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Enviada em: 17/06/2019

Capítulo Único

- Ainda não cansou desse lugar?
olhou a sua volta e inspirou fundo. A grama em que estava sentada tinha um tom de verde escuro e emanava um cheiro fresco que a fazia querer ficar ali pra sempre. O outono anunciava sua chegada deixando as árvores em tons terrosos que mais pareciam uma pintura do que qualquer outra coisa.
Mas é claro que não tinha se cansado.
- Realmente espero que esse seja seu jeito de jogar conversa fora - a garota sorriu ao acariciar os cabelos em seu colo - Eu nunca vou me cansar desse lugar.
- Você sempre enjoou das coisas tão rápido... - ele rebateu e mesmo que o olhar da menina estivesse perdido no céu, observando a tímida chegada azul escura da noite, ela podia ver a expressão provocativa de que já conhecia de cor.
- Sempre foi diferente quando o assunto era você. Até parece que não sabe disso - revirou os olhos, lembrando quantas vezes o namorado havia a chamado de “mimada”. De um jeito carinhoso para o teor da palavra, é claro. E ele meio que tinha razão; queria tudo do jeito dela e sempre em seu tempo. E então, quando conseguia, apenas não queria mais.
- Lembra como isso tudo começou? – ele indagou e mirou os sorridentes olhos em seu colo; os mais lindos que já havia visto.
- Ou isso é uma pergunta retórica ou a minha mão vai fazer um belo estrago em seu lindo rostinho, .
A garota sorriu ao ouvir o riso do namorado. Aquele sempre fora o som preferido dela - e desde o primeiro dia, a sensação aconchegante no peito de ouvi-lo ainda vinha a visitar.
Mas é claro que ela se lembrava.

Londres, Inverno de 1997

O primeiro dia de aula podia ser assustador para a maioria das crianças que se encolhiam ao andar pelos corredores da Ridgeway School, mas pra era diferente.
Ela adorava novidades.
Ser a garota nova, em uma escola nova e em uma cidade nova era tudo o que a menina precisava para estar andando quase saltitante pelo piso de cerâmica branco e perfeitamente polido daquele lugar.
É claro que estava se sentindo linda com seu suéter cinza e sua saia vermelha pregueada, ambos bordados com o brasão da escola. Os cabelos longos estavam presos em um rabo-de-cavalo por um laço de veludo vermelho. Escolha dela.
Para uma menina de oito anos, exalava confiança.
- Porque está vestida como um presente de natal? - seus passos foram detidos ao sentir um puxão em seu cabelo.
Quem ousava encostar em seu prendedor? Havia sido presente de seu irmão e tinha um carinho absurdo pelo objeto. Com os punhos cerrados, a menina se virou e não pensou duas vezes antes de acertar um belo chute na canela do menino que estava parado atrás dela.
- Nunca. Mais. Faça. Isso - a garota vociferou, a voz infantil ensaiando um tom autoritário. Embora estivesse irritada, estaria mentindo se dissesse que não havia achado o menino de cabelos e olhos em sua frente uma gracinha.
- Seu chute é mais forte do que o do Dewey - com a mão na perna onde havia sido acertado e um sorriso sapeca no rosto, o garoto balançou a cabeça na direção do menino ruivo ao seu lado - Eu gostei.


- Eu queria ter filmado sua cara, - a garota dizia em meio aos risos, ainda absorta naquela lembrança que lhe trazia um gosto adocicado.
- Nenhuma garota tinha me chutado antes, tá legal? - o garoto também tentava controlar o riso.
- Você sabe que ainda consigo te dar uma surra, né?
- Se pensar isso te faz bem... – diante de sua provocação, ela apenas rolou os olhos.
O Battersea Park costumava estar mais cheio, mas o frio parecia ter espantado os turistas e apenas algumas pessoas andavam pela extensão esverdeada à sua frente. sentiu o peito aquecer ao lembrar-se de como andava por ali pulando de folha em folha quando eram mais novos – sempre dizia que gostava do barulho delas, secas, amassando sob seus pés.
A brisa gélida atingiu seu corpo em cheio e a sentiu a ponta do nariz quase congelar. Mas ela não queria sair dali. Aquele ainda era o seu lugar preferido – o lugar dos dois.
- – ela chamou o namorado, a voz em um fio – Quem diria que estaríamos aqui hoje, uh?
- Eu diria – o garoto protestou prontamente e ela não pode evitar uma risada.
- Se pensar isso te faz bem... – ironizou ao imitar o namorado e seu ar de sabe-tudo.
- Estou falando sério. Sempre soube que iríamos terminar juntos.
- Desde quando? – se interessou em saber, observando atentamente os olhos logo abaixo dos seus, que piscavam com tranquilidade.
- Desde o fatídico sorvete de morango.

Londres, Primavera de 1999

Se algo precisava sair certo, tinha que fazer ela mesma. Por isso odiava trabalhos em grupo. E por isso ela tinha dispensado a ajuda de suas duas amigas e estava fazendo todo o trabalho de História sozinha.
A mesa da biblioteca estava cheia de recortes, cola e tinta por todos os lados, mas a garota estava orgulhosa de como seu cartaz sobre a Revolução Francesa estava ficando.
estava a caminho de retornar os livros que pesavam em sua mochila, mas seus passos foram detidos ao ver o caos que causava com seus recortes e tintas coloridas.
- O que está fazendo?
- O que parece que estou fazendo, ? – seu tom irritadiço fez o menino morder as bochechas para não rir – O trabalho de História.
- Seu grupo não devia te ajudar?
- Prefiro fazer sozinha – ela deu um sorriso amarelo e voltou a atenção para o pedaço de papel que colava com cuidado na cartolina.
- Quer ajuda? Já terminei o meu – sem esperar a resposta, alcançou a cola e foi sentando na cadeira ao lado da menina.
- Eu disse que prefiro fazer sozinha, obrigada.
- Você não devia – o menino insistiu e se virou em sua direção pronta para rebater – É bom receber ajuda às vezes. Isso não te torna incapaz de algo nem qualquer coisa do tipo. E eu quero te ajudar.
abriu um enorme sorriso que logo se refletiu no rosto da . Quando ele tinha ficado tão esperto?
- É melhor não estragar minha obra de arte – ela estendeu a tesoura e alguns papéis para o menino.
- , você está... – ao pegar os materiais da mão da garota, percebeu que tinha uma bela mancha de tinta azul na bochecha esquerda da menina, bem no alto das maçãs. Mas o quão engraçado seria se ele não a avisasse e deixasse ela sair por ai assim? – Nada. Deixa pra lá.
Algumas horas e muitas implicâncias entre os dois depois, e tinham terminado o trabalho e ambos estavam orgulhosos do resultado. Ele ajudou a menina a limpar a bagunça e os dois seguiram juntos para casa – a caminhada duraria apenas meia hora e morava apenas quatro casas depois de . No meio do caminho, decidiram parar para um sorvete; ele escolheu um picolé de menta com chocolate e ela uma casquinha de morango com calda do mesmo sabor.
- , porque as pessoas estão me olhando estranho? – em meio a uma lambida e outra, a menina indagou para o amigo após a milésima pessoa passar por ela com um sorriso engraçado na cara.
a encarou, segurando-se para não cair na gargalhada ao ver a mancha de tinta no rosto da menina.
- Não sei – ele deu mais uma lambida em seu picolé – Não tem nada de errado com você.
estreitou os olhos. Tinha, sim, algo errado. Ela nunca se enganava.
Abriu a mochila e procurou por seu estojo cor-de-rosa que tinha um pequeno espelho acoplado ao zíper. observava a cena, os ombros balançando enquanto o garoto segurava o riso. A menina focou seu cabelo no minúsculo reflexo e ajeitou alguns fios atrás da orelha. Nada de anormal. Quando a macha azul que cobria boa parte de sua bochecha refletiu no espelho, a garota soltou um grito agudo e, sem pensar duas vezes, acertou um tapa em cheio no ombro de , que no momento, explodia em gargalhadas.
- ! Como você me deixou sair assim? – ela passava a mão em seu rosto compulsivamente, tentando se livrar da tinta.
- Ah, você está linda assim. Quase parece um Smurf - a diversão no rosto do menino era proporcional à raiva nos olhos da menina.
- Eu vou te matar – ela cerrou os dentes, agora tentando inutilmente eliminar a mancha com o guardanapo que acompanhava o sorvete. - .. – tentava falar em meio ao seu ataque de riso que só irritava mais a menina – Está tudo bem. Olha só.
Ele estendeu a mão até a mochila de e tirou o potinho de tinta de lá. Mergulhou o dedo no líquido azul e, com um sorriso divertido, sujou seu próprio rosto.
- Agora sou um Smurf como você – ele sorriu ao mostrar a obra em sua bochecha, ficando satisfeito ao ver a expressão da menina suavizar.
Sem entender o que acontecia com seu corpo, a garota sentiu um breve frio na barriga e a vontade de sorrir para o garoto em sua frente fora incontrolável.
- Ainda não está tudo bem – ela mordeu o lábio e inclinou a cabeça ao olhar para , como se estivesse pensando em algo. Um sorriso se formava em seu rosto e o garoto conhecia muito bem essa expressão; ela sempre aparecia quando estava tramando algo. Antes de pensar no que ela podia fazer, a menina depositou seu sorvete bem no topo da cabeça do menino, com direito à calda, casquinha quebrando e tudo. A sorriu satisfeita ao ver o líquido rosa cair pelos fios de e, se inclinando na direção do amigo, sibilou: – Agora está tudo bem.
Sem dizer mais nada, pegou o picolé da mão do garoto, deu meia volta e saiu saltitante, seguindo o caminho para casa e deixando um bravo, atônito e estranhamente sorridente para trás.


- Foi meu melhor momento – ela sorriu orgulhosa com aquela lembrança e ele podia jurar que aquele era o mesmo sorriso triunfante que tinha visto no rosto da menina ao derrubar o sorvete em sua cabeça.
- Fale por você. Nunca mais consegui comer morango. Sabe por quanto tempo o cheiro daquilo ficou em mim? Pelo menos cinco banhos! – ela gargalhou com o martírio irritado do namorado.
- Você ficou uma gracinha de rosa, amor.
- Eu fico uma gracinha de todo jeito.
apenas rolou os olhos, pois não podia discordar. ficaria uma gracinha até mergulhado na lama.
- Sinto falta de ser criança, sabia? – a garota baixou o olhar ao confessar, brincando distraidamente com os dedos entrelaçados em sua mão.
- Como isso é possível se você ainda é uma?
Ela rolou os olhos pela segunda vez em menos de um minuto.
- Você se lembra de quando a gente era vizinho e você entrava no meu quarto pela sacada?
- Todas as noites – ele completou. É claro que se lembrava.
- Sempre tive medo de dormir com aquelas portas abertas, mas eu sempre as deixava destrancadas pra você. E então, quando você chegava era...
- A melhor parte do seu dia?
Ela sorriu.
- A melhor parte do meu dia.

Londres, Verão de 2004

As portas de madeira branca da sacada por onde tinha entrado ainda estavam abertas. Os dois aproveitavam a brisa invadia o quarto timidamente e o vislumbre que a fresta deixava do céu estrelado. sempre gostou de observar as estrelas, e sempre gostou de qualquer coisa que deixasse a menina feliz.
Estavam deitados na cama de casal do quarto da menina. Era só mais uma noite de quinta-feira em que ele andava os poucos metros entre as suas casas, escalava o jardim vertical de madeira maciça da mãe de e entrava no quarto da amiga pela sacada. Ele alegava ser mais fácil assim do que andar com a cópia da chave que a menina lhe dera no bolso – e chegar a tal conclusão era tão a cara de que a garota nem conseguia argumentar.
- Argh, você podia pelo menos tirar esses sapatos imundos para deitar na minha cama – reclamou dando um leve empurrão no garoto.
- E você podia parar de ser tão mandona – ele bufou, se ajeitando de frente para a amiga – Vamos lá, não mude de assunto.
- , eu já disse que não tem nada que você não saiba sobre mim.
e assistiam um filme – Gone With The Wind, para alegria dela e desprezo dele - quando o garoto pediu para a menina lhe contar algo que ele ainda não sabia sobre ela.
E então passaram os últimos vinte minutos discutindo - ela dizendo que ele já sabia tudo sobre a mesma, e ele insistindo que se ela pensasse mais um pouco, ia encontrar algo para contar.
- Se você parar de prestar atenção no filme e me dar um pouco de crédito, tenho certeza que vai encontrar algo – ele protestou e ela rolou os olhos, desviando a atenção da tela pra – Vamos lá, você já sabe até as falas!
Era verdade. Ela já tinha assistido ao filme vezes o suficiente para saber todas as falas de trás pra frente.
E também era verdade que já sabia tudo sobre .
Ele sabia que ela adorava o inverno, especialmente os dias em que o sol resolvia aparecer e fazer companhia à brisa gélida. Sabia que ela gostava de filmes antigos – especialmente os de terror - e que, estranhamente, tinha medo de esquilos. Sabia que sua bebida preferida era chocolate quente, embora adorasse o cheiro de café sendo feito. Sabia que sua cor preferida era rosa, que ela sempre lia a última página do livro antes de começá-lo. Que ela detestava estar atrasada pra o que quer que fosse. Sabia que ela gostava de altura e a beira de um precipício ainda não era adrenalina o suficiente para ela. Sabia que ela gostava de liberdade, e se tivesse asas voaria pelo mundo sem pensar no dia seguinte. Mas é claro que o levaria com ela.
- Uma vez uma abelha me picou na bunda... – ela arriscou, mas o sorriso atravessado de anunciava o que viria a seguir.
- Eu sei.
lançou a ele o típico olhar de “eu te disse” . Mas é claro que ele sabia.
- Posso voltar a ver meu filme agora?
- Não quer saber algo sobre mim? – o garoto fingiu um tom ofendido.
- Eu também sei tudo sobre você, – a menina rolou os olhos, impaciente.
entortou a boca após pensar por alguns segundos. Ela tinha razão – ele não conseguia pensar em nada que a garota ainda não soubesse sobre ele. Até de seu vergonhoso medo do escuro ela estava ciente.
A atenção de estava cravada em algum ponto da tela quando o olhar de se perdeu nela. Era impossível não perceber como sua melhor amiga ficava mais bonita a cada. Linda, pra dizer a verdade.
É claro que ela era uma criança adorável, mas o garoto tinha certeza de que o que via agora estava em outro nível. Sentindo um leve sobressalto em seu peito, ele não conseguia desviar o olhar. Não pode deixar de notar as como seus olhos grandes e expressivos eram perfeitamente emoldurados pelos cílios longos. A boca carnuda e avermelhada contrastava perfeitamente com o nariz, pequeno, arrebitado e com algumas pintinhas bem no topo. Seus cabelos longos estavam espalhados pela cama e o cheiro de menta com alguma flor que não sabia o nome e emanava de seus fios era capaz de inebriá-lo se ele permitisse se levar.
- Porque está me olhando assim? – a garota fez uma voz engraçada ao olha-lo de soslaio, percebendo o olhar do amigo fixo em seu rosto.
- Tem uma sujeira no seu nariz.
disse a primeira coisa que lhe veio a cabeça. Como admitiria o que realmente estava pensando?
- Para, . Não tem não.
- É sério. Ele tá sujo – ele riu.
- Se eu caminhar até aquele espelho e não tiver nada aqui, você pode se considerar um homem morto – a garota disse firme ao apontar um dedo pra ele.
- Pode ir.
Com os olhos apertados, levantou e caminhou até o espelho dourado que pendia na parede de seu quarto. Levou menos de dez segundos para analisar o seu reflexo e, como suspeitava, ver que seu amigo estava apenas gozando com a sua cara.
- E agora eu vou te matar.
A garota anunciou antes de se jogar na cama em cima dele, estapeando toda área de possível acesso do corpo de , que gargalhava e tentava faze-la parar, segurando-a pelos pulsos. Não demorou muito para que também estivesse rindo descontroladamente e deixasse seu corpo cair ao lado de . O menino ainda segurava seu pulso. escorregou os dedos entre as mãos dele, entrelaçando-os com os do garoto logo em seguida e fazendo um carinho desajeitado com o polegar.
- Obrigada – ela disse, o sorriso ainda tomando seu rosto.
- Pelo o que?
- Apenas por estar aqui.
- Onde mais eu estaria?


- Eu sabia que meu nariz não estava sujo – esbravejou para a diversão do namorado.
- Agora ele está – provocou.
- ... – a garota rolou os olhos, alertando para que o garoto parasse.
- Desculpe, é inevitável. Você fica linda quando está emburrada.
- E você fica lindo quando está calado.
O garoto não pode conter uma risada. Amava as brincadeiras e o jeito delicado da menina, mas amava mais ainda implicar com ela. Sempre achou que isso mostrava que, muito antes de namorados, os dois eram melhores amigos.
- Pra onde vamos agora? – a garota indagou. Adorava passear pelas lembranças dos dois, e era algo que fazia com certa frequência. Reviver aqueles momentos, mesmo que só em pensamento, lhe trazia uma terna sensação de estar em casa. Segura e aconchegadamente em casa.
- Para o ano seguinte. Para o dia mais conhecido como o pior de minha vida.

Londres, Outono de 2005

devia estar na quinta garrafa de cerveja. Talvez na décima. Ele não se importava.
Tinha dezesseis anos e não havia bebido tantas vezes assim para saber maneirar ou para o seu corpo estar acostumado com o álcool e, por isso, ficava bêbado com certa facilidade.
Ele não sabia onde estava. Mas sabia com quem estava e isso era o suficiente para sentir o sangue em suas veias ferver.
As pessoas podiam tratar Garret Nichols como um verdadeiro Deus, mas, para , ele sempre foi e sempre seria um eterno babaca. E, agora, era um babaca que estava tentando enfiar a língua na garganta de sua menina.
A festa na casa de John Miller estava um verdadeiro caos. A música era alta demais e o ambiente tinha mais gente do que o extenso sobrado podia abrigar.
estava no segundo andar, rindo de algo que Garret falava. A garota tinha ignorado todos os insistentes alarmes de sobre ele. Não era muito difícil cair na lábia de Garret. É claro que os olhos intensamente verdes, os cabelos castanhos com algumas mechas douradas e o corpo definido com músculos em cima de músculos ajudavam, mas o jogador de Lacrosse até que tinha um papo interessante.
Sentados em um sofá no canto de uma ampla sala de estar, Garret aproveitava a posição para manter uma mão na perna de enquanto falava animadamente sobre a próxima temporada. Ele era um ano mais velho e a garota estava ciente que atraía alguns olhares invejosos em sua direção conforme se inclinava em direção ao veterano para dar uma risada ou para ouvir melhor algo que ele falava.
- Sabe como é, esse lance de decidir o que quero pra minha vida de repente. É meio aterrorizante. Sei que quero jogar. Cambridge é minha primeira opção, mas tenho que impressionar os olheiros no próximo semestre para conseguir uma bolsa.
- Você é a estrela da Ridgeway. A bolsa é sua – a garota tentou reconforta-lo, e era extremamente sincera no que dizia. podia achá-lo um babaca, mas ele realmente sabia o que fazer em campo.
- Gostaria de ter essa certeza – ele exibiu os dentes perfeitos em um sorriso atravessado – E você, já decidiu o que fazer quando sair daqui?
- Não penso muito nisso. Sempre achei um absurdo decidir minha vida inteira aos dezessete. Preciso de um tempo pra respirar. Eu não aguento fazer a mesma coisa por muito tempo e se eu entrar em algo por pura pressão, vou desistir no meio do caminho.
Em partes, era verdade. não sabia o que queria e muito menos tinha um plano para o futuro. Gostava de viver o hoje e quando o amanhã chegasse, se incomodaria em pensar no que fazer.
Ela gostava de moda, mas nunca alguém tinha visto seus esboços – exceto que, diariamente, a encorajava de que era boa o suficiente para seguir uma carreira. Ela, é claro, não acreditava. Mais do que isso, nunca admitira para alguém, além de seu melhor amigo, que era isso o que queria fazer; não era algo em que se achava boa o suficiente para ser julgada.
- Você tem que ser boa em alguma coisa – Garret insistiu ao passar a mão pelos fios displicentes. Sabia o quanto ficava charmoso ao fazer isso.
- Eu posso comer dez bolachas de uma só vez – a garota disse apontando para a boca, divertida.
- E eu posso pensar em coisas mais interessantes para você fazer com esses lindos lábios – e mais um sorriso provocativo.
A menina curvou brevemente os lábios para cima em resposta. Ah, o clichê dos clichês. Não que ela não estivesse interessada em beijá-lo, mas foi obrigada a pensar em como sairia correndo e voltaria com dez bolachas para ela provar a sua teoria. Varreu o lugar com os olhos por um instante, mas não viu nenhum sinal do amigo por ali.
- Está tudo bem? – Garret indagou ao vê-la distraída.
- Está sim.

No andar de baixo, apertava a garrafa com tanta força que lhe impressionava como o vidro ainda estava intacto entre seus dedos. Estava resistindo à vontade de levantar daquela poltrona e vagar por aí, procurando por com a desculpa de querer saber se ela estava bem, quando a verdade é que ele estava com ciúmes. Nada além de um culposo e dilacerante ciúme.
Tomou outro gole antes de se levantar e arrastar seus pés pelo assoalho de madeira. É claro que ele ia procura-la.
Se bem a conhecia, estava no andar superior, onde a música estava mais baixa e menos gente circulava efusivamente de um lado para o outro.
deixou a garrafa de lado quando chegou no topo da escada e analisou minunciosamente o lugar com o olhar. não estava ali e, por um momento, sentiu um calafrio percorrer seu corpo. Algo que oscilava entre um mau pressentimento e uma súbita preocupação.
Ele seria um idiota ou um bom amigo se vasculhasse todo o lugar até encontra-la?
não precisou ponderar. Ele sabia que só sossegaria ao saber que a menina estava bem. Algumas portas estavam fechadas e outras apenas encostadas ao longo do corredor acoplado à sala, e saiu abrindo uma a uma. Interrompeu alguns casais, algumas brincadeiras e alguns garotos que se divertiam ao ver duas meninas se despindo. Ele nem ao menos tinha percebido as cenas que se faziam presente bem embaixo de seus olhos. Estava extasiado, completamente focado em encontrar .
E então ela estava ali.
Na penúltima porta que ele abriu.
Sentiu um nó na garganta e o coração vir à boca assim que sua visão entrou em foco. A luz apagada quase não o deixou acreditar, mas era sua menina, ali, deitada embaixo do maior babaca da face da terra. Seu rosto empalideceu e, institivamente, ele fechou a porta bruscamente.
Mas não antes de ouvir a voz chorosa de gritando seu nome.
Estava delirando? Ah, ele não queria pagar pra ver. Até onde sabia, ela estava precisando de sua ajuda.
abriu a porta como uma avalanche. A sobriedade súbita tinha o atingido e ele só tinha uma coisa em mente: quebrar a cara daquele filho da puta.
Seu sangue ferveu. Sua visão ficou turva. E então ele estava puxando Garret pela estúpida jaqueta do time de Lacrosse e lhe acertando um soco em cheio no nariz. Os nós da sua mão arderam, mas aquilo não era o suficiente. Com o garoto que tinha duas vezes seu tamanho no chão, fez questão de disparar mais três socos em seu rosto e um chute em seu estômago, a satisfação amarga tomando conta de seu corpo ao ver Garret se contorcer e grunhir de dor.
- gemeu mais uma vez, trêmula e apavorada ao levantar da cama e se jogar nos braços de . Enterrou a cabeça no pescoço do amigo e sentiu as lágrimas que tanto tinha segurado escorrerem sem censura por seu rosto. O menino a abraçou com força, os dedos emaranhados em seus cabelos em um carinho reconfortante.
Ele estava ali. E estava tudo bem – como sempre estivera quando o assunto era e .

Empoleirado no pé da cama da menina, esperava pacientemente se acalmar. Ela estava sentada com os joelhos dobrados e os braços em volta das pernas, em um auto abraço que, pra ele, transparecia medo.
não conseguia tirar os olhos da barra do vestido preto da menina. Estava rasgado. Ele piscou por um instante e pode imaginar Garret em cima dela, tentando puxar a roupa pra cima e a segurando para baixo. E então todas as entranhas em seu corpo desejavam apenas mata-lo, no sentido mais literal e cru da palavra.
- Suas mãos... – a voz da garota saiu em um fio, atraindo o olhar pesaroso de para seus lábios inchados e olhos avermelhados – Está tudo bem?
olhou pra baixo, onde a atenção de se focava. Sua mão estava machucada – os nós avermelhados pelo sangue que havia escorrido com o impacto e ele nem ao menos tinha notado. A adrenalina de ver naquele estado deplorável anestesiava qualquer um de seus sentidos.
- Não ouse em se preocupar com isso agora – ele rosnou, a voz embargada.
Como a garota podia se preocupar com ele depois do que aconteceu?
Porque era exatamente esse de pessoa que ela era.
respirou fundo uma, duas, três vezes antes de tentar falar.
-Eu não sei porque, mas tá tudo turvo na minha mente – ela começou, um tanto insegura, as lágrimas se formando mais uma vez em seus olhos – Está tudo borrado e eu nem me lembro direito como aconteceu. Deve ser algum tipo de mecanismo de defesa ou sei lá. Mas a última coisa que lembro é estar conversando com ele no sofá e então entramos no quarto e ele estava em cima de mim, beijando meu pescoço e passando a mão a pelo meu corpo e eu...
Um soluço a interrompeu. fechou os olhos com força, cerrando os dedos em um punho e pensando que era incapaz de ouvir aquilo sem ser indiciado por homicídio em primeiro grau. Não aguentava imagina-la passando por aquilo.
- Eu pedi pra ele ir com calma, mas ele não me ouvia, . Ele me beijava e me apertava, meu corpo inteiro doía e eu não tinha força pra tirá-lo de cima de mim. Eu juro que tentei, mas eu não conseguia – o pavor era visível nos olhos marejados da menina – Senti tanto enjoo, tanta repulsa, tanta vergonha. E então, quando ele... – ela suspirou, os lábios tremendo – Quando ele tentou tirar meu vestido, eu pensei em você. Pode parecer ridículo, mas só de te ver em meus pensamentos eu sabia que tudo ia ficar bem. E aí você entrou por aquela porta e...
começou a chorar copiosamente, os ombros balançando e os soluços cortando sua voz, agora reduzida a murmúrios ininteligíveis. sentiu seu coração se espatifar em mil pedaços no chão e depois ser queimado da forma mais cruel possível. Ele não aguentava vê-la chorando, simplesmente não aguentava. O garoto anulou a distância entre os dois e a apertou em um abraço quase esmagador, que caiu como morfina no sangue da menina.
- Você sabe... – ele teve que limpar a garganta para continuar – Sabe que ele tem que pagar pelo que fez, não sabe?
Ela o apertou ainda mais forte, sentindo suas lágrimas inundarem a camisa do amigo.
- Não, por favor. Não posso contar pra ninguém. Não consigo...
Ela sentia vergonha. Sentia-se uma verdadeira idiota.
suspirou, não sabendo ao certo o que dizer e usando todas as forças que era capaz para entender a garota. Não era hora de contrariá-la. Ele a faria pensar nos fatos e consequências mais tarde. Por hora, só queria fazê-la se sentir melhor. Mais do que isso, ele precisava.
Ali, com o peito apertado e o choro preso na garganta, fez uma promessa silenciosa a si mesmo. Ele cuidaria de pra todo o sempre.


- Achei que só boas lembranças eram válidas por aqui – engolindo em seco, a voz de era letárgica ao mirar os sempre reconfortantes olhos à sua frente.
- Lembranças necessárias – o namorado ponderou. O que isso ao menos queria dizer? – Foi quando prometi que cuidaria de você até quando a vida me permitisse.
- E você nunca desfez essa promessa.
Ela sorriu, o conhecido sentimento de gratidão invadindo seu peito. O que tinha acontecido com Garret? tinha a convencido de fazer uma denúncia anônima, e ela sabia que algumas outras garotas tinham feito o mesmo logo depois dela – o que foi um choque e tanto. Saber que ele tinha feito isso com mais garotas além dela era simplesmente repulsivo. Mas não quis se envolver tanto. Ela sabia que era errado, porém era doloroso demais se lembrar de qualquer coisa sobre aquela noite. A última vez que ouviu falar dele foi exatamente seis meses após o ocorrido. Amelia Thompson, a garota que fazia aula de Biologia e Inglês com e retocava o brilho labial muitas vezes ao dia tinha a contado que ele havia sido indiciado. Amelia sabia os possíveis e impossíveis detalhes sobre a vida todo mundo; era um tanto assustador.
- Podemos melhorar o clima agora? – a piscou algumas vezes para afastar as lágrimas que ousaram se formar em seus olhos – Eu, você e uma certa praia a cem milhas daqui. O que isso te lembra?

Clevedon, Inverno de 2006

A viagem de três horas até Clevedon sempre valia a pena. No geral a turma costumava ir pra lá no verão, mas era o último ano antes da faculdade e qualquer fim de semana prolongado era desculpa para uma festa noturna na praia.
Para , a vantagem de vir no inverno era que a fogueira à beira-mar era necessária e ninguém ficava com preguiça de fazê-la. Era apenas preciso. Assim como os quilos de marshmallow que a garota levava consigo toda vez.
- Eu acho ele uma gracinha – sentiu o sangue borbulhar quando Chloe Hayes olhou para com uma risadinha encoberta por seus dedos finos.
Era um tanto quanto impossível não ver como tinha amadurecido da melhor forma possível. Seu rosto era anguloso e tinha esculpido um maxilar definido, seus olhos pareciam mais intensos e os cabelos estavam a cada dia mais bagunçados da maneira mais descolada o possível. Seu corpo, definido e musculoso nos lugares certos, era um espetáculo a parte. Os dezessete anos recém-completados lhe caíam bem, embora ele parecesse um pouco mais maduro do que a idade revelava.
, por sua vez, tentava não perceber. Ela tentava ignorar o ruborizar das bochechas e o frio na espinha quando eles estavam perto. Fingia e mentia para si mesma que não havia se perdido uma só vez na beleza do garoto ao assisti-lo em um treino de futebol no colégio ou no meio das intermináveis noites de conversa em seu quarto, quando a madrugada caía e a luz da lua entrando por sua varanda conseguia deixa-lo ainda mais atraente. Como se isso fosse possível.
tinha uma queda por ? Essas palavras pareciam desconexas demais pra garota. Eles eram melhores amigos desde... Sempre?
Não fazia sentido.
- Carter faz mais meu tipo – Poppy White, a garota baixinha e ruiva ao lado de Chloe apontou para o menino bronzeado ao lado de e trouxe de volta para a realidade – Ele é mais... Selvagem?
As duas riram enquanto apenas observava, degustando um marshmallow recém-assado.
- Quer saber de uma coisa? Eu não saio da Ridgeway até colocar minhas garras naquele lindo corpinho – Chloe declarou e sentiu vontade de vomitar – Quer dizer, se a deixar, porque aparentemente eles são propriedade um do outro ou algo do tipo.
Diante de mais risadas, Chloe cutucou com os cotovelos e a menina fez uma careta. Propriedade? Quem falava essas coisas?
- Pode ficar à vontade – a deu um sorriso amarelo e decidiu se afastar das duas para pegar mais um marshmallow e molhar os pés na água.
A temperatura baixa era cortante, mas ela meio que gostava da sensação. Era relaxante em outro nível. O barulho das ondas à sua frente se misturava com o zumbido de vozes e gritos logo atrás da menina. A turma inteira do seu ano devia estar lá – umas quarenta pessoas. Embora não tivesse um laço inabalável ou uma amizade profunda com nenhuma daquelas pessoas – além de sabia que ia sentir saudades. Ela odiava despedidas, términos, ciclos se fechando. O quão torturante era a ideia de fazer algo pela última vez e ter consciência disso?
Faltavam apenas dez meses para o ano terminar e nem tinha se atrevido a pensar na faculdade. Seus pais estavam sendo compreensivos com sua indecisão e ela não podia estar mais agradecida por isso – tinha sorte de tê-los.
Ela amava a Sra. , mas a mãe de era um pouco mais rígida. Não aceitaria que o filho se formasse e não fosse imediatamente para um ensino superior. Mas o menino não tinha problemas quanto a isso: a University Of London sempre fora a sua primeira opção. Ele não queria deixar a cidade.
Dando-se por vencida pelo frio, quase cambaleou de volta pra água quando girou em seus calcanhares para voltar para perto da fogueira. O que Chloe Hayes estava fazendo ao lado de ? Eles precisavam estar tão perto e tão cheiro de risinhos assim para conversar?
Argh. E porque diabos ela estava se importando tanto assim?
sentou em um dos panos de estampa indiana estendidos chão, bem em frente à fogueira. Tentou se concentrar nos marshmallows que assava e comida compulsivamente, uma mordida mais feroz do que a outra. Quantos já havia devorado? Talvez uns vinte. E ainda sentia-se insaciável.
Quase não percebeu quando sentou-se ao seu lado. Estava vestindo o moletom azul que ela tanto gostava e estava absolutamente lindo. Ele era lindo.
- Assim não vai sobrar pra ninguém – o garoto apontou para os marshmallows e apenas apertou os olhos em sua direção.
- O que você e Chloe Hayes estavam conversando? – ela perguntou sem olhá-lo, espetando mais um marshmallow em seu graveto de madeira.
- Nada de muito interessante. E não fale o nome dela inteiro, é estranho.
- Acho que Chloe Hayes tem uma queda por você – fez uma careta e virou para o amigo que riu ao jogar o cabelo para trás.
- E quem não tem?
Ela queria argumentar, mas parecia tão... Plausível. Quem não teria?
- Você é tão convencido que me deixa enjoada – a menina rolou os olhos teatralmente.
parou por um segundo para observar a garota, que estava entretida em entender como o fino pedaço de madeira em sua mão ainda não tinha queimado por completo ao entrar em contato com a fogueira. Ele a achava perfeita. Perfeita em todos os sentidos, ângulos e maneiras possíveis.
- Quer dar uma volta? – ele indagou e apenas assentiu com a cabeça. O garoto levantou e estendeu a mão para ajudar a amiga.
- Eu sei me mexer sozinha – ela desferiu um tapa nos dedos de , que soltou um gemido dramaticamente exagerado de dor.
Os dois deram alguns passos em silêncio e a conversa só preencheu o ar quando praticamente não era mais possível ouvir as vozes dos amigos que gritavam em volta da fogueira.
- Você já teve medo do futuro? – desacelerou os passos e pousou o olhar em .
- Tenho medo todos os dias. É tudo tão...
- Incerto?
- Exatamente.
inspirou e parou de andar. Seus dedos alcançaram a mão de para que ele parasse em sua frente e aquele inadmissível calor nas maças a tomou por completo.
- Estou com medo, . Você vai pra faculdade ano quem vem e eu ainda nem sei o que fazer. Você vai conhecer pessoas novas, vai viver tanta coisa, e... E se tudo mudar? E se a gente mudar? E se você acabar me esquecendo e...
- Ei! – o tom mais alto do menino cortou a fala de – Você está proibida de sequer pensar em qualquer coisa desse tipo, entendeu bem? – o garoto passou a mão pelos cabelos antes de voltar a olhar pra amiga - Esquecer você? Caramba, ... Não diga absurdidades. Eu nunca esqueceria você. Eu nunca deixaria nada de ruim acontecer com a gente. Não sabe disso?
- Sei, mas...
- Não. Não tem “mas” nenhum – soltou um suspiro pesaroso e deu alguns passos na direção da menina, parando bem a sua frente. Seus olhos se encontraram e, em sincronia, os dois sentiram o conhecido esquentar no peito. O coração batendo mais rápido. E então mais lento. levou uma mão aos cabelos da garota e colocou algumas mechas atrás da orelha, fazendo um carinho em seu rosto logo depois – Você não sabe que eu te amo?
- Sei – a voz de saiu falha ao sentir seus joelhos bambearem diante do toque do menino – Eu te amo também.
- Eu vou estar aqui sempre. Eu prometo.
A sorriu. Ela confiava nas palavras de ; sempre confiou.
Os olhos do menino se perderam nos lábios da garota, avermelhados e convidativos. Ele a queria. Não tinha dúvidas disso. Ele a queria tanto que suas entranhas doíam.
- Minha garota – ele sussurrou, os olhos dançando por cada traço de – Você tem ideia de quão linda você é?
Olhando para baixo, sentiu as bochechas ferverem e sua boca quase abriu em um perfeito O. Aquele não era o tipo de coisa que ele dizia a ela. Seu coração estava saltitante. E o do amigo não estava tão diferente assim.
A garota foi pega de surpresa quando os lábios do menino se chocaram contra os dela. Ele não se aproximou lentamente e nem deu qualquer tipo de aviso prévio, apenas a segurou pela cintura e mergulhou nos lábios que eram tão macios e doces quanto ele tinha imaginado. O coração de parecia estar em festa ao zombar de sua cara e bater tão rápido em seu peito. O toque da pele nos lugares possíveis e estratégicos arrepiava até as mais improváveis partes do corpo da garota. O polegar de fez um carinho gostoso em seu pescoço enquanto ela prendia as mãos nos fios sedosos do amigo.
Sentir o gosto de só podia ser descrito como algo entre mágico e inebriante. Era uma descarga de um desejo reprimido há tempos. Era perfeito, sincrônico e saboroso. Lento e exploratório, como se os dois quisessem guardar cada detalhe daquele pequeno espaço de tempo que, pra eles, parecia infinito.
Era um daqueles momentos que eles sabiam que se lembrariam para sempre. Uma escolha que ambos sabiam que iria mudar tudo no exato momento em que foi feita.
E que foi, sem sombra de dúvida, a melhor escolha que já fizeram.


- Posso confessar uma coisa? – a menina disse com um sorriso sapeca e o namorado já sabia que viria alguma gracinha pela frente.
- Eu tenho escolha?
- Não – ela sorriu – Achei que você beijasse melhor. Foi fraco. Ainda bem que te dei outra chance.
Alguns minutos de silêncio. E então explodiu em uma risada alta e escandalosa.
- Você é mesmo uma idiota – o tom mau humorado de só a fazia rir mais.

Londres, Inverno de 2006

e achavam que era impossível os dois viverem mais grudados do que o normal.
As pessoas ao redor deles também achavam que era impossível os dois viverem mais grudados do que o normal.
Mas o destino era sempre surpreendente.
Desde o beijo na praia em Clevedon, apenas duas semanas atrás, os dois eram indescritivelmente inseparáveis. O intelecto e o físico haviam se juntado em uma verdadeira explosão de sentimentos novos e excitantes.
A nova rotina de mãos dadas e beijos ainda parecia estranha para . se acostumara mais rápido – talvez tivesse pensado sobre por mais tempo.
Era um domingo. Um preguiçoso, frio e cinzento domingo. Os dois estavam no Bettersea Park, sentados na grama à margem do extenso lago de água cristalina. apoiava as costas em um graúdo tronco de árvore e tinha alguns papéis em mãos. Eram algumas cartilhas de faculdades que o colégio tinha entregado na última sexta-feira. Não que estivesse considerando mudar seu plano, mas não fazia mal olhar as opções.
estava sentada entre as pernas do garoto, a atenção completamente voltada ao livro em suas mãos.
Era o tipo de coisa que poderiam fazer em casa, mas ambos gostavam de estar ali - onde o ar era mais puro e um breve pedaço de natureza se fazia presente. Algumas crianças brincavam ao longe, e os gritos animados que eram ouvidos esporadicamente arrancavam um sorriso inconsciente da garota. Era uma leve lembrança dos dias em que os dois passavam ali, andando de bicicleta, correndo entre as árvores e tomando sorvete deitados na grama.
- . Escuta isso – a voz de soou baixa, atraindo a atenção do garoto pra si enquanto virava o rosto para ele e segurava o livro na altura dos olhos – “Nunca lhe confessei abertamente o meu amor mas, se é verdade que os olhos falam, até um idiota teria percebido que eu estava perdidamente apaixonado”.
- O que está lendo? – o garoto sorriu, apoiando os papeis ao seu lado e passando os braços em volta da cintura da menina. Apoiou o queixo no ombro de e encarou as páginas amareladas nas mãos dela.
- O Morro dos Ventos Uivantes – ela estralou os lábios – Será que as pessoas nos viam assim? Quer dizer, estou lendo um romance e não paro de te encaixar em cada parte dessa merda – a menina riu, sentindo as bochechas corarem levemente – É assim que as pessoas... Que as pessoas apaixonadas se sentem?
- Ouvi dizer que sim – ele segurou a menina pelo quadril e a trouxe mais para perto – Quer dizer que está apaixonada?
- Eu não...
- Tudo bem – riu, ciente de que a amiga estava envergonhada – Também estou apaixonado por você. Acho que sempre estive.
A centelha que agora a acompanhava constantemente transformou-se em fogo no peito de . Como o garoto a dizia aquelas palavras com tanta tranquilidade?
Ela abaixou o livro e mirou a água que passava calma um pouco mais abaixo. Ela não conseguiria encará-lo para dizer:
- Isso nos torna...
a interrompeu mais uma vez.
- Sim. Namorados.
A garota sorriu abertamente. A prova de que não precisava de qualquer tipo de pergunta para concordar com o menino dizia.
Namorados.
Soava tão mais doce do que melhores amigos.
Soava apenas… Certo.


- Você ainda me encaixa nos livros que lê?
- Mas é claro que sim. Te encaixo em basicamente tudo que eu vejo, penso, sinto... – ela sorriu, sincera.
- E ai de você se isso mudar – brincou, prevendo o riso que arrancaria dela.
- Sua vez de escolher. Por qual memória quer passear agora?
- Acho que você sabe muito bem.

Bournemouth, Primavera de 2006

estava com a barriga doendo de tanto rir. Jogada no chão coberto de carpete daquela pequena pousada em Bournemouth, tentava se lembrar a última vez que tinha se sentido tão feliz.
“Nunca” era a única resposta plausível.
O barulho da lente da câmera fechando e abrindo fez a menina levar a mão ao rosto enquanto tentava recuperar o ar para os pulmões. Mas já era tarde – o namorado estava sorrindo ao balançar o pequeno pedaço de papel filme que a máquina em sua mão tinha acabado de cuspir.
Lá estava ela. Sua garota. A pequena foto não era o suficiente para transmitir o quanto a achava perfeita. As pernas nuas, o vestido bordado em pedrarias pretas cobrindo apenas a metade superior de suas coxas. Os cabelos longos e lisos espalhados para todos os lados.
O sorriso irradiante. Aquele sorriso. Aquele que o garoto podia passar horas e horas admirando e que sempre fazia de tudo para que não deixasse o rosto angelical da menina.
Era linda.
Era sua
. sentiu-se no céu quando o namorado abaixou para lhe estender a mão. Encarou a imensidão daqueles olhos ao entrelaçar os dedos nos de e se sentiu apenas completa. Feliz. Uma sensação boa correndo pelo corpo inteiro.
Quando o garoto lhe puxou em direção à escada de mármore branco que os levaria até o quarto, desejou que aquela noite não tivesse fim. Estava se sentindo em um filme passando em câmera lenta, apenas borrões com flashes de luz e uma música lenta tocando ao fundo.
No primeiro andar, parados em frente à porta vermelha, a maçaneta escapou da mão de . E então ela riu um pouco mais. Riu porque não podia imaginar que precisava de tão pouco para ser feliz. Estava feliz por estar ali. E queria estar ali pra sempre.
O garoto abriu a porta e a fechou novamente atrás de si, os dois já dentro do quarto que, de alguma forma, tinha cheiro de morangos e almíscar. As costas de se chocaram contra a porta e ele observou à sua frente por alguns segundos.
Ela queria pular em seu colo, prender as pernas em sua cintura e beijar o namorado. Beijá-lo com a certeza de que eles não tinham hora pra ir embora. Não tinham um mundo pra se preocupar lá fora e o universo se limitava apenas aos dois.
E foi exatamente o que ela fez.
sustentou suas pernas e as unhas compridas da cravaram em suas costas. O passe livre para a insanidade. O garoto afastou os lábios da boca da garota apenas para grudá-los em seu pescoço. Um suspiro involuntário escapou da garganta de . Ela tinha cheiro de pera com baunilha e aquilo era glorioso. O hálito quente do namorado, brincando com cada centímetro de pele entre seu queixo e seu decote fazia a menina ir ao céu e voltar. A dor no baixo ventre tornou-se lancinante quando os lábios do menino atingiram os seus seios.
Alguns passos foram necessários para que a colocasse na cama com cuidado. Parado ao lado do colchão, seu olhar minucioso correu por cada detalhe da namorada. Ele a queria tanto. Desejava de uma forma que nunca havia desejado ninguém antes. A mordida provocativa que ela dera nos lábios foi o limite para fazê-lo deitar por cima da menina, o corpo implorando por contato.
Com as mãos passeando pelo corpo macio da menina, uniu os lábios dos dois no beijo mais quente de universo. Era intenso, aliciante, lento na medida certa. Os dedos do menino dedilharam as coxas de . Com a respiração falha, a garota soltou um gemido ao senti-lo tocar o tecido fino de sua calcinha, um lampejo lascivo passando como uma corrente elétrica pelo seu corpo.
E então ela é levada pra longe dali. Com os olhos fechados, sente o pavor quase fechar sua garganta. E ela está novamente naquele quarto escuro e abafado. Embaixo de Garret. Se debatendo e tentando, inutilmente sair dali.
Horror.
Um grito temeroso irrompe de sua garganta.
- O que foi? Estou te machucando? – a voz assustada de e os movimentos bruscamente interrompidos a trouxeram de volta para a realidade.
Com os olhos marejados e os lábios comprimidos, a garota negou com a cabeça. Foi preciso apenas um olhar para entender o que havia acontecido. E a raiva dilacerante inundou mais uma vez seu peito. Deixando o corpo cair ao lado da namorada, ele a abraçou da maneira mais forte e reconfortante que podia, depositando um beijo no topo da cabeça da menina.
- Não quero sentir isso – a voz fraca e chorosa da menina era como pedaços de vidro em seu coração.
O garoto fechou os olhos e sentiu uma lágrima escorrer por seu rosto. Não era de chorar, mas pra ele, a dor que sentia era mais angustiante do que qualquer outra coisa no mundo.
- Ele não pode... – ela tentou mais uma vez e limpou a garganta antes de prosseguir – Ele não pode tirar isso de mim. Não quero viver com medo por causa dele – sentiu a garganta arder ao engolir mais uma vez o choro - É você, caramba. Eu confio tanto em você. Porque me senti assim? Me ajuda. Por favor, .
passou a mão pelo rosto, enxugando as lágrimas que haviam caído. Estava sem reação. Queria ajuda-la. Mas não aguentaria vê-la daquela forma novamente. Não aguentaria pensar que ele causara aquele sentimento deplorável na garota que tanto amava.
E se...
Seu corpo inteiro se arrepiou.
- Acho que tenho uma ideia.
levantou os olhos em sua direção. É claro que tinha. Ele sempre sabia como salvá-la.
- Por favor, diga.
Ele tentou encontrar as palavras certas para continuar. Não queria assustá-la ainda mais.
- Porque não tenta se tocar?
arregalou os olhos, o calor subindo por seu corpo diante da sugestão – um misto de vergonha e excitação curiosa.
- Eu já faço isso – ela falou baixinho, parecia necessário - Como isso deve me ajudar?
- Eu quis dizer aqui. Na minha frente. Fazemos juntos.
Os olhos de abriram ainda mais. Ela não sabia aonde enfiar o rosto. Aquilo parecia intimo demais. Mas não havia pessoa no mundo com quem tivesse mais intimidade que . E realmente queria deixar o gosto amargo daquela noite infeliz para trás.
A garota respirou fundo. Era como um exercício de confiança. E ela estaria no controle da situação.
- Ok – ela deu um sorriso – Vamos fazer isso.
Talvez não estivesse esperando que ela concordasse. Ele sentiu seu coração disparar ao ver a menina ficar de joelhos na cama à sua frente. Com cuidado, se afastou um pouco, parando a alguns centímetros de distancia da namorada, na mesma posição.
- Eu te amo – o garoto sussurrou tão baixo que pareceu apenas um sopro no ouvido da menina. Mas fora o suficiente para ela sorrir da maneira mais sincera o possível.
Ela estava no controle. Ele não moveria um músculo antes de dar a partida inicial. Queria fazê-la se sentir confortável, confiante. O medo de desencadear qualquer reação adversa subia por sua garganta.
Com os olhos cravados no namorado, tocou a barra do seu vestido e o puxou pra cima. sentiu os dedos tremerem ao vê-la apenas de lingerie preta, para sua insanidade, bem em sua frente. Aos seus olhos, parecia uma visão do paraíso na terra.
A excitação aumentou novamente no garoto. Sentiu seu pau pulsar ao ver a mão da garota, hesitante, brincar com o elástico da calcinha rendada. Mas, por ela, ele se torturaria por alguns instantes sem se tocar.
Por ela, ele faria de tudo.
E ela sabia disso. Focada apenas nas íris do garoto, ela se lembrou. Aquele era . Apenas . Seu melhor amigo. Seu namorado. Não havia luxúria maliciosa ou qualquer tipo de crueldade ali. Era apenas ele. Era apenas a coisa certa a se fazer.
Um sorriso involuntário tomou os lábios de ao ver o volume na calça jeans escura do namorado. Ver seu efeito sobre ele fora a dose necessária de coragem para ela se livrar da pequena peça preta que cobria seu sexo. Aproveitando o ímpeto de bravura, ela se livrou também do sutiã.
O olhar deslumbrado de caiu sobre a menina. Nunca tinha a visto assim em sua frente. Era uma visão inédita e excitante como ele jamais teria imaginado. Seu corpo era delicioso e perfeito e ele ansiava por tocá-lo.
Os dedos trêmulos de tocaram sutilmente o seu clitóris e um choque de prazer a eletrizou. Mordendo o lábio inferior, ela olhou pro namorado. Primeiro para o seu rosto, tomado por um sorriso de encorajamento gentil, e depois para as mãos dele no cós da calça.
entendeu o recado. Abriu o zíper e puxou a calça e a cueca pra baixo, já envolvendo seu membro entre os dedos. Estava duro, grande, grosso e perfeito. E não esperava o fervilhar incendiário que tomou seu corpo com a deliciosa visão do garoto, movimentando a mão lentamente e a olhando do jeito mais sensual o possível. A garota escorregou um dedo pra dentro de si e, em meio a um suspiro arrastado, jogou a cabeça pra trás sentindo-se absurdamente úmida. A outra mão tocou o bico enrijecido do seio, em um apertão rápido e preciso. Um gemido entrecortado escapou da garganta do namorado ao vê-la se tocar dessa forma e os movimentos de sua mão aceleraram. Com a visão dos dedos exploratórios de , o garoto sentiu que não aguentaria muito tempo. Queria beijá-la, senti-la. Mas, naquele momento, era tudo sobre ela. Respirando fundo, se obrigou a desacelerar os movimentos.
- Está gostando? – a voz rouca do garoto preencheu o silêncio em um sussurro. se limitou a assentir com a cabeça enquanto mordia os lábios com força e escorregava mais um dedo pra dentro de si. Um gemido alto exasperou de sua garganta e fora o necessário para sentir que estava muito próximo de perder o controle.
- Eu quero você – o tom arrastado de pegou o garoto de surpresa. Ela estava mesmo dizendo o que ele achava? – Vem aqui. Preciso que você me toque.
Os olhos da menina estavam semicerrados e as mãos continuavam o movimento circular em cima do ponto de prazer. O olhar de transbordou de luxúria e admiração. Tinha uma gostosa em se tocando em sua frente e o chamando para tocá-la. Parecia mesmo o paraíso.
E ele não tinha escolha, se não obedecê-la. se aproximou da namorada e colocou os dedos sobre o da garota, sentindo seus movimentos. estremeceu com o mínimo toque do namorado e, com os lábios, procurou a boca do menino. O beijo era quente, feroz e urgente como nunca haviam experimentando antes.
Ela nunca havia feito nada assim antes.
Mas não conseguia pensar em ninguém mais perfeito do que para fazer qualquer uma daquelas coisas pela primeira vez.
deslizou a mão por baixo dos dedos dele, deixando-o tocá-la sozinho. Os dedos ágeis de friccionaram seu clitóris e um grito de prazer arranhou sua garganta, uma sensação inédita e extasiante tomando seu corpo. Ela estava molhada pra caralho e isso levava à loucura. Mantendo o polegar no clitóris o menino escorregou dois repentinos dedos pra dentro de e ela teve que cravar as unhas nas costas do namorado para se manter estável. acelerou os movimentos, colocando um pouco mais de pressão ao esfregar o local inchado na intimidade da garota. arfava e ele sabe que ela estava perto.
A onda de prazer estremeceu a garota dos pés à cabeça e chegou junto à um gemido longo e célebre. Os dedos de ainda estavam dentro dela e a sensação de sentir-se contraindo em volta deles era gloriosa.
O corpo da garotava estava mole e extremamente satisfeito. abriu um pouco dos olhos e encarou o namorado entre os cílios. Ele estava sorrindo e os dedos agora dedilhavam um carinho gostoso pela cintura da menina.
E ela queria mais. Queria ele.
se espantou ao vê-la o puxar novamente para um beijo, tão voraz quando o último. Ainda estava excitado, a sensação de necessidade de alívio percorrendo seu corpo. Vê-la tendo um orgasmo em suas mãos fora a coisa mais bela e prazerosa que já havia presenciado. passou as mãos pelo pescoço do namorado e deitou, trazendo o corpo mais forte do garoto consigo. colocou-se dentro da menina com cuidado - primeiro a cabeça e depois mais fundo. O urro de prazer ao sentir-se completamente dentro dela arrepiou cada pedaço do corpo da garota que, com os olhos fechados e a cabeça jogada pra trás, sentia uma dor extremamente prazerosa. Ele investiu uma vez e se preocupou em ter a certeza de que estava tudo bem com ela antes de prosseguir – e os gemidos e suspiros extenuantes da menina indicavam que ela estava gostando. Acelerando os movimentos, estava se deliciando ao senti-la cada vez mais molhada o recebendo. Entrava e saía por completo, em um frenesi de vai e vem que fazia os gemidos enlouquecidos pairarem no ar. Aquilo era diferente de qualquer coisa que havia sequer pensado em sentir – era gostoso em um nível quase alucinante.
E então seu corpo estremeceu mais uma vez; o prazer máximo a atingindo, agora ainda mais intenso e arrebatador. E encharcada daquela forma a e se contraindo em seu pau fora o necessário para fechar os olhos com força e gozar com vontade.
Ele deixou o corpo trêmulo e ofegante cair ao lado da namorada, a envolvendo em um abraço apertando e dando um beijo em seu rosto.
- Tá tudo bem?
O tom de ainda era distante, como se estivesse em transe – e mesmo nesse frenesi ele conseguia cuidar dela. levantou o rosto para o olhar. Seu cabelo estava mais bagunçado que o normal, um pouco grudados na testa pelo suor, e as bochechas estavam levemente avermelhadas. Seus corpos estavam quentes e colados e aquele era o melhor lugar em que ela podia ousar imaginar estar. Estava tudo ótimo.
- Você tá aqui comigo. É claro que está tudo bem.


- Homens. Tão previsíveis – a garota brincou ao rolar os olhos, ironizando a escolha de lembrança do namorado.
- Quer apostar que eu sei qual vai ser a sua próxima escolha?
Passando os dedos distraidamente nos cabelos em seu colo, tombou a cabeça para o lado ao analisar a situação.
- Tenho certeza que você vai errar.

Londres, Outono de 2006

examinava minuciosamente cada detalhe do vestido no espelho. Ela tinha que estar perfeita.
Era um modelo de alças finas e decote drapeado. O tecido em um tom de champanhe, bordado de cima a baixo por pequenas pedras de strass. O busto era ajustado até a cintura e a saia caía esvoaçante até os pés, onde uma fenda alta revelava uma sandália branca de tiras finas.
Estava frio, mas ela não se importava. Sentia-se linda assim e aguentaria até o fim da noite.
A garota retocava o batom rosado quando um estralo em sua sacada a fez sorrir. O espelho em que se olhava refletiu a imagem irretocável de logo atrás de si.
Ele estava ali. E estava ainda mais lindo do que de costume.
O terno preto perfeitamente ajustado, a camisa branca brevemente aberta e um par de Vans pretos desgastados nos pés. Não usava gravata, porque isso não era nada a cara dele.
E ela amava isso.
Os olhos do menino brilharam ao cair na namorada. Ela não tinha o deixado ver o vestido antes e agora ele entendia o mistério. Pra ele, a garota parecia um anjo flutuando em sua frente. Era perfeita; desde o rosto delicado, pintado por uma leve maquiagem, até o vestido que parecia ter sido feito sob medida para o seu corpo.
- Preciso dizer que você está linda? – ele bagunçou os cabelos, adentrando o quarto e parando logo atrás da namorada.
- Estamos lindos juntos – apontou para o reflexo dos dois no espelho antes de se virar para o garoto.
- Trouxe pra você. Peônias – tirou uma caixinha transparente com um corsage de peônias cor-de-rosa de trás das costas; era a flor preferida da menina.
O sorriso sincero era inevitável. Como ele podia pensar em tudo?

O ginásio da Ridgeway estava irreconhecível. podia jurar que nunca esteve ali. Uma tenda transparente pendia do teto altíssimo, envolto por cordões de luzes brancas que, junto ao jogo de luz azulado que saia do lado de um palco improvisado, parecia o céu estrelado. As mesas cobertas com toalhas pretas cercavam a quadra e tinham enormes enfeites de flores e velas no centro.
- , eu vou sentir tanta falta disso.
- Eu também.
Algumas lágrimas teimosas faziam os olhos da menina brilharem, mas ela estava sentindo algo muito distante de tristeza. a pegou pela mão e a conduziu até o centro da quadra, onde várias pessoas dançavam e uma balada melosa qualquer do Ne-Yo explodia das caixas de som.
- Fico feliz de estar levando comigo o que esse lugar me deu de mais precioso – ele envolveu a cintura de e, com a cabeça apoiada em seus ombros, sussurrou.


- Espera! – para o susto de , a menina falou um pouco mais alto – Não era nesse dia que eu estava pensando.
- Não? Fala sério, como não se lembrar disso? Essa frase... Mereço todas as palmas possível.
- Eu ainda acho que você roubou aquela frase de um filme – erguendo uma sobrancelha, a garota brincou, e a risada irônica do namorado fora estridente.
- Sou mais brilhante que qualquer roteirista e você sabe disso.
- Claro que é – rolou os olhos – Mas eu estava pensando em alguns bons anos a frente.

Londres, Inverno de 2014

encarou satisfeita os recortes em sua mesa, sinalizados por muitos e muitos post-its preenchidos por suas observações.
No final das contas, tinha razão. Ela era mesmo capaz de trabalhar com moda. Melhor ainda, na editoria de uma revista de moda. Era o primeiro ano da garota e ela não podia se sentir mais feliz e realizada – o que nunca achou que aconteceria aos vinte e cinco, portanto, parecia uma vitória incomparável.
As luzes das outras salas do escritório já estavam todas apagadas quando a mensagem de seu namorado avisando que já estava lá embaixo brilhou na tela. Já passavam das dez e ela não se incomodava em ser a última a deixar o local; pois aparentemente era assim que funcionava quando você gosta do que faz.
estava apoiado no Lexus prateado quando saiu do prédio espelhado e grandioso. Vestia uma camisa social branca e uma calça azul marinho. O sorriso enviesado e os cabelos meticulosamente desgrenhados lhe traziam a jovialidade que as roupas insistiam em tirar; o equilíbrio perfeito que o deixava nada menos do que sublime.
Era início de inverno e a neve já deixava uma fina camada cobrindo as ruas. O contraste da beleza do clima com o charme de seu namorado fazia sentir-se em um filme com direito ao Oscar de Melhor Fotografia.
E Melhor Figurino, é claro.
era gerente de produção em uma empresa coorporativa online; algo mais complicado e envolvendo mais números do que jamais tentaria entender. Mas ele estava feliz com a perspectiva de crescimento, então, ela também estava.
- Olha só pra gente, tão maduros e responsáveis – a garota plantou um beijo nos lábios do namorado ao brincar com a gola engomada de sua camisa.
- Você ainda não viu nada – deu um sorriso e passou as mãos pela cintura de – Tenho uma surpresa pra você.

- É sério, não abre!
tinha prometido que manteria os olhos fechados, mas após cinco minutos dentro do carro a curiosidade já começava a falar mais alto.
- Falta quanto tempo? Estou morrendo aqui.
- Já chegamos – o garoto sorriu ao estacionar o carro e fazer um carinho na mão da namorada que repousava em seu colo. Não podia acreditar que daria um passo tão grande com ela.
Ele saiu do carro apenas para contorna-lo e abrir a porta para a menina. Segurou a mão de e, sob os protestos curiosos da garota, a guiou para dentro do prédio de colunas brancas bem a sua frente e, depois, quatorze andares acima.
- Pode abrir – o coração de batia mais forte e ele ansiava para ver a reação da menina.
- Estou com medo – ela riu.
- Você está há quase uma hora falando na minha cabeça que quer olhar e agora que eu falo que pode você está com medo?
Isso era mesmo a cara de .
A garota abriu os olhos devagar e tudo que conseguia ver era branco. Deu um passo para trás e fez os olhos focarem.
Uma porta branca com o número 1401 desenhado em prata e uma chave na fechadura.
Ela conhecia aquela porta.
- É sério, pode abrir – a voz divertida do namorado repetiu a frase de instantes atrás.
Demorou alguns segundos para que entendesse que o garoto se referia à fechadura. Quando a porta se abriu, um cômodo vazio e reluzente fez os olhos de brilharem. As paredes brancas e o chão laqueado também em branco eram interrompidos apenas por um colchão de casal no chão, envolto por algumas velas e uma garrafa de vinho dentro de um balde de gelo. Na parede à sua frente, uma janela ocupava toda a sua extensão, indo de um lado ao outro e de cima a baixo, dando uma vista perfeita de todas as luzes e cores da cidade.
Então reconheceu o apartamento que visitaram há cerca de três semanas e que ela havia se apaixonado – mas que estava fora do orçamento dos dois. Não que realmente pensassem em morar juntos agora, mas era divertido olhar as casas, imaginar como seria a rotina do casal em cada lugar e pensar nas futuras possibilidades.
- O que isso quer dizer? – a voz da garota saiu trêmula ao dar o primeiro passo para dentro do ambiente.
se aproximou da garota e passou os braços por sua cintura, abraçando-a e apoiando o queixo no ombro da namorada.
- Sei o quanto você gostou daqui. Pisamos nesse apartamento e seus olhos fizeram aquilo de brilharem e ficarem estáticos, como toda vez que você tá encantada com alguma coisa.
- , o que você...?
- Posso ter me precipitado, mas oito anos juntos me parece o suficiente pra a gente morar junto. Porque, sinceramente, não me vejo em outro lugar que não ao seu lado.
Atônita era a única palavra que podia descrever a garota no momento. Ela queria se virar para o namorado, mas seus olhos insistiam em passar por cada detalhe do lugar à sua volta.
Foi quem quebrou sua agonizante indecisão – ele deu a volta na menina e parou em sua frente.
piscou algumas vezes e focou nos olhos perfeitamente e intensos, brilhando bem diante de si. Ela só podia estar sonhando.
- Não acredito que fez isso. É tão perfeito – a garota sorriu e recebeu as mãos do namorado em seu rosto, fazendo um carinho aconchegante – E não é como se você já não passasse o tempo todo lá em casa mesmo. Só vamos oficializar.
- Porque você sempre estraga o momento? – riu ao rolar os olhos e selar os lábios nos da namorada.
- É nosso mesmo? Eu posso tocar nas paredes para acreditar? – ela contraiu a boca, passando mais uma vez o olhar pela sala – Espera. A gente pode pagar esse lugar?
- Eu dei um jeito. Não se preocupe – sorriu mais uma vez e passou um dos braços pela cintura da menina. Ela tinha muitas perguntas, mas as faria depois. Adorava a praticidade do garoto e não queria “estragar o momento” mais uma vez.
- Eu nem sei o que dizer. Obrigada. Eu te amo – com a felicidade explodindo no peito, a garota quis provar mais uma vez os lábios do namorado. O beijo trazia a conhecida sensação de aconchego. Os gostos e as texturas já provados ficavam cada vez melhores. Como ela amava aquele garoto.
- Você sabe que merece.
- E o colchão?
- Vamos dormir aqui hoje.
- Achei que voltar pra casa nem fosse uma opção. Quer dizer, você não me arrancaria daqui nem à força! Mas antes eu preciso ver tudo isso mais uma vez – apontou para o corredor que levava ao restante do apartamento e não esperou a resposta do namorado para explorar novamente o local.
É claro que ela já havia estado ali, mas parecia ainda mais bonito pelo simples fato de ser seu.
O apartamento tinha uma sala de três ambientes que dividia o espaço com a cozinha por uma bancada de mármore preto. Era um detalhe bonito no meio da imensidão que se estendia entre as paredes e o chão. O corredor extenso tinha um lavabo, um banheiro e dois quartos.
A parte que mais gostava era que todos os cômodos tinham a mesma janela imensa que ia do chão ao teto. Era a junção da correria da cidade com o aconchego de sua casa, e esse contraste realmente a agradava.
Era, certamente, maior do que eles precisavam – mas era perfeito para os dois.
- Podemos usar o segundo quarto para fazer um closet. Só pra mim, é claro – a garota exclamou ao voltar para a sala e ver o namorado sentado no colchão com a garrafa de vinho entre as mãos.
- Acabei de perceber que eu esqueci as taças – fez uma careta e a sentou-se ao seu lado, tomando a garrafa de sua mão.
- É claro que esqueceu. Nós não podíamos ser tão maduros assim – riu e deu um gole do gargalo – Mas meio que é mais gostoso desse jeito.

O sorriso bobo no rosto da menina era reluzente.
Mas ele logo fora desfeito pela conhecida pontada congelante em seu coração.
- Está na hora, não está? – sua voz estremeceu pela primeira vez naquele dia.
- Gostaria de te dizer que não, minha menina.

Londres, Primavera de 2018
- Lembrança narrada por -

A Teoria do Caos consiste na ideia que qualquer acontecimento ou decisão, por menor que seja, pode trazer consequências enormes e absolutamente desconhecidas no futuro. São as pequenas peças que juntamos, montamos e desmontamos ao longo da vida e que tornam o futuro desconhecido; portanto, caótico.
Eu sempre tive medo do futuro. Seja de planejá-lo, decidi-lo ou até mesmo pensar nele. Por isso, quando me lembro dos acontecimentos daquela maldita noite de abril, acho nada menos do que irônico que o futuro tenha pregado uma peça logo em mim.

- Feliz aniversário, meu amor – a voz de saiu embolada quando pisamos fora do Lyaness. Seu bom humor era uma constante, mas quando ele estava fazendo algo por mim, essa animação genuína era sempre maior.
Tê-lo ao meu lado era, simplesmente, pura sorte e gratidão – que, muitas vezes, eu mal sabia como retribuir.
- Eu te amo. Obrigada por hoje – sorri e segurei-o pela mão para trazê-lo para mais perto e selar seus lábios em um beijo demorado.
- Achei melhor aproveitar sua felicidade esse ano. No próximo você faz trinta, e não sei se estou preparado para a crise – ele fez um biquinho engraçado e tudo que eu consegui fazer foi rir.
Era verdade. Eu provavelmente surtaria aos trinta.
passou os vinte e dois anos que nos conhecemos me ouvindo reclamar que eu nunca tinha ganhado uma festa de aniversário surpresa. Esse ano, quando eu já tinha desistido da ideia, ele finalmente me surpreendeu. Era noite de terça feira, um dia antes de eu completar vinte e nove anos, e ele reuniu todos os nossos amigos e familiares mais próximos no meu bar preferido da cidade. Ele havia me atraído pra o Lyaness dizendo que tomaríamos alguns drinks, só nós dois, para a “pré-comemoração”. E é claro que eu acreditei.
- Ainda não acabou – meu namorado entrelaçou nossos dedos e começou a me guiar para o outro lado da rua um tanto cambaleante. Ele apertava minha mão como se quisesse segurá-la para sempre.
- O que quer dizer?
- A comemoração. Tem mais uma surpresa nos esperando em casa – seus passos eram apressados e eu tentava acompanhar seu ritmo.
- Você sabe que eu seria mais surpreendida se não me contasse que teria algo nos esperando lá, não sabe?
Chegamos ao lado do carro e pareceu pensar em minha frase ao fazer uma careta.
- Podemos fingir que isso não é verdade? – o garoto indagou e eu ri, apoiando meu corpo na lataria enquanto ele parava em minha frente para pegar a chave no bolso.
Aproveitei sua distração e passei as mãos por seu pescoço, dando um beijo carinhoso em seu rosto. Ele cambaleou um pouco, com o sorriso permanente em seu rosto e as bochechas levemente rosadas.
- Tem certeza que está bem pra dirigir? Não quer que eu dirija?
- Estou ótimo. Devo ter tomado três cervejas no máximo. Vamos logo – ele deu um tapinha em minha bunda que me arrancou um gritinho e uma gargalhada.
Não demorei a me ajeitar no banco de carona do carro e abrir a janela. Era início de primavera e a cidade estava linda com mais flores do que o habitual. Ainda estava frio e a chuva se fazia presente praticamente todos os dias, mas o asfalto molhado refletindo as luzes da cidade só tornava tudo mais bonito pra mim.
Estávamos entrando no estreito atalho que mais parecia uma pequena estrada, coberta de árvores por todos os lados, que nos levaria até a rua de casa quando pensei em me virar para lembrar que havíamos combinado de jantar com nossos pais no dia seguinte.
Mas minha fala nunca percorreu o caminho entre minha mente e minhas cordas vocais.
Um lampejo intenso brilhou em meus olhos e explodiu no rosto do meu namorado antes que eu pudesse ao menos vê-lo. Um barulho pungente e enlouquecedor era tudo que eu ouvia enquanto as imagens borravam e se embaralhavam de forma que era impossível saber o que estava acontecendo.
E logo, tudo que eu via era a escuridão.
Não conseguia me mexer. Meu corpo inteiro doía e minha pele parecia estar em chamas. Tentava gritar, mas minha voz estava presa em minha garganta e eu era incapaz de fazer a mínima força pra ela sair. O cheiro forte de gasolina irrompeu no ar e o pânico começou a tomar conta de mim, engolindo meu corpo aos poucos. A escuridão deu lugar à mais imagens borradas, lembranças da noite no bar que se misturavam com luzes de diversas cores e intensidades.
E então não havia mais nada outra vez. Nem lembranças, pensamentos ou qualquer sinal de vida em mim.

A dor em meu corpo era latente. Parecia que diversas facas entravam em meus músculos e os torturavam pouco a pouco. E eu não conseguia me mexer. Porque eu não conseguia me mexer?
Senti minhas pálpebras pesadas tremerem instintivamente e alguns fechos de luz passaram até a minha íris.
- O efeito do propofol deve estar passando – ouvi uma voz ecoar ao meu lado. Era minha mãe? O que minha mãe estava fazendo ali? Eu não estava no... Onde eu estava?
Insisti mais uma vez, fazendo uma força descomunal para desgrudar as minhas pálpebras. Meus cílios estavam parecendo carregar pedras, e eu sentia meus olhos encharcados de lágrimas. Minha visão estava total e completamente turva, e o local em que eu estava era tão branco que fazia minha cabeça doer.
Fechei os olhos novamente.
- Filha? – uma mão pousou delicadamente em meu ombro, mas eu quase não podia senti-la. Definitivamente era a minha mãe. Tentei enxergar mais uma vez, dessa vez seguindo a direção de sua voz.
Uma onda de alívio percorreu meu corpo ao vê-la ao meu lado, com meu pai logo atrás. Seus olhares sob mim eram apreensivos e eu não entendia o porque.
- Ela acordou – minha mãe falou novamente, dessa vez olhando para trás, por cima do ombro.
- Como você está, ? – uma voz desconhecida reverberou pelo quarto e minha mente embaralhou um pouco mais.
- Eu estou com dor – olhei para minha mãe ao responder, minha voz saindo trêmula e em um fio.
- É normal – a voz falou mais uma vez e então uma terceira pessoa entrou em meu campo de visão. Um homem de cabelos negros, óculos empoleirados na ponta do nariz e um jaleco branco parou ao lado dos meus pais e me analisou de cima a baixo – Estamos aplicando as medicações necessárias e a tendência é apenas melhorar. Não há o que se preocupar, vocês estão bem.
Vocês?
Meu peito fora fisgado em um aperto intenso. Esforcei-me para olhar à minha volta. Vários fios estavam atrelados em meu corpo, ligados a um aparelho que fazia um bipe incessante. Eu estava, definitivamente, em uma cama de hospital.
- Você se lembra do que aconteceu, filha? – meu pai usara seu tom mais cuidadoso para indagar, mas a sua voz parecia embaralhada em meu cérebro.
Vocês.
.
Eu lembrava. Lembrava de estar no carro com ele e uma luz nos atingir em cheio. Não sabia o que foi e nem como foi, apenas que fora dolorido e desesperador.
- Um pouco – limpei minha garganta e senti mais uma vez a dor ficar ardente com o esforço – O senhor disse que estamos bem. Onde está ? Eu posso vê-lo?
O médico desviou o olhar de mim para os meus pais. Senti meu coração acelerar e o barulho da máquina confirmou isso, acelerando seu ritmo.
- Vocês sofreram um acidente sério, . É um milagre que estejam bem – o doutor estava pisando em ovos e isso só me desesperava mais. Mas, se estávamos bem, porque diabos ele não me confirmava o que eu queria saber? – Um ônibus colidiu com o carro e vocês capotaram algumas vezes. Por sorte você estava usando cinto de segurança. O Sr. ele... Ele não teve a mesma sorte. Eu sinto muito.
O oxigênio sumiu instantaneamente de meus pulmões. Minha visão voltou a ficar turva e a dor em meu peito dilacerava para todo meu corpo. Eu só podia estar sonhando e eu precisava acordar o mais rápido possível.
Eu queria gritar. Queria arrancar todos aqueles aparelhos de mim e sair gritando por aquele quarto até não ter mais voz. Meu corpo estremeceu e o frio percorreu minha espinha e então, o vazio era tudo o que eu via novamente.

Quando acordei pela segunda vez, meu corpo doía consideravelmente menos. Dessa vez, tudo o que eu sentia era a angústia no peito e o nó na garganta me sufocando.
“O Sr. ele... Ele não teve a mesma sorte. Eu sinto muito”.
As malditas e cortantes palavras ecoavam em minha mente de maneira torturante. Antes que eu pudesse perceber, as lágrimas percorriam livremente pelo meu rosto e umedeciam meus cabelos em uma velocidade impressionante. Meu choro era ruidoso e meu peito se comprimia cada vez mais.
Era difícil assimilar aquelas palavras. Como eu nunca mais o veria? Nunca mais o abraçaria, o beijaria e contaria minhas crises diárias? Como era possível não ver mais seus olhos todo dia ao acordar?
Como era possível viver em um mundo sem ?
- Mãe? – minha voz chorosa ecoou no quarto. Minha mãe dormia em uma poltrona ao lado da janela e levantou de prontidão assim que minha voz interrompeu seu sono. Seus olhos estavam fundos e inchados, como se tivesse chorado a noite toda.
- Filha, como você está? – ela percorreu a distância entre nós duas de uma só vez e limpou algumas lágrimas em meu rosto ao parar do meu lado.
- Eu não sei – a voz embargada não podia ser mais sincera. A tristeza era tão aguda que eu quase não sentia absolutamente nada.
- Tente não pensar em nada agora. Vocês precisam se recuperar.
Vocês. Novamente “vocês”. O que isso quer dizer?
- Porque ficam dizendo isso? “Vocês...” Eu achei que ...
Argh, falar o nome dele era doloroso demais para conseguir pronunciar todas as sílabas sem mais uma enxurrada de lágrimas caírem de meus olhos.
- Você não sabe? – um sorriso triste tomou o rosto de minha mãe – Você está grávida, .

Recebi alta do hospital apenas três dias depois.
Eu não sabia dizer se isso era algo bom, pois sair dali significava enfrentar a realidade. E a realidade era muito mais do que eu podia aguentar.
Recebi os pertences que foram recuperados de após o acidente. Tinha lindo um anel de brilhantes em seu bolso.
Céus, ele pediria minha mão naquela noite. E agora ele simplesmente não estava mais ali. Pensar nisso era muito mais do que eu podia aguentar.
Mas ele tinha, de fato, me deixado outra surpresa. Um bebê - o nosso bebê estava crescendo dentro de mim. E me matava, de todas as formas possíveis, o fato de que ele nem ao menos sabia disso.
Ele partiu sem me dizer adeus. Sem conhecer nossa filha.
Sem viver metade do que a vida tinha planejado para ele.
A culpa me consumia. Podia parecer loucura, mas era como eu pensava – eu podia ter evitado o acidente e o universo, então, não perderia a pessoa mais incrível que já esteve por aqui.
Talvez se eu não tivesse o conhecido e ele não estivesse naquela pequena estrada bem no dia do meu aniversário.
Talvez se eu não insistisse tanto em querer uma festa surpresa, teríamos passado o dia em casa.
Talvez se eu ao menos tivesse insistido em dirigir naquela noite.
Talvez se eu não tivesse o chutado no primeiro dia de aula ou derrubado o maldito sorvete de morango nele.
A teoria do caos.
Se tivéssemos feito pequenas coisas de forma diferente, talvez ele ainda estivesse aqui.


Ela podia sentir: estava na hora de dizer adeus.
Mais uma vez.
Céus, aquele nó na garganta só parecia aumentar ao longo dos meses.
fechou os olhos com força e quando abriu, alguns segundos depois, ele já não estava mais lá.
A garota abraçou o moletom azul em seu corpo, que vestia religiosamente ao menos uma vez todos os dias. Porque ele ainda tinha o cheiro de .
Foi a última peça que ele usou antes da jaqueta de couro no fatídico dia do acidente. A visão do garoto naquele moletom era a última lembrança feliz que tinha dele.
lembrou como dizia que adorava quando ele vestia aquele moletom; e que praticamente não o tirou depois disso.
A cor destacava os olhos de seu namorado; que, agora, eram os segundos mais bonitos que havia visto na vida.
O primeiro lugar pertencia à pequena e maravilhosa coisinha em seu colo.
Elle .
A semelhança era inegável; os olhos e os cabelos loirinhos que mal cobriam sua cabecinha eram a lembrança mais viva de que podia existir. A menina era a combinação sublime dos dois; os lábios avermelhados e o nariz delicadamente arrebitado, claramente eram da mãe.
Ela era perfeita.
Ele não pôde partir sem deixar pra o mais lindo presente. E a pequena era a ligação mais forte que ainda tinha com .
Todos os dias, a menina só podia pensar em agradecê-lo por isso. Assim como, todos os dias, a frustração tomava conta de seu corpo, pois tudo o que ela queria era contar pra ele que eles tiveram uma menina e que ela era a coisa mais perfeita que eles haviam feito nos mais de vinte anos juntos.
Dizem que quando sofremos uma perda traumática, é normal termos alucinações ou imaginarmos algo muito vividamente. Talvez isso explicasse porque, ao sentar naquele parque – o lugar dos dois, como gostavam de chamar – ela podia ouvi-lo. Senti-lo. Vê-lo. E até mesmo conversar com ele.
Mas sabia que não era simples assim.
Não era algo que podia ser cientificamente explicado ou matematicamente calculado. Não era, tampouco, fruto de seu pensamento.
Ela sabia que, de alguma forma, ainda estava ali.
E ela tinha certeza disso quando, no meio da noite, sua filha começava a chorar e tão repentinamente quanto começava, parava. E então ela podia jurar que sentia o perfume do namorado ao entrar no quarto da pequena.
Quando, mesmo sem ter conhecido o pai, Elle não continha a gargalhada ao assistir um dos milhares de vídeos aleatório de ; cantando pela casa ou fazendo qualquer brincadeira com .
Quando a garota dormia na sala no meio de um de seus filmes estrangeiros que sempre achara entediante, e miraculosamente acordava com uma manta cobrindo seu corpo.
E principalmente quando olhava fundo nos olhos de sua filha e podia, claramente, ver a olhando de volta.
A saudade era cortante. Latente. Seu coração apertava todos os dias. Ela não se lembrava da última vez que fora dormir sem derramar uma lágrima.
Mas saber que ele ainda estava ali, cuidando das duas mulheres de sua vida, acalmava um pouco seu coração.
Porque nunca existira sem – e mesmo após ter partido, ele sabia disso.
E ela não podia estar mais agradecida por ele ter puxado seu lacinho no primeiro dia de aula do colégio.


FIM


Nota da autora: Sou uma pessoa muito apegada. Por isso, escrever uma história em “tamanho reduzido” e sabendo desde o começo que o pp iria morrer foi um tanto torturante pra mim hahaha
Histórias extremamente românticas não são o meu forte, mas acabei gostando de desenvolver esse relacionamento mais doce e condizente com a realidade. Bom, em partes!
Queria contar que, no dia em que eu estava revisando exatamente a última parte dessa história, bateram no meu carro. Saí um pouco mais cedo do que o costume de casa e aconteceu. E eu estava tão absorta nesse enredo que não pude deixar de fazer a relação; se eu tivesse saído no horário normal, isso aconteceria? Pois é, A Teoria do Caos.
Obrigada pela leitura, espero que gostem e que se envolvam e se emocionem tanto quanto eu! ♥
Beijos, Ju -

Outras Fanfics:
Shades Of Cool (Restritas - Originais - Em Andamento)

Nota da scripter: Nossa, nossa. NOSSA! Não tava esperando por isso, tô no chão. Que fic mais… Amor. E triste, também. Mas confesso que gosto MUITO de histórias assim. Amei as partes restritas também, nossa. Amei mesmo! Parabéns, Ju! Ótima história, ótima escrita! <3


Essa fanfic é de total responsabilidade da autora. Eu não a escrevo e não a corrijo, apenas faço o script. Qualquer erro nessa fanfic, somente no e-mail.


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