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Última atualização: 13/05/2021

Prólogo
Lament for Boromir


A chuva caía como se lavasse a alma dos súditos que seguiam ao cortejo. A rainha com postura impávida seguia arrastando seu longo vestido preto, suntuoso, pelas poças lamacentas da estrada. Sob o véu escuro, ninguém podia ver as lágrimas que escorriam extensas e pesadas, e nem ouvir ao choro doloroso, afinal, não demonstrava sentimentalismos.

Jang-Hyuk e Gong-Yoo caminhavam ao lado da mãe, como dois pequenos príncipes comportados que eram, mas atentos a postura dela. Olhavam-na, vez ou outra, inexpressiva com olhos vidrados ao caixão, e sabiam que ela sofria. Os pequenos príncipes eram apaixonados pela mãe, passavam tanto tempo com a rainha que sabiam exatamente como o silêncio dela era ensurdecedor.

O campo verde e vasto, pelo qual aquele velório acontecia, o enterro no campo mais alto do reino, donde a vista permitia enxergar a torre do castelo, propositalmente escolhido a dar de frente a longínqua janela do quarto real. Era ali, que nenhum homem ou mulher passaria sem reverenciar ao grande homem que jaz ali estaria. Enquanto o corpo era transladado de volta da Guerra, as duas colunas de madeira talhadas com o juramento heróico na língua estrangeira, os distintivos honrosos e os cavalo. O cavalo dele, que bravamente o acompanhou em sua última batalha.

Nenhum rei lutou com tanta bravura como ele. Nenhum cavaleiro. Nenhum homem. A rainha foi a primeira a entrar no templo, ao seu lado, as crianças. Os meninos deixaram sob a pedra sepulcral a flor do mediterrâneo, e o incenso do oriente. A rainha depositou sob o caixão, o simbólico jarro da dinastia , que estava vazio de cinzas fúnebres, pois era vontade do falecido ser enterrado como um cristão. No lugar de cinzas, encheu o jarro com óleo de mirra, para manter o sepulcro sempre perfumado.

I.
Long ago and far away…


Cinco anos antes.


— Bom dia Senhora.

Aretusa adentrou ao quarto da princesa com a mesma cautela de todas as manhãs. Posicionou a bacia de água, e a toalhete¹ na pequenina mesa de higiene ao lado da penteadeira. Junto, colocou também o prato com ervas de sálvia², e o pequeno cálice de rum.
Enquanto a princesa se espreguiçava, e levantava-se vagarosa, Aretusa abria as cortinas do quarto, de maneira cuidadosa. O humor de sua senhora era medido pelo seu despertar, pela forma como reagia aos primeiros raios do dia.
Acreditava que naquela manhã, ela estaria feliz e ansiosa, entretanto ao notar a indiferença dela para com a luz solar e seus movimentos silenciosos até sua mesa higiênica, Aretusa tornou-se curiosa.
esticou delicadamente as mangas de sua camisola, e molhando as mãos em concha higienizou o rosto. Aretusa, sua dama de companhia, já estava ao seu lado para auxiliá-la naquela tarefa mediocremente simples. Esticou-lhe a toalha e enquanto a princesa secava o próprio rosto, a outra dama lhe esticava o prato com sálvias. o pegou e depositou as ervas em sua boca mastigando-as, Aretusa apressou-se a pegar a cuspideira. Logo que a princesa as cuspiu, sua dama já lhe entregava o pequeno cálice do qual virou o rum em sua boca, bochechou o líquido e o cuspiu. Ainda em silêncio, ela seguiu para seu biombo³ e iniciou a troca de roupas.
Aretusa, após entregar-lhe suas peças de roupas e auxiliar sua senhora no vestir direcionou-se à penteadeira. , sentou-se à poltrona de sua penteadeira, encarou sua face no espelho, e parecia devanear por seus pensamentos. Aretusa começou a pentear-lhe os cabelos, e ansiosa pelo silêncio atípico daquela manhã, ela pôs-se a falar:

— Está uma linda manhã, não é mesmo Senhora?

Após um breve silêncio, , séria, olhou para as grandiosas janelas abertas de seu quarto e espiou as pradarias à frente. Volveu novamente o olhar seco e distante para o espelho, encarou-se e ao notar que Aretusa havia parado de escovar-lhe os cabelos, encarou diretamente sua dama. A mulher assustou-se e arregalou os olhos voltando a encarar as madeixas de sua senhora e o serviço que fazia. De certo o humor da princesa não estava nada bom aquela manhã.

— Aretusa… – ela a chamou aguardando que a dama lhe encarasse, para então, desviar o olhar para sua própria imagem no espelho antes de continuar.

— Aretusa, preciso que ouça atentamente minhas ordens.
— Cla-Claro, Senhora.
— No dia de hoje, antes do grande evento. Nem tão tarde que já o tenha se aproximado o horário, e nem tão cedo que possa levantar suspeitas. Você deverá avisar ao Sir. que o esperarei nos labirintos do jardim para tratar de um importante assunto.

— Senhora… – Aretusa pronunciou-se de maneira duvidosa, e a princesa encarou-lhe categórica.

Ela perguntaria à sua princesa se aquilo seria seguro, mas, ao notar sua face intrépida⁴ decidiu não a contestar. Aquele seria um dia dos mais complexos para todo o reino.

— Senhora, em que momento especificamente devo avisar ao Sir ?
— Logo que terminar suas tarefas em meus aposentos. Obviamente não deves esperar o crepúsculo para isso.
— Claro, Senhora.
— Como estão os preparativos?
— Tranquilos. Urgentes, mas tranquilos.
— Que sorte lânguida⁵ não ter sido importunada por ninguém, até agora.
— Na verdade, a Senhora rainha Yang Mi a aguarda para o desjejum.
— Certo. Lânguida sim, sorte nem tanto.
— Ela está ansiosa por vós, princesa.
— E quando ela não está ansiosa?

Aretusa fez uma pausa silenciosa, e seu olhar compadeceu-se em pena por sua senhora. detestava aquele olhar, e não o admitiria nem mesmo de sua dama fiel.

— Não há motivos para esta face compadecida, Aretusa. Está entre os deveres de uma princesa, subtrair-se do luto para cumprir suas responsabilidades reais. Estou preparada desde que nasci para tal momento.
— Me desculpe Senhora, mas… É cruel até mesmo para uma princesa criada sob os deveres da Coroa, submeter-se a um momento de festança quando… Há poucos dias faleceu vosso pai.
— O rei está morto Aretusa, não é como se adiar as obrigações do reino fosse trazê-lo de volta do mundo dos aflitos.
— Entendo Senhora… Mesmo assim…
— Penosa não é a morte, e sim as atuais circunstâncias.

Aretusa observou a face rígida de sua senhora no espelho, e não se conteve a perguntá-la:

— A senhora está referindo-se ao casamento?

Então, direcionou seu olhar para o próprio vestido de noiva, ao canto do quarto. Iluminado fracamente pela luz do sol. Passou a noite observando-o à luz da lua, reluzindo os cristais em seu longo tecido. E talvez alegrar-se-ia por vesti-lo se não estivesse tão contrariada com tudo aquilo. Tantas coisas aconteceram até aquele momento, que mal podia acreditar que de fato, perdera o controle de tudo. Entretanto, não desistiria facilmente.

— Eu seria hipócrita em negar. O que mais me incomoda é saber que dentro de instantes, eu terei que suportar minha futura sogra à mesa do desjejum.
— A rainha Yang Mi, parece-me gostar da senhora.
— Como não gostaria, Aretusa?

A dama de companhia então sorriu. E prendeu duas mechas frontais do cabelo da princesa, com seus grampos de esmeralda.

— Tem razão. A senhora é mesmo adorável.
— Não minta para mim, Aretusa.
— Não, Senhora. Eu falo a verdade. Sinto apenas, por… Não saber se posso compartilhar de vossa felicidade neste dia.
— Podes se felicitar por mim. É o suficiente.
— Senhora… Não sentes nada, pelo príncipe?
— Sinto. Um carinho gradual, talvez. Mas, não diria que desejava casar-me com ele.
— Com quem desejaria então?
— Não é algo que importe à esta altura dos fatos. é um bom príncipe. Será um bom rei comigo ao seu lado, evidente. Um tanto quanto excêntrico, mas com modo subterfúgio⁶ de lidar com assuntos importantes. Não é incompreensível que a rainha insistira tanto pela minha mão. Ela sabe o quanto uma rainha forte pode decidir por um reino.
— Desculpe-me princesa, mas se algum dos dois a ouvissem agora… Certamente estariam a bradar⁷ por tal indelicadeza.

pegou um pouco do rouge⁸ em sua penteadeira e com leves batidas em sua face, com a ponta de seus dedos, deu-lhes um pouco de cor. Levantou-se e puxou a saia de seu vestido, a fim de não o pisar. Ajeitou-o no corpo e deu às costas para Aretusa, encarou-a antes de virar-se totalmente e respondeu:

— Indelicadeza têm eles. Se pensam que com a morte de meu pai, o reino cairá nos domínios de Gangwon, ambos estão enganados. A província deles é que me pertencerá. Este casamento está longe de ser uma aliança.

direcionou-se até a porta de seu quarto, e com leves batidas informou aos guardas do lado de fora, que lhe abrissem a passagem. E quando ambos o fizeram, a princesa pôs-se a sair, porém, retornou a falar com Aretusa, que já preparava o quarto para que as arrumadeiras viessem.

— Aretusa.
— Sim, ha Senhora. – disse voltando a atenção a ela, e parando o que fazia.
— Não esqueça das minhas ordens.
— Cla-Claro.

E assim que a dissera, a princesa saiu.



¹Toalhete: Toalha pequena
²Sálvia: Planta aromática, utilizada por algumas civilizações para amenizar o mau-hálito.
³Biombo: Tabique móvel que resguarda parte de uma habitação.
⁴Intrépida: Que não tem medo = audaz, corajoso, resoluto.
⁵Lânguida: Desfalecido, abatido, frouxo.
⁶Subterfúgio: Meio artificioso ou sutil que se emprega para sair de dificuldades. = evasiva.
⁷Bradar: Dizer ou reclamar com brados, berros.
⁸Rouge: Cosmético, geralmente avermelhado, destinado a dar cor às maçãs do rosto = Blush

II.
The Innkeeper


Há quinze anos.


O jovem cavaleiro cavalgava com celeridade¹ e astúcia pela sinuosa e perigosa trilha abismal². Alguns de seus companheiros vinham mais atrás, tão astuciosos quanto, entretanto menos ágeis. Havia a necessidade de uma chegada imediata àquele reino. Vinte dias de cavalgada bruta e exaustiva, e agora pelo cume³ daquele monte, já podiam avistar as torres do castelo.
Quando a cascalhosa estrada se desfez aos cascos dos cavalos, dando-lhes conforto pela terra macia que iniciara, pode desapressar seu galope. Logo os companheiros o alcançaram. Estavam silenciosos, até que um deles pôde observar a estalagem⁴ próxima.

— Sir .
Hm?
— Há uma estalagem próxima, não seria prudente que parássemos para dar água aos cavalos?
— Aos cavalos, ou à nossas gargantas secas, Sir ?

Os três homens riam cúmplices, e logo se puseram a direcionarem-se à estalagem. O crepúsculo ainda não chegara, mas se aproximaria logo. Os três amarraram seus cavalos, e puseram água nos cochos⁵ externos, onde nenhum outro animal havia. Passaram pela porta do estabelecimento, e uma baixa música de lira⁶ era tocada por uma bela mulher, no canto do lugar. Poucos homens se encontravam no local. O estalajadeiro⁷, se pusera a observá-los enquanto retornava de uma mesa servida, para o balcão.
Eles se aproximaram e apresentaram-se.

— Senhor. Paramos para dar de beber aos nossos animais. Teria uma bebida a nos servir?
— Temos rum, água e leite de cabra. O que querem?

Os três se entreolharam confusos, por não conhecerem nada além de água. , o mais convencido quis mostrar dominância, e perguntou ao homem:

— O que eles bebem? – apontando para uma mesa onde dois grandalhões bebiam silenciosos os observando.
— Rum.
— É o que queremos.
… – sussurrou — Não estamos em Gangwon. Apenas recorde-se.
— Gangwon? – o estalajadeiro perguntou, já os servindo.
— Sim. Somos cavaleiros da Província de Gangwon, servidores da rainha de Yeongseo. – disse em resposta.
— Certamente que estão aqui pela princesa .
— O que faz o senhor crer nisso?
— Cavaleiros de todos os lugares têm vindo apresentar-se ao rei Arthus, desde que o nosso rei anunciara o interesse em desposar a princesa.
— E acaso o rei já nomeou alguém?
— Não houvera nenhum comunicado real, ainda.
— Bem haja⁸! – exclamou aliviado, provocando olhares reprovadores de .
— Aqui está. – , depositou algumas moedas de prata no balcão e aguardou o homem confirmar-lhe se aquilo era suficiente, assim que o homem mordeu as pratas e assentiu, os três saíram.

Puseram-se a sair sem encarar as poucas pessoas no local. A não ser por que demorou o olhar até sua saída, sobre a figura discreta e bela da mulher que tocava a lira. Enquanto desamarravam os cavalos, os repreendera:

! Não é prudente que demonstremos o motivo de nossa viagem.
— Perdão, , mas meu refrigério⁹ foi imediato ao saber que todos os dias de cavalgada não foram em vão.
— Entendo.

afirmou compreensivo, e montando seu cavalo pôs-se a galopar para fora dali, um pouco mais rápido do que vieram. A noite aproximava-se, e precisariam chegar logo. , no caminho pigarreou algumas vezes. E , não pode deixar de notar sua garganta seca.

— E ! Da próxima vez, não nos obrigue a beber do que não conhecemos.
— Sim, Sir.
— Ainda tenho sede. – respondeu olhando para de maneira bravia.
— De certo, não nos negarão um cálice de água quando chegarmos ao castelo.
— Ela deve ser uma bela mulher.
— Não é o que nos interessa aqui, .
— Não, de fato. Mas, o príncipe ficaria muito grato caso desistíssemos ao notar que lhe faltasse algum agrado.

e riram entre si pela piada feita. Certamente ) não aceitaria a vontade de sua mãe, a rainha, caso tivesse que desposar uma princesa sem atributos. , preocupava-se mais em convencer o rei a aceitar a pretensão do príncipe do que, se a princesa seria bela ou não. Para ele, pouco importava.
As relações da Província de Gangwon, com o reino antigo da Babilônia jamais seria possível. Dentre a história do Império Coreano, nenhum descendente da dinastia Joseon permitiria uma mescla desonrosa como aquela. Principalmente com babilônios, pior ainda, com descendentes Caldeus. Na mente de era um mistério compreender os motivos da rainha Yang Mi em desejar desposar com aquela princesa.


¹Celeridade: Qualidade do que é célere. = Agilidade, presteza, rapidez, velocidade.
²Abismal: Relativo a abismo.
³Cume: Ponto mais elevado, cimo, tope, alto.
⁴Estalagem: Pousada, albergaria, hospedaria, cortiço.
⁵Cochos: Espécie de vasilha onde se põe água para o gado.
⁶Lira:Instrumento de cordas utilizado na Antiguidade.
⁷Estalajadeiro:Aquele que tem ou administra uma estalagem.
⁸Bem Haja : Expressão que manifesta gratidão. = Graças a Deus.
⁹Refrigério: Alívio ou conforto moral.

III.
The Fair Maiden


O salão do castelo exibia uma miscelânea¹ de dançarinos valseando ao som de flautas e harpas diante do rei e da princesa. Aretusa, e algumas criadas encontravam-se escondidas observando as danças. Estavam todas eufóricas para saber qual daquelas composições a senhorita princesa escolheria por sua valsa. O músico oficial do rei fora designado a compor as mais belas opções líricas, para sua filha.
Aretusa, curiosa como de sua natureza, saiu sorridente e encoberta pelos cantos do salão. Como uma ratazana astuta entre as cortinas, conseguira se aproximar furtiva dos tronos a fim de espiar a face de sua senhora. Poderia por sua expressão saber quais agradá-la-iam.
, que já estranhava a demora de sua dama em aparecer como se pudesse ser invisível, tolamente, ao olhar de soslaio à direita de seu pai, pode vê-la a observando. Aretusa arregalou os olhos, receosa se havia feito mal. E sorriu discreta por sua dama ser tão previsível.

— O que achaste, minha filha? Acaso agradou-se de alguma composição de Calebe?

O rei segurou a mão da filha, cortês a olhando curioso. Os dançarinos haviam parado de dançar, e a orquestra silenciara. O músico do reino encontrava-se à frente das realezas.

— Gostaria primeiramente, de agradecer ao senhor Calebe por tamanha dedicação.

referiu-se ao músico, que num gesto de respeito abaixando a cabeça, agradecia-a.

— E dentre todas as cançonetas², tão bonitas, eu ainda tenho dúvidas. Entretanto, como poderia uma princesa decidir a sonhada valsa de seu célebre momento, se ainda não lhe fora apresentado o noivo?
— Oras, . É só uma valsa. – suspirou cansado, o rei.
— Perdão majestade, mas creio que a princesa tem razão. As mulheres têm tamanha devoção ao matrimônio, tudo deve ser feito com cautela e fulgor³.
— Obrigada por vossa compreensão Calebe. Embora haja dúvida em meu peito, afirmo-te que a primeira e última sinfonias tocaram-me com mais afinco⁴. Contudo, até conhecer o meu futuro rei, não poderei apresentar tanta tenacidade⁵ em questões como tal.
— É claro, princesa. Estarei à postos para eventuais mudanças que desejares.

Quando o músico terminara de falar, o anunciante do rei se pôs ao salão. Seguido por um guarda.

— Vossas majestades… – reverenciou-os — Perdoem-me por tamanha interrupção, ao evento tão importante da princesa…
— O que houve Anrão?
— Há três cavaleiros nos portões do castelo, majestade. Afirmam ser da Província de Gongwon, enviados pela rainha Yang Mi e trazem uma mensagem honorífica⁶ ao rei.
— Deixe que venham.

O rei afirmou, e então Anrão e o guarda se puseram para fora. Em seguida, o rei dispensou os músicos e dançarinos. As criadas, que ainda estavam escondidas foram repreendidas por Aretusa, para que voltassem aos seus afazeres. E a própria dama da princesa saíra do salão.
Ela apressou-se a preparar os aposentos da princesa, pois certamente ela recolher-se-ia logo após o jantar, que deveria estar próximo de ser servido.

— Meu pai. Creio que não seja necessária mais a minha presença. – levantou-se e o reverenciou.
— Fique onde está . Se bem conheço Yang Mi, os cavaleiros trarão seu pedido por sua mão.

surpreendeu-se pela fala do pai, que logo colocou-se ao lado dela, de pé. A princesa ajeitou sua postura também. E com a mão sobre a do pai, ao lado dele, olhava fixamente para frente, no aguardo dos cavaleiros.

— Achei que o senhor já tivesse um favorito. – a princesa sussurrou cautelosa.
— E tenho. Mas, estou curioso para conhecer o príncipe de Yeongseo.
— Oras… O senhor brinca com minha mão.
— Não sejais petulante .

Assim que ambos terminaram de se olharem, discretos, a porta fora aberta. Novamente Anrão pôs-se à frente com dois guardas, e os três visitantes.

— Majestade Arthus, princesa , apresento-lhes os cavaleiros Sir. , Sir. e Sir. , da província de Gangwon. Nordeste da Ásia Oriental.

Os três homens se aproximaram respeitosos, sendo seguidos pelos guardas reais. Pararam com prudente distância das realezas e os reverenciaram.

— Majestades. – dissera como porta-voz: — Com honra agradecemo-los por nos receberem. E entregamos os corteses cumprimentos da rainha Yang Mi, e do príncipe .
— O que os traz ao nosso reino? – disse o rei de maneira cortês.
— Eu ouvi Anrão afirmar que todos os três se chamam ? Que excêntrico!

O rei encarou a filha de maneira descontente, e os três cavaleiros se puseram a encará-la sem nenhuma expressão significativa. observava o olhar avaliativo da mulher sobre si, concentrava-se em averiguar, de modo discreto, o quão agradável a aparência dela poderia ser. Não levou muito tempo a descobrir a resposta. E , mantinha seu olhar direto ao rei. Não admitiria, mas a postura da princesa o assustara um pouco.

— No bom sentido da palavra, é claro. Perdoem-me se lhes pareci indelicada. Apenas, achei um tanto quanto curiosa a coincidência.
— Não há o que vos desculpar princesa.

respondeu-a e ela apenas acenou afirmativa, levemente.

é um tanto quanto atenta aos detalhes. – o rei dissera, em tentativa de justificar a impetuosidade da filha.
— Majestade… Viemos em nome da rainha Yang Mi, que gostaria de apresentar-lhe a intenção do príncipe em desposar a mão da princesa, vossa filha.
— Hm… O que faria uma rainha provinciana, descendente de uma dinastia tão longa e tradicional interessar-se em uma aliança com um reino Babilônico?
— De certo, a dinastia de vossas majestades também é longa e tradicional. Entretanto, os interesses da rainha em unir-se ao reino Caldeu são desconhecidos para nós. Por isso, prezo, para que em nome de nós, os cavaleiros de Yeongseo, vossa majestade aceite receber o príncipe e nossa rainha para um Conselho⁷ amistoso.

O rei silenciado, observava os olhos diretos e límpidos de . Aqueles olhos demonstravam uma honra, pouco encontrada nos homens. , olhava o pai de maneira furtiva. Já estranhava a demora, de seu pai, em responder uma pergunta tão comum nos últimos tempos.

— A rainha Yang Mi deixou-me bastante curioso, para compreender a destemida decisão em apresentar seu filho a um reino tão distante do vosso.
— Obrigado majestade. – respondeu .
— Como visitantes longínquos de nosso reino, ofereço-lhes a hospedagem de meu castelo para que possam pernoitar até vossa partida.
— Será uma grande honra, e irrealizável negar vossas comodidades.
— Ótimo. Sejam bem-vindos ao reino de Amitísia! Anrão, chame algumas criadas e as peça para que preparem os aposentos dos nossos visitantes. E disponha-os um criado para atendê-los no que precisarem.
— Sim, majestade.

Anrão logo pôs-se a cumprir sua ordem.

.
— Sim, meu pai?
— Mostre-os o castelo, sim?
— Claro majestade.
— Com licença senhores, há alguns assuntos que tenho a tratar. – disse o rei Arthus.
— Obrigado, majestade.

Os três cavaleiros reverenciavam-no enquanto o rei saía. os cumprimentou com um leve aceno e os indicou que a seguissem. Ela caminhava à frente dos homens, e logo que encontrou uma criada pediu-lhe que dissesse à Aretusa para encontrá-la na sala dos antepassados.
A mulher se distanciou respeitosamente, e prosseguiu seu caminhar silencioso pelos corredores do castelo. Os três cavaleiros olhavam-se curiosos entre si.

— De certo, vieram de muito longe. Fizeram uma boa viagem, cavaleiros?
— Sim princesa, obrigado.
— E nunca antes estiveram em Amitísia?
— Não, Senhorita.

era o único a responder às falas reais.

— Bem, então gostaria de apresentar-lhes primeiramente a história de meu reino.
— Como preferir, princesa.

Ela os direcionou a sala dos antepassados. Empurrou as pesadas portas, adentrando primeiro. Sorrindo como uma simpática dama, entretanto, com seu fascinante e perigoso olhar sobre eles, se colocou frente a um grandioso quadro.
Os homens olharam a pintura, curiosos.

— Este é Sumulalel. O grande imperador da qual se destina a criação de todo o Império Babilônico. Antes dele, vieram outros. Entre amoritas, sumérios e semitas que contribuíram para que o Império se formasse também. Entretanto, Sumulalel, poucos sabem… É um dos nossos antepassados semitas. O precursor de nossos reinos. Na época de seu reinado, a Babilônia era um único reino.

Andou mais alguns passos à frente, passando ao próximo quadro:

— Hamurabi, seu filho, tornou a nossa dinastia ainda maior…

Entre breves explicações de quedas, reinados gloriosos, povos em guerra, tomadas de poder e outros nomes, chegou até seus antecessores mais próximos.

— Meu avô Belael Arthus e minha avó, a rainha Joquebede. Meus pais, Arthus I, e minha mãe… A rainha Amitis…

Ela demorou-se um tempo a observar a pintura da mãe.

— Perdão princesa… Mas, Amitis não fora o nome da rainha que vossa majestade dissera ser casada com Nabucodonosor II? – perguntou curioso .

Sem retirar os olhos da fotografia de sua mãe, explicou-lhes:

— Amitis fora considerada uma rainha muito especial. Muito bela, mas muito melancólica. Dizia-se que Amitis fora infeliz por ter deixado sua terra… Nabucodonosor então, criara os secretos Jardins Suspensos para ela. E como forma de fazê-la sentir-se importante ao nosso reino, mudara o nome do reino para Amitísia. Em sua homenagem. Mamãe me contava que, quando viera da Assíria sentia-se um pouco como Amitis. E, portanto, seu nome de rainha fora dado como igual… Amitis II.

— O que houve com a rainha Amitis II? – perguntou sem notar a falta de delicadeza, apenas dando-se conta de seu erro quando lhe pisara o pé. — Perdão princesa, eu não quis ser indelicado e…

— Tudo bem, Sir . De certo, seus companheiros também estão curiosos… – ela virou-se de frente para os homens e encarando terminara: — Apenas não tiveram coragem como o senhor.

— Com licença, princesa ?
— Oh, sim Aretusa, entre.

Aretusa aproximou-se.

— Cavaleiros. Esta é a minha dama de companhia, senhorita Aretusa.

Os homens a cumprimentaram em um meneio8, discreto, de cabeça.

— Aretusa. Confirme se as servas já prepararam adequadamente os aposentos de nossos hóspedes.
— Claro, senhora. Se me permite, princesa… O jantar está prestes a ser servido.
— Obrigada Aretusa, pode ir.
— Com licença. – a mulher reverenciou-os e saiu.
— Sir . – a princesa retomou a atenção dos homens: — A rainha Amitis II, minha mãe, falecera na última guerra de nosso reino. Bem… Creio que após a longa viagem estejam cansados e famintos. Sigam-me, por favor.

Os três acompanharam-na silenciosos. Até o momento do jantar nada mais fora pronunciado. Fartaram-se, com a boa comida servida de modo educado, beberam confortavelmente, o delicioso vinho oferecido. E depois que o Rei Arthus I se recolheu aos seus aposentos, os três homens levantaram-se da mesa em honraria. Ficaram novamente a sós com a princesa.

— Senhores, Estér é a serva designada a atender vossas necessidades. O que vós precisarem podem solicitá-la.

Eles olharam para a mulher de cabeça baixa ao lado de Aretusa. E assentiram à princesa.

— Estér, os acompanhe até vossos aposentos.
— Sim, Senhora.
— Cavalheiros, com toda licença, recolher-me-ei. Tenham um bom pernoitar.
— Obrigado, princesa. – os três responderam juntos.


¹Miscelânea: Confusão
²Cançoneta: Pequena canção.
³Fulgor: Brilho, brilhantismo, expressão, energia.
⁴Afinco: Qualidade do que é tenaz, firme, perseverante.
⁵Tenacidade: Apego obstinado a algo. = Afinco.
⁶Honorífico: Que honra, que torna distinto.
⁸Límpidos: Nítido, claro, transparente, puro, sereno.
⁹Furtivo: Clandestino, oculto, secreto.
¹⁰Longínquo: Remoto, distante.
¹¹Pernoitar: Passar a noite onde não é costume passá-la.
¹²Meneio: Mover de um lado a outro.

IV.
Troubadour


saíra do local acompanhada por Aretusa. E assim que ela se foi, os três homens seguiram Estér que lhes indicou o caminho de seus quartos. Ao entrarem, cada um no seu próprio cômodo, puderam notar que o conforto ia além do que julgavam necessário. , retirara suas pesadas vestes ficando apenas com suas calças de baixo e uma leve camisa de linho fino. Caminhou por seus aposentos, observando uma sacada chamativa. Estava aliviado por tê-lo conseguido a permissão do Rei, em aceitar a visita da rainha e do príncipe, mas algo ainda o inquietava.

acabara de dispensar Aretusa de seus aposentos. Fizera sua troca de roupas, estando apenas com a fina camisola de linho branca. Seus cabelos soltos e os pés em confortáveis pantufas de lã de ovelha. Caminhou calma até a suntuosa¹ sacada de seu quarto. Lembrar-se de sua mãe e revisitar sua pintura, a fizera sentir-se solitária de novo. Por que ao invés dela, não deveria ser o Rei a desposar novamente outra rainha? Um breve tempo pensando nisso e logo concordou em ser ultrajante outra rainha tomar o trono que um dia fora de sua mãe. Entretanto, algo ainda a indagava dos motivos de seu pai, em quebrar as tradições e ao invés de casar-se novamente, impor a responsabilidade da Coroa à sua única herdeira, uma mulher.

estava abismado com o que via. Era beleza demais para que ele desviasse os olhos. Os medianos seios delicados daquela mulher, bem à sua vista. Empinados sobre o fino tecido, tão fino que se mostrava transparente. O brilho da noite a iluminar lhe a pele, e a brisa suave a colar-lhe o restante do tecido ao corpo. Por mais desrespeitoso que pudesse ser espiá-la daquela maneira, ele não conseguia desviar o olhar. Apenas sentia-se no dever de admirá-la. Ele não poderia negar, estava hipnotizado, e desejoso daquele corpo.

A noite estava convidativa demais para que a princesa apenas deitasse, e tentasse fechar os olhos para adormecer. Há muito não reparava numa abóbada celeste² tão brilhante e bela como aquela. E a brisa suave a lhe colar o fino tecido de sua camisola à pele… Sentia-se confortável como há muito não sentia. Como se sentisse sua pele queimar, a princesa olhara para baixo e pode flagrar, seu nem tão oculto, admirador. a olhava, com um brilho voluptuoso³ em sua íris. E gostara daquilo. Daquela sensação de tê-lo a observando daquele modo. Na sacada de baixo, encarava-a imóvel, e apenas quando lhe sorriu de modo provocante e atrevido, que o cavaleiro se dera conta de que a mulher na suntuosa sacada, lateralmente acima da sua, havia o surpreendido em atos tão repreensíveis. Sem reação, ele apenas a olhava assustado. A princesa virou-se em direção ao seu quarto e antes de sair completamente do campo de visão de , ela novamente o sorriu com um olhar provocante e então, entrara em seu quarto.

como última visão pode admirar as nádegas⁴ redondas e perfeitas da princesa sob o fino pano. Atordoado com o que lhe acontecera, caminhou de volta ao seu quarto. Alguns pensamentos promíscuos⁵ o rodeavam. Ele chacoalhava a cabeça como se os pudesse afastar, entretanto, algo os mantinha firmes em sua mente. A longa viagem, e a falta total de uma companhia feminina desde que deixara Gangwon deixaram-no vulnerável. Deitou-se em sua cama, e ao olhar para o lado, em sua mesa de cabeceira, a serva Estér havia deixado algumas frutas, e jarros de água e vinho. Entendendo que a visão perturbadora não o deixaria dormir, completou um cálice com vinho e virou-o de uma só vez.

Pouco tempo após deitar-se olhando para o teto já podia sentir o efeito, não apenas daquele cálice, mas dos anteriores ao jantar lhe trazerem torpor⁶. Puxou sua camisa, sentindo a pele suar. E ao fechar de seus olhos, a deleitável imagem da princesa na sacada tomara a negritude de sua cegueira. Arfava à medida que em seus pensamentos a mulher se aproximava em passos lentos, retirando aquela peça, tão desnuda quanto poderia desejar. Desejou beijar-lhe os castos lábios, delicados, anunciando nunca terem sido antes tocados. Nem os lábios, nem mesmo o corpo. Viu-a sorrir provocante novamente, e compreendeu ser uma afirmativa ao seu toque. E então a tocou. Passou a mão por seu rosto, puxando ávido⁷ seus lábios contra os seus. Tomou-lhe a cintura nua, e sentiu o peso fraco do corpo dela sobre o seu. Massageava os seios dela, e quando encarou novamente o olhar dela, viu-a descer com os lábios sobre o corpo dele. Depositando ósculos⁸ pela extensão do corpo dele, até chegar ao seu membro rijo.

Aquele gesto parecia rude demais para uma princesa, gesto próprio das doidivanas⁹ estalajadeiras, mas não havia forças para fazê-la parar. Perguntava-se mentalmente, aonde a princesa teria aprendido tais maneiras. observou a mulher lamber sua glande e depositar seu membro vagarosamente por sua boca, sentindo a língua quente dela. Fechou os olhos e reprimiu um gemido. Novamente os abriu, no desespero de enxergar a luxúria que deveria estar estampada na face da princesa. Aquela face que permeava entre o angelical e o demoníaco. E ao abrir os olhos, qual não foi sua surpresa, ao notar que ela não estava em seu quarto, e sim, que sua própria mão o masturbava. E na busca de alívio para o que sentia, continuou os movimentos de subida e descida sobre seu membro ereto. Sua mão escorregava com facilidade, devido ao viscoso líquido que escorria ali e quanto mais fácil tocar-se, mais rápido o fazia. Não pôde perceber o ápice¹⁰ de sua ejaculação, pois, a cada vez que imaginava a princesa o tocando, aquilo parecia ser insuficiente. Cansado e infeliz com a noite, ele largou seu membro, e arfou¹¹ até pegar no sono, sem perceber.

A manhã chegara, e levantara-se apressada. Aretusa já estava nos aposentos reais, auxiliando a princesa.

— A princesa parece-me ansiosa para o dia que vem.
— Sim Aretusa. Não posso negar-lhe que a chegada destes visitantes deixou-me um tanto quanto curiosa.
— Algum deles é pretende à vossa mão, Senhora?
— São apenas cavaleiros da Província de Gangwon, Aretusa. Mas, não posso fingir que não há entre eles, um que me tomou alguns desejos.

Aretusa encarou sua senhora pelo espelho, e embora assustada, sorria curiosa. A princesa mantinha o olhar travesso, e um riso contido para sua dama.

— Senhora… Eu poderia… Atrever-me a perguntar qual deles?
— Ora, Aretusa! Acaso não vês que não consigo me conter? Estou ansiosa para compartilhar o que houve!
— E o que houve Senhora?
— Ontem pela noite, pouco antes de dormir, eu fui à sacada pensar sobre as razões pelas quais o futuro me parece adiantado… Quando abordei Sir , à sacada de seus aposentos, observando-me de modo… Predador.

Aretusa pôs as mãos à boca, e observou a princesa levantar-se apressada e sentar-se em sua cama. Indicou que Aretusa a fizesse companhia. A dama, cautelosa, sentou-se ao lado de sua senhora para ouvir-lhe.

— Senti algo diferente com o olhar dele sobre mim, Aretusa… Quem dera ele fosse o homem que me desposaria…
— Ele é realmente bonito, Senhora. Todos eles… Estér, Dalila e outras servas ficaram um pouco eufóricas.
— Oras vocês… Todas pervertidas doidivanas.
— Não princesa, não nos entenda mal… É só que…

sorriu, pois, Aretusa não compreendera seu tom de zombaria.

— Não te preocupe Aretusa. Com exceção de , vocês podem satisfazê-los como bem entenderem.
— Imagine Senhora, nenhuma de nós…
— Aretusa!

, interrompendo o raciocínio de sua serva amiga, se levantou iluminada por uma descabida¹² ideia. Caminhou até sua escrivaninha, e puxando um pedaço de papel, escreveu algo em risos.

— Aretusa!
— Senhora?
— Entregue este papel ao Sir , logo que findarmos o desjejum. Depois me encontre nos labirintos do jardim, com um balaio balneário¹³.
— O que pretendes Senhora?
— Apenas faça o que eu vos ordenei. Agora vamos, estou faminta!



¹Suntuosa: Luxuosa, ostentosa, aparatoso, pomposo, esplêndido.
²Abóbada Celeste: Céu, firmamento.
³Voluptuoso: Sensual, libidinoso, deleitoso, lúbrico.
⁴Nádegas: As duas porções musculares que se referem aos glúteos.
⁵Promíscuos: Que viola o que é considerado moral.
⁶Torpor: Estado tórrido de alguma parte do corpo.
⁷Ávido: Muito desejoso.
⁸Ósculos: Beijos.
⁹Ápice: Ponto alto. Ponta ou extremidade superior de alguma coisa.
¹⁰Arfar: Estar ofegante, respirar com dificuldade.
¹¹Pervertidas: Desmoralizadas, depravadas.
¹²Doidivanas: Pessoa estouvada, extravagante.
¹³Descabida: Inoportuna
¹⁴Balneário: Relativo a banho.

V.
Lantern’s Lodge


Ainda à infância de , Ruth, a serva fiel da rainha Amitis engravidara quase ao mesmo tempo em que a rainha. Ambas eram mais do que rainha e serva, eram amigas. Aretusa e cresceram juntas e foram destinadas por suas progenitoras à mesma relação que suas mães. Amitis, apesar de ser rainha, delegou na educação de sua princesa que encarasse a sua serva escudeira, a pequena Aretusa, como a uma irmã. E assim ambas tratavam-se, dentro do decoro de suas funções hierárquicas.
já havia descido e encontrou aos cavaleiros já dispostos à mesa de desjejum na companhia de sua majestade, o seu pai.

— Bom dia, senhores. Papai.

Os homens corresponderam e logo todos foram servidos. , astuta e alegre como era, observava atenciosa – mas, discreta – aos trejeitos e comportamentos dos visitantes. De um, em especial.

— Sir , como líder da cavalaria gostaria que me contasse mais sobre o reino de Yeongseo.

O rapaz assentiu limpando brevemente, em um lenço de refeições, a sua boca, enquanto os seus dois colegas se entreolharam discretos, acompanhando ao seu líder nos gestos.

— Claro, mas exatamente o quê Vossa Majestade deseja saber?
— Estou bastante curioso ao quê faria Yang Mi tomar tal interesse, mas como disseste não saber, porque não me conta como é o reino Yeongseo? Com certeza, encontrarei a resposta em pormenores que só um Rei pode encontrar.

assentiu, mas não lhe passou despercebido desde que ali chegara, a maneira como o rei Arthus parecia conhecer à rainha Yang Mi.

— Yeongseo é um reino pequeno em tamanho, mas vasto em domínio. Somos uma força poderosa dentro de um lugarejo sutil. Nossos inimigos subestimam-nos por nossa capacidade, até que nós os vencemos no campo de batalha.

O orgulho na voz de e no olhar de todos os três cavaleiros eram notórios, ficou um tanto quanto interessada a mais no diálogo.

— Quando o rei Eun He faleceu, a rainha Yang Mi governou Yeongseo com punho forte e ardil. Com a força de um poderoso exército, e um ardil próprio às mulheres... – falou discreto, e o rei sorriu.

Arthus sabia exatamente do que falava. Não se tratava de um ardil malicioso, mas do dom ardiloso de manipulação feminino. Dom cujo Arthus reconhecia há tempo na rainha Yang Mi.

— Não deve ser fácil a uma mulher governar sem um rei.

E novamente, a fala de seu pai aguçara os sentidos de . Se ele sabia daquilo, por que expunha a ela o peso da Coroa através daquele casamento?

— Certamente. Mas, em nosso reino o poder matriarcal ganhou respeito e honraria, desde a nova era da dinastia pelo governo da rainha Yang Mi. – respondeu novamente orgulhoso.

— Percebo que Yang Mi soube conduzir bem a Coroa, quando tem súditos tão fiéis e orgulhosos como vós. – Arthus respondeu sorridente e encarou à sua filha como se dissesse que ela deveria conquistar também aquele tipo de fascínio de seu povo.

— Mas, perdoe-me Majestade... – pronunciou-se — Pareces conhecer a rainha Yang Mi...

Não somente os homens estavam curiosos, como também a princesa. Havia notado que o pai ficou deveras desconfiado quando os homens anunciaram de onde vinham, e principalmente por qual motivo vieram. Calada, ela continuou a comer atenciosa ao pai, que também havia lhe dado razões para ficar interessada na conversa.

— Vós não dissestes que vosso reino é vasto em domínio? Digamos que Yang Mi já tentara dominar também, meus territórios.

Todos se espantaram com a informação.

— Não me recordo de nenhum embate ao vosso reino, Majestade.
— E não houvera. – respondeu Arthus.

O rei terminou de comer e novamente pediu licença a todos os presentes. Direcionou-se à filha e pegando-lhe a mão beijou-a casto e carinhosamente.

— Faça boa companhia aos nossos visitantes.
— Como queira, majestade. – a filha respondeu.

Após sua saída, os cavaleiros observaram atenciosos a princesa, que notara: eles haviam parado de comer para dar atenção ao Rei. Por isso, ela lhes deu permissão a voltarem a fartar-se, e agradecidos eles sorriram obedientes. e trocavam olhares curiosos e perigosos entre si, por mais cuidadoso e respeitoso que ele fosse, não conseguia ignorá-la. foi a primeira terminar seu desjejum e pedir-lhes licença. Os cavaleiros puderam então conversar entre si com mais conforto antes de também se retirarem.

, não achas que o rei Arthus parece ter alguma relação com Yeongseo? – perguntou-o.
— Também acho estranho o fato de, não termos nunca antes sabido nada a respeito de Amitísia, além desta única missão. – respondeu.
— O que o rei teria tentado dizer por “Yang Mi tentar dominar seus territórios”?
— Não faço ideia , antes de nós, os cavaleiros do general Go devem ter tido algum tipo de embate com o exército de Arthus. Ao retornarmos, tentarei descobrir algo.
— É deveras estranho...

e conversavam atenciosos entre si, e o silêncio de foi por eles notado. Ao encararem o amigo, este que bebia seu licor de amoras não tirava os olhos das servas que passavam lentas, e risonhas pelo salão de jantares.

? – o chamou risonho.
— Estranho é estarmos aqui e não nos deleitarmos com o calor extenuante da Babilônia.
— O calor da Babilônia ou das mulheres da Babilônia, ?

O mais calado dos três olhou para seu amigo e sorriu como se não precisasse mais respondê-lo.

— Se pretendem algum divertimento, sejam rápidos, cuidados e cautelosos, pois partiremos o mais breve possível, e tão discretos como chegamos. – disse .

Todos eles sorriram, e se levantaram da mesa após terem se fartado. Dalila, a serva da cozinha que ali havia acabado de entrar para retirar a mesa, ao passar por trocou olhares rápidos com o rapaz.

Aretusa andava apressada em direção aos jardins, onde sua princesa a aguardava. Assim que a encontrou, as duas puseram-se a sair dali imediatamente. , caminhava até seus aposentos ao lado de seus companheiros.

— Partiremos hoje, ? – perguntou.
— Nós iremos. Mas, antes eu tenho algo a fazer…

sorriu malicioso, e não compreendera.

— O que está acontecendo?
— Acaso não viste , quando a dama de companhia da princesa entregou à um pequeno bilhete assim que nos colocamos em direção ao desjejum?
— Oras… Nós apressados para partimos, e o Sir preocupado em aliviar-se de sua tensão masculina após longa viagem.

sorriu tranquilo quando percebera que seus companheiros acreditaram que a princesa nada teria a ver com aquilo.

— Bem, nós o aguardaremos voltar . – dissera cortês — Aproveite por nós, já que a mulher pela qual me interessei está pelo caminho.
— Do que estás falando? – perguntou .
— Da donzela garbosa¹ tocando a lira na estalagem. – respondeu .
— A filha do estalajadeiro.
— Como podes saber, que é filha do estalajadeiro, ?
— É óbvio. Nós vimos a maneira como o estalajadeiro encarou-lhe ao notá-lo fitando a mulher… – encarou os dois à sua frente, e despediu-se: — Bem, eu tenho que ir. Não podemos demorar à partir.
— E eu irei conhecer um pouco mais deste curioso castelo. – disse saindo.

notando-se só, partiu em direção ao seu cavalo e decidiu conferir um pouco mais da bela donzela da estalagem. Certamente eles não retornariam ao lugar em seu caminho de volta.

caminhava calmo pelos corredores do palácio, com seus olhos atentos a tudo. Sentiu um aroma chamativo e embora, houvesse quebrado seu jejum há pouco, não poderia evitar seguir aquele aroma tão bom. Caminhou entre alguns corredores, e logo ouviu vozes femininas e risadas. Escondeu-se observando um pouco as mulheres na cozinha do palácio:

— Eu não posso mais servir a estes senhores!
— Ora Estér, contenha-se! Parece que nunca vira cavaleiros no castelo!
— E não vi mesmo Dalila! Não como estes.
— Certo, se não queres os servir mais, então deixe que Mirian o faça!
— Eu adorarei! – Mirian respondeu risonha a passar com uma bacia de água pelas mulheres.
— De forma alguma! A princesa delegou tal obrigação a mim, e não posso ir contra uma ordem real. – reclamou Estér.
— Oras, então pares de gralhar² e faça o vosso serviço.
— Tu não entendes Dalila, pois, há muito fechara vosso coração para os homens e não percebes os quão atraentes são os cavaleiros.
— Fechastes o coração e as pernas, Dalila!

Dissera Mirian gargalhando acompanhada por Estér. que estava escondido a observar conteve uma risada.

— Oras, suas atrevidas! Apenas não sou uma depravada como vós.
— Claro que não, já tivera um homem a posse de invadi-la. Enquanto nós, aguardamos aquele que nos tomará por sua!
— Calem-se e vão cuidar de seus afazeres.

As duas mulheres saíram pela porta dos fundos, e assim que saíram Lucas surgiu à porta. Carregava um pesado tambor de leite, recém tirado das vacas.

— Mamãe, aqui está o leite.
— Obrigada meu filho. És mesmo um rapaz digno. Logo, terás boas mulheres interessadas, mas há de me prometer que não encontrarás mulheres depravadas como Mirian e Estér!
— Depravadas?
— Ah, esqueça meu filho. – a mãe sorriu beijando o rosto de seu filho e dizendo: — Apenas, lembre-se das palavras de tua mãe no futuro quando fores escolher vossa esposa.

Dalila sorriu para o filho, ainda criança e afagou seus cabelos. Pegou o tambor de leite e o colocou sobre a mesa.

— Com licença?
— Oh sim, senhor. O que desejas? – surpreendeu-se ao ver um dos cavaleiros que as moças tanto falavam.
— Na verdade, nada. Senti saboroso aroma e o segui.
— Ah sim, é apenas um guisado³ que preparo para logo mais.
— E este rapaz forte, quem é?
— Este é Lucas, meu filho. Cumprimente o cavaleiro… – Dalila olhou para o homem a espera de uma apresentação.
— Sir . – o coreano respondeu.
— Sir , meu filho.

Lucas o reverenciou com um aceno de cabeça. Em seguida saiu discreto para os fundos do castelo.

— Em que posso servi-lo, Sir?
— Eu gostaria de um pouco de água, por obséquio⁴.
— Claro, claro…

Dalila apressou-se em servi-lo. Estava nervosa. Não era comum que entrassem em sua cozinha, menos ainda que ela tivesse qualquer diálogo com visitas ou moradores do castelo. Salvo os momentos em que a própria princesa direcionava-se à cozinha do castelo.

— Então, é de vossa responsabilidade as apetitosas ceia e desjejum que nos serviram?
— Sim… – ela dissera estendendo-o um cálice com água fresca.
— Devo parabenizá-la. Tão bela dama e tão abençoadas mãos…

Dalila sentira-se um pouco sem graça.

— Por favor, não te acanhes. Não foi de minha intenção deixá-la constrangida.
— Claro. Apenas não estou acostumada a visitas em minha cozinha, senhor.
— Estou a incomodando?
— De maneira alguma. O senhor fique à vontade… Eu apenas preciso dar continuidade às minhas tarefas.
— Por favor, prossiga… Estou apenas conhecendo o castelo.
— Certo… É curioso que queira conhecê-lo. Aposto que já estivera em tantos outros como este.
— Não são iguais. Nunca são… Há sempre, uma pessoa ou alguma curiosidade para nos surpreender.

Dalila sentiu-se estranha quando notou a presença próxima demais do homem atrás de si. Ele aproximou-se por trás dela, e tocou-lhe a mão que mexia o guisado. Puxou a colher e experimentou o sabor. Dalila pode senti-lo invasivo demais, perto demais, e seus corpos próximos demais. Um calor subiu-lhe às pernas e por um momento perdera suas ações.

— Está mesmo delicioso.

dissera deixando Dalila ainda mais muda e nervosa.

— O-Obrigada Sir.
— E o pai de seu filho, o que faz? – ele perguntara se afastando naturalmente.
— E-Ele faleceu quando o menino tinha um ano. Era um guerreiro do reino.
— Lamento.

Dalila assentiu silenciosa, e afastou-se do fogareiro quando recuperou o domínio de suas pernas. Caminhou até a outra ponta da mesa a fim de pegar os legumes e encarou furtiva e envergonhada, ao homem que a analisava silencioso.
sorriu despedindo-se e agradecendo-a pela cordialidade. Ao passar por ela, pegou-lhe a mão e beijou. Logo que ele saiu, Dalila voltou a picar os legumes com velocidade e agressividade incomuns a ela.

A estalagem não era tão distante do palácio quanto parecia na noite anterior. Ou estava ansioso demais para chegar. Assim que avistou o tronco onde amarravam os cavalos, desceu de sua montaria e prendeu firme o animal ali. Entrou à estalagem com cautela. Estava vazia.

— Ainda não estamos funcionando.

Ouviu uma voz forte, ao mesmo tempo feminina lhe falar. E lá estava a mulher que tocava Lira.

— Perdão, é que sou um estrangeiro e…

Ela o olhou com desdém, mas, ao notar sua diferente figura indicou-lhe uma mesa, com o olhar, para que ele sentasse. Ela pegara um caneco que enxugava e o serviu de rum. Sem ao menos perguntá-lo o que desejava beber. Olhava-o com curiosidade e desconfiança. Caminhou até a mesa onde ele sentara e o serviu. Em seguida retornou para trás do balcão.

— Onde está o estalajadeiro?
— Ele chegará logo mais… – ela dissera para não levantar suspeita.

não se continha em manter distância. Pegou seu caneco e caminhou até o balcão, onde sentou-se.

— A senhorita toca lindamente.
— Obrigada.
— E não é muito de falar, não é?
— Vi a maneira como olhaste para mim ontem à noite. E se pensas que deixarei meu pai vender-me a vós, tu estás enganado!
— Vender-te a mim?

Ela percebera então, que o homem estava confuso com o que dissera.

— Esqueça!
— Qual é a vossa graça, senhorita?

Olhou-o novamente com desconfiança, mas algo no olhar dele a fazia sentir-se bem.

— Judith.
— É uma grande estima, Judith… – pronunciou o nome dela com um sorriso prazeroso — Eu sou Sir. .
— Um cavaleiro?
— Sim.
— Destes que salvam donzelas em apuros?
— Sim. Há alguma donzela que eu deva salvar?

Ela desviou-lhe o olhar e retomou suas tarefas.

— Judith… Vós mencionaste que o estalajadeiro é o vosso pai?
— Sim.
— Então meus companheiros tinham razão… Eles acreditaram que fosse o seu pai, pela maneira como ele não gostara de me ver admirando-a ontem.
— Duvido muito que não tenha gostado, ele apenas analisava que tipos de bens, vós poderíeis ter. Se seria o suficiente para mim.
— Acaso, vós estais anunciadas a ser desposada?
— Não.

Um silêncio se fizera e a mulher saiu de trás do balcão para limpar algumas mesas. aproximou-se dela.

— Estais a me dizer, que o estalajadeiro aceita honrarias para que os homens se deitem convosco?
— O que o senhor cavaleiro faria, se essa fosse a verdade?
— Roubar-te ia para mim, e jamais nenhum outro tocaria em vós. A não ser aquele que tu deres a permissão.

Judith o encarou assustada por um momento. E correu até a porta da estalagem, trancando-a com um ferrolho⁵.

— E eu poderia confiar em vós?
— Como não confiaria em um homem que está propondo lhe dedicar a própria alma?
— Salve-me.

Disse ela ansiosa, com olhar aflito para aquele estranho que se parecia tanto com o salvador que ela tanto esperou.

— Hoje partirei. Não sei a hora, mas passarei por este caminho. Entrarei para pedir uma bebida. E se acaso vosso pai estiver aqui, antes que eu saia, dê um jeito de ir para fora, e esconder-se atrás das pedras na estrada. Quando eu sair, encontrá-la-ei.
— Certo.
— Tenho uma pergunta.
— Sim?
— Por que não fugistes? Estás sozinha todo este tempo, desde que cheguei, e já poderia ter deixado esta estalagem.
— Acaso viveis em qual mundo, cavaleiro? Eu sou uma mulher, e por mais asco⁶ que eu tenha do que me façam aqui… Sabes quantas coisas piores poderiam fazer-me se eu estivesse a vagar sozinha por aí?
— Entendo…

Eles se olharam cúmplices.

— Preciso retornar, logo mais virei. Esteja pronta.
— Sim!

Ele distanciou-se a caminho da porta, e antes que a abrisse escutou Judith o chamar:

— Sir ! – ele encarou-a atencioso a ouvir: — Obrigada. E por favor, não se atrase.

apenas assentiu-a e seguiu à galope de volta ao castelo. Pensava na tamanha loucura que se metera. Roubar uma donzela? Ainda que fosse para salvá-la? Uma mulher que avistara somente uma vez? Certamente, pior do que roubá-la seria explicar aos seus companheiros o que estava prestes a fazer.

Aretusa caminhava curiosa atrás de sua princesa, e aos poucos fora reconhecendo o local para onde iriam.

— Senhora! O que faremos na Caverna da Lanterna?
— Aretusa, preste atenção. Eu entrarei e vós vigiareis a entrada até que surja. Então se esconderá com o balaio, e não retornarás à Caverna, até que ele saia.
— Senhora! Isto é uma loucura!
— Acaso estais contestando a ordem de vossa senhora?
— Não… Jamais, princesa.
— Ótimo. Agora, fique aí até que ele surja.

havia chegado no lugar onde o bilhete descrevia. Não compreendia por que viera tão distante. Era correto que o assunto no bilhete, se fazia necessário de segredo, mas ainda não entendia por que tão longe do castelo.

“Precisamos falar sobre o que tu fizeras ontem, cavaleiro”.


Cada vez que relia a primeira frase do bilhete, sentia-se imensamente culpado. E apavorava-o a ideia de seu senhor, o príncipe descobrir, como seu súdito desejara sua futura rainha.
Ao chegar na entrada da caverna, uma escuridão longa se fazia, até que avistara uma luz. Como se houvesse uma lanterna acesa ao fundo. Seguiu em frente, e quando atravessou a passagem entre as rochas, avistou um límpido lago azul no interior da caverna. E uma fresta no topo dela, que iluminava todo aquele espaço. Era de fato como uma lanterna ao fim da escuridão.

— Olá? – ele chamou, e mesmo em tom baixo, podia-se sentir o eco.
— Sir .
— Princesa ? Onde vós estais?

caminhava curioso e lento, até o interior da caverna, aproximando-se do lago, mas não havia visto-a ainda.

— Tu espionaste-me ontem, em um momento do qual eu estava vulnerável.

parou de caminhar e falou:

— Quanto àquilo, princesa, rezo para que me perdoes. Foi um momento desrespeitoso e do qual não pude dominar meus atos.
— Sabes o que o rei fará se souber disso? Ou pior… O que o seu príncipe fará se souber que olhastes com tamanha cobiça para sua pretendente?
— Senhora… Eu gostaria de me redimir, sem que fossem necessárias intervenções graves.
— Certo… O senhor pode se redimir. Tire suas vestes, Sir , e entre na água fria.
— Um banho gelado? É a maneira como…
— Faça o que eu mandei! – disse cortante, o impedindo de continuar.

se sentia ridículo, principalmente por conversar com ela sem ver onde ela estava escondendo-se, mas fizera o que aquela princesa fora de si, o pedia. Ou melhor, ordenava. Retirou suas roupas e entrou na água.

— Nade até a rocha alta.
— Princesa… Onde a senhorita está?
— Até a rocha alta, eu disse.

Ele fez o que ela ordenou, e ao virar-se pela rocha avistou a imagem da princesa à sua frente. Dentro da água, nua, com os cabelos molhados. E os mesmo olhares e sorrisos provocantes da noite anterior.

não conseguira dizer nada, apenas observá-la se aproximando de seu corpo nu. Quando percebeu os olhos dela junto aos seus, e os lábios dela tomando os seus, sentiu a mão da princesa sobre seu membro. Estaria sonhando de novo? Não poderia deixar passar a oportunidade de senti-la mais uma vez, ainda que em sonho. Grudou-a sob seu corpo. Enquanto a princesa masturbava-o delicadamente, chupava seus seios tão desejados na noite anterior. Sugava-os com força e os massageava, ouvindo o leve arfar da princesa. As mãos dela movimentavam-se com mais domínio em seu membro. E , sentia vontade de cada vez mais afundar-se nela, tocou a entrada dela, com delicadeza, e ela sentiu-se ansiosa. Tomou a boca do cavaleiro na sua, à medida que os dois brincavam com seus corpos. Ela fora o empurrando aos poucos até o alto do lago, de modo que ficassem mais próximos da margem, e posicionando-se sobre ele, a princesa não esperou para tocar o membro ereto, forte e alvo⁷ de com seus lábios macios. O homem gemeu e aquilo fez com que ela o enfiasse cada vez mais para dentro. Lambeu toda a extensão do pênis dele e chupou-lhes os testículos apertando-os delicadamente em sua boca. Ninguém além de Aretusa sabia que a princesa já houvera feito algo parecido antes. sentiu dor, mas uma dor prazerosa. O suficiente para puxá-la pelos cabelos e inverter suas posições. Ele abriu as pernas da princesa com voracidade, e colocou-se a chupar também seu clitóris, com os dedos invadiu-a ansioso. gemia, arfava e pedia por mais, e antes que sentisse-a enfraquecer, posicionou seu membro na entrada dela, e a estocou uma única vez. Diretamente, e foi então que a princesa gemeu alto com a dor sentida. Ela era apertada para ele. Mas, quanto mais sentia-a tencionar sob seu pênis, mais o cavaleiro estocava-a fortemente.

Ao fim do orgasmo mútuo, o cavaleiro encarou-a com luxúria nunca antes sentida e agarrou-lhe a cintura selando um beijo ardente. , não se opôs ao gesto. Ela correspondeu e sorriu.

— Princesa… Não deveríamos…
— Tome como uma punição, Sir . Afinal, não devias ter me espionado daquela forma.
— Princesa.
! Entre nós, vou deixar que me chame pelo nome.
— Eu prefiro manter a formalidade.

o olhou, indignada. Ela estabelecera uma informalidade entre os dois, a fim de soar gentil, mas mostrava-se arrependido do que acontecera. Não era aceitável que uma princesa fosse rejeitada daquela forma, tampouco suportaria ferida tão grande em seu ego. Principalmente sabendo que ele fizera aquilo com tanto desejo quanto ela.

— Como queira. – respondeu séria, modificando sua postura.
— Como eu dizia… Acredito que meu deslize mereça, de fato, uma punição. Mas, não posso aceitar-te como tal. O que aconteceu aqui fora indecoroso⁸ e certamente…
— Certamente, se o rei souber, o senhor será um cavaleiro morto . Na verdade, são muitos os riscos não é mesmo? Estão envolvidos também a rainha Yang Mi, e o príncipe

encarou o cavaleiro com seu olhar vingativo e pronunciou–se em tom ameaçador. Ela deixaria bem claro, que não aceitaria desculpas por algo que ela desejara ter, e ele também. a olhava atencioso às reações da princesa. Compreendia que ela se sentia ofendida com sua represália ao que ocorrera, mas não poderia afirmar o quão bom fora aquilo. Ele era um cavaleiro real, afinal.

— Portanto Sir. , ponha suas vestes, retorne ao seu palácio e não dê nenhum pio sobre o que acontecera. Pois, já aconteceu. E nada adiantará pedir desculpas por algo que lhe foi ordenado fazer. Tampouco bancar o ofendido, ou o culpado por desejar o corpo da princesa prometida a outro homem, e ainda assim, o tê-lo.
— Lamento se a ofendi, princesa.
— Me ofende em continuar falando. Apenas vista-se e saia. Se preferir, esqueça o que viveu.

saiu da água e pôs-se a vestir-se enquanto a princesa, mergulhava tranquilamente pelas águas do lago. Quando ela retornou à superfície, olhou-a envergonhado e pôde ler no reflexo do olhar dela, o quanto ela detestara a expressão dele. Certamente, se antes a princesa nada faria pelo erro do cavaleiro, agora, temia pela vingança de uma mulher com o ego ferido.


¹Garbosa: Elegante, bela.
²Gralhar: Relativo à gralha, crocitar, grazinar, som emitido pela ave gralha.
³Guisado: Cozido, refogado.
⁴Obséquio: Favor.
⁵Ferrolho: Ferro corrediço que se fecham portas, janelas.
⁶Asco: Nojo, repulsa.
⁷Alvo: Muito branco.
⁸Indecoroso: Indecente, vergonhoso, obsceno, escandaloso.

VI.
Young Squire


Novamente submergiu, a fim de esfriar os ânimos que não apenas sua mente mostrava, quanto Aretusa que surgiu afoita¹ pela caverna, com o balaio em mãos. A dama de companhia da princesa avistou-a mergulhando nua e rapidamente pôs o balaio ao chão. Pegou o lençol de banho e a princesa saía de dentro da água, com placidez² na face. Aretusa a cobriu com o tecido, ajudando-a a se enxugar. Em seguida puxou as roupas de sua princesa e ajudou-a a se vestir. A mulher estava assustada com o que teria acontecido, e ainda mais, pela princesa parecer tão feliz.

— Princesa?
Hm?
— O que acontecera aqui… Não será por demais danoso?
— Aretusa. Nada aconteceu aqui, eu apenas vim banhar-me. Entendido?
— Claro Senhora!
— Aretusa… Tenho-te por amiga, durante todos teus anos de servidão. E falarei agora, com a minha confidente, não com a serva…
— Pois sim, Senhora.
— Eu creio estar apaixonada.

A princesa girou o corpo para encarar sua serva, que com os olhos arregalados encarava silenciosa à mulher em sua frente. O sorriso desmedido³, e o olhar fulgurante⁴ da princesa confirmaram o que Aretusa já desconfiara. Não pôde evitar o rubor em sua face.

— Oras, não me olhes assim! Foi realmente maravilhoso!
— Mas senhora… Ele é um cavaleiro ao qual foi incumbida a missão de…
— Pedir minha mão em nome do príncipe a que serve. Eu sei disso, Aretusa. – interrompeu a princesa — E isso só faz com que, a certeza de aceitar a oferta seja maior.
— Senhora!?
— Jamais poderia me desposar por um cavaleiro, por mais nobre e subserviente⁵ que fosse. Mas, aceitando a proposta da rainha Yang Mi, eu estaria próxima de Sir. . Convencer o rei a aceitar é que será complicado.
— Pronto, Senhora.

Aretusa afirmou terminando de pentear os cabelos de sua senhora, que já estava sentada sobre uma pedra há algum tempo. Ambas se dispuseram a voltar ao castelo, e antes de saírem da caverna por completo, a princesa parou o passo, sendo incisiva com sua dama:

— Por mais que eu lhe confie… Ordeno que nenhum pio seja dito sobre o que houvera aqui.
— Fique tranquila, minha princesa. Eu sou totalmente leal à vossa majestade.
— Eu sei disso, e por isso lhe estimo. Agora vamos, demoramos o suficiente.

Ao retornarem ao castelo, não avistaram nenhum dos cavaleiros. Eles encontravam-se em seus aposentos. , repousava em sua cama, e já portava suas vestes de partida. Ele repensava o feito daquela manhã. No outro quarto, contava a sobre o ocorrido da manhã dele, também.

— Estás a cometer um desatino⁶, !
— Dei minha palavra à Judith que a salvaria, !
— Céus… E depois? O que fará com a moçoila?
— Não pensei no depois. Ao vê-la ali… Tão bela e desesperada…
— Sei! – interrompeu bravo, o companheiro: — Agiste com a parte do teu corpo que não raciocina!
— De fato! Judith… De uma maneira totalmente desconhecida a mim, perturba meus instintos.
— Oras, ! E o que diremos ao ?
— A princípio, penso em não dizer nada. Seguiremos o caminho e próximo à taberna do estalajadeiro eu me separarei de vós.
— Como quer que eu convença a permitir que prossigamos sem tu?
— Se eu soubesse não estaria aqui a pedir-lhe apoio.
— É bom que penses bem nisto, : se trouxeres a moça convosco, terás de a desposar. Ou ao invés de salvá-la, a condenará ao próprio infortúnio⁷!
— E quando eu lhe disse que desposar Judith não é o meu desejo?

olhou ao amigo de maneira, curiosa. Sorriu-lhe e balançando a cabeça negativamente, o disse:

— Estás louco! – ambos riram entre si.
— E tu? O que fizeste toda a manhã?
— Vaguei pelo castelo, e arredores. É um reino de fato, admirável. E abundante! Entendo agora as proposições da rainha.
— E encontraste alguma dama?
— Sim. A cozinheira do rei.
— A cozinheira? Ora, ora, . Jamais poderia imaginar que as robustas senhoras faziam o vosso gosto.
— Robusta… Podemos dizer que sim. De um modo muito positivo, aliás. Já senhora, não. Adulta, porém não tão mais velha que nós.
— Então, eu não fora o único a aprontar…
— De maneira alguma! É uma mulher respeitável e tem um filho.
…! Estás a se meter numa confusão maior que a minha.
— É viúva.

Antes que pudesse responder qualquer coisa se ouviu um bater à porta do quarto de . Eles a abriram, e os dissera que estavam de partida.
A princesa, que descia as escadas daquele andar, surgira no fim do corredor no momento em que os três parados à porta falavam em partir.

— Os cavaleiros não aguardarão por uma refeição digna na companhia do rei? – os surpreendeu.
— Princesa.

Os três abaixaram a cabeça em reverência, e uma troca discreta de olhares fora notada por Aretusa, entre a princesa e o cavaleiro.

— Se for indispensável ao rei, que aceitemos o convite, é com prazer que ficaremos. – disse .

A princesa apenas abaixou a cabeça levemente, em afirmação ao cavaleiro. E silenciosa prosseguiu. Aretusa, tão silenciosa quanto, se pôs a segui-la.

— É uma mulher envolvente, a princesa . – dissera .
— Com certeza. O príncipe não deixará que outro lhe roube esta chance. – disse .
— Eu não deixaria. – falou risonho para seus companheiros, mas apenas sorriu. ainda encarava o caminho que a mulher havia passado, e os outros dois perceberam:— E você, ?
— Hã?
— Deixaria passar a oportunidade de ter a princesa como tua? – perguntou .
— Cuidado com o que dizem. Ela é a prometida de .

Assustado, mas contido, encaminhou-se adiante. Os companheiros riam da reação polida do homem, que lhes indicava que, não exporia seus pensamentos sórdidos por devido respeito. Por virtuoso cavaleiro que era.

A princesa foi ao encontro do rei, e comunicou-lhe que os cavaleiros se preparavam para partir. O rei exigiu que aguardassem a refeição do meio-dia. Logo, Aretusa pusera-se a correr até os cavaleiros para lhes informar. Chegou à cozinha, e perguntou onde estava a serva dos cavaleiros.

— Estão de partida, e pediram que ela lhes levasse algumas providências para a viagem. – disse Dalila.
— Onde estão?
— Preparando os cavalos.

Aretusa seguiu em direção ao pátio dos cavaleiros.

— Sir ! Sir !

Ela o gritava à medida que se aproximava, apressada ao vê-lo pedindo a um servo, que encaminhasse os animais às entradas do castelo. Os três olharam-na confusos e aguardaram em silêncio sua aproximação.

— Não podem partir. O rei ordena que tomem a refeição do meio-dia com ele.

Os três se olharam, e dirigindo-se ao servo, pediu:

— Pedirei a outro servo que o avise depois para levar os cavalos à entrada, obrigado.

O servo saiu e tomando as rédeas dos animais os retornou aos cochos.

— Por favor, me acompanhem.

Seguiram Aretusa até o salão de jantar real, onde rei e princesa já estavam à mesa. Ao adentrarem o local, reverenciaram as majestades.

— Acaso partiriam com fome? Acaso nosso alimento não é saboroso o suficiente a vós? – perguntou-lhes, brando, o rei.
— De maneira alguma majestade, apenas preparávamos os animais para a partida. A viagem é longa, mas certamente não sairíamos sem as vossas bênçãos.
— Sentem-se! E fartem-se.

Obedeceram, comeram e em seguida despediram-se.

— Majestade, com lustroso brio nos despedimos e agradecemos vossa imensurável generosidade em nos hospedar.

O rei sorriu à :

— Aguardo a comitiva da rainha em breve, e espero rever tão honrados cavaleiros. , peça à serva que os providencie o que lhes for necessário a um bom retorno.
— Já providenciei tudo meu pai. – ela o respondeu e direcionou-se aos homens: — Vossas providências já foram levadas às vossas montarias. Peçam o que lhes faltar.
— Agradecemos, mais uma vez, majestades.

Reverenciaram o rei, e a princesa uma última vez. E retiraram-se das presenças reais, sem mais delongas. , friamente observou o cavaleiro partir. Quando subia a seu quarto, o rei que lhe acompanhava em silêncio chamou a filha lá um diálogo. Adentraram aos aposentos reais, e posicionou-se até a janela. Do quarto do rei era possível ver a estrada do Sol poente, longínqua e num alto cume. Por ali ela poderia ver os cavaleiros irem embora se permanecesse ao quarto por mais um tempo. Mas, não poderia dar desconfianças ao pai, por isso daria um jeito de manter por perto de outra forma. olhou para seu pai, que sentado numa poltrona real, retirou a coroa a colocando na mesa e suspirando fundo sorriu para a filha.

— É como ver tua mãe a admirar as colinas.
— Recordo-me que este era o lugar favorito dela no castelo. E acho que é um pouco meu também… – a princesa sorriu nostálgica pela mãe e encarou a colina discretamente antes de sentar-se à cama do pai e indagá-lo: — Ainda sentes a falta dela como eu papai?
— Para sempre. E a cada vez que se aproximam assuntos de vosso casamento, sinto ainda mais por tu não tê-la aqui minha filha.
— Ela sempre está comigo, pai. Em meu coração.

Arthus felicitou-se a ouvir aquilo e ajeitou o corpo, confortavelmente à poltrona indo direto ao assunto:

— O que achaste dos cavaleiros de Yeongseo?
— Cavaleiros são cavaleiros em qualquer reino… – ela desdenhou: — E o senhor, papai? Não compreendi ter aceitado a visita de cortejo da rainha.
. Yang Mi é uma rainha muito, muito ardil. Ela pode destruir nosso Império com poucos movimentos. Eu preciso ouvir o que ela terá a me dizer, mas creio que eu saiba. Por isso, minha filha, gostaria que preparasse-se para a possibilidade de aliançar-nos ao Reino deles, embora eu vá tentar tudo o que puder para isso nunca acontecer.

encarou ao pai com extrema curiosidade. Ela não achava que seria fácil convencer ao pai de aceitar o pedido de . Havia algo não dito mesmo, entre os dois reinos.

— Eu não me importo sobre aceitar o noivo, embora espero que eu possa fazer uma união de amor como fora a do senhor e de mamãe, mas… Papai, por que eu? O senhor ainda pode se casar!
ha filha, eu já lhe disse, quando vossa mãe faleceu eu a prometi que não me casaria, e te faria uma rainha feliz. É por tua felicidade que espero não precisar unir-te a , confie em vosso pai. Tu terás a escolha final sobre quem desposá-la.
— Eu sei Papai, e por isso tranquilizo-me. Mas, o que houve entre os reinos para o senhor saber tanto da dinastia , e ainda, desejar não aliançar-nos?
— Quando for a melhor hora saberás, mas Yeongseo já foi um reino inimigo ao nosso.

sentiu-se ainda mais necessitada em descobrir até onde o caminho em direção ao poderia levá-la.

¹Afoita: Arrojo, ânimo.
²Placidez:Sossego, tranquilidade, serenidade.
³Desmedido: Que excede as medidas, excessivo, enorme.
⁴Fulgurante: Que fulgura. = Brilhante.
⁵Subserviente: Que se presta servilmente às vontades de alguém.
⁶Desatino: Desvario, falta de tino.
⁷Infortúnio: Sofrimento, azar.

VII.
Legerdemain


A tarde punha-se quente e bela, por entre as estradas que os distanciava do reino. acenou para , num claro sinal de que o momento de raptar Judith havia chegado.

! – gritara ao cavaleiro mais à frente, e o mesmo o olhou atento, então fora direto: — Preciso parar um momento na taberna da estalagem, mas podem prosseguir que os alcançarei logo.
— O que houve?
— Creio que precise despedir-se de uma bela citarista¹. – defendeu .
— Podemos aguardar, não é seguro que tu viajes sozinho.
— Não , mas eu prefiro que não nos atrasemos.

olhou desconfiado para . prevendo a complicação, prosseguiu com seu cavalo gritando ao amigo:

— Não demore !

Logo, o seguia. aguardou os companheiros afastarem-se minimamente, e estudou à sua volta se havia companhia na estrada. Adentrou pelo caminho paralelo que levava à estalagem. Aproximou-se da rocha marcada e apeou seu cavalo. Caminhou espreito às proximidades da taberna, e observou que o estalajadeiro já estava de volta. O homem que carregava tonéis de fora para dentro da taberna, não o viu se aproximar. Amarrou seu cavalo na entrada da taberna. Quando o dono do local, virou-se para pegar outro barril, deu-se de face com .

— Cavaleiro? Em que posso ajudar? – perguntou desconfiado o homem.
— O senhor teria rum, a vender-me para viagem?

Passaram um tempo em silêncio. O homem olhava o cavaleiro com dúvida, por estranhar a não presença dos demais.

— Entre. – por fim dissera à .

Quando adentrou à taberna, avistou Judith escondida, espiando-os de um cômodo atrás do balcão que parecia ser uma espécie de dispensa. A garota, arregalou os olhos ao notar ser , realmente, e discretamente desaparecera dali. O estalajadeiro serviu um cantil de rum ao cavaleiro e recebeu as moedas de prata. Cordialmente, despediu-se e saiu. O estalajadeiro observou-o sair montando em seu cavalo e calmamente se distanciar. Retornou para seus afazeres, carregando os tonéis de volta à estalagem.

aproximava-se da rocha marcada, e quando imaginara que algo havia impedido a moçoila de sair, avistou-a correr apressada em sua direção. Portava uma capa que lhe escondia bem o rosto, sua cítara, e um cantil de água amarrado ao corpo. Sem descer de seu cavalo, ele puxou-a pela mão e logo a mulher estava montada junto de si e ambos cavalgavam em direção aos demais cavaleiros.
parara de trotar e o encarou em dúvida.

está demorando. – disse olhando para trás.
— Ele logo estará aqui, . Não há com o quê preocupar-se.
, és tão péssimo mentiroso quanto galanteador. O que ele foi fazer?

sentia um frio lhe percorrer o corpo.

— Creio que, despedir-se da moça da estalagem.
— Ficaremos aqui, até que ele, nos alcance. – afirmou descendo de seu cavalo.
— Certo… – concordou observando a estrada a fim de que estivesse vindo — ?
— O que há?
— Como fora tua manhã?

perguntara sorrindo sugestivo e bebendo um gole de sua água. , embolou-se em como responder àquela pergunta quando avistou aproximar-se cavalgando. E notara a presença de mais alguém no cavalo. Assim que ele emparelhou aos outros dois, pôde ver a moça da estalagem atrás de sobre o equino.

— Despedir-se? – olhou aos amigos cúmplices de maneira reprovadora.
— Comprei rum para a viagem! – disse-lhes mostrando o cantil e ignorando a expressão de que montava seu cavalo assim como no outro.
— E a citarista veio com o rum? – perguntou .
— Sei o que estou fazendo, .
— É bom mesmo que saiba.
— Bem! – disse interrompendo as provocações entre os olhares dos dois: — Diante da presença inesperada de nossa convidada, é melhor que nos apressemos. Não é como se não fossem dar falta da bela jovem.

deu rédeas ao cavalo pondo-se a cavalgar em corrida pela estrada. Os dois que ficaram para trás se entreolharam e correram também. sabia que não lhe cabia julgar . Afinal, ele mesmo cometera desvario muito maior, do que o de raptar uma jovem.

Durante grande parte daquele trajeto, Judith se propôs mentalmente a passá-lo calada, respondendo ao que lhe fosse perguntado, mas os homens galopavam incansáveis e apressados a chegar em qualquer destino, por ela desconhecido. Quando fizeram a primeira parada para dormirem na estrada, mostrou-se atencioso e preocupado com ela, o que não foi suficiente para ela não perceber que reprovava sua presença ali.

Enquanto os cavaleiros deitaram para dormir, ficaria acordado em vigília, e assim revezariam pela noite. Judith estava deitada enrolada em sua capa, próxima à fogueira. Ela ergueu sua cabeça discretamente para olhar os homens, parecia dormir e também, já farfalhava a fogueira atiçando mais fogo. Cautelosamente, ela o chamou, e quando a notou acordada ele prestou atenção, ainda sério.

— Ele me salvou. Por favor, não o puna.
— Salvou-te de quê? Percebes que se ele não mais a quiser, terás um destino muito pior do que o anterior? – perguntou ele.
— Não digas o que não sabes. Meu destino anterior era tão horrível que eu não ousaria ser uma mulher só e livre se não pudesse defender-me.
— Do que ele salvastes!?
— Dos homens que pensam serem as mulheres seus objetos.

Judith respondeu brava e virou-se de costas a para dormir.

— E se ele tomar-te como objeto dele?

perguntou sábio, como se tentasse provar que ela foi imatura em ter seguido com . Mas, Judith era esperta e ele não imaginaria isso.

— Primeiramente, cavaleiros tem honra e ele não me tomará como objeto, se eu não quiser. Por dois simples motivos: eu sei defender-me como lhe disse, e porque, caro cavaleiro… Donzelas em perigo podem ser mais astutas do quê os heróicos homem pensam, para livrar-se do próprio perigo.

— Eu sei. Por isso acho um erro ele tê-la trazido, suas intenções não são ficar com ele. São?

também era astuto como ela não imaginou.

— Entre ele e eu, não houvera promessas de ficarmos um com o outro. – respondeu Judith — Descanse cavaleiro.

sorriu ao notar que teria um grande desafio de conquistar aquela mulher acaso desejasse ficar com ela. E soube no exato momento, pois sorrateiro, ouvia a tudo atentamente. Se fosse aquele um desafio, conquistá-la, as coisas só se tornariam melhores. não gostava de vitórias fáceis.


¹Citarista: tocadora de Cítara, ou Lira.

VIII.
Song of Kings


A comitiva de Yeongseo pôde ser avistada por Arthus da janela de seu quarto a cruzar o cume¹ poente. Como se estivesse preparando-se para um desafio, ele retomou sua coroa em mãos a vestindo à cabeça. Estufou o peito e pôs-se para fora de seus aposentos. Encontrou-se com Anrão, o mensageiro que já o aguardava na sala do trono.

— Receba-os com amizade, e peça ao general Tardif que deixe os homens a postos.

Ordenou Arthus, e Anrão saiu. Seu conselheiro, Misaquias, preocupava-se com aquele encontro após tanto tempo.

— Majestade, não devemos falar do acordo. Deixe que a rainha Mi fale primeiro. Certamente ela o dirá, creio que seja melhor Vossa Majestade a surpreender.

— Misaquias, prometa-me cuidar de Ártemis se eu faltar-lhe.

— Majestade, eu prometo, mas o senhor não a faltará hoje por nenhum desvario² da rainha, nosso exército não é mais tão fraco. Do contrário ela não estaria aqui pelo interesse que a trouxe.

— Preocupa-me apenas faltar à Ártemis em protegê-la deste casamento.

— Faça como lhe aconselhei se necessário for, Majestade.

O rei Arthus pôs-se a acariciar a sua barba, pensativo. Teria de contar toda a história passada, a Ártemis se tudo desse errado. E aquelas memórias do passado o faziam sentir-se culpado em muitos aspectos possíveis!

Quando o jovem príncipe Arthus I foi designado a representar o seu reino no Conselho de Paz das províncias Meso-Asiáticas, numa tentativa de propor trégua entre os territórios da Mesopotâmia, sob a dinastia de Nabucodonosor, e os territórios da Ásia sob a dinastia , o príncipe não imaginaria que teria as linhas de seu destino tão entrelaçadas com as linhas de Yang Mi, a terceira princesa na linha sucessória da dinastia .

Yang Mi era jovem, bela, de aparência doce, mas gananciosa o suficiente para tentar fazer com que Shun'ya seu irmão mais velho, e Li Chao, seu segundo irmão, não assumissem ao trono. As batalhas de Gangwon precisavam ganhar força e assim, os príncipes não só lutariam, como seriam motivação ao pequeno exército do reino. E aquele acordo de trégua só teria a atrapalhar. Mas, a presença de Arthus I fez com que todos os planos de Yang Mi mudassem, assim que o avistara.

A dinastia jamais permitiria quem quer que fosse de seu casto e puro sangue misturar-se aos mesopotâmicos da Babilônia. Entretanto, a dinastia não se importaria de sacrificar a terceira sucessora, numa aliança matrimonial se isso permitisse trégua de guerra e domínios de novos territórios, ao mesmo tempo. Por isso, Yang Mi arquitetou todo o plano de desposar-se com Arthus I, naquele Conselho. Shun'ya ainda poderia assumir a Coroa, mas, Yang Mi queria mais do que ser esposa de Arthus I sendo rainha de Amitísia. Ela queria governar tudo.

Por mais que pudesse pensar em formas de depois tomar o trono de sua dinastia, Yang Mi não poderia lutar contra uma aliança já firmada: entre Arthus e a princesa Namira, que futuramente tornaria-se Amitis II. O Conselho de Paz aconteceu, Yang Mi jurou um dia tomar tudo de Arthus, por sua negativa a ela. Mas antes precisaria chegar onde queria. E conseguiu: Shun'ya manipulado pela irmã enviou Li Chao, seu outro irmão que tornou-se general do reino, também por estratégia da caçula, em uma batalha fatal. Armadilha de Yang Mi, assim como o envenenamento progressivo do rei Shun'ya. Sendo a única sucessora, os anciãos dinásticos providenciaram que a Coroa recaísse para Yang Mi, e por isso ela deveria se casar. Assim, ela e seu primo de quarto grau, Eun He, tornaram-se novos reis de Gangwon até a morte de Eun, aonde ela pôde finalmente estar onde gostaria.

Seus filhos, – , o mais velho e , o caçula – eram os únicos herdeiros de seus feitos, e com bravura, perspicácia e sedução, Yang Mi tornou-se a maior rainha da dinastia, e a primeira a governar sozinha. Depois de tantos anos havia chegado o momento de sua última cartada, aquela que jurara vingança a Arthus.

Aretusa adentrou ao quarto de Ártemis apressada informando a chegada da comitiva. A princesa deixou a escova que usava para pentear os cabelos sob a penteadeira, e se colocou de pé a fim de sair, mas foi interrompida por sua dama.

— Senhora, o rei pediu que aguardássemos o chamado para descer à sala do trono.

Ártemis estava eufórica, não para conhecer os reis, mas para ver novamente o rosto de que certamente liderava a comitiva junto aos outros cavaleiros. Ao ouvir a ordem de seu pai, ela retratou confusa:

— Por quê? Acaso meu pretendente não chegou!? Devo recebê-lo como a todos os outros, ao lado do rei!

— Ainda não cruzaram as entradas do palácio. Senhora, o senhor Misaquias pareceu-me preocupado ao me repassar as ordens do rei, por favor, não desça.

Aretusa temia pela impetuosidade de Ártemis, praticamente a suplicando para não desobedecer. Mas a princesa compreendia que seu pai a estava protegendo. Caminhava de um lado a outro do quarto, pensativa. Arthus estava acuado, sabia disso! O casamento já tardio para uma princesa de vinte e sete anos era por tal razão explicável, mas quando soubera que seu pai apressava-se também por uma aliança segura ao Reino, Ártemis não acreditava em quaisquer motivos para não ser ele a se casar. Até dias antes, em que o pai a confessara a promessa feita para a mãe de Ártemis. Logo, compreendia que seria total e inteira responsabilidade sua assumir a Coroa. Sem dúvidas, ela não se opunha a nada daquilo, principalmente por seu pai mostrar-se tão disponível às flexibilidades e mimos de sua princesa. Contudo, aquela postura do rei, de estar acuado diante da rainha oriental era tão curiosa quanto amedrontadora. Ártemis sabia que deveria temer por um segredo.

O som dos cascos dos cavalos batendo ao solo da estrada e o trepidar de sua carruagem, já estava deixando estressado. Por isso, o jovem rapaz abriu a cortina de sua janela. Avistou a mata verde e o rio que corria ao lado, estavam em um lugar muito alto, ele notara. Mas era também um lugar muito lindo por sua natureza. Yang Mi observou o filho entediado suavizar sua expressão sutilmente ao avistar a paisagem, e sorriu. Ele era tão parecido com ela, em sua vida de juventude! E também carregava a seriedade de sua vida adulta. não era de sorrisos, ocultava-os e sorte daqueles que pudessem vê-lo sorrir verdadeiramente. Era como avistar parte dos segredos do céu. A expressão sombria e diabólica do príncipe, quando sorria verdadeiramente transfigurava-se na figura de um Deus. Era perigoso a quem visse, e uma arma poderosa da beleza do príncipe. Tal qual sua mãe. Yang Mi puxou a cortina de sua janela também e soubera onde estava. Observara ao cume da visão do castelo, mas ao contrário de seu filho sua expressão não suavizou. Tão fria como passara a ser por anos, Yang Mi percebeu as suas últimas memórias de ter estado ali tomarem-na os olhos, mas não se abalou. Encarou o castelo ao longe, e puxou seu monóculo para observar melhor, então enxergou ao Arthus. Parado à janela de uma torre observando ao longe, certamente sabia que eram eles. Se não fosse a lupa ela não viria o rei, tampouco saberia de sua presença sutil ali. Yang Mi não sorriu, embora quisesse.

. – chamou o filho que encarou à mãe, com expressão séria e sobrancelha arqueada e a ouviu atento: — Eis vosso futuro castelo.

olhou pela janela, deparando-se com uma vista surpreendente do reino. Mas não se abalou, a sua mãe já havia o convencido de que não haveria chances dele desposar outra que não fosse a princesa de Amitísia. Por aquele acordo antigo, ele não esperava ter destino diferente, e exatamente por isso que sua curiosidade e preocupação moravam em como seria a princesa. Seus súditos fiéis e homens leais de sua cavalaria havia o certificado de que a princesa seria uma das mulheres mais belas e envolventes que o príncipe um dia tivera a chance de encontrar. Confiava nas palavras deles, sabia do bom gosto dos cavaleiros , e até mesmo , que pouco o dissera sobre a princesa. Mas, precisava certificar-se daquilo com os próprios olhos.

— Aretusa! – Ártemis dissera urgente, com o lampejo de ideia que pairou à sua mente ao observar a paisagem pela janela de seu quarto: — Desça! Espreite em torno do conselheiro e do rei, sinto que há algo que eu não possa saber…

— Mas princesa…

— Ouça tudo! E suba para me alertar, sei que sabes espiar como uma serpente silenciosa!

Ártemis interrompeu a prévia reclamação de Aretusa com os olhos duros e sua ordem. A dama de honra da princesa pôs-se para fora do quarto, puxando as grandes portas com a cabeça baixa, e antes de fechá-las completamente, encarou sua senhora. Ártemis estava de pé, ereta em sua postura real, de queixo erguido e olhar diretivo à paisagem de seu quarto que não mostrava a estrada inteira de entrada do castelo, apenas parte dela. Seus braços cruzados sob os seios em forma de auto abraço. Aretusa entendia sua princesa em seus gestos todos, Ártemis estava preocupada, e era bem mais do que uma ansiedade para ver o cavaleiro.

Aretusa desceu apressada e silenciosa na direção do salão real. Pôde ver pelas brechas das longas cortinas fechadas, entre um paredão de pedra e outro, que havia uma atmosfera de tensão em torno do rei e do conselheiro, Misaquias.

— Uma ratinha a espreitar! – sussurraram em seu ouvido a causando espanto.

Aretusa virou-se de imediato e tranquilizou em seguida, ao ver o rosto de Petrus. Um dos guardas reais.

— Petrus! Silêncio! Sigo ordens da princesa! – sussurrava ela atenta em não ser vista ou ouvida.

— Venha comigo.

O homem pegou a mão de Aretusa arrastando-a para o corredor que dava ao salão, por onde antes ela tinha passado. Ali poderiam falar com mais tranquilidade.

— Preciso ouvir o que dizem Misaquias e o rei.

— A princesa deve ter visto o general Tardif alocar os homens ao redor das torres, não é?

— Não sei, mas ela está preocupada Petrus. Também pudera, esta vinda deste pretendente está por demais, misteriosa… Acaso sabes algo?

— Que não digas à princesa que fora eu quem lhe contara isto, mas a rainha Yang Mi é inimiga do rei. Recebemos ordens de estarmos atentos a qualquer ataque.

— Inimiga? Por quais razões aliançariam então, os reinos neste matrimônio? Céus… o que o rei pretende?

— Preciso ir. Devo me pôr a postos da entrada externa ao salão. Espreite na cortina atrás dos tronos, de onde tu sempre espreitas, aliás.

— Oras, seu… – Aretusa sorriu vendo Petrus afastar-se.

A dama seguiu para o lugar onde melhor poderia escutar: as cortinas atrás dos tronos. Esgueirando-se entre um vão de cortinas abertas nas laterais do salão, e outra fechada, conseguiu chegar ao seu ponto. Observou os corredores e ninguém caminhava por ali.

— Misaquias, eu sinto que Mi irá aceitar qualquer das nossas propostas.

— Rei, isto é impossível! Ela não entregará Gangwon aos inteiros comandos de Ártemis! Isso é o que a fará desistir, sabes que pelo Conselho, temos o reino maior e com maior apoio.

— Yang Mi não pretende uma aliança, não é o reino e os territórios de Amitísia que ela quer. É vingança.

— Mas, rei… Que tipo de vingança teria em casar os príncipes deixando a ordem dos reinos na mão de Ártemis?

— A vingança de eu não poder impedir que a única coisa que Amitis temia, acontecesse.

— Há algo ocorrido na última guerra, sobre este momento de que o rei não tenha me contado?

— Se Ártemis der sua última palavra a favor deste matrimônio, eu não poderei impedir, prezo que em minha ausência, sejas tu Misaquias o braço forte de minha filha.

— Senhor, a princesa é muito esperta, ela não entregará o reino a Yang Mi, mas precisará saber de todo o passado.

— E vós também. Caso seja esta aliança uma realidade, quebrarei os selos secretos sobre a última guerra.

Aretusa não pôde mais ouvir nada, Anrão surgiu pelo portal do salão, informando a chegada da comitiva. A dama correu para o quarto da princesa a fim de contar-lhe tudo.


¹Cume: o ponto mais alto.
²Desvario: ato de loucura.

IX.
Road to Camelot


— Segredos da última guerra? Pedidos de minha mãe? Vinganças? Ora, ora Aretusa… Meus instintos estavam certos afinal!

caminhava ao redor de seu quarto, ainda mais pensativa.

— Senhora, em breve eles a chamarão para descer. Queres que eu faça algo?

— Ajude-me a trocar o vestido! Pegue aquele vermelho aveludado.

Enquanto a dama de companhia seguia a ordem da princesa, e ajudava-a ao vestir, seguia um raciocínio cauteloso. Iria pedir que Aretusa fosse os seus olhos e seus ouvidos ao redor do rei, quando ela não pudesse estar. E avaliaria as personalidades de seu pretendente e da Rainha Mi. E claro, sorrateiramente, iria ver o cavaleiro pelo qual estava disposta a ser conivente com o matrimônio. Embora soubesse agora, que apenas aceitar o matrimônio por conta de um romance proibido não fosse mais prioridade: havia algo a descobrir com seu pai.

Logo que Misaquias pediu a uma serva para chamar a princesa, olhou pela janela de seu aposento real e pôde ver os soldados de seu reino a postos, aos fortes do castelo, observando a entrada do palácio. A princesa observou a comitiva na estrada calçada e apressou-se a descer à companhia de seu pai. Aretusa, tal qual fosse ela a ser desposada, encontrava-se extremamente ansiosa.

— Já estão a atravessar as entradas do palácio majestade. – Anrão informou ao rei que estava à sala do trono.

Arthus manteve-se calado e apenas acenou com a cabeça. Misaquias observou a expressão do rei, era plácida, mas ele sabia que por dentro da mente de Arthus o passado lhe rondava.

— Senhor Misaquias... Majestade... – a voz de a surgir no salão se fez ouvir.

Posicionou-se ao lado de seu pai, sentada ao trono, com a mão sobre a dele. Misaquias notou pelo sorriso que o rei dera a filha, que ele faria o que pudesse para protegê-la de Yang Mi. E aquilo era um tanto quanto perturbador ao conselheiro do reino. A princesa observou diretamente a Misaquias após trocar um sorriso com seu pai, e a diretiva de seu olhar indicara ao conselheiro que ela estava atenta aos segredos que aparentemente se colocavam entre ambos.

— Meu pai... – a voz dela soou suave, e o rei Arthus a observou atento: — Espero que não demores a situar-me dos perigos ao qual queres me proteger.

— Como?

— Eu sei ler os vossos olhos papai, mas ainda que não o soubesse, há uma atmosfera densa aqui. Meu sexto sentido me diz.

O rei não dissera nada, apenas sorriu e apertou a mão da filha. Novamente volveram¹ o olhar à frente das portas do salão real, à espera dos visitantes. A comitiva adentrou pelo calçamento do palácio com os cavaleiros à frente. Foram reconhecidos por alguns servos reais e assim que os portões foram abertos, Yang Mi, silenciosa em sua carruagem deixou um sorriso de escárnio lhe tomar a feição. Aspirou profundamente o ar fresco das árvores de mirras do castelo, e tocou a mão de seu filho o encarando já com sua expressão vitoriosa.

permaneceu sério, mesmo com o brilho dos olhos de sua mãe. Ele sabia que ela já tinha em sua mente tudo pronto para que o reino de Amitísia fosse dele. Não havia nada a preocupar o príncipe, senão conhecer a sua – para ele, já então – futura rainha. observou cauteloso, com seus pequenos olhos que lhe davam um ar misterioso, aos fortes do castelo. Alguns cavaleiros e soldados se encontravam preparados com arcos e flechas, bestas e até dispostos a alguns canhões.

— Creio nunca ter sido recebido de forma a me sentir tão poderoso em reino algum. – pronunciou sério à sua mãe, com curiosidade e certo tom de ironia.

A rainha sorriu largamente, e orgulhosa atestou:

— Arthus é perspicaz. Não é que nos tema de fato, pois apesar de saber do nosso poder crescente, ele teria a vitória por uma guerra contra nós. Nisso estaríamos em desvantagem.

— Então acaso de quê tanta proteção, como se estivéssemos prestes a atacar?

— Por que ele sabe que estamos prontos a atacar. Mas, não como pensas, meu filho.

— Não deveria eu estar ciente dos vossos planos, minha mãe?

— No momento em que tu fores o cavalo deste tabuleiro, saberás. Por enquanto, permaneces como o bispo.

suspirou profundamente. Não reclamaria se sua tão manipuladora mãe lhe pudesse contar o que havia acontecido há tanto tempo e o que ela pretendia agora. Contudo, ele nunca poderia controlar por si só às atitudes da rainha, mesmo sendo sua mãe. A carruagem parou, o lacaio desceu abrindo a portinhola e estendendo a mão para que a rainha descesse. Yang Mi saiu primeiramente, com a ajuda do servo e ajeitou suas vestes enquanto descia ao lado dela. À frente deles, os cavaleiros de Yeongseo que haviam acompanhado a comitiva, já estavam enfileirados e prontos para escoltá-los para dentro do castelo. As majestades de Gongwon deram seus passos lado a lado, e seguiram à sua frente, sir e sir e à vossas retaguardas, os cavaleiros, sir e sir .

As portas do salão real se abriram, e quando iria levantar-se, seu pai a segurou pela mão indicando-lhe a quebra do protocolo: os receberiam sentados. Aquilo significava para ela que seu pai deixava claro à rainha, o quão não a tinha respeito. A princesa decidiu que ainda naquela noite, descobriria as razões para tudo aquilo. Yang Mi adentrou e sorria ladina, observando com fervor aos olhos cor de mel do rei Arthus. Ele notara o brilho sombrio do olhar da rainha de Gongwon e sentiu o arrepio, que sentia toda vez que a ela, encontrara em sua vida. De cenho discretamente franzido, observava ao embate entre os olhares de seu pai e da rainha coreana, mas logo seu olhar foi magnetizado à presença do cavaleiro que ali reverenciava a ela e seu pai.

— Cavaleiros bem vindos novamente. – Arthus pronunciou aos já conhecidos rostos — E rainha Yang Mi, bem vinda ao meu reino. O reino de Amitísia.

— Rei Arthus... – a voz doce e o sorriso simpático, para logo lhe soaram como verdadeiramente eram: falsos — É uma honra poder estar em terras tão belas! Já faz algum tempo desde que não sentia o frescor da mirra Ocidental!

Silenciosamente, Arthus ergueu-se e deu a mão à vossa filha para que ficassem de pé, e não respondeu ao cumprimento da rainha, apenas apresentou sua princesa:

— Esta é , princesa de Amitísia e minha estimada e preciosa filha.

A princesa reverenciou séria, mas educada à presença da outra majestade. Yang Mi aproximou-se um pouco dela, e – como pedia a educação real – com a aproximação de outra majestade, também foi de encontro à rainha. Yang Mi observou minunciosamente ao rosto de , e sentiu-se invejada por um breve momento. Mas logo, seu sorriso emoldurou-se novamente em seu rosto e ela tocou com ternura às mãos da princesa dizendo:

— Muito bela. Tal qual vossa mãe... É como se eu pudesse ver a própria Amitis em minha frente.

— A rainha foi amiga de minha mãe? – perguntou direta .

— Não. Nem um pouco amiga.

O tom de voz tão direto quanto o dela, logo anunciara para a princesa o tão dito “ardil” de Yang Mi, que seu pai e os cavaleiros haviam dito tempos atrás. E cautelosa, Yang Mi, logo se pôs a amansar sua voz e num breve sorriso explicar:

— Não poderíamos ser amigas, nossos reinos eram inimigos até um pouco antes de vossa mãe falecer, princesa.

sorriu falsamente, e deu às ordens para que aquela situação fosse o quanto antes, dispersada.

— Aretusa! – chamou a princesa com altivez educada em sua voz, e a dama logo se apresentou próxima reverenciando a todos os presentes: — Como da outra vez, peça a Estér que se apresente aos cavaleiros de Yeongseo e os guie aos aposentos.

— Claro. Com vossa licença, majestades.

— A rainha deseja se encaminhar aos vossos aposentos? – perguntou esquecendo-se do principal: seu suposto noivo.

— Oras Arthus! – Yang Mi bradou em postura excêntrica e riu divertida antes de dizer:— Tens uma princesa tão dedicada e pronta à coroa, que tua atenção como anfitriã é impecável ao ponto de mal importar-se em conhecer aquele que a pretende desposar! Será uma rainha forte, .

— Não tenho dúvida majestade, agradeço aos elogios.

— Pois bem Yang Mi... Apresente-nos ao candidato. – Arthus falou descendo do trono em direção às duas mulheres, mas já atento ao rapaz que ali permanecia observando a tudo com seriedade.

. – Yang Mi apenas o chamou.

O jovem aproximou-se com postura principesca e nenhuma alteração nas expressões de seu rosto. O rei Arthus enxergou em exatamente as mesmas características de Yang Mi quando jovem, contudo, ele poderia assegurar que o brilho nos olhos baixos do rapaz era bem mais sereno do que os da mãe. Quase... Preguiçosos. A aura de para Arthus soava muito melhor e mais branda do que a de Yang Mi.

encarou diretamente ao príncipe, que sorriu de lado, discreto, assim que percebeu o quanto a princesa era petulante. Nunca havia sido encarado por igual daquela forma, e não poderia reclamar de nada que estava notando nela: nem o rosto, nem a personalidade e nem seus atributos físicos. Era perfeita para ele. Podia assentir. reverenciou primeiramente ao rei, que lhe direcionou o olhar de pai zeloso em proteger a filha, com certa desconfiança. E em seguida reverenciou e pegou à mão da princesa, beijando-a.

— É de grandiosa estima conhecê-los e sinto-me honrado por visitar tão vasto reino. – aquelas foram as únicas palavras pronunciadas por ele.

Pelo menos até que o jantar lhes tenha reunido à mesa com conversas curiosas sobre suas personalidades e curiosidades, e após o jantar, quando Arthus sugeriu que a princesa apresentasse ao seu pretendente o castelo. Aretusa é claro, acompanhando a certa distância, a majestade. E assim, Yang Mi e Arthus puderam reunir-se à sala real para terem a conversa que apenas os dois sabiam que teriam. Misaquias aguardava preocupado ao momento em que Arthus o solicitaria.

• Na Sala Real •


— Conseguiste reinar muito bem sem sua amada rainha, Arthus.

— Tal como vós, em seu pequeno reino.

— Ainda desdenhas de minha Yeongseo... – ela balbuciou sarcástica andando em círculos no ambiente.

Arthus permanecia parado ao lado da porta que dava acesso aos jardins laterais. Observava Yang Mi mover-se como uma serpente.

— Não desdenho de reino algum, tenho respeito por todos, e não minto ao pronunciar-me. Vosso pequeno reino não pode se comparar a vastidão do meu, por acaso não foi esta a vossa justificativa anos atrás, quando sorrateiramente empunhou-me uma espada imaginária?

— Arthus... – ela murmurou irônica e nostálgica — Nunca irás perdoar a minha inteligência estratégica? Por favor... Estou aqui a propor a nossa tão esperada aliança! Não somos mais inimigos... Não foram estas as palavras da vossa amada antes da morte?

— Ousas falar da minha rainha? Recolha-se em sua rejeição Yang Mi. Eu não estou totalmente de acordo com o quê pretendes. Tenho condições.

— Já as conheço todas. Não pretendo que meu filho preocupe-se com o trabalho pesado de um reinado, vossa filha terá autonomia para liderar Amitísia.

— Como posso ter confiança em vossas... Astuciosas palavras?

— Eu não sou uma rainha que falta com sua palavra, deverias saber Arthus! – Yang Mi zombou.

Arthus então sorriu astucioso também e gritou por Misaquias, que logo adentrou em reverência.

— Apresente à rainha Yang Mi as proposições do Conselho.

— Já as conheço. – ela desdenhou.

Misaquias olhou para o rei e o mesmo lhe fez um sinal com o olhar para que pudesse insistir.

— Perdoe-me majestade, mas estas são as novas proposições do Conselho.

— Novas? – o olhar de Yang Mi estava um tanto quanto surpreso.

A rainha puxou o pergaminho das mãos do conselheiro de Amitísia e leu-as. Mal pôde acreditar o quanto o Conselho dava agora vantagem ao reino de Arthus. Mas, não era como se ela não esperasse por tal retaliação. Anos atrás, em meio à Guerra, Yang Mi conseguira atingir ao reino babilônico, mas sabia que haveria possibilidade de em todos aqueles anos, Arthus reagir junto ao Conselho Geral Meso-Asiático.

— Pois bem... Então, a última palavra é a dela. Aposto que isso foi desejo de sua querida rainha...

— Eu a disse que faria a vontade de Amitis mesmo após sua morte.

— Tudo bem. Tenho certeza que irá gostar de e aceitá-lo. E quanto à governança total de vossa princesa... Podemos atribuir a ela tal poder em Gongwon, após a minha morte. – enfatizou e esbravejou em tom duro: — Eu ainda sou rainha da minha província, Arthus!

— Ao momento que o sucessor da Coroa se matrimonia, a ele são dados os poderes de todos seus reinos. deverá governar pela ordem natural, mas como pôde ler Yang Mi, o Conselho apoia que seja rainha onipotente de nossas terras, já que nossos domínios foram muito maiores ao longo dos anos. E claro... Por vosso histórico de... Inimizades aos meus aliados, não é mesmo?

Arthus não poderia sentir-se mais feliz ao notar que a presunção com a qual a rainha ali chegara estava caída por terra. Yang Mi nunca esperou que fosse ser traída por aqueles que a ela se aliaram contra Arthus na última guerra. É claro que ela armara tudo aquilo, mas imaginava que o Conselho honraria o primeiro acordo, e não fora o que aconteceu. Amitísia tinha muitos mais aliados do que Yeongseo.

— O que há Yang Mi? Acaso, queres retirar a proposição de vosso filho a desposar ?

— Não sorria como se houvesse vencido Arthus... Eu nunca desisto do que quero, e neste momento, o que mais quero é fazer de vossa preciosa filha... – ela retesou a fala.

Estava começando a descontrolar-se em sua raiva e inveja, e os olhares atentos de Arthus e seu conselheiro a tentar captar as verdadeiras intenções dela, logo a despertaram ao próprio tom.

— É fazer de vossa preciosa filha, a minha querida filha também.

A rainha pronunciou e pediu a licença para se recolher aos seus aposentos.


¹Volveram: retornar, direcionar. Direcionar o olhar a algo ou alguém.

X.
Beauty of Dawn


Colibris de uma distante terra que foram dados como presentes aos jardins do castelo revoavam entre as grandiosas árvores perfumadas de mirra, e de outras flores. Soavam uma melodia tranquila em seu canto e sentia como se aquela canção, nunca mais lhe soaria como antes. Não depois da chegada dos reis de Gongwon. Apesar da companhia de não lhe causar nenhum tipo de repulsa, mas até curiosidade por seus trejeitos misteriosamente polidos, era a presença da rainha Yang Mi que lhe trazia à tona aquele sentimento: o sentimento de alguém que vê se aproximar a tempestade, sem saber se o abrigo que tem é seguro o suficiente.

caminhava ao seu lado, silencioso e contemplativo aos jardins. Eram belos, sem dúvida. Ouvira a história dos jardins suspensos da Babilônia terem sido erguidos para o bel-prazer dos antepassados de , e a própria princesa acabara de lhe dizer que a procedência da maioria das plantas ali provinha de lá. E também, de presentes de outros reinos. , assim como , não era de falas desnecessárias e aquilo o cativou. Estava farto das princesas que houvera conhecido antes, todas falantes e pouco autênticas. Mas, com a princesa de Amitísia não. Em poucas horas desde que ali chegara, observou-a educadamente lidar com a rainha Yang Mi por igual, assim como com ele. Indagava-se se ela estaria agindo daquela forma por ser ele, pelo tal segredo que ele sabia existir e desconhecia a forma.

— Por que queres casar-se comigo? – perguntou-o direta enquanto eles caminhavam pelos jardins depois de longo silêncio.

sorriu ladino, quase imperceptivelmente, e encarou com baixos olhares à princesa ao seu lado perguntando-a:

— E por que não casar-me?

ponderou sobre a resposta. Ele não parecia conhecer a raiz de tudo aquilo.

— É próprio pelas atitudes de sua mãe que é desejo dela esta união, mas... Acaso tens o direito de manifestar-se? Ou é refém das decisões dela?

— Por que me atacas? Mal nos conhecemos, princesa. – ele perguntou agora parando de andar e se prostrando erguido e meticuloso à frente dela — Não é tu também fiel às obrigações do teu reino?

— Em meu reino... – olhou-o com expressão de deboche e um sorriso de vitória e proferiu: — A minha voz equipara-se à voz do rei quando assim convém. E no caso deste matrimônio, príncipe ... A minha voz tem grande peso. Mas, e a vossa?

— Confesso abdicar de gastar o meu vocábulo naquilo que está selado e decidido antes mesmo da vossa majestade nascer. – ele disse tão certeiro quanto ela.

Entretanto revelaram-se desconhecidos fatos: ele não sabia da importância da decisão dela naquela união, uma vez que a mãe o garantiu ser algo acordado há anos. E ela não sabia que estava prometida àquilo, como ele dissera: antes mesmo dela nascer. suspirou observando o olhar especulativo que lhe lançara e virou-se dando as costas a ela e seguindo pela caminhada que faziam.

se manteve por alguns minutos, parada a encarar as costas um pouco encurvadas do príncipe. Para um príncipe, aliás, ele se movimentava vez ou outra de um modo tão despojado quanto um plebeu. Naquele momento, estava. Aretusa seguia atrás dos dois com um pouco de distância e ao notar que a princesa ficara para trás, aproximou-se preocupada.

— Majestade?

— Aretusa. Retorne ao castelo, por favor. – pensativa ordenava sem tirar os olhos dos movimentos do príncipe: — Tente ouvir algo em torno de meu pai e da rainha.

— Mas senhora... – Aretusa iria contrapor quando o olhar firme de a fizera desistir — Como queira princesa.

observou por sobre o ombro a direção que a serva tomava, e quando desviou brevemente os olhos para um dos arbustos do lugar, pôde dar de cara com o cavaleiro os espiando. Ela lhe lançou um sorriso de sarcasmo, um sorriso incompleto, mas que ele entenderia tratar-se de uma zombaria. E tão cruel quanto o sorriso, foi o teu olhar, cheio de uma não esquecida raiva pela rejeição que ele a fizera.

observou a princesa parada a fitar o nada e logo atrás dela a serva que antes os acompanhava distanciando-se cada vez mais. Olhou ao redor tão discreto como ele o sabia ser, e percebeu seu cavaleiro ocultado entre folhagens de um arbusto, com a expressão séria. sempre era o mais sério, sem perder a doçura de sua face. o encarava e em silêncio enxergou que a princesa parecia intimidar o homem.

Então era do feitio dela tentar soar intimidadora ao sexo oposto? Sem muito que analisar da cena, ele retornou a caminhar para perto dela, e percebendo, sem muito disfarçar para o quê ou quem encarava, direcionou seus olhos ao príncipe .

— Aonde foi a tua serva? – ele perguntou indicando com seus olhos entediados o portão dos jardins.

— Preparar-me um banho. Podemos retornar, ou há algo mais que queiras conhecer no castelo, príncipe ?

— Nada que eu não vá ter toda a vida para conhecer. – respondeu ele indiferente e gentilmente estendendo o braço para a princesa.

Gentilmente, mas sem o parecer por sua face. tinha de confessar: era o príncipe mais excêntrico, curiosamente misterioso, e com uma beleza original a lhe surgir ali em interesse. Sentia que com ele, ela estava falando de igual para igual sem que parecesse ofendê-lo, ou sem que tivesse de disfarçar que as suas intenções eram de atrevimento. Ou como diria Arthus, seu pai... Impetuosidade. Ela aceitou o braço que ele lhe ofereceu e pondo sua mão ali, como o primeiro contato entre seus corpos, ela o guiou em companhia de volta ao castelo.

observava à cena fingindo que não havia se abalado pelos olhares dela ao lhe descobrir, ou mesmo pelo modo como os dois príncipes pareciam se entender. Havia cometido um grande desatino ao deitar-se com a princesa, mas não poderia negar: se pudesse o faria novamente. Algo nas memórias daquela manhã passada tempos atrás, e no modo como o olhar da princesa lhe caía sedutor em todos os momentos, impediram que pudesse esquecê-la. O cavaleiro mais correto e fiel ao novo reinado de Gongwon vivenciava o grande dilema, de não saber quanto tempo poderia ser leal ao futuro rei, na presença tão sinuosa da futura rainha.


• Anos atrás, última guerra dos reinos Meso-Asiáticos •



A chuva forte que recaía sobre as pedras de um reino que ainda revelava um pouco de destruição parecia querer lavar a alma dos Amitísios. Houveram baixas, perdas estimadas pelo rei entre seus soldados, cavaleiros, súditos leais. Mas nenhuma seria tão cruel e pesarosa quanto à morte de Amitis. Naquela noite, os cavalos estavam agitados, por quaisquer partes dos reinos próximos que lhes fossem postos a galopar. As chamas de várias flechas flamejantes dos ataques já não resistiam à chuva. O cheiro do sangue se misturava ao cheiro de terra molhada. Não se viam pessoas pelos campos mais devastados, e muito menos pelos vilarejos. As pessoas todas, camponeses, súditos, guerreiros, todos estavam envoltos pela atmosfera do luto. Mas no castelo de Arthus, um lampejo de vida se fazia presente para combater àquela vitória do reino tão marcada de mortes, principalmente inimigas. Amitis dava à luz.

Arthus estava cansado da batalha, mas ao chegar ao castelo e lhe avisarem que a rainha havia entrado em trabalho de parto, suas energias renovaram-se. Pôs-se aos aposentos reais, para aguardar à porta já que sabia que não poderia entrar. E ali no corredor encontrou sua filha , que ao vê-lo correu até seu pai o abraçando. Do lado de fora do castelo a guerra retornava. Ou melhor, o inimigo. Sendo carregada em sua carruagem que sacolejava irritantemente, Yang Mi e a frota de aliados que havia conseguido para seu reino naquela batalha, adentravam ao reino de Arthus. Sem poder ficar no corredor de seus aposentos, ao lado da filha a esperar o nascimento do novo herdeiro ou herdeira, Arthus pôs-se de volta ao salão do trono. Martin, conselheiro de seu pai, e que por sua idade avançada já preparava seu pupilo Misaquias àquele posto, lhe havia surgido informando a nova invasão inimiga.

Quando pensaram em impedir, já era tarde. Yang Mi surgia tempestiva e ensanguentada pela sala do trono de Arthus. As vestes completamente cheias de sangue deixaram o rei um tanto quanto assustado, principalmente pelo estado de gravidez da rainha inimiga à sua frente. Ela aproximou-se de Arthus e seus conselheiros, com a tropa de outros representantes reais atrás de si.

— Como repararás Arthus?! – gritou — Como irás reparar a morte de meu marido?

— Yang Mi, numa guerra... Todos sabem o que pode acontecer. Lamento que Eun tenha perdido a vida, por se tornar inimigo do meu reino.

— É isso o que tu fazes, Arthus! Dominas o Conselho, convence os pequenos reinos de que estarão sob tua proteção, mas devasta a todos na guerra!

Yang Mi bradou num tom dramático, como se ela não fosse a inimiga dele, e levando a todos os outros representantes reais presentes, a crerem nela.

— Não seja ardilosa Yang Mi! Acaso não se prostrou ao fronte de batalha inimigo contra nós? – Arthus aproximou-se da rainha suficientemente possível de olhar em seus olhos e em seguida direcionou-se aos outros: — Amirah, Nicolau, Bartolomeu... Acaso não são aliados de Amitísia? Por que sois ingênuos ao ponto de enredarem-se às mentiras de Yang Mi?! Acaso faltei-lhes com minhas promessas?

Arthus estava extremamente chateado, sentia-se traído. Os demais representantes argumentaram. Disseram sentir-se tão traídos quanto ele, quando o reino de Amitísia apesar de destruído pela guerra, ainda mantinha-se firme enquanto os pequenos reinos deles estavam devastados. Arthus garantiu-lhes a proteção e apoio de seu reino, mas os outros sentiam-se assustados. Entre os oito representantes reais ali, os que eram mais influentes a convencerem os outros, eram os reis Amirah, Nicolau e Bartolomeu. Eles poderiam ser porta-vozes dos outros cinco príncipes que ali estavam. Mas, Yang Mi conseguira plantar a discórdia.

Um grito estridente ouviu-se ressoar ao longe, e Arthus surpreso olhou para a direção onde seus aposentos davam. Amitis estava dando a luz a mais um herdeiro, e eis que ele não poderia estar ao lado dela. Yang Mi percebeu que se tratava do nascimento, e levou a mão à sua própria barriga que não faltaria muito a nascer também e direcionou dura a Arthus:

— Daqui cinco dias, retornaremos para um Conselho urgente! Ou declararemos guerra eterna entre nós, ou nos aliançamos. Uma coisa pode saber Arthus: eu, Yang Mi, rainha de toda a província de Yeongseo, não permitirei perder para vós, nunca mais!

— Desfaça teu ódio Yang Mi. A vós sempre fora mais proveitoso ser minha aliada, mas vestiste o manto da vingança, por não aceitar lidar com a minha rejeição.

— Não és tudo isto que pensas Arthus! – ela zombou e olhou para o seu ventre e dramática dissera alto para que todos ouvissem: — Vá para Amitis! Sua rainha está dando a luz, e eu... Tenho agora um funeral do meu rei para organizar. Deixaste meus filhos órfãos Arthus, e deverás cumprir com tal responsabilidade.


Ela vociferou e deu às costas para o rei saindo pelas grandes portas. Um sorrisinho de satisfação por teus planos seguirem como planejara, disfarçadamente pôs-se ao rosto dela enquanto a mulher se afastava de todos os demais presentes.

— Não caiam na lábia de Yang Mi. Ela é uma serpente capaz de sacrificar ao próprio filho para não perder o poder. – Arthus avisou aos presentes.

— Em cinco dias nos veremos novamente Arthus. Espero que o Conselho possa dar fim às vossas desavenças e obrigá-lo a cumprir tua palavra com nossas pequenas províncias.

Bartolomeu falou e estendeu a mão para Arthus. Apesar das diferenças políticas tinha de admitir: Arthus era um excelente rei, e nunca deixara de ajudá-los. Pode ser que aquela guerra tenha sido uma infeliz fatalidade no curso de seus passos. Ele não poderia mesmo salvar a si, e a todos. Aquela era a esperança de Arthus: o lampejo da sabedoria de Bartolomeu, que tal qual seu pai era um rei devotado aos seus súditos e aliados.

Quando Arthus retornou aos seus aposentos, a rainha havia dado a luz a um menino. Rapidamente a felicidade tomou sua face e aquela névoa deixada pela presença de Yang Mi dissipou-se. Sua filha estava ao lado de sua mãe, sorridente com o irmãozinho. As servas ainda limpando a tudo, mas Arthus notara que Amitis estava fraca. A parteira real aproximou-se dele com semblante preocupado.

— Meu caro rei... Temo pela saúde da rainha. Ela foi muito forte para dar a luz ao herdeiro, e está fraca. É melhor que chames aos físicos .

— Mandarei que providenciem isto. Ela... – ponderou o rei: — Ela sobreviverá?

A parteira olhou delicada e disfarçadamente para a rainha que parecia agora ter caído em sono e sem muitos rodeios dissera ao rei:

— Somente eles dirão. Estamos fazendo o possível para impedir que ela continue a sangrar.

O rei sentiu um nó em sua garganta. Imediatamente chamou as servas ordenando-as que enviassem homens atrás dos físicos¹. Recebeu os cumprimentos por seu herdeiro e deitou-se ao lado da esposa e dos filhos. sorria ingênua, deslumbrada com o bebê ao moisés disposto ao lado da cama.

— Como ele se chamará papai?

— Seth Arthus II.

— É um belo nome. – a menina falou e logo sorriu acompanhada pela dama de companhia de sua mãe.

Arthus temia não conseguir salvar à rainha.


¹ Os físicos era como chamavam aqueles homens que detinham maior conhecimento acerca do corpo humano na Idade Média. Não se havia posto ainda o conceito da medicina moderna, e aqueles que cumpriam ao papel de “médicos” na Idade Média, assim eram chamados. A história não se passa exatamente na temporalidade da Idade das Trevas, mas é algo próximo a isto que uso para compor a ideologia do cenário.

XI.
The Council Of Elrond


Yang Mi ainda caminhava em círculos em seus aposentos. Precisava pensar numa forma de fazer ser escolhido por , ou então desfazer aquele novo acordo do Conselho. Caminhou tensa até a sacada do quarto de hóspedes ao qual lhe fora dado e visualizou as planícies belas daquele reino. Aquele reino deveria ser seu! Fechou os olhos demonstrando, como nunca fazia, certo cansaço e sua mente a levou às memórias do passado.

• Anos atrás, no Conselho pós a última guerra •


— Rainha Yang Mi, este Conselho compreende que por ser uma mulher, agora viúva, e com a responsabilidade de encaminhar teus herdeiros ao trono, numa província devastada pela guerra, é de responsabilidade do maior reino oferecer-te a aliança.

— Objeto-me! – Arthus disse firme aos conselheiros do alto escalão, em objeção: — O rei Eun entregou-nos aos inimigos! Se não puderam defendê-los, à Amitísia não cabe responsabilidade disso! Eles nos traíram! Yeongseo nunca fora nosso aliado!

— Rei Arthus! Contenha-se! Yeongseo pertence aos domínios deste Conselho! Não daremos as costas às nossas terras, ainda que essas tenham se aliado ao continente inimigo! A rainha será punida por tal traição, mas acaso não é Amitísia o maior e mais poderoso reino de uma longa linhagem dinástica? É vossa responsabilidade zelar pelos grandes territórios que conquistou, mas também aos pequenos territórios independentes para que outros inimigos de outros continentes não invadam nossas terras!

O sumo sacerdote do Conselho, que representava à Mesopotâmia dissera de forma dura em repreensão a Arthus.

— Creio que... – a voz rouca e intrépida do ancião mais velho do Conselho, e que representava à Ásia Oriental, tal como a dinastia , ecoou a favor de Yang Mi: — A rainha tivera motivos... Pouco, políticos, para permitir que o rei Eun caísse em desgraça.

— O que dizes conselheiro? – Arthus encarou ao ancião tão velho que seus olhos mal podiam ser vistos abertos, o perguntando: — Que motivos seriam?

— Yang Mi sempre governou por trás de Eun. – os demais homens olhavam curiosos para a única mulher presente — E não nos é esquecido que havia um grande interesse dela em se tornar a rainha de Amitísia...

O velhote parou de falar e acariciou sua longa e fina barba quase de mago, e Arthus perguntou-o novamente:

— Não serias tão imprudente não é Yang Mi? Sei bem que cada passo teu é friamente calculado. Se tu colocaste à mente do falecido rei Eun nos trair, tens algo a tirar proveito disto.

— Peço que mantenha o respeito e o decoro, e não acuse-me falsamente rei Arthus! – ela falou sem demonstrar qualquer reação sentimental: — O que o ancião Hyang está a dizer é que eu posso não ter impedido o meu rei, por achar justo que vós pagásseis por não aceitar-me... Mas... – ela olhou ao ancião — Não me tomes como uma mulher desiludida, ó senhor. Se não permiti que Eun desistisse do apoio aos continentes inimigos é porque a palavra de um rei não se sobrepõe à de uma rainha.

Arthus sabia que ela mentia. E sabia que o ancião também acreditava naquilo. O velho Hyang riu baixinho e debochado e dissera:

— Ah Yang Mi... O cumprimento de minha barba. Sabes por quê? – ela não fez menção de responder e ele dissera: — Para que verdades que só um ancião pode saber escondam-se sob ela.

Naquele dia, o Conselho achou oportuno findar com as diferenças daqueles dois reinos unindo suas gerações futuras em matrimônio. Arthus não poderia ir contra a uma decisão do alto escalão. Os conselheiros não podiam permitir que Yang Mi, em sua astúcia e beleza colocasse mais reis uns contra os outros. Bem sabiam que a mulher poderia destruí-los se usasse de suas armas femininas e inteligência. Afinal, para derrubar um castelo de homens basta uma mulher. Infelizmente, apesar de todo o Conselho tentar evitar a presença de uma mulher ali por todos aqueles anos, a rainha Yang Mi conseguira destruir um a um de sua coroa para estar onde estava. Então, o que ela não poderia fazer com os demais? E Yang Mi, soubera mais uma vez que havia conquistado o que queria. Arthus saíra derrotado daquela reunião. Não desejava que sua filha fosse dada como moeda de troca ao Conselho. Mas, ao menos tinha agora um herdeiro primeiro à Coroa. Enquanto o seu filho Seth estivesse vivo, a coroa estaria segura de Yang Mi. Mas, Arthus não se preocupou que poderia haver a possibilidade de Seth não governar.

Yang Mi estava hospedada em seu castelo aquela noite, por estar grávida de seu segundo filho, não era prudente que a deixassem retornar imediatamente após a reunião por longa distância. Quando Arthus contou a Amitis o que ocorrera, a mulher lhe fizera prometer que a última palavra para a decisão de casar-se ou não, seria de . Ainda que o reino explodisse em guerra, Amitis não poderia permitir que sua filha fosse vendida e não se casasse por amor. Arthus concordou.

Amitis ainda estava fraca, sangrando pouco, mas constante ao longo daqueles cinco dias desde o nascimento e sabia que iria morrer, mas Arthus não perdia as esperanças. Mandava os mensageiros do reino, todos os dias assuntarem se os físicos aproximavam-se do reino. Estavam em terras longínquas quando a eles chegou o chamado, e por mais que soubesse que não teria tanto tempo, Amitis alimentava a esperança do marido.

Yang Mi bordava um lenço em seu quarto quando uma das servas adentrou.

— Com licença senhora rainha. – a serva dissera, e sem a olhar Yang Mi permitiu-lhe entrar — Apenas vim avisar-lhe que o jantar está posto. A senhora descerá? Precisa de algo?

— Descerei, mas não preciso de nada por enquanto... – e por fim parou o bordado para olhar à serva: — Como está Amitis?

— A rainha ainda convalesce.

— Oh... Que lástima que Amitis esteja tão fraca... Mas, ela se recuperará, não é? – perguntou em falso tom de compaixão.

— Com fé em Deus, que ela logo estará boa, senhora.

— Escute... – Yang Mi sorriu analisando o perfil da serva.

Yang Mi era boa em analisar as pessoas por suas posturas e maneiras.

— O herdeiro do rei, como está?

— O príncipe está bem, ao lado da mãe.

— Oh... Sei que Arthus não me permitirá vê-lo, mas ainda assim... Uma criança não deveria ser posta em diferenças políticas não acha? – perguntou doce e ingênua, e a serva apenas sorriu assentindo, então a rainha continuou: — Vê este lenço?

Yang Mi levantou-se e mostrou-o para a serva com um largo sorriso. A serviçal estranhava a postura, havia sido informada para ter cuidado, pois a rainha oriental era um tanto quanto rude, mas naquele momento ela não via aquilo. A mulher olhou o lenço às mãos da rainha, em seda, sendo bordado em fio de ouro.

— É um presente que faço para o jovem príncipe. Da seda mais pura da China, que recebi em agrado do imperador, e em fios de ouro. Simboliza, em meu reino, a sorte dar um lenço assim aos recém-nascidos. O terminarei após o jantar, podes tu entregá-lo ao príncipe?

— Oh... – como se entendesse as boas intenções da rainha, a serviçal sorriu e assentiu: — É claro que sim senhora, a rainha Amitis ficará agradecida.

Yang Mi assentiu ainda mais risonha e retornou à poltrona em que estava. Deixou os aparatos de bordar ali, e foi acompanhada pela serva até o salão do jantar. Após o jantar, ela pediu que a serva batesse em seu quarto antes de dormir, pois o lenço estaria pronto. O bordado terminou, e Yang Mi sorriu para o artesanato perfeito que havia feito. Não se esqueceu de salpicar a água de cheiro perfumada para o bebê.

A serviçal buscou o lenço, levou-o aos aposentos da rainha a entregando o presente da rainha. Amitis surpreendeu-se com aquilo, mas sabia que Yang Mi não era uma rainha que faltava com os bons modos e costumes de uma coroa. O lenço era lindo, havia um sutil perfume das águas de cheiro do Oriente, e após pegá-lo o deixou no berço de Seth. Na manhã seguinte, Yang Mi despediu-se de Arthus, estimando as melhoras da rainha e os cumprimentos pelo príncipe e após o desjejum saiu com sua comitiva de volta a Gongwon. E foi ao meio dia daquela manhã nublada, que Arthus recebeu a notícia de que os físicos estavam a caminho, mas demorariam ainda dois dias para chegar. E frustrado pela demora sentou-se ao trono pensativo, com as mãos às têmporas de sua face. Não imaginava que um grupo de servas se aproximariam eufóricas, lideradas por Ruth a real dama de companhia, e os conselheiros Misaquias e Martin a invadirem a sala do trono.

— Majestade! – gritou Ruth, e Martin tomou a voz, uma vez que a mulher estava abalada. Arthus ergueu-se no susto, atento ao que ouviria.

— Lamento Arthus... Amitis e Seth estão mortos.

Yang Mi abriu os olhos com um largo sorriso. Ter se recordado do que o Conselho havia feito anos atrás, e de como ela se livrara da rainha e do príncipe modificaram o seu humor. Arthus e mais ninguém imaginara como a rainha Amitis, e seu herdeiro morreram, e segundo tivera notícias em Gongwon, os físicos ao chegarem ao castelo de Arthus não puderam diagnosticar a causa. Os corpos estavam embalsamados e enterrados, e foram dadas como a causa da morte de ambos: a fraqueza da rainha e um parto difícil.

Yang Mi observou às planícies uma última vez, tendo a resposta que precisava: morte. Precisaria novamente se livrar de alguém por ela, e este alguém seria Arthus. Uma vez que o rei fosse morto, a princesa se desestabilizaria e aceitaria o casamento com urgência. A própria rainha Yang Mi fazia questão de garantir àquilo.

Enquanto Yang Mi planejava em seus aposentos, uma forma de prender a princesa em sua teia de vingança, Arthus e Misaquias se encontravam à sala do trono. Naquela tarde, enquanto sua filha e o príncipe viajante passeavam pelos jardins reais, o rei dissera que devia ao conselheiro uma confissão. Misaquias não conseguia imaginar sobre o que se trataria, mas sentiu pelo semblante de seu rei que não era algo fácil de ouvir.

— Misaquias... – o rei iniciou após ter certeza de que estavam trancados e sós — Estou com a doença dos ermitões.

— Como senhor!? – Misaquias perguntou-lhe assustado: — A lepra?

— Tomou-me rapidamente os órgãos genitais e agora está tomando todo o tórax. Não conseguirei esconder mais tempo de tal situação e por isso tenho estado empenhado para que ela se casasse logo. Se se casasse antes de minha morte, e sem que Yang Mi soubesse, eu não me preocuparia. Mas dar um golpe a uma decisão do Conselho é tão ignóbil¹ quanto ineficaz. Enfim... Eu não conseguiria... Agora... Eu preciso que decida por si, diretamente ao Conselho, já que o alto escalão em respeito ao meu prestígio como rei, reavaliou o acordo. Entendes Misaquias, a minha preocupação? Se torna-se rainha sem a minha presença por perto, Yang Mi poderá mostrar suas garras e tomá-la tudo.

— Majestade, tu sabe que é de suma importância à proteção da Coroa perante este matrimônio, e se acaso ele ocorrer com o príncipe , que saiba de toda a verdade, não é? Inclusive para a proteção dela.

O rei assumiu que o conselheiro estava certo. Antes de chamar a princesa ao diálogo, Arthus ordenou que novamente chamassem os físicos, para que assim que Yang Mi voltasse a Gongwon, ele pudesse buscar algum tratamento. Esperava que pudesse salvar-se a fim de manter-se ao lado de por todo o tempo em que ela precisasse. Misaquias saiu da sala do trono, a fim de compor os preparativos para aquela ordem, e a princesa foi chamada.

Quando escutou tudo aquilo sobre os anos passados, de quando ela ainda era uma criança, sobre as preocupações de sua mãe quanto ao matrimônio, quando descobriu a força de seu reino perante o Conselho, a princesa entendeu que precisaria se preparar para derrotar Yang Mi, sendo ela sua sogra ou sua inimiga.

A rainha Yang Mi, que já havia traçado um plano de derrota para o rei, caminhava pelo castelo à procura de . O príncipe encontrava-se fora do castelo, na coxia dos cavaleiros, a conversar com o seu melhor amigo sobre as suas suposições acerca da princesa. Mas Yang Mi não continuou a procurá-lo, quando passando pela sala do trono viu a serva da princesa espiando. Então era por aquela greta nos corredores que elas escondiam-se sob as cortinas do salão para tudo ouvirem? Yang Mi, como uma rata, como uma serviçal, colocou-se à espreita também, assim que viu Aretusa correndo para outro canto do castelo. Aparentemente havia sido flagrada.

A rainha oriental também se pôs ao mesmo local e ouviu tudo: descobriu que Arthus contara sua história com ela para a princesa, e agora teria de se colocar atenta aos comportamentos de . E principalmente, agora sabia que Arthus estava doente. Não conseguiu saber o quão doente, mas ao ver a princesa cair de joelhos ao chão, aos prantos, soubera que era grave. Talvez, Yang Mi não precisaria fazer nada. Mas sim, . Seu filho precisava conquistar o coração de , o quanto antes.


¹ Ignóbil: Que causa repugnância, especialmente se for estética. Referindo-se a uma pessoa, que tem pouco caráter ou comportamento baixo.

XII.
Refined Enlightenment


estava caminhando pela coxia dos cavalos junto a , seu melhor amigo e fiel escudeiro. Os dois observavam os belos cavalos do reino de Amitísia e no momento em que o servo do reino se afastou, carregando as palhoças de feno, os dois ficaram sós. observou o modo como cada serviçal do reino lhe prestava a veemência respeitosa por sua posição, sempre com sorriso em suas faces, e notou o quão fáceis eram aqueles súditos. , em seu silêncio trocou olhares ao amigo apontando a parte externa das coxias, mais ao fundo, e que demonstrava uma bela visão do reino. assentiu, ainda em silêncio e caminharam lado a lado. com seu andar sorrateiro e braços unidos atrás do corpo, e com a postura de cavaleiro e a mão à bainha de sua espada.

— É de fato um reino maravilhoso, não senhor? – perguntou sem o encarar.

— Certamente. A rainha é bastante ambiciosa e não desejaria um reino pequeno em troca de minha mão. – disse o príncipe sem dar o braço a torcer em elogiar a terra em que estava.

observou o semblante de . Apesar de amigos, a hierarquia entre eles ainda era necessária, portanto, por mais que o conhecesse, não poderia indagá-lo diretamente. O cavaleiro sabia que estava preocupado com algo.

— Há algo que me diz príncipe, através de seu olhar distante, que não são as pradarias do reino ou as longínquas montanhas a prendê-lo em pensamentos...

— Conhece-me bem. – suspirou finalmente olhando de “rabo de olho” — Há uma atmosfera de conspiração neste enlace.

ao ouvi-lo, pensou e recordou-se de quando viera pela primeira vez ao reino. Recordou-se da postura do rei Arthus à notícia de Yang Mi interessada pela mão de para seu filho.

— Algo contra vós?

— Não. Algo entre os reis... A rainha não me esclareceu a razão pelo interesse deste matrimônio, apenas foi contundente de que é importante, de que há um acordo antigo. Como não sou de ir contra aos seus desejos, afinal ela é a minha mãe e a mim sempre preparou o melhor... – interrompeu seu raciocínio indo direto ao ponto: — Entretanto, a princesa parece-me inquieta e arredia demais.

— Compreendo. De fato, quando viemos para pedir sua mão, o rei Arthus demonstrou preocupação. Pude observar que há de fato um passado entre os reinos.

encarou mais diretamente, e percebendo que não falaram muito sobre a vinda dele para o reino, pôs-se a perguntar:

— O que mais descobriste quando vieste aqui, ?

— Não ficamos por muito tempo, questão de um pernoite apenas. Mas, a princesa nos apresentou a história de seus antepassados... É realmente uma dinastia forte e nada do que nos foi dito ou mostrado revelava uma relação entre o rei e a rainha. A não ser uma certeza: não são aliados.

— Entendo... – voltou o olhar para as montanhas e recordou-se do momento anterior ao jardim: — E sobre a princesa?

O silêncio a seguir, quase foi acusador se não fosse astuto, e compreendesse como o príncipe sabia ser esperto e sorrateiro.

— Exatamente o que queres saber a respeito de sua dama, príncipe?

— Conversaste com ela?

— De algum modo sim, fora ela a anfitriã que nos recebeu e alocou ao castelo.

estava dando rodeios, pois já era notório que o príncipe o sondava. era um homem direto. Característica do seu sangue. Caso tivesse alguma pergunta, faria diretamente e antecipando-se aos possíveis passos do príncipe, deu-se a fugir de alguma armadilha:

— Mas, queres me perguntar algo, príncipe? Eu não tive com a princesa um contato tão próximo a ponto de descobrir quaisquer curiosidades sobre os interesses políticos da mesma.

— Sei que não. – volveu novamente o olhar à direção de : — Mas percebi que ela lhe encarava de uma forma um tanto quanto impertinente, algo que não fizera aos outros cavaleiros.

engoliu a saliva espessa que se formou em sua garganta.

— A qual momento tu notaste algo assim, príncipe?

— Quando tu se colocou sorrateiro a nos espiar nos jardins.

viu a face meticulosa de analisando sua reação, então suspirou fundo sorrindo e disse:

— Eu devo espreitar pela segurança do meu príncipe, certamente a princesa não deve ter gostado de sentir-se vigiada dentro de seu próprio reino. Principalmente... Em momento íntimo.

meneou a cabeça num aceno afirmativo, sem sorriso ou qualquer leveza em sua expressividade, e constatou:

— Deve ser. O fato é que noto quão amável a princesa é com seus servos. E não foi diferente aos outros cavaleiros, contudo... Há algo no olhar dela contra vós . Espero que tenhas pela princesa o mesmo respeito que tens a mim, caso este matrimônio ocorra.

— Ainda que não ocorra, príncipe.

concordou e logo ambos sentiram passos em vossa direção. Um servo veio a mando da rainha Yang Mi pedir que o príncipe a ela se apresentasse. dissera que iria atrás de seus cavaleiros, e observou o príncipe afastar-se com o servo. Sentiu o peso da mentira e da deslealdade sobre os próprios ombros, praguejando-se e nutrindo asco pela princesa que o levara a ser seduzido e trair a amada coroa de Gangwon.

Noutro ponto do castelo, Park , um dos cavaleiros reais que viera nesta comitiva, explorava ao novo reino. Cavalgava pela estrada dos campos de cultivo, e avistou um moinho ao longe. Recordou-se de sua infância, onde seu pai camponês o ensinara o cultivo do arroz. Era desejo de seu pai que o filho tornasse-se o maior camponês de arroz no reino de Gangwon, que ele fosse o principal fornecedor do império, mas tivera sonhos maiores. Queria servir ao seu reino de outra forma: entrando para o alistamento dos cavaleiros reais.

A escola de samurais do reino não era de acesso a qualquer um, era necessária a linhagem familiar de uma longa dinastia de samurais reais. Mas, nunca deixou de crer que conseguiria, pelo contrário, ainda jovem fugiu e procurou o líder dos cavaleiros reais. Mas, fora rejeitado. Durante anos treinou escondido para ser um samurai, e quando achou que estava pronto novamente foi de encontro ao líder da cavalaria, o general Go. O general percebeu que o rapaz havia crescido, estava um pouco mais forte do que antes, mas ainda não passava de um mero camponês. Contudo, a persistência dele fora notada e por isso o general concedeu a a chance de convencê-lo: duelaria com o seu discípulo líder, , e acaso vencesse poderia adentrar à academia. Logicamente, perdeu. era o melhor entre os cavaleiros samurais além de sua linhagem, portanto, o cargo de futuro general por direito seria dele. Mas, Go sentiu o que poderia se chamar de “o desejo da honra” no olhar de Park . Enquanto retornava cabisbaixo e arrasado aos seus campos de arroz, o general Go o observava.

entrou na cavalaria após ser notado. O general pediu ao rei Eun uma permissão para dar a exceção e a chance daquele jovem provar seu valor junto aos cavaleiros. Como era de extrema confiança a seu general, o rei Eun sabia que Go jamais apostaria num erro, e concedeu-lhe permissão. Houve burburinhos, logicamente. Entre os cavaleiros, servos e até mesmo na coroa, e por isso, foi delegado à cavalaria de liderança de . O futuro general era respeitado por todos, e trazia em sua alma todas as grandes qualidades de um líder, e por isso, saberia conduzir o cavaleiro “plebeu” à honra necessária do serviço.

Suas memórias trouxeram no seu rosto um sorriso, e sentiu saudade do pai, que logo após perder o filho para a cavalaria, não conseguiu trabalhar por muito mais tempo. cuidou de seu pai até o último respiro da velhice, onde a morte fez-se presente. Não tinha mais família, não tinha ninguém, exceto, seus amigos leais: , e . Os quatro eram uma verdadeira irmandade, e por eles, daria a vida.

Cavalgou tranquilo no meio dos campos até o moinho, sentindo o trigo passar por suas pernas, trazendo a nostalgia das sensações em sua pele. Quando chegou ao moinho, grandioso e barulhento, aproximou-se apeando do cavalo e o explorando. Mas, dentro do moinho, onde se guardavam as sacas de trigo, uma mulher cantarolava uma canção. Sua voz era forte e sensual, quase como uma voz propositalmente criada para seduzir. E sua aparência não era ruim, tinha longos cabelos cacheados e loiros, volumosos, e sua pele bronzeada e castigada pelo sol. escondeu-se atrás de uma pilha de sacas, enquanto espreitava a mulher em seu trabalho de espalhar o trigo recém-lavrado pelo moinho à secagem. Poderia ficar ali um longo tempo a observá-la, mas o soar do sino ao meio dia, fizera-a encarar o lado de fora do moinho.

— Estér! – gritou-lhe um servo — Vamos!

A mulher retirou o avental, e bateu as mãos ao vestido limpando-as, e saiu após dar uma última checada no ambiente de trabalho. saiu antes que a própria lhe trancasse ali dentro, e sorrateiro alcançou ao seu cavalo. Estava escondido na parte de trás do grande moinho quando a viu sair fechando a porta e indo até uma carroça velha, onde um homem ajudou-a a subir, entregou-lhe um grande chapéu de campo e os dois saíram rumo ao castelo. sentiu que necessitava saber mais sobre aquela mulher, e atordoado retornou também ao castelo.

por outro lado, não se comedia a se aproximar de Dalila a cozinheira. Estava sentado à mesa da cozinha enquanto as servas cozinhavam em absoluto silêncio. Dalila novamente sentia-se extremamente envergonhada pela presença do homem. conversava animado com Lucas, o filho da serva, enchendo ao garoto com histórias das aventuras cavalheirescas de seu reino e amigos. Foi interrompido pela chegada abrupta de Estér, que gargalhava melodiosamente a adentrar pela cozinha. A loira sentiu-se surpresa ao dar de cara com o cavaleiro ali, e trocou olhares duvidosos com as servas após um discreto cumprimento ao homem.

— O que tanto a faz rir? – Dalila perguntou em baixo tom de voz, quando a outra se aproximou dela, de forma ansiosa.

— Simão... Ele estava novamente tentando convencer-me de dá-lo uma chance, mas... – Estér correu os olhos de soslaio para Lucas e o cavaleiro, ambos não paravam de conversar — O que ele faz aqui, Dalila?

— Eu não sei bem, mas... Sir gosta demasiadamente de passar um tempo na cozinha...

Estér olhou-a desconfiada e espreitou a figura do homem com o menino, e então notara o óbvio. Não tivera tempo para falar nada, Dalila a pediu que fosse imediatamente preparar a mesa dos nobres. A loira saiu e , surgiu pela porta dos fundos da cozinha ao ouvir a voz de . Fez um gesto para o amigo, sem adentrar ali, apenas fazendo-se notar pela porta e silenciosamente o chamando para fora dali.

— Bem Lucas, eu termino de lhe contar minhas aventuras noutro momento, pois agora preciso ir. – sorriu para o garoto lhe bagunçando os cabelos e seguiu até a porta sem deixar de sorrir também, porém sedutor, à cozinheira que sentiu o rosto enrubescer.

lavava o rosto numa fonte que havia ali ao lado de fora, enchendo as cumbucas de água e jogando ao rosto quando se aproximou.

— O que há ?

— Estou apaixonado. É possível? – disse o amigo sorrindo de forma travessa.

— Ora... – sorriu apoiando-se na fonte e constatou: — Bem, é possível... raptou uma dama, eu... Bem, o reino é mesmo encantador. Mas, acaso a vi?

— A serva que entrou há pouco.

Ahn... A loirinha... Já ouvi minha... Digo, a dama cozinheira chamar-lhe Estér.

— Estér? – pronunciou satisfeito e arqueou a sobrancelha de forma desafiadora pondo-se a zombar : — Uma noona¹ cozinheira, então?

— E com um filho encantador...

Uwa! – alarmou-se: — , por Deus!

— Vamos logo adentrar, algo me diz que estará a nossa busca.

Os dois caminharam de encontro ao castelo, bem a tempo de ouvirem os chamando.

Já dentro do castelo, nos aposentos de Yang Mi há algum tempo, a rainha conversava com seu filho que a escutava atenciosamente.

— Você precisa conquistar a princesa!

— A senhora permite-me indagar por qual razão vejo tanto afinco em teu olhar, para que conquistemos este reino?

— Sabes que sou ambiciosa, não sabes? – Yang Mi devolveu a pergunta não muito certa se queria dar espaço ao filho de lhe encher de questões.

— Sei. Mas preciso compreender se estás atrás de uma suposta vingança, ou se ages pelo meu melhor.

— Se por vingança ou não, o teu melhor sempre estará como prioridade, meu filho.

— Mãe. Exijo ao menos estar a par dos motivos pelos quais se faz tão indispensável que eu conquiste a princesa.

— Acaso não gostaste dela? – Yang Mi perguntou tentando fugir do assunto o encarando, com seus braços cruzados à janela do quarto, estando a rainha imponente a uma cadeira do quarto.

— Não gostei. Achei a melhor dentre todas vistas. – o filho disse sem muitas emoções, mas Yang Mi soube que para admitir aquilo era por que de fato, ele ambicionou a princesa: — Apenas percebo que ela é uma mulher um tanto quanto...

— Impetuosa. – a rainha dissera o interrompendo — Mas extremamente dependente das orientações de Arthus.

— Mãe. Sei que há o firmamento deste matrimônio desde muitos anos, mas também sei que não é somente isto que a trouxera aqui. Logo, quero saber quão longe vai a tua vingança para me pedir que conquiste a princesa a fim de fazer tal situação ocorrer.

— Certo ... Ouça-me bem! – Yang Mi levantou-se e aproximou-se do filho segurando a barra de seu vestido para caminhar apressada.

A rainha parou à fronte do filho encarando os olhos dele, tão predadores quanto os seus e foi enfática:

— Ela não vai se dobrar a ti, afinal, somos inimigos. Mas, temos de dar um jeito de fazê-la escolher-te, pois a escolha dela é o que determinará o acordo ou não. Arthus conseguira que o Conselho alterasse o documento... Se tu queres saber a razão por trás de tudo, saiba que é sim uma vingança antiga. A maior que eu poderia dar a este reino: tomá-lo com o próprio consentimento do rei. Você será o rei de Artemísia, e ao lado de governará todas estas terras! Influenciará o reino mesopotâmico do oriente, e fará o nosso reino crescer!

A força nas palavras de Yang Mi explicavam a as dúvidas que ele já trazia internamente sobre tudo aquilo.

— E o que lhe garante que o rei permitirá que, mesmo escolhido por ela, eu tome posse das decisões? Ele ainda sendo o ancião terá o poder de refutar decisões minhas ou dela.

— Arthus está morrendo. – Yang Mi dissera com um sorriso largo em sua face e demonstrou como pouco fazia perto da mãe, suas emoções, tal como demonstrou a surpresa pelas palavras: — Ele não durará muito e uma vez que morto, os conselheiros do reino serão aqueles que o rei nomear. Não pense que será fácil . como vós, foi criada a cumprir um papel de rainha onipotente. Ela não será submissa a vós, ao menos, não completamente. Ela tentará manipulá-lo e...

— Assim como a senhora. – ele falou dando as costas à mãe que suspirou pesadamente e antes que pudesse ouvir sua repreenda, interrompeu novamente a mãe: — Assim como a senhora manipulou ao meu pai, e desejas manipular-me.

— Ouça bem, . – ela aproximou-se com voz calma e tocou ao rosto do filho com uma ternura que pouco lhe surgia: — Você é meu primogênito. Eu não quero torná-lo meu escravo ou servo, apenas quero que tenhas sucesso como o maior rei de nossa dinastia. E até desta! Por hierarquia da coroa, este papel é teu! Sabes que estaria disposto a isso, não sabe?

O mais velho acenou de forma tranquila e a rainha beijou-lhe a face e sorriu continuando:

— Falta a vós a gana sedenta de teu irmão, mas sobra a vós a sabedoria de saber que eu, sua mãe e rainha suprema de Yeongseo sou a melhor pessoa para mostrá-lo como vencer sem muito esforço. És meu maior orgulho até então, , e de ti não espero decepções. Eu o tornarei grandioso.

E com o abraço de sua sempre fria mãe, espiou por sobre o ombro dela as planícies longínquas de Artemísia por aquela sacada.

— Eu me tornarei o rei conforme seus desejos, minha mãe.

— Ótimo! Assim que se fala!

Yang Mi disse ao afastar-se dele e caminhou em círculos no quarto, com uma mão sobre o queixo. Pensativa virou-se para o filho lhe apontando o indicador num último conselho:

— Arthus é carta fácil agora. A morte por doença é iminente a ele, mas... Com certeza não lhe aceitará sabendo que o pai está doente, e provavelmente seguirá seus desejos... Precisas conquistá-la à força, ! Descubra algo que coloque em tua mão. Faça o que for preciso.

pensou rapidamente e a mãe trocou o olhar de sua direção para a cama atrás de si. a compreendeu. Ela dizia-lhe para seduzir a princesa nem que preciso fosse usar de força, mas para ele, aquilo era um tanto quanto absurdo. não chegaria tão longe para cumprir seu papel, buscaria outra forma de encurralar a princesa, e era necessário observá-la primeiro para saber como executar seus planos da melhor forma.


¹ Noona: pronome coreano para indicar uma mulher próxima (amiga ou irmã) mais velha que um homem.



Continua...



Nota da autora: Só mesmo este especial para me fazer continuar a trama de “04.House of Cards” após tanto tempo devendo isso às leitoras. Estou muito feliz de retomar essa história com mais calma, contando um pouco mais de como estas duas dinastias se encontram, e principalmente colocando nossos outros coreaninhos que não estavam antes presentes! Ihuuu! Espero que gostem, e não deixe de comentar para eu saber o que vocês estão achando da história ❤️





Outras Fanfics:
todos links se encontram na página de autora acima.

Deste Especial: • Ensaio Sobre Ela • Castelo de Cartas • Teoria da Branca de Neve • Nevasca • 2nd Thots • Wine • Be •
Deste Especial (Saga Jay Park) – exatamente nesta ordem: • Replay • I don’t disappoint • Feature • Limousine • Alone Tonight • I Hope You Stay With Me
Deste Especial (Saga Aventura na Ásia) – exatamente nesta ordem: • Run It • Oasis • Solo

Qualquer erro no layout dessa fanfic, notifique-me somente por e-mail.


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