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Última atualização: 26/06/2021

Capítulo 1

Estava deitado na minha cama girando aquele cubo mágico em minha mão, meus olhos seguindo as cores rapidamente conforme os quadrados iam de um lado para o outro, subiam e desciam enquanto o palito do pirulito que eu tinha mastigado há poucos minutos deslizava de pela minha língua para lá e para cá, quando meus dentes não o apertavam, mastigando o plástico que ainda tinha um gosto doce artificial de morango. Minha mente estava fixa naquilo já havia horas, e eu não estava achando nada mais interessante do que encaixar aquelas cores, naquele quebra-cabeça que parecia não ter fim, pois cada vez que eu mexia em suas peças, mais perdidas elas pareciam ficar. Aquilo me fascinava de certa forma, o que aconteceria se eu movesse uma peça, a forma como as outras iriam ficar por causa dela em uma única jogada. A vida era assim, uma reação em cadeia, a maior parte das vezes erramos, e alguma coisa era afetada por isso, mas em momentos raros nós acertamos. Era para isso que nós vivíamos, certo? Para ter alguns momentos de vitória em meio a tantas derrotas. Não sabia se era assim para todo mundo, porém sabia que eu era viciado em jogos perdidos, aqueles que mesmo sabendo que iria perder, ainda assim queria jogar, sentir cada momento de euforia por uma jogada, mesmo tendo certeza que ela seria perfeita e então sendo surpreendido quando falhava, e isso me fazia tentar novamente com a mesma vontade até minhas fichas acabarem. A verdade é que eu só parava quando não me restava mais nada, até mesmo podia me irritar quando sentia que estava perdendo, recuava, mas eu acabava voltando e tentando de novo. Se eu não jogasse, outros jogariam por mim e levariam aquilo que eu tanto queria, porque o mundo era assim. Um cubo mágico. Um jogo de fliperama. Fichas e tempo perdido, nós apenas tínhamos que descobrir onde depositar ambos. E geralmente essa era a parte mais difícil.
Com o que e quem iríamos gastar a nossa vida?
Essa pergunta não tinha resposta antes que perdêssemos pelo menos um segundo do nosso tempo para ver se aquilo realmente valia nossa energia.
O telefone tocou, fazendo com que eu despertasse do meu transe. Uni as sobrancelhas encarando o relógio na parede do meu quarto. Era exatamente quatro e trinta e três da manhã. Quem ligava para a casa de alguém nessa hora? A menos que alguém tenha morrido ou tenha sofrido um acidente, não entendia o motivo de tal ligação. De qualquer forma, eu precisava atender. Meus pais e meu irmão foram passar o final de semana na casa dos meus avós, e poderia ser eles.
Respirei fundo, ouvindo o telefone ainda tocando, e soltei o cubo mágico, já levantando da cama e passando a mão em meus fios negros recentemente pintados, os jogando para trás. Alexei, meu irmão gêmeo, surtou na última semana comigo por ter levado um soco por minha causa. O cara o confundiu comigo porque além de sermos praticamente idênticos, nossos cabelos eram iguais, mesmo corte e mesma cor. Então cortei e pintei, ficando totalmente diferente dele agora. Nossa mãe não gostou muito, mas era a única coisa que se tinha a fazer quando eu não iria parar de arrumar confusão por ainda, ainda mais que eu era da Black River, uma das gangues de Cape May.
Saí do meu quarto rapidamente, descendo as escadas na mesma velocidade, e já estiquei meu braço alcançando o telefone na cozinha, o tirando do gancho na mesma hora para parar de tocar aquele som estridente que estava me deixando levemente irritado.
— Oi. — atendi, e minha respiração estava um pouco pesada por causa da corrida.
? — uni as sobrancelhas, tendo uma leve lembrança de conhecer aquela voz.
— É, sou eu. — respondi lambendo meus lábios e andando pela casa com o telefone na mão já que seu fio era enorme. — Quem é?
. — ao dizer quem era, aquilo me deixou ainda mais confuso.
Eu nunca tinha parado para conversar diretamente com em toda a minha vida, ele era de outra escola e da Purple Torment, outra gangue da cidade. Antes que eu conseguisse perguntar o que ele queria, o garoto já se manifestou:
Você consegue me arranjar cigarro a essa hora da madrugada? — minhas sobrancelhas se ergueram. Aquilo só podia ser sacanagem.
— Estou com cara de entregador? — rebati grosseiramente.
Não falei isso. Só perguntei se você arranjaria, poço de educação. — disse em deboche e meus olhos rolaram por causa disso.
— Depende. Quanto você vai me pagar para isso? — aquilo poderia ser negociável.
Hmmm... Qual o seu preço? — adorava como esses caras riquinhos de Cape May não se importavam com dinheiro. Para eles, aquilo era capim.
— O quanto você está desesperado por um cigarro? — perguntei me encostando no batente da porta da cozinha enrolando o fio do telefone em meus dedos.
O suficiente para estar aqui pedindo, né?! — sua resposta me fez erguer as sobrancelhas novamente.
— Depois eu que sou o grosso. — reclamei, porque não seria seu se não fizesse isso. — Vinte. Mas você vem buscar. — pois eu não iria gastar a gasolina da minha moto para encontrá-lo, até porque poderia ser uma emboscada da sua gangue.
Você não me viu sendo grosso. — rolei meus olhos com o que falou. Estava morrendo de medo da sua grosseria. — E por que não nos encontramos? — sabia. Eu não confiava nele, ainda mais ligando para a minha casa às quatro e meia da manhã. Aquilo tinha cheiro de furada.
— Deve ser uma delícia, todo grossinho. — debochei, rindo nasalado. — Porque eu tô com preguiça de pegar a minha moto e ir te dar o cigarro. — menti. Bem, em todo caso era uma meia mentira. — Você quer? Se esforça para isso. — dei de ombros mesmo que ele não pudesse ver.
Eu sou mesmo uma delícia. — seu ego era inacreditável. Ele pegava todo mundo de Cape May, então se achava o cara mais lindo da cidade, não que realmente não fosse bonito, mas isso não vinha ao caso. — Arrrrgh! Tá! — soltou contrariado, e aquilo me fez rir. — Eu vou buscar. — aquilo me deixou surpreso, porque achei que iria desistir. Ele queria mesmo o cigarro?
— Claro que é. — ironizei e fiz um pequeno bico com aquilo. — Não demora porque eu tô com sono. — avisei, porque agora realmente estava ficando cansado.
Então fui até a lavanderia e peguei uma calça minha, estava suja, mas era melhor do que atender de cueca e sem camisa. A vesti e coloquei uma camisa que tinha usado algumas vezes, não estava fedendo, mas tinha manchado ela de graxa quando estava mexendo na minha moto. Paciência. Fui para a varanda e deixei a porta aberta. A noite estava quente, então iria ficar ali esperando o garoto aparecer.
Sem gracinhas, . — falando daquele jeito, até parecia que éramos amigos.
— Não vou ficar acordado esperando a donzela. — retruquei enrolando de novo meus dedos no fio do telefone.
Eu te faço cafuné para você dormir em recompensa. — certo, aquilo foi estranho de ouvir. Sabia que estava zoando, mas ainda assim eu não deixava as pessoas falarem daquele jeito comigo.
— Sonha que você vai colocar a mão no meu cabelo. É o mais perto que vai chegar nele. — o pior de tudo é que ainda respondi, mesmo sendo um pouco grosso.
Não precisa ser no cabelo... — estreitei meus olhos com aquilo e afastei o telefone do meu rosto, encarando o aparelho vermelho e me perguntando se tinha mesmo ouvido aquilo. Acho que ficar brincando com o cubo mágico fritou meu cérebro.
— Tá de graça mesmo para cima de mim, ? — questionei voltando a colocar o aparelho de volta ao lado do meu rosto. — Pensando melhor, não vou te vender o cigarro. — declarei, porque eu não queria aquele cara vindo na minha casa.
Qual é? Eu tava brincando! — é claro que ele estava brincando, pois nem em sonhos estaria flertando comigo por telefone.
— Olha a minha cara de quem gosta de brigar com gente que nem você. — falei rispidamente, porque não era para ele vir de graça para cima de mim quando não nos conhecíamos além de frequentar os mesmos lugares e ter conhecidos em comum.
Tudo bem, irritadinho. Não brinco mais. — e não era para brincar mesmo. Cara folgado.
— Vai fazer biquinho? — provoquei só de sacanagem também.
Para você? Não. — seu jeito malcriado me fez querer rir.
— Ótimo. — tinha um leve humor na minha voz.
Pensando bem, esquece essa conversa. Esquece o cigarro. — havia alguma coisa em sua voz que me fez unir as sobrancelhas.
— Ih, a donzela ficou nervosa? — perguntei, querendo saber se era aquilo mesmo que eu tinha entendido.
Só com preguiça mesmo. — agora ele estava fazendo descaso? Precisava ter paciência com essa gente mesmo! Quis socar o telefone no gancho e deixar aquela merda para lá.
— Agora você vai vir buscar essa merda porque eu troquei de roupa e tô na porta esperando. — avisei para ver se ele desligava logo o telefone e vinha pegar o cigarro. — Anda logo.
Olha só, ele é todo mandão. Gostei. — do jeito que falou, realmente parecia que tinha gostado. — Trocou de roupa, por quê? Como estava antes?
— Eu pensaria que é pessoal, mas pela sua fama, sei que você quer tudo que respira. — Se ele estava mesmo flertando comigo, o que realmente achava que não era o caso, não era porque tinha visto algo diferente em mim. — Estava pelado. Não interessa como eu estava antes. Anda logo. — fui grosso novamente.
Não se engane pelo que falam de mim. Podem ser só mentiras. — respirei fundo com aquilo e levei meus dedos até minha têmpora direita. — Poderia me atender pelado. Não tem problema. — ele estava começando mesmo a me irritar.
— Estou vendo as mentiras. — respondi, porque o que disse depois claramente não tornava os boatos mentira.
Tudo bem, fica de roupa. Já estou indo. — obviamente que ficaria de roupa.
— Se você me ver pelado não vai querer embora. — debochei, porque não consegui segurar a minha língua naquele momento.
Eu tentaria fazer você me deixar ficar. — aquele garoto era um abusado mesmo!
— O cigarro agora tá trinta. — falei agora na esperança de que fosse desistir, porque nenhum flerte valia tanto.
O que faz ele ser tão valioso para custar isso? — quis saber, e tinha um tom de interesse em sua voz. não iria desistir nunca?
— É meu e eu coloco o preço que eu quiser — contei como se fosse um segredo mesmo que estivesse sendo grosso com ele de novo. — E quanto mais graça você falar, mais caro ele vai ficar. — avisei para ver se ele parava de gracinha.
Não te provei para saber se é tão valioso assim. — abri minha boca, realmente não acreditando no que tinha acabado de ouvir. Eu deveria desligar aquele telefone. — Aumenta mais então. Vai. — estreitei os olhos com aquilo. Ele era muito abusado mesmo!
— Meu ouvido não é pinico para ficar ouvindo gracinha de você. — isso fez rir, e tive que morder minha bochecha por isso.
Não resisti. Gosto de um bravinho. — queria ver se ele iria gostar na hora que eu lhe socasse.
— Você é doido. Tanta gente lambendo o chão para você passar e você vem pedir cigarro para mim. O que você quer, ? — ele podia falar logo o que queria comigo, seria bem mais fácil.
Você não viu nada. Te achei interessante e nunca falei direito contigo. Então por que não? E cigarros formam amizades. — rolei meus olhos com aquilo. Ele estava achando que eu nasci ontem, só podia ser!
— Então tudo o que você não pode ter é interessante. — rebati rapidamente, porque aquilo não fazia sentido.
Eu não posso te ter?
— Pagar 30 dólares em um cigarro para fazer amizade. Dinheiro é capim para você, né? — questionei achando aquilo um absurdo sem tamanho.
Já gastei 60 um dia para ter uma foda medíocre. O que é 30 e ainda conseguir um cigarro que parece ser de ouro? — naquele momento, eu senti que estava sendo comprado. — É sim, e eu uso mesmo em abundância.
— Você sabe que eu não fumo cigarro industrial, né? — falei para ver se ele desistia daquilo de uma vez.
Eu sei... Ainda tá à venda? — o cara não desistia!
— Eu não vou te dar o cigarro pronto, você vai enrolar. — falei, ainda me perguntando porque não tinha desligado na cara dele um minuto atrás.
Então, toma uma cerveja comigo qualquer dia? E eu compro o cigarro. — aquilo me fez olhar novamente para o telefone. não podia estar falando sério. Não mesmo.
— Tá me chamando para sair? É isso que estou entendo? — tive que perguntar, porque aquilo estava começando a ser surreal demais.
Tem algum problema? — se tinha algum problema? Aquilo só podia ser piada!
— Seja lá o que você está pensando ou tentando fazer, não vai rolar. — deixei bem claro para ver se ele desistia daquela ideia doida.
Por que não? — ele ainda tinha a audácia de perguntar aquilo?
— Porque eu não tenho interesse em nada que venha de você! — falei claro e em bom som para ver se ele entendia agora.
Iria aceitar meu dinheiro pelo cigarro. Ele veio de mim. Já é um começo... — esfreguei minha mão no rosto. Não é possível. Não pode ser. Esse garoto estava chapado, era a única explicação.
— Fica com o cigarro. — disse por fim. Ele queria o cigarro? Era para isso que me ligou àquela hora da noite? OK. Ficasse com o cigarro então. — Não preciso do seu dinheiro.
Tudo bem. — falou, e estranhei por ele simplesmente ter concordado quando estava insistindo antes. — Não quis dizer que precisava, só disse que ia aceitar pela venda. Mas enfim, , não vou te importunar de novo então. Passar bem. — percebi na hora que ele havia ficado chateado, ou isso era só um joguinho dele para me fazer voltar atrás e ceder. Era difícil saber alguma coisa quando era vinda de .
— Se quiser, o cigarro tá na varanda em cima da mesa. Pega aqui. — respondi por fim, porque eu realmente não iria discutir com aquele garoto, por mais que tenha me incomodado o fato dele parecer chateado.
Era uma desculpa para falar contigo, . Esquece isso agora. — aquilo só podia ser sacanagem, e das grandes. Ele não podia estar mesmo sentido com o que falei. Ele era , ele não se importava com nada, apenas em quem ele iria conseguir enfiar sua língua, e talvez o pau também.
— Falar o que comigo, ? — perguntei, porque por mais que eu devesse desligar agora, não estava conseguindo, o que era ridículo para mim quando eu não ligava se as pessoas ficavam chateadas com as coisas que eu falava ou não.
Não tem relevância agora. — certo, ele só podia estar fazendo um jogo reverso para que eu caísse na dele.
— Anda logo, . Eu não tenho paciência para joguinhos. — disse grosseiramente respirando fundo.
E quem disse que estou jogando? — rolei meus olhos, aquilo era realmente inacreditável.
— Ah, não estava? Quer saber, não quer falar, problema seu. Eu vou dormir. — agora eu estava totalmente sem paciência e já me levantava dos degraus da escada, puxando o fio do telefone para entrar em casa.
Tudo bem. Nos vemos por aí. — pelo seu tom de voz, ele tinha mesmo ficado chateado, e eu daria o foda-se para isso.
— Beleza. — respondi e segurei o botão embaixo do fone para desligar. — Era só o que me faltava, agora eu ficar preocupado com o que sente. Francamente, , francamente! — reclamei entrando em casa e caminhando em passos pesados até a entrada da cozinha.
Soquei o telefone na base dele na parede bufando e empurrei o fio comprido para o canto para que ninguém tropeçasse nele. Passei a mão em meu rosto, apertando meus olhos com os dedos. não se importava com nada, ele só queria aprontar alguma e agora estava se fazendo de coitado que estava chateado com o que eu havia dito. Não deveria dar trela para isso. Não mesmo.




Continua...



Nota da autora: Sem nota.



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