Última atualização: 17/08/2021

Prólogo

, uma garota alta com aproximadamente 1,70 de altura, cabelos longos e negros que batiam quase na sua cintura, a pele parda e delicada como um fino véu que realçava seus olhos cor de mel e que eram tão hipnotizantes quanto seus lábios carnudos e perfeitamente desenhados. , se encontrava rumo ao aeroporto de Cleveland, com destino à capital da Rainha: Londres.
Antes mesmo de começar a faculdade, passou por volta de um ano longe de casa para estudar música em um dos melhores conservatórios de Cleveland onde teve a oportunidade de entrar assim que terminou o colegial e tornou-se maior de idade. Um ano afastada de sua família, a qual era composta apenas pelo seu pai, que beirava nos seus cinquenta anos, e seu irmão mais velho, pareceu uma eternidade para ela. A garota sentia seu coração inflar de ansiedade a cada momento em que esperava para vê-los novamente.
Faltavam minutos para que seu voo fosse anunciado. Enquanto aguardava, estava entretida ao ler um dos livros que o conservatório havia lhe proporcionado, cujo contava a história e longo progresso de um pianista famoso. desde muito pequena é apaixonada pela música clássica e foi graças a um antigo professor do primário que ela descobriu essa paixão por notas musicais, piano e tudo que fosse relacionado à música clássica; Não que ela seja uma espécie de conservadora da música, mas ela parecia se "divertir" muito mais ouvindo um Beethoven a ter que ouvir um rock ou uma eletrônica barulhenta, por exemplo; O que era totalmente contraditório ao estilo de seu irmão, , o qual formava uma minibanda com os dois melhores amigos dele. Apesar de opostos, um dava total apoio ao outro, mesmo revirando os olhos com os estilos musicais de ambos.
, enquanto lia, tomava um café "barato" do aeroporto, sentada em uma das mesinhas da pequena lanchonete. Ela olhou para seu relógio de pulso e arregalou os olhos ao ver quanto tempo havia passado. O gole que havia dado do café quente desceu com tudo pela sua garganta. Estava tão desligada da realidade, que nem percebeu que faltava menos de cinco minutos para o portão de embarque fechar. Colocou o livro de qualquer forma dentro da bolsa de couro e, apertando-a contra seu corpo por debaixo dos braços e o copo de café firme na mão, correu numa velocidade absurda e tentava desviar de todos que aparecia na frente, pedindo desculpas em quem acabava esbarrando.
Chegando ao portão de embarque, avistou a funcionária pegando a passagem de uma mulher negra que segurava o filho pequeno pela mão. Suspirou aliviada e andou com passos apressados até as duas mulheres, logo entregou sua passagem à mulher que aparentava beirar entre seus 30 anos.
– Tenha uma boa viagem! – desejou à funcionária.
tomou o último gole do café, que já não se encontrava com um bom sabor, e embarcou.
Respirou fundo e suspirou pela milésima vez, sentindo-se exausta por ter corrido tanto. Já em seu devido lugar no avião, encostou sua cabeça na janelinha, vendo a cidade ficar cada vez mais pequena conforme o avião subia. Por uma grande coincidência, sentou-se ao lado da mulher que havia visto minutos atrás com o filho. O menino, de mais ou menos oito anos de idade, estava sentado na poltrona do meio e ele brincava com dois bonecos, simulando, com a voz, sons de socos e chutes, o que fez achar graça e rir.
O voo demoraria horas até chegar em Londres, então a garota apenas colocou os fones de ouvido e deixou com que Gustav Holst preenchesse sua mente com mais um clássico. Ela fechou os olhos e sorriu ao apreciar cada nota tocada.

[...]

Mais de três horas se passaram e enfim pés em Londres. já se encontrava no banco do carona do carro de seu pai e o caminho inteiro ele e , irmão de , a bombardeavam com perguntas sobre como era em Cleveland, como era a academia, o que aprendeu e sobre as pessoas com quem conviveu no tempo que passou por lá. Ela contou sobre tudo… quase tudo.


Capítulo 1

Seis meses antes...

Havia seis meses que havia chegado em Cleveland. Nos primeiros dias na cidade e na academia a garota se sentiu totalmente deslocada, não conhecia ninguém ao redor e nada daquela cidade. Não demorou muito para que fizesse amizades, e apesar dela ser considerada uma adolescente diferente dos outros, ela sabia muito bem se enturmar, ainda mais em um lugar em que pelo menos 90% dos estudantes que estavam com ela compartilhavam do mesmo gosto musical.
estava sentada embaixo de uma árvore e vendo várias pessoas com instrumentos nas mãos, estudando ou simplesmente descontraindo enquanto a aula não começava, e ela era uma dessas. Sonata ao Luar soava em seus ouvidos até que Bia, uma das amigas que havia feito e colega de quarto, sentou ao seu lado e tirou os fones de ouvido da amiga para que desse total atenção a ela. Bia segurava algum tipo de panfleto nas mãos e sorria abertamente.
— Vamos? – Bia perguntou esperançosa.
— Festival de fogos? – pegou o panfleto da amiga para olhar.
— Esse festival não acontece sempre, é bem raro e quando tem... é imperdível! – Bia explicava animada – Parece que muita gente aqui vai e como você é teoricamente nova, é teoricamente obrigada a ir comigo.
olhou irônica para a amiga e não conteve a risada ao ver a cara dela.
— Vou pensar no seu caso – disse, rindo – não vejo motivos suficientes para eu ir.
— Ah, qual é? Você precisa ir, se distrair um pouco. Vai se arrepender se não for... acredite.
continuou a encarar a amiga pensando na possibilidade de ir ou não ao tal festival. Bia tinha razão e sabia disso, talvez seria bom se distrair um pouco e aproveitar o tempo que ainda tinha naquela cidade, então a garota se deu por vencida e cedeu ao convite de Bia, que estava praticamente insistindo.
Bia, sem hesitar, agarrou sentindo-se feliz por ela ter aceitado o convite. Logo depois que Bia se afastou para ir à aula, colocou novamente os fones de ouvido e antes que abrisse o livro de teoria da música, três garotos passaram por ela, mais adiante. Um deles ela reconheceu por fazer a mesma aula de piano com ela, mas havia um que segurava uma guitarra e olhou diretamente para onde ela estava, chegou a olhar para trás... talvez ele estivesse olhando para outra pessoa? Quando ela voltou a olhar para frente, viu que ele ria alto e para confirmar a dúvida de , ele mandou um "tchauzinho" nada discreto a ela o que a fez ficar sem reação. A garota ignorou o suposto guitarrista e abriu o livro em suas mãos revirando os olhos, vez e outra olhando na direção dele que agora estava sentado numa mureta com os amigos.
Aqueles 10% que faltava para compor as pessoas da academia... certamente ele fazia parte desse grupo.
aumentou o volume da música em seu celular ao perceber que quase não conseguia ouvir quando o garoto da guitarra começou a tocar e cantar em alto som. Ela não sabia se ficava nervosa por não conseguir estudar ou por saber que é impossível disputar um "simples" piano com uma guitarra barulhenta, odiava admitir essa posição. Muitas pessoas estavam ao redor dele, sem contar os amigos que já faziam companhia a ele antes do "show", a música que ele tocava... não era estranha para , ela conhecia. No exato momento, sorriu ao lembrar do irmão e das várias vezes em que tentou a convencer a ouvir as músicas dele e ela sempre se recusava.
— Isso é só barulho... – reclamou sozinha ao fechar o livro em suas mãos e levantar para sair daquele meio.

— Quem é aquela? – , o guitarrista, perguntou ao amigo sentado ao seu lado na mureta.
Ele continuava a tocar músicas conhecidas, especificamente alguns rock's, mas permaneceu seu olhar em que guardava seus livros na bolsa com uma expressão não muito agradável em seu rosto. deduziu que, assim como muitos naquele instituto, talvez ela fosse mais uma "obsoleto da música" e isso não era algo que o incomodava, porém ele não conseguia ver sentido algum nesse conceito de que o clássico é música verdadeira e os novos ritmos não passasse de algo "inovador" e sem sentido, isso para muitos que ele conhecia e pensava assim.
, ela é da minha turma de piano. – o amigo, Ben, respondeu, agora, também olhando a garota se afastar da árvore onde estava. – Esquece, cara, você não vai conseguir ficar com ela.
desceu da mureta onde estava sentado e seguiu em direção ao prédio do instituto acompanhado pelos amigos e com a guitarra em suas costas. As pessoas que assistiam a performance dos garotos, algumas foram cada uma para o seu canto e outras continuaram no encalço dos rapazes, conversando entre si ou apenas ouvindo sobre o que falavam.
— Eu não conversei muito com ela, mas pelo pouco que interagimos... – Ben continuou o assunto enquanto apenas ouvia. – Você é o tipo de gente que ela não gosta, digamos assim.
esboçou um breve sorriso no rosto, achando graça.
— Eu não ligo. – disse ao chegar nos corredores da academia. – E isso me pareceu um desafio.

[...]

, após sua aula teórica sobre ritmos e tempos musicais, se encontrava na companhia de Bia em uma das salas disponíveis para os alunos praticarem. As teclas pesadas do piano eram tocadas pela garota fazendo com que sons leves e suaves soassem pela sala com a performance de Gustav Holst, Jupiter; Ela, vez e outra, fechava os olhos a fim de conseguir prestar atenção nas notas tocadas e sentir a música. Cada vez que tocava algo e fechasse os olhos, era como se tentasse visualizar algum sentido para aquelas notas, a ordem a qual elas seguem ou o porquê da composição dela, acreditava que os compositores, Beethoven ou Chopin, por exemplo, não criavam e determinavam um ritmo por simplesmente parecer algo "sentimental" ou "tocante", mas que poderia ter alguma história por trás delas. Uma história ou mensagem que teria o intuito de fazer aquele que ouve, pensar.
Como um autor qualquer, seja de um livro ou poema, nenhuma história é apenas escrita. Pode ser o livro menos valorizado em quesito de "literariedade", mas o autor vai buscar um meio de lhe fazer pensar por meio das palavras dele. Acontece o mesmo com a música clássica... você se emociona ou se arrepia ao ouvir determinadas notas, mas não sabe o porquê, e é exatamente esse ponto que faz se aprofundar cada vez mais em teorias e música.
Bia, enquanto ouvia a amiga tocar, estava sentada num dos bancos da sala mexendo no celular. Apesar de ela não ser tão dedicada como , ela entendia perfeitamente a paixão que a amiga tinha pela música e respeitava seu momento. Ela sentia o mesmo quando tocava seu violino. A garota tirou sua atenção do celular quando ouviu seu nome ser chamado, pensou ser , mas ela continuava a tocar atenciosa, olhou então para a porta da sala e, pela vidraça, viu que Ben fazia sinais para que ela fosse até ele.
Olhou mais uma vez para , a música continuava a soar.
— O que fazem aqui? – perguntou ao fechar a porta atrás de si, olhou para encostado na parede e sorriu.
— Seremos rápidos, só nos responda uma pergunta. – Ben pronunciou. Os amigos se entreolharam e soltou a pergunta.
— Qual é a da pianista?
Bia sem saber como reagir, apenas olhou para trás e viu que a amiga trocava as partituras, talvez nem tenha percebido sua ausência. Apenas achou graça e riu. Voltou sua atenção ao que segurava sua guitarra pelo braço e ao Ben com os braços cruzados.
? Seja lá o que querem com ela, esqueçam.
— Em que acha que estamos pensando? Só queremos conhecê-la – defendeu-se mostrando indignação.
Ela namora.


Capítulo 2

Sim, tem um namorado.
Matthew Stanford, um dos melhores amigos de e melhor amigo de infância de , tornou-se namorado da garota há pouco mais de um ano, quando ela havia acabado de entrar para o segundo ano do ensino médio. Ele é mais velho que ela e , atualmente tem seus quase 21 anos e já está na faculdade. Matt, como é chamado pelos amigos, é totalmente o oposto de : música clássica não faz o seu tipo, é o típico garoto clichê de filmes americanos, a diferença é que ele é inglês e joga Rugby. E isto é o que nos faz questionar como começaram a namorar e por que? Por ele ser um amigo de infância, isto fez com que Matt compreendesse as diferenças entre ele e a garota e ter um carinho maior e mais íntimo, despertando com o passar do tempo o interesse por ela e o mesmo aconteceu com por ele. Difícil acreditar que , a conservadora musical e crítica à tudo, poderia amar alguém tão diferente dela? Talvez sim, porém... o que por fora aparenta ser uma garota completamente difícil e oposto dos outros jovens, por dentro é apenas uma garota como qualquer outra.
Bia soube sobre Matthew por acaso. Passado os seis meses em que estava no instituto, acabou ouvindo sem querer uma suposta discussão entre ela e o namorado... ela chorava, e isto fez com que Bia sentisse que deveria consolá-la e foi aí que contou sobre seu namorado. Ultimamente eles têm discutido a cada ligação que um fazia para o outro, talvez fosse pelo desafio de ter que manter um namoro a distância e talvez fosse por isso que Bia insistia em fazer sair junto dela para distrair sua mente e fazer a colega de quarto sorrir e se divertir. O problema não era , e sim Matthew!
— Então o nome dele é Matthew, uh? – pensou alto após o que Bia contou, coisa que ela não deveria ter feito e sabia que iria se arrepender. Ela conhecia muito bem .
— Parece que perdeu o desafio, . – Ben riu ao ver a expressão no rosto do amigo que olhava pela vidraça, diretamente para que tocava ao piano. Por conta da sala ter abafador de som, ele não conseguia distinguir a música.
— Então parece que temos um desafio ainda maior, não significa que perdi. – sorriu.
e Ben ingressaram juntos ao instituto. Não são colegas de quarto como Bia e , mas são bons amigos e sempre que podiam se reuniam para cantar e tocar juntos. E fazer desafios um com o outro por motivo nenhum. O grande desafio era sempre o mesmo: conquistar uma garota - seja do instituto ou não -, levá-la para sair e, de bônus, dormir com ela. A recompensa caso conseguisse completar o desafio era, óbvio, uma alta quantia de dinheiro. Inúmeras garotas já foram alvos desses dois garotos que não tinham o que fazer, mas não se engane! Nem todas caiam nas tentações de e Ben.
Bia bufou e revirou os olhos não gostando daquele papo, virou-se para voltar para a sala, mas assim que pegou na maçaneta, a porta se abriu e deu de cara com segurando sua bolsa e algumas partituras na mão. franziu o cenho ao ver os garotos que havia visto no pátio do instituto horas atrás.
— Terminou de praticar? – Bia perguntou sem saber como reagir.
— Sim, logo vai anoitecer e se você quer que eu vá nesse festival, vou precisar de tempo para achar uma roupa. – respondeu sem dar atenção aos dois garotos. Ben não sabia o que falar e ... bom, ele apenas sorria ao colocar a guitarra nas costas.
— Tudo bem, vai na frente. Eu vou pegar minha bolsa e encontro você depois. – a amiga sugeriu e concordou com a cabeça.
Ela olhou brevemente para e mandou um sorriso simpático para Ben, já que ela o conhecia, e então foi andando pelos corredores deixando os três para trás.
— Vocês vão ao festival de fogos? – perguntou.
— Sim – Bia foi até o canto da sala de piano e voltou com sua bolsa no ombro – E digo mais uma vez para que não esqueçam: Ela namora! Nem pensem em tentar alguma coisa!
Bia trancou a sala e seguiu o mesmo caminho que para encontrá-la.
Ben e foram para o caminho contrário ao delas e logo o guitarrista pronunciou-se:
— Quem ela pensa que nós somos?
— Vamos neste festival? – Ben o ignorou com outra pergunta, virando a cabeça para olhar uma garota que passou por eles com um violão nas costas.
— Com certeza, meu amigo!

[...]

A noite fria que cai sobre Cleveland faz com que o corpo de se arrepie no instante em que o vento a atinge. Ela aperta o sobretudo marrom sobre si a fim de que o frio que sentia diminuísse e então pede à Bia, que estava ao seu lado assoprando e esfregando as mãos, para que fossem numa barraca que vendesse algo quente a elas e assim fizeram. Aquele lugar onde ocorria o tal festival de fogos que Bia fez tanta propaganda estava mais cheio do que pudesse imaginar. As barracas eram bem iluminadas e não havia uma que não estivesse aglomerada e com filas. Enquanto as duas esperavam sua vez na fila para comprar alguma bebida quente, olhava para todos os detalhes que decorava aquele lugar; Era como uma noite de natal... só que em época errada. Era tudo tão colorido e iluminado que ela podia se sentir como criança novamente, estava maravilhada. Havia muitas pessoas do instituto por ali e mais uma vez sorriu. Não perdeu a oportunidade de pegar o celular em seu bolso e tirar foto do lugar para mostrar ao pai e ao irmão onde estava.
— Dois Café Irlandês. – Bia pediu quando chegou a vez delas. O dono da barraca assentiu e começou a preparar a bebida com agilidade. Em questão de cinco minutos já estava pronto. – Beba e não diga nada. – A garota entregou o copo quente para que olhou desconfiada.
— O que tem aqui dentro, Bia?
Bia não disse nada, apenas deu um gole da bebida dela e esperou com que fizesse o mesmo e quando o fez, não sabia distinguir e dizer se o sabor era bom ou forte demais.
— Café, creme e um toque de uísque para esquentar a noite. – Por fim Bia respondeu o que havia na bebida e riu ao dar mais um gole. Realmente estava esquentando, mas era uma boa bebida.
As duas tornaram a andar pelo festival e vez e outra uma comentavam sobre alguma coisa daquele lugar ou sobre as pessoas, até que Bia ouviu som de violão e teve a ideia de chamar para ver o que era. Geralmente nestes festivais sempre tem alguma atração, imaginaram que talvez fosse uma. Se aproximaram da aglomeração e então as meninas viram que não era uma atração própria do festival, era apenas com seus amigos tocando algumas músicas, elas se entreolharam e continuaram por ali mesmo, ouvindo o que tocavam. Bia até relutou em continuar ali com na presença dos garotos, mas continuou parada com a aglomeração ouvindo-os tocarem e cantarem animadamente.
reconheceu o garoto que segurava o violão. Ele está me seguindo? Pensou, mas logo deixou esse pensamento para trás. Ele nem se quer havia percebido sua presença ali. A pianista não conhecia a música a qual estava sendo tocada e se sentiu estranha ao ser a única pessoa ali que não estava curtindo, cantando ou ao menos balançando a cabeça no ritmo animado da música.
tocava animadamente I Wanna Hold Your Hand dos Beatles até que sentiu seu ombro ser cutucado. Era Ben. O amigo apontou para as pessoas que o assistiam tocar e cantar e percebeu a quem Ben se referia: era acompanhada por Bia. A duas conversavam entre si enquanto tomavam algo que não sabia o que era, mas achava que poderia ser algo quente por ver a fumaça sair do copo que seguravam.
— O que vai fazer agora? – Ben perguntou sem tirar os olhos das garotas que ele admitia estarem muito bonitas para ele, achava o mesmo.
Bia, assim como , usava um sobretudo preto que cobria um belo vestido coral por baixo, deixando exposta suas finas pernas revestidas por uma meia-calça também preta e nos pés um simples coturno. , ao invés de optar por um vestido como Bia, achou que seria melhor usar apenas uma camisa branca e uma calça com uma "cor nude" por baixo do seu sobretudo marrom. Visual simples, mas que realçava o ar calmo de e mesmo assim ela conseguia atrair olhares. As duas conversavam entre si enquanto a música não começava, e foi aí que lembrou-se do pouco que Bia havia contado a ele e então teve sua brilhante ideia.
— Vou improvisar.
Ben saiu de perto e foi para junto do público para assistir o que viria a seguir.
— Essa música eu acabei de criá-la, espero que gostem. – disse em alto som às pessoas e elas aplaudiram, inclusive e Bia que olhavam atentas para o rapaz com o violão apoiado no colo.
Ele começou a tocar acordes aleatórios no violão e olhou diretamente para , que não percebera este ato, até que ele começou a cantar:

Saí com meus amigos, e diante dos meus olhos
Estava esta garota, ela era tão linda e ela me surpreendeu
E eu desejei que ela fosse minha,
E eu disse "ei, esperem porque eu vou falar com ela."

E meus amigos disseram
"você nunca vai pegar aquela garota, nunca vai pegar aquela garota"
Eu não ligo
E ela olhou para mim
E o resto é história.

Ben começou a rir. Bia arregalou os olhos e desejou pular em cima de . apenas olhava para o garoto sem entender muita coisa, mas prestando atenção na letra. Por que está me encarando? Ele está me encarando? Pensou.
Bia, incomodada com a música e o olhar maroto do garoto sobre , dirigiu-se à garota ao seu lado. Ela só pensava em como era idiota a ponto disto. não seria uma das suas brincadeirinhas, pensou consigo mesma.
— Por que parece que ele está cantando para mim? – perguntou antes que Bia abrisse a boca. Segurou o braço da amiga sem tirar os olhos do rapaz que continuava a cantar.
— Não sei... impressão talvez? – Disse o que queria que fosse, apenas uma impressão. – Quer ir para outro lugar? – Ofereceu.
disse que sim e as duas saíram daquele meio. A garota não conhecia , sabia apenas seu nome e o via de vez em quando com Ben ou aos redores do instituto com seu violão ou guitarra nas costas. Não sabia o motivo, mas por um breve momento se sentiu incomodada com a forma como ele a olhava e cantava aquela música. Quem era a garota que ele desejava? Em seguida, Matt veio à sua mente. Ela sabia que manter uma relação a distância não seria nada fácil, ela confiava no namorado, mas ele não confiava nela, tornando o que já era difícil cada vez mais complicado para ela, ou melhor, para os dois. Já passou milhares de vezes pela cabeça dela a opção de terminar com o rapaz, ela não suportava o cargo de ter que aguentar e "superar" as brigas e discussões com ele por motivos de ciúmes, mas como um coração cego e mudo, ela acreditava gostar de verdade dele e tinha esperanças de tudo voltar ao normal assim que voltasse a Londres. Só mais alguns meses! Era o que ela repetia a si mesma sempre que Matthew vinha a sua cabeça.
sacudiu a cabeça a fim de dispersar o desconforto que estava começando a sentir e virou-se para Bia, que falava sobre como estava frio naquela noite.
— Podemos sentar um pouco? Não aguento mais ficar em pé e no meio de toda essa gente. – pediu enquanto jogava o copo que estava em suas mãos em um lixo próximo.
— Claro, tem um bar aqui perto. Podemos ficar por lá enquanto os fogos não começam, lá não passamos frio.
seguiu os passos de Bia a caminho desse tal bar. O festival estava tão cheio, mas tão cheio que foi um desafio enorme conseguir andar ou dar um único passo sem esbarrar em alguém. Chegando ao bar, Bia olhou relutante para a amiga, assim como todo o evento, aquele lugar também estava aglomerado e bem movimentado, só queria descansar um pouco e sem dar resposta alguma à amiga, a puxou pela mão e entrou no meio daquela multidão.
Ben deu um tapa tão forte na cabeça de que o guitarrista deixou o líquido que bebia cair um pouco no violão pousado em seu colo. Os olhos do garoto são fixados no pobre instrumento molhado, quando sua fixa cai do ocorrido, vira-se extremamente nervoso e confuso para Ben. Quer deixar totalmente fora de si? Mexa nas coisas dele, especialmente nos amados instrumentos do rapaz.
– Que merda é essa? – Antes que ele pudesse xingar o amigo e revidar o tapa, o guitarrista finalmente percebe as duas meninas logo na entrada do Bar. Ben é salvo pelo gongo. — Só não quebro esse violão na sua cabeça porque ele é muito especial para isso! – diz enquanto seca o violão e então procura as madeixas cor de fogo de Bia.
O bar tem um estilo rústico e antigo, várias garrafas de uísque, vinho e outras bebidas alcoólicas são postas sobre um balcão como forma decorativa. Nas paredes, quadros de pinturas e jurou ter visto uma cabeça de algum animal próximo à entrada. As duas amigas por sorte encontraram dois lugares vagos ao lado do balcão com as bebidas e perto do banheiro. Havia tantas pessoas juntas num lugar só que tirou o sobretudo do corpo sentido o calor começar a surgir.
— Vou ao banheiro, está bem? – Bia precisou gritar para que a amiga ouvisse. assentiu e logo ficou sozinha, mas não por muito tempo.
, entre sorrisos e sussurros com Ben, encaminhou-se até a pianista. Quando parou atrás da garota, sem que ela visse, ele piscou de um olhou para o amigo e este caminhou em direção aos banheiros. com o violão nas costas, senta-se no banco onde Bia estava, surpreendendo .
— Procura alguma coisa? – perguntou tentando parecer rude.
A garota desde que entrara para o instituto, não gostou de . Nunca se falaram diretamente, evitava sempre que podia algum contato com o guitarrista. Ele a irritava. Ela não conseguia estudar em paz sem que ele e os amigos começassem a tocar e cantar em alto som, o que a incomodava, mas atraia os olhares de outros. lembra muito o estilo de , a forma de falar, cantar, se vestir... se ela não conhecesse , diria que ele e o guitarrista seriam irmãos de tanta semelhança.
— Apenas um lugar para sentar – tira o violão das costas e o apoia sobre o balcão. – Mas se quiser, posso sair. Não quero incomodar ninguém.
Ele e seu maldito sorriso galanteador.
— Então saia, por favor.
Não era uma resposta que esperava, o que o faz ficar sem reação precisa. Com uma risada descontraída e sem jeito, ignora o que a garota disse tornando a desenvolver algum tipo de conversa com ela. Ele não liga!
— Então – Ele pigarreia e se ajeita no banco. – Soube que você faz aula com o Ben, piano, certo?
nada responde, tenta ignorá-lo de todas as formas possíveis. Bia desceu pela privada?! Onde ela se meteu? , com muita paciência, tenta mais uma vez algum diálogo com a garota e torce para que desta vez funcione.
— Por que piano? – O guitarrista pergunta e enfim olha para o garoto. Sabia que se perguntasse sobre algo que ela gostasse, surtiria efeito. Tão previsível.
— O piano é um dos instrumentos mais bonitos que eu conheço. – percebe o brilho nos olhos da garota e sorri. – O som, a história, o arrepio quando uma nota é tocada, tudo. Quando toco... é como se tudo ao meu redor parasse, é um meio para eu colocar tudo o que sinto em cada tecla tocada e... – ao perceber e lembrar com quem estava falando, e ver que este sorria furtivamente, retomou sua posição. – Esquece, você não deve entender nada do que falei.
— Como assim? – sentiu-se verdadeiramente ofendido com o comentário da garota. – Eu sinto a mesma coisa quando toco meu violão ou guitarra... sabe, música não se define apenas à Beethoven ou qualquer outro compositor famoso.
— Eu não vejo sentido em rock, pop ou qualquer outro som popular. – rebate virando seu corpo para ficar de frente ao guitarrista. – é só barulho e mal entendo o que falam.
poderia muito bem-estar ofendido com as palavras que usava, pois assim como ela, o garoto é apaixonado pela música e pelo o que faz, mas ele apenas se diverte com o debate que acaba de surgir. O guitarrista fica na mesma posição que a garota, ficando de frente a ela.
— Pode emprestar seu celular, por favor? – pede mudando o rumo da discussão.
— Para quê?
— Não vou roubá-lo, quero provar que você está errada.
, relutante, tira seu celular do bolso do sobretudo e entrega ao garoto que o pega sorrindo.

— Ben, quer sair da minha frente? – Bia empurra o garoto alto e magro parado a sua frente e impedindo sua passagem.
— Desculpe, mas tenho que mantê-la aqui.
Assim que Bia deixou sozinha para ir ao banheiro, antes que pudesse voltar, encontrou com Ben parado em frente a porta do banheiro bloqueando sua passagem, como um segurança só que alto e sem estrutura de segurança, mas forte o bastante para não deixar com que a ruiva passasse. Ela sabia que tinha na história.
— Eu juro que se vocês fizerem alguma coisa à , vou furar os olhos dos dois. – Bia exclama irada tentando em vão empurrar o garoto.
— Você não tem altura para isso. – Ben ri.
Bia comparada aos dois rapazes, era extremamente pequena. Mal batia no peito deles. A garota sentindo-se mais irritada ainda, usa toda a sua força para pisar com seu coturno em um dos pés de Ben. A pisada foi tão forte que ela pode sentir a dor nela mesma enquanto Ben xingava e se contraía. Mais um pouco e ela chutava outros lugares.
Ao se libertar de Ben, Bia seguiu em direção ao hall do bar a fim de encontrar , mas antes que fosse até a amiga, a garota estacou no lugar surpresa por ver o que não queria e o que não esperava.
— Olha aqui, não precisava de toda aquela força – Ben aparece atrás da ruiva mancando. – Ei, o que foi?
Ben segue o olhar fixo de Bia e por um momento também se surpreende, mas logo um sorriso surge em seu rosto. saindo acompanhada por para fora do Bar.


Capítulo 3

As aglomerações, risadas e conversas naquele bar aumentavam cada vez mais e parecia contagiar quem estivesse na rua, atraindo mais pessoas para dentro. estava começando a se sentir sufocada e se perguntava onde era que Bia havia se metido. estava entretido com o celular da garota nas mãos e se pegou rindo de forma debochada.
— O que está fazendo? – pergunta enquanto observa com o seu celular e o dele lado a lado.
— Imaginei que só teria música clássica aqui.
Ele devolve o celular a ela com um sorriso maroto no rosto. ao pegá-lo de volta franze o cenho no momento em que desliza o dedo pela tela aberta em sua lista de músicas. Seus olhos se arregalaram levemente ao ver nomes de artistas que nunca ouviu falar entre seus clássicos. Alguns ela admitia reconhecer pelo nome, como a banda Queen, que e seu pai sempre escutavam. Mas quem diabos era Bruce Springsteen? Antes que ela pudesse reclamar e brigar com o guitarrista, ele se explica sugestivo.
— Quero mostrar que está errada quanto ao que pensa. Ouça todas estas músicas e preste atenção nas palavras e verá que não se trata apenas de "barulho".
— Não adianta. Em casa ouço esse tipo de música todos os dias e continuo achando algo sem sentido. – bloqueia o celular lembrando-se de todas as vezes que tentou convencê-la a ouvir suas músicas.
— Por que acha isso? – perguntou curioso e achando graça. Ela é quem não fazia sentido algum, pensou.
— Bom... música é para ser sentida de alguma forma, não é? – concordou sem falar nada – Como posso sentir algo que mal posso entender?
O guitarrista desata a rir com a voz de indignação que usou para contrariá-lo. Ele nada diz quanto aos argumentos da garota. Sabia que tipo de pessoa ela se tratava, conhecia tanto sobre o assunto, mas tão pouco ao mesmo tempo.
— Apenas ouça, tudo bem?
o vê levantar-se e colocar o violão nas costas incerta sobre o que acabou de acontecer e confusa por ele ter que ir embora no meio de uma discussão. Espere, não era isto o que ela queria? Que ele fosse embora? O guitarrista então vira-se para .
— Os fogos estão para começar, você vem?
olha para os corredores que levam aos banheiros na esperança de encontrar Bia. Nenhum sinal. Nem mesmo alguma mensagem. Por que estava demorando tanto para voltar? também olhou em direção aos banheiros, porém, por ele estar de pé, ele conseguia uma breve visão de onde estava Ben e pôde vê-lo parado em frente ao banheiro feminino. Bia estava bem, pensou ele tentando não rir.
— Ben mandou mensagem avisando que havia encontrado Bia, está tudo bem. – Ele mentiu pegando as coisas da ruiva em cima do balcão.
— A encontrou no banheiro? – questionou desconfiada.
— Talvez tenham se encontrado enquanto ela estava saindo. – Ele tentou convencê-la parecendo sério. – Duas opções: ou você fica aqui e espera sua amiga voltar e perde os fogos ou você me acompanha e não perde nada. O que prefere?
não queria perder os fogos de artifício e nem mesmo ficar sozinha num bar que parecia ficar cada vez mais cheio. Relutante, a pianista veste seu sobretudo marrom e levanta-se parando ao lado do garoto que sorriu satisfeito. condenou-se por dentro quando se vê saindo do bar lotado ao lado do garoto que ela nem mesmo conhecia e suportava. E condena Bia por tê-la deixado sozinha.
e caminham em silêncio à procura de algum lugar bom para ficarem quando soltarem os fogos. passa as mãos nos cabelos bagunçados pelo vento e olha de soslaio para o guitarrista ao seu lado, ele caminha com um sorriso no rosto que ela não sabe decifrar, mas acha graça ao reparar. Parece uma criança, ela pensa.
— Se me olhar mais um pouco vou achar que quer algo de mim e não tenho nada a oferecer. – Ele diz de repente assustando-a.
— Desculpe, só estava reparando que você lembra a uma criança. – Ela se explica sentido o rosto ruborizar.
— Vou considerar como um elogio. – para de andar, ficando ele e debaixo de uma árvore quase sem folhas e ao lado de alguns artistas de rua – Aqui está bom.
— Não é um elogio – o contradiz – Diria que é apenas uma informação.
parece visivelmente chateado por mais uma vez não esperar a resposta que queria – Informação boa, então?
— Indiferente. – Quando o vê bufar, ela ri.
repara que desde o momento em que estão juntos nesta noite, é a primeira vez que ela sorri, não, que ela ri perto dele. Ele sorri e finalmente se dá por satisfeito e por um milésimo de segundo, esquece do real motivo por estar com ela... não que tenha um exato motivo, mas em normais circunstâncias, não conversaria com ela e nem se quer se aproximaria. Ela não fazia o seu tipo. Oras, ele afirma isto com toda a certeza do mundo depois da discussão que os dois tiveram no bar e ouvir todas as contradições da garota... mas algo nela o chamava a atenção: a mesma paixão pela música que ele sentia ao tocar seu instrumento. Seja piano, seja guitarra... a paixão era de mesma intensidade. E não percebeu a semelhança só depois que a própria disse. Quando ela está na sala de prática, o guitarrista percebe o quão atenciosa e apaixonadamente se envolve a cada nota tocada; Sim, já a vira tocar milhares de vezes em uma sala que contém um piano de cauda, sempre que passa por essa sala para ir a sua aula de canto e violão, ele a vê pela vidraça tocando e tocando sem parar. Ele admite admirar tamanha dedicação.
BUM! Fogos explodem no céu nebuloso tirando dos devaneios, este olha para cima a tempo de ver pequenas faíscas e toques coloridos caindo lentamente até que desapareçam e novos surjam com outra explosão. Assim como todos naquele lugar, fica empolgada ao ver as diversas cores que começavam a aparecer acima dela, ela não demonstra, mas é nítida a emoção que sente. A pianista está emocionalmente igual a uma criança que estava perto dela e do guitarrista, a menininha parecia ter seus 7 anos e solta risadas animadas, pulando com as mãos erguidas na tentativa vã de capturar algum ponto colorido que caia do céu. Os dois riram ao presenciarem a cena.
Por um momento esquece a repulsa que sente pelo garoto ao seu lado, ela nunca o reparou fisicamente. Ele não é o dos mais bonitos que ela já vira, mas era atraente o suficiente para soltar suspiros de outras garotas. era alto e magro, não tinha muitos músculos a serem exibidos como Matthew, namorado de , geralmente gostava de fazer, ato muito ignorante na opinião dela. Os olhos do guitarrista eram tão azuis que ela se pergunta como nunca tinha reparado neles antes, pareciam águas cristalinas vistas de perto, sem contar o maldito sorriso do rapaz. Geralmente ele usa o sorriso falso para conquistar quem ele quisesse, ato nele que ela achava repugnante... mas aquele que ele estava mostrando ao assistir as explosões no céu era diferente, verdadeiro, um sorriso aberto e contagiante. Ele realmente parecia uma criança, mas aquele violão em suas costas o deixava com um ar mais sério e descolado... ela gostava. O quê? Em que estou pensando?
não sabe quanto tempo o encarou, mas foi tempo o suficiente para ele perceber e olhar diretamente para ela.
— Vamos fazer um trato – ignora o fato de ter sido examinado descaradamente. suspira incomodada.
— Que trato?
— Você ouve minhas músicas, as que estão no seu celular agora, e eu ouço as suas – Ele sugere. não responde. – Assim teremos o que discutir, certo? De qualquer forma eu também não entendo muito música clássica.
franziu o cenho desconcertada e suspeita.
– Por que isso de repente? – Perguntou, curiosa.
– Eu não concordo com a forma como pensa. – , sem olhar diretamente para a garota, respondeu sem medir as palavras. ficou surpresa e perdeu todos os argumentos que surgiam em sua mente.
– Você não me conhece. Como pode ter uma opinião sobre o que penso ou deixo de pensar? – Ela retrucou sem saber exatamente como agir.
tirou sua atenção dos fogos que continuavam a explodir no céu escuro e olhou para . Ele tentou se manter sério, mas estava achando aquilo divertido.
– Você acha que sabe sobre tudo, mas não sabe. – Ele disse sincero. sentiu sua respiração começar a aumentar gradativamente com a forma rude que ele, de repente, começou a falar sobre ela. O que era aquilo? – Abrir sua mente para novas coisas pode ser bom para você, mas se não quiser tudo bem. Vou considerar que você tem medo de admitir que está errada.
aproximou brevemente seu rosto ao ouvido de para sussurrar a última parte com o bendito sorriso maroto e desafiador. Ela sabia que ele estava apenas testando a garota.
— Certo! Eu ouço suas músicas. – Ela diz se dando por vencida ao virar o rosto para o lado. não conseguiu segurar o sorriso antes de voltar a olhar para o céu.
Ele não vê, mas também sorri furtivamente e então o imita olhando para cima. Mais fogos coloridos caem sobre o céu. Pontos rosas e azuis se misturam no céu nublado como estrelas. O som de cada estouro cobriu de pensamentos que a levou de volta para a sua casa em Londres. Uma coisa não queria admitir para si mesma, mas, por algum motivo, ela estava achando aquilo tudo muito engraçado. Era como discutir com seu irmão sobre música e, por mais que não desse uma chance às sugestões do irmão, ela gostava de o ouvir tocando e cantando com os amigos na garagem de casa. As vezes ele usava o piano da irmã para compor, parecia tão atencioso quanto ela.
– Quer comer ou beber alguma coisa? – perguntou sentindo o tédio começar, mas não obteve resposta. Olhou para pronto para repetir a pergunta, mas não o fez.
Observou como ela sorria abertamente. Sentiu-se contagiado pelo seu sorriso e não se importou em ficar mais um pouco ali, parado, olhando mais e mais fogos surgirem.
Algum celular vibra.
despertou dos seus devaneios e tirou seu celular do bolso. Seu sorriso foi diminuindo aos poucos, mas as batidas no coração e a ansiedade aumentar. Três chamadas perdidas de Matthew Stanford.
Bia caminhava ao lado de Ben sem falar absolutamente nada. Os fogos já haviam começado e estavam quase chegando ao fim, junto com todo o resto do festival. Algumas barracas já se preparavam para desarmar, decorações eram recolhidas aos poucos, mas ainda assim, havia muitas pessoas ao redor contagiadas pela animação do festival e pingos de luzes que caiam sobre o céu. Bia queria aproveitar essa noite com a colega de quarto, , e fazê-la se divertir de verdade como não a vira fazer desde que a conheceu no Instituto. Tudo o que fazia era estudar, tocar piano, discutir com o namorado e dormir, para no dia seguinte repetir a programação tudo de novo. Estava preocupada, desanimada e frustrada ao ter que passar a sua noite ao lado de Ben, que não parava de falar um minuto. Soltou um suspiro, sentindo-se cansada.
– O que você tem? – Ben perguntou curioso, parando de andar.
– Só estou cansada e com frio. – Respondeu ríspida. Ben revirou os olhos e deixou escapar uma breve risada.
– Por que você está tão obcecada por ela? – Ben questionou, referindo-se à . – Relaxa e deixe-a fazer novas amizades. não é tão ruim assim.
Bia franziu suas sobrancelhas sentindo um misto de confusão e ira em sua cabeça. Virou seu rosto e olhou diretamente para Ben, que esfregava as mãos uma na outra para aquecê-las. Aquela noite estava realmente fria.
– Eu não estou obcecada! Acha que não lembro do que tentaram fazer comigo assim que o semestre no Instituto começou? – Bia perguntou, soltando uma risada forçada. Ben, por sua vez, engoliu a seco. – Qual é! Eu não vou deixar que tirem proveito dela também.
– Não fizemos nada com você. – Ben defendeu-se, tentando falar baixo para não chamar atenção de quem estava por perto.
– Por que eu fui esperta. Conheço muito bem o tipo de vocês, e , pode ter certeza, é o pior.

– Não vai atender? – perguntou sem desviar os olhos dos últimos pontos coloridos que continuavam a cair do céu.
o olhou brevemente e, como se algo a tivesse despertado dentro dela, condenou-se mais uma vez por ter esquecido do namorado enquanto dividia um momento tão animado com quem ela, na verdade, não queria. Mas ela se divertiu, admitia a si mesma. O celular em suas mãos continuava a vibrar com o nome de Matt na tela.
desvia seu olhar para a garota no momento em que ela se afasta com o celular em seus ouvidos, ele sabia quem era, ele vira o nome do "tal jogador de Rugby" no visor. Por algum motivo que ele não compreendia, sentiu-se estranho... talvez por, agora, estar sozinho? Mas logo um sorriso é o que aparece em seu rosto ao lembrar-se do desafio que teria de enfrentar e iria cumprir.
– Liguei várias vezes. Está ocupada? – Matthew pergunta.
O garoto está deitado em sua cama jogando uma bola de rugby branca para o alto enquanto falava ao telefone no viva voz. Seu quarto é de um típico adolescente, apesar da idade que tem, cheio de troféus de jogos passados - tanto da faculdade quanto da época do colégio - uma camisa do time antigo de rugby, de quando ainda estava no ensino médio, é pendurada sobre a porta do quarto e um quadro, com uma foto dele abraçando pelos ombros, é posto sobre a pequena cômoda ao lado da cama. Quando a voz da pianista sai pelo aparelho em cima do travesseiro branco em que Matthew está deitado, ele hesita ao jogar a bola para cima novamente e em seguida pegá-la.
– Desculpe, eu não ouvi meu celular tocar – recosta sobre a árvore à alguns passos longe de . – Bia trouxe-me à um festival de fogos e está bem cheio aqui.
sente-se animada novamente e sorri. Ela queria que Matt estivesse junto dela no momento, então ela suspira ansiosa e levemente com o pensamento.
– Queria que estivesse aqui – Ela precisa falar alto para que ele a ouça, mas Matt percebeu o saudoso que a namorada usara. Ele para de jogar a bola e sorri virando a cabeça para o celular ao seu lado.
ouviu o que dissera apesar do barulho em volta e da distância entre os dois, ele a olhou oscilante e bufou revirando os olhos em seguida.
, me desculpe pelas brigas. – Matthew senta-se pegando o celular e colocando-o em seu ouvido após tirar do viva voz – Eu só não suporto a ideia de você ter ido para o outro lado do mundo logo depois de começarmos a namorar, entende?
demora-se alguns segundos para respondê-lo – Não é do outro lado do mundo, são só algumas horas. – A garota sorriu e olhou para os pés cobertos pelo coturno preto.
– Longe de qualquer forma. – Ele sorri.
– Eu também sinto saudades, Matt. – diz – Só mais alguns meses e logo estaremos juntos de novo.
cansado de esperar e ficar sozinho, sem importar-se com o que pensaria, vai ao lado dela que, ao perceber sua presença, olha relutante para ele, sentindo-se desconfortável. Ele não liga.
– Precisamos encontrar aqueles dois. – O guitarrista avisa, referindo-se à Bia e Ben, a voz alta o bastante para Matt perceber e ouvir, mesmo que pouco, do outro lado da linha. O suficiente para sentir-se incomodado.
Matthew franze o cenho e põe-se a ficar de pé, começando a andar pelo quarto – Tem mais alguém com você ou Bia decidiu engrossar a voz?
olha incerta para o garoto a sua frente. – É um amigo, nada demais... – sorri cruzando os braços, enquanto do outro lado Matt é tomado pelo ciúme. – Matt? – o chama após um tempo sem ouvir nada do outro lado da linha.
– Não disse que estava com Bia? – Matt questiona visivelmente irritado e com fogo nos olhos.
– E estou! – olha novamente para , que agora estava com as mãos nos bolsos da calça apenas assistindo-a, e então abaixa o olhar para seus pés – ... estava. Mas não é o que está pensando!
Matthew com seu fraco temperamento e sentindo seu sangue arder, desliga a chamada antes mesmo da garota terminar sua frase. Em quê ele estava pensando? Ele joga o celular com força sobre a cama, por pouco não foi parar no chão. Matthew deixa o quarto tomado pelo ciúme e ira, fazendo com que a porta dê um forte estrondo ao ser fechada.
tira o celular do ouvido lentamente com o olhar perdido e coração apertado. Brigaram mais uma vez? Ela sabia da índole de Matt e o conhecia o suficiente para saber que iria demorar um bom tempo até ele decidir tomar consciência e voltar a falar com ela, sendo que agora ele tinha encontrado uma forma de acusá-la e desconfiar ainda mais da garota. não sabia se todo esse drama a irritava ou a entristecia... talvez fosse os dois. Era cansativo.
– Acho que esse foi um recorde. Não conversamos nem 5 minutos. – murmurou cabisbaixa.
tira as mãos do bolso ao perceber o olhar perdido da garota, sentia-se deslocado e preocupado.
– Ei, tudo bem?
Ele pousou uma de suas mãos no ombro da garota. assusta-se ao sentir o toque do garoto, ela pigarreia e dá um passo para trás a fim de se afastar do guitarrista que torna a colocar sua mão no bolso, mas logo em seguida tirou para fora novamente sem saber como reagir. dá meia volta e segue o mesmo caminho pelo qual ela e passaram depois que saíram do Bar.
– Vamos encontrar a Bia, quero ir embora. – a segue com uns passos atrás.
– Se quiser posso levá-la ao instituto. – Ele oferece. para de andar e então vira-se para ele com os olhos sem nenhum brilho. – Tem muita gente aqui e acredito que vai demorar muito até encontrá-los.
Ele diz apontando para as pessoas ao redor. Os fogos já haviam parado de explodir. estava realmente preocupado com a garota, mas a sensação que sentia misturava-se com repulsa. Ele não conhecia o tal "Matthew Stanford, jogador de Rugby e namorado de ", mas seja lá o que aconteceu durante a conversa no telefone... o guitarrista sabia que estava abalada e prestes a chorar, pelo menos era o que ela aparentava e condizia com o que Bia havia contado a ele naquele dia. queria ajudar, mas também queria aproveitar. Ele sabia que era errado se aproveitar daquele momento tão delicado, o qual a garota estava passando, mas aquela era a chance perfeita para conseguir, de alguma maneira, aproximar-se dela.
pensava se realmente devia aceitar a companhia ou não do garoto até o Instituto. Ele foi o motivo para mais uma das discussões dela com Matt e ter feito ele desligar na cara dela. Apesar de reconhecer que não tinha culpa nenhuma sobre a crise de ciúmes do namorado, não queria alimentar o sentimento de culpa que ela sentia e dar razão para a desconfiança sem sentido de Matthew.
– Vamos, juro que não farei e nem falarei nada o caminho inteiro. – insistiu com um sorriso maroto no rosto.
A pianista só queria deitar em sua cama e ficar sozinha. Esperar Bia aparecer não era a melhor opção. revirou os olhos e deu-se por vencida passando por .
– Vamos logo. – Ela diz fazendo com que o guitarrista sorrisse e parasse ao seu lado para mais uma caminhada. Ajeitou o violão nas costas, colocou as mãos nos bolsos da calça e começaram a andar em direção ao Instituto de Música.
O frio naquela noite parecia querer aumentar cada vez que ficava mais tarde. Já afastados da aglomeração do festival, que já havia chegado ao fim quando saíram, começou a pensar nos primeiros meses de namoro com Matt. Tudo parecia tão feliz, romântico e calmo entre os dois. Lembrou-se da primeira vez que se beijaram. Foi ele quem deu a iniciativa, claro, quando ele havia acabado de se formar no ensino médio. Ela estava em casa, no seu quarto, pesquisando por conservatórios de músicas, e conseguia ouvir os garotos, Matt e , conversarem alto e rirem de algo que ela não sabia o que era. Naquele dia, faria uma reunião com seus outros amigos da banda para ensaiarem, e Matt não poderia e nem queria participar. lembrou de como sentiu sua respiração falhar e coração bater rápido apenas ao ver Matt pedir para entrar em seu quarto, eram melhores amigos, não tinha problemas. Ela achava que não. Matt a fazia rir com muita facilidade e, sentado ao seu lado na cama, os dois sentiram algo diferente. Ele não era mais um garoto, era quase um homem feito. Ela não era mais a garotinha que corria para todos os cantos e tocava piano com . Lembrou do momento em que ele passou a mão delicadamente por seu rosto e aproximou-se para beijá-la, sentindo-se surpreso, ela retribuiu o beijo com a mesma delicadeza e carinho. Pouco tempo depois, oficializaram o namoro. Outras primeiras vezes surgiram com o tempo: primeiro encontro como casais; primeiro sexo; primeira briga.
respirou fundo com as lembranças e mordeu o lábio, na tentativa de afastar os pensamentos. Por um momento, até havia esquecido da presença de ao seu lado. Suspirou, nervosa.
caminhava à alguns passos atrás de . Os dois caminham em silêncio, como prometido, sentindo o vento gélido da noite os atingirem. Ele nem se quer conseguia imaginar o que se passava pela cabeça da garota naquele momento. Tudo tão quieto. Quando o enorme instituto entra no campo de visão dos dois músicos, se põe a caminhar ao lado da garota, que continua a andar sem encará-lo. O guitarrista já estava sentindo-se incomodado com tanto silêncio.
– Então... – , hesitante ao falar, chutou uma pedrinha em sua frente – Namorado ciumento?
revira os olhos. – Jurou não falar nada, lembra?
– Certo, claro! Só fiquei curioso – Ele diz e acena com a cabeça para o segurança em frente ao instituto. – Também fiquei preocupado. Você mudou de repente, sabe? Estava toda feliz e sorrindo e de repente, boom, triste e prestes a desabar.
para de andar quando chegam ao prédio com o dormitório feminino e vira-se de frente para , que mantinha as mãos no bolso e um olhar sério sobre ela.
– Sei que não gosta de mim – diz fazendo com que desviasse o olhar – Mas pode conversar comigo quando cansar da Bia.
desata a rir do garoto e este põe o seu sorriso mais verdadeiro em seu rosto, o sorriso que viu enquanto ele assistia aos fogos. A garota ainda estava desconcertada com a situação constrangedora e desconfortável que passou com Matt, bem na frente do guitarrista. Era algo bobo e infantil, ela achava, mas cada vez que havia uma briga entre ela e o namorado, a vontade de chorar era maior. Era algo que estava tornando-se constante desde que viajou para Cleveland. A sua distração da angústia e fraqueza era a música. Todo sentimento que ela agonizava em si, seja problemas com relacionamentos, seja familiar ou o que quer que fosse... liberava tudo enquanto tocava ao piano, sentia-se aliviada e disposta sempre que colocava o peso sobre uma tecla.
não é acostumada a compartilhar seus problemas ou desabafar, uma das raras vezes que precisou contar tudo sobre ela foi quando Bia soube sobre Matthew. Mas ali... naquele momento parada em frente ao dormitório feminino com um guitarrista oferecendo sua atenção, ela sentiu-se, por um pequeno momento, à vontade.
– Obrigada, . – agradece com um sorriso singelo.
– Por quê?
– Por ter assistido aos fogos comigo, me acompanhado até aqui e... por agora. – Ela explica. – Você não é tão idiota quanto pensei.
Os dois desataram a rir. suspira e caminha até a porta de entrada do dormitório, mas, antes que pudesse entrar, a interrompe.
– Seja lá o motivo da discussão com seu namorado... não deixe que te abale. – Ele diz e ela sente o rosto ruborizar. – Boa noite, .
Ele sorri satisfeito e dá meia volta para caminhar até o outro prédio, onde fica o dormitório masculino. observou todo o caminho de antes de ir ao seu quarto. Sentia-se estranha, um misto de emoções rodeava sua cabeça. Quando sumiu do seu campo de visão, fechou a grande porta de vidro atrás de si e caminhou em lentos passos até o seu quarto. Ao chegar, viu que a cama de Bia ainda estava vazia, sinal de que ela poderia estar no festival. não entendia o porquê dela não ter mandado nenhuma mensagem avisando que não voltaria ou, ao menos, informando onde estava. negou com a cabeça e foi até o guarda-roupa, deixando lá seu sobretudo e aproveitando para pegar seu pijama. Antes de fechar a porta, observou a foto revelada presa sobre a madeira, era uma foto de e Bia juntas. Bia adorava tirar fotos, era seu hobby. Logo que as duas se conheceram, Bia, com sua câmera, insistiu para que tirassem uma foto juntas "para lembrarem do dia que tornaram-se colegas de quarto", foi o que ela disse antes de fotografar. Estava evidente, na foto, a expressão de que não sabia como reagir, mas agora ao vê-la... sentia-se feliz.
Deitada em sua cama, pegou seu celular. Nenhuma chamada perdida, nem se quer uma mensagem... olhou então para o pequeno quadro de fotos no criado-mudo ao lado, uma foto dela e Matt um pouco antes de começarem a namorar. A pianista bufou e decidiu que escutar uma boa composição de Chopin a tiraria dos devaneios e faria com que ela dormisse logo. Passando por sua playlist de músicas, viu as músicas que havia recomendado. Eram tantas músicas, alguns artistas ela reconheceu pelo nome... mas havia outros que ela nem imaginava existir. Hesitante, colocou seus fones de ouvidos e deu chance para que Bruce Springsteen finalizasse sua noite.

Não se começa um incêndio chorando por aí
Chorando por causa de um coração ferido
Esta arma é alugada
Mesmo se estivermos apenas dançando no escuro [...]


Capítulo 4

A manhã daquele sábado estava mais calmo do que poderia imaginar. Normalmente, as pessoas naquele instituto ficavam ainda mais animadas e cantavam e tocavam seus instrumentos onde podiam. Até mesmo alguns professores juntavam-se ao entusiasmo de seus alunos. Aquele sábado, por outro lado, amanheceu diferente. Quando acordou, por volta das 8h, Bia ainda dormia da forma despojada de sempre: enterrada sobre os travesseiros e cobertores; Não sabia em que momento a colega havia chegado na noite anterior, mas podia deduzir que fosse tarde demais para avisá-la ou, ao menos, colocar o seu pijama, pois ainda vestia as mesmas roupas que usara para ir ao festival. não queria acordá-la tão cedo, então, com cuidado para não fazer muito barulho, vestiu um vestido básico, calçou suas sapatilhas e saiu do quarto.
caminhou até o refeitório, onde acontecia os cafés da manhã, almoço e janta, pegou apenas uma maçã e dirigiu-se à saída do prédio. Com a sua pasta de partituras debaixo do braço, andou até a grande árvore que ficava bem no centro do pátio do instituto. Aquele era o lugar favorito da pianista, tanto para estudar quanto para simplesmente relaxar ao som de alguma música clássica, como sempre fazia desde que descobrira aquele lugar. Havia algumas pessoas em volta conversando e outras praticando seus instrumentos. Sentindo uma breve brisa de vento, sentou e recostou-se sobre a àrvore. Enquanto mordia a sua maçã, com a outra mão pegou seu celular, algumas mensagens de “Bom dia, tudo bem? Estou com saudades!” do seu pai e outras do irmão perguntando quando voltaria para casa, fez a garota sorrir. Seis meses naquele instituto parecia uma eternidade.
Nenhuma mensagem ou ligação perdida de Matt. negou com a cabeça e suspirou, dando em seguida outra mordida na maçã. Decidiu então abrir sua playlist de músicas e ouvir as composições de Claude Debussy, mas antes que pudesse dar play, viu outras músicas que havia colocado ali no meio, misturadas em meio à tantos clássicos.
– Beatles ou La Mer? – perguntou para si mesma, dando a última mordida na maçã. Olhou em volta, como se estivesse procurando por algo, e suspirou, dando play em La Mer, de Debussy.
fechou os olhos e se deixou levar pela música. O sol não tão quente naquela manhã, a brisa de vento e o ar calmo naquele instituto era tudo o que queria. Seus dedos acompanhavam o ritmo da música em cima da sua pasta de partituras, como se ela estivesse tocando ao piano. De repente, algo chama sua atenção.
– O que está ouvindo?
estava parado em sua frente, agachado e com as mãos apoiadas nos joelhos descobertos pela bermuda que usava. Hoje, diferente dos outros dias, não carregava uma guitarra ou violão nas costas. não esperava vê-lo tão cedo naquele dia e, ao notar sua presença tão repentina, assustou-se, fazendo rir. Este, levantou e ajeitou-se para sentar ao lado da garota.
– Bom dia para você também. – disse com ironia, tirando os fones dos ouvidos.
– Bom dia! O que está ouvindo? – repetiu a pergunta e pegou um dos lados do fone da garota, colocando-os em seu ouvido. virou seu rosto para o outro lado quando percebeu o olhar de desaprovação do guitarrista. – É sério? Você não está cumprindo com o trato!
revirou os olhos e puxou seu fone de ouvido para guardá-lo. – Eu vou ouvir suas músicas, relaxa. Só não quis ouvir agora.
– Conta outra. – debochou, pegando seu celular já com o fone plugado. Colocou um dos lados em seu ouvido e o outro estendeu para a garota, que o olhou confusa, mas colocou em seu ouvido – Aqui, escute essa!
colocou para tocar Losing My Religion, da banda R.E.M. Ele balançava a cabeça e cantarolava em voz baixa com o vocalista, batendo sua mão em sua perna no ritmo da música. , por sua vez, suspirava e tentava prestar atenção na letra ao mesmo tempo em que procurava acompanhar o ritmo dos instrumentos.

Aquele sou eu no canto
Aquele sou eu no holofote
Perdendo minha compostura
Tentando te acompanhar
E eu não sei se eu consigo fazer isso

Oh não, eu falei demais
Eu não disse o suficiente

Pensei ter ouvido você rir
Pensei ter ouvido você cantar
Eu acho que pensei ter visto você tentar

precisava admitir, aquela música não era ruim e, muito menos, longe do que ela sempre acreditava sobre esse tipo de música ser apenas barulho. Por algum motivo, sentia a dor da melodia e da letra como se toda aquela história tivesse acontecido com ela. Em um suspiro, fechou os olhos como sempre faz para ouvir e prestar atenção sobre as composições clássicas. Tudo parece conversar entre si no mesmo sentimento de dor; a bateria, o violão, a voz.
sorriu sentindo-se satisfeito ao notar que a garota prestava atenção sobre a música, ao menos era o que parecia. Ele, por outro lado, já não dava mais atenção à letra ou aos acordes, mas reparava em como era uma garota diferente. Não olhava para ele com o mesmo olhar de interesse que muitas garotas - e até alguns garotos - lançavam sobre o guitarrista. Estava tão acostumado com isso que até estranhava quando alguém não o dava bola para o que dizia ou, simplesmente, ignorava suas cantadas bregas. , até então, era apenas uma garota que não havia dado a mínima para ele e totalmente fechada quanto ao repertório de músicas. Isso era irritante. Por que ela era uma aposta, mesmo? não sabia e nem fazia questão. A parte divertida dos desafios, para ele e Ben, era justamente o resultado final: dinheiro e boas risadas.

Cada sussurro
Em todos os momentos que estou acordado
Estou escolhendo minhas confissões
Tentando ficar de olho em você
Como um tolo, um tolo magoado, perdido e cego

Oh não, eu falei demais
Eu causei tudo isso


Ali, sentados debaixo da árvore, quem passava por eles poderiam arriscar a dizer que são um casal apaixonado. Seus corpos estavam perto demais, pois precisavam dividir o fone, e conseguia sentir o leve e doce perfume que a pianista usava, inebriante. Não resistiu ao descer seu olhar para as pernas descobertas da garota, que batia levemente o dedo indicador sobre a coxa para acompanhar o tempo da música. 1, 2, 3, 4. Seu vestido brevemente levantado, parando um pouco acima do joelho, revelava duas pintas engraçadas em uma das coxas, pareciam olhar para o guitarrista, que riu. passou a língua entre seus lábios, para logo em seguida o morder e subir seu olhar para o rosto de . Ela, agora, também olhava para o garoto, mas de forma curiosa e séria enquanto sentia o pesar daquela música que trazia vários significados diferentes. Fé, depressão, angústia, coração partido… ela não conseguia decifrar.

Considere isto a dica do século
Considere isto
O deslize que me deixou
De joelhos, fracassou
E se todas essas fantasias
Se tornassem reais
Agora eu falei demais

Pensei ter ouvido você rindo
Pensei ter ouvido você cantar
Eu acho que pensei ter visto você tentar

Mas aquilo foi apenas um sonho
Aquilo foi apenas um sonho


[...]

Bia acordou em um pulo, assustada, ao ouvir o despertador soar ensurdecedoramente pelo quarto.
– Que ideia idiota de colocar Slipknot como alarme. – ela disse, com a voz rouca e pesada.
O relógio marcava 10h da manhã e a luz do sol que vinha da janela chegava a machucar as vistas da garota. Bia deu um bocejo longo e sentou-se na beira da cama, deu um suspiro ao perceber que a cama de já estava arrumada e, provavelmente, estaria tocando piano em algumas das salas do conservatório, como ela sempre fazia. Hoje, Bia também teria que passar o seu fim de semana praticando ao seu violino, afinal, daqui a quase cinco meses iria acontecer a tão esperada audição musical dos alunos, como se fosse uma prova final para fechar o ano naquele Instituto. Todos os alunos teriam que apresentar uma música, qualquer uma, para o conselho, administração, diretores, alunos e quem quisesse aparecer para assistir. Tinha até cartazes espalhados aos arredores do bairro para divulgar, era realmente um evento e isso assustava Bia e muitos outros alunos.
Depois de um longo banho e vestir suas roupas, um shorts básico e uma camiseta, Bia pegou a sua pasta de partituras, colocou o estojo do seu violino em sem ombro e fechou a porta do quarto logo em seguida. Teria que encontrar e pedir para que a ajudasse a praticar, já que a sua dupla para a apresentação não poderia hoje.
– Ei, Bia! – a garota olhou por cima do ombro ao ouvir seu nome. Era Ben e ele também carregava uma pasta com partituras.
– Oi, Ben. Vai praticar também? – Bia perguntou, apontando para a pasta preta debaixo do ombro do garoto. Ben assentiu com um sorriso de lado.
– A música que escolhi não é lá muito fácil, então preciso treinar o quanto posso para não parecer um idiota na apresentação.
– Não se preocupe, você já é um idiota. – Bia zombou, rindo alto com a reação de desprezo do garoto.
– Ouch!
Já do lado de fora do prédio, Bia e Ben caminhavam lado a lado e discutiam e imaginavam sobre como seria a noite de apresentações no teatro central do Instituto. Quando estavam próximos ao prédio em que as aulas aconteciam durante a semana, no centro de todo o conservatório, Bia arregalou brevemente os olhos ao olhar para a grande árvore.
– Que merda é aquela? – Bia perguntou, apertando a pasta de partitura contra o seu corpo.
– O quê? – Ben, confuso, seguiu o olhar da garota. Ao perceber o que era, não conseguiu segurar a risada. – Ele é mais rápido do que pensei.

[...]

– E então? – perguntou, tirando o fone do seu ouvido quando a música havia chegado ao fim. – Nada mal, não é?
balançou a cabeça e riu por vencida. – Nada mal. – ela concordou.
– O que você achou? – lançou outra pergunta enquanto guardava seu celular no bolso da bermuda.
– A música, de fato, não é ruim. Devo admitir. – Ela diz, fazendo o guitarrista sorrir satisfeito. – Mas é bem difícil encontrar algum significado nela.
Enquanto a pianista continuava recostada sobre o enorme tronco da árvore, se ajeitava para ficar de frente para garota. Logo atrás dela, algumas pessoas tocavam violão e cantavam de forma calma, nada que atrapalhasse quem estivesse por perto. Também era possível ver alunos, professores e alguns funcionários entrarem e saírem do prédio principal, onde ficavam as salas para estudo e prática. O guitarrista, ao perceber de longe uma figura que parecia ser Ben, sorriu sorrateiramente e, disfarçada e lentamente, aproximou-se um pouco mais da pianista à sua frente. Ela percebeu a estranha aproximação, mas não moveu-se, apenas trouxe sua pasta azul-marinho para mais perto do corpo, como se fosse protegê-la de algo.
– O que está fazendo? – perguntou, com o cenho franzido.
– Eu? – perguntou, apontando para si mesmo. – Nada, por que?
– Não está tentando nenhum joguinho comigo, não é? – perguntou mais uma vez, ainda com o cenho franzido e desconfiada. – Sei que nunca conversamos, mas já ouvi muita coisa sobre você nesses seis meses.
engoliu a seco, sentindo-se realmente nervoso. Ela já estava desconfiando dele! – Qual é? Boatos não são fatos. Já ouvi muita coisa sobre você também, sabia? – Mentiu. Não sabia nada sobre a garota, a não ser o que Bia havia contado.
Silêncio. Aquele olhar acusador e repentino de era matador e parecia analisar cada parte do rosto de , que tentava a olhar da mesma forma. O que antes pareciam um casal romântico ouvindo música juntos debaixo de uma árvore, agora pareciam conversar telepática e estupidamente.
, você está aqui!
A voz “animada” de Bia assustou a pianista e chamou a atenção de , que agora parecia aliviado. respirou fundo e olhou para a colega, que estava de pé ao seu lado e acompanhada por Ben, que olhava engraçado para .
– Oi, Bia. Eu saí antes, não quis acordar você tão cedo. – explicou, colocando sua mão um pouco acima dos olhos para protegê-los do sol.
– Bom dia, Bia! – disse, levantando-se e parando ao lado de Ben. – Onde estavam ontem, no festival? Procuramos por vocês.
Bia, por um momento, sentiu vontade de bater com o seu violino na cabeça de e tirar aquele sorriso sínico e insuportável. Respirou fundo e tentou ignorá-lo, tornando a voltar sua atenção para , que agora também estava de pé.
– Pode me ajudar a praticar minha música para a apresentação hoje? Minha dupla furou comigo. – Bia perguntou, tentando não olhar para os garotos que riam entre si.
– Claro. Reservei uma sala do segundo andar para... – ergueu seu pulso com o relógio para olhar a hora – daqui 10 minutos. Podemos usá-la para praticar.
– Ótimo! – Bia comemorou, sorrindo. – Podemos ir, então.
– Ei, . – chamou, observando-a ajeitar a pasta com as partituras debaixo do braço, preparando-se para ir ao grande prédio com Bia. olhou para o guitarrista. – Não esqueça do nosso trato!
– Digo o mesmo, . – respondeu. – Você também prometeu ouvir minhas músicas. Até mais.
As garotas, sem olhar para trás, caminharam até o prédio conversando e discutindo o que havia acabado de acontecer. Bia bombardeava a colega de perguntas e sentia, cada vez mais, raiva de e preocupação sobre o que ele poderia fazer com . Ela era boa demais para ele.
– Então… – Ben disse – Algum progresso?
riu e colocou suas mãos nos bolsos da bermuda, ainda olhando para a direção onde as garotas saíram.
– Ela é esperta, não vai ser tão fácil quanto pensei.
– Talvez você nem consiga. – Ben disse, rindo – Desista, cara. Deposite a grana na minha conta, é mais fácil.
– Vai sonhando. – disse sério – É só questão de tempo e conseguir alguma amizade com ela.

[...]

20 de setembro de 2019. Três meses para a audição.


– Eu estou ferrada!
Bia andava pelo quarto, indo de um canto para o outro, e apenas a acompanhava com o olhar. Já era tarde da noite, praticamente todos já estavam em suas camas dormindo ou tentando dormir, coisa que estava querendo muito, mas não conseguia por causa da amiga, que estava nervosa e não parava quieta.
– Quer se acalmar? – bufou, cruzando as pernas em cima da cama. – Você sabe a música de cór, nem olha mais para a partitura.
– Exatamente, EU sei a música porque pratiquei feito uma maluca. – Bia disse, sentando-se na cama e cobrindo o rosto com as mãos. – Mas e a minha dupla? Faltam apenas três meses para a apresentação e eu posso contar nos dedos as vezes em que praticamos juntas!
– Já tentou falar com o professor para trocar a sua dupla?
– Várias vezes, mas aquele careca não está nem aí. – Bia reclamou, deitando seu corpo na cama. – Se eu não tiver um acompanhamento para a minha música, não sei o que vou fazer.
suspirou pesado sem saber o que fazer.
– Vai dar tudo certo, eu prometo. – disse, com um sorriso de canto.
– Se tudo der errado, posso por a culpa em você?
nada respondeu, apenas riu. Em questão de minutos, Bia já estava dormindo. também já estava pronta para dormir, mas seu celular vibrando em cima da cômoda, ao lado do quadrinho com a foto dela e de Matt, chamou sua atenção. Hesitou em pegá-lo, com medo de ser o namorado. Medo? e Matt, depois de longos dias após a crise de ciúmes do garoto na noite do festival, voltaram a se falar. Ela deveria estar feliz, sim, mas ela sentia que a conversa não era mais a mesma. A conversa era pouca, monótona e ele parecia ainda mais distante, nem pareciam namorados de verdade. sentia medo de acontecer mais uma briga, o que geralmente acontecia quando ele ligava para ela.
A pianista respirou fundo e pegou o celular. Era uma mensagem e não era Matthew.
“Acabei de ouvir La Campanella de Liszt e acho que meu ouvido tá definitivamente danificado. Valeu, !”
não se conteve e riu com a mensagem de . Os dois estavam realmente cumprindo com o trato e ouvindo as recomendações de músicas que um dava para o outro. Já discutiram e concordaram diversas vezes sobre as preferências musicais de cada um, mas continuavam a ouvir. Apesar de agora trocarem mensagens e, de vez em quando, conversarem sobre música como se fossem amigos, ainda sentia-se um pouco desconfortável na presença do guitarrista. Outro dia, o viu aos amassos com uma garota que fazia aula de Teoria Musical com ela. Não soube reagir quando os flagrou - se é que pode dizer isso - e ficou ainda mais desconcertada quando percebeu sua presença e simplesmente dispensou a garota para ir conversar com a pianista, como se nada tivesse acontecido. Ficar perto de era esquisito, mas no fundo, bem lá no fundo, ela gostava de encontrá-lo para conversar sobre música.
“O que está dizendo? Liszt é incrível. Bruce Springsteen é quem faz meus ouvidos sangrarem.”
respondeu à mensagem com um sorriso bobo no rosto. Ela encarava a tela do celular, ansiosa, na espera de outra mensagem. O celular voltou a vibrar, mas desta vez não era uma mensagem. Por algum motivo, a garota sentiu seu coração bater rápido ao ver o nome de no visor da tela, ligando para ela. Hesitante, olhou para Bia, que dormia como um bebê, e voltou a olhar para o celular, atendendo em seguida.
– Por favor, me diz que não estava falando sério sobre Bruce Springsteen! – disse.
– Desculpe, mas eu falei sério. Já ouvi coisas melhores. – respondeu, tentando falar baixo.
– Certo, você é quem danifica meus ouvidos. – reclamou, mas não pode evitar de sorrir ao ouvir a risada de . – Não deveria estar dormindo? – Perguntou, também tentando falar baixo.
– Alguém interrompeu meu sono para insultar um dos maiores pianistas. – respondeu, sorrindo.
riu.
– Ansiosa para voltar para casa? – perguntou.
– Acho que sim, sinto saudades do meu pai e meu irmão.
– Hmm… – fez uma pausa. – E o namorado?
franziu o cenho, surpresa com a pergunta.
– O que tem ele? – Perguntou.
– Não sente saudades dele?
não sabia mais se sentia saudades de Matthew. Nos primeiros meses no instituto, achava que não iria suportar a saudade que sentia do namorado, chegava a sentir mais falta dele do que do pai ou irmão. Agora, ela não sabia o que sentir em relação a Matthew, mas achava que ainda gostava dele e acreditava que quando voltasse para casa, tudo voltaria ao normal. estava confusa. Tudo estava confuso.
– Eu preciso dormir, . – ignorou a pergunta. Ela não podia ver, mas não conseguiu segurar o sorriso ao notar a confusão da garota, mesmo sem dizer uma palavra.
– Tudo bem. Boa Noite, .
– Boa noite, .

Capítulo 5

– Ele morreu?!
assustou e outras três pessoas ao empurrar a porta do estúdio de repente. Ela estava parada, segurando a porta, com os olhos arregalados para o guitarrista, que levantou apressado e andou até a garota. Os outros naquela sala acompanharam a cena, também preocupados.
– Quem morreu? – perguntou, segurando o braço do seu violão preto com força.
– O homem dessa música. – disse e mostrou a tela do celular para o guitarrista. soltou a respiração com peso ao ver o nome “Pearl Jam” rolar na tela.
– Que puta susto! – reclamou e sentou no sofá de couro, perto da porta.
– O que foi? Estou falando da música. – explicou, sentindo-se constrangida com as reclamações e olhares sérios misturados com alívio de e das outras três pessoas, que logo voltaram a fazer o que faziam antes.
– Você não pode simplesmente entrar na sala com uma pergunta dessas. – Ele disse, rindo – Achei que alguém realmente tivesse morrido.
– Desculpa… – murmurou, guardando o celular com os fones de ouvido na bolsa. – Só fiquei curiosa sobre a música. Ela é romântica e muito triste ao mesmo tempo.
balançou a cabeça e riu novamente. Levantou e foi até seu case, guardando o violão junto com um bloco de notas com várias anotações e cifras rabiscadas. apenas o acompanhou com o olhar, ainda intrigada com a letra de Last Kiss.
– Ele não morreu. – O guitarrista disse, voltando com o case em suas costas. – Só prometeu ser uma boa pessoa para poder reencontrar com a sua amada quando a sua hora também chegasse.
ouvia atentamente as explicações do guitarrista, enquanto caminhavam para fora do estúdio. Não era a primeira vez que a pianista o assustava com suas perguntas repentinas sobre algo que não compreendia ou simplesmente não concordava. As conversas e discussões sobre música, seja clássica ou rock, estavam tornando-se cada vez mais comuns e até divertidas. Até pareciam amigos!
Mesmo que o assunto fosse sempre o mesmo, não se importava. Na verdade, estava gostando de entender um pouco mais sobre o que estava por trás das músicas. Algumas discussões o davam inspirações para compor e até escrever. No fundo, bem lá no fundo, pensava em desistir da sua aposta com Ben. Não achava justo brincar com ela, sendo que até ele estava curtindo essa pseudo-amizade. Não achava que a sua aproximação com ela se tornaria um risco… Ele não queria ser mais um cara que pudesse magoá-la.

[...]

Londres, oito da noite...


Quando Matthew acordou no meio da noite, algumas garrafas de cerveja estavam espalhadas pelo chão do quarto. Era quarta-feira, ele sabia, mas que mal tinha em beber algumas? Ah é… A merda da ressaca. Matt levantou da sua cama, cambaleando, e foi até o banheiro do corredor para jogar uma água no rosto para aliviar o mal estar e despertar do sono interrompido.
Ao voltar para o quarto, empurrou com o pé descalço algumas garrafas e roupas espalhadas pelo chão. Sua mãe o mataria se visse aquela bagunça toda. Sentou em sua cama, pegou seu celular e discou para o único número, além do dele, que ele sabia de cor.
– Alô?
Matt sorriu de canto ao ouvir a voz sonolenta.
– Acordei você? – Perguntou.
– Não, não… Eu já estava acordada. – respondeu, sentindo o coração bater mais rápido. – Só… Não estava esperando você ligar tão de repente.
Matt franziu o cenho e balançou a cabeça, tentando dispersar os pensamentos.
– O que está fazendo? – Perguntou, coçando sua nuca sem saber direito o que e como falar com a própria namorada.
– Humm… Adivinha!
– Deixa eu pensar… – Matt disse, cruzando as pernas em cima da cama e apoiando o braço acima da cabeça. – Se preparando para tomar banho e pensando em mim?
– O quê? Não, Matt! – disse, rindo e sentindo o rosto esquentar.
– Qual é, pode admitir. – Ele riu. – Estou brincando. Então, o que está fazendo?
– Reservando a passagem de volta para Londres!
– Sério?! – Matt perguntou animado. – Ah, cara! Estou ansioso para ver você de novo. Parece que faz anos que não te vejo.
sorriu fraco e suspirou, fechando a tela do notebook:
– Nem me fale. Também estou ansiosa para ver você, e meu pai de novo.
Matthew estava feliz de verdade em pensar que logo estaria com novamente. Sem brigas ou distância que pudesse atrapalhar a relação. Quando Matt abriu a boca para falar, viu a porta do quarto abrir devagar; pensou que fosse a mãe, mas engoliu a seco quando viu quem era.
– Sua mãe me deixou entrar. Tentei ligar para você, mas só caía na caixa-postal. – A pessoa disse, encostando a porta devagar.
– Quem é? – perguntou, andando até a sua cama.
– Ninguém. – Matt respondeu, sem tirar os olhos da pessoa sentada na beirada da cama. – Então… Eu preciso desligar agora. Ainda não jantei e tenho quase certeza de que você deve estar cansada, não é? – O garoto riu fraco.
– É… Acho que sim.
– Ligo pra você amanhã, gatinha! – Matt tentou sorrir. – Boa noite!
– Boa noite, Matt.

[...]

Cleveland, duas da tarde


– E aí, como anda sua música? – Ben perguntou, enquanto caminhava lado a lado com sobre os corredores do Instituto.
– Eu sei lá, cara. – disse, soltando um suspiro pesado. – A letra está quase pronta, a melodia também, mas sinto que ainda falta alguma coisa.
– Tipo o quê?
– Eu não sei, cara – riu. – Eu sinto falta de algo que acompanhe a música e ao mesmo tempo faça todo mundo se arrepiar de início.
– Uau – Ben exclamou – Fiquei até curioso. Não posso mesmo ouvir um pedacinho?
riu e empurrou a grande porta de vidro do hall do prédio:
– Ainda não, só quando estiver pronta. Preciso falar com o resto da “banda” para decidir algumas coisas. Quem sabe não me ajudam a pensar em algo?
Quando passavam pela grande árvore do Instituto, uma forte rajada de vento atingiu os garotos. O céu estava escuro e com muitas nuvens, não demorou muito para que algumas gotas grossas começassem a cair. Todos os alunos ou professores que estavam ali se apressaram em recolher seus materiais e dirigir-se para um local coberto. e Ben fizeram o mesmo, abrigando-se no prédio onde tinha o refeitório.
– Odeio essa época do ano. A previsão para hoje não era sol? – Ben reclamou, balançando a cabeça, jogando algumas gotas do cabelo molhado no guitarrista, que o empurrou para o lado, fazendo-o esbarrar em algumas pessoas que entravam no mesmo prédio que eles.
– Ei, cuidado! – Bia reclamou, empurrando Ben de volta para . – Não fiquem aí parados. Estão atrapalhando a passagem das pessoas.
olhou para a porta de entrada. A chuva caía com mais força agora, fazendo vários alunos entrarem molhados no hall do prédio, que agora estava lotado. Bia estava sozinha, secando o rosto e as pontas ruivas do cabelo com uma toalha pequena e roxa.
não está com você? – Perguntou, curioso.
– Não. Eu estava com ela agora pouco, ensaiando a minha música. Antes de começar a chover eu a chamei para comer um pouco e descansar, mas ela não quis. – A ruiva disse, guardando a toalha úmida em uma sacola e em seguida na bolsa. – Acho que ela brigou de novo com o namorado. – Ela soltou uma risada fraca. – Como se fosse novidade.
franziu o cenho.
– Por que acha isso? – Ben perguntou.
Os três seguiram em direção até o refeitório, que também estava cheio de gente. Sentaram na primeira mesa vaga que viram.
– Ontem a noite eles conversaram. Ela até pareceu animada por um momento, mas depois que desligaram, ficou quieta, pensativa, sei lá. – Bia explicou.
– Isso não diz muita coisa, podia ser apenas sono. – Ben falou, rindo. Olhou para o amigo ao seu lado, percebendo o olhar perdido e sério, ao mesmo tempo em que batucava os dedos na mesa. estava nervoso. Ben negou com a cabeça, achando graça.
– Talvez esteja certo, mas hoje, quando estávamos ensaiando, ela errou várias vezes. E ela sabe tocar minha música melhor do que eu. – Bia disse, apoiando o rosto em sua mão. – Estou te falando, sempre que esse cara liga é problema. Não sei como ela aguenta e continua com ele, fico cansada só de imaginar.
levantou da mesa em um pulo, assustando Bia e Ben.
– Eu acabei de lembrar que deixei meu bloco de anotações no estúdio. – Ele disse.
– Não pode pegar depois? Está caindo o mundo lá fora. – Bia comentou – Odeio essa época do ano.
– Eu também! – Ben concordou com a garota, animado. – E cara, espera a chuva passar e depois você pega. – Disse para o guitarrista.
– Precisa ser agora, antes que alguém pegue. – respondeu e saiu do refeitório, ignorando o que Bia e Ben falavam.
Aquilo era uma desculpa. não havia esquecido nada, o bloco estava bem guardado junto ao violão em seu case. Por algum motivo que ele desconhecia - ou preferia ignorar - havia uma certa “urgência” e vontade em ver . Que merda é essa? Pensou. Logo após o festival de fogos, fez de tudo para conseguir uma única chance de aproximação com a pianista. Ouviram música juntos - como combinaram desde o início -, discutiram sobre música e até tocaram juntos. Quer dizer, tocou… apenas atrapalhou. Toda a aproximação era apenas por uma aposta idiota. Ele percebeu que as coisas começaram a ficar diferentes depois de uma noite.
Lembrou de quando voltava com Ben de um bar próximo ao Instituto. Era sexta-feira e praticamente todos naquele lugar tiveram a mesma ideia de sair para se divertir e distrair um pouco, afinal, logo todos iriam para as suas casas e precisavam aproveitar aquela cidade ao máximo. Quando chegou no Instituto, era mais de meia-noite. Ben foi direto para o seu quarto, estava exausto e bêbado; esperou mais um pouco antes de seguir o mesmo caminho e foi para onde tinha a grande árvore. Gostava de como aquele lugar ficava bonito a noite. Tinha duas luzes em volta da árvore que dava uma iluminação boa e inspiradora ao lugar, às vezes ia até lá só para compor.
Naquela noite, quando estava se aproximando do local, assustou-se ao ver uma silhueta pequena encostada no tronco e bem de frente para a luz. Tinha que confessar, era uma imagem assustadora. Pensou em dar meia volta e ir para o seu quarto, mas viu que era alguém e esse alguém estava chorando a ponto de fazer alguns barulhos esquisitos. acharia o barulho engraçado se não tivesse reconhecido quem estava encolhido sobre tamanha angústia… Era . Ela estava sozinha, abraçando os joelhos cobertos por uma calça azul e leve, parecia ser um pijama. , mesmo a quase dois metros de distância, podia ver os ombros pequenos se mexerem ao mesmo tempo em que a respiração era descompassada. Lembrou de como aquela cena o machucou. Sentiu uma vontade imensa de ir abraçá-la, mas não o fez. Sentiu uma vontade imensa de socar o jogador de rugby, mas não podia. Não dormiu direito naquela noite.
Pingos de água caiam a cada passo que o guitarrista dava naquele corredor do 2º andar. Havia poucas pessoas naquela parte do prédio. A única coisa que podia escutar era o som da chuva batendo nas grandes janelas que iluminavam aquele andar. A cada sala fechada em que ele passava, olhava pela vidraça à procura dela. Seus passos pareciam automáticos, como se o seu corpo estivesse o guiando em ato involuntário.
– Ah, foda-se! – Murmurou para si mesmo, apertando o passo para andar mais rápido.
Quando chegou ao fim do corredor, na última sala, pôde vê-la pela vidraça, tocando ao piano. Ajeitou o case em seu ombro e abriu a porta com cautela, sem que a garota percebesse. Caminhou até o canto da sala e ficou parado de pé, observando os movimentos da pianista.
tocava Clair de Lune, do compositor francês Claude Debussy, e seu corpo dançava conforme a cada nota pressionada. Era uma música calma, mas reparou como a música atingia a garota de forma que a fizesse sentir o peso das teclas em si mesma. Seus movimentos intercalavam entre rápido e suave. O guitarrista cruzou os braços e recostou sobre um pilar que havia na sala, ele sorriu achando graça das expressões que fazia. Seus olhos estavam fechados e toda vez que tocava as notas mais agudas, franzia o cenho e deixava seu corpo ir para frente, como se precisasse sentir mais e mais as teclas tocadas por ela.
Quando a música chegou ao fim, antes de abrir os olhos, sorri brevemente dando toda a atenção à última nota longa e grave soando pela sala. Num suspiro fraco, abre os olhos e pousa as mãos em seu colo, sentindo-as tremerem levemente. Há quanto tempo estive praticando?, ela questiona a si mesma antes de seus pensamentos serem interrompidos ao ouvir, do fundo da sala, palmas se aproximarem. A pianista olha por cima do ombro a tempo de ver caminhar em sua direção com o case nas costas, ela revira os olhos e sorri.
– Uma bela música. – Ele diz, pegando as partituras em cima do piano. – Um pouco triste, mas é bonita.
– No começo eu também achava triste. – diz, pegando as partituras de volta. – Mas quando conheci a história por trás dela, mudou totalmente minha visão.
, com um olhar sugestivo, esperou com que contasse a história: – Por favor, quero saber como o querido Claude conseguiu mudar algo aí na sua cabeça. – Ele disse, tentando não rir.
– Idiota. – riu.
sorriu, sentindo um certo alívio ao ouvi-la rir. Esteve com medo - sim, medo - em encontrá-la chorando mais uma vez. Apesar de enfrentar a chuva para poder vê-la, não saberia o que fazer se a visse na mesma situação daquela noite.
– Claude Debussy é um dos meus compositores favoritos. – Ela diz, tirando dos devaneios. – Quando ele começou a tocar piano, não viam nenhum potencial nele, tanto que o rejeitaram ao querer entrar em um conservatório, como este, em Paris.
, ouvindo-a atentamente, sentou-se ao lado da garota. No mesmo banco ao que ela estava e, enquanto ela continuava a narrar sobre Claude Debussy, passava seus dedos pelas teclas brancas e pretas do piano.
– Na época em que esta música,Clair de Lune, foi apresentada, Debussy teve câncer e soube que sua vida estava prestes a ter um fim. – continuava a contar, ignorando o fato de estar lado a lado com o guitarrista. – Ele ainda viveu por mais alguns anos, mas não muito. Acreditam que sua inspiração para compor essa música veio de um momento de solidão, até que ele olhou para o céu – olha para cima como se fosse o próprio Debussy; , sorriu segurando-se para não rir – e percebe a enorme Lua que iluminava Paris. Não apenas a capital... Mas também seu momento solitário.
– Por isso o nome "Clair de Lune"? perguntou. assentiu, também passando os dedos pelas teclas do piano.
– Apesar de ter um contexto triste, eu acho inspirador.
pressiona a última nota grave do piano:
– É o que vai tocar na sua apresentação?
– Sim. Estou há dias praticando. – responde, pousando sua mão esquerda nas teclas, mas sem pressioná-las. – E você?
dá de ombros e toca uma melodia que não conhecia sob o instrumento. O guitarrista sorri, satisfeito.
– Vou tocar e cantar uma música original. Acho que vai gostar, apesar de não pertencer aos seus estilos. – diz com um sorriso suspeito no rosto.
– Posso ouvir? – Ela perguntou, cruzando os braços.
– É surpresa. – Ele diz, com os olhos ainda fixos nas teclas do piano.
Quando levantou e foi até sua bolsa para guardar sua pasta de partituras, suspirou e fez uma pausa hesitante.
– Ana…
A garota sentiu um arrepio involuntário ao ouvir seu nome. Passou a língua sobre os lábios e olhou para o garoto.
– Você se sente feliz?
– O quê? – ri, confusa. – Que pergunta é essa?
– Você se sente feliz? – repetiu a pergunta, levantando e caminhando até a garota que engoliu a seco, sentindo o coração bater mais rápido.
, por algum motivo, não encontrou forças para abrir a boca e falar alguma coisa. Sentindo a aproximação repentina do guitarrista, apenas balançou a cabeça, afirmando a pergunta do garoto.
nega com a cabeça e solta uma risada fraca.
– Você se recusa a enxergar a verdade.
– Como é? – franziu o cenho, sem entender nada. O que era aquilo? – Que verdade? Não estou entendendo nada.
olhou nos olhos dela e suspirou. Queria jogar aquela aposta para a casa do caralho. Queria falar sobre como toda aquela relação dela com Matthew era mentira e a fazia mal. Queria que ela mesma percebesse e parasse de recusar o desgaste que sentia. Queria não ser amigo dela.
– Não é nada. – disse, passando a mão na nuca. Voltou para perto do piano e pegou seu case, colocando-o em seu ombro. – Devia ir comer alguma coisa, Bia está no refeitório.
olhou para a janela e notou que a chuva havia diminuído. Realmente precisava se alimentar, mas sua cabeça estava confusa demais para pensar na fome. O que era aquele ataque repentino?
– Você está bem? – Perguntou, olhando atentamente para o guitarrista.
– Estou bem. Preciso falar com Ben e passar no estúdio para praticar um pouco a minha música também.
andou até a porta e abriu, pronto para sair.
– Espera! – chamou. – O que foi isso? – Perguntou, sentindo o coração acelerar.
– Amanhã vai ter uma galera tocando e cantando em um bar aqui perto. Eu vou tocar também. – Ele disse com um sorriso maroto no rosto. – Espero você lá. A Bia sabe onde é!
Antes que pudesse falar qualquer coisa em defesa, bateu a porta e saiu andando pelo corredor a fora. A pianista não havia entendido nada do que tinha acontecido, mas não podia negar sua curiosidade e ansiedade começar a surgir ao pensar no convite duvidoso do garoto. pegou seu celular e mandou uma mensagem para Bia.

Capítulo 6

NOTA: Algumas músicas, além das do McFly, serão usadas de acordo com a história e com o momento da fic. Esse capítulo (6) é um exemplo, a música usada é da banda brasileira **Forfun.


Na noite seguinte, estava em frente ao espelho do banheiro abotoando uma camisa xadrez vermelha e preta. Ben estava sentado na cadeira da escrivaninha contando, pela quinta vez, o dinheiro que havia entregado mais cedo.
– Você tem certeza do que vai fazer? – Ben falou alto.
– Não, mas o que pode dar errado?
voltou para o quarto e abriu o guarda-roupa pequeno que dividia com seu colega, pegou o perfume e espirrou duas vezes em cada lado do pescoço.
– Humm, deixa eu ver… Tudo? – Ben disse, rindo. – Cara, você pode colocar tudo a perder. Já não basta perder a aposta? – Perguntou e balançou a quantia de dinheiro que segurava.
– Eu quero tentar. Se tudo der errado – fez uma pausa para colocar o tênis. – Eu nunca mais vou vê-la de qualquer forma. Daqui a alguns meses eu volto para Bolton, começo uma banda e sigo minha vida.
– Eu ainda acho que é uma burrada. – Ben comentou.
– Talvez seja melhor ela me odiar mesmo. Assim fica mais fácil quando tudo acabar.

[...]


– Eu esperei tanto por esse dia! – Bia comemorou, erguendo os braços para cima, enquanto andava pela rua.
– Se continuar com isso, eu dou meia volta e volto agora para o quarto. – disse, rindo.
– Ah qual é, para conseguir tirar você desse Instituto é um inferno. Estou feliz com a sua iniciativa querer sair um pouco!
disse que vai ter algumas apresentações e ele próprio vai participar. Fiquei curiosa, só isso. – disse.
Bia parou de andar e olhou para a pianista.
? – Perguntou, desconfiada.
– Sim, o . Ele quem me falou desse bar. – respondeu e continuou a andar. Bia precisou dar uma corrida para ficar ao lado da amiga novamente.
– São amigos agora?
– Para falar a verdade, eu não sei. Conversamos muito sobre música e eu até gosto… Mas não posso negar que ele é estranho. – explicou, pensativa, lembrando da tarde passada, quando o garoto de repente começou a agir diferente e fazer perguntas esquisitas.
– Eu não confio nele. – Bia disse.
não disse nada, apenas continuou a andar pela calçada. Não demorou muito para que chegassem ao local. O bar não era estranho para , ela olhou em volta e percebeu que era o mesmo bar que havia entrado na noite do festival. Aquele lugar não estava tão cheio como quando estava naquela noite. As garotas seguiram para o balcão onde havia algumas garrafas de bebida decorativa e sentaram no banco que havia ali.
– Tem muita gente do conservatório aqui. – Bia comentou, apontando para algumas pessoas com instrumentos e outras perto de um palco improvisado com um microfone no centro.
Disfarçadamente, olhou entre as pessoas e para a porta de entrada do bar para ver quem entrava ou saía. Quando voltou a olhar em direção ao palco, no mesmo instante sentiu seu coração bater um pouco mais forte.
estava em pé ao lado de Ben e outros três garotos que riam e conversavam sobre qualquer coisa. Sem sair do lugar, sorriu e acenou para a garota de longe que não hesitou em desviar o olhar.
Um som de microfonia chamou a atenção de todos naquele bar. Um homem, que aparentava ter seus 30 anos e vestia uma camisa polo preta com o logo do bar, deu três toques no microfone antes de falar. deduziu ser o dono.
– Fala, galera! Vamos animar essa noite? – Ele disse, fazendo as pessoas gritarem animadas, incluindo Bia, que batia palmas.
– Será que ele é casado? – Bia perguntou, sem tirar os olhos do palco.
– Mesmo que não seja, é um pouco velho pra você, não é? – questionou, rindo.
– Não custa sonhar. – Bia piscou o olho e riu.
Depois de algumas explicações sobre como vai funcionar as apresentações e fazer propaganda sobre as bebidas do bar, o dono chamou os primeiros nomes para a apresentação. Era uma dupla de garotas, pareciam irmãs pela semelhança. Uma segurava um violão marrom e a outra ajustava o microfone, preparando-se para cantar.
– Elas são muito boas. – Bia comentou e concordou.
A dupla cantava e tocava um cover do cantor Paul Anka. A versão acústica da música tornava a performance delas diferente e gostoso de ouvir. sorriu, ao ver as pessoas balançando as mãos para cima de um lado para o outro, outras estavam abraçadas com alguém e uns apenas lançavam um olhar sugestivo para a vocalista, que cantava de forma suave e sensual ao mesmo tempo. Reparou como os meninos, e Ben, cochichavam um para o outro sem tirar os olhos da dupla. se mexeu e ficou apenas olhando.
Aquilo estava incomodando. Não. Não tinha motivos para aquilo incomodá-la! se levantou, chamando atenção de Bia intercalava o olhar para ela e o palco.
– Aonde vai? – Bia perguntou.
– Vou tomar um ar e já volto. – disse e foi até a porta de entrada, pedindo licença para as pessoas que se aglomeravam ali.
A chuva do dia anterior só serviu para deixar o dia seguinte ainda mais quente e abafado. juntou seus cabelos morenos em um rabo de cavalo e abanou seu pescoço com as mãos. Pegou seu celular e mandou uma mensagem para Matt, perguntando se estava tudo bem. Alguns minutos se passaram e nenhuma resposta. Aquela sensação esquisita dentro dela precisava passar, precisava dar um jeito. Por que ficou incomodada com a forma como olhava para a vocalista? Por que seu coração bate mais rápido quando ele se aproxima? Que saco!

[...]


– Nossa, pensei que tinha ido embora. – Bia disse, ao ver se aproximar. – Está tudo bem? – Perguntou preocupada.
fez que sim com a cabeça e sorriu, sentando no mesmo banco de antes.
– E aí, meninas! – Ben apareceu, abraçando as duas pelos ombros.
Bia revirou os olhos e se esquivou para o lado, tirando os braços do garoto de si. sorriu, simpática.
– Oi, Ben. – disse e percebeu que o garoto estava sozinho. – Não estava com o ?
– Estava. – Ben concordou, pedindo uma bebida qualquer ao barman. Puxou um banco para perto das meninas e apontou para o palco. – Ele já vai subir pra cantar, então vim fazer companhia para vocês e ver que merda ele vai fazer lá em cima.
As meninas riram. Em questão de minutos, já estava no palco afinando o violão e ajustando a altura do microfone. Outros dois garotos estavam com ele, um na bateria e outro também no violão. notou que, antes da música começar, olhou diretamente em sua direção. Estava sério, mas não demorou para que colocasse um sorriso maroto no canto da boca. Logo as notas animadas começaram a tocar, chamando a atenção de todos que estavam ali.
**Se faz de boba e nem percebe
Que a falsidade te persegue
Ele é o amor da sua vida
Mas já chegou na sua melhor amiga
Seu namorado é um cuzão
Não que eu seja melhor que ele
Mas faz partir meu coração
Te ver chorar pensando nele

No mesmo momento, Bia e Ben olharam para . Suas mãos tremiam e seu coração mais uma vez teimava em acelerar, mas agora não era algo bom. Sentiu um aperto no peito. Queria sair dali, mas não conseguia tirar os olhos do palco.
Qual era o problema dele?
Alguém que nunca tá por perto
Você insiste que é o cara certo
Na sexta-feira ele te liga
Vocês discutem e ele grita:
Eu só queria te dizer
Que eu to ralando e é pra sempre
Você já fez por merecer
Aquele prego eternamente

Ele não podia fazer aquilo com ela. O que era aquela letra? sentiu um nó se formar em sua garganta. Não conseguia olhar para o garoto sem sentir vontade de gritar com ele, bater nele ou apenas chorar. Aquilo era uma humilhação!
– Ei… Tudo bem? – Bia perguntou, ao ver levantar de repente.
– Eu quero ir embora. – secou uma lágrima que tentava inutilmente segurar.
Tudo azul
Ele é o cara e eu sou só mais um
A sua vida é feita de ilusão
O mundo inteiro tá errado
E você diz sempre... não!

pôde ver do palco sair do bar com Bia em seu encalço. Ele sabia que cantar aquela música era um erro enorme e que, agora, a garota nunca mais iria querer vê-lo novamente. Ele sabia e fez mesmo assim. Era ridículo, ele não queria ficar com ela. Ele não queria vencer a aposta, porque sabia que já tinha colocado tudo a perder… E ficar com ela só tornaria tudo ainda pior.
O guitarrista abaixou a cabeça quando a música acabou. Saiu do palco sem dar um único sorriso, ignorando a euforia das pessoas e todas as palmas que recebia. Não tinha nenhum orgulho naquilo.

[...]

– Ele não tem o direito de fazer isso comigo! – esbravejou, andando de um lado para o outro pelo quarto.
– Esquece isso, . Nós duas sabemos desde o início que ele sempre foi um idiota. – Bia disse, sentada em sua cama.
– E pensar que eu estava enganada sobre ele… – murmurou. Bia ouviu, mas não disse nada. – Vou tentar entender tudo isso.
, sem pensar ou olhar para trás, andou até a porta.
– Espera, aonde você… – antes que Bia pudesse protestar qualquer coisa, bateu a porta e saiu. – vai…
Bia negou com a cabeça e se jogou em sua cama, sentindo-se cansada demais para impedir qualquer coisa.

[...]


O Instituto tinha três prédios ao todo, mas não eram tão grandes. O primeiro é onde fica o dormitório feminino; o segundo é o maior e fica no centro de todo o conservatório, em frente à grande árvore e onde aconteciam as aulas e tinha o refeitório; e por último, o terceiro, é o dormitório masculino. A movimentação no hall do terceiro prédio do Instituto era pouca, quase nula. estava parado com Ben na frente do elevador, esperando que a porta finalmente abrisse.
– Se você não quisesse ficar com a garota, não era mais fácil, simplesmente, parar de falar com ela? – Ben perguntou, continuando o assunto que tentava fugir desde que saíram do bar. – Precisava cantar? – Ele riu.
revirou os olhos e apertou mais uma vez o botão do elevador. A porta abriu e dois entraram, cada um apertando o botão do seu andar.
– Se não fosse tão idiota, seria quase um príncipe da Disney. – Ben riu.
– Ah, cara, o que eu preciso fazer para você calar a boca? – bufou.
– Canta para mim também… – Ben piscou os olhos e os dois riram.
O andar de chegou primeiro. Antes que virasse o corredor e a porta do elevador fechasse novamente, mandou um dedo do meio para Ben, que fez o mesmo e riu.
O quarto de ficava no fim do corredor, perto das escadas de emergência. Ele andava de cabeça baixa, distraído, segurando em suas mãos a alça do case do violão. Nada passava por sua cabeça, a não ser o rosto de ao ouví-lo cantar e, em seguida, lançar um olhar de desprezo antes de ir embora com Bia.
– Merda de aposta. – murmurou e suspirou.
Chegando ao fim do corredor, assustou-se ao olhar para a porta do seu quarto. Sentiu-se confuso e perdido.
– O que faz aqui? – Perguntou.
estava sentada no chão com as costas na porta de madeira do quarto. Levantou-se e manteve os poucos passos de distância entre ela e o garoto. Sentiu suas mãos tremerem levemente, mas seu olhar permanecia firme e sério.
– O que você quer de mim? – o ignorou com outra pergunta.
não respondeu. solta, impaciente, os braços que estavam cruzados e suspira.
– Chegamos aqui na mesma época. – continuou a falar. – Você esperou seis meses para de repente entrar na minha vida e querer ser meu amiguinho. E agora isso… O que você quer de mim? – Perguntou mais uma vez, sentindo a voz falhar.
– Não sei do que está falando. – disse, pegando a chave do quarto em seu bolso.
– Você acha engraçado? – perguntou. olhou em seus olhos, arrependendo-se por ter feito isso logo depois. – Acha engraçado me provocar? Por isso cantou aquela música?
– Está se achando de mais. – riu fraco. – Eu cantei uma música qualquer. Se você ficou tão ofendida é porque sabe que está com alguém pior do que eu.
prendeu a respiração, nervosa. Antes que pudesse ir até a porta, a garota entrou na frente, impedindo-o.
– Você não sabe de nada e não tem o direito de se intrometer assim. Você nem o conhece!
– Vai dizer que é mentira? – perguntou, provocando. – Das vezes que estava chorando ou cabisbaixa por aí, vai dizer que ele não era o motivo?
– Você não tem nada a ver com o meu relacionamento ou com a minha vida, ! Então, por favor, fica fora disso!
disse e passou por ele, deixando-o para trás. Seu coração estava acelerado, suas mãos tremiam e sua respiração falhava.
– Você tem medo de admitir e perder, não é? – disse, fazendo a parar no meio do corredor. Andou em passos calmos até a garota e não pensou duas vezes.
– O quê…?
Em questão de segundos, num movimento rápido, a interrompeu com um beijo firme e delicado em sua boca. Suas mãos seguravam cada lado do rosto de . Ela estava com os olhos arregalados, surpresa pelo que não esperava. Os dois prenderam a respiração, mas, quando toma consciência do que realmente estava acontecendo, empurra com as duas mãos o peito de , desfazendo qualquer contato entre os dois.
– Desculpa, mas eu não quero ficar fora disso. – disse baixo, mas o suficiente para ouvir.
O som da porta do quarto de abrindo assustou .
– Ah, é você, ! Pensei ter ouvido vozes – Um garoto, colega de quarto de , apareceu no batente da porta vestindo apenas uma calça. Ele olhou para . – … Ah, está com uma garota. Foi mal atrapalhar. – Ele disse e voltou para o quarto, fechando a porta.
– Fique longe de mim. – disse, com a voz trêmula.
Em passos rápidos foi até o elevador, mas antes que entrasse, olhou para . Ele não estava sorrindo como imaginou, pelo contrário, estava sério e olhava profunda e atentamente para a garota. Na verdade, não queria deixá-la ir embora, mas sabia que já tinha feito muita merda em uma só noite.
entrou no elevador e, quando a porta fechou, sentiu as lágrimas cederem e o nó em sua garganta se desfazer aos poucos em um choro. O celular vibrando em seu shorts chama a sua atenção. Com uma mão tentou secar, inutilmente, as lágrimas, que desciam sem parar, e, com a outra mão, pegou seu celular, vendo que era uma mensagem. Agradeceu mentalmente por não ser , mas sentiu a respiração falhar ao ver que era Matt. Era uma resposta à mensagem que ela o mandou quando estava no bar, há uma hora atrás. Não abriu e nem leu a mensagem. Encarou o seu reflexo no espelho do elevador e desejou que tudo fosse um sonho e que logo acordaria em casa, com seu irmão e seu pai para fazê-la sorrir.

Capítulo 7

Um dia se passou. Bia acordou com o sol, que escapava pela janela, incomodando os olhos. Era cedo, estava calor e ) não estava no quarto. Bia franziu o cenho e levantou da cama, indo em direção ao banheiro. Bateu na porta fechada na espera de alguma resposta. Nada. Estava sozinha e percebeu que a cama de estava exatamente do mesmo jeito que ela havia deixado na noite anterior. A pianista não havia retornado para o quarto. Bia mandou uma mensagem para a colega de quarto, ao terminar de calçar sua sandália aberta e marrom, destacando as unhas vermelhas do pé. Era domingo e, mais um dia, Cleveland estava quente. Os pensamentos e preocupação de Bia ignoravam o calor que ela sentia, queria saber de e o que havia acontecido depois que havia saído do quarto às pressas na noite anterior.
Chegando ao hall do prédio, que dava vista para o enorme pátio, viu , Ben e outros alunos ao redor dos garotos que, mais uma vez, faziam seus showzinhos com o violão no colo. cantava e tocava com um sorriso no rosto, animado ao que parecia. Bia parou no último degrau de entrada do prédio e observou o garoto com o cenho franzido, desconfiada e confusa. Se ele estava tão animado, como estava? Eles conversaram? Ele fez algo à ela? Bia balançou a cabeça para dispersar os pensamentos e andou com passos apressados até o grupo. A forma como encarava o guitarrista era de nítida e pura repugnância. Oras, ela havia avisado desde o início!
– Vejo que alguém acordou de mal humor. – Ben falou, ao ver Bia se aproximando.
Bia vira-se para o garoto, que sorria maroto. ainda estava no meio da aglomeração, tocando e cantando a todo som como se nada pudesse derrubá-lo.
– Dia ruim? – O garoto pergunta ao ver o olhar fulminante da ruiva na sua frente.
– Ruim vai ficar para o seu amigo!
Bia, ignorando os xingamentos e reclamações ao esbarrar-se com o pequeno público ao redor de , para em frente ao garoto com os braços cruzados. Ele mira a garota dos pés a cabeça e para de tocar ao violão, esperando qualquer reação de Bia. Ele sabia que era odiado por ela, a garota fazia questão de esclarecer sua repulsa por ele.
– Seja lá o que você queira com a , deixe-a! – Bia intimou.
colocou seu violão no case e cruzou os braços:
– Não sabia que era babá dela. – Ele diz sem importar-se com as pessoas em volta – O que acha que quero dela?
– Não seja idiota! Não deixarei que faça com ela a mesma coisa que vocês – ela aponta para Ben – tentaram fazer comigo. Aliás, não só comigo, mas com várias outras garotas do Instituto.
No momento em que Bia termina de falar, todas as meninas que estavam ali, assistindo à discussão, lançaram olhares matadores aos dois amigos, que sentiram o perigo subir à espinha deles. , num movimento rápido, coloca o violão em suas costas e puxa Bia pelo braço até um lugar mais reservado.
Ben engole a seco quando é deixado sozinho com todos os olhares letais em cima dele.
– Escuta – sussurrou, impaciente – Eu não estou mais nessa aposta idiota, se é o que está pensando.
– Não? O que quer dizer com isso? – Bia perguntou, cruzando os braços.
– Eu tinha, sim, desafiado Ben que teria algo com ela, só por diversão e grana. Mas… eu estraguei tudo. Eu perdi essa aposta, ok? Está feliz?
Bia olhou nos olhos de .
– Que merda… você gosta dela!
bufou e forçou o maxilar, sentindo-se nervoso.
– Eu avisei desde o início que namora e você não iria conseguir nada com ela.
– Ela é infeliz com esse babaca! – bravejou, referindo-se a Matthew.
não voltou para o quarto ontem… – Bia disse, ignorando tudo o que falava. – Estavam juntos?
– Como assim “não voltou”? – franziu o cenho e suspirou.
Bia o olha desconfiada.
– Ela saiu toda apressada na noite passada para falar com você sobre a merda que havia feito no bar. Hoje, acordei, e a cama dela estava do mesmo jeito, intocada. – Explicou.
desviou o olhar, lembrando-se da noite anterior. Respirou fundo:
– Talvez eu seja pior que o jogador de Rugby no fim das contas. – disse e, antes que Bia falasse, ajeitou o violão no ombro e começou a andar em direção ao prédio central.
[• • •]

Um mês para a Audição Musical. Terça-feira, 16h40.


estava sentada sob o banco do piano apenas olhando, pensativa, o enorme instrumento a sua frente. Suas mãos estavam apenas encostadas sobre as pesadas teclas, sem fazer som algum, um silêncio confortante recaia sobre a sala de prática. suspirou ao lembrar-se mais uma vez da música, do olhar, da sensação… Por mais que ela sentisse uma raiva misturada com mágoa e vergonha, os flashes daquela noite insistiam em martelar sua mente. martelava sua mente.
Desde aquele beijo inesperado, e não trocaram uma única palavra. O guitarrista até chegou a procurá-la para tentar conversar sobre o ocorrido, mas sempre que ele estava por perto, dava meia volta e começava a se afastar o mais rápido possível do garoto. Bia não tocava no assunto e Ben muito menos. Sobre Matthew… o que era uma relação distante e cheia de conflitos, agora estava quase apagada. não conseguia conversar direito com o namorado sem sentir o peso da sensação de culpa em seu peito, tinha medo dele perceber algo e começar mais uma discussão por causa de ciúmes. Apesar dela ter total noção de que ela não era culpada pelo o que havia feito… ela ainda assim sentia-se uma traidora. Por quê? Não era apenas o beijo que ocupava seus pensamentos, mas toda a sensação confusa que ela sentiu após sentir o contato tão próximo. Não era apenas raiva, mas tinha outra sensação querendo acender dentro de si. Um sentimento, não tão forte, que já estava ali e ela não sabia. E era esse sentimento que a fazia querer se afastar cada vez mais de e, agora, de Matt…
pressionou com força as últimas notas do piano, quebrando o silêncio em um som estrondoso e grave pela sala, dispersando o turbilhão de pensamentos.
– Nossa, eu espero que não toque desse jeito na Audição.
assustou-se ao ver Ben fechar a porta da sala.
– Vai usar a sala? – Perguntou, sem levantar do banco. Acompanhou com os olhos todo o caminho de Ben até o final da sala. Ele apoiou sua blusa em cima da carteira e tirou da sua mochila preta uma pasta com partituras.
– Acabei de reservar a sala. Disseram que não tinha ninguém nesse horário, mas posso esperar você terminar. – Ben disse, sentando em uma cadeira perto das grandes janelas e próximo ao piano de cauda, onde estava.
desviou o olhar de volta para as teclas pretas e brancas e suspirou:
– Vai treinar sozinho? – perguntou, sem olhar para o garoto, enquanto pegava as partituras em cima do piano e guardava na sua pasta.
– Pianistas não precisam de acompanhamento, lembra? – Ben disse com uma risada fraca. Ele levantou e foi até piano. – Vou praticar sozinho por enquanto, mas prometi ajudar com a música dele.
engoliu a seco e balançou a cabeça.
– Você toca violão ou guitarra também? – Ela perguntou, levantando-se e caminhando até a sua bolsa para guardar as partituras.
– Eu sei um pouco de violão, mas não é com isso que vou ajudá-lo. – Ben respondeu e sentou no banco do piano, onde estava. – Ele quer colocar um pouco de piano na música que ele vai apresentar. É uma música e tanto, devo admitir.
Ben começou a tocar o início de Lacrimosa, de Mozart. reparou na leveza do garoto ao pressionar as teclas.
– Acho que você vai gostar. – Ben disse, de repente. franziu o cenho, confusa. – A música que compôs, acho que você vai gostar. – Ele explicou, sem parar de tocar.
– Não estou interessada no que ele vai tocar ou não. – disse, ajeitando a bolsa de couro em seu ombro e andando em direção à mesma porta em que Ben havia entrado.
– Ei, ! – Ben chamou, parando de tocar ao piano para olhar a garota. – Ele é um idiota, mas é um idiota legal. Por que não resolvem tudo antes de todos nós voltarmos para nossas casas?
apertou o maxilar, sem saber como reagir ou responder. Ben voltou a pressionar as teclas do piano com um sorriso singelo no rosto.
– Não precisa perdoá-lo se não quiser, mas acho que vocês podem se arrepender se não resolverem essa coisa toda enquanto há tempo. – Ele disse e piscou para .
A pianista, sem dizer nada, saiu da sala com as palavras de Ben rodeando sua cabeça. Ela não sabia o que fazer e muito menos no que pensar. Ele estava certo, afinal de contas. poderia muito bem continuar ignorando e evitando até tudo acabar e ela finalmente voltar para seu pai, e Matt… mas se fosse embora com esse peso que ela sentia, não saberia como olhar Matthew, seu pai perceberia logo que algo a incomodava e iria enchê-la de perguntas até ela contar tudo.
– Eu não preciso perdoá-lo… – murmurou, pegando seu celular em sua bolsa.
[• • •]


"Podemos conversar? Estarei esperando na Grande Árvore"
leu a mensagem pela terceira vez seguida, enquanto caminhava em direção à Grande Árvore. O sol estava quase se pondo e as luzes do lado de fora do Instituto já estavam começando a acender, iluminando todo o local. sentiu o corpo arrepiar ao ser atingido por uma rajada de vento fria. Esfregou os braços, arrependendo-se por não ter pego uma blusa. Quando estava chegando ao local combinado, pensou em pegar seu celular mais uma vez para verificar se aquela mensagem era mesmo real e não uma pegadinha da sua mente, mas antes que o fizesse, sentiu outro arrepio no corpo, e não era por causa do frio. Ela estava lá, sentada e encostada no enorme tronco, usando os fones de ouvido.
estava esperando-o.
– Achei que não viria. – disse, tirando um lado do fone de seu ouvido.
– Achei que queria distância de mim. – respondeu a mesma altura, sentando-se ao lado da garota.
o ignorou e entregou um lado do seu fone para , que pegou sem entender nada. Arregalou os olhos brevemente, surpreso, ao ouvir a voz de Paul McCartney cantando Yesterday. Olhou para , confuso, na esperança de que ela fosse falar qualquer coisa ou, ao menos, bater nele. Nada. Ela olhava para frente, atenta à música.
– Eu não consigo olhar para você. – disse, surpreendendo . – Mas não quero voltar para casa com raiva de você, por mais que mereça.
– Eu…
– Por favor, não fala nada agora. – o cortou. engoliu a seco e apoiou os braços em cima dos joelhos. – Eu não consigo entender você e acho que nunca vou, mas quero que seja sincero comigo pelo menos desta vez…
, com o pouco de coragem que lhe restava, virou o rosto e olhou para . Seu coração bateu a mil ao receber o olhar de volta, como se ele estivesse dizendo que agora seria verdadeiro com a garota.
– Por que eu? – perguntou.
respirou fundo e tirou o fone de seu ouvido. fez o mesmo.
– Você quer a verdade? – fez que sim e continuou: – No início, você era apenas uma aposta.
– O que…
– Mas eu perdi essa merda de aposta. – disse, interrompendo qualquer reclamação de . – Você tem todo o direito de me odiar, me xingar, me bater ou ficar longe de mim, porque eu sou o maior idiota que você já conheceu.
– Você é o pior… – disse, sentindo os olhos arderem com as lágrimas que teimavam surgir.
– Eu sou o pior. – concordou e abaixou sua cabeça, desviando o olhar de . – Eu sou o pior, mas não quero ficar fora disso, .
– Do que está falando?
– Eu larguei essa aposta porque eu não queria ser como esse jogador de rugby. Não queria ser mais um que faria você chorar… mas eu fui ainda pior do que ele. – disse, apertando o punho, sentindo-se nervoso e tenso.
respirou fundo e piscou rápido para evitar que chorasse bem ali, na frente de .
– Por que me beijou naquela noite? – perguntou com a voz baixa, quase num sussurro.
– Eu não sei… – riu fraco e olhou para . – Ao mesmo tempo em que eu queria que você me odiasse, eu queria confirmar o que eu estava sentindo. O desafio era para EU conquistar você… não o contrário.
– Eu odeio você, . – disse, fazendo arregalar os olhos. Ela riu fraco. – Odeio por não conseguir entendê-lo; Odeio por se intrometer no meu relacionamento e na minha vida; Odeio por tudo o que você fez...
– Eu acho que já entendi…
– Eu também odeio por despertar sentimentos em mim que não são certos… – o interrompeu, diminuindo a voz quase num sussurro. apertou o maxilar ao ouvir.
A pianista respirou fundo e olhou para seus pés, nervosa e com medo de olhar para o garoto. Aquela situação e todo o bombardeio de sentimentos confusos estava sufocando :
– Eu sei que Matthew não merece o prêmio de melhor namorado do mundo… mas ainda assim é o meu namorado. – disse. – O que nós fizemos e o que eu sinto é errado...
abaixou o rosto, olhando para as folhas caídas no chão. Percebeu que a garota estava segurando algumas e amassando com a força e tinha. Um pouco hesitante, pousou sua mão sobre a dela, fazendo-a soltar as folhas quebradas e amassadas no chão. sentiu o corpo arrepiar ao sentir a mão fria de . Ela, então, olhou para as mãos quase entrelaçadas.
– Eu não mereço o seu perdão pela forma como isso aconteceu – disse, apertando levemente a mão da garota. Com a outra, levou até o rosto de , fazendo-a olhá-lo nos olhos. – Mas eu não me arrependo, porque sabe que no fundo, bem lá no fundo, você também queria.
respirou fundo, olhando os olhos azuis do garoto:
– Eu também te odeio por estar certo… – disse, fazendo o garoto sorrir de lado.
– Eu quero aproveitar o pouco tempo que temos neste lugar, mas… – disse, passando a língua entre os lábios. sentiu o coração acelerar. – Eu desafio você a dar o primeiro passo.


Capítulo 8

Eu me levanto de noite
E não tenho nada a dizer
Eu chego em casa de manhã
Vou para a cama me sentindo do mesmo jeito
Estou cansado, nada mais


Pela primeira vez, desejou não ouvir a voz de Bruce Springsteen. O garoto, sonolento, resmungou ao tatear pela cama à procura do seu celular que tocava insistentemente. Quando finalmente achou o aparelho, bufou ao ver o horário e o nome que aparecia na tela.
– Você não tem o que fazer? – atendeu, reclamando. – Quem em sã consciência fica acordado a essa hora da manhã?
levantou a todo custo da sua cama e saiu do quarto para não acordar o colega, que ainda dormia. Saiu sem se importar se estava apenas de camisa e com a calça do pijama. O garoto bocejou e sentou no chão do corredor, encostando seu corpo na porta do quarto.
– Você tem todo o tempo do mundo para dormir, não reclama. – A outra pessoa na linha disse, rindo fraco. – Cara, quando você volta para casa?
– Daqui duas semanas, por quê?
– Adivinha que banda vai tocar no próximo festival de inverno, com direito a palco, plateia e tudo o que você imagina!
levantou em um pulo, ansioso.
– Não me diga que…
– Isso mesmo que você está pensando: nós vamos tocar no festival de inverno de Londres, dude!
– Ah cara, eu não acredito! – comemorou, animado e sem conseguir tirar o sorriso do rosto.
– Cara, essa é uma oportunidade única. Acha que consegue vir para Londres?
mordeu o lábio pensativo.
– Eu preciso ir para Bolton primeiro. Vou passar uma semana com meu pai, resolver algumas coisas e então dou um jeito de ir o mais rápido possível para Londres.
– Sabe que temos um lugar pra você aqui, se quiser. Aliás, precisamos conversar melhor sobre a banda, os ensaios e… – A pessoa na outra linha fez uma pausa hesitante. – Você...
– Eu? O que tem eu? – perguntou, confuso.
– Bom, temos que achar um jeito de fazer essa banda dar certo e, para isso, precisamos de você. Ensaiar a distância não dá muito certo…
– Já entendi. – disse, pensativo. – Eu vou sair de Bolton e focar na banda, só preciso mais algum tempo.
– Só tente estar aqui a tempo de ensaiar pro festival. O resto vemos depois, beleza?
– Você é quem manda, chefe. – brincou, fazendo o outro na linha rir. – Agora me deixa dormir, cara.
– Sonhe comigo, docinho.
riu, enquanto entrava no quarto.
– Sai fora, isso seria um pesadelo.
– Até mais, !
– Até, .

[• • •]


andava pelos corredores do instituto perdida em pensamentos, até ouvir o som de piano invadir seus ouvidos. Ela olhou para trás à procura de onde teria saído aquele som e quem estaria tocando seu instrumento favorito. voltou alguns passos para trás e, quando descobriu de onde vinha a música, parou diante de uma sala. Era mais uma sala disponível aos alunos para praticarem. Pela vidraça, precisou apertar os olhos para que reconhecesse quem estivesse tocando ao piano; o som era abafado e ela não conseguia distinguir qual era a música tocada, mas devia ser uma música rápida por conta da precisão e movimentos agitados do tal pianista.
A garota aproximou levemente o ouvido sobre a porta na tentativa de ouvir melhor, e então reconheceu a música. Era Requiem de Mozart. Olhou mais uma vez pela vidraça e enfim pôde reconhecer quem era e surpreendeu-se ao ver que era Ben. Não imaginou que ele fosse capaz de tocar uma música como aquela, sabia que ele era bom e que tinha um grande potencial, mas vê-lo tocar com tanta paixão realmente deixou fora dos eixos.
Quando a pianista deu um passo para trás, não vira que duas meninas passavam por ela e acabou esbarrando em uma que ela já havia visto em algum lugar, mas não lembrava onde. As duas meninas ignoraram o pedido de desculpas de e passaram reto continuando a conversar. , então, revirou os olhos e tornou a olhar pela vidraça, até que algo na conversa daquelas meninas chamou sua atenção:
– Eu não quero tocar com ela! – A morena de cabelos curtos disse. tentou lembrar de onde a conhecia. – Não é justo a senhora Dovane me obrigar a ser acompanhante dela.
Senhora Dovane era a professora de piano da turma de e Ben, e, por ouvir o nome dela, reconheceu quem era a morena: Ellie, a dupla de Bia. Todos aqueles que tocavam instrumentos de corda, como o violino ou violoncelo, precisavam de um piano para acompanhar nas apresentações finais e Sra. Dovane fez questão de escolher os parceiros. Não havia muitos alunos que tocavam violino, violoncelo ou qualquer outro instrumento semelhante, então , Ben e um outro garoto de sua turma não iriam acompanhar ninguém.
cruzou os braços e seguiu Ellie e a outra garota com uns passos atrás, tentando não parecer que estava seguindo as duas, mas que estava apenas continuando a vagar pelo instituto.
– Qual o problema? – A outra garota, que definitivamente não conhecia, perguntou – Vai ser apenas uma apresentação idiota e rápida. Não entendo toda essa sua cisma com a garota.
– Não é cisma, é orgulho ferido.
– Tudo isso por causa de um garoto, pelo amor de Deus, Ellie.
franziu o cenho e parou quando as duas também pararam. A pianista encostou-se atrás de um enorme vaso com uma planta que podia escondê-la. Colocou o cabelo para trás da orelha para que conseguisse ouvir melhor a conversa.
– Você sabe o quanto eu gosto do Ben desde o primeiro dia de aula – arregalou os olhos e afastou um dos ramos da planta para ver as garotas – Sempre que penso em conversar com ele, lá está ela para atrapalhar. Uma intrometida.
– Sim, eu sei, mas isso não justifica que você tem que agir como uma adolescente imatura e estragar uma apresentação. – A amiga de Ellie disse. ouvia atentamente. – Esqueceu que a nota que vai para ela, também vai para você? Se estragar tudo para ela, você também sofre consequências, Ellie.
As duas garotas voltaram a andar, seguindo em direção à saída. continuou atrás da planta sem saber como reagir. Não podia acreditar que a acompanhante de Bia pretendia deixá-la sozinha numa apresentação tão importante e que seria em poucos dias. Agora ela entendia o porquê de Bia sempre procurar por para ensaiar - até Ben já ajudou a violinista nos ensaios.
– O que está fazendo?
, por pouco, não derruba o enorme vaso na sua frente quando, de repente, ouve uma voz atrás dela. Quando virou-se, seus olhos se encontraram com os de . Ele estava com um sorriso maroto no rosto e a sobrancelha arqueada, esperando alguma resposta da pianista.
– Eu... só estava olhando como esta planta... é bonita. – colocou a mão em um dos ramos verdes e brilhantes. Ela não sabia se devia contar a ele o que acabara de ouvir, estava confusa.
– Sabe que ela é artificial, não sabe? – Ele perguntou, segurando-se para não rir. – O que faz aqui a essa hora da noite?
– Eu só estava andando um pouco. Me distraindo.
olhou para a garota e sorriu.
– O que foi? – perguntou, sentindo-se incomodada.
– Vem comigo! – Sem esperar uma resposta, o guitarrista a puxou pela mão e seguiu em direção a um outro corredor.
não sabia para onde ele estava a levando. Os dois andavam em silêncio enquanto passavam por várias salas de aula, salas de prática e alguns estúdios, até parar diante de uma escadaria com uma porta de metal ao fim. imaginou onde levaria aquela porta, não protestou nenhuma palavra quando ele a olhou curioso e de forma engraçada, como uma criança prestes a fazer algo que não devia. Ele realmente parecia uma criança, pensou ela.
e subiram as escadas lentamente. O garoto, ao abrir a porta, sentiu seus olhos lacrimejarem com a rajada de vento que o atingiu, esfregou seus braços na tentativa de aquecê-los.
– Nunca tinha vindo ao terraço. – Ela disse enquanto ele colocava um tijolo no pé da porta para que não fechasse.
– Eu sempre venho aqui quando quero ficar sozinho ou pensar. – comentou.
– Como achou esse lugar? A vista é incrível! – apoiou-se sobre a mureta.
– Digamos que me trouxeram... – A pianista o olhou com o cenho franzido, confusa; em seguida, ela arregala os olhos e ri ao entender o que aquele maldito sorriso maroto queria dizer.
– Você é nojento!
– Ben me mostrou este lugar. – falou e riu ao notar o rosto da garota ruborizar – Quem pensa que eu sou? Claro, você não é a primeira garota que trago aqui, mas não se preocupe, não vou fazer nada.
nega com a cabeça rindo e o ignora, admirando a vista do terraço. Ela podia ver todo o conservatório, as luzes de prédios e casas acesas da vizinhança. fica na mesma posição que a pianista, porém, de costas para toda a vista que apreciava.
– Está nervoso para a Audição? – perguntou.
– Você está?
– Acho que estou mais nervosa para voltar pra casa… – ficou de frente para o garoto, colocando o cabelo atrás da orelha na tentativa de o vento não jogá-lo em seu rosto – Por que veio para Cleveland? – Perguntou, curiosa.
– Acredite ou não... não foi uma opção minha ter que estudar música em um lugar como esse. – Ele diz e olha para o céu escuro e nublado. – Eu sempre gostei de música, sabia que era isso o que eu queria para minha vida, mas o meu pai nunca me apoiou. Ele dizia que era algo insolente e sem futuro e, como todo empresário, eu devia seguir os negócios dele.
cruzou os braços e caminhou onde havia alguns tijolos e sentou sobre um deles. fez o mesmo e tentou equilibrar-se em cima deles. Precisou apoiar seu corpo para frente para que ficasse numa posição confortável. O guitarrista então olhou para a garota ao seu lado e continuou a falar, sua voz estava um pouco trêmula por conta do frio que sentia.
– Quando entrei para o colegial, minha mãe faleceu. Acidente de carro. – não soube como reagir quando o ouviu. de alguma forma estava calmo, como se fosse apenas uma informação, mas apenas ele podia sentir o peso sobre seu peito sempre que lembrava-se da mãe. Ele forçou um sorriso e olhou para . – Desde então meu pai tem ficado no meu pé e tem trabalhado cada vez mais, como se fosse uma distração. Quando descobriu que eu fazia parte de uma banda e que eu continuava a seguir um sonho que ele "abominava", eu achei que ele fosse ter um ataque cardíaco, juro.
riu ao lembrar-se do dia em que seu pai fizera tanto escândalo para algo tão "insignificante" aos olhos dele. O guitarrista não odiava o pai, apenas não queria dar a ele o que achava que era melhor para si próprio e não para .
– Então você está aqui para provar algo ao seu pai? – deduziu.
– Quase isso. Ele me mandou para cá. – O guitarrista levantou-se e estendeu sua mão para – Disse que se eu quisesse algo como música, que eu fizesse por merecer... ou algo assim.
pegou na mão fria do garoto e levantou-se, ficando de frente para ele. A única luz que havia naquele terraço era da pequena lâmpada acima da porta a qual vieram, mas foi o bastante para a garota reparar nos grandes e brilhantes olhos azuis de .
– Sinto muito pela sua mãe. – Ela falou. continuou a segurar a delicada mão da pianista.
franziu o cenho e, em seguida, olhou para as mãos entrelaçadas. Eles podiam sentir o mínimo calor que fazia com o toque. Como se fosse um ato de reflexo, o guitarrista a segurou mais firme e deu um passo a frente, diminuindo a distância entre eles. Seus olhos permaneciam fixos nas mãos juntas. Por outro lado, sentiu seu coração acelerar e o corpo perder, levemente, as forças que a mantinha em pé.
– Posso pedir uma coisa? – perguntou, com a voz baixa. respirou fundo e assentiu com a cabeça. – Depois da Audição, vamos sair. Só eu e você…
– Eu não sei, Daniel…
– Vai ser o nosso último dia aqui e… – fez uma pausa, pensando nas palavras. – Eu sei que você não acha certo, mas eu quero aproveitar o último dia com você. Eu não sei quando vou te ver de novo, ou pior, quais são as chances de nos encontrarmos de novo?
– O mundo pode ser pequeno às vezes – disse, olhando nos olhos do garoto.
– Só pensa nisso, ok? – disse e soltou a mão da garota, que olhou para baixo e sorriu.
Um milhão de pensamentos passavam pela cabeça de . Ela não queria admitir tão fácil, mas no fundo ela sabia que estava pronta para aceitar o pedido. Por que tinha que ser ele? Por que tinha que ser ela? O que era certo ou errado? já não sabia de mais nada…
– Eu vou pensar.

[• • •]

Três dias para a Audição


Na manhã da quarta-feira, e Bia acordaram, tomaram café e foram juntas para o teatro, onde iria acontecer as apresentações. Faltando poucos dias para a Audição, os professores começaram a levar suas turmas para praticar no palco, para familiarizar os alunos e deixar todos preparados para o grande dia. Bia foi uma das primeiras a ensaiar e desta vez Ellie apareceu, mas errou algumas notas. Ben também teve a chance de praticar e tocou perfeitamente. A vez de foi logo em seguida. Quando a garota saiu do piano e foi para a parte de trás do palco, percebeu que não estava ali para ensaiar. Na verdade, ela não o vira em nenhum momento do dia: nem no refeitório, nos corredores do instituto, na Grande Árvore e agora, no Teatro.
pegou seu celular e pensou em mandar uma mensagem para o garoto, mas seu corpo pareceu travar ao ver a última conversa com aberta. Ela não sabia o que escrever, ou pior, não sabia se devia, realmente, mandar uma mensagem. Desde quando ela se preocupa com ele? Se o guitarrista soubesse disso, com certeza iria vangloriar-se. bloqueou o celular e o guardou em sua bolsa, mas no mesmo instante ouviu o aparelho tocar e vibrar. A pianista atendeu na hora, sem ver quem era a pessoa que ligava.
– Alô?
– Oi, gatinha. Esqueceu de mim? – A voz de Matthew soou em seu ouvido. engoliu a seco, sentindo-se nervosa. – Alô? Está aí? – Matt perguntou.
– Sim, estou aqui! – respondeu, caminhando até a saída do Teatro. – Claro que não esqueci de você, por que acha isso?
– Faz um tempo que não conversamos. Queria ter certeza se você ainda lembra que tem um namorado. – Matt disse, rindo, com tom de brincadeira. não achou graça, pelo contrário, ficou ofendida e um pouco assustada com o pensamento do garoto.
– E por que eu não lembraria, Matt? – o questionou, parando em frente à enorme porta de vidro da entrada do Teatro. – Você é quem tem ignorado minhas mensagens e sempre diz estar ocupado quando eu ligo.
– Nossa, era só uma brincadeira, Ana… – Matthew disse com um tom sério. – Qual é, eu liguei para saber como estava e não para brigar.
suspirou, sem dizer nada. Aquela situação a deixava irritada e sem saber o que fazer. Ela não conseguia conversar direito com o próprio namorado, era uma sensação estranha que ela não sabia explicar e não conseguia evitar.
– Quando você volta para casa? – Matthew perguntou, tentando mudar o rumo da conversa.
– Segunda de manhã… – respondeu.
– Eu não sei se vou conseguir ir ao aeroporto com seu pai e , mas eu quero te ver na segunda. Seja a hora que for, eu quero te ver. – Matthew disse. fechou os olhos e respirou fundo. – Não podemos ficar desse jeito, .
– Conversamos melhor quando eu chegar, tudo bem? – disse, piscando os olhos rapidamente para evitar as lágrimas que queriam aparecer.
– Ana… – Matthew chamou com a voz baixa. – Eu te amo.
Droga. Aquilo era um teste, com certeza. Matthew estava esperando a vez de , mas a garota estava em silêncio, sem saber como reagir ou o que responder… ela não conseguia simplesmente falar que o amava também. As três palavras pareceram desaparecer de sua mente. estava hesitante e era isso que Matthew queria testar: ela o amava de volta ou não?
– Eu… preciso ir agora. – disse e desligou a chamada, sem esperar qualquer resposta do garoto.

Londres


Matthew afastou o celular do ouvido com os olhos arregalados, sem acreditar que havia desligado na sua cara. O garoto apertou o punho, frustrado. Era isso? não o amava mais? estava com outro? O último pensamento fez Matthew atacar o celular em direção a parede, quebrando a tela em vários pedaços.
Irritado e sem pensar em mais nada, Matthew saiu do quarto a passos pesados e apressados, fechando a porta atrás de si com toda a força que tinha.
– Que se foda, Cleveland! – Matt disse, assim que ligou seu Porsche vermelho.
Em 20 minutos, o garoto estava parado em frente a uma casa. Três campainhas depois, uma mulher alta e morena, com uma camisa de time, apareceu.
– Ah, é você…
– Não fala nada. – Matthew disse e puxou a garota para si, beijando-a com vontade e anseio. A mulher, sem reclamar, retribuiu na mesma intensidade, puxando-o para dentro de casa.


Capítulo 9

Quando o sol já estava se pondo e as luzes de fora do Instituto começaram a acender, Bia sentiu o frio na barriga aumentar, e também. Na verdade, todos - absolutamente todos - naquele lugar estavam com a mesma sensação de ansiedade e nervosismo, mesmo que pouco. Afinal, era a véspera do dia tão aguardado e decisivo para o futuro de muitos ali, inclusive de e Bia.
- Eu não acredito que daqui algumas horas estarei em cima de um palco de verdade, com várias pessoas me assistindo. - Bia disse rápido. sorriu, tentando esconder que estava tão ansiosa quanto a amiga. - Estou com medo de esquecer completamente a música, ou pior, como se toca violino!
riu enquanto as duas caminhavam até o prédio central, onde tinham reservado uma sala para ensaiarem mais uma vez suas músicas para apresentar no dia seguinte.
- Tenho certeza que vai tocar como nunca tocou antes. - incentivou e empurrou a enorme porta de vidro do prédio. - Aliás… - A pianista suspirou, pensativa. - Como tem sido os ensaios com Ellie?
Bia sorriu de canto e deu de ombros. - Parece que ela se tocou que somos uma dupla nesses últimos dias e está aparecendo mais nos ensaios. - Bia mordeu o lábio levemente. - Mas… sinto que ainda não estamos em sintonia com a música. Ontem ensaiamos praticamente o dia todo e ela errou várias notas. Ellie é minha acompanhante, e se ela errar, eu também erro no violino…
Apesar da ansiedade em tocar para uma plateia pela primeira vez, Bia estava com medo de Ellie colocar tudo a perder. A garota não queria colocar a culpa em cima da dupla, mas oras, enquanto Bia ensaiava dia e noite com , Ben e às vezes sozinha, ela não fazia ideia de onde Ellie poderia estar para ajudá-la nos ensaios.
abaixou a cabeça, olhando para os pés ao lembrar-se do que Ellie havia dito sobre Bia. Quando a pianista pensou em contar tudo para a amiga, Ellie começou a aparecer mais nos ensaios. , então, acreditou que a ideia de abandonar Bia na apresentação havia sido deixada de lado. Afinal de contas, não era uma simples “prova” que daria uma nota boa para cada uma, na verdade, era uma apresentação muito importante para quem realmente queria encontrar e seguir uma carreira na música. Por esse motivo que , Bia e até mesmo foram para Cleveland.
Quando as garotas cruzaram o corredor do primeiro andar do prédio, sente o celular vibrar em seu bolso, tirando-a dos devaneios. Ao pegar o aparelho, a pianista sorri ansiosa ao ver o nome de na tela. Antes que pudesse atender, Bia disse que iria na frente para confirmar se não havia ninguém na sala que tinham reservado. balançou a cabeça em afirmação e, sem hesitar, atendeu a chamada.
- ! - atendeu animada. - Nunca pensei que ficaria tão ansiosa para falar com você!
A pianista sorriu ao ouvir a risada fraca de . Olhou para os dois lados do corredor em que estava. Havia apenas um garoto no final do corredor e Bia, um pouco mais a frente, olhando pela vidraça de uma sala. encostou seu corpo na parede e suspirou.
- Ah qual é, você não vive sem mim! - disse, rindo. - Como estão as coisas em Cleveland? - Perguntou, com a voz um pouco mais séria agora.
- Uma correria com a apresentação de amanhã, mas está tudo bem. Acho que hoje vai chover. - respondeu e olhou para a sapatilha preta que calçava. - E aí... O pai está bem?
- Aquele velho está ótimo! - disse. riu ao ouvir a voz do pai reclamando no fundo.
- Estou com saudades. Mal posso esperar para ver vocês! - mordeu o lábio e fez uma pausa. - … - Chamou o irmão, com a voz baixa.
- Escute, , eu preciso te contar uma coisa… - a interrompeu. sentiu o coração bater mais rápido e o corpo enrijecer. - Você tem falado com Matt? - Perguntou de repente.
franziu o cenho e olhou mais uma vez para cada lado do corredor. Não tinha ninguém.
- Nesses últimos dias? Muito pouco… Trocamos algumas mensagens a noite, mas nada muito além disso. - Respondeu a pianista. - Por que essa pergunta, ? Ele está bem?
forçou uma risada fraca. - Quando eu quebrar a cara dele, não vai ficar nada be...
- Ei, querida, precisa me ajudar com algumas coisas aqui. - , de repente, ouviu a voz do pai, que tirou o celular da mão do irmão. - Estou com saudades! Arrasa amanhã na audição!
- O que está acontecendo? - perguntou, começando a andar pelo corredor.
- Nada para se preocupar, querida. Você tem uma apresentação amanhã e precisa descansar, não é? - John, o pai de , disse na tentativa de tranquilizá-la. - Quando chegar em casa, nós conversamos melhor… tudo bem?
olhou mais uma vez para o corredor, e no fim dele estava , sorrindo e conversando com uma garota. Suas mãos tremiam e seu coração continuava a bater rapidamente.
- Tudo bem… - respondeu, desanimada e preocupada.
Não estava tudo bem. O que era aquilo? Por quê queria “quebrar a cara” de Matthew? começou a sentir-se enjoada com tanta ansiedade, nervosismo, e agora preocupação. Deu meia volta e começou a andar em direção à saída do prédio.

[• • •]


, ao longe, pôde ver ao telefone. Ela estava séria, com o olhar perdido. Pensou que poderia estar falando com Matthew mais uma vez. Não demorou muito para que desligasse a chamada e começasse a andar para o lado oposto da sala onde Bia estava. Franziu o cenho, desconfiado.
- Que merda… - disse para si mesmo.
- O que? - A garota à sua frente questionou. Por um segundo, havia esquecido que estava conversando com outra, bem na sua frente. O guitarrista não disse mais nada, apenas tocou em seu ombro e pediu licença.
passou pela sala onde Bia estava. Olhou pela vidraça e lá estava ela tocando ao violino, provavelmente também esperando por . O garoto apertou os passos e seguiu o mesmo caminho que a pianista.
- Para onde você foi? - Perguntou em voz baixa, quase inaudível.
Quando já estava do lado de fora do prédio, sentiu pequenas gotas o atingirem. Já era noite e estava garoando. No momento em que pensou em voltar para dentro e apenas mandar uma mensagem para a garota, pôde ver uma silhueta encostada na Grande Árvore. sentiu um frio na barriga, lembrando-se da mesma cena que o fez querer desistir da aposta. Quando chorava como uma criança, encolhida sobre a mesma árvore em que estava agora. Desta vez, não a ignoraria. Sem importar-se com a fina garoa, caminhou até a garota e sentou do seu lado, assustando-a com sua presença repentina.
- Vai ficar resfriada se continuar na chuva. - disse, enquanto sentava.
- Você é quem devia se preocupar com a chuva… eu só toco piano, não canto. - respondeu sem olhar para o garoto.
- Tem razão. Se eu acordar sem voz amanhã, vou me lembrar de você. - respondeu com um sorriso maroto no rosto. Seus olhos percorriam o rosto e o longo cabelo moreno de , que começava a ficar molhado.
- Não chamei você aqui e nem o estou obrigando a ficar.
- Ouch… vou lembrar disso também.
- O que você quer, ? - perguntou, olhando o garoto nos olhos pela primeira vez no dia.
- Nosso acordo ainda está de pé amanhã? - perguntou. o olhou confusa, como se não soubesse do que ele falava. abaixou a cabeça e riu. - Depois da audição… vamos sair?
- Ah, isso…
- Não me diga que vai me deixar na mão amanhã. - sorriu, maroto.
- Eu… não estou com cabeça para isso agora, , me desculpe. - voltou a olhar para frente, piscando algumas vezes por conta da chuva que caía em seu rosto.
Um silêncio entre os dois se assolou. O único som que ouviam era da água caindo do céu e batendo no chão. Não era um silêncio desconfortável, na verdade estava até bom. Principalmente para , que não conseguia parar de pensar em Matt, no que havia falado e o que seu pai estava escondendo. Algo tinha acontecido e não sabia o que era. Matt e haviam brigado, depois de anos de amizade? Matthew falou algo de para ? Ele queria terminar de vez com a garota?
- Ei… - chamou, tirando a pianista dos devaneios. olhou para , que ainda estava ali fazendo companhia para ela, mesmo na chuva. O garoto levantou-se e estendeu a mão para . - Quero te mostrar uma coisa.
- Outro lugar secreto do Instituto? - perguntou, lembrando-se do terraço.
riu e negou com a cabeça, esperando pegar em sua mão. Ela, hesitante, segurou em sua mão, gelada por conta da chuva e do vento, e o seguiu para dentro do prédio novamente. Estavam completamente encharcados, molhando todo o hall de entrada enquanto andavam. pediu desculpas para um dos faxineiros que mandou um olhar de desaprovação quando passou por eles.
- O que vai me mostrar? - perguntou ao entrarem em uma sala com um piano de cauda preto e outros instrumentos de corda.
balançou a cabeça, jogando alguns pingos de água do cabelo em que riu e se afastou. O garoto andou até o piano e sentou no banco.
- Uma coisa.
- Uma coisa? - perguntou, curiosa, também sentando-se no banco do piano.
, então, começou a tocar algumas notas que não conhecia. Sorriu, prestando atenção nos dedos do garoto ao apertarem as teclas levemente.

Algumas pessoas riem
Algumas pessoas choram
Algumas pessoas vivem
Algumas pessoas morrem


sentiu a pele arrepiar ao ouvir a voz de . Já o ouvira cantar várias vezes aos arredores do Instituto, sempre com uma miniplateia do lado, mas nunca assim tão perto. Sua voz era um pouco rouca, o ritmo da letra e da melodia no piano era uma mistura de suavidade e peso, que não sabia explicar. Como sempre, fechou os olhos para dar toda sua atenção ao piano e à voz de .

Algumas pessoas correm direto para o fogo
Algumas pessoas se escondem de seus desejos
Mas nós somos os amantes
Se você não acredita em mim
Então olhe dentro dos meus olhos
Porque o coração nunca mente


abriu os olhos devagar, sentindo a pele se arrepiar cada vez mais. Agora, não sabia mais se estava sentindo frio por conta da chuva que tomou ou se era seu corpo respondendo aos efeitos da voz de e da letra. Quando o garoto cantou aquele último verso, ele olhou para a pianista, curioso para saber como ela estava reagindo à música. Sorriu satisfeito ao notar um pequeno sorriso nos cantos do lábio de .

Algumas pessoas lutam
Algumas pessoas caem
Outras fingem não ligar para nada

Se você quiser lutar
Eu ficarei ao seu lado
No dia que você cair
Eu estarei bem atrás de você


mordeu o lábio e olhou para as teclas que eram apertadas, ainda curiosa com as notas, melodia e letra. “O coração nunca mente”, mas até que ponto pode-se confiar nele? A pianista questionou em sua mente, tentando lutar e entender por que o seu coração teimava a ficar agitado ao lado do guitarrista. Logo ele, que mal conhecia, é completamente diferente dela e, mesmo tendo usado como aposta, conseguia ocupar sua mente e fazê-la sentir como se fosse uma adolescente.
- Eu ainda não terminei de compor… - disse, afastando as mãos do piano.
- É uma linda música. - admitiu, passando seus dedos sobre as teclas brancas e pretas, sem tocá-las.
- E não é nenhum Chopin, Liszt ou qualquer outro nome difícil de pronunciar.
riu e empurrou o garoto de leve com o ombro.
- Você está bem? - perguntou, sem tirar os olhos da garota ao seu lado.
apertou uma das teclas agudas, demorando para responder. Engoliu a seco e fez que sim com a cabeça.
- Só com saudades de casa, nada de mais. - Respondeu, tentando parecer convincente.
- Posso te fazer uma pergunta?
- Acabou de fazer, mas pode fazer outra. - sorriu e olhou para o garoto.
- Acha que… podemos nos ver mesmo depois que formos embora de Cleveland? Eu posso visitar você e…
- , você sabe que eu nam…
- Você namora, eu sei! - a interrompeu, engolindo a seco. - Mas ainda podemos ser amigos, não é? Quem sabe eu não te chamo para tocar na minha banda, hã? - brincou e riu, sentindo-se nervosa.
- Consegue me imaginar em uma banda? - perguntou, sarcástica.
- Ah qual é, podemos compor músicas fodas no piano e violão. - respondeu em tom de brincadeira. O garoto fez uma pausa e aproximou sua mão da dela nas teclas do piano. sentiu o corpo arrepiar novamente, agora com o toque. - Eu não consigo aceitar que depois de amanhã não vamos mais nos ver ou discutir seu gosto peculiar por música.
desatou a rir e olhou mais uma vez para , sem tirar a mão do piano.
- Eu não achei que fosse ser assim, mas… eu também não consigo tirar você da cabeça. - continuou a falar, ousando aproximar um pouco seu corpo de . - Me frustra saber que não posso fazer nada, porque você namora alguém que te faz chorar sempre que liga.
respirou fundo e engoliu a seco, sentindo seu corpo, involuntariamente, responder pelo perfume amadeirado do guitarrista, pela aproximação e pelas palavras que dizia. A pianista não queria magoar Matthew e tinha medo de como ele poderia reagir se soubesse, ou desconfiasse, que ela estaria tão perto de outro homem, como .

Você não está dizendo nada
Mas seus olhos falam


disse, ou melhor, cantou, de repente.
- O que? - perguntou sem entender.
O guitarrista, então, colocou sua mão sobre a de no piano e aproximou seu rosto do dela, tocando levemente os narizes. A respiração dos dois estava descompassada. não conseguia encontrar forças para se afastar, como da última vez.
- Se você não quiser, é só me empurrar. - disse em um sussurro. - Se você quiser… feche os olhos.
A pianista engoliu a seco, sentindo um calor que ela não sentia há tempos. Aquilo não era certo… sabia que não era certo, mas o que ela queria? Nada mais ocupava sua mente a não ser aquele momento. Não pensava mais se iria bem ou não na audição de amanhã, em Bia, no Pai, em … em Matt. Só o calor e ansiedade daquele momento rodeavam sua mente e seu corpo. , então, fechou os olhos lentamente, sentindo o coração bater tão rápido, que no fundo estava com medo de desmaiar.
não acreditou ao ver fechar os olhos. Com a outra mão, afastou uma mecha do cabelo úmido da garota e olhou por mais um tempo o rosto delicado de . Os olhos fechados, a boca entreaberta e a respiração ofegante, tudo nela encantava o guitarrista de uma maneira que ele até então não havia sentido com outra garota antes. passou a língua entre os lábios e encostou nos da pianista, beijando-a devagar, com medo dela empurrá-lo de repente.
Diferente da última vez, não queria sair dali. No momento em que os lábios de tocaram os seus, sentiu o corpo todo arrepiar. O beijo começou com selinhos leves, tímidos e temerosos, mas aos poucos foi intensificando ao mesmo tempo em que a chuva no lado de fora ficava mais forte, abafando até mesmo a respiração ofegante dos dois. Eles queriam mais. Queriam sentir um ao outro, aproveitar aquele momento para descobrir o que realmente sentiam, esclarecer as dúvidas e vontades. Não importava mais saber se aquilo era certo ou errado, queriam apenas sentir o toque um do outro.
levou uma de suas mãos para a nuca da pianista, enquanto a outra puxava-a para mais perto de si, fazendo-a subir em seu colo sem quebrar o beijo. estava de costas para o piano, envolvendo seus braços em volta do pescoço de para equilibrar-se. O garoto passou a distribuir selinhos da boca ao colo da pianista, que se arrepiou com o toque e agarrou, levemente, o cabelo de . Os dois estavam embriagados com toques, carícias e beijos um do outro, mas quando colocou as duas mãos por dentro da camisa da garota, enrijeceu e se afastou um pouco.
- Está tudo bem? - perguntou, preocupado, olhando nos olhos da garota em seu colo.
- Eu… acho que estamos indo além do que devíamos… - respondeu com a voz baixa, desvencilhando-se do garoto, envergonhada.
- Ah, me desculpe… eu… - passou a mão no rosto, também constrangido, e levantou.
- Tudo bem! - disse passando a mão em seu cabelo e em sua roupa, na tentativa de ajeitá-la. - Já está tarde e logo esse prédio vai fechar. Precisamos descansar para amanhã, não é? - forçou uma risada.
olhou nos olhos da pianista e respirou fundo. - Está tudo bem mesmo? Digo… entre nós. - Perguntou.
- Não acho que vou conseguir esquecer do que aconteceu tão cedo… - respondeu, olhando para baixo e rindo fraco. - Promete não contar para ninguém?
sorriu de canto e assentiu com a cabeça, ainda atônico pelo o que acabou de acontecer. - Não vou contar a ninguém.
sorriu agradecida e foi até a porta por onde haviam entrado antes.
- … - chamou. virou-se para o garoto, sentindo as bochechas ainda vermelhas. - Espero por você amanhã depois da Audição.

Capítulo 10

NOTA: Este capítulo tem bastante música. Caso queira ter uma imersão maior com as cenas, e entrar no clima, sugiro abrir a música no youtube e ouvir enquanto acompanha o capítulo.
A primeira música é Song From a Secret Garden: https://www.youtube.com/watch?v=_7IuTmy1I-8
A segunda música é Clair de Lune, de Debussy: https://www.youtube.com/watch?v=XkgyOZxIw0k
A terceira, e última música, é I Dare You To Move, de McFly: https://www.youtube.com/watch?v=UU6VOlI4znM



- Ah, aí está você. Fiquei esperando por você na sala - Bia reclamou, assim que viu fechar a porta do quarto. Franziu o cenho ao vê-la com os cabelos e roupas molhadas. - Onde estava? - Perguntou.
tirou os sapatos e foi direto para o banheiro do quarto, com Bia em seu encalço.
- Precisava tomar um ar. Perdi a noção do tempo, desculpe. - explicou, tentando parecer convincente. Seu coração ainda teimava em bater rápido.
- Tomar um ar… ou chuva? Está toda molhada. - Bia reparou, não acreditando na amiga.
encostou-se na pia do banheiro, de frente para a ruiva, e respirou fundo.
- Acabei pegando chuva no caminho para cá, só isso. - A pianista desviou o olhar e começou a tirar sua camisa, sem importar-se com a presença de Bia. - Eu preciso tomar um banho quente antes que eu pegue um resfriado. Desculpe se te deixei esperando…
Bia forçou um sorriso, como se ainda estivesse desconfiada, e assentiu com a cabeça. A garota saiu do banheiro e fechou a porta, deixando sozinha com os milhares de pensamentos e sensações que rodeavam sua cabeça. O que tinha acabado de acontecer? Como vai encarar Matt, agora? Devia contar a verdade para ele ou fingir que nada aconteceu? Como vai encarar daqui há poucas horas? A pianista não sabia quanto tempo estava ali, debaixo do chuveiro, apenas sentindo a água morna escorrer em seu corpo, junto com as dúvidas e anseios em sua mente.
Na verdade, sentia-se como a composição de Gustav Holst, Os Planetas, e estivesse entre o 4º e 5º movimento da música. Transitando entre Júpiter e Saturno… entre e Matthew. Júpiter é uma dança, sensação de alegria e poesia. Saturno é sombrio e uma montanha-russa de sensações e lembranças do passado... Saturno era Matthew.
- O que eu fiz?
[...]

Sexta-feira, 14h30. O dia da Audição.


Londres…


Faziam exatos 10 minutos que Matthew estava parado em frente à casa de e sem coragem de tocar a campainha. O garoto não estava com coragem de olhar na cara do melhor amigo e muito menos de falar com a namorada, que voltaria para casa no dia seguinte. Que merda, por que estou com medo?, pensou. Matthew respirou fundo e finalmente apertou a campainha. Não demorou muito para que um homem de cabelos grisalhos aparecesse na porta. Era John, pai de e .
- Ei, Sr. … - Matthew tentou ser educado, mas não conseguiu tirar um sorriso de John. O garoto pigarreou. - está? Preciso falar com ele…
- Ele está, mas não sei se é uma boa hora para conversar. Aliás, não sei como ousa aparecer aqui. - John disse em tom sério e nervoso. Antes que ele fechasse a porta, Matthew o chamou.
- Espera! Eu sei que fiz merd… quer dizer, eu sei que errei. - Matthew disse, sentindo-se nervoso e impaciente ao mesmo tempo. - Só me deem uma chance para explicar e resolver isso.
- Quem está aí? - apareceu ao lado do pai. Quando viu quem era, sentiu o sangue subir à sua cabeça. - Deve ter muita coragem para vir até aqui depois do que fez.
- Eu só quero uma segunda chance para pelo menos me explicar. - Matthew disse, tão sério quanto .
- Você traiu a minha irmã enquanto ela está do outro lado do mundo. Quer explicar como conseguiu fazer isso? Porque eu posso ouvir enquanto quebro sua cara. - bravejou, sendo segurado pelo pai para não ir até Matt.
- Ela só está a algumas horas daqui… - Matthew disse e ameaçou, mais uma vez, ir para cima do jogador, que deu um passo para trás em reflexo. - Eu estava fora de mim. Amo a e não quero perdê-la por uma burrada minha. Também não quero perder a amizade de anos que tenho com você, cara.
- Pensasse antes de fazer a merda. Quando vi você saindo da casa daquela mulher e ainda a beijando, quis contar para na hora. - contou, dando passos lentos até o garoto. John estava logo atrás para segurar o filho. - Só não contei porque meu pai me impediu. Não era certo estragar o dia e a apresentação dela por culpa sua.
Matthew engoliu a seco, apertando os punhos enquanto via o amigo se aproximar. Não queria brigar com e muito menos bater nele.
- Ela vai voltar para casa amanhã… - continuou, parando a poucos passos de distância de Matthew. - Eu não vou contar nada sobre isso.
Matthew soltou a respiração, sentindo-se aliviado por um momento. - Obrigado, cara, eu…
- Você vai contar. - disse em prontidão. - Se você não tem coragem, ao menos seja homem o suficiente para deixá-la em paz. Se você contar, vai decidir o que é melhor para ela. Se não contar, então fique longe dela. - sussurrou a última parte no ouvido de Matthew, que engoliu a seco, sentindo a pulsação acelerada.
Matthew, sem dizer absolutamente nada, viu e John voltarem para dentro de casa. O garoto fechou os olhos e respirou fundo, tentando se acalmar e digerir o que havia falado.
- Merda! - Matthew deu um soco na mureta em frente à casa de . Ignorou o sangue e a dor que começava a surgir no punho de sua mão, e pegou o celular em seu bolso.
[...]


Cleveland…

Eram 18h35 e já estava vestida para a apresentação, que começaria em 25 minutos, no Teatro principal do Instituto. A pianista usava um vestido azul marinho e longo, que cobria sua sandália prata. preferiu deixar os cabelos soltos, com apenas uma presilha ao lado do cabelo que combinava com os sapatos e dava um brilho diferente e delicado no visual. A maquiagem não era muita, apenas um gloss vermelho e rímel nos olhos.
A pianista estava sentada em sua cama, esperando por Bia, que fazia a maquiagem no banheiro. não conseguia tirar os olhos do celular e da notificação de mensagem na tela:

“Estou ansioso para ver você amanhã. Precisamos conversar sobre algumas coisas… pode passar na minha casa amanhã à noite? Te amo <3” - Matthew.

recebeu a mensagem enquanto ensaiava sua música para a Audição, mais de 3 horas atrás. Não conseguia abrir e nem responder o namorado. Sempre que desbloqueava o celular, suas mãos travavam e sua mente apagava tudo o que ela queria dizer ao garoto. Os dois realmente precisavam conversar sobre algumas coisas, mas o que ele queria dizer a ela? O que ela deveria dizer a ele? Quando pensava nisso, automaticamente um guitarrista de olhos azuis invadia seus pensamentos, tirando sua coragem de responder uma simples mensagem a quem ela dizia amar.
- Eu sou uma pessoa horrível. - sussurrou para si mesma.
- Eu estou horrível?! - Bia perguntou exasperada. olhou assustada para a colega, que vestia um vestido como o da pianista, só que vermelho escuro, como seus cabelos.
- O que? Claro que não, estava falando de mim. - riu da confusão de Bia, que agora olhava-se no espelho e fazia poses engraçadas. - Está linda. - disse sincera, sorrindo.
- Não estou muito chamativa? - Bia perguntou, preocupada.
- Relaxa, o vestido e a maquiagem ficaram ótimos em você. As cores combinam com seu cabelo e também com o violino.
- Espero que o vestido de Ellie não seja vermelho, senão vamos parecer duas salsichas. - e Bia se entreolharam e começaram a rir, comparando o visual de cada uma no espelho atrás da porta.
Depois de alguns minutos, as garotas chegaram ao Teatro com suas partituras, e Bia com seu violino no ombro. O palco tinha apenas um piano de cauda à esquerda e um pouco mais para o fundo, uma bateria com o logotipo do conservatório em um dos tambores. Algumas pessoas já ocupavam os assentos da “plateia”. Nos primeiros bancos, ficariam professores e avaliadores das apresentações. Quando e Bia chegam nos bastidores do palco, junto de outros alunos e organizadores do evento, o frio na barriga começa a aumentar e o coração a acelerar, ansiosas para a apresentação.
- Uau, quem são essas gatas? - Ben apareceu, abraçando e Bia pelos ombros.
O garoto também estava com um traje social, vestindo terno preto e gravata vermelha no mesmo tom do vestido de Bia, que o olhou dos pés à cabeça, surpresa em como Ben ficava bem em roupas assim. A garota balançou a cabeça, tentando deixar o pensamento de lado, e se afastou de Ben.
- Nada para você, querido. - Bia disse, sorrindo. negou com a cabeça e olhou em volta. - Viu Ellie por aí? - Perguntou.
- Última vez que a vi foi durante o almoço. Ela deve estar chegando. - Ben disse despreocupado, ajeitando a gravata.
- Vou procurar por ela antes que as apresentações comecem. - Bia avisou e começou a andar à procura de Ellie, deixando Ben e sozinhos.
- Então… - Ben começou. - Como estão as coisas com ? - Perguntou.
olhou para o garoto, sentindo as mãos tremerem. - Estão bem, por que? Ele falou alguma coisa? - Perguntou com a voz um pouco esganiçada. Ben riu.
- Ele não me falou nada, mas hoje de manhã ele não parava de sorrir. Parecia um idiota. - Ben comentou, fazendo rir e ficar com as bochechas vermelhas. - Ele também me pediu alguns favores…
- Favores? - perguntou, confusa. - Que favores?
- Atenção todo mundo! - Um dos organizadores, com um rádio no ouvido e uma prancheta na mão, chamou.
- Ah, olha só, acho que já vai começar. - Ben disse e foi para perto da turma, deixando sozinha.
- Espera, Ben! - A pianista tentou chamá-lo em vão. Negou com a cabeça e se aproximou da turma também. Olhou em volta novamente, entre as pessoas.
- Eu não sei onde Ellie está! - Bia apareceu de repente, com os olhos arregalados e respiração ofegante. - O que eu faço? - Perguntou desesperada.
- Já tentou ligar para ela? - perguntou, também preocupada pela amiga.
- Já, ela não atende! - Bia respondeu, pegando em seu celular novamente. - Não aparecer nos ensaios tudo bem, mas agora?!
não queria acreditar que Ellie realmente iria deixar Bia sozinha, como havia dito semanas atrás. A pianista realmente pensou que a garota tinha mudado de ideia, mas pelo visto não! Quando abriu a boca para avisar a amiga, o organizador da Audição que segurava uma prancheta nas mãos, chamou o nome de Bia e Ellie. A ruiva arregalou os olhos, sentindo o corpo tremer cada vez mais.
- Depois da apresentação de abertura, vocês são as próximas. Estão prontas? - O homem perguntou, enquanto olhava a prancheta.
- Minha dupla ainda não chegou… - Bia disse com a voz embargada.
- Bom, ela tem… - O homem olhou para o relógio em seu pulso e depois para a prancheta novamente. - Exatamente 4 minutos para chegar. - Ele avisou e começou a passar as instruções para os próximos alunos que iriam se apresentar, logo após Bia.
- Ela vai chegar! - tenta acalmar Bia, mesmo sabendo que era inútil.
Bia não falou absolutamente nada durante os minutos restantes que ela tinha. Neste pouco tempo, ela não tirou os olhos da entrada do Teatro, na esperança de ver Ellie correndo porque se atrasou arrumando o cabelo. Nada. Ela não apareceu, nem ligou.
- Eu vou matar essa garota. - Bia disse entre dentes, com os olhos marejados.
- Bianca e Ellie? - O organizador chamou novamente. Bia fechou os olhos por alguns segundos, respirou fundo, e foi em direção ao homem. - Onde está sua acompanhante? - Perguntou.
- Ela não chegou…
estava um pouco mais atrás, olhando para Bia, que apesar de tão bela no vestido e maquiagem, não parecia estar feliz. Olhou entre as pessoas novamente, na tentativa inútil de encontrar Ellie. De repente, ouviu o som de palmas. Voltou a olhar para Bia, e arregalou os olhos ao vê-la que estava sozinha com seu violino. Ela tremia. A pianista sentiu seu coração apertar ao vê-la no centro do palco daquele jeito, sozinha e nervosa, depois de tantos ensaios. Sem pensar duas vezes, começou a andar em direção a ela, mas foi interrompida por outra pessoa que passou na sua frente.
Bia, com os olhos marejados, não conseguiu segurar o sorriso ao ver Ben sentar no banco do piano e começar a tocar as primeiras notas de Song From A Secret Garden. Assim como , Ben também ajudou Bia várias vezes nos ensaios e sabia a música de ponta a ponta.
- Por essa eu não esperava.
olhou para o lado e ficou surpresa ao ver ao seu lado, que também vestia um traje social, mas despojado, com a guitarra pendurada em seu ombro. De alguma forma, achou engraçado e estiloso ao mesmo tempo. A garota mordeu o lábio e voltou a olhar para a performance de Bia e Ben, que tocavam lindamente.
- Pensei que não iria aparecer hoje também… - disse. - Achei que tinha pegado um resfriado.
- Isso quer dizer que sentiu minha falta? - perguntou, com um sorriso maroto. o ignorou, sentindo as bochechas ruborizadas. olhou para a garota, agora sério. - Está arrependida? - Fez outra pergunta.
olhou para os olhos do garoto, sentindo o coração acelerar ao ter feito isso. Antes que pudesse responder qualquer coisa, ouviu as palmas eufóricas da plateia, assim que Ben e Bia terminaram de tocar. manteve os olhos fixados no guitarrista, mas sem dizer nada. Ela mesma não sabia o que sentia ou se estava arrependida ou não pelo o que havia acontecido. No entanto, apesar de confusa, ela precisava admitir que no fundo, bem no fundo, sentia falta do mesmo calor que sentira na noite passada… com .
- Espero que isso seja um não… - disse e aproximou seu rosto do de , que prendeu a respiração. - Eu daria tudo para continuar de onde paramos. - Sussurrou e, com um sorriso de canto, se afastou da pianista.
soltou a respiração e olhou para baixo. Pegou em seu celular e olhou para a mensagem de Matt novamente. Sentiu vontade de chorar, mas não chorou. Ela não queria magoar Matthew, afinal, antes de ser um namorado, também era um amigo de infância. ainda o amava… mas não com o mesmo amor. E o pior de tudo era que, apesar de pouco tempo, de alguma forma sentia algo por . Algo que ela não sabia exatamente o que era, mas o sentimento estava ali e dava sinal sempre que chegava perto do garoto.
- O coração nunca mente… - murmurou para si mesma.
[...]


Depois de algumas apresentações no piano, violino, canto e outros instrumentos, o nome de finalmente foi chamado. Era sua vez. A garota respirou fundo e caminhou em direção ao piano de cauda preto. Sentiu seu corpo esquentar ao ouvir as palmas da plateia no momento em que apareceu. soltou um longo suspiro, na tentativa de deixar a ansiedade de lado, e sentou-se no banco do instrumento. Ajeitou as folhas da partitura de “Clair de Lune” à sua frente e pousou, lentamente, suas mãos nas teclas brancas e pretas.
Fechou os olhos e lembrou da primeira vez que tocou um piano na vida. Não sabia tocar absolutamente nada e mal conhecia as 7 notas musicais, mas foi amor à primeira vista. Hoje, com certeza, não viveria sem música ou sem piano. abriu os olhos para ler a partitura e sorriu ao sentir o peso das teclas e a suavidade do som naquele Teatro. Seu corpo balançava conforme a melodia. Enquanto tocava, pensava em todos os 365 dias que passou no conservatório. Pensou em sua carreira na música. Pensou em seu pai e , que finalmente os veria depois de um ano longe. Pensou no amanhã… o dia em que teria que se despedir de Bia, de Ben. O dia em que se despediria daquele que conseguiu, em pouco tempo, mudar sua mentalidade quanto à música - iria adorar saber que a irmã agora gosta de Beatles. teria que se despedir do guitarrista que não suportava e acreditava ser o centro das atenções, aquele que a fez rir, chorar e sentir raiva. Aquele que, de alguma forma, mostrou a verdade quanto ao que realmente sentia, não queria aceitar essa verdade, porque era orgulhosa demais e tinha a esperança de voltar para Londres e ter sua vida amorosa de volta. Afinal, ama Matthew… não ama? Ela não conhecia e não tinha o porquê sentir algo por ele.
Então por que era tão difícil para ela aceitar que teria que se despedir de no dia seguinte?!
Quando a última nota grave foi tocada, sentiu o nó em sua garganta, o coração acelerado e uma única lágrima escorrer de seus olhos. Suas mãos tremiam com o êxtase da apresentação e sua respiração falhava com a ansiedade. Ao ouvir mais uma vez as palmas da plateia, levantou e tentou sorrir para as pessoas. Sentia-se feliz e satisfeita com sua performance, mas queria e precisava sair dali.
- Você foi muito bem! - Bia disse, aproximando-se de . Ben e vinham logo atrás, também para parabenizar a pianista.
No momento em que seus olhos se encontraram com os do guitarrista, sentiu o ar faltar e a respiração falhar novamente. O garoto percebeu o olhar estranho de , mas não entendia o porquê, e antes que pudesse chamá-la e dizer qualquer coisa, a garota saiu às pressas para fora dos bastidores do palco, e do Teatro.
- O que aconteceu? - Ben perguntou, também estranhando a reação de .
- Deve ser por conta da apresentação. Eu também quis sair correndo. - Bia palpitou. - Vou atrás dela. - Avisou, seguindo o mesmo caminho de .
Quando também ameaçou ir atrás da pianista, ouviu seu nome e de outros três garotos que faziam parte da “banda” e apresentariam sua música. Respirou fundo, mordeu o lábio e ajeitou a guitarra em suas costas. Ben desejou boa sorte e cruzou os braços, achando aquela situação toda cansativa e curiosa.
Se pudesse apagar tudo o que sentia naquele momento, a tensão, adrenalina, nervosismo, medo e… seja lá o que ele esteja sentindo em relação à , ele apagaria. Mas não importa o quanto tentasse distrair sua mente para esquecê-la, ele não conseguia. Que merda de efeito era esse que ela causava nele? O que ela tinha de tão especial? balançou a cabeça e sentou no mesmo lugar em que estava poucos minutos atrás, no piano.
Olhou para as pessoas que assistiam e procurou por ou Bia. Quando pensou que ela não estaria ali, conseguiu vê-la em pé perto da porta de entrada e saída, junto com Bia ao seu lado. estava de braços cruzados, olhando diretamente para o garoto, curiosa para saber o que ele faria no piano. respirou fundo e começou a tocar as primeiras notas da música no piano, notas rápidas e curtas. Em seguida, o outro garoto na guitarra começou a tocar e poucos segundos depois, a bateria. Neste momento, levantou e foi para o centro do palco, onde tinha um microfone.
Você não está dizendo nada
Mas seus olhos falam
Através dos verdes e azuis
Eu te desafio a mudar
Eu te desafio a mudar
Seu coração está batendo
Mas seu corpo ainda está se recusando
Porque está com medo de perder
Eu te desafio a mudar
Eu te desafio a mudar


O coração de estava mais acelerado do que nunca. Seu corpo estava cheio de adrenalina e, apesar de várias músicas clássicas, as pessoas na plateia pareciam estar curtindo o rock. Uns balançavam a cabeça no ritmo da música e outros batiam palmas para acompanhar, o que deixava não só , como o resto da banda, animados. ousou olhar para a porta de entrada para checar se ainda estava ali.

Estamos nos aproximando
Mas a noite está quase no fim
Vou perder a Lua
Eu te desafio a mudar
Eu te desafio a mudar
E agora você está amando
Há um barril cheio de tensão
Vou inundar este quarto
Eu te desafio a mudar
Eu te desafio a mudar


queria estar enganada, mas sabia que aquela música era para ela. Era um desafio lançado para a garota. Lembrou-se da noite no terraço, quando a levou para conhecer e disse algo parecido como “desafio você a dar o primeiro passo”. não havia entendido o que ele quis dizer no momento, mas agora compreendia. Ele sabia que não estava feliz e ainda sim nutria sentimentos, mesmo que poucos, por , mas tinha medo de aceitar a verdade e colocar tudo a perder. Para esclarecer o que ela de fato queria, ela precisaria dar o primeiro passo e mudar, porque já estava fazendo isso.
- Tenho que admitir: ele é muito bom! - Bia precisou falar alto para que ouvisse.
olhou para Bia por alguns segundos e voltou a olhar para , que agora olhava diretamente para ela. A pianista respirou fundo e sorriu, fazendo-o sorrir enquanto cantava. Não adiantava mais lutar contra si mesma e contra o que sentia. A insegurança e o medo de se machucar ainda estavam ali, mas sabia o que queria. Era sua última noite em Cleveland e talvez a última vez em que veria . O que aconteceria nessas últimas horas não sabia, mas guardaria em sua memória.

Corra comigo até meia-noite
Corra comigo enquanto somos jovens
Rebeldes vão fugir das luzes da rua
Para o Sol ardente
Corra comigo para a violência
Corra comigo para o blues
Colinas podem encontrar horizontes
Se eles se atrevem a se mover


pegou seu celular e depois de um longo suspiro, respondeu à mensagem.

Capítulo 11

A noite naquele Instituto estava diferente. O clima estava agradável, o céu cheio de estrelas e alunos e professores com roupas chiques e sociais se reuniam do lado de fora do Teatro, felizes e satisfeitos com as apresentações. Os alunos estavam eufóricos e melancólicos ao mesmo tempo, lembrando que daqui algumas horas teriam que se despedir das amizades feitas ao longo deste um ano no conservatório. Era a última noite, e teria que ser memorável!
estava com Ben na parte de fora do Instituto. Vários alunos iriam sair e se encontrar no bar em que tocou na última vez, apenas para aproveitar a noite e se divertir depois de vários meses de ensaios e ansiedade com a Audição.
- Tem certeza que não quer encontrar a gente lá? - Ben perguntou. - E se ela não aparecer, cara? - Alertou, enquanto guardava a gravata vermelha no bolso da calça.
- Ela vai aparecer. - afirmou, olhando para a tela do celular. - Lembra do nosso acordo?
- Deixa comigo! - Ben fez posição de soldado e riu.
- Ei meninos, vão para o bar também? - Bia apareceu com outra roupa, agora de camisa e calça skinny.
- O que aconteceu com seu vestido? - Ben perguntou, olhando a garota dos pés à cabeça. Bia revirou os olhos.
- Passei no quarto para trocar de roupa. Não iria ao bar com uma roupa chique e cara daquela. - Bia explicou, como se fosse óbvio. - Além do mais, caso eu me encontre com Ellie, o vestido não vai atrapalhar quando eu arrebentar a cara bonita dela.
Ben e riram da garota, que estalava os dedos como se estivesse se preparando para lutar. O guitarrista olhou para trás, para dentro do Instituto, e procurou por entre as pessoas que se reuniam em frente ao prédio com o Teatro.
- não estava com você? - perguntou, tentando não parecer ansioso.
- Ela ficou no quarto. - Bia respondeu, dando de ombros. - Disse que não estava se sentindo muito bem para sair. Espero que o motivo seja a Audição e não o namorado.
O garoto preferiu não falar e nem expressar nenhuma reação. Apenas encarou a tela do celular novamente como se esperasse ansiosamente por uma notificação ou ligação.
- Então… vocês vem? - Bia perguntou, dando um passo à frente, em direção ao bar da outra esquina.
Ben olhou para , que ainda olhava para o celular e forçava o maxilar, e riu. - Eu vou com você. Te vejo por lá, ! - Ben disse, fingindo convidá-lo. Abraçou Bia pelos ombros e começou a andar em direção à esquina.
- Qual é a sua de querer abraçar todo mundo? Me larga. - Bia disse se afastando mais uma vez do garoto.
Os dois seguiram provocando um ao outro o caminho todo. Quando saíram do campo de visão de , o guitarrista voltou para dentro do Instituto e caminhou até o 1º prédio, onde ficava o dormitório feminino. Parou na porta de entrada e pegou seu celular. Um toque, dois toques, três toques… começou a andar de um lado para o outro, impaciente e ansioso.
- Hey… - soltou o ar ao ouvir a voz baixa de .
- Você está bem? - Perguntou, preocupado. E se ela realmente estivesse passando mal? - Bia disse que não estava se sentindo bem.
ouviu uma risada fraca e um som de vento - Eu estou bem. Não foi para o bar com os outros? - perguntou.
- Tínhamos um acordo, lembra? - respondeu e encostou seu corpo na porta de vidro do prédio. - Ou você desistiu…? - Perguntou, engolindo a seco.
- Confesso que pensei em desistir… - confessou, mordendo o lábio. - Sabe, a vista aqui de cima é realmente bonita. Nunca vi tantas estrelas assim…
No momento em que falou, desceu os três degraus que davam entrada para o prédio e olhou para cima. Não conseguiu segurar a risada ao vê-la apoiada no terraço e ainda mandar um “tchau” para o garoto. desligou a chamada e correu para dentro do 2º prédio, o central, e em questão de segundos estava subindo as escadas que davam para o terraço. A porta estava entreaberta com um tijolo segurando-a para não fechar. O garoto, ofegante da corrida, avistou de costas apoiada no parapeito e olhando para o céu, e caminhou até a garota.
- Você foi muito bem hoje. - comentou, sem olhar para o garoto. O vento estava fraco, mas era o suficiente para balançar os cabelos da pianista, que ainda vestia o vestido azul. sorriu e também se apoiou no parapeito.
- Obrigado. Você também não foi nada mal. - Disse em tom de brincadeira. sorriu e suspirou. - O que aconteceu depois da sua apresentação? - Perguntou curioso, lembrando-se do olhar assustado da garota quando o viu.
abaixou o olhar, soltou o ar levemente e então tomou coragem de encarar o garoto nos olhos. - Eu… não sei. - A garota deu um riso forçado. - Acho que fiquei com medo e frustrada ao mesmo tempo.
franziu o cenho, tentando entender.
- Eu não sei o que estou sentindo agora, . - continuou. - Eu penso em Matthew todos os dias, mas não consigo conversar com ele. Toda vez em que eu tento ter coragem de falar com ele, resolver as coisas ou simplesmente botar um fim, você aparece…
- Quer que eu peça desculpas por isso? - perguntou irônico. - Porque eu não…
- Não é isso. - o interrompeu. - Você… ah, que droga ! - afastou-se do parapeito e foi para perto da porta por onde entraram. Então virou-se novamente para o garoto. - Você estragou tudo! Eu devia odiar você por ter me usado como aposta, mas eu não consigo tirar você da minha cabeça. Eu não sei mais o que eu sinto pelo meu próprio namorado e… por você. Esta confusão me deixa irritada e cansada…
colocou as mãos na cintura e respirou fundo, envergonhada e nervosa pela confissão. a encarou por longos segundos sem dizer nada. Ele não sabia o que dizer, na verdade. Não sabia se estava feliz demais ou confuso demais. Aquilo era um sonho?
- Diz alguma coisa! - pediu, impaciente.
- A única coisa de que eu me arrependo nessa história toda é a aposta. - deu um passo em direção à . - Me desculpe, mas estou pouco me fodendo para o jogador de rugby. Mesmo sem o conhecer, sei que você é boa demais para ele… até demais.
sentiu o coração bater cada vez mais rápido ao ver se aproximar lentamente.
- Você também estragou tudo, . - disse, parando a poucos centímetros de distância da garota, que engoliu a seco. - Eu não tinha noção do quanto você mexeria comigo. No começo era só pela grana, mas agora… eu não consigo pensar que não posso tê-la para mim, e que a partir de amanhã não nos veremos mais. Isso está me matando, !
- Quer que eu peça desculpas por isso? - fez a mesma pergunta que o garoto havia feito. - Porque eu não sei como vou voltar para casa e fingir que nada disso aconteceu.
sentiu os olhos começarem a se encherem de lágrimas. respirou fundo e colocou uma de suas mãos no rosto da garota, alisando com o dedo a bochecha avermelhada.
- Eu espero que você não se esqueça disso… - disse em voz baixa, encostando sua testa na de e fechando os olhos.
A garota, em um breve momento de coragem, mas sentindo a pulsação acelerada, encostou seus lábios nos do garoto. Mesmo surpreso pela atitude da pianista, arriscou trazê-la para mais perto de si e envolvê-la com seus braços, intensificando aos poucos o beijo que começou tímido. Na cabeça de , aquilo parecia errado e ao mesmo tempo tão certo. A química e a sintonia se encaixavam de uma maneira que ela não havia sentido com Matthew. Talvez fosse pela adrenalina da situação, mas era algo diferente… um diferente bom.
- Quer ir para outro lugar? - perguntou no ouvido da garota, sorrindo ao vê-la se arrepiar. Afastou-se um pouco para olhar nos olhos de . Hesitante e com o coração à mil, ela apenas assentiu com a cabeça.

***


fechou a porta atrás de si e acendeu a luz do quarto. estava parada no centro do cômodo, sem saber o que fazer, o que falar ou como agir. Respirou fundo e virou-se para , que guardava seu celular na pequena cômoda ao lado da cama.
- E seu colega de quarto? - perguntou, olhando para a segunda cama toda bagunçada.
- Ele está com Ben no bar. Não acho que volta tão cedo. - riu, sentando-se em sua cama.
- Ah… - cruzou os braços e começou a olhar em volta, reparando que o quarto não era tão diferente do dela e de Bia, a não ser pela bagunça.
- Ei… - chamou e o olhou, ainda sem saber como agir naquela situação. - Se quiser, podemos encontrar os outros no bar. - Sugeriu, percebendo o desconforto da garota apenas por estar sozinha em seu quarto.
- Não, está tudo bem. É só que… é estranho. - riu fraco.
ficou de pé e estendeu a mão para a garota. descruzou os braços e segurou em sua mão, andando até ele e parando a poucos centímetros de distância. levou a outra mão para a cintura da pianista e encurtou ainda mais a distância entre os corpos, iniciando outro beijo delicado e tímido. O garoto podia sentir que tremia levemente, ainda envergonhada e com medo de intensificar as coisas. não queria apressá-la a nada e muito menos forçá-la a fazer algo que não queria, por isso deixou com que ela tomasse os passos de guiá-lo. Quando percebeu que seu corpo estava mais à vontade, a trouxe para mais perto e começou a distribuir pequenos beijos nas bochechas até o pescoço.
O peito de subia e descia rapidamente, com a respiração descompassada e completamente tomada pelo desejo que não conseguia controlar. Ao sentir as mãos de passear pelo seu corpo e envolvê-la para cada vez mais perto, se viu empurrando o garoto para a cama, fazendo-o se sentar novamente e trazê-la para o seu colo. afastou o cabelo de do pescoço e fez uma trilha de beijos até os lábios da garota, beijando-a intensamente.
Depois de vários beijos e carícias, já se encontrava sem a camisa e estava com metade do vestido aberto, deixando o sutiã preto à mostra. Quando o garoto colocou as duas mãos nas coxas de , que o envolviam, para tentar tirar o vestido por completo, a garota se arrepiou e se afastou um pouco, como na noite passada.
- Quer parar? - perguntou, preocupado e ofegante. piscou algumas vezes e deu um longo suspiro antes de levantar os braços lentamente.
sorriu ao entender. Pegou a barra do vestido que estava nas coxas de e começou a subi-lo, dando visão para todo o corpo da pianista. O garoto engoliu a seco e lambeu os lábios automaticamente.
- Pare de encarar! - disse com o rosto vermelho, tentando cobrir o corpo com os braços, mesmo sem cobrir nada.
- Foi mal! - riu e voltou a beijá-la delicadamente, pegando nos braços da garota e colocando-os em volta de seu pescoço.
Deslizou suas mãos sobre todo o corpo de , sentindo o contato direto com a pele quente da garota. Apertou levemente a cintura e fez um movimento para que mudasse de posição, deitando-a por completo na cama. levantou-se rapidamente e apagou a luz do quarto, deixando com que apenas a lua e as luzes do Instituto iluminassem o local. O guitarrista voltou para a cama, colocando um dos joelhos entre as pernas nuas de e apoiando os dois braços em cada lado de seu rosto. A encarou por alguns segundos até que voltasse a beijá-la como antes. O coração dos dois batia no mesmo ritmo acelerado. O calor, a paixão naquele momento e o desejo falavam mais alto do que qualquer outra coisa racional. Nada os impedia de continuar sentindo o toque um do outro. Queriam apenas fazer daquela noite algo de que os dois se lembrariam no dia seguinte, quando fossem embora para suas casas.
Não sabiam por quanto tempo estavam ali, mas quando olhou para apenas de cueca, abrindo a gaveta da cômoda ao seu lado e tirar uma camisinha de lá, ficou assustada. Não que aquela fosse sua primeira vez, porque não era, mas… droga, o que ela estava fazendo? Até que ponto foi! reparou o olhar preocupado de e colocou uma de suas mãos em seu rosto.
- Se não quiser continuar, me fala e eu paro agora mesmo. - falou calmamente, mesmo que não quisesse parar.
fechou os olhos e contou até cinco, na tentativa de acalmar seu coração. Ela queria aquilo, e ele também! Parar agora não iria adiantar de nada e muito menos resolver alguma coisa. Era o que pensava. A garota, então, abriu os olhos devagar e olhou para . Segurou seu rosto e deu um longo selinho, como resposta de que ela queria aquilo tanto quanto ele.

***


Por volta das 3h da madrugada, quando ainda estava escuro, levantou-se da cama e procurou suas roupas pelo chão. ainda dormia, com o lençol azul cobrindo apenas sua cintura, deixando o peito nu descoberto. A garota andou a passos finos até a porta do quarto, no maior cuidado para não acordar o guitarrista. Colocou a mão na maçaneta e antes que a virasse para abrir e ir embora, olhou para trás, no exato momento em que virava-se para o outro lado, sem perceber que não estava mais em seus braços. Soltou um breve suspiro e abriu a porta do quarto, fechando-a logo em seguida.
De volta ao dormitório feminino, saiu do elevador e andou a passos lentos até o seu quarto. Não sabia se Bia estava lá. Esperava que não, pois não iria aguentar as várias perguntas que provavelmente faria. “Onde estava? Não estava se sentindo mal? Por que ainda está com o vestido? Estava com ?”, definitivamente não aguentaria. Fechou os olhos por alguns segundos antes de abrir a porta de seu quarto e, quando o fez, soltou o ar aliviada ao ver que Bia não estava em sua cama e provavelmente ainda estaria no bar com os outros. Como fariam para pegar um avião no dia seguinte e de ressaca, não sabia e nem conseguia imaginar.
Alguns minutos depois, quando já havia tomado banho e vestido seu pijama, finalmente deitou em sua cama. Por mais que tentasse relaxar seu corpo, ela não conseguia dormir. Toda vez que fechava seus olhos, via a imagem de a beijando e aproximando-se cada vez mais. Era como se os toques dele ainda estivessem ali, explorando cada canto do seu corpo, fazendo-a se arrepiar e sentir o calor aumentar. colocou o travesseiro em seu rosto e abafou um grito. Apesar de ter gostado, só de pensar nisso fazia seus olhos encherem de lágrimas e o nó apertar em sua garganta. Ao mesmo tempo em que queria vê-lo novamente, também desejava não ver. tirou o travesseiro de seu rosto e olhou para sua cômoda, onde tinha um quadro com uma foto sua e de Matthew juntos, sorrindo. A pianista respirou fundo e esticou-se para abaixar o quadro. Aquilo era tortura para ela.
- Me desculpe… - Sussurrou, fechando os olhos. Longos minutos depois, finalmente caiu no sono.

***


No dia seguinte - ou algumas horas depois - e Bia se encontraram com outros alunos e alunas no centro do Instituto, onde ficava a Grande Árvore. Praticamente todos já estavam com mochilas nas costas e malas nas mãos, prontos para se despedirem do conservatório e de Cleveland. Alguns alunos até choravam, e entre eles estava Ellie. Bia revirou os olhos ou passar por ela, falando que daria mais motivos para a garota chorar. apenas riu.
- Ben está ali, vamos até lá. - Bia disse e pegou na mão de , a puxando para perto do grupo de pessoas em que Ben estava. Ele também estava com suas malas, uma de mão e outra pequena de rodinha. Quando Ben avistou Bia e , afastou-se do grupo e foi até elas com um sorriso largo no rosto. e Bia sorriram também.
- Cara, só eu estou achando estranho ter que ir embora? - Ben perguntou coçando a nuca. - Vou sentir falta de acordar com o ronco de Lucas. - Comentou, referindo-se ao seu colega de quarto. e Bia riram.
- Espero que não sinta falta de fazer apostas. - Bia provocou, fazendo Ben revirar os olhos e tapar os ouvidos. - Ah, qual é, você e juntos conseguiram sair com metade do Instituto só com essa brincadeira idiota.
- Deixe o passado no passado, ruiva! - Ben reclamou. Olhou para e forçou um sorriso. - Está se sentindo melhor? - Perguntou, mesmo sabendo que ela não estava passando mal na noite passada. arregalou os olhos e suspirou.
- Sim, obrigada. - Respondeu, olhando em volta. - Por falar em … onde ele está? - Perguntou, sentindo-se ansiosa para vê-lo. Passou a manhã inteira pensando em como reagiria e falaria com . Se devia fingir que nada aconteceu ou… conversar sobre o que fizeram. E além disso, apesar de não estar 100% preparada, ainda queria se despedir do garoto.
Ben franziu o cenho, confuso. - Ele foi embora faz umas duas horas. - Respondeu, olhando a hora em seu celular. foi embora sem se despedir? Sem mandar sequer uma mensagem? piscou algumas vezes, sem acreditar, sentindo o peito apertar.
- O idiota nem se despediu! - Bia reclamou cruzando os braços, tão surpresa quanto . - Humph, não vou sentir falta dele mesmo.
- Eu pensei que ele tivesse te avisado. - Ben disse, fazendo Bia franzir o cenho. O garoto pigarreou e se corrigiu. - Avisado vocês duas...
soltou um longo suspiro, sentindo o corpo esquentar. - Não, ele não avisou… mas tudo bem. É como Bia disse, não tem porque sentir falta. Não faria diferença ele avisar e se despedir! - falou tão rápido que sentiu o ar faltar. Estava irritada, frustrada e sem entender absolutamente nada. Mas que merda! Ela cometeu o maior erro que ela poderia cometer. Confessou e se entregou completamente para o garoto! Como poderia ter feito isso com ela? Sabia que a noite passada seria algo que ficaria marcada para os dois e por isso não deram um passo para trás em nenhum momento. Apenas queriam sentir um ao outro e colocar para fora tudo o que guardavam de dúvidas, desejos e sentimentos… Como poderia ir embora sem olhar para , mesmo depois de uma noite tão especial?
- , tudo bem? - Bia perguntou, passando a mão na frente do rosto da pianista, que balançou a cabeça e forçou um sorriso. engoliu a seco e respirou fundo, para afastar a vontade de chorar. a usou mais uma vez, não merecia suas lágrimas.
- Tudo ótimo. Vou sentir muitas saudades de vocês! - disse, sorrindo para Bia e Ben.
No aeroporto de Cleveland, olhou para a tela do celular pela última vez antes de entrar para a fila do embarque. Seu dedo estava em cima do ícone de telefone, mas não tinha coragem de apertar e ligar para aquela pessoa. Leu o nome de no visor e soltou o ar, frustrado. Apertou o maxilar e bloqueou o celular, guardando-o em seu bolso. Ajeitou o case do violão em seu ombro, respirou fundo e, enfim, embarcou.

***


– Tenha uma boa viagem! – desejou a funcionária.
tomou o último gole do café, que já não se encontrava com um bom sabor, e embarcou.
Respirou fundo e suspirou pela milésima vez, sentindo-se exausta por ter corrido tanto. Já em seu devido lugar no avião, encostou sua cabeça na janelinha, vendo a cidade de Cleveland ficar cada vez mais pequena conforme o avião subia. O voo demoraria horas até chegar em Londres, então a garota apenas colocou os fones de ouvido e deixou com que Gustav Holst preenchesse sua mente com mais um clássico. Ela fechou os olhos e sorriu ao apreciar cada nota tocada, evitando que qualquer coisa pudesse atrapalhar seus pensamentos ou chateá-la.
De agora em diante, tudo seria diferente. Mesmo voltando para Londres, para sua casa, sabia que nada mais seria o mesmo. precisaria lidar com seus segredos, com seu relacionamento, e agora com seu futuro na música.

[...]

Mais de três horas se passaram e enfim pés em Londres. já se encontrava no banco do carona do carro de seu pai e o caminho inteiro ele e , irmão de , a bombardearam com perguntas sobre como era em Cleveland, como era a academia, o que aprendeu e sobre as pessoas com quem conviveu no tempo que passou por lá. Ela contou sobre tudo… quase tudo.

Capítulo 12

No caminho para casa, ouvia as incansáveis novidades e histórias que contava. A lua já tomava conta do céu, junto das estrelas que iluminavam a cidade da rainha. Era uma sensação esquisita e que a pianista não sabia explicar ou colocar em palavras, mas apesar da saudade que estava daquele lugar, aqueles prédios, bondes e até mesmo cheiro do carro de seu pai traziam um sentimento como se ela estivesse ali pela primeira vez. De alguma forma, nada estava da maneira como se lembrava ou imaginava quando voltasse.
- E o que vão fazer depois que tocarem no festival? - perguntou enquanto abria a janela do carro para sentir o vento frio de Londres em seu rosto.
- Não parei para pensar nisso, na verdade. - , que sentava no banco de trás, respondeu pensativo. - Tocar neste festival com certeza vai mudar todo o rumo da nossa banda. até mesmo acha que as chances de conseguir entrar para uma gravadora vão ser maiores, mas não quero criar tanta expectativa. - Disse com a voz calma. franziu o cenho e virou seu rosto para trás, olhando séria para o irmão.
- Você é idiota? - perguntou, tirando uma risada inesperada do pai que estava no volante. - Se você for ao festival sem expectativa nenhuma, como acha que sua banda vai crescer? Você precisa pensar alto e tocar para conseguir entrar para uma gravadora ou seja lá o que as bandas querem.
, surpreso com a bronca de , olhou para o pai pelo retrovisor, que apenas deu de ombro.
- O que? Ela tem razão.
- De qualquer forma, ainda temos muito o que ensaiar e escolher as músicas que vamos tocar.
- Posso ajudar vocês, se quiserem. - disse voltando a olhar para a rua pela janela. franziu o cenho e riu depois de alguns segundos em silêncio.
- Não é você que sempre chamou minhas músicas de “barulho”? - perguntou, sarcástico. - Se bem me lembro, todas as músicas que não são eruditas são ruins para você.
abaixou os olhos e juntou as mãos, sentindo-se nervosa.
- Se eu quero crescer como musicista, preciso aprender a ouvir coisas novas… mesmo que não me agradem. - respondeu, engolindo a seco.
- Caramba, por que não foi para Cleveland antes? - disse, fazendo rir e negar com a cabeça.
Depois de alguns minutos de trânsito e faróis, quando estavam há dois quarteirões de casa, olhou para o celular e soltou um breve suspiro. Olhou para o pai que batucava os dedos no volante, no ritmo da música que tocava na rádio.
- Pai, sei que está tarde, mas… pode me deixar na casa de Matthew? - perguntou, chamando a atenção não só do pai, como de , que logo ficou entre os dois.
- Fazer o que na casa dele? - perguntou com um tom ríspido que surpreendeu a irmã. Afinal, ele sempre foi uma das pessoas que mais apoiavam o casal e nunca se importava com as idas e vindas da irmã na casa do melhor amigo - Quer dizer… por que não vai amanhã?
- Precisamos conversar e resolver algumas coisas… se eu deixar para amanhã, não sei se vou conseguir. - respondeu, não querendo dar muitos detalhes sobre as discussões com Matthew e… o que fizera em Cleveland.
- Aconteceu alguma coisa entre vocês dois? - John perguntou curioso para saber o lado da filha, enquanto já sabia o que havia acontecido com Matthew.
olhou para o pai e suspirou:
- Não precisa se preocupar, só nos desentendemos algumas vezes enquanto estávamos separados. - soltou uma risada forçada. - Relacionamento a distância não é tão fácil como imaginei.
O horário era avançado, quase meia-noite, mas lá estava a pianista em frente à uma casa grande e rústica, com uma bela macieira na frente. Quando desceu do carro, prometeu que iria buscá-la assim que quisesse ir para casa, sem importar-se com a hora, bastava ligar para o garoto. estava preocupada e com medo de como reagiria quando visse Matthew pela primeira vez depois de um ano inteiro longe. O beijaria como sempre? Abraçaria? O que ela deveria falar? O que ele quer falar? Ah, que droga!
- Nossa… parece que faz décadas que não te vejo! - Matthew disse ao abrir a porta, surpreso por ver parada bem na sua frente. Estava linda, como se lembrava.
- Oi, Matt… - Hesitante, abraçou o namorado para cumprimentá-lo.
Matthew respirou fundo, sentindo o perfume adocicado de , e a apertou em seus braços. Cara, como sentia falta do seu cheiro e toque. Afastou-se um pouco para olhá-la nos olhos e sorriu, aproximando-se para beijar seus lábios depois de tanto tempo. Matthew percebeu que a namorada estava mais quieta do que o normal e não devolvia o afeto que esperava receber. Ele sabia que era mais reservada consigo mesma, mas oras, estavam um ano separados!
- Está tudo bem? - Matthew perguntou, preocupado e desapontado por não ter a recepção animada que esperava.
- Sim, eu só estou cansada da viagem. - forçou um sorriso e abaixou o olhar. Ainda estavam abraçados, mas o clima estava tenso entre os dois. - Agora que voltei… podemos conversar, não é?
Matthew fechou os olhos por dois segundos. Estava tão ansioso para rever a namorada, que esqueceu de tudo o que havia acontecido entre os dois e do que ele mesmo havia feito com ela… as brigas, o ciúme, a traição, tudo. Por um breve momento, pensou que tudo fosse apenas um pesadelo.
- Claro... Quer entrar? - Perguntou. fez que sim e entrou na casa que sempre frequentou na adolescência, quando era perdidamente apaixonada pelo jogador de Rugby.
Matthew passou a morar sozinho depois de um ano que havia entrado na faculdade. No entanto, sempre que sua mãe podia, vinha visitá-lo para saber se o filho estava se alimentando bem ou se a casa estava em ordem, sem latinhas de cerveja jogadas no chão ou roupas largadas em qualquer canto. Matthew tentava ser organizado na maior parte do tempo, mas, sem perceber, a bagunça já estava feita. Daquela vez estava diferente, a casa estava devidamente arrumada e limpa, assim como seu quarto. reparou na camisa 8 pendurada na porta do garoto, a mesma camisa que usava no time de rugby da escola. Sorriu, sentindo-se nostálgica.
- No último campeonato da escola, você usou essa camisa. Lembro que fui assistir com e você se machucou feio naquela partida. - olhou a manga da camisa com um pequeno rasgo, costurado pela mãe de Matthew. - No final do jogo você brigou com um dos adversários, parecia cego de raiva…
Matthew apertou o maxilar, lembrando do jogo em que quase foi expulso do time e da escola. Cruzou os braços e sentou em sua cama, sem tirar os olhos de que ainda segurava a camisa 8.
- Naquela época eu já gostava de você, mas depois desse jogo, não sabia se ficava preocupada ou com medo de você. - confessou, virando-se de frente para o namorado.
- E por que continuou comigo? - Perguntou, curioso.
- Porque… eu gostava mais de você do que tinha medo. E você sempre me tratou como a irmã mais nova de , então… acreditei que não faria nenhum mal a mim. Não tinha porque ter medo. - disse e abaixou o olhar, sentindo as mãos tremerem com a situação.
- Está com medo agora? - Matthew perguntou, reparando na voz e nas mãos trêmulas da garota. “Não faria nenhum mal a ela”, como contaria que havia ficado com outra depois disso?!
respirou fundo e soltou o ar lentamente, sentando-se ao lado do garoto na cama. Pegou em sua mão e engoliu a seco. Ali, tão perto do garoto que ela amou desde pequena, sentiu vontade de chorar. Estava sim com medo, não do garoto, mas do amanhã. Ela precisava contar sobre o que aconteceu em Cleveland, sobre . Estava arrependida de ter traído a confiança e seu amor à Matthew, o mais certo seria esclarecer tudo, independente do que viria a seguir.
- Eu preciso te contar uma coisa… - Os dois falaram juntos. Matthew franziu o cenho, sem esperar por aquilo. - Você primeiro. - Ele disse.
encarou o garoto por um longo minuto, tentando encontrar a coragem e as palavras certas para contar tudo a ele. Matthew respeitou seu silêncio e esperou pacientemente até que ela falasse qualquer coisa. Não sabia o que era e tinha medo do que fosse, ela iria terminar com ele? já tinha contado a ela que esteve com outra enquanto estava fora? Não, ele não faria isso e ela não estaria tão calma assim...
- O que precisa me contar? - Matthew perguntou, apertando a mão de inconscientemente.
- Eu… - começou, procurando as palavras certas para dizer que ficou com outro homem além dele. Ah, merda, por que isso tinha que acontecer?!
- , o que foi?! - Matthew levantou-se, ficando de frente para a namorada.
A pianista acreditava que se não tirasse aquilo do peito, provavelmente não conseguiria livrar-se de tão fácil, simplesmente pelo fato de estar arrependida e aquilo sempre atormentar sua mente. Se ela contar, não tem mais porque pensar em e em tudo o que aconteceu em Cleveland… tudo ficaria no passado.
- Eu… traí você. - confessou em voz baixa, tão baixa quanto um sussurro. Matthew conseguiu ouvir, tanto que sentiu sua respiração faltar, como se tivesse levado um soco bem dado no estômago. Fechou o punho e virou de costas, desviando o olhar da garota. - Me desculpe… - Abaixou a cabeça e deixou que uma lágrima escapasse.
O silêncio naquele quarto era uma tortura para os dois. Parecia que estavam ali há horas, mas ninguém dizia nada fazia apenas alguns minutos. Matthew estava encostado na parede, ao lado da porta por onde entraram, olhando para os pés descalços. Não sabia em que pensar ou falar, mas de uma coisa tinha certeza: não podia gritar ou jogar a culpa em . A raiva que sentia queimar dentro de si era enorme, tão grande como nunca havia sentido antes, mas não podia fazer nada… Afinal, ele havia cometido o mesmo erro. Matthew tinha uma ideia em sua cabeça, mas tinha medo de colocar tudo a perder com , e principalmente . “Foda-se!”, pensou.
- Fala alguma coisa, por favor. - suplicou, cansada do silêncio ensurdecedor.
- Ainda fala com ele? - Matthew perguntou, olhando para a namorada pela primeira vez depois da confissão. negou com a cabeça, sem tirar os olhos do garoto, na tentativa de passar credibilidade. - Gosta dele? - Perguntou novamente, sentindo uma pontada no peito ao fazer a pergunta.
- O que? - questionou, surpresa.
- Você gosta desse cara? - Repetiu a pergunta, apertando o punho novamente.
Quem queria enganar? Era óbvio que sentia algo por , mas não queria alimentar esse sentimento. Tudo foi um erro, do início ao fim. Do momento em que o beijou ao momento em que ele, tão facilmente, foi embora sem dizer uma única palavra, mesmo depois de transar com a garota. queria esquecer o que aconteceu, virar a página como se nunca tivesse existido.
- Não, eu não sinto nada por ele. - respondeu firme. - Eu quero esquecer isso, Matt. Por isso te contei, porque achei que você deveria saber.
- Ainda me ama? - Matthew fez outra pergunta, andando até a garota. - Ainda sente algo por mim?
- Matt… eu cansei de chorar e brigar com você. Eu amo você, mas não sei se é o mesmo amor que sentia até um ano atrás. - respondeu. Matthew abriu as mãos, desapontado, e engoliu a seco. Respirou fundo e estendeu a mão para a garota.
- Eu ainda te amo muito, . Não quero perder você… - Matt disse e a puxou para um abraço, continuando a falar em seu ouvido. - Não vou perder você pelo meu jeito, por brigas ou por outro cara. - sentiu o corpo arrepiar e enrijecer.
- Matt, por favor…
- Eu vou mudar e fazer você feliz como antes, só me dê mais uma chance. - Matthew disse e fechou os olhos, lembrando-se da ameaça de . - Sobre o que aconteceu em Cleveland… vamos fingir que nada aconteceu.
Matt olhou para o rosto de , que estava surpresa com a atitude do garoto. Não sabia se era o certo, mas estava disposta a tentar novamente e reerguer aquele namoro apaixonado. O garoto sorriu ao vê-la assentir, mesmo que hesitante, e a beijou, sentindo o doce e suave toque de sua boca.
Já era quase 1h da manhã quando parou com o carro na frente da casa de Matt. Ele não fazia ideia do que tinham conversado e se ainda estavam juntos, mas ficou extremamente confuso ao ver Matthew dar um selinho em antes que ela fosse até o carro. “Ele não contou a ela?", pensou consigo mesmo.
- Ah, o que queria me contar? - perguntou, antes de ir até . Matthew deu uma risada fraca e balançou a cabeça:
- Eu… sou o novo capitão no time da faculdade. - Disse, coçando a nuca. Contar a verdade para seria o mesmo que colocar tudo o que ele falou minutos atrás no lixo. Os dois erraram, mas ela não precisa saber disso.
- Sério? Estou feliz por você, Matt! - disse com um sorriso de lado. - Era só isso? - Perguntou desconfiada.
- Sim, era só isso. … nós estamos bem? - Ele perguntou. A pianista suspirou:
- Vamos ficar bem. Até amanhã, Matt.
- Até amanhã, gatinha! - Matthew disse e a beijou. Quando entrou no carro e começou a colocar o cinto, Matt percebeu o olhar sério de sobre si, provavelmente se perguntando como ainda estava com ele depois de tudo. Matthew apenas devolveu o olhar e deu de ombros.
- E então? - perguntou para a irmã, dando partida no carro. - Como foi?
- Como foi o que?
- Entre vocês dois: estão juntos ou não? - perguntou, levantando a voz. franziu o cenho, estranhando.
- O que aconteceu entre vocês dois? Está estranho desde que pedi para me trazer aqui. - perguntou, encarando o irmão que abria e fechava a boca sem saber o que falar. - Vocês, por acaso, brigaram?
- Não é nada. Só me preocupo com você, sabe como ele é.
balançou a cabeça em negação e abriu a janela do carro:
- O clima entre a gente não é mais o mesmo, assim como ainda não é um dos melhores. - respondeu, encostando a cabeça na porta do carro. - Mas quero dar uma nova chance… para nós dois.
- Você tem certeza?
olhou para o irmão e forçou um sorriso. Os sentimentos por Matthew podiam não ser mais os mesmos, mas de alguma forma ela não queria deixá-lo. Mesmo sabendo sobre o caso com , ele a abraçou e mostrou-se disposto a continuar com a garota. Agora, ela precisava agarrar essa chance, seguir em frente e esquecer que uma vez teve algo com o guitarrista dos olhos .
- Não, mas o que pode dar errado? - respondeu confiante.

***


Duas semanas se passaram desde a audição e a volta para casa. O inverno já tomava conta de todo o país. A qualquer momento as ruas estarão cobertas por neve e os gorros, luvas e casacos pesados serão os melhores amigos das pessoas, não só de Bolton, mas de toda a Inglaterra. estava no apartamento do pai quando ouviu seu celular, conectado ao notebook, tocar. Era o ligando por chamada de vídeo.
- Ei, dude! O que foi agora? - sentou-se na cadeira em frente à escrivaninha e encarou o rosto sério de na tela do computador. No fundo, podia ver e ajeitando os instrumentos.
- “O que foi agora”? Sério? - disse, ríspido. - Cara, a gente precisa ensaiar para o festival. Esqueceu que é semana que vem?
revirou os olhos e fechou a porta do quarto, evitando que seu pai ouvisse a conversa.
- Eu disse que precisava resolver algumas coisas aqui em Bolton. Não vou deixar vocês na mão, , eu juro!
- Esse festival é importante para a banda, . Se você não pode vir, basta avisar que nós corremos atrás de outro guitarrista. Se você não aparecer…
- Você vai estar fora da banda! - disse ao fundo, dando um tapa na mão de que mexia nos pratos da bateria.
- Sinto muito, cara, mas é verdade. - afirmou. , balançando as pernas nervoso, olhou para a porta e olhou para um pequeno calendário ao lado de seu notebook.
- Eu vou estar aí. - disse convicto, tirando um sorriso de .
- Você tem que estar aqui, senão eu vou quebrar sua cara bonita. - apareceu de repente, segurando o baixo em uma mão e um sanduíche na outra. - Vai ter várias gatinhas assistindo a gente, dude!
- Quem sabe você finalmente acha uma namorada? - disse, rindo.
- Deus te ouça, cara! Eu quero uma namorada, quem sabe duas? Ou três? - disse e começou a se afastar.
- As três vão ter que ser loucas para querer sair com você. - disse no fundo e uma discussão sem sentido sobre garotas começou entre o baterista e . negou com a cabeça e voltou a olhar para :
- Ei, é só me avisar quando vem que eu vou te buscar. Precisamos de você, . - disse e concordou.
- Quando menos esperar eu vou estar aí! - Ele disse. Antes que desligasse a chamada, o chamou. - Ei, preciso mostrar uma coisa a vocês!
O garoto levantou e foi até o guarda-roupa branco de seu quarto, o abriu e pegou seu violão e um pequeno caderno. Em poucos segundos, estava de volta na cadeira, de frente para , e , que agora estavam os 3 juntos na frente do computador apenas esperando o que faria.
- Eu pensei nessa letra ontem à noite. É apenas um verso, mas se curtirem, podemos trabalhar nela juntos.
- Toca aí! - pediu, curioso. Aumentou o som do notebook para ouvir melhor.
afinou o violão e fez uma breve pausa antes de começar os acordes, que à primeira vista já agradaram os meninos do outro lado da tela. até mesmo começou a batucar na mesa em que estava apoiado, tentando pegar o ritmo do violão e da voz de .

Eu ainda tenho tantas coisas não ditas que quero falar,
E eu simplesmente não posso mais esperar outro dia,
Eu queria que ela soubesse.
Eu ainda espero e fico pensando se ela ainda vai se lembrar de mim,
Mas não há jeito de eu saber.
E eu quero que ela saiba,
Antes que se case e tenha seu bebê,
Que eu preciso dela


- Dude, acho que estou apaixonado por você! - disse enquanto dedilhava o violão. O guitarrista não pôde evitar de rir.
- É realmente muito boa, podemos trabalhar nela para o festival, o que acham? - sugeriu e afirmou com a cabeça.
- E essa garota que “você precisa”... ela existe? - perguntou com um sorriso malicioso, tirando risadas dos garotos que estavam do seu lado.
- Digamos que sim, mas é só uma inspiração para a letra. Não tem como acontecer alguma coisa entre a gente. - confessou, apoiando o braço no violão em seu colo.
- Ela está grávida? - perguntou, referindo-se ao trecho que cantou.
- O que? Não…
- Ela é casada! Cara, não sabia que gostava de casadas. - começou a falar por cima de , que na mesma hora voltou a negar desesperadamente. Que merda era aquela?
- Eu não me envolvo com casadas, cacete! - Ele respondeu irritado, fazendo os garotos rirem.
- É brincadeira, dude. - disse sem parar de rir. - Ela é daquele lugar que você foi? Onde era mesmo? Cortland?
- Cleveland. - corrigiu, sentindo uma leve pontada em seu peito. - E sim, a conheci em Cleveland, mas é uma longa história que não estou a fim de contar.
- Cleveland? - perguntou estranhando. - Você ficou um ano em Cleveland?
- É, , Cleveland. - reafirmou, surpreso em saber que os amigos nem sequer sabiam onde ele estava. - Vocês são péssimos amigos. Como não sabiam que eu estava em Cleveland? Eu falei várias vezes.
- Engraçado, minha irmã acabou de voltar de…
De repente, a tela do notebook de ficou preta. Confuso e apressado, o garoto tentou ligá-lo novamente, mas logo viu que o motivo do aparelho ter desligado era a falta de bateria.
- Droga! - Disse frustrado, procurando o cabo do carregador. Segundos depois, enquanto mandava uma mensagem para explicando porque a chamada caiu, ouviu três batidas leves na porta, que logo abriu e viu seu pai vestindo um terno azul-marinho, típico de um executivo.
- Garoto, tenho uma reunião importante em Oxford e acho que vou precisar ficar alguns dias por lá. - O homem bem vestido e de cabelos grisalhos disse em tom calmo e despreocupado. Olhou em volta do quarto do único filho e reparou no violão em seu colo. - Pode ir comigo, se quiser.
, que antes anotava algo no pequeno caderno com várias composições suas, suspirou e olhou para o pai. Forçou um sorriso e colocou o instrumento no chão, apoiando-o na escrivaninha.
- Eu passo. - Disse sem hesitar. Olhou novamente para o calendário e antes que o pai fechasse a porta do quarto, falou em voz firme. - Eu também preciso fazer uma viagem! - O pai tornou a abrir a porta lentamente, com o cenho franzido e desconfiado.
- Você acabou de voltar de viagem e já precisa sair de novo?
- Você faz isso sempre, pensei que entenderia. - provocou sem esboçar nenhum sorriso de brincadeira.
- Eu viajo a trabalho, sabe disso. - Respondeu no mesmo tom do filho, apesar de no fundo ter se ofendido com o ataque do garoto.
- Essa viagem que preciso fazer também é a trabalho. Fiquei um ano inteiro fora de casa só para mostrar a você o que posso fazer com a música…
- Isso não é trab…
- Vou tocar em um festival de verdade, o Festival de Inverno de Londres. Já provei o que você queria e agora essa é a minha chance! - interrompeu o pai, mostrando o certificado do conservatório de música de Cleveland. O pai do guitarrista encarou o filho em silêncio, sem esboçar nenhuma expressão, até que não conseguiu conter a vontade de sorrir. arregalou os olhos, surpreso.
- Você fala como sua mãe. - Ele disse e abaixou a cabeça. sorriu ao ouvir aquilo. - Se é isso o que você quer, não posso fazer mais nada a respeito. De quanto você precisa?
abaixou a cabeça e riu:
- Não preciso de nada, eu posso me virar. - disse.
- Bom, se você diz… apenas se cuide e não engravide ninguém, ok? E nem use drogas, moleque! - O pai alertou, tirando mais risadas do filho, que apenas assentiu com a cabeça.
Na verdade, pensou que seu pai arruinaria aquela oportunidade única de tocar com a banda em Londres. Ficou realmente surpreso ao notar o sorriso e olhar de orgulho do pai ao fechar a porta e deixar o filho sozinho no quarto, como se, depois de anos, finalmente estivesse o incentivando a continuar com a música e seguir a vida como bem entender. Agora mais nada poderia dar errado! Aquela era a chance de . Pegaria sua guitarra e seu violão e viajaria o mundo se precisasse, apenas para mostrar suas músicas às pessoas. O que encontraria no caminho, só o tempo e a estrada revelariam, mas tinha algo que ele esperava encontrar. Algo que ele não conseguia tirar de sua cabeça… Ela.
- O que será que ela está fazendo? - perguntou a si mesmo.

Capítulo 13

Por um momento, tinha esquecido o quão intenso eram os jogos de Rugby. Na maior parte do tempo, precisava virar o rosto sempre que um jogador ia de encontro com o outro para roubar a bola. Os machucados eram normais para Matthew, mas ainda se perguntava como ele aguentava, ou melhor, como ela aguentava assistir. Depois de horas praticando piano e pesquisando sobre concertos e festivais em que pudesse se candidatar para participar, Matthew apareceu em sua casa para buscá-la e levá-la em seu treino. Queria mostrá-la seu primeiro jogo como capitão e apresentá-la aos novos amigos da faculdade.
E lá estava , sentada na arquibancada de um grande campo de futebol, bem diferente dos que ela já frequentou na época da escola. Ficou surpresa com o tamanho do lugar e imaginou como seria aquilo cheio de gente animada e torcendo durante um jogo real. viu de longe o namorado sentar em um banco e secar o rosto suado com uma toalha vermelha. Antes de voltar ao campo, olhou para a garota e sorriu. devolveu o sorriso e acenou.
- Hey, então você é a namorada pianista que Matt tanto falava? - Uma mulher disse sentando ao lado de , surpreendendo-a. - Prazer, sou Cassy, coordenadora técnica do time. - Cassy sorriu simpática, estendendo a mão para a pianista.
- . - Disse, apertando a mão da mulher que aparentava ter seus 30 anos. forçou um sorriso e olhou para o namorado que passava a bola para outro garoto. - Então, Matthew falou de mim? - Perguntou sentindo-se envergonhada por lembrar de seus dias em Cleveland.
- Até demais, estávamos todos curiosos para conhecer você. Confesso que no começo pensei que fosse mentira dele e que você, na verdade, nem sequer existia. - Cassy contou rindo. soltou um suspiro. - Depois contou que você estava em um tipo de conservatório nos Estados Unidos.
- Estava em Cleveland, na verdade. Voltei para cá há algumas semanas. - explicou.
- Uau! Sempre quis conhecer a América. - Cassy cruzou as pernas, cobertas por uma calça moletom da faculdade, apoiou o cotovelo no joelho e olhou para . - Admiro que tenham aguentado esse tempo todo longe um do outro.
franziu o cenho e a encarou, sem saber o que responder. Matthew, ainda no campo, olhou para a arquibancada e sentiu o fôlego - que já era pouco por conta do jogo - faltar ao ver quem estava ao lado da namorada. A pianista manteve-se em silêncio, então Cassy tornou a falar com um sorriso de canto.
- Eu não acredito em relacionamentos a distância. Há alguns anos eu era noiva de um cara incrível que fazia de tudo por mim. - Cassy contava, como se conhecesse há mais tempo do que apenas alguns minutos. A pianista rolou os olhos, sentindo-se estranha com aquela conversa. - Até que ele precisou viajar a trabalho e ficar 3 meses em Cardiff. Quando tinha 2 meses que não o via, decidi fazer uma surpresa e visitá-lo. - Cassy solta uma risada forçada. - Não demorou muito para aquele filho da mãe encontrar outra para matar as saudades de uma boa transa.
De repente, um arrepio tomou conta do corpo de . Por um momento, pensou que seu coração fosse parar de tão nervosa que estava. Afinal de contas, quem era aquela mulher e por quê, sem mesmo conhecê-la, contava uma história que mais parecia uma acusação? Mesmo com o perdão de Matthew, tudo ao seu redor a fazia voltar para aquela noite e sentir um misto de sensações: desejo, saudades, frustração e arrependimento. estava pirando!
- Saber que vocês continuam juntos mesmo depois de todo esse tempo distante, quase me faz acreditar no amor de novo. - Cassy disse, tirando dos devaneios.
A pianista, sentindo um nó formar-se em sua garganta, respirou fundo e levantou. Colocou sua bolsa de couro em seu ombro e ajeitou o sobretudo em seu corpo, pronta para sair dali.
- Sinto muito pelo seu noivado, Cassy. Gostaria de ficar e conversar mais, mas preciso ir agora.
- Foi um prazer conhecer você, . Vou me certificar de que Matt traga você mais vezes. - Cassy abriu um sorriso largo.
A pianista forçou um sorriso e se despediu da mulher, deixando-a sozinha na arquibancada. queria ir embora e colocar todos aqueles pensamentos que a faziam lembrar de no lixo. Por que era tão difícil esquecê-lo? Quais são as chances de uma simples conversa com alguém que nunca vira antes ferir e apontar tanto para seu erro? colocaria um fim naquilo. Colocaria um fim em .
***

Depois do longo treino, Matthew levou para sua casa, a pedido da própria namorada. O garoto percebeu como ela estava agindo de maneira estranha o caminho todo, do momento em que deu partida no carro ao segundo em que abriu a porta de casa. Estava inquieta, mesmo sem dizer quase nada.
- Está tudo bem? - Perguntou, sentando-se no sofá cinza da sala.
, ainda de pé em frente ao namorado, respirou fundo e olhou bem para Matthew. Prestou atenção em cada detalhe de seu rosto, pescoço, colo. Buscou nele aquela mesma atração que sentia pelo garoto quando era adolescente, apesar de agora ele ser um pouco diferente. A barba estava por fazer, o cabelo loiro estava mais curto e era possível ver alguns hematomas em sua pele, por conta do rugby. Sorriu ao sentir o coração acelerar. Aquilo era alívio por conseguir despertar e acender o desejo pelo namorado. Agora, apenas Matthew estava em sua mente, e mais ninguém.
- , quer me dizer alguma coisa? Cassy falou algo a você? - Matthew fez outra pergunta, estranhando cada vez mais o silêncio da namorada.
A pianista soltou uma risada fraca e caminhou até o garoto:
- Está tudo bem, só queria olhar para você. - disse em voz baixa, fazendo Matt abrir um sorriso aliviado - Quero lembrar de como me sentia quando ficávamos sozinhos.
, então, senta em uma das pernas de Matthew que a envolve com seus braços, trazendo-a para mais perto. Sem hesitar, mas com cautela, a pianista diminui a distância entre os rostos com um suave beijo. Um beijo sincero e que seria decisivo para botar um fim em todo pensamento que a deixava confusa sobre seus sentimentos.
***

Na semana seguinte, na quinta-feira, ajudava seu pai a preparar o jantar. Para aquela noite fariam uma refeição que pudesse esquentá-los daquele intenso frio do inverno. A pianista olhou pela janela da cozinha e reparou na neve que caia, deixando as ruas, árvores e carros completamente brancos. sorriu, sentindo-se feliz na sua estação favorita. Era no inverno que a garota se sentia mais inspirada para tocar ao piano e até mesmo compor.
- Parece que hoje está mais frio que o normal. - John disse, esfregando e assoprando as mãos. - Pode ligar o aquecedor, querida? - Pediu enquanto abaixava o fogo de uma das bocas do fogão.
- Claro! - assentiu e foi até o aquecedor que ficava na sala.
Antes de retornar para a cozinha, ouviu o telefone, que também ficava na sala, tocar. pegou o aparelho e colocou em seu ouvido, atendendo com uma animação que nem sabia explicar. Devia ser o clima de Inverno.
- Alô? - Atendeu. John apareceu na sala secando as mãos molhadas em um pano, curioso para saber com quem a filha falava. sorriu para o pai, esperando uma resposta.
- Ahn… É da casa do ? - A pessoa na outra linha perguntou, parecendo constrangido. franziu o cenho, tentando reconhecer a voz de algum lugar.
- Sim, aqui é a irmã dele. - respondeu e olhou para a escada, pensando se estaria em seu quarto.
- E, por acaso, ele está por perto? Posso falar com ele?
se perguntava de onde poderia conhecer aquela voz que não era nada estranha para ela. e não eram, afinal estavam com agora mesmo falando bobagens ou fazendo qualquer outra coisa. Seu pai estava bem na sua frente e a voz de Matthew não era tão rouca quanto a da pessoa na outra linha.
- Quem gostaria de falar com ele? - perguntou enquanto encarava o pai, que fazia gestos para saber quem era.
- , sou amigo dele…
Não, não, não… Definitivamente não pode ser o mesmo . Quais eram as chances de aquilo acontecer? Só podia ser mais uma pegadinha que sua mente pregava, apenas para torturá-la. A dor no peito, o frio na barriga, o zunido no ouvido como se uma bomba tivesse caído bem do seu lado… não sabia quanto tempo estava sem dizer absolutamente nada, mas não conseguia pensar e nem abrir a boca para falar, o que preocupou e deixou o pai ainda mais curioso para saber quem era a pessoa na outra linha!
- Alô? Ainda está aí? - perguntou, tirando o celular do ouvido para olhar o visor e checar se a chamada não tinha caído.
- Ahn… sim, estou aqui… - gaguejou. franziu o cenho estranhando. - O que quer falar com meu irmão? Vocês são amigos mesmo? De onde você é?
fechou os olhos, constrangida por lançar várias perguntas ao mesmo tempo, sem pausa para respirar. Tudo o que ela queria era apenas confirmar a dúvida que ainda martelava em sua cabeça, mesmo percebendo que a voz realmente era dele. Oras, nem sua mente e nem seu corpo esqueceriam o efeito que aquela voz tem na garota, por mais que ela quisesse e tentasse. Estaca zero!
***

andava de um lado para o outro com as mãos na cabeça, tão nervoso e inquieto que e não sabiam mais o que fazer para acalmá-lo.
- Cara, andar igual uma mula não vai trazê-lo aqui magicamente! - reclamou, cansado de acompanhar perambulando pelo quarto.
- Vocês têm noção de que o Festival de Inverno é no sábado, daqui há dois dias? Ele vai estragar tudo, mesmo estando a quilômetros daqui! - esbravejou, jogando-se de costas na cama.
- Ah qual é, não precisamos dele para tocar. Temos a bateria, o baixo, guitarra e voz. Se ele realmente quisesse fazer parte disso, já estaria aqui há muito tempo. Não é agora que vai simplesmente bater na porta e aparecer. - No momento em que terminou de falar, os três arregalaram os olhos ao ouvirem três batidas na porta.
colocou parte do corpo para dentro do quarto do irmão, encostando-se no batente, com o telefone na mão. A garota sorriu brevemente para e que começaram a rir. os ignorou, sem saber o motivo das risadas, e então olhou para , estendendo o telefone.
- Para você - avisou, sem sair de onde estava. As pernas estavam bambas e era difícil andar e até mesmo falar, sabendo que o cara com quem ela traiu Matthew estava mais perto do que ela poderia imaginar.
- Quem é? - perguntou, levantando e caminhando até a irmã, que encolheu os ombros.
- Hã… . - Gaguejou mais uma vez. fechou os olhos, sentindo-se estúpida.
- Esse puto ainda tem coragem de ligar? E não foi nem no meu celular! - reclamou em voz alta, olhando indignado para os amigos. Virou para e pegou o telefone de sua mão. - Valeu.
continuou parada, curiosa sobre aquela situação. Como diabos e se conheciam? Desde quando eram amigos? Ele sempre soube que era seu irmão? Tantas perguntas e nenhuma resposta! Argh!
Antes de colocar o telefone em seu ouvido, encarou parada na porta, como se dissesse que já poderia ir embora e agora era com ele. Hesitante, fechou a porta e encostou o ouvido na tentativa de ouvir qualquer coisa… nada. Ela não conseguia escutar nada. Frustrada, desceu novamente as escadas e voltou para a cozinha para ajudar seu pai. Os mil pensamentos e perguntas em sua mente não permitiam que ela prestasse atenção no que John dizia, tudo o que ela queria saber era se aquilo, na verdade, era um pesadelo.
No quarto de , os três garotos impacientes falavam um por cima do outro para discutir com .
- Dude, eu sinto muito, mas você está fora da banda! - esbravejou. Apesar da ira ser mútua, e ficaram surpresos com a decisão repentina de .
- O que? - , e disseram ao mesmo tempo.
- O Festival é depois de amanhã e você nem está aqui! Entendo que você precisou ir para Bolton, mas em toda a face da Terra nós somos a única banda que faz ensaios a distância. Não podemos perder essa chance por SUA causa! - disse em voz alta, totalmente sem paciência, mas também decepcionado.
- , não faça isso, por favor. Eu fiquei enrolado com algumas coisas aqui, mas é pelo bem da nossa banda. Eu finalmente vou poder ficar perto de vocês por mais tempo do que imaginam… - suplicou, com medo daquele ser o fim de sua carreira musical.
- O que quer dizer com isso? - perguntou com o ouvido encostado no telefone, junto com , que deu um breve empurrão no amigo para afastá-lo.
- Primeiro: consegui convencer meu pai sobre ter uma banda, e não foi nada fácil - começou a explicar. - Segundo: precisei trabalhar dia e noite para ter algum dinheiro e conseguir ir para Londres.
- Eu disse que ajudava você a vir para cá, dude… - disse, agora com a voz mais calma.
- Eu não vou só pelo Festival, quero ir para morar e ajudar na banda. - O guitarrista disse, soltando um suspiro pesado. - Eu disse que não deixaria vocês na mão. Neste exato momento, eu estou na estrada a caminho de Londres. Nós vamos tocar nesse Festival!

Capítulo 14

A única iluminação que tinha naquela enorme sala de pisos de mármore era da lua e de uma simples lareira acesa, que não só iluminava o cômodo, como também aquecia o corpo e coração de . Em mais uma noite de inverno, lá estava ela dançando ao mesmo ritmo de notas agudas e graves do piano de cauda, no centro da sala, colocando no instrumento tudo o que pensava e sentia. Sem precisar de palavras e ninguém, apenas ela e o piano. Inspirada, tocava Noturno op.9 de Chopin.
Quando mais tocava, sentia-se aquecida, feliz e relaxada. Ah, como era bom não se preocupar com nada! Ninguém poderia atrapalhá-la ou feri-la enquanto estivesse ao piano ouvindo aquelas notas tão suaves que ecoavam pela sala vazia. abriu os olhos e esboçou um sorriso.
De repente, um som ensurdecedor invadiu os ouvidos da pianista, que tirou as mãos do piano rapidamente pelo susto.
- O que foi isso? - Perguntou a si mesma, olhando em volta.
Quando olhou para a porta fechada da sala, pôde ver por debaixo dela que a luz do corredor estava acesa. Franziu o cenho desconfiada. estava sozinha; seria seu pai ou ? Não, não… eles saíram pela manhã e só voltariam no dia seguinte. Lembrando-se disso, tomou-se conta de que, na verdade, nem sabia para onde haviam ido e o motivo da saída. “Para onde foram?”, perguntou mentalmente.
levantou e foi em direção à porta. No momento em que pegou na maçaneta e preparou-se para girá-la, ouviu outro som. O mesmo que ouvira segundos atrás, mas desta vez o reconheceu…
- Parece uma… guitarra?
A garota abriu a porta com pressa. O corredor que esperava ver, não estava ali. Agora, ela estava em um lugar totalmente diferente. olhou em volta e percebeu que não tinha nada à sua volta, nem mesmo o piano de antes, apenas uma grande árvore a poucos metros de onde ela estava, parecida com a que tinha no centro do Instituto de Cleveland.
passou a mão no rosto e caminhou lentamente até a árvore e quanto mais se aproximava, maior era o som da guitarra. “Quem estava tocando? Onde eu estou?”, perguntava-se.
- Ei, ! - A garota ouviu seu nome e olhou para trás. Franziu o cenho ao ver, de longe, Matt acenando. - Eu te amo, não importa o que aconteça!
O que era aquela declaração repentina? Quando a pianista ia dar o primeiro passo para ir até o namorado, ouviu seu nome ser chamado mais uma vez, agora de outra direção.
- ! - A pianista repetiu o gesto e virou para trás, sentindo-se ainda mais confusa. - Estamos nos aproximando, mas a noite está quase no fim…
- ? - Perguntou para si mesma, com os olhos arregalados ao ver o garoto do outro lado com a sua guitarra de sempre nas costas.
- ! - Matthew chamou, com a voz irritada.
- ! - a chamou, com a voz marota e delicada.

***


- , acorda, cacete!
Com o coração acelerado e a nuca levemente molhada de suor, abriu os olhos e levantou desesperada, assustando à sua frente.
- Ei, calma, sou eu! - O irmão avisou rindo.
A pianista olhou em volta com a mão no peito e suspirou aliviada ao notar que estava em seu quarto e não em uma sala totalmente vazia. fechou os olhos e jogou seu corpo novamente na cama, cobrindo o rosto com o travesseiro.
- O que você quer, ? - Perguntou com a voz abafada. - E que horas são?
- Quase 8h - olhou a hora no celular.
- Desde quando acorda tão cedo?
- Desde quando eu tenho uma banda que vai tocar em um dos maiores festivais de Londres. - se gabou. tirou o travesseiro de seu rosto e sorriu orgulhosa. - O assessor do evento quer falar com a banda agora cedo. Acho que para saber o que vamos tocar e quanto vai ser o nosso cachê.
- E já sabem o que vão tocar?
- Selecionamos algumas músicas, mas queremos adicionar mais uma. Um cover talvez.
- Por que não tocam aquela do Beatles… In love, my love… Como se chama mesmo? - sentou-se na cama e olhou para cima, como se buscasse em sua memória o nome da música.
- All my loving? - perguntou e ficou surpreso com a afirmação animada da irmã, que mal sabia quem era o grupo até um tempo atrás. - Desde quando ouve Beatles?
deu de ombros e desviou o olhar.
- Enfim, não importa. A música é realmente boa, vou falar com os caras. - disse e foi até a porta do quarto. - Só queria avisar que estou saindo e o pai pediu para que você o encontrasse no estúdio mais tarde.
- Aconteceu alguma coisa? - perguntou curiosa.
- Até onde sei, não. Mas o velho saiu bem animado para trabalhar, talvez tenha arranjado uma namorada nova.
e começaram a rir ao pensar na hipótese de o pai ter uma nova namorada depois de tantos anos solteiro. Depois de seu primeiro divórcio, quando tinha 8 e 6, John nunca mais quis saber de relacionamentos. Apesar da difícil decisão no início, a separação foi saudável e não afetou tanto a vida das crianças como os pais imaginaram que afetaria. Desde então, e vivem com o pai enquanto a mãe viaja mundo afora, como sempre sonhou; em datas especiais, como aniversários e natal, ela mandava notícias, presentes e até mesmo os visitava, ainda que raramente. “Como será que ela está?”, pensou.
- vai passar aqui para me buscar, quer uma carona? - perguntou, tirando a irmã dos devaneios.
piscou os olhos e soltou um longo bocejo, sentindo-se sonolenta. Colocou os pés para fora da cama, calçou seus chinelos e foi até o guarda-roupa branco, abrindo-o em seguida.
- Pode ir na frente. Ainda vou tomar banho e talvez passe na casa do Matt antes de ir ao estúdio do pai. - Respondeu a pianista enquanto encarava as roupas penduradas em cabides.
revirou os olhos e respondeu contragosto:
- Ainda não entendo como estão juntos depois do que aconteceu!
engoliu a seco e fechou a porta do guarda-roupa lentamente. “Matthew contou ao sobre Cleveland?”, perguntou-se mentalmente. Sem saber como reagir ou o que falar, virou-se para o irmão, que a encarava com o rosto mais sério que ela já vira.
- Você não tem nada a ver com isso, . - Respondeu em alarde.
- Claro que eu tenho! Você é minha irmã, porra! - Ele estava irritado, tão irritado que deu um passo involuntário para trás ao ouvir o grito do irmão. Até mesmo estava surpreso com sua atitude, afinal, eram raras as vezes que levantava a voz para alguém, principalmente para a irmã. - Desculpe, eu não quis…
- Você não tem um festival para tocar? - perguntou sem olhar para . - Me deixe em paz. - A pianista passa por , entra no banheiro do corredor e fecha a porta atrás de si. Irritada, limpou a lágrima que rapidamente escorria pelo seu rosto. Desde quando ficou tão chorona?
O aperto em seu coração ao pensar que poderia saber sobre ela e o que fizera em Cleveland era devastador. E se ele estivesse sendo educado até agora só para não a magoar? O que ele faria se soubesse que, na verdade, a irmã dormiu com um de seus amigos? Mesmo que ainda não tivesse a total certeza de que o “” com quem falara no telefone fosse o mesmo “” de Cleveland, aquilo a assustava. fechou os olhos por 5 segundos até que ouve a voz de no corredor:
- Eu só acho que você merece coisa melhor para ser feliz. Pensei que fosse a inteligente da casa, mas parece que me enganei. - arregalou os olhos surpresa. - Quando encontrar com o pai, avise a ele que vou chegar tarde em casa.
A pianista abre a porta do banheiro e olha para o fim do corredor, onde pôde ver o irmão descer as escadas com as mãos nos bolsos e expressão fechada. bufou e fechou a porta de novo, dirigindo-se para ligar o chuveiro. Enquanto a água aquecia, tirou as roupas que vestia e encarou-se no espelho redondo em cima do lavatório.
- Mesmo longe consegue me trazer vários problemas. Idiota!

***


- Quer que eu te espere? - Matthew perguntou ao estacionar o Porsche branco em frente ao enorme prédio comercial, onde ficava o estúdio de fotografia de John.
Assim como avisou ao irmão, depois de tomar banho e vestir uma calça jeans preta, uma blusa de lã azul-bebê e um sobretudo branco, antes de ir ao encontro do pai, passou na casa de Matthew para pegar sua pasta de partituras que havia esquecido na última noite no quarto do garoto. Quando a pegou de volta, Matthew não hesitou em oferecer uma carona para a namorada, que aceitou sem dizer nada. Ele percebeu que algo estava estranho (mais uma vez). Durante o caminho todo até o estúdio, o garoto tentou puxar assunto, mas a única coisa que conseguia de eram respostas curtas e automáticas. “Sim; Uhum; Não sei; É, pode ser”. Até que desistiu, ligou o rádio e seguiu o caminho ao som de Gorillaz.
- Não precisa. - respondeu ajeitando o cachecol em seu pescoço. - Vou voltar para casa com meu pai.
- Tem certeza? - Matthew perguntou e depois segurou a mão de . - Aconteceu alguma coisa?
Silêncio. estava incomodada ao pensar na possibilidade de Matt ter contado tudo sobre ela para , que agora devia odiá-la. Ela olha para a mão do garoto sobre a sua e solta um suspiro leve.
- Você… disse alguma coisa para ?
Ele franze o cenho, confuso. - O quê?
- Contou sobre o que aconteceu em Cleveland?
- Não, eu não contei nada. Combinamos de esquecer sobre isso, não foi? - Matthew leva sua mão de volta para o volante e olha para a janela, frustrado. Ele não podia admitir a raiva que sentia queimar dentro de si ao imaginar que sua namorada esteve com outro. O quão hipócrita isso seria? - Por quê?
- Ele tem agido estranho desde que voltei. Na verdade, vocês dois têm agido estranho um com o outro. Não eram melhores amigos? O que eu não sei, Matthew?!
Uma pausa. - Eu passo na sua casa hoje à noite e conversamos, ok? - Ele respondeu ao girar a chave para ligar o carro.
- Então estão realmente escondendo algo de mim, não é?
- Acho que você entende muito bem sobre isso.
abriu a boca surpresa com o sarcasmo. Pegou sua bolsa no banco de trás e tirou o cinto, pronta para sair do carro.
- Pelo menos eu contei a verdade. Ah, e não precisa perder seu tempo indo em casa!
Quando abriu a porta do veículo e colocou um pé para fora, Matt a segurou pelo braço.
- Espera! - Disse e bufou. - Eu me expressei mal, desculpe. Por favor, me espere hoje à noite. Quero que você saiba a verdade de mim e não de outros! - Ele diz e o tom que usou faz o coração de bater rápido. Ela assentiu com a cabeça, mesmo que hesitante, e saiu do carro.
Curiosa, nervosa, ansiosa, frustrada. Muitas emoções em uma única manhã, o que viria ao decorrer do dia, não queria nem imaginar. Soltou um longo suspiro, colocou as mãos nos bolsos do sobretudo e dirigiu-se para o enorme prédio. Só esperava que o encontro com o pai fosse bom, diferente do que fora com o irmão e com o namorado.

***


- Era mais fácil ter pegado um trem!
- Não acredito que vou ficar mais duas horas nesse ônibus!
- Vovó, por que paramos?
Os passageiros do ônibus com destino à Londres reclamavam ao mesmo tempo, frustrados com o veículo quebrado e parado no meio da estrada. revirou os olhos, irritado, e tirou seu celular do bolso. Apesar do intenso frio que fazia, estava começando a sentir calor dentro daquele ônibus cheio de gente e com o ar condicionado quebrado. Ficou ainda mais frustrado ao perceber que logo acabaria a bateria do celular. Decidiu, então, pausar a música que tocava em seus ouvidos e colocar o aparelho na economia de bateria.
- Ei, quanto tempo você acha que vai demorar para o outro ônibus chegar? - Perguntou uma garota de cabelos curtos com uma mecha loira na franja, que dividia o banco com o guitarrista.
- Eu não sei. O motorista disse duas horas, mais ou menos. - Respondeu enquanto mandava uma mensagem para .
- Hmm… - A garota cantarolou uma música qualquer e olhou para o braço de - Gostei das tatuagens. Maneiras!
também olhou para seu braço e soltou uma risada fraca. - Valeu. Pretendo fechar o braço. - Respondeu e voltou a olhar para a tela do celular. Fez uma careta em seguida ao ler a mensagem de , o xingando por estar atrasado. - Merda. - Murmurou.
- Alguém está te esperando? - A garota perguntou, curiosa. bufou e guardou o celular de volta no bolso.
- É, e parece que não estão muito felizes com o ônibus quebrado.
- Sinto muito. Isso é uma droga, mesmo! Mas fique tranquilo, nada que não possa piorar. - Os dois riram e fizeram uma pausa. - Meu nome é Vick.
O guitarrista finalmente olhou para a garota ao seu lado e sorriu, reparando na sua beleza exótica. Até que aquela situação não era tão ruim. - !

***


- Ah, olha ela aí! - John exclamou assim que viu abrir a porta de vidro e entrar na pequena sala com uma mesa de escritório, com várias fotos impressas e duas câmeras digitais em cima. - , quero te apresentar a uma pessoa.
No mesmo instante, uma mulher alta e negra, que vestia roupas parecidas com as de - calça e sobretudo - e estava sentada em uma das duas poltronas vermelhas da sala, levantou com um largo sorriso e foi até a pianista. , curiosa, sorriu de volta e olhou para o pai. “Será mesmo uma namorada?”, pensou.
- Essa é Elsie Clarke, maestrina da Orquestra Sinfônica de Londres. - John disse e segurou a risada ao notar o rosto surpreso de . Então, virou-se para a maestrina que mantinha a postura e sorria educadamente. - Elsie, essa é minha filha .
- Muito prazer, . Seu pai me falou muito sobre você!
- Eu… - A pianista não sabia o que dizer ao apertar a mão da maestrina de uma das maiores orquestras do Reino Unido. - O prazer é todo meu! - Disse, por fim, contendo-se para não parecer tão animada quanto estava.
- Elsie é uma cliente nossa desde julho - John contou ao entregar uma xícara de chá para , que o pegou e sentou em uma das poltronas. Elsie e John repetiram o gesto. - Fizemos alguns ensaios fotográficos da orquestra e dos eventos este ano.
A maestrina sorria em afirmação. balançou a cabeça, atenta e curiosa do porquê de fato ela estava ali. O que o pai estava aprontando desta vez?
- Seu pai contou que esteve fora durante todo este ano para estudar música. - Elsie disse em seguida.
- Sim, voltei de Cleveland há algumas semanas. - confirmou, assoprando a bebida quente que segurava.
- Ela é uma grande pianista! A melhor! - John disse empolgado. olhou para o pai, constrangida. - O que foi? É verdade!
- Gostaria de ouvi-la tocando algum dia. - Elsie pediu sem rodeios, surpreendendo e fazendo John sorrir cada vez mais. - Precisamos de novos músicos em nossa orquestra, incluindo pianistas, e seu pai falou tão bem de você que estou curiosa para saber o que pode fazer no piano.
- É sério? - perguntou sem acreditar. A maestrina da orquestra mais conhecida do mundo quer ouvi-la tocar piano!
Atualização de emoções em uma única manhã: Curiosa, nervosa, ansiosa, frustrada e eufórica! O dia estava começando a melhorar.
- Tão sério como nunca. Se você realmente for boa como seu pai diz ser, será uma honra tê-la em nossa equipe. - Elsie disse calmamente e deu um gole do seu chá, sem tirar os olhos de . “Vejo potencial”, pensou. - MAS, preciso ouvi-la antes de tomar qualquer decisão. O que acha?
- Isso é incrível, ! - John bateu palmas animado, mas logo se conteve ao receber o olhar de reprovação das duas mulheres na sua frente. - Desculpe. - disse sorrindo.
- Quando e onde podemos nos encontrar? - perguntou, abrindo um sorriso singelo.
- Por que não na nossa sede? Assim você fica familiarizada com o local e palco. - Respondeu a maestrina. Ela levantou e pegou sua bolsa de couro preta, colocando-a em seu ombro. - Está livre este fim de semana? - perguntou.
- Este fim de semana? - olhou para o pai e depois voltou a olhar para a maestrina. - Ahn… Na verdade, tem o festival de inverno.
- Hmm, é verdade, tinha me esquecido. - Elsie colocou a mão no queixo, pensativa. - Semana que vem preciso fazer uma viagem e também não sei se podemos nos encontrar.
sabia que precisava estar no festival para apoiar o irmão, que tocaria pela primeira vez em um evento tão grande como esse. Ele contava com a presença dela e do pai, não é à toa que faria de tudo para conseguir lugar para eles perto do palco. Mas a chance de ter uma verdadeira carreira na música estava bem ali, na sua frente, esperando por uma resposta! Desde pequena se imaginou em uma orquestra sinfônica, e ali estava a oportunidade! entenderia, não é? esperava que sim. Seria apenas um teste e, além disso, o festival só iria começar no fim da tarde. Ela chegaria a tempo!
A pianista olhou para o pai, em busca de conselho, e recebeu um sorriso e olhar como se dissesse “faça o que achar melhor”. Então, também levantou e ficou de frente para Elsie:
- Podemos amanhã à tarde?

***


O sol já estava se pondo quando abriu a porta da sala de sua casa e entrou, acompanhado por e , que foram direto para a cozinha em busca de algo para comer ou beber.
- Ei, vocês não têm comida em casa?! - John perguntou ao ver os dois garotos abrirem a geladeira. Negou com a cabeça e foi para a sala, onde estava sentado no sofá e passava pelos canais da TV sem ânimo. - Ei, disse que chegaria tarde. Deu tudo certo na reunião? - Perguntou.
- Está tudo certo para amanhã. Mostramos as músicas que vamos tocar e o assessor gostou, mas… - fez uma pausa e bufou.
- Mas?
- ainda não chegou. O guitarrista que mora em Bolton, lembra? Devo ter falado dele para você.
John não se lembrava de ter ouvido sobre o tal de Bolton, mas não protestou. Apenas concordou e continuou a ouvir as lamentações de , que cruzou os braços e colocou as duas pernas na mesinha de centro à sua frente.
- Era para ele ter chegado hoje cedo e ter ido com a gente na reunião, mas o ônibus dele quebrou e agora não sei que horas ele vai chegar. Mandei mensagens, liguei e nada. Nenhuma resposta!
- Talvez ele esteja sem sinal? - John deduziu.
e apareceram na sala dividindo um pacote de salgadinhos.
- Ou sem bateria. - disse de boca cheia. - De qualquer forma, ele tem o endereço daqui, não tem? - Perguntou.
- Mandei para ele ontem à noite. - respondeu e descruzou os braços.
- Então vamos esperar. Se ele não ligar ou mandar mensagem, ele pode vir para cá sozinho, certo? - disse, colocando um punhado de salgadinho na boca em seguida, derrubando um pouco de migalha na roupa e no sofá. John lançou um olhar desaprovador.
- Pai, você viu minha… - Os meninos na sala viraram, ao mesmo tempo, os rostos para que descia a escada. - Oi, … como foi a reunião? - perguntou, sentindo-se desconfortável ao lembrar da discussão de manhã.
forçou um sorriso. - Deu tudo certo, valeu. E você?
- O que tem eu? - terminou de descer o lance de escadas e sentou no sofá em que estava.
- … tudo bem? - Perguntou sorrindo de lado. também sorriu e assentiu, percebendo a preocupação do irmão. Quer dizer que estava tudo bem entre eles, não é?
- E então, o que vão tocar amanhã? - John perguntou, dando início a uma conversa animada dos garotos sobre o festival.
sentiu o celular vibrar em seu bolso. O pegou, desbloqueou e abriu a mensagem sem hesitar, mas só depois percebeu que era de Matthew perguntando se ela estava em casa. A garota, sentindo um leve aperto em seu coração, respondeu que sim. Olhou para , que estava rindo enquanto contava sobre a reunião, e pensou sobre o que poderia ter acontecido entre ele e o namorado. O que, na verdade, escondiam dela?
Depois de dez minutos que Matthew avisou que estava saindo de casa para encontrar a namorada, ouviu a campainha tocar. Ela olhou para , olhou para a porta e respirou fundo. Não queria outra discussão com o irmão sobre Matt.
- Eu atendo! - disse levantando do sofá e dirigindo-se até a porta. Passou a mão sobre a blusa de frio que vestia, para tirar o amassado, e então girou a maçaneta.
Sentiu seu coração disparar. O perfume amadeirado invadiu sua consciência, deixando-a desnorteada. Seus olhos arregalados, o corpo rígido e sem forças para movê-lo ou, sequer, soltar a maçaneta da porta. Boca entreaberta e silêncio absoluto, a não ser pela conversa dos garotos na sala, logo atrás de . Lá estava ele.
- ? - Ele disse, tão surpreso quanto a garota na sua frente. As mesmas expressões que ela fazia, ele estava fazendo. Os mesmos sentimentos de confusão e pasmo que ela sentia, ele também estava sentindo.
- Não pode ser… - Ela disse mais para si mesma do que para qualquer outro.
olhou para trás, perguntando-se o porquê da demora de para atender a porta, até que arregalou os olhos e abriu um sorriso largo, pulando do sofá para ir até a irmã.
- !

Capítulo 15

Ouvir o nome dele foi como se um punho batesse contra a mente e coração de naquele momento, provando que a imagem que estava bem na frente dela não era mera miragem. Era real. estava bem ali, parado diante da pianista, a olhando fixamente por estar tão surpreso quanto ela.
Isso não pode estar acontecendo, pode?
solta a maçaneta devagar e dá um passo para trás, sem tirar os olhos do garoto que perturbava seus pensamentos antes mesmo de deixar Cleveland para trás. Tantas perguntas que os dois queriam se fazer, mas, naquele instante, nem ele ou ela conseguiam raciocinar direito. Quando abriu a porta, sentiu que tudo à sua volta ficou em câmera lenta, assim como nos filmes. Só se deu conta da realidade no momento em que chamou o nome de , atraindo, em seguida, e que logo saíram do sofá e correram em direção ao guitarrista.
derrubou a mochila de seu ombro ao ser abraçado desengonçadamente pelos amigos. Apesar da euforia, ele não conseguia tirar seus olhos dela. Estava espantado!
- Seu puto, por que demorou tanto? - deu um soco no braço de , que piscou os olhos rapidamente, como se tivesse saído de um transe, e colocou a mão na região em que o amigo bateu. - E que cara é essa? Viu um fantasma?
- Ouch, dude! - reclamou e olhou para . sentiu o coração disparar ao ouvir a voz do garoto. - Só estou… extremamente confuso agora. - voltou seu olhar para a pianista, que engoliu a seco. - O que faz aqui?
arregalou os olhos com a pergunta feita diretamente para ela. Aflita, olhou para , que franziu o cenho e começou a rir. e fizeram o mesmo, estranhando a atitude do amigo que tinha acabado de chegar.
- Que pergunta é essa, ? - disse, rindo.
- Ela mora aqui, o que mais seria? - respondeu, também rindo. , constrangido, se dá por vencido e acompanha os amigos com uma risada forçada. - Se ache menos, dude. - , então, vira para a irmã e aponta para o guitarrista. - Este é . , esta é…
- … - diz automaticamente, atraindo um olhar ainda mais confuso de , e assustador de .
Não, não, não! Por favor, não diga nada! Era o que suplicava para si mesma.
- O quê? - perguntou e intercalou os olhares para a irmã e . - Vocês… já se conhecem?
- Sim, nós…
- NÃO! - interrompe e ele parece genuinamente surpreso. - Quer dizer… - A pianista pigarreia e diminui o tom de voz, tentando parecer calma e indiferente. - Não o conheço.
- E como você sabe o nome da minha irmã? - perguntou diretamente para . Então eles são irmãos?! Só pode ser brincadeira, pensa.
- Eu… - percebe a expressão tensa de , como se implorasse a ele para não contar a verdade. Ele, então, abaixou os olhos e soltou uma risada fraca. - Nos falamos ontem por telefone. Liguei para sua casa e foi ela quem atendeu.
- Ah, claro, como pude esquecer? Foi mal, cara! - balançou a cabeça e riu mais uma vez, sentindo-se um pouco estúpido.
Uma leve brisa gelada os atingiu, fazendo se arrepiar e dar um breve pulo com frio.
- Aí, podemos entrar ou preferem congelar aqui fora? - perguntou passando pelos amigos e voltando para dentro de casa. e fizeram o mesmo.
olhou de relance para , ainda sem acreditar que ela realmente estava ali. “Deus, valeu, mas dessa vez você me pegou!”, ele pensou. Um misto de emoções o bombardeava. Estava feliz por vê-la, algo que não esperava que fosse acontecer tão cedo; Estava espantado pela maneira como a reencontrou e descobrir que, na verdade, ela é irmã de um de seus melhores amigos; Também sentia-se desapontado pela reação da garota e como preferiu fingir não conhecê-lo.
Sem dizer nada, passou pela garota e foi até os amigos, deixando um rastro de seu perfume amadeirado. fechou os olhos ao sentir o corpo amolecer, inebriada e atordoada com tudo o que aconteceu ao longo do dia. Sério, tinha como ficar pior? Mais alguma pegadinha?
- Agora que você finalmente está aqui, não podemos perder mais tempo! - disse de pé, olhando para os três amigos sentados no sofá.
, lentamente, aproximou-se da escada. Pensou em ir para seu quarto, mas apenas encostou-se no corrimão e olhou mais uma vez para . Seu coração batia tão rápido, que sequer conseguia concentrar-se em seus próprios pensamentos. Enquanto isso, estava se segurando para não olhar para . Apenas a presença dela estava mexendo com sua cabeça. As mãos juntas, maxilar tenso e pernas se mexendo eram sinais claros de que ele estava completamente nervoso.
- Podemos ensaiar mais um pouco hoje e amanhã cedo. O festival é só no fim da tarde, de qualquer forma. - sugeriu e os garotos concordaram.
- Só, por favor, não incomodem os vizinhos! - John apareceu na sala e estendeu a mão para , que a segurou firmemente. - Você deve ser o de Bolton.
O guitarrista deu uma risada fraca e respondeu:
- Não por muito tempo!
franziu o cenho, sem entender. - Como assim? - Perguntou em voz alta, atraindo os olhares para si. Sentiu o rosto esquentar, constrangida. fez uma pausa e lançou o sorriso maroto que ela tanto detestava.
- Para ficar perto da banda, pretendo morar aqui: em Londres. - segurou-se para não rir da expressão surpresa de . - Isso quer dizer que ainda vai me ver bastante, . - Ele frisou o nome da garota, deixando-a ainda mais incomodada e frustrada.
- Okay, okay! - interviu, rolando os olhos. - Pare de flertar com a minha irmã bem na minha frente. Se liga, dude! - virou o rosto para o lado, na tentativa de esconder o rubor nas bochechas.
- É cara, se o Matthew souber que você está dando em cima dela, você já era! - disse rindo. ficou sério e olhou para a irmã, que se afastou e começou a subir as escadas. acompanhou a cena até que ela desaparecesse de sua visão.
- Matthew? - Ele perguntou, suspeitando que fosse o tal jogador de rugby por quem sempre chorava.
- É o namorado dela. O cara é um monstro, dividiria você em dois fácil, fácil. - respondeu e concordou com uma risada fraca.
“Então eles ainda estão juntos mesmo depois de tudo?”, perguntou para si mesmo, sem acreditar. Sentindo uma raiva que não sabia explicar, o garoto apertou o punho e respirou fundo, tentando se livrar daquele sentimento.
- É um idiota. - disse em prontidão e balançou a cabeça em seguida. - Deixando isso de lado, temos mais o que fazer: ensaiar!
***


- Merda, merda, merda! - xingou ao fechar a porta do quarto atrás de si. Eram raríssimas vezes que a garota xingava e falava palavrões, apenas quando se sentia completamente irritada e fora de si. E era assim que ela estava naquele momento. - O que ele está fazendo aqui?!
perguntou com a voz trêmula, andando de um lado para o outro com a mão no peito. De todas as coisas que poderiam acontecer e pessoas que poderiam aparecer, era a última que ela esperava reencontrar, na verdade, ele nem sequer estava na lista de pessoas que poderiam aparecer em sua porta! A presença dele doía. Doía tanto que preferia ficar do lado de fora, na neve, a ter que dividir o mesmo espaço com o guitarrista que cantou para ela, a beijou, tocou seu corpo… e a deixou.
- Ele foi embora primeiro… - murmurou, jogando seu corpo na cama perfeitamente arrumada e com várias almofadas. - O que esse idiota faz aqui?
Perguntou mais uma vez e fechou os olhos, abrindo-os alguns segundos depois ao sentir o bolso vibrar. Respirou fundo e pegou seu celular. Era uma mensagem de Matthew avisando que atrasaria mais alguns minutos. soltou o ar e largou o celular em qualquer canto da cama.
- Demore o quanto quiser…
***


- Vamos mais uma vez! - disse, secando o suor que começava a escorrer em sua testa.
, e rolaram os olhos, sentindo o cansaço tomar conta do corpo. No entanto, não reclamaram e nem protestaram, apenas se prepararam para mais uma rodada. sempre foi rígido nos ensaios, mas naquela noite ele estava sendo um pesadelo para os amigos. chegou a pensar que ele parecia um ditador quando apontou para ele e pediu mais atenção no tempo da música. Até mesmo estava surpreso com aquela versão de , mas também achava engraçado.
Quando terminaram de tocar um cover de Beatles, sugestão dada por , largou as baquetas no chão; se jogou no sofá da garagem e correu para pegar uma água gelada no frigobar.
- Você… é um… monstro! - reclamou ofegante, apontando para .
- Ah qual é, não reclamem! não estava aqui e precisávamos ensaiar com ele. - se defendeu e também foi até o frigobar, abrindo uma garrafinha de água em seguida.
- Ei, não coloque a culpa em mim! - protestou secando a boca com o braço. Os três garotos viraram para o guitarrista, com olhares acusadores. - Okay, talvez seja um pouco minha culpa.
- Cara, eu estou faminto! - reclamou e levantou do sofá. - Vou ver o que tem para comer. Querem alguma coisa? - Perguntou ao abrir a porta que dava para um pequeno corredor e levava para a cozinha.
- Parece que é você quem mora aqui. Se o velho vir você mexendo na geladeira de novo, dessa vez vai te expulsar. - riu, negando com a cabeça. - Vamos pedir uma pizza.
Os garotos comemoraram e saíram do estúdio improvisado na garagem, indo direto para a cozinha. Quando viraram o corredor, encontraram John sentado à mesa de jantar mexendo em seu notebook e guardando uma garrafa de suco de laranja na geladeira, fechando-a em seguida. O ensaio foi tão intenso que, por um segundo, esqueceu que estava na mesma casa que a pianista. Ela olhou para o garoto e logo deu as costas, dirigindo-se para a sala. Ele abaixou a cabeça e suspirou, colocando as mãos nos bolsos da calça jeans.
- Terminaram de ensaiar? - John perguntou sem tirar os olhos do notebook.
- Estamos fazendo uma pausa. - respondeu enquanto discava o número da pizzaria no celular.
- Ele é maluco! Se dependesse dele, estaríamos ensaiando sem parar até o festival! - puxou uma cadeira e sentou ao lado de John. foi para a sala e sentou no sofá, junto de . pensou em segui-lo, mas desistiu e encostou o corpo no armário da cozinha.
- Minha garganta ficou tão seca que achei que fosse perder a voz na última música. - comentou, tirando uma risada de John e um dedo do meio de , que falava ao telefone.
O guitarrista, então, começou a reparar no ambiente. A casa não era tão grande, mas também não era pequena. Os móveis completamente limpos, pisos e azulejos brilhando e organização impecável. Bem diferente do apartamento de seu pai em Bolton. A sala e a cozinha eram um único cômodo, no entanto, tinha uma divisória de madeira clara que separava. Na sala, perto da porta de entrada, tinha uma escada que levava para o segundo andar. Na parede, ao lado da TV de tela plana, havia três quadros retangulares que, juntos, mostravam uma foto preta e branca de uma árvore com as folhas caindo. Também havia alguns quadros na cozinha, porém menores e com fotos de John, e juntos.
se aproximou da parede perto da divisória e riu baixo ao ver uma foto de quando era criança. Na foto, ela estava com as pequenas mãos em um teclado preto e sorria abertamente para a câmera, sem se importar se faltava um dos dentes da frente. , então, olhou pela divisória para a do presente, sentada no sofá da sala com uma expressão séria enquanto bebia suco de laranja e falava sobre qualquer coisa com . Droga, como ela conseguia ser tão linda?, pensou. Tão perto, mas ao mesmo tempo tão longe!
- Obviamente está fora do meu alcance… - Sussurrou.
- O que está olhando? - apareceu atrás de , fazendo-o dar um pulo assustado.
- Você quase me mata do coração! - colocou a mão no peito e riu. - Estava olhando essas fotos aqui. - Apontou para os quadros pequenos presos na parede. John escutou e virou para saber de quais quadros falava.
- Ah! Eu tenho uma foto de correndo pelado pela casa porque viu uma aranha no banho. - John começou a rir, lembrando-se do dia que o filho, ainda pequeno, saiu correndo do banheiro gritando pelo pai. e também desataram a rir, deixando irritado e constrangido.
- Se mostrar, pode ter certeza que eu fujo de casa e nunca mais volto! - ameaçou com o rosto completamente vermelho. John, e riram ainda mais.
- Por favor, mande para mim! - sussurrou para John.
- Do que estão rindo? - apareceu na cozinha, curioso.
Na sala, conseguia ouvir as risadas e a voz irritada de . Virou o rosto para espiar e sentiu o coração disparar ao ver o sorriso de . Sem perceber, também estava sorrindo, mas logo desfez o sorriso ao ouvir o som da campainha. colocou o copo vazio em cima da mesa de centro, levantou do sofá e foi até a porta. também apareceu na sala, pensando ser a pizza que havia chegado. não se moveu, mas observava pelos espaços livres da divisória.
- Hey, desculpe a demora!
Matthew colocou seu corpo para dentro de casa e deu um selinho em . sentiu o corpo enrijecer ao assistir aquilo, mas não pôde fazer ou falar nada em protesto. Já , cruzou os braços e foi até os dois. e Matt olharam para ele apreensivos, mesmo que por motivos diferentes. A pianista tinha medo de ter outro desentendimento com o irmão; Matthew temia que o acusasse de seus erros bem na frente de .
- O que faz aqui? - Perguntou sem hesitar. segurou o braço de Matt.
- , não começa. - pediu.
apertou o maxilar e encarou a pianista de longe, mesmo querendo se aproximar e tirá-la de perto daquele brutamontes que ela chamava de namorado. Saber que aquele cara foi o motivo de várias lágrimas que derramou em Cleveland fazia seu sangue ferver. Saber que ele ainda estava ao seu lado fazia seu sangue ferver! Os dois nem sequer combinavam! Que diabos ela viu nele?
- Relaxa, só vim conversar.
Matthew disse olhando nos olhos de . Então, virou para a namorada e segurou em sua mão, tomando a iniciativa de levá-la para o segundo andar. Enquanto subia as escadas, olhou de relance para , que a encarava seriamente. Abaixou a cabeça e continuou a seguir o namorado até o quarto.
***


- Quem é aquele? - Matthew perguntou ao sentar na cama da namorada. fechou a porta do quarto e olhou para o garoto.
- Quem?
- Aquele com o braço todo tatuado.
soltou o ar encostando seu corpo na porta. Cruzou os braços e olhou para os pés.
- Um amigo de . Chegou hoje. - Ela respondeu tentando mostrar indiferença. - E então… o que queria me falar?
Matthew também ficou de pé e colocou as duas mãos na nuca. Andou até o piano digital que tinha no quarto e apertou uma tecla, no entanto, não fez som algum por estar desligado.
- Eu e discutimos dias antes de você voltar para cá. - Ele começou a contar e continuou a observar seus passos, atenta ao que seria dito.
- Acho que percebi isso, mas qual foi o motivo? parece odiá-lo agora.
Matthew apertou outra tecla e respirou fundo. Estava nervoso e não sabia como encarar , mas precisava fazê-lo. Então, virou-se para a garota e a encarou nos olhos, pronto para dizer o que tanto cobrava e o que suspeitava. Era melhor ela saber por ele, afinal de contas.
- Lembra da Cassy? - Ele perguntou e franziu o cenho, tentando lembrar-se. - A mulher que falou com você na arquibancada no dia do meu treino.
, então, arregalou brevemente os olhos ao se lembrar da mulher que contou a história que mais parecia uma acusação. Por algum motivo, sentiu seu peito apertar ao pensar em Cassy e qual seria sua relação com Matthew.
- O que aconteceu, Matthew? - perguntou e descruzou os braços.
- me viu com ela.
- Como assim te viu com ela? - perguntou, sentindo mais um aperto no peito.
- Não é o que está pensando. - Matthew tentou parecer convincente e andou até a garota, que não se moveu. - Dois dias antes de você voltar, Cassy foi até minha casa para buscar um dinheiro que eu devia a ela. Conversamos um pouco e foi só isso. Quando ela estava indo embora, a viu me abraçando e deve ter entendido errado.
Matthew contou aquela história sem tirar os olhos dos de e sem hesitar. Ele estava totalmente confiante e qualquer um acreditaria naquela versão. A versão de Matthew que apenas uma pessoa sabia que era mentira: . Cassy foi sim à casa do jogador para buscar o dinheiro, mas a coisa foi bem mais além de uma conversa e um abraço de despedida, e viu!
, de alguma forma, se sentia irritada e um pouco enciumada por imaginar Cassy e Matthew juntos. No entanto, não sabia se tinha o direito de brigar com o namorado por isso. Ela agora entendia que apenas queria protegê-la, mas enquanto Matt dizia ter sido um mal entendido, ela pensava na sua noite com o guitarrista que estava no andar debaixo. Na cabeça de , ela de fato tinha traído o namorado com o garoto que estava, agora mesmo, comendo pizza com o irmão!
- Por que não explica essa história para o ? - perguntou olhando para os pés. Não tinha coragem de olhar Matt nos olhos. - Se esclarecer tudo, podem voltar a ser amigos.
- Acha que não tentei? Ele não acredita em mim. - Matthew se aproximou de e levou a mão para o rosto da garota, fazendo-a olhá-lo nos olhos. - Você acredita em mim?
- Por que não me contou antes? - respondeu com outra pergunta, sem ter certeza se realmente acreditava ou não no namorado.
- Porque não achei que fosse algo tão importante. Foi apenas um mal entendido, mas… - Matt fez uma pausa e encostou sua testa na de . - Achei melhor contar logo do que esperar contar a versão dele e você acreditar em coisas erradas.
respirou fundo e soltou o ar lentamente. Colocou as duas mãos no torso de Matthew, mas não o empurrou e nem o afastou, apenas o segurou pelo moletom e tentou digerir as informações embaralhadas em sua mente.
- Não vai deixar isso afetar a gente, vai? - Matthew perguntou, buscando a resposta nos olhos de , que pareciam confusos. Ele sabia que ela não falaria nada, pois se sentia tão culpada quanto ele.
abaixou a cabeça e não disse nada. Matthew engoliu a seco e respeitou seu silêncio com um simples e delicado beijo na testa da pianista. Ele, então, se afastou da namorada e colocou um sorriso no rosto.
- Eu não sei se você acredita em mim, mas… deixarei que pense melhor nisso. - Ele abriu a porta do quarto e, antes que saísse, virou para . - Vamos juntos amanhã ao festival? - Perguntou.
olhou para Matthew e mordeu o lábio inferior, pensativa. - Eu te aviso.
O garoto balançou a cabeça em afirmação e forçou um sorriso de canto.
- Então… a gente se vê.
- Sim…
Matthew saiu do quarto e deixou sozinha com seus milhões de pensamentos, dúvidas e anseios. O garoto colocou as mãos nos bolsos do agasalho e desceu as escadas calmamente. Quando chegou nos últimos degraus, que davam para a sala, chamou a atenção de todos que estavam sentados no sofá rindo, conversando e comendo pizza. olhou para Matt e bufou.
- Já vai embora? - Perguntou.
- Agora você se importa? - Matthew debochou e foi até a porta de entrada.
- Nem um pouco.
e encaravam a cena como se fosse um filme de ação, empolgados para saber qual seria a reação do outro. John olhava atentamente para , cauteloso o bastante para evitar qualquer confusão (ele mesmo estava se segurando para não expulsar Matthew com um belo chute, apenas não o fazia para manter sua postura e não chatear a filha). Já , olhava para o jogador de rugby com fogo nos olhos, assim como . Não suportava vê-lo, ouvi-lo e saber que estava perto de sua garota… quer dizer, de !
Matthew girou a maçaneta e abriu a porta. Ainda de costas para os garotos na sala, sorriu de canto e virou para :
- Aí, ! - Ele chamou e todos olharam. - Ela já sabe de tudo e superou isso. Você devia fazer o mesmo!
Antes que pudesse dizer qualquer coisa em protesto, Matthew fechou a porta e foi em direção ao seu carro. Ele sentia que estava tudo sob controle, ou melhor, sob seu controle.
- Eu odeio esse cara! - esbravejou e John chamou sua atenção, tentando acalmá-lo. - E pensar que o considerava meu melhor amigo…
- O que ele quis dizer com “Ela sabe de tudo”? - perguntou casualmente. também queria saber, mas não podia simplesmente se intrometer no assunto.
- Ele só estava provocando. - John disse a fim de apaziguar a situação. Ele levantou e pegou a caixa de pizza vazia e a levou até a cozinha.
olhou para as escadas e se pegou pensando em e como ela estaria agora. E se estivesse, mais uma vez, chorando encolhida nos próprios braços? Assim como era em Cleveland. Ela até poderia fingir que não o conhecia, mas não achava que conseguiria fazer o mesmo. A vontade que sentia era de largar tudo, subir aqueles degraus, bater em sua porta e agarrá-la.
***


acordou no meio da madrugada assustada e com o pescoço molhado de suor frio. Outro pesadelo. Desorientada, colocou os pés para fora da cama, saiu do quarto e foi até o banheiro do corredor. Abriu a torneira e lavou o rosto várias vezes com a água fria, jogando um pouco na nuca vez e outra para aliviar a tensão que sentia. Ela sentia o corpo pesado a ponto de ser difícil movê-lo e coordená-lo. Parecia uma marionete em mãos erradas, que não sabia o que estava fazendo para mover o boneco.
Decidiu, então, ir até à cozinha para beber água. Quem sabe assim não conseguia se acalmar depois de uma noite mal dormida? não queria acender as luzes e acordar todo mundo, então desceu as escadas agarrada no corrimão. Na cozinha, tateou paredes, armário e mesa até conseguir chegar na geladeira. Por pouco não bate o dedinho na quina da divisória.
até poderia pegar a água do filtro, mas ela precisava de algo gelado. Abriu a geladeira e procurou a garrafa de vidro com a água, que não estava lá. Estranhou e pensou que ou seu pai poderia ter pegado. Fechou a porta da geladeira e, novamente, tateou até chegar no armário para pegar um copo, e feito isso, decidiu pegar a água do filtro e colocar algumas pedras de gelo. Ao abrir a porta do freezer, ouve passos se aproximarem:
- O que está fazendo?
No susto, deixa o copo cair de sua mão, espalhando cacos de vidro sobre todo o chão.
- Ah, droga! - Reclamou com a voz baixa. Então, virou para o dono da voz que a assustou. Era , vestindo uma calça de moletom azul escuro e uma camisa do Led Zeppelin.
- Cuidado para não pisar no vidro! - Ele alertou e procurou pelo interruptor. - É melhor limpar isso. Onde tem uma vassoura e uma pá?
estava imóvel, sem saber como reagir ao ouvir o guitarrista conversar diretamente com ela. percebeu o incômodo da garota apenas pelo silêncio e bufou, sentindo-se um pouco frustrado.
- Ei, pode fingir que não me conhece, mas não precisa me ignorar quando falo com você.
balançou a cabeça e piscou os olhos rapidamente, recompondo-se. O garoto tinha razão, afinal. - Ahm… tem uma pá nessa porta de baixo - Ela apontou para a porta do armário ao lado do garoto, que a abriu e logo encontrou a pá. - E a vassoura está na garagem.
- Fique aí, eu vou buscar.
deixou a pá em cima da mesa de jantar e rapidamente seguiu para a garagem, que já sabia onde ficava, e em questão de segundos estava de volta segurando a vassoura do cabo azul.
- Pode voltar a dormir, eu limpo. - disse pegando a pá.
- Você pode se machucar. - disse e pegou a pá da mão da garota.
- É só um copo quebrado. Consigo me virar sozinha!
- Tá, tá… - a ignorou e começou a juntar os cacos de vidro no chão. Ainda estava escuro, então foi difícil garantir que havia juntado todos. - Seria um problema se a pianista machucasse as mãos, não é? - Ele sorriu e levantou, entregando a pá para , que o encarava da mesma maneira séria como em Cleveland. - Não sei onde jogar isso, então…
, sem dizer nada, pegou a pá da mão do garoto e foi até o pequeno lixo que tinha em cima da pia. Jogou os cacos de vidro fora e aproveitou para guardar a pá de volta onde estava, dentro do armário. Agora, de costas para , sentiu o coração bater tão forte que ela podia escutar.
- Como você e se conhecem? - perguntou de repente. engoliu a seco e apoiou a vassoura na mesa. - Você sabia que ele era meu irmão? Isso é uma piada? - Lançou outra pergunta com a voz trêmula.
- Eu estou tão surpreso quanto você, se quer saber. - respondeu e ousou dar um passo até a garota, que continuava de costas com as mãos apoiadas na pia. - Na verdade, estou me perguntando até agora se isso não é um sonho ou algo do tipo. Digo… - Ele fez uma pausa e suspirou. - Quais são as chances de isso acontecer?
, lentamente, virou o corpo e ficou de frente para . Mesmo no escuro, conseguia ver um pouco de seu rosto… na mesma iluminação da última noite em Cleveland. Pensar naquilo fez o corpo de se arrepiar e o peito apertar.
- Ficava me perguntando se iria te ver mais uma vez e quando… só não esperava que seria tão cedo. E assim. - confessou e deu mais um passo para frente. Mais um passo perto de .
- Pensei que não quisesse me ver nunca mais…
franziu o cenho e cruzou os braços.
- O quê? - Ele questionou. - Por que eu não iria querer vê-la? Eu… não conseguia parar de pensar em você. - Disse tão baixo quanto um sussurro, mas ouviu claramente e sentiu vontade de chorar.
- Você… simplesmente foi embora. - disse e olhou para baixo. - Foi embora sem se despedir.
- Se bem me lembro, você foi primeiro. - disse e apertou o maxilar. - Quando acordei, você não estava mais lá.
Silêncio. Um silêncio tão ensurdecedor e que podia dizer muita coisa para ambos. Os dois sentiram falta um do outro e esperaram por um “Bom dia” e um “Adeus”, mas não aconteceu. Apenas esperaram. Ele não parava de pensar nela, e ela nele. Agora estavam ali, mais uma vez, diante do outro. Mas… por que doía tanto?
- Como você consegue continuar com aquele cara depois de tudo o que ele te fez passar? - perguntou de repente.
olhou para o guitarrista e desencostou da pia. “Continuo com ele por culpa e para esquecer você”, era o que ela queria dizer e acreditar, mas não podia.
- Espera! - pegou no braço de quando ela tentou passar por ele sem dizer nada.
- Foi tudo um erro, ! Desde o começo! - Ela disse com lágrimas nos olhos e o nó em sua garganta. - Me solta! - Tentou puxar o braço, mas a segura com mais firmeza e a traz para mais perto de seu corpo. - … me solta. - sussurra com a cabeça encostada no peito do garoto. O cheiro de seu perfume invade sua consciência.
- Não vou me perdoar se eu simplesmente te soltar e fingir que não te conheço, . Eu não consigo fazer isso!
faz uma pausa e solta uma risada fraca, deixando confuso. Ela o afasta com sua mão e ele solta seu braço, mas continuam a poucos centímetros de distância.
- De qualquer forma, não teria como dar certo entre a gente... - Ela olha no fundo dos olhos do garoto. - … porque você é a droga do melhor amigo do meu irmão!
- E daí? Ele é quem decide com quem você fica ou não? - retruca nervoso. nega com a cabeça e olha para baixo.
- Ele pode me odiar para sempre se souber que EU traí Matthew, o melhor amigo dele, com você, que, aliás, também é o melhor amigo dele.
e ficam em silêncio mais uma vez, olhando nos olhos um do outro. Ambos não queriam acreditar nas palavras da pianista, mas era verdade. Se desconfiasse que a irmã e o amigo já ficaram juntos, ele poderia expulsar no mesmo instante e ignorar até não aguentar mais.
- Tem alguém aí embaixo? Ouvi barulhos… - E por falar nele, começou a descer as escadas lentamente, segurando no corrimão. Quando percebeu a presença da irmã e de , parou no último degrau. - O que estão fazendo aqui?
deu as costas para e foi em direção à escada. - Vim pegar água e encontrei com ele no caminho. Queria saber onde era o banheiro. - Disse e passou por , subindo os degraus calmamente até chegar em seu quarto.
- Cara, o banheiro é logo ali. - apontou para uma porta do lado da escada e seguiu o mesmo caminho de , porém, voltando para seu quarto.
- Valeu… - agradeceu com ironia. Caminhou até o sofá e sentou, colocando as duas mãos no rosto.
Ele estava irritado, cansado e, acima de tudo, desapontado. , a pianista obsoleta da música clássica e que mexia com ele como nenhuma outra garota conseguiu, estava bem ali. Ela estava ali e não podia tê-la! soltou uma risada fraca e murmurou:
- Obviamente ela está fora do meu alcance...

Capítulo 16

- Aí, podemos fazer uma pausa? - pediu limpando com o braço o suor que começava a escorrer em sua testa.
Os quatro garotos estavam, mais uma vez, juntos na garagem de ensaiando a todo vapor para o festival, que seria daqui algumas horas. e chegaram cedo na casa do amigo e, mesmo que estivessem cansados e sonolentos, não podiam desperdiçar um minuto sequer para se prepararem para o grande dia.
guardou o violão no case e se espreguiçou. fez o mesmo; bufou e levantou para pegar a terceira garrafa d’água desde que começaram a ensaiar. Quando voltou para o banco em que estava, ao lado de , manteve-se em silêncio e bufou novamente, o que chamou a atenção dos amigos.
- Ei, tudo bem? - perguntou preocupado e curioso. , com a garrafa na boca, apenas olhou para o amigo e mandou um joia com o dedão. - Tem certeza? Já perdi as contas de quantas vezes você bufou só nessa manhã.
- Sem contar que está com essa cara de bunda o ensaio inteiro. Não gosta de acordar cedo? - perguntou e se aproximou, sentando no mesmo sofá em que o baixista estava.
- Eu achei que ele estivesse imitando a sua cara. - zombou e deu um soco no braço do amigo, que começou a rir.
- Só estou com sono. - respondeu e deu outro gole grande de água.
abaixou a cabeça e encarou a garrafinha quase vazia em suas mãos. É claro que ele não estava bem, mas o que ele poderia dizer? Que estava feliz por rever , mas decepcionado por ela fingir não o conhecer, mesmo depois de terem dormido juntos? Ou que estava frustrado por ela continuar com o jogador de rugby que tanto a fez chorar? Ele não podia falar nada porque, além de tudo, ela era irmã de seu melhor amigo!
Irmã… A palavra ecoou na mente de . Ao lembrar disso, o garoto olhou para , que continuava a encará-lo curioso para saber o que havia de errado.
- Cara, desde quando você tem uma irmã? - perguntou de repente, fazendo os amigos rirem alto, inclusive .
- Hã… ela tem quase 20, então… - olhou para cima e fingiu fazer as contas mentalmente - há 20 anos? - Respondeu entre risadas. - Por que?
- Antes de eu mudar para Bolton, nós estudamos na mesma escola por dois anos... - diz pensativo. , e o encaram curiosos. - DOIS anos! Como eu nunca soube que você tinha uma irmã?
cerrou os olhos e fez uma pausa, desconfiado.
- Ela não estudava na mesma escola que a gente e sempre foi um pouco antissocial. Quando não estava tocando piano no quarto, estava na escola ou atrás de Matthew. - Explica tentando parecer indiferente.
- Ela sempre teve uma queda por ele… - comentou e concordou.
- Até eu teria, o cara é grande e forte!
e rolaram os olhos, ignorando o assunto particular entre os outros dois amigos sobre o jogador de rugby.
- Mas você nunca disse que tinha uma irmã. - o acusou, parecendo ainda mais confuso.
- Ué, você nunca perguntou. - deu de ombros e pegou o violão do case, colocando-o em seu colo.
e olham um para o outro em silêncio e começam a rir.
- Você gostou dela? - perguntou em voz baixa, como se estivesse contando um segredo. arregala os olhos e lança um olhar sério para o guitarrista, analisando a reação dele.
- Hã… Não! Quer dizer, eu nem a conheço… - Ele gagueja sentindo o olhar fuzilador de . - Só fiquei curioso porque em anos de amizade, nunca soube da existência dela…
Os três garotos continuaram a encarar como se o avaliassem, como se fosse um raio-x. não estava gostando nada daquilo. , no entanto, pensativo, teve um estalo em sua memória e levantou de repente, assustando a todos, principalmente .
- Quando você voltou para casa mesmo? - perguntou apontando o violão para o guitarrista, que engoliu a seco.
- Semana retrasada… eu acho. - Ele respondeu incerto.
- Não pode ser! - exclamou e ficou de pé também, ao lado de . Nesse ponto, o coração de já batia acelerado. - … E daí? - O baixista virou para , ainda mais confuso que .
colocou a mão no queixo e riu. - “E daí” que é muita coincidência…
- Coincidência? Do que você está falando? - Foi a vez de perguntar, também confuso.
olhou para , que estava com o maxilar tenso, e soltou outra risada fraca. Negou com a cabeça e voltou a sentar com o violão no colo, dedilhando qualquer coisa.
- Não é nada, só estava pensando alto. - disse, tentando ignorar os pensamentos malucos. respirou aliviado e e se entreolharam, ainda sem entender nada. - Vamos ensaiar!
***


Mágico. Foi a primeira palavra que veio à mente de ao adentrar na sede da Orquestra Sinfônica de Londres. O sentimento de estar ali era inexplicável! Apesar da noite mal dormida e de todos os acontecimentos do dia anterior, ao colocar os pés para dentro do Barbican Centre, todas as preocupações e anseios desapareceram como fumaça.
Aquele lugar era absurdamente enorme; maior do que imaginava ser. Na área externa, tinha um grande espaço com mesas e bancos que ficam de frente para um lago com fontes; como naquele inverno estava nevando, a água estava congelada e as fontes desligadas, no entanto, não tirava a beleza do local. O interior da sede parecia um Shopping Center. Havia vários andares com diferentes instalações, como teatro, cinema, galeria de arte, restaurante e, claro, sala de concertos.
- Eu me sinto tão pequena aqui… - comentou enquanto seguia Elsie para o Barbican Hall, a enorme sala de concertos. A maestrina riu e concordou com a pianista.
- Pensei a mesma coisa quando vim para cá pela primeira vez. - Elsie diz e abre uma porta que dá para um local que não fazia ideia do que seria, mas ficou tensa ao ver que estava escuro. A maestrina olhou para a pianista e sorriu.
olhou para Elsie, sentindo-se tão ansiosa e animada quanto estava do lado de fora. E então, Elsie parou e estendeu a mão para o lado, sinalizando para que agora fosse na frente. Ela andou a passos calmos até a mulher e quando viu que estava no palco da Barbican Hall, sentiu um calor e uma emoção como nunca sentiu antes. Era completamente diferente do palco do conservatório de Cleveland. Mais uma vez, era mágico!
A pianista andou até o centro do palco e olhou para as luzes amarelas posicionadas entre os vários bancos e fileiras. Não conseguiu conter o sorriso e o coração acelerado ao se imaginar tocando para uma enorme quantidade de pessoas naquele lugar.
- Isso é… incrível! - disse completamente encantada.
Elsie se aproximou e abriu a tampa do piano de cauda preto que estava posicionado no centro do palco.
- Está pronta para mostrar o que sabe fazer? - Ela perguntou.
respirou fundo e caminhou até o instrumento, pegando sua pasta de partituras em seguida. Elsie se afastou do palco e desceu as escadas laterais para assistir a performance do primeiro banco da sala.
- Lembre-se que não basta seguir a partitura e tocar a música se não houver sentimento. Quero ouvi-la, ! Mostre o que você está sentindo.
As palavras da maestrina fizeram pensar. Ela mesma estava confusa sobre seus sentimentos; tudo estava acontecendo tão rápido e eram tantas surpresas que era difícil acompanhar ou parar para entender o que sua mente e coração estavam lhe dizendo. Como colocaria isso na música?
encarou a partitura aberta na sua frente. Era mais uma das composições de Claude Debussy. Ela fechou os olhos e contou até cinco mentalmente, em seguida, os abriu e pegou a partitura, guardando-a de volta na sua pasta. Elsie cruzou as pernas e inclinou seu corpo para frente, curiosa e atenta sobre o que faria.
Então, as primeiras notas de La Campanella, de Franz Liszt, foram tocadas. Os movimentos rápidos das duas mãos e os saltos de uma nota para a outra encantam a maestrina. Uma música que desafiava a agilidade de um pianista, não dando tempo de sequer descansar a mão. Um único movimento errado ou fora do tempo seria prejudicial.
E era assim que sentia-se. Para ela, 365 dias passaram num piscar de olhos e seis meses foi tempo suficiente para mudá-la quanto ao que pensava sobre a música e inclusive seu relacionamento. Foi tempo suficiente para que invadisse seus pensamentos por tantas noites.
Quando ele foi embora sem dar a chance de uma única despedida, ficou com raiva e triste ao mesmo tempo; pensou que nunca mais o veria e que quando voltasse para Londres, seria fácil esquecê-lo.
Estava enganada, completamente enganada!
Para aliviar a culpa de ter traído o namorado, contou toda a verdade para Matthew. No entanto, a culpa ainda estava lá e quando menos esperava, pegava-se pensando no garoto. Era tudo muito rápido e estava usando Matt para o próprio bem… ele não merecia isso e ela sabia. Tantas escolhas, mentiras e sentimentos. sentia-se no ritmo de La Campanella.
fechou os olhos ao pressionar as últimas notas e suspirou. As palmas da maestrina chamaram a atenção da pianista, fazendo-a se lembrar de onde estava. Elsie levantou, subiu as escadas laterais do palco e se aproximou de , que continuava sentada em frente ao piano.
- John não estava mentindo quando disse que tinha talento. - A maestrina diz calmamente e sorri satisfeita. Seu coração ainda batia rapidamente e suas mãos tremiam levemente.
- Obrigada…
- Por que piano? - A maestrina perguntou de repente. riu baixo ao lembrar que fez exatamente a mesma pergunta quando se falaram pela primeira vez, em Cleveland.
- O piano é a minha válvula de escape - diz e passa os dedos entre as teclas pretas e brancas, sem pressioná-las. - É quando consigo desabafar sem precisar de palavras.
- Então você toca para si mesma? - Elsie perguntou e apoiou o corpo no instrumento, ficando de frente para .
- Hã… Eu acho que quando eu toco para mim, automaticamente estou tocando para quem está ouvindo. - respondeu pensativa. Elsie a olha com curiosidade. - Se eu conseguir colocar o que sinto e penso na música, outras pessoas poderão sentir, entender e, quem sabe, se identificar.
A maestrina sorri e olha ao redor do palco.
- Eu não tenho mais dúvidas sobre você, . - Ela diz e sente a respiração acelerar. - Você é jovem e tem potencial. É de pianistas como você que precisamos no concerto.
- Isso é sério?
- Eu sempre falo sério. - Elsie responde calmamente, fazendo abrir um largo sorriso. - Ah, vamos abrir testes para violinistas na próxima semana, mas como não temos muito tempo, estamos aceitando indicações para agilizar. Alguma sugestão?
olhou nos olhos de Elsie e sorriu ao balançar a cabeça em afirmação. Pegou seu celular no bolso da calça e, sem hesitar, mandou uma mensagem para a única violinista que era tão talentosa quanto a pianista.
***


- Okay, acho que vou desmaiar! - disse passando por cima de para olhar pela janela do carro a quantidade de pessoas que estavam ali pelo Festival de Inverno.
As ruas estavam tão lotadas que precisou dar a terceira volta no quarteirão para encontrar uma vaga para estacionar. John estava no banco do carona enquanto , e estavam atrás, inquietos e ansiosos para tocar para toda aquela gente. Embora estivesse tão frio quanto nos outros dias, as pessoas não pareciam estar incomodadas em estar ali; na verdade, estavam se divertindo muito enquanto pulavam e cantavam ao som de outras bandas.
- Parece que a Inglaterra inteira está aqui! - comentou olhando ao redor, assim que finalmente conseguiram sair do carro.
- Ei, pai… - se aproximou de John, que andava com as mãos nos bolsos. - Alguma notícia de ? - Perguntou ansioso.
- Ela disse que ligaria assim que chegasse. - John respondeu. Um rapaz de moicano rosa passou por eles, segurando uma guitarra nas costas. Os cinco o seguiram com o olhar. - Meu Deus…
- Maneiro! - , e disseram ao mesmo tempo, admirados.
- Ah! Matthew está ali. Será que está junto?
apontou a baqueta que segurava para um grupo de pessoas reunidas em frente a um pub. Matthew, de fato, estava naquele meio rindo e bebendo uma bebida que eles não sabiam o que era. fechou o punho e cerrou os dentes automaticamente ao olhar para o jogador de rugby. De alguma maneira, não suportava a presença do garoto.
- Vamos até lá? - perguntou e olhou para a hora em seu celular. - Temos que nos apressar ou vamos perder o show.
- tem razão. Não temos muito tempo e ainda precisamos avisar o assessor que estamos aqui. - disse girando as baquetas entre os dedos.
- Mas…
- Vão! Eu procuro por ela. Estaremos lá antes do show começar. - John segurou o ombro de e sorriu. Ele queria que a irmã estivesse ali para assisti-lo.
olhou mais uma vez para onde Matthew estava e bufou, se perguntando onde poderia estar e se ela realmente viria. E se ela ainda estivesse com raiva dele pela discussão da manhã anterior? Ele balançou a cabeça e foi até os amigos. se aproximou e abraçou e pelo ombro.
- Vamos logo. A fama nos espera. - puxou os amigos e começou a andar em direção à grande movimentação perto do palco. estava logo atrás. - Tenham mais ânimo. Sua irmã e sua namoradinha vão chegar logo. - O baixista trouxe os amigos para mais perto, abraçando-os mais forte.
- Vai se foder, ! - e xingaram ao mesmo tempo, se desvencilhando dos braços do amigo.
***


- Eu não consigo te ouvir direito! - gritou e tampou o outro ouvido com a mão, tentando escutar o que o pai dizia no telefone. - O quê? Está cortando!
nunca tinha visto tantos carros e pessoas juntas em um só lugar. Aquilo era loucura! Enquanto passava pela multidão, vez e outra a pianista ficava na ponta do pé para olhar por cima das pessoas e tentar encontrar algum rosto conhecido.
- Me fale onde está e eu vou até você! - John também precisa gritar para falar ao telefone. Competir com todo aquele barulho da multidão e da banda no palco era perda de tempo.
Uma garota de cabelos curtos esbarra em , fazendo com que a pianista deixe o celular cair no chão. Ela praguejou, frustrada com o mar de gente, e abaixou rapidamente para pegar o aparelho. Só torcia para que ninguém pisasse nela.
- Ei, cuidado! - A pianista exclama quando alguém, sem perceber, chuta o celular; mais uma vez e outra vez. Já não sabia mais onde o aparelho tinha ido parar. - Ah, não… - Resmungou e levantou antes que ela fosse a próxima a ser pisoteada.
colocou a mão na cabeça e bufou, triste por perder o celular em menos de 10 minutos desde que chegou no festival. Agora, o pai devia estar louco atrás dela e ela nem sequer sabia para onde ir.
- , eu te amo, mas não mereço isso! - Ela diz para si mesma enquanto andava sem rumo, se desculpando toda vez que esbarrava em alguém.
***


- Vocês aí... - Uma mulher de calça jeans e moletom vermelho com “STAFF” escrito nas costas apareceu, surpreendendo os quatro garotos. - Erm… McFly? - Ela perguntou enquanto olhava para a prancheta que segurava.
- Somos nós! - respondeu de prontidão.
- Certo. Vamos fazer um intervalo rápido de 15 minutos e então voltamos com vocês. Estejam prontos, ok? - Ela disse e os quatro concordaram com a cabeça, sentindo o frio na barriga surgir. A staff ouviu seu nome ser chamado no rádio e antes que ela se distanciasse, virou e apontou para os garotos. - 10 minutos! Sem atrasos! - Ordenou e então partiu.
Os meninos se entreolharam nervosos e animados ao mesmo tempo.
- Estou começando a sentir dor de barriga, mas acho que dá para segurar. - comentou, fazendo os amigos rirem.
- Será que meu pai conseguiu falar com ? - perguntou, curioso.
Ele olhou para trás e procurou por John, que disse que estaria em um Pub perto de onde eles estavam. Além de ter uma visão ótima para o palco do evento, também tinha lugar para sentar e pedir algumas bebidas enquanto curtia o show. No entanto, não o encontrou por lá. Imaginou que talvez estivesse dentro do lugar?
- Acho que vou até lá para ver se chegaram… - disse e o segurou pelo ombro, impedindo-o.
- Ficou maluco? E se você não voltar em 15 minutos?
- É aqui perto, relaxa! - rebateu e saiu correndo em direção ao Pub. negou com a cabeça e bufou.
- Eu vou atrás dele! - disse e repetiu o gesto, também o impedindo.
- Vocês ouviram que temos só 15 minutos? Já é ruim pensar que um pode se atrasar, agora dois?!
- O que vamos fazer sem a metade da banda aqui? - indagou.
- Ah, qual é! É aqui perto! - usou o mesmo argumento que e tanto quanto fizeram cara feia. rolou os olhos. - Se não chegarmos a tempo, a bebida fica por nossa conta!
e se entreolharam e deram de ombros. - Vai logo! - Disseram e sorriu, correndo para a mesma direção que correu.
- Estamos ferrados? - perguntou.
- Não tenho dúvidas. - respondeu.
***


Um forte vento gélido fez o corpo todo de se arrepiar. Além de estar atrasada, perdida no meio da multidão, sem celular e cansada de tanto andar, agora também estava sentindo frio. Ela só queria encontrar o pai e assistir a banda do irmão, era pedir muito?
- Ei, vamos logo, não quero perder o show!
ouviu um rapaz de touca vermelha dizer para outro garoto que vestia um blusão azul escuro. Ela, então, sem hesitar começou a seguir os dois pensando que finalmente encontraria o caminho certo para onde aconteceria a apresentação. Apesar de ter várias pessoas ao redor, a touca do garoto era o seu ponto de referência para não os perder de vista.
- Ouvi dizer que uma banda nova vai tocar hoje. - O garoto do blusão azul disse.
- Ah, eu sei quem são! Às vezes eles tocavam em um bar aqui perto, mas tem uns dois anos que não aparecem. - O da touca vermelha respondeu. tentou chegar mais perto. - Pensei que a banda tinha acabado. Como é o nome mesmo?
- Mickey alguma coisa, eu acho…
tinha certeza de que os dois garotos falavam da banda do irmão. Ela sentiu um calor confortável dentro de si, sentindo-se orgulhosa.
- Ai! - reclamou ao bater de frente com alguém. Ela olhou para cima para se desculpar e arregalou os olhos.
- Finalmente te achei! - abriu um largo sorriso ao encontrar-se com , que abria e fechava a boca sem saber o que dizer. Tantas pessoas ao seu redor e ela esbarrou justo com ?! - estava louco atrás de você!
- Eu… acabei me perdendo nesse mar de gente.
- É, isso aqui tá mais cheio do que imaginei! - riu e olhou ao redor. ainda o encarava sem saber se estava aliviada por finalmente encontrar um rosto conhecido ou assustada por esse rosto ser de .
- Hã… você não devia estar no palco? - perguntou e arregalou os olhos, olhando a hora em seu celular.
- Ai, droga!
Ele pegou na mão da garota e, sem hesitar, começou a correr. , apesar de surpresa, queria rir toda vez que o guitarrista gritava para as pessoas na sua frente, pedindo para que saíssem do caminho. Parecia que os dois estavam em um filme de ação, fugindo de alguma perseguição.
- Por que estamos correndo? - precisou gritar para que ouvisse.
- Eu tenho que estar no palco em menos de 5 minutos! - Ele respondeu também gritando. - Não quero pagar nada para e ! - olhou para trás e riu.
sentiu o coração acelerar ao ouvir a risada dele e senti-lo apertar sua mão. Por mais estranho e doloroso que fosse vê-lo na sua frente e tão perto novamente, naquele momento ela apenas queria rir. Rir de toda a situação, porque no fundo, bem no fundo, ela achava engraçado demais para chorar ou se assustar.
- Ah… nós… conseguimos… - parou de correr e colocou as duas mãos no joelho, sentindo-se cansado e ofegante.
Quando conseguiram cruzar a multidão e chegar na parte de trás do palco, , e correram em direção aos dois, aliviados.
- Finalmente! - agradeceu mentalmente.
De repente, começou a rir sem parar, chamando a atenção dos quatro garotos. Eles se entreolharam, sem entender o porquê ela estava rindo tanto. olhou para a garota e começou a rir também.
- Qual foi a piada? - perguntou sendo contagiado pelas risadas.
- Onde você estava? Ligamos várias vezes, mas só chamava… - disse para a irmã, que parou de rir aos poucos.
Ela limpou uma lágrima dos olhos e soltou o ar lentamente, recuperando o fôlego de tanto correr e rir.
- Meu celular… deve estar em algum canto desse festival. - riu mais uma vez. Ela não sabia o porquê estava com tanta vontade de rir, mas não achou ruim. Era até uma sensação boa.
- Nunca te vi rir tanto… Você bebeu? - perguntou achando graça. abriu a boca indignada e , e riram da garota.
- McFly! - A staff apareceu, tirando o ponto do ouvido. - Estão prontos?
Os quatro garotos se entreolharam e sorriram animados.
- Acho que sim… - respondeu, colocando a guitarra nas costas. o observou cautelosa.
- Toma, liga para o velho e diz que está aqui. - entregou seu celular para a irmã e também colocou a guitarra nas costas, como . - Nos deseje sorte!
- Boa sorte! - Ela desejou com um largo sorriso no rosto.
Então, os quatro passaram as mãos nas roupas e no cabelo e esperaram ansiosamente serem chamados. Antes que subissem no palco, olhou para , que discava o número do pai no celular de . Ele reparou no sorriso da garota e também sorriu.
-
O público gritou e aplaudiu quando o nome da banda foi anunciado. Animados, eles subiram no palco. foi para a bateria, logo atrás de , e , que se posicionaram na frente, com poucos passos de distância um do outro.
olhou para e sorriu. - É agora!

Capítulo 17

- As pessoas parecem estar curtindo. - John disse em voz alta para que escutasse.
Logo que os garotos subiram no palco e começaram a se apresentar, foi ao encontro do pai. E lá estavam os dois sentados em uma das mesinhas externas do Pub, assistindo e sorrindo cheios de orgulho da banda.
- Confesso que me sinto um pouco mal por subestimar - gritou de volta para o pai, que bebericou da sua cerveja. - Eles são realmente bons!
John encarou , que começou a bater palmas animadamente no fim da segunda música, e sorriu pensando no quanto a filha tinha mudado desde a sua ida para o conservatório de música.
- Agora… - colocou a guitarra um pouco para o lado ao falar no microfone. - Outra música nossa, mas essa é nova! Ela se chama Obviamente. - Ele disse e procurou por .
Ao encontrá-la perto de John, de longe pôde vê-la sorrindo e batendo palmas para os garotos. Ela estava mais animada que o normal naquele dia, mas ao sentir o olhar do guitarrista diretamente nela, seu sorriso foi se desfazendo lentamente, sendo substituído por uma expressão séria e curiosa.
trocou a guitarra pelo violão e começou a cantar primeiro.

Recentemente eu tenho
Esperançosamente procurado
Por essa garota
Que é de outro mundo
Acredite em mim


Mesmo que fosse na voz de , as palavras despertaram um sentimento estranho no peito de . olhou mais uma vez para a garota, que agora os assistia de pé.

Ela tem namorado
Ele me irrita
Porque ele tem 23 anos ele está na marinha
Ele me mataria
E por tantas noites agora
Eu me pego pensando nela


O coração da pianista estava acelerado e pulando como aquelas pessoas do festival. O ritmo da música era animado e até parecia uma balada. Enquanto o público ria, pulava e gritava eufóricos, adorando o show, estava parada de pé. Ela não conseguia tirar os olhos do guitarrista, que agora dividia o microfone com . Aquela música era um desabafo ou, mais uma vez, ele estava zombando da garota?

Tenho que escapar agora
Entrar no avião agora, ooh yeah
Fora de Los Angeles, é onde eu vou estar, por dois anos
Deixar ela para trás (deixar ela para trás)
E ir para um lugar onde ela não possa me encontrar
Porque obviamente, ela está fora do meu alcance,
Eu estou perdendo meu tempo, porque ela nunca será minha
Eu sei que eu nunca vou ser bom o suficiente para ela (não, não)
Eu nunca vou ser bom o suficiente para ela.


Como uma música tão animada e que fazia todos que estavam ali querer dançar poderia doer tanto em ? Era como se estivesse admitindo para si mesmo que os dois nunca ficariam juntos, algo que a garota repetiu em sua mente várias vezes, mas ouvir e entender aquilo doía mais do que esperava. Como assim ele não era bom para ela? Talvez fosse o contrário… pensou, sentindo o nó se formar em sua garganta.

***


O público gritou e aplaudiu muito quando os últimos acordes foram tocados. Contagiados pela euforia das pessoas e pela sensação de estarem em cima do palco, os quatro garotos se entreolharam e começaram a rir, animados e satisfeitos com a performance. Eles agradeceram e logo desceram do palco. Nesse meio tempo, os organizadores do festival colocaram outra música qualquer para tocar enquanto a próxima atração não aparecia.
- Cara, vocês viram isso?! - pulou nas costas de , que riu. - Todo mundo gritando e dançando…
- A gente foi bem demais! - disse e deu um high-five em cada um.
- Eu não sei vocês, mas consigo ouvir as bebidas chamando o meu nome… - disse, colocando a mão atrás da orelha. Os outros três riram e concordaram, seguindo em direção ao Pub em que John e esperavam.

***


- O que eu preciso fazer para conseguir um autógrafo de vocês? - John brincou animado assim que os quatro apareceram. Ele foi em direção ao e o abraçou, dando alguns tapinhas nas costas.
- Vocês foram muito bem lá em cima! - elogiou timidamente. - Até pareciam profissionais.
- E quem disse que não somos? - perguntou de nariz em pé e riu logo em seguida.
Enquanto os meninos se gabavam e riam entre si, permaneceu em silêncio. Seus olhos estavam vidrados em , apenas observando que ele continuava o mesmo. O mesmo guitarrista que ela conheceu em Cleveland era o mesmo que estava bem na sua frente, rindo e falando bobagens. Por mais que tentasse, ela não conseguia entender o que se passava na cabeça do garoto. Ao mesmo tempo em que as letras que cantava eram claras, também eram confusas.
respirou fundo e balançou a cabeça, tentando afastar os pensamentos. Ela levantou e, sem dizer nada, foi até o bar dentro do Pub. olhou para a garota, curioso, e olhou para os amigos que conversavam animadamente com John.
- Vocês querem beber alguma coisa? - Ele perguntou de repente. John negou dizendo que logo iria embora, mas os outros três concordaram falando ao mesmo tempo. - Um de cada vez!
- Cerveja para mim! - disse rindo.
- Para mim também! - disse e colocou a mão no queixo, pensando no que iria pedir.
- O que eu peço? Humm… - murmurou. rolou os olhos, impaciente pela demora, e deu as costas deixando-o falando sozinho. - Ah, eu vou querer um… Ele já foi?!

***


- Um suco de limão, por favor!
pediu ao homem atrás do balcão que vestia um avental preto e sacudia alguma bebida que ela não sabia o que era.
- Quer que coloca vodca? - Ele perguntou e negou com a cabeça.
Então, o barman entregou a bebida que preparava para outro cliente e começou a preparar a de , que esperava com o rosto apoiado em uma mão e com a outra fazia desenhos imaginários no balcão de madeira.
- Aqui está. Aproveite! - O barman entregou para um copo grande com um canudo dentro e sorriu. agradeceu e deu um gole do suco.
- Aí, quatro cervejas, por favor? - se aproximou do balcão, surpreendendo . O barman mandou um joia e correu para a geladeira para pegar uma garrafa de cerveja e despejar o líquido em quatro copos de plástico.
olhou para o guitarrista sentindo o coração bater rapidamente. Quando ele percebeu que a garota o encarava, sorriu para ela e sentou no banco vago ao seu lado. A pianista permaneceu em silêncio e desviou o olhar, tentando dar toda sua atenção ao suco que bebia. riu e negou com a cabeça.
- Ah… senti um dejá-vu agora. - Ele disse e apoiou os dois braços no balcão, ficando de lado para a garota.
Silêncio. continuou ignorando . No entanto, não era por maldade, ela simplesmente não sabia o que dizer ao garoto e estava com medo de olhar para ele e ficar com uma cara de idiota. bufou e revirou os olhos, sentindo a mesma frustração da noite em que eles se conheceram e também tentou ignorá-lo.
- Eu já disse que tudo bem fingir não me conhecer, mas não precisa me ignorar… - apoiou o rosto em sua mão e olhou para , que respirou fundo e tomou coragem de olhá-lo nos olhos.
Um estranho sentimento de culpa e vergonha invadiu o peito de no momento em que ela encarou aqueles olhos azuis. Sentiu vergonha ao lembrar da noite passada, quando foi grossa com o garoto e o negou na frente de todo mundo, apenas por medo de pensar em como reagiria ao saber que eles se conheciam… e se conheciam muito bem. Apesar de tudo o que ela sentiu contra … estava feliz por vê-lo novamente.
- Me desculpe… por ontem à noite. - sentiu o rosto esquentar. franziu o cenho, confuso. - Eu só fiquei surpresa que você apareceu de repente e então agi daquela maneira…
- Tudo bem…
- Não, sério! - o interrompeu e forçou uma risada. - Acho que ficaria menos surpresa se, sei lá, o príncipe William aparecesse na minha porta.
Os dois riram alto ao imaginar a cena. sorriu e sentiu-se um pouco mais leve, mas ainda estava nervosa por estar ao lado do garoto que confundia seus sentimentos.
- O que acha de… recomeçar do zero? - perguntou depois de alguns segundos em silêncio. a olhou com curiosidade. - Você tem que prometer que não vai contar nada ao sobre nós… por favor.
O guitarrista olhou para suas mãos e riu fraco. - Recomeçar do zero… Você quer esquecer o que aconteceu em Cleveland? - Ele perguntou, sentindo uma pontada em seu peito. soltou o ar lentamente.
- Não acho que vou conseguir esquecer assim tão fácil - Ela respondeu e suspirou, aliviado. - Mas não quero que ninguém saiba sobre nós e… também não quero fingir que não te conheço.
a encarou por longos segundos, pensando a respeito, e sorriu para a garota. Mesmo que temporariamente, agora os dois viviam sob o mesmo teto; e ele sabia que a decisão de recomeçar do zero não era apenas passar uma borracha na relação dos dois, mas tornar aquela convivência saudável para ambos. Era o que pensava e concordava, mesmo que a contragosto. Se ele não podia tê-la, ao menos poderiam ser amigos, não é?
- Fechado! - estendeu a mão para . Ela o olhou hesitante e riu, segurando a mão do garoto. Agora, o que viria a seguir apenas o tempo diria, mas torcia para que aquele acordo desse certo e não afetasse os dois.

***


Quanto mais a noite caía, mais pessoas apareciam naquele Pub. Os cinco já nem sabiam que horas eram, só queriam saber de comemorar e se divertir. John já havia ido embora de Táxi, deixando o carro para levar, já que era a única que não estava bebendo. estava com em algum canto conversando com duas garotas. , e estavam perto do balcão travados em uma discussão sobre quem venceria uma luta: Tartarugas Ninjas VS Power Rangers.
- Uma tartaruga nunca teria chances contra um Megazord! - exclamou para que negava fervorosamente, mostrando-se a favor das Tartarugas Ninjas.
apenas ria, achando aquela discussão engraçada e sem sentido. Mesmo que soubesse sobre o que estavam falando, ela não tinha argumentos para participar da conversa, então apenas achava graça e concordava sempre que os dois viravam para ela e pediam sua opinião. “É verdade, eu acredito em você”, ela dizia apenas para provocar.
- Ah, cala a boca, quem usa robô é porque não se garante no soco. - argumentou enquanto pedia outra bebida para o Barman, que corria para lá e para cá tentando acompanhar o ritmo da noite.
negou com a cabeça rindo e suspirou. Aquela noite estava mais divertida do que ela esperava. Fazia tempo que ela não ria tanto em um só dia e sentia-se tão bem. Primeiro, conheceu o lugar que tanto sonhou colocar os pés, a sede da Orquestra no Barbican Centre; Depois, pôde assistir seu irmão mais velho em cima de um palco pela primeira vez; Além disso, também fez as "pazes" com e agora ria ao seu lado como se fossem amigos há muito tempo; Agora, sentia-se mais próxima dos amigos do irmão e estava feliz por isso.
Estava tudo indo perfeitamente bem para . No entanto, nem tudo é um mar de rosas.
Matthew estava andando com os amigos da faculdade, também curtindo a noite. Ele já estava na sua oitava garrafa de cerveja long neck, mas não parecia bêbado. Quando passou em frente ao Pub lotado em que e os outros quatro garotos estavam, Matthew parou e estreitou os olhos, pensando ter visto a namorada entre as pessoas.
- Esperem aqui, acho que vi uma coisa… - Matthew disse e entrou no Pub, deixando os amigos para trás.
O jogador de rugby passava pelas pessoas sem importar se esbarrava em alguém ou não. Ele apenas queria confirmar se realmente estava ali, afinal, tentou falar com ela o dia inteiro e foi ignorado todas as vezes que mandou mensagens e ligou. Matthew parou de andar e olhou ao redor com os olhos cerrados e o maxilar tenso. E então, a viu. Ele sentiu o sangue ferver dentro de si ao vê-la rindo enquanto conversava com e ; porém, sentiu ainda mais raiva no momento em que o guitarrista chega mais perto de para falar alguma coisa no ouvido dela, fazendo-a rir mais uma vez.
- Mas que porra… - Ele praguejou, cerrando o punho. Sem hesitar, andou a passos apressados até a namorada.
Quando viu Matthew se aproximar, ficou séria e sentiu o coração bater mais rápido. e repararam que a garota ficou quieta de repente e tensionou o corpo ao olhar para algum ponto. Os dois seguiram o olhar de e também ficaram surpresos ao ver Matthew parar na frente deles.
- Então é aqui que você estava? - Matthew disse diretamente para , que engoliu a seco. - Estou desde cedo tentando falar com você. Mandei mensagens e liguei várias vezes… Fiquei preocupado! - Ele disse e rolou os olhos, ficando de frente para o balcão.
- Eu… perdi meu celular durante o festival. - explicou.
Matthew respirou fundo e olhou para e . Não queria ter aquela conversa na frente deles; na verdade, queria mais que tudo tirar a namorada de perto deles.
- Podemos conversar lá fora? - Ele perguntou, pegando na mão de . Ela puxou de volta e desviou o olhar. Matthew franziu o cenho sem entender a reação da namorada.
- Por que não chama Cassy para ir com você? - disse ironicamente sem olhar para o garoto. segurou a vontade de rir e Matthew cerrou o punho mais uma vez.
- Cassy? Sério… achei que tinha entendido que não rolou nada com ela e foi tudo um mal entendido!
- E o que te faz pensar que eu acredito em você? - perguntou e levantou de repente. Apesar de parecer firme, ela sentia o corpo inteiro tremer de nervoso. a olhou preocupado e saiu de perto para procurar por .
- O que deu em você?! - Matthew elevou a voz, chamando a atenção das pessoas ao redor. - Vai me acusar de algo que não fiz, sendo que foi você quem foi para a cama com outro?!
Aquelas palavras naquele tom áspero fez o coração de doer. Ela queria chorar e sair correndo dali de tanta vergonha que sentia. Não tinha coragem de sequer olhar para . Ela apenas abaixou a cabeça e deixou uma lágrima escapar. , ao ver isso, não pensou duas vezes antes de colocar toda sua força e raiva que sentia no punho, acertando a maçã do rosto de Matthew. O jogador cambaleou para o lado, mas não caiu no chão. arregalou os olhos, completamente surpresa e assustada. balançou a mão algumas vezes, sentindo um pouco de dor.
As pessoas ao redor se afastaram da confusão, formando uma roda entre , e Matthew, que colocou a mão no rosto e olhou para o guitarrista com fogo nos olhos, partindo para cima dele em seguida.
- Matthew, PARA! - gritou com medo de se aproximar dos dois garotos que se batiam no chão. - SOLTA ELE! - Gritou mais uma vez.
- Acabou de chegar e já quer roubar a minha namorada também? - Matthew praguejou segurando pelo colarinho da camisa.
- Ela não parece querer ser sua namorada… - retrucou e deu uma risada fraca.
Antes que Matthew desse outro soco no pé da barriga do guitarrista, , em prantos, ameaçou se aproximar mais uma vez. Alguém precisava separar aqueles dois! Ela sabia o quanto Matthew era forte por conta do rugby e já o vira em brigas várias vezes durante os jogos; tinha medo do que ele poderia fazer a .
- Matthew, eu já falei pra pa… - No exato momento em que aparece atrás do jogador para tirá-lo de perto de , sem querer Matthew acerta seu rosto com o cotovelo, derrubando a garota no chão.
Então, em questão de segundos, Matthew larga e levanta desesperado. apareceu correndo, com e logo atrás. Ao ver sentada no chão com a mão tampando o nariz e , na mesma posição, mas com o braço envolvendo o abdômen, empurrou qualquer um que estivesse na sua frente para ir até Matthew.
- QUAL O SEU PROBLEMA?! - gritou ao segurar Matthew pelo colarinho. O jogador, no entanto, estava com os olhos fixados em . Seu coração acelerado, as mãos tremendo…
- , me desculpa, eu não quis…
- Eu falei pra se afastar da minha irmã! - continuou gritando e o dono do Pub apareceu.
- O show acabou! - O dono falou alto para que todos ali ouvissem, e então abaixou a voz para os envolvidos na roda. - Vocês, vão brigar lá fora! Aqui não!
- Foi um acidente, eu não… - Matthew tentou explicar em vão, sentindo que estava sem chão.
- Você está bem? Quer que chame um médico? - O dono do Pub perguntou para , agachando para ficar na mesma altura que ela. - Ou a polícia… - Ele olhou para Matthew, que sentiu um arrepio na espinha.
negou com a cabeça e levantou com a ajuda das pessoas que estavam perto dela.
- Eu estou bem. - Ela disse e lançou um olhar frio para Matthew. - Nunca mais chegue perto de mim. Nunca mais!
também tentou levantar e gemeu ao sentir uma dor absurda na região da costela. soltou Matthew e foi para perto da irmã, a abraçando de lado. e correram para ajudar .
- Vem, vamos embora. - Ele disse e os cinco saíram do estabelecimento. - Me dá a chave, eu levo o carro. - pediu e negou, ainda tampando o nariz.
- Eu estou bem para dirigir, relaxa. E além disso, vocês beberam. - argumentou e olhou preocupada para , que fazia caretas ao andar.
- Cara… ele é forte mesmo. Olha aqui - virou o rosto para e abriu a boca. - Meus dentes ainda estão aí? - Perguntou rindo, fazendo os três garotos rirem também. permaneceu séria, sentindo-se envergonhada.

***


Quando estacionou o carro na garagem e os cinco entraram em casa - e também passariam a noite lá - precisaram andar na ponta do pé e sussurrar para não acordar ou chamar a atenção de John. Se ele visse a situação deplorável de e a mancha de sangue no nariz e blusa de , ele desmaiaria; ou pior, teria um infarto!
O horário já se passava das duas da manhã quando olhou para o relógio pendurado na parede da cozinha. Enquanto , e arrumavam as coisas para dormir no quarto do irmão, procurava dentro do armário um quite de primeiro-socorros, com bandagens, curativos e remédios.
- Ah! - ouviu gemer deitado no sofá da sala. - Meu segundo dia em Londres e já estou quebrado… literalmente.
A pianista soltou um suspiro pesado e pegou uma pequena maletinha branca no fundo do armário da cozinha. Ela levantou e foi correndo para a sala.
- Consegue sentar? - perguntou educadamente e fez careta ao tentar mudar de posição, mas conseguiu. A pianista sentou na mesinha de centro para ficar de frente para o guitarrista.
- Você está bem? - Ele perguntou em voz baixa. O nariz da garota já estava limpo, mas ainda assim estava um pouco inchado na região acima do lábio superior.
- Uhum… - respondeu enquanto mexia na maleta em seu colo e procurava por bandagens. A garota olhou para e pigarreou, sentindo o rosto ficar vermelho. - Erm… pode subir a camisa? - Ela pediu e obedeceu, deixando à mostra o abdômen que estava começando a roxear.
engoliu a seco, sentindo o coração acelerado. Ao ver aquele hematoma e ouvir o gemido de dor de assim que ela o envolveu com a bandagem, sentiu vontade de chorar.
- Me desculpe por isso… - pediu com a voz trêmula. olhou para as escadas e suspirou, olhando para a garota em seguida.
- Ei… - levou sua mão para o rosto de , fazendo-a olhá-lo nos olhos. Sentiu um aperto no peito ao notar os olhos marejados. - Tudo bem. Você não sabe o quanto eu esperei para dar um soco naquele brutamontes! - Ele disse e riu baixinho.
- Cala a boca… - passou mais um curativo no abdômen de .
- É sério! Foi tão prazeroso que você nem imagina. - também riu e gemeu, sentindo dor. o olhou preocupada, mas logo suavizou ao ver o sorriso maroto do guitarrista. - Eu apanharia mais uma vez só para garantir que ele fique longe de você. - Ele confessou com uma expressão séria.
respirou fundo e soltou o ar lentamente, abaixando a camisa de depois de finalizar o curativo. Ela ficou em silêncio, sem saber o que dizer. Então, sentindo o coração acelerar cada vez mais, pegou uma das mãos da pianista e suspirou, olhando para os dedos finos da garota. não recuou, pelo contrário, apenas fechou os olhos ao sentir a mão quente dele segurar a sua. No fundo, ela desejou não a soltar. Ele levou a mão da pianista para perto de seu rosto e abriu os olhos. O coração dos dois batia tão rápido que era quase possível ouvir.
- Você devia deitar e descansar um pouco. - disse em voz baixa, quase num sussurro, e puxou sua mão devagar. balançou a cabeça e passou a língua entre os lábios. - Toma esse remédio antes de dormir, para ajudar a aliviar a dor… - Ela levantou e pegou uma cartela de comprimidos, entregando-a para o garoto.
pegou a cartela sem dizer nada, apenas sorriu de lado agradecido. Queria ficar com a pianista por mais tempo, mas sabia que ela não queria apressar as coisas e nem arriscar que os visse tão próximos. olhou para o guitarrista e sorriu.
- Boa noite, . - disse amigável.
- Boa noite, . - Ele respondeu com um sorriso.
Quando ouviu passos se aproximando, subindo as escadas, deu meia volta e andou apressado até seu quarto, pensando que cada vez mais as coincidências faziam sentido em sua cabeça.

Capítulo 18

Mesmo com tantos eventos em um curto espaço de tempo, o resto da semana se passou tranquilamente. já estava se acostumando com a presença de em sua casa. Vê-lo todas as manhãs e dar bom dia estava sendo mais fácil do que ela imaginava, mas isso não os impedia de trocar olhares suspeitos vez e outra… Era inevitável; eles até podiam agir como amigos agora, mas ainda não sabiam como colocar os segredos - que apenas eles conheciam - de lado. Eram cúmplices dos próprios sentimentos e desejos; e ninguém, absolutamente ninguém, poderia saber!
***


Bia colocou o estojo do violino no ombro e olhou em volta, procurando entre as casas do bairro o número “537”. Ela conferiu mais uma vez o endereço em seu celular e voltou a andar a passos lentos pela calçada, sem tirar os olhos das casas.
- 533… 535… - Ela murmurava para si mesma. E então, seus olhos brilharam e o sorriso alargou. - Ahá! 537!
A ruiva guardou o celular no bolso do estojo do violino e correu para a entrada da casa 537. Ela estava animada e completamente ansiosa, mesmo que em mais um dia frio, às 7h da manhã de um domingo. Sem hesitar, a violinista apertou o botão da campainha e esperou. Nenhuma resposta, então apertou mais uma vez. Segunda vez; terceira vez…
- Não tem ninguém nessa casa?! - Reclamou enquanto apertava a campainha várias vezes seguidas.
***


- Mas que droga! - xingou ao abrir de repente a porta do seu quarto. também apareceu, coçando os olhos sonolentos.
- Se for um de seus amigos, juro que quebro a sua guitarra na cabeça deles!
- O quê? Por que a minha guitarra?
- Porque são seus amigos. - Respondeu e sorriu irônica.
- A casa está pegando fogo? - , que dormia no quarto extra da casa, abriu a porta preguiçosamente. Olhou para a pianista e o amigo parados no corredor, sem entender nada. - Que barulho é esse?
A campainha continuava a tocar insistentemente, e aquele som agudo parecia cada vez mais alto e irritante. Quem diabos os incomodaria em um domingo de manhã? tomou a frente e desceu as escadas rapidamente, com fogo nos olhos por ter sido acordado tão cedo. , e John, que também acordou com a bagunça, estavam logo atrás. A pianista parou no pé da escada, enquanto o pai e o guitarrista foram para o sofá da sala.
- O que é?! - disse rispidamente assim que abriu a porta de entrada, surpreendendo a visita, que franziu a testa e cruzou os braços ao olhar para o rapaz.
- Credo, bom dia para você também…
Constrangido, sentiu o rosto ficar levemente vermelho. Ele atendeu a porta esperando que fosse ou , e não uma garota!
- Foi mal… pensei que fosse outra pessoa. Precisando de alguma coisa? - Ele perguntou educadamente, tentando ignorar o sono e a raiva.
se esticou um pouco para saber com quem o irmão falava. , ainda sonolento, jogou seu corpo para trás e deitou no sofá, deixando suas duas pernas apoiadas no braço do móvel; John, que estava em sua poltrona, levantou e foi até a cozinha para preparar o café da manhã.
- Erm… está? - Bia perguntou, espiando o interior da casa.
olhou para a irmã atrás de si e fez um sinal com a cabeça, chamando-a. Ele se afastou e, quando viu as madeixas cor de fogo e o estojo de um violino, abriu um largo sorriso. Ela desceu os últimos degraus e andou calmamente até a amiga que permanecia parada na frente de sua casa, com o instrumento no ombro.
- Bia! - disse empolgada, fazendo a ruiva também sorrir com brilho no olhar. No entanto, abriu os olhos de repente ao ouvir o nome da garota, despertando-se do sono no mesmo instante. - Eu pensei que fosse chegar só na terça. - A pianista acrescentou.
- Mudanças de planos! - A violinista deu de ombros com um sorriso cúmplice no rosto. Bia entrou na casa e puxou a amiga, que não via desde a última despedida em Cleveland, para um abraço apertado. Ela estava feliz e também. - Parece que faz um século que não nos vemos. Tenho tanta coisa para te contar e…
A garota, que ainda estava abraçada com , fez uma pausa repentina ao olhar para a pessoa que se levantava do sofá. O largo sorriso diminuiu lentamente, enquanto os olhos maquiados com rímel preto se arregalaram, substituindo o sentimento de alegria por espanto e completa confusão.
- AH! - Ela gritou e afastou a pianista, assustando-a. Apontou para , que também tinha os olhos arregalados, como se o próprio fosse um criminoso procurado pela polícia ou um fantasma. encarou a cena sem entender nada, pensando no quão maluca e barulhenta aquela garota podia ser. - O que ele faz aqui?! - Perguntou intercalando os olhares para e , que se entreolharam assustados.
- Estou começando a achar que ninguém é bem-vindo nessa casa. - comentou mais para si mesmo do que para os outros que estavam ali.
Lembrou da reação que o amigo teve ao chegar e fazer a mesma pergunta para a irmã; e quando e estavam em sua casa, John também sempre aparecia e perguntava o que eles faziam em sua casa. negou com a cabeça e deu uma risada fraca, achando graça.
- Oi… - disse em voz baixa e acenou para Bia, que cruzou os braços e encarou .
- Ele… é amigo do meu irmão, . - apontou para o irmão e em seguida abaixou a voz, para que apenas Bia escutasse. - Eu também tenho muita coisa para te contar. Por que não subimos?
A pianista pegou na mão da amiga e a guiou para o segundo andar. Enquanto subia as escadas, Bia e se encaravam, se perguntando o que ambos faziam ali. O quão pequeno era aquele mundo?
- Que maluca… perdi até o sono. - falou e forçou uma risada, concordando com o amigo.
***


- O que aquele idiota está fazendo aqui, ?! - Bia perguntou assim que a pianista fechou a porta do quarto.
- Por favor, fale baixo! - pediu apreensiva e sentou na cama ainda bagunçada e com almofadas espalhadas. - É uma longa história…
Bia tirou o estojo do violino de seu ombro direito e o colocou em cima de uma cadeira preta que ficava de frente para a pequena escrivaninha, ao lado do piano digital de . Ela soltou um longo suspiro, mantendo a calma, e sentou ao lado da amiga.
- Temos bastante tempo. Quero saber desde o começo!
A pianista encarou a expressão ansiosa de Bia e riu, mas logo começou a ficar nervosa. Tinha medo do que a garota falaria dela e a última coisa que queria agora era ser julgada. Depois de um tempo em silêncio, a pianista começou a contar sobre tudo. Sobre o primeiro beijo que roubou; o segundo beijo que ela não recusou, quando ele tocou ao piano; a última noite em que dormiram juntos… tudo. Bia mostrava diferentes reações para cada história. Mesmo sentindo-se um pouco chateada por saber daquilo só agora, ela entendia o motivo por trás dos segredos.
- Se você sabia que eu viria, por que não me contou que ele estava aqui? - perguntou a violinista. mordeu o lábio inferior, pensativa.
- Estava tão empolgada que você viria para o teste na Orquestra, que nem me preocupei em pensar que os dois também se conheciam.
- E por quanto tempo acha que vai conseguir esconder isso do seu irmão, ? - Bia perguntou preocupada. - Digo… está dormindo no quarto ao lado, na sua casa.
- Nós somos apenas amigos agora, então tanto faz onde ele dorme ou o que faz… - contestou , tentando parecer despreocupada.
- E quanto ao Matthew? E se ele contar ao sobre o que vocês fizeram?
- Matthew sabe sobre a traição, mas não sabe que foi com … É melhor que ele não saiba - disse ao ficar de pé e andar até seu guarda-roupa branco. - Nem eu ou queremos vê-lo mais, então está tudo bem. Ele não vai falar nada… assim espero. - Sussurrou a última parte.
- Então… não tem mais nada entre você e Matt? - perguntou Bia, cruzando as pernas e apoiando as duas mãos para trás, na cama.
A pianista a olhou firmemente e negou com a cabeça. Ela voltou a encarar suas roupas penduradas no cabide, sentindo que a ruiva ainda a encarava como se lesse seus movimentos. Bia suspirou e lançou outra pergunta com um sorriso malicioso no rosto:
- E ? - estremece, mas permanece de costas para a amiga. - Não há mais nada entre vocês?
A pianista respira fundo e tira de dentro do armário uma calça jeans preta. Ao fechar a porta do guarda-roupa, encarou Bia nos olhos, na tentativa de mostrar a firmeza e calma de sempre:
- O que aconteceu em Cleveland, ficou em Cleveland. Aqui, ele é apenas mais um amigo do meu irmão que gosta de jogar videogame até tarde e fazer barulho com aquela guitarra estúpida… - faz uma pausa e fecha os olhos, mantendo a calma. - Não há nada entre mim e ele que não seja… amizade.
- Mas…
- E quanto menos falarmos disso, mais fácil fica ignorar o que eu “acho” que sinto por ele. - A pianista diz, impedindo que Bia fizesse mais uma pergunta sobre sua relação com o guitarrista. A ruiva, por outro lado, riu fraco e se deu por satisfeita.
- Tá aí o que eu queria ouvir - ela diz e também levanta, dirigindo-se até a escrivaninha para pegar seu violino. - Bom, seja qual for o final dessa novela, sabe que pode confiar em mim, não é?
sentiu o coração aquecer com o sorriso sincero da violinista. Agradeceu mentalmente por ela estar ali, mesmo que no fundo sentisse que de agora em diante as coisas seriam ainda mais confusas. - Obrigada…
- Agora… - Bia encarou e tirou o instrumento do estojo. - Me conta mais sobre a Orquestra. O que acha que devo tocar?
***


No dia seguinte, a violinista apareceu mais uma vez na casa dos . Desta vez, não tão cedo. Aquela segunda-feira pareceu ter sido a data marcada para ensaios; na garagem os quatro garotos estavam a todo vapor tocando e soltando a voz animadamente, enquanto e Bia também praticavam e apreciavam o som do piano junto ao violino. Foi uma tarde inteira de músicas, do rock pop ao erudito. Apenas agora, quando a lua tomou o lugar do sol, que todos se reuniram na sala de estar.
John colocou sobre a mesa de centro uma bandeja com duas xícaras de chá, um copo de suco de laranja e outro de água. Em seguida, com uma das xícaras em mãos, sentou em sua poltrona, assoprou a bebida e virou para as duas garotas que dividiam o sofá de dois lugares:
- Então vocês se conheceram no conservatório?
- Éramos colegas de quarto, na verdade - respondeu a violinista, animadamente. também sorriu, mesmo que por trás do seu copo de suco tentasse disfarçar o nervosismo. - Tocamos juntas várias vezes. É até um pouco nostálgico ensaiar com você de novo.
- Não ficamos separadas por tanto tempo assim - A pianista disse com uma risada fraca.
franziu a testa por um momento, pensativo, e olhou para ao seu lado. Este encarava os três enormes quadros preto-e-branco na parede, tentando não mostrar interesse na conversa enquanto saboreava a água lentamente. Tanto ele quanto sentiam-se apreensivos com o assunto sobre o conservatório de Cleveland, no entanto o pai da garota e a violinista pareciam animados.
- Acredita que minha dupla me deixou plantada no dia da apresentação? - Bia perguntou para John, que arregalou os olhos surpresos.
- E o que você fez? - Ele perguntou, curioso. A ruiva fez uma pausa e lançou um olhar de relance para .
- Tinha um garoto, Ben, que também tocava piano e às vezes me ajudava a ensaiar. No dia, quando eu estava me tremendo toda no meio do palco e sem acompanhamento, ele apareceu e tocou no lugar da minha dupla. Se não fosse por ele, acho que não teria pegado o certificado.
A violinista não pôde evitar de sorrir ao lembrar-se da noite da audição. Mesmo que não quisesse admitir para si mesma, nem para ninguém, ela sentia um pouco de saudades do garoto, assim como sentiu de . também sorriu ao lembrar do amigo e pensou que poderia ligar para ele qualquer dia, apenas para saber como estava ou o que fazia da vida depois de Cleveland. Neste momento, Bia olhou mais uma vez para e inclinou seu corpo para frente, cruzando as pernas e apoiando o cotovelo no joelho:
- Sabe, você bem que me lembra Ben. - Ela disse diretamente para o guitarrista, sorrindo. tensionou o corpo e encarou a amiga. - Acho que você ia gostar de conhecê-lo. Aposto que os dois têm muito em comum, seriam amigos rapidinho.
rangeu os dentes e forçou um sorriso, dizendo:
- Então ele deve ser uma ótima pessoa.
- Posso até ser grata a ele, mas eu o acho um idiota.
O rapaz ficou em silêncio, sentindo o sangue ferver em seu corpo. , por outro lado, começou a rir da expressão séria e tensa que o amigo fazia. também tinha a mesma feição, mas ele não reparou. A garota negou com a cabeça e fechou os olhos por breves segundos, sentindo que guardar segredos era mais cansativo e difícil do que imaginava que seria.
***


fechou a porta do banheiro atrás de si e se olhou no espelho. Estava cansado, estressado e por algum motivo - encarando seu reflexo - também se sentia diferente. Ele não sabia o quê ou porquê, mas sentia que algo havia mudado. O garoto abriu a torneira da pia e lavou o rosto várias vezes, tentando dissipar aquela tensão em seu corpo e mente. Durante todo o jantar, precisou aguentar em silêncio e risadas forçadas as provocações de Bia. Se o desafio de fingir não conhecer já era grande, com a violinista tudo ficava ainda pior. Ele sabia melhor do que ninguém que ela sequer gostava do rapaz e fazia questão de deixar isso claro, mesmo que através de indiretas.
acreditava que estava na lista negra da garota, mas não podia deixar isso afetar a paz que finalmente tinha conseguido depois de duas semanas naquela casa. Os primeiros dias foram conturbados e cheios de surpresas, das melhores para as piores; da satisfação de subir num palco a ganhar um hematoma na costela. Em uma semana, também conseguiu estabelecer uma relação tranquila com . Mesmo que ela invadisse seus pensamentos todas as noites e vez ou outra trocasse olhares cúmplices e sorrisos marotos, ainda assim tinham a amizade como fuga para guardar o que realmente sentiam.
- Ah… - suspirou, pensativo.
O guitarrista secou o rosto na pequena toalha pendurada ao lado do espelho e encarou seu reflexo mais uma vez, torcendo para que quando saísse por aquela porta, a violinista já tivesse ido embora. Assim não teria que aguentar mais de suas provocações. girou a maçaneta e no momento em que saiu do banheiro, viu a própria encostada na parede e de braços cruzados.
- Ah não… O que eu preciso fazer para você largar do meu pé?
Silêncio. Ele não sabia como funcionava um boneco de voodoo, mas podia sentir as alfinetadas de Bia apenas pelo olhar profundo e sério que ela o lançava. O garoto fechou os olhos e bufou, virando-se para ir embora.
- Isso não vai dar certo. Você sabe, não é? - Ela perguntou de repente. parou e encarou a ruiva, sem entender.
- O que não vai dar certo?
- Isso! - Ela responde como se fosse óbvio, apontando para o corredor que levava para a sala, de onde era possível ouvir as risadas de e . - Eu mal cheguei e já percebi que vocês estão se segurando. Vocês acreditam mesmo que ele não sabe de nada e nem desconfia?
- Se está falando sobre mim e … não perca seu tempo se preocupando. Somos só amigos! - se defendeu, sentindo o coração acelerar. A garota negou com a cabeça e ri com a inocência.
- Não, não, não. Eu e Ben somos amigos, porque não nos olhamos como se precisássemos nos agarrar a todo instante. - Bia faz uma careta ao pensar em Ben. - Você olha para ela como se fosse um pedaço de hambúrguer.
- O quê?! Você ficou maluca. - diz espantado. - Na verdade, sempre foi!
- Vocês são péssimos em esconder as coisas. - Bia riu e inclinou o corpo para frente, abaixando o tom de voz - Ou é muito burro por não perceber nada ou ele finge muito bem e só está esperando alguma coisa acontecer.
Bia sempre teve um faro muito bom para descobrir mentiras, brincadeiras e qualquer outro passo em falso. Não é à toa que ela não foi pega pela aposta de Ben e em Cleveland, e por isso sempre desconfiou dos dois garotos. Agora, ela mantinha a amizade com Ben, mas nada além disso. … bom, ela ainda tinha suas dúvidas.
- Está dizendo isso porque me odeia e não suporta ver que nós estamos nos dando bem. - O garoto retrucou impaciente, tentando convencer a si mesmo de que Bia estava errada quanto ao que dizia. - Ah é, não era você quem sempre me enchia o saco para ficar longe dela? - Perguntou ironicamente, fazendo a violinista rolar os olhos e bufar.
- Por causa daquela aposta idiota! - Bia disse calmamente, sem ironia. - Eu não entendo o que ela viu em você, mas… de alguma forma ela gosta de você. E você dela. Se não gostasse, não escreveria músicas de amor e nem bateria no namorado dela…
- Ele mereceu...- disse, sentindo o rosto esquentar em seguida. - Enfim… e daí que eu gosto dela? Não posso fazer nada. Ela já fez a escolha dela e eu respeito.
Bia fechou os olhos, sentindo-se impaciente, e soltou o ar lentamente. Então, falou ainda mais baixo, quase um sussurro:
- Se continuar pensando assim, os dois vão se perder e se machucar! Vocês se encontraram de novo e isso é muito esquisito, mas… nem sempre essa sorte vai bater na porta. - Bia encarou , que olhava para baixo pensativo. Ela fez uma pausa e suspirou. - Sabia que Ben também entrou para uma orquestra? - Perguntou de repente.
franziu a testa, sem entender a ligação daquela pergunta com o resto do assunto. Ele negou com a cabeça, surpreso e ao mesmo tempo feliz pela conquista do amigo.
- Pois é… parece que depois do Natal ele vai para Tóquio. - Bia abaixa o olhar e sorri, mesmo que cabisbaixa. - Vai para um concerto do outro lado do mundo.
- Tóquio?! Está falando sério?
- E por que não estaria? Ele é um ótimo pianista e você sabe disso.
- Ele é muito bom mesmo, mas cara… Tóquio? - abriu um sorriso orgulhoso, mas logo o desfez. - Espera, onde quer chegar com isso?
- Amanhã farei um teste em uma das maiores Orquestras Sinfônicas do mundo. A mesma Orquestra que conseguiu entrar! - Bia disse e continuou confuso. - Se uma chance dessas aparecer para ela, de viajar o mundo, acha mesmo que ela vai recusar?
Um estranho sentimento invadiu o peito de ao ouvir aquilo. Seu coração batia tão rápido que mal podia ouvir os próprios pensamentos. Sem saber o que dizer, ele virou o rosto e, de longe, olhou para que ria de alguma piada que contava. Sentiu o ar falhar ao ouvi-la rir e pensar no que Bia o contava. Ela tinha razão, afinal de contas…
- Vocês podem continuar fingindo que está tudo bem, mas não venham reclamar depois. A sorte não bate na porta duas vezes.
Bia deu um passo para trás, mas antes que se afastasse do garoto, abaixou os olhos e num suspiro acrescentou:
- Não cometam o mesmo erro que eu…
A violinista disse por fim, em um fio de voz, e se afastou, deixando sozinho sob seus milhares de pensamentos e anseios que o rodeavam.

Capítulo 19

Os sons das cordas de violas e violoncelos em harmonia com trompetes, flautas e trompas eram a combinação mais perfeita que e Bia já ouviram. Quando a maestrina deu o sinal para que todos os outros instrumentos parassem para que apenas o piano e violino tocassem, a pianista sentiu o corpo arrepiar dos pés à nuca. Ela já ouviu Júpiter de Gustav Holst milhares e incansáveis vezes, mas ali, naquele palco do Barbican Hall com outros músicos e musicistas de todas as idades, sentiu aquela lenta e doce melodia atingi-la como se fosse a primeira vez. No pesar da última nota, olhou para Bia e as duas sorriram extasiadas.
- Muito bem, pessoal! - disse a maestrina após algumas palmas, também satisfeita com a performance. Todos guardaram seus instrumentos e pararam para ouvir Elsie. - Depois de amanhã é Natal, o que significa que temos apenas uma semana para nossa apresentação de Ano Novo. Continuem com os ensaios, cuidem de seus instrumentos e se preparem!
Bia se aproximou de segurando o violino nas mãos. Ela observou a amiga recolher as folhas da partitura e guardá-las em uma pasta de couro preta, então disse:
- Isso é bem diferente de Cleveland, mas estou tão nervosa quanto fiquei para aquela audição.
- Eu estou mil vezes mais. Ainda não acredito que estamos tocando em uma orquestra de verdade! - A pianista sorriu alegremente e levantou, colocando a pasta de partituras debaixo do braço.
- Se te oferecerem a vaga, vai ficar para a orquestra? - Bia perguntou. - Digo, oficialmente…
- Você não? - respondeu com outra pergunta.
- Hmm… É incrível tocar com outros músicos e em uma sala de concerto como essa, mas para falar a verdade não me vejo em uma orquestra.
- Então, o que planeja fazer depois disso? - A pianista perguntou, curiosa, assim que desceram as escadas laterais do palco, seguidas de outros músicos.
- Dar aulas.
- Dar aulas?
- Isso! - Bia respondeu animada enquanto fechava o zíper do estojo do violino, colocando-o em seu ombro em seguida. - Quero dar aulas de música para crianças e mostrar como é divertido tocar um instrumento. Me dou super bem com elas, tanto quanto com violino. Então por que não unir o útil ao agradável, não é?
A pianista concordou com um sorriso singelo, imaginando que Bia daria uma boa professora de música. Ela tinha carisma, talento e era divertida. As duas ainda conversavam no tempo em que se dirigiam para a saída do Barbican Hall quando a maestrina as chamou. Ambas olharam para trás e viram a mulher se aproximar com sua bolsa de couro no ombro.
- , tem um minuto? - perguntou Elsie.
As duas garotas se entreolharam por um breve segundo, curiosas. Bia sentou em um dos bancos da sala para esperar, enquanto a pianista seguiu a maestrina um pouco mais a frente, até pararem perto do palco. A ruiva não conseguia ouvir a conversa, assim como não fazia ideia do que se tratava, mas sentiu a curiosidade falar ainda mais alto quando viu fazer uma cara de espanto e logo em seguida abrir um sorriso tão largo como nunca havia visto antes.

***


- E se tocarmos alguma coisa mais lenta?
- Em um bar e no Natal? Acho que não… - negou , que deu de ombros e voltou a apoiar a mão no queixo pensativo. - É uma noite de festa. A ideia é animar e fazer a galera se mexer!
Os quatro garotos estavam reunidos em volta de uma mesa redonda do mesmo bar que costumavam tocar na época da escola, pouco antes de se formarem e de mudar para Bolton. Estavam ali conversando, pensando e trocando várias ideias de músicas desde às 8h da manhã, quando o dono do local ligou para e o convidou para tocar com a banda no dia 24 de dezembro. Depois do festival, a popularidade dos rapazes cresceu cada vez mais. As pessoas sabiam quem eles eram e queriam ouvir a banda tocar novamente. Tudo estava indo bem e conforme planejado, apenas uma única coisa eles aguardavam ansiosamente: uma chance em uma gravadora de verdade.
Quando recebeu o convite, os quatro garotos não pensaram duas vezes antes de aceitar. Enquanto estivessem juntos, aproveitariam qualquer oportunidade que aparecesse para tocarem em público. E lá estavam eles em mais uma discussão de quais músicas deveriam ou não tocar na noite da véspera de Natal. No entanto, enquanto , e pareciam animados, encarava, pensativo e quieto, as pessoas na rua através da janela. Sua expressão era vazia enquanto os dedos batucavam nervosamente na madeira da mesa. notou e cutucou com o cotovelo:
- O que você acha, ? - perguntou, mas não obteve nenhuma resposta. - ?
Silêncio. Os três amigos se entreolharam sem entender o que estava acontecendo. pegou o cardápio de papel sobre a mesa e o enrolou em formato de cone, então se aproximou lentamente atrás do guitarrista e gritou, com o “megafone” improvisado na boca:
- Ei! ALGUM IDIOTA AÍ?
Os amigos riram com o pulo assustado de , que logo tampou o ouvido e lançou um olhar irritado para . As poucas pessoas que também estavam no local olharam assustados para os rapazes. Alguns riam e outros faziam caretas de reprovação.
- Mas que merda é essa? - esbravejou e jogou outro cardápio que tinha na mesa na direção do baixista, que estava vermelho de tanto rir.
- Que bicho te mordeu, ? Desde que aquela ruiva apareceu, você tem agido estranho. - disse . - Quando não tá no mundo da lua, como agora, tá irritado com alguma coisa.
- É TPM? - perguntou, fazendo rir e revirar os olhos.
- Não é nada. Só estou um pouco… frustrado.
- Com o que? - perguntou, preocupado. O guitarrista voltou a olhar pela janela do bar e suspirou. - Sabe que se estiver acontecendo qualquer coisa, pode contar com a gente, não é?
Sim, sabia perfeitamente que podia confiar nos amigos, mas não tinha coragem o suficiente para ser sincero e conversar sobre tudo o que sentia em relação ao futuro e à garota que fazia um escarcéu em sua mente. Que droga de efeito era esse que o transformava em um covarde sentimental?! Por que tinha tanto medo de ser direto com ? E daí que eles são irmãos? Ah, droga! Por que Bia tinha que aparecer logo agora e por que não podia jogar tudo para o ar e admitir que também sentia algo por ele?
fechou os olhos por alguns segundos e respirou fundo. Então, perguntou:
- Se a pessoa que vocês gostam a ponto de não conseguir tirá-la da cabeça fosse embora para bem longe no dia seguinte, o que fariam? - Os três se entreolharam, achando a pergunta esquisita. - Erm… hipoteticamente falando.
- Você gosta de alguém? - perguntou direto. franziu a testa, curioso.
- É uma pergunta hipotética! Só respondam…
- Eu correria até ela e falaria logo tudo o que sinto. Faria de tudo para deixar claro o quanto a amo, mesmo que ela me desse um pé na bunda e pegasse um avião no outro dia. Pelo menos ela vai saber o que sinto e eu não vou ficar sentado, chorando arrependido, por não ter feito ou falado nada. - respondeu simplesmente e deu de ombros. bateu palmas, emocionado.
- Cara, acho que me apaixonei por você! - ele disse e mandou um beijo para o garoto, que riu.
- E se ela não quiser que ninguém saiba sobre vocês? - sentia-se cada vez mais estúpido a cada pergunta que fazia, mas não se importava mais.
- Uuh! Relações proibidas e às escuras? Parece emocionante - comentou.
- Eu ficaria na dúvida se ela realmente gosta de mim ou não… - disse . O guitarrista encarou o amigo seriamente, se perguntando se em algum momento já pensou dessa forma.
- Ela tem motivos pra querer esconder? - arqueou a sobrancelha, examinando . Este engoliu a seco nervoso.
- Talvez… - respondeu após uma pausa. Ele suspirou e forçou uma risada. - Tem alguém que pode ficar magoada ou odiá-la se souber… é o que ela diz.
- Hipoteticamente falando? - perguntou curioso.
- Hipoteticamente falando.
- Bom, nesse caso, acho que “eu e minha amada” estamos nos torturando à toa - fez aspas com os dedos. - Somos dois idiotas que preferem sofrer a falar a verdade. A coisa pode ficar muito pior com esse “alguém” se continuarmos mentindo, não acha?
encarou o amigo por alguns segundos, pensativo e confuso. Ambos pensavam da mesma maneira e no fundo ele até sentia-se aliviado por ouvir as palavras que queria saírem da boca de . Por um momento, ouviu a voz de Bia ecoar em sua mente dizendo “ou é muito burro por não perceber nada ou ele finge muito bem”. Se ele realmente sabia sobre o amigo e a irmã, por que não dizia nada para os dois?
- E você, , o que faria? - perguntou de repente.
- Erm… o mesmo que . - gaguejou e suspirou. - Esqueçam isso, foi só curiosidade. Ontem vi um filme sobre isso e fiquei pensando se… daria uma boa música ou algo do tipo - disse rindo fraco.
- Hmm… não é uma má ideia - ponderou interessado. Como se virasse uma página ou trocasse de canal, para a alegria de , o assunto mudou completamente para a criação de uma nova música.
Enquanto os amigos davam suas sugestões e conversavam animadamente, continuou a olhar para com curiosidade, pensando consigo mesmo que, de alguma maneira, ele agora sabia que suas dúvidas não eram mera coisa da cabeça. Ele estava certo.

***


Mesmo que o dia tivesse amanhecido com um lindo céu aberto, no final da tarde a temperatura voltou a cair, dando sinais de que a qualquer momento poderia nevar mais uma vez. Sem importar-se com o vento gélido, estava sentada no primeiro degrau da entrada de sua casa, com as duas mãos nos bolsos do sobretudo, olhando para o fio da calçada há mais de 10 minutos, apenas pensando. Sua última conversa com Elsie deu um choque de realidade na garota sobre seu futuro na música. Ao mesmo tempo em que sentia uma felicidade imensa, também era tomada pela dúvida e medo. “O que eu faço?”, se perguntava.
- ? - John abriu a porta de repente. A pianista olhou para cima, surpresa. - O que faz aqui nesse frio? Quer ficar doente?
A garota deu um sorriso de lado, ignorando o sermão.
- Pai, posso te fazer uma pergunta? - ela perguntou em voz baixa depois de uma pausa, voltando os olhos para a calçada vazia. John esfregou os braços e sentou ao seu lado.
- Aconteceu alguma coisa? - ele a abraçou de lado, preocupado. Os fios do cabelo da pianista estavam gelados.
- Mais ou menos, mas não é nada que precise se preocupar - disse com uma risada fraca. respirou fundo e suspirou. - Como eu sei que estou fazendo a escolha certa? Como… eu sei que não estou indo pelo caminho errado?
John franziu a testa ao ouvi-la, em silêncio, mas logo sorriu e a abraçou um pouco mais forte.
- Você não sabe - respondeu sincero. A garota o olhou sem entender. - Já ouviu aquela frase de que “aprendemos com nossos erros”? É clichê, mas também é a pura verdade. Qual o caminho certo ou errado, só você tem a resposta para isso e vai descobrir com o tempo.
olhou para os pés, sentindo que estava ainda mais confusa.
- É algo sobre a Orquestra? - ele perguntou calmamente, ignorando o frio que parecia aumentar cada vez mais. A pianista fez uma pausa e balançou a cabeça, concordando. - O que aconteceu? Desde pequena, sempre foi o seu sonho tocar lá. Pensei que estivesse feliz.
- E estou!
- Então, qual o problema?
respirou fundo e soltou o ar lentamente. Estava tão frio, que era possível ver uma fumaça de vapor sair da boca da pianista.
- Elsie disse que depois do concerto de ano novo… toda a orquestra vai viajar em uma turnê. Será a primeira do ano e todo mundo parece bem animado. - As mãos da pianista tremiam dentro dos bolsos. Seu coração batia rápido. Ela olhou para o céu nublado e viu a primeira neve cair, então suspirou e acrescentou. - Ela quer que eu vá junto.
Surpreso, John arregalou os olhos. Naquele momento, nem mesmo ele sabia o que estava sentindo. O orgulho encheu seu peito ao mesmo tempo em que começava a se preocupar com a filha. Oras, uma turnê não era o mesmo que estudar fora, era?
- Para onde vão? - perguntou com voz calma, afagando o braço da filha.
- América do Sul.
- Uau! E por quanto tempo ficarão por lá?
- Isso ela não me disse.
A neve continuava a cair como uma fraca garoa. Apesar da congelante brisa que os atingia, ambos continuaram sentados e abraçados do lado de fora de casa. John agora entendia o porquê a filha se rendia ao frio, imersa nos próprios pensamentos para tomar uma única decisão que a levaria para longe, muito longe.
- Do que está com medo, querida? - ele perguntou. deitou a cabeça no ombro do pai.
- Acho que… deixar tudo para trás e não saber quando vou voltar. Eu quero muito ir, mas não tenho medo de não ser aquilo que esperava. - A pianista soltou uma risada fraca e abaixou a voz, falando quase num sussurro, como se contasse um segredo. - Também tenho medo de dar as costas e parecer que estou fugindo.
- Fugindo? Ainda estamos falando sobre a Orquestra? - John estreitou os olhos, sem entender. Então deu uma risada fraca e beijou o topo da cabeça da filha. - Querida, você ainda tem tempo para pensar nessa turnê. Por ora, não se preocupe com isso agora, mas não deixe essa oportunidade de lado por medo de “deixar tudo para trás”. Você sempre pode voltar e além do mais, você é jovem, garota! Pode errar quantas vezes você quiser, mesmo que doa por um momento. Chances para consertar é que não vão faltar, e eu vou estar aqui pra te apoiar!
O homem de 50 anos a abraçou ainda mais forte, como se mostrasse claramente que ele estava ali. Ouvir aquelas palavras, fez o corpo da pianista relaxar e o coração aquecer naquele imenso frio. Seu pai estava certo, afinal. sabia qual era a sua resposta e tudo o que ela precisava era dizer "sim", para o seu futuro na música e também ao que sentia.
- Obrigada, pai! - ela devolveu o abraço com um largo sorriso e beijou sua bochecha. A pele dele estava gelada e o cabelo grisalho tinha alguns flocos de neve. - Vamos entrar. Desculpa por te segurar aqui fora comigo. - Ela riu.
- Algum dia você e ainda vão me matar! - ele disse com um sorriso brincalhão, mas logo substituiu por um sorriso amigável. - Você está bem agora? - perguntou.
assentiu e, após um suspiro, pediu:
- Pode guardar segredo? Pelo menos, por agora. - John passou o dedo na boca, como se fechasse um zíper, fazendo a pianista rir.
Mais tarde, em seu quarto, a garota sentou na frente do piano digital e encarou o celular em cima da escrivaninha com algumas partituras espalhadas sobre o móvel. Ela respirou fundo e contou até quatro mentalmente, como se contasse o andamento de uma música. “1, 2, 3, 4…”. Então, com o coração acelerado, pegou o aparelho.

***


- Message keeps getting clearer - cantava baixinho, com as mãos nos bolsos da calça jeans, enquanto caminhava ao lado de na rua. e já haviam ido para suas casas.
A lua e os postes de luz iluminavam o caminho dos dois amigos. Ambos estavam quietos até demais. O único som que podiam ouvir era das pegadas que deixavam na neve que cobria a calçada e a melodia de “Dancing in the Dark” de Bruce Springsteen que o guitarrista cantarolava. Estava uma situação um tanto quanto estranha. Pareciam dois completos desconhecidos que foram colocados juntos de repente, mas não sabiam como puxar uma conversa.
não conseguia parar de pensar na banda e nas coisas que Bia o falou alguns dias atrás. Aquela voz irritante o torturou por várias noites dizendo “ela vai embora” ou “não vai fazer nada, covarde?”, mesmo que a ruiva, na verdade, nunca tivesse dito. Já , ele segurava dentro de si a vontade de colocar o amigo contra a parede e forçá-lo a contar toda a verdade que ele sabia que estava escondendo. Acordar todos os dias e ver e conversarem naturalmente o deixava intrigado, assim como também o tirava do sério ao pensar que duas pessoas especiais para ele, na verdade, o faziam de idiota. Aquilo, na verdade, estava o irritando tanto quanto sua briga com Matthew.
Incomodado com o silêncio, tomou coragem e disse de repente:
- Acho que as pessoas vão gostar das músicas que escolhemos. Quem sabe não chamam a gente pra tocar de novo? - perguntou com uma risada forçada.
- É… quem sabe. - concordou com desinteresse, ainda absorto sobre seus pensamentos. suspirou e começou a assoviar outra música qualquer, percebendo que o clima não estava tão bom para conversas.
Quando os dois garotos viraram a esquina, próximo à casa de , o guitarrista sentiu seu bolso vibrar. Sem demora, pegou o celular. Seus olhos se arregalaram como se visse algo realmente espantoso. No entanto, não era nada menos que uma simples mensagem:
“Preciso falar com você. Pode vir ao meu quarto hoje à noite, quando todos forem dormir? Vou te esperar…”
- O que foi? Por que parou? - perguntou ao perceber que o amigo ficou para trás. piscou algumas vezes, guardou rapidamente o celular de volta no bolso e andou a passos apressados até .
- Não foi nada. Só uma mensagem do meu pai.

Continua...


Nota da autora: Sem nota.


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