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Última atualização: 13/05/2021

01. It's just a spark, but it's enough to keep me going

Aquela vista era admirável. As nuvens passavam de forma rápida e singela do outro lado da janela. O azul de todo o céu a deixava mais tranquila e fazia com que não lembrasse que estava em um avião. tinha medo de aviões. Na verdade, não deles, mas da altura. Era tão irônico, porque quanto mais alto o avião estava, mais a paisagem era bonita e mais a mulher queria olhar.
Respirou fundo, encostando a cabeça na janela arredondada. Os dedos batucavam em sua coxa, em uma tentativa falha de controlar a ansiedade. A morena não sabia exatamente o que estava sentindo. Nervosismo, ansiedade, medo... Ela estava sozinha. Sem sua mãe e sua irmã. E não fazia ideia de como sua vida seria agora, a partir de quando descesse daquele avião. Ela só tinha a mochila, algumas roupas e um celular quase sem bateria. Ah, e algumas barrinhas de cereais que havia separado como aperitivo durante toda a viagem.
Enquanto o avião passava novamente por algumas nuvens, parou para refletir um pouco. Não iria ficar na casa de nenhum parente, até porque não tinha algum que morasse em Londres e as únicas libras que tinha em sua carteira eram para cobrir poucas despesas. Sabia que logo teria de arrumar algo para se sustentar. Balançou a cabeça veemente, tentando, naquele momento, não se lembrar do enorme problema que teria pela frente.
Com isso, virou seu rosto para a paisagem e seus olhos se arregalaram com tamanha cidade abaixo de si. Ela estava em Londres!
Passou os olhos por cada lugar, cada bairro que poderia avistar da distância em que estava. Pôde avistar o London Eye, os carros parecendo miniaturas em todas as ruas, as árvores colorindo o Hyde Park. Olhou mais à frente e estreitou seus olhos. Conhecia àquele lugar. Claro! O Big Ben. Sorriu com toda àquela vista. O lugar era maravilhoso e a morena só conseguia lembrar de todas as vezes que sonhava em estar ali e de sua felicidade ao finalmente ter conseguido juntar dinheiro, no começo, para comprar a passagem.
Agora, depois de tanto tempo de espera e de horas sentada na mesma poltrona, estava se preparando para esperar o avião pousar e podia sentir seu coração tamborilar dentro de seu peito.
— Certo. Respire, . — disse, em um sussurro para si mesma. Sentiu o balanço do avião ao encostar no chão e fechou os olhos rapidamente, abrindo-os em seguida. Olhou em volta, avistando as pessoas tirando seus cintos e fez o mesmo, mas com um pouco mais de calma. Suas mãos trêmulas a impediam de fazer o ato com mais agilidade.
Ouviu a voz da aeromoça anunciando o fim da viagem e se levantou, pegando sua enorme mochila em cima do bagageiro. Uma pequena fila havia se formado em direção à escada. Ao ver alguns passageiros começando a descer, sentiu seu estômago embrulhar com a ansiedade. Era óbvio seu desespero por descobrir a cidade e estava começando a ver que as pessoas à sua volta estavam começando a notar. Assim que chegou sua vez, olhou escadaria abaixo, dando um pequeno sorrisinho. Era ali que começava sua nova jornada.
Desceu vagarosamente, sentindo o peso de sua mochila nas costas. Não via à hora de se sentar em algum lugar confortável e descansar devidamente. Pôs os pés no solo londrino e percebeu que até o ar parecia diferente. Passou por uma das aeromoças que estavam ali e recebeu um sorriso aberto em cumprimento. Era incrível como tudo era diferente, até a forma hospitaleira das pessoas.
Caminhou para a parte interna do aeroporto e suspirou. O frio na espinha tomou conta de todo o corpo da garota, dando calafrios. Ela não fazia ideia para onde iria agora, muito menos por onde começar. Ninguém estava aqui para dar as boas-vindas e a receber com um abraço apertado, assim como alguns em volta faziam. estava sozinha, completamente sozinha.
Olhou para os lados, avistando um jovem vendendo o mapa da cidade, então logo se adiantou, comprando um. De todas as opções, o trem ficava mais perto e seria mais rápido para chegar ao centro da cidade. Em seguida, dobrou o mapa cuidadosamente e o guardou no bolso da calça jeans, pronta para seguir seu novo destino: o terminal. Vários táxis estavam estacionados em fila indiana, esperando seus passageiros. Ela teria que andar um pouco até a linha, assim pouparia um pouco mais de dinheiro. Puxou seu celular e a bateria piscava, avisando a falta do carregador. tinha seu carregador na mochila e o que faltava, no momento, era uma tomada para pôr o aparelho para carregar.
Havia saído do aeroporto há pouco mais de uma hora e ao final já conseguia ver a Estação Paddington, assim se apressando e indo até o guichê. Ao comprar a passagem, soube que o trem logo sairia. Seguiu pelo terminal, avistando seu trem a ponto de partir e entrou, logo achando seu assento ao lado da janela. Não queria perder um segundo sequer de seu primeiro dia. Em poucos minutos, já podia perceber o transporte em movimento, indicando a ida para a cidade. Olhou para o lado, vendo algumas árvores passarem devagar, assim como os prédios e algumas casas. Era uma vista maravilhosa.
Ergueu seu olhar, vendo o céu, que antes era azul e agora estava cinza, e o vento gelado começava a adentar pelas janelas do vagão. Colocou sua mochila na cadeira ao lado, tirando dali sua touca preta e a ajeitou na cabeça. Assim, se aqueceu um pouco mais. Ao encostar suas costas na poltrona estofada e confortável do trem, pôde avistar a cidade se aproximando vagarosamente e seu sorriso foi crescendo pouco a pouco em seu rosto. Era final de tarde em Londres e a paisagem parecia mais uma cena de filme. Pegou rapidamente seu celular de um de seus bolsos e apontou em direção ao céu e à cidade, mas o pouco de bateria que tinha havia dado para apenas um clique. O aparelho havia descarregado.
Que sorte! Pensou a mulher, jogando o aparelho de qualquer forma na mochila e cruzou seus braços, de forma emburrada. Balançou sua cabeça e sorriu, àquilo não iria desanimá-la. Não naquele lugar!

✈️🎡


O embalo do trem parando fez com que despertasse de seus devaneios e começou a ajeitar sua mochila nas costas, pronta para descer, assim seguiu para porta de saída. Assim que pisou a plataforma, olhou ao redor, se dando conta de que já estava no centro de Londres. Caminhou quase dando uma pequena corrida até a rua mais próxima e se deparou com a movimentação dos carros, ônibus, motos e até mesmo bicicletas. Era tudo tão real para ela.
Já na calçada onde se encontrava, mal conseguia ficar parada. Todas as pessoas passavam por ela como vento e algumas esbarravam sem se desculpar. Chegou para trás, encostando seu corpo na parede de uma das lojas que se encontravam pelo centro. Respirou fundo e, mesmo estando um pouco nervosa, tentaria se situar. Primeiro teria que saciar sua fome. estava faminta.
Olhou para o outro lado da avenida e seguiu até a lanchonete, passando por toda a carraria mesmo aquilo sendo uma loucura. Alguns buzinaram e outros passavam por ela resmungando algo que a garota não conseguia entender. Fez uma careta e entrou na lanchonete, ouvindo aquele famoso sininho tocar assim que abriu a porta. Deixou um sorriso escapar, era mais uma daquelas cenas de filmes. Clichê até demais. Avistou várias pessoas lanchando nas mesinhas coloridas ao redor e procurou alguma vaga para se sentar. Como só havia espaço no balcão, se aproximou, sentando-se em um dos bancos e avistou a garçonete, com suas mechas loiras, se aproximar com um sorriso no rosto.
— Oi, boa tarde! O que vai querer? — puxou o bloco branco do bolso do avental junto à caneta e sorriu alegremente. A menina do outro lado parecia bem confortável ao trabalhar no local.
— Um sanduíche e um suco, por favor. — sorriu tímida ao pedir. Assim se permitiu olhar em volta. O lugar era bonito e aconchegante, as pessoas pareciam gostar dali.
Olhou para a janela ao seu lado e observou a movimentação do lado de fora, algumas pessoas apressadas, provavelmente indo para seus trabalhos ou casas, já que logo escureceria. Abaixou seu olhar, sentindo uma leve pontada de saudade de sua casa e sua família. Estando ali agora, e sozinha, se deu conta de como estava com saudade do Michigan. Mal sabia como sua mãe e sua irmã estavam naquele momento.
Balançou a cabeça veemente e se deparou com um pequeno mural do outro lado do balcão. Com um pouco de dificuldade, estreitou os olhos e percebeu que havia um anúncio preso ali. Esticou o corpo para entender melhor o que estava escrito e quase conseguiu derrubar os copos com a voz feminina ao seu lado.
— É um anúncio sobre aluguel de quartos. — ouviu a loira comentar, depositando o prato e o copo de suco em cima do balcão. Olhou-a seguir até o mural e arrancar o papel, o lendo e a entregando. — Parece que alguém está alugando por um preço bom. Você quer ver?
— Quero sim, por favor. — a morena pegou o papel um pouco amassado da garçonete e o leu. Era um preço ótimo e ela poderia pagar por dois dias, no mínimo. Sorriu de forma agradecida, pelo menos teria um lugar para dormir. Dobrou o papel e o guardou. Assim que saísse, procuraria o local.
Continuou ali por algum tempo, tomando seu suco, abocanhando seu sanduíche com calma e assim observou a cidade pela janela de vidro. Com sua distração, nem percebeu quando a mulher do outro lado do balcão a observava de forma divertida.
— Você não é daqui. É? — perguntou.
— Não. Sou de Michigan. — tomou mais um gole do suco. — Por quê?
— Bom, você é educada e tem um mochilão. — apontou para a mochila próxima aos seus pés. — O que faz em Londres? Desculpe a intromissão, você parece um pouco perdida.
A mulher soltou uma risadinha e a acompanhou, desviando seu olhar.
— Para falar a verdade, eu nem sei. Sempre foi meu sonho conhecer a cidade. Só arrumei minhas coisas e tomei coragem para vir.
— Ah, entendo. — se ergueu para atender outro cliente. — Só um segundo.
A morena balançou sua cabeça, assentindo e terminou de fazer seu lanche, sentindo sua energia voltar aos poucos. Antes de se levantar e se despedir da atendente que havia sido super simpática com ela, pegou novamente o anúncio e tentou ler o endereço, mas não fazia ideia de onde ficava. Desceu do banco, arrumando suas coisas.
— Você já vai? — a loira perguntou, fazendo-a levantar o olhar. Assentiu com um pequeno sorriso. — Eu saio em cinco minutos. Se me esperar, posso te levar até o apartamento.
— Tudo bem, eu espero sim.
olhou para o lado e, como iria esperar pela garota, sentou-se a uma mesinha ao fundo para dar lugar a algum novo cliente que entrasse. Aproveitou que estava por ali e procurou por alguma tomada próxima, mas não havia nenhuma. Seu celular ainda continuaria morto por um tempinho. Tirou a touca para ajeitar os cabelos e percebeu a mulher saindo enquanto colocava sua bolsa no ombro. Olhou para a outra e apontou com a cabeça para a saída do local.
Já na calçada e como a movimentação das pessoas já havia diminuído, as duas seguiram em direção à praça mais próxima e continuaram caminhando por ali. não fazia ideia de onde estava, só tinha certeza de que estava seguindo uma garota que não parava de falar um segundo sequer. O que era engraçado, já que se não fosse por ela, a garota estaria acabando de se ajeitar em uma calçada qualquer.
— E então, eu estou ajudando uma garota que mal sei o nome. — disse, e em seu rosto havia um sorriso amigável. A morena sorriu em resposta.
— Bom, eu que devia dizer isso, não? Estou seguindo uma garota que não sei o nome. — a imitou. Com isso, abraçou seu corpo, sentindo o frio tomar conta e apertou o casaco em si mesma. — Pode me chamar de .
— Certo, . — repetiu o nome da garota e riu consigo mesma. acompanhou sua risada, achando aquela menina até divertida. — Sou Anny. E é aqui que você fica.
A morena parou de frente para o pequeno prédio e observou os andares do lugar, vendo alguns acesos. Respirou fundo e curvou os lábios em um meio sorriso, virando novamente para a garota ao seu lado. Naquele momento, ela havia murchado um pouco ao perceber que ficaria sozinha mais uma vez. Tinha acabado de conhecer Anny e ela parecia ser uma ótima amiga.
— Eu nem sei como te agradecer. — relaxou seus ombros. — Obrigada, de verdade. Se não fosse por você, eu nem sei o que estaria fazendo agora.
— Não precisa me agradecer. Sério. — balançou as mãos. — Vamos fazer assim, se precisar de mim, é só me ligar. Eu tenho meu número anotado aqui, pode pegar.
Puxou sua pequena bolsa, vasculhando-a e tirou o pequeno pedaço de papel branco. Estendeu-o e sorriu em despedida, se virando para ir embora. encarou os números, colocando o papel dentro do bolso de seu jeans surrado e assim entrou no edifício. Na recepção, havia um senhor de idade, sentado com um jornal nas mãos. Parecia concentrado.
— Em que posso te ajudar, minha jovem? — ergueu seus olhos abatidos e sorriu reconfortante. Por um instante, a morena sentiu seu coração aquecer com aquele gesto familiar.
— Eu preciso de um quarto. Se não for pedir muito, o mais em conta que tiver, por favor.
Deu um pequeno sorriso amarelo e se aproximou do balcão. Odiava estar naquelas condições, sentia que a qualquer momento iria depender de alguém e aquilo, para ela, era o cúmulo. Era triste.
— É nova na cidade, sim? — comentou, indo até o mural repleto de chaves. Tirou um par de chaves com uma etiquetinha preta e estendeu. — Não é nada luxuoso. Você poderá passar a noite, ou quantos dias quiser.
— Está ótimo. Muito obrigada. — sorriu abertamente e tirou sua mochila das costas para efetuar o pagamento da estadia. Iria começar a contar suas libras, mas parou assim que viu o senhor estendendo suas mãos, como se negasse aceitar.
Estreitou seus olhos.
— Não, querida. Não precisa se preocupar com isso agora. Vá descansar e quando estiver de saída, poderá acertar comigo. — deu uma piscadela e apontou para a escada que dava acesso aos quartos disponíveis. A garota soltou todo o ar e balançou sua cabeça, assentindo e indo descansar devidamente. Ela não sabia o nome daquele senhor, mas o viu tão educado e gentil que só sentia vontade de abraçá-lo pela bondade com ela.
Já no corredor, colocou a chave na maçaneta e adentrou o quarto. Ao trancá-lo, permitiu-se encostar na porta e escorregar até cair sentada no chão.
estava exausta. Cansada, com sono e principalmente com saudade de casa. Sentia que estava perdida, sem rumo e começava a achar que não havia feito o certo em largar tudo para trás e seguir naquela viagem. Seria difícil se refazer ali, em outro estado, sozinha.
Ao estar ali, sentada, observou atentamente o quarto em que estava. Era pequeno, aconchegante e bem arrumadinho. Havia uma cama com um criado mudo no canto, uma janela com um móvel embaixo que continha uma televisão em cima e uma portinha em frente à cama, onde provavelmente daria para o banheiro. Com aquilo, deu impulso com seus braços e se levantou, caminhando em direção à cama e depositando ali sua mochila nada leve. Retirou a toalha de banho e uma muda leve de roupa, pronta para um banho. Respirou fundo. teria que pensar bem em como iria começar a fazer as coisas para não acabar na rua. Com poucas mudas de roupa na mochila, poucas libras, não sabia ao certo como iria ser.
— Será que isso tudo realmente foi uma boa ideia? — lamentou, em um sussurro para si mesma.
Com o pouco de ânimo que tinha, deixou o corpo cair sobre a cama arrumada e sentiu algumas lágrimas aquecendo suas bochechas geladas pelo frio daquela noite. estava com medo, muito medo. Medo de como iria ser, medo de acabar com fome e com frio, sem um lugar para dormir. Medo de tudo dar errado e ter que voltar para Michigan, frustrada por seus planos irem por água abaixo. Ela só precisava do abraço reconfortante de sua mãe, Lenna, agora. E se tudo aquilo fosse um pesadelo, só desejava acordar.
Fungou algumas vezes e enxugou as lágrimas que caíam teimosas por seu rosto. Não. Ela não podia se permitir continuar pensando tudo aquilo. Havia ido para Londres com um propósito de que, além de conhecer a cidade, iria se reinventar ali. Iria crescer ali e dar um futuro melhor para sua família.
Balançou sua cabeça, um pouco mais animada e afugentou todo e qualquer tipo de pensamento ruim. Pegou suas roupas e seguiu para o banheiro, querendo, naquele momento, um bom banho e um descanso devido. Afinal, tudo aquilo estava apenas começando e ela tinha certeza de que iria fazer suas melhores lembranças na cidade da Rainha.


02. Maybe getting lost is the right way to start

O dia seguinte após ter chegado à Londres havia passado rápido. havia aproveitado para descansar devidamente e fazer seu pequeno roteiro, pontuando todos os lugares que iria visitar e apreciar devidamente. Aproveitou para arrumar suas coisas, de forma que sua mochila ficasse mais leve. O que, de fato, não aconteceu. Não iria poder deixar suas coisas naquele quartinho, já que logo deixaria o hotel.
Revirou o corpo na cama macia e desarrumada, tomando coragem para se levantar. Enquanto estava ali parada, observou o raio de sol acima de sua mão, este adentrava entre a fresta da janela e da cortina fina. O pequeno ato fez a garota sorrir abertamente. Só de lembrar que agora era oficial e ela realmente estava em Londres.
era sonhadora. Desde pequena, sempre gostou de imaginar o que faria quando conseguisse sair do Michigan. Como vinha de uma família humilde, não tinha a regalia de ter um notebook ou um celular bom para que pesquisasse sobre os países encantados de que tanto ouvia falar quando mais nova. Se lembrava bem que em sua escola havia um globo e ela vivia rodopiando o objeto com os dedos, como se aquilo a fizesse ficar mais próxima de cada cantinho no mundo. Rodopiava decorando alguns nomes, alguns lugares que ela julgava que fossem bonitos.
Mas foi só ter acesso a algo melhor, que pode se apaixonar perdidamente. Se apaixonou assim que descobriu Londres. Assim que entrou no Maps e pôde ver detalhadamente as ruas, os bairros e as atrações do lugar. sabia que aquela seria sua primeira parada e, talvez, única.
Fechou seus olhos por um breve momento e suspirou. Suas lembranças eram nostálgicas, a fazendo lembrar de casa, mais uma vez, e de sua família. Ter deixado sua mãe e irmã para trás era o que mais apertava em seu peito, mesmo sabendo que Lenna havia sido o motivo de toda a motivação. Sua mãe sempre desejou o melhor para si e para Madison, sua irmã.
Ela não estaria ali se não fosse pelas duas.
Espreguiçou-se uma última vez e resolveu se pôr de pé. Era seu último dia hospedada em um quarto de hotel e, sendo sincera, não sabia como iria fazer a partir daquele dia. Havia gasto suas poucas libras tendo um pouco de conforto e agora o que lhe restava ainda era pouco para continuar gastando com o aluguel de um quarto.
Resolveu não pensar em seus problemas naquele instante. Estava focada em conhecer Londres inteira e era isso que iria fazer. Começaria por onde, afinal? London Eye? Palácio de Kesington? Eram tantas opções.
Optou por tomar um rápido banho, parando em frente ao espelho e notando sua aparência, o rosto delicado e a pele ainda bronzeada pelo sol de sua cidade natal. Caminhou enrolada na toalha até o centro do quarto e retirou uma muda de roupa confortável. Calça jeans e tênis, para variar. Era o que ela mais gostava.
Checou seu celular carregado e guardou seu carregador. Com isso, avistou que sua internet não estava funcionando muito bem, já que não conseguia carregar suas mensagens.
Com suas coisas arrumadas, pronta para sair, observou o quartinho mais uma vez e o trancou, seguindo para a escada e, com isso, indo em direção ao balcão. No hall, avistou o senhor da noite anterior.
— Oh! Você está aí. — comentou, ao ver a garota parada, o esperando. — Como dormiu? Espero que bem, apesar de nossos aposentos não serem cinco estrelas.
A morena soltou um pequeno riso, negando com a cabeça ao ouvir o comentário.
— Eu dormi mais do que bem. Agradeço por tudo. — sorriu. — Gostaria de acertar com o senhor os dias em que fiquei, por favor.
agradeceu ao senhor antes de sair de vez do local. Ele deu algumas dicas de onde e como chegar, fazendo-a a agradecer mais ainda. Com isso, apertou a alça de sua mochila e colocou os pés na calçada.
Naquele instante, ela teve uma visão bem ampla da avenida. Começou a caminhar pelo local, tentando observar o máximo que podia da arquitetura do lugar. Os ônibus passavam a todo vapor, assim como os carros que transitavam por ali. As pessoas passavam apressadas, ocupadas em seus telefones e outras passeavam. Ela nem sabia o que pensar, era tanta informação, tanta coisa para observar.
Ao chegar próximo ao centro de Londres, ao que seu mapa e seu GPS indicavam, conseguia observar melhor a beleza daquele lugar. Havia lojas das marcas mais famosas, algumas cabines telefônicas, daquelas que se vê em algum post no Tumblr.
Deu um pequeno sorriso ao se lembrar pesquisando as fotos e ergueu seu celular, fotografando-as.
Depois de andar um pouco mais, virou em uma das esquinas movimentadas e paralisou ali mesmo onde estava. Não poderia acreditar, mas estava ali, de frente ao Big Ben. Ficou alguns minutos encarando o enorme relógio até perceber que atrapalhava o caminho. Resolveu se aproximar lentamente, ainda sem acreditar. Observava cada cantinho, cada detalhe. Era demais para acreditar que realmente estava acontecendo.
No mesmo local, havia uma pequena fila e um guia turístico explicava melhor sobre o local. Queria tanto poder pagar para participar daquilo, mas não iria desanimar. Iria ser sua própria guia.
Ao seu lado esquerdo, conseguia avistar o London Eye, ao longe. Pegou seu celular do bolso e começou a fotografar tudo o que podia ver pela frente, sem se cansar.
Enquanto andava lentamente, sem se preocupar na hora que passava, observava cada banca, cada loja, cada pessoa que passava por ela. Somente quando sua barriga doeu, roncando alto, que havia despertado e lembrado de que ainda não havia comido nada.
Observou se perto dali havia alguma lanchonete e avistou uma lojinha de condimentos, logo adentrando-a.
O lugar era bonito, tinha a decoração colorida e o cheiro era convidativo. Resolveu pegar o necessário que saciasse sua fome e observou a fila do caixa, esperando pela sua vez. Com isso, ouviu alguns gritinhos, se assustando e estranhando. Havia algumas garotas no outro corredor, conversavam entre si animadas.
De onde estava, pôde ouvir um trecho da conversa.
— Você viu que eles vão estar pela cidade hoje?
— Não brinca! Eu preciso ver isso! Será que conseguimos...

Elas gesticulavam, falando como se realmente fosse alguém importante. Havia ficado curiosa, precisava admitir. Quem quer que eles fossem, faziam sucesso por ali.

✈️🎡


Com um pedaço do biscoito nos lábios, observava seu mapa em mãos enquanto caminhava lentamente entre as pessoas na calçada. Na direção em que estava, poderia seguir mais um pouco e encontrar o Hyde Park. Ou, se desse meia volta, encontraria um dos museus mais famosos da cidade. Era realmente uma dúvida daquelas.
Depois que deixou a pequena lojinha, encheu sua galeria do celular de fotos de cada lugar em que passava e selfies em frente a eles. Ela não podia passar em branco o fato de realmente estar ali. Quem sabe, postaria em alguma rede social. As pessoas a olhavam de soslaio, provavelmente se perguntando do que ela tanto tirava foto, mas não ligava. Ela queria mais era gravar tudo o que pudesse.
Resolveu por seguir em direção ao Hyde Park. Se deu conta de que sempre o quis conhecer e estando ali, poderia visitá-lo quantas vezes quisesse. Caminhou um pouco mais, com o vento bagunçando seus cabelos e um sorriso contido nos lábios. Era uma sensação maravilhosa.
O parque era tão grande quanto poderia imaginar. Ela não fazia ideia. Todas aquelas entradas e árvores tão verdes, do jeito que tinha visto no aplicativo. Percebeu também que muitas pessoas praticavam algum tipo de esporte, como caminhadas, corridas e yoga naquele gramado.
Com isso, resolveu seguir junto a elas, caminhando.
Cada folha que caía ao chão era memorável. O verde se misturava com algumas folhas ressecadas, que caíam com a chegada do outono. E além das folhas e árvores, havia flores, pássaros por todo canto. Parecia uma cena digna de filme americano. Isso a fez pegar seu celular e tirar mais algumas fotos.
Percebeu a cada vez que caminhava um pouco, havia uma entrada que dava para outro lugar dentro do Hyde Park. Você podia seguir para um restaurante, ou várias mesinhas onde alguns idosos jogavam xadrez. Se caminhasse mais um pouco, poderia seguir pelo caminho em que dava para algum monumento importante ou para a saída mais próxima. Era incrível.
O lugar parecia ter sido projetado de forma minuciosa, tão detalhada. Sabia que não conseguiria conhecer tudo em apenas um dia.
Com mais uma olhada, seguiu em direção à saída mais próxima. Parada ali, percebeu que estava em uma avenida bem movimentada, por sinal. A maioria das pessoas que passavam por ali estavam arrumadas. Terno, gravata, vestido e salto alto. E ali, tinha um dos maiores e mais bonitos prédios. Era de fazer qualquer um suspirar.
Inundada em seus pensamentos, observou um banquinho próximo e se sentou, retirando de sua mochila, uma touca. Naquele final de manhã, havia uma brisa gelada. Essa que a fazia se arrepiar. Era melhor estar aquecida com o que tinha, então.
Estando ali sentada, descansando suas costas no encosto do banco, uma única coisa inundava seus pensamentos. Uma única preocupação.
Como iria ser a partir de agora? Como se sustentaria?
A ideia inicial era de arrumar um emprego decente, para que conseguisse pagar sua estadia e suas contas no final do mês. Pensava, ao menos, em começar assim. Agora parecia estranho. Parecia incerto.
E se não desse certo? E se não conseguisse nada do que planejou?
Será que foi o certo a se fazer?

estava assustada, estava com aquele famoso aperto no peito. Queria voltar para casa. Era a vontade que, naquele momento, inundava sua mente. Em casa, teria sua cama, teria alimentação, teria sua família.
nunca se sentiu tão sozinha como agora.
Ergueu seu rosto e avistou o céu entre os galhos de árvores que ali estavam. Este estava cinzento, com algumas nuvens o rodeando.
— Eu posso fazer isso. — comentou, para si mesma.
Respirou fundo e se levantou, tentando se animar. Iria agora procurar alguma lanchonete para se alimentar, já que era horário do almoço. Não poderia pagar um almoço daqueles, mas iria comer algo. Com isso, atravessou a avenida e pediu licença a algumas pessoas ao chegar à calçada do outro lado, que estava lotada.
Caminhou por ali, observando o comércio em si do local. Era tudo muito bonito, organizado. O que mais tinha era loja de vestuário. Em uma delas, havia um pequeno cartaz na parede de vidro.
A garota resolveu se aproximar, curiosa para saber do que se tratava.
“Estamos contratando. Por favor, entre em contato conosco pelo número...”
Mal pôde terminar de ler, já estava anotando o número e o nome do local para entrar em contato. Talvez, quem sabe, as coisas estejam começando a dar certo? Esperava que sim.
Antes de começar a caminhar novamente, observou um aglomerado de pessoas mais à frente, próximos à esquina. A maioria estava agitada, comentavam algo entre si. Logo à frente dessas pessoas, havia um carro enorme estacionado. O carro deveria ser lançamento daquele ano, já que nunca havia visto um modelo como aquele.
Resolveu se aproximar um pouco. O que será que estava acontecendo por ali? Será que tinha acontecido algo?
Pôde perceber que, entre as meninas, havia quatro rapazes. Eles conversavam com elas, parecendo bem interessados no assunto. Quando comentavam algo, elas riam e gesticulavam de forma exagerada. Da forma que via, pareciam ser um grupo de amigos bem íntimos.
Para não ser notada, tentou se esconder próxima a uma das bancas em que estava a sua frente na calçada. Precisava admitir que estava bem curiosa.
Encostou seu corpo na lateral da banca e continuou os observando. Eles tiravam fotos, mostravam algo no celular e toda vez que os rapazes comentavam algo, as meninas pareciam se derreter ao trocarem olhares.
Relembrou um pouco de sua cidade natal. Nunca fora de ter muitos amigos, era bem seletiva quanto a isso. Sua única amiga na adolescência havia se mudado para longe e o único contato que tinham, às vezes, era por Skype. Sentia sua falta. Ou talvez sentia falta de ter uma amiga ali por ela.
Notou que, com a movimentação, um dos rapazes virou de forma que pudesse vê-lo melhor. sentia que ele não era estranho, mas também não o conhecia de forma alguma. Tinha seus cabelos castanhos ondulados, algumas mechas caíam em sua testa. Seus óculos escuros atrapalhavam descobrir como eram seus olhos. O sorriso em seu rosto era cativante, de forma que quanto mais você olhasse, mais teria vontade de sorrir também.
O rapaz era bonito. Tinha que admitir. Parecia ter uma beleza única.
Desviou o olhar, para que não desse a entender que estava encarando muito. Justamente ele. Aos poucos, retornou a olhá-los. Observou a cena um pouco mais, pareciam se despedir agora.
Sentiu uma pontinha de decepção. Iria adorar olhá-lo um pouco mais. A pele clara do rapaz era totalmente oposta à sua. Costumava achar o bronzeado tão atraente, mas vê-lo parecia ter despertado algo. Talvez estaria começando a gostar da pele clara americana.
colocou a mão na touca em sua cabeça, ajeitando-a e percebeu um pingo de chuva cair sobre suas mãos. Com isso, percebeu que iria sim, chover.
Seu coração acelerou tão rápido, preocupada em onde iria dormir com aquele tempo, que ao dar alguns passos para trás, acabou esbarrando na redonda máquina de doces. Esta se inclinou, quase caindo e, no mesmo instante, a morena o abraçou, pondo-o no lugar novamente.
Se desculpou com o responsável da banca e fechou seus olhos por um breve instante. O que estava pensando, afinal de contas? Quase havia feito um desastre e isso chamaria a atenção do rapaz que estava vendo antes.
Pela última vez, antes de sair do lugar, jogou um pequeno olhar ao grupo de amigos onde estavam e o rapaz, que antes olhava, agora estava encostado no carro esportivo. Suas mãos no bolso do jeans e os óculos virados em direção à morena. Desta vez, ele não tinha aquele sorriso que havia aquecido seu coração. Não. Ele estava sério. Sua expressão era de curiosidade. Como se perguntasse quem era a mulher que o encarava.
sentiu a vergonha tomar conta de todo seu corpo. Engoliu em seco e apertou a alça de sua mochila, se virando e saindo dali o mais rápido possível. Por mais que nunca mais o veria, estava envergonhada. Não devia ter olhado tanto assim.
Contornou a esquina com tanta vontade que não havia notado. Sequer percebeu.
O rapaz estava prestes a ir em sua direção.

✈️🎡


O final de tarde estava acabando, dando lugar ao céu escuro e com poucas estrelas de Londres. havia colocado seu casaco, suas luvas e tentava aquecer seu rosto de forma falha. Era uma noite daquelas, o frio parecia ter caído sobre ela.
Contou e recontou suas libras, percebendo que não havia como pagar mais um quarto naquela noite. Até poderia, mas e os outros dias? Ela não teria nada. Não até conseguir um emprego.
Podia dizer que estava começando a ficar desesperada, com sono e fome. Comeu o resto que sobrara do pacote de biscoitos e uma caixinha de suco que havia comprado.
No meio daquela avenida, tão movimentada e cheia de luzes, ela queria sentir um pouquinho de esperança. E como queria. Queria poder se convencer de que tudo ficaria tão bem a ponto de poder ligar para sua família e dizer que havia conseguido. Ela queria estar feliz.
Mas não estava. Sentia o medo. O desespero. O coração apertado e o corpo dolorido.
Sabia que teria que fazer algo que sequer havia imaginado.
Com o corpo cansado e a mente em um turbilhão de pensamentos, sem nenhuma solução, caminhou um pouco mais.
Uma pequena viela, um beco mal iluminado. O observou bem. Deu um passo para adentrá-lo, mas travou, virando seu corpo novamente para a avenida. Piscou algumas vezes, achando loucura o que havia pensado.
Rapidamente, pegou seu celular e com isso deixou cair o papel amassado que estava em seu rosto. Era um número. Havia se lembrado que o número pertencia à garçonete que havia lhe ajudado outro dia.
E se ligasse para ela?
Não. Mal a conhecia. Não a incomodaria também. Muito menos se fosse para pedir que passasse uma noite. Não a conhecia.
Mordiscou seus lábios, ressecados pelo frio e guardou o aparelho, desistindo da ideia. Ela não poderia fazer aquilo. Não poderia fazer nem o que estava pensando, mas percebeu ser a única solução.
Ela não iria dormir ali. Claro que não. Mas, talvez, se descansasse um pouco o corpo...
Olhou para os lados, verificando se alguém a olhava e adentrou o beco. Não havia ninguém por ali, nem mesmo um morador de rua. Havia uma grande lixeira e alguns papéis espalhados pelo chão. Passou os olhos por todo o lugar e notou um canto, não tão sujo. Ali se sentou e suspirou, deixando que todo seu ar escapasse.
Colocou as mãos no rosto, pressionando-o. não ia aguentar. E se seu sonho acabasse em pesadelo? Sentia que tudo iria desmoronar.
— Eu não posso fazer isso. — Sussurrou, para si mesma, e suspirou mais uma vez. O nó estava se formando em sua garganta.
E agora, o choro alto vinha à tona.
Sentiu suas lágrimas mornas descendo pelo rosto. Sentiu toda sua coragem se esvaindo de seu corpo. Ela não estava acreditando. Como havia deixado isso acontecer?
Fungou algumas vezes, ainda com o rosto molhado, e tentava se acalmar vez ou outra. Não conseguia pensar no que fazer, estava com tanto frio, com tanta fome. Não sabia como começar. Não conseguia organizar seus pensamentos.
E foi com toda essa preocupação, com toda dor e saudade de casa, que tudo começara a escurecer.


03. I know there's gonna be better days for you...

Seu corpo doía. Sua mente parecia entrar em colapso a qualquer momento, mas a única coisa que conseguia sentir naquele momento era o peso que sua nuca carregava por ter dormido mal, praticamente sentada, encostada naquela parede úmida e suja do beco.
Não queria abrir seus olhos e enxergar a realidade que lhe aguardava. Na verdade, desde que teve que dormir sem alguma acomodação, torcia para que fosse um pesadelo qualquer e para que logo acordasse. Não aguentava passar por aquilo e não imaginava que tudo seria daquela forma.
Será que realmente havia colocado os pés pelas mãos ao decidir ir para Londres? Ela havia se planejado, havia pensado em toda sua viagem com calma e com antecedência, por que aquilo estava acontecendo então? Por que parecia que seu sonho estava indo por água abaixo? Não era possível que tudo fosse tão ruim assim.
Com um suspiro fundo e vagaroso, levou suas mãos em direção ao rosto e as permaneceu ali por alguns segundos, até decidir o que realmente iria fazer.
Não queria desistir, não queria voltar para casa e contar que todo o seu sonho não havia passado apenas disso. Um sonho. E que sua experiência não havia sido memorável a ponto de não aproveitar nada do que havia imaginado.
Era frustrante, decepcionante... Era triste, sabia bem. Só não sabia até quando poderia suportar tudo aquilo.
Ainda com as mãos espalmadas em seu rosto, alisou-o como se aquilo a fizesse acordar completamente. Com os olhos ainda sonolentos, os abriu, avistando o que nunca imaginou ver em Londres. Havia algumas lixeiras comunitárias, alguns sacos de lixo espalhados por ali e caixotes. Uma vista nem um pouco agradável.
Deixou um resmungo alto escapar por seus lábios e ajeitou os cabelos, antes desarrumados, em um rabo de cavalo, se preparando para sair dali o mais rápido possível. Olhou para suas vestimentas, percebendo-as já não tão limpas e pensou no que poderia fazer para tentar se limpar. Poderia tentar comprar algo para comer e parar em uma das lanchonetes em que poderia ir ao banheiro, como fez da última vez. Talvez isso a ajudasse um pouco.
É, talvez poderia arrumar um jeito de sair daquela. Faria isso, tinha certeza.
Olhou para os lados, notando que não havia ninguém pelo local e retirou o celular do bolso de sua mochila, apenas para se olhar melhor. Observou pela tela que sua expressão, apesar de cansada, ainda não estava tão ruim e que talvez até pudesse passar alguma impressão, mesmo não estando limpa como queria.
A verdade era que queria gritar por estar daquele jeito. Queria ligar para sua mãe para contar tudo o que estava passando, mas aquilo não seria certo. Não. Ela não podia simplesmente pedir socorro quando as coisas ficavam ruins assim, até porque sabia bem como a mãe poderia ser ao saber pelo que estava passando e no mesmo instante poderia querer pegar o primeiro voo para encontrar . Da mesma forma que também não poderia aceitar seu dinheiro, ela já havia ajudado muito com seu sonho de ir para Londres. Já havia feito muito.
Balançou sua cabeça, como se isso fosse espantar todos os pensamentos infortúnios que pairavam por sua mente e colocou a outra alça da mochila nas costas, pronta para sair daquele lugar e começar novamente sua tour pela cidade da rainha. E foi só pensar naquilo que um frio conhecido passou por sua barriga, mas sendo confundido plenamente com a fome que sentia.
Fez uma pequena careta, levando uma das mãos na barriga e entortou os lábios com aquela situação, quase como se fosse sorrir. Sim, sorrir. sabia que estava passando por um perrengue daqueles, mas tentaria tirar o melhor para si. Faria com que mesmo os piores momentos em Londres se tornassem boas lembranças para seu aprendizado.
Não se deixaria abater.
Quando colocou os pés calçados pelo tênis para fora daquele beco e pisou a calçada, pôde sentir quase como se estivesse em outro mundo. Observou como as pessoas andavam apressadas e como outras caminhavam analisando cada canto do local, o que logo notou por serem turistas, assim como ela. Claro que havia percebido aquilo no primeiro dia que aterrissou em Londres, mas toda vez parecia a primeira. Ela achava fascinante.
Com um pouco de insegurança por suas vestimentas, começou a caminhar de forma calma, passando por algumas lojas, só então notando que ela ainda estava próxima ao centro da cidade, percebeu quando viu uma das placas em que informava estar perto do Tottenham Court Road.
Olhou admirada a estrutura do lugar, em como os prédios antigos ainda assim aparentavam ter um charme irresistível e de como o céu azul contrastava com o colorido deles. E com isso, também observava os ônibus de dois andares vermelhos trafegando por ali, com anúncios em suas laterais de novos locais ou até mesmo algum show que alguma banda qualquer faria em Londres.
Assim como os ônibus, havia vários táxis e muitos, muitos carros. Era surreal para ela. Não parecia que realmente estava ali e com esse observar, acabou se esquecendo de tudo o que havia passado até então. Só conseguiu notar o quanto aquela cidade era diferente da sua pequena Ann Arbor. Apesar de não ser nada comparada a Londres naquele ponto de vista, sua estrutura era acolhedora e para ela não havia outro ar como o de lá.
agora dava passos mais animados, olhando para as lojas ao seu redor enquanto dizia para si mesma que tudo iria se ajeitar. Ela conseguiria achar um emprego de início, conseguiria pagar um lugar para ficar e aos poucos se ergueria em Londres, do jeito que sempre sonhou.
Caminhou por mais algum tempo, aproveitando a oportunidade de encontrar algumas lojas que estavam aceitando novos atendentes para assim se apresentar e tentar encontrar um novo emprego. De cara, recebeu um não, e nas duas outras tentativas disseram que iriam entrar em contato com ela. Claro que, de início, a primeira coisa que sentiu foi rejeição. Sabia que por suas roupas e seu estado todos já a olhavam meio torto ao entrar em qualquer lugar, ainda mais ao falar sobre emprego. Não a aceitariam tão fácil assim.
Deixou um suspiro cansado sair de seus lábios e os pressionou, erguendo a cabeça. Não iria se deixar abater, não poderia pensar nisso logo
quando achou que poderia fazer diferente e, pelo menos naquele dia, tentaria pensar e sentir algo diferente de todas as emoções anteriores.
Olhou ao seu redor, observando as pessoas que passavam e todo o cenário que um dia sonhou em conhecer. Observou cada detalhe como antes para gravar o máximo que pudesse antes de estar de volta à sua cidade natal, já que no fundo ela sabia e sentia que aquilo não demoraria muito a acontecer. Claro que chegar aonde havia chegado havia sido algo muito grande para ela, mas no fundo a garota sentia que boa parte de tudo o que sonhou não estava sendo realizada da forma que queria, da forma que planejou.
Ela podia sentir seu peito se comprimindo aos poucos por se lembrar vagamente de todas as noites perto de seu abajur, com o pequeno caderninho de anotações, fazendo cada pequeno percurso e anotando tudo o que iria fazer quando chegasse a Londres.
Não pôde deixar de conter um sorriso no canto dos lábios quase como se pudesse sentir toda aquela esperança que tinha invadindo seu coração novamente. Adorava se lembrar de como parecia uma adolescente animada ao observar por horas as fotos dos pontos turísticos que hoje havia conseguido ver de pertinho.
Apesar de tudo, se sentia grata por ter conseguido chegar até ali.
colocou as duas mãos na alça da enorme mochila que pesava suas costas e ergueu o rosto novamente, conseguindo avistar o céu azul e com poucas nuvens o estampando, notando assim como o clima daquele dia era ameno e favorável. O pouco vento que passava pelo local não fazia falta, já que mesmo o tempo estando aberto, ainda fazia um pouco de frio pelo clima naquela estação.
O outono chegava a ser encantador ali.
Com o mesmo pensamento de antes em sua mente, continuou caminhando pelas ruas movimentadas e agitadas, mas foi quando a garota virou a esquina da Regent Street, se deparando com a movimentação maior que a anterior e a música que ecoava pelo lugar que conseguiu sentir naquele instante todo o seu corpo se arrepiar. Parecia completamente surreal. Será mesmo que ela ainda não estava sonhando em seu pequeno quarto?
sorriu. Sorriu de forma tão aberta e sincera que mal podia explicar tudo o que estava sentindo naquele momento. Não acreditava, nem mesmo parecia estar realmente ali, como se seu corpo estivesse anestesiado e tudo parecesse sim um sonho maravilhoso.
Não soube dizer como estava sua reação naquele momento, mas sabia exatamente que seus olhos estavam arregalados e marejados, avistando somente toda a arquitetura e decoração que a avenida tinha. A verdade era que parecia que estava dentro de um filme clichê com toda a paisagem que qualquer um poderia sonhar, mas a única diferença era que normalmente em filmes as coisas costumavam ser bem mais fáceis.
Ela não iria pensar naquilo. Não mesmo. Com os olhos focados nos prédios ao redor, ela só conseguia pensar em gravar cada pequeno detalhe da rua em que estava.
A garota olhava com admiração cada janela e detalhe arquitetônico antigo que marcava os prédios enfileirados dos dois lados da rua, percebendo o quanto a cidade era idêntica às fotos e ao Street View que ela sempre via. Sempre pensou que talvez não fosse nada daquilo que ela estava imaginando, ou que talvez poderia se decepcionar ao chegar ali, mas estava completamente errada. Errada porque Londres nunca decepcionava, era tão magnífica como havia visto e imaginado em seus sonhos.
Continuou caminhando vagarosamente, imersa ao seu redor e na música leve que tocava provavelmente de alguma das lojas que tinha por ali, essas sendo mais um dos motivos para que não conseguisse tirar seus olhos das vitrines que passava. Olhou de forma observadora como havia lojas caras, famosas e até mesmo as menos conhecidas que, em meio à elas, se tornavam grandes e importantes. Notou também que havia algumas promoções e seu subconsciente quase a alertou novamente para prestar atenção se em algum daqueles lugares havia algum aviso de que tinham vagas para qualquer trabalho. Naquele ponto, tão apaixonada e emocionada com o lugar, a única coisa que a garota mais queria era permanecer em Londres o máximo que pudesse, exatamente no tempo que havia planejado.
Cantarolou baixo, consigo mesma, a música qualquer que ressoava por ali e continuou caminhando, sequer percebendo como estava ficando mais animada só de sair observando o lugar por ali. Ela sabia bem que não tinha uma próxima parada e nem sabia o que faria após turistar ao final daquele dia, mas aquilo não importava no momento. Não. Ela aproveitaria o máximo de tudo o que pudesse, nem se fosse apenas olhando.
Ao final daquela rua, conseguiu ver a enorme curva que fazia, levando a continuação da Regent Street onde haviam mais lojas ainda e, com isso, a aglomeração de pessoas ia se intensificando entre aquelas que saíam abarrotadas de sacolas de grife, as que caminhavam despreocupadas como e as que não estavam ali apenas por prazer, e sim para trabalho. Ela já havia percebido aquilo nos dias anteriores, mas era como se toda a vez fosse a primeira e ela sentia que, como tudo era tão novo, não se enjoaria de notar as pessoas que passavam por si com todo o ar que Londres tinha.
Era uma cidade sem igual.
Enquanto caminhava, pôde perceber que estava passando por uma das lojas que havia ouvido falar e que havia pesquisado também. A Stefanel estava localizada quase ao final da Regent e era completamente iluminada, com luzes amareladas e continha uma pintura básica, clara, com apenas o preto e branco em suas paredes e portas. engoliu em seco ao vê-la tão perto, não por ser uma loja famosíssima, mas por se olhar através da vitrine, em frente ao manequim que ali continha. Comparando suas roupas com a que ele vestia, conseguiu sentir seu rosto queimar pela pouca vergonha que sentiu ao se ver tão… Desarrumada. Não era só o fato de estar desarrumada, mas sim de também estar suja e não ter um lugar para se limpar devidamente. Ela ainda trajava sua calça jeans, o all star surrado e a blusa de manga que antes era coberta pelo pesado casaco moletom que tinha enquanto o manequim vestia um conjuntinho básico formado por uma calça branca e casaco preto perolado que ela não precisava nem apostar que valia muito mais do que havia economizado para ir a Londres.
Como ela queria estar, ao menos, vestida de forma apresentável.
Colocou uma das mãos em seu rosto, se vendo pela vitrine mais uma vez e conseguiu notar o quanto estava cansada, a expressão exausta. parecia até ser mais velha do que realmente era pelas bolsas escuras logo abaixo dos olhos castanhos e o cabelo ondulado caía sobre seus ombros, com pouco menos brilho do que realmente tinham. Ela precisava se recuperar, necessitava tentar não se deixar abater como vinha acontecendo.
Fechou os olhos brevemente, respirando fundo.
Vamos, , você consegue. Você é forte e chegou até aqui. repetia para si mesma a todo tempo, se encorajando para não sucumbir ao desejo mais fácil que tanto passeava por sua mente de desistir. Ela não poderia fazer isso depois de tudo.
Não! Ela não iria desistir e olhar para o final da Regent Street, que dava para o centro com ainda mais lojas para conhecer. Assentiu consigo mesma, voltando a colocar um sorriso aberto em seu rosto.
Ela ainda tinha muito o que fazer até o final do dia e com certeza estava pronta para continuar conhecendo uma parte incrível de Londres.


✈️🎡


Foi no momento em que viu os raios de sol se escondendo entre as nuvens, indicando o final de mais uma tarde, que se deixou levar pelos sentimentos bons que sentia naquele momento e não pelas lembranças ruins que havia vivido desde que chegara a Londres e que tanto costumavam voltar para assombrar sua mente. Olhando toda a arborização do Queen Mary’s Rose Gardens, foi realmente como se garota não tivesse passado por nada daquilo e que, pelo menos por alguns momentos, nada do que tinha passado anteriormente havia mesmo acontecido. Quase como se tudo tivesse sido apenas um pesadelo e talvez ela tivesse mesmo com aquele sentimento porque, no fundo, queria que fosse. queria tanto que todos os momentos, principalmente os que passou fome e que precisou descansar na rua, nas noites frias e solitárias de Londres, pelo menos para ela, fossem só um pesadelo e que a qualquer momento ela pudesse abrir os olhos de uma vez e notar que estava bem, saudável e feliz, realizando o seu grande sonho de visitar a cidade que tanto amava.
Deu um sorriso fraco, apesar de triste, com seus pensamentos. Se sentia tão ingênua por tudo o que estava acontecendo que a vontade que ia invadindo seu peito na medida em que os minutos se passavam era de apenas contemplar tudo pela última vez e voltar para casa, sendo acolhida pelos braços reconfortantes de sua mãe e o carinho atencioso de Madison, e não poderia deixar de voltar a sentir a saudade imensa a invadindo por completo.
Fechou os olhos por alguns instantes, se lembrando vagamente do sorriso incentivador que sua mãe colocou nos lábios ao vê-la embarcando e das mãos de sua irmã se abanando em um adeus breve. Como ela sentia falta de sua família…
Passou uma das mãos no rosto, tentando espantar um pouco todas as lembranças que faziam seu coração se apertar um pouco mais e colocou o resto do biscoito, que tinha nas mãos, na boca, fazendo assim com que descartasse o pacote e se aproximasse de um banco livre pelo lugar, ainda observando a mesma paisagem anterior, esta com o céu em um azulado mais escuro indicando que logo anoiteceria. estremeceu com seu pensamento, sabendo que teria que arrumar um lugar para passar mais uma noite, mas não focou nisso naquele momento.
Ela precisava fazer outra coisa.
Com um pouco de dificuldade, retirou a enorme mochila de suas costas, a apoiando no banco ao seu lado e a abrindo, tentou procurar seu celular por dentro dela. Sabia que provavelmente este não estava com bateria e, mesmo o desligando, não a poupara por muito tempo, mas queria de alguma forma poder ouvir a voz de sua família e não apenas ler algumas mensagens e respondê-las, dizendo que estava tudo bem.
Tudo bem.
Suspirou, sabendo que aquela era a maior mentira que poderia contar.
Ao sentir o aparelho gelado em suas mãos, o pegou, apertando o pequeno botão para que ele ligasse rapidamente e viu o pequeno símbolo da marca aparecer na tela, fazendo um resquício de alívio tomar conta de seu corpo por ver que ainda poderia usá-lo um pouco. Enquanto o esperava ligar por completo, olhou ao redor, podendo ver algumas pessoas caminhando por ali, outras conversando entre si e algumas apenas e provavelmente fazendo seu caminho de volta para casa, já que aquele horário era o de saída de expediente para alguns. Deixou seus olhos caírem sobre as roupas que vestiam, o modo em que andavam e se portavam, assentindo para si mesma mais uma vez que os londrinhos tinham seu jeito único e marcante, não podia ter mais certeza daquilo.
Observou que também passavam alguns grupos de amigos, mas dois rapazes que passavam quase como se estivessem se vigiando lhe chamaram a atenção, fazendo pensar o que eles estavam procurando, afinal, olhavam muito para os lados. Ela continuou os olhando até que um deles a olhasse de volta e aquilo de certa forma a deixou incomodada. Não era um olhar comum, mas quase como se a fizesse estremecer. E não de um jeito bom.
A garota abaixou a cabeça, balançando-a e os ignorou por alguns instantes, vendo o display de seu celular aceso. Rapidamente e com um sorriso pequeno surgindo em seus lábios, pressionou o número de sua mãe, conseguindo ouvir os toques começarem a ressoar.
Em pouco tempo, pôde ouvir a voz melodiosa de Lenna invadir seu ouvido e no mesmo instante seus olhos marejados, fazendo quase soltar um soluço pelo choro contido.
— Mamãe.
Disse quase em um sussurro antes de qualquer coisa.
— Meu amor, eu estava tão preocupada com você! — Sua mãe dizia em um tom ameno, mas apreensivo. — Como estão as coisas? Como você está? E como é Londres, querida? É exatamente do jeito que você sonhava?
fechou os olhos, sentindo uma lágrima escapar ao ouvir as perguntas de sua mãe. Ela queria tanto dizer que tudo estava perfeitamente bem, que ela estava tão feliz e que Londres era apaixonante, mas não. Era completamente o contrário daquilo, nunca imaginava que aqueles sentimentos fariam parte de si algum dia.
Ela se sentia magoada, decepcionada e arrependida. Sim, tudo aquilo e um pouco mais, e ao ouvir a voz de sua mãe tão esperançosa ainda a incentivando fez com que tivesse a certeza de que queria voltar para sua casa o mais rápido possível.
— Oh, mãe… Londres é tão linda, tão mágica… Você e Mad iriam adorar, eu tenho certeza. Toda a arquitetura, a iluminação e principalmente todo o ar daqui é diferente. Sabe, como as fotos que te mostrei antes de vir — ela dizia ainda com os olhos sob o céu escuro e admirava de forma nostálgica as estrelas que iam surgindo. Sua garganta doía, o nó só ia crescendo. — Eu estou bem, tem sido um pouco corrido. Eu tenho procurado emprego sempre que posso. — Omitiu algumas partes e assentiu consigo mesma ao ouvir a voz surpresa de sua mãe.
— É mesmo? E como tem sido? Eu sei que é difícil, conversamos sobre isso. Eu confio muito em você, minha filha. — Suas últimas palavras fizeram levar uma das mãos à boca, como se isso segurasse o choro apertado que insistia em sair. Pressionou os olhos novamente, levando um tempo antes de responder. — Você conseguiu um lugar bom para ficar? Tem se alimentado direitinho? Não se esqueça do café da manhã, é a alimentação essencial para o começo do seu dia — ralhou, soltando um suspiro ao final por saber que não conseguiria chamar a atenção da filha.
— Eu consegui um lugar, não é um dos melhores, mas eu gosto e não é sempre que consigo me lembrar de comer pela manhã, mas sempre faço um esforço — inventou uma desculpa rapidamente para não deixar Lenna preocupada e a ouviu concordar do outro lado. — Não precisa se preocupar assim…
Disse, deixando sua mente vagar para sua cidade natal. Por um lado, queria muito contar à sua mãe o que realmente estava acontecendo, queria lhe dizer a verdade e queria saber a opinião dela, mas, por outro lado… Saberia que talvez só iria piorar toda a situação. Lenna faria o impossível para trazer de volta a Ann Arbor ou até mesmo daria um jeito de fazê-la continuar ali.
Isso era uma das coisas que a garota não queria, tinha prometido à sua mãe que tudo daria certo e ficaria bem.
Ou pelo menos achou que seria assim.
Nos minutos seguintes, ouviu sua mãe comentar sobre como ela e sua irmã estavam, em como estavam se esforçando para continuar fazendo o restaurante da família continuar funcionando e que Mad fazia seus horários na maior parte do tempo, não por ser obrigada, mas porque queria e de certa forma aquilo fazia um pouco da saudade de se dissipar minimamente. Ouvir aquilo de sua mãe fez chorar um pouco mais, sentindo que mais do que nunca precisava voltar para sua família, mesmo sua mãe lhe apoiando o contrário.
Suspirou mais uma vez, demonstrando a tristeza que invadia seu peito e fazendo assim com que sua mãe percebesse.
— Querida, você está chorando? — Perguntou aflita. murmurou em resposta. — Oh, meu amor… Não fique assim. Você está realizando um sonho, mesmo longe de nós duas. É tão corajosa e valente, . Eu e sua irmã estamos muito orgulhosas de você. Sabe disso, não é?
balançou a cabeça, assentindo como se sua mãe estivesse vendo aquilo.
Mamãe… — murmurou mais uma vez, limpando o rosto molhado. — Eu sinto tanta falta de vocês. Às vezes até penso em desistir de tudo e voltar para casa.
— Você sabe minha opinião quanto a isso, sempre te receberei de braços abertos, mas, minha filha… — pausou, suspirando. — Não desista de seu sonho tão facilmente assim. Você tem tanto para ir longe ainda, tanto para conhecer e viver em Londres. Sempre soubemos que não seria fácil, a vida não é fácil, meu amor. Precisamos passar por tormentos para chegarmos ao momento de paz — disse de forma tão calma que sentiu todo aquele sentimento tomar conta de si. Ela amava tanto sua família e sua mãe parecia saber exatamente pelo que ela estava passando, mesmo sem dizer. — Eu amo você, , e também sentimos muito a sua falta, mas saiba que você ainda pode, e eu sei que vai, conhecer Londres do jeitinho que sempre sonhou.
— Você não faz ideia de como eu precisava te ouvir.
disse baixinho, se dando por vencida e deixando todo o choro que segurava vir à tona, fazendo-a suspirar e soluçar por alguns minutos. Sabia que falar com sua mãe não seria fácil, sabia desde o primeiro momento, mas havia sido tão importante para sua jornada ali. Ela precisava.
— Eu amo você, meu amor, e oro todas as noites para que fique bem e que não passe por nada ruim. Sempre te carrego em meu coração — disse e soube que ela sorria do outro lado da chamada. — Nos ligue mais vezes, tudo bem? Eu sei que talvez você não consiga pelo fuso horário e pelos seus afazeres, mas isso não importa. Eu e Mad vamos sempre te atender. Você tem certeza de que está bem, filha?
concordou mais uma vez, passando as mãos pelo rosto de forma rápida.
— Estou bem, sim, mãe. Não se preocupe. Eu só senti muita saudade, foi isso — respondeu, pressionando os lábios e deixando um sorriso mínimo transparecer. — Tudo vai ficar bem, como você disse. Vou ser forte e continuar — afirmou mais para si mesma do que para sua mãe. — Eu amo vocês, mamãe. E sempre carrego as duas em meu coração também.
— Ah, meu orgulho! Fique bem, minha querida. E se precisar de qualquer coisa, inclusive na questão financeira, eu dou um jeitinho, tudo bem? E eu estou falando sério, — disse firme, soltando uma risadinha ao final. — Agora tenho que ir. O restaurante já abriu. Fique bem, filha.
— Vou ficar, mãe. Até logo, amo vocês!
Pôde ouvir a mesma resposta de sua mãe em despedida e em seguida só conseguiu ouvir o toque final anunciando que havia desligado. permaneceu na mesma posição por alguns segundos, digerindo tudo o que havia acontecido e se sentiu tão acolhida novamente, como se realmente tivesse recebido um abraço de sua mãe, e quando percebeu estava chorando novamente, não só por ter omitido tudo o que realmente estava acontecendo, mas por ver que sua mãe ainda a incentivava de forma terna e tentava lhe ajudar mesmo não podendo.
Ela não sabia como agradecer.
Continuou sentada no banco do jardim, notando que já estava de noite e o frio daquele dia se tornava mais evidente ainda, a fazendo desligar e guardar o celular mais uma vez, tirando a touca de dentro da mochila e aquecendo sua cabeça assim que a colocou.
soltou um suspiro enquanto encaixava agora suas luvas nas mãos, voltando a olhar ao seu redor, percebendo que não havia tantas pessoas como antes e aquilo a alertou por alguns instantes, percebendo que havia ficado praticamente sozinha no lugar. Olhou para o lado, observando as luzes que iluminavam o caminho calçado do lugar, no centro do jardim cheio de flores coloridas e árvores as quais suas folhas caíam pelo chão. Com isso, resolveu por logo ajeitar sua mochila novamente nas costas e partir para um lugar mais movimentando para então pensar o que faria naquela noite para poder descansar.
Aquele sentimento de impotência, de desilusão, começara a tomar conta de si novamente, mais uma vez, em mais uma noite. O que faria? Todos os seus dias seriam assim ao final? Ela não podia continuar daquela forma, não poderia continuar descansando todas as noites em um beco qualquer.
Não era o que tinha planejado.
Respirou fundo, pressionando os lábios, como se aquilo pudesse conter seu choro novamente, mas não teve muito tempo para pensar mais sobre o assunto, já que alguns passos começavam a ficar evidentes no local, bem atrás dela.
olhou para os lados, não conseguindo ver ninguém, mas ao olhar para trás, conseguiu avistar os dois rapazes de mais cedo caminhando até ela, com os dois pares de olhos focados na garota.
Ela sentiu o coração descompassar. Será que estava imaginando coisas e talvez fossem apenas duas pessoas quaisquer caminhando por ali àquela hora? Não sabia, mas sentia seu peito comprimir ao notar que eles a seguiam e não faziam questão de passar por ela.
Apressou seu passo. andava de forma tão rápida que sentia sua garganta secando na medida em que seus passos eram largos e apressados, evidenciando seu espanto pelo que estava acontecendo.
Pôde ouvir risadinhas e duas vozes invadindo sua mente.
Não. Aquilo não podia estar acontecendo.
— É melhor que você não corra — um deles falou e naquele momento ela percebeu que estavam mais perto do que imaginava. só conseguia ver as árvores que decoravam o caminho até o final do jardim, mas ela não conseguia ver com nitidez a rua em si, indicando o final da calçada.
Ela queria gritar, queria chorar, queria pedir por ajuda, mas sua voz não saía, estava desesperada demais para aquilo.
Uma lágrima caiu, sendo seguida por outras inundando seu rosto e fazendo com que sua visão começasse a ficar turva, impedindo que ela conseguisse ver com clareza. nunca, em toda sua vida, achou que passaria por aquilo algum dia.
Não imaginou que acabaria em Londres daquela forma, sem dinheiro, sem um teto para dormir e sendo perseguida no meio da noite. Não. Ela não podia estar passando por aquilo.
Quase como inevitavelmente, sentiu o choro alto vindo à tona, fazendo assim com que soltasse um murmúrio alto pelo soluço engasgado. Ela continuava ouvindo os passos, eles zombando e dizendo como a pegariam assim que se aproximassem ainda mais.
só queria encontrar a saída. Observou a pouca luz no final daquele corredor de flores e árvores e conseguiu avistar de forma embaçada as luzes amareladas e coloridas das lojas ainda abertas naquele horário. Ela praticamente correu em direção à rua, sentindo o corpo tremer de forma tão agitada, apavorada e, sem nem olhar, virou à direita, sentindo seu corpo bater em outro de forma violenta, soltando um pequeno gritinho de quem quer que havia esbarrado e fazendo com que caísse ao chão, sentindo o corpo doer pela queda.
se sentia fraca, debilitada.
Ela não poderia continuar ali daquela forma. Depois de tudo aquilo, havia decidido.
Voltaria para Ann Arbor na primeira oportunidade.
Ainda no chão, deixou que suas lágrimas continuassem caindo e como se sua ficha tivesse caído por completo, o choro alto e desesperado se alastrou, a fazendo colocar as mãos ao redor dos joelhos, os abraçando e afundando o rosto entre seu colo e as pernas. Ela não aguentava mais, era demais para suportar.
Não era forte como sua mãe havia dito e nem mesmo conseguiria continuar.
sentiu o corpo ceder aos poucos, não sabia ao certo o que estava acontecendo, mas estava completamente fraca e a queda só evidenciou o quanto estava mesmo debilitada.
? — Ouviu a voz ao longe, sentindo os olhos pesarem por todo o cansaço e esforço feito. Ainda chorava. — , é você?
A garota ergueu o rosto, passando uma das mãos, tentando limpar as lágrimas molhadas e aos poucos conseguiu avistar um rosto feminino ficando nítido à sua frente. Conseguiu ver as mechas loiras caindo sob seus ombros, o casaco pesado abraçando seu corpo e o olhar aflito em seu rosto.
Aquela não era…
— Anny? — Perguntou em um sussurro. — O que… Eu… Me desculpe.
Continuou murmurando até avistar a garota ajustar suas sacolas de compra nos braços e abaixar em direção a , colocando as mãos em seu braço, a ajudando a se levantar.
— Ei, fique calma. O que houve? Por que você está chorando? — Perguntou aparentemente preocupada e olhou por completo, como se realmente já a conhecesse há tempos. — Você está bem?
— Eu… — A morena não sabia nem por onde começar. Estava tão atordoada, tão perdida, só queria entrar no primeiro avião disponível para sua casa. — Eu sinto muito ter esbarrado em você. Não foi minha intenção, eu só…
Fungou. Uma, duas, três vezes. E aí, voltou a chorar desesperadamente, abraçando seu próprio corpo.
Anny a olhou, engolindo em seco e fez o que sequer esperava de alguém tão cedo por ali.
A abraçou.
ficou parada por um tempo, sentindo o corpo amolecer pelo contato e isso fez com que todos os sentimentos guardados a sete chaves que insistia em manter para não a tirarem do chão, viessem à tona de uma vez por todas. E isso fez seu choro ficar ainda mais alto.
— Não precisa se desculpar, está tudo bem, de verdade — disse abafado por ainda estar abraçada à garota. — Eu não sei o que aconteceu, nem mesmo precisa me contar se não quiser, mas pode colocar para fora. Vai te fazer melhor — continuou dizendo e deu pequenas batidinhas nas costas de . Isso fez com que ela se sentisse reconfortada aos poucos, sentindo o choro amenizar. — Tudo bem agora?
Balançou a cabeça, tentando demonstrar que estava ficando melhor. Nos segundos em que se recompunha aos poucos, Anny deixou os olhos caírem na garota ao se afastar e observou que provavelmente havia acontecido algo não tão bom com ela, já que de fato ela não parecia igual como a tinha encontrado da última vez. parecia cansada, exausta e perdida.
Completamente perdida.
— Você está com frio — murmurou para si mesma ao observar tremer aos poucos. Anny tirou seu cachecol, esticando em direção da garota, piscando algumas vezes. a olhou surpresa e continuou a observando, antes de pegá-lo e enrolar em seu pescoço rapidamente. Anny a observou. — Eu não sei o que está acontecendo e, como eu disse, você não precisa me falar se não quiser, mas… Por que chorava desse jeito? Confesso que fiquei preocupada.
permaneceu com os olhos em cima dela e, ao ouvir sua pergunta, abaixou o olhar, começando a mexer de forma nervosa nas pontas soltas de seu mais novo cachecol.
— Anny, eu… — tentou começar de alguma forma, sentindo as palavras se perderem ali mesmo. Anny balançou a cabeça com sua reação e sorriu mais uma vez, mostrando que não havia problema. Com isso, colocou uma das mãos sobre as de .
— Olha, está tudo bem, mesmo. Só fique mais calma, ok? — Disse, ainda sorrindo. — Eu estou indo para casa agora e adoraria companhia. O que você me diz? Eu sei fazer um chocolate quente incrível nesse frio.
Soltou uma risadinha, como se aquilo fosse animar a outra de alguma forma. engoliu em seco, se sentindo estranha com aquele convite por estar tão malvestida e por estar suja. Sorriu sem graça.
— Eu adoraria, mas…
— Por favor, podemos conversar melhor e olha… Não vou conseguir comer essa torta de maçã inteira sozinha. Vou precisar de companhia. — Piscou, levantando uma das sacolas para mostrar a , que instantaneamente sentiu sua barriga roncar, levando uma das mãos até ela. Pressionou os lábios ao ver Anny ainda sorrindo para ela.
— Não quero dar trabalho, Anny. Obrigada, de verd...
— Não, não. Não aceito um não como resposta — disse, cortando e se posicionou ao seu lado, entrelaçando seu braço livre com o dela. Isso fez tomar um pequeno susto, não esperava que Anny a recepcionasse daquela forma, ainda mais por ela estar mesmo suja. — Vamos! Eu nem moro tão longe assim.
Observou o olhar da garota sobre si, tão amigável e acolhedor que sentiu seu coração se aquecer aos poucos por perceber que ainda havia pessoas boas e verdadeiras, pelo que havia percebido. Anny havia salvado sua noite naquele momento.
balançou a cabeça, assentindo ao pedido da garota e caminhou com ela de volta pela Regent Street enquanto Anny fazia questão de contar cada mísero detalhe da avenida em si, ainda assim mostrando novamente tudo o que havia visto mais cedo, quando o sol ainda estampava boa parte do lugar. Naquela pequena conversa que tiveram, percebeu que tudo o que havia sentido anteriormente em meio ao seu choro desesperado havia se dissipado e que agora uma sensação de ansiedade por tudo o que estava ouvindo tomava conta de si. Ela estava adorando saber.
Caminharam um pouco mais depois da Regent, pegando a Grosvenor St. em direção à Bayswater Rd., onde, de acordo com Anny, era um dos caminhos mais fáceis e rápidos de chegar ao seu querido e aconchegante bairro, Shepherd’s Bush, que não era tão afastado assim do centro de Londres. percebeu todas as luzes que iluminavam aquela fria noite e todo o trânsito pelo horário que provavelmente todos saíam de seus trabalhos.
Anny havia falado que o caminho andando até seu bairro era um pouquinho longe, mas as duas não notaram que havia passado tão rápido pela forma que conversavam. Na verdade, a única que falava o suficiente pelas duas ainda era Anny, já que se sentia um pouco retraída por estar sendo recebida tão bem daquela forma.
A garota ao seu lado parecia um raio de sol, de tão animada e receptiva que era e isso só ajudava ainda mais a se esquecer de todas as suas preocupações e problemas que a atormentavam, pelos menos por alguns instantes.
E aquilo havia sido o suficiente para que a vontade de ir embora de Londres sumisse aos pouquinhos, sem que percebesse.


✈️🎡


Quando parou com Anny em frente a uma pequena rua, pelo que viu na placa era a Hopgood St., as duas caminharam por uma vielazinha pouco movimentada e logo na entrada a garota percebeu que estavam em direção ao apartamento da outra, onde havia uma fachada clara e com algumas árvores pequenas dando um toque especial e nostálgico ao lugar. A calçada estava com várias folhas secas espalhadas. , por alguns segundos, se sentiu dentro de um filme ao ver o apartamento de dois andares à sua frente, com a pequena escadinha logo na entrada.
Anny, observando a feição agraciada da garota, sorriu consigo mesma.
— Só vou pedir para não reparar a bagunça, não sou uma das pessoas mais organizadas. — Soltou uma risadinha fraca, encolhendo os ombros enquanto tirava de sua bolsa a chave do lugar e sua pequena escadinha branca. continuou no mesmo lugar, ainda observando. — Você não vem?
E isso a fez despertar de todos os seus pensamentos, concordando com Anny e seguindo em direção e ela. Assim que adentrou, fechando a porta atrás de si, observou o corredor estreito, dando para uma outra escada ao final, indicando a ida para outros andares. O lugar não era extravagante, nem mesmo espaçoso, mas era organizado e completamente limpo. estava encantada.
Subiu as escadas com cuidado e no segundo andar parou em direção à porta branca logo atrás de Anny, que a abriu com um pouco de dificuldade por conta das sacolas e rapidamente foi em direção a ela para ajudar.
— Deixa que eu te ajudo.
Pegou algumas sacolas em suas mãos, segurando-as quase às abraçando e esperou que Anny a indicasse um lugar para colocar. A garota deixou sua bolsa pendurada logo ao lado da porta e retirou o casaco, sorrindo ao ver parada de forma tímida.
— Pode colocar as sacolas em cima da bancada, por favor. — Apontou para a pequena bancada de mármore da cozinha, que fazia divisa com a também pequena sala. Observou atentamente que o apartamento não era grande e era bem estreito, mas toda a arrumação minimalista e colorida dava um toque especial e não fazia parecer que era mesmo pequeno. — Você quer tomar alguma coisa antes do chocolate? Vou só arrumar as coisas da despensa.
— Eu gostaria de um pouco de água, por favor — disse baixo, mas o suficiente para que Anny a ouvisse e logo trouxesse um copo de água em temperatura ambiente. tomou de forma tão rápida que nem percebeu que a garota ao menos havia se retirado. Anny sorriu mais uma vez e seguiu para arrumar as coisas de forma rápida e logo fazer o chocolate que tanto havia dito para . Queria deixar a garota o mais confortável possível.
Quando Anny voltou com as duas xícaras cheias, do líquido ainda saía uma pequena fumaça e quando se chegou ao centro da sala, conseguiu observar que se mantinha encostada no sofá, como se seu corpo estivesse sendo consumido pela maciez do móvel. Notou que ela parecia realmente cansada e se perguntou o que havia acontecido para chegar àquele ponto.
— Você parece cansada — mencionou, depositando sua xícara em cima da mesinha de centro e estendeu a outra para .
A morena a olhou, pegando o objeto.
— Obrigada — agradeceu, sorrindo fraco e deu uma leve soprada no líquido para esfriar. Com isso, olhou da xícara para Anny. — Eu… Eu tenho estado bem exausta, na verdade.
— Você quer falar sobre?
ponderou por alguns instantes e respirou fundo, depositando o chocolate em cima da mesinha de centro. Colocou as mãos na abertura de seu casaco, o ajeitando em seu corpo e se sentou de forma correta, se preparando para falar um pouco do que havia lhe acontecido.
— Eu vim para Londres conhecer a cidade, sempre foi meu sonho, mas parece que as coisas não saíram exatamente como eu planejei — mencionou, olhando para suas mãos, que se remexiam de forma nervosa. — Sabe, eu achei que realmente tinha visto tudo da forma correta, que não havia esquecido nada. A verdade é que tudo saiu de controle e eu tenho passado pelo pior… — Sentiu a voz embargar e os olhos arderem com todas as lembranças. — Eu tenho me sentido tão perdida, sinto que fiz tudo errado e a única coisa que consigo sentir é o arrependimento de ter saído de casa desta forma, mesmo com o apoio de minha família. Eu deixei... — Não conseguiu continuar já que sentiu as lágrimas ressurgindo em seu rosto.
Anny olhava a cena de forma atenta e na medida em que ia falando, sentia seu coração se apertar, já fazendo ideia do que poderia ter acontecido com a garota. Realmente deveria ser muito complicado.
— Desculpe, Anny. Você não merece ouvir nada disso.
— Está tudo bem. Não precisa se desculpar — repetiu, sorrindo de canto. Esperou alguns segundos e se levantou, se sentando ao lado de no sofá, que a olhou enquanto enxugava o rosto. — Pode falar no seu tempo, se acalme. Olhe, tome um pouco, vai esfriar.
Apontou para a xícara em cima da mesinha e a pegou, bebericando um pouco do chocolate. Com isso, sentiu seu estômago se aquecer gradativamente e agradeceu aos céus naquele momento por se alimentar, mesmo que só com bebida.
Fechou os olhos brevemente e os abriu. Notou que Anny ainda a olhava, como se esperasse o restante de sua história, mas ver o olhar de pena sobre si causou um novo sentimento. não queria ser vista daquela forma, não mesmo.
Respirou fundo, terminando de beber.
— Obrigada pelo chocolate, Anny. Acho que já te atrapalhei demais. Agradeço novamente por ter me ajudado essa noite — mencionou, limpando o rosto com as mãos e se preparou para se levantar, ficando de pé ao lado da garota, que a olhava curiosa. Anny não entendia ao certo a reação de , mas sentia que algo estava errado. Na verdade, ela sentia que poderia ajudá-la de alguma forma, não sabia exatamente o que era aquilo, mas no fundo viu um pouco de si em . Um pouco do sonho que sempre teve de viajar o mundo e nunca teve coragem para realizá-lo.
— Espere um pouco. — Ergueu o indicador para que esperasse no mesmo lugar e seguiu até o armário ao lado do banheiro, o cantinho em que guardava coisas que usava raramente quando precisava. — Eu sei que não é muito e sei que por enquanto não vai ser tão confortável, mas…
Dizia alto por estar longe e aos poucos sua voz foi ficando mais presente, misturada ao barulho de algo sendo arrastado. Anny retornou à sala com um colchão fino, porém aparentemente novo e voltou ao quartinho novamente, trazendo um travesseiro e algumas mantas.
olhava toda a cena paralisada, sem entender o que acontecia.
— O que é isso? — Perguntou com a voz falha.
— Você me contou por alto, mas eu consegui captar algumas coisas — começou, enquanto caminhava de um lado para o outro, retirando a mesinha de centro do meio da sala e arrastando o colchão até ali, arrumando para . — Quando nos esbarramos, você tinha estampado em seus olhos que estava mais do que perdida e quando te vi chorando daquele jeito, percebi que tinha algo fora do lugar. Você tem olheiras debaixo dos olhos, sua expressão é mais do que só cansaço… — mencionou, se aproximando de . — Eu sei que isso tudo parece estranho e tudo bem se não quiser dormir. Eu sou uma desconhecida para você, certo? Mas eu sinto que preciso te ajudar de alguma forma. Se você quiser, claro — dizia, sorrindo de forma reconfortante para a garota. naquele ponto sentia um nó se formar em sua garganta. — Sabe, eu nunca fui de fazer amizade fácil e nunca tive muito apoio também, mas pelo que você me contou, tem alguém torcendo por você, não é? — Mencionou, fazendo a outra pressionar os lábios ao sentir o peito comprimir com o comentário. — Se você não se sentir confortável, tudo bem ir embora amanhã, mas se não quiser, acho que podemos ser boas amigas, o que me diz? Não precisa dizer nada agora, claro. Só descanse, ouviu? O banheiro fica naquela direção no corredor e tem algumas toalhas na prateleira. Ah! Vou deixar uma muda de roupa para você também, tá? Boa noite. — Apontou na direção do banheiro e voltou seu olhar para , sorrindo abertamente, demonstrando a simpatia que vinha percebendo todo o caminho até o apartamento de Anny. Notou que a garota era muito verdadeira e parecia realmente querer ajudá-la de alguma forma.
não respondeu, apenas balançou a cabeça, concordando com a parte do descansar e observou Anny, indo até a cozinha, tirando um pedaço da torta e depositando em um prato, levando logo em seguida para a morena. Colocou em cima da mesinha de centro, que agora estava em um canto junto à outra xícara de chocolate. Anny também não falou nada, apenas deu outro sorriso para , tentando demonstrar que tudo ficaria bem e seguiu em direção ao seu quarto, fechando a porta depois de ir até o banheiro ao deixar a muda de roupa.
ficou parada no mesmo lugar por um tempo, tentando digerir tudo o que havia lhe acontecido naquelas poucas horas e que pelo menos naquela noite, teria um lugar seguro para dormir. Deixou seus olhos pousarem no colchão próximo aos seus pés, nas mantas dobradas e no travesseiro que lhe aguardavam.
Sentiu os olhos marejarem.
Não sabia nem o que dizer, muito menos como agradecer. Anny havia sido tão humana naquele momento que a única coisa que conseguia sentir era seu coração se enchendo e as lágrimas transbordando em seus olhos, em um choro fraco e emocionado.
Ela, naquela noite, teria o que comer e onde dormir e toda a situação havia sido o suficiente para que algo passasse por sua mente antes de dormir.
Será que, pela primeira vez, tudo aquilo era o destino querendo lhe dizer algo?


Continua...



Nota da autora: Eu vou começar me desculpando de coração pela demora em atualizar. Acabei entrando em alguns ficstapes e fiquei um pouco atrasadinha com as atualizações, mas queria agradecer de coração a quem ainda está acompanhando e queria dizer também que esse capítulo doeu meu coração por ter que passar para vocês um pouco mais da situação da nossa pp. Eu garanto que tudo vai melhorar ainda, vocês vão ver! Já estou doida pra saber o que vocês vão achar <3
Queria deixar um agradecimento especial nessa notinha para uma pessoa que me ajudou muito com essa história e que me incentivou demais, foi muito importante para mim. Então, mais uma vez, obrigada, de verdade, Laís! Você não sabe como foi significativo. <3



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