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Última atualização: 06/03/2021

Prólogo

estava em êxtase.
Pela primeira vez, depois de tantos anos investido seu tempo e dinheiro em sua carreira musical, tudo parecia estar caminhando para o lugar onde ele sempre quis estar desde que havia aprendido a tocar sua primeira música na guitarra: The Orpheum Theatre.
Ele encarava o palco vazio enquanto as pessoas da staff terminavam os últimos detalhes para o show que ocorreria dali duas horas. Duas horas para que o seu maior sonho acontecesse e ele finalmente provasse para os seus pais que sua carreira musical teria um futuro e que nada havia sido em vão.
— Finalmente, huh? – ‘ cutucou sua costela com o cotovelo, tirando sua atenção do palco iluminado onde seus instrumentos se encontravam.
— Eu ainda não consigo acreditar que daqui duas horas nós vamos estar em cima daquele palco, é inacreditável. – ele sorriu, encarando os três melhores amigos.
— Nós trabalhamos duro para que isso acontecesse, cara. – murmurou. – Mas agora, eu estou morrendo de fome, será que podemos comer algo?
— Eu vou ficar por aqui para me certificar de que tudo vai dar certo, sim? – Bobby sorriu, abraçando os colegas de banda. – Me tragam algo sem carne.
— Você comeu um hamburguer hoje de manhã, cara. – franziu o cenho, soltando uma risadinha quando o guitarrista fez uma cara feia. – Ok, ok, você quem sabe. – levantou as mãos em rendição.
Ele pegou sua mochila, que repousava em cima da pequena banqueta em que eles se encontravam, colocando-a sobre seus ombros enquanto ele andava em direção à porta dos fundos do Orpheum. Puxou as chaves do chevette em que havia morado por alguns meses, abrindo a porta e jogando seus pertences no banco traseiro, esperando que e entrassem no veículo. Quando o fizeram, ele apenas se sentou no banco estofado e ligou a chave na ignição, tomando a Boulevard Street em direção à Domino’s da Sunset Boulevard.
O que aconteceu em seguida foi tão rápido que não conseguiu acompanhar ou processar a tempo. Tudo havia se tornado um borrão. Barulhos de sirenes e buzinas. E a sensação de algo empapado em seu rosto antes que tudo ficasse preto.

TRAGÉDIA: BANDA PROMISSORA SE ENVOLVE EM ACIDENTE AUTOMOBILÍSTICO, RESULTANDO EM QUATRO MORTOS E TRÊS FERIDOS.

Capítulo Um - Me & Ur Ghost

Los Angeles, Califórnia
Três anos depois



Eu estava em pedaços.
Ainda não sabia sequer o porquê de ter insistido tanto em finalmente voltar para Los Angeles depois de tanto tempo longe do lugar que me trazia péssimas lembranças. O fato de eu estar lá apenas um mês depois do acidente que tirou a vida dos meus pais ainda não ajudava nesse quesito.
A realidade era que eu havia partido daquela cidade quando resolvi cursar música em Nova York cinco anos antes, deixando escorrer por água abaixo o relacionamento com meus pais. Meu pai odiava o fato de eu não ter escolhido algo melhor, e minha mãe... Ela apenas aceitou que sua filha seguiria as mesmas aspirações que ela um dia tanto sonhou. E, por um curto período, eu realmente fiz. Até receber a ligação que me faria voltar às pressas para LA e encarar meu irmão em prantos.
Eu preciso de ajuda para começar a limpar as coisas na antiga casa, a menos que você tenha interesse em ficar com ela. Você vem?
Foram as exatas palavras de Carlos quando o advogado leu o inventário que declarava que, agora, os imóveis que um dia foram de nossos pais, estavam em nossos nomes. Eu demorei um tempo considerável para finalmente lhe dar uma resposta, e, depois de um mês, eu estava parada em minha antiga casa, com um coração quebrado e uma terrível sensação de tristeza. Senti o celular vibrar em meu bolso e o peguei, ligando a tela somente para encontrar uma mensagem de Flynn.
“Quer um abraço?”

As palavras eram simples, sem muitos emojis como costumávamos fazer anos antes. Me permiti finalmente levantar meu olhar, encontrando a garota em uma distância razoável de mim. Balancei a cabeça positivamente, sendo envolvida pelos braços curtos de Flynn enquanto eu me permitia esconder o rosto em seus cabelos cacheados e volumosos, sentindo as lágrimas descerem por meus olhos.
Flynn era minha amiga desde o berçário. Ela foi a primeira garota a falar comigo enquanto eu brincava com um piano de brinquedo, e desde então, havíamos nos tornado inseparáveis. Chegamos até a montar uma banda durante a adolescência com Nick e Carrie, a Double Trouble, que só acabou porque eu tive que me mudar para Nova York. Nossa amizade, entretanto, nunca sequer enfraqueceu. Principalmente por ela me visitar pelo menos uma vez ao ano, por todos os anos, desde o primeiro momento.
— Você não está sozinha, tá? – ela sussurrou, acariciando meus cabelos com carinho. – Eu estou aqui.
— Eu não pude me despedir, Flynn. – fechei os olhos. – Eu ao menos consegui consertar as coisas entre nós.
— Eu sinto muito, . – ela me apertou com mais força, como se aquilo fosse fazer com que todos os sentimentos ruins escorressem por meu corpo. – Você tem certeza de que está preparada para isso?
— Carlos está com a titia, acho que eles não conseguem lidar com isso agora. – limpei as lagrimas insistentes de minha bochecha.
— Você quer que eu vá com você? – Flynn arqueou uma sobrancelha e eu apenas balancei a cabeça em negativa.
— Isso é algo que eu tenho que fazer sozinha. – suspirei, encarando a entrada da casa. – Eu vou até a sua casa depois, ok?
— Se precisar de algo, você pode me chamar. – minha melhor amiga apertou meus ombros, me dando um sorriso tranquilizador antes de dar suas costas para mim e andar em direção à sua casa.
Respirei fundo e me virei em direção à casa onde havia passado boa parte da minha vida. Agora, sem meus pais ou meu irmão, a casa apenas parecia mórbida. Respirei fundo e andei em direção à porta de entrada da casa, procurando as chaves que havia pego horas mais cedo em meus bolsos. Não tardou para que eu as achasse, colocando-as na fechadura e girando-a, finalmente entrando no imóvel. Os móveis se encontravam intocados e limpos, denunciando que titia havia passado por lá como o velho furacão de limpeza que ela costumava ser.
Subi as escadas em passos rápidos, entrando em meu antigo quarto somente para encontrá-lo do mesmo jeito que havia deixado anos atrás: cuidadosamente arrumado, com o antigo baú de roupas de minha mãe descansando em frente à minha cama cheia de travesseiros e ursinhos de pelúcia. Me aproximei do closet, parando em frente da pequena prateleira onde minha caixinha dos sonhos ficava. A pequena caixa branca com diversos desenhos costumava ser meu pequeno segredo, o lugar onde eu guardava todos os sentimentos e composições. Me sentei na cama, abrindo a caixinha cuidadosamente para ler as letras e anotações que se encontravam ali. Pequenas lembranças de uma realidade distante onde eu ainda conseguia compor músicas e tocá-las. Uma realidade onde meu hiato já não perdurava pelos últimos dois anos.
— Você não estaria orgulhosa de si mesma, do passado. – balancei minha cabeça negativamente, fechando a caixinha e me levantando da cama, ao menos me preocupando em voltar a caixa no lugar.
Desci as escadarias mais uma vez, franzindo o cenho ao perceber as persianas abertas na sala. Dei de ombros, desenhando meu caminho pela cozinha onde a porta para o antigo estúdio de minha mãe se encontrava. Destranquei-a, parando em frente à porta de madeira, hesitante. Havia mais lembranças naquele estúdio do que em qualquer outro lugar naquela casa, o que repentinamente fazia com que eu me tornasse um poço de tristeza e nostalgia. Respirei fundo pelo o que parecia a décima vez naquele dia, pegando a chave de meus bolsos para destrancar o cadeado que impedia a porta de ser aberta. Deslizei-a pelo trilho, abrindo somente o suficiente para que eu passasse sem dificuldade.
O estúdio só não se encontrava do mesmo jeito que anos atrás devido à uma quantidade considerável de pôsteres colados na parede. Bandas como Nirvana, All Time Low, Breaking Benjamin e Linkin Park tomavam conta das paredes. Um piano descansava nos fundos do cômodo, um sofá de couro preto se encontrava no canto esquerdo de frente à uma pequena mesa de centro. O set de bateria montado no lado contrário do estúdio e alguns instrumentos musicais, junto de caixas amplificadoras, estavam intocados. Quase como se não tivessem visto um bom afinador durante anos.
Desenhei meu caminho em direção ao piano, coloquei a caixinha em cima da tampa superior, sentando-me em frente a ele. Levantei a tampa do teclado, tocando algumas notas aleatoriamente, tentando me lembrar da sensação de liberdade que há muito não conseguia sentir ao sentar-me em frente à um piano. Balancei a cabeça negativamente, me levantando para subir até o andar de cima do estúdio. Algumas sacolas e mochilas estavam espalhadas de forma desorganizada ali. Me permiti mexer nos objetos, achando algumas camisetas e uma pequena caixinha branca com os dizeres “Sunset Curve”.
Franzi o cenho, descendo as escadas até o tocador de CD’s que descasava próximo do sofá de couro. Liguei-o na tomada e abri a caixa do CD, colocando o pequeno disco branco dentro do tocador e apertando um botão para que ele começasse a tocar. Um conjunto de acordes começou a tocar, logo sendo acompanhado por um som de bateria que logo preencheu o cômodo.
Decolando, última parada! Contagem regressiva até explodirmos o teto, mete a cara, força total, uma marreta elétrica no coração.
Eu balançava a cabeça divertidamente à medida em que a música contagiante explodia o ambiente que há muito havia se tornado monótono. A voz dos vocalistas em perfeita harmonia, me fazia balançar a cabeça com diversão, algo que eu não sentia em eras.
— É uma música bem legal, se quer saber. – escutei uma voz gritando.
— QUE MERDA? – gritei, quando três garotos me encaravam com curiosidade. – Quem são vocês? – apertei o botão para que o rádio parasse de tocar.
Os três rapazes eram lindos, isso era algo que eu não poderia ao menos negar. Um deles vestia roupas pretas dos pés à cabeça, com exceção da camisa branca por baixo de uma jaqueta de couro, em plenos trinta graus do verão californiano. O do meio, também o mais alto, vestia um moletom rosa por baixo de uma jaqueta jeans e calças pretas, além de uma pochete em diagonal em seu peito. O último, usava um sobretudo jeans totalmente destruído, combinando com um colete, de gorro azul, calças pretas com rasgos nos joelhos e um par de vans. Seus cabelos eram muito parecidos com os de Zac Efron em High School Musical.
— Quem é você e o que você está fazendo no nosso estúdio? – o Zac Efron disse, arqueando uma de suas sobrancelhas. – Isso é meio que um crime, sabe?
Vocês estão na minha casa. – franzi o cenho. – Como vocês entraram aqui, de qualquer forma?
— O quê? – o garoto de jaqueta de couro indagou. – Nós sempre estivemos aqui.
— Não, não estavam. – me movimentei lentamente em direção ao piano, arrastando minha mão em direção à caixinha que repousava em cima da tampa.
— Ela sabe que a gente consegue ver ela se mexendo, né? – o loiro de moletom rosa sussurrou para o Zac Efron ao seu lado.
— Eu vou perguntar uma vez: quem são vocês e o que estão fazendo no estúdio da minha mãe? – indaguei, franzindo o cenho.
— Olha... seja lá qual for o seu nome. – Zac suspirou, me encarando com seus grandes olhos verdes. – Nós estávamos dormindo e você simplesmente invadiu a nossa casa, então você poderia, por favor, sair?
. – corrigi. – Olha, eu realmente não estou com paciência para lidar com isso, então, se vocês puderem simplesmente pegar essa ideia maluca e sair, eu ficaria extremamente grata. – cruzei os braços – A porta é ali.
— Reunião da banda? – o mais alto sugeriu, fazendo com que eles assentissem positivamente antes que eles se afastassem e formassem um círculo, debatendo algo de forma inaudível. Não levaram muito tempo conversando antes que o loiro se virasse em minha direção novamente. – Olha, Julien...
— É . – pontuei.
— Certo, . – ele sorriu. – Olha, eu sou . – ele apontou para si mesmo, soando como se estivesse falando com uma criança de cinco anos. – Esses são . – apontou para o de jaqueta de couro, que acenou com a mão. – E . – apontou para o Zac Efron. – Nós moramos aqui pelos últimos quatro anos e essa noite nós temos um show muito importante que precisamos ensaiar. É meio que o show das nossa vidas, então se você pudesse sair, eu ficaria imensamente grato.
—Isso é impossível. – ri, balançando a cabeça. – A casa está vazia faz três anos, não existe a possibilidade de isso ter acontecido.
— Nós podemos ligar para Ray, ele é o proprietário. – se aproximou e suas palavras acertaram meu peito como uma facada.
— Eu sou a filha dele, ele morreu tem um mês. – cruzei os braços, tentando não chorar.
— Isso é impossível, nós falamos com ele ontem e isso não poderia ter acontecido a menos que... – o que se chamava se intrometeu, apontando antes de ficar em completo silêncio. – Não tivesse sido um sonho.
— Não, isso não pode ter acontecido. – Reggiu riu. – Eu sonhei que tínhamos sofrido um acidente e então tudo mudou e nós ficamos naquele quarto onde o chorou.
— Eu não chorei. – o loiro se defendeu. - Você tem um telefone? – pediu, eu apenas assenti e retirei o aparelho do meu bolso.
— Vocês precisam que eu chame um Uber?
— Não. – negou. – Preciso que você pesquise por Sunset Curve no Google. – franzi o cenho. – Você poderia fazer isso, por favor?
— Se vai fazer com que vocês saiam mais cedo, tudo bem por mim. – desbloqueei a tela do aparelho, entrando no aplicativo para pesquisar pelo nome da banda. – Sunset Swerve?
— Sunset CURVE! – eles gritaram em uníssono, me assustando.
— Ok, ok. – levantei as mãos em rendição. – Sunset Curve, ok, entendi. – pesquisei pelo nome da banda, esperando os resultados no Google. Não tardou muito para que eles chegassem. Eu só não contava com o tipo de coisa que encontraria. – Não. Vocês têm certeza que esse é o nome da banda? Todas as manchetes dizem que essa banda se envolveu em um acidente de carro três anos atrás, que resultou em quatro mortos e três gravemente feridos no cruzamento entre a Sunset Boulevard, Figeroa Street e a Avenida Cesar Estrada.
— Claro que temos, não existe a possibilidade de não ser. – murmurou. – Não era um sonho.
— O acidente realmente aconteceu. – olhou para o chão. – Eu estou...
— Nós três estamos mortos. – balançou a cabeça. – E EU CHOREI POR TRÊS ANOS EM UM QUARTO? COMO ISSO É POSSÍVEL?
— Eu estou ficando maluca. – eu ri, nervosa. – Isso definitivamente deve ser uma alucinação causada por cansaço e luto, eu realmente estou alucinando. Não existe nada parecido com fantasmas bonitinhos, eu definitivamente estou ficando maluca. – me virei, fechando os olhos. – Eu vou fechar meus olhos e tudo isso vai sumir.
— Ela acha a gente bonitinho. – soou em meus ouvidos, me fazendo virar em sua direção. – Você também é bem bonita, obrigado. – ele sorriu.
— Eu não tenho como lidar com isso agora, definitivamente. – bufei, correndo porta a fora, sem ao menos dar atenção aos três garotos no estúdio.
— Wow, wow, wow! – Flynn gritou quando eu trombei contra seu ombro. – O que aconteceu? – ela me encarou de cima à baixo. – Parece até que você viu um fantasma.
— É, eu meio que vi. – ri nervosa. – O que você tá fazendo aqui? Achei que iria me esperar na sua casa.
— Imaginei que estivesse com fome e que as coisas estivessem complicadas por aqui. – Flynn levantou as sacolas. – Eu trouxe sorvete também.
— O que seria da minha vida sem você? – balancei a cabeça, olhando para trás, suspirando aliviada quando não enxerguei nenhum dos meninos. – Podemos ir até a cozinha, vamos.
A chamei, andando em direção à cozinha com um dos meus braços apoiados sobre os seus ombros enquanto Flynn tagarelava sobre o quão feliz ela estava por eu ter voltado a Los Angeles e que faria o possível para que eu não me sentisse sozinha durante o processo.
— Então, o que você pretende fazer agora que a casa é sua? – Flynn indagou, enquanto eu puxava uma das banquetas para me sentar. – Quero dizer, por piores que sejam, existem muitas memórias aqui.
— Sim. – encarei meu prato com os hambúrgueres intocados. – Eu ainda não sei, as coisas com meus pais não foram realmente resolvidas e eu sinto que se eu me livrar de tudo, vou estar apenas jogando tudo para baixo do tapete.
— Eu compreendo. – Flynn sorriu de canto. – Acho que é uma forma de ficar próxima deles, não é?
— Também, acho que devo isso a eles depois de tudo o que aconteceu entre a gente. – peguei um dos hambúrgueres, dando uma mordida. – Além disso, eu estava pensando em voltar para Los Angeles de vez.
— O quê? – minha melhor amiga sorriu. – E sua carreira em Nova York? Você não tinha meio que uma vida lá?
— É, sobre isso... – eu ri fraco. – Eu tenho estado em hiato por dois anos, como você bem sabe, então acho que preciso ficar um tempo afastada até conseguir voltar tudo nos trilhos.
— Sair de uma grande cidade para vir até o epicentro da arte nos Estados Unidos? Entendi. – ela foi irônica.
— Eu só estou tentando me encontrar de novo, entende? Muita coisa aconteceu durante esses cinco anos e eu sinto que não me reconheço mais. Além disso, Carlos está no último ano do colégio e eu não acho que ele vai querer ficar com a titia.
— Realmente, minha melhor amiga nunca ficaria mais que uma semana tocar. – Flynn levantou os braços. – Entendo que as circunstâncias sejam péssimas, mas eu fico feliz por você ter tomado uma iniciativa ao invés de fugir, estamos crescidas afinal.
— Eu sei, não é? – ri fraco, balançando a cabeça. – Eu vou precisar de uma ajuda para conseguir organizar tudo aqui, você acredita que eles nunca mexeram no meu quarto? Tudo está lá, do jeitinho que deixei.
— E o estúdio? – senti meus pelos se eriçarem. – Eles alugaram para uma banda alguns anos atrás, eles sofreram um acidente e os pais deles nunca vieram recolher as coisas, imagino que deva estar uma bagunça.
— É, quanto a isso... – murmurei, dando um gole em meu chá gelado. – Por incrível que pareça, está tudo bem organizado, o piano continua lá e tem alguns outros instrumentos também, acho que conseguiríamos fazer algo com aquilo.
— Você está pensando em vender tudo?
— Estava pensando em juntar os membros da Double Trouble de novo, na real. – ri fraco, dando mais um mordida no hambúrguer. – Quero dizer, faz um tempo que nós não tocamos juntos e acho que seria legal.
— É... Exceto que Carrie já não é uma figura presente na minha vida desde que você se mudou. – Flynn desviou seu olhar, encarando o próprio copo com refrigerante. – Nós meio que brigamos e a Double Trouble acabou, ela falou algumas coisas horríveis e eu não consegui ficar quieta.
— Como assim?
— Algo sobre você nunca ter gostado se importado de verdade com a DT. Também disse que se você se importasse, nunca teria nos deixado, em primeiro lugar. Honestamente? Eu achei que foi meio babaca, e sabendo de como as coisas aqui estavam terríveis, eu disse algumas coisas desagradáveis para ela.
— E Nick?
— Eles estão juntos. – Flynn riu. – Eles têm uma banda juntos, Dirty Candy. São os favoritos dos bares, as pessoas gostam bastante.
— Ao menos eles conseguiram o que sempre sonharam, fico feliz por eles. – dei de ombros, aquilo não era mentira. Carrie merecia seguir com seus sonhos.
— Ela só poderia ter continuado do mesmo jeito ao invés de deixar a fama subir pela cabeça a ponto de soar como uma pessoa egocêntrica sempre que tenta ter um diálogo com alguém.
— Eu não falo com ela desde que me mudei, ela meio que sumiu totalmente e me ignorava quando eu tentava falar com ela e explicar as coisas. – dei de ombros. – Acho que posso tentar ir até a mansão dela depois. – me levantei, desenhando meu caminho até a porta da geladeira para pegar os dois potes de Ben & Jerry’s do congelador e lançar um para Flynn. Senti meu celular vibrar em meu bolso e franzi o cenho, tirando-o de meu bolso para ler a mensagem na tela. – Tia disse que vai passar aqui para deixar minhas malas e Carlos daqui a pouco.
— Ela aprendeu a enviar mensagens de texto antes de simplesmente aparecer? Agora, isso é o que eu chamo de evolução. – riu, abrindo o pote de sorvete enquanto eu pegava duas colheres na gaveta ao lado da geladeira, voltando a me sentar em frente à Flynn. – Valeu. – pegou uma das colheres.
— Realmente, isso é algo que eu nunca sequer imaginei que seria possível. – balancei minha cabeça, tirando a tampa do potinho para pegar uma colherada generosa. – Mas, ela disse que já estava a caminho daqui, então não foi uma mudança tão drástica.
— Voltamos aos velhos hábitos, não é?
— Acho que é uma forma de ver isso. – ri fraco, olhando em direção à porta quando Tia Victoria passou pela porta com minhas malas e Carlos ao seu lado. – Oi, tia! Você deveria ter me dito que estava aqui, eu teria saído para te ajudar. – deixei o sorvete na mesa, andando em direção à mulher para abraçá-la. – Carlos.
Sorri de canto em direção ao meu irmão. O garotinho que antes chegava em meus ombros, agora estava cerca de uma cabeça mais alto que eu. Seus cabelos ainda escuros caiam por seu rosto de forma bagunçada em leves ondas, denunciando a falta de corte. Deus, como eu havia sentido falta dele.
— Vem cá, sua maluca. – ele riu, abrindo seus braços e andando em minha direção, me envolvendo com seus braços com força. – É tão bom te ver aqui de novo.
— É ótimo te ver também. – ri fraco, me distanciando. – Tia, obrigado por cuidar dele durante esse tempo. – sorri de canto, encarando meu irmão quando ele parou ao meu lado com um de seus braços em meus ombros.
— Não precisa agradecer, mija. – sorriu. – Você vai precisar de ajuda para fazer a limpeza da casa?
— É, sobre isso... – suspirei, coçando minha nuca. – Eu vou ficar em Los Angeles por um tempo indeterminado e eu pretendo ficar aqui. – sorri fraco. – São muitas lembranças para simplesmente jogar fora, então eu resolvi ficar com a casa e tudo o que tem nela.
— Oh... Você decidiu? – minha tia sorriu. – É ótimo saber disso, , assim posso ficar mais próxima de vocês e continuar te ajudando com Carlos. – ela sorriu animada e eu senti Carlos apertando levemente meu ombro em um pedido de socorro.
— Você não precisa se preocupar, tia, eu consigo lidar com isso sozinha. – dei meu melhor sorriso confiante. – Além do mais, você passou boa parte da sua vida cuidando da gente, você precisa viver também, sim? Por favor, não se preocupe. Eu sou uma adulta e consigo lidar com um adolescente.
— Eu insisto.
— Está tudo bem, tia, acredite. – sorri fraco. – Bom, eu vou levar minhas coisas até o quarto, fique à vontade.
Me separei de Carlos, puxando as malas de rodinha pelo hall de entrada em direção às escadarias de madeira que costumavam ranger sob o peso de meus pés sempre que eu as subia. Coloquei minha cabeça no portal da cozinha, chamando a atenção de Flynn.
— Você poderia... – apontei com a cabeça para meu irmão e minha tia, que agora sentavam-se na sala.
— Claro, me agradeça depois. – me deu uma piscadinha, jogando o pote de sorvete vazio no lixo antes de ir em direção à sala.
Peguei as malas pelas alças laterais, e com certa dificuldade, comecei a subir as escadas. Demorei um bom tempo para finalmente deixar as três malas, necessitando de três viagens para fazê-lo. Limpei as gotas de suor que se acumularam em minha testa, subindo a alça das malas para puxá-las em direção ao meu antigo quarto. Abri a porta e aos poucos fui colocando-as dentro do cômodo, fechando a porta atrás de mim antes de finalmente me virar para o resto do quarto.
— AAAAAAAAH!! ¬— gritei, sentindo meu coração disparar devido ao susto enquanto as três figuras espalhadas pelo quarto me encaravam. – Que droga! O que vocês estão fazendo aqui?
, está tudo bem? – escutei titia gritar do andar debaixo. – Ouvimos você gritar. – apontei para os garotos antes que eles respondessem, abrindo porta somente para que ela me escutasse.
— Está tudo bem, tia, eu só pensei ter visto uma aranha. – menti.
Ok. – ela respondeu, esperei mais alguns segundos para uma possível resposta, e, quando ela não veio, fechei a porta.
— O que vocês estão fazendo no meu quarto.
— Nós ficamos lá embaixo esperando você voltar, quando isso não aconteceu, nós resolvemos te procurar. – sorriu, mexendo em minha penteadeira. – Ei, eu consegui pegar! – ele pegou um porta-retrato entre os dedos indicadores, andando lentamente até a cama antes que ele caísse no colchão. – E eu derrubei.
— Sério mesmo? – grunhi, andando em direção à cama, o que fez com que se virasse para me encarar. – Vocês poderiam não mexer nas minhas coisas? – peguei o pequeno quadrinho, voltando-o no lugar de origem. – É realmente rude.
— Nós viemos porque você esqueceu isso aqui. – apontou em direção à caixinha branca que repousava em uma das prateleiras. – O que é isso, afinal?
— Nada que realmente importe, já que vocês vão sair daqui. – sorri, irônica, apontando para a porta.
— Agora eu quero saber o que tem nessa caixa, você instigou minha curiosidade. – fez um biquinho, o que teria sido adorável se eu não estivesse zangada.
Agora. – disse séria.
— Sim, senhora. – o loiro desapareceu no ar.
— Não precisa pedir duas vezes. – seguiu o outro, deixando somente no quarto.
— O que você ainda está fazendo aqui?
— Rude. – ele deu uma risadinha antes de sumir no ar.
Balancei a cabeça negativamente, passando a mão por meu rosto enquanto puxava as malas para o outro canto do quarto. Me joguei na cama fofa e fechei meus olhos, rezando para que tudo aquilo fosse uma alucinação de uma mente cansada.

Capítulo Dois - Músicas Sobre Você

“Eu não quero escrever músicas sobre você; mas você aparece em tudo o que eu faço.”
Song About You, Mike Posner


Minha noite de sono havia sido conturbada. Os pesadelos em relação à perda de meus pais me assombravam, e a possibilidade de ter seres não-corpóreos morando no estúdio de minha mãe não me deixavam melhor. Cocei meus olhos mais uma vez, encarando o teto branco de meu quarto. Aquele lugar já não soava como casa havia muito tempo e mesmo assim eu insistia em me torturar um pouquinho mais.
— Porque perder sua inspiração musical não era o suficiente para você, não é?
Indaguei para nenhum lugar em especial, me levantando da cama e me permitindo começar a dar um jeito em minha vida. Prendi meus cachos em um coque bagunçado no topo de minha cabeça, focando na tarefa de começar a arrumar minha cama. Primeiro lençóis, edredons, travesseiros e, por último, os ursinhos de pelúcia que minha mãe insistia em me dar através dos anos.
Encarei as malas e decidi começar a arrumar as peças dentro do closet, uma vez que as antigas peças já haviam sido removidas do espaço havia um tempo. Puxei-as e as coloquei em cima da cama, abrindo-as para retirar as peças e pendurá-las ali.
Após longas horas dividindo cada uma das peças por cor, o trabalho de me habituar a minha nova rotina finalmente havia acabado. As roupas e sapatos já estavam devidamente arrumadas em seus lugares, me permitindo tirar um tempo para tomar um banho antes de encarar a realidade do estúdio.
Peguei a necessaire com meus produtos de higiene, levando-os junto comigo em direção ao banheiro no fim do corredor. Meus passos ecoando contra o piso amadeirado, causando uma pequena sensação de nostalgia quando finalmente cheguei até meu destino. Girei a maçaneta do cômodo, adentrando-o e trancando a porta atrás de mim. Apoiei a necessaire na pia de granito, aos poucos tirando os objetos de dentro dela e os ordenando em seus devidos lugares para que eu finalmente pudesse tomar meu banho. Girei o registro, me despindo e permitindo ficar um bom tempo embaixo da água corrente.
Ao finalmente terminar meu banho, parei diante do espelho e me encarei por algum tempo. Meu rosto mais duro comparado ao da adolescente de quinze anos que amava passar um bom tempo de admirando. Ri fraco com o pensamento, penteando meus cabelos e os modelando como costumava fazer anos antes. Amarrei a toalha ao redor de meu corpo e sai do banheiro, redesenhando o caminho em direção ao meu quarto, entrando no cômodo e fechando a porta atrás de mim.
Ei, , eu...
— QUE MERDA? – gritei, pulando devido ao susto da figura no canto oposto de meu quarto, segurando com mais força a toalha em meu corpo. – Deus, não é possível! – peguei a cruz que estava pendurada na parede ao meu lado e estiquei meu braço. – Sai, agora!
— Wow, wow, wow. – ergueu os braços, pulando os móveis em seu caminho para sair de perto da cruz. – Será que você pode parar por um segundo?
— Será que você pode parar de invadir o meu quarto quando eu não estou nele? – indaguei, parando na sua frente com a cruz ainda levantada, tendo somente a cama de casal entre nós. – Sério, qual é o problema de vocês com espaço pessoal? Nós precisamos criar limites aqui.
— Olha, eu precisava falar com você sobre a caixa. – ele sorriu, nervoso, pegando a caixinha branca de cima da prateleira. – Olha que maneiro, eu consigo segurar sem derrubar agora.
— Minha caixa! – soltei a cruz em cima da cama, andando em direção ao fantasma para pegar a caixinha de madeira de suas mãos. – Pare de mexer em coisas que não são suas. – censurei.
— Ah, qual é! – fez uma careta, se jogando na cama. – O que tem dentro dela?
— Minhas coisas, longe do que te desrespeita. – sorri, irônica, colocando a caixa de madeira na prateleira em que ela se encontrava antes. – Agora anda, sai do meu quarto.
— Minha curiosidade não pode ser atiçada dessa forma. – ele se levantou, encarando o objeto. – O que tem na caixa, ?
— Deus! – resmunguei, passando a mão por meu rosto. – É minha caixa de sonhos, tá legal? Eu costumava guardar pensamentos aleatórios e coisas que eu gostaria de tirar de dentro de mim quando mais jovem, hoje em dia é só um amontoado de coisas que me deixam triste. Agora, por favor, sai do meu quarto.
— Eu sinto muito, . – ele sorriu de canto, sumindo em pequenas partículas brilhantes poucos segundos depois.
Balancei minha cabeça negativamente, andando em direção ao closet para escolher algumas peças de roupas que não me fizessem derreter embaixo do sol do verão californiano. Troquei a toalha pelas peças de roupa, parando em frente da penteadeira por mais algum tempo para avaliar meu cabelo. Quando me dei por satisfeita, me arrastei em direção à mesa de cabeceira onde meu celular estava e o puxei, derrubando algumas folhas de papel no meio do processo.
Franzi o cenho, me esticando em direção ao chão para pegar as folhas bagunçadas no chão. Me sentei na cama, arrumando as folhas pautadas para avaliar o que estava escrito nelas. A letra caprichada de minha mãe se destacando nas partituras de uma das últimas músicas que ela havia escrito antes de falecer. Estiquei-as em cima da cama, lendo o pequeno recado que ela havia deixado ao fim de uma das páginas.
, você pode fazer isso, sentimos sua falta. – fechei meus olhos, sentindo-os queimarem com as insistentes lágrimas. – Eu sinto tanto a sua falta, mãe. – encarei o teto, como se isso fosse capaz de fazê-la me escutar. – Eu sinto muito por não estar aqui todo esse tempo.
Voltei a olhar para as partituras em minha frente, sentindo cada pedacinho de mim se despedaçar com cada uma das palavras que formavam aquela música. Engoli em seco, colocando o celular em meu bolso antes de pegar as letras e marchar determinada para fora do quarto, sendo parada por Carlos no meio do caminho.
? Tá tudo bem? – ele me encarou. – Por que você tá chorando?
— Nada. – sorri em sua direção quando ele deu um passo para frente, envolvendo-me em seus braços.
— Eu sei que é difícil, tá? Também perdi eles, você não precisa se fazer de forte para mim. – Carlos acariciou meus cabelos, segurando meus ombros para me encarar. – Obrigado por voltar mesmo assim.
— Irmãos cuidam um do outro. – sorri em sua direção, bagunçando seus cabelos com minha mão livre. – Eu vou para o estúdio, tá? Caso a Flynn apareça, você poderia avisá-la?
— Claro, vai lá. – Carlos deu de ombros, voltando a fazer o seu caminho em direção à sala de estar.
Arrumei as partituras em meus braços, focando-me em apenas não desistir no meio do caminho tortuoso em que estava seguindo. Mordi meu lábio com força, passando pela porta em direção ao estúdio, torcendo internamente para que os inquilinos dele não estivessem ali. Parei diante da porta de madeira e a puxei, encontrando o local totalmente vazio.
— Pessoal? Vocês estão aí? – franzi o cenho, esperando por uma resposta que não chegou. – Ok...
Dei de ombros, encostando a porta do estúdio e andando em direção ao piano ao centro dele. Respirei fundo, sentando-me no banquinho e distribuindo cuidadosamente as partituras de modo em que eu pudesse enxergá-las ao tocar. Fechei meus olhos, levantando a tampa que protegia as teclas, tomando coragem para fazer algo que, em dois anos, não havia me permitido fazer. Comecei a tocar as notas nas teclas, sentindo meus olhos arderem pelas lágrimas.
Aqui está uma coisa que eu quero que você saiba, você tem um lugar para ir… - comecei a cantar os versos da música, sentindo meu coração explodir em um misto de sensações assim como ele fazia em todas as vezes em que eu me deixava ser envolvida por toda a atmosfera musical em que eu era cercada. – Eu sei que não é a mesma coisa, você tem que viver e eu só quero que você faça isso... – abri meus olhos, encarando as letras em minha frente. – Então se levante e acenda novamente essa faísca, você sabe o resto de cor...
Senti os pelos de meu braço se eriçaram conforme eu me aproximava do refrão, a energia que havia tomado lugar no estúdio uma vez silencioso era quase tão visível como palpável. Senti as lagrimas escorregarem por minhas bochechas, me recusando a deixar que aquilo me afetasse de uma forma que não fosse combustível para que eu continuasse o que estava fazendo.
Acorde, acorde se é tudo o que você faz. – aumentei o tom de minha voz, cantando em plenos pulmões. – Olhe para fora, olhe para dentro de você, não é o que você perde, é o que você ganha erguendo sua voz para a chuva.... – fechei meus olhos, escutando a porta do estúdio se abrir para Flynn, que me encarava cantar com um sorriso em seu rosto enquanto corria em minha direção para se sentar ao meu lado e avaliar a letra. – Então acorde o espírito, eu quero escutá-lo, você não precisa ter medo, você não está sozinho...
Você vai encontrar o seu caminho de volta para casa. – Flynn me acompanhou no último verso, harmonizando sua voz com a minha enquanto nos encarávamos. – A vida não é o que você perdeu, é o que você ganha erguendo sua voz na chuva.
Acorde... – diminui aos poucos a velocidade das notas. – Acorde. – parei de tocar, sendo envolvida pelos braços de Flynn em um abraço apertado enquanto eu me acabava em lágrimas.
, isso foi lindo. – ela deitou sua cabeça em meu ombro. – Droga, eu acho que vou chorar. – riu fraco, se afastando de mim. – Eu senti ¬tanta falta de te ver assim e te ouvir cantando, eu estou tão orgulhosa.
— Todos os créditos vão para a minha mãe. – sorri de canto, encarando as partituras. – Ela quem fez essa, encontrei no meu quarto hoje.
— Rose era realmente uma compositora incrível, não é? – Flynn encarou as folhas. – Será que isso significa que você vai poder finalmente voltar a cantar? Quero dizer, você conseguiu fazer isso. – Flynn gesticulou para o ar. – Você deu luz ao estúdio com a sua voz, assim como você sempre faz.
— Eu ainda não sei, existe um grande abismo entre conseguir tocar algo da minha mãe e algo meu.
— Só o fato de você conseguir sentar aqui e tocar é um passo bem grande. – ela sorriu. – O que acha de assistirmos Grease com Carlos? Quem sabe assim você não se sente inspirada pela Sandy.
— Você realmente sabe como me convencer, não é? – balancei minha cabeça negativamente, me levantando de cima do banquinho para ser empurrada por Flynn pelo estúdio. – Mas eu acho que estou mais na vibe de Mamma Mia.
Mamma mia, lá vamos nós de novo!
Meu Deus, COMO EU PODERIA RESISTIR? ¬– me joguei contra Flynn, que me abraçou e segurou minha mão, soltando uma gargalhada enquanto pulávamos em direção à casa.
— Vocês realmente estão cantando Abba? – Carlos nos encarou, dando uma colherada no cereal em sua tigela.
Sim, eu estive de coração partido! – coloquei minhas mãos em meu peito, passando o microfone invisível em sua direção para que ele continuasse o trecho.
— Eu odeio vocês. – ele balançou a cabeça negativamente, deixando a tigela de lado para pegar o microfone invisível. – Desde o dia que você partiu. – ele cantou desafinado, pegando a minha mão e a de Flynn para que girássemos.
Meu Deus, como eu pude te deixar ir?
Flynn nos puxou em direção à sala, colocando pegando seu celular e digitando algo na tela poucos segundos antes de Abba explodir pelas caixas de som ao redor da sala, fazendo com que nós dançássemos pela sala da estar por longos minutos antes de nos jogarmos no sofá, completamente ofegantes e cansados.
— Lembra de como costumávamos fazer isso quando crianças? – Flynn me encarou com um sorriso. – Enquanto Carlos tinha toda aquela pira com fantasmas e dizia que iria se tornar um caça fantasmas. – sorri, nervosa com a menção de fantasmas.
— É, eu me lembro disso. – ri fraco, balançando a cabeça negativamente. – Isso tudo depois de assistir Os Caça Fantasmas.
— Eu fiquei com a música na minha cabeça por SEMANAS. – ele reiterou.
QUEM VOCÊ VAI CHAMAR? – Flynn me encarou, esperando pela resposta de Carlos, que veio em uníssono com outras três vozes.
OS CAÇA-FANTASMAS!¬– , e apareceram no sofá no lado oposto da sala.
— Eu amava esse filme! – sorriu. – Hey, , você acha que podemos assistir ele hoje?
— Cala a boca. – soltei um riso nervoso.
— O quê? – Flynn indagou, me encarando.
— Eu tive a impressão de escutar o Carlos falar algo, desculpa. – dei a minha melhor desculpa, sendo respondida com um dar de ombros.
— Ei, por que não nos disse que sabia cantar e tocar? – chamou minha atenção, respirei fundo antes de me levantar do sofá e encarar as duas únicas pessoas vivas, além de mim, presentes no cômodo.
— Vocês podem colocar o filme? Eu cuido da comida.
— Eu mataria por uma pizza. – encarou a própria barriga, sua expressão se igualando a de um filhotinho que havia caído da mudança. – Eu odeio estar morto.
— Tudo bem por mim. – Flynn sorriu, pegando o controle da TV. – Pipoca e doces? – encarou Carlos, que balançou a cabeça positivamente.
— Ótimo.
Sorri, nervosa, ajeitando meu celular em meu bolso antes de dar uma encarada nos três garotos em meu sofá, em uma súplica clara e silenciosa para que eles me acompanhassem até o cômodo. O que não foi difícil, considerando a habilidade que eles tinham de poder simplesmente aparecer no lugar que bem entendessem. Mesmo de forma indesejada.
— Vocês não podem simplesmente aparecer do nada quando tem pessoas ao redor, é estranho. – parei contra a bancada, puxando a pipoqueira de dentro do armário. – Sério, o que outras pessoas pensariam se três moleques simplesmente aparecessem magicamente no meio da sala delas?
— Que isso é demais? Eu acharia maneiríssimo. – sorriu, balançando os pés no ar e atravessando pela parede.
— Você poderia parar de chutar as minhas panelas, por favor? – encarei sua perna, o que fez com que ele parasse de mexê-la. – Obrigada. – sorri, procurando pelas pipocas para colocá-las no recipiente. – Vocês têm que parar com isso, é sério.
— Você não nos dá atenção, é muito triste termos que andar pelas ruas quando ninguém nos enxerga e você, a única pessoa que consegue fazer isso, apenas finge que a gente não existe. – fez uma carinha triste.
— Não liga para eles. – rolou os olhos. – Eles são inconvenientes assim mesmo.
— Disse o que também participou do diálogo. – coloquei as pipocas dentro da pipoqueira, procurando por recipientes onde pudesse colocá-las.
— Você ainda não respondeu minha pergunta. – levantou sua sobrancelha. – Por que não disse que cantava?
— Porque tem um tempo desde que fiz isso e eu já não queria manter esperanças em algo que poderia não acontecer mais. – dei de ombros. – Além disso, não é como se fizesse diferença na vida de vocês. – fiz uma careta. – Desculpe, falta de hábito em falar com pessoas que já não estão nesse plano.
— Não ofendeu. – balançou a mão.
— Bom, você tem um talento em tanto e não deveria desperdiçar isso. – se aproximou. – Você deveria ouvir os conselhos do morto, isso meio que nos faz os seus guias espirituais e tal.
— Guias espirituais musicais. – corrigiu, levantando o dedo em riste.
— Sim, vocês serão meus anjos protetores e vão subir nos palcos comigo. – coloquei o recipiente embaixo da saída da pipoca, observando-as cair dentro dele.
— Ela está sendo irônica, né? – olhou em direção à .
— Você tem sorte de ser um ótimo baixista. – o encarou, balançando a cabeça. – Eu vi algumas de suas composições, você é realmente muito boa, não deveria desperdiçar seu talento assim.
— Você fez o quê? – repeti, arqueando uma de suas sobrancelhas.
— Hora de sumir, boa sorte, . – puxou , sumindo no ar.
— Eu talvez tenha mexido na sua caixinha. – ele me deu o seu melhor sorriso, me deixando distraída por alguns segundos antes de eu me lembrar o que ele havia feito.
— Você mexeu nas minhas coisas? - pontuei pausadamente.
— Você atiçou a minha curiosidade e eu não consigo deixar isso de lado, tá legal?
, vai demorar? – Flynn me chamou.
— Não, eu já estou indo. – gritei – Você tem muita sorte de eu estar com outras pessoas, porque do contrário, eu estaria realizando um exorcismo agora. – apontei em sua direção, pegando alguns doces na dispensa e colocando-os em outro recipiente antes de desligar a pipoqueira e pegar as comidas. – Aliás, ?
— Sim?
— Chama o , vou pedir para colocarem Os Caça-Fantasmas. – rolei os olhos. – E, pela última vez, fica longe do meu quarto.
— Ok. – sorriu em minha direção, desaparecendo em um poof.
Peguei as diversas bandejas e as equilibrei entre meus braços com certa dificuldade, me esforçando para não deixar que elas caíssem no meio do processo entre chegar até a sala onde Carlos e Flynn discutiam de forma acalorada sobre qual filme iriam escolher para assistirmos. Distribui as bandejas na mesa de centro, encarando Flynn quando ela chamou minha atenção.
— Ok, qual é o filme que vamos assistir? Carlos disse que quer ver Os Caça Fantasmas e eu quero ver Grease, você desempata. Não me decepcione. – Flynn sorriu.
— Me desculpa, Flynn, eu definitivamente vou em Os Caça Fantasmas. – soltei um risinho divertido, me sentando ao lado de Flynn.
— Eu te odeio, vou acabar com a nossa amizade aqui. – ela reclamou, me fazendo rolar os olhos quando a cutuquei com meu cotovelo.
Carlos colocou o filme e não tardou muito para que os meninos se materializassem no sofá no lado oposto da sala, brincando e rindo enquanto a cena da biblioteca passava no tela de televisão. ria, cantando a música de introdução enquanto me encarava, sorrindo de canto em minha direção antes de voltar sua atenção para o filme.

Capítulo Três: Composições e a Vida Adulta

“A vida é um risco, mas eu vou corrê-lo.”

Bright


Eu havia passado a última hora encarando a câmera em minha frente, como se somente fazê-lo fosse suficiente para me ajudar a solucionar metade dos meus problemas. Respirei fundo mais uma vez, decidida em acabar com o hiato da mesma forma que havia feito no dia anterior. Ajustei a câmera no pequeno tripé da estante, virando o monitor dela para que eu conseguisse acertar o ângulo. Ao finalmente ficar satisfeita com a posição, liguei a câmera.
— Bom, já faz algum tempo desde que eu apareci por aqui... – sorri de canto, totalmente desacostumada a estar em frente à uma câmera novamente. – E por isso, eu peço desculpas. Principalmente por sumir do Youtube nos últimos dois anos, eu nunca planejei que isso durasse tanto tempo, mas acho que isso se deve ao motivo principal de eu ter começado esse canal: honestidade.
“Nos seis anos de canal, eu sempre mantive em minha mente que meu relacionamento com a música era, antes de qualquer coisa, para que vocês se sentissem acolhidos por meio das minhas letras. Para que vocês entendam que, não importa o que aconteça, vocês não estão sozinhos.
Nos últimos dois anos, eu não consegui compor nada que não fosse artificial, longe de todos os meus princípios. Por isso permaneci distante e não toquei nada pelos últimos anos.
Eu entrei em um momento da minha vida em que eu não me enxergava mais, eu precisava reencontrar a que havia se perdido dentro de mim. Foi necessário a perda dos meus pais para que eu entendesse o que eu deveria fazer. Então eu saí de Nova York e voltei para a minha cidade natal para conseguir fazer isso e, acho que aos poucos, eu estou conseguindo.
O motivo para esse vídeo é dizer que eu vou voltar com os vídeos e músicas, só preciso que vocês sejam pacientes comigo. Eu sei que é muito para pedir, considerando o tempo que não dei satisfação alguma, mas era necessário para que eu pudesse crescer.
Dito isso, eu gostaria de agradecer o carinho, a paciência e as mensagens que vocês enviaram durante esse tempo. Tudo isso permitiu que eu tivesse coragem o suficiente para me sentar nessa cadeira, no meu antigo quarto e dizer o que estava preso em meu peito.
Eu estou voltando pessoal.
Com amor,
.”
Sorri de canto, parando a gravação e puxando a câmera, sentando-me em minha escrivaninha para transferir o vídeo para meu notebook. Puxei a gaveta da escrivaninha e encarei meu pequeno caderninho de composições. Encarei a capa por alguns segundos antes de puxar uma caneta do pequeno potinho e escrever o título na parte superior da folha. Pensei em Flynn, que havia estado ao meu lado durante os piores momentos de minha vida e ainda estava lá por mim.
Se eu te deixar triste ou chateada, eu sei que vou pagar o almoço naquele dia.
Murmurei antes de começar a passar as palavras para o papel. Já fazia bons anos desde que eu havia escrito algo e a sensação de estar finalmente inspirada enchia meu peito de satisfação. As horas correram mais rápido do que eu pensava e quando finalmente terminei a composição, arranquei a folha do caderno e me levantei, indo em direção à caixinha de sonhos e guardando-a ali, sendo inundada pela sensação de nostalgia que aquele pequeno ato havia me trazido.
Voltei a me sentar em frente ao notebook, finalmente tomando meu tempo para subir o vídeo em meu canal do youtube que já se encontrava obsoleto, tamanho o tempo sem qualquer atualização. Cliquei no botão para enviar e respirei fundo, aguardando uma possível enxurrada de perguntas no dia seguinte. Mas ao menos tive tempo de pensar nisso quando o som de uma bateria sendo acompanhada de uma guitarra e baixo invadiram meus ouvidos, mesmo à distância.
Respirei fundo e sai do meu quarto rápido o suficiente para que não causasse suspeitas, descendo as escadas pulando de dois em dois degraus. Carlos esticou o pescoço em minha direção, deixando de lado o exemplar de O Grande Gatsby descansar em seu peito.
— Você está indo para o estúdio? – indagou, arqueando uma das sobrancelhas. – Porque se estiver, acho que você esqueceu o rádio ligado.
— É, eu acho que devo ter esquecido. – dei meu melhor sorriso amarelo, engolindo em seco. – Eu vou até lá... Hum... Desligar o rádio, sim?
— Certo... – ele me encarou com uma expressão estranha antes de voltar sua atenção para o livro. – Continue sendo esquisita assim, já estava estranhando.
— Babaca.
— Estranha.
Rolei meus olhos antes de finalmente me virar em direção à cozinha, saindo porta a fora em direção ao estúdio, já escutando o som instrumental mais nitidamente. Os garotos eram realmente bons, apesar de mortos. Puxei a porta do estúdio, adentrando o cômodo para enxergá-los tocando alegremente e, de certa forma, me senti um pouco mal por ter que interrompê-los.
— PESSOAL! – gritei, tentando chamar a atenção deles, o que claramente não funcionou. – Pessoal, PAREM DE TOCAR! – balancei meus braços, o que fez com que eles parassem de tocar. – Deus, vocês estão malucos? Onde estavam com a cabeça de tocar em um volume tão alto?
— Nós estamos mortos, ninguém nos escutaria senão você. – sorriu, o que me fez rolar os olhos antes de tirar os amplificadores da tomada.
— Na cabeça de vocês, quem sabe. – bufei. – Vocês não podem tocar quando estiverem sozinhos, tá?
— Mas nós não estamos sozinhos, temos a companhia um do outro. – sorriu, apontando para e .
— É sério, as pessoas podem escutar e eu não quero ter que explicar para estranhos que eu tenho uma banda de fantasmas na minha antiga garagem, tá legal? – cruzei meus braços.
— As pessoas conseguem nos ouvir tocar? – sorriu animado em minha direção. – Isso é DEMAIS!
— É, seria, se isso não assustasse outras pessoas! – grunhi, passando a mão por meu rosto. – Olha, pessoal, é sério! Eu não estou em um bom momento e eu não quero que as pessoas pensem que eu sou maluca, tá?
— Olha, , nós somos três caras que acabaram de perceber que as outras pessoas podem nos escutar tocar mesmo mortos, você vai dizer que isso não é incrível? – sorriu em minha direção, apontando para os instrumentos. – Você é uma musicista também, deve entender o que nós estamos falando.
— E eu entendo, eu juro, mas não é um bom momento da minha vida, entende? – cruzei os braços. – Só não toquem quando eu não estiver aqui, tudo bem? Eu posso vir aqui com mais frequência se isso facilitar as coisas, mas preciso que vocês me ajudem também.
— Isso significa que você vai voltar a tocar e com o seu canal do youtube? – arqueou a sobrancelha e eu fiz uma careta, visivelmente confusa. – Eu fui até seu quarto hoje mais cedo e você estava falando algo sobre, sai quando vi que era íntimo.
— Quando você vai aprender a bater? – indaguei.
— Quando você perceber que deveria estar tocando e marcando shows na Sunset Strip. – ele sorriu em minha direção. – É sério, , você não deveria desperdiçar o seu talento desse jeito.
— Eu sei, tá? – suspirei. – Eu só preciso de um tempo para me acostumar com toda essa reviravolta que está acontecendo na minha vida, entende?
— Não é um bom momento, entendo. – ele me encarou.
— Exato. – mordi meu lábio, me virando de costas para sair do estúdio. Parei logo em seguida, me virando novamente em sua direção. – Olha, eu sei que não fui uma pessoa muito receptiva, mas vocês podem ficar por aqui. Tem um banheiro nos fundos, mas acho que vocês já sabiam disso. – sorri de canto, um tanto constrangida. Não era um costume convidar fantasmas para dividir uma casa.
— Banho de banheira! – sorriu, animado, como se fosse uma criança. – O quê? Eu gosto.
— Isso foi incrível, , obrigado. – me direcionou um sorriso que poderia facilmente iluminar Las Vegas por meses.
— Sem problemas. – balancei minha cabeça positivamente. – Eu vou sair, preciso resolver algumas coisas, nos vemos mais tarde.
— Até mais. – acenou em minha direção antes de eu sair do estúdio em direção à parte de fora da casa. Não tardou muito para que uma voz me chamasse, me fazendo virar em sua direção somente para encontrar uma figura alta e loira me encarando.
— Ei, . – se aproximou lentamente. – Eu queria te perguntar se você conseguiu postar o seu vídeo no youtube.
— Eu consegui. – sorri de canto com a preocupação do garoto. – Mas ainda não tive coragem de ver a reação das pessoas, você sabe, internet pode ser um lugar cruel às vezes.
— Não é? – sorriu de canto. – Eu fico feliz que você tenha conseguido fazer isso.
— Obrigada, isso foi bastante gentil da sua parte. – um silêncio desconfortável reinou entre nós. – Então...
— Então... – ele encarou os próprios sapatos coloridos e por um breve momento me permiti realmente encará-lo como algo além de um dos fantasmas que haviam invadido o meu estúdio. Ele mexia seus dedos contra os bolsos de sua calça com frequência, denunciando sua ansiedade que deveria estar aos picos na maior parte do tempo. Franzi o cenho por alguns segundos, ponderando se deveria fazer isso ou não.
, eu vou até a Broadway para uma entrevista de emprego no Orpheum, eu não sei se é uma boa ideia depois de tudo, mas se você quiser me acompanhar... Eu não sei, acho que um pouco de apoio moral seria bem-vindo. – ele me encarou com uma expressão que eu não soube muito bem decifrar por algum tempo, antes de finalmente abrir um sorriso.
— Claro, eu adoraria. – ele riu. – Eu vou só avisar os meninos, tá? – e explodiu em partículas de ar.
Dei de ombros, voltando a fazer meu caminho em direção à parte interior da casa para avisar Carlos que iria ir até o Orpheum. Coincidentemente o lugar onde minha mãe havia trabalhado anos antes, o que me trouxe uma pequena vantagem com os donos do bar. Encarei a tela do meu celular por algum tempo, esperando a mensagem de Steven me confirmando que eu poderia ir até lá.
— Você vai até o Orpheum? – Carlos me encarou e eu apenas assenti. – Fala para o Stevie que ele ainda me deve aquela Les Paul assinada pelo Brendon Urie.
— É, com certeza. – ri fraco, abrindo o aplicativo do Uber para chamar o carro que me levaria até meu destino. – Eu estou indo, até daqui a pouco. Se cuida e não coloca fogo na casa, tudo bem?
— Sim, senhora. – meu irmão bateu em continência.
Rolei meus olhos, puxando minha bolsa do suporte ao lado da escadaria, desenhando meu caminho em direção à porta para encontrar com um sorriso no rosto. Encarei a tela do meu celular rapidamente, procurando pela localização do Uber, que não demoraria muito para chegar. Me sentei nas escadarias da entrada, esperando que o mais alto fizesse o mesmo.
— Sabe, algo legal de ser um fantasma é poder simplesmente aparecer do nada em qualquer lugar, poupa bastante tempo, sabia? – ele encarou as próprias mãos.
— Não é? – concordei. – Posso te perguntar algo?
— Claro, desde que eu possa também.
— Como foi... Você sabe...
— Morrer? – ele arqueou uma sobrancelha. – Bom, foi rápido, eu só lembro de estar indo até uma pizzaria horas antes de tocarmos e então tudo foi um borrão com muito barulho, luzes e gritos. – ele encarou algo à sua frente. – E aí nós ficamos em um quarto.
— Onde você chorou. – pontuei e ele me encarou, incrédulo.
— Todos nós estávamos sensíveis, tá? – soltou uma risadinha. – Mas, sim, ficamos em um quarto até acordamos no nosso... Seu estúdio – ele corrigiu. – Você nos trouxe de volta, eu acho.
— Entendi. – ri fraco. – E quanto à família de vocês?
— Assunto complicado. – ele suspirou.
— Eu te entendo, se serve de consolo, eu não vinha aqui há pouco mais de cinco anos, meu relacionamento com meus pais não era dos melhores.
— Rose e Ray pareciam ser legais quando nos conhecemos, era bem próximo do seu pai, inclusive. – encarei meus tênis. – Me desculpe.
— Não, tá tudo bem, só é recente demais. – respirei fundo. – Bom, minha mãe sempre quis seguir na parte de música, como vocês bem devem ter percebido e meu pai queria que eu fosse para a faculdade de Direito, seguir o ramo da família dele. – fiz uma careta. – Eu nunca quis isso e minha mãe sempre me apoiou, principalmente em seguir com música. – olhei para minhas mãos. – Me inscrevi para a academia de artes em Nova York e passei, meu pai ficou possesso e cortou todas as relações que podia comigo, então eu tive que ralar muito e trabalhar em vários empregos para conseguir manter minhas notas, moradia e faculdade. Foi difícil, mas eu consegui, na medida do possível. – dei de ombros. – Só é uma pena eu não ter conseguido acertar as coisas entre nós antes deles morrerem.
— Sinto muito por isso, . – ele sorriu de canto, se levantando e parando em frente a mim com uma mão estendida. – Seu carro chegou, vamos lá. – balançou sua cabeça me chamando para acompanhá-lo. Estendi minha mão, brincando que iria pegá-la antes de me levantar e ir em direção à calçada com o fantasma ao meu lado.
? – balancei a cabeça positivamente, abrindo a porta traseira para me colocar dentro dele, fechando a porta em seguida apenas para encontrar já sentado ao meu lado. – Orpheum Theatre?
— Correto. – balancei a cabeça positivamente, colocando o cinto de segurança enquanto balançava a perna agitadamente.
— Então, você não é a única com problemas com os pais, sabe? – o loiro ao meu lado me encarou, me fazendo levantar o dedo em riste rapidamente.
, hey... – peguei meu celular, fingindo atendê-lo. – Pode continuar o que você estava dizendo.
— Você é um gênio. – ele riu, balançando a perna quase que na mesma rapidez que eu. – Meus pais meio que se afastaram de mim depois que eu me assumi gay. – ele riu, fazendo uma careta. – Foi um saco.
— Oh... – franzi o cenho. – Eu sinto muito por isso...
e têm sido minha família desde então, é irônico que até mesmo morremos juntos. – ele riu, encostando-se contra o estofado do banco. – Morremos juntinhos com vinte e um, antes mesmo de poder aproveitar a maior idade do jeito certo. É deprimente.
— Como se você fosse o tipo de pessoa que realmente usaria do seu tempo para isso, né? – ergui uma sobrancelha.
— É, talvez você esteja certa. – ele deu de ombros. –Mas e quanto a você, pequena Miss Sunshine?
— Bom, eu tenho um irmão que está no último ano de ensino médio, eu tenho vinte e quatro anos, eu me formei em música pela academia de artes de Nova York tem algum tempo e eu estou absolutamente perdida. – ri fraco, encarando o tapete do lado interior do carro. – Eu tenho um irmão para tomar conta e às vezes parece que eu não sou capaz de fazer isso só, sabe? Desde que eles se foram, tudo têm sido esmagador.
— Pensa pelo lado positivo, ao menos agora você tem três fantasmas para não aguentar tudo sozinha, acho que isso é algo bom, não é? – ele sorriu em minha direção, me cutucando com seu cotovelo fantasmagórico. Rolei meus olhos, desligando o celular ao ver que o motorista já parava diante do Orpheum. – Está tudo certo? – indaguei, vendo o motorista assentir ao deslizar o dedo pela tela.
— Tudo sim. – ele balançou a cabeça. – Senhorita? – o homem chamou minha atenção quando eu saí do veículo. - Meus pêsames pela sua perda.
— Obrigado... – encarei a tela de meu celular, procurando pelo nome do motorista. – Caleb.
— Por nada.
— Aquele cara – apontou quando o carro pegou seu caminho pela Boulevard Street. – É estranho demais.
— Por quê? – eu ri, desenhando o meu caminho em direção às portas de entrada do Orpheum. – Foi o colete, o chapéu no banco do lado ou o lápis de olho?
— Ele tinha olhos malignos. – ele reiterou, me fazendo dar uma gargalhada gostosa antes de passar pelas portas do Orpheum.
— Hollywood sempre tem alguns malucos.
— Nem me diga.
fez uma careta, sumindo do meu lado para se sentar em uma das banquetas do bar. Encarei o enorme teatro, encontrando algumas pessoas próximas do bar. Me aproximei um tanto hesitante, identificando os inconfundíveis cabelos longos de Steven Halter, o famoso empresário que conseguia encaixar diversas bandas na lista de apresentações do Orpheum. Eu não conseguia me lembrar de uma banda realmente famosa em que ele não tivesse pelo menos um dedo durante o caminho para o estrelato. Não suficiente, Steve também era um amigo de longa-data de minha mãe, o que perdurou por anos até o dia de sua morte.
Stevie se virou em minha direção, finalmente me permitindo dar uma boa olhada em seu rosto depois de quase cinco anos sem o ver pessoalmente. Seus cabelos agora apresentavam raízes brancas e seu rosto com algumas rugas denunciavam sua idade que já chegava na casa dos sessenta. O gosto para roupas, todavia, permanecia o mesmo: jeans rasgados, all stars e alguma camiseta de banda que ele provavelmente tinha amizade.
, é ótimo te ver novamente. – ele levantou seus braços ao se aproximar de mim, me envolvendo entre eles em um abraço cheio de carinho. – É uma pena que em um momento tão delicado. – segurou meus ombros, me encarando. – Eu sinto muito.
— Tudo bem, tio Stevie. – sorri fraco. – Como você está?
Você está brincando, né? gritou, embasbacado. – Esse é o Stevie? Você é sobrinha do Steven Halter? O cara é uma lenda. – o fantasma se aproximou, encarando Stevie como se ele fosse um tipo de deus. – Droga, eu gostaria que ele tivesse nos visto tocar.
— Eu estou ótimo, estava falando com outras pessoas que também tem interesse na vaga sobre o processo seletivo que vamos fazer, venha. – ele balançou a cabeça, me chamando para acompanhá-lo. – Precisamos colocar o papo em dia.
— Definitivamente. – sorri, o acompanhando em direção ao amontoado de pessoas.
— Bom, como estávamos falando antes: a vaga se trata de uma vaga de bartender, ou seja, precisamos de alguém que seja ágil e tenha experiência em servir bebidas para uma quantidade grande de pessoas. – ele gesticulou, encostando-se no balcão. – Portanto, o que faremos aqui é uma pequena competição. – ele sorriu abertamente. – Como procedimento padrão, cada um de vocês vai preparar dois drinks: um Bloody Mary e um Sex on the Beach. – ele sorriu. – Os critérios serão: sabor, apresentação, agilidade e concentração alcóolica. Não se esqueçam: eu tenho mais experiências em bares do que alguns de vocês tem em anos de vida. – Stevie soltou uma risadinha animada. – Então os meus critérios são bem altos, boa sorte. Vocês têm... – ele olhou em seu relógio. – Vinte minutos, contando a partir de agora.
Ele se afastou de perto do balcão, abrindo espaço para que nós pudéssemos entrar no local. Encarei a infinidade de bebidas e respirei fundo, fazendo as seleções dos líquidos que eu usaria para fazer os drinks que ele havia pedido. Agradeci mentalmente meus dias de trabalho durante em buffets de festas em Nova York, porque ao menos eu sabia as receitas de cor. Optei por começar pelo Bloody Mary, pegando a garrafa de gim branco e alguns limões, os molhos, o talo de aipo e os sais. Peguei um dos copos highball e o coloquei diante de mim no balcão, sentindo os olhos de me observarem à distância.
Comecei construindo a pequena camada de sal no topo do copo, após isso cortei rapidamente os limões para adicionar o suco no fundo, misturando-o com os molhos tabacos e Worcestershire, acrescentando uma pitada de pimenta-do-reino e sal. Adicionei o gim e alguns cubos de gelo, finalizando com o suco de tomate. Mexi a bebida por algum tempo com auxílio da espátula, finalmente decorando o copo com o talo de aipo de algumas fatias do limão no topo. Adicionei o canudo e deixei em cima do balcão em frente à Stevie.
, você precisa de ajuda?
murmurou e eu balancei a cabeça negativamente. Voltei para o meu lado e busquei pelo shaker, colocando em cima da bancada. Me estiquei em direção aos copos, optando por uma taça tulipa. Coloquei o St. Remmy, o licor de pêssego, a vodka e o suco de laranja dentro do shaker, tampando cuidadosamente para que o líquido não vazasse durante o processo. Escutei uma voz xingando e me virei em direção ao som, vendo que dançava majestosamente entre alguns dos outros candidatos, empurrando seus braços para que os líquidos caíssem demais em alguns copos, algumas vezes até empurrando alguns dos ingredientes para atrasá-los. Balancei minha cabeça negativamente e voltei minha atenção ao meu drink, abrindo o shakes para despejar o líquido alaranjado no copo. Peguei uma colher e a usei calmamente, despejando a groselha para que o fundo do copo tomasse a cor avermelhada do líquido. Coloquei alguns cubos de gelo e fiz a decoração com uma fatia de laranja, apoiando-a com um palito com cereja no topo. Adicionei o canudo e peguei o drink, colocando-o ao lado do Bloody Mary.
— Quinze minutos? Impressionante. – Stevie sorriu enquanto encarava os copos de drinks em sua frente. – Você é tão rápida quanto sua mãe.
— Obrigada. – balancei minha cabeça em agradecimento.
— Como você está lidando com isso tudo?
— Na medida do possível, ainda é bem recente então... – suspirei, sentindo seus olhos cansados me encararem.
— Eu estive te acompanhando no youtube, fico feliz que tenha voltado a tocar. – ele sorriu, a sinceridade evidenciada no brilho de seus olhos. – Quem sabe não podemos te ver tocando aqui, huh? Lembro que esse era seu sonho quando criança, agora você tem idade o suficiente.
— É, quem sabe...
Quem sabe? O cara te chama para tocar no Orpheum e você diz isso? Você é maluca? – me encarou.
— Cala a boca. – murmurei, sorrindo entre dentes enquanto encarava Stevie.
— Você disse algo, querida? – ele indagou.
— É só que você deveria parar de fazer esses convites, eu posso realmente considerar. – corrigi.
— O tempo acabou, pessoal, coloquem os copos no balcão.
Stevie se afastou e eu fiz o mesmo, limpando as mãos suadas em minha calça. A sensação de ansiedade tomando conta de meu peito enquanto eu balançava minhas pernas distraidamente. Senti o olhar preocupado de me encarando.
— Eu comecei a tocar bateria por isso, sabia? – ele encarou Stevie, que provava algumas bebidas no começo do balcão e fazia algumas caretas não muito agradáveis. – Eu sou extremamente ansioso, a bateria me ajudou a controlar um pouco melhor.
— Não. – o encarei. – Eu prefiro as teclas, eu acho que não conseguiria tocar. – sorriu em minha direção. – Mas vocês são muito bons, isso eu preciso dar crédito.
— Não deixe o escutar isso, as chances de ele gritar dizendo “BONS? Nós somos INCRÍVEIS” são enormes. – o loiro riu, apoiando o queixo em suas mãos enquanto Stevie parava em nossa frente. – Vai dar tudo certo.
— Bom, vamos lá.
Ele sorriu, provando primeiro o Bloody Mary. Ele fechou os olhos, degustando cada pedacinho da bebida antes de finalmente engolir o líquido. Não houve reação alguma em seu rosto, apenas uma expressão pensativa. E foram assim por longos minutos enquanto ele terminava de provar o outro drink. Após finalmente terminar, Stevie se sentou na cadeira ao centro do Orpheum e nos encarou um longo minuto. Deixou um sorriso tomar conta antes de finalmente respirar fundo e começar seu discurso.
— Vocês todos fizeram boas criações, mas duas se destacaram. – ele cruzou os braços. – Willie e , vocês começam amanhã. Tragam seus documentos e estejam aqui uma hora antes do começo do expediente, sim? Ao resto, espero termos novas oportunidades de trabalharmos juntos, vocês estão dispensados.
Eu encarei . O sorriso em meu rosto capaz de iluminar uma cidade toda. Eu estava verdadeiramente feliz. Por algum motivo, aquilo significava que eu era capaz de absolutamente qualquer coisa. O que incluía cuidar de um irmão adolescente sozinha. Tentei pegar sua mão fantasmagórica, me frustrando quando meus dedos passaram direto. Atravessei a bancada, dando um tchauzinho para Stevie antes começar a arrumar minha bolsa.
— Estar morto não é de todo o bom, eu acho. – murmurou. – Mas você foi contratada! Isso é incrível! Você está a um passo de tocar no Orpheum. Alguns, na verdade. – ele apontou para o palco em nossa frente.
— Não é?
Eu ri, encarando o outro garoto que também havia sido contratado. Seus cabelos eram longos e levemente ondulados. Ele tinha olhos tão escuros quanto os fios ondulados e um sorriso tão fofo que me fazia querer apertá-lo. Suas roupas, no entanto, carregavam um estilo um pouco mais skatista. O que ele provavelmente era, considerando que ele carregava um junto de sua mochila. Willie veio em minha direção, encarando algum ponto ao meu lado.
— Ele é bonito, não é? – sussurrou, me fazendo segurar a risada quando ele finalmente estava mais próximo.
— Ei. – ele chamou minha atenção. – , certo?
— Sim. – sorri, apertando sua mão quando ele me ofereceu. – Willie?
— Sim, senhora. – ele riu. – Quem é o seu amigo? – ele sussurrou essa parte mais baixo, como se não quisesse que Stevie o escutasse.
— Oi? – indaguei, rindo nervosa quando ele apontou para o lugar onde estava sentado. Não me virei em sua direção para ver seu rosto, mas algo me dizia que ele deveria estar próximo de um colapso.
— O seu amigo fantasma. – Willie riu. – O que está atrás de você, que você conversou o tempo todo enquanto estava fazendo suas bebidas.
— Você consegue ver ele? – eu deveria estar parecendo uma idiota com a boca aberta em um perfeito “o”. Eu estava em choque.
— Minha família é formada por médiuns. – ele soltou uma risadinha. – Nós normalmente ajudamos os espíritos a fazer suas passagens quando eles partem de forma trágica. Alguns deles apenas querem ficar por aí vivendo uma vida sem regras e andando de skate na piscina do Justin Bieber. – Willie deu de ombros. – Eu provavelmente seria um desses.
— Legal. – eu ri, saindo do caminho. – Willie, esse é o . Ele faz parte de uma banda que mora no meu estúdio.
— Então você é um artista? Massa. – ele sorriu. – Normalmente fantasmas tendem a ficar próximos de corpóreos que mantém um interesse em comum. Isso é maneiro. Legal te conhecer, .
— Ah... – sorriu, visivelmente envergonhado. – É bom te conhecer também.
Eu o encarei, segurando uma risada. O pânico na expressão do baterista era tão grande que eu facilmente poderia apalpá-lo pelo ar. Coloquei a bolsa em um dos meus ombros, balançando a cabeça para que ambos os rapazes me acompanhassem. Assim que eles o fizeram, andamos para o lado de fora do Orpheum, sendo golpeados pelo calor de Los Angeles.
— Então, como vocês morreram? – Willie perguntou, como se perguntasse qual era o trabalho dos sonhos de .
— Acidente de carro, foi há uns três anos.
— O acidente da Boulevard? – Willie franziu o cenho. – Da banda? Sunset Curve?
— Sim, esse mesmo. – escondeu as mãos nos próprios bolsos.
— Minha irmã adorava vocês. – o skatista sorriu. – Vocês provavelmente devem ter alguma coisa inacabada por aqui.
— É uma chance.
— Então... Vocês podiam sair por aí. – eu sugeri, segurando a alça da minha mochila. – Eu vou precisar voltar para casa para cuidar do meu irmão. – eu sorri. – Vocês poderiam falar mais sobre essa coisa de negócio inacabado, é legal saber um pouco mais.
— Me parece uma boa ideia. – ele sorriu. – Tudo bem por você? – ele apontou para o loiro.
— Você tem certeza? – arqueou uma sobrancelha e eu assenti positivamente. – Ok. Nos vemos em casa?
— Claro. – sorri. – Se divirtam, sim?
— Nós vamos.
E então Willie pegou o skate e jogou no chão, subindo em cima da superfície de madeira antes de começar a remar divertidamente pela calçada, mas não sem antes se virar em minha direção e acenar. Fiz o mesmo, pegando o celular em meu bolso e finalmente pedindo um Uber para voltar para casa.



Continua...



Nota do autor: Meu deus, quem é vivo sempre aparece!!!!
Oi, pessoal!
Sumi, eu sei, me perdoem.
Cheguei em um momento de caos na minha vida em que eu só conseguia olhar para o teto enquanto a síndrome de impostor tomava conta do meu ser. Porém, isso foi deixado de lado e agora eu ESTOU DE VOLTA.
Enfim, espero que vocês gostem do capítulo, porque o nosso filho Willie FINALMENTE apareceu.
No mais, deixo as outras histórias caso vocês queiram se aventurar em algo diferenciado até a próxima att.
É isso, obrigado por estarem aqui pessoal.
Até a próxima.

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Nota da beta: EU AMEIIIIIIIIIIIIIII! Tò apaixonada pela ideia do Willie ser de uma família de mediuns, apaixonada pela amizade dela com o Alex já, e eu AMO as referências PERFEITAS à série! Olha, o que eu amo essa fic não é brincadeira, então não demore para atualizar, POR FAVOR! <3

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