Última atualização: 14/06/2022

Capítulo 1

POV.

Estava em tempo de abrir o chão, havia perdido a conta de quantas voltas já havia dado em meu quarto pensando no que fazer. Eu tinha que arranjar a desculpa perfeita para atrair a polícia de uma forma que eles quisessem ficar próximos a mim a qualquer custo. O plano já estava todo armado: eles receberiam um chamado anônimo de um suposto vizinho dizendo que uma garota havia sofrido um atentando em sua casa, a policia viria até mim e eu só precisava dizer que foi a máfia com a qual meu irmão estava envolvido, só. Isso faria uma trupe de policiais ficarem na cola de qualquer pessoa, porém, essa era a parte fácil da coisa toda. Eu precisava me causar ferimentos de tal forma que nem o melhor legista do mundo pudesse identificar que eles foram feitos por mim. Mas como diabos eu iria fazer isso? Não poderia envolver ninguém nisso, era arriscado demais, um fio de cabelo de outra pessoa com meu sangue e ela estaria perdida, assim como a minha parte da missão e meu emprego.
Parei no centro do quarto e olhei os moveis a minha volta, teriam que servir.
Corri até a penteadeira tentando o máximo possível acertar a minha cabeça na quina do móvel.
- Merda.
Senti minha cabeça latejar na hora e me xinguei imediatamente, uma puta de uma dor de cabeça para nenhum filete de sangue. Teria que ser em outro lugar. Encarei o espelho acima da penteadeira e juntei toda minha coragem pra jogar minha cabeça contra ele. Fechei os olhos assim que senti os estilhaços se partirem contra meu crânio, a ardência no canto de minha testa veio logo depois, trazendo pequenos cortes consigo. A pancada havia sido tão forte que mal consegui conter o grito de dor. Ótimo, os verdadeiros vizinhos não poderiam negar que tinham escutado algo.
Notei uma gota de sangue pingar em um dos meus perfumes e decidi aproveitar aquela deixa, empurrando tudo que havia ali para o chão só para depois golpear a minha cabeça ao menos três vezes naquela superfície plana e branca, deixando um rastro de sangue notável.
Caminhei até o outro espelho querendo ver os meus resultados e instantaneamente senti que faltava algo: meu cabelo estava quase impecável, mas eu soube como resolver assim que meus olhos encontraram o banheiro. Fechei o ralo da banheira e abri a torneira deixando que ela fizesse seu trabalho enquanto eu terminava o meu. Usei o secador para deixar o meu cabelo o mais bagunçado possível e arranquei alguns bons fios de cabelo somente de um lado da minha cabeça, descartando os no vaso sanitário logo depois. Havia tomado o máximo de cuidado possível para não encostar minhas unhas em meu couro cabeludo, não poderia haver nenhum vestígio nelas.
Olhei-me mais uma vez no espelho e sorri feito uma psicopata admirada com meu trabalho. O meu rosto estava perfeito para o meu objetivo. Eu só tinha que dar um jeito no meu corpo e estaria tudo pronto.
A banheira estava quase cheia e eu tinha pouco tempo. Juntei toda a coragem que eu ainda não tinha usado e me afastei com o secador em minhas mãos, ainda ligado na tomada, se aquilo não desse certo e a polícia não chegasse a tempo eu iria parar no necrotério. Puxei tudo o que havia de fio no aparelho tomando distância da entrada do banheiro, quando senti que não dava mais parei no lugar e implorei a Deus que aquilo desse certo, eu não queria morrer, principalmente daquela forma. Olhei para o relógio em minha parede em minha parede, a polícia já havia sido acionada pela equipe, era hora do truque final.
Fechei meus olhos e arremessei o secador na banheira que já transbordava e espalhava água pelo quarto, mal pude o ver cair na água, o curto foi certeiro, tudo ficou escuro em questão de segundos. Tratei de me jogar contra todas as paredes do quarto o mais rápido possível, evitando somente a que dava para o banheiro - a água da banheira já escorria por ali e o secador continuava estralando, soltando faíscas vez ou outra. Tamanha era força que eu jogava que perdia até a capacidade de gritar, tudo que saia de minha boca eram pequenos grunhidos de dor. Se eu soubesse que era mais fácil me machucar no escuro teria apagados as luzes antes. Eu sentia dores pelo corpo todo, acho que a única coisa a salvo eram meus pés, ou pelo menos a sola deles.
O secador deu outro estouro, soltando faíscas por segundos suficientes para que eu pudesse ver meu reflexo no grande espelho. A minha dor não havia me enganado, havia hematomas por toda a parte e eu mal havia me dado conta do momento que perdi a minha toalha. A lingerie branca destacava ainda mais os machucados.
Escutei sirenes ao longe e vi que estava na hora do truque final, eu não tinha mais do que alguns minutos. Dei alguns passos para trás tomando distância do espelho, tentando ao máximo não pensar no que faria a seguir.
Coloquei todas minhas forças naquilo, os pedaços de vidro estavam por toda parte, assim como o meu sangue muito provavelmente. O estalo do meu corpo se chocando contra o chão foi inconfundível, eu havia quebrado uma costela e choviam vidros em mim, eu não tinha mais forças. Sentindo meus cabelos empapados de sangue e ouvindo passos ao longe, eu deixei a escuridão me dominar como uma velha amiga.

POV. Nicolas

Eu sentia meu coração disparar a cada passo que eu dava, disparava tanto que por vezes eu pensei que ele iria parar de bater. Metade da casa havia sido vasculhada e nada parecia fora de seu lugar, parte de mim dizia que aquilo poderia ser uma armadilha, mas outra parte me incentivava a continuar, eu só não entendia por que diabos meu coração estava daquele jeito, era como se ele estivesse pressentindo algo. A casa estava totalmente escura, nenhuma luz funcionava, que merda havia acontecido ali?
Subi as escadas em direção ao segundo andar pestanejando por aquela porcaria de escuridão, o lugar era enorme e as lanternas embutidas nas armas eram uma porcaria maior ainda. Estava quase abrindo uma porta quando escutei um estouro vindo da outra direção, o barulho foi tão grande que eu quase disparei a minha arma por reflexo, um ato burro. Corri na direção oposta e um odor de algo queimando invadiu minhas narinas, uma das portas exalava fumaça. Por algum motivo eu temi o que encontraria ali, meu coração disparou mais ainda.
Cobri o meu rosto e abandonei minha arma, algo me dizia que eu precisaria da minha mão livre quando entrasse ali. Dei sinal para que três dos meus homens me acompanhassem e me empenhei em derrubar a porta. A fumaça era absurda, se já era difícil enxergar no escuro, naquele quarto era praticamente possível. Estava a ponto de adentrar um ambiente quando algo chamou minha atenção, tinha água correndo no quarto. Água, estouro, fumaça. Senti meu coração parar por dois segundos.
Peguei a lanterna da mão de e apontei para o quarto. Não era uma armadilha, havia uma pessoa lá, provavelmente morta. Mas algo me dizia que ainda havia esperança para aquela pessoa, que talvez a sua vida pudesse ser salva. Não pensei duas vezes antes de entrar no quarto, apontava a lanterna para o chão na tentativa de evitar a água, eu não queria ser eletrocutado. A cada passo que eu dava em sua direção eu sentia meu coração acelerar mais, foi absurdo o modo como ele disparou quando eu a encontrei. Segurei seu rosto em minhas e achei que fosse descobrir como era ter um infarto. O seu rosto tinha traços tão familiares que eu me senti assombrado, a semelhança era assustadora. Não era a toa que diziam que para uma pessoa existem mais 7 parecidas.
Eu teria ficado naquele devaneio por horas se não tivesse escutado outro estouro e não tivesse me chamado. Olhei novamente para a garota em meus braços e desejei com todas as minhas forças que ela estivesse viva. Levei meus dedos ao seu pescoço e quando pude sentir sua pulsação irregular meu coração pareceu se acalmar instantaneamente.
- - chamei entrando em desespero, a água estava se espalhando cada vez mais. - Joga a sua jaqueta, rápido.
estava quase entrando no quarto e eu quis mata-lo, ele não tinha notado a água?
- NÃO ENTRA AQUI - gritei - Só joga a sua jaqueta, faz o que eu to mandando antes que a gente a perca.
O tecido foi arremessado em minha direção de forma tão rápida que eu quase não consegui pegar. Cobri depressa a garota que estava praticamente nua com a jaqueta e me levantei da forma mais rápida possível com ela em meus braços. Coloquei a lanterna na boca e fiz o caminho de volta ao corredor.
Meus olhos continham uma umidade indescritível, e eu sabia que não era pela fumaça.


Capítulo 2

POV.

Olhava para a garota repousada na cama branca e não conseguia encontrar nenhuma outra resposta – além da mais óbvia – para aquela tentativa de homicídio. Certamente aquilo era uma cobrança de dívida, mas de que tipo? Drogas? Dinheiro de jogo? Eu apostaria em drogas. O que levava uma garota como aquela a se envolver com coisas do tipo? Ela estava em um estado lastimável, havia uma serie de hematomas em seu rosto, mas ainda sim, parecia muito bonita.
Fazia dois dias que ela estava no hospital, em coma. Não conseguimos contato com ninguém da família, o mais perto que chegamos foi encontrar sua melhor amiga, que por sinal era sua vizinha – a ligação anônima não tinha vindo dela. Os pais dela se encontravam no Egito, totalmente incomunicáveis, e seu irmão, que morava junto com ela, não foi encontrado de forma alguma.
A pior parte (depois da garota quase ter morrido) era a falta de pistas no caso. Depois que ela foi resgatada o departamento de homicídios tomou conta da casa junto com a perícia, e nada foi encontrado, nenhum fio de cabelo, nenhuma pegada e nenhuma digital. Quem fez isso era extremamente profissional, provavelmente um assassino de aluguel. Eu tinha até cogitado que ela pudesse ser esquizofrenia e ter feito tudo aquilo sozinha, por mais insano que soasse, mas os exames não detectaram nada, ela era perfeitamente normal. O que nos levava de novo à estaca zero. Só teríamos resposta quando ela acordasse.
Outra coisa que estava me incomodando ao extremo era Nicolas. Ele andava um tanto quanto perturbado desde que saiu da casa com a garota nos braços. Murmurava coisas sem sentido toda vez que olhava para ela, fora o fato de eu ter certeza que ele chorou quando tirou ela do quarto – mesmo ele tendo negado e botado a culpa na fumaça. No começo eu achei que era só emoção por ter salvo uma vida, mas tinha algo a mais que isso, algo que ele não queria me contar. Estávamos revezando a segurança no quarto do hospital onde ela estava, caso alguém tentasse ataca lá outra vez, e Nicolas assumia uma postura estranha toda vez que entrava no ambiente. Era como se ele tivesse medo dela e ao mesmo tempo sentisse uma preocupação absurda com seu estado, e era mais que uma preocupação de um policial com um caso.
Fui tirado de meus pensamentos por uma tosse baixa, vinda da cama em minha frente. Ela estava acordando. Pensei em apertar o botão de emergência perto da cama, mas achei melhor não. Levantei da cadeira e fui em direção a porta, chamando a primeira enfermeira que vi assim que abri a mesma. Encostei-me ao batente da porta, observando a enfermeira tomar notas sobre a paciente, que ainda não tinha aberto os olhos por completo, só para sair logo depois dizendo que iria chamar um médico.
Aproximei-me da cama com as mãos no bolso da calça.
- ? – Chamei por seu nome, vendo seus olhos se abrirem por completo. Eles eram tão verdes, tão brilhantes. Faziam uma sincronia perfeita com seus cabelos levemente acastanhados.
- Eu não morri? – Perguntou mais para si mesmo do que para mim, com a voz fraca.
- Não, você não morreu. – Respondi rindo, voltando a me sentar na cadeira. Por que todo mundo que acorda num quarto de hospital depois de um acidente acha que morreu? Seria pelas paredes brancas e a claridade gritante? – Você sofreu uma tentativa de homicídio, mas graças a uma ligação anônima e a ação rápida da polícia, se salvou. – Ela me olhava atentamente enquanto eu relatava a situação – Você ficou em coma dois dias.
Eu esperava qualquer reação, menos uma risada.
- Desculpe, eu disse alguma coisa engraçada? Está tudo bem com você? –perguntei, me sentindo perdido.
- Eu to numa cama de hospital, é claro que eu não estou bem. – respondeu, num tom grosseiro, mas sua voz voltou ao que parecia ser o seu normal logo depois – Eu só estou feliz por estar viva.
Senti-me constrangido na mesma hora.
- Certo, me desculpe. Eu só não esperava esse tipo de reação, uma pessoa normal teria ficado assustada.
- É – ela concordou – e só uma sádica daria risada não? – Irônica
Ri baixo, me sentindo completamente envergonhado. Baixei minha cabeça tentando pensar em uma resposta para aquilo. Não havia. Decidi mudar de assunto então. Voltei a olhar para ela, que ainda tinha seus olhos em mim.
- Quer saber quem eu sou?
- É meio obvio, eu não preciso de explicações. – retrucou, apontando a cabeça para bracelete da polícia que estava quase em meu ombro, por cima do blazer preto.
Irônica, grosseira, esquisita e provavelmente masoquista. Que tipo de garota era aquela? Eu estava tentando ser cuidadoso devido a seu estado, mas já que ela parecia não se importar, eu também não me importaria.
- Certo, você não precisa, mas a polícia sim. – disse sério, já de pé – Assim que o médico chegar eu irei pedir uma autorização pra recolherem seu depoimento, já que você parece em perfeitas condições, mesmo no seu estado.
- Faça o quiser, eu não tenho nada a esconder – ela fez uma pausa, olhando para a etiqueta do hospital no meu blazer – Policial Green.
- Eu não disse que você tinha – respondi rápido, me sentindo surpreendido com suas palavras. Ela tinha algo a esconder, havia se entregado sozinha, assim que ela ouviu minhas palavras ficou quieta, seu sorriso irônico sumiu, ela abriu a boca duas vezes para falar algo, mas acabou desistindo.
O médico entrou no quarto, me tirando a chance de fazer-lhe qualquer pergunta. Não havia problema. Mais cedo ou mais tarde, eu iria descobrir o que escondia Jude.

POV.

O meu plano havia dado certo. Na verdade, tinha saído melhor do que eu esperava, eu não pretendia entrar em coma, mas como aconteceu, era algo mais ao meu favor. Pobre .
Eu não parecia ser suspeita do crime, então decidi melhorar meu plano, só para me assegurar de que a polícia iria mesmo querer ficar perto de mim, então em vez de apenas dizer que meu irmão pertencia à máfia, eu daria a entender que estava escondendo algo, e pareceu funcionar. O tal havia ficado um tanto quanto inquieto quando eu supostamente me entreguei sozinha. Não deixou de me olhar estranho desde então. Quando o médico entrou pra me analisar ele pegou um celular e foi para o corredor, me tirando a chance de observa-lo melhor. Já sabia que ele estava intrigado comigo – mas não era esse tipo de observação que eu queria fazer, eu queria observar seu físico.
Ele parecia ter saído de um filme policial, tinha um ar de mocinho de trama romântica e era o típico galã que faria a protagonista suspirar. Seus cabelos eram castanhos e seus olhos eram cor perfeição, sua pele era clara e a boca perfeitamente desenhada, contendo um tom levemente rosado. Vestia calças skinny na cor preta e seu peito estava coberto por uma blusa branca, com um blazer, também preto, por cima. Típico.
Sai de meus devaneios quando o médico me disse que eu era uma garota de sorte por ter sobrevivido, agradeci mentalmente a Deus por me ajudar a sair viva daquele quarto, apesar da minha loucura – que no final, era por um bom motivo. O doutor também disse que minha alta viria de acordo com minha evolução. Ele saiu logo depois, mas não sem antes me dizer para agradecer ao policial que havia salvado a minha vida.
Então havia sido quem me tirou do quarto antes que a água chegasse até mim? Eu teria que agradecê-lo. Vi minha chance quando ele entrou no quarto novamente. caminhou até perto de minha cama e se sentou na cadeira, sem me dizer uma palavra, em seu rosto só havia um sorrisinho cínico. Certamente eu o tinha desconcertado.
- Então – comecei – você foi o policial que salvou minha vida?
Ele riu.
- Não – respondeu mudando de posição na cadeira, seu cotovelo estava apoiado no braço do móvel, e ele despenteava o próprio cabelo, enquanto a outra mão repousava em seu colo, segurando seu celular. – Foi Nicolas.
- Nicolas? – quem era Nicolas?
- Meu parceiro, ele quase morreu eletrocutado tentando te salvar. – me respondeu, com certa má vontade na voz.
- Então onde está meu salvador? – perguntei erguendo uma sobrancelha e abrindo um sorriso irônico. – Você o espantou com esse seu mau humor?
Ele bufou, irritado, e por dois segundos eu achei que ele iria me sufocar com o travesseiro.
- Ocupado com coisas mais importantes. Aliás – fez uma pausa cruzando os braços e assumindo uma postura mais séria – eu preferia estar no lugar dele a ter que ficar cuidando de uma garotinha mimada, grosseira e sem educação. E eu não deveria nem ter que te lembrar de que eu represento a lei, e você deveria ter um pouco mais de respeito comigo.
- Essa é a sua análise sobre mim? – questionei irônica, me ajeitando na cama – Excelente, . - Frisei seu nome, o pirraçando de propósito.
- Acredito que você já esteja metida em encrenca demais, e não gostaria de ser presa por desacato. E pra você é Policial Green.
Eu não sei por que, mas por algum motivo eu estava gostando de irritar aquele Policial, então decidi provocar mais um pouco.
- Você não é o Shrek, não é nem verde, por que eu deveria te chamar de Green? – Cutuquei debochando de seu nome, só para depois rir de minha própria piada, mesmo que fosse sem graça.
- Já chega – ele disse se levantando – Eu vou pedir uma autorização pra te levar pra delegacia assim que você tiver alta.
Ele estava brincando, eu tinha certeza.
- Olha você tem um sério problema de mau humor – disse, atraindo de volta sua atenção para mim – Além do mais, a única situação em que eu deixaria você me prender – fiz uma pausa, mudando o meu tom de voz para um tom sexy e diminuindo em um sussurro quase inaudível – seria em uma cama.
Ele me olhou incrédulo por quase um minuto. Estava quase rindo da cara dele quando ele pegou um rádio no bolso de seu blazer e chamou uma viatura.
Me Fodi.
Formulei uma desculpa o mais rápido que pude, eu queria a policia na minha cola, mas não isso não poderia ser na cadeia. Estava prestes a falar quando a porta do quarto foi aberta. Revelando um moço de aparência jovial.
parou onde estava e se dirigiu ao rapaz, que mantinha os olhos em mim. Olhei o bracelete em seu braço.
- Você chegou na melhor hora, Nicolas.
Então aquele ele era meu salvador. Seria meu suspeito também?
Seus olhos estavam em mim, ele sorria ignorando completamente o seu parceiro.
- Você acordou! – Disse contente ainda sorrindo. Sorri de volta, quase de imediato, foi quase automático aquilo.
- Eu vou levar ela para a delegacia. – Disse , tomando atenção do rapaz parado na porta.
- Não – respondeu, sem entender o outro policial direito – Ela acabou de sair do coma, você não deve ter autorização pra tirar ela daqui, sem falar que depois ela pode dar o depoimento sem sair do hospital.
bufou.
- Ela tá presa. – Nicolas o olhou completamente perdido, quando ia perguntar o porquê, se apressou em responder – Por desacato – explicou, vendo que seu parceiro não entendia a situação.
- Eu não fiz nada. – me intrometi, fazendo-me de inocente. – Sua presença tava me incomodando, eu só queria te irritar pra que você saísse do quarto. – Menti.
- Se era só isso, por que não me pediu? Eu teria ficado do lado de fora do quarto.
Fiquei sem ter o que responder. O quarto ficou em silêncio por segundos que pareceram uma eternidade, até o outro policial começar a falar.
- Ela só está com medo – disse se dirigindo a , e depois caminhou até minha cama – Não precisa ter medo, nenhum de nós vai te machucar.
Eu tinha minhas dúvidas quanto aquilo.
Quando ele chegou mais perto pude olhar seu rosto melhor. Seus olhos eram azuis e oscilavam para o verde cada vez que a luz que entrava pela janela batia em seu rosto. Seus cabelos eram um pouco mais castanhos que o meu. Ele não parava de sorrir.
- Obrigada – disse baixo.
Ele assentiu, sentando na cadeira e colocando uma caixa marrom em seu colo. Ia começar a falar quando foi interrompido pela porta batendo.
tinha saído.
- Nervosinho – disse Nicolas, e eu ri, mas ainda queria perguntar algo, então me recompus.
- Eu ainda vou presa? – mordi meu lábio com medo da resposta.
- Não – Nicolas respondeu com um risinho e eu senti um alivio. – Ele não vai fazer nada, você pode ficar tranquila, eu não vou deixar.
Ok, esse policial era mais legal, e ele parecia preocupado o suficiente comigo, eu não precisava fazer mais nada, então procurei saber mais sobre seu parceiro.
- Ele é sempre assim? – perguntei.
- Não, ele só anda estressado nos últimos dias. Não é fácil ser filho do chefe. – Sorriu.
- Ele é filho do chefe? – Aquilo era interessante. Se eu conseguisse que ele ficasse na minha cola eu poderia conseguir informações mais fácil ainda.
- Sim, por quê? – Quis saber Nicolas, erguendo sua sobrancelha.
- Nada, só sou curiosa. – dei de ombros, mentindo, eu era curiosa, mas não era só por isso que eu havia perguntando.
- Então temos uma coisa em comum. – disse sorrindo outra vez, seus dentes eram perfeitamente brancos – E no momento eu estou curioso pra saber como você está.
- Minha cabeça ainda dói, e minha cintura fica latejando. – Respondi, parando pela primeira vez, desde que acordei, para analisar minha dor.
- É normal, você sofreu pancadas fortes e quebrou duas costelas.
- Duas? – eu pensei que fosse só uma.
- Sim.
Superou-se, .
Olhava pela janela do quarto apreciando o pouco de sol que entrava e batia em minha pele. O ambiente tinha ficado em silêncio pelo que eu supus ser quase cinco minutos. Eu não me importava, Nicolas parecia agradável, mesmo quando não dizia nada. Estava me lembrando de que não deveria me sentir confortável assim – mesmo que ele tenha me salvado da minha própria armadilha – afinal ele poderia ser um dos meus suspeitos. Ele começou a falar novamente.
- Eu fico muito feliz que você tenha acordado. – Disse, parecendo sincero. – Eu fiquei com tanto medo quando vi você naquele quarto – ele fez uma pausa, parecendo perdido no tempo, e fez uma expressão que eu não consegui interpretar – eu achei que você estivesse...
Ele parou de falar, sem conseguir completar a frase, sua cara amarga me fez ter a impressão de que seu estomago estava embrulhado. Seria ele tão bom policial que sentiria remorso por não poder salvar uma vida?
- Morta – completei sua frase e ele assentiu.
Decidi mudar de assunto.
- Você pode me dar um copo da água? – pedi olhando para o filtro no canto do quarto.
- Claro.
Ele se levantou e deixou a caixinha marrom na cadeira, voltando logo depois para ajeitar a cama de modo que eu pudesse me sentar, logo me estendeu o copo de plástico, cheio. Vi ele pegando novamente a caixinha marrom nas mãos.
- Ninguém merece comida de hospital. – disse, e a colocou no meu colo, sorrindo novamente.
Olhei para ele sem entender, mas Nicolas nada disse. Coloquei o copo já vazio na mesinha ao lado da cama e abri a caixa. Senti-me uma criança.
- Doces. – disse empolgada, olhando o conteúdo que tinha ali dentro, havia muffins, cookies, rosquinha cobertas de chocolate e até cupcakes. Foi inevitável sorrir abertamente.
- Shhh – ele levou um dedo ao lado da boca me pedindo silêncio, e eu mordi os lábios travessa. – As enfermeiras não podem saber.
- Certo.
Meus olhos brilhavam enquanto eu pegava um muffin com gotas de chocolate, era meu favorito, ofereci a caixa a ele, que agora se encontrava sentado novamente. Nicolas pegou um cupcake, fazendo sujeira em seu nariz ao dar a primeira mordida. Eu comecei a rir e ele me acompanhou, limpando a cobertura com as costas de sua mão. Estava prestes a pegar uma rosquinha quando a maçaneta da porta fez barulho. Nicolás pegou a caixa de meu colo na velocidade da luz, para nossa sorte, pois era uma enfermeira, a mesma de mais cedo.
- Como a senhorita se sente? – perguntou ela, com um olhar terno.
- Tenho um pouco de dor na cabeça e na cintura, mas não está mais tão ruim.
Aquilo não era mentira, eu tinha certa resistência a dor, e só estava realmente doendo quando eu ria.
- Certo. – Assentiu me olhando, seus olhos pararam no fino cobertor que estava em cima de mim. – Isso por acaso é farelo de bolinho?
Ela não estava brava, pelo contrário, segurava um riso. Nicolás e eu tínhamos a mesma expressão.
- Você andou dando bolinhos para a minha paciente que acabou de sair do coma, Sr. Nicolás? – ela tinha se virado para ele.
- Ah qual é, Annie. Comida de hospital é horrível. - Tentou se defender.
Eles se conheciam?
- Só hoje. Ok? – ela disse rindo e Nicolás concordou com a cabeça, fazendo uma cara traquina.
Assim que ela saiu nós voltamos a comer, conversando sobre coisas aleatórias, rindo por besteiras, me permiti esquecer o porquê de estar ali, só aconteceu. Nicolás me perguntou se eu me incomodaria se ele me tratasse pelo primeiro nome, deixando de lado a formalidade, eu disse que não, estava realmente a vontade com ele. Em momento algum ele quis me interrogar, ele parecia mais preocupado comigo do que com a sua investigação, mais preocupado do que qualquer outra pessoa já demonstrou estar – eu não conseguia ver mentiras em seu olhar, e por esse motivo, quando estava prestes a cair no sono novamente, eu desejei que ele não fosse quem eu procurava, não queria que aquela história acabasse comigo colocado Nicolás atrás das grades.


Capítulo 3

POV.

- , acorde – alguém me cutucava de leve pela quarta ou talvez quinta vez.
Murmurei algo sem sentindo e me ajeitei mais na cama, tentando voltar ao sono profundo, mas seja lá quem fosse tentando me acordar não iria desistir tão cedo.
- – dessa vez foi um chacoalhão. Bufei irritada abrindo meus olhos, os coçando logo depois tentando deixa-los em foco. Era Nícolas. – Desculpa, não queria te acordar assim.
- Então por que acordou? – Ele me olhou constrangido, colocando as mãos no bolso da calça. Eu estava fula da vida, odiava que me acordassem. Virei para o outro lado querendo dormir de novo, mas quando fechei os olhos me lembrei da conversa com Nícolas mais cedo, ele não merecia meu mau humor. Passei um bom tempo refletindo e com toda a certeza aquele policial não era um suspeito meu, eu sabia reconhecer um mentiroso, ele era sincero demais e estava longe de ser um enganador. Nícolas parecia ser feito de algodão doce e unicórnios. Eu riscaria seu nome da lista de suspeito, mas não baixaria a guarda.
Virei-me para ele de novo e sorri amarelo, quis me sufocar com o travesseiro na mesma hora. O olhar constrangido ainda estava ali.
- Desculpa – pedi fazendo um biquinho – Eu não gosto que me acordem, é um convite pra um homicídio.
Ele riu da minha piada horrível – como todas as outras – e se aproximou de novo da cama.
- Tudo bem. - Respondeu, já mais tranquilo.
- Por que me acordou? Aconteceu algo? – perguntei curiosa.
Ele cruzou os braços e apoiou o corpo de lado na cama, mordendo os lábios sem parar. Não era coisa boa.
- Hm.. chamou a policia pra você – meus olhos se arregalaram na mesma hora – Se sua intenção era tirar ele do sério, você conseguiu. Ele estava rindo e eu continuava incrédula.
- Você tá rindo do que? Você me disse que eu não iria ser presa.
Levei as mãos para minha cabeça num sinal nítido desespero, eu estava fodida e Nícolas continuava rindo.
- E você não vai, fica calma. – Ele tirou minhas mãos de meus cabelos e as repousou na cama. Fiz cara de perdida e ele se apressou em explicar. – Ele te achou suspeita. Alegou que você parecia muito bem e tinha condições de dar o depoimento aqui mesmo. Eu sinto muito, como eu passei a noite aqui só fiquei sabendo agora, não pude fazer nada pra adiar isso um pouco.
- Como assim você ficou aqui a noite toda? – eu não havia dormido nem meia hora.
- Você dormiu ontem um pouco depois que a enfermeira Annie entrou aqui, e não acordou mais. – explicou.
Cocei a cabeça tentando ajeitar minhas ideias, eu me sentia um pouco lesada pelos remédios de dor, era verdade. Talvez por isso eu não percebesse o espaço de tempo. Assenti para Nícolas.
Ficamos em silencio por alguns minutos quando eu senti uma vontade louca de fazer xixi.
- Me ajude a levantar?
- Você vai querer fugir do depoimento? – questionou rindo, mas já se movimentava para me ajudar.
- Não me tente. – ri – Por enquanto só quero ir ao banheiro.
Ele puxou a fina coberta de cima de mim. Apoiei a mão em seu ombro e me ajeitei para pôr os pés no chão, mas antes mesmo que eu me sentasse direito eu já estava sendo carregada feito uma noiva. Só fui colocada no chão de novo quando chegamos á porta do banheiro que ficava no quarto. Meus pés tocaram o chão e eu senti uma pontada abaixo do peito na mesma hora, levei minhas mãos até lá, arfando com a dor. Mal as mãos de Nícolas tinham me abandonado e já estavam de volta, tentando me manter em pé. Senti outra pontada mais forte, que atrapalhava a minha respiração, tentei puxar o ar e só doeu mais ainda. Eu havia extrapolado, não era uma gênia, era burra, iam arrancar minha cabeça. O estrago havia sido exageradamente maior do que eu previ, nem os remédios que me deixavam lesadas pareciam o suficiente para que eu pudesse me levantar, eu só ficaria bem deitada ao que parecia, e isso seria por um bom tempo. Quando dei por mim estava chorando aos gritos de dor, tinha uma das mãos apoiada no ombro de Nícolas, que parecia desesperado. Ele tinha uma mão em minha cintura e a outra em minhas costas. Era nítido que ele estava com medo de me machucar mais ainda. Murmurava para eu ter calma enquanto eu só me desesperava mais. Eu estava começando a ficar com falta de ar e a cada esforço para respirar só aumentava mais a dor. A porta abriu e eu implorei por socorro, mas não era uma enfermeira.
correu até nós dois, deixando a porta aberta, meus olhos suplicavam ajuda, eu não me importava com quem ele era naquele momento, eu só queria que alguém fizesse aquela dor parar. Ele passou uma de suas mãos por debaixo de minhas pernas e levou a outra até minha cintura, onde estava a de Nícolas antes, quando me pegou no colo minha cabeça já rodava devido à falta de ar e o choro. Eu desmaiei em seus braços antes mesmo de chegar à cama, a última coisa que vi foi um policial gritando em direção ao corredor.

[...]


Acordei na manhã seguinte após o incidente na porta do banheiro, meu corpo estava tão leve que mais uma vez tive a sensação de que havia morrido, teria realmente acreditado nisso se não tivesse escutado o bip do monitor cardíaco. Abri os olhos lentamente para checar o aparelho, mas meu raciocínio foi interrompido quando meus olhos encontraram um rosto familiar.
- Oi - comecei com a voz fraca - Eu fui demitida?
Clarice levantou da cadeira bufando e marchou até a porta, achei que iria derrubar a estrutura de madeira pela cara que fazia, mas parece ter se lembrado que estávamos em um hospital.
- Eu não acredito que você fez isso, - começou brava, enquanto voltava para perto da cama - Qual o seu problema? Por acaso tava tentando comprar uma passagem só de ida pro inferno?
Respirei fundo, pensando em como explicar o que na teoria nem precisaria de uma explicação. Clarice sabia muito bem porque eu havia feito o que fiz, eu tinha noção de que havia extrapolado, mas em momento algum pensei que chegaria a tanto, mas acho que ela deveria entender que eu fiz o que era necessário para cumprir meu objetivo. Entendia a sua preocupação, ela não era só uma colega de trabalho mas também era minha melhor amiga e logo seria parte da minha família. Quando eu ia começar a falar ela se debruçou sobre mim e me abraçou.
- Você não sabe como eu fiquei desperada quando eu recebi a ligação. - Sua voz tremia um pouco, era uma mescla de preocupação, emoção e raiva.
- Clarice, eu não vou me desculpar porque sei muito bem onde você mandaria eu enfiar minhas desculpas - comecei - Mas estou feliz por estar viva e agradeço sua preocupação.
Ela revirou os olhos e se sentou novamente na cadeira, ela sabia como eu era. Ri baixinho do nosso modo, Clarice tinha 27 anos e eu 24, mas as vezes agíamos como duas crianças birrentas. Ela acabou rindo também, eu estava bem dentro do possível e não adiantaria ela me dar mais broncas, só havia uma pessoa pra quem eu abaixava a guarda e ela sabia que essa pessoa não era ela. Corri os olhos pelo quarto e me deparei com uma bolsa preta perto da minha cama, eu conhecia aquela bolsa muito bem. Apertei o botão pra ajustar a cama, seria mais fácil de alcançar se eu estivesse sentada. Consegui pegar a bolsa com um pouquinho de dificuldade, só para ouvir Clarice começar a reclamar logo depois.
- Que mania insuportável - ela tentou pegar a bolsa de volta, mas desistiu quando fiz cara feia e dei um tapa em sua mão. - Você não cansa de mexer nas coisas dos outros?
- Disse a Hacker - debochei - Que ironia vindo de alguém que invade sistemas e descobre até quantos centavos alguém tem no bolso.
- O nome disse é trabalho, VOCÊ é xereta e folgada.
Revirei a bolsa dela até encontrar o que procurava, ignorando as ofensas e tirando sarro do modo como falava. Peguei a pequena necessaire e deixei a bolsa de canto, revirando suas maquiagens atrás de um espelho.
- Por que ao invés de falar mal de mim você não me conta o que o médico disse depois que eu desmaiei e todo o resto.
- Pff, agora você quer saber da sua saúde? Você quebrou duas costelas - seu tom de voz voltou a ficar sério - não podia ter levantado da cama sem ajuda de um enfermeiro e muito menos ter tentado andar. Muito me espanta um policial ter sido tão imprudente.
Parei de mexer na necessaire e olhei séria pra ela.
- O policial imprudente foi quem salvou minha vida - voltei a mexer na bolsinha, já sem paciência. - Que droga, Clarice, não tem a porcaria de um espelho nessa coisa.
Ela se levantou e pegou sua bolsa, tirando um espelho do bolso lateral.
- Tem certeza que quer ver?
- A coisa tá tão ruim assim? - Ok, agora eu estava realmente preocupada. Peguei o espelho da sua mão e me arrependi assim que abri e vi meu reflexo, eu tinha um dos olhos roxos, minha bochecha esquerda tinha um corte enorme, meus lábios estavam inchados e cortados e haviam diversos curativos perto da minha sobrancelha, isso sem contar a faixa enorme que estava em volta da minha cabeça amassando meu cabelo, que por sinal estava um lixo ainda pior. Apertei os lábios em uma linha reta, não queria chorar por me ver naquele estado. Respirei fundo e peguei a necessaire novamente, a maquiagem poderia ajudar um pouco a melhor meu rosto e haviam coisas mais importantes.
- Clarice, eu precise que você me conte o que aconteceu depois que a polícia me trouxe pra cá. Quem conversou com eles?
Eu amava o fato da minha melhor amiga entender quando eu não queria mais tocar em assunto e partir pra outro quando eu simplesmente mudava o rumo da conversa. Compreensiva como era, ela se sentou na cama e começou a me ajudar com a maquiagem, enquanto começava a falar.
- Eles me ligaram assim que te trouxeram pra cá, mas como eu supostamente teria que estar longe na hora do atentado, não pude vir pra cá na hora. Falei com eles por telefone e fiquei em choque quando me falaram do seu estado - sua voz voltou a ficar tremula - não era pra ter chegado a tanto. Eu queria correr pra cá, mas não me deixaram.
Clarice passava a maquiagem bem devagar, tentando não piorar os machucados, mas foi inevitável soltar um gemido de dor quando o pincel passou pelo corte em minha bochecha.
- Continua - pedi quando ela abaixou o pincel e me olhou triste. Ela ia começar a falar, mas interrompi, levando sua mão com o pincel de base novamente ao meu rosto, dando a entender que deveria continuar com a maquiagem - Os dois.
Ela assentiu e voltou a trabalhar no meu rosto, com a mão mais leve ainda.
- Eu cheguei aqui ontem a noite, me contaram o que aconteceu e logo depois me encheram de perguntas. Um policial chamado Green, na verdade, fiquei com vontade de socar a dele. Um grosso.
- Não foi a única. - Ri baixinho. - Ele queria me prender por desacato.
Clarice se afastou pra me olhar.
- Inacreditável - disse chacoalhando a cabeça. - Eu não sei o que aconteceu, mas tenho certeza de que você provocou.
- Talvez, mas continua.
- Enfim, me perguntaram se alguém teria algum motivo pra te atacar - continuou contando, enquanto passava o gloss em mim - e eu disse o combinado. Você era uma pessoa sem inimigos, mas seu irmão vendia drogas e tinha envolvimento com a máfia italiana. Aquele grosso ficou bem intrigado e acho que ele vai ficar no seu pé, como a gente tinha planejado, mas acho que você vai ter problemas.
- Por que? - Perguntei sem entender.
- Porque a ideia era que você tivesse um só policial na sua cola - explicou enquanto passava o rímel nos meus cílios - mas parece que vão ser dois. Aquele irresponsável que te tirou da cama.
- Nicolas - interrompi.
- Tanto faz, ele me deixou um pouco intrigada. Enquanto o outro parecia mais preocupado com a situação em si, ele parecia mais preocupado com você.
Fiquei pensando naquilo, eu também havia notado a preocupação do policial Hans comigo, mas meu instinto não apontava nada pra ele, e eu confiava muito no meu instinto. Meus pensamentos foram interrompidos por batidinhas na porta, meu visitando, porém não esperou resposta para entrar.
- Tudo bem por aqui? - era Green, estava sério - Eu ouvi vozes enquanto fazia a ronda - ele já estava me vigiando? Perfeito. - Imaginei que tivesse acordado, acho melhor chamar uma enfermeira? - Sua última palavra saiu mais como uma pergunta, ele reparou que minha miga me pintava e pareceu um pouco intrigado.
Eu iria responder, mas Clarice não me deu chance. Ela apertou o botom pra chamar a enfermeira sem tirar os olhos de mim, ignorando completamente a presença do policial no quarto.
- Já chamei - sua voz era firme e não deixava brechas para qualquer conversa. Ele havia mesmo irritado ela, até mais do que a mim pelo jeito. - Pode sair, fecha a porta.
Ele saiu sem dizer nada, sem sequer fazer uma cara feia. Era só eu que recebia deboche e careta?
- Não suporto homens grosseiros. Acabei.
Peguei o espelho novamente, ela havia feito um bom trabalho. Não dava pra dizer que eu estava linda, mas também não estava tão horrorosa como antes.
- Obrigada.
- Você vai conseguir fazer seu trabalho com dois policiais na sua cola? A gente pode tentar dar um jeito pra ser só um, eu não sei.
- Vou - respondi, ajudando ela a arrumar a bagunça de volta em sua bolsa. - Nicolas parece ser mais tranquilo, vai ser interessante porque ele trabalha com o Green e pode me dar mais informações. Green parece ter sido um ótimo acerto, ele é filho do chefe.
- O pai daquele grosso é um delegado? - ela parou de mexer na bolsa e me olhou séria.
- Sim, eu ia tocar nesse assunto com você. Você já sabe o que fazer, o nome dele é Green, procure toda a informação que puder.
- Só dele? - sua sobrancelha estava erguida, questionando algo que eu não queria entregar - Você chamou o outro policial duas vezes pelo nome e ele não te tratou por Jude também enquanto falava comigo. O que tá rolando? Vocês já se conheciam? Ele é um ex seu ou algo assim?
De onde ela tirou isso? Meu Deus.
- Você tá maluca? Clarice, você sabe onde eu esconderia um cadáver. Por que eu esconderia algo de você?
- Não é algo, é alguém. Você sabe o que eu quero dizer.
Ela tocou num assunto que eu estava tentando evitar, pois envolvia muitas coisas, não só do trabalho, mas também pessoais, e uma coisa sempre acabava envolvendo a outra.
- Eu juro pra você que eu nunca tinha visto esse policial até eu acordar nessa cama ontem - ela cedeu, sabendo que eu não mentiria sobre esse assunto, e voltou a sentar do meu lado. - O nome dele é Nicolas Hans, ele tem 24 anos e é policial a 5, fica à vontade pra investigar. Mas o meu instinto não falha, e não tem nada perigoso nele.
Ela assentiu, não tinha a mínima ideia do que se passava na cabeça dela agora, mas eu me vi obrigada a voltar no assunto que não queria tocar, com medo da resposta, mas com a curiosidade falando mais alto.
- E ele? - perguntei baixinho.
Clarice coçou os olhos e respirou fundo, só por esse gesto já entendi que a coisa iria piorar.
- Ele tá furioso, sinceramente eu acho que se você tivesse morrido ele não iria se perdoar nunca e acabaria morrendo também. Eu não entendo, tenho a impressão de que ele daria a vida por você, mas ele não...
- Não quero falar mais disso. - interrompi. - E o meu irmão?
- Ok. Lucas está bem, preocupado com você mas bem. Ele vai ficar escondido pra nenhum policial ir atrás dele, como a gente já tinha acertado.
Assenti. Meu irmão era tudo pra mim, desde que toda aquela loucura começou foi a primeira vez que senti culpa, quando pensei em Lucas. Meus pais passavam o tempo todo viajando, eram carinhosos, mas ao mesmo tempo eram ausentes, por um lado era bom porque facilitava o nosso trabalho, mas por outro eu sentia falta deles. Durante a maior parte do tempo, eu só tinha o meu irmão e éramos muito unidos. Quando eu quis entrar no meio disso tudo ele relutou muito, afinal um de nós em perigo já era o suficiente, mas quando eu me encontrei no meio das investigações e ele viu que eu realmente amava fazer isso, não pode mais me impedir. E assim chegamos até aqui, Lucas estava a 5 anos no FBI e eu a 2, era esperta demais para fazer somente trabalho de escritório, com menos de um ano já tinha virado a gente de campo. Eu amava aquilo.
Olhei pra Clarice e sorri, as vezes eu me perdia pensando nessas coisas. Ela namorava com meu irmão desde a adolescência. Nós éramos vizinhas e crescemos juntos, naquela época mal sabíamos que terminaríamos todos metidos na mesma equipe trabalhando no FBI. Ela odiava o trabalho de campo, era uma hacker extraordinária e uma das pessoas mais inteligentes que já conheci. Clarice vinha de uma família que exercia a lei, seus avós serviram a marinha e seus pais serviram no exército e morreram em batalha, eram heróis. Ela seguiu no caminho a favor da lei, embora de outra maneira. Sua escolha era completamente diferente da de seu irmão, ele era...
Tive meus pensamentos interrompidos pelo barulho da porta, minha amiga que quase cochilava na cadeira se virou para olhar, assim como eu. Quando a porta abriu de vez meu sorriso foi inevitável. Seu nome escapou pela minha boca antes mesmo que eu pudesse pensar.
- Aaron.


Capítulo 4

POV.

Meu sorriso se desfez assim que vi a expressão nada amigável de Aaron, sua cara fechada me dava um leve sinal do que eu poderia esperar nos próximos instantes.
- Clarice - ele chamou a irmã, apontando a cabeça na direção da porta, ainda sem me olhar nos olhos.
- Ok - ela se levantou sem a menor cerimônia, entendendo que ele queria que ela deixasse o quarto.
Isso não era bom, eu levaria uma bronca ainda maior do que a de Clarice e eu não suportaria aquilo vindo dele, principalmente se ele quisesse me demitir. Eu quase nunca tinha forças suficientes pra me impor a Aaron, fosse no trabalho ou em qualquer outra questão.
Segurei o braço da minha melhor amiga, em um pedido silencioso para que ela ficasse até eu ter certeza de que as coisas não fossem seguir um rumo muito ruim, mas sabia que não adiantaria. Ela deu um beijo na minha testa e saiu a passos lentos do quarto, pude perceber ela murmurando um "pega leve" para Aaron antes de fechar a porta.
Me ajeitei na cama, tentando ficar o mais ereta possível enquanto Aaron caminhava em minha direção finalmente me olhando. Seus olhos queimavam de fúria, eram raras as vezes em que eu conseguia tirar ele do sério, normalmente nos dávamos bem em 90% do tempo, mas daquela vez ele parecia estar com raiva de um jeito que eu nunca tinha visto.
Só notei que estava prendendo o ar quando precisei fazer força para respirar, o monitor cardíaco disparou como louco quando ele estava a apenas alguns passos da cama. Me preparei para começar a me justificar quando Aaron tomou a atitude que eu menos esperava, eliminando qualquer espaço entre nós.
Não sei como aquilo aconteceu tão rápido, eu mal pude me dar conta de quando fui tomada pelos seu lábios que me beijavam com fúria, não sei quando ele se sentou na cama e eu cedi ao seu beijo, mas já o agarrava com a mesma intensidade. Embrenhei meus dedos em seu cabelo e retribui o beijo com mais vontade ainda, não costumávamos ficar muito tempo longe um do outro, não tinha percebido o quanto havia sentido falta do seu toque até o momento em que ele me beijou.
Uma de suas mãos passeava pela minha cintura enquanto a outra permanecia agarrada aos meus cabelos, mantendo meu rosto colado ao seu. Eu sabia que aquilo era errado, sabia o quão arriscado era estar com ele em um lugar onde a porta não estava fechada e qualquer um poderia entrar, mas não conseguia me afastar, nem mesmo Aaron que era sempre tão cuidadoso com a nossa relação parecia se importar com isso naquele momento. Eu entendia o desespero, pelo menos uma vez durante os últimos dias deve ter passado pela sua cabeça que ele poderia me perder, que nunca mais sentiria os meus lábios no seu outra vez. Queria sentir que eu ainda estava ali, que era real e ainda era dele.
Mordi seu lábio inferior e senti sua mão apertar minha cintura com um pouco mais de força do que deveria, não queria que ele parasse de me beijar, mas assim que ele me ouviu arfar de dor partiu o beijo. Não demorou muito pra que ele se afastasse, estava ofegante mas tentava sustentar uma expressão mais séria do que de surpresa pela suas ações, porém não estava dando muito certo, eu o conhecia muito bem.
Com Aaron afastado de mim pude finalmente reparar no monitor cardíaco de novo, lá estava ele disparando como louco novamente, era esse o efeito que aquele homem tinha sobre mim. Coloquei a mão no peito tentando controlar a minha respiração e acabei rindo involuntariamente de tudo aquilo, embora eu não tivesse condição nenhuma, se aquele beijo tivesse durado mais alguns segundos eu logo estaria em cima dele tratando de tirar sua camisa, era incrível como ele me fazia perder o controle. Eu ainda ria quando Aaron se levantou e apertou o botão para silenciar o aparelho, atitude inteligente, pois se aquela coisa não parasse de fazer barulho logo uma enfermeira viria até o quarto e o colocaria para fora dizendo que ele estava me agitando e eu precisava de repouso, o que de certa forma não era mentira.
Ao invés de se sentar novamente, vi o homem de olhos castanhos se dirigir até o outro lado do quarto e encher um copo de água no filtro que ficava ali. Aproveitei o momento para admirar a visão, ele usava terno e eu ficava completamente apaixonada por ele daquele jeito, se tornava ainda mais homem e ainda mais sexy quando tinha uma gravata em seu pescoço. Era uma sacanagem ele ir me vestido daquela forma e me beijar assim quando eu não poderia fazer mais nada depois. Filho da mãe.
Não sei se era resultado das pancadas ou dos últimos acontecimentos, mas eu andava muito perdida nos meus pensamentos desde que havia acordado do acidente, não vi quando ele voltou para perto de mim, quando voltei pra Terra ele já estava sentado na cama novamente, me estendendo um copo de água.
Bebi aquilo o mais devagar possível, sabendo que assim que acabasse ele arrancaria a minha alma do corpo e tentaria me demitir, mas infelizmente o copo não era tão grande. Não havia mais como adiar aquela conversa.
- Vai, pode começar. Clarice já me passou um sermão, é a sua vez.
- Eu não sei o que dizer pra você. - Oi? Eu ouvi direito? Não consegui decifrar sua expressão.
- Você entrou com uma das piores caras que já te vi fazendo e agora me diz que não sabe o que dizer?
- Você é uma filha da puta, - disparou enquanto esfregava a testa - Eu entrei aqui pronto pra brigar com você e dizer umas boas verdades que você com certeza tá merecendo escutar, mas você me desarmou completamente quando eu te vi. - Sua voz continha um tom de raiva e ele parecia se controlar pra não botar tudo aquilo pra fora de uma vez, de uma forma que me magoasse. - Você é cheia de dizer que eu mando nessa relação, mas você me manipula só com o olhar, você merecia um belo de um esporro pela sua estupidez e eu simplesmente não consigo falar nada do que eu queria. Você por acaso parou pra pensar em mim enquanto quase se matava naquele quarto? - Seu tom de voz diminuiu, puder notar uma lágrima escorrendo pelo canto de seu olho. - Como eu iria ficar se não te salvassem a tempo, como?
Ás vezes eu não sabia lidar com a nossa relação, Aaron sentia que eu o manipulava mas era a única pessoa pra quem eu baixava a cabeça e de quem aceitava ordens. Eu era impossível e só ele parecia dar conta de mim, como se eu fosse um leão e ele o meu domador. Mas ele não se via naquela posição, e não era difícil entender o porquê, ás vezes eu mandava mesmo nele, mas não era como se ele fosse meu cachorrinho ou algo assim. Era uma relação complicada demais, mas não sabíamos viver um sem o outro.
- Me perdoa - disse baixinho, enquanto esticava a mão pra fazer carinho em seu rosto. Vi ele fechar os olhos e derrubar mais algumas lágrimas quando a pele quentinha da minha mão encontrou sua bochecha e ele se aninhou ali.
- Você sabe que eu sempre perdoo.
Ele permaneceu de olhos fechados, mas colocou sua mão em volta da minha. Procurei sua outra mão livre e entrelacei meus dedos nela.
- Eu sei que passei dos limites, mas nunca pensei que fosse me machucar tanto. Não queria me matar. - disse sincera.
Aaron soltou a sua mão que estava em volta da minha, pousando a minha na coberta logo depois. Vi ele se ajeitar e assentir com a cabeça.
- Eu sei. Quero deixar bem claro pra você também que esse é o único motivo de você ainda ter um distintivo. Você arriscou sua vida pra conseguir chegar ao fundo de um caso e não seria justo afastar você agora. Mas saiba que foi a última vez que eu te designei pra fazer algo assim. Você não tem juízo.
Concordei com a cabeça, eu já esperava aquilo. Mas pelo menos ainda tinha o meu emprego e continuava naquela missão.
- Eu já imaginava. Obrigada por reconhecer meu sacrifício. - ri enquanto ele permanecia sério.
- Não tem graça, . Você poderia ter morrido.
- Aaron - falei séria - EU - JÁ - SEI. - estava perdendo a paciência com aquilo - Todo mundo vem aqui e me fala isso, eu já sei que poderia ter morrido. Por quê ao invés de bater na mesma tecla você não muda o disco.
- Você não tem jeito mesmo. - Aaron disse bufando e rolou os olhos. Hoje os irmãos Smith decidiram testar a minha paciência, só faltava entrar naquele quarto de novo pra que eu explodisse de vez.
Respirei fundo tentando me manter calma, eu não queria brigar. Brinquei com nossa mão que ainda estava entrelaçada até atrair sua atenção, ele olhou o que eu fazia e balançou a cabeça rindo baixinho. Me inclinei em sua direção e encostei meus lábios nos seus, dessa vez o beijo foi mais calmo, nos permitindo respirar, ele me deu vários selinhos e encostou sua testa na minha.
- Eu amo você - sussurrou - Não me assusta mais assim.
- Eu prometo.
Ouvimos um barulho na porta e tratamos de nos afastar rapidamente. Era Annie, com seu sorriso amigável.
- Por que isso está mudo? - questionou mexendo no monitor e ligando o som novamente.
- Desculpa, eu pedi para minha amiga desligar antes de sair. O barulho estava me dando dor de cabeça.
Vi Aaron dar um sorriso sapeca com a minha mentira, eu era rápida naquilo. Annie no entanto, não pareceu notar, apenas assentiu.
- Preciso que o som fique ligado, do contrário se ocorrer algo ninguém virá te socorrer. Sua cabeça ainda dói?
- Um pouco, mas tudo bem. Se puder me dar um analgésico, estou com um pouco de dor na cintura também, nas costelas. - aquilo era verdade.
- Tudo bem.
Vi Annie mexer no armário que permanecia trancado e tirar de lá o que supus ser um analgésico. Tomei assim que ela me entregou o comprido junto com um copo de água. Depois de checar que estava tudo certo, ela se retirou do quarto.
- Desculpa, eu esqueci do seu estado e acabei passando dos limites - demorei um pouco pra entender que ele se referia ao apertão na minha cintura um pouco antes. - Te machuquei?
- Não, eu só não posso fazer nada muito brusco, as vezes até rir dói.
Ele assentiu e ficou em silêncio por alguns minutos. Aaron havia se sentado na cadeira em frete a cama quando Annie quis me examinar. Ele fez aquela expressão de quando queria me dizer algo e não sabia como, se inclinou uma quarta vezes pra frente e desistiu. Não era nada agradável pelo jeito.
- Fala.
- Não dá pra esconder nada de você mesmo, né? - ele riu sem humor - Olivia quer te ver.
- Não.
- , ela não sabe de nada. Pra ela você foi realmente atacada, ela ficou preocupada. Ela nem sabe que você trabalha comigo, imagina o susto que ela tomou quando a Clarice chegou e disse que você tinha levado uma surra e ficou em coma.
Aquilo estava fora de cogitação, eu era sim forte e uma bela mentirosa, mas também não tinha sangue de barata. Evitava qualquer contato próximo com Olivia, eu sabia que estava sendo uma bela de uma filha da puta com ela e quanto mais longe eu me mantivesse dela, menos pior eu conseguiria me sentir comigo mesma.
- Aaron você não tem vergonha de me pedir isso? - Sério, eu me recusava a acreditar que ele achava aquilo uma coisa boa a ser feita. - Em que momento passou pela sua cabeça que eu me sentiria confortável com ela aqui me paparicando e fazendo carinho na minha cabeça enquanto diz que ficou feliz por eu estar bem?
- Você quer que eu diga o que pra ela? - ele parou me encarando sério. - "Olha Olivia, ela não quer te ver porque se sente mal toda vez que olha pra você porquê ela está transando com seu marido." É isso que você quer que eu fale?
- Cala a boca, Aaron.
Eu odiava aquela situação, amava a Aaron mais do que acreditava amar a mim, mas ele não era meu, pertencia a outra pessoa. Ele havia se casado com Olivia a 7 anos atrás, mas mantinha um relacionamento comigo a 3.
Nossa relação começou graças a uma brincadeira idiota na sala de Clarice, eu nunca esqueceria aquele dia.

Flashback - 3 anos atrás.

Estávamos comemorando com um grupo de amigos que havíamos terminado a faculdade e decidimos jogar o jogo da garrafa. Metade do nosso grupo já se encontrava ligeiramente bêbado, exceto por mim e minha melhor amiga, mas pela garrafa que ela acabava de virar, acho que não pretendia ficar sóbria por muito tempo também.
A garrafa girou novamente e terminou apontada pra mim.
- Vamos lá - começou Kyle, que havia girado a garrada - Com quem Jude perdeu a virgindade?
Ok, por aquela eu não estava esperando. Eu não queria contar ali no meio de todo mundo que ainda era virgem, havia umas quinze pessoas naquela sala e nem todos eram tão próximos de mim.
- Desafio.
- Ok, vai lá no quarto do irmão da Clarice e da mulher dele só de lingerie e chama eles pra um ménage.
O QUE?
Olhei pra Clarice com os olhos arregalados e ela ria sem parar, já estava bêbada. Não ia ter jeito. Kyle imbecil. Em um ato de imbecilidade maior ainda, eu aceitei o desafio e tirei minhas roupas na sala, fazendo a alegria dos meus colegas e amigos bêbados.
Corri seminua em direção aos quartos, tentando me esconder em minha própria lingerie enquanto eles voltam a girar a garrafa. Minha ideia era bater na porta e chamar só Olivia pra que ela mentisse que eu cumpri o desafio, o problema foi que quando eu chamei por ela, Aaron foi quem abriu a porta e estava só de cueca.
Abri a boca várias vezes mas não consegui dizer nada, estava constrangida por estar seminua e não conseguia tirar os olhos do corpo praticamente nu de Aaron. Seus olhos passeavam descaradamente pelas minhas curvas e ficaram um bom tempo parados nos meus peitos parcialmente cobertos pelo sutiã que eu tentava tampar sem sucesso.
- O- Olivia n- ão está - ele gaguejou, provavelmente tão constrangido quanto eu. Ele pigarreou umas duas vezes e virou a cabeça pro lado, tentando desviar o foco do meu corpo. - Ela teve que viajar por um problema fa-familiar, foi de última hora.
Assenti. Porque eu ainda estava ali?
- Tá tudo bem lá em baixo? - perguntou voltando a me olhar - Você sujou sua roupa e queria algo de Olivia emprestado?
Se eu dissesse que nunca me senti atraída por ele seria mentira, homens mais velhos me chamavam atenção e ele era maravilhoso, digamos também que eu tinha uma espécie de atração por ele desde a adolescência, mas era ridículo, ele tinha 6 anos a mais que eu e nunca me deu bola. E eu sempre mantive o respeito pelo fato dele ter namorada e agora era um homem casado. Naquele dia, porém, o destino parecia ter brincado comigo.
- ? - ele chamou novamente.
Chacoalhei a cabeça saindo dos meus devaneios e tirando olho das suas entradas.
- Eu... eu
- Você...? - não dava, eu voltei a encarar seu corpo perfeitamente definido, ele tinha os músculos certos nos lugares certos sem ser de uma forma exagerada. Vendo que eu não respondia ele me chamou de novo. - ? Acho melhor você entrar e se vestir.
Ele se afastou dando passagem para que eu entrasse no quarto, mas eu não sabia se aquilo era uma boa ideia, ainda mais comigo babando daquele jeito pelo corpo dele. Agora Aaron não era só um rosto bonito, era um corpo extremamente gostoso e convidativo. Eu permaneci travada na porta até ver ele esticar a mão na minha direção com uma camisa, sua camisa. Merda.
Entrei no quarto aceitando a camisa e a vesti o mais rápido possível. Aaron era muito mais alto do que eu, logo a peça cobriu meu corpo até quase o joelho, o que era um alívio. Não tive coordenação motora pra fechar os botões, então só cruzei os braços tentando tampar o máximo possível. O maior problema foi que a blusa estava infestada com o seu cheiro que era delicioso. A coisa ficava cada vez mais dificil, por sorte ele parecia mais calmo e tentava não piorar tudo, vi ele vestir uma calça de moletom e sentar no pé da cama, perto de onde eu estava. Droga, não dá pra elogiar a situação mesmo.
- Quer me contar porque subiu aqui assim? - Sua voz estava séria, mas eu ainda podia perceber seu olhar sobre meu corpo, ainda que mais discreto.
Ele estava gostando da situação? Eu estava gostando da situação? Que merda era aquela.
- Eu... - respirei fundo e olhei pra cabeceira da cama, tentando não me perder nas sua entradas de novo - eu não quis responder a uma pergunta e me desafiaram a vir aqui só de lingerie chamar vocês pra um ménage.
Aaron começou a rir, uma risada extremamente sexy. Ele sempre riu daquele jeito e eu nunca percebi?
- Você ia mesmo fazer isso? - ele ainda ria e eu novamente desviei meus olhos pra não perder o juízo.
- Não, por isso eu chamei a Olivia. Minha ideia era contar pra ela e depois pedir que ela descesse comigo pra dizer que eu cumpri o desafio.
Aaron umedeceu os lábios, tentando esconder um sorriso e eu vi que realmente precisava sair dali ou eu iria voar em cima dele a qualquer minuto. Parece que todos os meus hormônios decidiram se manifestar naquele dia.
- Acho melhor eu ir - comecei a falar e dei um passo em direção a porta. Por ironia do destino, eu tropecei em um cinto que estava no chão e cai pra frente, fechei os olhos pra evitar medir o tombo que ia levar, mas Aaron foi mais rápido e me segurou pra que eu não me esborrachasse contra a madeira da cama, o problema foi que acabou me puxando pro seu colo.

(n/a: coloque Body Party da Ciara para tocar.)

Droga, droga, droga, droga.
Eu estava sentada em seu colo seminua. A adolescente que ainda habitava em mim fez a adulta arfar quando sentiu o delicioso cheiro de sabonete exalar do corpo de Aaron. Me permiti abrir os olhos e logo me arrependi, ele me olhava cheio de luxúria, com os lábios entre abertos e parecendo tão cheio de desejo quanto eu. Seus cabelos molhados pingando água em seu peito deixavam a situação ainda mais sexy.
Não dava mais.
Soltei o peso do meu corpo sentando de vez em seu colo, sentindo um certo volume no lugar. Uma de suas mãos escorregou pelas minhas costas enquanto a outra subiu pelo braço até chegar no meu pescoço.
Toquei seu rosto com as duas mãos e me aproximei de seus lábios, quando estava a ponto de beijar ele escutei- o sussurrar baixinho:
- Você bebeu?
Não sei se ele estava fazendo de propósito, mas sua voz saiu rouca e ainda mais sensual, o que fez meus hormônios gritarem dentro de mim, acabei me movimento em seu colo involuntariamente.
- Dois copos de tequila - respondi, no mesmo tom.
- Você não tá bêbada, né? - sua boca subiu até meu ouvido, enquanto a mão que estava em meu pescoço parou na gola da blusa. Fiz que não com a cabeça, respondendo a sua pergunta.
Deslizei meus braços pelo seu pescoço e senti seu olhar queimar novamente nos meus.
- Me diz seu nome - sussurrou novamente - e quantos anos você tem.
Seu nariz passou pelo meu pescoço, me provocando arrepios de cima a baixo.
- Meu nome é Jude - devolvi o sussurro, pressionando minha intimidade contra sua ereção que crescia cada vez mais. - Tenho 21 anos e não sei o que você está esperando pra terminar de tirar a minha roupa. - respondi, mordendo o lóbulo de sua orelha.
Foi o suficiente para que ele terminasse de perder o juízo e me fizesse perder o que ainda restava do meu logo depois.
Aaron colou seus lábios no meu, eu ri durante o beijo sem acreditar que aquilo estava mesmo acontecendo. Sua boca era tão gostosa quanto eu havia imaginado, sua língua se entrelaçava a minha sem pudor e sua mão em minhas costas me puxava cada vez mais para si.
Entrelacei minhas pernas em sua cintura terminando com qualquer espaço entre nós. Sua mão que estava em minha nuca desceu até a gola da camisa e começou a puxar ela para baixo, soltei seu pescoço para me livrar de vez da peça, minha ideia era arrancar aquilo sem cerimônias e sem partir o beijo, mas Aaron desgrudou sua boca da minha e começou a deslizar o tecido pelo meu corpo da forma mais lenta possível, acompanhando cada parte com o olhar.
Quando a camiseta já estava no chão ele me puxou para perto de novo, voltando a explorar meu corpo com as mãos.
- Isso é tão errado - disse baixinho, me olhando nos olhos.
Por um momento eu achei que ele iria desistir de continuar aquilo, mas mal tive tempo de responder e sua língua já me pedia passagem novamente. Já havíamos passado dos limites, não era hora de voltar atrás.
Meu corpo queimava, eu nunca havia sentido aquilo, era assim que você se sentia quando estava com alguém que desejava? Aaron passou a beijar meu pescoço e institivamente eu comecei a rebolar em seu colo, eu sentia minha intimidade cada vez mais úmida, acho que eu nunca tinha ficado tão excitada em toda minha vida, claro tampouco tinha ficado seminua no colo de algum homem alguma vez.
Passei minhas mãos pelo seu peito, descendo devagar e arranhando levemente suas entradas enquanto seus lábios iam em direção aos meus seios ainda cobertos pelo sutiã.
Encontrei o elástico de sua calça e puxei para baixo, entendendo o que eu queria ele puxou a peça de uma vez, sem desgrudar seu lábios do meu corpo.
Procurei sua boca novamente, cada vez mais excitada com sua ereção raspando em minha intimidade através da calcinha. Senti sua mão abaixar a alça do meu sutiã e rebolei mais em seu colo, incentivando para que ele eliminasse qualquer peça de roupa logo.
Para a minha surpresa ele se levantou comigo no colo, só pra me jogar na cama logo depois. Ainda de pé ele encarou meu corpo de cima a baixo, passando a mão nos cabelos e puxando pra trás, ele riu sem emitir som nenhum e eu logo o acompanhei.
Vi Aaron fechar a porta que eu havia me esquecido completamente que estava aberta, escutei o barulho da chave logo depois. Aquilo ia mesmo acontecer.
Quando ele se virou ainda sorrindo eu decidi acelerar as coisas, me ajeitei na cama pra abrir o sutiã e me livrei daquela parte da lingerie o mais rápido possível.
Aaron parou na metade do caminho, admirando a visão, e eu fui pega completamente desprevenida quando ele decidiu tirar a única peça de roupa que ainda lhe restava no meio do caminho, infelizmente não tive muito tempo pra contemplar a visão, eu mal pisquei e ele já estava em cima de mim distribuindo beijos por todas as partes.
Eu não sei se eram os dois copos de tequila (o que achava impossível) ou a adolescente que estava muito feliz (opção mais provável), mas eu não conseguia para de rir, eu estava muito feliz com a situação e nunca mais xingaria Kyle de imbecil por qualquer coisa que fosse, sua pergunta idiota havia me levado até ali. A essa altura todo mundo já deveria estar tão bêbado que nem se lembrava mais do que eu tinha ido fazer.
- Do que você tá rindo? - Aaron perguntou, alargando o sorriso contagiado pela minha risada.
- Eu vim parar aqui porquê eu não quis responder uma pergunta e a minha eu de 16 tá muito feliz. Então ela quis que eu comemorasse.
Eu ri mais ainda quando Aaron jogou a cabeça pra traz e riu junto comigo. Aproveitei sua distração pra enroscar uma das minhas pernas em sua cintura, mas ele parou de rir e ficou sério. Achei que era por causa do que tinha feito, ia mover minha perna novamente, mas ele deslizou sua mão até minha coxa e segurou ela ali.
- Sua eu de 16 anos? Tá dizendo que...? - Ele perguntou um pouco confuso.
Assenti com uma expressão um pouco constrangida, mas Aaron logo sorriu e me beijou de novo. Sua mão que estava em minha coxa subiu um pouco e se enroscou em minha calcinha, torcendo o tecido na lateral.
- Eu tenho duas perguntas antes da gente continuar isso. - Disse com o rosto próximo ao meu, ainda sorrindo.
- Eu já falei que não estou bêbada -. Ri
- Não é isso, o que te perguntaram de tão ruim que você preferiu correr pra cá só de calcinha e sutiã?
Cogitei falar a verdade, mas fiquei com medo de que ele repetisse a mesma pergunta de Kyle, eu acabaria soltando que era virgem e não sabia como ele reagiria com aquilo. Se ele decidisse que não era uma boa ideia continuar por conta disso eu ficaria frustrada pelo resto da vida.
- Nada que seja do interesse de um homem de 27 anos.
Sua mão soltou um pouco a lateral da minha calcinha.
- Tem certeza? - um sorriso sapeca dançava em seu rosto.
Coloquei a minha mão em cima da sua, fazendo ele segurar novamente o tecido como antes.
- Tenho. Qual a segunda pergunta?
Eu ainda ria, mas vi seu rosto assumir uma expressão um pouco mais séria.
- Tem certeza de que quer fazer isso?
- Você não quer? - arqueei as sobrancelhas, um pouco confusa.
- Eu to perguntando se VOCÊ quer.
Assenti, puxando ele pra mais um beijo. Eu não havia chegado até ali pra desistir na hora h, não me importava mais se aquilo era errado ou não.
Aaron tirou a minha calcinha da mesma forma que havia feito com a camiseta antes, eu sentia meu corpo se arrepiar cada vez que sua mão encostava em minha pele. Quando ele se afastou pra procurar uma camisinha na mesa de cabeceira eu finalmente tive tempo pra admirar o que ele não me deixou fazer antes.
Se Aaron já era um dos caras mais gostosos que eu conhecia, ele sem roupa iria parar no topo da lista. Mordi os lábios com a visão, gravando cada detalhe do seu corpo, e tentei relaxar o máximo possível para o que viria logo depois.
Perdi o ar quando seu corpo se encaixou novamente no meu e ele buscou espaço entre minhas pernas. Totalmente inconsciente de que aquela era minha primeira vez, Aaron me penetrou de uma vez só, me fazendo soltar um grito que era mais de dor do que prazer. Ele me olhou assustado e fez menção de sair de dentro de mim, mas o impedi fincando as unhas em seus ombros e beijando sua boca do jeito mais apressado possível.
Ele começou a se movimentar devagarinho enquanto eu fazia o máximo pra disfarçar a careta de desconforto até me acostumar com o entra e sai na minha intimidade. Não percebi em que momento eu deixei de sentir tanta dor e passei a gemer baixinho na boca dele, mas ele fazia o mesmo, soltava gemidos e palavras sem sentido, mas sem descolar sua boca da minha.
Voltei a colocar uma das minhas pernas em sua cintura e ele pareceu gostar, apertando a minha coxa bem ali. Parecia uma posição mais confortável também, senti ele intensificar os movimentos e gemer um pouco mais alto. Sentia o suor escorrer pela minha nuca. Eu nunca havia sonhado com a minha primeira vez, mas tinha certeza que aquilo era muito melhor do que qualquer coisa que eu poderia ter imaginado.
Senti algumas espasmos seguidos por uma sensação que no momento eu não saberia descrever, um prazer tão gostoso que não poderia ser igualado a nada que eu já havia sentindo. Aaron havia me dado o meu primeiro orgasmo. Sorri igual idiota voltando a beija-lo enquanto ele me penetrava mais algumas vezes. Achei que fosse gozar de novo quando vi a cara dele tendo um orgasmo e gemendo, sério ele parecia ficar mais gostoso a cada vez que eu olhava pra ele.
Ele investiu mais algumas vezes e depois saiu por completo, se afastando de mim com selinhos para ir se livrar do preservativo.
Aquilo havia mesmo acontecido? Eu me sentia nas nuvens. Aaron era maravilhoso em todos os aspectos.
Não percebi quando ele voltou pra cama, mas ele já estava grudadinho em mim novamente, deitou no mesmo travesseiro e pouso a mão em minha cintura descoberta.
- Porque não me contou? - sua voz era calma e ele tinha um sorrisinho tímido no rosto.
- O que? - perguntei confusa.
- Que você era virgem.
Ah, ele havia percebido. Pensei em procurar algum rastro de sangue na cama, mas não queria ser mais óbvia ainda.
- Qual era a chance de você continuar se eu tivesse contado?
- Todas - ele respondeu rindo, não acreditei quando ele falou, o pior é que parecia que ele falava a verdade - Eu só iria parar se você me dissesse que não queria continuar, mas se tivesse me contado eu poderia ter tomado mais cuidado.
Mordi os lábios desviando o olhar do seu, rindo baixinho. Fiquei ali brincando com a ponta da fronha.
- É melhor eu voltar pra sala.
- Fica, se ninguém deu sua falta até agora é porquê já devem estar desmaiando de tanto beber.
- Você sabe que sua irmã tá no meio desses bêbados, né? - disse rindo.
Aaron por sua vez puxou os cabelos pra trás e soltou o ar pesadamente, pensando na minha melhor amiga que a essa hora poderia estar vomitando no tapete.
- Ai Clarice, Clarice. Só me dá trabalho. Se o Lucas estivesse por perto ela .... - ele parou de falar, ficando sério de repente - Meu Deus. Lucas. Seu irmão não pode saber disso, ele não pode nem sonhar que você dormiu comigo.
Eu comecei a dar risada. Ele estava pensando o que? Que eu pretendia anunciar pros mais chegados que havia passado a noite com ele?
- Aaron pelo amor de Deus - comecei ainda rindo - você acha que eu vou chegar no meu irmão durante o chá da tarde e falar "Boa tarde, Lucas. Eu transei com seu melhor amigo casado ontem, mas tá tudo bem porque eu seduzi ele"? Eu não pretendo falar disso nem mesmo com a Clarice.
Ele riu, vendo que eu dizia o óbvio e se aproximou pra me beijar de novo.
- Dorme aqui. Antes da Clarice subir você vai pro quarto dela e diz que passou a noite lá.
Concordei, pensando em desfrutar mais um pouquinho da companhia (e do corpo) de Aaron.
E eu desfrutei, a noite inteira uma vez após a outra até o amanhecer.

Flashback off

Depois que eu sai do quarto de Aaron naquele dia, nós não tocamos no assunto por um semana. Até o belo final de semana que sua irmã me pediu para dormir em sua casa porque meu irmão continuava fora. Olivia ainda estava com sua família também.
Me lembro de ter descido atrás de um copo de água e ter encontrado Aaron lá sem camisa. Não precisou de muita coisa pra que meu corpo já estivesse preso ao seu de forma nada descente, o problema foi que minha melhor amiga parece ter sentido sede também e acendeu a luz da cozinha, encontrando a gente no maior amasso. Não teve muito o que fazer se não contar a verdade, fiz ela prometer que não contaria nada a Lucas e que levaria aquilo pro túmulo junto com ela, e depois de muita insistência (mais da parte de Aaron do que minha), ela acabou concordando. Se guardar um segredo do namorado era difícil pra ela, esconder aquilo da cunhada era o oposto, Clarice não suportava Olivia. Eu nunca entendi o porquê, ela sempre me pareceu boa pessoa, mas ela dizia que Olivia era insuportável com suas regras e Aaron a deixava mandar na casa e em todo o resto, imaginei então que a convivência era outra coisa.
Depois daquilo nós passamos a ter um caso, não era algo bonito a se dizer mas foi o que aconteceu. Quando eu entrei pro FBI a coisa foi ficando cada vez mais séria, até que 3 meses depois ele decidiu que ia pedir o divórcio para sua esposa, mas não o fez. E o principal motivo dele não ter feito isso era eu, não queria que ele deixasse Olivia.
Parece ridículo da minha parte, mas eu tenho um bom motivo pra isso. Um pouco depois que ela voltou da viagem me pediu que eu a acompanhasse ao médico para uma bateria de exames, sem ter uma boa desculpa para negar eu acabei indo junto. Pra piorar a situação chegando lá ela teve uma crise e ficou com medo dizendo que não queria fazer os exames porque tinha certeza que achariam algo errado, e o médico teve a ideia de gênio de me pedir que eu fizesse os exames também pra incentivar ela a fazer os seus. Por pura culpa eu acabei aceitando, mas as coisas só acabaram piorando quando pegamos os resultados algumas semanas depois. Enquanto eu era uma pessoa extremamente saudável, Olivia tinha uma condição gravíssima no coração e o médico disse que pequenas situações de estresse e nervoso poderiam levá-la a morte.
Eu quis terminar com Aaron diversas vezes depois de descobrimos aquilo, mas não conseguia, meu corpo era como uma imã que era atraído pelo seu. Quando ele quis pedir o divórcio eu levei semanas pra tirar aquela ideia da cabeça dele, pensando no que aquilo poderia acarretar para Olivia, e ele sabia de sua condição também. Então continuamos assim, às escondidas e eu me afastei dela o máximo que pude, isso fazia com que eu me sentisse menos pior.
Fui tirada de meus devaneios pelo celular dele que começou a tocar, ele permanecia sério, ainda sentado na cadeira.
- Oi Oli. - era ela - Ela tá bem dentro do possível, mas não quer receber visitas, me botou pra fora do quarto assim que eu entrei - mentiu, me encarando - Eu não sei, ela tá muita machucada e você sabe como ela é, nem a Clarice ela deixou ficar muito tempo no quarto com ela.
Aaron comentou mais um pouco sobre meu estado com a esposa, até que ela finalmente pareceu desistir da ideia de me visitar e ele desligou o telefone.
- Desculpa - começou - sei que a situação é horrível pra você, não quis te constranger mais. O menos afetado nessa história sou eu e às vezes eu esqueço disso.
Concordei com a cabeça, não tinha muito o que dizer sobre.
- , você sabe que agora as coisas vão ficar mais difíceis pra gente, né?
- Eu sei.
Se antes era complicado sair com ele escondido da esposa, agora ficaria mais difícil ainda com dois policiais em meu encalço. Como eu justificaria qualquer saída que precisasse fazer sozinha?
- Quando você estiver melhor a gente volta a pensar nisso, tá? - mal tive tempo de concordar e ele já emendou em outro assunto, que por sinal era muito mais sério - Sobre o que trouxe a gente até aqui, o depoimento da Clarice foi o suficiente pra deixar os dois policiais que estão à frente do caso intrigados e continuar a investigação, os dois vão vigiar você e vão fazer sua segurança também. Eles têm certeza que seu irmão é um peixe grande e vai acabar vindo até você, também temem outro ataque, o que não vai acontecer, mas eles não precisam saber disso.
- Você precisa ser muito convincente com o seu depoimento, precisa deixar eles mais intrigados ainda. Depois você vai precisar se aproximar aos poucos e conseguir o máximo de informação possível. Tem alguém ali muito grande dentro dessa organização criminosa e essa é a nossa última chance de descobrir quem é. Se a gente conseguir chegar até essa pessoa nós podemos acabar com tudo, um cartel inteiro. Se essa conversa fosse a alguns dias atrás eu nem precisaria falar isso, mas como você parece não ter mais um pingo de juízo, estou te pedindo por favor pra você tomar muito cuidado, pois poder ser um desses também.
Pensei em Nicolás, tinha certeza que ele não estava metido em nada disso. Já era uma incógnita e ia ser muito difícil me aproximar pra arrancar informações. Não comentei nada com Aaron sobre Nicolás, ele vivia me dizendo pra não me deixar enganar pelo meu instinto porque uma hora ele poderia falhar, então preferi guardar minhas certezas só para mim, já tinha o suficiente com os questionamentos de Clarice.
Escutei batidinhas na porta e depois de autorizar a entrada vi Nicolás adentrar o ambiente.
- Com licença. - ele definitivamente precisava ensinar seu bons modos para . Ri baixinho quando ele cumprimentou Aaron com um aceno da cabeça, lembrando dos comentários de Clarice um pouco mais cedo. Ele caminhou até perto do monitor. - Você precisa dar seu depoimento. Eu tentei segurar mais um pouco, mas é ...
- Insuportável - interrompi, rindo.
- Eu ia dizer impossível, mas as vezes insuportável também serve.
Ele me acompanhou rindo, e eu não pude deixar de perceber o olhar intrigado de Aaron, questionando tanta intimidade.
- Posso chamar a investigadora que vai colher seu depoimento?
- Sim, quanto antes a gente fizer isso melhor pra eu poder ficar em paz.
Vi ele olhar pro homem de terno sentado ali e depois voltar o olhar pra mim, com uma pergunta silenciosa.
- Tudo bem, ele pode ficar.
- Ok. Antes de eu sair, alguém já conversou com você sobre como as coisas vão ficar depois que você sair do hospital?
Aaron ergueu a sobrancelha mais uma vez, questionando o porquê de Nicolás se dirigir a mim por "você" e não por "senhorita. Ia responder à pergunta do policial, mas ele foi mais rápido.
- Eu contei a ela - disse ajeitando o paletó - não se preocupe. E eu também pretendo ficar de olho nela. - sua voz era firme e ele falava cada vez mais sério - é alguém por quem eu tenho muito apreço e seu irmão era meu melhor amigo antes de se meter com coisas erradas. Ela não está sozinha.
Que ceninha de ciúmes era aquela? Aaron estava sendo ridículo sem motivo algum. Qual era o problema dos Smith com aquele policial?
- Não temos a intenção de deixar ela isolada de ninguém - Nicolás respondeu no mesmo tom - Mas a segurança dela é assunto da polícia, pode ficar perto o quanto quiser desde que não atrapalhe nosso trabalho. Com licença.
Ele deixou o quarto logo depois. Aaron estava pronto para começar seu interrogatório, mas já havia sido demais por um dia, que aliás ainda estava na metade.
- Nem começa.
Não deu tempo nem dele abrir a boca, uma morena alta bateu a porta para colher meu depoimento. Repeti todo o combinado, reforçando o depoimento de Clarice e me fiz de coitada o máximo possível. Estava feito.
Depois que a mulher saiu Aaron continuou me encarando com aquela cara de quem quer saber o que está acontecendo, mas o problema era que não estava acontecendo nada. Eu não tinha mais nada pra falar, então deixei o cansaço tomar conta de mim. Não percebi quando cochilei.


Capítulo 5

POV.

Já faziam duas semanas e meia que eu estava no hospital, passei a me xingar mentalmente todos os dias por aquilo, não aguentava mais ficar presa a quatro paredes. Eu já conseguia ficar de pé sozinha e caminhar um pouco, não entendia porque não podia ir para casa.
A única pessoa mais sem paciência do que eu naquele hospital, era . A convivência era insuportável (assim como ele), ele deixava bem claro que estava ali contra a sua vontade e trocava o mínimo de palavras possíveis comigo. Nicolás andava muito ausente por algum motivo que eu não sabia e o outro policial ficava responsável pela minha segurança na maior parte do tempo. Toda vez que eu pensava que teria que conviver com e sua ignorância dentro da minha própria casa eu tinha vontade de estourar meus miolos, e isso sem falar que ainda teria que dar um jeito de me aproximar dele e ganhar sua confiança. Não sei porquê, mas gostava mais de irritar o cara do que de manter uma conversa normal com ele, talvez porque desde o começo meu santo não havia batido com o seu, não sei. Eu odiava pessoas com aquele ar arrogante.
Nesse momento eu estava sentada na cama com um dos livros que Clarice havia me trazido, enquanto o digníssimo policial permanecia sentado na cadeira perto da porta. Aliás, essa cadeira era a mesma que ficava ao lado da minha cama, mas que ele fazia questão de arrastar pra bem longe de mim toda vez que ficava de guarda, ridículo.
Voltei a atenção para o meu livro, mas acabei desistindo da leitura quando vi que havia lido 4 vezes seguidas o mesmo parágrafo e as palavras continuavam sem sentido algum para mim.
Fechei o livro e comecei a tamborilar os dedos na capa, pensando em algo que me ajudasse a sair do tédio, fiquei quase quinze minutos assim, até que algo passou pela minha cabeça. Se funcionasse eu poderia ganhar duas coisas de uma vez só.
- - chamei, fazendo com que ele passasse a atenção de seu celular para mim, a habitual cara de merda que sempre fazia quando me olhava estava de novo ali - Tenho uma proposta pra te fa..
- Não - me interrompeu antes que eu pudesse terminar, voltando a mexer no celular.
- Você nem sabe o que eu ia falar. - retruquei indignada.
Sério, aquele cara era detestável, como Nicolás conseguia trabalhar com ele era uma incógnita que meu cérebro parecia não ser capaz de decifrar. E meu cérebro deu um nó maior ainda quando ele me contou que havia conhecido na faculdade e que eles eram melhores amigos desde então, sério, isso não entrava na minha cabeça.
- Não faço tratos com gente problemática. - falou com um sorrisinho cínico sem desgrudar os olhos do aparelho em sua mão.
Ah não, agora ele passou dos limites.
- Do que é que você me chamou?
- Você não é surda, ouviu muito bem.
Imbecíl, ele ia ver quem era a problemática.
Sentei com os pés pra fora da cama e arremessei o objeto que estava em minha mão na sua direção. Eu tinha uma ótima mira, sorri debochada quando o livro de 500 páginas acertou seu rosto em cheio.
- Argh, FILHA DA PUTA.
O celular que estava em sua mão havia caído no chão. Vi cobrir o rosto e massagear o nariz, com certeza tinha doído.
- QUAL É O SEU PROBLEMA GAROTA. - esbravejou já de pé, com o livro na mão.
- O meu problema é você, eu pretendia ficar numa boa mas você é um grosso insuportável.
- PRO - BLE - MÁ - TI - CA - me insultou outra vez, me deixando mais irritada.
Olhei pra mesinha do lado da cama e peguei outro livro para jogar nele, que acabou desviando, quando eu ia jogar o terceiro infelizmente ele foi mais rápido que eu e segurou meu braço, me fazendo soltar o objeto no chão.
Olhei pra ele irritada e fiz questão de que minha expressão mostrasse o quanto ele me deixava puta. Meu Deus aquele cara me tirava do sério, eu não era assim.
Ele soltou meu braço e ia falar alguma coisa, mas acabou desistindo quando sentiu algo escorrer pelo seu nariz. Sangue.
- Ai meu Deus...
Tampei minha boca numa tentativa boba de esconder minha cara de espanto, eu havia quebrado seu nariz, até o momento não havia reparado que ele também estava torto. Que merda, eu estava pedindo pra ser presa. Mas a culpa era dele, com que direito ele falava daquela forma comigo? Totalmente culpado. Droga, como eu ia me aproximar pra arrancar informações dele depois daquilo?
- , me desculpa eu não achei que ia machucar - levantei da cama e fiz menção de me aproximar, mas ele logo me afastou com a mão que estava livre.
- Não chegue perto de mim - ele estava furioso - Você é louca.
- Tá vendo, é por isso que eu joguei o livro em você, idiota.
Sai de perto dele revirando os olhos, ele era mesmo um ridículo. Fui até o banheiro e procurei pela bolsinha de primeiros socorros que havia visto ali a alguns dias atrás e voltei com ela pro quarto.
- Senta - disse apontando pra cama.
olhou pra bolsinha na minha mão e começou a rir.
- Você realmente deve ser maluca pra achar que eu vou deixar você chegar perto do meu rosto depois de quebrar o meu nariz.
Coloquei a necessaire na cama já sem paciência alguma, eu não deixaria ele sair dali com o nariz daquele jeito, era tudo o que ele precisava pra me prender por desacato e acabar com meus planos. Ele iria conhecer meu lado autoritário mais cedo ou mais tarde, então que fosse naquele momento.
- Você vai sentar nessa droga de cama agora e vai me deixar consertar essa porcaria que chama de nariz antes que eu decida quebrar outro osso seu.
- Já disse que não. E como se uma garota como você soubesse colocar o nariz de alguém no lugar, faça-me o favor.
Ok, seja feita a minha vontade. Ia ser na marra.
Me aproximei de com a cara mais cínica que consegui fazer, tentando disfarçar a raiva, ele nem se moveu, provavelmente achando que eu só iria insultá-lo mais de perto. Fiquei cara a cara com ele e com um puxão rápido eu afastei a mão ensanguentada que cobria seu nariz e coloquei minhas duas mãos ali, seus braços tentaram segurar os meus, mas já era tarde, minhas mãos empurravam uma de cada lado o osso do seu nariz em direções opostas, fazendo com que ele se encontrasse novamente. Não era o modo correto, muito pelo contrário, mas quando você vive metida em situações que podem acabar em conflito, você aprende a consertar algumas coisas de modo rápido e bruto. Ele poderia consultar um médico depois.
Ouvi ele gritar de dor e me afastei logo depois, ele havia agachado e arfava com as mãos no rosto. Colocar o nariz no lugar de fato doía muito mais do que quebrar o nariz. Dei espaço para que ele se recuperasse e fui até o banheiro limpar o meu braço que ele havia sujado de sangue quando tentou afastar minhas mãos do seu rosto.
Coloquei meu braço embaixo da água e deixei ela correr ali levando todo o sangue consigo. Me sequei com as toalhas de papel e peguei mais algumas para levar para o quarto, sabia que iria precisar.
Aproveitei para jogar uma água no rosto e prender o cabelo em um rabo de cavalo. Encarei meu reflexo no espelho, já não estava com aparência tão detonada quanto antes, o que pra mim era um alívio.
Quando voltei ainda estava na mesma posição, mas já respirava de forma mais calma e havia parado de urrar de dor. Coloquei as toalhas de papel junto com a bolsa de primeiros socorros. Encostei na cama e fiquei ali com os braços cruzados.
- Vai me deixar olhar seu nariz agora ou quer me chamar de maluca de novo?
levantou o olhar pra mim, estava incrédulo.
- Como demônios você saber fazer isso?
- Meu irmão me ensinou. - respondi direta, não tinha muito como explicar aquilo sem levantar muitos questionamentos. Tratei logo de mudar de assunto - Levanta, vai ficar sangrando no chão até que horas?
chacoalhou a cabeça em negação, mas acabou levantando e andando até a cama. Dei espaço pra que ele sentasse e coloquei uma das toalhas de papel em sua mão limpa para que ele estancasse o sangue no nariz, enquanto eu limpava a que estava ensanguentada com as outras folhas.
Abri a necessaire pegando o necessário para terminar de dar um jeito naquela bagunça. Segurei seu queixo enquanto passava o antisséptico com um algodão em seu nariz, que aos poucos parava de sangrar. Não era enfermeira, mas tinha conhecimentos básicos em primeiros socorros, foi uma das primeiras coisas que aprendi quando entrei no FBI. Fiz o melhor que pude ali, finalizando com um curativo na parte de cima.
- Obrigada - disse e eu me surpreendi - obrigada por consertar a merda que você mesma fez. - claro que ele não estava sendo educado à toa.
Bufei revirando os olhos, tentada a quebrar seu nariz de novo.
- Você bem que mereceu.
- Claro - ele riu sem humor - você é uma ogra, garota.
- De novo, você mereceu. Eu fui te fazer uma proposta e você foi grosso sem motivo algum.
- Você me dá motivos para ser grosso desde quando acordou - seus braços estavam cruzados na altura do peito, ele falava sem desgrudar os olhos de mim, eu continuava parada na sua frente com a mesma pose que ele.
- A Princesa já acabou?
- O que você quer? - seu tom grosseiro estava lá de novo.
- Você me leva pra ficar um pouco no jardim do hospital e eu vou te deixar em paz quando você estiver fazendo a segurança na minha casa, vou ficar quietinha e vou te incomodar o menos possível. Ah sim, tem mais uma coisa - falei rápido antes que ele abrisse a boca - o que acabou de acontecer aqui, você não vai contar pra ninguém.
- Tentador, Jude. Seria uma paz você de boca fechada - ele riu, chacoalhando a cabeça - Mas eu não posso levar você no jardim.
- Por quê? Nicolás me leva quase sempre quando está aqui.
- Por que eu não tenho autorização pra fazer isso. - ele ainda ria - Nicolás consegue te tirar daqui porque sua ex tem coração mole e sempre acaba cedendo a qualquer pedido dele.
Ex? Ele estava falando da...
- Annie?
assentiu. Interessante, isso explicava muita coisa. Nicolás sempre ficava meio bobo com ela por perto, e ela sempre encobria as coisas erradas que ele fazia no hospital.
Fiz um beicinho quando percebi que meu plano havia ido por água abaixo antes mesmo de começar. Sentei de novo na cama igual uma criança emburrada, ainda estava lá, empurrei seu ombro com o meu.
- Vai limpar o chão. - falei com a voz xoxa olhando os respingos no chão.
- Vai você.
- O sangue é seu. - devolvi, empurrando seu ombro outra vez.
Ele se levantou rindo baixinho, vi ele pegar as toalhas de papel que estavam na cama e passar no chão, assim que terminou juntou tudo e levou pro banheiro junto com a necessaire. Quando ele voltou recolheu os meus livros que ainda estavam no chão, colocando-os de volta na mesinha ao lado da cama.
- Sua amiga sabe que você pede livros emprestados para jogar nos outros?
- Os livros são meus, ela só trouxe pra mim.
arqueou as sobrancelhas, enquanto ainda segura o último livro.
- Você gosta de Agatha Christie? - fiz que sim com a cabeça - Achei que garotas como você só gostassem de Crepúsculo.
Ri internamente, ele não precisava saber que eu tinha um fraco por Edward Cullen.
"Ele não precisava saber", uma ideia se passou pela minha cabeça assim que essas palavras vieram.
Annie não precisava saber. Apertei o botão para chamar uma enfermeira.
- O que você está fazendo? Tá passando mal?
Neguei, sorrindo.
- Fica quietinho, se concordar comigo nós dois saímos ganhando. Sshh.
não entendeu mas ficou quieto observando o que eu iria fazer.
Uma enfermeira que não era Annie apareceu, perguntei se ela poderia chamar a outra enfermeira pois eu já estava acostumada com seus cuidados, ela concordou. Dez minutos depois Annie estava na porta do quarto, seus olhos foram direto no nariz de .
- O seu nariz não estava assim quando eu vim aqui mais cedo...
Olhei pra ele, esperando que ele não me entregasse.
- Eu fui abrir a porta ao mesmo tempo que ela e acabou pegando no meu rosto. Mas tá tudo bem.
Bom menino.
- Annie - chamei sua atenção pra mim, antes que ela perguntasse outra coisa - Nicolás falou com você?
- Sobre o que? - perguntou, um pouco perdida.
tinha a mesma expressão.
- Ele me disse que conversaria com você para que deixasse me levar ao jardim quando ele não pudesse vir.
O policial do outro lado riu em silêncio, mas não disse nada. Já que ele não me suportava, o melhor era aceitar minha proposta.
Annie me olhou triste, negando.
- Eu sinto muito, . Ele não falou comigo. E acho que também não é uma boa idéia você sair sem ele - parecia que não era segredo que não me suportava e odiava me vigiar.
- Por favor, Annie - disse fazendo biquinho - Ele deve ter esquecido. Você sabe que é de confiança, só um pouquinho.
Ela olhou pro rapaz na porta.
- Tudo bem, eu fico de olho nela.
- Ok, mas só 30 minutos e ela não pode ficar muito tempo de pé.
- Obrigada - agradeci sorrindo.
- Vou pegar uma cadeira de rodas, me esperem aqui.
- Não precisa - interrompi - pode me levar, eu quero sentar na grama.
Annie não viu o policial me fuzilar com os olhos, mas eu vi. Ainda sorria quando ele me pegou no colo para me carregar até o jardim.
- Você é detestável - sussurrou pra mim enquanto passávamos pelo corredor.
Dei um sorriso vitorioso e pude observar um sorrisinho de canto em seu rosto.
Annie não precisava saber que eu menti, e no final nós dois saímos ganhando.


Continua...



Nota da autora: Sem nota.



Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.


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