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Última atualização: 26/01/2020

Epígrafe

Do alto da casa que julgava ser grande demais para ela e sua irmã, podia jurar que Salt Lake City parecia ainda mais bela depois de uma tarde chuvosa.
Era aquela hora do dia em que as luzes da pequena estrada em frente ao seu jardim começavam a acender e as nuvens se resumiam à uma infinita escuridão celestial.
Pois mais que jurasse que até os sentimentos mais simplórios eram inexistes em seu organismo, a menina sempre via a beleza nas coisas mais singelas – coisas exatamente como a chegada do crepúsculo ao colorir o céu das mais inesperadas cores.
Naquele mesmo instante, exatamente uma casa de distância da garota, ignorava a dança das nuvens ao olhar pela janela. Ele, por sua vez, não buscava a graciosidade em cada detalhe - era perito em encontrar defeitos. Os olhos cintilavam ao julgar o homem embriagado que atravessava a rua, batendo os sapatos de couro no chão com força ao trocar os pés desengonçadamente e ficar a um passo de cair nos galhos à beira da estrada.
Enquanto a solidão fazia da menina uma forte mulher, o eremitério transformava o garoto em um homem melancólico.
Em sua casa recém adquirida, os móveis excepcionalmente arrumados de seu quarto passavam uma visão irreal de . Talvez apenas sua cômoda, onde repousava uma intocada xícara de café emanando o bálsamo amargo por todo o ambiente, posicionada estrategicamente ao lado do computador que exibia uma lauda com diversas palavras desconexas, fosse um pequeno reflexo de quem era o rapaz.
Se alguém olhasse de fora, talvez pudesse identificar o escancarado contraste entre as duas almas solitárias e prever a história prestes a ser escrita. Mas, naquele fim de tarde, a única testemunha da cena era a névoa que pairava sob Salt Lake City, deslizando timidamente entre os ares invernais da cidade. E quiçá o destino, erudito e benévolo, que já havia traçado suas estreitas curvas para, enfim, uni-los ali.

Prólogo

E então veio o inverno…
Junto com ele, as águas calmas do lago Great Salt começavam a se tornar revoltas, trazendo para superfície segredos que deviam permanecer enterrados.
Segredos antigos - como um anel de brilhantes.
Segredos que, há tempos, deixaram de ser secretos - como uma pequena filmadora com a lente parcialmente quebrada.
E segredos que seriam capazes de mudar o destino de um grupo inteiro de amigos da pacata vizinhança de Wasatch Hollow.
A pele gélida parecia ainda mais pálida sob a luz do luar. A expressão era serena como, em vida, nunca fora.
O corpo foi levado à deriva quando os primeiros flocos de neve encontravam o chão.
De longe era impossível dizer há quanto tempo jazia sob a água. De perto, o tom cerúleo que pintava seus lábios e os rastros contrastantes das veias arroxeadas diziam que pertenceu ao lago por mais do que apenas aquela noite.
Ah, se as estrelas falassem…
Até onde sabia, o brilho dos astros eram a únicas testemunhas do que acontecera. Passaram-se cinco noites e ainda lembrava perfeitamente do que vira. Não. Não apenas do que vira; a lembrança mais visceral provinha da sensação. A sensação conhecida do descontrole correndo pelo seu sangue de maneira aflitiva, frenética e caótica demais para ser detida. Um piscar de olhos e havia possuído seu ser; era quase doloroso. Quase.
E então, quando um grito de horror ecoou entre as árvores, tudo o que viu fora a escuridão.
Passaram-se um, dois, três, quatro segundos. No quinto, a culpa fez um ímpeto de falsa coragem eletrizar seus sentidos e abrir seus olhos; e olhou para baixo a tempo de ver o sangue transformando a água cristalina em escarlate.
O desespero correu por suas veias, tão devastador que pensou nunca ter sentido algo parecido. E então, como se uma dose de morfina fosse injetada diretamente em seu coração, seu corpo relaxou.
Lembrou-se do que havia pensando mais cedo ao chegar ali. Um pensamento tão egoísta que apenas alguém com o coração demasiadamente frígido e raciocínio calculista era capaz de ter:
O brilho dos astros eram a únicas testemunhas.
Até onde sabia.


01

Chase Mitchell sabia que não precisava de muito para que um fim de tarde se tornasse perfeito. Um baseado farto pendendo de seus dedos e um confortável lugar no sofá que havia posicionado estrategicamente em sua varanda eram o suficiente.
Com os pés apoiados nas ripas de madeira esverdeada, a primeira tragada vinha como uma bala, deixando seu corpo, agora inerte, afundar um pouco mais nas almofadas escuras.
Dali, ele tinha a visão perfeita de alguns pontos importantes de Wasatch Hollow.
Ao longe, podia ver a escuridão caindo por trás das montanhas; a coreografia das nuvens tão envolventes que mal podia desgrudar suas pupilas dilatadas. Ao leste, podia ver a casa inteiramente branca das irmãs Hartley. Ele sabia que sempre dormia com a luz da varanda acesa e que Emily tomava uma xícara de chá todos os dias ao fim da tarde, debruçada no peitoril da extensão de seu quarto.
À oeste, Nate Baker e Grace Miller dividiam um ostensivo sobrado de arquitetura moderna. As janelas permaneciam fechadas na maior parte do tempo; exceto quando decidiam agraciar a noite dos vizinhos com as habituais preliminares na sacada.
Para Chase, o escuro servia bem. Mais do que isso; era necessário. Se o observador se tornasse observado, não seria possível ter sequer um vislumbre da vida do garoto. De qualquer ponto da vizinhança, a visão da varanda de Mitchell era exatamente a mesma: apenas uma torpe brasa circular, oscilando freneticamente em meio ao breu.

I saw you creeping around the garden, what are you hiding?

A chegada do inverno sempre era caótica em Utah; as tempestades faziam questão de anunciar a caída das temperaturas ao menos uma semana antes que elas acontecessem.

- Está falando sério que quer assistir esse novamente? - um resmungo tremeu seus lábios - ?

A voz de Emily não parecia passar de um ruído distante, ecoando entre as altas paredes da nossa sala de tv.
Minha atenção, no entanto, era completamente tomada pelo barulho da água que caía bruta do céu, provocando um estrondo ao encontrar o solo.
Havia quem gostasse de dias ensolarados e da brisa quente do verão.
Eu amava a chuva, o céu cinzento e o frio quase deprimente do inverno.
Eu sabia que tinha algo a ver com o fato das três piores noites da minha vida terem acontecido em meio ao mormaço quente que apenas o meio do mês de Julho era capaz de causar em Salt Lake City.
A primeira - e mais traumática de todas - fora o acidente de carro que tirou a vida dos meus pais.

- Está chovendo, Em.

Do outro lado do sofá, minha irmã soltou um suspiro.

- Podemos assistir Singing In The Rain. Se vai te deixar melhor…

Tirei a almofada branca do meu colo e levantei em um pulo.

- Pode escolher qualquer comédia obscena que você sabe que eu vou detestar. Eu já volto.

Senti a ausência de um grito de reprovação escapar dos lábios de Emily. Ah, … Você sabia que ela cansaria em algum momento. A tal sentença de segundos mais cedo, no entanto; “Se vai te deixar melhor…” atestava o óbvio.
Estar na merda era o meu novo estado de espírito.
Até quando eu estava me sentindo neutra, as pessoas à minha volta tinham certeza que eu sempre precisava de algo para me fazer bem.
Talvez fosse verdade - afinal, eu estava mesmo caminhando até o lado de fora de casa apenas para sentir a chuva molhando a minha pele. A água caía com tanta fúria que, no instante que meus pés tocaram o gramado do jardim, senti-me ensopada da cabeça aos pés. E a sensação era deliciosa.
Eu adorava a forma que meu corpo, aos poucos, ia se tornando gélido. O vestido branco, antes vaporoso, agora pesava em meu corpo e abraçava cada curva com maciez. Meus cabelos grudavam em minha nuca e pequenos fios se perdiam em meu rosto, emanando o cheiro de cereja do shampoo. Era como se o banho celestial lavasse não apenas meu corpo; mas toda e qualquer negatividade que fazia questão de se agarrar em minha alma ao longo do dia.
Por isso não tive medo de andar até o meio da estrada estreita que beirava nossa casa. Se em minhas costas as luzes das varandas enfileiradas brilhavam, na minha frente existia apenas o blecaute das trevas; os troncos longos de árvores ancestrais compunham uma floresta que se perdia ao longe. Se eu olhasse um pouco mais pra cima, podia ver as formosas montanhas, prestes a formar os primeiros vestígios de neve daquele fim de ano.
Com o olhar perdido entre os nuances azulados que apenas o início de uma noite chuvosa em Wasatch Hollow era capaz de proporcionar, não liguei quando ouvi o claro estalar de sapatos no asfalto. Eu sabia que Em não ia demorar em vir me chamar pra entrar.
Esperei alguns instantes pela voz da minha irmã. No entanto, em seu lugar, a sensação de estar sendo observada correu por minhas veias em um choque eletrizante.
Não podia ser ele. Podia?
Toda a serenidade que a chuva havia trazido para meu corpo se dissipou em um piscar de olhos. O pavor e a ojeriza à reminiscência de um toque indesejado fez meus ossos tremerem.
Era melhor ser apunhalada pelas costas ou ver o rosto do meu potencial assassino?
Mordi o lábio inferior para que parasse de tremer quando girei nos calcanhares. E então fiquei paralisada pelo que pareceram longos minutos.
O perigo devia ter se alastrado pelo meu corpo, pois eu nunca havia o visto por ali; o que era incomum em Wasatch, uma vez que eu conhecia todo mundo na pequena vizinhança. Ainda assim, tudo o que eu senti fora uma curiosidade genuína correr por minhas veias e se alojar em meu peito ao encarar seus olhos.
Ele tinha, na verdade, o par de olhos mais e mais nebulosos e misteriosos que os meus já ousaram mirar. Era como se em apenas um relance ele pudesse despir não apenas minhas roupas, agora transparentes; mas levar consigo minha alma se quisesse.
Mas fora nos seus lábios que meu deslumbre pareceu tornar-se magnético. Algo no vestígio de um sorriso que se curvava sua boca apenas de um lado de seu rosto fazia-me acreditar que, mesmo sem me conhecer, eu era a única pessoa que, naquele instante, ele queria ver. Era um daqueles raros sorrisos que, se tiver sorte, você só encontra duas ou três vezes na vida. Um movimento singelo nos lábios que o fazia parecer convenientemente compreensivo e incondicionalmente confiante.

- Qual delas você é? - os tais lábios se movimentaram, externando o que aparentavam ser as quatro primeiras palavras mais estranhas que alguém já havia me dito.

Abracei meu corpo, confirmando minha teoria ao sentir-me repentinamente nua no vestido branco e molhado.

- Desculpe? - meus lábios tremeram com uma única palavra e o quase sorriso nos seus aumentou um pouco mais.
- As irmãs Heartley, certo? É difícil não ouvir falar de vocês por aqui.

Balancei a cabeça ao tentar assimilar suas palavras. Que merda aquilo devia significar?

- Quem é você? - dei um passo em sua direção e ele recuou no mesmo instante. Parecia se divertir com a confusão evidente em meu rosto.
- , não é? Você definitivamente tem cara de .
- Mas o que...

Respirei fundo uma, duas, três vezes. Me concentrei nas gotas grossas de água, que caíam na pequena distância de dois passos entre nós dois. E então seus olhos entraram em foco, e reparei que ele precisava franzir o cenho, apertando-os para me enxergar por trás da chuva.
Ele era… bonito demais para ser tão irritante.

- .
- Hm?
- Meu nome é . Acabei de me mudar para casa ao lado - seus dedos apontaram para a construção azul escura de dois andares, exatamente ao lado da minha. Ótimo…

Dei um sorriso forçado.

- Era a péssima notícia que eu não precisava - soltei os braços ao lado do corpo e admirei suas feições uma última vez antes de seguir em direção à minha casa, fazendo questão de esbarrar em seu ombro no caminho. Era mesmo uma péssima notícia; eu gostava da ideia de ter ao menos a casa vazia ao lado da nossa - era uma casa a menos para reparar no que quer que fosse que havia de tão interessante em mim e Em.

O garoto - , como eu agora sabia - soltou uma risada quase inaudível quando nossos ombros colidiram. Mas eu não detive meus passos por isso. Fora sua voz, provocante e pretensiosa, que fez-me olhar por cima dos ombros no meio do caminho.

- Foi um prazer, Heart.
- É Heartley - resmunguei ao me virar.
- Eu sei. Mas prefiro Heart.

Dizem que o barulho da floresta pode ser reconfortante.
Até é verdade quando começa a amanhecer e os primeiros raios de sol afastam qualquer resquício de temor que a escuridão havia deixado entre as folhas. Mas quando ele começava a se pôr e a noite anunciava a chegada com os rajadas de vento chicoteando os galhos, a floresta parecia nada além de amedrontadora.
Aquela noite de sexta-feita no início de Dezembro começara exatamente assim; do acalento da sala de estar, eu podia ouvir as partes mais finas das árvores chocando-se entre si. O vento uivava ao encontrar as paredes da vizinhança e, se ficássemos em silêncio, era possível ouvir os animais que se escondiam nas profundezas da floresta.
Por sorte, não ficávamos.
Chase estava enchendo seis copos com uma mão enquanto pitava um baseado com a outra. Eu não sei porque ainda me impressionava com sua destreza de fazer milhares de coisas enquanto estava fumando ou até bolando um baseado; aliás, quando foi que Chase não estava com um baseado?

- Quer dizer, porque alguém se muda para uma casa com uma história dessas? Não é como se tivessem poucas opções por aqui - Calla Lewis observou ao colocar uma mecha de cabelo ruiva atrás da orelha graciosamente.
- Algumas pessoas tem interesse em coisas mórbidas. É mais comum do que pensa, docinho - Olivia Moore deu um peteleco no nariz de Calla.

Eu estava um tanto área à conversa, mas aquilo me fez sorrir. Calla e Olivia eram inseparáveis. Enquanto Cal era a pessoa mais doce que eu já conheci, Liv era a mulher mais determinada. Ela costumava ser a minha melhor companhia para as noites em que Salt Lake City se tornava pequena demais para diversão. Antes de… tudo.
Sempre me vi um pouco nela; era como se meu lado selvagem fosse, finalmente, compreendido.

- Eu aposto que eles não sabem - interveio Chase, passando um dos copos cheios de rum e Coca Cola para minha irmã.
- Acho que não dá pra não saber. É a única coisa interessante que aconteceu em Wasatch Hollow em décadas - Brooke Harris observou ao piscar os belos olhos castanhos. Em minha direção.

Eu sabia o que ela estava pensando; havia, de fato, acontecido outra coisa interessante - se assim eu podia chamar - em Wasatch Hollow. Mas ela não diria isso na minha frente.

- Bom, a boa notícia é que vamos descobrir - Emily deu um pequeno pulinho no seu lugar no sofá - Eu meio que os convidei para virem aqui. Vocês sabem, como nossas tradicionais festas de boas vindas.

E em um segundo, eu estava interessada na conversa.

- Você convidou quem? - apoiei meu copo no braço do sofá - Nós literalmente nunca fizemos uma festa de boa vindas.
- Certo. Mas eles não sabem disso - ela abriu o sorriso gigante de quem havia traçado o melhor plano do mundo e eu estreitei as sobrancelhas, precisando de mais detalhes do que aquilo - Os novos vizinhos. Os que compraram a casa assombrada.

Foi só quando ela apontou com os dedos compridos e esmaltados em vermelho para a direita que entendi o que estava acontecendo.
A casa ao lado, onde em mil novecentos e oitenta e quatro, aparentemente, uma esposa amargurada pela traição assassinou seu marido. Onde, nos sete anos que vivíamos aqui, ninguém havia morado.
Onde o garoto que eu vi na última noite havia entrado após ser a pessoa mais invasiva da face da terra. E, pra mim, invasivo era um xingamento e tanto.

- Não é uma casa assombrada. Isso não existe - foi a voz de Austin Allen que me despertou dos devaneios.

Eu quase esqueci que ele estava aqui; o que era normal, já que Austin, no geral, era quieto. Ele sempre dividia um baseado com Chase, gostava de falar de arte e nós não entendíamos muito bem porque ele andava com a gente. Não que ele fosse uma companhia ruim - na verdade, nós é que éramos pra ele.

- Em, você sabe como me sinto sobre estranhos. Especialmente aqui em casa - encolhi os ombros, as palavras saindo quase em um sussurro. E eu estaria esbravejando se não achasse que meu excesso de cuidado já havia se tornado um excesso de chatice para os meus amigos.
- Eles não são estranhos - minha irmã sorriu sem mostrar os dentes.

Ela estava animada com a ideia de conhecer pessoas novas. Emily sempre estava animada com a ideia de conhecer pessoas novas. Eu não entendia qual era a graça em ter que construir todo um novo alicerce de confiança; principalmente porque, na grande maioria das vezes, a confiança era quebrada em algum momento.

- Na verdade, todos fomos estranhos um dia - o sorriso de Em refletiu nos lábios de Calla, habitualmente tentando encontrar uma forma positiva de ver as coisas - Eu ouvi que eles vieram de Nova York.
- Quem se muda de Nova York para Salt Lake City? - fiz uma careta.

Talvez eu devesse ir pra Nova York.
E nada subúrbio. Cenas como essa não acontecem fora do subúrbio.

- Bom, vocês se mudaram de Santa Mônica… - ponderou Brooke, sentada ao lado de Chase. Ela sempre dizia o que pensava e eu realmente a adorava por isso. Mas não agora.
- Mas nós tínhamos um bom motivo - gesticulei como se fosse óbvio.
- Eles também devem ter... - Olivia mal terminou a frase e o barulho da porta principal sendo aberta chamou a atenção de todos nós - E parece que vamos descobrir agora - ela terminou em um sussurro.

Estava prestes a provar meu ponto quando achei que os dois haviam simplesmente feito-se bem vindos ao entrar em nossa casa sem, ao menos, tocar a campainha. Me levantei do sofá; mas meus movimentos foram detidos quando ouvi uma risada ecoar pela sala.
Os dois, de fato, estavam ali. Mas vinham logo atrás de Grace Miller e Nate Baker. E, bem… ao menos Grace sempre entrava sem bater.
Tentei impedir que meus olhos caíssem em Nate, mas era inevitável; se ele estava no ambiente, meus olhos sempre caíam nele. E, mesmo depois de um ano, meu peito ainda de contraia um pouquinho, sentindo a dor que apenas ele era capaz de causar - dor essa que apenas se multiplicava quando mirava seus dedos entrelaçados nos de Grace.
Peguei meu copo e dei um gole enquanto observava Emily segurar um dos irmãos - o outro, que eu ainda não conhecia; ou com quem ao menos não tinha trocado qualquer palavra - pelos ombros para apresentá-los a cada uma das pessoas. Porque essa era Emily.
Não pude deixar de notar que, enquanto o garoto vinha à frente, cumprimentando a todos com um largo sorriso no rosto e simpatia na ponta da língua, ficava alguns passos atrás, se resignando a olhares vazios e um leve curvar de lábios. E nenhuma palavra.
Ele parecia um pouco… Bom, comigo.
E eu apenas ainda não sabia se isso era ruim ou péssimo.
Passei o resto da noite ao lado de Chase. Ele sabia ser uma boa companhia; me fazia rir das coisas mais aleatórias enquanto me dava a dose necessária de THC da noite.
Escutando a conversa que ia e vinha pelos ares da sala, descobri apenas três coisas sobre os novos vizinhos.
O sobrenome deles era e o outro irmão se chamava .
Eles, de fato, sabiam o que havia acontecido na casa.
E eles realmente se mudaram de Nova York; mas não entraram em detalhes sobre o porquê.
Quando o relógio anunciou as três horas da manhã, Liv e Em estavam deitadas e adormecidas em um dos sofás. Chase, e conversavam enquanto juntavam os copos e garrafas espalhados pela sala e reuniam na ilha que fazia a divisão com a cozinha.
Todos os outros haviam ido embora, e eu… Eu continuava agarrada à solidão, apoiada em uma das várias portas de vidro da sala que davam para o jardim dos fundos. Pela primeira vez em muito tempo, no entanto, me repreendi por fazer isso; me fechar em uma espécie de bolha impermeável quando qualquer pessoa que eu ainda não conhecia se aproximava.
Quanto tempo eu demoraria para voltar ao normal? Eu sequer conseguiria, um dia? E o que era normal, afinal?
Nunca. Nunca era resposta certa.
Porque não havia um motivo plausível sequer para arrastar mais alguém pra dentro da minha bagunça. Porque pessoas o suficiente já sabiam o que havia acontecido.

- Está tudo bem?

Apenas quando as três palavras pronunciadas da maneira mais calma que eu já ouvira chegaram aos meus ouvidos, percebi que meus olhos estavam prestes a deixar um par de lágrimas grossas rolarem pelo meu rosto.
Me encolhi instintivamente quando a ponta dos seus dedos tocaram meus ombros e me apressei para enxugar as lágrimas antes de virar para ele. Com um sorriso fraco, apenas assenti com a cabeça. Por cima do seu ombro, um pouco mais distante, pude ver olhando fixamente em nossa direção. Com o cenho franzido e a concentração total em meu rosto, sua expressão era apenas… Vazia. Indecifrável.

- Tem certeza? Eu posso…
- Está tudo bem, . Eu juro.

Um sorriso divertido se formou em seus lábios.
E, sim. Ele era tão lindo quanto o irmão.

- Não achei que soubesse meu nome - ele cruzou os braços cobertos por um moletom cinza - Você não pareceu muito interessada na conversa durante a noite inteira.

Não sabia dizer ao certo o porque, mas algo em seus olhos me fez relaxar. Um brilho de delicadeza genuína que fez seu sorriso refletir em meus lábios.

- Eu não estava.

Ele deu uma breve risada.

- Acho que sabe onde me encontrar, se precisar.

Meneei a cabeça positivamente mais uma vez, tentando deixar meu sorriso o mais simpático possível. deu uma singela piscadela antes de enfiar as mãos nos bolsos do moletom e me dar as costas, indo em direção a porta de saída. Quando instintivamente voltei o olhar pra onde estava segundos atrás, nada além das sombras da noite haviam ficado em seu lugar.
Exatamente como eu.
Soltei uma pequena risada antes de jogar uma manta em cima de minha irmã e Liv. E então subi para o meu quarto, pronta para finalmente relaxar.
Era de costume que eu deixasse a luz da varanda do meu quarto acesa e as portas abertas. Eu me sentia mais segura ao dormir em um lugar parcialmente iluminado; e eu sempre pensava que assim poderia observar perfeitamente se alguém tentasse entrar.
Entrei na varanda, como em todas as noites.
Liguei o interruptor, como todas as noites.
Mas quando a luz iluminou o chão de madeira laqueado em branco, percebi que algo não estava como em todos as noites.
Mas é claro.
Eu podia ter ficado com o quarto da minha irmã, bem ao lado do meu, onde a lateral da sacada dava pra casa da adorável senhorita Brown.
Mas a minha varanda precisava ficar lado a lado do que eu suspeitava ser o mais novo quarto de .
Ele estava debruçado no peitoril vazado de carvalho escuro, mirando a escuridão da floresta enquanto se deliciava com um cigarro.
Até perceber que eu estava lá.
O inquietante sorriso tomou conta dos seus lábios. Ele apagou o cigarro na madeira e deu apenas um passo para o lado, se virando ao ficar de frente para mim.

- Porque fingiu que não me conhecia? - a voz, alta o suficiente para que eu ouvisse, cortou o silêncio da rua.
- Foi você quem fez isso. Eu apenas segui seus passos - cruzei os braços - E eu realmente não te conheço.
- Você é sempre tão receptiva?
- Você é sempre tão intrometido? - dei um passo em direção ao parapeito - Eu não gosto disso - movimentei os dedos entre eu e ele, apontando para nós dois - Não gosto de fazer novas amizades, conversar sobre a vida ou tentar deixar alguém me conhecer melhor.

Pessoas o suficiente sabem da minha merda; prendi a voz em minha garganta antes de completar.
Ele piscou os olhos intensamente em minha direção, o sorriso ligeiramente maior.

- Você pareceu se dar bem com meu irmão.

Foi a minha vez de sorrir.

- Então talvez o problema seja com você.

Eu estava pronta para ouvir mais um comentário sarcástico quando um grito de horror ecoou entre as árvores.
Senti um arrepio percorrer minha espinha ao abraçar meu próprio corpo. Não parecia estar muito longe. Olhei para floresta, tentando encontrar algo fora do lugar. Nada.
Entre as casas, tudo parecia calmo como sempre.
Um gosto amargo subiu pela minha garganta e preencheu minha boca. Em um instante, eu não estava mais na varanda do meu quarto. Eu estava lá. Eu era ela. O grito era meu.
Não podia ser...

- Esse tipo de coisa é comum por aqui? - a voz de fez minha atenção voltar para ele, e o garoto parecia tão assustado quanto eu.
- Na verdade, não - engoli em seco - Mas tudo acaba parecendo mais assustador aqui. A floresta faz isso, um grito e é como se estivessemos em um filme de terror. As árvores fazem um ótimo trabalho em nos fazer achar que um grito a quilômetros de distância está bem ao nosso lado - fiz uma pausa um tanto dramática - Ou então ele descobriu que você é o novo vizinho dela.

Algo parecido com uma risada discreta escapou de seus lábios.

- Tenha bons sonhos, Heart.

02

Quando Olivia Moore sentou ao lado de Calla na segunda-feira de manhã, três pensamentos vieram à sua cabeça.
Primeiro, Calla sempre exagerava na essência de baunilha que espalhava pelo veículo que tinha ganho dos pais no ano anterior.
Segundo, ela odiava o fato de o inverno ter começado e ser impossível abrir sequer uma fresta da janela carro sem o risco de sofrer uma hipotermia com o vento que chicoteava seu rosto pela velocidade das quatro rodas.
Terceiro, ela sentia falta das risadas de no caminho até a universidade de Utah.
Quando chegou em Salt Lake City, ainda com o coração aos pedaços pela morte de seus pais, fora Liv quem a encontrou chorando nos degraus de sua varanda e a ofereceu o ombro necessário durante sua primeira noite na cidade.
esteve ao lado de Liv durantes todas as brigas turbulentas com um sujeito chamado Scott Thompson - e jurou que o mataria se ele chegasse perto de sua amiga novamente.
Liv esteve ao lado de em todas as recaídas que a lembrança da perda trouxe à garota ao longo dos anos.
Quando as amigas ingressaram na faculdade, dois anos atrás, era verão e as duas deram início a algo que viraria um ritual. Enquanto todos preferiam percorrer as duas milhas de distância entre Wasatch Hollow e a Universidade de Utah em dez minutos sob quatro rodas, Liv e não se incomodavam em fazer a caminhada de meia hora a pé. sempre dizia que gostava de observar a forma que a cidade se transformava gradualmente conforme elas chegavam no centro - e com o passar do tempo, Olivia não podia concordar mais.
Ela havia aprendido, com , a notar os mínimos detalhes no que quer que fosse - pessoas, lugares, objetos e até sentimentos.
Quando desistiu da faculdade, Calla se prontificou a acompanhar Liv pelo trajeto. Até ficar cansativo; exatamente um mês depois.
Quando Liv decidiu que continuaria a caminhar sozinha, algo começou a incomodá-la.
Para a morena, andar na beira da floresta era, quase sempre, assustador. Ela não conseguia parar de pensar nas milhares de histórias de terror que envolviam um bosque e uma garota solitária.
Mas algo em especial a assustava ainda mais.
Toda vez que passava em frente à casa de Austin Allen, Liv se sentia observada; mas quando mirava as janelas, mesmo que disfarçadamente, não via ninguém.
E fora esse o estopim para que a garota, por fim, aceitasse as caronas de Calla, que vinha acompanhada de Emily, para a universidade.
Todos os dias, Liv mirava, através das janelas em movimento, o caminho que costumava percorrer com a melhor amiga. Com o passar do tempo, ela entendera que não sentia falta apenas da companhia de .
Mas de , em si.
A garota já não tinha a mesma leveza de quando elas se conheceram; e ela sabia que era porque a vida a tinha maltratado não uma, nem duas - mas três vezes.
Diante dos seus olhos e sob virgílio da sua impotência, Liv assistiu a amiga se afastar da vida; ela nunca vira alguém tão linda querer se tornar tão invisível.
Mais do que isso, ela nunca imaginava que , de fato, conseguiria se distanciar tanto de tudo que um dia já fora.

may the petals teach me the art of letting go

Eu sonhei com as estrelas.
No início da semana, acordei com um gosto amargo na boca que apenas uma noite repleta de pesadelos era capaz de causar.
Lembro de assistir resplandecência dos astros; antes, reluzindo o belo e costumeiro tom prateado. Diante dos meus olhos, a cintilância tornou-se rubra.
Mas eu não estava no céu.
A alguns anos-luz de distância, meu corpo flutuava entre as árvores de uma floresta conhecida.
Meus pés mal tocavam o chão; a grama e as pequenas flores brancas que enfeitavam o caminho pareciam apenas fazer cócegas em meus dedos. Ao longe, os passos ferozes de um cervo faminto misturavam-se nos ares com o bater de asas de um corvo que voava sem direção. Mas era o uivo angustiado de uma matilha, acertando em cheio o ecoar dos troncos das árvores, que pareciam transformar o que um dia foi pacífico em um lar amedrontador.
Naquela segunda-feira, o meu despertar aconteceu antes que o relógio sequer marcasse as cinco da manhã. Por mais que o vento que invadia meu quarto pelas portas abertas da varanda fosse congelante, meu corpo estava completamente ardente e suado por baixo dos três edredons que me abrigavam.
Com a respiração em um descompasso impetuoso, meus olhos voaram para o céu - e meu coração só começou a se acalmar quando me certifiquei que o céu seguia negro; e as estrelas, prateadas.
A noite que prometia tranquilidade se transformou rapidamente em horas aflitivas de insônia.
Eu era um tanto cética sobre toda a fantasia quimérica aplicada ao destino; mas eu acreditava em coincidências. E eu não saberia explicar de outra forma, que não um sucessivo acaso de coincidências, o fato dos meus sonhos desconexos e um tanto assustadores frequentemente me avisarem que algo ruim estava prestes a acontecer.
Fora assim uma semana antes da morte dos meus pais, quando acordei Emily com um choro compulsivo após sonhar com um quarto escuro onde as paredes gritavam e o chão era uma cama de espinhos.
Fora assim nos outros dois momentos mais traumatizantes de minha vida.
Eu fechei e abri os olhos por diversas vezes antes do céu tornar-se esbranquiçado.
Naquela segunda-feira, nenhum raio de sol passou pelas nuvens de Salt Lake City. A escuridão deu lugar a um céu coberto de nuvens e a promessa de mais um dia melancólico.
Na minha cama, eu esperei ouvir o motor do carro de Calla estacionar em frente à nossa casa e o barulho da porta abrindo e se fechando para levantar. Era um daqueles dias em que eu queria apenas a minha companhia, e o bom humor matinal de Em era algo que eu nem conseguia pensar em lidar.
O primeiro dia da semana costumava ser sereno em Wasatch Hollow. E eu sempre aproveitava a quietude da vizinhança para andar pelo pequeno caminho entre a floresta que ficava a poucos metros de nossa casa.
Eu sabia que todos estariam na faculdade, e o máximo de interação que acontecia era ter que gritar um forçadamente enérgico bom dia para senhora Brown enquanto ela saía de casa com a sua gigante sacola de pano para fazer compras.
E, vez ou outra, eu encontrava o senhor Baker lendo o jornal na cadeira de balanço em seu jardim. O pai de Nate fazia parte da comissão política da cidade e sempre parecia severo demais. Quando me via, o máximo que fazia era erguer os olhos por cima das folhas de notícias e me cumprimentar com um aceno fraco. Seu olhar tinha um desprezo condescendente - e não quando apenas direcionado a mim; eu podia jurar que olhava da mesma forma para sua mulher, seu filho e qualquer pessoa que dele se aproximasse. Ele morava em uma majestosa casa de três andares e, no jardim dos fundos, ficava a casa de hóspedes que Nate e Grace agora dividiam. Era uma bela casa de hospedes, com dois andares, cantos retos e muitas janelas.
Eu evitava, no entanto, olhar pra ela quando passava por ali. Preferia prender meus olhos na casa de Brooke ou de Austin, que ficavam bem ao lado e não despertavam nenhum tipo de lembrança consternada.
Bom, além de ganhar mais simpatia dos pais de ambos.
Eu não precisava pensar muito para saber qual caminho tomar; minhas pernas se moviam automaticamente pelo espaço entre os altos troncos de árvores em direção à extensa ponte que se escondia ao norte das nossas casas. Era uma sensação prazerosa; caminhar na natureza, com o pensamento pairando longe, a mente quase vazia ao inspirar o ar puro que apenas o inverno era capaz de trazer aos meus pulmões.
Naquele dia, no entanto, vi minha mente vagando um pouco mais na realidade do que no sentimento utópico que as caminhadas pela floresta costumavam me trazer. Lembrei-me, principalmente, de quando cheguei à cidade.
Eu tinha deixado a Califórnia com recém completados dezessete anos. Havia perdido meus pais há três meses e, pra mim e Em, era doloroso demais viver na casa repleta de lembranças em Santa Mônica. Foi na noite do meu aniversário, ao virar incontáveis taças de um vinho doce demais, que eu e Em decidimos mudar para a casa na qual quase não tínhamos lembranças e, convenientemente, não nos traria nenhuma despesa inicial.
Eu devia ter cinco anos na última vez que estive em Utah. Em tinha seis. Era a casa de infância do meu pai; aquela à qual ele sempre fora apegado demais para apagar seu nome da escritura. Ele sempre dizia que nos mudaríamos pra cá quando a Califórnia se tornasse caótica demais.
E ela, enfim, se tornou.
E fora exatamente esse contraste que me fez amar Wasatch Hollow à primeira vista. A vida aqui costumava serena, quase entediante.
Por isso era tão difícil aceitar e, principalmente, acreditar no sentimento inquietante que estava acometendo meu peito nos últimos dias.
Eu não sabia explicar, mas parecia que algo dentro de mim havia mudado; alterando consigo tudo o que existia no meu exterior. Não era a primeira vez que eu me sentia observada ao caminhar pela floresta. Eu sentia a sugestão do medo percorrendo em minhas veias, como se ele estivesse se esgueirando à cada esquina, esperando apenas o horror se apossar inteiramente de mim para, enfim, aparecer.
Era como se fosse preciso apenas um piso em falso para a terra tremer sob meus pés e se partir a qualquer momento.
Foi na tentativa inquietante de cessar esse sentimento que me vi sentada na parte de fora da ponte Creekside. Fechando os olhos, eu podia sentir o vento bater cortante em meu rosto e o único som que chegava aos meus ouvidos eram as águas chocando-se contra as pedras.
Era calmante - quase sedativo.
Tão calmante que não pude evitar me perder no tempo.
E o próximo vestígio de realidade veio tão carente de qualquer aviso prévio que fez meu corpo cambalear no pedaço de ripa esverdeada em que eu apoiava meus quadris.

- Se você encarar o nada por muito tempo, vai acabar vendo o que não está lá.

Não surpreendi-me inteiramente pelo conteúdo de suas palavras. Mas, principalmente, por saber quem estava atrás de mim antes mesmo de me virar.

- Você não pode simplesmente assustar quem está sentada em uma ponte assim - espiei por cima dos meus ombros por apenas alguns segundos, mas foram o suficiente para que meus olhos capturassem o imensurável fascínio que o sorriso sugestivo do garoto provocava.

deu um passo pra frente; embora meus olhos já estivesse de volta ao horizonte, pude ouvir o estalar dos galhos secos sob seus pés.

- Não está pensando em pular, está?

Sua voz fez cócegas em meus ouvidos como um sussurro distante. Porque, naquele instante, eu já estava distante dali; levada por uma breve lembrança que a sensação de ouvir suas palavras em minhas costas, sorrateiras e curiosas, haviam me trazido.

Salt Lake City, um ano e seis meses atrás

- O que está fazendo aqui? - a voz de Nate veio acompanhada de seus braços em minha cintura e seu rosto, apoiando-se carinhosamente na curva de meu pescoço. O vestígio de uma barba fez cócegas em minhas bochechas e eu sorri com a sensação.
- Não sei. Gosto de como é silencioso e quase nunca ninguém vem aqui - me debrucei levemente no cercado da ponte Creekside.

O dia estava quente e o sol refletia fervoroso nas águas calmas e cristalinas. Eu mal podia contar quantas vezes eu planejei pular ali durante o verão, pensando no quão agradável seria a sensação da água tórrida em meu corpo; mas o amontoado de pedras que se espalhavam nas margens e bem abaixo da ponte sempre me faziam pensar duas vezes. Se, durante a queda, meu corpo se inclinasse apenas alguns centímetros a mais do que o planejado, algum estrago certamente seria feito.

- Você sabe o que acabou de me dizer, não sabe? - suas mãos deslizaram de minha cintura para meus braços, apenas para que sua mão encontrasse a minha e nossos dedos se entrelaçassem. Ele a segurou firme e deu um passo para trás para girar meu corpo. Quando meus pés fixaram-se no chão, eu estava inteiramente colada à ele e meus olhos estavam completamente presos nos seus.
- O que? - soprei, genuinamente curiosa.

Era extremamente difícil não se deixar envolver pelo charme de Nate Baker. Quer dizer, o cara era lindo e tinha os olhos azuis mais escuros e expressivos que eu já vira.

- Que podemos fazer o que quisermos bem aqui e ninguém vai aparecer de surpresa pra estragar a festa.

Sorri diante da curva insinuante no canto de sua boca.
E então fechei os olhos, ansiando por mergulhar no gosto tão conhecido de seus lábios.

- Heart? - trouxe o meu despertar pra realidade.
- Sim? - minha voz arranhou minha garganta em piloto automático; pois meus pensamentos ainda estavam um pouco longe dali.

Exatamente em Nate e Grace e no quanto doía em mim ver os dois juntos.
Um breve risada ecoou dos lábios de .

- O que está pensando em fazer?

Meneei a cabeça, tentando focar no que ele dizia. Meus olhos miraram a distância quase petrificante entre meus pés e a água, e depois demoraram alguns segundos nas pedras logo abaixo de mim.

- Você acha que eu sobreviveria se pulasse?

Com o canto dos olhos, o vi se aproximar lentamente de mim. Ele tinha as mãos nos bolsos de uma calça jeans surrada e os cabelos estavam jogados para o lado de um jeito despreocupado que o deixava tão bonito que era quase irritante. O garoto se inclinou no peitoril, o cenho franzido ao analisar o que me esperava lá embaixo se eu, de fato, pulasse.

- Digamos que a queda não seja forte o suficiente e que você escape das pedras logo ali em baixo - seus dedos longos apontaram para as superfícies potencialmente mortais - Eu me preocuparia mais com o frio. A água deve estar tão gelada que cair nela é como sentir várias facas entrando em seu corpo ao mesmo tempo. É tão desesperador que seu corpo pode até ficar paralisado pelo choque da temperatura. Então… - ele se virou pra mim - Bom, se você pular, eu não vou ter outra escolha senão ir atrás de você. E eu realmente não quero fazer isso.

Ele terminou a frase com um sorriso quase terno. E, antes que eu pudesse perceber, meu corpo estava inclinado em sua direção e eu estava completamente compenetrada nas modulações baixas de seu tom de voz, que soavam como se ele estivesse contando um segredo e as notas que sua fala atingiam nunca mais se repetiriam. Em seus olhos vividamente , um brilho instigante me fazia acreditar que o sussurro cantado era perfeitamente calculado para que eu precisasse, de fato, me aproximar de seu rosto para entender o que dizia.

- Você soa um tanto paranóico - me ouvi sussurrar, a voz acompanhada de um sorriso causado inconscientemente pela alegria misteriosa nos lábios dele.

Mas não era exatamente aquilo que eu queria dizer. Você soa como alguém que já vivenciou um bocado da vida e, por isso, tem a resposta certa para as perguntas mais insensatas era a sentença que eu estava, de fato, pensando.
O sorriso esperto contagiou seus olhos, que apertaram-se ligeiramente da maneira mais charmosa o possível.

- Todo mundo diz isso. Mas, como todo respeito, - ele estendeu uma das mãos para mim - Não sou eu que estou sentado numa ponte perguntando se eu sobreviveria à queda.

Droga. Ele era bom.
Segurei a risada que insistiu em se formar em meu rosto, escondendo-a com um suspiro frustrado ao aceitar a sua mão.
Não que ela fosse necessária. Mas seus olhos, por algum motivo, não me deixaram nega-lá.
De acordo com todos os livros fantasiosos e os filmes prenunciáveis de romance, o primeiro toque em alguém por quem você se sente minimamente atraído precisa te causar alguma coisa.
Um ruborizar nas maçãs, uma carga elétrica pelos dedos ou um arrepio subindo pela espinha.
Não era muito difícil se sentir atraída por - ele era, de fato, um dos garotos mais bonitos que meus olhos já haviam visto.
Quando segurei em sua mão para que ele me ajudasse a sair do limbo, no entanto, eu senti algo que meu corpo ainda não conhecia.
Talvez não tenha sido apenas o toque. Não - nem o toque dos seus dedos nos meus e nem a maneira firme que ele segurou a minha cintura para que meus pés voltassem à terra firme.
Foi o momento em que eu estava exatamente entre o risco da queda e o conforto de estar chão. Foi quando senti que as mãos que me seguravam e deveriam me passar segurança, tinham o efeito contrário em meu corpo; elas faziam a sensação de perigo correr mais rápido por minhas veias. Seus olhos, no instante tão próximos aos meus, pareciam me dizer que o garoto a minha frente conhecia todos os segredos do universo, mas não ia contá-los pra ninguém; especialmente não para mim. Um olhar tão confiante que parecia quase tímido. Quase visceral demais. Em seus lábios, que me asseguraram em um sussurro que ele estava me segurando, percebi algo que tornou-se sorrateiramente adorável. Quando falava, o canto de sua boca arqueava-se ligeiramente para o lado; principalmente quando ele pronunciava os Is e os Os. Era como se um sorriso desafiador tivesse morado por tanto tempo ali que fora impossível não deixar seus rastros.
Era extremamente chamoso.
Assim como perigoso e uma declaração escancarada do que eu chamaria de problema.
E problema era exatamente do que eu sabia que precisava me manter distante.
E foi pensando exatamente nisso que deixei escapar a sentença de palavras que eu sabia que soariam como uma exagerada acusação.

- Como sabia que eu estava aqui?

deu um passo pra trás, os olhos ainda grudados em mim.

- Não me diga que acha que estou perseguindo você.
- Só é estranho eu não me lembrar da última vez que virei e você não estava atrás de mim - cruzei os braços, tentando focar o olhar em qualquer coisa que não fosse seu sorriso.

Mas ele não parecia se importar em me encarar com aquela dose de intensidade gritante. E ficou, por longos instantes, com os brilhantes olhos focados em mim. Sem dizer uma palavra.
Eu estava quase o chacoalhando pelos ombros para que dissesse algo. Mas, quando seus lábios se separaram e o murmúrio incitante ressoou em meus ouvidos, desejei que ele ficasse calado por mais tempo.

- Qual a sua história, Heart?

Senti meu coração martelar lento contra meu peito. Meus olhos voltaram a encontrar os dele - dessa vez, tentando vasculhar o que havia além de sua íris ao imaginar o porque aquelas cinco palavras que tanto me incomodavam haviam saído de sua boca.

- O-o que? - consegui sussurrar diante da conhecida sensação de temor.

Talvez porque eu precisava de mais tempo para escolher qual versão da minha história era menos deprimente; a trágica, a dramática ou a assustadora?

- Sua história - ele repetiu, o corpo levemente inclinado em minha direção - Todo mundo tem uma história. Qual a sua?

Apertei os olhos. Contrai meus lábios. E então me senti repentinamente gelada, enfiando as mãos dentro dos bolsos gigantes do casaco pesado que cobria meu corpo e comecei a andar na direção de nossas casas; simplesmente porque eu precisava de uma desculpa para deixar de me sentir vulnerável sob seu olhar.

- As pessoas não saem perguntando isso umas pras outras. Principalmente as que mal se conhecem.

Enquanto se colocava ao meu lado para acompanhar meus passos, uma risada rouca escapou de sua garganta.

- É apenas uma pergunta.
- Não é uma pergunta normal.
- Normal é relativo. O que é normal para uma aranha pode ser o caos para uma borboleta.

Foi a minha vez de soltar uma risada.

- Você realmente tem uma resposta pra tudo, não é mesmo?
- Corrija-me se eu estiver errado, mas todas as minhas respostas te fizeram sorrir até agora.

Relaxei os músculos contraídos de meu rosto no mesmo instante.
Eu estava mesmo sorrindo. Por que eu estava sorrindo? Não era alegria, eu sabia. Até mesmo porque esse sentimento não visitava meu íntimo há tempos. Era algo como uma curiosidade genuína de experimentar o novo, que ascendia dentro de mim uma faísca que eu achava ter sido aniquilada há muito tempo.
Ainda que ele estivesse ligeiramente certo, forcei uma exclamação indignada.

- Você não podia ser mais convencido.

Eu não precisava olhá-lo para saber que o sorriso transbordando insolência permanecia em sua expressão.
Os passos restantes até chegarmos em frente à nossas casas foram percorridos em silêncio; mas, de alguma forma, não era desconfortável. Arriscaria dizer que, assim como eu, ele preferia a ausência de qualquer tipo de interação.

- Obrigada por ter me acompanhado até aqui, mesmo sem eu ter te convidado - dei um sorrisinho amarelo ao chegar no pequeno espaço entre o seu jardim e o meu, diminuindo os passos.
- As pessoas aqui não são muito receptivas, não é mesmo?

Ele levantou as sobrancelhas. Eu estreitei os olhos.

- Ah, por favor. Você não gostaria que eu fosse mais receptiva porque isso faria com que eu quisesse saber mais sobre você - meu dedo indicador apontou pra mim e depois pra ele - Eu não quero, e sei que você também não quer me contar. E sei que é por isso que faz tantas perguntas sobre mim, para que a atenção não caia sobre você. Preciso dizer, é realmente um ótimo mecanismo de defesa.

Como eu sabia? Porque eu fazia exatamente a mesma coisa.
Achei que ele soaria indignado, ou até mesmo que negasse veemente minhas palavras. Mas as feições serenas nunca deixaram seu rosto; pelo contrário, se tornaram ainda mais calmas quando as mãos saíram dos bolsos de seu casaco segurando um cigarro e um isqueiro prateado.

- Me desculpe, o que estava dizendo? - seu dedo empurrou habilidosamente o fecho do zippo e a pequena flama iluminou superficialmente seu rosto - Eu fico me perdendo nos seus olhos.

Uma pequena ondulação gélida fez meu estômago revirar e eu me perguntei se meus ouvidos haviam captado bem as palavras que deixaram sua boca.
Porque as pessoas realmente não falavam essas coisas. Principalmente as que mal se conheciam.

- Você é inacreditável.

As palavras afônicas e desajeitadas mal haviam sido pronunciadas quando um ronco escabroso de motor de carro chamou nossa atenção.
Quer dizer, a minha. Enquanto meus olhos se fixaram no veículo antigo que estacionava em frente à garagem da casa de , ele concluía a tarefa de acender seu cigarro como se nada à sua volta fosse capaz de o abalar.
De um carro preto, comprido, com as laterais desgastadas e um espelho prestes a cair, vi saindo com um sorriso transbordando simpatia e o olhar fixo em nossa direção.
Certo, qual era o lançe da genética nessa família? Porque eu jurava nunca ter visto irmãos tão atraentes quanto aqueles dois.

- Cara, eu fiquei te esperando na porta da universidade até Olivia me contar que você já tinha ido embora - seus olhos cintilaram entre o irmão e eu - Oi, .

Respondi com um sorriso e um leve aceno de cabeça.

- É… Eu preferi vir andando.

Olhei para discretamente enquanto ele exalava a fumaça pela boca. Eu era a rainha das respostas evasivas, portanto, reconhecia uma com facilidade quando a ouvia.

- Universidade de Utah? - minha voz soou falha quando perguntei baixinho; embora a pergunta fosse dispensável, pois, se Liv estava lá, a resposta era óbvia.

Olhei de para quase freneticamente, tentando encontrar qualquer indício em suas expressões.
Eles não sabiam de nada.
Céus, eles não podiam saber de nada.

- Apenas o primeiro período. Não aguentei muito tempo - a resposta veio de , e não era uma novidade que sua expressão não me entregasse muita coisa.

Engoli em seco.
Calma, . Apenas aja normalmente. O que você diria se não tivesse nada a esconder?

- Bom, vocês chegaram oficialmente ao pesadelo. Acho que vão gostar.

Péssima escolha de palavras.
me lançou um olhar engraçado, como se estivesse tentando decifrar a frase aparentemente sem sentido que eu havia acabado de proferir.
Talvez ele tivesse entendido que eu não queria prolongar o assunto, pois me encarou por alguns instantes antes de voltar a falar.

- Bom, a caminhada foi ótima…
- Não foi não - o interrompi, quase que por cima de suas palavras.
- Até outra hora, Heart.

Ele não esperou que eu respondesse para se afastar; e meu olhar caiu instintivamente em que, há alguns passos de distância, observava o irmão entrar em casa com uma expressão dura, quase preocupada.

- Quer dizer que saiu da faculdade? - seus olhos voltaram em minha direção.
- Não era pra mim - ergui os ombros, usando a resposta habitual e perfeitamente ensaiada que era sempre a escolhida quando me faziam aquela pergunta.
- Lembre do que eu disse. Estou a uma batida na porta de distância… - um brilho terno assomou à intensidade do azul do seu olhar quando ele sorriu.

Diferente do seu irmão, exalava tranquilidade. Ouvi-lo e olhá-lo era ter a certeza de que coisas alegres e instigantes estavam prestes a acontecer nos próximos momentos - contanto que ele estivesse ao seu lado. Eu nunca havia conhecido alguém tão leve e prontamente generoso.
E eu respondi da única forma que sabia reagir a tamanha bondade; curta e timidamente.

- Obrigada.

Dei um sorriso e acenei com os dedos antes de me afastar em direção à porta de casa.
Tentei nublar meus pensamentos com o que quer que fosse, mas o medo de mais alguém saber o que havia acontecido comigo batia silenciosamente em meu peito e fervilhava meus pensamentos de diversas maneiras nada vistosas.
Na tarde que se sucedeu, fora difícil tirar meus pensamentos da manhã atípica que eu havia tido.
Fora difícil tirar de meus pensamentos, pois havia algo agridoce e fascinante em sua presença que eu ainda não sabia como lidar.
O que me fez lembrar de algo que eu preferi guardar no fundo da memória para poder recorrer em momentos como esse - e que eu sabia ser verdade pois havia a sentido na pele.
O verdadeiro mal é, acima de tudo, profundamente sedutor.

- Você devia voltar, .
- Sinto sua falta durante os treinos.
- Não é a mesma coisa sem você.
- Olha só como o uniforme fica incrível em você. Isso já não é motivo o suficiente?

As vozes estridentes iam e vinham nos ares, como um bombardeio de palavras em que o único alvo era eu.
Não era a primeira vez que as meninas se reuniam para tentar me fazer enxergar que eu simplesmente precisava voltar para a faculdade - e eu tenho certeza que não seria a última.
Eu desconfiava que Emily convocava uma reunião mensal para decidir exatamente qual seria o meu dia mais vulnerável e propício para que elas me atacassem.
E elas sabiam exatamente meu ponto fraco; o time de torcida.
Animar para os Utah Utes ao lado de Em e Liv era, certamente, o que eu sentia mais falta.
Eu não podia culpar Emily; sabia que minha irmã estava preocupada com eu estar desperdiçando minha vida ou algo do tipo.
Mas eu era - e sempre seria - firme em minha decisão; depois do que aconteceu, voltar para universidade era categoricamente inimaginável.
Ainda assim, de alguma forma, naquela noite as cinco conseguiram me fazer vestir o uniforme vermelho e branco. E, embora a saudade inundasse meu peito ao encarar meu reflexo nas vestes que foram minha segunda pele por dois anos, aquilo não era o suficiente.
Depois de desviar incansavelmente de todos os motivos que minhas amigas haviam pacientemente apresentado, eu estava empoleirada na cama de Em contemplativa enquanto as observava ir e vir pelo quarto colorido demais da minha irmã, em um falatório interminável.
Pela ausência de nossos pais, nossa casa costumava ser o ponto de encontro mais provável. É claro que a casa de Nate e Grace era uma opção; mas tínhamos um acordo silencioso de que ter o senhor Baker há apenas alguns passos de distância e no mesmo terreno enquanto queríamos apenas nos distrair não era a ideia mais atrativa.
O cara era assustador.
E eu e Emily, na verdade, gostávamos de como a casa raramente ficava quieta - era um constante lembrete de que não estávamos tão sozinhas assim.
Enquanto Brooke, diante da pressão animada de quatro pares de olhos brilhantes, enumerava nos dedos o porquê ela e Chase nunca ficariam juntos, um barulho agudo de vidros sendo estilhaçados ecoaram pela casa.
Fiquei em pé em um pulo. Antes mesmo de olhar para as meninas, saí como uma tempestade pela porta do quarto de minha irmã e desci as escadas pulando os degraus.
Eu não sabia o que esperava encontrar quando chegasse lá embaixo. Mas certamente não estava esperando ver os garotos reunidos ao lado da ilha da cozinha, todos encarando os pedaços transparentes e pontiagudos do que há alguns segundos era uma taça no chão.

- Vocês sabiam que eles estavam aqui? - quase gritei do primeiro andar da escada, e virei para as meninas a tempo de ver o sorriso radiante se abrir no rosto de Emily.
- Mas é claro que sim! - ela desceu os quatro últimos andares saltitante. Grace veio logo atrás, e eu fiz questão de desviar o olhar quando ela se jogou nos braços de Nate.
- O que aconteceu aqui? - Liv perguntou ao se aproximar da taça quebrada, com Calla e Brooke logo atrás.

Rolei os olhos, dando-me por vencida ao seguir os passos das três.

- Aparentemente fica bêbado com facilidade e acabou quebrando uma das taças de vocês - a explicação veio de Nate, que deu alguns tapinhas amigáveis nas costas de .
- Desculpe - ele encolheu os ombros e, quando cheguei mais perto, percebi que suas bochechas estavam levemente ruborizadas; pensei em dizer algumas coisa mas, em instantes, Emily estava repetindo incessantemente que estava tudo bem.

Parei ao lado de e cruzei os braços, observando o falatório que havia se formado com as dez pessoas entre a sala e a cozinha.
Senti seu olhar percorrer meu corpo e, com o canto dos olhos, vi um sorriso divertido transformar suas feições.
Em instantes, percebi o porquê.

- Nem pense nisso - levantei o dedo indicador em sua direção, afim de cortar qualquer intenção de piada sobre o uniforme.
- Eu não ia dizer nada - ele respondeu prontamente; mas o humor evidente em seu tom me dizia exatamente o contrário.
- Estávamos indo chamar vocês - Chase apontou para as seis garrafas de vinho em cima da pedra de mármore - Estávamos pensando em ir pra igreja. O que acham?

As meninas soltaram algumas exclamações animadas, todas em concordância com o que Chase havia acabado de dizer.

- Acho que preciso me trocar - murmurei para mim mesma, me adiantando em dar meia volta para subir até meu quarto.

Mas não sem antes escutar o sussurro hostil de enquanto eu me afastava.

- Eu discordo.

Era apenas segunda feira e eu já estava na minha terceira taça de vinho.
Acho que eu estava enganada. A semana seria ótima.
O lugar para o qual íamos era, na verdade, uma praça circular que ficava na parte de trás da única igreja de Wasatch Hollow. Era o principal ponto de encontro para os mais jovens que queriam beber pela rua durante a noite, já que depois das dez horas era difícil que alguém passasse por ali.
Era tão belo quanto macabro ficar encarando a infinidade de cruzes que adornavam a construção antiga, todas apontando imponentes para a escuridão acima de nós.
À meia noite, quando o sino tocava as doze badaladas, era de costume que, entre os gritos eufóricos que apenas o álcool era capaz de causar, todos virassem uma dose do que quer que tivesse de mais forte na roda em que estavam. Apenas mais um ritual esquisito e sem sentido da vida suburbana; eu não fazia ideia de como aquilo tinha começado.
Naquela noite, como era de se esperar, a praça estava praticamente vazia - a dividíamos apenas com um grupo de três garotos, que estavam escorados em uma das colunas da igreja apertando um baseado.

- Eu acho que você seria preso se fizesse isso, mas não quer dizer que eu não quero ver você tentar - Calla deu uma gargalhada, fazendo com que eu e Chase ríssemos junto a ela.

Se Calla normalmente era tímida e sempre tinha um sorriso gracioso em seus lábios, quando ela bebia virava a pessoa mais extrovertida e entusiástica do universo. Ela tinha acabado de perguntar o que aconteceria se Chase tentasse escalar os vitrais da igreja e se pendurasse em uma das cruzes mais baixas do telhado cônico.

- Eu acho que a punição viria de um lugar um pouco mais celeste - apontei para cima e Calla soltou uma gargalhada ainda mais alta.
- Eu acho que eu conseguiria fazer isso facilmente - ele flexionou os braços atrás da cabeça ao olhar para igreja e, por um instante, fiquei com medo de que ele estivesse mesmo considerando aquilo.

Do outro lado da pequena roda que havíamos formado, uma gargalhada alta me chamou atenção. Olhei a tempo de ver Liv jogando os cabelos compridos e escuros para trás e tocando nos braços de . Eles conversavam incessantemente sobre algo que eu não conseguia ouvir - e, por algum motivo, não consegui tirar os olhos dali. Nem mesmo quando, ao dar um gole na taça entre seus dedos, arrastou o olhar até o meu. Ele estava consciente de que eu estava o olhando. E eu, sinceramente, não me importava. Continuei atenta no instante em que Nate chegou ao seu lado, oferecendo uma tragada no baseado que dividia com Grace e Brooke. Então vi levantar a palma da mão, negando a erva. Instantes depois, colocou os dedos no bolso interno do casaco e tirou dali seu próprio fininho, ascendendo-o e tragando sozinho.
Olhei em volta, me perguntando se apenas eu havia achado aquilo estranho. Não sei se o vinho já havia subido à cabeça dos outros, mas eu parecia ser a única a me importar com o gesto.
Bom, quase. Um pouco mais frente, ao lado da minha irmã, me encarava. E, por mais que eu não conseguisse enxergar seus olhos com clareza, soube que ele queria me dizer alguma coisa.

- Nós três acabamos de ter a melhor ideia de todos os tempos! - uma Calla completamente alterada gritou de repente, atraindo todos os olhares para si enquanto apontava para ela, Chase e Austin.

Soltei uma risada com os gestos expansivos da minha amiga. Eu realmente adorava a Calla bêbada.

- Quando Chase está envolvido, as ideias geralmente não são tão boas assim - Brooke exclamou do outro lado, causando uma pequena confusão de gritos e exclamações exageradas.
- Escutem! - Calla gritou mais alto - O que acham de irmos acampar amanhã?

A voz de Calla fora seguida por enxurrada de perguntas e clamores animados se arrastando pelos ares.
Amanhã? Amanhã é apenas terça-feira!
Esperem o efeito da bebida passar e então conversamos sobre isso.
Melhor! Ideia! De! Todas!
O que tinha na bebida de vocês?
Quanto tempo faz desde a última vez que acampamos?
Não podemos acampar dentro de casa?


Soltei um suspiro, sabendo aonde aquilo acabaria.
Acampamentos não eram para mim - assim como da última vez, eu certamente passaria a noite em claro, preocupada com um possível assassino sanguinário ou um bando de ursos famintos.
Ainda assim, acompanhei atenta a discussão fervorosa que demorou pouco mais de vinte minutos entre idas e vindas de opiniões para, no final, Chase pular no meio de todos nós e, com sua voz grave, gritar:

- Então está decidido! - Nate aproveitou a pausa para imitar o som de tambores rufando - Nós vamos acampar amanhã!

E mais gritos alcoolizados explodiram noite afora, assim como o barulho de uma porção de taças tilintando em harmonia.
É, eu sabia que terminaria assim.
Ainda estávamos em êxtase com a ideia quando decidimos voltar para casa; e, ao longo do caminho, fiquei alguns passos atrás dos garotos, ao lado das meninas - exceto Grace, que seguia na frente, de mãos dadas com Nate. E aproveitei, então, para externar algo que havia se instalado em minha mente desde o instante que a ideia de estar em um lugar remoto, escuro e vazio surgiu.

- Vocês tem certeza que devemos acampar com eles? - minha voz saiu embolada enquanto eu tentava apontar na direção de e - Até onde sabemos, os dois podem ser assassinos. Ou coisa pior.
- O que é pior que isso? - Brooke chegou um pouco mais perto para sussurrar.
- Nenhum assassino é tão bonito assim - Calla passou um dos braços pelos meus ombros, dando uma risadinha quase envergonhada.
- Ted Bundy! - levantei o indicador, com a certeza de que aquele era o melhor argumento que eu já havia feito na vida.
- Ted Bundy não era bonito - Emily fez uma careta, ainda abraçada na última garrafa de vinho que restara.
- As pessoas diziam que sim.

A voz firme veio de Olivia, que sorriu ao entrelaçar o braço no meu. Ela parecia perfeitamente bem; eu sabia que era preciso de muito para deixar Olivia Moore bêbada. Talvez as longas noites de embriaguez a tivessem feito desenvolver uma super resistência ou algo do tipo.
Sorri abertamente olhando pra Liv.
Uma coisa era certa; o álcool me deixava sensível ao sentimentalismo. E a pequena frase de Liv me fez lembrar, momentaneamente, que ela ainda estava ali por mim; tanto para os problemas grandes como para discussões simples como aquela. E que, por mais que tudo tivesse mudado, em algum lugar lá no fundo, ainda éramos a Liv e a de sempre.
Apenas um pouco mais quebradas.

03

passou a ponta dos dedos suavemente pela capa de couro da pequena caderneta que jamais deixava seu bolso.
O garoto nunca foi bom em expressar seus sentimentos; talvez por isso se sentisse tão apegado ao objeto gasto e repleto de confissões. As páginas, pelo menos, não o julgavam e nem contariam o que se passava em seu peito para ninguém.
Se alguém lesse as palavras por ele rabiscadas, gradualmente transformando as folhas em branco em poesia, encerraria a leitura com duas certezas inexoráveis.
tinha, dentro de si, uma disposição ao sensível muito mais intensa do que sequer sonhara um dia mostrar.
E não acreditava no amor.
Como poderia, de qualquer forma, se a única mulher que fora parte de seu coração havia o deixado da forma mais brutal possível?
Naquele fim de tarde, enquanto a terra se afastava cambaleante do sol e o crepúsculo tornava as luzes mais fortes, se encontrou em uma situação que não gostaria de estar.
E ele só percebeu quando era tarde demais.
Talvez estivesse hipnotizado demais pela forma que as nuances dos cabelos e esvoaçantes de contrastavam com a inocência de seus olhos no momento em que a menina atravessou as portas de vidro de uma loja de conveniência, acompanhada de Chase, Brooke e sua irmã. Talvez, na verdade quisesse saber mais sobre ela, e seu corpo fora incapaz de se afastar quando dois garotos estacionaram um Prius prateado e saíram pelas portas no mesmo instante em que os olhos de , ao longe, se voltaram para ele.
estava do lado de fora do carro de seu irmão, encostado na lataria ao tragar a dose de nicotina necessária para os próximos trinta minutos trancado no veículo. e todos os outros esperavam os quatro dentro dos dois carros em que haviam se dividido para chegar até o acampamento.
Enquanto apertava os papéis envoltos em couro com uma mão e segurava o Parliament aceso com a outra, observava, através do vidro, e Chase tirarem das prateleiras incontáveis garrafas de cerveja e destilados.
O garoto costumava fazer-se alheio ao mundo; mas naquele instante, ao ouvir acidentalmente o nome dela, não fora capaz de impedir sua atenção de pairar nos dois garotos do Prius.

“Cara, aquela é Heartley? Eu juro que não a vejo há séculos”.
“Não acho que ela queira ser vista, Logan. Quer dizer, você realmente viu o vídeo?”.
“Você tá brincando? Todo mundo viu aquele vídeo”.

observou os dois se afastarem em direção à loja, os ombros exageradamente largos preenchidos pelos casacos vermelhos do time de futebol americano da Universidade de Utah, com o emblemático U bordado nas mangas.
Como o curso natural das águas do mar, seus olhos viajam até .
sempre teve uma enorme destreza em perceber as pessoas da maneira mais crua que elas podiam ser. Não que sempre desfrutasse ou nem mesmo gostasse dessa delicadeza; mas , por algum motivo que ainda não conhecia, despertava isso nele de uma forma impossível de ser controlada.
Talvez porque um coração partido reconhecesse outro assim que o visse.
Talvez porque o olhar melancólico e vazio de qualquer desejo da menina era tão genuíno que permitia o garoto a ver até mesmo o que ela não queria.
Talvez porque as almas, quebradas e solitárias, estavam destinadas a se encontrar.
Os olhos de oscilaram pelo rosto de . Ele estava longe o suficiente para que não visse nenhum dos traços da garota; mas sua memória não demorou em tornar seu rosto absolutamente nítido.
Sua boca delicada e naturalmente cor-de-rosa.
As pequenas pintinhas que a menina tinha no topo do nariz e a forma adorável que ele se curvava para cima.
Os cílios grossos que emolduravam o par de olhos grandes e brilhantes.
Ele poderia, se quisesse, escrever uma poesia de folha inteira apenas sobre a beleza que via no rosto garota.
Não, não precisava ser de seu rosto. Podia escrever cem palavras apenas sobre o nariz de .
Mas certamente não era a beleza que via nela que fizera uma curiosidade legítima crescer em seu peito.
Era o fato de perceber em a mesma vontade de se ausentar do universo que crescia dentro de si. Era a maneira que exalava um desprezo hostil toda vez que qualquer sinal de uma revelação íntima pairasse nos ares à sua volta. Era a forma que ela, lamentavelmente, parecia já haver desistido de si mesma.
Se as pessoas fossem, de fato, como a lua, e cada um tivesse um lado obscuro que está sempre a se esconder, diria que era, inteira, o seu próprio lado oculto.
Quando a menina, finalmente, saiu pelas portas envidraçadas com sua irmã em seu encalço, sentiu uma dor aguda na ponta de seus dedos. Ele soltou um gemido rouco, largando subitamente o pequeno pedaço de cigarro que havia acabado de queimar seus dedos.
Ele havia ficado tão compenetrado na garota que nem o percebeu o fogo, consumindo-o por inteiro; assim como não havia se dado conta que apertava tão forte a caderneta de couro que, àquela altura, se encontrava ligeiramente amassada.
Não apenas porque estava pensando em toda a dor ainda desconhecida que parecia envolver .
Mas também porque não conseguia cessar uma voz quase silenciosa no fundo de sua mente que, incansavelmente, repetia: De que vídeo os dois estavam falando?

that cold ain't the weather. that's death approaching


- Vocês sabem que vai chover, não sabem?

Prendi minha atenção no rosto irretocável de , no instante em que sua voz se misturou com o barulho do vento nas copas das árvores. Uma fumaça esbranquiçada saía de seus lábios e seus olhos estavam fixos no céu; exatamente para onde levei meu olhar no segundo seguinte.
Eram oito horas da noite, e bem acima de nós, o céu era composto por cores quase fantasmagóricas; o preto intenso se misturava às nuvens esbranquiçadas, pairando espessas ao tornarem as estrelas praticamente inexistentes.
Eu odiava admitir, mas ele tinha razão.

- Não esquenta, cara. Não sei como as coisas funcionavam na cidade que nunca dorme, mas éágua - Nate deu um tapinha quase irônico nas costas de - E o céu parece limpo para mim.

Rolei os olhos para a cena. Era uma frase quase inofensiva, mas Nate tinha o dom de fazer qualquer declaração que saísse de sua boca conter um nível excessivo de superioridade.
A de algum tempo atrás acharia isso charmoso. Hoje, beirava a repugnância.

- Foi uma ótima ideia vir acampar sem checar a previsão do tempo - dei um sorriso amarelo antes de dar meia volta até o porta-malas do carro de .
- Ela é sempre otimista assim? - o comentário com um toque de implicância veio de ,e eu apenas estreitei os olhos em sua direção enquanto ouvia algumas risadas.
- Acredite, isso é ela sendo otimista - Calla cantou sorridente ao se colocar ao meu lado para me ajudar a pegar uma das barracas no porta malas.

O lugar onde sempre íamos acampar ficava a poucos quilômetros da saída de Salt Lake City. Olhando da estrada, a floresta que contornava a cidade parecia apenas uma infinidade de árvores altas e corpulentas; mas uma extensa estrada de barro em um desvio improvisado, que, à princípio, parecia levar a lugar nenhum, saía exatamente atrás de dois casarões abandonados que me davam arrepios - e era exatamente poucos metros depois deles que costumávamos acampar.
O frio na floresta era violentamente mais intenso do que na cidade, e naquela noite de terça-feira, nem as milhares de camadas de tecido que cobriam meu corpo eram o suficiente para aliviá-lo.
Se uma tempestade não estivesse, indubitavelmente, se aproximando, eu levaria algum tempo observando o céu. O céu visto dali sempre era o céu visto pela primeira vez; a escuridão que rodeava as árvores deixava as estrelas ainda mais brilhantes e infinitas. Mas era a lua, flutuando majestosa entre as nuvens, que enchia meus olhos e, eventualmente, me fazia pensar no que havia além. Além dali e além de mim.
Eu não sabia dizer o porquê, mas meu primeiro instinto, quando todos começaram a organizar tudo o que precisávamos para passar a noite, fora tentar montar uma das barracas.
Eu nunca tinha montado uma barraca. Eu odiava barracas e o quanto elas eram complexas.
E ainda assim lá estava eu, tentando, inutilmente, entender como as peças se juntavam. Ou como a lona se desdobrava corretamente. Cada vez que eu tentava montar uma mínima parte da estrutura, mais errado aquilo parecia e mais rápido minha paciência se esvaía.

- Precisa de ajuda? - ergui o olhar, apenas para encontrar com um sorrisinho no rosto; provavelmente se divertindo com a minha inabilidade com qualquer coisa que envolvesse juntar peças. Com o canto dos olhos, espiei a barraca que ele e Austin haviam montado em poucos instantes
- Não - forcei um sorriso, voltando a atenção para o tecido desengonçado que parecia não fazer sentido - Obrigada, eu consigo sozinha.

A ausência de sua resposta me fez acreditar que ele havia desistido. Tentei encaixar mais duas varetas, mas elas pareciam instáveis demais para aquilo estar certo. Bufei, separando-as novamente e tentando com outro par.
Porque eu não fui fazer algo mais simples? Como ajudar Em e Grace a encher as caixas térmicas com gelo e bebidas.

- É sério, eu posso montar. E nem vou me gabar.
- Você ainda está aqui? - minha voz soou um pouco mais alta, quase brava. E, quando eu achei que ele finalmente se afastaria, soltou uma risada e curvou-se ligeiramente em minha direção.
- O que te fez tão dura, Heart? - os olhos atingiram os meus em cheio.

Soltei um suspiro pesaroso. Tentando me esquivar dos seus olhos, que pareciam conter altas doses de uma urgência genuína por fazer uma excursão turbulenta pelas profundezas mais puras do meu ser, entreguei as peças que estavam em minhas mãos desajeitadamente para dele.

- Por favor, fique à vontade, - disse ao levantar e cruzar os braços, pronta para observá-lo ter tantas dificuldades quanto eu com a barraca.

Mas não foi o que aconteceu. sabia o que estava fazendo; em poucos instantes, ele havia juntado as peças certas e coberto a estrutura com a enorme lona azul.

- Uau. Você acampava muito? - tentei não soar impressionada, mas a expressão presunçosa do garoto me dizia que eu não havia conseguido.
- Não - ele deu um sorrisinho, batendo uma mão na outra ao se levantar e, quando passou por mim, fez questão de esbarrar os ombros nos meus ao soprar em meu rosto - Digamos que eu sou bom com as mãos.

Abri e fechei a boca algumas vezes, um sorriso incrédulo brincando em meu rosto. Sério, quem dizia esse tipo de coisa?

- ! Pode me ajudar? - a voz alegre de Grace me chamou enquanto eu observava a silhueta de se afastar em direção ao seu irmão.

Em pouco mais de quarenta minutos, tínhamos um acampamento inteiro montado. Três barracas, uma fogueira, algumas cadeiras retráteis, infinitos cobertores, duas caixas gigantes abastecidas com bebidas e muitos marshmallows.
Ah, eu adorava marshmallows.
Emily tinha até trazido um fio de luzes à pilha e colocado do lado de fora do porta malas do carro de Nate para ajudar com a iluminação - e porque aquilo era exatamente a cara de Em. Eu tinha certeza que, até o fim da noite, ela nos obrigaria a tirar uma foto em sua câmera instantânea em que ficaríamos estrategicamente posicionados na frente daquelas luzes.
Logo estávamos sentados em volta da fogueira. Eu estava concentrada demais em meu marshmallow e estava ao meu lado.

- Ei - chamou minha atenção e, ao me virar, encontrei um sorriso enorme em seu rosto - Se você pudesse estar em qualquer lugar agora, onde estaria?
- Esse é um jeito estranho de iniciar uma conversa, sabia? - me inclinei em sua direção, dando uma mordida no delicioso marshmallow derretido e crocante.
- Você nunca diz o que pensa. Achei que teria sorte se te pegasse de surpresa.
- E pensou em me pegar de surpresa com essa pergunta? Nada mais pessoal ou constrangedor?

Ele soltou uma gargalhada, balançando o cabelo de uma forma inconscientemente charmosa.

- Foi tudo o que consegui pensar com a sua cara de quem não queria estar aqui.
- Eu tenho marshmallows e um copo de gin - levantei o copo de metal, sorrindo - Eu estou ótima aqui.
- Acho que não tenho escolha senão acreditar em você - deu uma piscadinha, o sorriso ainda em seu rosto.

Quando sorria, o seu maxilar marcado tornava-se ainda mais evidente, e o ar juvenil deixava suas feições quase que por completo. Observei-o por alguns instantes enquanto ele abria, distraído, mais uma garrafa de cerveja, pensando no que eu poderia fazer se não me sentisse tão… Quebrada. Vulnerável. Incapaz de me aproximar de alguém.
Meu olhar viajou pelo nosso pequeno grupo um tanto improvável. Chase e Brooke em um jogo de provocação, adiando o inevitável. Em e Liv trocando risadinhas suspeitas ao olhar para . Nate e Grace abraçados e inseparáveis como de costume.
Exatamente em minha frente, do outro lado da fogueira, conversava com Calla e Austin. Ou meio que apenas observava o que os dois falavam, assentindo com a cabeça uma vez ou outra. Era a primeira vez naquela noite que eu realmente o olhava; talvez porque eu não estivesse sob ameaça de suas respostas certeiras, e certamente porque ele não havia percebido que eu estava o observando.
Me perguntei como ele não estava sentindo frio apenas com um suéter branco e uma jaqueta de couro jogada por cima. Eu estava enfiada em duas camisetas, um suéter e um moletom e profundamente arrependida por não ter pego mais um casaco.
Como acontecia desde a primeira vez que havia visto o garoto, meu olhar se prendeu em seu rosto como se fosse magnetizado por ele.
E eu ainda estava olhando quando Calla, distraidamente, deu um gole no copo que havia tomado segundos atrás.
Ela não percebeu.
Mas ele não deixou passar.
entortou os lábios para o copo e, de imediato, estendeu as mãos para pegar uma garrafa de cerveja; e então entornou o líquido direto do gargalo, deixando o copo de lado.
Fora impossível não lembrar da outra noite, quando o vi apertar seu próprio baseado após negar o de Chase.
Enquanto minha mente tentava trabalhar para tentar encontrar qualquer sentido no garoto, me senti observada. Mas não era ; ele estava me ignorando desde que havíamos sentado ali.
Quando voltei a atenção para meu lado direito, encontrei com os olhos ligeiramente apertados, dançando entre mim e seu irmão.
Encolhi os ombros, me sentindo envergonhada. Ele sabia que eu havia percebido. Ele sabia, desde a noite passada.
Aquela era, provavelmente, a primeira vez que eu não via um sorriso em seus lábios. Suas feições eram carentes de qualquer expressão.
Ele pareceu hesitante, como se travasse uma luta interna sobre a maneira como agiria nos próximos instantes. E então, com um suspiro, segurou a cadeira em que estava sentado e a arrastou para mais perto de mim, se inclinando em minha direção antes de sussurrar:

- Foi o que restou da nossa mãe.
- O que...?

Seus olhos, antes fixos nos meus, fugiram para fitar o chão.

- Quando nossa mãe ficou doente, tudo em casa precisava ser perfeitamente limpo. Tudo dela era separado. Ela tinha seu próprio copo, sua própria xícara, seu próprio prato… Não podia dividir praticamente nada com ninguém - sua voz soou trêmula e eu senti meu coração martelar contra o meu peito, temeroso sobre aonde aquela história chegaria - E ele não aguentava ver ela naquela situação. Bom, eu também não, mas ficou do lado dela e começou a agir como se todas as condições se aplicassem a ele também. Ele também tinha seu próprio copo, sua própria xícara... Pode parecer estranho, mas foi importante pra ela. Talvez tenha sido o que fez ela aguentar um pouco mais - ele parou de falar por um instante e seu olhar viajou até o irmão - Acho que viveu isso mais intensamente que eu, e algumas marcas ficaram. Deve ser alguma forma estranha de sentir ela mais perto, ou até de afastá-la por completo, eu não entendo muito bem. Pra mim sempre foi o luto e ponto final, ficar remoendo o que aconteceu só torna a dor mais insuportável. Mas eu não entendo, ele… Ele consegue fazer algumas coisas, mas outras mais simples… São apenas impossíveis.

Quando a voz de cessou e ele passou as mãos pelo rosto, meu coração ainda batia freneticamente.
Eu tive vontade de abraçá-lo. Mas meu corpo estava anestesiado demais, ainda processando tudo o que ele havia me contado.
Naquele momento, tudo parecia distante. Era como se eu estivesse observando de fora, abismada com a variedade da vida e como ainda havíamos nos encontrado, secretamente dividindo traumas parecidos.
Meu olhar, inevitavelmente, foi até . Pisquei algumas vezes, um nó sufocante se formando em minha garganta ao pensar nele naquela situação. E era difícil imaginá-lo frágil; ele sempre parecia tão confiante em sua jaqueta de couro e com os olhos ferozes. E, quando eles repentinamente se voltaram para mim, eu fugi.
Fugi para , que ainda parecia desolado com a lembrança. Me senti um tanto culpada; ele não reviveria isso naquele instante se não fosse por mim e minha curiosidade.
Em um ímpeto de uma falsa coragem que eu nem sabia existir em mim, coloquei a minha mão sobre a dele e apertei, em um gesto distante de conforto.

- , Eu... Eu não fazia ideia. Eu sinto muito - tentei começar, sem saber ao certo como, e com a voz quase inaudível - Ela… por isso vocês vieram pra cá?
- Em partes - ele levantou os ombros, virando para mim, os olhos ligeiramente marejados - Nosso pai não é a melhor pessoa do mundo e, quando perdemos a única pessoa que ainda nos mantinha naquela casa, ficar não pareceu fazer sentido. A casa de Wasatch Hollow é do nosso avô. queria cursar a mesma universidade que a nossa mãe, então… Tudo simplesmente se encaixou.
- Espera - balancei a cabeça, um tanto assustada - A casa é do seu avô? Mas como…
- Nenhum crime horrendo aconteceu na nossa família - ele deixou uma risada quase sem humor escapar - Ele locava a casa quando aconteceu. E ninguém mais quis o lugar desde então. Até os dois destemidos aparecerem - ele apontou para si mesmo e eu dei um sorriso fraco.
- E ela é mesmo assombrada?
- Por enquanto não vimos nada, mas não seria o máximo se fosse?

E em um instante, o clima havia ficado leve novamente. É claro que a reminiscência do que ele havia acabado de me contar ainda estava no ar; talvez ela nunca se dissipasse. Mas possuía uma leveza invejável e era extremamente fácil conversar com ele.
Me perguntei se ele sabia sobre a história dos meus pais; e ponderei se era injusto eu não dividir a minha história depois de ter conhecido a dele.

- Story time! - um Austin levemente alterado gritou repentinamente, e eu estava tão envolta no momento que dei um pequeno pulo na cadeira.

Só então eu percebi que minha mão ainda segurava a de e, um tanto sem jeito, dei um sorriso antes de deslizar meus dedos por sua palma e trazê-la de volta pra mim.
Me ajeitei em meu lugar, e quando ergui o rosto para prestar atenção em Austin, encontrei com os olhos vidrados em mim.
Não apenas em mim. Em mim e em .
Com a chama flamejante da fogueira iluminando parcialmente seu rosto, eu não conseguia entender o que as íris tentavam me dizer. Será que ele imaginava o que o irmão havia acabado de me contar e não queria que eu soubesse? Ou apenas tinha achado o encontrar de mãos tão embaraçoso quanto eu?

- Precisamos mesmo fazer isso essa noite? - a voz de Calla me trouxe pra realidade.
- Cal, não é um acampamento sem as histórias de Austin - Liv deu um sorrisinho, não contendo a animação.

Ela adorava histórias de terror.

- Que seja assustadora, cara - Chase levantou a cerveja para Austin, que apenas deu um sorriso atravessado e esfregou as mãos, como se preparasse para a batalha do século.

Austin pegou uma das lanternas da mochila ao lado da fogueira e a acendeu bem abaixo de seu rosto, dando a ele uma aparência fantasmagórica; era apenas um clichê de filmes de terror, mas o ambiente potencialmente assustador acabava fazendo sua estratégia dar certo.
Eu juro, ele vivia para aquelas histórias.

- Enquanto a jovem Ruth dormia, uma aranha rastejou em seu rosto - ele começou, os olhos verdes duros sob a luz intensa, a voz propositalmente rouca e arrastada - A aranha parou por vários minutos em sua bochecha esquerda e depois continuou seu caminho. Quando Ruth acordou e se olhou no espelho, um grito de horror ecoou pelo seu quarto. “O que é essa mancha vermelha na minha bochecha?” ela perguntou à mãe. “Parece uma picada de aranha. Só não mexa e ela vai embora” aconselhou a mulher - eu já estava me contorcendo na cadeira, a atenção petrificada em Austin. Porque a história tinha que ser sobre aranhas? - Na manhã seguinte, a mancha vermelha cresceu e se tornou um pequeno furúnculo vermelho. “Olhe agora, mãe. Está ficando cada vez maior e está começando a doer”, insistiu a garota. “Isso às vezes acontece. Tenho certeza que amanhã estará melhor”. Quando, no terceiro dia, a mancha havia se tornado gigantesca, a mãe decidiu levar a menina no médico. Mas o médico não pode atender Ruth até o dia seguinte - ele se inclinou um pouco mais, olhando cada um de nós - E então, à noite, quando a garota tomava um banho quente, a mancha explodiu. Dela, derramou-se um enxame de aranhas, rastejando com suas incontáveis patas pelo corpo de Ruth. A garota gritou apavorada, tentando se livrar dos insetos peçonhentos e suas picadas. E só então ela entendeu que a mãe dos insetos asquerosos havia, na verdade, plantado seus ovos em sua bochecha.¹

Quando Austin terminou, o silêncio seguiu suas palavras. Meu corpo estava em estado de aflição, e eu olhava para todos os lados, com a certeza de que uma aranha apareceria, de fato, ali a qualquer momento.

- Cara, essa história não dá medo - Nate reclamou, a voz entediada - Conta uma história de verdade.
- Você quer calar a boca, Nate? Eu estou toda arrepiada - esbravejei sem ao menos olhar pra ele e alguns gritos ecoaram pela noite. Acho que não era só eu que já havia chego ao limite com Nake Baker.
- Eu tenho uma história de verdade. Mas, eu juro que se eu contar, vocês não vão conseguir dormir.

Todos os olhos se voltaram para .
Não sei ao certo se estavam todos curiosos com a tal história, ou se estavam apenas surpresos por ele ter dito mais de cinco palavras em voz alta.

- Por favor, conte! - Austin soou empolgado, estendendo a lanterna da direção de .

O garoto negou a lanterna com um simples gesto de mão e eu segurei uma risada. Ele se ajeitou na cadeira, um sorriso quase divertido brincando em seus lábios. E, por algum motivo, o tal sorriso, antecipando a suposta história assustadora, me causou um estranho arrepio de horror.

- É as casas ali em frente - ele apontou para o caminho pelo qual viemos.

Estreitei os olhos em sua direção. Pensando, principalmente, em como ele sabia uma história sobre os arredores se havia acabado de chegar à Utah.

- , eu juro, se você contar eu vou embora - Calla cobriu o rosto com sua manta.
- E vai passar pelas casas sozinha? - Brooke levantou uma das sobrancelhas para a amiga.
- Argh, eu odeio vocês - ela cobriu os ouvidos com as mãos - Eu não vou escutar.

Todos os olhares, mais uma vez, se voltaram para . E eu sabia que ele não havia ficado confortável com a atenção, pois antes de começar a contar a história, seus olhos fugiram de todos nós, fixando-se nas labaredas da fogueira.

- Quando o sol ainda brilhava entre as árvores e essa floresta ainda não era mal assombrada, uma senhora morava sozinha em um daqueles casarões. Na última sexta-feira de dezembro, a senhora estava ouvindo música em uma vitrola antiga que fazia os discos emperrarem. Quando ela levantou pela terceira vez para fazer a música rodar novamente, ouviu um barulho vindo do jardim - a voz de era impassível, calma como sempre; junto ao brilho opaco em seus olhos , eu mal precisava de uma história de terror pra me sentir apreensiva sobre cada palavra que ele dizia - Pelo pequeno espaço que a cortina deixava em sua janela, ela viu a silhueta de um homem alto, parado no meio de sua grama coberta de neve, encarando a casa com o que parecia ser um machado na mão. Ela conteve um grito terrificado e correu para o telefone para ligar pra polícia. Ela descreveu o homem e a polícia rapidamente mandou ela trancar todas as portas, fechar todas as janelas e disse que uma viatura chegaria em poucos minutos - a essa altura, envolvidos demais na atmosfera sinistra que havia criado, nenhum de nós respirava - Quando a polícia chegou, quase dez minutos mais tarde, o homem já não estava mais lá. Mas, na neve, haviam pegadas que traçavam o caminho exato até a porta de entrada da casa. Quando os dois policiais entraram, encontraram a sala coberta de sangue e a senhora estava deitada no meio do tapete, com um machado cravado em suas costas. O entoar caótico de uma música instrumental rápida demais saia da vitrola, que não havia parado desde que ela perdera a vida. Um dos policiais lembrou, então, de um importante detalhe. Lá fora, haviam pegadas apenas em direção à casa, e nenhum indício que ele já havia saído dali.
- Ai meu deus - eu gemi, cobrindo os olhos com as mãos, sem a certeza de que eu queria saber o final daquela história.
- A silhueta que ela tinha visto na janela não era o homem em seu jardim. Era apenas o reflexo dele. Naquele momento, ele estava no corredor, atrás dela e, com as instruções da polícia, ela o trancou dentro de casa. Os policiais encontraram o homem no porão, pendurado pelo pescoço em uma corda pendendo das vigas. Nas paredes, estava escrito em sangue, “as vozes me obrigaram a fazer isso”. Descobriram, mais tarde que ele morava na casa ao lado, e que tinha assassinado seus pais antes de ir para a casa vizinha. Até hoje não se sabe se vozes maléficas realmente já ecoaram entre essas árvores, mas reza a lenda que o espírito do garoto vaga pelas redondezas, espantando qualquer curioso que tente entrar em sua casa.

O medo era claro no rosto de cada um de nós. Não podia-se dizer que cada um ali acreditava no teor aquela história, mas ninguém estava imune ao pavor de estar no palco de suposta atrocidade.
O clarão de um raio cortou o céu no instante em que disse a última palavra, sendo seguido imediatamente por um trovão. Uma confusão de gritos se assomou ao estrondo, todos ainda imersos demais na história para conseguir distinguir um acaso da natureza de um aviso celestial.

- Eu disse que era melhor você não contar! - Calla murmurou com a voz quase chorosa.

A água caiu do céu bruta e de uma só vez. Seguida por outro relâmpago, mais um trovão e mais e mais gritos.
Em poucos instantes, senti minha roupa ficar completamente úmida e meus cabelos encharcados. O frio que o álcool havia me feito esquecer há pouco voltou com tudo, e eu imediatamente olhei para a fogueira, onde as flamas se extinguiam em uma velocidade impressionante.

- As casas! - a voz de Liv se misturou ao som estrondoso da chuva batendo nas folhas.
- Não! Eu não consigo - Calla fechou os olhos, dando alguns passos pra trás - Vamos para os carros.
- Eu estou com ela nessa - praticamente gritei, indo instintivamente para o lado de Cal - Não consigo entrar lá.
- É só até passar, meninas - Emily contestou em uma calma invejável, se abaixando para pegar uma lanterna na mochila - É só uma história. Não vai acontecer nada.

Dividi com Calla um olhar hesitante. E se não fosse apenas uma história? Eu acreditava em qualquer merda envolvendo espíritos e maldições.
Observei Em entregar uma lanterna na mão de cada um. E, logo em seguida, um a um, correndo em direção às casas.
Sem ao menos pensar, peguei uma lanterna da mão da minha irmã. Porque a única coisa pior do que ir para as casa com os outros seria ficar ali sozinha… Certo?
Mas então o desespero que já corria em minhas vezes pareceu fluir com ainda mais intensidade. Porque, quando eu tentei ligar a lanterna que eu segurava entre meus dedos trêmulos, nada aconteceu.
A fogueira já estava apagada.
As luzes que Emily havia colocado no porta-malas, também.
À minha volta, não havia nada além de escuridão e silêncio.
O medo me tomou por inteira, me engolindo como as ondas de um oceano revolto.
E eu me vi diante de duas opções. Ficar parada ali, esperando que o pior acontecesse.
Ou, simplesmente, correr. Mesmo que eu não soubesse pra onde exatamente ir.
E então, sem ao menos pensar, minhas pernas começaram a se mover frenéticas. Entre as árvores, eu não conseguia ver a um palmo de distância. E nem ouvir os passos de ninguém próximo à mim. Mesmo que o medo ameaçasse paralisar meus sentidos, eu continuei.
E eu achei que, quando chegasse aos casarões e me deparasse com os rostos amigos, toda a angústia flamejante em meu peito passaria. Mas isso nunca aconteceu. Porque, quando eu parei em frente às duas casas abandonadas, elas estavam completamente vazias.
Eu não via ninguém. Eu não ouvia ninguém.
Meu corpo estava tremendo. De frio, de medo, de incerteza.
A chuva caía grossa e o céu iluminava superficialmente as fachadas aos pedaços do que parecia ser o local de minha morte nos próximos minutos.
Foi quando mais um relâmpago irrompeu na noite que um grito escapou de minha garganta e, sem ao menos pensar, eu larguei a lanterna e corri até uma das janelas quebradas, entrando em qualquer uma das casas.
O cheiro lá dentro era esquisito - como se algo no ar queimasse minhas narinas e chegasse azedo à minha garganta. Eu não tinha coragem de olhar ao redor e ver o que tinha atrás de mim. Então apenas abracei meu corpo e encostei na janela, observando enquanto a chuva caía, com a falsa ideia de segurança ao lembrar que havia um mundo lá fora. E a vista era, de alguma forma assustadora e melancólica, bela.
Em minha mente, se passaram de uma só vez todos os filmes de terror que eu já havia assistido; e fora impossível não pensar no que havia na floresta, além da escuridão.
Senti, repentinamente, um frio na espinha. Um arrepio no corpo inteiro que me causara a sensação de que eu estava sendo observada. Mas, ainda assim, não consegui olhar pra trás.
E nem para o reflexo no vidro quebrado da janela.
Abracei meu corpo um pouco mais forte, levemente trêmula.
E então um clarão brilhou bem diante dos meus olhos - e, dessa vez, não era um relâmpago.
Alguém havia encostado em mim.
Soltei o grito mais alto e mais assustado que eu era capaz de externar e, com as mãos, tentei acertar a sombra que havia aparecido ao meu lado.
Bati uma, duas, três vezes. E então a sombra segurou meus pulsos com uma das mãos e, quando eu estava pronta pra gritar ainda mais, o clarão iluminou o rosto do que eu pensava ser uma figura maligna.
.

- Calma! Tá tudo bem, tá tudo bem - ele ainda tentava controlar meus braços inquietos e eu ainda continuava esmurrando seu peito - Sou só eu.

Eu estava tremendo. Completamente assustada, da cabeça aos pés.

- Nunca. Mais. Faça. Isso - minha voz saiu falha e completamente temerosa, a respiração ainda descompassada.

Seus dedos se afrouxaram ao redor dos meus pulsos. A luz da lanterna, tão perto de seu rosto, deixava seus olhos ainda mais . Meu olhar passeou pelo seu rosto e, quando cheguei em seus lábios, percebi que eles estavam arroxeados pelo frio.
Tive vontade de tocá-los. Com a ponta dos dedos, apenas para descobrir a textura do ponto mais convidativo de seu rosto sob minha pele.
Voltei para os seus olhos. E me perguntei, então, como eu não havia reparado antes o que deles transbordava.
Era como me olhar em um espelho.
Tristeza. Solidão. Medo. Perda.
Observando cada pontinho brilhante de suas íris, a voz de veio à minha cabeça como um caleidoscópio frenético de lembranças. sabia, melhor do que ninguém, como eu me sentia. Ou ao menos parte do que eu sentia.
Pela primeira vez, eu não me senti vulnerável sob seu olhar. Pela primeira vez, era eu quem podia ter um pequeno vislumbre do que se passava dentro do seu peito.

- No que está pensando? - vi seus lábios se moverem, a voz aveludada atingindo meus ouvidos em um sopro.

Pisquei os olhos, acometida por um estado recém descoberto de letargia. Seria sua presença? Ou o efeito de encarar seus olhos por tanto tempo?

- Eu… - meu olhar se prendeu além de seus ombros, em uma parede destruída e coberta de mofo - Como você soube daquela história?
- Eu não soube - ele deu um sorrisinho, se inclinando em direção ao meu ouvido para sussurrar - Eu inventei.

O quê?
A incredulidade anestesiou meu corpo.
Eu estava certa. Ele só podia ser um psicopata ou algo do tipo. Por um instante, desejei que fosse mesmo um fantasma a me encontrar ali.

- Você simplesmente inventou aquela história na hora? E você me fez acreditar naquela merda e morrer de medo de entrar aqui? - arranquei a lanterna de sua mão e joguei o feixe de luz em seu rosto - Eu te odeio, .
- E eu realmente não ligo - ele murmurou um tanto apático e eu senti sua mão encostar na minha, empurrando-a para o lado pra tirar a luz de sua cara.

Mas eu não estava preparada para o seu toque - não apenas para o toque dele, em si, mas para qualquer movimento desavisado dentro daquele lugar. Então meus dedos apenas cederam com o susto, e a lanterna despencou de uma só vez, fazendo um estrondo que ecoou entre as paredes da casa quando o objeto se despedaçou no chão.

- Droga - resmunguei ao tentar enxergar os pedaços da lanterna no chão - Eu sabia que acampar era uma péssima ideia.
- Não me parece tão ruim agora - mediu a distância entre nós com os olhos, um lampejo de concupiscência cortando o ar entre nós.

E, céus, estávamos mesmo perto. Tão perto que a fumaça esbranquiçada que deixava seus lábios se dissipava ao entrar em contato com os meus.
Seus olhos agiram como imãs, atraindo os meus e não os deixando sair dali.
Eu não sabia o que dizer. Podia apenas observá-lo enquanto sentia visceralmente a tensão crescer entre nós. Era como se eu estivesse apenas esperando seu próximo comando para poder, enfim, me mover.
E, da maneira mais inimaginável o possível, ele me atingiu.
Quando meu olhar vagou pelo garoto, o escuro pareceu confundir meus olhos ao ver algo saindo do bolso interno da jaqueta de . Mas, quando eu estreitei os olhos e me forcei a enxergar melhor, ainda estava lá.

- O que é isso? - me vi perguntando em voz alta ao indicar a ponta do caderno com o peito.

Ele nem precisou olhar.

- Nada demais - respondeu de imediato, colocando o cardando pra dentro em uma velocidade impressionante.

Um sorriso completamente inevitável se formou em meus lábios.

- Você escreve? Ou desenha? , você é um artista? - fiquei na ponta dos pés, um pouco mais perto de seus olhos para buscar algum indício de reação às minhas palavras.
- Você soa quase encantada, Heart.

A resposta rápida e esperta estava, como sempre, ali.
Mas seus olhos estavam mais suaves. E seu tom era quase tímido.
Ai meu Deus, será que suas bochechas estavam vermelhas? Eu queria muito estar tendo essa conversa à luz do dia.

- E você ainda não respondeu minha pergunta - enrolei uma mecha de cabelo nos dedos, genuinamente curiosa.

Mas apenas sorriu. Da forma confiante e descontraída que me dizia que eu iria ficar sem uma resposta.
O observei por alguns segundos, imaginando o que havia naquelas páginas. Seria aquela a maneira que ele lidava com seus demônios? Assomado com o que havia me contado, de repente, o universo de havia ficado ainda mais interessante.
E eu, que há tanto tempo havia me trancado para o universo, me vi curiosa em conhecer o universo de alguém.

- ? - a luz de uma lanterna nos atingiu de repente.

As pessoas só conseguiam se aproximar dessa forma por aqui?
Dei um passo instintivo para longe de , e forcei os olhos para tentar enxergar quem estava atrás da luz

- Grace?
- O que vamo fazer? - sua voz soou assustada enquanto ela se aproximava com Nate em seu encalço.

Tive vontade de acertar um tapa no rostinho bonito de . Ela, provavelmente, estava com medo por causa da tal história.
E então tive vontade de vomitar, pois a visão de Nate e Grace de mãos dadas sempre me causava náuseas.

- Vamos esperar a chuva passar e tentar voltar para as barracas - interviu, e eu me perguntei se ele havia percebido meu desconforto - Onde estão os outros?
- Acho que eles entraram na outra casa - foi Nate quem respondeu, e embora falasse com , pude ver seus olhos azuis queimando ao encarar a mim.
- Vamos até lá. Já estamos ensopados mesmo - levantei os ombros ao tentar fingir indiferença, mas eu não podia imaginar passar a noite apenas com , Nate e Grace.
-É. Às vezes a água pode fazer um belo estrago - sorriu ao olhar pra mim. E eu precisei conter uma gargalhada, porque ele estava, claramente, provocando Nate.

- Vocês tem certeza que eles estão aqui? - indaguei ao observar cada detalhe que a lanterna na mão de Grace iluminava.

O lugar rangia a cada passo que dávamos. Se a casa ao lado era assustadora e estava aos pedaços, essa parecia trinta vezes mais velha e mais destruída. Por mais que, àquela altura, eu já soubesse que a história de estava longe de ser realidade, me peguei imaginando se aquela seria a casa da pobre senhora ou do jovem assassino.

- Eu não estou gostando nada disso - Grace gemeu baixinho antes de andar até meu lado e apertar meu braço; e eu fiquei surpresa por ela buscar algum tipo de proteção logo em mim - , eu quero ir embora.
- Não vai acontecer nada, Grace - tentei soar confiante, mas nem eu tinha certeza do que está dizendo.

Um ressoar de vozes que parecia distante ecoou entre o silêncio.
Nós quatro nos olhamos. O tal arrepio que eu havia sentido mais cedo voltou com tudo, e eu apenas fechei os olhos e me agarrei ainda mais à Grace.
E então um enxurrada de gritos, risadas e feixes de luz irromperam pela casa.
Eu e Grace gritamos.
E as risadas não paravam.
Quando abri os olhos, todos estavam ali; e embora eu estivesse ligeiramente irritada pelo susto, o alívio por estar ao lado dos meus amigos e por todos estarem bem era maior.

- Eu estava preocupada com você - Liv gritou e ela e Em se jogaram em cima de mim, me apertando em um abraço extremamente protetor.
- Bom... Acho melhor dormimos aqui - foi a voz de que fez eu me desvencilhar do abraço das duas.
- Eu não consigo dormir aqui - dei alguns passos para parar em sua frente e cruzei os braços - É assustador e cheira estranho.
- É isso ou a chuva, Heart - ele também cruzou os braços e eu fiquei ligeiramente nervosa por ele ter usado aquele apelido na frente de todo mundo.
- As barracas não tem, sei lá, algum tipo de sistema mágico de impermeabilidade?
- Você já viu o quanto está chovendo lá fora?
- Não! - quase gritei - Não acho que eu estou molhada ou tremendo de frio o suficiente pra perceber. Não temos nem cobertores aqui, .
- Estamos dentro de uma casa. É incontestavelmente menos frio do que lá fora. Estava frio com a fogueira, já imaginou como está sem ela?
- Porque você precisa sempre ter razão?
- Certo - Emily colocou as mãos entre nós dois - Quando isso começou?
- Acho que eles são muito parecidos - levantou os ombros.

Argh. Aquilo era ridículo. Eu não era, nem um pouco, parecida com ele.
Meu olhar encontrou o de , as duas esferas brilhando quase selvagens. Não entendia como havíamos ido de um momento perfeitamente pacífico para aquela quase discussão. Talvez ele apenas despertasse o pior em mim.
Na noite que parecera ter durado uma eternidade, me encontrei no meio do nada, dentro de um lugar que sempre tive medo de entrar, me sentindo em casa. Porque terminamos a noite exatamente como todas as outras em Wasatch Hollow - sentamos no chão, todos juntos, e conversamos sobre todas as banalidades possíveis que nos faziam perder a noção do tempo e afastar ilusoriamente todo e qualquer problema.
não contou que ele havia inventado a história.
E nem eu.
Porque, enquanto a lua caía em uma suave decadência e os risos tornavam-se mais frequentes, percebi que aquela era uma aventura que, talvez, todos estávamos precisando.
Meus olhos não encontraram durante todo o resto da noite.
Certo.
Exceto uma vez.
Logo antes de dormir.
Porque ele estava me olhando. De alguma forma, eu senti. E olhei de volta.
Os cabelos ainda estavam molhados e displicentes. Como da primeira vez que eu o vi.
Ele estava lindo.
Ele era lindo.
Como uma poesia ou como o céu às seis da manhã.
Entre as conversas e risadas, nós adormecemos quando o sol já estava prestes a sair.
Quando o sono havia quase tomado conta de mim, com os olhos entreabertos e inerte demais para me forçar a fazer qualquer coisa, ouvi duas pessoas conversando em um tom quase raivoso - mas eu não consegui identificar quem era. Alguns instantes depois, senti alguém colocando o que parecia uma pequena coberta em cima de mim, mas eu estava sonolenta demais para perceber o que era e até mesmo para distinguir um sonho da realidade.
Até a manhã seguinte.
Quando acordei e o primeiro suspiro do dia impregnou minhas vias respiratórias com um cheiro que eu ainda nem sabia ser conhecido por mim.
Abri minimamente os olhos, apenas para constatar o que eu já sabia.
Era a jaqueta de que cobria meu corpo. E os cabelos dele, perto demais de meu rosto, que inebriavam meus sentidos.


¹O primeiro conto citado no capítulo se chama The Red Spot, escrito por Alvin Schwartz para o livro Scary Stories To Tell In The Dark. Alguns detalhes foram alterados para se encaixar ao teor da narrativa.

04

- Baker! Onde você tá com a cabeça, cara?

Nate apertou o taco em suas mãos até os nós dos dedos ficarem brancos, e então o bateu com força no chão do ringue.
Merda. Heath Madden tinha razão. Ele não estava com a cabeça ali.
Era sempre assim quando ele exagerava na bebida; no dia seguinte estava mais lento no gelo e errava a maioria dos passes, por mais simples que fossem.
Ele ouviu o treinador Ashford esbravejar, mas bloqueou completamente o tom impetuoso de sua voz. Estava acostumado a fazer isso - se blindar contra qualquer ato julgado por ele contraproducente que viesse de fora.
Quando Ashford apitou o final do treino, Nate patinou pela linha externa e praticou os arremessos por mais vinte minutos. O garoto não estava com cabeça para ouvir os sermões do capitão, e seus músculos estavam pedindo por um tempo extra no chuveiro - sozinho.
Debaixo da água quente, com o som relaxante das gotas que batiam no chão ecoando pelo vestiário vazio, Nate se repreendeu pela quinta vez naquela manhã por ter ido acampar na noite anterior.
Não apenas pela exaustão; estava acostumado a treinar após os exageros inevitáveis de um garoto de vinte e poucos anos.
A repreensão era por algo que Nate nem sequer tinha ousado trazer para a superfície de seu ser - em algum lugar dentro de si, que recusava severamente remexer a fundo, ele sabia que havia se incomodado ao ver com o garoto novo. O garoto novo que Nate, sinceramente, não engolia.
Mas porque estava pensando em ?
Ele amava Grace.
Acreditava ser bom para a garota como nunca havia sido para ninguém - certamente muito melhor do que fora para .
Então porque diabos estava pensando em ?
Ah, ele sabia.
No fundo, sabia.
Quando pensava nela, provava a anamnese da tal sensação desagradável que subia queimando sua garganta quando o olhava; como se ele fosse a única pessoa que ela odiaria ver.
Era o tom de voz da garota, a epítome do desagrado, quando se dirigia a ele.
Nate fechou os olhos verdes com força, tentando se concentrar na sensação aprazível da água escorrendo por seus cabelos.
Qual era, afinal, o ponto de pensar nela?
Tudo estava acabado. Ele havia acabado com tudo. Não apenas com qualquer afeição romântica, mas com qualquer consideração amistosa que ela poderia sentir por ele.
nunca o perdoria.
E a cruel verdade era que, no fundo, Nate não sabia se havia, ao menos, perdoado ele mesmo.



I pretend I'm not hurt and go about the world like I'm having fun


- Essa era da minha vó - a bola vermelha e reluzente com alguns detalhes em prateado balançou, pendendo entre os dedos de Emily - É uma herança de família estranha, não acha? A rena já está quase sem brilhos.
- Qual é o nome dela?

Fiz uma careta.
estava mesmo perguntando o nome da rena?

- Nannette. Ela vem visitar a gente de vez em quando, geralmente no meio do ano, quando está menos frio - Em sorriu - Ei, talvez você possa conhecer ela!
Ah. O nome da nossa avó. Certamente era menos estranho…
-
Eu vou adorar - com seu habitual sorriso tranquilo, pegou o enfeite das mãos da minha irmã - Ela merece um lugar especial - ele a posicionou em um dos galhos mais altos da robusta árvore de natal que enfeitava a nossa sala.
Do outro lado do ambiente, vi o rosto de Em se iluminar.
- Obrigada - ela tirou um pequeno sino dourado da caixa de decoração - O que está achando de Salt Lake City?
- Bom… Certamente seria melhor se todas as pessoas fossem iguais a você.

Reprimi uma risada.
Uau, . Pegou pesado.
Eu não precisava olhar Em para saber que um sorriso tímido se formara em seu rosto.

- Vocês vão voltar a Nova York para passar o natal?
- Não - ele balançou a cabeça - Só eu e . É melhor assim.
- Ah, talvez vocês possam passar aqui! Eu e também sempre ficamos sozinhas. É divertido, cozinhamos juntas e conversamos em frente à lareira. Mas ela adora assistir filmes de terror no natal, dá pra acreditar?
- No natal? - parecia quase ultrajado.
- É. Ela diz que filmes natalinos são felizes demais…
- Como algo pode ser feliz demais?
- Eu sei!

Duas risadas em uníssono ecoaram pela sala.
Porque mesmo eles estavam conversando como se eu não estivesse aqui?

- Eu adoro os clássicos - ela disse distraída, enquanto ajeitava um laço carmim nos galhos.
- A Felicidade Não Se Compra?
- Ah, é o meu preferido! Como adivinhou?

Balancei a cabeça, voltando a atenção para a minha parte - eu estava decorando a lareira com velas douradas e meias vermelhas enquanto os dois cuidavam da árvore.
Alguns minutos mais cedo, havia nos visto enquanto tirávamos as caixas lotadas de enfeites da garagem e, claro, se ofereceu para nos ajudar.
E, pelos últimos instantes, eu estava fingindo me concentrar no que fazia enquanto acompanhava a conversa entre os dois.
Não que eu realmente gostasse de ouvir a conversa alheia; mas era surpreendente o quanto Emily e se davam bem. Eles exalavam a mesma leveza autêntica, e pareciam ter a mesma opinião sobre tudo - ou ao menos sobre as frivolidades que haviam conversado.
Eu não podia deixar de pensar no quanto seria bom pra minha irmã ter alguém como ao seu lado - alguém que trouxesse à tona sua alegria despretensiosa sem esforço algum.
Mas eu a conhecia.
E sabia o quanto era difícil para ela deixar alguém, de fato, entrar em sua vida.
Em era forte, como as rochas resistentes às ondas incessantes, se desfazendo aos poucos.
Eu era como um papel no oceano - se despedaçando e desaparecendo de uma só vez.
Ela sempre fora mais parecida com mamãe - e eu, certamente, com o nosso pai.
O apito estridente do timer do forno me trouxe de volta à realidade, e eu o agradeci mentalmente por isso; não era a melhor hora para me afogar em pensamentos saudosos e melancólicos.

- Meus biscoitos! - Em soltou um gritinho estridente. Ela sempre esquecia que estava cozinhando; era um tanto engraçado - São de amora e chocolate branco, você vai amar. Eu volto já.

Observei ela sair da sala apressada em direção à cozinha.
Enquanto voltava a atenção para lareira, meus olhos encontraram os de no meio do caminho.
E então nos encaramos em silêncio por alguns segundos.

- Filmes de natal são superestimados.
Ele soltou uma risada.
- Felizes demais, é?
Meneei a cabeça negativamente.
- Eles te dizem o que você precisa sentir. Você precisa estar feliz, precisa ter uma família perfeita pra data valer a pena, precisa levar para o jantar um namorado que esteja cursando medicina para impressionar seus pais. Existe uma diferença entre estar feliz e ser distraído da tristeza - cruzei os braços - E todos tem sempre o mesmo final previsível. É irritante.
Ele deu um pequeno sorriso, colocando as mãos nos bolsos e caminhando em minha direção.
- Você sempre tem uma resposta pra tudo. Parece até o meu…
- Não - levantei a mão para que ele parasse - Eu não pareço.

soltou uma gargalhada.
Eu podia ler em seus olhos o que ele estava pensando; “esse é exatamente o tipo de coisa que diria”.
Ele deu mais três passos e, quando parou em minha frente, estendeu uma das mãos para mim.

- Tá com o seu celular?

Fiz uma careta, me perguntando onde ele queria chegar. Mas o garoto apenas continuou me olhando e, bem… Eu tirei o celular do bolso e entreguei em suas mãos.
Com um sorriso e sob meu olhar atento, deslizou os dedos algumas vezes pela tela.

- O que está fazendo?

Era uma retórica. Eu sabia que ele estava salvando seu número ali.

- Caso você precise de uma companhia pra assistir filmes de terror. Ou se precisar de qualquer outra coisa.



Salt Lake City, um ano e sete meses atrás

- O que ele fez agora, Liv? - era impossível disfarçar a agonia em minha voz ao irromper pela porta e ver minha amiga jogada no chão do banheiro do Clark’s, com um rastro de lágrimas borradas em preto escorrendo pelo rosto e os braços tentando proteger seu corpo miúdo.

Passei os olhos pelo lugar escuro, com duas portas de mogno rabiscadas e uma longa bancada com duas caixinhas de camisinhas e absorventes que pareciam estar lá desde os anos noventa.
Era deplorável.
Assim como o estado de minha amiga.

- O que ele faz de melhor - as mãos trêmulas esfregaram os olhos intensamente castanhos quando ela os ergueu em minha direção - Foi um babaca.

Soltei um suspiro frustrado.
É. A especialidade de Scott Thompson era ser um babaca.

- Então pare de chorar - tomei o lugar ao seu lado, me apressando a passar os braços em volta do seu corpo - Não choramos por babacas, lembra? Você é linda, Liv. Por dentro e por fora. Não fique assim - ergui seu queixo delicadamente, tentando limpar os borrões de maquiagem vermelha e preta em seu rosto.
- Droga, . Eu o amo - ela gemeu, e o som esganiçado atingiu meu peito em cheio.

Céus, eu não suportava a ver assim.
A verdade é que eu me via muito em Olivia. Impulsiva e intensa em tudo o que fazia. Vivendo no limbo entre sentir demais e não sentir nada.

- Certo - estiquei meu braço até a bancada, tateando a superfície até encontrar a caixa abarrotada de camisinhas e tirei uma dali - Imagine que isso é Scott Thompson - ergui o pequeno pacote prateado no ar - Agora pegue ele, jogue na privada e dê descarga.
- … - os olhos de Liv cintilaram entre a camisinha e eu e sua expressão amargurada quase se tornou divertida.
- É uma metáfora. Todo ritual precisa de uma - disse convicta, como se rituais para esquecer um amor pretérito fossem mesmo a minha especialidade.

Nossos olhares se encontraram e eu soube que Liv estava, de fato, segurando uma risada. Era tudo o que eu queria; fazê-la sorrir, mesmo que momentaneamente.

- Rituais não dão certo - ela torceu o nariz, pegando o pacotinho da minha mão - É só uma camisinha.

Rituais realmente não davam certo. E era, de fato, só uma camisinha.
Mas eu acreditava que, de vez em quando, podiamos nos prender à utopia de certos momentos que a vida nos oferecia. E, naquele momento, no chão sujo do banheiro do Clark’s, com a tristeza correndo por suas veias e nublando seus pensamentos, eu sabia que Liv podia desfrutar de uma coragem fictícia.
Coloquei uma das mãos na orelha, com o olhar atento de minha amiga sobre mim. Então tirei um dos brincos, usando a ponta fina para furar o preservativo que ainda pendia entre os dedos de Liv.

- Agora é apenas inútil. Assim como o seu ex namorado.

Eu estava esperando um sorriso divertido, ou até mesmo um “Isso é loucura, !”.
Mas uma gargalhada sincera reverberou pela garganta de minha amiga, abrilhantando sua expressão e fazendo sua felicidade refletir em meu rosto.

- Tá bom. Vamos dar descarga nele! - ela segurou em minhas mãos e levantou em um pulo, me puxando pra cima junto consigo.

Cambaleamos juntas pelo pequeno espaço até a porta e fizemos uma careta em sincronia quando a abrimos.
Argh. Porque íamos ali mesmo?
Olivia jogou o pacotinho prateado na privada e usou o pé calçado com botas caramelo para puxar a descarga. Então deitou a cabeça no meu ombro enquanto observávamos a água fazer seu trabalho e levar embora o que, naquele momento, representava o mal que Scott havia causado à Liv em quase um ano de namoro.
E não é que parecia mesmo um ritual?

- Como se sente? - perguntei baixinho, usando a ponta dos meus dedos para fazer um carinho reconfortante em seus cabelos.
- Vai parecer loucura se eu disser que me sinto melhor?
Deixei uma pequena risada escapar.
- Ah, Liv. Eu não te amo apesar das suas loucuras. Eu te amo por causa delas e você sabe disso.

Ela desenterrou o rosto dos meus ombros enquanto dávamos alguns passos para trás e eu fechava a porta da cabine.
Apoiei o quadril na bancada e ela parou à minha frente. Toda amargura antes marcada nos seus traços haviam se esvaído, e meu peito se expandia completamente em paz ao vê-la sorrindo terna para mim.

- Por que não nos apaixonamos, ? - seu tom era suave como veludo quando seus dedos finos afastaram duas mechas de cabelo do meu rosto - Seríamos perfeitas juntas.

Não pude deixar de sorrir com a ideia. Seríamos mesmo. Éramos tão parecidas que parecia um crime punível não nos encontrarmos no meio da variedade vital do mundo.

- Seria fácil demais. O amor nunca é fácil assim.

Mas não podia ser por apenas alguns segundos?
Sabia, pelo brilho em seus olhos, que Liv estava pensando o mesmo. Observei a curva convidativa no canto de sua boca, que ainda estava levemente avermelhada pelo resto do batom. Eu ainda podia ver uma sutil mancha escura em seu rosto da máscara que havia escorrido de seus cílios, mas de alguma forma, ela continuava bonita mesmo assim. Em seu colo, pendia um relicário prateado cravejado com rosas, e eu sabia que ali dentro tinham duas fotos: uma de sua mãe, Elizabeth, quando era mais nova - Liv era a cópia exata de sua mãe. E outra de sua irmã mais nova, a pequena Daisy. E então, quando voltei para os olhos escuros e senti sua respiração bater mais forte em meu rosto, um desejo repentino nunca antes experimentado fez minhas pernas formigarem.
Liv apoiou os dedos em meu rosto, em um carinho suave que, inconscientemente, me fez chegar ainda mais perto dela.
Estávamos a milímetros de distância. Nossos narizes roçaram primeiro, eletrizando meu corpo em uma vontade que eu nem desconfiava existir. E então nossos lábios, cheios de receio e curiosidade, se encontraram. Um leve triscar carinhoso se transformou em um beijo delicado. Sua língua se entrelaçava à minha com ternura, e seu polegar deslizava por minha bochecha enquanto meus dedos faziam um carinho arrastado em seu pescoço, vez ou outra enroscando seus cabelos.
Ela tinha os lábios mais delicados do mundo e um gosto de cerveja e bala de cereja que, em minha língua, parecia ser a combinação mais deliciosa de todas.
Quando nos afastamos, o mesmo sorriso encantado brilhava nos nossos lábios avermelhados. Nossos olhares se atraíam, cúmplices.

- Foi um belo jeito de terminar um ritual, não acha? - ela cantarolou enquanto passava os dedos levemente pelo contorno de meus lábios; provavelmente limpando a mancha de batom que havia deixado ali.

Meu sorriso se alargou e eu me virei para conferir meu reflexo no espelho.
Mas mal consegui me olhar; minha atenção foi diretamente pra Liv - para sua expressão serena e alegre enquanto ajeitava seus cabelos, contrastando fervorosamente com a garota que encontrei quando entrei nesse banheiro minutos atrás.
A alegria que emanava de suas feições me contagiou, e me senti instantaneamente realizada por ser capaz de tirar as dores de alguém. E naquele momento, fiz a promessa silenciosa de que jamais deixaria alguém machucar Olivia Moore novamente.

A reminiscência do sabor frutado daquela lembrança havia se tornado amarga em instantes.
Quase dois anos haviam se passado e eu estava de volta ao banheiro do Clark’s - dessa vez, sem Liv.
Sozinha, como aparentemente eu preferia fazer as coisas agora.
O Clark’s era um bar antigo que ficava na beira da estrada entre Salt Lake City e Midvale. Exatamente entre um hotel decadente e um Dinner à la anos oitenta com o pior milkshake de baunilha que eu já havia provado.
O lugar sempre cheirava à gasolina. A mesa de sinuca tinha uma enorme rachadura no meio, as banquetas empoleiradas ao lado do balcão vez ou outra se encontravam bambas e as porções de batatas fritas sempre saíam murchas e oleosas demais. Atrás do balcão, era permanente o sorriso do velho Chad. Um senhor simpático e barrigudo que sempre me dava uma garrafa extra de cerveja quando eu passava mais do que uma hora por aqui. O que era sempre. Na parede ao lado do banheiro havia uma vitrola vermelha, gigante e com luzes coloridas, que só tocava músicas antigas. Ela se apoiava em uma daquelas máquinas obsoletas em que se colocavam moedas para comprar cigarro.
Ainda assim, era um dos lugares que eu mais gostava de ir.
Porque o Clark’s era o lugar perfeito para quem estava apenas de passagem pela cidade. Então, o público se resumia, basicamente, a turistas. Turistas que não conheciam a trágica história de Heartley. Turistas que não ficavam me encarando enquanto eu entornava incontáveis doses de Kahlua e não se perguntavam se eu estava tentando amortecer algum sentimento embaraçoso com o álcool.
Quando eu cheguei em Utah e Liv me levou ali pelas primeiras vezes, fingimos ser excêntricas estrangeiras vindas diretamente da Bélgica em busca de uma jornada revigorante e divertida nos Estados Unidos. Não sei se alguém acreditava, pois nosso sotaque forjado era péssimo. Mas era divertido.
E então lá estava eu, encarando meu reflexo no espelho daquele banheiro tão familiar.
Eu estava ligeiramente tonta.
O gosto de álcool estava destilado por minha boca inteira.
Mas não era apenas por isso que, ao olhar para a imagem que meus olhos contemplavam, eu não a reconhecia.
Eu não me reconhecia.
Meus cabelos costumavam ser mais claros. Minhas roupas, mais vibrantes. Antes não havia o tom arroxeado embaixo dos meus olhos, evidenciando as noites em claro que viraram rotina e que nem o corretivo aplicado com fervor era capaz de esconder completamente.
Hoje, minhas roupas se resumiam a várias camadas de preto. Às vezes branco. Talvez cinza. Nada que gritasse alegria. Meus olhos viviam escondidos em uma maquiagem exageradamente escura e meus lábios pareciam sem vida, pálidos.
Eu costumava parecer uma versão suburbana de Carrie shaw. Agora? Eu era Carrie, a estranha.
Tentei inibir, pela terceira vez naquela noite, a vontade de pegar meu celular.
Eu estava mesmo pensando em ligar para ?
Não apenas porque eu estava me sentindo grogue demais para me sentir em segurança ao chamar o carro de um desconhecido por um aplicativo - mas porque, surpreendentemente, eu parecia querer alguém pra conversar. De preferência alguém que já não estivesse exausto dos meus problemas, e com quem eu pudesse apenas jogar conversa fora sem parecer em constante lamúria.
Era uma sensação que eu detestava; precisar de alguém para aliviar a escuridão dos meus pensamentos.
Mas a quem eu estava querendo enganar? Por mais que eu gostasse da exclusividade de minha própria companhia, o silêncio não era meu amigo. Ele me obrigava a enfrentar todos os pensamentos que eu me esforçava a afastar. Meus pensamentos tendiam a ser um misto de insegurança, medo e autocrítica injustificada, combinados com um excesso vultoso de melancolia.
Minha mente era, definitivamente, um lugar confuso de se estar.
E por mais que o álcool amortecesse momentaneamente a amargura, eu nunca sabia respeitar o limite tênue entre beber para esquecer meus problemas e beber tanto a ponto de me deparar com eles de um jeito muito mais decadente do que a sobriedade me permitia.
E então o passado me encontrava de uma forma brutal e eu descobria que meus ossos ainda doíam - não apenas meu coração, era mais intenso do que isso. E céus, eu não sabia que eles ainda podiam doer depois de tanto tempo.
Dizem que existe uma certa beleza no sofrimento, mas eu sempre discordei desse paradoxo poético. Não existia beleza alguma em estar triste - ao menos não assim, quando a meia-noite se aproximava, o álcool era a única coisa que me ajudava a dormir e a solidão me incomodava.
Não pense demais, . Você sempre pensa demais…
A voz que eu tanto tentava silenciar fez cócegas em minha mente; mas, dessa vez, ela estava certa. Impulsividade nem sempre era ruim - e, quando tudo estava bem, eu costumava ser impulsiva.
Afastei, então, todo e qualquer pensamento que me empurrava para a nébula confusa dos meus sentimentos. E, ainda sem pensar em nada, peguei o celular no bolso de trás da minha calça.
Meus dedos não hesitaram um instante sobre a tela e, dez segundos depois, eu apertei o enviar.
“Precisando de um amigo. Estou no Clark’s. Pode me encontrar aqui?”
Não tive muito tempo para ponderar se estava ou não sendo inconveniente; o nome de brilhou na tela do meu celular menos de um minuto depois, com quatro palavras que me arrancaram um pequeno sorriso.
“Me dê vinte minutos”.



- Chad, tudo bem se eu terminar lá fora? - ergui o copo de brandy pro senhor sorridente, que coçou a barba branca ao menear a cabeça negativamente.
- É melhor pegar leve, garota. Como vai pra casa? - ele tomou a bebida de minha mão, passando o líquido para um copo descartável.
- Um amigo tá vindo me buscar - sorri, genuinamente tocada por ele se preocupar - Obrigada.

Saboreei um pequeno gole antes de levantar. E, meu Deus, quase sentei novamente.
Minhas pernas estavam bambas e pontos pretos e vermelhos embaçavam a minha visão. Eu não estava tão desnorteada assim minutos atrás, estava?
Já faziam mais de trinta minutos que eu estava esperando e, se mais cedo eu parecia decidida quanto ao meu pedido de amparo, agora meu subconsciente bombardeava uma inquietação irritante para o meu corpo.
Pedir pra ele me encontrar aqui quase de madrugada foi um pouco demais?
Será que ele acha que ainda não somos amigos o suficiente pra isso?
E se ele, na verdade pediu vinte minutos para pensar e achou melhor não vir?
E se ele se perdeu no caminho? A culpa seria completamente minha!
Argh, chega!
Balancei a cabeça, tentando me concentrar exclusivamente na tarefa simples que parecia exageradamente complexa agora - traçar uma linha reta até o lado de fora do bar.
E assim, os cinquenta passos que durariam alguns segundos se estenderam por dois minutos, e eu suspirei em alívio apenas quando sentei em uma das muretas de concreto que dividiam as vagas do estacionamento.
Finalmente o chão havia parado de se mexer.
Ali, me perdi no tempo, observando as luzes coloridas que adornavam a fachada de madeira do Clark’s. Não havia quase ninguém nos arredores - apenas um carro azul que havia acabado de estacionar em frente ao hotel; mas, quem quer que fosse, ainda não tinha saído do veículo.
Estava absorta demais ao imaginar qual seria a história e o destino do passageiro daquele carro quando senti uma mão em meu ombro.
Meus dedos tremeram e algumas gotas de brandy escorreram pelo meu pulso enquanto algo alarmante crescia dentro de mim.
Não podia ser .
não me abordaria desse jeito - por mais que os dedos sob minha jaqueta fossem extremamente delicados, pousando quase superficialmente em mim, ele chamaria meu nome ou sentaria ao meu lado com sua habitual cautela para me avisar que estava ali.
E, bem… Eu sabia exatamente quem tinha o talento de anunciar sua presença de forma sorrateira e ainda educada - talvez um traço de timidez, talvez um traço de provocação. Então nem me dei ao trabalho de olhar para trás antes de quebrar o silêncio.
E, bom… eu havia reconhecido o seu cheiro. Uma mistura cítrica e mentolada que estava cravada em algum lugar do meu subconsciente. Mas que merda era essa agora?

- O que você tá fazendo aqui? Eu tenho certeza que chamei o seu irmão.

Eu tinha soado fria demais? Minhas palavras estavam emboladas? Céus, eu me sentia péssima. Meu estômago estava dando voltas e meu olhar não conseguia focar em nada.

- É, eu sei - a mão deslizou de meus ombros e, um instante depois, estava na minha frente - Mas ele está ocupado. Então, vai ter que se contentar comigo.

Eu sabia que ele estava tentando ser agradável. E o cara tinha dirigido por meia hora apenas pra me buscar.
Mas o álcool me fazia tagarela e insolente. E, antes que eu pudesse pensar, o tom de desprezo já havia escapado pelos meus lábios.

- Você não precisa estar aqui.
- Eu não queria estar aqui. Mas prometi pra ele que te deixaria em casa.

Pisquei algumas vezes, demorando tempo demais para absorver suas palavras. Eu deveria estar prestando atenção na ondulação de seu tom, mas minha concentração estava nas lufadas de ar condensado que saiam esbranquiçadas de seus lábios.
Ele estava de pé em minha frente e parecia tão… alto. Imponente.
Ou eu que me sentia pequena e vulneral?
Ah, , nem tente entrar nesse mérito. Esse caminho é sinuoso demais…
Não, para! Agora! Não era hora de dar razão à voz enervante e dolorosamente sincera da minha consciência.
Em um instante, eu não queria mais alguém pra conversar. Eu queria apenas ir pra casa. Porque não era . emanava delicadeza e uma espécie de prontidão sentimental, que me fazia sentir segura em confessar trivialidades sem entregá-lo mais do que eu deseja.
E ... sabia o que eu estava pensando sem eu dizer uma palavra. Ao menos, era o que os olhos dele insistiram em me passar. E mesmo se não fosse verdade, era como eu me sentia.
Finquei os pés no chão, determinada a levantar e pedir pra ele me tirar logo dali. Mas eu estava extremamente bêbada, e meus pés pareciam gelatina contra o asfalto; então apenas me desequilibrei para frente, derrubando um pouco mais de brandy em mim e, dessa vez, na jaqueta de . A mesma jaqueta que cobrira meu corpo na noite passada…
E eu certamente estaria no chão se uma das minhas mãos não tivesse agarrado seu braço depressa. E se seus dedos não fossem ágeis ao cravar na carne de minha cintura.
E de repente eu estava consciente demais do seu toque, de sua presença. Isso fazia o sangue correr rápido em minhas veias e, por mais que eu soubesse que a temperatura ali era inferior aos dez graus, o garoto em minha frente parecia me fazer aquecida.
Ou seria o álcool? Céus, certamente era o álcool. Eram as doses de brandy e cerveja que estavam agitando meu estômago e fazendo a bile vir direto até a minha garganta, esquentando todo meu corpo no caminho.
O enjoo subiu mais uma vez, formando um nó apertado em minha garganta.
Ah, meu Deus. O Clark’s estava girando ou ele estava dando piruetas?

- …- minha voz saiu esganiçada, a súplica evidente - Eu não consigo respirar

O seu suspiro preocupado aqueceu ainda mais o ar entre nós e, por trás da névoa em meus olhos, o vi analisando meu rosto meticulosamente.

- Eu vou tirar minhas mãos de você. Preciso que você continue de pé, certo? - sua voz saiu tão cautelosa que um sorriso inconsciente se insinuou em meus lábios enquanto eu assentia fracamente. Meus olhos piscavam em letargia; ainda assim, não conseguia deixar de mirar os seus.

Ele apertou minha cintura mais uma vez antes que os nós dos seus dedos relaxassem, me soltando como se eu fosse uma porcelana frágil. Não sei se era seu plano, mas a concentração em seus movimentos haviam me feito esquecer parcialmente o mal estar.
Seu toque fez-se ausente por dois segundos - no terceiro, seus dedos roçaram os meus. E meu peito se contorceu de uma forma curiosa quando pensei que ele seguraria minha mão - mas apenas tirou o copo de papelão dos meus dedos, colocando no chão ao lado de seus pés.
Seus olhos não deixaram os meus por um segundo sequer. E, diferente das outras vezes, eu me sentia reconfortada por eles; como se, apenas pela cintilância bondosa nas imensidões , ele me avisasse que não me deixaria até tudo ficar bem.
Tudo. Não apenas eu.
Tão imersa em seus olhos estava, que mal percebi quando suas mãos se aproximaram do meu pescoço. E elas roçaram ali, fazendo um arrepio percorrer lentamente até a ponta dos meus pés. Droga, o pescoço sempre foi meu ponto fraco.
Só então percebi o que o toque gentil almejava. passou os dedos por entre meus fios , com cuidado e paciência, no que parecia um carinho terno e gostoso. Com as duas mãos, ele juntou toda e qualquer mecha que emoldurava meu rosto, e depois usou apenas uma para segurar todo o meu cabelo no alto, longe de meu pescoço.

- E agora? - ele murmurou, os olhos me encarando tão intensamente quanto eram capazes - Consegue respirar melhor?

Bom, agora era ainda mais difícil. Mas eu não diria isso a ele.
Ele estava perto demais para que um pingo de sanidade restasse em mim; tão perto que seu hálito quente fazia cócegas em meu nariz.
Mas quando me obriguei a fechar os olhos e relaxar meu corpo, senti a brisa gélida bater em cheio em meu pescoço e em minhas bochechas; a brisa que sempre esteve ali, mas até então não havia conseguido notar.
E eu, enfim, respirei.
Quando abri os olhos, encontrei suas íris me encarando em um misto de curiosidade e preocupação e me vi encantada. Encantada porque ele sabia exatamente o que eu precisava quando nem eu mesma sabia.
Senti algo começar a trabalhar dentro de mim, mas não entendi direito o que era. E então lembrei do meu reflexo no espelho, e a em alguma outra realidade era categórica em me alertar: Fique longe de problemas, Heartley. De problemas e de garotos bonitos demais que usam muitas roupas pretas e tem uma resposta esperta para tudo.
Não, não era meu reflexo. Era, novamente, a odiosa voz no fundo de minha mente que eu nunca conseguia calar.

- Preciso de você sóbria pra te levar pra casa - seus dedos soltaram meu cabelos delicadamente enquanto sua voz me trazia de volta para o agora - Você está bem?
- Ah, não. Ficar sóbria é sem graça - resmunguei, sentindo meu corpo amolecer e se inclinar inconscientemente em sua direção - Podemos voltar e beber mais. Tem uma vitrola lá dentro, sabia? Com músicas e tudo.

soltou uma risada, balançando a cabeça negativamente. Eu estava com o queixo quase encostado em seu peito, a cabeça inclinada para cima para conseguir encarar seu rosto.
Eu sabia o que ele estava pensando: eu era outra pessoa com a coragem líquida correndo em minhas veias.

- É meio que isso que as vitrolas fazem, não é? - ele gracejou, franzindo o cenho. E eu não pude deixar de notar o quanto as duas marquinhas formadas entre suas sobrancelhas eram charmosas.
- Você fica bonito fazendo isso.
- Isso o que? - ele estreitou ainda mais as sobrancelhas, dessa vez com um sorriso se formando no canto dos lábios
- Ah, você fica bonito e você sabe! - levei a ponta dos dedos à sua testa e a toquei bem onde as marquinhas se formavam - Isso.

Seus olhos faiscaram pelo meu rosto; eu podia acompanhá-lo flutuando sua atenção entre os meus olhos, meu nariz e minha boca. Os tais olhos eram, normalmente, os dois infinitos mais puramente que eu conhecia; naquele momento, no entanto, eles estavam mais escuros e emanavam um calor que me atingira com tudo.
Eu estava perto demais. A inércia do meu corpo, combinada com a vontade inconsciente, havia me colocado a milímetros de . Se eu inspirasse um pouco mais fundo, meus seios tocariam seu corpo.
Eu precisava dar um passo para trás. As minhas regras interiores, habitualmente agindo como um freio contra meus desejos gritavam isso; e eu sabia que elas estavam certas.
E, bom… o pensamento me fez suspirar.
Não apenas isso; a vontade inconsciente de senti-lo me fez projetar o corpo para frente.
E meus, seios, de fato, roçaram seu corpo.

- … - sua voz saiu baixa e atormentada, acompanhada de um gemido quase inaudível.
Ele me chamou de . Não de Heart. Devia estar falando sério.
- .
Foi a vez dele suspirar, fechando os olhos com força por um instante.
- Você é cheia de surpresas, não é mesmo? - ele murmurou com os olhos inquietos, faiscando de um lado para o outro ao tentar não focar em mim e, de alguma forma, o garoto era capaz de injetar arrogância, timidez e até um traço de luxúria nisso

Por um instante, não entendi o que queria dizer.
Mas então olhei pra baixo.
E lembrei da camiseta fina que eu vestia.
E que eu estava sem sutiã.
E que minha respiração levemente descompassada ainda fazia meus seios roçarem e se afastarem de seu peitoral em uma dança sensual e incessante.
Ótimo. Realmente ótimo.
Ele havia sentido as duas jóias de metal que adornavam os bicos dos meus seios.
Senti o meu rosto esquentar. Em um lampejo, cambaleei para trás, dando três passos exageradamente largos para me certificar que estava longe o suficiente.
Ainda assim, nossos olhares pareciam incapazes de se desencontrarem. Diante da bela visão da luz da lua incidindo em seu rosto irretocável com uma afeição romântica, senti que éramos uma catástrofe prestes a acontecer. Era apenas questão de tempo.

- Você não está imaginando nada - tentei soar repreensiva, mas provavelmente seria mais convincente se não estivesse bêbada. Ainda assim, a timidez pintava minhas maçãs de rosa ao pensar em imaginando meus seios.
- Não estou - ele sorriu e eu estreitei os olhos em sua direção.
- Como sei que está dizendo a verdade?
- Apenas confie em mim.

Eu estava prestes a rebater quando o barulho agudo de um sino chamou nossa atenção. Era a porta do Clark’s, avisando que um casal havia acabado de sair do bar. Junto com os dois, a melodia lenta de uma música conhecida escapou mais alta pela porta

Again, this couldn’t happen again
This is that once in a lifetime
This is the thrill divine…

A voz doce de Doris Day me fez sorrir. Era o tipo de voz que me transportava diretamente para um filme antigo, onde as palavras são mais rebuscadas e a fotografia é sempre esplêndida.
Estávamos eu e observando enquanto a garota baixinha de cabelos vermelho fogo e o garoto alto cheio de tatuagens passavam por nós. Eles andavam abraçados, sorriam, trocavam beijos e pareciam alheios aos detalhes do mundo.
Em sincronia, nossos olhares tremularam dos dois para nós dois, e eu pensei ter visto um pequeno traço de embaraço em sua expressão.
Certo, isso era inédito.

- ? - uma sinapse um tanto atrasada pareceu ocorrer em meu cérebro.
- Heart?
E voltamos ao normal...
- Por que preciso estar sóbria pra você me levar pra casa?
O esboço de um sorriso contagiou seus lábios.
- Olhe para trás.
Sem hesitar, fiz o que ele disse.
- Ah, não.

Meu olhar levou alguns segundos para focalizar a lataria preta, cintilando sutilmente sob a luz do luar.

- O que houve? - ele soou um tanto preocupado, provavelmente notando a mudança repentina em minha expressão.
- Eu tenho um pouco de medo… - encolhi os ombros.
franziu o cenho e eu me perguntei se estava fazendo de propósito.
- Você não parece ter medo de muita coisa.
Soltei um breve risada. Era essa a visão que ele tinha de mim?
- Motos, escuro e cemitérios. E aranhas.
- Eu tenho medo de agulhas - deu uma piscadinha, e eu não consegui decifrar se estava falando sério ou se estava tentando me amolar pelo tal piercing.

Provavelmente a segunda opção, porque, bem… era ele quem parece não ter medo de nada.
Apenas rolei os olhos, andando em direção ao veículo.
Eu não entendia nada sobre motocicletas, então tudo o que eu via era que ela parecia grande e um pouco antiga. Com a lataria preta e detalhes em prateado, eu podia ver facilmente pilotando ela.

- Não é tão assustador quanto parece… - ele veio logo atrás de mim, parando do outro lado da moto.

Era a segunda vez em menos de meia hora que ele tentava me confortar. E talvez isso tenha acendido em mim a necessidade de bombardear as palavras do meu peito diretamente para minha garganta.
Eu sabia o que era ter a privacidade invadida. E eu odiaria que alguém soubesse algo sobre meu íntimo sem eu ter o conhecimento disso.
Não era o álcool falando - eu realmente queria ser honesta.

- , eu… Eu preciso contar uma coisa - minha voz saiu um tanto incômoda, quase trêmula.

Ele não respondeu nada. Apenas moveu os olhos morosamente em minha direção e fez um aceno praticamente imperceptível com a cabeça.
Mexi as mãos, incomodada, tentando encontrar as palavras certas para não parecer intrometida demais.

- me contou sobre o que aconteceu com a mãe de vocês e… Bem, o quanto você ficou mal com isso.

Seus olhos reluziram diante dos meus para, segundos depois, tornarem-se opacos. Se em um instante ele não desviava a atenção em mim, no outro estava fitando o chão, a expressão consternada esboçando em seus traços.
A mudança não era sutil; eu sentia como se o garoto tivesse acabado de erguer um muro entre nós dois.

- Não está zangado por ele ter me contado, né? - arrisquei um passo em sua direção, apoiando as mãos na moto entre a gente.
- Não - ele balançou a cabeça, ainda sem me olhar - De alguma forma distorcida, ele acha que está me protegendo. Acha que faz com que as pessoas ajam com cautela perto de mim.

O silêncio absoluto se instalou na atmosfera. O calor que há minutos meu corpo sentira havia se dissipado e o vento álgido me acertou de uma só vez.
Por alguma razão, as feições duras de me incomodavam de forma inerente. Era incontrolável e visceral.
Seus olhos ainda estavam fixos no chão. Os fios e displicentes se insinuavam ao redor de seu rosto, e a tal marquinha entre as sobrancelhas que mais cedo eu achara tão charmosa, agora me contaminava em uma sensação angustiante.
Eu respirei fundo. E, antes que pudesse me controlar, vi as palavras escapando entre meus lábios.

- Eu… Também perdi a minha mãe. E meu pai.

Como se um estrondo silencioso tivesse acontecido dentro de si, ergueu o olhar em minha direção, exatamente como a bela cena de um filme em câmera lenta.
Então ele ainda não sabia…
Fazia tanto tempo que eu não falava com alguém sobre isso e a sensação levava meu peito à duas extremidades; era como se eu estivesse tirando um peso colossal de dentro de mim e, ao mesmo tempo, como se meu coração fosse estraçalhado em milhares de pedacinhos.

- . Eu sinto muito…

Seus olhos transbordaram uma tristeza legítima, e aquela fora, provavelmente, a vez que eu havia ouvido aquelas três palavras da maneira mais sincera em toda minha existência.
Meneei a cabeça, tentando me livrar da vontade de chorar.

- Ah, está tudo bem. Eu só queria que você soubesse que entendo - forcei um pequeno sorriso - Não precisamos trocar amenidades.
- Não é isso que as pessoas fazem? Diante da morte.
- Não deviam. A morte é inevitável - apoiada na direção da moto, me inclinei em sua direção - Posso contar uma coisa? Eu sempre achei que seria melhor partir de um jeito inusitado. Quer dizer, todos temos que ir uma hora, certo? Sempre pensei que seria mais interessante ser morta por um assassino impiedoso. Ou um vampiro sedento.
- Um vampiro? - ele soltou uma risada - Essa foi a coisa mais sádica que já ouvi alguém dizer. E a mais interessante.
- Sou cheia de surpresas, não sou? - dei um sorrisinho de canto que logo refletiu em seus lábios - Certo, estou pronta. Me prometa que não vai correr demais.
- Não costumo fazer promessas - se inclinou brevemente em minha direção, direcionando toda sua luz inata para mim - Mas não vou deixar nada acontecer com você.

Ele me deixou com um meio sorriso um tanto atônito no rosto e, sem dizer mais nada, subiu na moto.
Balancei a cabeça, me impedindo de analisar demais qualquer coisa dita por ele.
E então subi na moto.
A princípio, apoiei minhas mãos em seus ombros, tão leves que mal o encostava. Mas foi só sairmos do estacionamento e o vento bater com um pouco mais de força em meu rosto que, instintivamente, eu envolvi seu corpo com os dois braços, apertando-o com força e quase esmagando meu corpo contra suas costas.
Foram necessários cinco míseros minutos para o medo se esvair de meu corpo e eu entender porque algumas pessoas chamavam aquilo de liberdade.
O vento batendo em cheio em meu rosto, balançando meus cabelos e, inevitavelmente, trazendo o cheiro hipnotizante de para os meus pulmões.
A névoa esbranquiçada, deslizando entre as árvores e configurando o cenário fantasmagórico que eu tanto adorava.
A visão ampla da estrada e da floresta, que me permitia ver o pedaço encantador e estrelado do céu que nos cabia ali.
A sensação fora tão prazerosa que, vinte minutos depois, quando estacionou à frente de nossas casas, eu pedi que ele desse mais uma volta antes de, de fato, descermos ali.
E foi exatamente o que ele fez.
Dessa vez, o garoto tirou uma das mãos da direção e apoiou sobre as minhas, entrelaçadas em sua cintura.
De, alguma forma, eu senti que ele não soltaria a minha mão nem se estivéssemos em um navio prestes a afundar. E, mesmo diante do caos de algo que eu julgava amedrontador apenas alguns minutos atrás, eu nunca me sentira tão segura.
Talvez a segurança tenha vindo exatamente do fato de me deixar ser corajosa por eu mesma.
Diferente do que eu estava acostumada, ele me desafiava e não me tratava como se eu fosse quebrar. Mesmo que isso estivesse evidente em meus olhos - eu poderia, de fato, quebrar. Com facilidade.
Mas, aos olhos de , eu era apenas uma garota.
Ele não me tratava como se eu tivesse ossos de vidro. E eu estava gostando disso mais do que eu desejava admitir.

05

Austin Allen fechou o livro, colocando-o cuidadosamente no gramado macio embaixo de si. Gostava, sem saber clarificar tal intensidade, das palavras bonitas que vertiam das páginas e, por hora, faziam parte do seu ser.
Se encantava pelos livros com a mesma facilidade que se encantava pelas garotas.
Lembrava-se da primeira vez que havia se encaixado nas palavras escritas - por coincidência, as havia lido ali, naquele mesmo lugar.

Perdi-me muitas vezes pelo mar,
com o ouvido cheio de flores recém-cortadas,
com a língua cheia de amor e de agonia.
Muitas vezes perdi-me pelo mar,
como me perco no coração de alguns meninos.²

Se perdia, de fato, em corações alheios com certa facilidade. Em alguns, com mais frequência do que outros. Talvez tentasse apenas evitar o inexorável: não conseguia permanecer em um só porque não se via, ele mesmo, perdido no coração de alguém.
Naquele mesmo instante, apenas algumas casas ao norte, Brooke e Chase dividiam um baseado na sacada da casa do garoto.
Era um daqueles raros momentos em que estavam sozinhos e deixavam qualquer implicância teatral de lado. Chase admirava os olhos castanhos, quase pretos, da menina - e Brooke se encantava pela risada do garoto; especialmente quando era direcionada exclusivamente a ela.
Seguindo pela estreita estrada para o leste, aproveitava o começo da tarde do jeito que mais gostava: sozinho, tragando um cigarro enquanto pensava na variedade da vida. Treinava em seu próprio infinito palavras graciosas, para que mais tarde compartilhasse com aqueles que mais o entediam; o papel e a caneta.
Em frente à sua casa, apoiava-se no carro do irmão e, com as botas pesadas que lhe protegiam os pés, brincava distraído com a suave alvura que cobria o chão.

- Por que está fazendo isso?

Uma voz delicada, quase estridente, chamou sua atenção. Virou em direção ao o, apenas para encontrar uma garotinha, com os olhos enormes verdes curiosos e a boca tão vermelha que parecia o botão de uma rosa o encarando. O pequeno dedo indicador apontava decidido para o branquinho entre os dedos de .
O garoto olhou para o cigarro e então mais uma vez para a menina, a cautela que nunca desfrutava tomando conta de seu corpo. O que podia dizer quando uma menina de oito ou nove anos te repreende por fumar?
Decidiu apenas levantar os ombros.

- Você devia parar. Faz mal, sabia? - ela insistiu e os braços cobertos por um casaco cor-de-rosa gigante foram parar em sua cintura.

não pode conter uma risada. Pela sua cabeça, nem passou discordar da menina - apagou o cigarro prontamente, e depois bateu as mãos, uma na outra, para mostrar que havia, de fato, se livrado dele.

- Como foi que você ficou tão esperta? - ele disse ao se abaixar para ficar mais próximo da garotinha.
- Eu já tenho nove anos! - ela rebateu, quase indignada - Eu sou a Daisy. Você deve conhecer a minha irmã, Liv.

a olhou com mais atenção. A semelhança era mesmo inegável - os longos cabelos escuros e os olhos amendoados não deixavam enganar.

- Daisy. Você tem o nome da personagem principal do meu livro preferido - as palavras fizeram a menina sorrir - Eu sou o .
- Eu sei! Já ouvi minha irmã falando sobre você com as outras meninas. Acho que uma delas gosta de você.
Ele riu mais uma vez.
- O que está fazendo aqui sozinha, Daisy?
- Eu estava indo até o lago com os meus patins - ela apontou para trás, onde um par de patins lilás estava no chão - Não sei andar muito bem e acabo caindo toda hora, mas é divertido. Ei! Acha que pode me ajudar?

olhou para os patins e novamente para a menina. Ela o encarava com um sorriso ansioso no rosto e um brilho esperançoso nos olhos.
Como poderia dizer não?




how can it be that my memories are more alive than I am?

- Nate? - não consegui esconder a surpresa em minha voz. Muito menos a repulsa.
- . Oi. Eu queria…

Rolei os olhos. Você não tem o direito de querer nada.
Comecei a fechar a porta, mas uma de suas mãos a segurou antes que ela encontrasse a fechadura.

- Por favor, me escuta.

Por que eu deveria? Isso mesmo, eu não deveria.
Mas eu raramente ouvia a voz da razão...

- Você tem um minuto. E você fica aí fora - cruzei os braços, pronta para a sequência de palavras ridículas que sucederiam as minhas.
- Eu tenho pensado muito em você - ele começou e minha cara se contorceu automaticamente - Não! Não desse jeito. Mas não consigo parar de pensar em tudo o que fiz você passar e eu queria dizer que sinto muito.

Fiquei o encarando por alguns segundos, a incredulidade quase me deixando na ponta dos pés.
Era a primeira vez que ele tocava no assunto. Era a primeira vez que eu ouvia qualquer coisa relacionada ao perdão sair de seus lábios. Era a primeira vez que ele sequer reconhecia que havia feito algo.
E… ele nem ao menos parecia sincero. Mesmo buscando no fundo de seus olhos que uma vez me foram tão familiares, eu não encontrava um pingo de arrependimento.

- Por que está dizendo isso agora? - rebati, a voz ainda mais apática que antes.
- Eu não sei - ele levantou os ombros - Aconteceram algumas coisas e… Eu só não tenho conseguido parar de pensar nisso. Me desculpe, .

Eu queria voar em seu pescoço.
Me deixar em paz e contribuir para que eu ignorasse o passado era melhor do que qualquer pedido de desculpas. Ainda mais um pedido patético como aquele.

- Desculpas não consertam tudo, Nate. Você tem noção do que fez com a minha vida? - a simples menção do fato fez meus olhos marejaram.
Nate tornou-se imóvel.
- Eu…
- É. Eu achei que não.

Não quis ouvir mais nada. Não queria olhar pra ele. Antes que soltasse mais um argumento tolo, fechei a porta entre nós dois e levei as mãos rapidamente para o rosto, impedindo que as lágrimas caíssem.
Eu não ia chorar por ele. Não mais uma vez.



A fumaça tórrida conferia ao meu corpo um estado elevado de êxtase.
Era um paradoxo curioso; eu gostava tanto das estações mais frias, mas os banhos precisavam ser sempre escaldantes. Mesmo no verão.
Com a pele ainda molhada, saí do banheiro envolta por uma toalha branca enquanto deixava um rastro de água. Meus cabelos caíam sobre os ombros, úmidos, e as gotículas escorriam livres até o chão de mármore, formando pequenas poças por onde eu passava - meu quarto, o corredor e, por fim, as escadas.
Eu sabia que Em reclamaria mais tarde; ela simplesmente odiava esse meu péssimo hábito. Mas o que eu podia fazer? Era agradável sentir o corpo absorvendo a água calmamente, enquanto cada milímetro de pele tornava-se cada vez mais gélida pelo contato com o vento. Um dos pequenos e simples prazeres da vida, eu costumava dizer.
Mas eu sabia, também, que ela havia ido para a casa de - e talvez isso a deixasse isenta de qualquer tipo de reclamação.
Enquanto eu descia as escadas, I Could Have Danced All Night deslizava por meus lábios em um cantarolar despreocupado. Bom, e um tanto desajeitado - nada tão gracioso quanto a voz de Audrey Hepburn e Marni Nixon em um dos momentos mais ilustres da história do cinema. E eu estava, justamente, pensando em apreciar a sétima arte; caminhando em direção à televisão bem acima da lareira para escolher um filme. Então eu colocaria um moletom confortável, faria um balde de pipoca e passaria o resto da noite passeando entre os melhores diretores da indústria.
Nada de Woody Allen - eu realmente não queria assistir romance. Apenas Roman Polanski, Tobe Hooper ou Hitchcock estavam convidados para minha festa naquela noite.
Enquanto considerava me aventurar entre o trash e o sobrenatural e procurava pelo controle, senti algo me incomodar.
Havia alguma coisa errada ali....
Algo fora de lugar.
E então, uma onda de pânico arrepiou meu corpo inteiro.
Meus dedos, prestes a alcançar o controle remoto, temeram.
Eu não estava sozinha.
Apertei os olhos, me certificando de que eu não estava delirando e que a figura no meio do caminho entre a porta e a sala de estar era mesmo real.
A breve onda de temor deu lugar à uma crescente inquietação.

- O que você está fazendo aqui? Não, espera… - balancei a cabeça cruzando os braços - Como você entrou aqui?

estava encarando o teto.
Quando olhei para o seu rosto com mais atenção, percebi um pequeno detalhe que, inconscientemente, me fez sorrir.
Ele estava vermelho. Bem na minha frente, o garoto tão confiante, de vocabulário mordaz e atitudes destemidas, estava com as maçãs do rosto levemente ruborizadas.
E por quê? Bom… Eu estava de toalha.

- Emily… - sua voz falhou e ele limpou a garganta - Emily estava saindo e me deixou entrar. Eu falei que podia esperar lá fora até você atender a porta, mas ela insistiu, então eu…
- - o interrompi, ainda sem conseguir desfazer o sorriso.
- Hm?
- O que está fazendo?
- O que quer dizer?
- Por que está olhando pro teto?
- … - meu nome escapou dos seus lábios em um misto de súplica e alerta.
- Não, estou falando sério. Não é educado conversar com alguém e não olhar para a pessoa, sabia?

Minha voz foi seguida por um momento de silêncio. Observei atentamente enquanto suas feições tornavam-se duras e precisei umedecer os lábios quando seu pescoço se movimentou; o gesto puramente masculino de um engolir em seco, intensificando ainda mais a tensão que pairava no ar.
Seus olhos tremeram. Em um movimento mínimo, ele abaixou o rosto, mirando apenas e somente meu rosto.
Eu podia ver que ele estava se torturando.
E eu gostava disso.
Exibi um sorriso, sem me preocupar se ele parecia satisfeito demais.

- Melhor assim - ergui os ombros em entusiasmo - Vou colocar uma roupa. Pode me esperar no sofá.

Subi as escadas sem entender porque estava sorrindo, e depois de me enfiar em um conjunto de moletom preto e confortável, desci tentando decifrar a faísca de euforia que havia ascendido em meu peito.
Quando cheguei ao primeiro andar, a faísca cintilou para se tornar uma flama.
estava sentado no sofá e, sem o sobressalto de alguns minutos atrás, eu consegui absorver a sua imagem com mais clareza.
Céus, porque ele tinha que usar aquela jaqueta? Por cima da camiseta branca que abraçava seu corpo, a peça de couro caía nele com perfeição e fazia-o lembrar ninguém menos do que James Dean.
Não pense nisso, .

- Certo - me joguei ao seu lado no sofá - O que veio fazer aqui?
- me falou que Emily ia pra lá assistir algum filme de natal com ele ou algo do tipo e eu não quis ficar para atrapalhar. Os dois podem ser irritantemente felizes, então…
- Então você pensou na pessoa que exala menos felicidade na sua lista de amigos e veio me ver?

O canto dos seus lábios se curvou em um pequeno e adorável sorriso, que logo transbordou para os seus olhos quando encostou a cabeça no sofá, me encarando um pouco mais de perto.
Talvez estivesse pensando o mesmo que eu; às vezes era bom ter alguém para dividir a melancolia. Seja ela causada pelo mesmo motivo, por universos díspares, consolidada pelo tempo ou apenas passageira.

- Você está com cheiro de morango - ele confidenciou em um sussurro e, por um instante fugaz, me perdi na delicadeza de sua voz, por mais que tentasse repelir a sensação aprazível que ousava se formar em meu peito.

Me limitei a um sorriso quase ilusório.
Ele tinha essa mania de desviar o assunto diante de minhas perguntas, eu havia reparado.
Nossos olhares permaneceram magnéticos, estáticos por alguns segundos.
E eu podia facilmente me perder na vivacidade de sua íris - mas eu sabia que a cautela inabalável que consumia o meu íntimo me traria de volta à realidade.
E então, em um instante, eu estava de pé, na minha zona segura, caminhando até a cozinha enquanto, por cima do ombro, gritava:

- Eu sei como a nossa noite pode ser mais “irritantemente feliz” do que a deles - desenhei aspas no ar.
- Como?
- Você já assistiu Pânico? - o olhei rapidamente enquanto remexia em um dos armários embaixo da ilha.
- Alguém nunca assistiu Pânico?
Sorri - tanto por sua resposta, quanto por achar o que estava procurando.
- Então você conhece a brincadeira, não é? Aquela que os adolescentes insensatos faziam nos filmes enquanto assistiam Stab - enchi as mãos com três garrafas de vinho e duas taças - A gente escolhe um filme e bebe quando algo previsível acontecer. Como quando a mocinha procurar pelo assassino sem acender as luzes ou quando o carro não funcionar quando o namorado dela está prestes a ser esfaqueado.

Equilibrando todos os apetrechos nos braços enquanto voltava para a sala, o vi sorrir em aprovação. levantou para me ajudar e, depois de apoiarmos as garrafas e taças na mesa de centro, estamos novamente no sofá.

- Algo me diz que não é a primeira vez que você faz isso - ele comentou ao abrir uma das garrafas enquanto eu ligava a TV.
- Não. Mas é a primeira vez que não faço sozinha.

Ele estava concentrado ao encher as duas taças quando um quase convencido sorriso se assomou à sua expressão.

- O que vamos assistir?
- A primeira regra é que só funciona com os clichês do gênero. Nada genial, como Pássaros ou O Bebê de Rosemary - apertei alguns botões do controle até chegar aonde queria: um streaming apenas de filmes antigos - Agora tampe os meus olhos. Vamos escolher o filme.

estreitou as sobrancelhas para mim, como se quisesse confirmar se eu estava mesmo falando sério. E então, quando me viu imóvel, com o controle entre os dedos já direcionado para a TV, apenas balançou a cabeça negativamente ao escorregar para um pouco mais perto de mim.
Algo dentro de mim se agitou quando o senti ao meu lado. Sua respiração bateu quente em meu rosto e isso me fez ofegar.

- Pode fechar - ele sussurrou, as ondulações roucas e inéditas quase coladas ao meu ouvido.

Eu podia muito bem apenas fechar os olhos. Mas algo em sua proximidade, na ânsia pelo mínimo toque dele, fazia meu corpo vibrar.
Com as pálpebras cerradas, eu era toda sentidos.
E eu senti, por um ínfimo segundo em que não houve movimento algum, seu olhar pairando em meu rosto.
Senti o movimento lento de sua mão, antes apoiada em seu colo, indo ao encontro do meu rosto.
Senti a sua respiração tornar-se descompassada à medida que seus dedos, levemente trêmulos, tomavam o lugar sob meus olhos.
Precisei de um instante para lembrar o que eu estava, de fato, fazendo. Nesse instante, senti apenas o toque superficial de ; o leve roçar de seu dedo anelar, dançando suavemente pelo alto de minha maçã e sua palma, graciosa sob meu nariz.
Eu não conseguiria entender nem se tentasse, mas o simples toque de sua mão em meu rosto parecia mais íntimo e explorador do que qualquer beijo que eu havia experimentado e qualquer olhar que eu tivesse trocado.
Um estralo assolou minha mente e, constrangida pelos segundos inerte, meus dedos bateram descontrolados contra os botões do controle que eu já apertava na mão.
Pressionei as teclas uma, duas, três, oito vezes. E então mais algumas, aleatoriamente, e me dei por satisfeita.

- Pronto!

tirou a mão depressa do meu rosto e eu não consegui encara-ló quando abri os olhos, sentindo um vestígio de timidez esquentar meu rosto.

- Halloween
. Ótima escolha, Heart.

Por que você tinha que ser tão bonito, ? Me vi questionando em pensamento.
Quando o filme começou, a tensão criada entre nós fora, aos poucos, se dissipando. Em alguns minutos éramos o retrato de bons amigos, taças em punho enquanto discutíamos, ora ou outra indignados, com o filme e entre nós dois.
Assistimos Halloween e bebemos todas as vezes que Laurie Strode pensou ter visto Michael Myers. E então todas as vezes que ele parecia estar morto e, milagrosamente, voltava à vida.
Não satisfeitos com a quantidade de álcool ou com o prometido terror conferido pelo filme, assistimos o originário da brincadeira, Pânico, e então entornamos um gole todas as vezes que Sidney Prescott escapou do Ghostface. E outro pelas vezes que Gale Weathers foi… Bom, Gale Weathers. Ah, eu amava a Courteney Cox!

- … - minha língua já estava começando a enrolar e as palavras saindo um tanto amolecidas; ainda assim, não pude deixar de reparar o quanto meus ouvidos pareciam apreciar o som do nome dele em minha voz.
- … - ele repetiu, levemente mais frugal.

E o quanto meu nome era ainda mais harmonioso em sua voz.
Ele prestava atenção na tela; o terceiro filme da noite era Bruxa De Blair, e a luz quase inexistente das cenas constantes na floresta adicionavam praticamente luz nenhuma à sala escura. A pouca luminescência, no entanto, incidia suavemente em uma coreografia atrativa entre seus olhos e a ponta de seu nariz.
Encostei meu corpo completamente na almofada do sofá, pendendo minha cabeça para o lado, olhando-o.

- Você já assistiu E o Vento Levou? Eu juro, foram as quatro melhores horas da minha vida. Não é estranho? Que as melhores quatro horas se passaram dentro de uma tela?

O vinho me deixava um tanto reflexiva - e um bocado mais falante.
Ele sorriu - não sabia eu se de minha confissão ou por perceber que eu estava levemente mais espontânea. E então repetiu meus movimentos, encostando no sofá e inclinando o rosto em minha direção.

- E o Vento Levou são as melhores quatro horas na vida de qualquer pessoa, Heart.

E lá estava ele, sabendo exatamente o que dizer quanto o desalento havia apenas ousado chegar em meu coração.
Mas durou apenas um instante...

- Eu conheci uma garota… - o sussurro atingiu meus ouvidos e, quando entendi o contexto das palavras juntas, meu coração pulou uma batida.

Tentei não esboçar qualquer traço de reação. Porque ele estava me contando aquilo? E porque um um formigar desagradável subia pela minha barriga?

- Quem? - me limitei a murmurar em resposta.

Ele se ajeitou na almofada, dessa vez virando o corpo todo para mim.

- Ela tem o nome da personagem principal do meu livro preferido - o tem de sua voz flutuou em declínio, me obrigando a prender a respiração e me curvar para frente para ouvir o que dizia.

Fiquei em silêncio por alguns instantes, buscando em seu olhar algum indício - indício de que ele estava brincando ou até mesmo um indício de quem ele estava falando.
Nada.

- Quando garoar, leve ela para passear na beira da floresta. Wasatch Hollow fica perfumada quando chove. As castanheiras ficam úmidas e espalham o cheiro doce pela cidade - disse, em um só respiro, sem pensar demais na maneira que seus olhos direcionavam o brilho etéreo para mim e nem mesmo na forma sensual que os cabelos caiam sob sua testa.

Não, eu não estava pensado nisso...
Um sorriso sem humor brincou em seus lábios.

- Não fique chateada…

Ele estava sendo irônico.
E eu, rindo ironicamente.

- Não estou chateada. Não me importo com você o suficiente pra me chatear, . Acabamos de nos conhecer.

Eu não precisava ter dito aquilo. Mas era, mais uma vez, o senso de proteção falando mais alto. E ele, mais uma vez, não esboçou emoção alguma. Seus olhos, pairando sob mim, no instante tão próximos, me deixavam nervosa.
Me inundava a vontade de chegar mais perto, e examinar com atenção cada pedacinho dos universos particulares e intensamente que ele carregava em si.
Talvez mergulhada na vontade, e com medo de que o silêncio provocasse algo que eu pudesse me arrepender depois, me vi preenchendo a quietude com um daqueles pensamentos que ficam à espreita, nos cantos de nossa mente, esperando pacientemente momentos de vulnerabilidade.

- Aquele caderno que você leva… - deixei a frase morrer no ar, não querendo concluir nada por conta própria. Tudo bem se ele me achasse intrometida demais; eu ainda tinha o vinho para jogar a culpa.
- Poesias - apenas seus lábios se mexeram, externando mais uma de suas ondulações misteriosas.
E pronto. Uma palavra, e eu estava consumida pela curiosidade.
- Me conte uma.
Nossos olhares permaneciam fixos um no outro, como se pertencessem-se.
- É o tipo de coisa que você precisa ler.
- Picante demais?

Seus olhos se moveram minimamente. Era um sorriso, eu sabia, mesmo sem mirar seus lábios.

- Talvez sejam picantes também, mas só por acaso. São, sobretudo, agressivos, comoventes, profundos… E, no pior dos casos, melancólicos.

Um sorriso sincero atingiu meus lábios, reconhecendo, de fato, o tom poético das palavras que sua boca saboreava.
O jogo de palavras rápido nos deixou inerte, presos no nosso próprio mundo. Naquele instante, não estávamos em Wasatch Hollow; não sei dizer se estávamos ao menos na Terra.
Eu, que havia pensado mais cedo que não queria assistir Woody Allen, me via na abertura de um de seus filmes ao observar a beleza irretocável de ; as imagens revelando-se gradualmente, criando um ambiente bonito e cheio de promessas, uma música doce tocando ao fundo e expectativa de um romance inevitável. Um clichê como tantos outros que você conhece, mas, pela direção, sempre traz surpresas e é digno de um prêmio.
Ele se moveu minimamente, o rosto deslizando cauteloso para perto de mim. Senti seu hálito quente bater em meus lábios, e ao encarar os belos olhos tão vizinhos, meu peito se encheu de sensação inédita; um lembrete inconsciente de que, dentro do garoto à minha frente, pareciam haver sentimentos tão confusos e complicados quanto os que faziam morada em mim.
Ele umedeceu os lábios, e meu olhar foi diretamente para eles. Ah, estavam gritando para que eu os tocasse… Mordi meu lábio inferior em resposta, imaginando como seria seu gosto.
Um milímetro à frente e nossos narizes se encostaram em um roçar carinhoso. Fechei os olhos apenas para sentir o seu toque. O simples toque, pele com pele, descobrindo se a textura valia. Me sentia envolta em uma névoa de tensão e desejo; eram aqueles poucos segundos antes de um beijo acontecer, que nos enchiam de expectativa e elevava o querer.
Um leve triscar de lábios fez meu coração se revirar em tumulto. O arrepio percorreu meu corpo, enquanto as mais absurdas e fantásticas extravagâncias enchiam meus pensamentos. Um universo de inefável excitação se tecia incessantemente em meu peito. E eu estava prestes a mergulhar na linha tênue entre fantasia e realidade quando um grito ecoou entre nós dois, nos trazendo de volta apenas à existência.
Estávamos na Terra.
Estávamos em Wasatch Hollow.
E os lábios de já não estavam próximos aos meus - e eu duvidava, que um dia, voltassem a estar.
Dando um pulo para trás por extinto, demorei a entender o que estava acontecendo.
Um grito.
Um grito do lado de fora.
Alguém estava em perigo.
Lembrei de Emily e senti o pavor inevitável fechar minha garganta.
Eu e nos olhamos, receosos, antes de levantarmos e corrermos em disparada até a porta. Quando a abri, senti o sangue ferver e a raiva invadir todos os meus sentidos. A sobriedade me atingiu, impiedosa.

- Você não presta, Olivia.

Ah, não. Vá se foder, Scott.
Tudo aconteceu rápido demais. As quatro palavras estavam prontas, afiadas na ponta da minha língua apenas para eu cuspi-las e disparar na direção de Liv.
Queria tira-lá dali. Ela estava em lágrimas, o corpo encolhido, se protegendo do brutamontes à sua frente.
Mal pensei em dar o primeiro passo e a mão firme de me impediu.
Um amontoado de árvores, um pouco à frente, se mexeu, como se alguém nos observasse à espreita.
andou decidido em direção a Liv, a envolveu com um dos braços e, como se não ouvisse a destilação de ódio que Scott soltava contra o vento, a trouxe para perto de mim.

- Ela também não é tão perfeita como parece, ouviu cara? Cedo ou tarde você vai descobrir.

Filho. Da. Puta.
continuava inabalável, como se nem ao menos ouvisse as palavras do garoto histérico. Dei um passo pro lado, deixando que ele entrasse em casa aparando Liv. No mesmo instante, a porta da casa ao lado abriu, e e Emily surgiram assustados.
Emily levou um segundo para entender a cena e, puxando pelo braço, correu até onde eu estava.
Scott havia, finalmente, parado de gritar. No meio da pequena rua, com a respiração ofegante e os olhos sombrios, me lançava um sorriso atravessado de dar arrepios.
Não parei de encará-lo. Eu não tinha medo dele, se era o que pensava.
Esperei e Emily entrarem em casa para, finalmente, gritar as palavras que ficaram presas em meu peito antes de bater a porta.

- Vai se foder, Scott.

² Trecho do poema Gazel da Fuga, do poeta e dramaturgo espanhol Federico García Lorca.



Continua...


Nota da autora: Oi, meninas! Tava com uma saudade que não cabia em mim de atualizar essa história, eu juro!
Posso dizer que, a partir do próximo capítulo, a história vai começar a ficar um pouquinho mais fechada, tomar mais forma. A visita do Nate pode parecer aleatória, mas ela vai fazer sentido no capítulo 07.
Eu realmente não consigo criar uma história sem trazer os filmes como um dos personagens, gente! hahaha Peço desculpas se, de alguma forma, isso torna a história cansativa, mas é algo que me ajuda não apenas a construir os personagens em si, como em reforçar os laços entre eles. Aliás, quando eu escrevo, costumo imaginar como as cenas ficariam na tela. Acho que uma arte é extensão da outra.
Espero que tenham gostado de mais um! Não se esqueçam de deixar os palpites, opiniões e o que mais quiserem aqui embaixo.
Carol, como sempre deixo meu agradecimento à você por toda paciência e apoio. Obrigada <3 Nos vemos na próxima atualização! <3



Fanfics:
Shades of Cool [Restritas – Longfic – Finalizada]
Shades of Cool - Dark Paradise [Restritas - Longfic - Em Andamento]

Shortifcs:
Chaos Theory [Restritas – Originais – Shortfics]
Once Upon a Time In… Hollywood [Shortfic - Finalizada ]

Ficstapes:
09. Broken Parts | The Maine
08. Paper Rings | Taylor Swift
08. In My Feelings | Lana Del Rey
09. California | Lana Del Rey
04. Brooklyn Baby | Lana Del Rey
11. The Greatest | Lana Del Rey
08. Something About You | McFLY
13. i love you | Billie Eilish


Nota da Scripter:Ahhhhh eu não acredito que algo atrapalhou o quase beijo do meu casal!!! E o que é esse Scott? Espero que seja ele quem vai morrer, e logo!!!
Essa fanfic é de total responsabilidade da autora, apenas faço o script. Qualquer erro, somente no e-mail.


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