Última atualização: 16/02/2024

Dedicatória

Para todas que, assim como eu, amam uma história com final triste, um personagem cheio de feridas, um romance triste e conturbado e com resquícios de felicidade.
Tenho dó de você.


Epígrafe

Nem sempre as almas solitárias são tristes.
Nem sempre o amor é a cura para tudo.
Nem sempre os finais são felizes.
Apenas nos enganamos.

— Yasmin S. Oliveira


Ato I

Narração em primeira pessoa:


Prólogo

Quarta, 06:43 AM
Bleak, ’s House


Quando eu era criança, costumava amar contos de fadas. Sempre pensei que finais felizes eram obrigatórios na vida real, pois, nas histórias de princesas que eu lia, era assim.
Quando eu cresci, fui percebendo como a vida realmente era.

Eu percebi que romances não eram felizes quando meus pais se divorciaram. E acabei percebendo que a vida não era feliz e muito menos justa quando o novo namorado da mamãe acabou assassinando-a quando eu tinha apenas doze anos.

Meu pai se tornou uma pessoa muito difícil de conviver e, por muito tempo, eu tive que ser a mãe do meu próprio pai. Ele já não se sentia bem quando havia terminado com minha mãe, e então piorou quando descobriu sobre a morte dela. Foi difícil ser uma criança sem mãe e, praticamente, sem pai. Até que ele se tornou pior.
Não na forma de não sentir vontade de viver e sim na forma de descontar tudo em mim. Eu não reconhecia mais o meu pai. Até ontem, quando brigamos e ele acabou me mandando para a casa da minha tia, irmã mais nova da minha mãe, Robin, me dando apenas uma noite para ajeitar tudo.

Agora aqui estou eu, em uma quarta chuvosa, carregando bolsas até a casa minúscula da minha tia, em uma cidade minúscula. Pelo menos a chuva tinha cessado um pouco, assim poderia ter as minhas coisas comigo.
— Quer ajuda? — Ouvi uma voz feminina atrás de mim.
Depois de um mini pulo causado pelo susto, me virei para ver quem me chamava.
Uma garota inteiramente vestida de preto estava atrás de mim. Seus olhos eram de um castanho profundo, hipnotizantes, sua pele era clara e seu cabelo escuro, mas as sobrancelhas eram mais claras, o que indicava que aquela não deveria ser a cor natural do seu cabelo.
Ela sorria para mim, quase como em uma cantiga de atração.
— Somos quase vizinhas — me informou. — Sou .
, mas pode me chamar de . — Peguei a outra mala que ainda estava no carro da minha tia, que estava dentro da casa, atendendo alguma ligação importante. — E, sim, eu quero ajuda.
A garota alargou o sorriso, pegando as últimas duas malas que haviam no carro. Falei para que me seguisse e assim ela fez.
— Deve ser a sobrinha da senhora . É a filha da irmã mais velha? Pâmela o nome da sua mãe, não é? — ela falava aquilo tão naturalmente que me assustava.
— Sou e sou. — Tentei parecer calma. — Como sabe?
— A sua tia falou com alguém na confeitaria dela e logo se espalhou pela cidade. — O silêncio se instalou até subirmos as escadas e chegarmos ao meu quarto. — A escola está ansiosa para conhecê-la.
Meus olhos se abriram rapidamente, por puro espanto.
— Merda — sussurrei.
— Queria passar despercebida? — Colocou as malas no chão enquanto ria. — , nenhum novato passa despercebido em Bleak.
— Achei que poderia ser diferente.
— Nunca é — falou sútil, negando com a cabeça. — Bom, eu tenho que ir.
— Eu te acompanho até a porta.
Saímos do meu quarto e descemos as escadas. Não demorou muito para chegarmos à porta. Abri ela para , que se pôs para fora e, antes de ir, olhou para mim.
— Foi bom te conhecer, . — Sorriu outra vez para mim, com seus cabelos negros se mexendo graças ao vento.
— Igualmente, . — Sorri também. — Até mais.
— Até.
E então a garota foi embora.
Caminhei até a cozinha, que era quase colada com a porta, e lá estava minha tia, pálida e assustada.
— O que aquela garota estava fazendo aqui? — perguntou, trêmula.
De longe eu conseguia ver , passando e nos observando pela janela da cozinha, que não estava coberta pela cortina bege que havia lá. Seu olhar profundo quase invadindo a minha alma, como se quisesse controlar a minha mente. Em segundos ela sumiu.
— Me ajudou com as malas, por quê? — retruquei com outra pergunta, igualmente assustada, mas, diferente da minha tia, de surpresa por sua reação.
A mulher em minha frente suspirou fundo, se apoiando na bancada da cozinha.
— Meu amor. Mesmo que eu e sua mãe tenhamos sido grandes amigas da mãe deles no colégio — suspeitei o uso do plural no “deles” —, eu não quero que fique perto dos .
— Por quê? — Foi quase de imediato.
Mais um suspiro profundo saiu de minha tia, dessa vez parecendo mais pesado que o anterior.
— Faz quase dois anos que Halsey Jones está desaparecida. Já é dada como morta, praticamente. — Havia um peso anormal na voz dela. — Última vez que alegaram vê-la, foi quando ela falou para os pais que iria jantar na casa da família .
A mulher caminhou pela cozinha e pegou um copo d’água, mas não o tomou, apenas o segurou, como se estivesse temendo bebê-lo.
— Ela era namorada do , irmão mais velho da garota que estava aqui. — E então as peças se encaixaram na minha cabeça. — A família está na mira da polícia, e ele, em específico, é o principal suspeito. Infelizmente, não podem prender ninguém, por não terem prova suficiente para isso, então, por favor, fique longe deles. Tenho que protegê-la, assim como a sua mãe fazia.
Apenas assenti com a cabeça, sem questionar nada. Sei que até hoje a morte da minha mãe afeta muito a minha tia, e não é para menos, e também sei que sou o que resta a ela e que me proteger ao máximo é algo importante para ela, algo que a deixa segura, então tento não questionar quando se trata disso.
— Bom, eu vou para o meu quarto, preciso tomar um banho antes de ir para o colégio.
— Ok, vá lá, meu amor — falou mais tranquila.
Caminhei até o meu quarto e peguei um par de roupas.
Uma calça jeans justa, uma regata branca e um suéter verde claro para usar por cima.
Abri uma das malas e peguei a toalha que havia trazido comigo, indo diretamente para o banheiro daquele andar.


01 — Carne nova

Quarta, 07:52 AM
Bleak, Bleak High School


Acabei de acorrentar a minha bicicleta no estacionamento e peguei a minha mochila.
Fios loiros invadiam meu rosto, me incomodando cada vez mais. O ar gelado tomava todo o meu corpo, tornando aquele lugar ainda mais bizarro. Mas, por incrível que pareça, vários alunos ainda estavam na parte de fora do colégio.
Comecei a caminhar para o interior da escola, tentando ignorar todos em minha volta, mas acabei sendo parada por antes mesmo de entrar no local.
Havia colocado um pouco de maquiagem e trocado sua roupa, adicionando cinza à paleta dela.
, que bom que veio hoje! — Sua voz soava um pouco sombria.
— Não queria perder mais aula. — Dei de ombros, me esforçando ao máximo para sorrir.
Comecei a andar pelo corredor enquanto a garota me seguia.
— Então, eu esqueci de te perguntar, mas em que ano está? — O tom de voz ainda era o mesmo, mas agora seu rosto estava mais simpático.
— Penúltimo — respondi brevemente.
— Droga — esbravejou. — Estou no primeiro.
Senti um alívio dominar meu corpo. Então seria mais fácil ficar longe dos .
— Mas, pelo menos, poderá conhecer o meu irmão mais velho, o . — Havia comemorado cedo demais. — Ele deve ter alguma aula em comum com você e não é difícil reconhecê-lo, somos bem parecidos.
Antes que eu pudesse falar alguma coisa, senti algo se chocar contra o meu corpo. Não consegui ter visão da coisa, a princípio, mas logo vi, de longe, uma pessoa, de cabelo preto acima dos ombros, uma calça preta e, ao que parecia ser, uma blusa social azul marinho. Quem pensaria em usar uma blusa social em uma escola?
— E lá está ele. — Senti se achegar e sussurrar no meu ouvido. — Meu irmão, .
— Parece ser um amor de pessoa — ironizei.
Eu via o garoto se afastar ainda mais, a passos pesados e largos. ainda não falava nada, mas eu tinha medo do que ela falaria.
— Ele não é assim de verdade. — Sua voz aparentava ser menos assustadora agora. — Ele só cria uma película para tentar se proteger e, de uns tempos para cá, ele até chega a ficar com essa película com a própria família.
Por acaso ele estava tentando esconder que era um assassino?
— Sinto falta do meu irmão.
E então eu vi tristeza no seu olhar, era como se estivesse falando sobre alguém que havia morrido. Bem, o que ela havia descrito não era muito diferente. Sei que não deveria me deixar levar por coisas que algum falava, pois a minha própria tia havia avisado sobre eles, mas, naquele exato momento, eu senti pena. Senti pena, pois sabia como era perder alguém. E mesmo que não o tenha perdido fisicamente, ela havia perdido a antiga alma do irmão.
— Bom, eu preciso ir. Até mais, ! — E então ela se despediu novamente e foi embora antes que eu falasse algo.
Assim como , comecei a caminhar pelos corredores, à procura do meu armário. Podia ouvir todos os cochichos das pessoas sobre mim, a maioria sendo apenas alguns perguntando se eu era mesmo a tal da .
Tentei não ligar muito e, enquanto procurava o meu armário, fui parada e assustada por um garoto de aparência indiana, que me olhava curioso.
— Você é ? — perguntou, com a curiosidade transbordando do seu corpo.
— Sou.
Assim que o respondi, um sorriso vitorioso se abriu no rosto do garoto, me deixando um pouco assustada com o que aquela cidade tinha para oferecer.


Quarta, 11:10 AM
Bleak, Bleak High School


Eram incontáveis as pessoas que haviam vindo falar comigo apenas naquela manhã. A maioria apenas perguntando se eu era eu mesmo e depois partindo, mas eu não me incomodava muito com aquilo, pelo menos elas partiam.
Já a minoria, até tentava puxar assunto comigo, mas, no final, partiam também.

A aula agora seria de matemática, o que incomodaria boa parte dos jovens, mas não a mim, eu até achava aquela matéria legal. Muitos deviam me achar estranha por causa disso, porque, bem, matemática era a matéria mais fácil de se odiar, mas, sinceramente, me concentrar em outros problemas, fazia com que eu esquecesse dos meus.

Entrei na sala um pouco apressada, pois o sinal já havia tocado fazia um tempo e eu sentia que tinha que correr, ou então ficaria para fora da sala. Assim que cheguei, quase caindo no meio de vários adolescentes, percebi que o professor estava logo atrás de mim. Sorte minha.

Bem, minha sorte chegou ao final, quando vi o único lugar que sobrava. Era a segunda cadeira à direita, na fileira da frente e, pior, ao lado de . Eu sei que não deveria julgar alguém sem provas, mas, desde que minha tia havia alertado sobre eles, eu percebi que eles transmitiam tanto medo quanto eu imaginava.

E então ele me olhou.

Me olhou com aqueles olhos profundos, olhos tão lindos que eu poderia me perder neles.
Eram hipnotizantes e eu não conseguia desviar deles nem por um momento. Percebi que haviam me deixado estática como pedra, quando ouvi a voz do professor me chamando e falando para eu ir me sentar.

Ajeitei os meus materiais e fui até a única cadeira vazia, a do lado de . Me sentei nela e, ao me ajeitar lá, ouvi uma risadinha fraca vindo dele. O deboche era tão nítido naquela risada que me fez sentir uma pontada de raiva em meu coração, mas decidi ignorar aquele sentimento, pois, sabia que, se eu tentasse falar qualquer coisa e, distraidamente, o olhasse, ficaria estática outra vez.

Fiz de tudo para prestar atenção na aula, mas me distraí um pouco ao sentir uma pontada nas minhas costas e, ao olhar para o meu ombro, ver uma mão segurando um post-it amarelo.

Acabei pegando o post-it, mesmo com medo de ter algo ruim sobre mim nele. Felizmente, ou infelizmente, não era de mim que estavam falando sobre.


02 — Bem-vinda,

Sexta, 18:23 PM
Bleak, ’s House


Minha tia havia aceitado o convite que a própria vizinhança havia feito, uma recepção para mim na nossa casa.
Eu não gostava muito da ideia, ainda mais pelo fato de eles se auto convidarem, mas eu não queria ir contra alguma vontade inofensiva de minha tia.

Olhei-me no espelho, vestia um vestido rosa com detalhes em dourado. Sua saia era um pouco rodada por conta do tule que havia nela e o modelo da peça não tinha alças, fazendo-me um pouco insegura.
Estava um pouco frio do lado de fora, mas, graças ao aquecedor que havia na casa de tia Robin, eu não precisava estar encapuzada toda hora.

Ajeitei meu cabelo, dando uma última checada em tudo através do espelho, até ver um vulto surgir em minha porta. Me virei para ver se não era apenas uma miragem ou algum defeito estranho do meu espelho. Mas não, lá estava ele. Seu cabelo preto estava um pouco mais desgrenhado que o normal, os seus olhos estavam mais profundos devido às olheiras agora visíveis. Vestia uma calça jeans preta, que era da mesma cor do blazer que usava por cima da camiseta vermelha.
— O que está fazendo aqui? — perguntei, em um misto de confusão e medo.
Como ele havia passado por minha tia?
— Sua tia pediu para que eu viesse ver por que demorava tanto. — Minha tia havia mandado John me procurar? Sozinho?
Parei de pensar na minha tia quando me dei conta de que havia escutado a sua voz pela primeira vez. Era, ou estava, um pouco rouca e, ao mesmo tempo que era fria e insensível, era quente e aconchegante.
— Bom, diga a ela que já estou indo. — Me virei novamente para o espelho, percebendo o meu gloss um pouco borrado.
— Não irei sair daqui sem você. — Sua frase havia me assustado, me fazendo virar bruscamente, o olhando confusa. — Se acabar morta, a culpa vai cair sobre mim.
Engoli a seco com a resposta dele, sentindo como se uma maçã inteira passasse pela minha garganta.
— Por que diz isso? — Tentei rir enquanto falava.
— Não finja que é burra como essa porta. Eu sei que você sabe, .
Eu quase conseguia ver o gelo saindo de suas palavras. O mistério da família nunca foi apenas a garota desaparecida, mas, também, como eles conseguiam ser tão calorosos e frios ao mesmo tempo.
— Vamos — disse em tom de redenção.
descia as escadas logo atrás de mim, como se fosse o meu guarda-costas. Eu me sentia um pouco intimidada por ele, mas não poderia demonstrar medo naquele momento, não ali.
Quando descemos as escadas, o garoto começou a me acompanhar pelo lado, fazendo o meu coração tomar um ritmo acelerado.
Chegamos à sala e todos já estavam lá, havia apenas dois lugares vagos. tomou iniciativa e se sentou no lugar vago ao lado de sua irmã, fazendo sobrar apenas um lugar entre ele e uma garota desconhecida.
— Acho que ela já sabe sobre nós. — Ouvi o sussurro de para o irmão. — Parece ter medo.
— Tenho certeza de que está com medo. — Sua voz arrepiou até a última espinha do meu corpo.

Minha tia havia servido o jantar, mas minha atenção só estava voltada para . Aconteceu tudo naquela noite. Pessoas se apresentavam, me abraçavam, perguntavam como eu estava depois da morte de minha mãe. Eu até havia conhecido uma garota da minha sala, Cecília, que estava sentada ao meu lado no jantar, mas não saía da minha cabeça. E quando ele foi para o quintal, foi inevitável não o seguir.

— Por que veio atrás de mim? — Sua voz se misturava ao barulho do vento.
Era como se ele tivesse uma câmera que captasse o que estivesse atrás dele e, automaticamente, passasse a informação para o garoto.
— Por que está aqui? — O respondi com outra pergunta.
Ele virou metade do corpo, olhando para mim com aqueles olhos sombrios, lendo a minha alma apavorada com eles.
— Vim tomar um ar, não estou acostumado a ficar com tantas pessoas em um espaço tão pequeno. — O tom de sua voz era quase irônico, o que me fez ficar em dúvida do que ele havia dito. — Agora me responda, por que veio atrás de mim?
— Não vim atrás de você, essa é minha casa agora, apenas estou andando por ela.
me olhou como se quisesse rir, ainda com metade do corpo virado em minha direção.
— Não se faça de sonsa, , e muito menos ache que sou tão idiota assim. — Começou a andar em minha direção, me fazendo recuar um pouco. — Você sabe que não acha que posso machucá-la, no fundo você sabe.
— Como pode ter tanta certeza disso? — Minha voz enganchou um pouco ao respondê-lo.
Não percebi quando estava perto o suficiente para o meu peitoral arfante quase tocar o seu. Assim como não percebi que estava tão nervosa por seu rosto estar tão perto e seus olhos tão mortos me encarando. Mas, quando me dei conta disso tudo, percebi que ele não estava nem um pouco como eu. Eu estava estranha, nervosa, chegava a perder o ar por conta disso. Ele estava normal, intocável.
— Se tivesse medo de mim, não estaria tão interessada em mim. Não estaria aqui, sozinha comigo, tão longe dos outros. — parecia se divertir com aquilo.
Talvez fosse impressão minha, mas eu sentia o garoto mais e mais próximo de mim e, mesmo que meu corpo quisesse estar longe dele, minha mente impedia que isso acontecesse, pois ela queria continuar ali. Por algum motivo, minha mente queria continuar ali, tão perto de uma pessoa considerada tão desprezível.
E então me dei conta de que estava certo, eu não sentia medo dele, eu sentia medo do que falavam dele, do que falariam se me vissem tão próxima dele.
Eu não acreditava no que falavam dele.
— Qual o seu problema, ? — perguntou, voltando para o tom de voz frio tradicional.


03 — A verdade

Segunda, 10:08 AM
Bleak, Bleak High School


A ideia de ver depois daquela noite era sufocante. Não havia falado com ele desde o momento no quintal, onde, por algum motivo, ele achou que eu tinha algum tipo de problema diferente com ele. Sua irmã, , havia aparecido lá antes que eu o respondesse, perguntando-lhe se queria ir para casa com ela ou ficaria um pouco mais lá. Ele foi embora sem ao menos se despedir e isso, surpreendentemente, me deixou, apenas um pouco, magoada.

Desde aquela noite, o garoto vinha chamando mais e mais minha atenção, sem fazer nenhum esforço. Algo nele me atraía, algo nele me intrigava e eu queria saber o quê.
Eu estava inventando motivos para sair e passar pela rota em que a sua casa estivesse no caminho. Eu olhava para a sua janela com esperança, mas seu quarto era o único cômodo com a cortina fechada. Merda, até parecia uma stalker falando assim.

não apareceu hoje, ainda, e isso me preocupava, pois vinha sendo assim naqueles dias. Eu me preocupando com alguém que eu nem conhecia.

Comecei a caminhar até o meu armário, com o objetivo de pegar o material necessário para a aula que teria dali uns minutos. Senti um baque atingir o meu corpo e logo ouvi outro atingir o chão. Meus olhos, que se fecharam com o contato, se abriram rapidamente e logo reconheci o cabelo negro e a bolsa carteiro com asas de anjos desenhadas na cor vermelha.
— falei seu nome, esperançosa.
Assim que notou minha presença, olhou para mim, revelando o seu olho vermelho arroxeado. Recolheu as suas coisas rapidamente e começou a andar, comigo em seu encalço.
— O que aconteceu, ? — perguntei, mas sem respostas. — O que houve, ?
— Sai de perto de mim, — ele cuspiu meu sobrenome.
Senti uma pontada no meu corpo, tanto de raiva quanto de decepção.
— A sua irmã sabe disso?
— Sai de perto de mim, ! — repetiu com mais raiva na voz.
— Eu não vou me afastar até me explicar que merda é essa — respondi, no mesmo tom.
— E por que se importa? — Parou de andar por falta de paciência, me olhando fixamente como ele sempre fazia.
— Porque sua irmã é minha amiga. — Fui interrompida pelo garoto.
— Você ao menos consegue ficar perto dela sem tremer de medo. Ela é tudo, menos a sua amiga. — Eu quase conseguia ouvir os seus dentes rangerem.
— E porque não sou uma sem coração e me importo com os outros. — soltou uma risada estridente e raivosa.
— Então acha que eu sou um sem coração? — perguntou irônico. — Ok, então faça o que quiser comigo, assim virarei um coração puro, donzela!
O corredor ficou em silêncio por um tempo.
— Precisa de gelo. — Revirou os olhos enquanto eu agarrava seu pulso.
Guiei-o até o banheiro masculino, onde o garoto me segurou quando fiz menção de entrar lá.
— Sabe que não pode entrar aí, não sabe? — Colocava força no próprio corpo para que eu ficasse parada.
— Prefere entrar no feminino? — perguntei irônica.
— Precisamos entrar em um banheiro?
— Você falou que eu podia fazer o que quisesse com você e precisamos de um banheiro para isso. — Assim que vi um sorriso querendo se formar no seu rosto, concluí que ele estava prestes a fazer alguma piada suja. — Idiota.
Bati de leve em seu ombro e ele finalmente cedeu, parando de colocar força no próprio corpo e começando a me seguir até o banheiro. O deixei perto de uma pia, onde ele se apoiou, enquanto eu pegava alguns lencinhos na minha bolsa e os encharcava com a água gelada de Bleak.
— Eu não precisava de gelo? — perguntou, acompanhando cada movimento que eu fazia.
— Por acaso, você tem gelo? — Meu tom de voz havia saído um pouco irritado.
Ele ficou em silêncio enquanto eu voltava para perto. Estiquei um pouco meu braço para que minha mão alcançasse seu olho e coloquei o amontoado de lencinhos molhados nele.
— Acha que água gelada faz o mesmo efeito? — Ele fazia careta enquanto falava.
— A água de Bleak é congelante, deve fazer algum efeito. — Dei de ombros, pressionando os lencinhos em seu olho.
Ficamos em um tipo de silêncio constrangedor por um tempo, mas eu tive que quebrá-lo com as minhas perguntas estúpidas.
— O que realmente aconteceu com a garota? — me olhou e riu, continuando em silêncio. — Você não fez nada com ela, fez, ?
— E se eu tiver feito? — Eu quase ri com a sua tentativa de parecer assustador.
— Você não fez — falei, sorrindo.
— Como fala com tanta certeza?
— Eu sinto. — Ele fingiu surpresa, como se eu tivesse acabado de revelar o seu futuro. — Por que tem tanto medo de contar a verdade?
— Porque não existe outra verdade para eles, — falou, com pesar.
Mesmo com apenas um olho aberto, me deixava nervosa.
— Ela pode existir para mim.
Outro sorriso quis invadir seu rosto, mas ele segurou. Acho que não aceitava outra expressão sem ser séria e gélida em seu rosto.
— Me conte, — pedi.
Tirei os lencinhos de seu olho, mas ele continuou com ele fechado, como se tivesse medo de enxergar aquela cena totalmente.
— Eu, praticamente, não a conhecia — começou, mas demorou um tempo para continuar. Quase deu um ponto final na conversa. — Conversamos apenas uma vez, quando a ajudei com um trabalho de matemática. Os boatos de que tínhamos algo começaram a se espalhar, mas eu não ligava muito, não pensava que era ela que espalhava aquilo.
Engoliu em seco antes de continuar.
— Tive alguns problemas e acabei tendo que ir para outra cidade por um tempo. Quando descobri a bola de neve que estava me esperando aqui, já era tarde demais. — abria o outro olho calmamente. — O meu segundo dia aqui já estava por vir, faltavam alguns minutos para a madrugada, quando os pais de Halsey Jones acordaram as minhas mães à procura da filha.
Eu sentia a respiração de tão próxima que eu podia contar todas as vezes que ela ia e voltava.
— Essa é a verdade? — perguntei, imersa em pensamentos muito longe do assunto.
— Me diga você, , essa será a sua verdade?


Continua...



Nota da autora: Sem nota.





Outras Fanfics:
POV [Originais — Finalizada];
Run Girl Run [Originais — Finalizada];
03. Love Story [Ficstape — Finalizada].


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