Finalizada em: 03/07/2019

Capítulo Único

“Seis. Essa é a hora que ela vai sair pra correr. Depois, vai procurar alguma coisa leve pra comer.”

’s POV

O despertador não é nem necessário. Eu conquistei o bom hábito de acordar cedo. Porém, todos os dias ao escovar meus dentes e fazer a barba, eu olho para o espelho e confirmo no relógio: seis horas. Ela costuma correr a esta hora, ou costumava. Não sei o que ela tem feito da própria vida. Nossa história começou na faculdade. E eu fui um grande babaca. Um idiota, um total ignorante por não perceber que a mulher da minha vida estava bem ali abaixo do meu nariz. Mas, porra... Eu tinha acabado de entrar na faculdade e só queria viver todas as experiências. O casal mais certo daquela galera era também o mais errado. E ela só percebeu isso quando já estava apaixonada. E eu só percebi que ela era apaixonada, quando ela foi embora.

Quatro meses atrás...

A gente estava saindo da formatura dos nossos veteranos quando eu a chamei num canto.
, a gente pode conversar?
Ela me encarou sem graça, desviou o olhar e sorriu. Ela nunca gostou de se sentir inferior, e naquele momento quem deu o primeiro – ou melhor, o último – passo fui eu.
— Claro .
— Então... Mas, eu queria conversar em outro lugar. Pra onde você vai agora?
— Para minha casa.
— Pode ser lá? Ou se preferir, a gente vai para uma lanchonete, ou na minha casa.
— Sua casa não. Na minha, as cinco. Pode ser?
— Tá ótimo. Qual seu endereço?
— Rua catorze, 650.
Sorri para ela e despedimo-nos sem graça. Pude ver que se aproximou dela, provavelmente curiosa para saber o que eu queria.
No horário combinado eu estava tocando o interfone da casa dela. E ela não demorou muito a atender. Abriu o portão e eu adentrei a garagem observando aquela casa nova que eu nunca antes havia pisado.
— Sua casa é linda.
— É, obrigada. Sair da república teve alguma vantagem.
— Você não sente falta das meninas? – perguntei seguindo-a para dentro da sala.
— Muita. Mas, às vezes temos que sacrificar algumas relações para não perder totalmente as pessoas.
Eu encarava o olhar dela. tinha essa mania, de entrelinhas falar o que queria sem ferir. Na verdade, feria. Mas, era tão elegante que na maioria das vezes não dava nem para sentir. Sentei-me no sofá depois que ela o apontou, e foi terminar de passar seu café na cozinha. Recebeu-me em sua casa como se ainda fôssemos velhos amigos, e como sempre ofereceu café e quitutes. Mas, eu não queria provar nada. Ela era excelente na cozinha, e eu sabia que provar seu bolo só faria eu me sentir mais idiota.
Ela não insistiu e pegou seu café sentando no outro sofá à minha frente.
Ali nós conversamos, colocamos tudo em pratos limpos. Ela falou de tudo o que eu havia feito que a magoou, confessou seus sentimentos durante aquele tempo em que brincávamos de amizade colorida. E disse que o que mais a feriu foi eu tê-la tratado como qualquer outra, sem a menor lealdade e consideração à nossa amizade. E eu também tinha as minhas reclamações: ela ter prometido sempre estar ao meu lado e quando eu mais precisei não estar. Embora não estivesse porque era masoquismo demais para ela diante os sentimentos que nutria por mim. E eu entendi aquilo. Reclamei também do tempo em que ela ficou com meu melhor amigo e parou de falar comigo, embora eu nem soubesse por que aquilo me doía e feria tanto. Ela riu diante das minhas justificativas e cobranças. E foi enfática:
. Eu aceitei conversar com você porque eu imaginava que seriam esses assuntos, e eu estou indo embora da cidade. Vou terminar a faculdade aos poucos, vou vir poucas vezes, mas o fato é que… Eu não vou estar mais por perto. E eu não quero sair daqui com nenhuma causa mal resolvida com ninguém.
— Embora? Uau…
— Eu realmente não sei quais motivos o trouxeram aqui, mas… O meu é esse: resolver tudo antes de partir.
— Sabe… Mesmo longe um do outro, eu te admiro pra caralho . Eu sempre vi você correndo atrás das paradas aqui na faculdade, e hoje com a cabeça que tenho quero mexer com pesquisa também, quero começar a me preocupar com a carreira. Já passou da hora né…
Dei uma risada anasalada que foi acompanhada pela risada abafada dela com o arqueado da sobrancelha.
… Eu não podia dar o que você queria, porque eu estava noutra vibe sabe? Eu só queria curtir, e nesse meio eu não enxerguei seus sentimentos ou muito menos valorizei a mulher que você era. A amiga na verdade. E eu quis conversar porque eu senti sua falta pra caralho. Eu sinto na verdade. Porra… Tu era a pessoa que cuidava de mim aqui, apesar de tudo e… Enfim… Você vai embora, né?
— Vou .
— Então, sucesso. Seja feliz, tu é fantástica e sabe disso. Tomara que tudo dê certo.
— A gente pode tentar ser amigos de novo apesar da distância . Claro que não vai ser a mesma coisa, nunca será. Mas, podemos começar do zero, o que acha?
— Acho bom.
— Me perdoa pelas mágoas?
— Esquece isso , já passou. E você me perdoa?
— Não tenho o que perdoar, porque o que eu sou hoje… Eu devo ao que você me fez passar. Então, obrigada.
Levantei antes que me sentisse ainda mais bosta do que já estava sentindo. Ela me acompanhou até o portão novamente e abrindo-o me encarou:
— A gente pode se abraçar? – ela perguntou.
— Claro. – sorri.
Abracei-a, nosso aperto breve nem tão breve foi a nossa despedida. Saí para a calçada e ela me indicou um beco em frente ao portão, que era atalho para a rua de cima. Eu morava duas ruas acima. Eu queria ir, mas algo me prendia ali na calçada. Encarei o portão azul da casa vizinha como se dali saísse a solução dos meus problemas.
— O que foi? – ela olhou para o mesmo ponto que eu, preocupada.
— Não nada… É que eu acho que… Essa rua… Mora uma menina que eu ‘tô pegando.
Ela me encarou sem entender o motivo de eu dizer aquilo, ou me comportar daquele modo estranho por causa de algo tão banal. Ela sorriu se despedindo mais uma vez, e eu me coloquei a caminhar de volta à minha casa, com a única coisa em mente: quase ao fim da faculdade eu tive coragem para resolver as coisas com ela, e ela vai embora.
Aquela foi a última vez que eu a vi, senti e falei com .

Fim de narração do .

Dias atuais...

Já fazia um tempo desde que e se falaram pela última vez. Ela foi embora realmente semanas depois, e eles não mais se viram depois daquela conversa. Mas, quando saiu a única coisa que conseguia fazer era chorar. Ela entrou e chorou silenciosa até o momento que seu melhor amigo, ao qual considerava um irmão, chegou. Ela contou o que houve para ele, e como detestava não disse nada de diferente para estancar aquela dor que ela sentia.
Agora, ela trabalha numa academia da cidade onde mora, uma cidade vizinha que leva cerca de 40 minutos de carro para chegar à faculdade. No caso dela, de ônibus levava uma hora sem trânsito.
Ela não mais viu os amigos da faculdade, porque à medida que trabalhava se tornava complicado puxar muitas matérias e naquela altura, todos eram “alunos dispersos”. O lance de turma já não existia. E por mais afastada que estava, e soubesse daquilo, e vivesse aquela distância, para pisar na faculdade era um martírio. Aquele lugar estava impregnado de todas suas lembranças. Onde quer que ela andasse havia uma cena.
Ela estava saindo da sua aula para pegar o ônibus de volta a tempo de ir trabalhar, e encontrou , sua melhor amiga. As duas trocaram ideias e teve que deixar o convite de almoço para outro dia, e no outro dia combinado cumpriu a promessa. Foi bom, pôde rever os amigos que há muito não via, mas ao voltar para casa o choro a consumia. Sentia-se amadurecendo e perdendo aquelas lembranças, mas não conseguia explicar por quê doía tanto.
Na semana que almoçou com os amigos falou mais vezes por telefone com , que a perguntava sobre tudo e qualquer coisa. Era bom conversar com ela, porque aquela garota sempre foi o porto seguro de .

“Sua cabeça anda sem ter tempo pra pensar, que antes era a gente e hoje é vida singular. E agora? Pra quem 'tá solteiro, cidade grande é foda.”

’s POV

queria me contar, eu sabia disso. Tinha certeza que tanto quanto eu, ela queria me passar àquelas informações sobre . Ela está solteira. E não mais corre às seis da manhã, porque pega serviço às cinco e meia na academia. E embora não consiga correr, está malhando. Está linda como sempre foi, e também está mais magra. Ela está solteira e eu não sei por que eu fiquei feliz com essa notícia. E por ter ficado feliz, o tapa que recebi de foi uma represália.
— Ela está solteira e não sozinha. Graças a Deus, não é? Por que até onde nos lembramos, o senhorzinho aqui nunca esteve só, e deveria ter vergonha de ficar feliz com o fato dela não ter encontrado ainda o cara certo para ela!
Eu nada respondi, sabia que ela estava certa. O homem que feriu aquele coração não deveria sentir-se orgulhoso por ninguém estar o curando.
Ao que entendi a vida dela está corrida. O que me faz pensar que talvez ela não tenha o mesmo tempo que eu tenho para remoer em pensamentos o fato de não estarmos juntos. Na verdade, ela deve ter pensado pra caralho nisso quando estava aqui. Nós ficamos poucas vezes, mas isso de “amizade colorida” é um perigo. Eu me lembro da primeira vez que lancei uma cantada nela. Estava bêbado, bastante bêbado. E uma vozinha dentro da minha cabeça repetia “não faz isso, vai foder com tudo”... Mas, foder com tudo era o que eu realmente queria, para ser mais claro. Ela chegou à festa sóbria, e eu estava com a cabeça em outro mundo, o que ela percebeu rapidamente já que me conhecia bem.

Três anos atrás...

— E aí, você não acha que é melhor ir para casa não ? Fala sério! – ela disse se aproximando de mim logo que entrou na festa e me viu.
— Ir pra casa? Vamos!
— Eu ‘tô falando de você! Qual sentido de encher a cara na sua casa com os meninos e chegar aqui a ponto de não lembrar nada no dia seguinte?
— Uma coisa eu te garanto: amanhã eu não vou ter esquecido essa visão... Uau! Você está um crime!
— Psf… – ela murmurou revirando os olhos e negando risonha com a cabeça, e se afastou.

Dias atuais...

Eu não tirei os olhos dela aquela noite, e não demorei a me unir ao círculo de amigos em comum. E demorei menos ainda para puxar ela para dançar. Ela estava ali reagindo como a minha amiga, mas quando eu beijei a boca dela, parece que ela também virou uma chave em sua cabeça. Correspondeu-me, e quando eu propus ir embora ela aceitou. E só aceitou porque eu realmente estava péssimo. Ela me levou até em casa, preocupada com meu estado. E ia embora se não fosse eu puxando sua cintura e beijando seu pescoço, instigando ela a subir. E depois disso? Eu não sei. Falei que não esqueceria a visão dela, mas no dia seguinte a minha última memória era de nós dois subindo as escadas, e uma cama vazia ao meu lado me deixava confuso sobre o que tinha rolado.
Eu nunca conversei com ela sobre aquele dia, e tenho certeza que esta foi a primeira de muitas das minhas mancadas.

’s POV

— Você fez o quê ?
Eu perguntei incrédula que minha melhor amiga andou falando da minha vida para o e nem cogitou me consultar antes.
— Ah , foi mal… Foi uma parada tão natural sabe? Ele parecia sentir sua falta, e eu também sinto, éramos dois amigos falando da amiga que nos abandonou.
— Abandonou uma ova, você sabe muito bem que eu só vim embora por causa do trabalho! Aff… , na boa... Eu não quero o sabendo da minha vida, e nem quero saber da dele também.
— Por quê? Vocês não voltaram a serem amigos?
— Justamente porque quando combinamos isso, eu mandei mensagem para ele algumas vezes depois de vir embora e fui ignorada. Não acho que ele quisesse realmente voltar à amizade.
— Ah, mas isso eu tenho certeza.
— Como assim?
— Esquece. Não quer mesmo saber nada dele?
— Nem vem garota!
— Talvez você se alarme com o fato dele estar solteiro.
— Não. Isso é bem pior na verdade, porque solteiro ele nunca fica sozinho e nunca é de uma mulher só. Se estivesse namorando pelo menos, significaria uma esperança de vê-lo criando vergonha na cara.
— É, mas eu tô falando justamente disso: ele não está com ninguém. Não vai mais a festas, tá estudando firme… Acho até que é pesquisador agora! – riu.
Suspirei. Em nosso último encontro ele me disse que pretendia mudar aquilo.
— Hm… Fico feliz por ele. Amiga, tenho que desligar. Tô entrando pro segundo turno.
— As aulas acabam às 22 h, né? A academia enche essa hora?
— Sim e sim, amanhã nos falamos porque eu vou chegar cansada demais para te ligar. Beijo. Te amo.
desligou a chamada junto comigo e ao terminar de subir as escadas da academia, estranhei o fato de ter um aluno fora do seu horário ali. Ele parecia triste e sorriu a me ver.
— Tá fazendo o quê aqui há esta hora?
— Não consegui vir de manhã, então a disse para eu vir agora.
— Eu realmente já tinha o sermão do ano para você amanhã, por não ter vindo ao seu treino.
— Ah… Para! – ele estendeu aquele sorriso tão branco que me cegava — Você sabe que eu tenho disciplina!
— Tem sim , você é um dos poucos nessa academia que levam a sério as recomendações.
— E aí, como foi seu dia?
Ele sorriu pegando o papel para enxugar a testa e se aproximou enquanto eu ainda conferia o sistema no computador das fichas dos alunos que iam chegar.
— Foi cansativo, hoje não tive faculdade. Mas, tive uma bagunça para arrumar.
— O está em São Paulo ainda?
— Chega hoje com o .
— Hm… Abraços a ele. Vou treinar.
falou sorrindo ao perceber que eu tinha muito a resolver e os alunos foram chegando no horário. Não conversamos mais porque entre uma série e outra no salão, eu pulava de aluno em aluno e mal vi acabar o treino dele. não era o aluno que eu ou precisávamos ficar corrigindo, porque ele era sempre muito cuidadoso, mas mesmo assim era função da auxiliar ele. Não porque eu não pudesse, mas porque ela era amiga dele de anos e professora do local há mais tempo. Sempre que ele me chamava eu auxiliava, embora ele não me chamasse tanto.
O último aluno saiu e veio me abraçar, ela quem fechava e abria a academia.
— Finalmente sexta!
— Eu estou moída, .
quando chega? – ela me perguntou.
— Já deve estar em casa. Relaxa que segunda ele tá firme e forte aqui para trabalhar. – eu ri entendendo a preocupação da nossa chefa.
— Eu tenho sentido ele muito “nas nuvens” com o namoro. Nada contra, isso é muito bom na real, mas… Preocupa-me o desempenho dele aqui.
— Ele fez algo que não devia?
— Não, mas ele anda bem distraído . E você sabe como é! A gente tem que ficar atento o tempo todo aqui dentro.
— Eu vou conversar com ele.
Respondi e peguei meu celular e chaves para descer.
— Ei! A gente pode conversar rapidinho? Eu sei que você está cansada, eu também, mas…
— Fala , o que foi? – eu ri de lado e abaixei a cabeça. Já sabia que ela ia falar da minha vida pessoal.
— Será que você pode se divertir esse fim de semana? É sério , já tem um tempo que você está aqui e não saiu com ninguém… E poxa, tu é gata cara!
— Você tem um encontro arranjado pra mim, não tem?
— Ainda não. Mas… Você tá saindo com alguém?
— Não.
— E o ?
— O que tem ele?
— Você ainda gosta dele, não é?
— Não, eu só não me recuperei totalmente do trauma de amar um idiota.
… Por que não procura ele?
— Essa fase já foi , e cada um está seguindo sua vida. Uma amiga até comentou com ele algumas coisas sobre mim, e comigo sobre ele, mas… Na boa? Eu quero distância.
— Ok. Então se abra mais para vida, por favor? Amanhã é sábado e os bares da cidade lotam, vem gente de fora e é o dia oficial dos moradores saírem de suas casas… – ela riu.
— Prometo fazer alguma coisa amanhã! Tô mesmo devendo de ir beber uma gelada com a Ju.
— Isso.
sorriu e olhou para as mãos entrelaçadas na frente do corpo.
— Tá, eu sei que não acabou. Fala logo.
… Quando você chegou hoje, o estava conversando comigo, e ao ouvirmos alguém subindo ele se afastou. Mas, deu pra conversar bastante sabe? Ele me contou umas coisas que andam acontecendo com ele, lance de relacionamentos passados e até chorou. , o chorou comigo! Em sei lá... Mais de 10 anos de amizade, sabe quantas vezes eu o vi chorar? Ele é tão legal, tão alto astral, positivo… Que não combina com ele se abater sabe?
— Poxa, eu achei mesmo que ele estava triste, mas depois ele estava de boas, então pensei que era coisa da minha cabeça.
— EXATAMENTE. É isso que eu queria dizer. quando ele te viu ele mudou, cara! Ele estava maior cabisbaixo, desanimado, nem queria ter vindo treinar, e aí você apareceu ali e o sorriso que ele te deu… Você não percebeu porque não viu a cara que ele estava antes.
— Aonde você quer chegar ?
— Eu acho que ele gosta de você. E ele é um, puta cara sensacional, você sabe! E os dois estão sozinhos e tal… Eu acho que você podia pensar na ideia de aceitar sair com ele.
— Aceitar? Ele não pediu.
— Mas se ele pedir?
, eu não gosto de misturar trabalho com vida pessoal.
— RÁ. Você não ia beber uma com a Ju amanhã? Sua aluna daqui?
— É diferente!
, eu só tô dizendo que acho que ele vai te chamar pra sair. E você deveria aceitar.
— Quem vai chamar a pra sair? – a voz de ecoou demonstrando que ele havia ido me buscar, e a imagem confusa do rosto de o fez esclarecer: — Fiquei preocupado de você voltar sozinha e a pé há esta hora.
— São duas ruas, . – revirei os olhos o beijando o rosto: — Fez boa viagem?
— Sim. Ei ! – ele abraçou nossa chefa — Mas então… Quem vai chamar minha irmã para sair?
— O tá afim dela eu acho, e tô tentando convencê-la a aceitar caso ele faça.
— O é gostoso, ! Já viu a bunda dele? – me falou animado.
— Você tem um fraco por bundas masculinas , tua opinião não conta. – respondi.
— Deixa comigo , eu convenço ela! Para quando é? – os dois bateram as mãos.
— Ele não me chamou pra sair! Isso é coisa da cabeça da , . Agora… Bye, bye .
Abracei novamente e pela última vez a mulher que nos acompanhou até a saída para fechar o estabelecimento. E entrei no carro para descer logo após duas ruas. Eu estava com uma saudade absurda do meu irmão. Sem a menor dúvida. preparou um jantar para mim, sabendo que eu chegaria cansada do trabalho. Eu tinha realmente os melhores irmão e cunhado de alma do mundo!
após o jantar me perguntou sobre do que se tratava afinal, a conversa com . E ali nós tivemos uma longa noite de chá com colo. Porque falar sobre o quanto estava certa, sobre o quanto eu precisava me abrir para novos amores me fizeram pensar em . E toda vez que um pensamento fugia até ele e nosso passado, eu precisava de colo, cafuné e chá calmante. Eu não tinha notado que o fato de meter a cara no trabalho, nos estudos e zerar o meu placar de vida social, nada mais era que uma fuga. Naquela noite, me mostrou isso. Naquela noite, eu percebi o quanto estava sendo covarde.

“Eu sei que ela 'tá na cidade vizinha, mas eu preciso da boca dela na minha. Talvez essa hora saiu do banho, 'tá se arrumando pra sair com as amigas...”

’s POV

A minha cabeça tem total ciência de que não vai dar pra voltar no tempo e consertar tudo. Eu tenho total noção de que acabou. Mas, vai falar isso para o meu coração? Se for praga dela por ter me amado e eu não ter dado o devido valor, essa praga pegou. Eu não sei mais pensar em outra coisa a não ser “o que ela estará fazendo agora”? E logo depois de tanto tempo…
Ter focado na minha carreira, nesse momento da faculdade foi ótimo. Mas, me tirou toda uma rotina de festas, mulheres e zoações porque são atitudes que não se encaixam mais com as necessidades que tenho. E é neste momento que eu me percebo sozinho.

“Ela está solteira e não sozinha”


Uma única frase que está estourando os meus miolos a cada vez que o ponteiro dos segundos se move no relógio. Pleno sábado e eu em casa, olhando para o teto e pensando nela…
Eu estou fodido. Isso não é a hora de ter algum sentimento por ela. Porque, eu tenho certeza que o problema aqui não é arrependimento pelo que fiz. Essa fase também já foi. É arrependimento pelo que eu não fiz. Sentimento da pior espécie.
Fábio me chamou pra ir até uma cidadezinha depois da cidade onde ela está. Eu poderia de repente, furar o pneu do carro por lá e procurar ela. Afinal, a gente não ia ser amigos de novo?
A única coisa que me fazia estar parado, estalqueando as redes sociais dela e não dirigindo até ela é a dúvida entre: ligar ou não ligar?
E quando minha cabeça pensou que uma desculpa esfarrapada de “e aí, quanto tempo, vamos num show há trinta quilômetros da sua cidade?” poderia ser o pontapé inicial, a solicitação de mensagem chegou. O que raios a pretendia?

“Ela acabou de me mandar essa foto. Parece que ela está realmente seguindo em frente, . Não é melhor fazer o mesmo?”


As mãos com esmaltes em cores que só ela entendia, fazendo sinal de ok em frente a um engradado de cerveja que , o melhor amigo que eu não conheci, – mas sabia que ela tinha como um irmão e que segundo algumas línguas me odiava – sorrindo para fotografia segurava era a imagem enviada por ela. E ainda pude ler parte da conversa com : “você poderia vir e conhecer meus novos amigos, ”. Não me contive em perguntar:
: “Você vai?”.
: “Não hoje. Não vou poder. Mas o fato é que ela vai sair e se divertir, e você aí sentado engordando bunda choramingando por ter sido tão burro não vai mudar nada”.
: “O que você quer que eu faça ?!”.
: “Vai seguir sua vida! O Fabinho me contou que te chamou pra sair e você não respondeu!”.
: “Eu estava agora mesmo, pensando em ir… Mas… Esquece”.
: “Falei de você para ela hoje. Ela não quer saber nada, mas diz que se contenta muito em saber que você está mudando profissionalmente”.
: “Ela está saindo com alguém?”.
: , você não entendeu! Eu não estou tentando juntar vocês dois. Eu estou tentando te fazer perceber que não adianta ficar na fossa e que realmente é pra você seguir seu caminho. Tem quatro meses que ela foi embora e você se isolou totalmente! Ela passou por isso tudo que você passa, e se recuperou. Eu só quero te mostrar isso, pra você se esforçar em se recuperar também. Eu tenho que ir agora, se cuida bocó.”.
: “Se cuida feiosa, e para de fazer leva e trás que você não está ajudando!”.


não mais respondeu e eu bufei alto. Peguei as chaves do carro e no caminho eu iria me decidir para onde eu iria.

“Tomara que saia e dê tudo errado, e volte mais cedo, sem ninguém do seu lado. Tomara que saia, dê tudo errado e sinta saudades aqui do meu quarto”.

Eu não fazia ideia de como a encontrar. A cidade era realmente pequena. E não sei o que é pior: ser sozinho na cidade grande como eu, ou sozinho na cidade pequena como ela. Embora, insistisse em dizer que ela seguiu em frente, coisa e tal… Meu coração ansiava para ela não ter ninguém. Aquela súbita e infeliz esperança de que eu ainda estava no coração dela. Que porra de egoísmo. Por isso que eu não gosto de me apaixonar. Paixão é o sentimento mais egoísta que eu conheço. E a gente discutia muito isso.

Três anos atrás...

— Você nunca amou ?
— Amor é um sentimento egoísta. Eu não quero viver isso.
— Não. Paixão que é.
— Paixão é algo carnal , o que ‘cê tá dizendo?
— Não! Você que não sabe porra nenhuma de nada.
— Por que você ‘tá nervosa?
— Eu não estou nervosa! – ela se levantou da cama irritada.
— Vem cá! Volta aqui garota.
— Eu vou ao banheiro! Posso?
— Mas volta aqui pra deitar comigo e me explicar a sua grande teoria senhora Freud.
Ela revirou os olhos e saiu. Eu fiquei rindo por ter irritado ela até que ela voltou. Quando se deitou na cama ao meu lado, ainda meio emburrada, eu puxei o corpo dela e comecei a beijá-la tentando arrancar um sorriso.
— Para, para. – ela pediu e eu a encarei chateado, e então sorrimos.
— Me explica então. Me ensine o que são os sentimentos.
O olhar dela oscilou ao me ouvir. E naquele tempo eu não havia notado aquilo, porque não fazia ideia do que a minha frase poderia parecer.
— Paixão é carnal sim. E é por isso que é egoísta. Você só quer satisfazer seus desejos com aquela pessoa. Não se importa se ela vai embora depois ou se vai ficar, e se aparecer alguém que possa “atrapalhar” seu lance com aquela pessoa, o único pensamento que vem a mente é não deixar o outro ir. Amor não. No amor a gente aceita tudo pra ver o outro melhor, a gente sacrifica o que tiver que sacrificar desde que saiba que o outro vai estar bem. Amor é autodestrutivo se não tiver cuidado, e embora às vezes a gente saiba que está se intoxicando com isso, não importa. Porque a gente não pensa em si, pensa no outro.
— Uau… Você entende de amor... – sorri debochado olhando para ela: — Ou você já amou muito, ou está apaixonada.
Ela revirou os olhos, irritada pela minha capacidade de tirar qualquer clima sério de uma conversa.
— Você está apaixonada por alguém ? Ah não… Você está apaixonada por mim?
Eu a encarava com curiosidade, mas muito mais com deboche. E ela limitou-se a morder o lábio como sempre fazia e responder com outra pergunta:
— E se eu dissesse que sim?
— Eu ia dizer que você é retardada. E que fodeu todo nosso esquema.
— Uau… Você é mesmo um idiota . E eu vou nessa antes que eu pegue a sua idiotice.
Ela levantou-se pegando suas roupas para vestir, e eu gargalhei.

Dias atuais...

Era óbvio que eu jamais falaria aquilo para ela ou para qualquer mulher que se declarasse para mim. Mas, ela não estava apaixonada, e aquilo não era uma declaração. Pelo menos, não na minha cabeça. Eu fodi com tudo? Sim. Mas Rafaela também, com o seu jeito complexo de não falar dos sentimentos, ela não fez questão de abrir meus olhos e encarou os fatos como se eu tivesse a obrigação de reconhecer o que estava acontecendo ali. Por isso, eu não consigo parar de pensar que não acabou nada, porque na verdade nem começamos. Dirigi até uma praça que começava a se encher de pessoas. Os bares abertos já mostravam que aquela cidadezinha buscava alternativas para sobreviver ao tédio. Tirei o telefone do bolso e abri o Instagram dela. Ela não mais me seguia, mas eu seguia a ela. Nunca curtia as fotos dela para que ela não soubesse daquilo. Vasculhei as postagens e descobri onde ela trabalhava. Perguntar pra alguém se conhecia o local e uma respectiva funcionária deveria dar certo, afinal estávamos numa cidade pequena. E foi o que eu tentei fazer. Mas não obtive sucesso, as três pessoas que perguntei não conheciam , nem mesmo eu mostrando a foto dela. Talvez, a cidade fosse maior do que eu pensava.
Voltei para meu carro e ao fechar a porta, bem em frente ao bar que eu estava estacionado eu a vi. Na porta, risonha com uma loira ao seu lado. Uma amiga provavelmente. Elas aguardaram um cara se aproximar, e eu torcia mentalmente para não ser um namorado dela. Quando ele beijou a boca da loira, a frequência dos meus batimentos caiu significativamente.
Era aquilo ou não fazer nada: entrei no bar também. Havia um andar superior com espaço para dançar, que imaginei que era onde elas estariam já que não as encontrei no térreo. Eu subia a escada atento, e quando cheguei ao topo, estava em minha frente me olhando com raiva.
— Você não deveria estar aqui.
— E por acaso isso está escrito onde? , não é?
, eu não preciso que você me conheça pra eu conhecer você. Se aquele rosto derramar uma lágrima hoje por culpa sua, eu não vou deixar você sair daqui.
— Eu só quero vê-la.
— Sério? Veio até aqui para ver ela somente? Quer que eu acredite?
— Por favor. Me deixe falar com ela.
— Eu não deixo nada, quem tem que deixar ou não é ela. Eu só estou te dando o meu recado. Ai de você, fazer ou falar qualquer coisa que possa a magoar.
saiu e eu lambi os lábios olhando para o chão. Ela continuava no balcão de um barzinho que havia ali, encostada conversando com a loira e seu acompanhante. Caminhei calmo, sem saber ao certo o que eu iria dizer ao estar de frente para ela. E no meio do caminho, aquilo me soava ridículo. O que eu estava fazendo? Para quê eu estava fazendo aquilo? estava certa, eu precisava seguir. estava certo, eu precisava deixá-la seguir e não tinha nada para ser dito também.
Dei meia volta e retornando ao caminho da escada antes de pisar o primeiro degrau para descer, olhei para trás. Aquela seria de fato a última vez que a veria. Ela continuava sorrindo para a loira, e então um rapaz moreno e forte surgiu atrás dela surpreendendo os três. o abraçou e eles engataram em uma conversa.
Dentro do carro, dei partida e meu celular tocou.
! Você não vem? Cadê você?
— Fala Fabinho, tô a caminho já.
Aquela foi realmente, a última vez que eu a vi. A última cena da nossa história era: a mulher que eu começava a entender que amava abraçando um cara aleatório, sorridente entre amigos. Eu não tinha o direito de me meter na vida dela, nós não tínhamos nada para resolver. Ou para acabar. Nós mal começamos, na verdade. E mesmo sabendo disso, eu descobri que o amor era sim egoísta e ela estava errada, porque eu continuava dirigindo e torcendo para ela voltar sozinha pra casa aquela noite. E não, eu sabia que o que eu estava sentindo não era paixão. Era amor. Amor da pior espécie.


FIM


Nota da autora: Oi amorinhas, mais uma shortfic linda pra vocês! JÁ SABEM NÉ? Bora me contar o que acharam, por favor. Pode ser no grupo do whats, do face, aqui nos comentários, o importante é contar! • Entre no grupo do Facebook da Autora: Autora Ray Dias (http://www.facebook.com/groups/raydias)



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Essa fanfic é de total responsabilidade da autora. Eu não a escrevo e não a corrijo, apenas faço o script. Qualquer erro nessa fanfic, somente no e-mail.


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