Contador:
Última atualização: 01/02/2021

Prólogo

Ano de 2006

— Realmente precisa ir? — perguntou o menino com voz de choro.
— Minha vozinha precisa de mim, — a menina se explicava pela milésima vez. — Também não queria ir — suspirou triste —, mas a saúde dela não está nada bem pelo que mamãe diz.
— Promete não me esquecer?
A melhor amiga se controlou para não rir.
— Eu prometo — ela Levantou o dedo mindinho. — Você promete?
— Prometo, — ele suspirou. — Vamos ser melhores amigos para sempre.


Ano de 2010

— Oi, — o menino escutou a mãe de sua melhor amiga falar no outro lado da ligação. — A não está em casa agora.
— Oi, tia. Sério? — murmurou, triste. — Que horas ela volta?
— Só amanhã, menino — a moça disse, com voz de tristeza. — Assim que ela chegar, eu aviso que você ligou, ok?
— Tudo bem, tia — desligou o telefone sem esperar que a mulher se despedisse. — Pelo jeito você foi trocado, .


***


— Oi, tia Nick — a menina falou, contente por finalmente conseguir falar com a família de seu melhor amigo. — Estou ligando tem alguns dias e ninguém atende.
— Oi, — a criança franziu a testa, pois nunca foi chamada desse jeito pela moça. — Posso te pedir um favor?
— Claro!
— Pare de ligar para o — desligou sem esperar a menina falar alguma coisa.


Ano de 2016

— Vamos, , por favor — seus amigos estavam implorando para que a menina fosse assistir Capitão América: Guerra Civil com eles. — A gente paga seu ingresso e sua pipoca.
— Ai, gente... — ela murmurou. — Eu não assisti a nenhum filme — deu de ombros. — Muito menos sou chegada a super-heróis.
— Por favor, — seu atual melhor amigo se ajoelhou à sua frente. — Eu não quero ficar de vela.
— Está bem. Eu vou — suspirou, derrotada. Então, olhou para a câmera de seu celular: — Hoje vou assistir, ou tentar, o novo filme da Marvel. Quem também vai?
— A blogueirinha, sempre fazendo snaps... — um de seus amigos chegou, a caçoando. — Está na hora. Vamos?
— Tenho outra opção? — ele negou com a cabeça. — Então vamos.
— Hoje vai aparecer o novo Spider-Man — uma das meninas que estavam com eles disse, animada.
— De novo mudaram? – a morena perguntou, indignada. — É por isso que não tem graça, muda de ator todo dia.
— Tira essa máscara, menino — a menina escutou seus amigos resmungarem. — Ai...
?! — a garota gritou, fazendo todo mundo olhar para ela.


Capítulo 1

Chegou o grande dia, o dia que estava esperando intensamente. Finalmente estou voltando para minha tão amada Londres, mesmo não sendo definidamente.
Estava indo para gravar um vídeo tão esperado pelos meus seguidores. Toda vez eu que batia uma meta de inscritos, fazia uma entrevista com um famoso que eles escolhiam. Então era por isso que, depois de exatos trezes anos, eu estava pisando ali novamente. Depois de deixar minha vida, minha segunda família, meus amigos e ele.
Da penúltima ligação que fiz, não entendi o porquê da mãe dele, que tanto admirava e que apoiava nossa amizade, ter feito aquilo. Se me perguntassem se existia arrependimento de não ter ido atrás dele quando meus pais iam visitá-los, diria “com certeza” sem pensar duas vezes.
Já estava no auge dos meus vinte e três anos; não era mais uma menina que ligava para que os outros diziam. O que mais importava para mim era o que meus pais achavam. É por isso que estou indo lá, para falar que me arrependo de ter desistido da nossa amizade.
? — , minha empresária e melhor amiga, sentou-se ao meu lado. — No que tanto pensa?
— Medo — suspirei. — Faz tanto tempo que não venho aqui... Mesmo estando informada pelo que meus pais falam, sinto que existe mais alguma coisa, sabe?
— Isso tem alguma coisa a ver com o ?
Todos próximos sabiam da minha história com e do afastamento repentino da amizade gerado por mim.
— Sim. Estou com medo da reação dele, por mais que sei que corro o risco de ele não me reconhecer. Mas e se?
— É, corre esse risco mesmo — ela riu fraco de minha reação. — Mas, se ele ainda for aquilo tudo que fala, tenho certeza que não terá uma reação ruim.
— Está bem — sequei as lágrimas que caíram durante a conversa. — Pode avisar que chegamos.
Enquanto nosso convidado não chegava, ficamos arrumado o cenário e resolvemos os únicos detalhes.
— Desculpe-me o atraso — uma voz disse depois de ter aberto a porta. — Tivemos um contratempo durante o caminho.
— Tudo bem — deu espaço para eles entrarem. — As meninas estão terminando de ajeitar as câmeras.


***


— Hey, — acenei para a câmera assim que deram a confirmação que a entrevista havia começado. — Depois de muitas cobranças sobre a “comemoração” de um milhão de inscritos, chegou a hora de cumpri-la — fiz aspas com os dedos e sorri, ainda olhando para a câmera. — Hoje, para o quadro de perguntas aleatórias, , porém mais conhecido como o Homem-Aranha — me virei em sua direção. — Oi, , como você está?
— Oi, Brasil — ele acenou para câmera. — Estou bem, e você? É um prazer estar aqui.
— Estou bem feliz por ter aceitado — sorri. — Me conta como foi sua experiência na primeira vez que foi ao Brasil, para o começo.
começou a narrar sobre as experiências que viveu e óbvio que fiquei mexida, porque queria estar com ele naqueles momentos. Estar perto dele novamente era uma sensação totalmente estranha, mas boa. Fazia tanto tempo que tive a certeza que ainda existia um sentimento dentro de mim. Sim, com dez anos eu era apaixonada pelo meu melhor amigo.
— Bom, pedimos para seus fãs mandarem perguntas e selecionamos apenas cinco de milhares — ri pelo nariz. — Pronto?
Ele respondeu que sim, movimentando a cabeça.
— Como é ser o herói mais irônico de todos os tempos?
— Hm... É ótimo, sempre sonhei em ser o Homem-Aranha quando era criança. E quando essa oportunidade veio, foi como o maior sonho realizado. A Marvel e a Sony têm sido ótimas fazendo esse processo ser o mais agradável e informativo possível. Estou super animado para os próximos passos.
— Como você descobriu que seria o Homem-Aranha?
— Fiz uma audição durante cinco meses e, no teste final, eles falaram que o resultado sairia no dia seguinte — riu, se ajeitando na cadeira. — Passaram seis semanas e eu ainda estava esperando o resultado. Um dia, a Marvel postou, “vá ao nosso site e descubra quem é o nosso novo Homem-Aranha.” E foi assim que descobri, ninguém me ligou ou nada disso.
— Nossa — o acompanhei com uma risada.
— Meu irmão Harry, super experiente com tecnologia, me olhou e disse, “provavelmente eles foram hackeados, mano! Telefonariam para você, certo?”. Então, entrei em contato com meu agente e ele confirmou.
— Essa é uma história que vai ser contada por todas as suas gerações, — fiquei assustada por ter deixado o apelido sair.
— Pode me chamar assim — tranquilizou-me.
— Está bem — sorri fraco. — Próxima pergunta. Essa foi a mais perguntada, né ?
— Sim, sim, tinha umas trinta ou mais como essa — ela respondeu.
— Qual foi o melhor conselho que recebeu quando conseguiu o papel?
— Essa é uma boa pergunta. O melhor conselho, provavelmente, veio do meu pai. Ele sentou comigo e disse, “filho, sua vida está prestes a mudar. As pessoas vão começar a falar com você de formas diferentes.” Mas também teve uma pessoa muito importante para mim, pai de uma antiga amizade, que disse quase a mesma coisa que meu pai. “Como seu pai disse, vão ter pessoas que irão se aproximar de você por interesse, mas quero te dizer que é para continuar com os pés no chão e para ser esse que conhecemos antes da fama”... Podemos mudar o assunto? — perguntou, recebendo um copo d’água de . — É complicado.
— Claro — sorri fraco, engolindo o choro por saber a quem se referia. — Quanto tempo durou para se preparar para o personagem Peter Parker?
— Essa é fácil. Há vinte e três anos — gargalhou, fazendo todos os presentes rirem também. — Brincadeira à parte! Mas venho me preparando desde que me conheço por gente! Comecei a fazer aula de dança, mais especificamente ballet, quando era pequeno. Também faço ginástica, pratico muito parkour e, quando soube das audições para o papel do teioso, me dediquei mais ainda nas acrobacias, e bem, acho que deu certo — sorriu com os olhos.
— Vamos para a última parte da entrevista, ok? Pois já está chegando ao fim — fiz bico. — No Brasil, nós temos uma brincadeira chamada “Eu Nunca”. Vou ler algumas perguntas que também foram feitas pelos fãs e, se você já fez, vira a parte verde. Se não fez, vira a parte vermelha. Ok?
— Está bem — ele se ajeitou na cadeira novamente. — É para ficar com medo?
— Talvez um pouco — brinquei. — Vamos lá. “Eu nunca saí de casa sem que meus pais soubessem.”
— É, bom... Pra ser sincero, não. Nunca senti vontade de sair de casa, apesar dos pesares...
— Te entendo — e como entendo. — “Eu nunca chamei para sair ou pedi o telefone de uma fã.”
Ele coçou a cabeça, sem graça.
— Mentira! — exclamei. — Conta essa história.
— Já chamei pra sair — riu, ainda com vergonha. — Inclusive, a levei para uma balada no Brasil. Foi muito divertido, mas não tivemos mais contato.
— Tô passada — falei, rindo. — “Eu nunca tive vergonha de algum trabalho meu.” Posso dizer que tenho vergonha dos meus vídeos do começo de minha carreira. Mas não apagaria, porque me trouxeram para onde estou.
— De filme, não. Eu amo todos os papéis que desempenhei e sou grato a todos.
— Por fim, “eu nunca fiz xixi nas calças, por medo ou nervoso.”
— Claro que não. Sou mega corajoso, só não coloque uma aranha perto de mim.
— Aranha? Não me diga que o Homem-Aranha tem medo de aranha.
— Sim — riu.
— Isso fica para a próxima, porque, infelizmente, chegamos ao fim desse vídeo. Se gostou, deixe seu joinha, e se não é inscrito no canal, se inscreve e ative o sino que está logo aqui embaixo para receber a notificação dos vídeos postados — falei e me virei em sua direção. — , queria agradecer por ter topado fazer esse vídeo. Sei que não é muito comum aqui.
— Sempre é bom inovar, certo? — sorriu, piscando. — Queria agradecer aos fãs que votaram em mim, e também fazer uma proposta.
— Uma proposta? — perguntei, supresa.
— Se esse vídeo bater novecentos mil likes, trago o Robert Downey Jr. no canal — disse, fazendo-me arregalar os olhos. Conhecê-lo era meu maior sonho.
— Ai, meu Deus! — falei, nervosa. — Por mim, pode ser. ?
— Isso é ótimo, , pode sim!
— Então, se esse vídeo bater novecentos mil likes, e Robert Downey Jr. vão fazer um quadro aqui do canal. Beijos, meus amores. Deseja falar alguma coisa? — perguntei, olhando para ele.
— Um beijo enorme para meus fãs do Brasil. Espero vistá-los em breve.


Capítulo 2

Fazia dois dias que a entrevista havia acontecido com . Nesses dias, fiquei me perguntando se nossa amizade não foi o suficiente, por mais que fossem treze anos que nos vimos pessoalmente pela última vez. Não teria mudado tanto, ou teria?
— Vamos, ? Já estamos prontos.
— Ah, claro — sorri, pegando minha bolsa em cima da cama. — Vamos comemorar que nosso menino está ficando mais velho.
Para aproveitar a última noite na cidade britânica, resolvi levar meus amigos a uma das casas noturnas que, de quebra, ainda servia para comemorar o aniversário de .
— Eu não estou ficando velho, só estou…
— Ganhando mais experiência — falou junto comigo, revirando os olhos. — Já decoramos essa fala, .
Como todo mundo, estava tendo a crise dos vinte e cinco anos. Era engraçado de se ver, mas eu não podia zoá-lo muito porque faltavam dois anos para chegar ao meu.
O táxi já nos esperava na porta do hotel. Resolvemos ir de táxi – e não com o carro que havíamos alugado –, porque tínhamos noção que iríamos beber. Informei ao motorista o endereço.
— Espero que essa balada seja boa mesmo, viu, dona ?
— Essa é uma das melhores — respondeu o taxista. — Sempre estou levando passageiros para lá.
Dei língua para ele. O caminho foi totalmente descontraído; teve palhaçadas, stories, fotos... Até o taxista entrou na onda e tirou algumas fotos com a gente e da gente.
— Bem vindos à XOYO — falei assim que descemos do carro. — O paraíso dos anônimos e das figuras públicas de Londres.
— Isso quer dizer que...?
— Não pode me fazer passar vergonha, .
— Quando foi que te fiz passar vergonha? — perguntou, indignada.
— Preciso mesmo dizer?
Quando era pequena, uma colega de escola havia feito uma festa naquela casa antes de torná-la uma boate. Ela havia mudado completamente: tinha nova decoração e novos ambientes. Mas as cores e a animação continuavam as mesmas.
— Para começar, vamos pegar bebidas? — perguntou já animado com o local, após achar um lugar para se sentar.
— Sim.
— Vou contigo, — levantei-me para acompanhá-lo. — Como está sendo seu aniversário?
— Um dos melhores, , obrigado.
Ver feliz me trazia uma sensação maravilhosa, pois, depois que terminamos, ele havia mudado muito. Pensei que não iríamos conseguir ficar de boa, mas estava me surpreendendo. Ele era importante para mim.
— Reino Unido tem dessas — dei de ombros. — Tudo é mágico aqui. Estava morrendo de saudades — suspirei. — É como se eu me sentisse em casa, sabe?
— Mas sua casa é no Brasil, — disse, pedindo o cardápio.
— Não, minha vida é no Brasil. Mas minha casa sempre vai ser aqui.


, querida?
— Estou aqui no quintal, mamãe!
— O que você está fazendo, minha menina? — perguntou, chegando perto e agachando-se ao meu lado.
— Desenhando — suspirei. — Para a vovó.
No papel, tentava desenhar o mais próximo de um jardim de gérberas – as flores preferidas dela – com uma senhora e uma menininha. Não sabia o que eram gérberas até ela me mostrar. Também não soube desenhá-las, deixando-as bem parecidas com margaridas.
Mamãe suspeitou quando vi seus olhos cheios de lágrimas. Talvez o suspiro fosse para que elas não caíssem.
— Você sente muito a falta dela, não é? — disse, passando a mão em meu cabelo.
— Minha vozinha não é só a flor mais bonita do eu jardim, mamãe — sorri, desenhando. — Ela é o jardim. Aprendi na aula de Ciências que as plantinhas precisam ser cuidadas para ficarem bonitas, e a vozinha precisa de mim — falei, triste, pegando outro lápis de cor.
— Eu não tenho dúvidas disso, meu anjo. É por isso que vamos viajar para cuidar dela. O que acha?
A surpresa foi tão grande que acabei borrando a pintura, mas, naquele momento, nem liguei. Nada mais importava. Eu veria minha avó e lhe daria um desenho melhor.
— Sim, meu amor. Ela precisa de companhia. Cá entre nós, que companhia é melhor que a sua? — proferiu, com um sorriso largo no rosto. As lágrimas já não tinham mais espaço.
— Se for ficar com ela, vai melhorar, não vai? — voltei a pintar, enquanto esperava sua resposta.
— Vai sim, vai ficar tudo bem — respondeu depois de um tempo. — A sua avó é a mulher mais forte que eu conheço. E quer saber de uma coisa? Quando sua vozinha melhorar, vamos fazer um piquenique lá no jardim. Só nós três.
— Vamos fazer uma torta de maçã para comer! — falei, animada. — Eu amo torta de maçã. Mas mamãe — suspirei, desanimada —, se vamos morar com a vovó, isso quer dizer que...
— Vamos nos mudar para o Brasil, minha pequena.



Depois que cresci, escutei muitas vezes que a felicidade era passageira. Só não imaginava que ela passaria correndo. Naquele dia, alegrava-me saber que veria minha avó e a cuidadora dela. Mas me entristecia saber que, para isso, teria que deixar a vida que tinha aqui em Londres.
— Você está bem?
— Ah, sim — limpei a lágrima que insistiu em descer. Lembrar da vovó era um assunto que me tirava do eixo.
— Estava se lembrando dela, né?
— Sim — sorri fraco. — Essa música me traz lembranças do dia que descobri. Mas não vem ao caso agora. É seu aniversário e temos que comemorar.
Pegamos as bebidas que ele havia pedido e fomos na direção onde estava sentada. Mas, naquele momento, ela não estava mais sozinha; estava acompanhada de dois rapazes. Essa menina era rápida.
— Demorei, mas cheguei — falei, rindo. — Sua bebida, babe.
— Obrigada, — ela pegou a bebida de minha mão. — Meninos, essa aqui é a , a menina que eu estava dizendo. , esses são Harry e Sam, irmãos do .
Travei no mesmo lugar que estava. Quando me mudei, os gêmeos tinham sete anos e, hoje, já haviam se tornado homens. Aquilo me fazia sentir velha todas as vezes que via suas fotos. Com eles na minha frente, a sensação estava mais forte. Eles estavam lindos.
— Espero que tenha dito só coisas boas — sorri, nervosa. — Prazer, meninos.
— A gente se conhece? — perguntou Harry. Seu rosto não dava para esquecer. — Parece que já te vi em algum lugar.
— Não — respondi rápido. — Deve ser impressão.
— Pode ser — Sam deu de ombros. — Vocês são do Brasil, certo?
— Sim. Não — respondemos juntas, fazendo os meninos ficarem confusos.
— Somos do Brasil, mas a é britânica igual vocês.
Respirei fundo para não cometer um homicídio contra minha melhor amiga. Percebi que ela realmente não conseguia controlar as palavras.
— Nasci na Inglaterra, mas, quando era pequena, precisei ir ao Brasil por conta do trabalho do meu pai — omiti o verdadeiro motivo. Contar o real seria um tiro no pé, porque já havia botado a boca no trombone demais.
— Tivemos uma amiga que também teve que ir ao Brasil, mas foi para cuidar de sua avó.
Sam disse, tomando sua bebida e fazendo-me engolir seco. Então eles se lembravam de mim. Será que Paddy também se lembrava? Eles eram tão pequenos.
— Vocês ainda têm contato com ela? — perguntou e eu olhei feio para a cara dele.
— Não. Quem tinha mais era meu irmão . Eles eram melhores amigos — Harry disse, fazendo-me suspirar. — Mas não sei por quê perderam — ele olhou para atrás de mim. — Vamos mudar de assunto, está vindo. E tudo fica muito estranho quando o assunto é ela.
Puxei pelo braço, dando a desculpa que íriamos ao banheiro.
— Você está maluca? — perguntei assim que ficamos longe deles. — O Harry quase me reconheceu!
— Não, não estou maluca, — ela revirou os olhos. — Você veio do Brasil com “vou atrás dele, vou contar tudo o que aconteceu”, mas não te vejo movendo um dedo.
, presta atenção. não se lembra de mim. não tem por quê eu ir atrás. Eu vim sim motivada para contar as coisas. Mas por que falaria se o garoto nem me reconheceu? Queria que eu chegasse e falasse o quê? “Oi, então, sabe aquela menina que brincava com você na infância, que saiu do país e parou de falar contigo de repente? Sou eu.”
Ela me olhou com uma cara de “é isso mesmo que você tinha que fazer.”
— Mas não tenho mais coragem — suspirei.
, presta atenção. Eles se lembram de você. Então volte para lá e diga o que acabou de me dizer.
— Perdão — um sotaque britânico surgiu atrás de mim. — O que disse? Você é a nossa ?


Capítulo 3

Sabe quando seu coração parece que vai explodir? Quando sente que sua vida está por um fio, prestes a arrebentar? Está bem que vim do Brasil com a intenção de me explicar, mas, quando vi que nada estava do jeito que eu tinha imaginado, fiquei sem chão.
— Não, Sam — minha amiga disse quando percebeu que eu não conseguiria falar nada. – É que ela encontrou umas amigas de quando morava aqui.
— Ah, claro — ele sorriu triste. — Seria muita coincidência que você fosse a .
— Pois é — ri de nervoso. — Vamos voltar para a mesa?
— Mas a gente nem...
...
Apenas a encarei, implorando para que saíssemos logo dali. Ela ficou relutante, mas entendeu. Sam ficou, bom, pelo menos não foi até lá para escutar a minha conversa com a .
Aquilo me deixou mal. Queria muito tê-los por perto como sempre tive até meus dez anos. Sei que deveria ter dito a verdade de cara, mas não queria que fosse assim, no meio de uma festa. Também precisava admitir que me faltou voz quando escutei a pergunta.
— Ele ainda está lá? — perguntei pela milésima vez.
— Sim — bufou. — , viemos para aproveitar o aniversário do e não estamos com ele. Pode parar de criancice? Vamos para lá.
— Está bem — suspirei. — Mas...
— Sem “mas”...
— Ok.
Nunca, depois de crescida, tive minha opinião trocada rapidamente. Sempre fui decidida no que queria. Mas encontrar com e ele não me reconhecer foi como se tivessem tirado o tapete rápido e eu tivesse que continuar em pé. Tudo o que eu queria era sua amizade de volta, mas o meu orgulho era maior. E, na real, vou voltar amanhã mesmo para o Brasil. Qual a porcentagem de acontecer alguma coisa?!
? O está falando contigo?
— Ah. Quê? Ah, sim — sorri fraco, lembrando que já havíamos chegado na mesa. — Desculpa, só estou um pouco pensativa. Mas o que disse?
— Soube que você é britânica. Por que não disse isso na gravação?
— Porque não vi necessidade — dei de ombros, mas logo percebi que fui grossa. — Desculpa, eu não ia chegar e dizer, “olha, sou britânica também.” Seria muito sem nexo.
Acho que todos perceberam que eu não estava confortável naquele assunto. Os meninos logo começaram outro assunto sobre golfe não ser muito comum no Brasil, porém existiam lugares para se jogar e que com certeza frequentava.
— Quais foram os melhores países que você já conheceu?
— Olha, para ser bem sincera, o Brasil. Pode ter o defeito que for, mas é um país lindo.
— E como é ser digital influencer? — perguntou , animado. — Deve ter mais responsabilidade do que ser ator.
— Tem muita responsabilidade mesmo, porque, como diz o nome, influenciamos as pessoas com anúncios. Temos que ter as postagens pensada duas vezes, porque podem levá-las com má intenção. Mas não acho que temos mais peso nas costas do que os atores. Porque tive essa conversa com alguns amigos famosos do Brasil que são atores, e eles disseram que, se fizerem alguma besteira, a carreira é arruinada. Então, acho que ambos têm suas responsabilidades de maneiras diferentes.
— Como soube que queria seguir essa profissão? — Sam perguntou ,mostrando-se interessado no assunto. — O , por exemplo, sempre soube que queria ser ator.
— Foi meio do nada. Comecei fazendo vídeo para ajudar pessoas que passaram pelas mesmas dificuldades, que iam passar ou que queriam se aventurar com isso. Então, quando vi, eu já tinha patrocinadores, assessoria, fazendo vídeos de recebidos, fã-clubes...
Ficamos conversando por muito tempo, até que os funcionários da XOYA pediram educadamente para nos retirarmos porque o lugar estava fechando. Na saída, nos despedimos e entramos em táxis diferentes. Não trocamos números nem nada, cada um seguiu para seu canto.
Foi bom esse tempo que passei com os meninos. Era uma saudade que existia e ainda existe dentro de mim. Mas o melhor era cada um na sua zona de conforto.


...
— Oi, — falei, passando meus cremes antes de dormir.
— Quando a história com os se resolver, coloca o Harry na minha fita?


Capítulo 4

Ano de 2001

Hoje era o primeiro dia de aula. Estava muito nervosa, nunca havia ido em uma, mas escutava minhas primas dizerem que era chata. Eu teria o primeiro contato com pessoas novas que não eram do círculo da minha família. Como dizia papai, começaria uma nova fase na minha vida. Mas e se eles não gostassem de mim? Julia disse que eles eram cruéis. E se eu não conseguisse me enturmar igual meu primo Júlio? E se eu caísse feio no recreio, igual mamãe disse que caiu no primeiro dia dela? E se eu encontrasse com um palhaço e me mijasse de medo?
? — mamãe bateu levemente na porta do meu quarto, se assustando por me ver acordada.
— Não consegui dormir — disse, sincera.
— Por que, meu anjo? — ela sentou-se na bera de minha cama. — Se for por medo, não fique, minha filha. Você é uma criança maravilhosa, vai fazer todos gostarem de você.

O lugar era todo colorido, com vários desenhos na parede da fachada. Na parte de dentro, era cheio de brinquedos e crianças da minha idade com seus pais.
, quer que fiquemos aqui com você enquanto não entra? — papai perguntou, agachando-se e ficando na minha altura.
— Não, papai. Sou grandinha e posso ficar sozinha.
— Está bem, minha menina grande — mamãe disse, rindo com os olhos cheios de lágrimas. — Mas, antes de ficar sozinha, vamos procurar o número da sua sala, entendido?
— Entendido.
Agarrei as mãos de meus pais, indo procurar a minha turma. Cada passo que dava era uma pessoa nova olhando na minha direção. Mamãe disse que era porque eu era aluna nova e que isso sempre acontecia quando tinham pessoas novas. Mas eu não gostava dessa atenção.
Uma moça se apresentou como Gabriela, disse que seria minha professora durante meus anos no pré-primário. Sabe, eu tinha gostado dessa professora. Ela não tinha cara de bruxa igual minhas primas falaram que as delas têm.
Professora Gabriela pediu para eu me se apresentar. Todos olharam para mim e eu morri de tanta vergonha. Mas o que me deixou tranquila foi que não fui a única. Todos os meus amiguinhos de classe eram novos.

Era a hora do lanche, com certeza minha parte favorita. Estava acostumada a comer toda hora que podia, e só poder comer na hora que era recomendada não era bom.
Havia crianças maiores que eu, que cheguei à conclusão que seriam de séries maiores que a minha. Peguei minha lancheira da Moranguinho e fui na direção de uma mesa que a Tia Gabi disse que podíamos sentar.
— Oi — um menino parou ao meu lado,junto com sua lancheira do Homem-Aranha. Ele era da minha sala, mas não me recordava de seu nome. — Sou . Posso sentar com você?
— Claro — sorri, amigável. — .
Estava me sentindo animada. Havia feito um amiguinho com quem compartilhava os mesmos gostos. Quando Tia Gabi nos chamou, ele veio se sentar ao meu lado. queria me contar como era o Homem-Aranha, porque eu tinha dito que não gostava dele por conta dos meus primos. Contei como era o Brasil, pois minha família por parte de mãe morava no país tropical. O que era isso? Não sabia.

— Como foi a escola, meu bem?
Estava na hora do jantar. Minha família, que morava perto da gente, se reuniu toda para saber como havia sido minha adaptação no colégio. Contei sobre a professora, sobre como era minha sala, o parquinho... Contei também sobre a menina da minha sala que chorou porque estava com saudades dos pais, e que eu a ajudei, falando que em breve ela estaria com os pais.
— Foi só isso, babe?
— Sim, papai — bebi meu suquinho. — Ah! Fiz um amigo.
— Sério?
— Sim, ele é até legal.

Depois daquele dia, e eu nunca mais nos separamos. Descobrimos que também éramos vizinhos; aí sim nossa amizade foi crescendo mais. Nossos pais começaram a ser amigos também, então tudo o que fazíamos, os também estavam juntos. Foi até bom. Assim, tive a certeza que nunca sairia da minha vida.


Capítulo 5

INSTAGRAM

@subcelebridades: Que a faz tudo, nós todos sabemos. Hoje acordamos com um vídeo m-a-r-a-v-i-l-h-o-s-o de comemoração de um milhão de inscritos que foi gravado no início desse mês com o . Assim que todos acabaram de assistir, entrou nos Trending Topics do Twitter, porque tanto os fãs dela como os dele perceberam um clima no ar. Podemos dizer que estamos à espera de um novo casal? Ainda não há nada concreto, mas a única coisa que sabemos é que queremos saber a continuação dessa nova história.

@subcelebridades: Vídeos antigos sempre acabam ajudando no futuro, não é mesmo? Olha esses pequenos pedaços que encontramos da dizendo que o é o crush dela desde sempre e que se casaria com ele.

@subcelebridades: OPA, novo capítulo de veio mais rápido que imaginávamos. @ começou a seguir nossa brasiletânica (brasileira + britânica) e gostar de todas as fotos possíveis da menina. Hey, , estamos torcendo para você soltar uma informação sobre isso, okay?


estava há meia hora lendo o que falavam sobre mim e ficava com a cara cada vez mais fechada. Às vezes, eu ficava com medo toda vez que meu celular – ou o dela – apitava. O do , coitado, já estava até travando. Não estava acreditando que um mini-vídeo causaria um rebuliço em dois fandoms do nada.

: Oi, meus amores. Nunca venho dizer isso aqui, mas algumas coisas passaram do limite.
: Quando sugeri o vídeo de 1M de inscritos, eu não escolhi o famoso, foram vocês. Então, não teria como me aproveitar da carreira do entrevistado.
: Eu e o só nós falamos naquele dia e só, então parem de inventar besteiras com o meu nome ou com o dele. Obrigada.

, pega — minha amiga me entregou meu celular, depois de bloqueá-lo e ocultar tudo o que tivesse relação a esse assunto. — Tem uma mensagem para você.
Fiquei desacreditada ao ver quem havia mandado a tal mensagem. Tudo o que estava acontecendo, as fofocas e as suposições de um tal relacionamento entre mim e ele chegaram aos ouvidos de quem eu mais temia. Se eu bem o conhecia, ele se sentiu se culpado. Se você pensou em: , acabou de acertar.
Hesitei por uns segundos antes de olhar a mensagem. Será que eu deveria lê-la? O que estava me mandando? Sinceramente, não sei se estava com cabeça para isso agora. Desbloqueei e bloqueei o celular infinitas vezes e a coragem não vinha. Até que resolvi finalmente olhar.

“Heey, , como vai? Antes de qualquer coisa, sinto que eu lhe devo desculpas pelas mensagens e os comentários que as pessoas estão fazendo sobre ‘nós’. Eu não sabia que aparecer em um vídeo seu fosse causar tanto alvoroço. Mas me perdoe, não queria que você passasse por isso. Me sinto um pouquinho culpado, porque todo mundo viu que eu estava tendo vontade de ter algo com você, brincadeiras à parte! Mas como estão as coisas aí?”

continuava sendo o doce, sincero, atrevido, engraçado e adorável garoto que eu conheci há muitos anos. Era realmente gratificante saber que tudo o que Nicola e Dominic ensinaram a deu certo. E que mesmo sendo um astro super conhecido por todos, ele ainda deveria ser um garoto doce e gentil.

@
Oi, , vou bem e você? Quê isso, não precisa pedir desculpas, isso acontece. Ainda mais que todos seus fãs brasileiros sabem que tenho um puta crush em você... Mas as coisas estão ótimas, e aí? Como vai minha querida Londres?


@
Ainda bem hahaha. Mas Londres continua linda e iluminada. Estamos no outono agora, então você sabe. As folhas estão caindo, está tudo lindo. E como estão as coisas no Brasil? A primavera no Brasil é realmente linda

@
Como você sabe que estamos na primavera?

@
Andei pesquisando uma época...

@
Sei... Mas a primavera é bem linda mesmo, mas preferimos o verão

@
Até imagino o porquê 🤪
E quando vai visitar a querida Inglaterra novamente?

@
Quando bater a meta de likes, fofinho

@
Ah, sim...

@
Por quê? Já está com saudades, ?

@
Sim
Quer dizer, não
É que gostei da companhia de vocês

@
Minha, da e do ?

@
Sim


Não sei quantas horas fiquei falando com ele. Realmente, agora que caiu a ficha o tamanho da falta que ele fazia em minha vida. Nunca consegui entender o motivo da tia Nikki ter me obrigado a fazer aquilo. Eu era só uma criança que estava querendo falar com o amigo. O que também não fazia sentindo era que só eu tinha perdido contato. meus pais frequentam a casa deles sempre quando dá para ir a Londres. Por que só comigo isso aconteceu?

, você precisa fazer um stories mostrando essas roupas — disse, jogando-as em cima de mim. — Vamos parar de fofocar, namorar, sei lá o que está acontecendo aqui. E você... — apontou para o . — Vem comigo para ajeitar os últimos detalhes do próximo vídeo.


***


Depois que resolvi com a , decidi arrumar meu quarto porque estava na bagunça. Enquanto abria e fechava gavetas, acabei deixando uma caixa que estava escrito “para o do futuro” cair no chão. Me lembrava completamente do que existia dentro dela e fazia tempos que não a tocava, para falar a verdade. Acho que era primeira vez desde quando a guardei dentro dessa gaveta.
O pequeno objeto carregava muitas lembranças da minha infância, especialmente da . Me perguntava o motivo de ela ter parado de entrar em contato. Nós tínhamos um trato, não tínhamos? Às vezes, me pegava imaginando como ela estaria, mas, logo depois, ficava com raiva de mim mesmo por estar me lembrando dela. A garota havia abandonado as amizades britânicas e trocado-as pelas do Brasil, e isso gerou o meu esquecimento.
Carreguei a caixa até minha cama e tentei abri-la, mas parece que o do passado a prendeu muito bem. Eu não conseguia abrir por nada, até ver que tinha uma fechadura. Ótimo, do passado, onde você enfiou a chave?
— Então quer dizer que você está namorando? E não fala para seu irmão.
— O que teve aquele dia? Eu estava o tempo todo e não notei nada.
— Acabou com as chances do Harrison.
Harrison, Sam e Harry simplesmente invadiram meu quarto com milhares de perguntas sobre o que estava acontecendo. Realmente, eu já sabia que isso ia chegar nos ouvidos deles ou dos meus pais. Olhei confuso para eles, porque sabiam tudo o que aconteciam comigo. Até quando levei um pé na bunda ficaram sabendo, e foi quando começaram a gargalhar.
— Filhos da mãe — resmunguei, tacando um travesseiro em Harry. — O que vocês querem?
— Te perturbar — eles falaram juntos. — Isso é muito bom.
Eles se aproximaram da minha cama enquanto eu tentava esconder a caixa debaixo dos lençóis, mas...
— Hey, o que é isso debaixo do seu lençol? — perguntou Harrison.
— Merda — sibilei baixinho. Minha tentativa de escondê-la falhou miseravelmente.
, essa não é a...
— Harry, Sam, , desçam aqui! Seu tio Carter chegou.
Fazia um mês que não eu não via o tio Carter. Acho que a última vez foi no meu aniversário. Ele vinha todo dia primeiro para Londres porque tinha uma filial da empresa aqui. Tio Carter era o pai da . Só eu e ela nos afastamos; nossa família não, e isso era uma das coisas que mais me entristecia. Desde que as viagens constantes começaram, nunca o acompanhou. Tudo bem que ele ou sua mãe não podiam deixá-la por conta da escola. Mas e quando se formou? Se tornou adulta? De qualquer forma, minha mãe pediu a ele que evitasse de falar sobre ela quando estava presente.
— Tio! — Harrison exclamou ao vê-lo. Se tinha uma pessoa que adorava Carter mais do que eu, era o Harrison. — Como o senhor está?
— Ai! — o mais velho bateu no peito em sinal de drama. — “Senhor” não, por favor. Já basta os cabelos brancos. Vou bem e vocês?
Uma coisa que eu mais gostava nele era seu jeito engraçado de levar a vida. Sempre fazia piadas com tudo que acontecia à sua volta. Quem o visse nem perceberia que ele era um empresário muito sério e rígido quando queria.
— Tenho uma coisa para vocês que foi mandado diretamente do Brasil.
— Por quem? — Paddy perguntou, largando o videogame.
Outro detalhe sobre o Tio Carter: ele sempre vinha com os melhores presentes do Brasil. Geralmente chocolate, só quando era aniversario que não.
— Brigadeiro? — Sam desceu as escadas correndo. — Diz que é, tio!
— Vocês não estão curiosos para saber quem mandou? — perguntou diretamente para mim e Harry.
— Já sabemos que foi a tia Ângela — falamos juntos.
— Outra pessoa que não poderia ser... — completei, sentando-me ao lado do meu irmão mais novo.
Ele murmurou baixo um “você que pensa”, me fazendo respirar fundo, porque realmente entendi que o presente era da . Isso me fazia pensar que, uma hora ou outra, iríamos nos reencontrar e eu não poderia fugir. E isso me dava nervoso, porque não conseguia imaginar como seria minha reação. Eu era muito imprevisível. Podia ser explosivo, carinhoso, ou até indiferente. Só saberia quando realmente acontecesse, e esse era o meu maior medo.
— Como vão as namoradas, ? Quantas pessoas ainda chamavam o pai de papai? Comecei a me questionar e meu coração se acelerava com a possibilidade de ser ela. Será que eu deveria pedir para conversar com ela? Deveria pedir para ele mandar um “oi” por mim? Ou apenas ouvir sua voz?
Inúmeras possibilidades de respostas se passavam na minha cabeça, mas não fiz nada. Decidi fingir que não ouvi nada, mas, por dentro, me sentia estranho. As saudades dela cresciam cada vez mais. Queria muito ver seu rosto, porque o que me lembro é de uma criança. Será que sua voz continuava a mesma? Será que ela ainda tinha aquela risada doce que amava? E o mais importante... Ela mudou seu jeito?
— Hey, ? — Paddy entrou em minha visão. — Está tudo bem?
— Está sim — suspirei.
— É que você ficou olhando para o nada por um bom tempo.
— Só estava pensando no passado. Às vezes dá saudades — sequei uma lágrima solitária.
— Eu também, maninho, eu também.
Paddy me abraçou e eu apertei suas bochechas, resultando na careta que ele sempre fazia quando isso acontecia, sorrindo para mim.


Capítulo 6

Um mês se passou e muitas coisas haviam mudado. Os pais da estavam arrumando tudo para voltar a morar em Londres, o que deixou a garota nada contente. Por mais que fosse maior de idade, ela queria ficar próxima dos pais, e com eles morando nas terras britânicas, o resultado era: eles teriam que ir mais vezes para o país.
A amizade de e cresceu. Sim, depois daquela conversa, os dois ficaram cada vez mais próximos. Até criaram um grupo no WhatsApp com seus amigos: o “Brasil x Reino Unido”.


***


, não tente fazer essa cara novamente — minha mãe falava enquanto empacotava as coisas dentro da caixa. — Eu e seu pai vamos voltar sim para Londres.
— Mas e eu, mãe? — perguntei, chateada. Nunca tinha ficado longe dos meus pais por tanto tempo. — Como vou ficar?
, você já é grandinha, filha — mamãe riu. — E já tem uma vida aqui no Brasil. Mas se quiser, pode ir com a gente. Você sabe que sempre vamos te receber com os braços abertos.
Já cogitei a ideia de ir para Londres, mas minha vida estava no Brasil. Meu trabalho estava aqui e tudo que eu havia construído estava aqui, mas não sei quanto tempo aguentaria longe dos meus pais.
Eu estava mega entediada. havia acabado de empacotar algumas caixas da minha mãe e não tinha nada para fazer à tarde. À noite, eu teria uma divulgação em uma loja de jóias.
Para matar o tempo livre, resolvi me entregar aos clichês adolescentes. Mergulhei em filmes que eu amava. Já havia assistido todos, mas, mesmo assim, estava prestes a assistir mais um quando senti meu celular vibrando. Não estava a fim de ler mensagens, apenas navegar nos romances. Mas parecia que a pessoa – ou as pessoas – que estavam me chamando queriam me notificar alguma coisa. Era Twitter, WhatsApp, Instagram... Pelo amor de Deus, rolou algum exposed que me envolveram?
A primeira conversa que abri foi da . Cliquei no link que ela me mandou e levei um susto. Como assim, meu Deus? Só tinha um mês que o vídeo estava no ar. Na verdade, fez um mês ontem. Achava que iria demorar muito para isso acontecer.


Bom diaa 10:48 a.m.
Preparado para mais uma entrevista constrangedora? 10:48 a.m.



Boa tarde, dona moça 10:51 a.m.
Como assim? 10:51 a.m.


Esqueci que aí o horário é diferente 10:54 a.m.
O vídeo acabou de bater a meta de likes! 10:54 a.m.



O quê? 10:54 a.m.
Já tão rápido? 10:54 a.m.


Pois é, more, não subestime seus fãs brasileiros 10:55 a.m.
Por mais que eu ache que só foi batido por causa do deus Robert John Downey Jr. 10:55 a.m.


Palhaça você, hein? 10:55 a.m.
Mas fico feliz por isso, 10:55 a.m.
Isso quer dizer que vou ver meu crush o mais rápido possível 10:55 a.m.


Crush? 10:55 a.m.



Sim, você 11:10 a.m.

Aquilo me deixou completamente surpresa. Não sabia o que pensar e muito menos responder. Dei uma desculpa que minha mãe estava me chamando, mas, na verdade, chamei , Laís e Amanda para uma noite de meninas. Precisava botar a cabeça em ordem depois disso.


***


Já se passava de uma da manhã aqui em Londres e eu não conseguia pregar os olhos. Sabia que não deveria ter seguido os conselhos do Harry por tentar flertar com ela. Agora fiquei no vácuo totalmente.


Voxe r gxotos 2:10 a.m.
Tabem tnho crhs em voxe 2:10 a.m.


? 2:10 a.m.
Você está bem? 2:10 a.m.



Tô bedaba 2:11 a.m.


Tá bêbada? 2:11 a.m.



Si 2:11 a.m.
Muito 2:11 a.m.
Lou 2:11 a.m.
Ca 2:12 a.m.

🔊 Sabe o que é pior, ? Eu tenho um puta crush em você. Mas não posso, porque é errado. Por que a vida tem que ser assim, ?! , CUIDADO VAI CAIR. Cair o quê, menina? O preço da banana 2:12Am


Dei uma risada. Até cair a ficha, ela disse que gostava de mim? Imagino que a bebida tenha feito a ficar mais honesta com seus pensamentos. E também imagino o tamanho da vergonha que vai sentir amanhã.
Depois de um tempo, disse que ela já tinha ido dormir, e pediu mil desculpas pelo que tinha acontecido. Se ela soubesse o quanto eu tinha ficado feliz com aquelas mensagens...
Estava sem sono, então resolvi dar uma olhada no perfil dela. Realmente era um perfil de uma blogueira, o feed completamente organizado e uma postagem melhor do que a outra.
Só tinha uma coisa que me chamava a atenção: em todas as fotos com sua mãe ou com seu pai, eles estavam de costas ou abraçados. Aquilo me fez pensar que seus pais não gostavam de ter suas identidades expostas.
E foi assim que adormeci, vendo suas fotos.


Capítulo 7

Quinta-Feira, 21 de novembro de 2002

. . .
O menino correu na minha direção com um novo brinquedo que havia ganhado, provavelmente, no Dia das Crianças.
— Olha o que eu ganhei! — mostrou animado o seu novo brinquedo do Homem-Aranha. — Não é o máximo?
— É sim, — ri fraco enquanto passava meus pequenos dedinhos no cabelo da minha Barbie. — Também ganhei essa boneca!
— Eles podem ser amigos igual a gente, ! — ele exclamou, alegre. — Calma, você disse que também ganhou? Isso quer dizer que ganhou mais coisas?
— Sim! Na verdade, não. Quer dizer, ganhei uma passagem para o Brasil — dei de ombros. — Mas eu já sabia que ia para lá. Isso quer dizer que não é um presente, certo? Eu já sabia.
Percebi que o menino ficou com uma aparência meio triste. Será que tinha falado alguma coisa de errado para ele? Ou será que ele não tinha gostado de saber que eu iria para o Brasil ver minha família?
— Está tudo bem, ?
— Está sim — ele sorriu. — Só estou um pouco triste por saber que vou ficar um pouco longe de você.
— Não seja por isso! — me levantei do banco, dando um pulo. — Acabei de ter uma ótima ideia!
— E qual seria?
— Você vai para o Brasil comigo! — bati palmas. — É claro, você vai ter que perguntar para nossos pais, mas com certeza a tia Nikki vai deixar.
— Você é a melhor amiga do mundo, !
— Eu sei — dei de ombros, me achando.
— Você promete ser minha melhor amiga para sempre? — perguntou, esticando o dedo mindinho.
— Eu prometo — entrelacei o meu no dele.
Depois da nossa promessa, fomos em direção à sala de aula já que o sinal – terrível – havia sido tocado.
Não poderia negar que eu estava nervosa. Fiquei com medo dos pais do meu amigo não deixá-lo viajar com a gente. Passei a aula toda esperando para aquele momento chegar, tentando prestar atenção na aula, mas ficava difícil. Minha ansiedade estava a mil.

A hora passou voando. Quando fui perceber, já estava cantando a música de ir embora.

Tá quase na hora, o sinal vai bater
A minha mãezinha, contente eu vou ver
Adeus professora
Para casa irei
Prometo que amanhã
Na escola estarei!


Dei um beijo na bochecha da professora Gabriela, que havia se tornado uma amiga para mim. Me despedi dela e corri com na direção da saída, encontrando nossas mães conversando no portão.
— Você acha que devemos falar agora, ?
— Agora não, . Pode ser depois do almoço.
— Tá bom!
Nossa família tinha uma tradição: almoçar juntos nas quintas e aos domingos.
— Mamãe! — corri para o colo dela, dando-lhe um abraço apertado. — Estava morrendo de saudades.
— Eu também, meu amor — sorriu, dando um beijo em minha bochecha. — Oi, .
— Oi, tia ngela — ele sorriu, tímido.
— Vamos, garotada? — Tia Nicola perguntou. Ela sorriu e abriu a porta do carro para nós. — Porque não sei vocês, mas eu estou morrendo de fome. E com certeza nem o Dominic, nem o Carter estão conseguindo segurar duas feras idênticas de três anos de idade.
Hoje o almoço seria por conta da família . já havia me dito qual seria o prato: comida chinesa, um dos seus favoritos. Não era muito chegada, mas era mil vezes melhor do que comida japonesa. Mas era o que tinha para hoje.
e , direto para lavar a mão de vocês! — Tio Dominic falou assim que aparecemos correndo na direção da cozinha. — A comida não vai fugir.
— Está bem, pai — respondeu meu amigo, bufando. — Vamos, .
Fomos para o lavabo que havia perto da sala e passamos sabão igual a tia Gabriela havia ensinado.
— Pronto, tio Dominic — respondi, mostrando minhas mãos. — Podemos comer agora?
— Podem sim, crianças.
Todos já estavam na mesa, só faltava nós dois. Nas cadeiras vagas, tinha a caixa que a comida estava. Para pagar a minha língua falando que não era muito chegada, ela estava completamente cheirosa e saborosa. Para minha sorte, a sobremesa era a minha favorita daquela época: brownie! Não vou dizer que não comi quase tudo, porque era completamente mentira.
— Acho que chegou a hora, — sussurrei.
— Você ou eu?
— Pode ser eu. Mãe, pai, tia, tio — chamei a atenção deles. — Eu e o temos uma coisa para perguntar para vocês.
— Pode dizer, querida — mamãe disse com um sorriso gigante.
— Eu e queremos saber — dei uma pausa. — Ele pode ir com a gente para o Brasil?
Aquilo pegou todos de surpresa. Meu pai se engasgou com a água que estava bebendo, tio Dominic largou o jornal em cima da mesa, e mamãe e tia Nicola se olharam, buscando respostas.
— Então? — chamou a atenção deles novamente.
— Olha, filha — mamãe começou a falar depois de beber um pouco de água. — Para mim não tem nenhum problema, tem que ver com os pais dele.
— Mamãe! — meu amigo saiu da cadeira e foi na direção dela. — Por favorzinho! — ele juntou as mãos. — Faço o que você quiser!
— Não tem que falar só comigo, filho — ela apontou discretamente para o pai. — Vai falar com ele também.
— Papai? — o menino virou na direção contrária. — Posso?
— Pode o quê?
— Ir para o Brasil, pai — bateu na própria testa, fazendo todos rirem.
— Pode sim.
— NÓS VAMOS PARA O BRASIL! — gritamos juntos.


Capítulo 8

@: Hey, . Acordei hoje com uma notícia maravilhosa e que com certeza vocês vão amar!
@: O vídeo que gravei com o bateu 900 mil LIKES!!!
@: Isso mesmo! , você está nos devendo um convidado especial agora, viu?
Gravei essa sequência de stories, mencionando o no último com a seguinte legenda: “@, você nos deve um convidado especial! 🤨❤️”

— Cheguei — Leo apareceu ofegante, parecendo que havia corrido uma maratona.
— Eita. O que aconteceu? — perguntei, jogando uma garrafa d’água em sua direção. Ele imediatamente a agarrou.
— O elevador parou — ele revirou os olhos. — De novo.
— Vou avisar minha mãe novamente — saí do quarto. — Ô mãe!
— O Leo já me avisou, querida — ela apareceu, rindo. — Pode voltar a gravar.
— Está bem, mamãe — dei um beijo em seu rosto e voltei a subir as escadas para o quarto de gravação. — Vamos ao trabalho.
Me posicionei em frente à câmera, vendo meus amigos começarem a ajeitar as luzes. Bruna veio até mim, me deu as fichas que eu iria ler, ajeitou meu cabelo e voltou para atrás da câmera. Ao lado, Leo fez o sinal que ia começar a gravar.
— Hey, — acenei para câmera. — Hoje irei gravar um vídeo que vocês me pedem muito. O “Realizando Sonhos e Pedidos dos Fãs”. Ontem à noite, postei uma foto no meu perfil do Instagram e teve mais de três mil comentários — falei, chocada. — Vamos começar?
— A @edu_oliveira pediu para mandar um beijo para ela. Beijo, linda — mandei um beijo com a mão. — E pediu para que eu comprasse um kit escolar para ela e para sua irmã, a Bruna. Olha, Bru, sua xará.
Peguei meu celular para começar a pesquisar o arroba da menina, mandando mensagem logo em seguida.
“Oi, Eduarda, aqui é a . Tudo bem? Espero que sim. Me manda seu endereço porque vou comprar seu kit escolar, amor.”
— Bom, enquanto ela não responde, vamos para próxima…
Passei um bom tempo gravando o vídeo. Tinha amado a reação de todas as meninas e meninos que haviam sido “sorteados” por mim. Só teve uma que mexeu comigo por completo.
— E, para finalizar, uma que mexeu com meu coração — suspirei. — Vou ler para vocês, talvez me entendam. A @saory disse — respirei antes de ler —, “Hey, ! Queria muito que você fizesse uma doação em dinheiro para o tratamento do câncer da minha avó. Ela é tudo que eu tenho, mas nem eu (por ser menor de idade) nem minha família conseguimos arrecadar dinheiro suficiente. Até o povo do nosso bairro entregou dinheiro, mas não é a quantia suficiente. Por favor, leia essa mensagem... Se puderem, marquem ela, a Bruna ou o Leo.”
Eu era muito apegada à minha avó. Quando mamãe sugeriu que nos mudássemos para ficar perto dela, não pensei duas vezes. Sabia que várias coisas iriam mudar. Por exemplo, teria que deixar amizades, aprender outra língua de uma hora para outra e começar outras amizades.
Há cinco anos, era o dia da minha formatura. Como a situação financeira estava difícil aqui em casa por conta dos pagamentos das quimioterapias, a turma resolveu que, em vez de fazermos um festão, alugássemos uma casa de praia para passar uma semana. O lugar escolhido era um paraíso conhecido como Caribe Brasileiro, o Arraial do Cabo. Já tinha ido uma vez quando era pequena com meus pais.


— Vovó, você tem certeza de que posso ir? — perguntei pela terceira vez naquele dia.
— Tenho sim, — ela riu fraco. — Eu estou bem — tossiu seco. — Você tem que se divertir com seus amigos, minha menina — segurou minha mão. — É a viagem da sua formatura, não pode perdê-la!
— Mas e se acontecer algo com a senhora, vó? — perguntei baixo para ninguém escutar.
— Não vai acontecer nada — ela fez carinho em círculos na minha mão. — Vá aproveitar e se divertir, é um pedido que eu faço. Te amo muito, minha netinha.
— Eu também te amo, vózinha — beijei sua bochecha. — Qualquer coisa…
— Eu peço para te ligarem — ela revirou os olhos. — Já sei de tudo.
— Até logo, vovó.
— Boa viagem, meu amor.
Dificilmente eu conseguia passar muito tempo longe da minha avó, porque tinha muito medo de perdê-la. Eu sabia que um dia aconteceria. A saúde dela só estava piorando...
Durante uma semana, muita coisa poderia acontecer com ela, inclusive ir embora. Passar uma semana longe dela era me expor à possibilidade de ela partir sem que eu pudesse me despedir. Isso me deixava angustiada, tanto que entrei em prantos assim que pus os pés no ônibus que alugamos.
— Ela vai ficar bem, meu amor — Leo disse assim que eu o abracei com força. — Sua mãe e seu pai vão estar com ela e, qualquer coisa, eles vão te ligar.
— Eu sei — respirei fundo, soltando-me do abraço. — Só estou com um pressentimento ruim.
— É só um pressentimento, não necessariamente vai acontecer — disse, acariciando minha bochecha e dando um beijo na minha testa em seguida, o que me fez sorrir fraquinho.
Passei o começo da viagem todo com aquele pressentimento. Não tinha um segundo sequer que eu não estivesse grudada no celular só para ter certeza de que escutaria a chamada caso houvesse uma ligação ou mensagem dos meus pais.
— Amiga, vem dormir — Bruna me chamava pela milésima vez. — Não adianta ficar olhando o celular toda hora.
— Desculpa — deixei meu celular de lado, deitando-me na cama. – Boa noite, Bru.
— Boa noite, .
Realmente, eu não estava conseguindo dormir. Minha mente não conseguia descansar, estava sempre pensando na minha avó. Virei de um lado para o outro na cama, e nada de conseguir dormir.
! — Bruna reclamou, assim que o brilho do meu celular atingiu seu rosto.
— Desculpa — diminuí o brilho da tela. — Meu Deus!
— O que aconteceu? — ela sentou-se na cama.

Ângela
, estamos levando sua avó ao médico. Mas está tudo bem, não se preocupe 11:30 p.m.

Ao ler a mensagem da minha mãe, me ajoelhei na beira da cama e comecei a orar. Pedi a Deus que não tirasse minha vózinha de mim, porque eu não era nada sem ela.

Ângela
Filha, pode ficar tranquila. Já estamos em casa novamente 11:30 p.m.

Depois daquela mensagem, fiquei mais aliviada e até consegui aproveitar os outros três dias da viagem. Ela me pediu para fazer isso e eu não conseguiria negar nada do que ela me pedisse…
Quando estávamos voltando, já no ônibus, minha mãe ligou para o Leo. Eles conversaram muito e, curiosamente, ela não quis falar comigo. Ele tinha até se afastado um pouco, o que foi compreensível por causa do barulho perto de onde estavam as nossas poltronas.
— Ela queria saber se a minha mãe poderia te deixar em casa, já que não vai poder vir — ele explicou, sentando-se novamente na poltrona ao meu lado.
— Por quê? — estranhei.
— Parece que o carro quebrou.
— Entendi.
Deitei a cabeça no ombro dele e dormi. Só acordei quando chegamos.
Eu estava tão desnorteada e sonolenta, que Leo precisou me ajudar a juntar minhas bagagens. A mãe dele já nos esperava. Ao me ver, ela me deu um abraço forte, perguntando se eu estava bem. Na verdade, não foi a única pergunta que ela fez.
A Sra. Castagnoli parou em frente ao hospital. Olhei preocupadaa para Leo.
— O que está acontecendo? — perguntei quando descemos do carro. Nenhum dos dois respondeu. — O que está acontecendo? — elevei mais o tom da voz.
O Leo explicou que a minha avó tinha voltado para o hospital ainda hoje e que meus pais sabiam que eu não ia querer ficar em casa desse jeito. Ele não deu mais detalhes, mas parecia aflito.
— Tem certeza que é só isso?
— Tenho, meu amor.
O Leo já sabia. Quer dizer, todo mundo já sabia, só não tinham encontrado o jeito de me contar.
Assim que cheguei ao hospital, o medo que tanto me havia me atormentado nos últimos dias veio à tona. Eu sabia que ela estava no hospital e sendo cuidada, mas como saberia se ela voltaria para casa com a gente?
A espera foi horrível. Meus pais não me contaram nada, os médicos também não. Eles não queriam que eu me preocupasse, mas não saber de nada era pior
Foi quando minha ficha caiu. Foi quando percebi os médicos saindo de uma sala com cabeças baixas e sem suas toucas.
— Minha avó morreu — sussurrei, caindo sentada na cadeira.



— Então, Saory, vou entrar em contato com você imediatamente porque eu vou pagar o tratamento da sua vó no melhor hospital da sua cidade.


Capítulo 9

Não acreditei que, em vez de curtir o carnaval do meu Brasil, eu estaria dentro de um avião com destino a Londres. Nunca imaginei que voltaria para lá em menos de três meses. Muito menos por causa de novamente, que ainda não fazia ideia de quem eu era. Porém, sempre que entramos no assunto infância ele fala que vai desligar ou foge de assunto.
— Achei nossas cadeiras, .
parou em frente a elas. Dessa vez, só iria eu e ela. precisou resolver umas coisas sobre meu novo projeto, que eu começaria assim que voltasse da cidade da Rainha.
— Vamos ficar na casa de seus pais?
Meus pais se mudaram para Londres novamente no início de janeiro. Entretanto, voltaram a ser vizinhos dos .
— Não — sorri fraco, sentando-me na poltrona da primeira classe. — Vamos ficar no hotel.
— Ela gosta de gastar dinheiro — revirou os olhos.
— Isso se chama precaução — pisquei, ajustando o cinto.
— Sem necessidade nenhuma. Inclusive, já que vai ver o pessoalmente outra vez, deveria aproveitar e contar toda a verdade logo. Ele merece isso, e você também.
Odiava quando estava certa. E olha que ela está sempre certa.
— Eu sei — dei uma pausa. — Mas…
— Mas o quê, ? Não existe “mas”.
— E se ele não acreditar em mim? Porque é mil vezes mais fácil acreditar na mãe do que em qualquer outra pessoa, principalmente aquela que sumiu por anos — respirei fundo antes de continuar. — Então, entenda, por favor. Contar a verdade é correr o risco de perder a amizade novamente, e eu não quero perdê-lo.
— Você sabe que, contando ou não, vai perder do mesmo jeito, né?
Não respondi. Eu já sabia perfeitamente disso.
— Vou pensar — falei, entrando no aplicativo de um joguinho. — Até o final da viagem.
— Sabe, se ele descobrir por out–
— Outra pessoa vai ser pior — revirei os olhos. — Eu sei, já me falaram isso milhares de vezes.
A viagem foi tranquila. Eu e ficamos conversando sobre projetos futuros, relembrando alguns momentos da nossa infância, do início da minha carreira e do meu breve relacionamento com e o fim dele.
Nem percebemos que o tempo havia passado. Só notamos quando a aeromoça avisou para apertar os cintos que iríamos pousar. Demos graças a Deus por dona Ângela existir. Minha mãe havia avisado que o frio atacou a cidade esses dias, então viemos equipadas para descer do avião.
— Minha mãe avisou que está na sala de desembarque — falei após tirar o celular do modo avião.
— Graças a Deus — juntou as mãos. — Pensei que ficaríamos mofando esperando um táxi.
. Aqui é Londres. Não o Brasil, ok?
— Eu sei, mas nunca se sabe… Vamos pegar nossas malas logo.
— Ok!
Fomos na direção da sala de bagagem, torcendo para que nenhuma tivesse sido extraviada. Isso sempre acontecia comigo. Mas, graças ao bom Deus, não aconteceu dessa vez.
— Minhas meninas! — falou mamãe após se aproximar da gente, dando um abraço forte em nós duas. — Que saudades de vocês duas! Cadê o ?
— Ele precisou ficar no Brasil, mãe — respondi, enquanto caminhávamos em direção ao carro. — Para resolver as coisas do meu novo projeto.
— Poxa, pensei que eu mataria a saudade do loirinho — mamãe adorava , às vezes até mais do que me amava. — Partiu ir para casa?
— Na verdade — mordi os lábios fracos —, vamos ficar em um hotel, mãe.
Dona Ângela não disse nada, apenas negou com a cabeça e entrou no carro. me olhou com uma cara que me fez pensar duas vezes se deveria ficar no hotel mesmo.
— Coloquem o endereço no GPS, assim vamos conseguir chegar mais rápido e você não corre risco de ser vista comigo — disse, grossa, me dando o seu celular.
— Mãe…
— Já colocou? — entreguei de volta. — Ótimo. Fica a sete minutos daqui.
O caminho foi totalmente diferente do que eu pensava. O único barulho que tinha era da rádio que tocava qualquer música local e das buzinas dos carros que passavam por nós.
— A senhora quer subir?
— Não. Preciso resolver uma coisa com seu pai.
— Está bem — suspirei. — Manda um beijo pra ele e diz que é para marcar um dia para jantarmos fora.
— Você vai ficar quantos dias aqui em Londres?
— Quatro.
— Ok.
Mamãe nem esperou nosso tchau. Assim que viu que tínhamos pegado todas as malas, arrancou com o carro e saiu em direção ao lugar onde iria.
— Eu disse que ela ficaria chateada — bateu em meu ombro. — Eu disse.
Ignorei o que ela disse e entrei no saguão do hotel, indo em direção à recepção para fazer o check-in. Depois de terminar, um homem apareceu com um carrinho para colocar nossas malas e nos levou até o andar onde ficaríamos hospedadas.
— Obrigada — agradeci em inglês, dando uma gorjeta a ele.
— Aqui é lindo, ! — falou enquanto olhava pela sacada do quarto. — Ali é o Hampton Court Park?
— É sim — ri da sua animação. — Podemos ir lá amanhã, se quiser. É sério! A gravação com e com o Robert é na quarta-feira, e hoje ainda é segunda.
— Obrigada, ! — ela me abraçou de lado. — O que vamos fazer agora?
— Podemos ir às compras?
— É óbvio! — respondeu, sem pensar duas vezes. — Vou com essa roupa aqui mesmo, e você?
— Eu também — bloqueei a tela do telefone. — Já pedi o Uber.
Pegamos nossas bolsas e documentos, fechamos a porta com o cartão magnético e voltamos para o saguão, esperando a carona.
— Vamos, ? O Uber acabou de chegar.
— Claro.
Entramos no carro que o aplicativo havia indicado, e o rosto do motorista me fez ter a impressão que eu já o havia visto antes em algum lugar. Só não me recordava de onde.
The Bentall Centre? — o rapaz perguntou para confirmar.
— Sim — respondemos juntas.
O prédio ficou mais lindo do que era antes. A fachada havia mudado completamente e ficado mais luxuosa.
— Nossa… Dez a zero no Village Mall — comentou, fazendo-me rir. — Nunca mais piso lá, fiquei humilhada agora.
— Londres tem essas coisas, né, amores? — brinquei. — Vamos às compras?
Não demoramos muito e entramos na primeira loja de muitas. Experimentamos muitas peças de roupas para apenas levar duas mudas.
— O que acha de comer alguma coisa? Faz tempo que estamos rodando e minha barriga está roncando — resmungou.
— Podemos sim — respondi, rindo do jeito que ela estava falando. — Podemos ir ao Maison du Mezzé. Era meu restaurante favorito.
Ela apenas afirmou com a cabeça, e fomos à procura do restaurante. Do jeito brasileiro, é claro: perguntando para todo mundo onde era o local.
— A cada passo, fico com vergonha de quando eles vão para o Brasil — falou e eu soltei uma risada um pouco alta, fazendo algumas pessoas olharem para a gente. — ! Meu Deus, que vergonha.
— Tem uma mesa vaga ali — apontei, ignorando o que ela dizia. — Vamos para lá.
— Boa noite. Aqui está o cardápio — disse o garçom assim que nos sentamos. — Qualquer coisa, pode me chamar.
— Boa noite — respondi, sorrindo. — Já sabemos o que vamos pedir. Me veja dois falafeis, por favor.
— Ótima escolha, senhorita — ele elogiou, anotando os pedidos. — Alguma bebida para acompanhar?
— Sim. Dois sucos de laranja, por favor — respondeu dessa vez.
— Okay — terminou de anotar no tablet. — Em cerca de trinta a quarenta minutos seus pedidos já estarão aqui — ele disse, antes de sair da nossa mesa e ir em direção à outra.
Ficamos conversando enquanto esperávamos nosso pedido chegar. me contava algumas histórias que ela havia aprontado no Brasil enquanto eu estava viajando a trabalho. Mas estranhei quando ela parou de falar do nada e ficou paralisada.
? Algum problema? — perguntei, preocupada, percebendo que ela havia prendido a respiração.
— Amiga, não olha agora, mas acho que a mãe do está na entrada do restaurante — falou baixo, enquanto olhava fixamente para atrás de onde eu estava.
— O quê? Você deve estar confundindo, amiga — respondi, não querendo acreditar naquele azar.
— Olhe para trás disfarçadamente — ela pediu e eu virei meu corpo, vendo que era a mãe do mesmo. Resmunguei um “merda”. — Pelo jeito, te reconheceu. Pois está vindo pra cá.
?


Continua...



Nota da autora: O encontro que foi muito esperado por mim está acontecendo! o que acham que pode acontecer nele? Alternativas:
1- Ela e a Bia irão brigar no meio do restaurante.
2- Bia irá fazer a Kátia.
3- Alguém irá chamar a Nicola, tirando a atenção das meninas.





Outras Fanfics:
Ainda Existe Amor Em Nós? – Tom Holland – Finalizada
03. Un Año – Original – Finalizada | Ficstape Sebastián Yatra
My Sexy Doctor – Shortfic – Harry Styles
12. Amor de Interior – Original – Finalizada | Ficstape Luan Santana


Nota da beta: O Disqus está um pouco instável ultimamente e, às vezes, a caixinha de comentários pode não aparecer. Então, caso você queira deixar a autora feliz com um comentário, é só clicar AQUI

Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.


> comments powered by Disqus




> > > > >