Finalizada em: 05/12/2020

Capítulo Único

O metrô estava lotado, como sempre em todas àquelas manhãs em Seul. o pegava desde que havia começado a trabalhar na Kyobo e como sua casa era um pouco longe do trabalho, a única forma de chegar mais rápido era pegando o metrô.
Não era algo que ela ligava muito de fazer. Apesar de todo aquele tumulto em volta de si e que mesmo sabendo nem todas as pessoas eram tão pacientes como ela, ela gostava de ver como cada uma delas era diferente. Cada uma tinha seu jeito e cada uma se preocupava de sua forma.
Era engraçado como tanta gente em um único lugar se misturava de forma diversa e única. Ela gostava de observar aquilo.
Gostava ainda mais de observar um ponto específico dentro daquele metrô.
Desde que havia entrado no metrô pela primeira vez, observou um rapaz imerso em um livro grosso. Parecia não ter outro mundo para ele se não aquele que estava lendo. achava engraçado o fato de a expressão do rapaz não mudar na medida em que ia lendo, mesmo cada dia sendo um livro diferente. Observou que nem mesmo a sobrancelha do rapaz arqueava ou um sorriso ladino se expressava em seus lábios a cada página que virava.
Ele parecia ser bem sério, mas ela adorava o observar. Os cabelos negros, já em um ponto quase grandes e ondulados sobre seus olhos, a pele clara e suave, os olhos fixos no livro em suas mãos.
Ela suspirou.
Ele era muito bonito.
Gostava de observá-lo todas as manhãs, daquela forma, mesmo sabendo que os olhos do rapaz não se redirecionariam em sua direção. Ele não parecia querer olhar outra coisa, mas ela não se importava. Pelo menos podia vê-lo antes de sair e seguir para seu trabalho.
Antes que o embalo do vagão parasse de vez, o notou pela última vez antes de seguir para longe. Quem sabe, um dia, teria a oportunidade de cumprimentá-lo.

***

A mulher acordou cansada naquela manhã. O dia anterior havia sido exaustivo, principalmente por ser fim de ano e ser uma das épocas em que a Kyobo mais lotava. Ela não podia reclamar, claro. Sabia que o lugar estando assim, melhoraria muito em sua comissão e assim, ela poderia comprar o material de que tanto precisava.
adorava desenhar. Era uma de suas paixões, junto com o fascínio que tinha pela escrita e pela leitura. Se ela não estava desenhando, fazendo seus esboços e pinturas, estava lendo algo diferente e até inventando alguma história diferente. Era o que mais gostava de fazer em seu tempo livre.
Com isso, tirou sua bolsa do cabideiro e se arrumou rapidamente, pronta para ir em direção à estação. Apertou a alça de sua bolsa e observou que o dia estava claro, o céu azul e com poucas nuvens, gostava de observar os detalhes matinais daquela forma.
Com um pouco mais de pressa, desceu as escadarias do Seoul Metrô e observou que o local já se encontrava agitado, com todas as pessoas à espera de seu determinado vagão. Passou os olhos por cada uma delas e pediu licença a outras que estavam em sua frente, seguindo até o seu que já se encontrava parado na plataforma, prestes a sair.
Assim que o adentrou, logo procurou um lugar vago para sentar.
O trajeto da estação até o ponto mais próximo de seu trabalho levava cerca de quarenta a cinquenta minutos. Não era tão demorado, mas ainda assim, era. E ela não podia se atrasar.
Então, já que estaria livre por um tempo, decidiu que poderia fazer algo e aquilo seria desenhar. Desta forma, retirou de dentro da bolsa seu sketchbook e pegou um dos lápis em seu estojo colorido. Não sabia ao certo sobre o que desenhar e nem se estaria com inspiração para aquilo.
A verdade era que normalmente, não precisava de alguma inspiração, a imagem só vinha em sua cabeça e assim, ela começava.
Mas daquela vez algo estava diferente.
Ela ergueu seus olhos, observando que um pouco mais a frente, ele estava sentado. Da mesma forma dos outros dias. Os cabelos pouco bagunçados, o rosto centrado no livro em sua mão. Percebeu que naquele dia, o livro era diferente. Um pouco mais fino, a capa mais clara. Uma pena não conseguir saber do que se tratava.
Com um pouco de pressa, começou a traçar o esboço em seu caderno. Começou por desenhar os fios bagunçados e escuros do rapaz, o rosto desenhado, a feição séria.
Ela precisava admitir que a beleza dele era muito singular. De forma que poderia passar horas olhando e não enjoaria. Era engraçado pensar daquela forma, já que não o conhecia, apenas de vista.
Como será que ele era? Sobre o que pensava?
Como será que era seu sorriso?
Fechou os olhos brevemente com aqueles pensamentos e balançou a cabeça vagamente, focando o olhar no desenho em suas mãos. Não tinha ficado perfeito pela rapidez, mas ainda assim estava bonito.
Percebeu que o metrô estava parando em uma estação e ergueu seu olhar novamente, olhando ao redor. Assim que algumas pessoas começaram a seguir seus caminhos, observou que o rapaz também havia se levantado e por alguns segundos, se sentiu murcha. Queria tanto observá-lo e terminar aquele desenho.
O homem aguardou sua vez, ainda com o livro aberto em mãos e assim que estava se preparando para sair, o fechou. Não percebendo que o marca-página havia caído ao chão.
olhou a cena e aguardou alguns segundos para ver se ele tinha percebido. Ele nem deu por falta.
Rapidamente ela se levantou, pegando o pequeno pedaço de papel para entregá-lo.
Já era tarde demais.
As portas haviam se fechado e o vagão já estava partindo. A mulher pôde vê-lo caminhar para longe pelas janelas e respirou fundo, encarando o marca-página em suas mãos. Seria uma ótima oportunidade entregá-lo, quem sabe assim poderia saber mais sobre o rapaz que a havia deixado curiosa.
Antes de descer na estação e seguir para seu trabalho, encarou mais uma vez o marca-página antes de guardá-lo. Ele era delicado, simples e parecia ser completamente novo. O virou em sua mão e percebeu que do outro lado havia uma caligrafia desenhada, onde continha uma frase e uma inicial.

O amor e a literatura coincidem na procura apaixonada, quase sempre desesperada, da comunicação.
.

Por alguns instantes, sentiu seu coração palpitar. E sentiu que mais do que antes, precisava conhecê-lo. Aquilo havia sido o cúmulo para aflorar sua curiosidade.

***

Ela sentou naquele pequeno banco apertado, agitada. Suas mãos quase amassavam o marca-página em suas mãos e ela sentia como se o rapaz fosse entrar a qualquer momento por ali.
Ela queria muito encontrá-lo. Precisava admitir que estava agitada e que se sentia boba por agir daquele jeito. Abaixou seu olhar, relendo a frase novamente e sentindo o coração acelerar vagamente.
Aquela frase havia despertado muita curiosidade na mulher. Queria saber o que ele pensava, como agia, como era. Qual será que era seu nome? No que será que ele trabalhava?
Passou uma das mãos pela testa, tirando os fios teimosos que insistiam em cair em seus olhos e ouviu o vagão anunciar a próxima parada, logo observando todas as pessoas entrando quando a porta se abriu.
Com um pouco de dificuldade no meio de todas as pessoas que entravam, conseguiu captar o olhar curioso do rapaz, procurando por algum lugar para se sentar. Ele estava diferente naquele dia. Parecia mais alerta, bem curioso.
A mulher se ajeitou, ficando ereta e o observou caminhar até próximo a ela, se sentando em frente a ela. ficou paralisada ao notar que ele tinha o livro em mãos, mas ainda não o folheava. Os olhos do rapaz pareciam observar ao redor.
Ela observou o marca-página em suas mãos mais uma vez e respirou fundo. O que deveria fazer naquele momento? Não fazia ideia.
Com um pouco de incerteza, mordiscou o lábio inferior e levantou seu olhar, engolindo em seco em seguida.
Ele a observava. Parecia estudar cada milímetro da mulher à sua frente. não sabia o que fazer, muito menos como agir. Sentiu o corpo enrijecer e piscou algumas vezes, até notar um pequeno sorriso surgir nos lábios do rapaz à sua frente.
Ah, não.
O sorriso dele era de matar. sentia seu coração quase explodir.
Ela não soube o que fazer, apenas devolveu o sorriso de canto e continuou seus olhos nos dele. O que mais a deixou confusa não foi o olhar que ele mantinha, mas sim a conexão que sentiu naquele momento.
Sim, era estranho, mas ela sentia como se algo a puxasse para ele.
Oi.
Observou os lábios do rapaz se mexerem lentamente e por um momento, sentiu como se aquilo não fosse real. Depois de todo aquele tempo, eles realmente estavam tendo a primeira interação?
Ela levantou uma das mãos, acenando levemente para ele de volta e só então notou que a mão que havia levantado, era a que segurava o marca-página. O homem a olhou e em seguida para o objeto em sua mão. Não podia negar que sentia suas bochechas queimarem com aquele gesto tão pequeno e o rapaz notando sua feição, deixou uma pequena risadinha escapar.
Então ela havia guardado o marca-página que achava ter perdido.
Aquela garota era adorável.
Ela queria o responder e quem sabe, até puxar o assunto, mas assim que ouviu o barulho do vagão anunciando a próxima parada e percebeu que era a dele, murchou no instante seguinte.
Será que eles nunca conseguiriam se conhecer?
O observou por mais algum tempo e assim que ele se levantou, lançou um olhar rápido para a mulher que ainda tinha seus olhos nos dele. Com isso, deixou um sorriso escapar e seguiu seu caminho para fora do vagão.
Seria interessante encontrá-la novamente.

***

sentia o corpo agitado com toda aquela correria em seu turno. A livraria estava com muita movimentação e pelo que se lembrava, só havia parado para comer algo rápido, já que dependia daquela comissão.
Bom, não podia reclamar. Aquilo, de certa forma, veio na hora certa.
Ao terminar de ajudar o último cliente, encostou seu corpo em uma das bancadas mais próximas e se permitiu respirar fundo, descansando um pouco pela primeira vez naquele dia.
Observou o lugar atentamente, se lembrando de como gostava de trabalhar com o que realmente lhe fazia feliz. Era quase como sentir que não era um trabalho, na verdade. Ela se divertia ali.
Resolveu por caminhar pelos corredores ao notar que o movimento havia se dispersado um pouco e passou um dos dedos entre os livros limpos e novinhos. Amava o cheiro que aquele lugar emanava. Era como estar no céu.
Aos poucos, o fim de tarde ia aparecendo pelas janelas de vidro da Kyobo, mostrando as nuvens acinzentadas e o céu alaranjado. De onde estava, observou em como aquela paisagem era maravilhosa e aproveitou que tinha um pequeno horário de folga antes do final do expediente, para desenhar um pouco daquela paisagem maravilhosa.
Enquanto o relógio mudava de horário gradativamente, ela não parecia notar que já estava quase na hora de se despedir de seus colegas de trabalho. Era fato de que toda vez que desenhava, era como se esquecesse do mundo ao redor e o único que importava para ela, era aquele que tinha em suas mãos, seu caderno.
Folheou uma das páginas antes de fechar e seus olhos focaram no esboço do rapaz que havia desenhado no dia anterior. O desenho havia ficado tão detalhado, tão único... Achou incrível, principalmente de tê-lo feito quase que as pressas e por mais que faltasse alguns detalhes, ela não se importava. Havia ficado bom. Com toda certeza o guardaria.
Se pegou pensando nele por alguns segundos e um sentimento confuso tomou conta de seu coração. Queria tanto conhecê-lo melhor e era estranho ter essa vontade já que nem o conhecia. Se lembrou do sorriso no canto dos lábios e os olhos focados em si.
Quem era esse garoto?
Ao notar que seu expediente havia acabado, aproveitou para se arrumar e pegar suas coisas para ir embora. Tinha que admitir que estava cansada e que o dia tinha sido corrido, mas sentia uma sensação prazerosa tomar conta de si.
Já se despedindo de seus colegas, colocou sua bolsa em seus ombros e segurou o caderninho com força nas mãos antes de sair do lugar, porém antes que pudesse colocar os pés para fora, sentiu o impacto leve em seu corpo, fazendo com que o caderno caísse no chão e a mulher começasse a se desculpar imediatamente.
– Mil desculpas. Eu realmente não estava olhando para frente. – comentou, se abaixando para pegar o objeto e se levantando em seguida.
– Não precisa se desculpar. Eu que devo fazer isso, já que estava apressado.
Ouviu a voz masculina dizer e ergueu seu olhar para ver com quem falava.
Foi como se toda a cena do metrô voltasse à sua cabeça naquele momento ao olhar o sorriso estampado nos lábios do rapaz em sua frente.
Era o rapaz do metrô.
De imediato seu coração acelerou e a única coisa que conseguiu fazer foi sorrir da mesma forma para ele. Foi como se sua mente bloqueasse o fato de dizer alguma coisa.
– Não tem problema, de verdade.
Disse um pouco baixo, notando que ele ainda a observava.
– Eu me lembro de você. – ele disse, quebrando o silêncio que havia se instalado no momento. – Tenho a vaga lembrança de ter te visto no metrô hoje pela manhã.
– Sim. Sou eu. – balançou a cabeça, ainda com o sorriso no rosto. Naquele instante, teve um instalo em sua mente. – Ah, eu sei que vai parecer estranho, mas... Você deixou isso cair em um dia desses. Fiquei de te entregar, mas...
Ele balançou a cabeça assim que ela estendeu o marca-página em sua direção. notou o quão leve ele era e que mesmo o vendo sério por todas essas vezes, aquilo não implicava em nada. Era puro charme do rapaz.
Precisava dizer que era incrível.
– Eu sei. Vi que estava com você hoje. – deu de ombros, observando o objeto nas mãos dela. – Por mais que eu tenha ficado irritado de tê-lo perdido, fiquei satisfeito em ver que estava com você.
– Ah...
Sentiu suas bochechas corarem com o comentário do rapaz. Nunca que iria imaginar que aquilo estaria acontecendo.
– Você trabalha na Kyobo? Estava aqui por perto e resolvi por comprar um livro novo.
– Trabalho sim. Inclusive, se ainda quiser aproveitar, a livraria está aberta. Uma pena que eu esteja de saída.
Apontou para o local atrás de si e sorriu para ele, apertando sua bolsa e o caderninho em mãos. Nunca sentiu seu coração palpitar tanto.
– E você tem algum compromisso por agora?
Estreitou seus olhos, o olhando. A pergunta a tinha pego de surpresa.
– Não, nenhum.
– Bom... Eu adoraria companhia para escolher algo novo e tenho certeza que você seria a pessoa certa para isso. – piscou para ela, deixando o sorriso de canto aparecer novamente. olhou para baixo, ainda sentindo as bochechas queimarem e pensou sobre aquilo.
Seria ótimo conhecê-lo melhor. Não precisava nem pensar muito.
– Claro. Eu te acompanho, sim.
– E se você quiser, também, pode me contar melhor sobre o esboço que vi em seu caderno. Parecia muito com alguém que eu conheço.
Deixou uma risadinha escapar, notando a expressão surpresa da mulher a sua frente. Ela não fazia ideia de que ele havia visto e aquilo havia deixado seu coração a mil, mas ficou aliviada ao ver a expressão divertida no olhar do rapaz.
Ele realmente parecia interessado com o que ela havia feito.
– Eu te conto, sim. Se me acompanhar para um café depois.
Ele piscou algumas vezes e se pôs ao lado da mulher, a vendo se virar e se ajeitar brevemente. Os dois se olharam por alguns segundos, sorrindo um para o outro.
Aquilo parecia louco, mas certo. E de certa forma, o destino parecia ter dado seu jeitinho para encaixar os caminhos tão distintos que os dois tinham.
– Achei que você não convidaria. A propósito, me chamo . – disse, ouvindo a risadinha leve da mulher próximo à ele. Ela se apresentou da mesma forma. Com isso, estendeu seu braço, para que ela o pegasse. – Me acompanha?





FIM.



Nota da autora: Olá! Olha quem está aparecendo aqui com mais uma oneshot levinha e fofa para vocês hahahah Confesso que escrevi essa história aos 45 do segundo tempo, mas ela saiu e eu achei a coisa mais fofinha! Já estou doida para saber o que vocês vão achar <3 Espero que gostem!



Nota da beta: Lembrando que qualquer erro nessa atualização e reclamações somente no e-mail.


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