noites livres. Aos poucos o pequeno parece ter se habituado ao novo apelido, os miúdos dentinhos inferiores apertados contra a gengiva ao sorrir ainda mais para mim, os longos cílios piscando algumas gotas de água.

- Eu comprei italiano. – JeongGuk anuncia quando “surge” também, aninhando o filho pequeno no peito e mantendo o bebê sentado na minha direção com as pernas gordinhas balançando. Dou uma bela olhada em suas roupas de casa, a calça cinza de moletom e a camisa de manga curta, já úmida pelo banho que deu no filho. - Quarta-feira é dia de massa, não é? – Evito me entreter muito com as sombras e decalques de tatuagens que surgem pelo tecido transparente, decidindo olhar para seu rosto antes de concordar, um meio sorriso evidente em seus lábios pressionados contra o capuz de pinguim do roupão de SeoJun, ainda que seus olhos estejam fixados em mim.
- Não vejo a hora de você ter uma overdose de queijo. – Provoco com bom humor, arrancando uma risada sua ao me aproximar e pegar o garotinho em meu colo, estremecendo um pouco quando pinga a água já fria em meu pescoço. JeongGuk corre os dedos molhados pelo cabelo, revelando um metal brilhante em sua sobrancelha quando tira a cortina escura do rosto. Pisco algumas vezes para ter certeza de que não estou enganada, percebendo que aguarda pela minha reação e angula a face de maneira sádica para que a luz reflita no... – Piercing? Jeon, você colocou mais um piercing? – Seu sorriso é convencido, o frisar do nariz e a língua que coloca para fora com zombaria de meu horror ao enfeite que tanto gosta. Defiro um soco em seu peito, a camisa pressionando-se ainda mais contra a sua pele e os piercings pendurados em suas orelhas balançam também.

Jeon aperta o meu queixo entre os dedos tatuados antes de revirar os olhos.

- Quantos você já tem, hein?

Ele me segue enquanto atravesso um corredor longo e com pinturas pós-modernas e cheias de cor para chegar ao quarto de seu filho, me adiantando para o closet próximo a janela que ele fez o favor de fechar.

- Nove? Dez? É sério que você tá me perguntando isso, ? – Seu tom é de tédio enquanto me sento na poltrona confortável próxima a porta, agitando o cabelo de SeoJun por baixo do capuz e rezando para que não pegue um resfriado no meio-tempo. Observo com atenção enquanto a montanha de homem se curva, bunda erguida para o infinito e além ao buscar um pijama adequado para o filho, os de inverno ainda estando nas gavetas de baixo. – Isso me faz lembrar que você deveria fazer um também. – Troco um olhar entendedor com o pequeno Pingu, seus olhos enormes me encarando de maneira inocente. “Seu pai enlouqueceu, meu bem.” Ele balança as mãos ao agarrar o decote de minha blusa, as perninhas tremendo ao ficar de pé em meu colo. – Um piercing, . Não um bebê. – Faço uma cara de felicidade para a criança que agora tem oito meses, resistindo a tentação de amassar as suas bochechas enormes que encosta em meu ombro e continua sapateando em minhas coxas.
- Eu trabalho em um hospital e atendo as criaturas mais frágeis do mundo no dia a dia, é óbvio que eu não vou enfiar um imã de bactérias na minha cara. – Lhe nego a oportunidade de imediato, secando as costas e a nuca do bebê que enfia a cara no meu pescoço, abraçando meus ombros. O meu atrevimento é o indispensável para que o tatuador me olhe no mesmo instante, o cabelo pulando pela rapidez do movimentos e lábios abertos em choque pois o desrespeito com seus acessórios é a única coisa que consegue lhe irritar vindo de mim.
- Retire o que disse. – Aponta um macacão azul com macaquinhos amarelos para mim com a mesma ferocidade que alguém apontaria uma faca. Esse homem não pode estar falando sério. Seus olhos reluzem com humor e eu lhe mando a língua.
- Mas, sabe, você não teria que colocar no rosto. – Comenta ao tirar o filho de meus braços que ficam estendidos em manha, logo o deitando sobre o fraldário tão grande como a ilha de uma cozinha de luxo. Me ponho de pé, o seguindo para lembrar de passar o cinto ao redor do tronco de SeoJun para evitar que role do miúdo colchão direto para o chão. Ergo minha sobrancelha, lhe passando a pomada e talco quando termina de secar o bebê que se remexe para o ursinho amarelo que seguro. – Pode colocar em outro lugar... – Um beicinho se apossa de sua boca ao desviar os olhos e dar uma bela olhada em mim de cima abaixo e eu quero revirar os olhos devido ao calor que surge em minhas coxas. Ah, lá vamos nós. – Mamilos por exemplo. Eles são sexy.

Dou um tapa em seu pescoço, arrancando um sorrisinho sacana do maior.

- Você está trocando a fralda do seu filho, JeongGuk. – Informo o obvio, me apoiando com os braços juntos no outro lado do trocador, ciente que a posição não irá o distrair do que faz para dar outra bela olhada em meus seios. – Será que nem assim você consegue me imaginar com roupas, homem? É tão difícil assim? – Observo atentamente quando inclina a cabeça para o lado com prepotência, rápido e como se fosse uma resposta aceitável, o lábio preso entre os dentes alvos antes de me olhar. E está claro que é realmente uma pergunta complicada, ainda que retórica.

Brincamos com avidez um jogo inofensivo, porém com potencial perverso que apenas o torna ainda mais estimulante em todos os âmbitos da palavra. Todo o relacionamento que foi construído nos últimos meses é perigoso, e vai nos guiar para um final infeliz e disto estou certa. Os estímulos verbais estão apenas acirrando o tempo contra nós, contudo parece ser satisfatório para que continuemos ainda que fadados, pois vale a pena ao curto prazo. Um tantinho de diversão para quebrar o gelo dos diálogos iniciais com um desconhecido, a liberdade das brincadeiras sendo apreciada cada vez mais; ainda que a preocupação evidente da consequente amizade se desfazendo me deixem ansiosa, pois é obvio que JeongGuk é uma tentação viciante no sentido mais literal do termo.
Como acabei com este predicamento? Não tenho certeza e nem Deus deve saber. Arrisco que as apostas e investidas tenham se elevado nos últimos encontros em seu apartamento, em especial quando a sua amiga do estúdio levou SeoJun para dormir em sua casa na sexta-feira passada e eu larguei SeokJin e HoSeok no bar para vir mofar em seu sofá. O ajudei a esvaziar algumas garrafas de soju, vinho e me engasguei com o amargor intenso de whisky enquanto Garbage grunhia pelas caixas de som. Talvez tudo tenha ido por água abaixo assim que suas mãos largas dobraram meus joelhos e grudaram em seus quadris, unhas comportadas fincadas na carne de minha perna quando, em um surto de coragem e embriaguez, me acomodei em seu colo e implorei para ouvir sobre as tatuagens em sua garganta. Isso até que seu telefone tocasse e ele, mais alto que o Empire State, confirmasse uma viagem para um festival e voltasse dois dias atrás.
O que sei, entretanto, é que JeongGuk parecia bom demais de meu ponto de vista enquanto estava pouco lúcida em seu sofá naquela noite. Pressionado contra meu peito, a pele quente de suas coxas esquentando minhas pernas por cima das camadas de jeans. Os longos e levemente ondulados fios de seu cabelo semelhantes a sombra da noite, harmonizados a tinta embebida em sua pele em todos os ângulos e músculo que meus olhos alcançavam. O calor de sua respiração contra minha bochecha sempre que me inclinava para analisar os espinhos desenhados em seu pomo de Adão, o cheiro de seu perfume consumado ao álcool em nossos sistemas nervosos o deixando ainda mais belo em meus olhos. Isso é tudo o que sei.
E isso é conhecimento demais.

- Não é a minha culpa que você não usa sutiãs de bojo. Dá para ver tudo. – Jeon admite ao pressionar a língua na bochecha, a cena pecaminosa demais para ser relacionada a um pai que abotoa o macacão do filho sonolento e pisca como se estivesse prestes a cair em um sono profundo. A observação sobre minhas roupas de baixo é revoltosa demais e tenho um intuito rápido de cruzar os braços sobre meu peito, mas deixo passar quando ele solta SeoJun e o bebê ergue os braços por instinto. Ele pega o filho no colo com todo o cuidado do mundo, amparando a cabeça que já está mais firme no pescoço e por um segundo o tema que discutíamos anteriormente some. Ou até que Jeon pisque para mim ao deixar o fraldário/closet. – Por falar nisso, seus seios são incríveis.
- A sua bunda também, Jeon. – Tento ironizar o elogio ao ir para a cozinha.

*


- Ainda não entendi bulhufas desse filme.
- É uma série.
- Hein?

Ainda que os estereótipos de sua casa não sejam reais, os comportamentais de JeongGuk são quase na mosca. Suas pernas estão bem abertas e a postura é desleixada enquanto assistimos o que agora reconheço como uma série, os bowls de massa italiana regada a queijo estão sobre a mesa da cozinha pois parece ser trabalho demais para ele ir lavá-las e é impossível que me permita por de pé para fazer isso. Uma taça vazia de vinho está entre meus dedos, o vidro cristalino macio enquanto circundo a haste com meu dedo indicador, a exaustão me impedindo de implorar que mude de programa ou me arrastar para o meu apartamento, ainda que já tenha ido buscar uma garrafa de vinho para nós e trocar de roupas antes do jantar.
A comida, como sempre estava incrível e nós comemos sentados na mesa, a cadeirinha alta sendo imprescindível para que SeoJun pudesse comer conosco e balbuciar sons confusos e até mesmo o “Dada” que JeongGuk havia prometido a mim que ele disse durante a viagem. Observava com carinho enquanto seu pai, injustamente ambidestro, o alimentava com purê de abóbora e colocava garfadas fartas de lasanha bolonhesa na boca sem muito trabalho. Logo após, enquanto colocava o bebê estufado com comida e água no berço e ligava a babá eletrônica, me dediquei a abrir a bebida que quase finalizamos em uma só rodada de taças cheias e nada elegantes.
Quando Jeon ofereceu que terminássemos de assistir o programa onde tínhamos parado na sexta-feira anterior, não esperava que fossemos terminar neste estado; minhas pernas por cima de uma sua e cabeça enfiada em uma almofada macia. É um choque, admito, já tendo esperado no fundo de minha mente que estivéssemos atacando um ao outro a este ponto, ainda que goste da comodidade do momento. Estico meu calcanhar o suficiente para cutucar o músculo rígido de sua outra coxa, minha pedicure vermelha escura combinando com o líquido em sua taça. Entendo o erro que é beber em um dia de semana, mas como não fazer isso quando sinto que irei explodir se me manter sóbria ao seu lado?

- Eu também não entendi nada além de ter alguma coisa ao contrário e o nariz dessa menina sangrar. – Jeon concorda comigo igualmente confuso com o enredo da série, mantendo a taça próxima a sua boca ao falar, a cabeça inclinada para trás ao dar um gole e finalizar a bebida. Aperto os olhos, já ciente que não valeu a pena prestar atenção nos personagens pois claramente não terei momento algum de paz para terminar de assistir a tal série devido a minha agenda. Bom, valeu a tentativa. – Como foi no hospital? – A pergunta é genuína e ele demonstra interesse, mesmo que dê um beliscar no meu dedão quando se cansa de meu cutucar insistente para lhe provocar.
Suspiro com os olhos ardendo após fechá-los. Não quero nem lembrar...
- Eu coloquei um coração para dentro do peito de uma criança de dois anos, hoje. – Comento sem muito entusiasmo mesmo que tenha sido o ponto alto do meu dia, minha mente navegando por longas avenidas até alcançarem Jung JaeHyun, o responsável por manter minha paciente estável pela noite. – E removi um lápis do esôfago de uma adolescente. – Outra vez, atravesso todo o caminho até o hospital ao pensar em Nina e seus pais, estes que ameaçaram me processar algumas vezes antes que verem o resultado os eletrólitos de sua filha e entenderem que a possibilidade de anemia e paradas cardíacas era tão real como o Deus que habita nos céus.
- O coração de uma criança nasceu para fora? – Abro bem meus olhos, as irises profundas de JeongGuk revelando a surpresa quando me olha meio erguido no sofá de couro, como se esperasse que eu dissesse que era uma pegadinha ou coisa do tipo. De certa maneira, acho fofo. – Tipo, o órgão nasceu para fora? Num buraco?
- É parecido, mas tem uma camada fina de pele cobrindo e dá para ver ele bombeando sangue, mas isso é raríssimo e por isso me deixaram tratar. É uma condição tão rara no caso de oito bebês em um milhão, e quando acontece o tratamento tem que ser feito em menos de 72 horas quando a criança não é um natimorto. – Explico devagar para que entenda os âmbitos da má formação, ciente de como isso pode assustar um pai ou uma mãe, mesmo que seus filhos sejam saudáveis. Me explicaram algumas vezes que o sentimento de dor de um parente é transmissível. O maior assente com a cabeça ao se posicionar no sofá de maneira confortável joelhos dobrados em minha direção e eu o imito, nossos pés gelados se tocando. Quando percebo que não posso mais o ver, volto a fechar meus olhos. – Você deveria ter visto, Guk, o meu interno foi incrível... – Como SeoHyun fez comigo, não consigo não me gabar do aprendizado rápido de JaeHyun, principalmente o gosto pela pediatria. – Ele é muito talentoso e bom com as mãos, além de conversa. Aprende rápido. – Dou de ombros, correndo os dedos por meu cabelo. – As mãos dele não tremem, mesmo comigo em cima dele e pressionando o garoto. – Comento segundos antes de um som escapar do peito de JeongGuk.
- O duplo sentido nisso foi proposital ou você só solta pérolas assim?

Minha face se aquece quando rebobino minhas frases anteriores e os elogios as mãos de JaeHyun, uma risada embaraçada me escapando pois não havia me atentado a como isso poderia soar para ouvidos alheios. Contudo, é com imensa satisfação quando relaciono o som que deixou escapar com o que pode ser um certo grau de ciúmes, meu ego inflando no meu peito que sobe e desce com a realização. Engulo em seco, ciente que não é correto o que tenho vontade de fazer em seguida, porém se torna complicado quando o desejo de manter o mesmo nível de desafio que manteve mais cedo se adorna em meu ser, curvando meus lábios em um sorriso ladino do qual não me orgulho.

- Perdão. – Murmuro como se estivesse realmente envergonhada pelo o que tinha deixado escapar, pousando minhas mãos de forma comportada no espaço abaixo de minhas costelas. – Mas ele é realmente ótimo, Guk, vai ser um médico brilhante em alguns anos e eu vou ver se consigo o manter no meu serviço por algum tempo. E é até um rapaz divertido, se me permite. – O jogo se torna mais sujo, ainda que o resto me deixe enjoada. – E eu já te contei sobre o JaeBum, não foi?
- O que te traiu com a interna? – Questiona, já conhecedor de meus problemas com meu ex-namorado, suas mãos tomando meus calcanhares e apertando os tendões doloridos. Uma parte em específico me faz suspirar devido ao alivio da dor que os sapatos que usei causaram. – O que tem ele, hum? – JeongGuk se senta, pelo ângulo em que segura meus pés em cima da ondulação de suas coxas, provavelmente está posicionado em cima de seus calcanhares e deve poder me ver. Desvio meus olhos para a televisão, a série pausada nos créditos finais pois o momento aqui fora é mais interessante.

Ergo um dedo preguiçoso, apontando em sua direção para provar meu ponto e confirmar seu acerto. Suas palmas quentes se elevam, amaciando a pele de minhas pernas outra vez, contudo não se contendo na curvatura de minha panturrilha, seu dedão flexionando-se vez ou outra em movimentos circulares contra a ponta do músculo. O estímulo é surpreendente, e eu engulo em seco ao acomodar minha cabeça melhor na almofada preta, minha coxas se pressionando com urgência, a parte central entre elas pulsando com leveza enquanto uma onda de eletricidade se transforma em calor no caminho para meu rosto. Engulo algumas vezes antes de continuar.

- JaeBum vai voltar em alguns dias. – Ainda que excitada, a informação forma um nuvem escura que tenta substituir a névoa de prazer em minha mente. Me sinto mal por pensar em meu interno antes de prosseguir, reintegrando sua aparência inocente e tão concentrada antes de soltar: - Talvez uma vingança caísse bem, não é?

É como fogo em gasolina.

É irônico como o peso de algumas palavras podem mudar a dinâmica de uma relação; um mero grampo caindo no chão e engatilhando a detonação de uma bomba, chamas que demolem as paredes previamente erguidas, construídas com blocos compostos de hesitação intimidada e atração letal.
Suas mãos escorregaram para a parte de trás de meus joelhos, enganchando-se na dobradura ao me deslocar de forma satisfatória e com tanta pressa que me sinto tonta devido ao álcool em meu sistema. Minhas pernas se prendem em sua cintura quando suas mãos pressionam sem piedade contra o sofá nas laterais de minha cabeça e meu coração salta do peito assim que estamos frente a frente, sua virilha pressionada contra mim como peças de um quebra-cabeça. A sua testa, que descende com a leveza de uma pena, tocando a minha. Mantenho os olhos fechados em uma tentativa de me aterrar e tomar controle do suspirar morno que me escapa e coração acelerado, sua respiração contra meu lábio superior sendo inebriante. Tudo aconteceu rápido demais e eu estou arfando em um curto período de tempo pelo leve susto e o disparar de libido que corre por minhas veias como uma descarga elétrica, queimando e eriçando cada centímetro de minha pele no meio-tempo.
Minhas mãos que antes descansavam contra meu estômago se erguem audaciosas para se fecharem contra o tecido macio de sua camisa, punhos em contato com seu tórax que se expande e diminui, a rigidez da camada de músculos abaixo de minhas palmas incitando meu desejo de promover alguma fricção contra o amontoado de nervos entre minhas pernas. Contenho a vontade de erguer meus quadris, saboreando os mínimos segundos que tenho disponíveis enquanto tudo não some em uma nuvem fria de fumaça, a possibilidade da amizade consigo, assim como o desejo sexual que tenho nutrido por certo tempo. Ainda que minha face queime, luto para abrir meus olhos em meio ao embargo, apenas para poder perder o ar assim que eles se disparam em uma excitação nebulosa e focam-se nas irises castanhas de Jeon JeongGuk.
Seus olhos estão cravados em meu rosto, divergindo milimetricamente para cada faixa de pele exposta, concentrados como se buscasse alguma imperfeição. Se torna difícil sustentar a atenção direcionada a mim, então permito que meus olhos também analise sua face que está tão próxima a minha que cada exalar meu é um inalar seu. O curvar de seu arco do cupido é elegante, ainda que sua boca esteja pressionada com firmeza, a mandíbula apertada angulando seu queixo e maçãs do rosto. Me entretenho ademais com os sinais em seu rosto, abaixo do lábio inferior, no aprofundar das bochechas e no nariz. Então é com um choque que percebo que seus olhos estão buscando os meus, insistentes ainda que minha tour por sua face não tenha encontrado um fim. Entretanto, quando desisto e o permito conectar nossos horizontes.
É uma imagem clara em minha mente; meus dedos enroscados nos semi-cachos escuros, pernas mantidas abertas por dois braços fortes embebidos em tinta e a mesma contemplação intensa advinda de olhos brilhantes, sobrancelhas franzidas e um sorriso mal-intencionado. Minha imaginação, assim como a possibilidade da realização de meus pensamentos sórdidos, me fazem estremecer, a área vaga entre minhas pernas implorando por atenção. JeongGuk corre a língua pelos lábios, exalando devagar e apertando os olhos em uma tentativa de reorganizar seus pensamentos tão confusos como os meus. No entanto, os dedos ainda estão afundados na carne macia de minhas coxas, o mantendo centrado.

- Você tem a mínima noção do quanto eu quero estar dentro de você, ? - Um segundo é necessário para que o ar me escape de novo, seus lábios quentes e molhados pressionados em minha face, tão delicados que mal processo o toque em minha bochecha. Ainda que inocente, sua palavras alternam por completo o sentido do gesto, meu peito inflando e mãos apertando com mais força sua camisa entre meus dedos como se fosse um salva-vidas. Uma nova onda de calor ondula-se por meu corpo como um terremoto. – Desde que você me ajudou naquela noite. – Tenho certeza de que terei marcas em minhas pernas quando as aperta, um outro selar úmido e pecaminoso agora estampado em minha mandíbula. Espalmo uma mão quando a provocação me leva a emitir um suspirar de deleite, minha destra deslizando de suas costelas e encontrando suporte em sua costa. – Com aquela porra de camisa curta? – Seu nariz traça o pulsar em minha garganta, respirando profundamente enquanto me aproximo a cada segundo a mais de uma epifania pois isso tudo parece bom demais para ser verdade. – Ou depois com aquela saia apertada no consultório?

Meus olhos se reviram quando seus dentes se fecham contra a pele sensível de meus pescoço, a dor da leve mordida sendo apaziguada quando o músculo molhado e quente e luxurioso de sua língua assenta a marca.

- E você tem a coragem de falar de dois bastardos que não chegam nem perto de mim enquanto eu só penso em te fazer gritar na minha cama? – Um ganido surpreso me escapa quando defere um tapa alto contra minha perna, o ardor quente sendo amaciado pelo massagear que a segue. E é com meu ego dolorido que mordo meus lábios, incrédula que a punição tenha sido responsável pelo esguichar de umidade em minha pobre calcinha. – Ah, isso é inesperado... – Posso sentir seu sorriso contra minha garganta, lábios correndo por toda a extensão de minha traqueia antes de outro tapa ser depositado no mesmo lugar, esquentando a pele que deve estar avermelhada, pois não há delicadeza. – Onde está o seu profissionalismo, Dra. ? Hum? – Estou a segundos de explodir quando circundo meu quadril, implorando silenciosamente por alguma fricção enquanto minha face queima pelas provocações e a timidez emitida por sua dirty talk e ministrações. – Deixando o pai de um paciente duro por você assim... Que errado, .

O ar deixa minha boca tremula antes que eu escolha falar o inevitável.

- Estamos jogando a amizade pelos ares.

JeongGuk se apoia no cotovelo antes de erguer o rosto e olhar para mim, os lábios quentes pairando sobre os meus de maneira tentadora, lançando pela janela qualquer inibição ou importância com o que acabei de falar. Minha face esquenta em realização, a possibilidade de nossa amizade não significar nada para ele é o necessário para que meu estômago revire. Suas pernas se acomodam, abertas para que se equilibre quando curva a costa e suas mãos seguram meu rosto, os olhos amornando e a luxuria que os adornava dando espaço para um sentimento mais calmo. É reconfortante, no mínimo, sua pressa resistindo por meio segundo apenas para me garantir que estou sendo escutada.

- Só se você quiser.

A realização da intenção dança em meu ouvido e eu estou vibrando.

- Amizade colorida? – Também me ergo, apoiada em meus cotovelos e ele me segue com maestria, os olhos se apertando quando sorri e linhas de expressão de formam nas laterais desses. É loucura, minha mente grita para mim, loucura e extremamente perigoso. Porem, inofensivo. Se pensar bem na questão diante de nós, o que temos a perder se formos o mais sinceros possível? Dois meses de uma amizade onde nos vemos três vezes por semana no máximo? Conheço Hobi e SeoHyun há doze anos, pelo amor de Deus. Estudamos juntos, moramos juntos em certo ponto e hoje trabalhamos juntos. Não há como ser tão mal perder a interação com JeongGuk e eu posso muito bem me mudar a qualquer instante. – É isso o que você está sugerindo? – Ele dá de ombros, a mão em meu ombro me deitando no sofá de novo.

Porra. Agora não há mais volta.

Capítulo IV

- Me escuta, : Eu quero ser honesto e respeitoso contigo, então não vou dizer que estou procurando um relacionamento sério.

Suas pernas me aprisionam; JeongGuk está sentado sobre minhas coxas enquanto sua ereção pressiona com firmeza embaixo de meu umbigo, me indicando o completo contrário. O calor da área se soma a suas mãos em minha pele e os olhos queimando minha face ao me olhar com seriedade. A sua sinceridade me acalma, afinal paremos estar na mesma página. Eu confirmo com a cabeça.

- Esse negócio de namoro já deu... Errado o suficiente na última vez. – Jeon acena com a cabeça para o corredor, indicando o quarto de SeoJun de maneira vaga. Aperto o seu pulso, irritada por minhas unhas não o ferirem ao se referir ao filho como um erro. – Você entendeu. – O seu sorriso é pequeno, tímido e envergonhado por eu ter pensado o contrário. – E você é linda, inteligente e engraçada e eu acho que poderíamos nos divertir juntos. – O movimento sortido de seu quadril pressiona meus shorts, suas mãos pousadas sobre seus joelhos ao me olhar de cima. Os elogios não me surpreendem muito, mas ainda assim estou com o rosto quente. – No caso, sem drama ou compromisso a não ser a nossa amizade.
- Você também não é de jogar fora, Jeon. – Ponho minhas mãos para trás, e ergo meu rosto para lhe olhar, lutando contra a tensão de meus músculos para me erguer. Uso suas coxas de apoio ao me equilibrar, seguindo seus olhos que não se desgrudam de minhas palmas flexionadas no músculo farto em busca de apoio. Ele sorri para mim, uma mão enfiada na curva de meu braço e o mantendo seguro no topo, ainda que o seu peso em cima de mim não seja o suficiente para aplacar o incomodo escorregadio entre as minhas pernas. Tento me concentrar. – Tem certeza de que quer isso? Porque a possibilidade de dar tudo errado é bem grande, Guk. – O apelido alarga o seu sorriso, a tensão presa entre nossos corpos não cedendo de forma alguma – densa e com emoções de ambas excitação e lascívia queimando em meu peito.
- Sim, . – Jeon desfruta-se de minha hesitação moderada e a busca de confirmação, língua correndo pelos lábios de aparência sedosa apenas segundos antes que seus dígitos bailem em meu pescoço, gentilmente movendo o cabelo para longe. – Eu tenho certeza de que quero transar com você. Conhecer cada curva sua. E ouvir cada som que sair da sua boca que certamente ficará perfeita ao redor do meu pau.

Aperto sua coxa, seu músculo se flexionando contra minha palma e pensamentos sórdidos de como seria o montar brilhando em minhas pálpebras em combate a probabilidade de sentir seu gosto, meus músculos internos se flexionando ao redor de nada. Estou alerta quando remove uma perna e ergue a minha ao redor de seu quadril, nossas pélvis pressionadas em um angulo erótico. Ainda me recuso a crer que palavras tão chulas me causam tal efeito.

– As coisas que eu quero fazer com você... Céus, desde a primeira vez que te vi. – Arfo quando sua língua açoita a curva de minha garganta, o nariz aspirando meu cheiro para abrandar o fervor de seu músculo molhado deslizando em meu ponto sensível, lábios chupando rosas arroxeadas em minha pele. Não tenho forças ou desejo de lhe impedir. – Você tem me deixado doido, .

Ele pressiona a mão quente no tecido de minha blusa acima de minha clavícula antes de abrir alguns botões com reverência, a empurrando por um ombro e o ar frio de seu apartamento ergue os pelos finos em minha nuca. Me permito suspirar quando mordisca no ponto do chupão pintado em minha garganta, uma possível mancha encharcada em minha calcinha grudando em meu short e lábios inferiores. Arqueio meus quadris para encontrar os seus, arfando com a pressão de sua ereção generosa em minha virilha, tomando suas bochechas para o aproximar de meu rosto e que ele me olha – irises afiadas rasgando-me, o mero cenário causando um latejar pungente em mim outra vez. Seu toque cascateia por meu torso – pescoço, clavícula e pairando sobre meus seios – seu lábio inferior preso entre os dentes.

- Então me diga o que pensou em fazer comigo. – Sussurro ao remover o seu lábio do aperto e o traçando com meu dedão, massageando-o e o trazendo para ainda mais perto, a sua respiração soprando em minha boca. - Me diga e faça.

Sua atitude dominadora e meu desejo por um desafio colidem; chamas se amontoando para criar um caos ainda maior. Conforme encaro o seus olhos, respiração chiando em minhas costelas, consigo finalmente discernir a emoção que vibra em suas pupilas, um anseio que tem me atordoado há meses. Desejo . Suspiros obscenos nos escaparam quando nossos lábios se encontram, envolvendo-se em sua própria teia volúpia – permitindo-me perceber o quão ávida estava por este momento. Nós engolimos os sons, os mantendo trancafiados entre nós. A sua boca é quente e umedecida pela saliva, lábios aveludados e embriagados com o vinho amargo na língua habilidosa, essa tentando romper a bainha de minha boca para poder encontrar com a minha.
Sua destra imersa em tatuagens se curva ao redor de meu quadril sobre o cós do short jeans, o toque sedento e preciso, dedos afundando na carne macia e me forçando a constringir uma de suas pernas entre as minhas, seu joelho se adiantando para fomentar a fricção necessária entre nós e o esfregando no espaço entre minhas pernas. Decerto tenha sido sua própria atração por meu corpo que propiciou esta situação, talvez tenha sido minha provocação com JaeBum e JaeHyun, ou o arfar do fundo de meus pulmões que o excitou, mas sua mão se antecipou para fechar ao redor de um de meus seios assim que pôde, esmagando a blusa em sua palma ampla. A força do ato me leva aos céus, minha virilha se arrastando em sua perna a tempo de lhe arrancar um silvar entredentes.

- Você tirou o sutiã? – A dúvida o sobressalta, boca descolando da minha com um ruído encharcado, um fio de saliva ainda conectando-nos. A melodia que escapa de Jeon é absurda, respondendo atordoado quando ponho a língua para fora e a deslizo por seu lábio entreaberto, uma lambidela a mais para saborear o amargor do vinho e algo que só posso descrever como JeongGuk. Jeon me contempla feroz, mesmo eu estando com um sorriso em meu rosto, saboreando o gosto de seu beijo ao esfregar minha língua no céu de minha boca. – Ah, , você vai me destruir.

O seu sorriso malicioso se achata no meu quando agarro sua nuca macia, gemendo em sua boca quando o maior trespassa a língua contra minha cavidade, o músculo tornando o ósculo ainda mais frenético. Suas mãos se aproveitam de minha posição para navegarem meu corpo acima, deixando uma trilha tórrida de arrepios adornando o caminho com cada toque antes de finalmente agarrar as mamas que são seu fascínio. Solto um ganido quando mordisca meu queixo, abandonando meus lábios cansados enquanto belisca os mamilos rígidos antes de torcê-los devagar, o dedo indicador e do meio os agarrando pelos lados e o dedão deslizando pela área mais sensível em movimentos circulares que fazem meus dedos dos pés de curvarem.

- Jeon...
- Eu sei, . – Grunhe com a língua pressionada contra o interior de sua bochecha no processo antes de agarrar meus seios de novo, uma garantia que deixará marcas de seu amor duro ali. - Eu vou tratar você muito bem, hum? - Quando sua cabeça descende e ele se afasta para aninhar-se entre minhas pernas e a brisa fria da sacada toca minha pele, consigo me atentar as gotículas de suor em meu pescoço e as partículas de sua saliva grudada em mim. Estou prestes a erguer meus quadris e desabotoar os shorts quando sua mão me impede, rosto erguido com um sorrisinho cínico ao estalar a língua e empurrar meus quadris no sofá. A cortina negra sobre seus olhos, as maçãs do rosto glicerinas com seu suor e lábios inchados me fazem esguichar em minha roupa íntima, mesmo que também queira estapear o rosto bonito do canalha.
- Paciência.

Estou salivando quando Jeon beija a área sensível e erógena acima de meu short, centímetros abaixo de meu umbigo e outros acima de onde preciso de mais atenção. O ar que escapa de seu nariz acaricia a minha pele quente, combatendo fogo com fogo, contudo não o suficiente para satisfazer-me. Sem pensar duas vezes, meus dedos encontram os fios sedosos de seu cabelo, finalmente encontrando apoio e coragem para fazê-lo. Um aperto experimental arrancou um grunhido sôfrego de JeongGuk, dentes se fechando na parte de cima de meu umbigo. Por um instante, imagino ser um movimento errado e quero retrair-me, mas um beijo de boca aberta seguido de seu sorriso imenso contra meu estômago me acalma.

- Desabotoa a blusa, .
Um último selar e aperto penoso em meu mamilo finaliza sua ordem.
- Sim, senhor. - A gota de humor é bem-vinda, os olhos de Jeon se apertando mesmo que tente suprimir o sorriso para manter seu papel.

Me sento sobre meus calcanhares, agradecida aos céus pelo seu sofá gigantesco ao desabotoar a blusa às pressas, confusa pelo tremor de minhas palmas, mas entendendo a origem quando a costura de meu short pressiona minha entrada escorregadia e que aguarda pacientemente por Jeon. Uma carga de adrenalina dispara por minhas veias em resposta ao arquear singelo de sua sobrancelha, afundando-se nos fios escuros que se ondulam devido ao resplendor do suor que recobre sua testa. Seus olhos avaliam a vista que a posição que estou lhe proporciona: seios fartos sobre minhas costelas recobertas por carne macia, mamilos vergonhosamente eretos e o pendente de pérola – presente de minha avó – que é o único sinal da inocência que mantive. A única coisa que cobre pelo menos um centímetro de pele.
JeongGuk ascende sobre mim. Uma sombra escura descomunal e sedenta. Sombra essa ocupada demais em delinear minhas curvas com olhos carregados antes de amaciar minha cintura devagar, testando as águas outra vez, olhar vagando por cada detalhe e seus lábios separados para respirar, narinas soprando ar quente em mim. A cena é tão bárbara que minha face ferve em rebote, um arfar demasiado emotivo me escapando quando sua boca cobre a minha, insistente e buscando dominância. Sua língua move-se langorosa, boca ardente e sensual enquanto mergulha com perfeita precisão contra mim e meus lábios que se partem sem recusa sob seu controle. Ele alivia seu apoio para serpentear uma mão para baixo de minha nuca e aprofundar o beijo. Isto somente serve para agitar a ardência e me mandar para os céus, incitando a sensibilidade tola de minha pele com os menores toques. Me sinto com a ponta descampada de um fio elétrico; faiscando e chiando a cada segundo que a tenda em sua calça encosta em minha coxa, o peitoral musculoso arranhando meu peito.
Sua palma grande se prende em meu seio, este que por um segundo esqueci estar nu e disponível. Sem me responder, observo com atenção enquanto Jeon se concentra no monte sensível de meu peito, abertamente surpreso por não conseguir acoplá-lo em todo em sua mão. Mas estou concentrada demais em seu braço, e nos dedos tatuados que se afundam na pele, a extensão de seu dedão e indicador apertando meu mamilo com força e me fazendo suspirar. Minha mão livre escorrega para seu antebraço, esfregando delicadamente a tinta ali nos músculos imponentes e que me fazem salivar e quase engasgar quando apanha meu mamilo em sua boca.

- Porra.

Me movo com cuidado para não dar uma joelhada em meu possível novo brinquedo favorito, finalmente me instalando em seu colo com um "huf" e que se converte em um gemido baixo. O sugar em meu seio é rigoroso, extorquindo sons abafados por meus dentes em meus lábios, sua língua morna que circunda o pequeno botão antes de chupá-lo demoradamente e mordiscá-lo até saltar de sua boca com um som molhado.
Estou colocando uma mecha de cabelo atrás da minha orelha quando sua pele desnuda surge diante de meus olhos, a camisa arremessada para longe com rapidez. Não imagino o que esperava, mas estou extasiada quando as primeiras pinceladas de tinta surgem em sua pele alva, em um contraste magnifico. Escaneio com atenção tudo o que posso, a pirâmide iluminati tatuada no seu esterno, algo que já havia me alertado sobre. Seu amigo YoonGi havia lhe desafiado e ele estava bêbado demais para se recusar.
Assim como "Ars longa, vita brevis" acima deste, em letras belas e delicadas. Estou correndo a língua pelo interior de minha boca quando sua camisa pousa em algum lugar no chão, um som abafado pelo excesso de tecido e eu preciso erguer as mãos para lhe impedir de voar sobre mim outra vez. O primeiro contato de minhas mãos em sua pele quente é grosseiro e o lança para trás um pouco, o uso mínimo de força longe de ser o suficiente para lhe fazer deitar-se, mas o necessário para que me dê um espaço melhor para o analisar.

- Você não pode ficar assim e esperar que eu não dê uma bela olhada, JeongGuk, não é assim que funciona.

Não me reconheço quando selo uma das rosas em sua garganta, desacostumada a idolatrar o corpo de alguém que não seja JaeBum, minhas one night stands não sendo memoráveis o suficiente para que eu deseje sentir o gosto de seu suor em minha língua ou tocar cada milímetro dele. Mas JeongGuk? Céus... O sentimento é mútuo, aparentemente, suas mãos subindo por minhas coxas até encontrarem a curva de minhas nádegas e ambas, sim, ambas estalarem com tapas simétricos e quentes. Arfo em seu pomo de adão, o choque me empurrando para frente pelo tensionar acusatório de minhas pernas.

- Então você realmente gosta disso, ? – O moreno estala a língua, distante de desapontado. Assinto com a cabeça, tentando me recuperar do ardor delicado e pecaminoso quando sinto suas mãos se moverem para frente de meu short, habilidosamente desabotoando a peça jeans. – Quem diria, hum? Você e essa pose de boa moça responsável, curtindo uns bons tapas nessa bunda perfeita. Do quê mais você gosta, hein?
- JeongGuk... – Sussurro manhosa quando abaixa meu short, e a calcinha também, dedos habilidosos possivelmente já habituados a fazerem os dois ao mesmo tempo com outras mulheres. Mesmo que eu tenha usada uma calcinha belíssima.

Um gemido prolongado me escapa quando suas digitais encontram os lábios escorregadios de minha intimidade, arriscando-se na entrada antes de deslizar para cima de novo e triscar em meu clitóris. Murmuro um "porra" contra sua garganta quando finalmente afunda um dos dedos em mim e depois mais dois, ciente de minha clara excitação que propiciou a investida rápida pela lubrificação. "Tudo bem?" Assinto independente de sua cara de pau em perguntar isso com três dedos presos em mim e minhas paredes os apertando com força, desejando um dilatar ainda maior vindo dele. Mordo meus lábios quando seu dedão pressiona o monte de nervos no topo de minha intimidade, transmitindo um calor delicioso para todo meu corpo ao se equiparar como o movimento moderado e tentador dentro de mim, simultaneamente curvando os nós dos dedos para atingir o local exato que fez meus nervos queimarem.

- Mais cedo - Sussurro com uma mão em seu pescoço em busca de sustento. - Devemos ter feito isso mais c-cedo - Arfo com os olhos fechados quando acelera os movimentos e agarra minha coxa com força. - Jeon, - O chamo ao tentar recobrar o controle de meu corpo que parece viciado em seu toque - me deixe tocá-lo.
- Pensei que nunca ia pedir autorização. - Encolho o ombro quando o beija, com um possível sorriso no rosto.

Não tive tempo de questionar a sua fala descarada, minha palma pressionada com sua ereção e lhe fez suspirar e desacelerar as estocadas de seus dedos e o rolar de meu clitóris. Ainda que quisesse lhe matar por diminuir as ondas de prazer, decidi que havia forma melhor de fazê-lo. Beijando o sinal abaixo de seu lábio, desfiz o feixe de sua calça de moletom cor de giz. Seu nariz encostou em meu cabelo enquanto erguia o quadril para me ajudar a abaixar a calça, removendo a boxer da Calvin Klein junto a ela, minha boca imediatamente sendo esguichada com uma saliva espeça quando seu membro se e encostou ergueu contra seu estômago de tão rígido.
Não tinha certeza de como imaginei que seu pau seria, mas a realidade definitivamente triunfou sobre qualquer imagem mental. Não era excessivamente longo, perfeito para atingir todos os pontos em mim sem incomodo, porém; ele é grosso - ainda mais do que o de Kim JongIn (médico do neonatal) e a ideia dele me preenchendo com todo essa consistência me faz flexionar meus músculos internos ao redor de seus dígitos e clitóris pulsar. Jeon o massageou sem dó, dedão pressionando o botão enervado e boca em minha garganta.

- Vou levar isso como um elogio, . - Eu inclino a cabeça para descansar em meu próprio ombro, quadril erguendo-se quando a estimulação em mim se torna lenta de novo e eu me recuso a implorar por mais. JeongGuk está sorrindo para mim, olhos apertados e respiração erradica quando envolvo seu membro em minha mão, tão relaxado como um animal selvagem em seu habitat natural. - Tem noção que até o meu pulso está ficando molhado? - Engulo a saliva em minha boca quando pisca, ciente de sua beleza e o poder que mantém sobre mim com toda a dirty talk. - Você está encharcada, . - Jeon molha os próprios lábios. - Eu mereço um prêmio por isso, certo?

Início minhas ministrações dolorosamente devagar, sorrindo vitoriosa quando fecha os olhos e remove seus dedos de mim, os três dígitos empapados esfregando minha intimidade na mesma frequência. É um desafio claro. Jeon adora vencer. E eu também.

- Assim? - Questiono de maneira sedutora, uma mão em sua pélvis e a outra focada em seu mastro que pulsa. Seu olhar quente e impaciente está vidrado em meu rosto, peito inflado conforme me aproximo da cabeça de seu pênis, dedão erguido para pressionar a glande roliça e macia, tão rosada quanto seus lábios. Sustento seu olhar ao massagear a pele aveludada e úmida. Jeon ameaça foder os dedos de volta em mim, sobrancelha erguida e olhar tão turvo quanto o meu. – Jeon! – Comento quando me invade com um único digito, o curvando para encontrar o ponto esponjoso de puro prazer em minha intimidade.
- Que foi, ? – Há um desafio na sua pergunta e eu quase perco o equilíbrio quando Jeon avança sobre mim e me deita sobre o sofá, seu membro ainda em minha mão e mais um dedo seu em mim. Perco o ar com a surpresa e o enroscar rápido contra meu clitóris abusado e possivelmente inchado. – Está demais para você, Dra. ? – Minha boca está bem aberta quando JeongGuk abaixa a cabeça para meus seios antes de literalmente mamá-los, a lascívia de sua saliva escorrendo pelo monte e a curva de seus lábios enquanto chupa meu mamilo.

Toco a fenda molhada em sua glande, espalhando o pré-gozo lustroso e ameaçando pressionar ainda mais a pontinha de meu dedo no local, o suficiente para Jeon gemer em meu seio e mordiscar o mamilo turgido e abusado em sua boca. Descendo ainda mais, acelero meus movimentos, torcendo meu pulso para que seja ainda mais prazeroso para JeongGuk e ele solta um lamurio glorioso em meu ouvido, o som reverberando por seu peito e vibrando no meu de volta. Ao mesmo tempo, meus olhos se apertam devido ao prazer avassalador que me deixa sem ar, boca aberta e arfando com sons agudos baixos pelo acelerar de seus dedos que me levam aos céus.
Quando eu atinjo meu ápice, é como uma explosão atrás de minhas pálpebras, um novo universo estourando e repuxando meus músculos internos para tornarem-se parte da obra prima. Não sei se gemi seu nome ou o que deixou meus lábios, mas o vibrar pecaminosos de minhas cordas vocais é interrompido com a boca de JeongGuk sobre a minha. Macia, molhada e com sua língua tão espeça quando o líquido quente que esguichou em minha mão segundos depois. Aperto minhas sobrancelhas quando Jeon geme grave contra mim, o som delicioso o suficiente para que eu agarre sua nuca e aprofunde ainda mais o selar. E nós ficamos assim por alguns segundos até que o tatuador precise recuperar o ar e seu membro esteja se tornando menos duro em minha palma.

- Estamos fodidos, . – Jeon murmura para mim, voltando a relaxar no sofá e removendo os dedos longos de mim. Eu suspiro com o novo sentimento desconfortável de vazio, um sorrisinho satisfeito em meus lábios quando o olho. O maior está estirado diante de mim, o peito e a tinta na sua pele brilhando com o suor translúcido pós-coito. Os lábios inchados e rosados, cabelo úmido grudado em sua testa e o olhar mais depravado do mundo quando... Oh, céus. Quando leva os dedos embebidos em meu prazer para sua boca e os saboreia, gemendo ao redor deles antes de removê-los com um "pop" molhado e lamber os lábios, mantendo o maldito contato visual. – Estamos fodidos pois, como eu esperava, você é deliciosa.

Encosto minha testa em sua garganta, derrotada ao sentir uma segunda onda de excitação queimando entre minhas coxas advinda da imagem erótica protagonizada por Jeon.

- Sim, JeongGuk. – Sussurro. – Estamos fodidos. Devidamente fodidos.

Capítulo V

- Bom dia, ...

SeoHyun cantarola quase tão malandra que eu aperto minha boca para pausar a melodia que dançava em minha língua antes de ser flagrada. Ela desliza para dentro da sala de repouso mordendo o lábio inferior em provocação explícita, as sobrancelhas ondulando ao se aproximar de mim. Bem atrás dela e com um jeitinho fingido, Jimin não poderia disfarçar o sorrisinho pretensioso nem mesmo que sua vida dependesse disso. Oh, é óbvio que HoSeok e Seo lhe contariam tudo antes mesmo do miserável voltar devidamente ao trabalho. Todos já sabiam sobre a fuga de Jimin para a China durante os últimos meses, tudo por causa de um tal namorado que ele insistia em esconder de todos, até mesmo de Hobi, que julgava a situação injusta. “Não é só por que eu sou bissexual que vou roubar o seu namorado, Chim”, meu amigo reclamava.

- Alguém tirou a sorte grande ontem à noite, Seo.

Ergui meus olhos da montanha de papelada na minha frente para poder encarar meus dois melhores amigos com minha melhor cara de deboche, algo merecido por nem mesmo me deram a chance de explicar-me. SeoHyun está com o cabelo preso em um coque bagunçado, evidenciando a sua expressão cansada mas ainda interessada em minha vida, certificando a quem quisesse que o seu último plantão exaustivo não pouparia fofoca alguma. Já Jimin está bem vestido e sorridente, as mãos no quadril ao me olhar de cima a baixo, analisando-me como uma presa fácil para suas provocações.

- Perdão?
O cirurgião plástico revirou os olhos ao puxar a cadeira diante de mim.
- Você é uma fingida, . – Seo gargalha ao remover o seu estetoscópio do pescoço e começar a retirar o jaleco, sua expressão se torna mais afiada quando eu somente pisco em falsa inocência. A ortopedista dá um tapinha no ombro do homem na minha frente. – Sabe de uma coisa, Jiminie? Agora que você comentou, ela parece bem mais relaxada. – A morena aponta para mim com a caneta que estava em seu bolso. – Tá vendo o ângulo dos ombros e o pescoço? E o glow na cara dessa safada? – Irrompo em uma risada devido ao absurdo, minha reação apenas instigando os dois a insistirem ainda mais na brincadeira. – Ou ela trepou ou comprou uma iluminador ótimo.
Batendo o carimbo em todas as páginas do contrato, eu ignoro o acerto.
- Ah, mas a usa pouca maquiagem, lembra? Pelos bebês e tal... – Chim implica e eu faço questão de assentir devagar com a cabeça conforme passo as páginas do pro-bono. – Por favor, , me diga que deu para o seu interno gostoso que eu vi mais cedo! – O arfar de Jimin faz Seo inclinar o ouvido para nós, mesmo que esteja removendo suas coisas do armário. – O bonitinho que até a Seo faria se não estivesse noiva do Kim! – Percebo que SeoHyun assente derrotada.
- Não, não. É o pai gostoso que eu te falei, Chim.

Finalizando com as assinaturas e selando o fim de meu compromisso com a pequena Nahal – criança afegã que tratei nos últimos dois meses após muita insistência para retornar ao seu caso após o incidente com JaeBum –, eu empilho as documentações de novo sobre a mesa, certa de que Jung JaeHyun chegará em algumas horas para poder levá-las para o judicial a fim de garantir que a garotinha volte para casa após o fim do tratamento. Só percebo que os dois médicos me olham – se possível, ainda mais curiosos – quando envio uma mensagem para meu interno e jogo o celular na mesa. Jimin está prestes a ficar permanentemente cego, os olhos apertados ao sorrir para mim como um idiota e Jo SeoHyun ainda morde os lábios ansiosa enquanto massageia os ombros de Chim. Respirando bem fundo, eu ofereço a chance:

- Vão em fren...
- VOCÊS TRANSARAM? – O grito dos dois é mais alto e mais rápido que minha pergunta, ao ponto de assustá-los e Seo cobrir a boca ao perceber o seu erro enquanto Jimin corre para fechar a porta que estava entreaberta. Meus lábios estão separados e eu me seguro para não revirar os olhos com a falta de senso dos dois, mesmo que também me esforce para não rir pois eles se empurram para ver quem vai ocupar a cadeira na minha frente agora, esquecidos dos gritos e só focados em minha resposta.
- A gente não transou. – Balanço a cabeça, percebendo com o sorrisão de Jimin vira uma careta.
SeoHyun parece arrasada por mim.
- Não? – O maior questiona com as sobrancelhas curvadas em confusão, logo tornando a olhar para Seo, ela quase de luto por mim. – Seo, você não disse que o cara era um pecado e possivelmente tinha um daddy kink ? – É a minha vez de olhar para ela com surpresa, olhos estreitos pois este último detalhe nunca chegou nos meus ouvidos. Jimin bufa manhoso, sacodindo sua noona. – Por que você mente para mim assim? Pensei que éramos amigos!
- Oh, Deus... – Eu opto por esfregar o ponto entre meus olhos, ciente que meus amigos me darão mais rugas que qualquer criança no mundo. – Nós não transamos, ficamos só nas preliminares e que história é essa de daddy kink, SeoHyun?
Os dois suspiram como se eu houvesse acabado de salvar suas vidas.
- Já é um assunto para você discutirem depois, ! Chama de “daddy” rapidinho e vê se ele reage, sua tonta! – Jimin indica, atento a minha última pergunta e Seo concorda com avidez. Eu reviro os olhos quando ela batuca a mesa, me apressando a falar mais de minha noite com JungKook. – Vai, mulher! Desenrola isso aí!
- Como foi? Ele sabia o que fazer? – Seo se atropela, mas parece não ligar. - Você ainda sabia o que fazer?
Finjo estar ofendida pela acusação, mas não seguro um sorrisinho que os faz vibrar.
- Sim, - Posso ouvir o veneno e a trepidação em minha voz. – ele sabia o que fazer. – Por baixo da mesa, minhas coxas se pressionam de forma involuntária.
Jimin jogou a cabeça para trás contra o ombro de Jo e ela esfregou as palmas.
- Ele achou o seu clítoris? – Ela indaga e eu posso sentir o rubor se formando em meu rosto pela dúvida explicita de minha amiga e Chim põe a mão no peito.
- Sim, SeoHyun, ele achou algo que devia ser óbvio pra qualquer homem. – Ambos suspiram em alívio por mim. Sinceramente, “transar” com alguém como JungKook, alguém que conhece a anatomia feminina e não ficou esfregando o interior de minha coxa feito um idiota, é uma benção. – E adivinhem? – Me inclino na mesa, minhas mãos espalmadas na papelada quando eles me imitam. – Não ficou esfregando como uma mancha em uma camisa e muito menos estava desesperado para saber o que fazer... – “Movimentos circulares?” Ela me interrompe e Jimin gargalha quando meu assentir a faz soltar um suspiro alto de desejo. Ah, pobre Jin não vai escapar das provocações de Jimin tão cedo. – Movimentos circulares, querida. Muito precisos.

Já cansado do tema exclusivo da conversa, bateu as palmas para chamar minha atenção.

- Mas, assim... – Ele move a mão como se batesse uma e ainda ergueu as sobrancelhas, curioso. Seo estapeou o pobrezinho ao assentir ainda mais para que ele prosseguisse. – Ele era...

Grande? De um tamanho generoso demais para quem não transava há quase doze meses? Sim.

- Minha mão não – Faço os dedos de Jimin se afastarem, a fim de ilustrar a dimensão farta de Jeon e posso ver como os olhos de meus amigos parecem saltar. – fechou ao redor dele. – Suspiro para afastar as memórias convidativas da noite anterior, ciente que precisarei passar no banheiro antes de minha próxima cirurgia. – Ele é bem... Grande. – Molho meus lábios ao me levantar com a papelada e ouço o arfar dos dois, agarrados um no outro enquanto Jimin mantém a envergadura imaginaria de Jeon imóvel e Seo encara a mão dele com um sorrisão. Estalo os dedos para chamar sua atenção. – Ei! Chega de olhar para o pau fictício do cara! - Defiro um tapa na mão de Chim, o sorrisinho dele se tornando safado de novo. Ele e Seo trocam um olhar que eu não entendo.

Seo concava as mãos e as direciona para mim, as movendo como se apalpasse as nádegas de alguém.

- A bunda é boa? Daquelas que dá pra segurar quando ele está por cima? – Jo SeoHyun, minha colega de quarto da faculdade que era puritana, onde você foi parar?
- Maravilhosa. – Jimin finge chorar com a cabeça baixa quando eu finalmente respondo. – Firme e bem redondinha. – Seo aperta as mãos em punho, olhos fechados para imaginar a cena.
Ela lamenta:
- E eu presa com o SeokJin e a bundinha de pombo dele.

*


Estou descendo as escadas para o pronto-socorro quando Jung JaeHyun me alcança.

- Você tinha conseguido ritmo! – Aperto o corrimão com força, não interessada em ouvi-lo agora. Tenho um casal que precisa ouvir o parecer do filho e não posso adiar isto para um momento de ensino indevido. – Dra. , você tinha ritmo cardíaco!
- Era uma assistolia. – Explico-lhe sem paciência quando me alcança na escadaria. Jung está segurando dois copos de café, possivelmente vazios pois eu o vi colocar ambos para dentro enquanto assistia minha cirurgia. Ainda assim, com seu interesse em meu trabalho, não consigo ter animação depois do que aconteceu. – O menino não ia durar.
A confissão esmaga meu peito.
- Então, injetava adrenalina, não é? – Aperto meus olhos, ciente que ele acaba de colocar um copo pesado e quente em minha mão. O cheiro de café é ótimo, mas eu não sinto fome ou sede alguma. É um luto médico que me faz recusar a porcaria do café.
- Eu já havia injetado o máximo. O coração já estava fraco, Jung.
Volto a descer, agradecida por ninguém testemunhar nosso diálogo.
- V-você não podia ter parado assim, Dra. ! – Há uma raiva e confusão branca em sua voz, como uma criancinha que não entende o que acabou de acontecer. – E o resto?
- Não havia mais nada, JaeHyun! – Minha voz está elevada, revelando minha indignação, mesmo já tendo total conhecimento do encerramento trágico do caso quando conheci os Ohn. Quando conheci o pequeno JungHo e soube que sua saúde debilitada não o permitiria sobreviver a cirurgia e ainda assim o aceitei como meu paciente. JaeHyun dá um passo para trás quando eu empurro a droga do café para ele, não querendo imaginar o quão desumano é dar um parecer de óbito com um cafezinho. – Eu grampeei a criança e esperei o coração dela parar. Não havia outra opção. – Pontuo cada palavra, na expectativa que entenda o quanto isso também foi doloroso para mim. – Vá atrás do seu atendente e dê o café a ele.

Im JaeBum foi efetivado como um atendente no hospital, assumindo o cargo de chefe da cardiologia. E seu primeiro pedido foi o interno com notas mais altas no exame de admissão para o programa, este sendo o jovem Jung JaeHyun ao meu lado. E claro que o chefe Kwon, coordenador dos internos, o ofereceu para JaeBum e roubou meu melhor interno.

- M-mas e doação? – Jung murmura atrás de mim quando eu avanço mais alguns degraus.
A dúvida desumana me faz subir todo um lance de escadas para que ele entenda.
- Você engravidou a sua mulher depois de cinco anos e vocês finalmente conseguiram ter um filho. Você amou aquela criança e agora ela está morta, JaeHyun. – Com meu indicador, aponto na direção geral do andar cirúrgico, percebendo como ele abaixa a cabeça a entender meu ponto de vista e como estou prestes a puxar sua orelha, mesmo não sendo mais sua chefe. – O seu filho morreu em uma sala de cirurgia fria e sem você ou a sua mulher ao lado dele; você conseguiria se desfazer dos órgãos? Conseguiria segurar a vontade de esganar a médica que não conseguiu salvar seu filho e agora queria doar os órgãos do seu bebê? – O rapaz balança a cabeça com vergonha, os olhos no chão e o seu óculos na ponta do nariz. Eu respiro fundo ao relembrar a breve e trágica história dos Ohn. – Se a resposta for não, você não questiona esse tipo de coisa para um pai. – Minhas mãos apertam meus quadris com força. – Entendeu?
- Quando eu posso voltar para você?
De todas as pergunta que imaginei que faria, esta não foi uma delas.
- Oh, JaeHyun... – Esfrego o meu rosto, já exausta do bate bola sem fim e sua teimosia. – Eu preciso ir, por favor, fique com o seu atendente e aprenda outras especialidades.
- Eu sei que o Dr. Im é bom na sala de cirurgia, mas ele é um imbecil e eu quero você. – É necessário esforço para disfarçar minha surpresa pela sua resposta, não esperando que JaeBum já houvesse revelado esse lado. – Por favor, me coloque na pediatria de novo, Dra. . Eu posso fazer suas fichas ou agendar as cirurgias, mas me deixe voltar.

Engulo em seco antes de me despedir:
Quando eu deixo a presença dos Ohn, meus olhos estão começando a lacrimejar pela reação da mãe da criança, seus gritos que alertaram todo o pronto-socorro sobre a morte de seu filho. "Jeongha, minha equipe fez tudo o que pôde para salvar o JungHo." Não consegui ir mais além das palavras fáceis que aprendemos na faculdade a fim de deixá-la reagir o mais rápido possível. "Mas o tumor estava grande e ele não suportou." Quando seu marido a abraçou, tomei a decisão de deixá-los a sós. "Sinto muito." Ao me sentar na cafeteria, estalo os ossos de meu pescoço de tanto cansaço e constante tensão. Pensando bem, este pode ser um motivo de um precisar tanto de uma forma de descarregar a tensão, as criancinhas que não pude ajudar me deixando mais e mais tensa e destruindo minha saúde física.
E é por isso que opto por mandar, enfim, uma mensagem para JungKook.

*


[ ]
[16:43] Jeon! Se não formos mais nos ver, me deve um favor:
[16:43] Vou precisar da calcinha que eu sei que você roubou.

[JungKook do 1009]
[16:45] Felizmente você não é dramática, hum?
[16:45] Se for te confortar, pensei em você o dia todo.
[16:46] Mais do que deveria, inclusive logo depois de você me largar ontem.

[ ]
[16:46] Foi por uma boa causa! O fofo do JaeHyun precisava da minha ajuda ;)

[JungKook do 1009]
[16:46] Não provoca, ...
[16:47] Quando o seu turno acaba?

[ ]
[16:47] Estou livre depois das sete.
[16:48] Tem planos para hoje, Jeon?

[JungKook do 1009]
[16:48] Estar dentro de você o mais rápido possível.
[16:48] Mas como eu sou um cavalheiro, pago um jantar antes.

[ ]
[16:49] É fofo que se esqueceu do seu filho.
[16:49] E que eu só como Panda Express.

[JungKook do 1009]
[16:50] Yoongi e o namorado se ofereceram para cuidar dele
[16:50] Meus amigos respeitam as minhas booty-calls

[ ]
[16:51] Você é tão sedutor <3

[JungKook do 1009]
[16:51] Não sou? <3

[ ]
[16:52] Te encontro às oito no lobby do hospital, ok?
[16:53] Meu carro está com o SeokJin por algum motivo.

[JungKook do 1009]
[16:54] Vou ser o bonitão com o bebê.
[16:54] Ponto de troca do Jun é no hospital, por falar nisso.
[16:55] Ah, esqueci de te contar da tarifa! Uma carona = um boquete.

[ ]
[16:56] Até mais tarde, Jeon ~

*


Uma das partes boas de ser amiga de SeoHyun é o seu noivado com o chefe, neste caso, meu querido SeokJin. É esperado por todos que ela sempre esteja em sua melhor aparência e o acompanhe em todos os eventos que envolvam o hospital, mesmo com pouco tempo para se preparar. Isso explica o porquê de seu guarda-roupa sempre pronto ser a minha escolha depois de um incidente com vômito de bebê. Logo após um banho e uma maquiagem decente, um vestido verde escuro foi minha escolha e um salto baixo, tudo oriundo de seu armário.

- Vou agendar a entrevista com os Boo para quarta-feira à tarde, doutora.
Apanhei minha bolsa da mesa e a coloquei no ombro.
- Não, não. – Balancei o dedo ao deixar a sala de repouso, dando uns pumps em meu perfume ao espalhar por meu pescoço e pulsos. – Quarta-feira eu tenho uma reunião com o Hero, então vamos precisar adiar, mas mantenha a sala-cirúrgica preparada para a sexta. – JaeHyun está me seguindo como um filhotinho enquanto caminho para o lobby do hospital. – E me diga novamente o que disse para o Dr. Im, por favor.
Posso o ouvir suspirar.
- Eu disse que não queria mais estar no programa dele e que preferia o seu. Avisei que a papelada dele estava pronta e ia deixar no RH pela manhã.
- Bom menino, Jung! – Me virei para dar um tapinha em sua bochecha rosada. Se alguém estava disposto a dar um fora em JaeBum para trabalhar comigo, era merecedor de elogios. – E por falar no diabo...

JaeBum está ao lado de SeokJin e Jimin, o último com a cara mais enojada e debochada que consegue. Estão todos prontos para sair e deixar Im responsável pelo plantão, então até mesmo Seo se junta a eles depois de um tempo, sorrindo para Jimin ao sacar sua aversão. Infelizmente, Jin é educado demais para mandar meu ex para o inferno. Estou me aproximando com a minha melhor cara de bons amigos quando duas figuras surgem dos elevadores, ou melhor, três figuras – isso se contarmos o garotinho que agarra um pato de pelúcia com toda força do mundo.

- Ah, finalmente! – É Jimin quem exclama e ele se afasta do grupo, chamando atenção deles quando se direciona para o homem conversando com JeongGuk.

Jeon está sorrindo para o colega e tal sorriso toma proporções ainda maiores quando nossos olhares se encontram, sua expressão dividida entre animação e excitação clara. E preciso dizer que não uma visão ruim daqui de onde estou; o cabelo escuro sobre os olhos e o sorriso sacana do miserável ao me olhar, além da roupa que o deixa incrível e não desaponta outra vez. Jeans escuros, casaco longo e de aparência cara, camisa presa e cinto apertando sua maldita cintura. Me atento a sua garganta e as tatuagens visíveis debaixo da camisa quando os dedinhos de SeoJun se enroscam no cordão do pai.

- Pingu! – A cabeça do garotinho dispara para mim com o chamado, o sorriso banguela mais gostoso do mundo surgindo em seu rostinho. Eu avanço contra os dois, ignorando o breve toque de SeoHyun em meu braço e me junto a Jimin na corrida, só percebendo agora que ele vai na direção do outro homem com JeongGuk. – Meu amorzinho, você veio me visitar?
- Nós dois viemos. – Ignoro as segundas intenções de Jeon por alguns segundo enquanto transfere SeoJun para mim, o bebê logo agarrando-se em meu pescoço e se aconchegando ali. Depois de um dia tão longo e com uma perda, ter o pequeno em meus braços é ainda melhor que eu esperava. Dando uma breve olhada em mim e se aproximando para colocar a mão em minha cintura, o tatuador beija minha bochecha perigosamente perto de minha boca. – Está linda, .
- Obrigada, Jeon. Muita gentileza sua reparar na minha roupa e ainda não ter a roubado.

Balanço a cabeça e faço carinho na costa de Junnie, sentindo o martelar animado de meu coração. Martelar igualmente excitado, diga-se de passagem. Engulo o embaraço do elogio e sustento minha expressão imutável, mesmo com seu dedão acariciando minha cintura sobre o vestido de SeoHyun, precisando me lembrar que estou segurando seu filho e que ainda não posso pular em JeongGuk. Ou que sai pegando um bebê no colo no meio do hospital e bem em frente ao meu grupo de amigos. Ou que Jimin tascou um beijo no estranho que entrou com Jeon.

- Eu não acredito em você, Jimin! – É SeoHyun quem condena ao se aproximar de nós e eu imediatamente agarro Pingu e dou um passo na direção de seu pai, satisfeita que ela não esteja brigando comigo desta vez. É só assim que tomo consciência do motivo de sua irritação.
Jimin. Beijou. O. Cara.
- Oh, meu Deus! – Eu troco um olhar surpreso com minha amiga e me atento ao rapaz que está de mãos dadas com Jimin, meu amigo com a face tão rosada que se assemelha a uma florzinha. SeoJun resmunga em meus braços, assustado com o volume de minha voz, mas seu pai não parece se importar, até mesmo rindo do meu lado. – Você deve ser Min Yoongi, certo? – Questiono ao homem pálido com ChimChim, este acenando com a cabeça, um piercing reluzindo em seu lábio e umas tatuagens enormes em seu pescoço chamando minha atenção.
Ah, é óbvio que ele está com Jeon.
- Suga-hyung, Jimin-hyung, vocês conhecem a ?
- Jimin-hyung? – Estou balançando Jun no meu colo quando olho para JeongGuk com clara surpresa. Ele está tão desnorteado com as relações quanto eu, mas ainda assim divertido. – Jimin-hyung? – Dessa vez olho para meu amigo que só revira os olhos para as reações abobadas minhas e de SeoHyun.
- Vocês duas exageram, hein? – Ele reclama e eu balanço a cabeça; incrédula com a naturalidade que tem. – Sim, sim, esse aqui é o Yoongi, meu namorado que voltou da China. – Ele apresenta com um braço ao redor do homem, este que assume um tom rubro e eu posso flagrar sua mão na lateral do corpo de meu amigo. A cena me faz sorrir. – O pai-nem-tão-solteiro ali é o JeongGuk e a pestinha é o...
- Pingu ! – Apresento para SeoHyun, virando-me em sua direção com o pequeno agarrando em mim.
- SeoJun, no caso. – Jimin termina.

Minha amiga dá uma breve olhadinha em JeongGuk e em mim, por mais tempo que deveria, antes de soltar um sorrisinho para o bebê. Ela cutuca a bochecha dele, acariciando-a com gentileza que eu aprecio. Balanço Jun para que ele faça algum som e ele me recompensa com uma risadinha, envergonhando-se e enterrando o rosto em minha garganta depois. Jin se une a nós logo depois, parecendo ter finalmente se livrado de JaeBum e com um sorriso agradável para os Jeon e Yoongi.

- E a é a vizinha que eu falei, hyung. – O tatuador explica para o amigo, toda minha concentração sendo desgastada para não dar um tapa em JeongGuk e a sua mão que esfrega círculos em meu quadril. – E atual pediatra do Junnie. Não é, amigão? – A dúvida é direcionada a seu filho, provando que tem uma facilidade absurda em alterar sua aura, agora mais fofo que nunca ao conversar com o bebê. Jun rebola em meu braço para se aconchegar ainda mais, soltando um bocejo longo e que arranca risadas de todos ao nosso redor. – Suga-hyung, recomendo que coloquem logo o Junnie na cadeirinha, para ele cair no sono aqui é dois pulos.
Faço um bico ao selar a mãozinha do bebê antes de olhar para Jimin.
- Faz ele arrotar depois do jantar, Chim. – Recomendo também, percebendo agora como Seo estreita os olhos para mim, confusa com as instruções que deviam vir do pai e não de mim. – Com uma toalhinha no ombro, se possível. Ele tem refluxo e vai golfar em você. Certeza.
O namorado de Jimin franze o rosto.
- Tem duas fraldas na malinha, mas é bom usar a noturna só quando ele dormir. Ela faz o bumbum dele coçar e vai dar assadura se ele se mover demais. – Jeon indica para Yoongi.
Só percebo que SeokJin está rindo quando ele se apoia na noiva que quase cai.
- O que é, hum? – Retruco, dando um chute em sua perna.
Ele balança a cabeça.
- Conto a você amanhã.

*


Após mais alguns segundos de conversa, Jin e SeoHyun se despedem com um breve acenar dentro de seu carro, minha amiga ainda atenta para qualquer movimento de JeongGuk ou palavra que deixasse sua boca enquanto saíamos do hospital. Sua postura protetora não era novidade após o que passei com JaeBum, mas ainda assim, parecia preocupada demais em me deixar com ele depois de nosso encontro no lobby. Só tomo consciência que já alcançamos o carro de Jeon no estacionamento quando ele dispara o alarme do automóvel e eu dou para traz ao dar uma bola olhada em uma das posses do tatuador.

- Uma Mercedes? – Indago quando se adianta até mim, meu sorriso quase falhando até perceber que suas mãos se erguem ao estar perto o bastante e que ele não se dirigia a porta escura e sim a mim. Meu coração está acelerado quando seu rosto surge abaixo da luz amarelada dos postes, seu olhar mais intenso que eu esperava e presença ainda mais forte. – Não vou dar para você no estacionamento, se é o que está planejando.
Ele sorri e ergue a face, as tatuagens em sua garganta me chamando.
- Eu disse que era um cavalheiro, não disse? – JeongGuk questiona e eu sinto que posso me desfazer na calçada quando suas mãos largas encontram minha cintura. Ele esfrega o tecido macio do vestido e eu me atento para suas irises que vagam por minha figura demoradamente, assim como seus dedos trilham pelo meu corpo da melhor forma que pode sobre as roupas. Minha respiração está presa em surpresa e excitação quando beija minha bochecha e eu suspiro como uma vadia bem ensaiada, uma das poucas coisas que Jeon consegue me fazer com facilidade. Um outro selar molhado em minha face me força a agarrar sua jaqueta na falta de algo em minhas mãos. – Está linda, .

Sua boca macia está sobre a minha em poucos segundos, corpo quente contra o meu me esmagando contra o carro o suficiente para que eu perca a cabeça e arfe o seu nome como uma atriz pornô faria para uma cena. Seus lábios e toques são uma mistura delicada de gentileza e ardência sexual, dedos agarrando meu quadril com força quando nos pressiona um no outro ainda mais, sua boca tão febril que cada deslizar de lábios é tentador e provocativo pois sei o quão ardente e agressivo consegue ser quando deseja. Meu corpo reage de imediato, cada célula em mim desejando sumir com os milímetros que nos separam, mãos imediatamente enterradas nos fios escuros e macios de seu cabelo e o bagunçando demais para que sequer entremos em um restaurante, mas não me importo. A única coisa que consigo pensar é em JeongGuk e o calor úmido entre minhas pernas que apenas um beijo consegue provocar.
Um gemido abafado me escapa quando sua língua macia pressiona a minha, o selar mergulhando em um senso de urgência que esquenta minha pele e torna seus lábios mais febris e deliciosos. Sua mão curva-se contra minha bochecha ao inclinar meu rosto no ângulo que ele quer, o sabor doce de seus lábios como mel em minha garganta e eu me encolho contra Jeon em busca de sustento, surpresa com o carinho com o qual massageia meu rosto em comparação ao desejo nítido do beijo. Deslizo uma de minhas mãos para seu peito e empunho sua camisa, o puxando ainda mais perto como se pudesse me afundar em seu corpo grande e quente ou como se fosse o necessário para que afundasse sua ereção proeminente em mim, essa já pressionando minha pélvis e irresistível demais para que eu não mova meus quadris para encontrá-lo no meio do caminho.
Ele se afasta com um aspirar insistente por ar.

- Jantamos depois? - Jeon questiona com a boca molhada em minha garganta enquanto uso todo meu controle para não revirar os olhos por abusar meu ponto fraco. Assinto num desespero vergonhoso, apoiando sua face fundada em meu pescoço.
- Jantamos depois. - Sussurro extasiada quando encontro minha voz.

*


A corrida até sua casa é um flash de excitação, beijos molhados durante sinais vermelhos e sua mão perto demais de minha calcinha sendo a única coisa capaz de me mantar calma.
O ding! de sua porta anuncia que conseguimos chegar ao seu apartamento e estou mais que satisfeita que o móvel mais imediato de sua sala é o enorme sofá onde começamos nosso acordo ontem. Descarto meu casaco e deixo que caia no chão sem me importar quando me beija e mordisca meus lábios no processo de se irritar com sua jaqueta. Os toques se transformaram de apalpares gentis para apertos duros, os braços de JeongGuk presos ao redor de minha cintura e me deixando guiá-lo dentro de sua própria casa enquanto a sua língua desliza sobre a minha. Um som reverbera de seu peito quando o empurro para o sofá, sentando-me sobre suas pernas com os joelhos ao lado de seus quadris sem vez alguma partir nosso selar. Jeon relaxa contra o encosto, suas palmas encontrando apoio em minha coluna e deslizando para apalpar minhas nádegas mesmo com o vestido.

- Está muito apressada. – Sussurra quando respiro fundo após cola sua boca em meu pescoço, relembrando minha pele da textura de seus lábios. Lentamente, o moreno move alguns dígitos para baixo de minha roupa, erguendo-a sobre minha bunda e expondo minha pele para a temperatura fresca do apartamento. Sua destra está aquecendo minha perna e ele apenas a ergue para deferir um tapa leve na face de minhas nádegas, o contato eriçando cada fio de meu corpo e arrancando-me um sobressalto sonoro. – Tão sensível, ...

Solto um gemido baixo em sua boca quando toma um punhado generoso de minha bunda, um aperto calculado que utiliza para pressionar minha pélvis contra sua ereção, calcinha deslizando deliciosamente com o movimentar. E é impossível controlar meus movimentos, estes sendo naturais demais em busca de sentir algo após longas noites solitárias encontrando o desfecho glorioso de masturbações para enfim estar aqui, minha intimidade progredindo para um oceano de lubrificação e seu pau abaixo de mim mais que pronto para tomar-me.

- ... – JeongGuk se afasta e quando tenho uma chance de lhe olhar através de meus cílios, suas bochechas rubras, lábios inchados dos beijos que trocamos e olhos em chamas. – Eu preciso estar dentro de você agora. – Engulo a saliva espeça em minha boca, qualquer sinal de consciência me escapando.
- Jeon, eu não vou dar para você em um sofá. – Informo.
- Mas ainda vai me deixar foder você, não é? – Ele apanha minha mão e a pressiona contra seu membro, arqueando-se impossivelmente longo contra minha palma ao ponto que reconheço a depravação em meu salivar.
- Na sua cama, sim. – Garanto, massageando-o o suficiente para ele apertar a mandíbula.

Saio de seu colo com resistência, não me preocupando em assentar o vestido embolado acima de minhas nádegas, apenas o erguendo sobre minha cabeça e lançando do seu lado no sofá. Opto por não lhe olhar, certíssimas de que um rápido flagra de seus olhos escuros e carnais apenas me fariam demorar quando compartilho de seu desejo. Sei que está me seguindo para o enorme quarto no final do corredor principal, afinal sinto os seus olhos queimarem em minha costa e eu finalmente me viro em sua direção quando chegamos no cômodo, mais que satisfeita por perceber que a camisa já foi a muito esquecida na sala. JeongGuk se inclina para me beijar e eu espalmo a mão em seu peito antes de as escorregar para o jeans escuro que ainda veste.

- Tire os dois, . – Ele finalmente murmura ao me afastar com relutância evidente; agarrando a alça de meu sutiã e eu me seguro para não correr a fim de obedecê-lo.

Em uma rapidez louvável, me movo para a cama gigantesca, fazendo um show ao remover as roupas íntimas como me pediu. Desencaixo o sutiã e o deslizo por meus braços, descansando sobre a cama ao meu lado ao espalmar meus quadris e encaixo os dedos na calcinha, erguendo minhas pernas para remover a peça ao manter o contato visual. Uma dose de adrenalina corre por minhas veias ao ouvir o som que JeongGuk emite com a cena, minha intimidade mal ocultada por minhas coxas; molhada e implorando por seu toque. Em um ímpeto de coragem, afasto minhas pernas com letargia, o oferecendo uma vista privilegiada enquanto respiro ofegante com expectativa.
Quando estou completamente nua, JeongGuk sobe na cama, resumido a uma sombra escura e enorme e em uma cena tão primal que não consigo fazer muito além de o olhar com um salivar insistente em minha boca enquanto gasta alguns segundos para me analisar. Ele pressiona a palma grande em meu estômago, deitando-me sobre os travesseiros ao aconchegar-se entre minhas pernas, as mantendo afastadas. Um suspiro sôfrego me escapa quando JeongGuk desliza os dedos por meus mamilos, os contornando e beliscando longamente em transe. Não ouso manter meus olhos abertos, certa em me concentrar nas sensações.

- Porra, , você vai me enlouquecer. – Corro meus dedos por seu cabelo quando Jeon fecha os lábios em meu mamilo, o calor da caverna úmida torando um gemido de minha boca com a sua língua chicoteando a pele sensível. A mão que não o segura sobre mim, se afunda entre minhas pernas, deslizando por minha entrada já úmida. Me sobressalto com o mordiscar em meu seio, Jeon afastando a boca para poder olhar os dedos que me tocaram e sorrir sádico, logo encontrando meus olhos com tanto desejo que quero que me foda de uma vez. – Caralho, olhe só para você... Quer tanto assim que eu te foda, ?

Enfio os dentes no meu lábio inferior, engolindo a vergonha ao olhar para JeongGuk. Meu rosto está quente, possivelmente rubro enquanto continua a deslizar os dedos firmemente em mim, o olhar fixado em minha face para saborear cada curto-circuito que cruza minha expressão. Seu dedo indicador ameaça invadir minha entrada por um breve segundo, a sensação dele dentro de mim em um momento e logo a remoção arrancando-me um choramingar manhoso pela perda. Jeon ri quando enrugo as sobrancelhas em reprovação, mas minha respiração intercortada entrega meu desejo.

- Eu fiz uma pergunta. – Ele ameaça mais um falso invadir quando enterra o rosto em minha garganta e mordisca a pele delicada. – Você só precisa responder para ganhar seu prêmio, .
- Sim! – Garanto quando finalmente me adentra, desta vez dois dígitos conhecedores não falhando em encontrar livre passagem devido ao excesso vergonhoso de lubrificação, ameaçando dedicar-se meu ponto-g repetidas vezes. – Sim, JeongGuk!

Minha cabeça atinge os travesseiros que exalam o seu perfume, o cheiro maravilhoso somado aos os dedos que me estocam e o sua digital que circunda meu clítoris... Céus! E por mais que doa admitir, JeongGuk sabe exatamente o que está fazendo comigo ao ponto de meus dedos dos pés se apartarem. Meu coração acelera e assim um nó apertado se forma em meu estômago, ameaçando romper no mais simples ato que ele emprega elevando-me a completa êxtase. Um som sôfrego me escapa quando pressiona um selar gentil no vale de meus seios, adicionando mais um digito dentro de mim e oferecendo-me o delicioso ardor que é rapidamente consumido pelo prazer. Jeon suspira contra minha barriga, descendo os lábios por ela e acelerando os dedos, uma cortina de fios negros cobrindo seus olhos. O tremor de minhas pernas não é ignorado, dando indícios suficientes do orgasmo que se aproximava para JeongGuk remover-se de mim.

- Não, não... – Lamento quando o ápice dissipa, me cercando em um sentimento de abandono quando meus músculos internos se flexionam ao redor de nada e a sensação febril de minha pele se resume a um simples suor pós-coito. Estou tentando controlar minha respiração quando sua respiração afana minha intimidade meio segundo antes de pressionar um beijo em meu clítoris e Jeon praticamente derreter meu corpo outra vez. – Porra, JeongGuk... – Ele sorri ao resvalar a língua sobre o botão e se afastar. Quero chorar pela provocação e lhe estapear.
Maldito Jeon.
- Na próxima, . – Promete com um tapinha em minha coxa. – Agora eu realmente preciso foder você.

Observo pacientemente enquanto remove o cinto de couro e a calça. Seu corpo é musculoso o suficiente para que eu veja uma cadeia generosa de músculos se flexionarem ao empurrar o jeans para baixo. Trajando apenas uma boxer, posso ver seu membro marcado no material fino - tão deliciosamente grande quanto me lembrava. Definitivamente vai me oferecer o leve ardor que preciso e desejo deste ontem quando tudo começou. Aproximando-se outra vez, ele remove a estúpida e última camada de roupa, enfim nu diante de mim e não posso evitar me erguer com os braços trêmulos. Jeon envolve a destra na base de seu membro, dando algumas boas apertadas e caricias no mesmo.
Me movo para sentar-me de joelho, correndo a língua por meus lábios ao esticar a mão para tocá-lo igual fiz ontem. O suspiro que deixou o peito de JeongGuk é quase criminoso, os cílios escuros fechando-se quando segura em meu pulso para impedir-me de ir tão longe. E outra vez, seu pau é quente e duro, uma veia latejando em minha mão enquanto a glande rosada lacrimeja uma gota de pré-gozo. Quando busco o seu rosto, JeongGuk está olhando diretamente para mim, a mandíbula apertada.
Não posso suportar o intuito de o provocar e envolvo meus lábios ao redor de sua glande morna e avermelhada, provando do líquido salgado e levemente leitoso. Estou me inclinando para tomar mais de sua extensão em minha boca quando seus dedos encontram meu cabelo e me afastam, um suspiro dolorido lhe escapando ao pender a cabeça para trás pois a distância é inconveniente tanto para ele quanto para mim. Só agora tomo consciência de sua respiração irregular e o efeito que tive em uma ministração tão rápida.

- , eu ficaria tão puto se gozasse na sua boca e não em você... – Jeon ameaça ao tornar a me olhar, respirando fundo e indicando a cama com o queixo. – Deita.

Mordendo o sorriso que insistia em me escapar pelo claro poder que tenho sobre ele ainda tão breve em nosso acordo, me acovardo com seu tom dominador mesmo ciente que apenas serve para me deixar ainda mais molhada e não causa medo algum, apenas expectativa. Jeon me acompanha conforme subo mais na cama, e toma posse se minhas pernas, agarrando-as por trás de meus joelhos e as afastando ainda mais. Então, outra vez, parece enfeitiçado por minha imagem tão vulnerável e implorando para ser preenchida por ele.

- Quando vai estar livre de novo? – Ele questiona. – Eu preciso comer você, . – Arrepios quentes atravessam meu corpo quando pressiona seu membro em minha entrada molhada. E então para por um segundo para buscar meus olhos turvos pela excitação. Com minha mente enevoada, me surpreendo pela gentileza em pedir por minha autorização e consentimento outra vez, mesmo que tivéssemos um acordo.
- Quinta-feira e por favor, JeongGuk... – Suspiro ao assentir, prendendo as mãos em minhas pernas e as mantendo o mais abertas que consigo para recebê-lo da forma que quiser.
Seus lábios vacilam em um sorriso com o gesto.
- Você vai me matar.

Quando me adentra devagar, preciso de um momento para me ajustar, o calor borbulhando por baixo de minha pele gerando mais gotículas de suor. O simples mover de seu quadril me faz perder o ar, o mais puro tamanho de JeongGuk me eleva centímetros do céu. Seu rosto se pressiona em meu ombro, a cabeça fraquejando e lufadas de sua respiração servindo apenas para piorar o calor da excitação em mim. Tudo ardeu por breves segundos necessários para o prazer tomar conta e meu quadril escorregar para encontrar o seu ainda mais, arrancando-me um arfar e um suspiro pesado de Jeon.

- Porra... – Fecho os olhos com seu grunhido, meus lábios se partindo em um gemido mudo quando desliza um pouco para fora. Encontro seu ombro no escuro e finco as unhas ali, sentindo como sua respiração também está acelerada. A pressão que segue se espreguiça para cada ponto de meu corpo, ainda mais quando seus dedos se curvam em minhas mãos e a destra de JeongGuk as mantém erguidas acima de minha cabeça, pressionando mais alguns centímetros adentro antes de se remover. Jeon permite que eu me ajuste, os gemidos misturados ecoando pelo quarto – Está indo muito bem, , tão apertada...

Quando se retira devagar, seu nome está na ponta de minha língua e eu a mordo no segundo que retorna, o toque macio e aveludado de seu membro combinado com minha excitação escorregadia sendo muito mais que carnalmente divino. O ouço xingar quando agarra minha coxa, alternando entre gemidos apertados e profanidades conforme transita de um cuidado gentil até estocadas precisas e profundas, adaptando-se a um ritmo firme para me foder contra sua cama. O prazer tira meu ar, uma pressão que me preenche de maneira tão satisfatória que quase me perco para gozar no instante que acelera.
Quero tocá-lo. Quero beijar a curva elegante de sua garganta e mordiscar sua pele, porém JeongGuk se mantém firme e não permite que eu o toque, concentrado apenas em meu prazer. Seus dedos cruzam meu estômago até mergulharem entre minhas pernas onde estamos conectados, subindo um pouco e finalmente massageando meu clítoris inchado com destreza e habilidade.

- Bem aqui, não é? – O maior respira fundo ao perceber como reajo, encolhendo meu ventre e arfando como a provocação a mais. – Agora sim, , agora eu deixo você gozar. – Silvou no instante que o aperto com mais força entre minhas paredes, arfando com o estímulo extra junto a ele. Meus olhos se fecham pois cada músculo meu está apertado, todos expectantes e exasperados pelo ápice que parece tão perto que posso senti-lo borbulhar em minha mente. – Quase lá...
- Eu te odeio–ah ! – Uma estocada severa corta minha reclamação. Era uma mentira, é claro. Seu pau é perfeito e é delicioso o ter em mim desta forma, ao ponto que francamente estou incerta se serei capaz de não me apaixonar por seu dono só pelo sexo incrível.
- Mentirosa. – Jeon beija meu seio e sobe para minha boca.

Nossos dentes se apertam durante o beijo, desmedidos pela força de seus movimentos e a forma que meu corpo os absorve, a posição auxiliando para que vá ainda mais fundo. Preguiçosamente envolvo seus quadris com minhas pernas e ele está sorrindo ao mordiscar meu lábio quando estico a cabeça para traz, gemendo de maneira muda enquanto JeongGuk desenha círculos invisíveis em meu clítoris, o fortalecimento do clímax me deixando tonta.
Com o ventre apertado de maneira ansiosa, a combinação de seus dedos e membro pulsam por meu corpo ao atingir o nível ideal que me lança até o ápice do prazer. Quando Jeon percebe aonde chegou, ele não perde mais segundo nenhum. Desta vez, avança sedento para que seu prazer se complete junto ao meu, finalmente soltando-me e mantendo minhas pernas trêmulas abertas para facilitar suas estocadas e em poucos segundos suas ações se tornam mais pesadas, carregadas de uma urgência por seu próprio prazer, me levando junto a si para o orgasmo que pode ser o melhor de minha vida.
JeongGuk parece com o próprio deus do sexo acima de mim; suor escorrendo por sua face angelical, as ondas longas e escuras de seu cabelo cobrindo-lhe os olhos, corpo tatuado reluzindo e músculos flexionando cada vez que seus quadris encontram os meus. Ele é o homem mais bonito que já vi, minha mente garante, cabeça pesada e enevoada pelo – definitivamente – melhor sexo da minha vida, a dopamina pulsando por minhas veias como nunca antes.
E desta vez eu sei que não há mais volta.



Capítulo VI

A primeira coisa que ouço ao acordar é o som da voz de JeongGuk.
– Senhora Lee, não sei se pode me entender – Ele está no closet a esquerda da cama, exatamente para onde estou virada quando abro os olhos, estes ardendo pela luz amarela forte que emana do cômodo. – mas eu estou com agenda cheia hoje. Não há possibilidade alguma de levar o SeoJun comigo para o estúdio. Além de ser completamente não sanitário porque meu filho coloca qualquer coisa na boca, eu não vou poder cuidar e dar a atenção devida a ele. – JeongGuk soa esbaforido, como se estivesse cansado do assunto. O tatuador fica em silêncio por alguns segundos. – O SeoJun precisa de cuidados que minha secretária não vai poder dar, senhora Lee. Tenho dois clientes VIP hoje, a última coisa que eu preciso é pedir para Bang YoongGuk segurar o meu filho enquanto faço uma tatuag... Não, senhora Lee! Não tem como!
Por ele estar em ligação com alguém, imagino que já deve ter amanhecido. Ergo meu corpo com certa dificuldade, recapitulando os “rounds” que fizemos na noite anterior com meu rosto quente. Apoio a cabeça no encosto, esticando as pernas para ativar a circulação e tentar despertar mesmo sem luz natural nenhuma devido as cortinas pesadas que cobre as janelas. O relógio próximo a cama já marca seis e quarenta da manhã, um pouco mais cedo que eu acordaria em um dia de clínica, mas não reclamo. Meus olhos pesados também recaem sobre a caixa dourada perto do abajur, esta responsável por um reflexo na colcha. E também por evocar memórias deliciosas da noite de ontem.

FLASHBACK ON:

– Vamos ter que parar com essa aqui, .
Estou tentando recuperar o ar quando JeongGuk me dá a má notícia, sua mão acariciando minha bunda enquanto a outra afasta o cabelo grudado em meu rosto. Engulo em seco, sem forças para lhe provocar mais. Jeon também está ofegante após seu ápice que escorre por minha barriga, suor brilhando em seu peito onde me apoio e voz rasgada quando fala. A carga de dopamina dos meus incontáveis orgasmos é absurda, martelando em minha cabeça e já dando sinais de uma enxaqueca bem-merecida. O tatuador se senta propriamente na poltrona e me acomoda melhor em seu colo, não ousando mover-se demais pois seu gozo está escorrendo por mim e pode acabar no móvel.
– Por quê? – Questiono quando recobro as forças, correndo um dedo na área abaixo de meu umbigo para recolher um pouco do líquido leitoso e levá-lo preguiçosamente a boca, os olhos escuros de JeongGuk seguindo cada passo do processo e se fechando em complemento a um sorriso canalha que ele abre. Aprovo o seu sabor apesar de não ter tido chances de provar da fonte mesmo com todo nosso reservoir. – Não aguenta mais? – Provoco e beijo seu queixo, sentindo sua respiração. – Não acredito eu que quebrei meu novo brinquedo favorito.
JeongGuk finaliza a distância entre nossos lábios com a mão segurando minha mandíbula, esta logo tomando minha nuca para aprofundar o beijo. Deixo que sua língua invada minha boca, escavando atrás de qualquer sabor novo que não tenha provado mesmo com mais de duas horas neste ritmo frenético entre fodas e pausas momentâneas que envolveram ele me largar de quatro exausta para ir receber a pizza que havia encomendado. Agarro seu cabelo entre os dedos, os fios úmidos de suor igual todo seu corpo. JeongGuk ainda tem um sabor doce apesar de tudo, deliciosamente confortável ao ponto que duvido que um dia irei me fartar de seus lábios. Cruzo os braços exaustos em seu pescoço quando o selar termina e ele acaricia minha costa realmente dolorida de todo o esforço.
– Me sinto usado quando chamado de brinquedo, Dra. . – Reviro os olhos e me arrependo de imediato, a cabeça já doendo. Jeon belisca minha coxa com uma risada baixa. – Mas, vale lembrar que usamos a última camisinha quando transamos na cozinha e que fomos na sorte agora. – Encosto a bochecha em seu ombro ao suspirar. Ele está certo. – E fora o fato que estou surpreso e honrado por ter sido a sua primeira vez dando por trás, – É a minha vez de lhe beliscar e eu escolho sua cintura. JeongGuk se remexe. – você precisa descansar.
– Cagão. – Murmuro com a boca roçando sua clavícula. Aperto os olhos com força quando defere um tapa em minha bunda. – Dizer que não vamos mais transar e bater na minha bunda é mandar sinais muitos distintos, Jeon. Tortura psicológica, eu acho. – Ele amacia onde havia me castigado com uma risada vibrando em seu peito. – Obrigada, me sinto bem cuidada. Faltou só um beijinho para completar.
– Beijar a sua bunda e não te foder que é tortura, . – JeongGuk retruca. – Tá, se segura que você ainda deve estar com as pernas bambas. – “Convencido”. Ele ignora minha outra resposta atrevida e nos ergue da poltrona.
Jeon me deixa deitada na cama bagunçada e eu faço o favor de arrumar alguns travesseiros que estavam espalhados, puxando um para trás da cabeça. Com a posição, posso observar enquanto molha uma toalha pequena com água morna da pia, usando-a para limpar os rastros de nossos orgasmos que estavam em seu membro e coxas fartas. Fecho os olhos pacientemente, tentando manter em mente que ele está certo e que por hoje já nos exaustamos demais. Ouço quando a toalha é jogada no cesto de roupas e quando a torneira soa de novo, distraída demais com meu cansaço até que sentisse algo morno entre minhas pernas. Quase dou um salto e abro os olhos, olhando confusa para JeongGuk que está com o joelho apoiado na beirada da cama e usa outra toalha para me limpar.
– O que está fazendo, Jeon? – Murmuro preguiçosa, percebendo como evita usar muita pressão. – Não disse que já tínhamos terminado?
– Limpando você? – Responde o obvio que não havia me ocorrido até o momento. Normalmente, sou eu quem me esgueiro para o banheiro e faço isso, parceiro algum tendo se preocupado com tal coisa. – Tem que ir ao banheiro também, . – Seu cabelo está grudado na testa pelo suor, as tatuagens em seus braços também reluzindo e eu o odeio por parecer tão delicioso enquanto fala sobre xixi. – Infecção urinária é uma merda.
Engulo em seco e assinto, não me demorado em levantar-me quando ele termina e indo fazer o que indica. Quando finalizada, lavo o rosto e as mãos, voltando para o quarto apenas para encontrá-lo retornando com uma moringa de água e uma calça de moletom.
– Não sabia que tinha assinado o pacote de luxo. – Brinco com um sorriso que ele corresponde.
– Melhores orgasmos da sua vida, pizza e água. É. Pode dizer que eu sou o pacote de luxo. – JeongGuk dá de ombros presunçoso e me olha estranho enquanto procuro por minhas roupas pelo quarto. – Seu vestido está na sala, . – Ele clarifica quando visto minha calcinha ainda sentada na cama. – Já vai? – Questiona e é a minha vez de lhe olhar estranho. Ele ainda está parado de pé ao lado da cama, mãos dentro dos bolsos. – O pacote de luxo costuma incluir café da manhã e despertador programado, sabia? – É possível que minha expressão tenha se agravado e ele ergue a sobrancelha demonstrando confusão. – O quê?
Balanço a cabeça, tentando entender a ideia.
– Nada, eu só não imaginei que você fosse o tipo que deixasse alguém dormir na sua casa depois de transar. – Balanço a cabeça, deveras convencida de cair no sono em uma cama tão confortável. – Ou fosse do tipo de fazer café da manhã. – Jeon revira os olhos e se senta também. – Isso acaba por me deixar preocupada com a segurança do SeoJun com estranhos passando a noite aqui.
Ao se deitar, ele desdobra o edredom giz que eu não tinha percebido ter sido colocado ali, abrindo meus olhos para como já removeu a colcha da cama onde suamos e também me arranjou um edredom. Estou deveras surpresa.
– Para ser bem sincera, isso quase nunca acontece, mas como é você, não vejo problema. Não tem muita coisa aí que eu não já não tenha visto mesmo. – Gesticula pra mim enquanto me enrolo com o cobertor e deito-me ainda sem sutiã. É a minha vez de revirar os olhos. – E eu contratei uma padaria que entrega combos de café da manhã todos os dias, então se não tiver problemas em dividir um omelete, não vai me dar trabalho algum. – Concordo com a cabeça outra vez, estupidamente surpresa por JeongGuk ter a vida no lugar. – Ah, a porta do SeoJun só abre pelo meu celular ou um botão debaixo da gaveta aqui – Gesticula para a mesa de cabeceira. – então não tem problema.
– Logo quando eu achava que você não podia ficar mais sexy, Jeon JeongGuk... – Coloco a mão no peito e ele ri infantil, encarando o teto acima de nós. Me deito de barriga para cima também, coberta dos pé a cabeça e com um sorrisinho tolo no rosto. – Preciso estar no hospital as oito e meia, então pode me acordar às sete e trinta? – Jeon assente e clica alguns botões no seu despertador antes de erguer um joinha para mim. Mais acomodada nos lençóis maravilhosos, fecho os olhos. – Boa noite pra você, Jeon.
Posso ouvir o sorriso em sua voz quando responde:
– Boa noite, .
FLASHBACK OFF:

– O que aconteceu?
Questiono sonolenta ao tentar me erguer da cama quando JeongGuk atravessa o quarto, largando o celular no closet. Ele está lindo, preciso admitir. A calça baixa nos quadris revelando sua trilha feliz, o cabelo selvagem e a boca apertada em clara irritação.
– Uma das professoras do Jun está com um resfriado, então a diretora da creche me ligou para avisar que vai suspender as turmas por uma semana. – Grunhe e se senta ao meu lado. Não me movo quando pressiona um selar de raspão em minha boca, suspirando exausto em seguida. – E eu estou com a agenda lotada. Não dá para levar ele comigo ao estúdio.
Esfrego meu pescoço dolorido e volto a deitar.
– Não disse que ia fechar o estúdio hoje? – Murmuro com preguiça.
– Vou fechar para atender um cliente. Uns clientes, na verdade. – Responde ao me imitar, acomodando-se melhor e cruzando os braços atrás da cabeça. – Bang YongGuk do B.A.P quer terminar de fechar um braço e vai levar a namorada e um amigo para fazer algumas. – Já conhecendo a sua lista de clientes VIP, não me surpreendo com o rapper indo se tatuar com ele. – Depois a Amber Liu quer se reunir comigo para decidir uma nova e eu estou atolado de trabalho. E sem alguém para cuidar do SeoJun.
Pondero sua situação por um segundo.
– Eu levo o Jun comigo para o hospital. – Ofereço, apoiando-me na cama para o olhar melhor. Jeon, que estava com os olhos fechados, abre um para mim. Dou de ombros. SeoJun não seria um problema, afinal como estou na clínica hoje, poderei ir lhe visitar sempre que estiver sem pacientes. – Abriram uma creche recentemente e como eu sou médica, posso mentir que sou madrinha dele ou algo do tipo, aí ele passa o dia lá. As professoras são muito boas. – JeongGuk se senta e assente com a cabeça. Lhe dou um sorriso, coçando os olhos ao sentar-me também. – Cadê aquele café da manhã, hein? – O tatuador pressiona um beijo rápido em meus lábios e eu estapeio seu braço após ele beliscar meu mamilo ao aproveitar-se que estou sem sutiã. – Infeliz!
Jeon se levanta após repetir o ato quando um som agudo ecoa pelo corredor.
– Café está na mesa e o Jun acordou. – Informa quando o chuta para fora da cama com o pé em sua costa e mão cobrindo meus seios expostos. – E, de novo: não tem nada aí que eu não tenha visto, agarrado ou lambido. – Pisca antes de sumir e me arrancar um sorriso satisfeito demais para sete da manhã. – Bom dia, por falar nisso!

*

SeoJun está com a mãozinha ao redor do meu dedo enquanto coloco a comida em sua boca, o mantendo quietinho e sentado no meu colo para que almoce. O bebê balança os pezinhos ao comer, a cabeça apoiada em meu peito. Não deixo de dar um beijinho em sua cabeça sempre que posso, me divertindo tanto quanto fazia na infância ao brincar com bonecos e de casinha. Após uma conversa rápida com uma das coordenadoras da creche hospitalar, Jun foi admitido para passar o dia e assim que voltei para lhe visitar minutos atrás, ele se divertia com blocos de empilhar coloridos. Obviamente, meu coração esquentou com o sorrisão do bebê ao me ver e eu não pude deixar de auxiliar as professoras e lhe alimentar.
– Doutora , é você?
Ergo a cabeça curiosa apenas para flagrar um dos sorrisos mais bonitos que já vi se formar diante de mim. Kim JaeJoong se senta na outra cadeirinha vaga na mesa de SeoJun, a pequena Kim Sarang em seu colo da mesma maneira.
– Doutor Kim, como vai? – Cumprimento com um sorriso ao dar mais uma colher de purê para Junnie, logo acenando para sua filha que olha para tudo maravilhada apesar da pouca idade. – Olá, Sarang! – A garotinha me olha e enterra o rosto no pescoço do pai. Nós rimos de sua timidez.
JaeJoong é o chefe de cirurgia fetal do hospital e foi meu residente assim que cheguei em Seoul, um dos principais responsáveis por minha escolha de seguir com a pediatria. Havíamos conversado várias vezes durante os anos desde que fui de sua interna até me tornar atendente, sempre comentando sobre me permitir seguir seus passos e até mesmo trabalhar em sua clínica particular.
– Não sabia que também tinha um filho. – Ele ri, apertando o pezinho de Jun. – E aí, campeão? – Meu rosto esquenta. – Garotinho fofo, . – Kim me dá um sorriso ao balançar a filha no joelho. – Meus parabéns atrasados, Dra. . – Não tenho coração para lhe contrariar, não com SeoJun me olhando com os lábios sujos de purê de ervilhas e um sorrisão com três dentinhos.
Limpo seu rosto e dou um beijo na testa do bebê.
– Obrigado, Dr. Kim.

*

– Ah, finalmente te achei! – SeoHyun sorriu quando deixei a creche logo depois que SeoJun se deitou para a soneca da tarde. Minha amiga veste um pijama cirúrgico verde por baixo do jaleco e segura um copo cheio de café para mim. – O que estava fazendo na creche? – Indaga enquanto avançamos pelo corredor. –Ah, vem comigo. Vamos sentar que eu quero falar com você.
Meus saltos ecoam no chão, diferente de seus tênis brancos.
– É uma pergunta relativa. – Dou risada antes de bebericar do café muito doce, afinal, Seo sempre exagera no açúcar. Considerando sua reação ao ver Jeon ontem e também me ver com Junnie, me indago como reagiria se eu lhe contasse que estava ajudando JeongGuk com o bebê. Decido não mencionar nada disso. – Por que estava me procurando, Seo?
Ela ri e me dá um empurrãozinho com o ombro.
– Vim perguntar como foi tudo com o tatuador ontem. – Explica-se sorrindo.
Nos sentamos em uma mesa no refeitório, este bem próximo da creche. O seu interesse é genuíno e ela está tamborilando os dedos na mesa enquanto me espera falar, muito mais satisfeita com meu “relacionamento” com JeongGuk do que havia parecido ontem. Sei que há algo estranho em sua linguagem corporal e posso ouvir a borracha de seu sapato chiando no piso, alertando-me que ela está tremendo a pena em um sinal claro de ansiedade. Ainda assim, sou grata por ao menos importar-se em me ouvir antes de me estourar de nervosismo com algo que claramente quer contar-me.
– Foi ótimo. – Respondo ao erguer a manga da blusa social que visto, fechada até o último botão para esconder as marcas que JeongGuk deixou em minha clavícula. – Nós jantamos, conversamos e transamos. – SeoHyun balança a cabeça com um sorrisinho, ciente que eu não lhe ocultaria nada se não pedisse. – Mas, tinha uma coisa me incomodando, sabe? – É mentira. Não me incomodei com nada a noite inteira até que Jeon comentasse hoje pela manhã que “a namorada do grandão ficou nos olhando meio estranho no hospital” enquanto vestia SeoJun. Seo se senta melhor para poder me dar atenção. – A forma que você ficou olhando o JeongGuk e o SeoJun ontem a noite me incomodou, Seo. – Uma sombra compreensiva cruza os seus olhos e ela assente, entendendo o que quero dizer. Sua sinceridade ao compreender a falha é belíssima e imagino que talvez esse seja a seu assunto a tratar. – O que aconteceu naquela hora?
– Bom, você saiu correndo para abraçar uma criança na frente de todos do hospital... – SeoHyun segura o café com ambas as mãos. – Não parou para falar comigo, com o SeokJin ou o JaeBum. Claro que não tem obrigação alguma de falar com o Im e eu te apoio em ignorar ele, mas... – Seus lábios se curvam e ela desvia os olhos para a mesa vazia ao nosso redor. – Você sabe que eu te amo, não sabe? – Quando vira o rosto para mim, há um rubor delicado em suas bochechas e orelhas. Eu assinto de imediato. – E eu só quero que seja feliz, muito feliz. Porém, eu lembro como foi tudo com o JaeBum, .
É a minha vez de suspirar por lhe entender.
– Ele partiu o seu coração e eu nunca vou ser capaz de perdoar aquele cara pelo que fez, da mesma maneira que tenho dificuldade em me perdoar por jamais ter te alertado sobre ele. – Toco sua mão e ela segura a minha com carinho, olhando em meus olhos. – Só não quero que isso se repita de novo, sabe? Não quero que outro idiota venha e te machuque. – Concordo com a cabeça, agradecida que se importe com meu bem-estar ao ponto de sentar-se e conversar, o que não é do seu feitio. – Eu sei que brinco muito; dei maior apoio para você ficar com o Jeon, realizar todos os seus fetiches com ele... Só que tudo o que faço é com um pé atrás pelo seu bem. Se não posso impedir que um imbecil se aproxime de ti, o mínimo que posso fazer é ter forças para te afastar na hora certa.
– Eu sou a pessoa mais sortuda do mundo por te ter como anjo da guarda, sabia? – SeoHyun parece mais aliviada, agradecida por eu a ter ouvido com atenção e sem desrespeitá-la. Sei que ela está certa em tudo o que fala. Que eu posso estar seguindo no mesmo caminho que fui com JaeBum. Mas ao mesmo tempo, me sinto bem com o que está acontecendo. Gosto de ir para a casa de JeongGuk antes de ir para a minha quando chego no prédio, brincar com o Jun enquanto seu pai toma banho e inverter tudo quando ambos vão para minha casa. – Seo, eu sei que está aqui comigo para me proteger, mas... Mas eu gosto do que estou fazendo, sabe? O Jeon é um bom amigo e o SeoJun é um amor.
Ela concorda, mordendo o lábio.
– Tenho total noção que talvez eu vá quebrar a cara no fim de tudo, é claro. Porém tem a possibilidade de isso não acontecer e eu não quero que isso acabe. Esse sentimento de lar é o que tanto estava faltando na minha vida, entende? – Aperto seus dedos para dar ênfase no que falo. – Você conhece a história dos meus pais, sabe que eles eram infelizes e a vida em Busan era um inferno. Que um dos dias mais felizes da minha vida foi quando a minha mãe saiu de casa. E agora eu tenho uma chance de ir para o meu apartamento e o Jeon e o SeoJun estarem lá. – Preciso me segurar para não sorrir. – Antes de decidirmos transar, eu já tinha certeza de que não ia dar para trás da nossa amizade. Nós nos sentávamos no sofá, colocávamos o Jun no cercadinho e assistíamos televisão comendo qualquer coisa. E eu gostava da rotina.
– Você gosta de ter alguém em casa, não é?
– Sim! – SeoHyun sorri quando eu assinto. – Nossa, SeoHyun, é tão bom!
Ela bebe um pouco do café, erguendo a sobrancelha.
– Tem que lembrar que o “Jeon” é uma pessoa, . Um adulto que provavelmente de fodeu tão gostoso que te deixou toda boba. E, ainda mais importante, ele é um pai. Tem uma criança no meio disso. – SeoHyun me relembra com seriedade e eu assinto. Eu jamais faria algo para machucar os dois, porém a ouço atenta, certa de que posso ter ido com muita sede ao pote. – Você não pode brincar de casinha com os dois assim e depois cansar. Sei que vive falando que nunca vai ter filhos para não repetir os erros dos seus pais e era engraçado antes de você arranjar o JeongGuk. Seria crueldade viver seus sonhos de uma “família normal” com os dois e depois dar no pé.
Cutuco meu copo.
– Normalmente não sou em quem dá no pé nos relacionamentos.
– Sei que não. Porém, sei que é uma possibilidade e ter algo com alguém com filhos é muito mais complicado que qualquer namoro. Só quero que se lembre disso e não seja você quem vai acabar partindo o coração alheio. – Concordo com a cabeça, entendendo onde errei. Principalmente onde errei hoje ao comparar alimentar SeoJun como brincar de bonecas e casinha. SeoHyun está certa. – Não faço a mínima ideia se o JeongGuk está só na farra como você, , mas acho que é bom você se manter atenta. E se quer mesmo esse sentimento de família, não seria melhor ser com alguém também interessado em contruir uma contigo? Não só transar ocasionalmente com o cara e brincar com o garotinho, mas ter uma conexão real.
Fico em silêncio por um tempo, lidando com o tapa na cara da realidade.
– Você quer brincar de casinha com o JeongGuk ou quer algo real, ?

*

Pressiono o botão do elevador com o cotovelo, um braço ocupado ao carregar SeoJun e o outro com minha bolsa e a mochila com todos os itens do bebê pois seu pai recusa-se a comprar uma bolsa normal para fraldas que não seja preta. Pensar em JeongGuk me deixa ansiosa após minha conversa com SeoHyun. Enquanto estou na caixa de metal descendo para o térreo, seguro SeoJun perto de meu corpo, dando uma boa olhada em seu rostinho e as bochechinhas. Ele havia perdido a cabeça quando cheguei na creche, balançando os braços e pulando no colo da professora. Um vibrar em meu bolso chama minha atenção e eu consigo sacar meu celular do bolso.
– Olha, Junnie... – Beijo o rosto da criança. – É seu pai, meu amor.
[JungKook do 1009]
[19:12]
Estou esperando vocês no lobby.
[19:12] Comprei comida p/te agradecer por cuidar do Jun.
[19:13] Mas se você quiser colocar outra coisa na boca... ;)
– Peste. – Sussurro para o aparelho e jogo em minha bolsa.
SeoJun se agarra em meu pescoço, já sonolento por estar perto de sua hora de dormir. Um ding soa no elevador e eu beijo sua cabeça, o balançando por não poder fazer carinho com a outra mão. O garotinho boceja em meu ombro quando as portas se abrem no terceiro andar e mais alguém entra e não me atento muito. O elevador lento volta a descer enquanto brinco com SeoJun e eu só paro quando desvio minha atenção dele para olhar quem tinha entrado, um peso caindo em meu estômago quando percebo os olhos arregalados de Im JaeBum focados no bebê.
JaeBum está pálido como uma folha de papel e sua boca está aberta em horror, o pijama cirúrgico escuro o deixando quase da cor das meias de SeoJun. Em um reflexo, pressiono Junnie com mais força contra mim, não querendo que pouse seus olhos em meu menino mais que o necessário. Fazendo as contas, posso entender o seu susto. Talvez, se contar desde nosso término e mais os nove meses de gestação, SeoJun só teria de ser alguns meses mais velho para ser nosso filho. O seguro com mais força quando compreendo o raciocínio temeroso do cafajeste.
– Isso... – Aponta para a criança como se ela tivesse criado uma segunda cabeça. Uma fúria sobe por meu corpo só de imaginar o que está pensando. – Ele é meu? – A voz de JaeBum falha, saindo rasgada pelo medo que deve ter congelado seu corpo. E por um segundo, eu me delicio com seu temor.
Um outro ding alerta que chegamos ao térreo e eu ignoro a pergunta de meu ex enquanto posso, prolongando sua ansiedade para tentar satisfazer o buraco que deixou em meu peito anos atrás. Na neblina de raiva e mágoas, JeongGuk surge ao longe, erguendo-se da poltrona onde se sentava com um sorriso enorme ao nos ver. SeoJun, ainda sonolento, balança o bumbum para acomodar-se melhor, chamando minha atenção e agarrando o colar em meu pescoço com os dedos gorduchos conforme se move. E JeongGuk está se aproximando ainda sorridente, tão belo que eu odeio que JaeBum tenha arruinado um bom dia com sua presença.
– Não. – Finalmente respondo. Antes de saltar do elevador, pressiono o botão para o oitavo andar e aquele outro que fecha as portas imediatamente que usamos em casos de emergência. – Eu não teria mantido se fosse seu. – Respondo antes das portas fecharem. A cara de Im JaeBum é impagável.
Lembrar-me de JaeBum é apenas um reforço para que eu beije JeongGuk assim que ele se aproxima como fez ontem e eu tive vergonha de fazê-lo. Sua mão pousa em meu ombro apesar do breve e casto selar e assim que ele se afasta, suas sobrancelhas estão apertadas juntas ao pegar a mochila do filho. Ele me questiona o que houve, mas não tenho coragem ainda de lhe contar que, apesar do que SeoHyun me alertou, eu escolhi manter minha casa de bonecos.



Capítulo VII

De: Número desconhecido [19:43]
Querida, é a mamãe!
Para: Número desconhecido [22:19]
Acho que eu venderia meu diploma para você ter mandado essa mensagem para a pessoa errada.
Oi, HwangBo.

De: Número desconhecido [22:32]
Aprendeu a ser um doce com o Jiho.
E eu pensando que ele havia feito um mínimo de esforço em cria-la bem.
De qualquer forma, estou indo para Seoul e queria ver você.
Estava pensando em um jantar na sua casa.
Para: Número desconhecido [22:33]
Pelo visto ainda sabe se autoconvidar para eventos.
OK.
Quando vai vir?

De: Número desconhecido [22:36]
Estarei aí na sexta-feira!
Mamãe está morta de saudades, querida <3
Para: Número desconhecido [22:43]
Que dieta está fazendo dessa vez?
Não quero ficar a tarde fazendo comida e você me pedir para passar tudo no liquidificador de novo.

De: Número desconhecido [22:43]
Vegana e celíaca.
Para: Número desconhecido [22:47]
OK.

De: Número desconhecido [22:48]
Te vejo sexta!
Para: Número desconhecido [22:49]
Tchau, mãe.

*
– E você vai dar um jantar para a Bruxa Má do Oeste?
Concordei com a cabeça, ainda concentrada em acabar com o meu pequeno paciente. É um garotinho adorável que se meteu com um cão grande e bravo demais. Foi um procedimento rápido e não precisou de sala de operação, contando com Jimin para suturar a orelha do garoto de volta com a maestria que só um cirurgião plástico tem, e eu precisei fechar alguns cortes espalhados por seus braços. Como estou de plantão na emergência, fui a única pediatra a ser chamada e tive de largar minha pesquisa aberta na sala de repouso para ajudar o baixinho.
– Claro que vou. – Respondo com um sorriso enorme. A sutura está tão linda! Com sorte, deixará uma cicatriz quase imperceptível. A pele de criancinhas tem mais colágeno que a de adultos. – Só assim ela larga do meu pé e volta daqui a um ano de novo.
Jimin suspirou pesadamente por trás de sua máscara, estralando a costa ao aproximar a luz de apoio para ter uma visão melhor da orelha da criança. Os pais foram rápidos e conseguiram a armazenar corretamente e trazer para nós e ela ainda está em uma bacia com gelo enquanto Chim termina de limpar a área.
– Recomendo que mude o seu número assim que ela sair da tua casa, . Ninguém merece aquela mulher. – Me sento e deixo a agulha, pinça e linha sobre a bandeja, embalando para que sejam removidas pelas técnicas depois. – Eu não sei como o JiHo aguentou ela por tantos anos.
– Ele aguentou porque pensou ser o melhor pra mim. – Explico-me, relaxando no banquinho. – Se fossemos contar o número de namoradas que o meu pai teve em uma tentativa de me arranjar uma mãe decente... – Suspiro com exaustão. Foram tantas. Tantas “titias” que se apresentavam e depois nunca mais voltavam ao saber que JiHo tinha uma filha. Não consigo imaginar como foi difícil para ele e ainda é. Um pai bipolar e depressivo e uma mãe jovem e imatura não foram uma boa combinação, por isso o divórcio. – Cada mulher que ele trazia para casa era essa possibilidade nova, sabe? – Olho para meu amigo, tão concentrado que talvez nem me escute. – Eu lembro que fazia esses desenhos... Meu pai e eu, além de qualquer uma que ele namorasse. Loira, ruiva, baixinha, gordinha... Aí ele desistiu e ficamos só nós dois.
Removo minhas luvas e as jogo no lixo biológico.
– Isso do seu pai e as namoradas me lembra muito o Jeon. – Jimin se levanta com elegância e vai na direção da bacia, removendo a orelha já limpa e desinfectada para começar o processo de a colocar no lugar. Ergo a sobrancelha, já interessada no assunto. – Você se envolvendo com ele e agindo como mãe do caga fraldas. – Ele murmura ao sentar-se de novo com um exalar profundo. Quero lhe corrigir e dizer que não, não sou mãe do SeoJun mas não tenho coragem ou tempo de fazê-lo antes que o moreno olhe para mim. – Ontem, durante a reunião com o doutor Bang e o desmiolado do JaeBum, o Im perguntou sobre a “sua gravidez”. – Quero esganar meu ex-namorado no mesmo instante. – Todo mundo riu e ignorou, mas eu sei que você trouxe o dentuço para o hospital ontem.
– Dentuço? – Questiono confusa.
Conheço o motivo da reunião com Bang SiHyuk, o chefe de cirurgia do hospital. Tanto Jimin quanto JaeBum precisavam se reinseridos nas planilhas e discutir salários pois voltaram para cá após tanto tempo fora. Mas não entendo como JaeBum podia ser tão tolo ao indagar nosso chefe sobre uma gravidez. Sei que dei a entender ser a mãe de SeoJun, mas ele não deveria querer saber sobre meu pequeno. Não quero que Im arruíne meu pequeno pedacinho de paraíso.
– É. O cagão já tá com os dentes iguais os do pai. Parece um coelho, segundo o Yoongi. – Tenho certeza de que meu amigo está sorrindo por trás de sua máscara. Ele sempre envolve o namorado em qualquer conversa, orgulhoso demais após apresentá-lo para nós. – Mas a parte importante é: você está sendo como uma mãe pro menino e isso é lindo, .
– Não chama ele de cagão, Jimin. – Peço baixinho, esfregando minhas mãos. Sinto um calor crepitar por meu rosto e estou mais que satisfeita pela máscara cirúrgica que o impede de perceber meu rubor. – E não. Eu não estou sendo a mãe do SeoJun.
Jimin ri baixo, mesmo concentrado. Ele tem mãos extremamente talentosas.
– O JeongGuk já te falou sobre a HaeWon? – Mesmo buscando em minhas melhores lembranças, não me recordo de tal nome e automaticamente sei para onde o cirurgião está indo com isso. – Você quer saber sobre a HaeWon? – Aprecio a sua gentileza e oportunidade de escape, mas ainda concordo. Me sinto traindo JeongGuk, mas não consigo suportar não ouvir sobre a mulher. – Maldito cachorro... – Ele pragueja ao se aproximar mais da criança, quase enfiando o rosto no ferimento. – Tá... Acho que é melhor começar com a história do JeongGuk, não é? Tudo o que sei foi o Yoongi quem me contou no dia que cuidamos do guri. Então, é o que os amigos do Jeon sabem.
“O nome dele não é Jeon JeongGuk, e sim JungKook, mas o cara mudou legalmente. A mãe morreu afogada na banheira da casa da família em Busan e foi o pai do JeongGuk que matou ela por ciúme. Se você procurar por Jeon JangMi – Busan, vai achar uma notícia sobre feminicídio. O pai do Jeon agredia a mulher direto, . Parece que na necropsia, acharam muitos hematomas e sinais de estupro nela. Eu nem consigo imaginar o que passou na cabeça do JeongGuk naquela época. O SangOok bebia demais e, o Min me disse que o Jeon nunca colocou uma gota de álcool na boca por isso. No fim das contas, o velho nunca foi preso por ter dinheiro e influência. E em 2009, o Jeon revidou depois que o pai começou a agredir o ele. Parece que quebrou uma jarra de vidro na cabeça dele e tentou fugir com o carro da família, ou algo assim. O Jeon tinha dezesseis anos na época e foi parar num reformatório porque o desgraçado tinha amigos influentes na justiça.
Quando ele saiu, começou a morar com o NamJoon, o RM que hoje trabalha pra ele na DaredEvil, não sei se já se conheceram. O moleque entrou na faculdade logo depois e começou a trabalhar como um cachorro para conseguir uma vida decente e se manter longe de Busan. A HaeWon e o Jeon estudavam artes juntos. Eles ficaram juntos por um bom tempo, . Eram bons namorados até 2018 e segundo o Yoongi, a DaredEvil já estava indo muito bem. Eles haviam sido notados pelo G-Dragon no Instagram, algo sobre um esboço do JeongGuk que ele gostou e foi correndo fazer no dia seguinte. Estou falando de mais de duzentos mil seguidores em uma semana. O estúdio deles lotou. Os tatuadores do Jeon começaram a ir em congressos e ele pagou um puta curso para todos eles em Nova Iorque. Parecia que o mundo estava perfeito.
Aí, a HaeWon começou a fazer vários bicos como modelo em revistas de moda. O Jeon a acompanhava para todo o canto até Amsterdã, Tóquio, Londres e onde mais pudesse. Então o Yoongi começou a notar que ela estava muito distante, sabe? Longe demais para o Jeon conseguir alcançar com o estúdio preso em Seoul. Em 2019, tudo começou a desandar. HaeWon estava vindo para a Coréia para visitar ele, mas tinha uns sinais claros que o namoro ia acabar pelo desgaste. O Min me disse que o Jeon parecia derrotado, entende? Burnout aos vinte e poucos, então parou de tatuar. E a HaeWon já estava em Londres há quase dois meses quando voltou e disse que estava grávida.
Claro que o menino perdeu a cabeça e com razão. Eles mal tinham transado em um ano e do nada ela estava grávida. Então, nem mesmo dez minutos depois, eles foram tentar abortar o caga fralda em uma clínica. Aí, você sabe todo o processo, . Exames de imagem e tal, só para garantir que a mãe estaria segura. O Yoongi disse que foi nessa época que a ideia de ser pai começou a crescer na cabeça do Jeon e ele voltou a tatuar, todo atordoado e fez as melhores tatuagens que já tinha feito. O estúdio triplicou pela mera ideia do SeoJun. O cara sempre estava com exames nos bolsos e ficava lendo e relendo tudo. Então eles brigaram. Do nada, ele quis manter o bebê.
Houve toda aquela discussão sobre ser o corpo e carreira dela em risco no caso de um estrago pela gravidez, mas o menino tinha implorado por que 'era o filho dele também e ele não queria que ela só se livrasse do feto'. A HaeWon fez todo um escândalo sobre o sacrifício que estava fazendo pra manter o Jeon feliz e como não queria saber sobre o garoto assim que nascesse. Que a indústria era má e ela não iria gastar o tempo dela com maternidade. Foi uma... Vadia. E largou o bebê no hospital com o Jeon nem dois dias depois de dar à luz, mesmo o guri sendo prematuro. Passou seis meses fazendo trabalhos em Seoul porque o Jeon implorou e nesse meio tempo, fornecia leite materno para o SeoJun. Depois disso, sumiu na Europa na mesma época em que o JeongGuk te encontrou."
– Que inferno, Jimin. – Sussurro, enterrando o rosto nas mãos.
O procedimento que meu amigo fazia no garoto parece ter terminado junto a história mas, neste ponto, não há muito o que posso fazer. Ainda estou chocada, incapaz de lhe responder quanto a história de Jeon. Parte de mim se sente destruída pela história que JeongGuk tem ocultado de mim tão bem. Não suporto pensar em tudo o que ele passou ainda tão jovem enquanto eu me lamentava por uma mãe egoísta e um pai depressivo e bipolar. Entendo que todos tem suas próprias batalhas, mas imaginar que JeongGuk ultrapassou tantas barreiras para estar onde está é dolorido. Outra parte de mim está admirada com ele ao perceber tudo o que fez de um adolescente com passado trágico. Outro pedacinho de mim quer abrir a cabeça de HaeWon com as unhas. A mera ideia de JeongGuk considerar apoiar o aborto de SeoJun me deixa enjoada.
– Por isso eu digo: o que está fazendo é incrível, . – Jimin está traçando as suas suturas com a ponta dos dedos, buscando uma falha. – O Jeon merece certa felicidade e o menino merece o mundo. E eu sei que a Seo já deve ter puxado a sua orelha, porém tem muito mais nisso que só sexo. – Ele me olha compreensivo e eu quero me jogar em seus braços por ele me entender. – Vocês dois merecem um lar. E se você gosta dele e do guri, tem meu total apoio para se arriscar. – Assinto temerosa. – E o JeongGuk está louco por você. O jeito que aquele homem te olhou naquela noite não foi só faminto por sexo, parece ser sido faminto por intimidade. Toque e conversa. Vocês eram amigos antes, não eram? Dá uma chance. O que pode acontecer de pior, anjo?
*
Deixe-me ver se entendi, . – Estou sorrindo como uma tola na frente do espelho de meu banheiro, ainda vestindo o robe felpudo após sair do banho. – Além de fuck buddy, também vou ser acompanhante de luxo e levar o meu filho a tira colo?
É sexta-feira, o que significa que meu coração parece estar saindo pela boca. HwangBo havia me enviado uma mensagem assim que pousou em Seoul pela manhã e ido para o hotel com a promessa de me avisar quando estivesse chegando em meu apartamento para o jantar. SeokJin e SeoHyun confirmaram a presença dias atrás e eu me peguei surpresa quando a ortopedista indagou sobre JeongGuk e se “o pitiquinho” iria se juntar a nós. Com a ideia de matar minha mãe do coração e compensar todo o dinheiro que gastei com terapia após o abandono, faz todo o sentido convidar os dois. E após três dias sem os ver, não vejo a hora de beijar JeongGuk e esmagar as bochechinhas de SeoJun. Ainda não sei qual dos dois conseguiu me conquistar mais rápido.
– Acompanhante de luxo, não. Mas meu bom amigo e vizinho JeongGuk que irá trazer o filho para o jantar e tentar amenizar minha raiva enquanto dou papinha para o Jun. – Explico-me melhor e posso lhe ouvir rindo do outro lado da linha. – O Jimin e o Yoongi vão vir, também. Preciso de todo um time para não pular na garganta da minha mãe e se isso significa que você vai me segurar por trás, não vejo por que não.
Posso imaginar o sorrisão que ele abre onde estiver.
E eu não posso deixar uma oportunidade como essa passar, posso? – Balanço a cabeça mesmo que o tatuador não me veja. – O jantar é às sete? – Confirmo quando pouso meus olhos em um óleo corporal de baunilha em minha pia. A ideia de passá-lo e sentir JeongGuk correr o nariz por meu pescoço no fim do jantar é convidativa. – Certo. Tenho mais uma sessão rápida aqui no estúdio, mas vou para casa logo depois e te vejo as sete com o SeoJun usando uma gravata borboleta de patinhos.
Dou um tapa na pia, rindo ao imaginar o bebê com tal acessório.
– Não! – Exclamo com um sorriso que dói minhas bochechas. – Golpe baixo colocar o Junnie em uma gravata de patinhos, Jeon!
A gargalhada de JeongGuk é gostosa e eu mordo os lábios, fechando os olhos.
Já disse que a gravata é azul bebê e ele tem suspensórios que combinam?
*
Após um acidente com um vaso de flores que escorregou e estraçalhou minha mesa da sala de jantar, comprei uma nova e maior, com oito lugares e perfeita para o número de convidados da noite. O salmão assado com risoto de parmesão está preparado na cozinha e eu faço questão de escolher minha melhor garrafa de vinho para HwangBo. Para ela e sua dieta absurda que provavelmente acabará lhe deixando doente por não consumir nutrientes suficientes para sua idade, fiz Portobello recheado com vegetais e nozes, assim como ratatouille. E para SeoJun, minha pestinha, uma sopa de lentilha com legumes no vapor. Nem sequer quero imaginar a bagunça que irá fazer, mas não me importo. Pego o adaptador de assento na dispensa e coloco na cadeira para ele.
Estou de pé no instante que a campainha toca.
– Ainda bem que chegaram! – Suspiro ao abraçar SeoHyun e dar tapinhas em SeokJin. – Pensei que ia ter de conversar com a minha mãe! – Pego seus casacos e os penduro no cabide, sendo imediatamente recompensada por um buquê adorável de tulipas. – Sabem que não precisavam, não é? – Jin vira-se para mim e estende a mão com uma careta.
– Então devolve aí! – Cobra na cara de pau e recebe um tapa da noiva. Ele me dá um sorriso brilhante e enfia as mãos nos bolsos da calça social. Tenho certeza de que veio direto do hospital e eu não sei como lhe agradecer pelo esforço. – Você está linda com esse vestido, . – SeoHyun também concorda e toca o tecido verde escuro de poá, então o colar de esmeralda em meu pescoço, comentando sobre meu penteado tão delicado para quem iria sair no tapa com a mãe mais tarde. Faço questão de elogiá-los, desde o vestido longo e claro de Seo até o terno cinza e bem alinhado de SeokJin. – Sua mãe ainda não chegou?
– Viu o alerta de tempestade, Jin? – É SeoHyun que questiona enquanto saltita para o arranjo com frutas no centro da mesa, arrancando uma uva verde e a colocando na boca. Seus cílios tremulam com o crocante da fruta fresca. – Deve estar muito difícil de pilotar a vassoura nesse tempo.
Pisco para minha amiga que sorri de volta, se empanturrando com as uvas. Deixo os dois na sala enquanto caço por um jarro onde colocar as tulipas, ouvindo enquanto SeoHyun questiona sobre ligar a caixinha de som e então a música lenta que escolhe ecoa por meu apartamento. A campainha toca de novo e antes que eu possa correr para atender, ouço a voz alegre de Jimin e o tom grave de Min Yoongi ao cumprimentarem meus amigos. Suspiro satisfeita e volto para a sala com o jarro, sorrindo ao dar um oi a todos e apertar a mão de Yoongi, sua presença logo me relembrando o assunto que tratei com Jimin alguns dias atrás sobre JeongGuk. Engulo em seco ao me afastar e oferecer vinho a todos.
Tento afastar o problema sobre o passado de Jeon. O passado problemático de hoje é o meu e eu estou bem-preparada para lidar com isso da melhor forma possível com meus amigos para me impedir de partir para cima de minha mãe. Quando coloco uma taça na mão de SeokJin, a campainha soa outra vez e meu estômago parece ameaçar subir por minha garganta e ir passear pela cidade. Toco o ombro de Jimin ao me aproximar do olho-mágico, um exalar aliviado me escapando quando percebo que não é HwangBo e sim JeongGuk segurando um SeoJun super arrumado e com o cabelo penteado. Abro a porta para os dois e automaticamente estico minhas mãos para pegar o bebê sorridente, entendendo o apelido de “dentuço” que Jimin lhe deu. Seus quatro dentinhos normais para um bebê de um ano já nasceram e eles parecem mesmo dentes de coelhos.
– Oi, meu amor! – Cumprimento SeoJun com um beijão em sua mão.
JeongGuk entra logo em seguida, parecendo pronto para ir a um show de rock ou um desfile de moda. Engulo em seco, assoprando o ar ao analisar sua camisa preta de gola alta, a jaqueta de couro de aparência extremamente cara e a calça do mesmo tecido, alguns poucos fios de seu cabelo sobre os olhos escuros enquanto o resto está bem penteado. O modelo da jaqueta o faz parecer ainda maior que o normal, porém estou focada em seu rosto e como o piercing em sua sobrancelha sumiu, acessórios resumidos a alguns outros em sua orelha. Ele se inclina e pressiona um selar em minha bochecha, a mão pousando em minha cintura.
– Boa noite. – Seu sorriso estonteante é para meus amigos e eu saio de seu caminho, satisfeita por SeoHyun e Jin o cumprimentarem com gentileza e oferecerem as uvas que tinham em mãos. Logo ele aperta a mão de Jimin e dá um tapinha no braço de Yoongi, comentando que ambos precisam conversar. Seo vem em minha direção e dá um sorrisinho para SeoJun, beliscando as coxas grossas do menininho. – Então, qual o plano de jogo, ?
Só assim percebo que estamos em um círculo no meio do apartamento.
– Bom, o plano de jogo sempre foi impedir a de jogar uma garrafa de vinho na cabeça da mãe dela. – Seo explica com a voz apertada, fazendo caretas para Junnie. – De resto é mudar de assunto sempre que as palavras “JiHo”, “divórcio”, “terapia” e “netos” marcar presença na conversa.
– Tira “neto” da lista. – Jimin ri. – Olha o jeito que a segura o cagão.
– Eu já disse pra não chamar ele assim, Jimin! – Reclamo ruborizada.
Até SeokJin está cutucando SeoJun a este ponto e eu dou um sorriso para ele.
– Isso é coisa do Yoongi. – JeongGuk se vira para o outro tatuador.
– Ok. Vou chamar ele de mijão. Fica melhor para você? – Min se pronuncia pela primeira vez, braços cruzados para o amigo que revira os olhos e lhe dá um soquinho, sorrindo para mim em seguida. – Não é, mijão? – Ele provoca e acaricia a bochecha do bebê com os nós dos dedos.
Quero rir ao perceber que o jantar de HwangBo se tornou O Show de SeoJun. Quando a campainha soa, um silêncio toma conta do grupo. Eu devolvo SeoJun para seu pai e corro os dedos por meu vestido, respirando muito fundo antes de seguir para a porta.
– Isso vai ser divertido... – Yoongi provoca de novo e eu quase quero concordar.
*
– Então nós fomos para Miami em abril – HwangBo comenta para SeoHyun, minha amiga assentindo sorridente para ela. – E foi espetacular, querida! – Bate as mãos com uma intensidade que faz SeoJun virar a cabeça apavorado, desviando da colher de sopa em um susto que derrubou lentilha em seu babador. Galanteador e educado como sempre, JeongGuk ignorou isso e manteve um sorriso leve no rosto ao ouvi-la. Enfio uma garfada de aspargos na boca para ignorar minha mãe sendo exagerada. – , você precisa ir para a América, filha. É um país maravilhoso. Tantos lugares bonitos para conhecer!
HwangBo sempre foi deslumbrada com o mundo. Desde que eu era pequena, ela sonhava em conhecer todo o globo e economizava cada centavo para isso. Eu concordo com a cabeça, pousando minha mão na perninha de SeoJun para acalmar o bebê. Sacudo o seu copinho com suco sem açúcar e ele abre as mãos para que eu lhe entregue. A distração dá um tempo para seu pai comer e ele pisca para mim.
– Já saiu do país, JoWook? – Mordo a língua quando minha mãe erra de propósito.
Do outro lado da mesa, Min Yoongi e Jimin estão com sorrisinhos.
– Sim, senhora. – Jeon responde bem-educado, limpando o canto dos lábios. – Catorze países e contando. – Comenta e eu olho para HwangBo, a sombra azul destacando seus olhos felinos em JeongGuk. – Estive na Flórida há alguns anos para a Tattoo Week e meu estúdio teve quatro stands lá, mas ainda prefiro Nova Iorque dentre todos os estados americanos. – Molho os lábios e seguro o copinho que SeoJun me devolve, os enormes olhos focados em mim. Acaricio sua bochecha no meio-tempo. Jeon parece tão seguro que quero o beijar em agradecimento por não se diminuir perante ela. – Estivemos na New York Empire State Tattoo Expo, também.
– Tattoo Week? – A mulher questiona com um sorrisinho cínico. – É tatuador?
– O termo empresário também pode ser usado. – SeokJin intervém ao preencher minha taça de vinho. Suas palavras chamam atenção de todos na mesa. – Pesquisei o estúdio do JeongGuk, que por sinal é o nome dele, – Jin mantém os olhos em minha mãe e eu sei que SeoHyun está lhe beliscando por baixo da mesa. – e ele parece ser tão famoso como o Bang Bang em Nova Iorque.
Empurro uma cestinha com azeitonas na direção de Jin em agradecimento.
– Não estamos no nível da Bang Bang ainda, mas obrigada, doutor Kim. – JeongGuk agradece surpreso pela gentileza de meu amigo. SeoHyun sorri para ele. O tatuador torna a olhar para HwangBo. – A senhora é maquiadora, estou certo?
– Dona de um estúdio de beleza. – Ela corrige.
Jeon assente sorrindo.
– Pude notar. Está muito elegante, senhora .
O sobrenome falta dar um tique nervoso em HwangBo e Jimin suspira.
– Na verdade, é senhora Lee. – A maquiadora corrige de novo, cortando seu cogumelo recheado com tomate seco e nozes. Ah sim, a sua família nova... – Não sou a senhora há quase duas décadas, querido. Para ser sincera, sabe Deus se um dia haverá uma senhora , estou certa? – Ela dá uma risada amarga e me olha faiscando. “Ah, Jun, a sua meia...” JeongGuk murmura e finge se esticar para concertar a meia do filho e aproveita para afagar minha coxa. – De qualquer forma, , como está o JaeBum? Estou com saudades do meu filho!
– Voltou para o hospital há alguns meses, HwangBo. – Jimin conta com cuidado. – Está trabalhando conosco, por enquanto. Mas o importante é que a tem trabalhado muito na pesquisa dela e recebeu uma bolsa de quatro milhões da Korea Advanced Institute of Science and Technology. – Seguro um sorriso ao concordar, mantendo meu olhos seguros em meu amigo que se esforça para mudar de assunto. Sinto olhares gentis sobre mim e lembro-me que deixei de contar a JeongGuk sobre isso e o bônus que recebi um dia após ficar com SeoJun no hospital. – Se ela for escolhida, vai apresentar em um congresso de cirurgia pediátrica em Tóquio no ano que vem. E é um passo a mais na direção de uma Copley.
– Ah, é mesmo? – Minha mãe toca na mão de Jimin e SeoHyun assente. – Bom, só consigo imaginar que power couple genial você e o Jae seriam se ainda estivessem juntos, . – Ela lamenta com seu inglês falho e o sotaque ridículo. Sinto vergonha de a ter por perto com meus amigos.
Engulo uma taça inteira de vinho.
– Eu não. – Balanço a taça. – E pode jantar com o “seu filho” da próxima vez.
*
Jimin me deu um abraço de urso antes de ir para casa com Yoongi, o último gentilmente selando minha face ao se despedir e agradecer o convite. Na varanda, SeoHyun e JeongGuk estão conversando enquanto o maior coloca SeoJun para dormir, risadas baixinhas ecoando pelo apartamento. HwangBo se retirou para o banheiro enquanto eu conversava com SeokJin sobre uma reunião de amanhã com Kim JaeJoong, ainda incerta sobre o que ele gostaria de conversar comigo que também envolveria Jin. Me questiono por um segundo se isso seria sobre nosso encontro na creche, mas deixo de mão quando flagro JeongGuk beijando a mão do filho e sorrindo para Seo. De imediato, tenho certeza de que nada que envolva os dois venha a ser ruim.
– Ele não me disse muito, mas parece estar satisfeito com algo que você fez. – Jin me acalma ao tomar um pouco do champanhe que abri para bebermos com a panna cota de sobremesa. – Não era ele que era doido para te mentorear de novo?
Dou de ombros, concordando ao lembrar-me de suas muitas tentativas.
– Acha que devo aceitar se ele quiser? – Questiono ao me aproximar, não querendo que mais ninguém nos ouça. Jin molha os lábios fartos. – Soube que está fazendo umas pesquisas sobre cardiopatia congênita.
– E você quer estudar sobre crianças com anormalidades cardíacas? – É a minha vez de beber e Jin sorri para mim. – Pensei que depois do JaeBum, você queria distância da cardiologia. Mas, bem... Como você não tem a mínima ideia do que vai fazer a sua pesquisa, acho que é um bom começo. – Tento não deixar meus olhos arregalados após ser pega no flagra por ele. Kim revira os olhos e se aproxima mais para sussurrar para mim: – Deixou o seu notebook aberto outro dia e eu fiz o favor de fechar antes que alguém visse mil abas abertas e zero palavras no documento. – Esfrego a testa, incrédula que ele me pegou no pulo. – Só estou dizendo, ; uma pesquisa sobre cardiologia neonatal com o Kim é o melhor que vai te acontecer. Você já tem a sua bolsa e ele a dele, sabe? Juntando tudo, vocês podem fazer história em Tóquio no ano que vem.
Quando minha mãe retorna para a sala, Jin e SeoHyun se despedem, minha amiga há muito alterada pelo álcool em seu sistema e calçando uma sapatilha minha pelo noivo não se confiar nela com os saltos. Os deixo na porta antes de ir até a varanda e ouvir JeongGuk cantarolar alguma música para SeoJun. Jeon me promete que só vai deixar o bebê no meu quarto de hóspedes e depois virá me ajudar com as louças, então lhe ofereço todo o tempo que precisar. Estou tirando meus brincos ao me dirigir até a cozinha e me surpreendo com a presença de HwangBo.
– Foi um ótimo jantar, . Você é uma boa anfitriã.
Quando eu tentava pensar em HwangBo, tudo o que surgia em minha mente era uma mulher enfezada com moletom, meia molhada e gritando comigo. Então a memória sempre vinha acompanhada de meu pai gritando seu nome e me empurrando para trás quando ela levantava a mão para me bater por derrubar suco ou fazer algazarra no banho e a molhar. Mas agora, ela parece uma perua de doramas, com uma saia lápis preta, blusa cavada de seda e saltos. Ela é personificação de quem se livrou da filha encrenqueira e vive uma vida perfeita com o marido “contador” e os enteados.
– Obrigada. – Deixo os brincos e anéis em cima da mesa e prendo o cabelo. A ignoro enquanto visto o avental quadriculado, não me importando que esteja me olhando. – Como está o seu marido?
Ela joga o cabelo com cachos perfeitos sobre o ombro.
– Muito bem, obrigada.
HwangBo perdeu todo o brilho convidativo após a maioria de meus convidados terem ido embora. Ela voltou a ser fria da mesma forma que relembro ter sido durante minha infância ou, ao menos, durante a parte em que esteve presente nela. Imagino como meu pai deve estar agora. Esquentando uma pizza no forno de casa mesmo que eu o tenha dado um cartão que pode usar como quiser. Ele deve estar com as roupas do dia, com uma cerveja geladinha e assistindo seus programas favoritos. A ideia me faz querer sorrir e eu prometo a mim mesma que irei lhe visitar assim que puder. Era uma promessa que tinha lhe feito quando fui para a faculdade: ir para casa e tomar cerveja com pizza e hot-dogs sempre que tivesse tempo livre. Nós nos sentaríamos no sofá novo com jérseis de baseball e comeríamos picles em conserva comentando sobre como o supermercado próximo de casa estava careiro.
– Como eu disse para a SeoHyun, nós fomos para Miami em abril. Um velho amigo dele nos ofereceu sua casa de praia e nós não podíamos dizer não. – Ela conta com um pouco mais de alegria em sua voz ao falar sobre sua nova família. – Jantávamos fora quase todos os dias e sempre haviam luaus nos hotéis perto da casa, então vivíamos neles. – Começo a lavar os pratos e mantenho a face neutra, não querendo lhe irritar por não dar a mínima para isso e estar louca para que saia de minha vida e só volte daqui a 365 dias como sempre faz ao lembrar-se que tem uma filha. – É uma vida boa, . – Me garante enquanto lavo alguns talheres. – Igual a vida que eu sempre quis para você.
– Eu tenho uma vida boa. – Seguro todo o álcool que bebi e não lhe dou uma resposta atravessada pois é sempre assim. Temo que ela vá trazer seu querido JaeBum para a conversa e esfrego uma faca com mais força. – Tenho meu emprego e uma casa confortável, pai e bons amigos. Não preciso de mais nada. – Desligo a torneira e a olho, pois é uma oportunidade boa demais para perder. – Estou satisfeita com a vida que escolhi e não quero fugir dela.
Me lembro de chorar nos degraus do apartamento quando ela se foi com a mentira de ir à farmácia. De gritar e espernear porque iria ficar sozinha em casa até que papai chegasse, mas HwangBo não deu para trás e entrou no carro, me deixando na garagem do prédio até que uma vizinha me levasse para sua casa e ligasse para meu pai. Ele chegou e me levou para dentro, trocou as trancas e não falou sobre minha mãe por horas até tentar me explicar que ela tinha ido embora e não foi só na farmácia da esquina. E eu dormi com ele por semanas após isso, deitada em seu peito como uma estrela enquanto ele fungava a noite inteira. Quando me tornei adolescente, ele comentou ser por alívio, mas ainda não sei se acredito nisto.
– Quando soube do seu término com o JaeBum, não esperava que pudesse ficar ainda mais desapontada com você. – Um suspiro me escapa pois é obvio que ela iria fazer isso. HwangBo coloca a mão na torneira e a desliga para que eu lhe dê total atenção. Imagino que, se não tivesse feito tantas cirurgias plásticas, sua expressão de decepção fosse aparentar mais severidade. – Não tão frustrada como estou com esse seu novo relacionamento, . – Seu colar e brinco fazem barulho quando balança a cabeça na direção de onde JeongGuk e SeoJun estão. E eu vejo vermelho com isso. – Sempre namorou rapazes do seu nível, minha filha! – Seu rosnado irritado é baixinho. – Lembra-se do JunMyeon? Ele é gerente bancário e faz quase setenta mil por mês. JaeBum faz o triplo.
– E é claro que a sua única preocupação é dinheiro, mãe...
Suas bochechas estão rubras.
– Devia ser a sua também, ! – Ela pontua com um cutucar duro em meu braço. – Estabilidade financeira é necessária, mas é esperado que o JiHo não tenha te ensinado isso. – Volto a abrir a torneira e lavar a louça, já habituada a este terrível desfecho de todos nosso últimos encontros. – E a prova é que você me aparece com um tatuadorzinho de merda e com um filho! – Engulo em seco e respiro fundo, já sentindo quando minha pele esquenta de raiva e vergonha. Ambas por, de todas as boas mulheres do mundo, esta ser a minha mãe. – Minha filha, eu vi o jeito que aquele homem olha pra você, ele tá apaixonado e louco pra gastar o dinheiro que suamos para conseguir. E também pra colocar outro catarrento em ti e te prender nele. Abre o olho, minha filha!
Jogo o prato que segurava dentro da pia, lançando água para todo o lado. Quando a olho, seu rosto está atônito como se a ideia de JeongGuk fosse repulsiva e eu quero gritar, mas lembro-me de SeoJun também no apartamento. HwangBo suspira exausta e toca o cabelo amassando os cachos e balançando a cabeça lentamente antes de tocar minha bochecha com as unhas vermelhas enormes. E eu sei que ela imagina estar me fazendo um favor gigantesco pela forma que me olha com piedade, lamentando o provável desfecho de minha vida.
– Quer saber? Eu abri. – Dou um tapa em sua mão, afastando-me dela. A expressão em seu rosto me garante que se eu fosse uma criança, estaria chorando pois saberia que receberia uma punição horrível. Mas há anos eu não tenho mais medo, e chegou sua hora de saber disso. – Acabei de abrir os olhos e vou começar com as mudanças. – Esfrego as mãos no avental, segura e corajosa pois HwangBo não significa nada para mim. – Primeiro, nem mesmo me diga como, dois anos atrás, soube do meu término com o JaeBum sem que eu te dissesse. Ou porque soube e não teve coração para passar a mão na minha cabeça e não na dele. – Seus olhos felinos se arregalam e vejo sua boca abrir para formar palavras, mas acelero as minhas para lhe impedir. – Segundo, se ousar ofender o JeongGuk ou o SeoJun de novo, acho bom se lembrar que eu não dependo de você ou sequer me importo com a sua opinião. E terceiro, não tem porra de “nosso dinheiro suado”. – Gesticulo para meu apartamento, ofegante por finalmente ter coragem de lhe mandar para o inferno. Papai ficará horrorizado. – Eu tive dois empregos no ensino médio para pagar aulas extras, entrei em uma faculdade foda e arranjei um emprego foda dependendo de auxílio estudantil porque você deu no pé com o seu traficante e...
E é como se eu houvesse lhe dado um tapa na cara.
– Olhe o que fala! – HwangBo grita, emputecida.
– Ah, vá tomar no cu, HwangBo! – Cuspo e estou quase vibrando de felicidade. Ela parece querer me esganar. – Você deu no pé com a porra do seu traficante que paga de contador e me largou com o JiHo! Me largou com um pai depressivo e que não ligava o suficiente pra própria vida ao ponto de me incluir nas prioridades dele por um bom tempo. – Estalo os dedos para pontuar o que digo, recusando-me a lhe contar mais sobre nossos dias ruins quando ela se foi. – Então cada centavo que tenho é meu. Meu suor. Assim como a vida é minha e eu tenho condições de escolher quem quero nela e de decidir que não sou mais a seu projeto anual da terapia que visita uma vez quando quer fingir ser uma mãe de verdade.
– Eu sou a sua mãe! – Ela avança contra mim.
Permaneço lhe encarando, sem falhar vez alguma ou me amedrontar.
– Só quanto te convém. – Estou mais calma agora, porém segura do que digo pois sonho em lhe dizer isso desde a adolescência. – Sempre foi assim. Eu sou a sua filha, não sou uma boneca com quem você vem, brinca de casinha e esquece por um tempo. – Me viro e sigo para a sala de jantar, pegando as taças vazias enquanto ela me observa da curva da cozinha. – Você lembra quando te ligaram da escola? Por que o seu número ainda estava salvo lá? – Minha risada é seca e o vidro tintila em minhas mãos. – Falaram que eu tinha me urinado por vergonha de pedir para ir ao banheiro. – Coço a sobrancelha ao dobrar as pontas da toalha de mesa. – Tinha vergonha de abrir a boca porque achava que era minha culpa você ter ido e eu devia ficar quieta e comportada. Custe o que custar. – Deixo as taças e viro em sua direção, o dedo apontado a ela. – E você disse que não era sua responsabilidade e desligou na cara da diretora.
HwangBo balançou a cabeça, como se renegasse tal evento.
– Eu era jovem! – Retrucou com a mão no peito para se acalmar. – Eu era uma menina, ! – Me apoio na mesa, braços cruzados ao a olhar com amargor. – E você não pode me culpar por ter medo e querer um tempo!
A boa e velha desculpa não cola mais como fez quando eu era uma criança e sentia sua falta. Acreditando em tudo que dissesse pois ela era minha mãe e me amava, mesmo que eu não visse ou sentisse tal amor. Com a idade e a vivência, me tornei consciente do que realmente faz uma família. Como esse sentimento incrível que tanto vemos nos filmes é mentiroso em alguns casos. Não há essa conexão absurda entre mãe e filho ou pai e filho. Existem mulheres como minha mãe para provar que colocar uma criança no mundo é mundano e normal. Não é sempre belo e não significa nada. Não significa ou conta como um milagre.
Não lhe obrigou a me amar.
– E eu era sua filha pequena e precisava de uma mãe. – Suspiro exausta. Não a quero em minha casa, mas preciso terminar o que comecei. – Mesmo que fosse uma mãe que colocava pasta de pimenta em minha boca quando eu falava demais e me prendia no armário por horas. – Dou de ombros. A boca dela treme e suas mãos estão na cintura enquanto olha para os sapatos. Ainda hoje eu não suporto comida picante ou lugares apertados, mas ela não precisa saber disso. – E conheço a sua história, HwangBo. – É verdade. Conheço a desculpa que muitos vizinho deram para sua fuga e que ela também já usou em outros momentos para justificar o abandono. – “Jovem demais e com um futuro brilhante destruído por uma gravidez acidental”. Eu sei. – Neste instante, percebo o motivo de amar tanto SeoJun, mas empurro esse pensamento para longe. Minha mãe é o meu problema e eu estou cansada disso. – E esse “acidente” já cansou. – Molho os lábios, olhando para as luzes acima de minha cabeça. Um acidente. Só um acidente para ela e só um erro. Então sei que isso não vai lhe doer. – Só... Saia da minha casa. – Viro-me de costas e volto a tirar a mesa. – E não me contate mais.
Quando acabo de empilhar os pratos de sobremesa, ouço a porta bater.
Minha visão está turva quando deixo tudo na cozinha, apoiando-me no mármore assim que as lágrimas de alívio ameaçam escapar por meus olhos e uso os dedos para ampará-las e as impedir de desmanchar a maquiagem. Tomo nota do tremor nervoso em minhas mãos e respiro o mais fundo que posso antes de me desfazer em uma risada baixa, cobrindo a boca ao perceber que enfim estou liberta de tudo o que venho segurando em meu coração por conveniência. Imagino que seja o ansiolítico que me impeça de entrar em pânico por ter sido tão direta e ter me livrado de HwangBo após o relacionamento tóxico que tínhamos, mas talvez seja toda a raiva que a rompeu minhas barreiras morais.
Mordo os lábios ao relembrar como tratou JeongGuk durante todo o jantar, o menosprezando na mesa e destratando desta forma diante de mim ao tentar desmerecer sua profissão que ele tanto ama. Sinto-me envergonhada por todo o controle que Jeon teve de exercer e demonstrar mesmo que ela estivesse agindo como uma vadia, não retrucando ou a ofendendo como minha mãe merecia por sua tola petulância. Seu comportamento faz meu coração doer mais quando a história de Jimin volta para mim, sobre sua mãe que morreu graças a um pai violento e como reclamo de barriga cheia mesmo tendo meus problemas com HwangBo. Me questiono se o respeito que demostrou com ela é um reflexo do seu passado e eu quero o tomar em meus braços.
– Onde está a sua mãe?
Viro a cabeça para a entrada da cozinha de onde JeongGuk está vindo, sem a jaqueta e descalço pois possivelmente teve de se deitar na cama com SeoJun. Seu cabelo está meio desfeito e eu tenho certeza de que estou certa. Nós dois sabemos que ele conseguiu ouvir tudo, mas sou grata por sua tentativa de preservar minha privacidade quando fui imbecil demais de discutir com visitas em casa. Aperto os lábios em uma linha dura.
– Voltou para o Inferno de onde nunca deveria ter saído. – Respondo com um suspiro pesado, ainda incrédula que um peso enorme sumiu de meus ombros no instante que HwangBo saiu de minha casa e, com sorte, de minha vida. – Pode me ajudar? – Questiono e ele assente com um sorriso mínimo. – Tem muita louça.
Um arrepio faz minha pele saltar quando o sinto perto de mim, começando com as mãos largas de JeongGuk em minha cintura e logo deslizando para o sul até tocar meus quadris e cruzar os braços em meu estômago para abraçar-me por trás. O cheiro de seu perfume inunda meu olfato e eu derreto com o toque de seus lábios na coluna de meu pescoço. Em vez de me encolher pelas cócegas, ergo os ombros e tombo a cabeça, lhe dando mais espaço e levo a mão para tocá-lo e puxo-o para mim, arfando ao sentir o calor de seu corpo mais perto quando me pressiona contra a pia úmida.
– Isso não é ajudar. – Suspiro quando beija meu pescoço.
Ele esmaga meu seio na destra, respirando fundo o óleo de baunilha que usei.
– É te distrair. – Sua voz está rouca após inalar a essência doce que usei, como se tentasse se restringir e eu desligo a torneira quando me puxa ainda mais para si com um tranco. – Não imaginei que, quando me disse que tinha algo de baunilha para sobremesa, falava de si mesma. – Meu sorriso é enorme e eu sou uma risada baixa, também o sentindo sorrir. – E vamos concordar que te ver tão doméstica com esse avental é sexy. – Balanço a cabeça com seu elogio.
Seus dedos deslizam para trás do avental e acariciam-me a coxa. As primeiras centelhas de excitação correm por minhas veias, deixando uma trilha de desejo por onde passam e eu quero sentir JeongGuk em cada centímetro de mim. Ambos sabemos que as chamas irão crescer até que estejamos delirando com desejo e incapazes de focar em mais nada além de buscar o ápice de nosso prazer. E para ser sincera, estou contando com isso, especialmente com a evidência de seu membro roçando minhas nádegas mesmo com sua calça e meu vestido no caminho; enrijecendo-se enquanto seus toques sobem. JeongGuk espalma a mão em minha intimidade, a ponta dos dedos descansando em meu clítoris ao acomodar-se melhor em minhas costas e deslizar os quadris em minha bunda, a ereção pressionada ali com precisão necessária para que eu quisesse que estivesse dentro de mim.
– Jeon? – Com a voz não ultrapassando um mero sussurro, me encosto em seu peito, ombros erguidos ao me deliciar com os selares que deixa nele. – O bebê – Uma elipse brusca em meu clitóris curva meus dedos com força em seu antebraço e eu percebo que ergueu as mangas da camisa. – ele dormiu?
Seu membro está implorando por liberdade enquanto movo os quadris devagar, rebolando sutilmente contra ele no mesmo ritmo que os dedos de JeongGuk empregam, ansiosa para lhe frustrar enquanto espero por uma resposta.
– Capotado. – Mordisca minha orelha e dou graças a Deus por ter removido o brinco. – Não vai ouvir nada.
Concordo a tempo de sorrir largo quando toca minha coluna para que eu me debruce na pia e assim o faço, respirando rápido em antecipação, apoiando o rosto em meus braços. JeongGuk ergue a saia delicada do vestido acima de minha bunda, a prendendo ali antes de suspirar pesadamente, encostando o nariz no globo direito.
– O tanto que eu teria me divertido nesse jantar se soubesse que estava sem calcinha, ... – Ele lamenta e quase ergo o pé quando mordisca a carne em minha nádega, ambas as mãos na base de minha bunda para agarrá-la como quisesse.
– Tem que admitir que foi uma boa surpresa. – Provoco e meus cílios tremulam quando desliza dois dedos bem treinados por minha intimidade úmida, nem sequer gastando um segundo antes de afundá-los na fenda quente. Posso jurar que JeongGuk quase gemeu e não deixo de apertar seus dedos, recebendo um tapa na coxa por isso. – Um truque novo... – Sussurro quando ouço a fivela de seu cinto sendo desfeita. Estou quase tremendo nos saltos que ainda uso.
– É, eu percebi. – Sei que ergueu a camisa pois sinto sua pélvis morna pressionada em minha pele quando se inclina para beijar minha costa. Não sei se deveria me sentir tocada ou excitada com o ato, então me satisfaço com som do zíper de sua calça e o vai e vem que emprega com os dedos. – Dentre esse e o da semana passada, ainda não sei decidir qual o meu truque favorito. – Um suspiro me escapa quando o calor característico de seu pau encosta entre minhas pernas e eu não deixo de me curvar ainda mais, nádegas no ar como imagino que goste. Fecho as mãos em punho ao sentir a glande larga arrastando-se por minha entrada, deslizando com facilidade pela lubrificação. Mesmo já estando preparada, o instante que me adentra parece despertar partes de mim que nem me recordo poder sentir antes, o gemido que me escapa soando completamente sujo. – Gosto dos seus truques, . – JeongGuk suspira.
Não sei se lhe agradeço pelo elogio ou por finalmente estar em mim, mas imagino que esteja sorrindo como o bastardo que é assim que o faço. Posso o sentir em todo lugar, dentro e fora de mim, o calor de seu corpo me envolvendo quando curva-se outra vez para roçar o nariz na costa nua do vestido. Cada estocada subsequente o afunda ainda mais longe que o normal, os dias que passamos sem transar (os poucos três dias) servindo para demonstrar o quando ele fazia falta dentro de mim. Ergo-me um pouco, a pedra pálida de mármore já aquecida pelo contato com minha pele ardente e um de seus braços cruza meu colo e puxa-me para estar contra seu peito, coluna curvada e lábios abertos em um gemido silencioso enquanto prossegue sem piedade, ditando o ritmo que quer. Agarro seu antebraço como um salva-vidas em alto mar, arfando junto a ele quando toma meu seio na mão embebida em tinta e choca-se contra mim. Com a boca de JeongGuk encostando em minha orelha, seus gemidos somam-se aos meus, baixos e arrebatados conforme seus movimentos aceleram.
O armário embaixo da pia emite sons conforme meus joelhos esbarram na porta, panelas se revirando dentro dele enquanto Jeon domina-me com estocadas fortes que não falham em apagar qualquer problema posterior de minha mente e ajudam a focar apenas no desejo cálido que corre por meu corpo e também no que proporciono a JeongGuk.
Seu membro está encostando em minha cérvix com a intensidade das investidas, o tamanho considerável e a habilidade de Jeon auxiliando a tarefa, tomando-me para si. Retorno cada estocada com um mover de meus quadris, a umidade dentre minhas coxas ajudando que eu deslize melhor contra ele e me permitindo imaginar se ele não mentia. Se apenas a domesticidade o deixou excitado ao ponto de uma simples distração se tornar uma de suas performances mais duras e ardentes.
– Mais forte, por favor... – Imploro e antes que tente levar a mão para tocar meu clitóris, ele me corta e luta contra o avental e o vestido até encontrar o pequeno botão e o circundar com os dedos, sua pélvis se adaptando aos movimentos e imitando a elipse feita por ele.
– Onde estão os seus truques agora, ? – Jeon silva em meu ouvido e enfia a perna entre as minhas, afastando os saltos pretos e puxando-me com mais força e segurança contra seu peito. Pendo a cabeça para trás e mantenho os olhos fechados pois não sei como responder, apenas concentrada no espiral carnal em meu peito e seus batimento cardíacos socando minha costa. – Está doida para gozar, não está? – Abro os olhos e o olho de onde estou com a cabeça deitada em seu ombro. As maçãs do rosto de JeongGuk estão rubras e há uma gota de suor escorrendo por sua mandíbula. Só agora, em meio a neblina que o prazer ergue em minha consciência, percebo que não nos beijamos vez sequer. – Olha só para você, ... Desesperada pelo meu pau, eu sei... – Mesmo com sua provocação e o sorriso canalha, assinto desesperada para atingir o ápice, ciente pela sua respiração desregulada que ele também se aproxima dele.
Se já estava próxima do orgasmo antes, agora me sinto na beirada do precipício e perdendo o equilíbrio para cair. Cada estocada e toque de seus dedos em meu ponto vulnerável me aproximam ainda mais do ápice, seu membro demandando meu clímax e eu não tenho condições de refutar. O orgasmo rasga meu corpo com um gemido que não consigo sufocar, arfando e clamando pelo nome de JeongGuk com a boca encostada em sua garganta. Ele se desfaz logo depois, usando a mão que liberta meu clítoris para remover-se de mim e que todo seu ápice seja aproveitado, o líquido quente atingindo minhas nádegas logo depois.
Solto o seu braço para tentar me equilibrar no mármore e JeongGuk tem o cuidado de segurar meu vestido ainda erguido, impedindo que o tecido entre em contato com seu sêmen. Ah, sim. Ele é bem cuidadoso, claro. Jeon também tenta regularizar sua respiração, ainda com um braço ao meu redor para que eu não caia e com a cabeça encostada em meu ombro. Devagar, ergo a mão para trás e toco em seu cabelo, dando tapinhas em sua nuca para agradecer a ótima distração.
– Acho que vamos precisar de uma pílula. – Suspiro exausta e o tatuador assente, pressionando o nariz em minha pele e respirando fundo. A mão que usou para se masturbar corre pelo gozo em minha bunda, como se o coletasse. – Coito-interrompido não garante nada.
Quando estende os dois dedos cobertos com o líquido branco para mim, não hesito em os abocanhar, fechando os olhos enquanto esfrega o sabor meio salgado em minha língua. Isso não é normal para mim, mas com JeongGuk chega a ser natural querer prová-lo.
– Quer que eu compre a pílula amanhã? – O sorriso é evidente em sua voz quando tira os dígitos de minha boca para que eu o responda.
Seguro a tentação de morder seu dedo.
– Na verdade, o serviço VIP que quero hoje é ser carregada para o quarto.
Jeon assente e dá um tapa em minha bunda.
– Claro. – Ele desata o nó do avental. – Mas sem o avental da perdição.
*

– Ela foi embora quando eu tinha onze anos. – Conto. – Claro que o meu pai sabia do vício dela e do amante, mas sempre tentou manter tudo escondido. Ele me diz que foi por mim, mas eu não sei se ainda acredito. Acho que foi mais para se poupar de sofrer tanto.
JeongGuk me olha de onde está sentado em minha cama, observando conforme me visto após o banho sem parecer mais tão inclinado ao sexo após termos nos aliviado na cozinha. Ele havia ido em casa enquanto eu estava me recompondo e já fez sua rotina noturna, combinando de dormir com SeoJun em meu quarto de hospedes porque não ia ousar “mover a bomba-relógio”. Visto minha calcinha enquanto ele assente bem atento, o canto do lábio puxando para baixo para demonstrar seu desgosto com o que HwangBo fez. Puxo a calça de pijama da poltrona próxima a porta do banheiro e Jeon encosta a cabeça em minha cabeceira, braços cruzados sobre o peito nu ao me ouvir com atenção.
– Lembro que nesse dia eu não fui para aula e talvez seja por isso que nunca mais faltei aula alguma até na faculdade. – Amarro um nó com os fios da calça quadriculada. Dou de ombros antes de vestir a camisa enorme que comprei para usar de pijama. A jovem achava que se faltasse de novo, outra coisa ruim ia acontecer. – E lembro dela ficar dizendo para mim enquanto me vestia: "Cansei, " – Pronuncio meu nome da mesma forma irritada que ela fazia e esfrego o cabelo com uma toalha. – "Estou vivendo a vida errada com essa família de merda" – Enrolo o R do palavrão como ela. – Aí fez umas ligações para o cara com quem se casou agora, o SeungHan e arrumou as malas.
Quando me sento na cama, JeongGuk se aproxima para me dar atenção.
– Lembro de ver a HwangBo escolhendo as roupas e começar a chorar, mas ela me disse que era para uma viagem com o meu pai no fim de semana e que ia só na farmácia quando saísse. Claro que eu acreditei, ou fingi acreditar porque era melhor isso do que ela me trancar na sacada até o JiHo chegar. – Molho os lábios e fico orgulhosa por não ter desejado chorar até agora. – Depois disso, a gente desceu para a garagem e ela entrou no carro. Quando tentei abrir a porta, não rolou. Aí ela deu a partida e foi embora. – Estou segurando um sorriso miúdo no rosto mesmo com o amargor da memória.
JeongGuk sustenta meu olhar, não esboçando emoção alguma.
– A SeoHyun me falou sobre a sua mãe. – Ergo a sobrancelha e deixo os olhos caírem para as tatuagens escuras em sua pele alva, chateada pelo tema ruim me impedir de tocá-lo. E por ter decidido não o tocar quando não fosse com o intuito de transarmos. – Me disse que ficou surpresa quando me conheceu e te viu comigo e o Junnie. Até pediu desculpas por aquela vez no hospital quando ficou me vigiando como uma águia. – O cabelo de JeongGuk está úmido e caindo sobre seu rosto, mas ele não liga. – E também se desculpou pelo jeito que a HwangBo falou sobre minha profissão. – Então ele me dá um sorriso preguiçoso. – Até disse que tatuadores já salvaram muitas vidas com tatuagens sobre alergia a iodo, lidocaína e dipirona. – Dou um sorriso e concordo com a cabeça. – Mas o que eu prestei mais atenção foi quando ela falou sobre esse seu medo de ser mãe, porém esse amor infinito por crianças.
Abaixo os olhos para dar um laço em meu pijama.
– Não é como se eu não quisesse ser mãe. – Explico e me impeço de adicionar um "não mais". Não quero arriscar minha casa de bonecas. – Eu quero. Mas não vai ser suficiente, talvez do mesmo jeito que não foi para a HwangBo quando focou só nisso. Jeon, não tem nada que eu ame mais que a minha carreira. E quero ser referência, quero pessoas atravessando os oceanos só pra se tratarem comigo. – Justifico o sonho que posso realizar ou não dependendo da reunião que terei com Kim JaeJoong amanhã. – Maternidade é algo lindo, JeongGuk. É o presente da vida e é um milagre. Mas eu não quero ser só isso.
Ele parece entender.
– Faz sentido. – Concorda com a cabeça e aperta os lábios. – Não me leve a mal mas você não é o tipo de mulher que eu vejo com uma vida completamente caseira, da melhor maneira possível. Fazer café da manhã, arrumar o filho pra escola e cuidar da casa o dia todo. Ou se contentar com isso. – JeongGuk assume e eu estou confortável o suficiente com ele para lhe ouvir e concordar com o que diz. Ele me entende e isso é bom demais. – Acho que muitas pessoas, principalmente da nossa idade, entenderiam isso. Você não quer algo comum e isso é normal. Sei quem é e o que quer fazer. – Garante me olhando fixamente. – Os seus olhos brilham quando fala de cirurgias e pesquisas e hospitais. E você claramente não está nem aí para as normas que te impeçam de fazer o que quer. E isso preocupa as pessoas.
– Não preocupa você. – Aponto e me deito de lado, já com dor nas costas.
– Por favor, ! – JeongGuk ri e deita-se horizontalmente na cama, com a barriga para cima e o rosto virado para mim. – Eu não sou um exemplo de estabilidade, não é?
Deito-me de bruços e fico lhe olhando, não imaginando que um dia estaria com a cara amassada e cabelo molhado na frente de outra pessoa. Deve ter rímel manchando meus olhos e delineador borrado, mas JeongGuk não liga.
– Meu filho está capotado no quarto de hóspedes com quatro travesseiros ao redor dele para que não caia enquanto eu transava com a médica dele. – Enfio o rosto no colchão e dou um risada, imaginando o cercadinho de SeoJun. O ouço rir também, balançando a cama quando o faz. – Tenho sete sessões amanhã e o Yoongi provavelmente tá comendo o seu melhor amigo até agora, depois vai ficar chapado e eu também vou fazer a sessão dele. – O riso se amplifica quando imagino Jimin e Yoongi fumando erva pós-coito. SeoHyun morreria se soubesse que Chim curte maconha. – Você é a primeira mulher que dorme comigo depois de saber que eu tenho filho, – Sua voz está mais amena, mas quando me viro para JeongGuk, ele ainda está sorrindo. – e uma semana depois ainda não saiu correndo.
Dou de ombros e considero o que dizer.
– Quer que eu saia? – Resmungo sonolenta.
Jeon cobriu o rosto com o braço e pegou uma boa mãozada de minha bunda.
– Considerando melhor... – A cama vibra quando volta a rir ao me apalpar. – Ainda não quero que saia.


Continua...



Nota da autora:Olá! *insira aqui aquele emoji de palhaço* Como vocês estão?
Venho dar meus parabéns para as leitoras que apostaram que ia dar muito ruim conforme a fic fosse para frente e acertaram em cheio! KKKKKKKKKKKKK Ainda não considero isso aí em cima muito sofrimento, então se preparem que ainda vem mais pela frente.
Mas me digam, o que acharam da mãe da PP e a história do JK? A HwangBo mereceu o que a PP disse para ela ou foi demais? Se lembram que no último capítulo a SeoHyun falou sobre como a PP comentou que o dia que a mãe dela foi embora de casa foi o mais feliz da vida dela? Pois é, queridas leitoras... Casos de Família - Especial All I Want! <3 Quanto à família do JungKook, eu nem tenho muito o que falar. Ele teve uma vida muito trágica e não há como fugir disso. E temos também a mãe do SeoJun que é meu motivo de raiva constante, HaeWon. Ainda não sei se vou trazer ela como uma personagem na fic, mas fiquem de orelha em pé para qualquer coisa e lembrem o que ela fez o Jeon passar, tá?
Mais alguém tá ansiosa para a reunião da PP com o Kim JaeJoong? \o/ KKKKKKK É só isso por hoje e eu espero mesmo que tenham gostado desse capítulo. Se puderem e se sentirem confortáveis, deixem um comentário aí (a scripter vai colocar um linkzinho) e/ou venham no meu Instagram de autora o @autoraelis, onde sempre estou postando sobre as fics e amo receber mensagens de vocês.
Muito obrigada pela leitura <3


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Essa fanfic é de total responsabilidade da autora. Eu não a escrevo e não a corrijo, apenas faço o script.
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