Última atualização: 25/01/2024

Capítulo 1 — Trees of the Past


— Silverback — Roy me chamou, com o olhar baixo e seu característico sorriso predador. O apelido havia sido iniciado há alguns anos, se referia à sua vontade de que eu o substituísse na gangue um dia e seria mentira negar que eu ansiava por isso. Ele balança a cabeça para o lado, indicando um beco nas ruas. O sigo, enfiando as mãos no bolso de forma discreta.
As luzes da rua eram escassas, emitindo um brilho amarelado que lançava sombras profundas e irregulares nas paredes de tijolos gastos. Os paralelepípedos do chão eram desiguais e cobertos de sujeira, como cicatrizes que aquela merda de cidade guardava com orgulho. A noite trazia uma brisa fria, fazendo com que minha jaqueta de couro se apegasse ao meu corpo. Não havia dúvida de que era mais um daqueles dias de inverno inclemente.
Roy para, no final do beco, onde a penumbra o envolvia como um manto. Ele era uma figura imponente mesmo na escuridão. Seus ombros eram largos e a barba por fazer adicionavam uma certa notoriedade à sua presença. Seus olhos eram escuros, mas refletiam como uma lanterna, sempre reluzindo como uma luz, sempre um passo à frente de todos. Eu o admirava. Roy havia sido um irmão para mim, a família que fui negado a ter, obtive nas ruas. Ele cuidava de mim e, em troca, eu cuidava dele. Era assim que funcionava na gangue, uma troca.
Me aproximo dele, vendo nossa respiração visível no ar frio da noite. Roy era a única pessoa que eu confiava cegamente no mundo inteiro, ele sabia disso. Eu sabia disso. Era um pacto silencioso que havíamos selado há muito tempo nas ruas de Oakridge.
— Wolf — devolvo o chamado, avisando que já estava pronto para o que quer que fosse a missão do dia. Ele confiava em mim, por isso as maiores cobranças sempre estavam nas minhas mãos.
Roy acena com a cabeça em aprovação. Ele não precisa dizer muito; entendemos um ao outro com poucas palavras. Oakridge era uma cidade dura, onde a política e o poder do prefeito não intimidavam ninguém, muito menos alguém como Roy.
— A porra do prefeito não pagou o que deve ainda — Roy cuspiu as palavras com desprezo. — Ele acha que a política dele vai funcionar como pagamento dos seus vícios. Preciso deixar uma mensagem.
Aquela era a parte do trabalho que eu conhecia bem. Deixar uma mensagem não era uma mera ameaça; era uma promessa de consequências inevitáveis. Assenti, e Roy seguiu na frente, guiando o caminho pelo beco apertado.
O frio da noite penetrava em nossos ossos, fazendo com que nossas respirações se transformassem em nuvens. Enquanto avançávamos pelo beco, a escuridão nos engolia gradualmente. A única luz visível era a que escapava das fissuras nas janelas de edifícios abandonados. Oakridge era um lugar onde os prédios vazios eram tão comuns quanto as histórias mal resolvidas.
O som dos nossos passos ecoava no beco, uma batida constante que acompanhava o pulso da cidade. Eu podia sentir o peso da noite, a tensão no ar. Logo, estaríamos diante do prefeito, e a mensagem seria entregue, sem margem para negociação. Oakridge tinha regras próprias, e algumas não podiam ser quebradas.
A reunião estava marcada para as primeiras horas da manhã, quando as sombras de Oakridge ainda estavam profundas e as ruas estavam vazias. Era a calmaria antes da tempestade, a tranquilidade que precede a ação. Eu havia convocado os melhores da gangue para a operação. O Prefeito negociava diretamente com Roy e tinha uma rixa direta comigo, por algum motivo o velho maldito me odiava desde o momento em que colocou os olhos em mim.
Após reunidos, o frio da madrugada cortava como uma faca. Uma névoa se erguia das sarjetas, obscurecendo ainda mais nosso entorno. Os membros da gangue começaram a se reunir em silêncio, emergindo das sombras um por um. Nós funcionávamos como uma equipe, éramos uma equipe. A porra de uma família disfuncional que políticos como ajudavam a construir.
Havia Grizzly, um gigante com braços do tamanho de troncos de árvores e um olhar que poderia gelar o sangue de qualquer um. Ele era o nosso músculo bruto, a força que precisaríamos para casos de seguranças.
Ao seu lado estava Phantom, um mestre da furtividade. Seu nome refletia sua habilidade em desaparecer nas sombras e aparecer quando menos esperávamos. Ele seria a nossa garantia de que, uma vez dentro da prefeitura, não seríamos vistos.
E, finalmente, havia Viper, uma mulher linda para caralho, com uma sagacidade afiada e uma destreza que a tornava nossa especialista em contornar sistemas de segurança. Se alguém pudesse encontrar um caminho, era ela.
Estávamos reunidos em um círculo, as palavras de Roy ainda frescas em minha mente. O prefeito tinha ignorado os nossos avisos, e agora era hora de agir. Ele nos subestimara, acreditando que seu poder político o protegeria. Mas Oakridge era nossa terra, nossas regras.
— A prefeitura é o coração desta cidade — eu comecei, minha voz baixa, mas firme —, e é hora de mostrarmos a eles quem realmente manda. — A adrenalina corre por minhas veias, fervendo o meu sangue. É prazeroso, sacia algo completamente faminto dentro de mim. O olhar determinado dos membros da gangue refletia a confiança que tínhamos uns nos outros. — Grizzly — eu me virei para o gigante —, acaba com qualquer filho da puta que ver. Phantom, sempre nas sombras. E, Viper, abra o caminho, sem câmeras. Esta é a nossa cidade e ninguém vai nos dizer o contrário.
Grizzly, Phantom, Viper e eu nos dirigimos até o veículo estacionado nas sombras do beco. Cada um de nós estava armado até os dentes, prontos para o confronto que sabíamos que enfrentaríamos na prefeitura.
Eu assumi o volante, guiando o carro pelas ruas vazias de Oakridge, com a escuridão como nossa única testemunha. A cidade estava silenciosa, mas nossa determinação ecoava nas paredes do veículo. Enquanto dirigia, uma sensação de urgência tomava conta de nós. Sabíamos que cada segundo contava. Essa era a parte que ninguém falava dos assaltos ou dos embates, a forma como seu corpo inteiro fica gelado, a maneira como o ar da cidade parece sufocar, a pressão que seu peito fica quando você tenta pensar nos próximos passos, o disparar do coração, a sensação de que o mundo é apenas uma bolinha de um chaveiro. Tudo isso é aterrorizante e gostoso para um santo caralho.
Chegamos à prefeitura, uma construção imponente que se erguia no centro da cidade. As primeiras luzes da manhã começavam a surgir no horizonte, pintando o céu de tons de laranja e roxo. Mas a aurora não era o que nos interessava; estávamos prestes a entrar no covil do leão.
Parando o carro a uma distância segura, saímos rapidamente e nos aproximamos da entrada principal. Não havia como passar despercebidos. Phantom assumiu a liderança, desaparecendo nas sombras para evitar as câmeras de segurança. Ele era nosso olho invisível.
Logo, o conflito se desencadeou. Os seguranças da prefeitura eram surpreendidos pela nossa chegada inesperada e os tiros ecoavam no corredor. Grizzly estava na linha de frente, usando sua força para derrubar qualquer obstáculo que encontrasse. Viper, rápida e astuta, desarmava qualquer segurança que ousasse enfrentá-la. A prefeitura estava mergulhada no caos, o único problema era que as pessoas não estavam acordadas ainda para ver o espetáculo.
À medida que avançávamos corredor adentro, Phantom eliminava qualquer testemunha em potencial. O som de tiros e alarmes ecoava pelas paredes, um concerto dissonante que marcava nossa presença. A prefeitura era nossa.
Finalmente, chegamos ao escritório do prefeito. A porta estava trancada, mas isso não era problema para Viper, que habilmente abriu o caminho para nós. E lá, diante de nós, estava o prefeito, com o rosto pálido de choque.
A decoração rebuscada do edifício era um testemunho do poder que o prefeito exercia sobre a cidade. Os tons dourados e vermelhos das cortinas e tapetes criavam uma sensação de opulência, um contraste gritante com a dura realidade das ruas de Oakridge.
Grizzly estava à minha direita. Após todos entrarmos, ele fechou a sala e se colocou ao lado das portas que nos cercavam, de forma vigilante. Ele era um homem de poucas palavras, mas tinha muita atitude. Era isso que eu gostava no grandalhão.
Phantom brincava com os livros na estante, seu sorriso brincalhão escondendo a astúcia por trás de seus olhos. Ele era o nosso fantasma, aquele que se movia nas sombras e evitava as câmeras de segurança. Assim como Viper, ele tinha uma boa dominância sobre as tecnologias da prefeitura, em especial, e essa era a garantia de que não seríamos vistos antes que fosse tarde demais.
Viper, de postura confiante, dirigia-se até o cofre com a agilidade de um gato. Ela era nossa especialista em contornar sistemas de segurança, capaz de abrir qualquer fechadura ou cofre. Nada ficaria intocado sob seus dedos ágeis.
E eu, , tinha a função gratificante de confrontar o prefeito. Minhas roupas de couro preto contrastavam com o ambiente suntuoso, um lembrete de que Oakridge não tinha nada da farsa luxuosa que aquele prédio tinha. Nas ruas a realidade era um pouco mais dura, crianças perdiam seus pais diariamente enquanto o prefeito ficava aqui, sentado em meio aos seus papéis, sem atenção alguma para a cidade que o enriquecia. Meus olhos negros permaneciam fixos nos de Anderson, sua expressão amedrontada era uma satisfação que eu não podia negar.
Eu o fiz sentar-se na cadeira atrás de sua escrivaninha, enquanto eu tomava meu lugar na frente dele. A mesa de mogno escuro era a única barreira entre nós, uma representação visual do abismo que existia entre nosso mundo e o dele.
Caminho em passos lentos, me colocando ao seu lado. A touca que escondia meu rosto começava a incomodar, por isso a tiro. Apoio meu corpo na mesa e enquanto observava o prefeito, minhas palavras eram impiedosas, a determinação clara em minha voz.
— Roy pediu para cobrar uma dívida. — Minha voz era fria e impiedosa, enquanto observava a expressão do prefeito. Ele estava claramente irritado, mas o medo também se refletia em seus olhos. Eu estava aproveitando o momento, apreciando a aflição em seu rosto. — Foda-se quem você é, Anderson. Se você nos deve, você nos paga. — Mantive a arma na mão, brincando com ela, passando-a pela testa do prefeito, descendo pela bochecha e finalmente enfiando-a em sua boca. Sua baba escorria pela lateral dos lábios, uma mistura de pavor e desespero. — Você tem uma semana. — Engatilhei a arma, a pressão do gatilho fazendo um clique ameaçador enquanto a mantinha presa em sua boca. — Ou eu vou estourar os miolos de toda a sua família, senhor prefeito.
— Com essa idade o prefeito é pai? Que piada — Phantom murmurou, quebrando o silêncio enquanto me despertava dos meus pensamentos sombrios. Eu o encarei confuso, e ele estendeu uma moldura para mim, a imagem de uma criança sorridente dentro dela. — A moleca até parece com você — ele brincou, em um tom debochado.
Pego a foto nas mãos, observando a imagem na moldura que mostrava uma menina sorridente, com traços faciais estranhamente familiares. Seus olhos brilhantes e inocentes olhavam diretamente para a câmera, posando com a inteligência de quem sabia estar sendo fotografada enquanto segurava um pequeno brinquedo em uma das mãos.
Eu olhei atentamente para a foto, analisando cada detalhe. À medida que meus olhos percorriam o retrato da menina, minha expressão começou a mudar, passando da surpresa à perplexidade.
E então, como um soco no estômago, eu vi a marca de nascença no pulso esquerdo da menina. Era idêntica à minha marca, no mesmo lugar, a imagem de uma árvore com galhos estendendo-se. A semelhança era inegável, e um choque de reconhecimento percorreu todo o meu corpo.
Eu não conseguia desviar o olhar da foto, me sentia hipnotizado por aquela imagem. O silêncio na sala parecia ensurdecedor, mas os pensamentos corriam pela minha mente em turbilhão. Como era possível? Como poderia haver uma criança com uma marca de nascença tão idêntica à minha? Nem mesmo Mike, meu irmão biológico, tinha a mesma marca.
Viper quebrou o silêncio carregado, sua voz soando como um sussurro urgente.
— É hora de irmos, antes que a polícia chegue. Nós pegamos o que viemos buscar e já demos o nosso recado.
Eu ainda encarava a foto da menina, segurando-a com cuidado enquanto minha mente girava em torno da maldita marca. No entanto, sabia que não podíamos nos dar o luxo de ficar e enfrentar as consequências que estavam prestes a nos atingir.
Levantei-me da mesa, mantendo meu olhar fixo no prefeito. E sorri, antes de dizer minhas palavras, que carregavam uma mistura de provocação e ameaça.
— Lembre-se do que eu disse, prefeito. Você tem uma semana. — Minha voz era gélida, e meu olhar transmitia a determinação de cumprir a promessa. Eu queria matar há muito tempo e não aguentava mais esperar o momento em que poderia enfiar uma bala na testa do maldito.
Com um movimento rápido, peguei a foto da menina, que agora se tornara um símbolo misterioso em minha mente. Ela era algo importante, havia uma conexão comigo e eu iria descobrir do que se tratava.
— Isso fica comigo. — Avisei para o prefeito, retirando a foto do porta-retrato e a enfiando em meu bolso.
À medida que nos afastávamos da sala, eu puxei minha touca sobre a cabeça, ocultando meu rosto da visão do mundo novamente.
— Por que você ficou com a foto da garota? — Phantom perguntou, não conseguindo conter sua curiosidade.
Eu continuei a andar, mantendo o meu rosto oculto sob a touca, minhas mãos guardam rapidamente a arma no quadril e me mantive segurando a maior próxima ao peito.
— Nada. Apenas um lembrete para o prefeito. — Minha voz saiu áspera, escondendo os muitos pensamentos que giraram em minha mente.
Phantom não insistiu, assim como eu, ele sabia que havia segredos que era melhor serem mantidos nas sombras.


Capítulo 2 — Stepping into the shadows of the past


Voltar para Oakridge depois de tudo que aconteceu nunca me passou pela cabeça, pelo contrário, eu queria esquecer essa cidade e tudo que ela fez comigo. Mas, depois de muito suplicar, minha mãe me convenceu a voltar, o que, por um lado e pensando muito bem, poderia ser bom. Eu sentia falta da minha família, sentia falta da proximidade que tinha com a minha mãe e da rede de apoio que poderia ter voltando a morar perto deles. Passei um bom tempo fora do país depois que engravidei da . A gravidez fora completamente inesperada, eu não tinha um relacionamento sério, havia acabado de completar vinte e cinco anos e o pai dela simplesmente me ignorou por semanas após uma briga. Eu sequer tive tempo de contar sobre nossa filha, já que ele também não queria me ouvir. No fim, reconheci que foi melhor assim. Ele não era o homem que idealizei para o pai dos meus filhos, ao contrário disso. Ele gabaritava todas as questões que meus pais odiavam.
Oakridge é uma cidade aninhada entre colinas e coberta de árvores densas, a cidade exala uma aura de tranquilidade, no entanto, as casas e as pessoas eram em sua grande maioria tradicionais, com jardins meticulosamente aparados e mentes enferrujadas, então, quando meus pais souberam da gravidez inesperada, o meu pai quis que eu tirasse o bebê e minha mãe foi minha rede de apoio. Depois de uma conversa franca, minha mãe teve a ideia de me mandar pra fora, onde eu podia fugir dos olhares preconceituosos das pessoas da cidade, principalmente dos eleitores conservadores do meu pai, que jamais aceitariam que a neta do prefeito não tem um pai.
Aproveitei o tempo que fiquei fora e consegui me formar em Jornalismo, com honrarias e tudo o mais para ser a filha que meu pai exibiria com orgulho. Mesmo sendo mãe solteira e me virando em mil, sem uma rede de apoio próxima, sempre consegui dar de tudo a . Meu pai não me negava ajuda financeira, o que era um alívio e tanto nos dias mais difíceis. Observo a feição da pequena em meu colo, ela era meu sonho realizado. Um sonho que apareceu antes mesmo que eu soubesse de tal desejo. Minha menininha. Observo os cabelos dourados, puxados quase para um castanho claro, os seus olhos esverdeados fechavam-se aos poucos. Céus! Ela era igualzinha ao pai, não dava pra negar. No meio tempo que fiquei fora, conheci Collins, que me estendeu a mão quando eu precisei.
— Me avise assim que chegar, — ele disse, ao telefone, preocupado. — Por favor, quero saber se vocês estão bem.
— Vamos ficar bem, . Meu pai fez questão de me tirar daqui como se tivesse carregando o presidente — respondi, enquanto ajeitava no colo e a colocava pra mamar conforme os sinais de seu estresse ficavam evidentes.
— Vou sentir saudades, — disse, suspirando. — Queria que a gente tivesse dado certo.
e eu tivemos um breve envolvimento enquanto eu estava grávida e ele me ajudou a cuidar de . Ele era um homem espetacular, vinha de boa família, me tratava muito bem e ajudou nos primeiros meses de de uma forma que qualquer outro não faria, mas tínhamos metas divergentes. Eu nunca quis ser apenas uma mulher, trancafiada em casa enquanto esperava o que quer que a vida tivesse a oferecer.
— Eu também — respondi. — Nós vamos decolar, eu vou avisar quando chegar e a gente se fala quando eu me ajeitar, tá? Beijos.
Desliguei o telefone e aninhei , que continuava mamando sem nenhum tipo de preocupação e agora já estava um pouco mais calma, sem os balbucios de reclamação que a fome trazia. De forma carinhosa, peguei sua mãozinha e depositei alguns beijinhos rápidos enquanto fitava sua marquinha de nascença. Não tinha como negar de quem ela era filha, por mais que eu quisesse esconder isso para o resto da minha vida, eu havia sido castigada com a aparência física e a marca do seu pai. Um lembrete constante de péssimas escolhas que fiz, apesar de terem resultado em algo tão bom.
Quando o avião pousou em Oakridge fui recebida pela familiar SUV preta e extremamente blindada do meu pai. Anderson, meu pai, era um homem muito bonito e um político extremamente famoso. Apesar de algumas desavenças, ele nunca me tratou como uma qualquer. Ele demonstrou uma forma genuína de amor e preocupação, apesar de eu conseguir ver em seus olhos até hoje a pontada de decepção que tinha quando lhe contei que estava grávida e que não sabia quem era o pai, apesar de saber bem. Quando lhe contei sobre a paternidade, ele apenas disse que entendia se eu não quisesse falar e em nenhum momento acreditou na desculpa de eu não saber quem era o genitor da minha filha.
— Entre depressa, senhorita Anderson — disse um dos seguranças.
Acompanhei o ritmo, estranhando a velocidade ou o cuidado extremo. Para a minha surpresa, meu pai havia vindo me buscar pessoalmente e, quando entrei, fiquei ainda mais assustada com sua expressão dura e preocupada. Me ajeitei no banco do carro com .
— O que houve? Por que está com essa cara, papai? Achei que a mamãe viesse nos receber. — Minha voz saiu em um sussurro suave, quebrando o silêncio. Os olhos curiosos de , em seu tom esverdeado quase castanho, agora estavam fixos no meu pai de forma curiosa.
— Roubaram uma foto da do escritório. Os capangas do Malone.
Sua resposta foi direta e senti meu peito gelar.
Eu sabia quem era um deles.
.
— Por que iriam querer uma foto da minha filha? — De forma involuntária, minhas mãos instintivamente apertaram contra o meu peito, sentindo o calor reconfortante do seu corpo.
— Acho que foi uma forma de me ameaçar. Eles acham que ela é minha filha. — A resposta do meu pai veio como uma preocupação carregada de incerteza.
— Por que invadiram a prefeitura então? — Minha voz tremia levemente quando fiz a pergunta que pairava em minha mente. Eu olhava para o meu pai, cujo rosto ainda se mantinha carregado de tensão, percebendo a mentira suave nos seus lábios, era como se ele escondesse algo.
Ele hesitou antes de responder, seus olhos cansados encontraram os meus.
— É só… um projeto. Pode prejudicar a gangue.
Suas palavras foram vagas e eu sabia que ele não estava me contando tudo. O que ele não dizia me incomodava, eu sentia que o roubo da foto se conectava a algo maior, mas não podia pressioná-lo agora.
dormia serenamente em meus braços, alheia às complexidades que a situação trazia. Eu a protegeria com a minha vida. Após deixar o aeroporto para trás, a estrada sinuosa nos levou pelas ruas silenciosas. A cidade estava particularmente quieta, e eu sabia que apesar da tranquilidade, segredos e ameaças a envolviam.
Em alguns minutos, chegamos em casa, uma majestosa mansão de estilo clássico que ficava em uma parte isolada da cidade, cercada por árvores antigas. Enquanto o motorista estacionava o carro, seguro em meus braços, arrumando a minha blusa.
Ao sair, sigo pelo caminho de paralelepípedos que levava à entrada da mansão. As sombras das árvores projetavam padrões lindos no chão e a sensação de finalmente voltar a estar em casa me preenchia aos poucos.
Assim que entramos em casa, fomos recebidos por uma figura familiar. Minha mãe, , estava lá, com os olhos preocupados e abraços acolhedores. Ela sorriu ao ver em meus braços. Minha mãe viu a neta apenas uma vez, na maternidade, quando eu dei à luz a pequena. Essa era a segunda vez que ela a segurava em seu colo, agora quase um ano depois.
, queria, que bom que você voltou. Finalmente! Eu já não aguentava mais ficar longe da minha neta. Temos um quarto preparado para . — Sua voz era suave, como se quisesse nos proteger e me senti acolhida assim como tantas outras vezes em que nos enchemos de cuidado.
— Também senti saudades, mamãe.
Minha mãe nos guiou através dos corredores da mansão, a luz suave dos candelabros revelava móveis antigos e tapeçarias que decoravam a casa no estilo clássico que ela adorava.
Era estranho estar de volta àquela casa após quase dois anos e eu me perguntava como meu pai havia mantido esse lugar como seu refúgio intocado por tanto tempo. Finalmente, após um leque de escadas, chegamos a um quarto aconchegante e bem decorado. A atmosfera transmitia segurança. O berço de estava posicionado bem no centro, cercado por brinquedos e objetos fofos. Ela continuava a dormir quando a entrei no cômodo, colocando-a sobre o macio colchão do berço. Espero o seu choro, mas me tranquilizo assim que não vem, imaginando que o sono seria parte do cansaço da viagem.
Com segura e confortável em seu novo quarto, olhei para minha mãe de forma cúmplice, aguardando as dúvidas que viriam em seguida, esperando os segredos que ameaçavam se desvendar e as sombras que nos envolviam lentamente.
— O pai de continua sendo um assunto não desejado — falei de forma direta, mas cautelosa, querendo deixar claro que certos assuntos ainda não poderiam ser debatidos. Minha mãe se encolheu ligeiramente diante do comentário e mordi levemente meu lábio inferior, ciente do tabu que envolvia essa parte da história.
— Eu não disse nada — ela respondeu com um suspiro, seus olhos mostrando a defesa premeditada que quase me faziam sorrir.
— Mas pensou, dona . — Meu tom era suave, mas a mensagem estava clara.
Minha mãe olhou para a pequena em seu berço e depois para mim, como se estivesse ponderando as palavras apropriadas para a situação.
— Eu só não entendo o porquê de tantos segredos. Isso me preocupa. — Sua voz era suave e carinhosa, mas carregada de frustração.
— Não são tantos segredos, é apenas um — rebati, como se minha resposta amenizasse o tamanho do único segredo que eu carregava. — E alguns segredos são proteção, às vezes um bom segredo pode nos manter a salvo. — Minha mente rapidamente se voltou para a invasão de Malone e para o fato de que o meu passado ligava diretamente a esse perigo.
Minha mãe suspirou, parecendo resignada, mas também preocupada.
— Eu só espero que você saiba o que está fazendo, . Não quero que sua filha cresça em meio a segredos e sombras.


Capítulo 3 — So we meet up again


A noite caía sobre Oakridge, mas eu não conseguia encontrar descanso. Desde o momento em que Phantom me mostrou aquela foto da garotinha, algo dentro de mim se contorcia em busca de respostas. Ela tinha todos os meus traços, meus olhos, até mesmo a mesma marca de nascença. Era idêntica a mim, e isso me assombrava. Fiquei remoendo em minha mente de onde aquela criança poderia ter surgido. Penso que poderia ser algum filho sumido de Mike, mas não faz sentido estar relacionado ao prefeito, meus pensamentos então vão para todas as mulheres com quem tinha dormido a tempo suficiente para que essa menina pudesse ser minha, mas não há tanta lembrança assim. Foder bêbado e drogado não era a melhor forma de manter a memória, no entanto, eu tinha certeza de que usava camisinha em todas as merdas de vezes que fodi alguém. Então como aquela foto havia parado na cabeceira de ? Os mistérios que cercavam essa criança eram perturbadores e inquietantes para caralho.
Enquanto continuava a encarar a foto da menina, uma sensação de urgência se apoderou de mim. Eu sabia que, de alguma forma, precisava mantê-la longe do conhecimento de Malone. Ele não podia saber nada sobre essa criança, nem mesmo sua existência.
Suspirei profundamente e, com cuidado, guardei a foto nas minhas coisas pessoais, que eram mantidas trancadas na loja que servia como fachada para as operações da gangue. A loja era disfarçada como uma loja de sapatos, uma fachada perfeita para as atividades que aconteciam nas sombras. No entanto, ela rapidamente vinha ganhando notoriedade entre as pessoas que frequentavam o shopping principal da cidade.
— Bom dia, — disse o segurança do shopping quando me viu chegando.
— Bom dia, Trumann. — Meu tom era educado, mas estava completamente dormente.
Me dirigi até a loja como de costume, pregando o ambiente para mais um dia de operações. Organizei o balcão, liguei o computador, arrumei a vitrine e realizei a faxina de rotina que sempre fazia. Mais tarde o movimento começou e eu precisei vestir minha melhor carapuça para atender os clientes de sempre. Era um equilíbrio delicado entre minha vida na gangue e as sombras que sempre davam um jeito de emergir.
— Tchau, tio, obrigada pelo doce! — uma menininha ruivinha de maria chiquinha disse, acenando enquanto saía de mãos dadas com seu pai e na outra segurava o saquinho de pipoca que costumávamos dar pra manter a imagem da loja.
Algo naquele tchau esquentou meu coração de uma forma que nunca tinha sentido antes. Minha mente me chamou de volta pra a garotinha da foto e fiquei imaginando se um dia eu sairia de mãos dadas com ela, caso fôssemos ligados.
Bufei com minha própria tolice, fui guardar os sapatos que tinham ficado pelo chão e me conduzi até o depósito. Fiquei alguns minutos lá dentro organizando as caixas, quando ouvi alguém chamando pelo lado de fora. Mas nada, nada mesmo, me iria me preparar pro que meus olhos viram diante de mim.
.
Ela estava estonteante. Com os cabelos curtos e repicados com leves tons acobreados saltando dos fios naturais, o corpo havia ganho novas curvas que a deixavam ainda mais bonita do que da última vez que eu havia colocado meus olhos nela. Fiquei parado, olhando seus movimentos delicados como sempre.
— Posso ajudar? — falei, finalmente, quebrando o silêncio que pairava sobre nós.
Percebi quando seu corpo enrijeceu no momento em que ouviu a minha voz. Ela virou lentamente na minha direção, seus olhos encontrando os meus, o tempo congelando por breves instantes. Não havia sentimento entre nós, mas havia segredos silenciosos que nos envolviam em uma dança sombria.
. Nossa. Eu não achei nada interessante, obrigada — ela respondeu, com um toque de frieza em sua voz, fazendo menção de sair da loja. As palavras saltaram de minha boca antes mesmo que eu pudesse pensar melhor.
— Vai fugir de novo, ? — desafiei, mantendo meus olhos fixos nos dela.
Ela piscou surpresa diante da minha pergunta direta, como se não esperasse que eu a confrontasse dessa maneira. permaneceu imóvel por alguns segundos, suas palavras penduradas no ar entre nós enquanto o peso do nosso passado e a sombra do presente se misturavam. Eu não gostava dela, mas ela sabia um pouco demais sobre mim e o conhecimento é uma faca de dois gumes.
— Como é? — ela respondeu, finalmente, sua voz soava firme, mas havia um pouco de incerteza em seu olhar. Me aproximei, começando a me divertir com a situação.
— Perguntei se vai fugir de novo — repeti, minha expressão não deixava dúvidas que eu estava disposto a confrontar o passado que ela havia tentado deixar para trás. Eu sabia que o seu sumiço não tinha sido mera coincidência. Tínhamos fodido apenas duas únicas vezes, mas ela tinha me visto em situações comprometedoras mais de uma. E eu não gostava disso. Não gostava quando as pessoas tinham lados meus que eu não escolhia dar.
Ela torceu a boca igualzinho fazia quando entrávamos em alguma discussão.
— Quem você pensa que é para me julgar, ? — Sua pergunta era uma acusação direta, um desafio à minha autoridade. Ela respirou fundo, suas mãos estavam cerradas ao lado do seu corpo, demonstrando que a tensão estava cada vez maior. Seus olhos me desafiaram, mas havia algo mais neles.
Não recuei, mantendo o meu olhar fixo nos dela.
— Acho que tenho motivos para questionar suas escolhas. Você viu coisas que ninguém mais viu e agora está de volta. Por quê?
— Eu… tenho meus motivos, . Não é da sua conta. — Ela desviou o olhar por alguns instantes, como se estivesse buscando as palavras certas.
Me aproximo dela o bastante para ficar com o corpo a centímetros do seu, ela fica levemente desconfortável enquanto me aproximo. Minha mão direita sobe, arrumando a franja comprida de seu cabelo atrás da orelha.
— Entenda uma coisa, , algumas coisas que te dizem respeito sempre estarão ligadas a mim. Desde o dia que você abriu as suas lindas pernas, você aceitou esse risco. Não importa o quanto você surte, grite ou fique com medo. Se eu souber que você falou algo do que viu, se eu souber que você voltou por isso… — Minha voz era firme, mas baixa, e meus olhos mantinham contato visual com os dela em uma advertência silenciosa de que as consequências de suas ações poderiam ser graves. — Você vai se arrepender.
— Eu não voltei por isso. — Sua resposta saiu em um sussurro, mas logo o tom fora recuperado. — Além do mais, precisa ser muito confiante para achar que um assassino qualquer teria tanta importância assim na minha vida. Você me comeu, parabéns! Isso não te torna mais especial, . Você é a droga de um monstro e eu apenas quero que fique longe de mim.
— É a segunda vez que você me chama de assassino — respondi, com a voz carregada de irritação. Essa maldita mulher tinha o dom de me deixar irritado em segundos.
— E você não é? — retrucou. — Eu vi você matar uma pessoa, ! Não era uma barata ou um rato, uma pessoa! — gritou.
— Cala a boca, . — Minha paciência estava se esgotando e minhas palavras saíam como um rosnado.
— Ou o quê? Vai me matar também? — desafiou.
Com um suspiro profundo, eu a puxei pelo braço, a jogando dentro do banheiro da loja.
— Escuta aqui, fala baixo, entendeu? Se continuar gritando isso, sabe o que vai acontecer? Eu vou preso e você vai como cúmplice, viu e não fez nada pra impedir. Prefere assim? — Ela negou. — Ótimo.
— Me deixa sair daqui agora. A Ame... — Ela deixou a frase morrer no ar. — A melhor amiga da minha mãe tá me esperando.
Ignoro qualquer nome que ela fosse falar e me aproximo mais dela, seu olhar se torna baixo, mais submisso. Aproximo meu corpo o suficiente para que ela fique presa entre a parede e eu. Quando sinto o seu perfume, um sorriso escapa de meus lábios. Ela me olha quase assustada, envergonhada e posso perceber quando seu olhar desce rapidamente até a minha boca. Com um suspiro exasperado, finalmente a solto. Ela aproveita a oportunidade para escapar.
— Some logo da minha frente — disse, abrindo a porta com força e ela deslizou para fora da loja como um raio.
Soquei a parede com força e respirei fundo. Era impressionante como ela ainda tinha o poder de me tirar do meu eixo. Lavei meu rosto e voltei pro balcão. Seria um longo dia.
O restante do dia na loja foi uma mescla de atividades monótonas e pensamentos tumultuados. À medida que eu atendia os clientes habituais, meu cérebro continuava a girar em torno da presença de em minha vida. Por fora, mantive minha postura simpática e eficiente, mas por dentro a tempestade de pensamentos não parava.
Enquanto organizava os sapatos e contabilizava os lucros reais da loja, eu me via relembrando do nosso breve relacionamento e das circunstâncias que nos separaram. O relacionamento, que não devia ser chamado assim devido à sua brevidade envolver apenas sexo casual, havia terminado em partes porque ela era a única pessoa que tinha visto um lado meu que eu preferia que permanecesse oculto. Eu mostrava os lados que queria, quando queria, mas não com ela. Ela tinha um efeito oposto em mim, feito um maldito espelho.
A lavagem de dinheiro era a operação de fachada perfeita. Ninguém suspeitaria que a modesta loja de sapatos do shopping principal da cidade fosse um centro de lavagem para a gangue. E era assim que as coisas funcionavam em Oakbridge: segredos eram enterrados sob camadas de aparências.


Capítulo 4 — The beginning of the downfall


Encontrei minha mãe e esperando do lado de fora do shopping, suas figuras familiares trazendo um certo conforto à minha mente perturbada. Minha mãe olhou para mim com preocupação quando me aproximava. Eu sabia que minha expressão devia refletir a turbulência interior que eu sentia.
, você está bem? Você está tão pálida — minha mãe comentou, sua voz cheia de preocupação materna que agora eu conhecia tão bem.
— Estou bem, mãe. Só estou um pouco cansada. Vamos para casa, está bem? — respondi, tentando afastar a preocupação dela.
Segurei a mão de , que estava no meu colo, e seguimos em direção ao carro. A verdade era que eu estava muito longe de me sentir bem. A aparição de tinha me deixado perturbada, e a lembrança de nossos encontros passados continuava a atormentar meus pensamentos.
Enquanto dirigíamos de volta para casa, eu não pude evitar repassar em minha mente a conversa tensa que tive com . Ele havia me confrontado, questionado meu retorno e, acima de tudo, me ameaçado. Ele não tinha mudado, ele não era capaz de mudanças. Algumas pessoas apenas nasciam más. A lembrança de seu rosto sério e suas palavras ameaçadoras pairavam em minha mente.
À medida que chegamos em casa e eu carregava para dentro, uma sensação de desconforto persistente me acompanhou. representava um passado que eu preferiria que permanecesse enterrado, mas algo me dizia que eu não podia mais fugir da sombra que ele lançara sobre mim.
Quando conheci , eu sabia que alguma coisa estranha o rondava. Não era apenas as tatuagens amedrontadoras ou o caos desenhado com agulhas em uma linha fina e caligrafia desenhada logo abaixo de seu olho direito. Não era a imponência de seus 1,90 de altura que me afastava. Era a forma como ele andava, como se carregasse o peso do mundo sobre os ombros, e a maneira como ele se comportava, como alguém que já havia desistido de encontrar redenção.

Quando me envolvi com , não fazia ideia de que ele fazia parte de uma gangue, uma sombra sinistra que pairava sobre a cidade de Oakridge. Para mim, ele era apenas um homem estranhamente particular, um enigma que eu estava disposta a desvendar pela beleza que representava. Os lábios finos acompanhados do cabelo dourado, a pele branca, mas bronzeada do sol, os olhos castanhos esverdeados que chamavam atenção e o corte de cabelo que ressaltava algumas ondas finas, trazendo um penteado de trás para frente, curto nos lados. Quando ele se aproximou de mim naquela noite, envolto em seu capuz, sua voz carregada de mistério me perguntando se eu estava sozinha, não recuei. Havia algo magnético nele, algo que me atraía de forma inegável, como uma mariposa atraída pela chama de uma vela.

Ele percebeu que eu não pertencia àquele lugar, mas não fez perguntas sobre a minha origem. Ele não me perguntou de onde eu vinha, e eu não contei a ele sobre meu mundo de privilégios, a pressão do nome "Anderson" sobre mim e as expectativas que meu pai tinha para meu futuro. Em vez disso, ele me observou atentamente enquanto bebia sua bebida, nossos olhos vermelhos revelando que nenhum de nós estava completamente em seu juízo perfeito. Eu buscava uma fuga, um respiro na vida que meu pai desejava para mim, uma chance de descobrir qual seria a minha própria trajetória e ele não parecia querer algo diferente. Ele era sério, carregava uma expressão fechada de poucos amigos, mas sorriu quando eu falei alguma piada tosca da qual não lembro.

Eu lembro da sua sinceridade cortante com perfeição. Quando o perguntei se ele estava drogado, ele deu de ombros e balançou a cabeça em um aceno. "Pra caralho", foi o que ele respondeu com a voz rouca. Eu sorri porque a bebida já estava por todo o meu cérebro, mas foi algo além disso que me fez livre. Foi a sensação de, em anos, ele ser a primeira pessoa que não mentiu para mim. Que não exigiu nada de mim. Ele não se importava se eu era a filha do prefeito, e naquele momento eu era apenas uma garota qualquer que ele não se importava nem um pouco para fingir que não estava drogado. Naquela noite, éramos apenas duas almas perdidas em meio ao caos, buscando uma pausa nas obrigações que nos eram impostas.

Dançamos juntos até de madrugada, perdidos no ritmo frenético da música e no calor um do outro. , com suas tatuagens imponentes, era o oposto de tudo que eu conhecia, mas aquele contraste me atraía como um ímã. Suas mãos ásperas deslizavam pelas minhas costas, e seus olhos, agora livres daquele olhar enigmático, encontravam os meus, transmitindo uma mistura de desejo e desespero. Ele tinha olhos perdidos, vazios e lindos.

No meio daquela dança frenética, em meio às luzes pulsantes e à música ensurdecedora, senti a boca de procurar a minha com uma urgência palpável. Nossos lábios se encontraram em um beijo ardente e voraz, como se precisássemos daquele momento tanto quanto precisávamos do ar para respirar. Era uma entrega mútua, uma fuga de nossos mundos complicados e problemáticos. Seu beijo era cheio de desejo e carregado de emoções que nem mesmo as palavras poderiam expressar. Naquele instante, não importavam as tatuagens, ou os segredos obscuros que carregávamos. Éramos apenas dois estranhos em busca de um refúgio.
A música ecoava em nossos ouvidos, mas o único som que eu conseguia realmente ouvir era o batimento acelerado dos nossos corações. A química entre nós era inegável, e naquele beijo encontrei um lugar onde podia esquecer temporariamente os problemas que me assombravam.
— Está sóbria o suficiente para foder? — A pergunta foi direta e rápida, sem rodeio algum e me fez sorrir, porque eu já não tinha mais resposta para isso, no entanto, podia ver seu estado pior que o meu.
— Acho que você vai ter que descobrir. — Ele sorriu, mordendo o meu lábio inferior e saiu me puxando dali em segundos.
O som da música alta da rave ainda ecoava em meus ouvidos quando me guiou até o seu apartamento. Não ficava tão longe, pelo menos foi o que deduzi com a rapidez que chegamos. Ele enfiou as chaves na porta de forma desajeitada, errando algumas vezes antes de finalmente acertar o encaixe da fechadura. Subimos as escadas em meio a beijos e amassos rápidos, onde ele explorava meu corpo com fome. Quando entramos, percebi o choque de nossas criações. O lugar era pequeno, as paredes tinham pichações assim como sua pele tinha tatuagens, ele tinha móveis simples, mas confortáveis. Tudo tinha um toque de rebeldia, o mesmo toque evidente em sua pele, em sua boca, na forma que ele me tocava.
Caí em sua cama da mesma forma que caí em seus encantos: rápida e intensamente. Os homens problemáticos, como , têm o dom de fazer com que os problemas deles pareçam pequenos, por isso o sexo é tão bom.
Homens problemáticos... há algo misteriosamente intrigante neles. Talvez seja a aura de perigo que os cerca, ou o desafio de tentar decifrar suas mentes complicadas. Eles têm um jeito de fazer com que tudo pareça tão emocionante e intenso. É como se estivessem sempre vivendo à margem da sociedade, seguindo suas próprias regras.
O que os torna tão irresistíveis é o fato de que eles também são bons em tornar problemas pequenos. Eles podem fazer você se esquecer de todos os seus problemas e preocupações com um simples olhar ou toque. Mas esse é o truque: eles próprios são os maiores problemas que você poderia enfrentar.
A atração por homens problemáticos é como uma montanha-russa de emoções. Você está ciente de que isso pode dar errado, mas a adrenalina e a paixão os tornam tão viciantes. No final, é preciso equilibrar o desejo pelo desconhecido com a sabedoria de evitar os problemas que eles trazem consigo.
exalava problemas por todos os seus poros, eu conseguia ver isso. Era óbvio e nítido, mas também era isso que o tornava tão bom. Essa sensação de que tudo daria errado era o que eu precisava quando a única opção em minha vida era dar certo.
Um mês depois da nossa segunda noite juntos e três dias após eu ter testemunhado e Malone arrancando a vida de um homem sem piedade do lado de fora daquele clube, eu descobri que estava grávida.
Naquela manhã, eu acordei sentindo uma sensação estranha e imediatamente soube que algo estava errado. Corri para o banheiro e, com as mãos trêmulas, fiz o teste de gravidez que estava guardado na gaveta há alguns dias. Minutos que pareceram horas se passaram até que a resposta apareceu: duas linhas nítidas. Lágrimas de choque e medo escorreram pelo meu rosto.
e eu não tínhamos um relacionamento, e agora eu estava prestes a trazer uma vida ao mundo, uma vida que seria, de alguma forma, conectada a um homem como ele.
era um membro de uma gangue, e eu havia testemunhado sua brutalidade quando ele tirou a vida de um homem sem piscar. A cena daquele crime ainda ecoava em minha mente, a arma sendo disparada mesmo após as súplicas do homem, seu corpo caindo desfalecido no chão, o sangue derramado, a indiferença em seus olhos, a forma que ele inalava o cheiro do sangue com prazer. Ele havia acendido um cigarro depois, como se aquele ato fosse apenas mais um dia comum. Eu sabia que ele não podia ser pai, que não havia espaço para isso em sua vida.
Minha mente foi tomada pelo medo e pela incerteza. Perguntas invadiram cada espaço dos meus pensamentos. Como eu poderia ter contado a alguém que era capaz de tal violência que ele estava prestes a ser pai? E, acima de tudo, como proteger um filho daquele mundo sombrio e perigoso ao qual pertencia? A maternidade era um fardo que eu não estava preparada para enfrentar, mas eu não tive escolha a não ser lidar com as consequências de uma noite que mudaria nossas vidas para sempre.
Eu não quis esconder a paternidade, mas ele não me deu outra alternativa. A crueldade que eu vi, a facilidade com que ele tirou a vida de alguém, me mostrou que eu não podia confiar nele para ser parte da vida da nossa filha. Tomei a decisão de protegê-la, para que ela não fosse envolvida nesse mundo de violência e morte. Eu fiz isso por minha filha, que hoje brinca serenamente em meus braços, alheia a tudo isso, mas que poderia facilmente ter se tornado parte de um ciclo de mortes e tragédias.
, minha pequena joia, brincava com um entusiasmo inocente que aquecia meu coração. Seus risos puros enchiam a sala com a doçura da infância, enquanto ela explorava seu pequeno mundo de brinquedos. Eu a observava com um misto de amor e apreensão, sabendo que a vida lá fora nem sempre seria tão gentil quanto aquele momento.
A luz da tarde pintava sombras suaves pelas paredes caídas da sala, criando uma atmosfera acolhedora. Meus cabelos castanhos caíam em suaves ondas, emoldurando meu rosto, onde a preocupação e o afeto se misturavam. Mordiscava o lábio inferior, um hábito que adquiri com a maternidade, enquanto mantinha meus olhos atentos à minha filha.
ria, completamente alheia ao mundo exterior, enquanto explorava cada detalhe de seus brinquedos. Cada momento com ela era precioso, um lembrete constante do meu dever de protegê-la a todo custo.
Mesmo quando o sorriso inocente de iluminava a sala enquanto ela brincava com seu brinquedo, eu carregava um fardo pesado que parecia nunca diminuir. O segredo que eu guardava, a verdade que eu ocultava, era uma sombra constante em minha mente.
Meu pai, um homem de princípios e respeitado na política, jamais aceitaria que o pai de sua neta fosse um membro de uma gangue. Com todas as suas tatuagens, o caráter duvidoso e o mundo obscuro ao qual ele pertencia, não se enquadra no futuro que meu pai tinha sonhado para mim. Ele acreditava em leis, ordem e integridade, e era a personificação do oposto.
Acolho em meus braços, sentindo o cheiro doce da colônia de bebê que emana de cabeça. Sua calma e serenidade começam a se espalhar para mim, acalmando as preocupações que me atormentaram após o encontro com .
Observar minha filha, tão indefesa e adorável, me traz uma sensação de segurança.
Hoje, ao cruzar com , percebi que ele não tinha a menor noção da existência de minha filha. Enquanto as coisas permanecessem assim, ela estaria protegida. Eu havia mantido segredo sobre sua paternidade, e a menos que algo mudasse, ele nunca saberia que era sua filha.


Capítulo 5 — I was broken from a young age, taking my sulking to the masses


Assim que a noite caiu e eu pude voltar pra casa depois de um longo dia na loja, fui enfrentar o turno da noite: Gangstar. Não era fácil, assumo, mas era melhor que acabar como meu irmão, que eu nem sei por onde anda. O QG ficava relativamente afastado do centro da cidade e era bem escondido, o que não levantava nenhum tipo de suspeita aos moradores da região. Mas, antes de ir para lá, pensei em passar em casa e tomar um banho.

— Oi, Silverback. — Viper sorriu quando eu abri a porta. Foi uma péssima ideia ter dado uma chave pra ela.
— E, aí? — Sorri, tentando não transparecer uma carranca.
— Pensei que a gente pudesse se ver hoje. Sabe? — Ela sorriu sexy, enquanto abria o vestido de lado e deixava cair aos pés.

Ponderei alguns segundos antes de pegar a roupa dela do chão e entregar de volta. Ela me olhou confusa e eu entrei pro banheiro, trancando a porta. Por mais que sexo pudesse aliviar meu estresse e ela fosse gostosa pra caralho, eu não tinha cabeça pra isso agora. conseguiu me deixar mais fora do eixo do que eu já estava. Primeiro aquela garotinha, agora a sua volta repentina. Ainda tinha a maldita dívida daquele saco de merda do . Respirei fundo antes de abrir a gaveta do banheiro e pegar o saquinho de ziplock cheio de cocaína. Abri devagar, derramei algumas pequenas fileiras na pia e cheirei o conteúdo. O alívio era instantâneo, era como estar com muita sede e beber um copo de água bem gelado. Tirei a roupa completamente e entrei no chuveiro, deixando a água cair.

— Já que você tá de mau humor hoje, tô caindo fora — Viper disse, do outro lado.

Murmurei qualquer coisa e ouvi quando ela bateu a porta. Fiquei repassando a imagem de tão próxima de mim depois de tanto tempo e quase me deixei levar naquele momento. Mas ela sabia demais o que eu gostava menos. Lembro da primeira vez que ela me chamou de assassino. Eu tinha acabado de dar cabo de um cara e quando eu me virei pra ir embora, ela estava bem na minha frente. Horrorizada. Petrificada.
Roy tentou ir atrás dela e eu disse que lidaria com ela mais tarde. Por coincidência, ela sumiu alguns dias depois, o que, por um lado, foi ótimo. Roy deixou o assunto morrer por ela ter sumido, mas o retorno dela colocava tudo em risco. Ela era nossa testemunha ocular, se ela abrisse a boca, tudo desmoronaria. Mas eu duvidava que ela fosse abrir a boca.
Por mais que eu tivesse um ódio crescente dela, não podia negar que ela mexia comigo, e muito. Quando eu a conheci, não perguntei quem ela era, de onde veio, o que estava fazendo ali, só deixei que o sexo que demos um pro outro tomasse conta. Mas hoje ela parecia mais…. mulher. Como se o tempo fora da cidade tivesse mudado algo nela. Algo mais maternal. Bufei e resolvi que era hora de sair do banho e ir pro QG.

— Finalmente você chegou! — Roy disse, abrindo os braços, segurando uma pistola em uma das mãos.
— Eu sempre venho — respondi. — O que vamos fazer hoje?
— Vamos cobrar as dívidas, mas sem matar ninguém por hoje. É só o primeiro aviso.
— Claro — disse, pegando as pastas. — Mais alguma coisa?
Ele negou.
— Pode ir pra boate depois se quiser.
— Até amanhã, então.

Caminhei de volta até o carro e ia colocar a minha touca, quando vi a garotinha da foto do no carrinho, acompanhada de uma mulher vestida de branco, que eu concluí ser sua babá. Pensei se iria atrás dela ou se deixava esse assunto para outro dia, mas tinha algo naquela garotinha, algo que não me deixava esquecê-la. Vasculhei dentro do carro alguma roupa que não assustasse a babá e dei graças a Deus por ter me lembrado de deixar roupas mais discretas numa bolsa jogada no banco de trás. As vesti rapidamente e caminhei em direção às duas.

— Oi — disse, simpático. — Que menininha linda!
— Ah, obrigada — ela respondeu, meio em dúvida.
— Qual nome dela?
Ela ficou me encarando por alguns segundos, provavelmente pensando que eu fosse sequestrar as duas.
.

A bebê pareceu entender que estávamos falando dela, porque quando ela ouviu seu nome, esticou os bracinhos para a mulher do seu lado e eu pude ver o que eu mais temia. A mesma mancha que eu tinha. Eu senti todo meu corpo formigar enquanto eu tentava processar quem poderia ser a mãe dessa criança. Se ela se parece tanto comigo, como foi parar na mesa do prefeito? Será que ela é sobrinha dele? Será que é sobrinha da esposa dele? De uma coisa eu tinha certeza, não transei com a tal filha dele, eu saberia se tivesse transado com a filha dele. Essa eu faria questão de engravidar pra ele me ter sempre por perto. Ou será que Mike é o pai? É normal os sobrinhos parecerem com seus tios? Minha cabeça pensava em mil teorias e nenhuma parecia a certa.

— Oi, . — Me abaixei na sua altura e seus olhinhos curiosos me analisaram por inteiro. Então é isso que os pais ou tios sentem? — Como você é lindinha, bebê.
podia não saber, mas o sorrisinho com os dentinhos ainda nascendo que ela me deu iluminou todo meu mundo.
— Eu sinto muito, mas temos que ir. Tá ficando tarde pra ela ficar na rua, só viemos tomar um ar enquanto esperamos nossa comida ficar pronta. Dá tchau, . — Ela gesticulou algo com as pequenas mãozinhas e foi embora.

Levantei como se tivesse tomado um tiro no peito e segui o caminho contrário do delas. Voltei pro carro e vesti minhas roupas habituais e a touca. Esperei até elas saírem do meu campo de visão e fui fazer o serviço sujo que Roy nunca quer fazer: amedrontar quem o deve. A vítima da vez era uma loja de ferragens que estava devendo alguns milhares de dólares. Entrei na loja e quando engatilhei a arma para começar a atirar, vi uma criança se encolher no canto da parede entre os pneus.
. Como ela se sentiria se um dia alguém invadisse sua casa e tentasse atirar nas coisas que ela ama? Eu conseguia sentir o cheiro de medo daquele garotinho. Ele estava temendo pela própria vida. Eu tinha duas escolhas: Eu podia ir embora e o Roy comeria meu fígado, ou eu podia fazer mal àquela criança. Eu pedi pra ela fazer silêncio e chutei o vidro do balcão, fazendo ele se descolar do suporte e se partindo quando caiu no chão. A criança se encolheu ainda mais e eu aproveitei a deixa pra pegar algumas coisas que faltavam no QG.

— Avisa pro seu pai que isso vai ser parte do pagamento da dívida dele. E que é melhor ele ter o dinheiro quando voltarmos, porque pode não ser eu. Aí vai ser pior. — Ele assentiu com os olhos escuros vermelhos de chorar e desapareceu para dentro da loja.

Tirei a touca quando saí da loja e fui de encontro a Roy na boate. Mas, antes de chegar lá, a lembrança do menininho chorando e de sorrindo lutaram dentro da minha cabeça. E foi pela primeira vez em muito tempo que eu pensei onde foi que eu errei. Se aquela garotinha fosse minha filha ou minha sobrinha, eu não queria que ela vivesse nesse mundo horrível. Eu tenho meus limites enquanto cobrar certas dívidas. Quando alguma criança está no meio, eu não revido com violência. É o meu limite. Senti na pele como é viver com essa violência quando minha mãe morreu num tiroteio quando eu tinha quinze anos e eu tive que tomar conta do meu irmão mais novo, Mike. Ficamos morando de favor na casa de um vizinho durante um tempo antes de resolvermos fugir porque ele começou a nos agredir e cobrar dinheiro para manter nós dois. Então conheci Roy e ele me acolheu em troca de fazer alguns favores. Comecei como aviãozinho e Mike cortava a grama. Era bom. Tínhamos um teto e ele não ligava pro que a gente fazia nos nossos dias “de folga”. Mas Mike começou a se rebelar e Roy o botou pra correr. Desde então, nunca mais tive notícias dele. Roy percebeu que eu não fui atrás dele e começou a me ter como alguém de confiança. No começo era pra juntar dinheiro e ir atrás do meu irmão, depois eu apenas gostei da vida boa que estava começando a levar junto a ele. Às vezes me culpo das escolhas que eu fiz, mas não me arrependo. Elas me mantiveram vivo até hoje. Carrego fantasmas comigo que nunca vão sair da minha cabeça e nem das minhas costas, mas tudo que eu fiz foi por sobrevivência. Minha mãe era a pessoa que eu mais amava na vida, perder ela foi como perder meu chão, então eu transformei toda tristeza em raiva e vesti minha melhor armadura: A frieza. Preciso dar uma surra em alguém? Ok. Preciso quebrar alguns ossos? Perfeito. Preciso até matar alguém? Conte comigo. Mas amedrontar uma criança, jamais.

Quando eu cheguei à boate, encontrei Viper, Phantom e Grizzly conversando sobre algo, cercados de bebidas e algumas drogas espalhadas na mesa. Passei direto e fui até a sala de Roy, colocando as coisas da loja em sua mesa.

— Ele não estava. Roubei umas coisas que a gente pode usar, Roy.
Ele olhou a sacola com desprezo e acertou um soco no meu rosto que me fez perder o equilíbrio.
— Que porra é essa, Roy? — bufei.
— Procurasse ele e fizesse ele se cagar nas calças!
— Tinha uma criança lá! Eu não podia atirar nela!
— Da próxima vez, eu mando o Grizzly ir no seu lugar. Ele não tem pena de ninguém.
Fui andando pra fora da sala dele, quando ele me chamou de novo.
— Por causa disso, vai ficar fora dos esquemas durante um mês. Vai ficar na loja e só na loja. Entendido?
Assenti e saí de cabeça pra cima, passando reto pelos chamados dos três, que já deviam estar começando a sentir a droga bater. Antes de voltar pra casa, voltei até a loja de ferragens e descarreguei o pente da pistola na frente da loja. Sabia que se os assustasse bastante, eles iriam acabar fugindo. Pelos menos, era o que eu esperava.

No dia seguinte, resolvi acatar a ordem de Roy e fui direto para loja. Rapidamente, a loja começou um movimento inesperado e todas as crianças da cidade resolveram comprar um calçado. Alguns pais me olhavam com certo preconceito por causa da minha aparência tatuada, mas crianças, não. Elas amavam o “tio tatuado da loja”. Eu gostei desse lado mais calmo da minha vida no meio de tanto caos. É divertido ver elas deixarem os pais loucos e eu adorava ajudar a fazê-las gastarem comigo. Eu sempre mostrava os sapatos que brilham no escuro, ou os que piscam um led, ou os que tem uma rodinha, qualquer coisa que fosse caro o suficiente pro retorno acontecer. Quando começamos esse esquema, não pensamos que a loja faria sucesso, então Grizzly teve a ideia de realmente começarmos a comprar tênis e outros calçados e vendermos. Faríamos dinheiro “honesto” e teríamos um lugar que ninguém desconfiaria.
Ouvi um burburinho na loja e fui até a frente, quando percebi que era a mãe e o garotinho de ontem. Quando ele colou os olhos em mim, senti todo seu pequeno corpo se enrijecer. Precisava agir rápido antes que ele abrisse o berreiro.

— Bom dia! No que posso ajudar?
— Hm, estamos procurando um tênis de viagem — respondeu a mais velha. — Vamos viajar, não é, querido? — Ele respondeu balançando a cabeça.
— É pra ele? Temos um novinho da Hot Wheels, você gosta? — Me abaixei na sua altura e percebi quando ele se escondeu atrás da mãe.
Merda, .
— Desculpe, ele tá meio assustado já tem uns dias. Ash, pode confiar na mamãe, ok? O moço só quer te mostrar o tênis. O número dele é vinte e sete.
Ele a olhou por alguns segundos, finalmente veio até onde eu estava e peguei o número correspondente.
— Ele vem com uma pista de skate e um mini skate de dedo, você quer ver? — perguntei e ele continuou apenas concordando com a cabeça.

Levantei e fui até atrás do balcão procurar o brinde, quando senti um cutucão nas costas. Quando me virei para responder, o garotinho estava mordendo a boca nervosamente e tinha as mãos nervosas se enroscando uma na outra. Então, em um impulso, ele me abraçou. Era um abraço de agradecimento por não ter o ferido naquela noite.

— Não entendi — respondi baixo.
— Meu papai ficou com muito medo, mas eu disse que você não me bateu, então ele ficou feliz — respondeu no mesmo tom. — A mamãe não sabe de nada, eu não contei. Eu gostei do skate azul.
Ri baixo de como rapidamente ele trocou de assunto e entreguei a pista junto com o skate.
— Você é bonzinho, moço. Por que você quebrou a loja do meu papai?
— É coisa de adultos, tá? Quando você crescer e se tornar um homem bom, vai entender. Mas tem que me prometer que não vai fazer o que eu fiz. Promete? — Estendi o dedo mindinho e ele segurou o meu dedo com o mindinho dele.
— Prometo.

Saímos de trás do balcão e realizei o pagamento do tênis e desejei boa viagem como se não soubesse que a tal viagem seria para fugir do Roy, e de mim, por tabela.
No resto do dia, a loja não teve muito movimento, o que, por um lado, era bom, pois podia me concentrar na parte suja da loja: A lavagem de dinheiro.
Por estar de “castigo” dos esquemas, meu dia foi basicamente o mesmo desde muito tempo, então, quando deu a hora de ir embora, passei na praça de alimentação e comprei um combo de fastfood e fui pra casa. Era hora de descobrir outra coisa. Quem poderia ser a mãe de e por que ela estava na mesa do prefeito, e, principalmente, como ela está ligada biologicamente a mim?


Capítulo 6 — And all we are is skin and bones


brincava distraidamente com a água da sua banheirinha enquanto eu lavava seus cabelinhos fininhos e frágeis. Ela era a personificação do pai. A única coisa que ela tinha de parecida comigo era o formato da boca. De resto, ela era completamente o . Não conseguiria mentir nem por meia hora, a marca no pulso dela a entregava. Lembro da vez que estava deitada com ele e pude prestar atenção nela. Era linda, assim como ele. Dos breves momentos que tive com ele, ele não era nada do que ele escondia. Ele só parecia alguém perdido no mundo enquanto tentava escapar da sua realidade. Enquanto eu queria fugir dos meus privilégios. Éramos ying e yang. E agora estaríamos ligados para sempre por causa dessa garotinha que não teve culpa de nada.

? — A voz rouca do meu pai me chamou atenção. — Podemos conversar?
— Claro. Só me deixe tirar essa peixinha da água.
Ele estalou a língua para minha filha que ficou completamente hipnotizada pela imagem do avô. A enrolei na sua toalhinha e ele a pegou nos braços, a aninhando. — Vai molhar seu terno, pai.
— Não me importo. É a minha netinha. — Ele beijou o topo de sua cabeça e a deitou na cama. — Escuta, , o vovô vai ter que te secar agora, tá bom? Você não pode deixar ninguém encostar em você sem sua autorização — ele dizia, enquanto secava sua pelezinha delicadamente.
— Sobre o que quer conversar? — perguntei-lhe, entregando uma mudinha de roupa, a fralda, a pomada e o talco.
, precisa nos dizer sobre a paternidade dela. Ela tem direito de ter o nome do pai. Eu te criei bem demais pra saber que você sabe quem é o pai. Só não quer nos dizer.
— Eu prefiro não tocar nesse assunto. Por favor. Quando disse que não sabia quem era, era por não ter informações sobre ele. Ele foi só uma casualidade.
— É isso que vai dizer quando ela perguntar? — Me encarou com os mesmos olhos julgadores de quando contei sobre a gravidez.
— Você quis que eu tirasse e agora vem querendo me cobrar a paternidade e o futuro dela? — Cuspi as palavras.
— Eu sei o que fiz, . E graças a Deus não me ouviu ou não teríamos essa mocinha conosco. Mas sabe o que eu quero dizer com isso.
— O pai dela sumiu quando soube dela — menti. — Por isso disse que não sabia. Ele fugiu da responsabilidade. Então ela é minha. Só minha. Por favor, respeite a minha decisão.
Ele suspirou derrotado e me entregou trocada e vestida. Deu um beijo na minha testa e fechou a porta atrás de mim.
Fiz o mesmo gesto na cabecinha da minha filha e me sentei na poltrona para amamentar. Eu sabia que meu pai estava certo, tinha consciência de que precisava ter um pai presente e a figura do meu pai não era o suficiente.
— Eu te amo, filha. Se eu minto sobre seu pai é pra te proteger. Espero que não fique brava comigo. Queria que ele fosse digno de nós duas. Mas ele não é. Eu não posso te botar em risco por causa das burradas dele.
parecia entender sobre o que eu falava, pois ficou com seus olhinhos atentos a tudo que eu disse e me deu um sorrisinho banguela antes de começar a mamar e entrar no seu mundinho onde era apenas eu e ela. Acho que, em algum momento, eu acabei cochilando e sonhando com , eu e sendo felizes juntos.


Capítulo 7 — I’ve got questions hunting me


Cocei os olhos, levando a xícara de café preto fumegante aos lábios para um gole revigorante. Estalei os dedos, focado na busca pela garotinha que apareceu no escritório de . Não havia novidades em minhas investigações sobre ele. Era inevitável não me envolver. Ela parecia ser como eu. Teria Mike se metido em alguma confusão? Seria possível que, em uma das minhas incursões, eu tivesse deixado alguém próxima a ele grávida? Uma névoa de dúvidas pairava sobre mim. Antes que eu pudesse prosseguir com a investigação, passos pesados ecoaram na minha sala. Aqueles passos não eram comuns. Mal tive tempo de reagir quando fui derrubado da cadeira por um vulto. Elias.
— Ei, garotão! — eu disse, sorrindo. — Que saudades!
— Sua semana de cuidar dele, querido — Viper disse, se jogando no sofá. — Ele deu um trabalhão essa semana. Me lembra de novo por que a gente adotou um cachorro maior que a gente?
— Pode deixar. Vamos nos divertir, não é? Estava com saudades desse carinha.
Parecia que a presença de Elias e Viper trazia um alívio bem-vindo. Aquela semana tumultuada ganhava um tom mais leve com a energia deles no ar.
— Estava precisando de uma distração e vocês dois surgiram na hora certa. A situação está um tanto confusa por aqui — comentei, enquanto me levantava do chão, ajeitando a cadeira.
— Confusa? Isso parece coisa séria. O que está acontecendo?
Ponderei por um momento, considerando o quanto deveria compartilhar. Confiança sempre foi um pilar entre nós, então decidi abrir um pouco do que estava passando.
— No dia que invadimos o escritório, o Phantom achou uma foto de uma garotinha, deve ter uns meses. Só que ela é igual a mim, Viper. Estou tentando entender o que está acontecendo.
Viper arqueou as sobrancelhas, intrigada.
— Isso é realmente estranho, cara. E tem alguma pista? — questionou.
— Nada sólido ainda.
— Olha, talvez seja a hora de darmos uma olhada no escritório de novo, o que acha? — sugeriu Viper.
Era evidente que minha inquietação não passava despercebida para ela. Não tínhamos nada sério, mas nossa convivência fazia com que nossa intimidade passasse do que era sexual.
Aquela ideia soou como uma boa tática.
— Ótima ideia!
, você parece realmente preocupado com isso. Tem algo mais que não está me contando? — questionou Viper novamente.
Ponderei por um momento como explicar minhas suspeitas sem causar mais preocupação. Algumas coisas eram difíceis de dividir, principalmente quando envolviam possíveis erros do passado.
— É difícil explicar... Prefiro fazer isso quando tiver certeza.
— Seja lá que merda for, eu vou te ajudar a mexer nisso, mesmo que feda depois.
— Obrigado. Quem sabe encontrar respostas pra isso não nos deixe na frente de .
Viper sorriu, balançando a cabeça em concordância.
— Então, por onde começamos?
Respirei fundo, sentindo um pouco do peso se dissipar com a determinação renovada.
— Primeiro, vamos revisitar o escritório de . Talvez tenhamos deixado passar algo. Depois, podemos expandir nossa busca para outros lugares conhecidos por ele.
A garotinha misteriosa tinha despertado um conjunto de emoções e suspeitas que me impulsionaram a desvendar a verdade. Era como se as respostas estivessem escondidas nos recantos do escritório de .
— Vamos lá. Temos que ser rápidos e discretos — sussurrei, enquanto a gente se aproximava do prédio da prefeitura e eu colocava minha máscara.
A noite era densa, apenas as luzes de alguns postes iluminavam a rua deserta. Com cuidado, nos aproximamos da entrada do prédio, evitando qualquer movimento brusco que pudesse chamar atenção para nós dois.
Examinei a chave da porta enquanto Viper observava atentamente, esperando qualquer sinal para agir. Elias mantinha-se vigilante, seus olhos analisavam o entorno. Não tínhamos o criado para esse tipo de serviço, mas o criamos para ser um cachorro atento aos detalhes.
— Aqui vai. — Deslizei uma ferramenta improvisada na fechadura e, após alguns segundos de esforço, ouviu-se o clique característico. A porta se abriu lentamente.
Entramos no prédio cautelosos com cada passo. O escritório de estava localizado no terceiro andar, então subimos as escadas sorrateiramente, nos mantendo alertas para qualquer sinal de perigo.
Quando chegamos ao andar desejado, avancei na frente, cautelosamente abrindo a porta do escritório. A luz da lua esgueirava-se pelas cortinas, iluminando fracamente o espaço.
O escritório estava meticulosamente organizado, como se nenhum detalhe fosse deixado ao acaso. Típico de gente como ele. Viper vasculhou discretamente gavetas, procurando por pistas que pudessem esclarecer a ligação entre a garotinha e eu.
Eu inspecionava a mesa, movendo papéis com cuidado, à procura de qualquer indício que pudesse ser relevante. Elias ficou atento à porta, garantindo que ninguém nos surpreendesse.
O tempo passava e a busca parecia infrutífera. Comecei a me frustrar pensando se estava fazendo a coisa certa, questionando se havia alguma pista ali.
— Ei, olha isso! — Viper chamou a atenção para um arquivo escondido em uma gaveta trancada.
Com habilidade, Viper abriu o arquivo e começou a folhear documentos antigos, fotografias, relatórios e anotações. Entre os papéis, uma fotografia chamou minha atenção. Viper se aproximou, examinando a fotografia com interesse.
— Quem é essa? — perguntou ela.
— Não sei... Não consigo reconhecer com ela de costas — bufei.
— Isso é... surpreendente, cara. Você ou sei lá, seu irmão, metidos com alguém do meio do .
Eu olhei para a fotografia novamente, com um olhar perdido na imagem desgastada da polaroid.
— Precisamos continuar procurando por mais informações. Isso pode ser apenas o começo. — Viper quebrou o silêncio, me tirando dos meus pensamentos.
Retomamos a busca pelo escritório, vasculhando meticulosamente cada gaveta e pasta em busca de pistas que pudessem lançar luz sobre essa foto.


Capítulo 8 — Echoes of regret


e a babá, Sophie, estavam envolvidas em um jogo animado no jardim. A menor ria alegremente, enquanto Sophie fingia ser um monstro brincalhão, a perseguindo pela grama verde. Ver minha filha tão tranquila e absorta do que acontecia trazia certa calma para o meu coração. Os raios de sol dançavam na piscina, as convidando a um mergulho refrescante. Eu sabia que o pai dela, , poderia retornar a qualquer momento atrás de mim. De nós. Sophie me tirou dos meus devaneios quando pediu autorização para entrar na piscina com a pequena e eu autorizei.
Entre mergulhos e risadas, minha mente se dividia entre o desejo de criar momentos felizes para ela e a ansiedade crescente sobre o que aconteceria se soubesse sua existência. As águas cristalinas pareciam acolhedoras e convidativas, então resolvi tirar meu vestido e entrei na água, liberando Sophie para aproveitar o dia sem trabalhar.
sorriu para mim quando a babá a passou para meus braços, as risadas alegres da minha menina enchendo o ar. As brincadeiras divertidas e os pequenos mergulhos eram uma pausa bem-vinda em meio às preocupações que me consumiam. Cada risada de era acompanhada por um pensamento intrusivo sobre uma possível consequência de uma fuga.
, você está se saindo tão bem! Parece um peixinho! — Ri, quando minha filha fez um biquinho que imitava o animal.
Meu pai se aproximou, seu semblante sério refletindo a preocupação diária.
— Nós tomamos todas as precauções, . Mas precisamos ficar atentos. A segurança de vocês é primordial. É melhor que evitem as redondezas da prefeitura esses dias. Você e sua mãe. Principalmente se você estiver com essa princesa.
— Eu sei, pai. Só quero manter segura. — Olhei meu pai, compreendendo a seriedade da situação.
Enquanto ria e espirrava água, brincando na piscina, nós íamos permanecer unidos, cientes dos perigos que nos rodeavam, mas determinados a proteger uns aos outros.
— Eu te dou minha palavra, querida, nem o Malone e nem ninguém da gangue vai encostar em você ou na sua filha. Principalmente aquele tatuado.
Senti um aperto no estômago, era óbvio que ele falava de . Às vezes eu agradecia por meu pai não saber como era o rosto dele, assim, ele nunca desconfiaria de mim. Ele olhou para minha mãe se aproximando e sorriu, sentindo uma onda de alívio por estarmos ali juntos. O sol se deslocava lentamente pelo céu, criando uma paisagem em constante mudança de luz e sombras ao redor da piscina. Sophie tirou da água e eu saí logo em seguida.
— Vamos manter o foco no presente — disse minha mãe. — Vamos resolver tudo isso.
Concordei com um leve sorriso, tentando absorver a tranquilidade que seus pais transmitiam. Ela se esforçava para deixar de lado as preocupações sobre o que poderia acontecer depois da diversão na piscina.
À medida que o sol se punha no horizonte, pintando o céu com tons quentes e dourados, senti um breve momento de calma. Eu me permiti relaxar, pelo menos por agora, desfrutando da alegria efêmera e da união compartilhada com minha família. Sabia que a batalha pela segurança de e a deles próprios estava longe de terminar, mas, naquele momento, havia um refúgio na serenidade daquele instante.

À noite, enquanto amamentava minha pequena, que tinha seus olhinhos quase fechados devido ao cansaço, me lembrei da cena horrível que testemunhei de . Como alguém conseguia ceifar a vida de alguém sem nenhum remorso? Será que tudo que ele tinha me contado sobre sua vida difícil era mentira? Fez aquilo tudo apenas para engravidar a filha do prefeito e depois ameaçá-lo? Um dia ele será capaz de ser um bom pai pra ?


Capítulo 9 — Whispers in the Wild


Cansada da constante sombra do medo imposta por , Malone e seus capangas, decidi que seria revigorante desfrutar de uma noite só para mim. Uma oportunidade para descansar a mente e reviver os tempos despreocupados. Optei por um vestido tubinho de seda preto, que realçava meu colo e delineava minha silhueta. Desde o nascimento de , senti meu corpo ganhar uma beleza adicional aos meus olhos. Adquiri curvas suaves, elegantes e bem definidas. As pessoas também elogiaram a beleza natural que a maternidade trouxera, algo que eu mesma só percebi meses após, dada a turbulência que me deixou abalada.
— Uau, olhe só para a sua mãe, querida. Ela não está deslumbrante? — Minha mãe adentrou o quarto com nos braços. — Você pode ir tranquila, filha. Vamos ficar bem.
— Me ligue se precisar, por favor — pedi.
— Pode não parecer, mas eu sabia cuidar de você, sabia? — ela brincou.
— Eu sei, mãe. Mas nunca fiquei longe dela — lamentei. — Mas está bem, prometo me divertir. Se necessário, eu fico por lá, combinado?
Ela assentiu, me despedi de com um beijo na bochecha e pedi para o motorista me deixar em um clube. Quando ele estacionou, percebi que era o mesmo clube onde conheci . Contudo, algo parecia diferente: as pessoas ali não eram as mesmas que frequentavam antes, não buscavam a mesma alienação que eu e ele nos achamos.
— Obrigada. Pode voltar para casa, está tudo bem. Consigo me virar daqui. Pode levar o carro também. — Sorri confiante enquanto ele seguia seu caminho e eu adentrava o clube.
Respirei fundo e entrei, me deixando levar pela música pulsante. Comecei me movendo devagar, deixando a música entrar. Depois de pegar o ritmo, me deixei levar pelas batidas que ecoavam e continuei dançando várias músicas que se seguiram, até que um rapaz perguntou se podia dançar comigo e eu concordei. Dançamos juntos por duas músicas, até que eu senti a presença de alguém nas minhas costas. A atmosfera relaxada foi repentinamente interrompida quando , imponente como sempre, apareceu diante dele. Seu olhar sério cortou a empolgação do rapaz, que se afastou quando o comeu com os olhos. — , vem. Agora. — A voz de tinha certo poder em mim, ao mesmo tempo que me atormentava.
Por impulso, segui enquanto ele se afastava do burburinho da pista de dança, adentrando um lugar mais reservado do clube. Respirei fundo, ciente de que, por mais que tentasse escapar, o passado e o presente insistiam em me manter presa a ele. O olhar de me mantinha em alerta, não sabia dizer se era raiva, ciúmes ou outra coisa.
— Qual parte do você é minha você não entendeu?
— Não sou sua propriedade, . Não pode simplesmente aparecer e achar que manda em mim!
— Claro que você é minha propriedade. Duvido que mais alguém tenha feito melhor que nós dois.
— Ah, tá falando sobre você e eu transarmos? Eu encontrei gente melhor enquanto estava fora — provoquei.
Num impulso, ele me encostou na parede e começou a morder meu pescoço.
— Duvido que não sentiu minha falta — disse, chupando minha orelha.
— Não — ofeguei. — Não senti.
— Será que não? Sabia que eu consigo ver seu mamilo pelo seu vestido? Se não tivesse, no mínimo, excitada, seus seios não estariam assim.
— É o frio — pigarrei.
— Você não me engana, ... — ele disse, subindo o tecido do meu vestido devagar.
— Ajoelha — ele mandou e eu, feito uma idiota, obedeci. — Me chupa.
O envolvi com a língua e comecei a provocá-lo. ofegou, segurou meu cabelo com a mão e começou a guiar minha cabeça contra ele no ritmo que queria. Tomei a frente, segurei seu pau pela base e voltei a estimular com a língua. O chupei algumas vezes por inteiro e subi até sua cabeça, lambendo na ponta, ouvindo um gemido rouco sair da sua garganta.
— Chega — disse, me puxando pelo cabelo. — Se não eu vou gozar na sua cara — disse, dando um beijo rápido na minha boca.
Ele me pegou pelas pernas e jogou meu corpo contra umas caixas de equipamento e se colocou no meio de minhas pernas. Colei minha boca contra a dele e puxei seu cabelo com força, intensificando o beijo e o ouvi gemer contra minha boca, me invadindo com os dois dedos devido à minha lubrificação. Gemi em seu ouvido e comecei a me movimentar, ditando o ritmo das estocadas. enfiou mais um dedo, esse começou a massagear meu clitóris já inchado e eu sentia que ia entrar em combustão a qualquer hora. Gemi pedindo por mais e ele aumentou a velocidade dos dedos, entrando e saindo. Eu senti minhas paredes internas apertarem seus dedos e o primeiro orgasmo me invadiu feito uma avalanche. tirou os dedos de mim e os chupou inteiros. Mordi a boca e me sentei na ponta da caixa, puxando seus dedos pra mim e limpando os dedos dele do que sobrou de mim. Ele deu um tapinha no meu rosto, sorrindo sacana enquanto abria a calça dele e abaixava ela até os joelhos, mostrando seu pau enrijecido.
— Agora eu vou foder você — ele disse, me deitando depressa. — Pega a camisinha na minha carteira — ele disse, jogando o objeto em mim e eu rapidamente vasculhei, encontrando o pacote redondo e pequeno. O rasguei devagar e, num momento de luxúria, deslizei o material pela extensão dele.
Ele começou devagar, encontrando o contato como quem quisesse me conhecer, me preenchendo. Joguei os quadris contra ele, indicando que ele podia continuar e ele o fez. Passei meus braços em volta dele e iniciamos nosso ritmo enquanto voltávamos a nos beijar e explorar os movimentos um do outro. segurou minha cintura com as duas mãos e acelerou as estocadas. O barulho dos nossos corpos batendo um no outro, junto à música alta, os ofegos e os gemidos, era tudo demais pra eu aguentar muito tempo.
— Vou gozar — avisei, me segurando nos seus ombros.
— Goza pra mim, — disse, me penetrando com força. — Se desmancha em mim.
Ele me estocou mais três vezes e eu gozei, como se uma onda tivesse me batido e me amaldiçoado. continuou me estocando e gozou logo em seguida.
— Porra... — xingou. — Você continua tão apertada, . — Me beijou sem sair de dentro de mim.
— Você continua me comendo bem — respondi, mordendo sua boca.
— Posso te comer a noite toda se quiser — disse, sorrindo safado.
— Vai ser um prazer.
— Vamos, conheço um quarto secreto que a gente pode usar.
Ele me levantou do equipamento e se arrumou, me ajudando em seguida. Passamos despercebidos pelas pessoas e encontramos o quarto onde começamos outra de várias rodadas de sexo. Definitivamente, seria a minha ruína.
Depois de transarmos várias vezes, quando começou a amanhecer, eu e saímos do quarto pelos fundos da boate e ele insistiu em me deixar em casa. Consegui convencê-lo a me deixar no café e eu ia embora para casa sozinha.
— Passa na loja hoje, quero testar aquele banheiro com você — disse, no meu ouvido.
— Claro que eu vou. — Sorri. — Pode me esperar lá.
Ele deu um tapa na minha bunda e partiu com a moto. Esperei ele sair do meu campo de visão, peguei um táxi pra casa onde eu entrei de fininho e fui dormir.


Capítulo 10 — Unveiling the Unknow


Assim que eu cheguei em casa depois da noite tórrida com , me joguei na cama e apaguei. As memórias dela por cima de mim, gemendo meu nome, chegando ao seu ápice por minha causa não paravam de rodar minha cabeça e eu fui obrigado a tomar um banho frio assim que eu acordei. Me arrumei e fui começar os trabalhos na loja. Ficava igual um adolescente idiota espiando o relógio e nada dela aparecer. Quando comecei a acreditar que ela não viria, ela entrou na loja com um vestido curto e cabelos molhados, sorrindo.

— Oi — ela disse, mordendo a boca. — Demorei? — Se demorou pra vir gostosa assim, desculpo o atraso — disse, piscando. — Ah, eu quis me certificar de que você não ia ter trabalho. — A olhei confuso quando ela se aproximou de mim por trás do balcão e guardou algo no meu bolso. — Não vai precisar tirar minha calcinha, já vim sem. — Quanto tempo temos? — perguntou, beijando meu pescoço
— Depende. — Respirei fundo. — Vamos ver o que consegue em pouco tempo — sussurrou no meu ouvido
A puxei abruptamente pro banheiro e tranquei a porta atrás dela.

— Você quer que eu te foda? — disse, puxando seu cabelo. — Uhum — murmurou. — Quero.
— Eu sei — disse, levantando seu vestido, enfiando meus dedos entre suas pernas, já sentindo ela molhada. Comecei a massagear seu clitóris enquanto ela se mexia devagar na minha mão.
— Implora, . Se você implorar, eu vou te dar o que quer.
… — chiou.
— É só me pedir — disse no seu ouvido.
— Me fode agora. Por favor — disse, rebolando na minha mão.

A virei de costas devagar e a dei uma mordida em uma das suas nádegas. Afastei suas pernas o suficiente e tirei uma camisinha do bolso, a rasguei e a vesti, deslizando rapidamente para dentro dela. soltou um gemido rouco e se impulsionou pra trás. Agarrei seus dedos, a estimulei junto comigo e ela começou seus movimentos no seu ponto sensível sozinha.

— Você é deliciosa — disse, mordendo seu pescoço.

Sem parar nossos movimentos, direcionei a gente pro vaso e ela sentou em mim. Ela me ocupava por inteiro e começou a quicar rápido, me fazendo jogar a cabeça pra trás de tesão. A beijei com força e ela gemeu na minha boca quando eu chupei seu lábio inferior.
Em algum momento, entre beijos e gemidos, gemeu alto e caiu por cima de mim, indicando que ela chegou ao seu limite. A penetrei mais algumas vezes e gozei junto a ela. Ficamos alguns minutos parados, reunindo nossas forças, e nos arrumamos.

Quando estávamos conversando, uma mulher alta e magra apareceu, trazendo nos braços uma criança ligeiramente barulhenta. A pequena chorava desesperadamente. Ela entregou a bebê para , visivelmente preocupada.

— Eu não sei o que aconteceu, ela não para de chorar. Acho que ela está com fome, ou começando a ficar adoentada — ela murmurou, olhando para a criança com ansiedade.

Minha atenção se voltou para a cena e algo incrível aconteceu. Seus olhos, molhados de lágrimas, encontraram os meus e, por um instante, o choro diminuiu. Olhei para seu rosto pequeno e angelical, e então meu olhar desceu para seu pulso, onde uma marca de nascença me foi revelada. Um desenho que imitava uma árvore, idêntico ao que carregava no meu próprio corpo.

Naquele momento, a ficha caiu. Aquela criança inquieta e que eu tanto procurei era minha filha. O vínculo genético era inegável, e aquela marca que compartilhávamos era a prova de que ela era uma parte de mim. Olhei para , sentindo a raiva tomar conta de mim. Nossos olhos se encontraram, e a verdade estava estampada em seu olhar assustado. A realidade finalmente me atingiu e eu percebi que era pai. E essa descoberta mudou tudo.

O choque da descoberta estava estampado em meu rosto enquanto segurava a criança em seus braços. Senti meu coração acelerar e um turbilhão de pensamentos inundar minha mente. Olhei para a menina, com seus olhos curiosos e a mesma marca de nascença no pulso esquerdo que eu tinha. Era inegável. Ela era minha filha, e eu nunca soube disso até agora.

Minhas mãos começaram a tremer e eu mal conseguia conter a torrente de emoções que surgia dentro de mim. me olhava com uma mistura de preocupação e apreensão, claramente ciente de que a situação estava mudando rapidamente. Sua mãe, ou quem quer que fosse, percebendo o clima, nos deixou a sós.

— Quantos meses essa criança tem? — perguntei, tentando ter certeza do óbvio.
— 10 Meses — respondeu sincera, e agradeço por ela não ter tentado mentir. A atmosfera do lugar parecia carregada de tensão enquanto olhava para a garotinha que segurava nos braços. Ela era uma imagem adorável, com os olhos ainda inchados de chorar. A raiva começou a crescer dentro de mim, alimentada pela injustiça daquele segredo.
— Quando pretendia me contar que eu sou pai? — perguntei, com voz ríspida, incapaz de conter a raiva que se acumulava em mim.
— Eu não pretendia. Por mim, você nunca saberia. — A resposta de foi um soco em meu estômago. A revelação de que ela tinha mantido minha paternidade em segredo por todo esse tempo me deixou como uma bomba prestes a explodir.

Enraivecido pela paternidade que escondeu de mim por tanto tempo, perdi o controle. A raiva queimou em mim e, sem pensar, peguei os itens da mesa e os joguei no chão. Tudo o que estava sobre ela voou em todas as direções e o barulho do impacto era ensurdecedor. Os olhos de se arregalaram de susto com o barulho e imediatamente parei, percebendo que minha ira a assustou. A culpa e o remorso se misturaram à raiva enquanto eu encarava com olhos flamejantes.
O estrondo dos objetos caindo e quebrando reverberou pelo pequeno espaço da sala e meu olhar se voltou imediatamente para . Seus olhos arregalados refletiam o medo inocente de uma criança que não entendia por que a raiva de um estranho invadiu seu mundo pacífico.
O ar ficou pesado de tensão enquanto a poeira do quebrado flutuava pelo ar, criando um ambiente caótico que contrastava violentamente com a tranquilidade que e eu tínhamos compartilhado momentos antes. Senti o peso da minha explosão de fúria quando percebi o quanto isso afetou a minha própria filha.
me encarou com uma mistura de medo, surpresa e, estranhamente, determinação nos olhos. Ela segurou firme , protegendo-a como uma leoa protege seu filhote. A tensão no ar era palpável enquanto encarava com raiva, a fúria em meu rosto cedeu lentamente ao remorso.
A loja estava em pedaços, assim como a confiança que, até poucos minutos atrás, tínhamos começado a construir. Eu sei que cometi um erro terrível ao perder o controle e a culpa me pesou.
Minhas mãos tremiam de raiva enquanto olhava para . Ela ainda segurava com força, tentando protegê-la de mim, como se soubesse que, naquele momento, a verdade havia desencadeado um monstro furioso em mim.

— Você escondeu isso de mim por dez meses, . Você me privou de ser pai da minha própria filha. — Minha voz estava carregada de raiva e ressentimento.
Ela olhou para mim com firmeza, como se estivesse determinada a suportar minhas palavras acusadoras.
— Você acha que eu teria escolhido isso? Olhe ao seu redor, ! — acusou. — Isso não é um ambiente adequado para criar uma criança. Eu fiz isso para protegê-la. Acha mesmo que eu não sei o que rola aqui?
Minha fúria só aumentou com a explicação dela, e não pude conter as palavras amargas que escaparam dos meus lábios.
— Você não tinha o direito de decidir isso por nós. Você roubou a chance de ser pai de mim, . — Senti o calor da raiva tomando conta de mim e uma ameaça surgiu nas palavras que saíram da minha boca. — Se você tiver a coragem de tentar me afastar da minha filha de novo, eu juro que...
me interrompe, segurando ainda mais próxima de si e me encarando com coragem.
— E você fará o que, ? Ela é minha filha.
— Você a fez sozinha, porra?
— Você não vai se aproximar da minha filha. Eu não vou deixar.
Minha voz soou mais fria conforme me aproximei, fazendo-a sentir o peso das palavras que estava prestes a proferir.
— Se você ousar afastar a minha filha de mim novamente, , eu vou garantir que você nunca mais saiba o que é ter uma filha. Vou arrancar ela de você e ela jamais vai saber o que é ter mãe. Eu vou assegurar que seu mundo desmorone de uma maneira que você jamais imaginou. Vou desvendar cada mentira que você teceu para manter minha filha longe de mim. E quando terminar, você não terá nada. Nem sua filha, nem seu refúgio, nem sua família, nem sua segurança. Me afaste dela e eu mato você, mas antes eu vou tirar tudo que você ama. — Ela me encarou, seus olhos marejados de medo e resignação, sabendo que minhas palavras eram mais do que ameaças vazias.
— Então veremos, . Aquela bobinha e inocente que você conheceu morreu no momento em que colocaram nos meus braços. Tente fazer algo contra mim, experimenta. Antes que pense em algo pra me prejudicar, eu vou cantar igual um passarinho sobre o que eu sei de você.
— As coisas mudam quando você esconde uma filha, . Já perdi muitas pessoas da minha família, não vou perder minha filha.


Capítulo 11 — Veiled Revelations


Eu não sabia se estava saindo tonta da loja pelo sexo ou pela descoberta de da parte do . Meu corpo todo formigava de excitação, nervoso, vontade de chorar, de morrer, de sumir. Sophie tentava me acompanhar sem sucesso, já que ela segurava nos braços. Corri pro banheiro e vomitei dentro da primeira cabine que eu achei.

— Sra , você quer ir ao hospital do shopping? — ela me perguntou nervosa, enquanto tentava acalmar a pequena.
— Não. Estou bem — disse, me levantando devagar e pegando uma necessaire com minhas coisas de dentro da mala da . Escovei os dentes e me recompus. — Vamos, eu preciso comer algo.
— Tem certeza? Você parece nervosa. — Assenti.
Sophie e eu fomos até um restaurante e pedi o lugar mais reservado do restaurante. Sophie me olhava desconfiada e eu sabia que ia precisar contar pra ela algumas coisas. Depois de me acalmar, pedi nossos almoços e encarei Sophie nos olhos pela primeira vez.
— Sophie, eu vou te contar algumas coisas, mas preciso que você não conte a ninguém. Entendeu? — Ela assentiu.
— Aquele homem, eu acho que ele pode ser o pai da , mas ninguém pode saber. Por favor, preciso que isso se mantenha entre nós.
— Mas… — Ela tentou argumentar e eu continuei.
— Mas, nada. Lembra quando meu pai pediu pra você morar conosco por causa da nossa segurança? Esse segredo tem a mesma importância do pedido do meu pai. Não conte a ninguém.
— Tá bom. Eu não conto, mas o que fazia lá? Quando eu cheguei parecia… ocupada. — Ela pigarreou.
— Eu estava tentando pegar uma amostra de DNA dele. Mas ele me viu no banheiro e me trancou lá — menti.
— Ah — ela disse, parando de falar enquanto dava um pedacinho de maçã à minha filha. — Entendi. Espero que tenha conseguido. — Senti a implicância velada dela e tentei não rir da provocação.
Quando nossas comidas chegaram e fomos servidas, ataquei meu prato como se eu tivesse morado no deserto por meses. Nem o cheiro delicioso daquela massa tirava meus pensamentos de tudo que tinha acontecido. Eu estava perdida.
Passamos o dia no shopping por causa de e, graças a Deus, não nos encontramos com em momento nenhum. Meu coração só relaxou quando coloquei nos meus braços pra ser amamentada depois do seu banho e do meu. Agora, o que viesse, eu precisaria do dobro de coragem pra enfrentar. Por .


Continua...



Nota da autora: Sem nota.






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