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Última atualização: 07/05/2021

Capítulo Um: Boa sorte. Você vai precisar.

— Oi, meu nome é Harry Styles. Não, não... Olá, eu sou o Harry Styles, sou novo e... Não. E aí, sou o Harry. — Bufei, enquanto me olhava no espelho. Estava tenso.
Tensão: uma droga. Principalmente para o seu primeiro dia de aula na faculdade. É tudo diferente, entende? A faculdade é uma fase em que você deveria se encontrar mais amadurecido, com os pensamentos diferentes dos quais você tinha no colégio. Mas, de acordo com todas as pessoas que interroguei, dizem que a faculdade é a mesma coisa que a escola. Só espero que não seja verdade.
Olhei para outro canto do meu quarto, pelo o espelho, e então suspirei. Voltei a olhar a minha figura e sorri. Apoiei um dos braços no próprio espelho e fiz a maior cara de galanteador. Pisquei para mim mesmo.
— E aí...? Tudo bem com você, gata? Meu nome é Harry... Porém, você pode me chamar do que quiser.
— HARRY EDWARD STYLES, DESCE AGORA SENÃO EU NÃO TE LEVO MAIS PARA ESSA PORRA! — Meu pai gritou. Vocês acabaram de conhecer o tipo de cara que meu pai é. Do tipo que fala muito palavrão e grita com todo mundo. Mas ele não é um monstro. Relaxem.
Revirei os olhos e olhei para meu reflexo.
— Conversamos depois, linda. — Pisquei e então me virei para minha cama. Coloquei algumas coisas dentro da mala que eu deixei para última hora. Fechei o zíper e então joguei a mochila nas minhas costas. Bati o olho no Olly. Fiquei o olhando e ele ficou me olhando de volta. Olly era meu melhor amigo, mas... Eu já tinha crescido, certo? Não iria mais precisar dele... — Ah, que se dane.
Peguei-o e o enfiei dentro do bolso de fora. Peguei a outra mochila e saí de meu quarto. Desci as escadas e cheguei ao hall, onde estava meu pai andando para um lado e para o outro.
— Ah, ele resolveu aparecer! Anda logo, que eu tô no carro! — Ele abriu a porta de casa, pegou as chaves e saiu todo “p” da vida dali. Observei-o e me virei para a minha mãe, que me olhava sorrindo fraco.
— Meu bebê vai para a faculdade! — Ela se aproximou sorrindo e me deu um abraço. Sorri e a abracei de volta. Passou um tempo e ela não me largou. Esperei mais um tempo, mas ainda assim ela não deixou de me abraçar. Parei de abraçá-la e ela não.
— Mãe?
— Você vai para a faculdade! Tão novinho e vai para a faculdade... — Ela disse.
— Mãe... Eu tô ficando sem ar.
— Ah, desculpa. — Ela respondeu, me largando ainda sorrindo, mas com indícios de que choraria.
— Tudo bem. — Sorri de volta. Ela tentou se conter, mas não conseguiu e o chororô começou.
— Eu não acredito que você vai me deixar aqui. Você não quer estudar em casa? Assim você não precisa ir... Vamos, Harry! — Ela disse, me puxando. Respirei fundo e segurei seu rosto.
— Não. — Disse, sorrindo, e ela suspirou.
— Certo. — Ela limpou as lágrimas que estavam escorrendo e eu a larguei. Arrumei a mala em meu ombro.
— Ora, ora! Virou homem! Estava na hora já. — Mason desceu as escadas e parou atrás de mim, me obrigando a me virar para ele. Ele sorria do jeito malandro dele. — Eu me lembro do primeiro dia de aula da faculdade... E com certeza o seu vai ser pior.
— Valeu, mano. — Disse, levantando o polegar da minha mão direita e então Gemma passou comendo pipoca.
— Isso se ele sobreviver. Nerds são afogados nas privadas, Harry. Então fique atento. — Ela piscou. Cuzona.
— Valeu a fé, mana! — Sorri para ela.
— Vamos logo, cacete! — Meu pai gritou, do carro, e buzinou. Revirei os olhos e me virei para a porta.
— Ah, pera. Eu tenho uma coisa para te dar. — Mason se aproximou e olhei para o saco na mão dele. Peguei-o e estranhei.
— Um peixe?
— É. Peixes são demais. E aí...? Qual vai ser o nome dele? — Ele perguntou, enquanto batia no saco. Tirei o saco de perto dele.
— Para! Nunca assistiu Nemo, não? Eles não gostam disso. — Disse, e olhei para o peixe.
— Anda logo, Harry. Quero assistir a sua ida para a faculdade. — Gemma disse, sorrindo, enquanto comia a pipoca. Eu responderia, se minha mãe não tivesse me interrompido.
— Temos que registrar isso. — Ela veio com uma câmera e ficou me gravando.
— Ah, qual é mãe? Desliga isso! — disse, tentando tampar a lente com a minha mão.
— Mas por quê? Você fica um docinho no vídeo, Harryzinho. — Ela disse, e meus irmãos se entreolharam segurando uma risada.
Own, Harryzinho que docinho! — eles disseram, ao mesmo tempo, e ficaram me zoando, enquanto apertavam a minha bochecha. Bufei e bati nas mãos deles.
— Desliga isso, mãe! — disse, e então peguei a câmera dela, desligando aquela droga.
— ANDA LOGO COM ISSO, CARALHO! — meu pai gritou, de novo, do carro e minha mãe revirou os olhos.
— DEIXA EU ME DESPEDIR DO MEU FILHO, DESMOND! — ela gritou, e se virou para mim. — Ah, Harry! Seu cabelo está desarrumado! Deixe-me arrumar, docinho. — Ela se aproximou e molhou o dedo com saliva. Espera, congela!

O que eu faço agora? Minha mãe estava prestes a colocar saliva no meu cabelo, meus irmãos estavam me zoando e rindo porque eu era um "docinho" e meu pai estava... Bom, estava sendo ele no carro. Daqui a menos de quarenta minutos, eu tinha que estar no campus. Então... Só havia uma solução.

— Deixa que eu faço, mãe! — Fingi que molhei o dedo com a minha própria saliva e me mandei de casa. — TCHAU, GENTE! A GENTE SE VÊ POR AÍ!
Comecei a andar rápido em direção ao carro, pronto para aguentar o meu pai xingar ainda mais no trânsito. Abri a porta do Cadillac e entrei nele. Coloquei o cinto, ouvindo o meu pai reclamar que estávamos atrasados e que eu iria para lá a pé. Olhei pela janela e meus irmãos e a minha mãe estavam na porta, me olhando. Eles estavam acenando. E meu irmão estava falando algo.
Algo do tipo “você está fodido”.
Eu sei, Mason.
— Pisa fundo.

📚


Meu pai estacionou o carro no lado de fora da Universidade de Outbrooks. Olhei para as pessoas que estavam chegando junto comigo. Tirei o cinto, logo em seguida peguei a mochila que estava no banco de trás. Meu pai abriu a porta dele e eu fiz o mesmo. Nós dois saímos do carro e demos a volta nele, indo para o porta-malas. O abrimos e então peguei as outras duas mochilas — uma era do meu violão — que já estavam no carro antes. Segurei-a com uma das mãos e ouvi meu pai suspirar. Ele arrumou as calças e se virou para mim. Fiquei o observando. Ele olhou para os outros alunos entrando na universidade e então voltou seu olhar novamente para mim.
— Só me promete uma coisa? Não faça nada que você se arrependa depois, tudo bem? — ele disse, e eu demorei um tempo, mas assenti com a cabeça. Meu pai sorriu de leve e bagunçou os meus cabelos com a mão que segurava a chave do carro, logo fechando o porta-malas. — Se cuida, moleque. E vê se arranja uma namorada, hein?
Ele piscou para mim e eu sorri, arrumando a mochila nas costas.
— Pode deixar, pai.
— Eu te amo, filho. — Ele me deu um abraço.
— Eu sei. — Respondi, calmamente, e ele riu.
— Filho da mãe. — Ele soltou, e eu sorri. Nos largamos e, depois de uma troca de olhares, saímos um de perto do outro. Meu pai entrou no carro e arrancou com ele, dando uma buzinadinha. Fiquei parado ali na rua, só pensando no que ele disse. Suspirei e olhei para a grande construção, que mais parecia um castelo do que qualquer outra coisa.
— É... — disse, para mim mesmo, me ajeitando para começar a andar. — Vamos nessa.


(Coloquem essa música, para ouvir nessa cena: Bad Reputation – Joan Jett)


Caminhei pelo gramado verde, com os olhos semicerrados por conta do sol que estava forte, enquanto fui analisando o tipo de gente que iria estudar comigo. Não pareciam tão durões. Para falar a verdade, todos tinham cara de Nerd ou CDF. Se bem que eu estava vendo apenas os que estavam sentados com livros e óculos de grau. Procurei outras pessoas com o olhar, então achei o que eu procurava: pessoas que agiam normalmente. Ou nem tanto. Havia diversas garotas conversando entre si e rindo. Algumas olhavam para mim e riam. Ignorei e continuei caminhando. Havia alguns caras jogando futebol. Outras pessoas tocando violão. Outras apenas conversando. Cheguei ao pátio principal, entrei naquele grande castelo e procurei pela tesouraria.
Notei que ela estava na minha frente e caminhei até lá, parando em frente ao balcão. Havia uma mulher, mas ela estava pouco interessada em mim. Pigarreei. Então ela levantou o olhar.
— Com licença, eu queria saber onde que fica o dormitó...
Antes de eu terminar a frase, ela apontou para um mural ao meu lado. Olhei para ele e bati na minha própria cabeça, entendendo.
— Obrigado. — Dei um sorriso e comecei a procurar a minha suíte com o dedo. — Harry Madson... Harry Padson... Harry Styles. — Achei. Sorri feliz por saber onde ficava o meu quarto e peguei um panfletinho que tinha em cima do balcão, passando a folheá-lo.
— Primeiro dia também, certo? — Um garoto ruivo disse, atrás de mim. Tirei meus olhos do papel e o encarei.
— Sim... O seu também?
— Na mosca. Sou Edward Christopher Sheeran. Mas pode me chamar de Ed. — Ele ergueu a mão. Assenti sorrindo e a apertando. — Eu tento a vaga para essa universidade há três anos! — ele disse, rindo e eu ri de leve. É difícil explicar, mas a Universidade de Outbrooks era a única e a mais concorrida da nossa cidade. — E você, como se chama?
— Harry Edward Styles, mas pode me chamar de Harry. — Disse, e ele franziu a testa, sorrindo ainda mais.
— Somos xarás, então?
— Hum... Quase isso. — Ri e ele me acompanhou.
— Já sabe em que quarto ficará?
— Sim... Na Ala 4, Suíte 609. — Disse, voltando a olhar para a lista. Ed procurou o nome dele e o achou.
— Ala 3 Suíte 402. — Ele leu e se virou para mim, sorrindo. — Quer que eu te acompanhe?
— Claro. — Respondi, dando de ombros e peguei a mochila que estava no chão. Começamos a caminhar pelo corredor com paredes tom de bege.
— Então, Harry... O que fazia da vida antes de vir para cá? — Ele me perguntou, a fim de puxar assunto.
— Acho que nunca fiz nada na minha vida inteira além de estudar. — Respondi, e ele riu. O olhei de canto de olho. — Sério.
— Ah... — ele parou de rir. — Poxa, foi mal.
— Ah, tudo bem. Perdi metade da minha adolescência por uma boa causa. E você?
— Tocava em Pubs. — Olhei-o e ele deu de ombros, sorrindo. — Sério.
— Você tem cara disso. — Respondi, e ele riu. Um ser apareceu atrás de nós, nos abraçando.
— Grande Sheeran! — O garoto disse. — E esse aí? Quem é?
— Sou Harry Styles. — Respondi, e ele sorriu.
— Gostei do seu nome... Sou Louis Tomlinson, mas me chame de Lou. — Ele ergueu a mão e eu a apertei. Louis tinha muita força no aperto de mão. — Estão indo para os dormitórios?
— Isso aí. — Respondemos, em uníssono.
— Vou com vocês, então.
Começamos a caminhar pelo pátio, agora aberto a uma praça.
— Diz aí, Harry! Entrou esse ano aqui? — Ele perguntou, e eu fiz que sim. — Hum, então seja bem-vindo!
— Você não entrou nesse ano? — Perguntei, e Ed fez que não.
— Louis já estuda aqui há um ano. — Ele disse.
— Ah, certo. — Falei, e Louis pigarreou.
— Olha só quem está sentada ali. — Ele disse, apontando com a cabeça em direção a uma garota usando uma saia minúscula e que conversava com outras garotas, enquanto mexia no cabelo. Estranhei.
— Quem?
— Rebecca Johnson. A garota mais gostosa do campus. — Louis respondeu. — Todos querem um pedaço dela.
— E você também? — perguntei, rindo e ainda olhando para aquela garota. Louis riu maroto.
— Macaco gosta de banana? — ele disse.
— Formiga gosta de açúcar? — Ed disse.
— Certo. — Respondi, rindo e ficamos a observando. De repente, ouvimos um suspiro meio que apaixonado ao lado de Louis. Viramo-nos para o dono desse barulho e vimos um garoto.
— Rebecca... — ele disse, e então rimos.
— Fecha a boca senão o prédio vira uma piscina, Liam. — Louis disse, bagunçando os cabelos dele, que bufou e bateu em sua mão.
— Parou! Olha o Bullying. — Ele disse, e arrumou os óculos de grau no rosto. — E quem são os seus amigos aí?
— Sou Harry Styles e este é Ed Sheeran. — Respondi, apontando para mim e para Ed e sorrimos. Liam assentiu e mais uma vez arrumou os óculos no rosto. Deu um sorriso leve.
— Sou Liam Payne. — Ele disse, erguendo as duas mãos para nós, que a pegamos. — Prazer em conhecê-los.
— O prazer é nosso. — Respondemos, ao mesmo tempo.
— Liam é apaixonado pela Rebecca, desde... Sei lá, desde sempre. — Louis riu e ele revirou os olhos. Então voltamos a olhá-la.
— O que eu posso fazer se ela é demais? — ele disse, e então ela riu com as amigas. Fiquei a observando por um tempo, até que ela olhou para mim, enquanto ouvia as amigas conversando. Ela deu um sorriso. Me mantive quieto olhando a cena.
Um ronco de motor foi ouvido e esse garoto estacionou a moto perto das outras e desmontou dela, tirando o capacete. Todos que estavam ali olhavam para essa cena. Ele arrumou a jaqueta de couro e colocou o capacete dentro de um compartimento da moto.
— Ah, eu não acredito! — Louis revirou os olhos. — Ele aqui não, droga!
— Quem é aquele? — perguntei, e Louis bufou.
— Este é Zayn Malik. Encrenqueiro, fama com as garotas, badboy. — Ele balançou a cabeça negativamente e, pelo o pouco que conheço de Lou, poderia até ter cuspido no chão de nojo. — Odeio ele.
— Isso porque ele roubou a namorada dele no verão passado. — Ed disse, e Louis revirou os olhos.
— Não me lembre desse episódio, Ed. — Observei Zayn ir ao encontro de Rebecca e então dar um beijo na bochecha dela. — Nem acredito que esse bosta vai estudar aqui.
— É, Zayn é meio idiota mesmo. — Liam falou, e Louis revirou os olhos.
— Idiota é pouco. E olha lá... Já está com as garotas de novo. Esse cara é impossível!
— Calma aí, Louis, relaxa. — Ed disse, e enquanto eles falavam, meus olhos correram de Zayn para Rebecca e chegaram a uma garota. Uma garota que estava sentada em um canto do pátio, lendo um livro que, se a minha visão não se enganava, tinha um grande Mary Howard como escritora da estória. Ela estava na dela, ouvindo música no seu Ipod, enquanto lia o livro. Por um instante, foi como se a minha cabeça focasse apenas naquela cena e tudo ficasse em silêncio, exceto o som da natureza. O que aconteceu?
— Não é, Harry? — Ed disse, e eu acordei do momento. Me virei para ele confuso.
— Oi?
— Nada. — Ed revirou os olhos. — Vamos logo para os nossos quartos antes que alguém resolva os roubar.
Ed empurrou Louis, que foi na frente — meio irritado, devo dizer — e eu e Liam fomos atrás. Tentei puxar assunto com ele durante o trajeto, mas ele era muito quieto. A cena daquela garota lendo o livro não saía da minha cabeça.
Subimos alguns lances de escadas e nos separamos cada um para o seu quarto. Procurei a minha suíte, olhando para os números das portas, até que finalmente cheguei a ela: suíte 609. Nem um pouco sugestiva.
Peguei as chaves que estavam dentro de um envelope, na prateleira que tinha acima da porta. Confuso? Só parece. O estranho era que tinha duas chaves ali. De qualquer jeito, peguei o pacote. Aquela outra chave devia ser de reserva. Destranquei a porta e então finalmente entrei na suíte. E cara... Era grande para caramba.
Coloquei minhas coisas em cima da minha cama e suspirei, dando uma geral no lugar com meus olhos. Tinha uma escrivaninha gigante embaixo de uma janela, havia uma porta que, imagino eu, dava para o banheiro, um sofá embaixo de outra janela e uma mesa onde havia uma TV em cima. Havia também guarda-roupas com portas de correr e algumas prateleiras por todo o quarto. O quarto era em tons de marrom escuro e bege. Havia também duas cômodas e duas camas.

Não me mexi. Duas camas?

— Ah, finalmente, o meu quarto. — Uma voz masculina disse, atrás de mim, e passou ao meu lado, se jogando na sua cama. Fiquei o observando, ele olhou para mim e sorriu. — Você deve ser o meu colega de quarto. Sou Zayn Malik.
— Colega de quarto? — perguntei, e ele riu, se sentando em sua cama.
— Você achou mesmo que iria ficar com esse quarto gigante só para você? Para o que você achava que tinha duas camas? — ele riu de novo e eu fiquei o observando. — Não vai me dizer o seu nome?
— Eu... Eu me chamo Harry Styles. — Falei, e ele sorriu.
— Legal.
Olhei Zayn se levantar de sua cama e pegar as suas malas. Ele as abriu e jogou algumas roupas em cima de sua cama. Zayn cheirou algumas, até que escolheu um conjunto e partiu para o banheiro. Eu fiquei ainda olhando para a porta do banheiro. Ele ia ser o meu colega de quarto?
— Fu...
— Ei, Styles. — Ele tirou apenas a cabeça do banheiro. O encarei.
— Diz.
— Me empresta o seu desodorante, por favor? Eu esqueci o meu em casa. — Ele disse, rindo.
— C-claro. — Disse, e peguei da minha mala. Joguei na direção de Zayn que o pegou no ar. Ele piscou para mim.
— Valeu. — E então ele entrou no banheiro novamente. Suspirei e me virei para a minha mala.
— Agora é só esperar. — Disse, para mim mesmo. Pelo o que Louis disse, aquele cara era um babaca. Vamos ver se realmente era.
— Toc-toc. — Uma voz feminina disse, na porta, e eu me virei para ela. Ela usava um uniforme de assistência. — Você deve ser Harry Styles, certo? Sou Jenna.
— Oi. — Disse, sorrindo fraco, ela riu e eu sei lá o porquê de ela rir.
— Eu sou a responsável dessa Ala e sou obrigada a passar em todas as suítes para ver se está tudo ok. — Ela disse, sorrindo fraco. Quase disse que não estava ok.
— Ah, certo.
— E aí? Está tudo ok?
— Parece não estar? — Perguntei, meio perdido, e ela riu de novo.
— Na verdade...
— Ei, cara, acho que o desodorante acabou. — Zayn saiu do banheiro apenas de cueca e Jenna pareceu ficar um pouco incomodada. Pigarreei e apontei com a cabeça na direção dela. Zayn não entendeu e então se virou para Jenna e se espantou, tentando cobrir seu saco. — Ah... Oi.
— Oi, Malik.
— Que interessante você saber o meu nome. — Ele disse, meio jogando charme, a meu ver. Tem cara de idiota.
— Eu tenho que saber o nome de todos os alunos desse pedaço. — Ela deu de ombros e olhou para as pernas nuas de Zayn. — Agora, por favor, se vista. Até mais e boa sorte, Styles. — Ela olhou caridosa para mim. — Você vai precisar.
— Tchau, Jenna. — Disse, dando um tchauzinho e ela se foi. Malik riu.
— Que bosta. — Ele disse, e se virou para mim. — Foi mal, mas acabou o seu desodorante e eu nem o usei.
Ele o jogou na minha direção e deu de ombros. Zayn voltou para dentro do banheiro e eu revirei os olhos, colocando o desodorante na mochila. Mas eu repensei e o peguei de volta. Olhei para os lados e tirei o lacre dele. Então apertei e saiu. Ri comigo mesmo.

📚


— Então quer dizer que Zayn Malik está dividindo a suíte com você? — Ed perguntou, e eu assenti, enquanto colocávamos a comida nos pratos no refeitório.
— Isso aí. Malik está no mesmo quarto que eu. — Disse, pegando um pouco de purê de batata e então andamos na fila.
— Nossa. — Ed riu. — Boa sorte. Você vai precisar.
— Valeu pelo apoio, cara. — Respondi, e Ed riu novamente. Pegamos a sobremesa – que por algum motivo estranho era o meu favorito: mousse de chocolate – e seguimos para um lugar na gigantesca mesa do refeitório. Nos sentamos perto de Louis e Liam. — Eu já disse que me sinto em Hogwarts agora?
— Você não é o único, cara. — Liam disse, olhando para o prato e arrumou os óculos no rosto.
— Mas tudo tem a suas vantagens. — Louis piscou um dos olhos, sorrindo sacana, ele olhou para os dois lados, então pegou a sua bebida, dando um gole antes de revelar: — Do tipo... Os horários de pegação.
— Ou você quis dizer os seus horários de pegação? — Ed perguntou, com um leve sorriso no rosto. Louis deu de ombros e eu ergui uma das sobrancelhas.
— Louis é um dos maiores pegadores da universidade. — Liam disse, se aproximando de mim. Sorri.
— Sério?

Na minha vida inteira eu nunca conheci alguém que se desse bem com as garotas. Você sabe... daquele jeito. Meus amigos sempre foram Gordon e Stu. Stu até que se achava o maioral, mas... Ele não era. Éramos três adolescentes Nerds confusos e tentando sobreviver na escola. Agora sou só eu... Tentando sobreviver na faculdade.

Louis deu de ombros, sorrindo.
— Talvez. — Ele respondeu.
— Talvez nada! — Liam disse, sorrindo. Louis – por incrível que pareça – pareceu envergonhado.
Deixamos de lado aquele assunto e voltamos a comer nosso jantar normalmente. O silêncio tomou a nossa mesa, mas o refeitório permaneceu barulhento. Às vezes, assuntos descontraídos surgiam entre nós. Até que finalmente cheguei à minha sobremesa. Olhei para o mousse marrom e peguei a minha colher. Foi quando eu experimentei aquilo... E preferia mil vezes o mousse da mamãe! Olha que ela nem sabe cozinhar!
— Credo! — empurrei a tigela para longe de mim e fiz uma cara de enjoado. Ed olhou para tigela.
— O que foi? — ele perguntou, e Liam limpou a boca com o guardanapo.
— O mousse é uma droga. — Ele disse, calmo. — Por isso eu nunca pego nada que é preparado pela Marge.
— Quem é Marge? — perguntei, e ele apontou com a cabeça na direção de uma mulher de touca e avental atrás do balcão. Ela estava distraída até que olhou para Liam, deu um tchauzinho animado e Liam respondeu com outro.
— Liam é um cara solitário que passa o seu tempo fazendo amizade com cozinheiras idosas. — Lou disse, e Liam o encarou.
— As pessoas são chatas, Louis. Principalmente dessa universidade. — Ele respondeu, dissecando Louis com os olhos e eu quase ri, se não fosse pelo olhar bravo de Tomlinson.
— Ok... — Ed cortou o clima e deu de ombros.
Hey, hey, heeey! Horan! — alguém disse, a algumas mesas atrás da nossa. Observei um garoto de raiz escura e fios loiros sorrir enquanto se sentava na mesa cheia de garotos e garotas. Adivinha quem estava lá?
— Quem é Horan? — Ed perguntou, e Louis olhou para trás, na direção da mesa. Ele voltou o olhar para nós.
— Niall Horan. Xodó de Zayn Malik. Histórico completo? Faz absolutamente tudo o que Malik manda. Nunca conversei com ele. — Tomlinson deu de ombros. Continuei a encarar o loiro oxigenado.
— Ele parece legal. — Disse, e Liam deu uma rápida olhada para aquela mesa.
— Loiros. — Ele bufou. — Sempre parecem legais.
Ed riu com esse comentário e uma corneta soou pelo refeitório todo. Todos começaram a se levantar enquanto eu permanecia confuso.
— O que é isso? — perguntei, e me levantei junto.
— Corneta do Howard.
— Toque de recolher. — Liam pegou sua bolsa e a colocou em volta do corpo. — Temos que voltar para o quarto antes das dez horas. — Ele revirou os olhos e começamos a caminhar.
— Achei que éramos independentes aqui. — Disse, enquanto subíamos as escadas. Louis riu.
— Se você quer estudar aqui, precisa seguir as regras, Styles.

📚


Desliguei o chuveiro e balancei os cabelos, tirando o excesso de água deles. Respirei fundo e tateei na parede a procura de minha toalha. Finalmente, a achei e enxuguei meu rosto e cabelo. Passei a toalha por todo o meu corpo e saí do box. Já eram quase onze horas a essa altura. Enrolei a toalha em volta do corpo e me olhei no espelho. Eu não tinha aquela barriga maravilhosa que todas as garotas sonham em ver e sentir. Eu tinha até que os ombros largos, porém a minha barriga era super “lisa”. Nada de six packs. Apenas duas linhas que caminhavam em direção aos meus países baixos. Não contei ainda, mas meu pai havia me ensinado a lutar ano passado. Ninguém nunca bateu em mim, mas ele pensava que assim eu ganharia garotas... É. Ele pensou errado.
Vesti uma calça de moletom cinza e blusa preta de mangas compridas e escovei meus dentes. Saí do banheiro e caminhei até a minha cama. Zayn não estava no quarto ainda e dei graças a Deus por isso. Tinha conseguido decorar o meu lado do quarto durante esse tempinho. Coloquei alguns pôsteres na minha parede e bem acima da minha cama, no teto, eu coloquei o meu maior e favorito dos pôsteres: dos Beatles, em uma versão que estavam em todas as suas épocas de estilo daquela década de 60. Não, eu não sou um poser e não fico fazendo rituais para louvá-los. Eu adoro os Beatles desde que eu ganhei um disco de vinil do álbum “The Beatles: The White Álbum”. Eu escutava aquele maldito álbum todos os dias e comecei a colecionar os discos dele em versão de vinil. Comprei desde “Please Please Me” até o “Abbey Road” e os Anthology 1, 2 e 3. Aquele pôster me dava um pouco de medo, para falar a verdade. Não sei, mas aquele sorriso de pai do George me era muito estranho.
Caso você queira saber, o peixe de Mason estava são e salvo em um copo cheio d’água que eu arranjei hoje. O copo era bem legal, tinha até tampa e agora estava na minha prateleira, junto a alguns CDs e livros meus. Acho que tinha DVDs ali também.
Tinha colocado o meu violão ao lado da escrivaninha, onde o meu laptop descansava. Eu não sabia tocar violão. Para falar a verdade, eu não sabia tocar nada. Nadinha mesmo. A não ser que você considere uma garrafa vazia e eu assoprando a boca dela uma habilidade musical. O violão só servia de decoração, mesmo.
Joguei minha mochila vazia embaixo da cama e peguei a outra, colocando em cima do meu armário já com todas as minhas roupas, e foi aí que Olly caiu na minha cabeça.
— Aí! — Reclamei, coçando a cabeça, e peguei-o do chão. Olhei para o meu companheiro e sorri, mas logo o escondi atrás dos livros da minha estante e peguei uma revista qualquer para ler. Se Malik visse Olly, com toda a certeza iria me zoar e eu só o trouxe porque achei que teria o meu próprio quarto.
Sentei-me na minha cama, deixando somente que as luzes dos abajures iluminassem o quarto. Bufei por não conseguir enxergar nada do que estava escrito naquele escuro e busquei por meus óculos de grau. Não que eu precisasse loucamente deles para ler. Nem meio grau eu tinha... Mas estava uma merda para enxergar. Comecei a ler um artigo sobre o novo shopping que iriam construir em Outbrooks, quando Zayn entrou no quarto, rindo maroto. Olhei por cima das páginas ele tirar os tênis e se jogar na cama. Malik olhou para mim.
— Ah, e aí, cara? — ele disse, se deitando de lado. — Não tinha te visto aí.
— Imaginei... — murmurei, e meus olhos voltaram a ler a revista.
— Sabe... Não sei o porquê, mas sinto que seremos grandes amigos. — Zayn disse, sorrindo fraco. — Boa noite.
Ele desligou seu abajur e virou para o outro lado.
Olhei para ele e fechei a revista. Eu ia responder, mas meu celular apitou. O peguei de cima da cômoda e li as três mensagens:

Está tudo bem aí, querido? Espero que sim!
Sinto sua falta, Harryzinho...
Não quer voltar para casa? - Mamãe.

Eu não sei por que que eu estou te mandando
essa mensagem, mas...
Eu sei que a mamãe te chamou de Harryzinho na mensagem dela!
Que docinho. - Gemma

Já deu um nome para o peixe? – Mason


Suspirei, larguei o celular de volta na cômoda e me enfiei debaixo do cobertor. Não iria responder nenhuma das mensagens agora. Pensei no meu dia. Não sei se Louis, Liam e Ed poderiam ser considerados por mim amigos. Zayn tinha me dado boa noite. Rebecca sorriu para mim e, pelo o que eu entendi, Liam é gamado nela. E tinha aquela garota lendo um livro no pátio, enquanto escutava música. Olhei para os Beatles em cima da minha cabeça e sorri. Arranquei os óculos e os coloquei na cômoda, virando de lado.
— É... Boa sorte para mim. Eu vou precisar.


Capítulo Dois: OUTBROOKS.

I love cats, I love every kind of cat, I just wanna hug all them but I can't, Can't hug every cat, can't hug every cat



Abri um olho de cada vez e bocejei, enquanto pegava o celular e desligava o despertador. Taquei a coberta para o lado e me sentei na cama, ficando tonto por ter feito tudo isso muito rápido. Mesmo assim, levantei e me preparei para hoje. Nada de especial teria, apenas seriam apresentados os professores e somente haveria uma aula. De qualquer jeito, éramos obrigados a usar o uniforme durante os dias “úteis” da semana. Olhei para a cama ao meu lado e Malik estava morto. Fiquei na dúvida se o acordava ou não.
— Acorda! — Joguei uma das meias nojentas dele em seu rosto. Ele se mexeu e abriu os olhos de repente.
— Hã? — ele disse, embriagado.
— Aula — disse, simplesmente. Zayn bocejou e abri meu guarda-roupa, procurando pelo uniforme. Tirei a blusa do pijama e coloquei a camisa de botão branca, abotoando-a. Tirei a calça do pijama, trocando pela calça social azul escura, e busquei pelo terno da mesma cor com o emblema da Universidade de Outbrooks costurado no peito esquerdo. Vesti os tênis cinzas e entrei no banheiro. Olhei para meu cabelo, o avaliando. Os joguei para baixo e o baguncei com as mãos, depois os colocando para o lado. Olhei o resultado. É, estava bom.
Voltei para o quarto e, de algum modo sinistramente ninja, Zayn estava trocado. Também não entendi isso. Peguei minha mochila e a coloquei em volta do corpo. Malik se arrumou e ajeitou o topete com a mão. Ele se virou para mim.
— Vamos? — Zayn perguntou, como se fôssemos para lá juntos. Ele passou por meu lado e saiu do quarto.

Irei resumir meu café da manhã como uma maçã bem vermelha e madura, nada que me desse dor de barriga depois.

Encontrei com Ed no meio do caminho e fomos juntos para o pátio aberto, onde todos os alunos estavam reunidos, sentados e esperando pela fala do reitor. Eu e Sheeran nos sentamos ao lado de Liam e Louis, mas com eles estava um carinha novo e loiro.
— E aí, caras? — Louis disse. — Este é Drew.
— E aí? — ele disse, e eu e Ed sorrimos para ele.
— Aquele é o prefeito Fairbrother? — Ed perguntou, e Liam assentiu.
— O que ele faz aqui? — perguntei, enquanto meus olhos se enrugavam para enxergar naquele sol de matar.
— Ele sempre faz um discurso rápido no primeiro dia de aula — Louis respondeu. Meus olhos escorregaram do palco, onde estavam o reitor e o prefeito, e correram pela multidão, observando todos que estavam ali. Então o meu olhar voltou algumas cadeiras e permaneceu parado ali. Não acredito. Era ela. A algumas cadeiras atrás de mim, estava a garota do livro. Seu cabelo solto não tão grande, caído pelos ombros, seus olhos castanhos observando com atenção o prefeito da cidade de Outbrooks, e usava a roupa do uniforme. Espera... a frase não seria “usava a roupa da universidade?”
— Caros universitários... — o reitor começou a falar, no microfone. — Bem vindos à Universidade de Outbrooks! — o pessoal gritou, animado e eu continuei a olhar para aquela garota sem saber o porquê. — Esperamos que este seja mais um ano de conquistas e incentivos a vocês! E como é de tradição, passarei a fala para o nosso querido prefeito, o senhor Thomas Fairbrother! — ele disse, e todos bateram palmas, inclusive eu, mas ela não bateu e eu parei de observá-la. Era o certo a se fazer, oras. Depois, ela iria olhar para mim e eu não saberia como reagir. É por isso que eu odeio garotas.
— Olá, vocês calouros e veteranos! É com um imenso prazer que anuncio o começo de suas aulas!
Todos gritaram, animados e aplaudiram.
— Eu sei lá o porquê estão tão animados... Afinal, vamos ter que estudar. — Drew disse, baixo, deixando à mostra seu aparelho esquisito da boca. Ri de leve.
— Espero também que as festas sejam as mais legais que vocês já viram em suas vidas! — Agora sim o pessoal se animou. — E claro, o horário livre e os feriados. Vocês poderão aproveitar mais, ainda mais agora com o novo shopping que vamos construir, onde...

— Você quis dizer a mais nova destruição de um ponto histórico da nossa cidade?

O prefeito parou de falar e todos olharam na direção de quem havia dito aquilo. Adivinhem quem era?
— Não, claro que não, senhorita Jones — ele disse, olhando para ela. — O shopping...
— ... ficará bem no parque onde existe a estátua ao memorial da Guerra Das Sete Cabeças? Disso já sabemos — ela disse, erguendo uma das sobrancelhas.
Então o sobrenome dela era Jones? Reação atrasada a minha, eu sei. Fairbrother a olhou com interesse e apoiou um dos braços ao lado do microfone, podendo olhar melhor para ela.
— Na verdade, senhorita Jones, o shopping também será uma evolução histórica para a cidade, já que não temos nada parecido com isso aqui em Outbrooks.
— Francamente, senhor Fairbrother, mas usar a desculpa que o shopping será uma evolução histórica para a cidade para encobrir a verdadeira ideia, a qual seria roubar mais dinheiro da população, foi a mais fraca até agora — ela disse, dando um sorriso sarcástico. O prefeito a olhou com raiva.
— Pois fique sabendo que tudo o que você disse são um monte de...
— Verdades? — ela continuava com o sorriso no rosto.
— A senhorita poderia deixar-me terminar as minhas frases?
— Para o quê? Ouvirmos mais enrolação de um patife feito o senhor?
— Ora, sua...!
— Muito bem, muito bem! — o diretor o interrompeu antes que o prefeito continuasse a sua fala e tomou o lugar do microfone. — Estava muito... Interessante esse debate, senhorita Jones e senhor Fairbrother, mas os alunos realmente precisam conhecer seus professores e seguir com as aulas do dia, então... — ele sorriu, tirando o prefeito de perto do microfone. O prefeito arrumou seu paletó e pigarreou. Fairbrother assentiu e deu um super sorriso falso. — Bom ano a todos nós.

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— Cara, o que foi aquilo? — Ed disse, enquanto saíamos da sala de aula e caminhávamos para o campo. Tivemos aula com o Senhor Mollinson. Primeiro dia de aula e ele já queria uma redação de mil palavras sobre a história da nossa cidade para quinta-feira!
— O sorriso do senhor Mollinson? Eu também não entendo. — Dei de ombros e Ed bateu em meu braço com o dorso da mão.
— Não isso! — Ed disse, e parou para pensar. — É, aquilo é assustador — assenti, concordando. Ele balançou a cabeça e colocou as mãos na minha cara. — Eu estava falando sobre hoje de manhã!
— E o que tem hoje de manhã?
— O que tem? — Nos sentamos no gramado junto a Louis e Drew. — Aquilo foi...!
— De se esperar — Drew cortou a fala de Sheeran.
— De se esperar? Aquilo foi totalmente inesperado, pô! — Ed disse, e observei Rebecca conversar com um garoto de olhos azuis.
Jones tem essa rixa com o prefeito desde sempre. Era de se esperar — Louis explicou o que Drew disse e observei Rebecca rir e depois olhar para mim. Por que ela sempre ri? Continuei a olhá-la com os olhos semicerrados para me proteger do sol.
— Conversando sobre a maluca da Jones? — Liam chegou com um notebook nas mãos e parei de olhar Rebecca automaticamente. Meus olhos correram desesperados para encontrar qualquer outro ponto de observação.
— Não a achei maluca, só... A achei corajosa, o bastante — Ed retrucou, e foi quando eu percebi sobre quem era o assunto.
Jones? — E a encontrei no meio das pessoas, sentada na grama e escutando música com seu Ipod.
— Essa mesma. — Ed sorriu. — Ela me pareceu interessante.
— Ah, cara. Você não vai querer encarar essa praia — Louis disse, e Drew assentiu.
— Jones é rígida quando o assunto é garotos: ninguém chega perto ou tem uma conversa com ela.
— A não ser que seja alguém do grupo do Poynter — Liam disse, e me virei para eles surpreso, como se já estivesse ouvido falar nesse nome.
— Poynter? Dougie Poynter? — perguntei, e Liam assentiu.
— Sim — Louis respondeu, e me olhou estranho.
— Eu estudei com ele — disse, voltando a olhar para . — Nunca conversei, mas todos queriam conversar com ele.
— É, e agora ele é um dos melhores amigos do irmão da , o Daniel — Liam disse — e do resto do grupo. Thomas Fletcher e Harry Judd.
— Harry? — perguntei. — Tem um cara com o meu nome nesse grupo?
— Hã... Sim? Cara, eu falei. O grupinho do Poynter.
— E são os únicos com passe livre para ter qualquer contato com ela. — Drew sorriu. — Nenhum a mais... Que eu saiba.
— Hum — disse, e observei , que estava bocejando, então se deitou no gramado. Segundos depois, um garoto com um topete mal feito e loiro apareceu, se sentando ao lado dela. Deveria ser o Poynter, não sei. Não dava para enxergar direito. Sobre o que conversavam?
— Mas... quem saiba, isso mude logo. — Ed sorriu e Lou riu.
— Está confiante, Sheeran? — ele perguntou, e Ed assentiu. — Eu tomaria cuidado se fosse você.
— Mas você não é. Lembre-se disso. — Ed piscou um dos olhos para ele.
— Ei, e para que esse computador? — Drew mudou totalmente o assunto. Liam olhou para ele e voltou a olhar para a tela.
— Estou tentando fazer a lição de casa, mas essa porcaria não está funcionando.
Um sinal soou e Ed bufou.
— Ah, legal. Trabalho.
— Mollinson deu um trabalho?
— Sim — nós respondemos, em uníssono. Liam riu.
— É, é a cara dele.
— Bom, tenho que pegar os meus livros no meu quarto. — Louis se levantou e Drew também.
— E eu tenho um encontro. — Ele sorriu malicioso.
— Huuuum e com quem? — Liam perguntou.
— Angela. Minha dupla da aula da senhora Jeferson. — Ele piscou e Liam se levantou.
— E eu vou para a lan house da Universidade.
— Vocês vão ficar aí? — Louis perguntou, e nós assentimos. — Ok. Então...
— Até mais. — Dei um tchau para eles que se mandaram. Ed continuou a olhar na direção de Jones. Olhei dele para ela e vice-versa. — Você acha mesmo que tem alguma chance?
— Não sei — ele respondeu, e um sorriso apareceu no rosto dele. Oh-oh. — Vamos descobrir.
Ed se levantou e meus olhos se esbugalharam. Puxei a manga de seu paletó, o obrigando a olhar para mim.
— Cara, você pirou? — perguntei. — Você vai mesmo ir lá falar com ela enquanto ela tá com um dos garotos da trupe do Poynter?
Ed riu.
— Não.
— Ah, ainda bem.
Nós vamos. — Ele me puxou e me levantei. Olhei para Ed espantado.
— O quê? Ah, não. Não mesmo! — Me larguei dele.
— Ah, qual é, Harry? Olha, ele já tá indo embora. — Ele apontou e o cara loiro saiu dali. Olhei para Ed.
— Mesmo assim! Quer saber? Por que não vai só você? E eu fico aqui, olhando tudo de longe. — Empurrei-o na direção dela. Ele me olhou e eu o mandei ir.
Ed começou a caminhar e fiquei o olhando enquanto isso. Ele olhou para mim incerto e fiz um “joinha” para ele, que respondeu com outro. Então Ed se virou e finalmente chegou lá, se sentando ao lado dela. Ele começou a falar e se sentou. Ela olhou para o chão e depois para mim enquanto ele falava e eu pigarreei me sentindo um pouco intimidado. Ela sorriu de leve e Ed olhou para mim também. Então olhou para Ed, se levantou e ele foi junto. Ela o cumprimentou com a cabeça e foi embora. Ele ficou parado ali. Não sabia se ia até lá... E fui.
Respirei fundo, de boca aberta. Olhei para Jones caminhando e depois para um Ed indignado em minha frente.
— Como foi? — perguntei, e ele me encarou.
— Uma droga. — Comecei a rir.

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Nunca pensei que pesquisar sobre a minha cidade seria tão difícil e não sei por que temos que fazer esse trabalho. Não faz o menor sentido! Ok, tente discutir com um velho — que mais parecia estar se decompondo — rabugento e teimoso.
— Vejamos aqui... — segurei o lápis com a minha boca e abri a página do Google. Digitei “Outbrooks — história”. Apertei “Enter” e vi a página carregar. Fiquei batucando na mesa da biblioteca. Aquela era A biblioteca. Havia vários e vários livros sobre diversos assuntos ali dentro. Era incrível a quantidade de livros que existiam ali. A página finalmente carregou e alguns sites apareceram. Peguei o mais confiável — que era o da prefeitura — e comecei a ler o que tinha ali. — Blá, blá, blá... Venha para Outbrooks, a cidade maravilhosa... Blá, blá, blá... História.
Cliquei ali e comecei a ler a história. Rolei a página, mas tudo o que falava era sobre o prefeito Fairbrother, o elogiando e dizendo sua trajetória.
— Mas que droga.
— Procurando a história da nossa cidade?
— Ah! — Me assustei e olhei para Rebecca sentada em cima da mesa ao meu lado.
— Ei, calma — ela riu e ergueu sua mão. — Sou Rebecca Johnson.
— Ah... E eu sou Harry Styles. — Segurei a mão dela e voltei a me concentrar no meu trabalho. Ela sorriu.
— Então esse é o seu nome.
— É — respondi, e Rebecca fechou o meu laptop. A olhei confuso.
— Engraçado... Você vem até a biblioteca repleta de livros sobre tudo e procura na internet a história de Outbrooks. — Ela sorriu sugestiva e me senti o maior idiota do mundo.
— Claro. — Empurrei a cadeira para trás e me levantei. Rebecca desceu da mesa.
— Vem comigo — ela disse, e começou a caminhar. Fui hesitante atrás e ela subiu uma das escadas. Chegamos ao segundo andar da biblioteca e Rebecca escolheu uma das estantes. — Aqui.
Ela entrou em um dos corredores e fui atrás, sem saber o propósito de tudo isso. Rebecca sorriu ao achar o livro que estava em sua mente e o entregou a mim.
— Outbrooks — li o título do grande livro de capa dura e marrom. Olhei para ela, que sorria de leve. — Valeu.
— Não há de quê — assenti, e me virei saindo dali o mais rápido que pude. Já disse que odeio garotas? — Ei, Harry.
Parei e olhei para ela.
— Sim?
— Nada. — Ela sorriu e eu sorri de volta. Eu ia me virar novamente, mas... — Harry?
— Sim, Rebecca?
— Posso fazer a minha redação com você?
Droga.

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— Em Outbrooks o sol estava radiante...
— ... E todos os habitantes o aproveitavam indo a sorveterias e a uma corrida de bicicleta — Rebecca leu o final da frase. Estávamos sentados em um dos sofás de couro preto da biblioteca, com um livro totalmente empoeirado no meu colo, enquanto Rebecca estava ao meu lado. Aquele livro era muito interessante, para falar a verdade. — Mas ninguém esperava pelo o que iria ocorrer naquele mesmo dia. Os policiais encontram o prefeito Richard Horan morto em seu gabinete. Segundo a polícia, a morte era de causas naturais. Com a perda do prefeito Horan, o jovem Thomas Fairbrother assumiu a prefeitura dali em diante.
— Espera... Richard...?
— Horan! — Ela me olhou. — Ele é parente do Niall!
— Uau — disse, desviando os olhos dela e olhando para o livro. Aquela situação entre mim e Rebecca estava muito esquisita. — Será mesmo que ele morreu de causas naturais?
— Você está querendo dizer que...?
— Não quero dizer nada — disse, lavando minhas mãos. Rebecca olhou para o livro.
— Não... Ele não seria capaz de fazer uma coisa dessas — ela disse. Dei de ombros e voltei a ler o livro, mas só falava do prefeito Fairbrother.
— Talvez seja por isso que no site só falava dele.
— Dele quem?
— Do prefeito. — Olhei para ela, que estava mais perto ainda de mim. Engoli a seco e escorreguei para o outro lado do sofá. — No site só falava dele, porque a nossa história é só ele.
— Você viu se a história era dele ou da prefeitura? — ela perguntou, voltando de pouco em pouco para o meu lado.
— Na verdade, não. — Entreguei o livro a ela, antes que Rebecca pudesse voltar ficar tão colada em mim, e me levantei. Caminhei até a minha cadeira e me sentei. Abri o laptop e ouvi os passos dela. Rolei a página, nervoso. Rebecca chegou ao meu lado e se inclinou, ficando com a cabeça incrivelmente perto da minha. Para que isso, cara?
— Ah... Está como a história de Outbrooks. — Ela olhou para mim enquanto eu a olhava. Nossos narizes estavam estranhamente perto e eu estava ficando vesgo enquanto tentava ir para trás... Aí eu caí da cadeira.
— Wow! — disse, enquanto a cadeira virava junto comigo e eu parava no chão.
— Harry? Está tudo bem? — ela perguntou, e eu suspirei. Me levantei e minha roupa estava toda amassada.
— Por que você está fazendo isso? — perguntei, abrindo o jogo logo de uma vez e arrumei minha camisa branca.
— Isso o quê?
— Isso... — Mostrei com minhas mãos a biblioteca. — Por que você quer tanto fazer a sua redação comigo? — perguntei, levantando a cadeira de volta para o seu lugar. Rebecca ficou sem fala.
— Bem, é que... — ela pareceu se desesperar para achar a resposta. — Soube que você era inteligente! — ela disse, dando um sorriso nervoso. — Achei que você poderia me ajudar.
— Então... — suspirei. — Você queria que eu fizesse a sua redação?
— Não! Claro que não — Rebecca se defendeu e fechou os olhos por alguns segundos. Então os abriu e me encarou. — Quer saber...? A gente se vê por aí, Styles.
Ela sorriu fraco e foi embora, passando ao meu lado. Me virei para a direção que ela andava e achei tudo aquilo muito estranho.
— Que sentido fez tudo isso? — perguntei, mais para mim mesmo e olhei para o livro no sofá. Então Rebecca parou de andar. Ela se virou para mim e coçou a cabeça. Rebecca começou a caminhar, rapidamente, de volta na minha direção.
— Na verdade, eu queria me aproximar de você, Styles — ela disse, ficando a cinco passos de mim.
— E por que você queria se aproximar de mim? — perguntei, esquisito. Ela sorriu.
— Sei lá! — ela riu. — Isso é totalmente esquisito, sabia?
— Na verdade, sim — ri fraco e ela me acompanhou.
— Eu te vi ao lado do Tomlinson ontem e... — Ela deu de ombros. — Te achei interessante.
— Ah... — Já entendi tudo. Ela só quer se aproximar de mim para se aproximar do Louis. Rebecca é afim dele? — Então...?
— É. — Ela apoiou o braço na cadeira ao seu lado. — Para falar a verdade, eu deveria te achar mais um babaca só pelo fato de ter conversado com o meu primo.
— Wow, wow, wow. O Louis é seu primo?
— O quê? Não! Claro que não! — ela riu. — Eu falava do Zayn.
— Zayn Malik é seu primo? — perguntei, e ela assentiu sorrindo. — Mas eu não...
— Zayn me disse que é o novo colega de quarto dele, quando perguntei de você para ele. — Ela sorriu envergonhada. — Eu sei que eu só te vi duas vezes e nem conversar com você direito eu conversei, mas foi o suficiente para que eu me interessasse em você.
— Rebecca... — Olhei para ela lamentando. Qual é, nenhuma garota se interessa em mim!
— Não, eu sei. Só quero ser sua amiga. — Ela sorriu de leve. — Pode ser?
Engoli a seco.
— Pode.
Rebecca sorriu abertamente. Eu tinha que admitir que ela era bem bonita. Suspirei e olhei novamente para o livro no sofá.
— Bem... Aquele livro não vai ser lido sozinho — disse, e ela riu.

📚


Bocejei e virei a página toda embolorada. Antes que você me pergunte, eu passei a tarde inteira lendo “Outbrooks”. Rebecca estava comigo até agora a pouco, mas ela já foi embora. Ela até tentou pesquisar algo na internet que não falasse somente do prefeito Fairbrother, mas não achou nada. E eu? Fiquei com a cara enfiada nesse livro até agora.
Por incrível que pareça, o livro tem uma história interessante. Ele não é aquele tipo de livro que só relata fatos, existem histórias acontecendo enquanto isso. Fala sobre o governo da cidade e sobre um cara chamado Bob que foi o coronel na Guerra Das Sete Cabeças. Ainda não sei o que foi essa guerra, mas já vi que existe um capítulo inteiro falando sobre isso. Bom, diz que Bob tinha todas as garotas da cidade na palma da mão, mas ele só queria uma: a bela senhorita Emma Grace. Morena, de olhos verdes e com sardas por todo o rosto. Na minha cabeça, ela era bem bonita. Bob a chamou para sair, mas levou um não bem na cara. E eu parei nessa parte. Não que a história só se resuma a eles dois, pois contava a história de todos, mas esta era a minha favorita. Sabe quando você lê um livro ou uma história que conta sobre vários personagens, mas existe aquela pela qual você mais se interessa? Pois é. Bob e Emma.
— Ah, você por aqui, senhorita Jones? Não... Deixe-me adivinhar. Você terminou o livro e já quer outro?
— Acertou em cheio, senhorita Montez!
Olhei por cima do livro a cena. Jones, ao lado da bibliotecária idosa — senhorita Montez —, com aquele mesmo livro de ontem nas mãos.
— E você gostou do final? — a senhora perguntou, e sorriu.
— Que sorriso — falei, para mim mesmo.
— Na verdade, eu até gostei que a Mary tenha ficado com ele, mas... Eu queria saber o que acontece com a Rainha.
— Somos duas. — A bibliotecária sorriu. — Sabe... Acho que eu tenho o livro perfeito para você ler.
— Tem? — perguntou a ela, que assentiu. Senhorita Montez começou a andar na direção das prateleiras que estavam ao lado da mesa onde tinha o meu laptop e minhas coisas. se virou e foi com ela e eu me escondi atrás do livro gigante, porém ainda estava de olho nelas.
— Eu não sei como você lê tudo tão rápido... Terminou este que pegou ontem mesmo aqui! — a senhorita Montez disse, surpresa enquanto colocava o livro de volta a estante. deu de ombros, sorrindo fraco e colocando as mãos nos bolsos da frente da calça jeans.
— Bem, como a primeira coisa que eu fiz, desde que eu pisei na Universidade, foi vir até a biblioteca e estava lendo ele até agora a pouco... Acho que deu tempo de eu ler tudo
— Sim, você o devorou! — senhorita Montez riu e escolheu outro livro com o dedo. Estava olhando por cima das páginas ela ali parada, até que começou a olhar para mim. Voltei a ler automaticamente o livro. — Esse... Acho que você vai adorar este.
— Obrigada. Eu... Posso lê-lo ali? — Ela apontou para o sofá na outra parte da ala de leitura, bem em linha reta do meu sofá.
— Claro, só não fique até muito tarde. Sei que amanhã suas aulas começam de verdade. — Senhorita Montez sorriu e acariciou o queixo dela, depois foi embora.
suspirou e caminhou até o sofá. Ela se sentou de perna de índio e abriu o livro para começar a ler. Tentei me concentrar na cena em que Bob estava sozinho e se odiando por não ter conseguido até agora levar Emma para sair, mas por algum motivo eu ficava vigiando os movimentos de Jones a cada segundo que passava. Uma dorzinha de cabeça me atingiu e já soube o porquê dela. Coloquei o livro ao meu lado no sofá e caminhei até a minha mochila em cima da mesa. Procurei minha caixa dos óculos e senti os olhos de Jones em cima de mim. Olhei para ela, mas ela automaticamente voltou a ler o livro. Achei os óculos e os coloquei. Voltei para o meu lugar e tentei ao máximo me concentrar na história. Havia chegado ao próximo capítulo rapidamente e foi quando eu vi sobre quem era o capítulo: Thomas Fairbrother.
— De novo não... — reclamei, alto o suficiente para que escutasse e olhasse para mim. Mas ela não olhou. E comecei a ler pela quinta vez naquela tarde sobre o nosso prefeito chato. Foi quando, no meio da leitura, o sono começou a vir. Bocejei e optei por ir ao meu quarto e quem sabe tentar ler ali. Sem nenhuma Jones estranhamente me atrapalhando. Peguei um dos marcadores de livro em cima da mesa que havia ao lado do sofá e onde havia muito mais deles. O coloquei entre o livro e o fechei. Passei as mãos em meus olhos por debaixo dos óculos e pelo rosto todo. Me estiquei no sofá e pensei que seria muito bom dormir ali mesmo... Levantei-me com o livro nas mãos e parti atrás da senhorita Montez. Achei-a perto dali, para falar a verdade, bem perto de onde estava, e a chamei.
— Com licença, Senhorita Montez. — Ela se virou para mim, em sua escada, e sorriu.
— Harry Styles. No que eu posso ajudar? — ela disse. Eu tinha feito amizade com ela essa tarde.
— Eu gostaria de levar este livro. É para um trabalho da faculdade e...
— Tudo bem, querido. Leve sim. — Ela sorriu e eu assenti.
— Te devolvo até o fim de semana.
— Tudo bem.
Sorri sem abrir os lábios e voltei para a minha mesa. Comecei a organizar o meu material. Coloquei meu casaco e guardei o laptop ali dentro. Ouvi Jones dizer alguns: “Ah, não creio!”, “Que demais, cara!” e “Eu sabia!”.
Sorri com esses comentários tão simples e terminei de arrumar minhas coisas. Fechei o zíper da mochila e tirei os óculos. Joguei meu cabelo para baixo, o bagunçando e depois colocando para o lado. Peguei os óculos, os colocando novamente. Peguei o livro e coloquei a mochila em volta do corpo. Voltei a cadeira corretamente para o seu lugar e saí dali. Comecei a caminhar, mas tive que voltar por lembrar que esqueci a caixa dos óculos em cima da mesa. A peguei e dei uma última olhada em Jones. Foi aí que ela olhou também para mim e nossos olhares se encontraram novamente. A caixa já estava na minha mão e ainda olhava para ela. Então, finalmente saí da biblioteca e caminhei hesitante em direção à escada dos quartos. Por que estava hesitante?
Estava exausto, mas teria forças para terminar essa droga de uma vez. Cheguei ao quarto 609 e entrei. Não havia ninguém ali dentro — claro — e fechei a porta atrás de mim. Coloquei a mochila na minha mesa e fui até meu armário. Peguei meu pijama e me troquei. Não iria tomar banho agora, estava cansado demais para isso. Voltei para a minha cama com o livro em mãos e deitei-me nela. Meu celular vibrou e o peguei. 3 ligações da minha mãe. Suspirei e disquei o número dela. Estava chamando.
Harry? Querido, você está bem?
— Tô sim, mãe. Por que me ligou?
Ah... Não sei, só queria que me desse notícias. E aí, como está indo o seu primeiro dia de aula na Universidade?
— Nada demais, o prefeito veio aqui e...
O senhor Fairbrother? Mas por que ele veio, querido?
— Sei lá, é uma tradição estranha.
Soube que Rebecca Johnson está aí... Quem saiba eu vá te visitar mais cedo, irmãozinho? — Mason deve ter roubado o telefone da minha mãe, porque eu ouvi um “Sai daqui, Mason”. — Então, está tudo bem mesmo, querido?
— Está, mãe — respondi, pegando o livro de volta. — Te ligo, caso tenha novidades.
E quando você der o nome para o peixe também! — Mason disse, ao fundo. Droga. O peixe.
— Ah... É. Tenho que ir. Tchau, mãe. Te amo.
Também te amo, querido. Por favor, me dê notícias. — E ela desligou. Joguei o celular para o lado e corri para ver o peixe no copo. Droga, eu esqueci de alimentar esse cara!
— Onde que eu vou arranjar comida numa hora dessas? — disse, desesperado. Olhei para o copo na minha frente e o peguei. Abri a porta do quarto e olhei para os dois lados, tendo certeza de que ninguém estaria me vigiando nesse instante. Então andei rapidamente na direção do fim do corredor e virei à esquerda. Olhei para o quarto 617 e fui até lá. Bati duas vezes à porta e esperei que alguém a abrisse. Olhei para o corredor, apenas me certificando mais uma vez de que ninguém apareceria naquela hora e então a porta se abriu. Olhei para Jenna com um roupão vermelho por cima de sua calça de moletom azul e uma camisa dos Bananas de Pijamas. Ela olhou para mim com a cara de sono e olhou para o meu pijama, depois para o copo na minha mão.
— Harry? — ela perguntou, me encarando e coçou os olhos. — Você sabe que horas são?
— Sei, mas...
— São dez horas. Por que não está no quarto? Eles vão te pegar, sabia disso?
— Jenna. — Dei um passo à frente e ela me olhou surpresa. — Você me disse que precisava saber se estava tudo bem. E não está. Onde eu arranjo comida para peixes?
Ela olhou para o meu amigo na minha mão e depois para mim novamente.

📚


— Ok, preste atenção. — Jenna estava caminhando ao meu lado na direção de seu Fiesta vermelho, com passos cautelosos para que ninguém nos descobrisse. — Existe uma loja de animais a duas quadras daqui, na direita. Vou te levar até lá e quando você entrar ali, coloque tudo na conta do Mollinson — ela disse, destrancando o carro e eu a olhei estranho.
— O Velho Mollinson? — perguntei, entrando no carro e ela também.
— Sim. Não pergunte — Jenna colocou os cintos e eu fiz o mesmo, deixando por um segundo o copo com o peixe em cima do painel do carro. — E, Harry, mais uma coisa.
— Sim? — Peguei o peixe. Jenna ligou o carro e sorriu.
— Se segura.
Jenna pisou o acelerador do carro e saímos incrível e assustadoramente rápido pela rua. Segurei na porta com força e protegi o copo. Não que eu soubesse dirigir — porque eu ainda não tinha tirado minha carta —, mas acho que aquela velocidade era ilegal para a polícia. Jenna atravessou um farol e viu o do fundo ficar amarelo. Ela pisou ainda mais fundo com o carro e eu quase quebrei a porta por tamanha força que eu segurava nela.
— Uhuuuul! — ela gritou, e então, quando chegou ao farol, virou o carro bruscamente para a direita e estacionou-o ao mesmo tempo ao lado da calçada. — É! — ela disse, batendo no volante com empolgação e se virou para mim. — Está tudo bem, Harry? — ela me olhou preocupada. Acho que eu deveria estar branco e com os cabelos bagunçados, além de estar com a cara de cabrito assustado. Assenti devagar e abri a porta. Acho que minha pressão caiu. — Ah, e não se esqueça de pegar aqueles joguinhos grátis de colocar as argolinhas no aro! Eu os adoro. — Ela sorriu e eu fechei a porta.
Andei calmamente em direção à loja, tentando normalizar a minha vida, e empurrei a porta fazendo um sino esquisito soar. Havia apenas um cara na loja, que estava sentado no caixa, lendo uma revista qualquer e nem tinha me visto chegar. Caminhei na direção do corredor de ração e procurei pela comida de peixe. Eu nunca tive animal algum em toda a minha vida. Existia o gato da Tia Katy, mas eu brincava com ele somente quando ia lá. Ou seja, nunca.
Arrumei os óculos, ainda no meu rosto, com a mão livre, e acho que me sentia bem melhor. Ou não. Peguei logo a comida de peixe e caminhei em direção ao caixa. Coloquei o pacote — sim, pacote — de comida em cima do balcão. O cara do caixa abaixou a revista e suspirou. Ele passou o pacote pela maquininha e fiquei olhando para os joguinhos que Jenna pediu. Peguei o rosa e ele olhou para mim.
— São sete libras. — Sete libras? Que caro.
— Ah. Certo. — Procurei no meu bolso da calça do pijama. Acho que eu deveria ter dinheiro ali, sei lá. Só não achava certo colocar na conta do Mollinson. Foi quando encontrei milagrosamente uma nota de cinco e outras duas de dois. Coloquei em cima do balcão e peguei minha comida e o joguinho, tentando equilibrar tudo em meus braços, e saí da loja. — Boa noite.
Disse, e saí dali sem um “Boa Noite” de resposta. Jenna estava olhando para as unhas quando entrei no carro novamente. Respirei fundo e entreguei a ela o joguinho rosa.
— Rosa? — ela olhou para ele. — Não tinha outra cor, não?
— E isso importa? — perguntei, me sentindo ainda tonto. Ela deu de ombros e colocou o joguinho no banco de trás. Coloquei o cinto e ela ligou o carro. Antes mesmo de ela engatar a marcha, segurei sua mão. Jenna me encarou. — O que foi?
— Por favor... — disse. — Pega leve.
Jenna riu e então tirou o carro dali, pela marcha ré. Ela deu a volta na rua que passamos da última vez, porém mais devagar do que ela estava antes. Chegamos ao estacionamento da Universidade finalmente e ela desligou o carro.
— Você está bem mesmo, Harry? Está pálido. Melhor irmos para a enfermaria — ela disse, abrindo a porta do carro. Saí também.
— Não precisa. É só cansaço — disse, e ela ainda me olhou como se não acreditasse no que eu falei. — Obrigado, Jenna.
— Disponha sempre. — Ela sorriu e então eu caminhei para dentro da universidade. Subi as escadas e entrei em meu quarto. Me despedi de Jenna ali em frente e fechei a porta. O banheiro estava com a porta fechada, o que indicava que alguém estava ali dentro. Coloquei a comida em cima da minha bancada e o copo também. Abri a tampa do aquário improvisado que eu criei e coloquei um pouco de comida ali dentro. Suspirei finalmente.
— Boa noite, amigão — falei, e coloquei o copo de volta às prateleiras. Voltei para a minha cama e peguei o livro novamente. Abri de onde eu tinha parado e me preparei para uma leitura nada prazerosa e que me daria tonturas depois.
Comecei a ver pontinhos pretos dançarem em meus olhos, quando a porta do banheiro se abriu. Ouvi a risada de Zayn baixa e uma nova também. De uma garota, para ser mais preciso. Olhei a cena que provavelmente se seguiria ali ao meu lado, mas, em vez disso, Zayn olhou para mim com a garota emaranhada em seu pescoço.
— Ah, e aí, Harry? — ele disse, e se virou para a garota. — Já conhece a Clarice?
— Não. — Sorri fraco e ela sorriu para mim.
— Certo — Zayn disse, e se virou para ela. — Foi muito legal, gata. Mas agora você precisa ir.
— Ok. — Ela sorriu e se desgrudou dele, então deu um beijo na boca de Zayn. Eu engoli o vômito que estava na minha garganta. Eles se desgrudaram. — Até mais, Harry.
— Tchau, Clarice — falei, e ela saiu do quarto. Zayn pegou seu pijama no armário e se trocou. Tentei ler a droga do capítulo do Fairbrother, mas eu não estava conseguindo e acho melhor eu já ir dormir. Fechei o livro e o coloquei na cômoda ao meu lado. Tirei os óculos e os coloquei em cima do livro. Me enfiei embaixo das cobertas e Zayn se sentou em sua cama.
— Ei, Harry — ele disse, e eu me virei para ele.
— Sim?
— Nada. — Ele deu de ombros e se deitou. — Boa noite.
— Boa noite — respondi para ele, que fechou os olhos e se virou para o outro lado, como ontem. Olhei para os Beatles na minha cabeça e desejei boa noite a eles também, onde quer que estejam. Não tive tempo para pensar no meu dia, porque adormeci logo depois.

📚


Tomei um gole do meu café quentinho e virei a página. Gostaria de explicar como foi o meu dia, mas não teve nada demais. Apenas tive aula de manhã. Para falar a verdade, aulas difíceis. Nunca pensei que os professores da faculdade eram tão sérios. Achava que eles eram brincalhões, mas ao mesmo tempo conseguiam nos fazer entender a matéria. A verdade é que eles explicam e falam o tempo inteiro em suas aulas e temos que prestar atenção em tudo, se não, não passamos de ano e fim de papo. Era o que disseram hoje e eles estavam certos. Pelo menos, os professores daqui não são piores que os professores da escola.
Me acomodei na parede de pedra da lacuna em que estava encostado com as costas e sentado no parapeito. Tinha marcado com Rebecca de nos encontrarmos na biblioteca daqui a pouco, mas não contei a nenhum dos caras sobre o que aconteceu ontem. Não queria que Liam ficasse triste, mesmo sabendo que não tem motivos para ficar. Afinal, ela só queria ser minha amiga, certo?
— E aí, cara? — Ed se aproximou de mim.
— Shh. Estou tentando fazer uma leitura séria aqui — disse, olhando para a página.
— Hm, sei. — Ed tirou meus pés do parapeito e se sentou em minha frente. O olhei com falsa irritação.
— O que você quer, Sheeran? — perguntei, me rendendo de vez e fechei o livro. Ele deu de ombros.
— Eu precisava falar com você — ele disse, e eu respirei fundo. — Você não sabe quem se sentou ao meu lado hoje, na sala de aula.
— Não, eu não sei — respondi. Ed riu.
— Rebecca Johnson — ele disse, erguendo uma sobrancelha com um sorriso no rosto. — E sabe o que mais?
— Não.
— Eu a ouvi conversando com a amiga em sua frente. Papo de garota, sabe como é. — Ele deu de ombros. — Até que um assunto chegou à conversa. — Ele me olhou. Pronto. Em uma única aula, Rebecca disse o que eu queria que nenhum dos meus amigos soubesse. — Adivinha?
— Hm... O pudim de hoje do almoço. Aquilo estava horrível — falei, balançando a cabeça para que aquela vaga lembrança saísse da minha memória e do meu estômago.
— Não. — Ele sorriu. — O garoto novo.
— Garoto novo? — perguntei, e Ed revirou os olhos.
— Sim, cara. Elas falaram do garoto novo.
— Que garoto novo?
— Bom, eu pensei nisso por uns instantes... Até achei que era eu, mas elas não iriam ter coragem de falar sobre mim ao meu lado. Então eu deduzi uma coisa: Zayn Malik.
— Zayn Malik? — fiz outra pergunta. — Mas Malik é primo de Rebecca.
— Eu sei e... — Ed me encarou. — Isso eu não sabia. — Ele me olhou suspeito. — Como você sabe disso?
— Eu divido o quarto com ele, esqueceu? — perguntei, me sentando direito e olhando para os lados.
— Não... Se fosse só isso, você não estaria tão nervoso. — Ele coçou o queixo e foi como se uma lâmpada se iluminasse em cima de sua cabeça. — Espera. Garoto novo... Elas falavam de você! — Ed sorriu. — Claro! — e então começou a rir.
— Por que está rindo?
— Nada. É que... Você conseguiu algo que Louis tenta há dois anos — e riu de novo. Não achei graça alguma. — Certo. Ah, e sabe o que mais ela disse?
— Não, Ed. Eu não sei. — Me levantei e ele foi junto. Caminhamos pela multidão de alunos que passava pelo o pátio.
— Que ela passou à tarde inteirinha com ele, quer dizer, com você. — Ele me parou. O encarei. — Quer me dizer algo?
— Na verdade, não. — Tentei voltar a andar, mas ele me parou novamente. — Certo. Ela me pediu para fazer a redação do Mollinson com ela e eu simplesmente não pude dizer não. Apenas isso. Lemos este livro. — O mostrei na cara de Ed. — E acabou. Nada de mais.
— E por que não nos disse hoje de manhã no café? — Ed perguntou, e eu dei de ombros.
— Porque não tem importância. — Isso é uma meia verdade. Não tinha importância para mim, mas para Liam...
— Hum. Vou tentar cair nessa conversa — ele disse, e eu dei de ombros. Voltamos a caminhar.
— Faça o que quiser — disse, e então avistei Louis bebendo água no bebedouro. Caminhamos até ele, que sorriu para nós depois de beber sua água.
— E aí, caras? Estão sabendo da Semana do Trote? — ele disse, e eu e Ed nos entreolhamos.
— Não — respondemos, em uníssono.
— O que é isso? — perguntei, e Louis sorriu malicioso.
— É quando os calouros e os veteranos passam a semana inteira pregando peças uns nos outros. Veteranos contra os Calouros. Ganha quem tiver a trote mais genial. E começa hoje mesmo. — Ele sorriu. — Não vou poder ajudar vocês nisso, galera.
— Não precisamos de sua ajuda para criar um trote, Louis. Tsc — Ed disse, me abraçando pelos ombros. Olhei para ele.
— Não precisamos? — perguntei. Nunca tinha dado um trote em alguém em toda a minha vida. Não sabia como se fazia aquilo, nem como se levava. Ed me olhou.
— Não, nós não precisamos — ele disse, e o olhou. — Como funciona isso?
— Bem... Isso eu não posso mais dizer. Vocês vão ter que criar o próprio trote. E nós, a mesma coisa. — Ele piscou. — Até mais, caras.
— É. Vai embora mesmo! Você vai ver! — Ed disse, para Louis, que já andava de costas para gente e que levantou os dois dedos médios enquanto andava. Me virei para Ed.
— Cara, como vamos criar o nosso próprio trote? — perguntei, e ele deu de ombros.
— Pensamos nisso depois. Eu tenho um trabalho para terminar. — Ele revirou os olhos e bateu em meu livro. Assenti.
— Boa sorte.
— Igualmente, Styles. — E então se mandou. Suspirei e fui em direção à biblioteca. Não saberia como fazer um trote, mas, como Ed disse, pensamos nisso depois. Eu tinha um trabalho para terminar.

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— E foi isso o que aconteceu até agora — disse, terminando meu relatório sobre o livro para Rebecca.Ainda não tinha entendido o porquê de ela ter se interessado por mim. Eu era um magro gordo, com a pele mais pálida que um papel e parecia que eu não tinha pente, uma escova, um garfo ou qualquer coisa que penteasse meu cabelo comigo. Ela olhava para mim com um sorriso pequeno nos lábios rosados pelo batom que usava e eu a olhava estranho. — O que foi?
— Nada. Eu só estou gostando do livro. — Ela deu de ombros.
— Certo — disse, e peguei o livro em cima da mesa da biblioteca. Dessa vez, estávamos no segundo andar dela. — Bom, se quiser ler o próximo capítulo e me contar depois...
Entreguei o livro a ela, mas Rebecca recusou.
— Não, claro que não! Acho que a história fica muito mais interessante na sua voz — Rebecca argumentou.
— Certo. Mas o que você vai ficar fazendo enquanto eu leio o livro? — perguntei. Rebeca Johnson me sentou na cadeira, empurrando meus ombros para baixo e deixando meu rosto perigosamente perto de suas costelas — para não dizer outra coisa.
— Só relaxe e leia. Vou fazer a minha lição da Senhora Garcia. Só vou buscar minhas coisas no meu dormitório, ok? — ela perguntou, e assenti. Rebecca desceu as escadas e eu suspirei.
Vesti meus óculos, começando a ler a parte que tinha parado: Emma está sendo cantada — adivinhe por quem? — por Thomas Fairbrother. Isso mesmo. Thomas Fairbrother. Eu estava louco para ler essa parte. Mas, como sempre, algo me atrapalhou. Para ser mais direto, uma conversa me atrapalhou.
— Você nem falou comigo ontem — uma voz masculina disse, atrás da estante ao meu lado. Acho que já ouvi essa voz antes.
— Não temos nada para conversar, Zayn. — Acho que descobri de quem se tratava. Obrigada, voz feminina. Espera... Eu também já ouvi essa voz antes. Me inclinei para tentar ouvir melhor.
— Ah, qual é, . — OPA. Jones está por aqui? — Não precisa ser tão dura comigo.
— Cara, eu ainda não entendo como o Niall te aguenta — ela disse. Acho que estavam na estante atrás de mim, não ao meu lado. Só havia um meio de descobrir. Me inclinei de novo para enxergar entre os livros da estante e tudo o que eu consegui foi ver os troncos dos corpos deles, mas já era alguma coisa.
— Não precisa colocar o otário do Horan no meio da nossa discussão.
— O único otário é você, Zayn — ela retrucou. Isso aí, Jones. Estava difícil me equilibrar na cadeira. — Quer saber, com licença. Estou perdendo meu tempo mais uma vez.
— Ah. Erm. Ahn, ! — Zayn gaguejou, e vi a puxar pelo braço. — Eu...
— Não quero saber, desculpe — ela disse, e minha cadeira virou — mais uma vez em exatas 24 horas — comigo.
— Merda! — deixei sair, quando eu caía no chão. Logo Zayn e estavam me olhando como se eu fosse um E.T. Olhei para eles. — Ah, oi.
— O que faz aí, Harry? — Zayn disse, e ela se manteve quieta, apenas observando. Olhei para mim e para a cadeira caída.
— Bem. — Me levantei em um pulo. Eles ainda continuavam a me olhar. — Eu estava tão empolgado com o livro que nem me vi caindo — disse, apontando para o Outbrooks enorme em cima da mesa. Zayn ergueu uma sobrancelha.
— Voltei. — Rebecca apareceu ao meu lado com um sorriso no rosto. Zayn olhou para ela e depois para mim. E eu estava evitando olhar para Jones. — Ah, oi, Zayn.
— Oi... — Ele olhou mais uma vez dela para mim.
— Estamos estudando. E quem é essa garota? — ela perguntou, olhando para , que a encarou. — Prazer, meu nome é Rebecca.
Ela ergueu a mão para , que olhou para Zayn e simplesmente foi embora. Rebecca olhou para ela e depois para mim.
— O que foi que eu perdi? — ela perguntou, e Zayn suspirou.
— Até mais, Styles. — E foi atrás de Jones. Eu não entendo por que ele acha que seríamos amigos. Olhei para Rebecca.
— Nada demais — disse, e puxei a cadeira para ela se sentar. — Vamos começar?


Capítulo Três: Lavar louças até que não é tão mal assim.

Cocei meu rosto e aproveitei meu sonho doce. Lá estava eu, andando em um mundo de doces. O gramado era feito de algodão-doce e as árvores eram grandes bengalas de açúcar com frutas de maçãs carameladas. As ruas eram feitas de chocolates pretos e brancos. As pessoas eram grandes biscoitos de Natal. E eu estava prestes a comer a mão de uma delas até que...
— Acorda, Harry! — Ed me empurrou e eu caí para fora da cama. E acordei, como ele queria.
— Que droga, Ed! — reclamei, me sentando no chão. Cocei os olhos. — O que você quer?
— Precisamos de um plano para o nosso trote. E eu já tenho uma ideia — ele disse e eu bufei. Olhei no relógio da cômoda de Zayn, que babava no travesseiro.
— Cara, são quatro e meia da manhã! — reclamei de novo e me levantei.
— E já estamos muito atrasados! Louis já começou. — Ele trincou o maxilar nessa última frase. E foi quando eu percebi que ele estava com o cabelo mais abaixado.
— Isso é...? — Apontei para a cabeleira ruiva dele e ele bufou.
— Mel. Isso é mel de confeitaria — ele disse, tocando naquilo com a mão e fez uma cara de nojo. — Eu odeio mel!
— E essa foi a pegadinha dele? Pft. Fraca. — Arrumei meu pijama amassado. Ed revirou os olhos e acendeu o meu abajur, iluminando seu rosto sardento e agora com manchas vermelhas. — Wow! O que é isso?
— Eu sou alérgico a mel! — ele reclamou e começou a coçar o rosto. — E por mais que eu lave meu cabelo, ele ainda continua grudento!
Foi quando eu percebi a jogada do Louis: ele deve ter trocado o shampoo de Ed por um pote de mel de confeitaria e agora lá estava ele se coçando inteiro. Segurei a risada, mas não aguentei. Comecei a rir.
— Essa foi boa, Tomlinson — disse a um Louis imaginário e Ed revirou os olhos e bateu no meu braço com raiva. — Ai!
Zayn se remexeu na cama e murmurou algumas palavras desconexas. Olhamos para ele, que só coçou o saco e se virou. Suspiramos.
— Cara, não ria da minha desgraça! E vamos, agora. — Ele puxou a minha camisa em direção à porta. Me larguei dele.
— Wow, wow, wow — disse e ele me encarou. — Não quer tirar primeiro esse gel de mel?
— Não temos tempo!
— Mas você ao menos tomou um remédio...?
— Claro que sim! Ao plano e avante! — Ale abriu a porta do quarto e se mandou. Revirei os olhos e segui seus passos.

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— Está certo. Me explica qual é a sua ideia logo — falei enquanto caminhávamos em um corredor que eu nunca tinha ido, até agora. Ele era ainda mais bege que a escola inteira e tinha cortinas vermelhas-quase-tom-de-marrom cobrindo as janelas.
— Não até chegarmos a um lugar seguro — ele falou e parou de andar em frente a uma porta. Ed olhou para os dois lados e a abriu. — Entra.
Revirei os olhos e entrei naquele local escuro. Foi quando Sheeran fechou a porta, acendeu as luzes e um escritório apareceu. Arregalei os olhos, olhando para aquele lugar.
— Ed?
— Sim?
— Onde estamos? — perguntei com medo da resposta.
— No escritório do reitor Thompson, por quê? — ele disse com um sorriso feliz no rosto.
— Você pirou, cara? — perguntei, me virando para ele. Ed me olhou assustado.
— O quê? Eu duvido que alguém ouviria nossa conversa aqui. — Ele deu de ombros. — Agora, voltando para o assunto que nos trouxe até aqui...
— Ed — disse, mas não continuei. Respirei fundo. — Certo. Fala logo, antes que nos descubram.
— Bem, antes de tudo, temos dois trotes para fazer. — Ele caminhou até a mesa do reitor apreensivo. Ergui uma sobrancelha.
— Dois?
— Sim, dois. Primeiro, temos que lidar com o Tomlinson. Então colocamos em prática o trote real. — Ele se sentou na cadeira marrom de couro e colocou os pés em cima da mesa. — Alguma pergunta?
— Sim. Por que não nos vingamos do Louis de uma vez pelo trote real?
— Porque ele merece atenção especial... — Ed olhou para o lado com um sorriso malicioso no rosto. Ele voltou a olhar para mim e se sentou corretamente na cadeira. — E eu já sei como podemos fazer isso.
Ed se levantou e foi até onde eu estava.
— Harry. Temos que agir agora com o plano! — Ele sorriu e correu para a porta. Suspirei e o segui. Ele seguiu em direção às escadas e começamos a descê-las. — Rápido, pense comigo. O que ele mais gosta em todo o mundo?
— Garotas? — perguntei e cruzamos o corredor.
— Certo. E como ele se arruma para as garotas?
— Bem... Ele faz aquele topete estranho... Costuma usar o uniforme com a gravata frouxa... Sei lá! — Dei de ombros e Ed parou de andar. Ele se virou para mim.
— Pense, Styles. Pense! — Ele deu dois soquinhos na minha cabeça. Respirei fundo e comecei a pensar. Então algo veio à minha cabeça e sorri. Estalei os dedos e me virei para ele.
— O perfume! É claro — falei e Ed sorriu.
— Muito bem, Styles. Muito bem. — Ele segurou meu rosto, dando um beijo na minha bochecha e seguiu pelo corredor. Limpei sua baba e então descemos mais um lance de escadas.
— Mas como vamos interferir nisso?
— Vamos combater fogo contra fogo, meu amigo. Fogo contra fogo — ele disse e eu achei estranho o que Ed falou, mas o que posso fazer? Ele é assim mesmo. Basta saber lidar com isso.

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— Eu tô te falando, é o melhor filme de todos os tempos! — Drew disse para mim, enquanto caminhávamos pelo refeitório com nossas bandejas de almoço em mãos. Eu tinha aprendido em apenas três dias aqui que a comida do refeitório sempre será uma droga. E eu não sei por que a vida tem que ser assim. Elas poderiam tentar fazer uma comidinha mais gostosa, mas, em vez disso, continuam a passar os pães embaixo dos sovacos suados e espirrar na comida. A tal de Marge ficou resfriada nesses dias e quando me entregou um pote de batatas fritas, fez questão de me deixar uma lembrancinha. Além de tudo, ela tem uma verruga em cima da boca que é irreparável. Não tenho nada contra verrugas, não. É algo pior. Além de a verruga se camuflar na pele dela, ela tem apenas — apenas — três pelos. Três pelos alinhados como se fossem uma escada que subia até as suas narinas. Ela não era feia, sabe. Ela era uma velha bonitinha, tirando a verruga peluda.
— Certo. — Me sentei em uma das mesas do refeitório. Drew não parava de falar sobre o filme que ele assistiu ontem com uma garota da universidade.
— Você tem que assistir! Só assim você vai entender a minha empolgação. — Ele deu de ombros e Ed se se sentou à mesa com Liam ao lado. Olhei para os pacotes nas mãos deles.
— Ei, vocês foram ao Burger King? — perguntei e eles assentiram, tirando seus hambúrgueres do pacote. — Por que não nos chamaram? Qualquer coisa é melhor do que essa comida.
— Não achamos vocês — Liam disse e Ed assentiu enquanto dava uma mordida no sanduíche.
— Foi mal — ele disse de boca cheia. — Voches viram o Louis huje?
— Não, mas... — Drew apontou para um garoto que olhava em volta, à procura de alguém. Foi quando ele viu a nossa mesa e nos fuzilou com o olhar. Ele começou a caminhar com passos firmes no chão e com a expressão zangada. Todos em sua volta paravam de andar e o olhavam com nojo.
— Ok, eu sei que foram vocês. — Ele parou ao nosso lado da mesa.
— Wow. Louis! — Drew fez uma cara de nojo e começou a abanar o ar. Ed segurava o riso. — Que isso, cara, que futum é esse?
— Ed e Harry sabem melhor que eu — ele falou nos olhando e nós nos entreolhamos com sorrisos maliciosos.
— Odor solto de glândulas — Ed disse.
— Glândulas anais de gambá — concluí e Drew segurou o riso. Liam sorriu.
— É, é. Podem rir o quanto quiserem — ele disse e apoiou os braços na mesa. — Eu tinha um encontro hoje! E me explica como é que eu vou tirar essa droga do meu corpo?
— Suco de tomate? — perguntei e eles riram, menos Louis, que me olhou com os olhos semicerrados. — Sei lá, tenta detergente.
— Mas agora nos consideremos quites. — Ed piscou um dos olhos e pude perceber que sua pele ainda estava levemente irritada e descascada. Louis revirou os olhos.
— Vai se ferrar — ele disse e ia puxar uma cadeira para se sentar, mas Drew o impediu.
— Pode parando por aí.
— Por quê?
— Não quero ficar com o seu futum ao meu lado enquanto eu como — ele disse. — Vai dar uma volta e quem sabe a gente se fala depois.
Louis olhou para ele indignado, mas todos tentavam não fazer contato visual. Tomlinson bufou.
— Certo. Grandes amigos esses que eu tenho — ele disse e se mandou dali. Olhei na direção que ele caminhava e até que fiquei com pena dele. Mas estávamos na semana do Trote, então eu precisava ser forte. Para o bem do meu time.

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Estava encostado na porta da biblioteca, esperando Rebecca chegar. Eu já estava na Guerra das Sete Cabeças e acho que finalmente descobri o que é essa história toda. Para facilitar a vida de todos nós, eu irei contar desde a parte que Thomas Fairbrother estava cantando Emma. É o seguinte: quando ele estava prestes a beijá-la — à força, lembrando — Bob puxa a gola de Thomas, o fazendo encarar seu rosto. Então vem a pergunta fatal. “O que você pensa que está fazendo?”. Thomas se larga de Bob e começam uma discussão. Bem, depois de muito lenga-lenga, Thomas ameaça Bob e ele diz um “Mal posso esperar” e ele vai embora, deixando Emma e Bob ali parados. Bob pergunta a Emma se ela está bem, mas ela parece sem reação. Então, ele a leva para casa, e quando a deixa em sua porta, ela dá algum indício de que ele tem chance. Eles se despedem e Bob sai feliz da vida dali. Ok, a história continua com muitos acontecimentos, ele e Emma saem finalmente e começam a namorar. Thomas começa a pensar em um jeito de se vingar — em outras palavras — e não acha nada. Bem, a história continua a acontecer, até que uma guerra é proposta. Outbrooks foi nessa época a maior rival de Insidebrooks. Sim, os nomes das cidades são engraçados, não? A história que explica tudo isso é muito simples: no passado, Outbrooks e Insidebrooks eram a mesma cidade, chamada Herebrooks. Mas brigas internas separaram as cidades nessas que conhecemos hoje em dia. O problema é que algo, ou alguém, acidentalmente, ou não, lançou uma bomba nas plantações de cana da cidade. E uma guerra começou. A chamada “Guerra das Sete Cabeças”. Pelo o que eu entendi, os jovens acima de 18 seriam chamados para confrontar nessa guerra e — adivinhem? — Bob era um deles. Eu parei nessa parte, porque eu queria contar a Rebecca tudo o que eu descobri lendo. Mas ela não chegava nunca. E o sol já estava mostrando que logo ele iria se pôr.
Olhei para meu relógio de pulso e então suspirei. Tínhamos marcado às 17 horas na frente da biblioteca, mas claramente ela não havia chegado até agora. Não que eu goste dela daquele jeito, porque eu não gosto. Mas acho que quando combinamos alguma coisa com alguém, essa pessoa deveria ao menos chegar no horário marcado, não?
Apoiei a cabeça na parede e comecei a observar pontos aleatórios da biblioteca. Olhei para aquele mesmo sofá de segunda-feira e lá estava Jones lendo um livro diferente do que ela havia pegado antes. estava com a expressão facial aflita, como se o livro houvesse chegado ao seu clímax e uma cena de tensão máxima ocorresse naquele instante. Ela estava com os cabelos presos em um rabo de cavalo alto e estava deitada nos braços do sofá com o livro nas mãos. Por que será que Zayn estava tentando conversar com ela ontem? Não tive tempo para pensar nisso. E não sei se deveria mesmo pensar nisso. Talvez devesse deixar que eles cuidassem de seus próprios problemas. Apesar de aquela frase de Zayn estar martelando na minha cabeça. “Você nem falou comigo ontem”. Por que Jones deveria ter falado com ele ontem? E por que eles estavam conversando escondidos da biblioteca? Talvez porque ela não gostava de ser vista com ele. Ou porque Zayn não gostava de ser visto com ela. Talvez.
— Oi — Rebecca disse ao meu lado e me virei para ela. — Desculpe eu ter me atrasado. Mas agora eu já estou aqui.
Ela usava um lenço no cabelo, o cobrindo por inteiro. Achei isso muito estranho.
— Tudo bem. Eu tenho muitas coisas para contar — disse e apontei para o livro em minhas mãos. Sorri e a puxei em direção a uma mesa. Nos sentamos e comecei a contar a história toda a ela. Não a história toda, porque em parte eu já tinha contado. Apenas o que ela não sabia até os acontecimentos de agora. Contei sobre Thomas Fairbrother e sua vingança falida. Falei sobre o romance que nascia e crescia entre Bob e Emma, e disse sobre a Guerra Das Sete Cabeças. Rebecca ouvia tudo com muito interesse. Às vezes ela se empolgava e às vezes ela ficava somente atenta à história. Até que finalmente terminei de contar. E ela ficou animada.
— Então a Guerra Das Sete Cabeças é isso?
— Isso o quê?
— Oras, Harry! A guerra entre as nossas cidades. — Ela deu de ombros e eu assenti. — Agora eu entendi o porquê daquela garota estranha se importar tanto com ela.
Quando ela pronunciou “daquela garota estranha”, uma vontade súbita e totalmente espontânea me atingiu para dizer o que pensava:
— “Aquela garota” se chama Jones e era ela quem estava com Zayn ontem. A propósito, ela está sentada logo ali — disse sem tirar os olhos fixos em Rebecca, que se virou discretamente na direção de .
— Ah... Sempre quis conhecê-la — Rebecca disse ainda olhando para lá e se virou para mim. — Você também?
Eu não sei por que ela tinha feito esse comentário, muito menos essa pergunta, mas ela me fez pensar. Desde que cheguei aqui, na Universidade, às vezes a cena de lendo livros ou dela sorrindo maravilhosamente quando a bibliotecária idosa, a senhorita Montez, perguntou sobre ela ter gostado ou não do final do livro, vinham na minha cabeça do nada. E eu digo do nada mesmo. Eu estava fazendo minha lição e de repente Jones apareceu em minha mente lendo um livro, sentada no gramado do pátio aberto do campus. Estava escovando os dentes e lá estavam Zayn e ela conversando escondidos por trás das estantes da biblioteca. Eu estava no meio de uma conversa com Liam sobre mitologia grega e BUM! Jones sorrindo. Mas não confundam isso como uma possível paixão platônica — eu não sou o Ed. Isso, no máximo, foi uma carência de uma amizade feminina falando mais alto. Se eu nunca tive amizades masculinas — não considerava Stu e Gordon como amizades “verdadeiras” —, imagine amizades femininas. Rebecca não era minha amiga, por mais que tentasse. Eu não sabia ao certo o que ela era. Também não tinha parado para pensar nisso. Rebecca Johnson não fazia o meu tipo de “amiga” que eu imaginava. Não estou a menosprezando, mas ela fazia mais o tipo “namorada”. Não o meu tipo de namorada, mas fazia. E, por algum motivo estranho, era como se Jones se enquadrasse nessa vaga de “amiga do Harry”. O que era estranho e irracional pensar nisso porque (a) segundo meus amigos, ela não fazia, digamos, amizades, com ninguém além de seus amigos clássicos, o que me fez pensar que (b) ela estava conversando com Zayn ontem e que (c) ela o odiava... Assim como todos os garotos da face da terra, o que (d) obviamente me incluía e (e) tirava grandes chances de eu tentar ter uma conversa sã e agradável com ela. Mas a pergunta de Rebecca estava ali, no ar, esperando uma resposta que talvez eu tivesse e talvez não.
— Bem... — consegui dizer depois de anos apenas processando a ideia. — Eu...
— Vamos lá falar com ela? — Rebecca perguntou, me fazendo questionar o porquê que todos propõem isso. Dei de ombros.
— Se quiser, pode ir. Vou continuar com o trabalho aqui.
— Mas sem você não tem graça — ela choramingou. Dei um leve sorriso e por algum motivo disse:
— Acredite. Você achará a graça se for mesmo falar com ela.
Rebecca olhou por cima do ombro mais uma vez, avaliando sua hipótese de conversar com alguém antissocial como . Ela se virou para mim e rolou os olhos quando dei um sorriso fraco e incentivador.
— Ok, eu vou lá. — Ela se levantou e respirou fundo. Rebecca Johnson caminhou determinada, marchando em direção ao sofá e me sentei na cadeira de modo que conseguisse ver a cena, mas não ser percebido por . Rebecca parou em frente ao sofá e disse alguma coisa com um sorriso nos lábios. olhou para ela por cima do livro e respondeu. Jones voltou a ler seu livro e Johnson engoliu a seco. Ela olhou para mim, claramente pedindo ajuda com o olhar, e eu não soube como ajudar. Então simplesmente dei de ombros, como se não entendesse o comportamento dela. Rebecca disse algo novamente, tentando ser agradável ou sei lá, mas, quando foi responder, uma garota que apareceu do nada acidentalmente trombou com Rebecca e acabou deixando o lenço na cabeça dela cair. Abri a boca surpreso e olhei para o cabelo, antes louro e agora roxo com mexas brancas.
— Oh, meu Deus — disse, me sentando agora corretamente na cadeira, enquanto via Rebecca tocar a cabeça e se desesperar. olhou também surpresa pelo cabelo dela e sua expressão, antes vazia, se alterou para uma que segurava a risada. Tentei também segurar a minha risada enquanto via Rebecca ficar vermelha de raiva. E li os lábios de . “Gostei do cabelo”. Tudo o que Jones disse enquanto Rebecca se desesperava loucamente por todos agora saberem que seu cabelo estava “arruinado” e tentava cobrir ele novamente com o lenço — o que era algo inútil, pois ela estava irritada e com pressa, o que fazia o processo demorar mais — fora "Gostei do cabelo" e um sorriso esperto surgiu no rosto de . E foi aí que eu entendi. Ela tinha algo a ver com isso e um sorriso, por mais que eu não deveria, surgiu em mim.
Rebecca suspirou e disse alguma coisa para ela e se virou para mim. Tentei voltar com a expressão normal do rosto enquanto ela caminhava até a nossa mesa e se sentava com raiva na cadeira. Fiquei esperando alguma reação de Rebecca, mas ela só ficava olhando para o próprio colo. E resolvi abrir a conversa.
— O que aconteceu? — perguntei com a voz serena e ela riu pelo nariz com desgosto.
— Até parece que você não viu — ela disse triste.
— Viu...?
— Ah, qual é, Harry! — Ela me encarou. A olhei compreensivo e ela revirou os olhos. — Eu estou ridícula com esse cabelo.
Ela soava tão triste que até eu me abalei. Rebecca gostava muito do cabelo como ele era — dava para se ver isso — e algo como isso... Bem, poderia ser o maior desastre e a maior humilhação do mundo. Então resolvi ajudar. Estiquei a mão até a dela, por cima de mesa, por impulso. Rebecca me encarou.
— Você não está ridícula — disse e ela ficou me olhando atenta. Ok, o Harry que viu filmes de comédia romântica agora estava se inspirando. Eu não sei de onde que vinha todo esse charme da minha voz ridiculamente rouca, mas continuei. — Você está linda.
— Estou? — ela perguntou. — Sei.
— Eu estou falando a verdade. — Sorri e ri fraco quando ela corou. Estiquei minha outra mão e tirei o lenço de seu cabelo, o deixando solto. E sabe... Ela não estava tão mal assim. Até ficava bonito nela. Acho que tudo ficava bonito nela. Ela era Rebecca Johnson. Bom, ao menos eu estava dizendo a verdade em relação a ela não estar ridícula. Ela mantinha os olhos vidrados em cima de mim enquanto eu avaliava seu cabelo. Pelo acaso, eu era especialista em cabelos. Não no meu, mas dos outros. E acho que tinha a solução para aquele cabelo ficar mais lindo ainda. — Acho que eu posso te ajudar com esse pequeno problema.
Os olhos de Rebecca brilharam.
— Pode?
— Claro. Só preciso de tinta roxa e azul-cor-do-céu para cabelo.

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— Posso olhar? — Rebecca perguntou com um sorriso no rosto. Estávamos no banheiro de seu quarto, com ela sentada em uma cadeira e eu atrás dela, secando seu cabelo. O banheiro dela era um pouco maior do que o meu, mas, mesmo assim, o espaço era tão pequeno que eu ficava com as minhas costas encostadas à parede gelada branca. Agora eu sabia que seu quarto era o 508. As divisões dos quartos na Universidade eram feitas desta maneira: os garotos ficavam com os quartos que o primeiro número gravado na porta era par e as meninas com os que eram ímpares. Porém, em todas as alas, e eu não sei o porquê disso, o universitário responsável deveria ser alguém do sexo oposto. Não me pergunte, cara. Já disse que não sei o porquê.
— Espera... Pode — disse e virei a cadeira dela em direção ao espelho. Desliguei o secador e Rebecca abriu sua boca em grande surpresa. A expressão surpresa foi moldando um sorriso em seu rosto e começou a mexer em seus cabelos roxos com californianas azuis. Não parecia grande coisa, mas ele estava bonito. Acho que aquela combinação salvaria seu cabelo e ao mesmo tempo seria alternativo. Um alternativo bom.
— Harry! Meu Deus, ele está... Está lindo! — ela disse com o mesmo sorriso no rosto e eu sorri também. Com toda a certeza, se Mason ou Gemma estivessem ali, iriam me zoar. Girei o secador com minha mão e soprei sua ponta, dando uma piscadela.
— Eu sei — disse e ela riu.
— Obrigada — Rebecca disse com um sorriso fraco no rosto e me encarou pelo espelho. Estava com um sorriso também quando ela se virou para mim de repente e se levantou. Fiquei com meu corpo preso entre a parede e o dela, Rebecca estava com seu corpo preso entre a cadeira do banheiro e eu, e a cadeira estava presa entre ela e a pia, que estava presa literalmente na parede. Ela ainda estava com os cantos da boca curvados em um sorriso quando eu simplesmente dei um passo para o lado e ri sem graça. Tirei o secador da tomada e enrolei o fio dele, o colocando em cima da bancada da pia. Rebecca e eu saímos do banheiro e nos dirigimos para seu quarto. — Bem... Ainda temos que ler um livro gigante.
Na verdade, eu tinha que ler um livro gigante. Eu não sei como ficaria a situação dela, pois eu já estava no final da história. Quer dizer, como faremos a redação juntos? Eu teria que ler o livro em menos de uma hora e passar a madrugada inteira escrevendo sobre ele. Eu não tinha como a ajudar... Ou era eu, ou era nenhum de nós.
— É... — disse e peguei minha mochila. Rebecca segurou minha mão antes que eu colocasse a mochila, me impedindo.
— Ei. Não precisamos voltar para a biblioteca. Seria perda de tempo e, de qualquer maneira, já estamos aqui. — Ela sorriu para mim e segurou minha gravata, me puxando para sua cama. Nos sentamos e fiquei a olhando sem entender. — Vamos continuar de onde paramos, aqui.
Ela pegou o livro da minha mão e começou a procurar a página que eu estava. Por um segundo, eu fiquei olhando para ela sem entender nada, apenas observando o que ela faria a seguir. Na verdade, eu não sabia exatamente o que estava acontecendo comigo. Eu nunca tive uma garota tão perto de mim em seu quarto, com uma saia um pouco mais curta e que tinha puxando a minha gravata, me arrastando em direção à sua cama. Foi quando ela começou a ler de onde eu tinha parado que eu entendi o que ela queria. Balancei a cabeça e pigarrei.
— Na verdade, Rebecca, eu deveria ir para o meu quarto. — Olhei para o relógio em cima de sua bancada. — Falta quinze minutos para as dez.
— Ah, qual é, Harry. Vamos terminar isso logo aqui! — Ela sorriu e eu respirei fundo.
— Certo. Então vamos fazer o seguinte. Vou ler o final do livro finalmente e você... — Comecei a pensar. No fundo, eu não queria ferrar com a vida dela. Eu tinha que ajudar ela também, afinal, esse foi o trato no começo de tudo.
— ... Posso pesquisar as resenhas do livro.
— Hã? — Olhei para ela, que assentiu.
— Com certeza o Mollinson vai pedir para colocarmos as críticas do livro. Eu procuro. — Ela deu uma piscadela e se levantou à procura de seu laptop. Olhei para Rebecca se sentando em sua cadeira de rodinhas e ligando seu Notebook. Ela se virou para mim. — Pode começar.
Ela sorriu e eu olhei para o livro em cima da cama. Sorri e o peguei. Abri na página que eu estava e comecei a ler. De vez em quando eu olhava por cima do livro para ela. Não sei por que, mas acho que Rebecca não é exatamente aquilo que eu estava achando que era... Talvez ela seja alguém que sirva para o cargo de amiga do Harry... Ou não.

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Bocejei e virei a penúltima página do livro. Já tinha se passados os quinze minutos — e muito mais que isso —, deveria ser uma da manhã do dia oito. Mas estávamos quase lá. Rebecca conseguiu algumas críticas sobre o livro dos jornais e revistas locais e agora estava no banho. Sua colega de quarto não apareceu até agora — o que era uma coisa boa, pois se ela me visse com certeza iria questionar o porquê de ter um garoto com a gravata frouxa e a roupa amassada em cima da cama dela enquanto Rebecca tomava banho. Enquanto ela não aparecia, vou resumir a história para vocês, pode ser?
Bob foi convocado realmente para a Guerra das Sete Cabeças. Emma e ele tiveram que terminar temporariamente, pois qualquer coisa poderia acontecer nessa guerra. Passou-se um mês tendo os devidos treinamentos e a Guerra se iniciou. Thomas Fairbrother não participou da guerra e enquanto isso ficou cuidando da cidade. A verdade era que ele estava consolando Emma, já que ela pensava que Bob tinha morrido. Ele não dava sinal de vida e não se comunicava com ninguém. De um modo ou de outro, Thomas tinha conseguido o que tanto queria: nesse mês Emma se deixou levar pelo o coração partido e acabou aceitando o convite para sair com ele. Eles começaram a namorar, apesar de a guerra ainda não ter acabado, e duas semanas se passaram quando o general achou que deveriam parar com a Guerra e se dar por vencidos. O jovem coronel tentou mudar essa decisão e ele com alguns outros soldados ficaram para a luta. Emma começou a passar mal — não sei por que essa parte aparece no livro —, e todos da cidade estavam achando que ela estava grávida. O que na época era um escândalo. De qualquer maneira, eles esqueceram-se disso quando a televisão começou a mostrar cenas da guerra ao vivo. Naquele dia, todos pararam o que estavam fazendo e começaram a prestar atenção em todas as televisões possíveis. As cenas eram impressionantes, segundo o relato do livro. Bombas voando para todos os lados, tiros e tiros e algumas balas perdidas. Emma estava em casa com a mãe, assistindo tudo no sofá, se contorcendo de dor. Thomas Fairbrother estava em seu gabinete, em uma reunião com alguns vereadores, e prestaram atenção na TV. De repente, no meio de toda aquela guerra, sete jovens começaram a correr em direção ao campo inimigo.
Isso mesmo.
Sete.
Sete corajosos jovens correram em direção à sua morte, em busca de algo que ninguém sabia o que era. As câmeras deram um close para que todos pudessem se lembrar dos rostos desses jovens destemidos. Até que um rosto conhecido por todos foi avistado. Uma barba que parecia não ser feita há séculos. A roupa camuflada toda suja de lama. O maxilar projetado para frente, olhando com os olhos destemidos de raiva em direção às tendas ao fundo.
Bob.
Bob corria com mais seis companheiros. Ele mesmo. O garanhão, o favorito, o que Emma estava completamente apaixonada. E que, para ele, parecia estar completamente esquecida. De repente, Emma se levantou no sofá e começou a prestar o máximo de atenção na TV. Thomas Faribrother parecia ter visto um fantasma. A câmera seguiu os sete soldados que desapareceram em meio de todas aquelas balas. E a tela ficou escura de repente. Ninguém acreditava no que estavam vendo. Emma estava sem reação. Não acreditava que ele poderia estar vivo. E agora muito menos. Thomas não sabia que expressão esboçar. Acho que ninguém sabia. De qualquer modo, o capítulo termina com Emma citando uma única coisa. E suas palavras foram: “Aquele maldito filho de uma figa estava vivo e não me enviou nenhuma carta.”
O último capítulo começa dizendo que muitos e muitos meses tinham se passado desde aquela cena inacreditável da guerra. Ele explica que os sete jovens conseguiram invadir a tenda e imobilizaram quase todos que estavam ali dentro. O incrível foi o que aconteceu logo depois. Bob caminhou até o prefeito da outra cidade — sim, ele estava lá, pois também era o general de suas tropas — e todos os homens apontaram as armas para ele. Bob não parou até ficar em frente ao prefeito. E ele parou de andar. Bob respirou fundo e disse: “Eu sinto muito”. O prefeito parecia se abalar por alguns segundos, quando vinte balas acertaram Bob por todo o seu corpo. Ele caiu morto, em frente ao prefeito, e vários tiros foram ouvidos, matando os seus companheiros. A guerra se deu ali. Apesar de eles terem matado todos os sete e Bob ter dito sinto muito, eles perderam. Dizem que a nossa cidade ganhou pela luta, mas acho que eles não ganharam só por isso. De qualquer maneira, os sete soldados corajosos foram quem ganharam praticamente a guerra, e as sete cabeças ficaram para a cidade de Insidebrooks. Por isso se chama a Guerra das Sete cabeças.
Emma, depois desses todos os meses, ainda era apaixonada por Bob. Ela tinha ficado triste no começo por ele não ter se comunicado com ela, mas pensou melhor quando percebeu que isso seria mesmo meio impossível. Eles levantaram sete estátuas no Parque da Central da cidade em homenagem aos sete homens, com Bob bem ao meio. No fim não sabiam se Emma estava grávida ou não, pois ela saiu da cidade. Diziam que esse era o sonho dela. Sair da cidade. Um tempo depois, descobriram que ela tinha morrido em um incêndio em um restaurante. Thomas Fairbrother sempre era eleito e reeleito, o que acabou virando uma pequena ditadura. Ninguém o tirava do cargo de prefeito e tem sido isso até hoje. Eu sei, eu sei. Vocês devem estar se perguntando o porquê que ninguém o tirou do governo da cidade. Bem, eu acho que é porque ninguém liga de verdade para o governo. Desde que não tirem suas terras e não aumentem os impostos, todos saem ganhando. A última página — a qual eu estava terminando agora — dizia que a cidade parecia ter crescido bastante, mas nem tanto. Ainda faltava uma coisa que eu não fazia a mínima ideia o que era. As últimas frases do livro eram claras e curtas: “Thomas Fairbrother ainda é nosso prefeito e sempre será. Ninguém nunca mudou isso... Até agora.”
— Ninguém nunca mudou isso... Até agora — repeti baixo somente para mim e ouvi um barulho de porta se abrindo. Meus olhos se levantaram em direção à garota morena, que tirava a toca e as luvas, as colocando em cima de sua bancada. Ela se virou para mim e me olhou espantada. Eu a conhecia. — Clarice?
— Harry? O que você faz aqui? — ela perguntou e a porta do banheiro se abriu. Rebecca saiu de roupão e os cabelos estavam secos, já que eu tinha lavado eles mais cedo. Ela parou de andar no instante que viu Clarice, que a encarou. Clarice olhou para mim estranhando. — Vocês...?
— O quê? Não! — disse logo e me levantei da cama. — Céus, não.
— Então... O que significa isso?
— Harry está fazendo comigo a redação que o Mollinson pediu — Rebecca respondeu e abriu seu armário. Clarice ainda me olhava estranho.
— Ah — ela disse e se aproximou de mim.
— Desculpe, eu não quis me sentar na sua cama... — disse pensando como aquilo soou idiota. Clarice sorriu.
— Tudo bem. — Ela riu fraco. Pigarrei quando ela passou por mim e se jogou em sua cama. Me sentei na cama de Rebecca e respirei fundo olhando para Clarice deitada, mexendo no celular. Depois olhei para Rebecca, que ia começar a se trocar, e me levantei rapidamente.
— Bem — pigarreei e ela olhou para mim ainda de roupão —, vou para o meu quarto. Terminei o livro de qualquer maneira e vou fazer a redação lá.
— Ah — ela disse segurando uma camisola. — Bem, então te vejo amanhã de manhã?
— Claro — disse e peguei minha mochila, a vestindo. Segurei o livro com uma das mãos e caminhei até a porta. — Não se esqueça de levar a pesquisa nas mãos.
— Não irei. Pode deixar. — Ela sorriu. — Obrigada pelo o cabelo.
— De nada — respondi e abri a porta. — Até mais, Clarice.
— Tchau, Harry! — Ela acenou com a mão, ainda entretida no celular, e olhei para Rebecca.
— Até amanhã, Rebecca.
— Até, Harry. — Ela sorriu mostrando os dentes brancos. Por um momento, eu me perdi na branquidão do sorriso, mas sorri de volta e saí daquele quarto antes que qualquer coisa pudesse acontecer.

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Senti uma meia na minha cara.
Isso pode ter soado estranho, mas eu tinha certeza de que era uma meia. Tinha textura, formato e gosto de meia. E estava suja. Abri os olhos e vi Zayn ajeitar o cabelo, enquanto se olhava no espelho. Ele se virou para mim.
— Você está atrasado, garanhão. — Ele piscou e saiu do quarto. Olhei para ele sem entender nada, com a cara de sono. Peguei a meia e olhei para ela. Como um raio, eu lembrei. Eu tinha jogado essa meia em cima do meu computador para não me esquecer de pegar a redação ao lado dele. Droga. A redação.
— Ferrou. — Me levantei rapidamente da cama e corri em direção ao armário.
Vesti a calça e a blusa. Peguei o casaco e a gravata e fui até o banheiro. Comecei a escovar os dentes correndo, enquanto vestia o casaco e colocava a gravata em volta do pescoço. Cuspi a pasta de dente e enxaguei a boca. Corri até meus tênis e os coloquei sem amarrar o sapato, peguei a mochila e a redação, empurrei a porta e corri pelo corredor. Desci as escadas pulando os degraus e segui pelos corredores vazios. Olhei para o relógio no pátio. O relógio de madeira era enorme, quase uma réplica do Big Ban. Ficava encostado na parede da recepção e seus ponteiros pareciam girar rapidamente. Ignorei o relógio que indicava que meu tempo estava acabando e corria pelos corredores, subi as escadas driblando as poucas pessoas que estavam ali.
— Com licença, um atrasado passando!
Elas abriram o caminho para mim e a porta da minha sala estava logo ao fundo. Vi o Mollison começar a fechá-la e apertei o passo. Estava a alguns metros quando deslizei pelo corredor em direção da porta e a atravessei, indo em direção à mesa do professor. Só parei quando eu bati com meu quadril na quina da mesa e caí com meu tronco em cima da madeira. Minha respiração tinha parado por um segundo e quando voltou, a dor veio com tudo.
— Cara — gemi e o Professor Mollinson me olhou estranho.
— Chegou bem na hora, senhor Styles — Mollinson disse e fechou a porta. Assenti.
— Uhum — disse e apertei o meu osso agora machucado. Virei-me para as carteiras, onde os alunos me olhavam como se eu tivesse acabado de mostrar a eles meu rabo de leão. Ou seja, me olhavam estranho.
— Bem, já que o senhor já está aqui em frente, que tal ser o primeiro a apresentar sua redação? — ele disse, se aproximando de sua mesa e encostando-se a ela. Arrumei minha mochila no ombro e olhei para Rebecca, que estava sentada mais ao fundo. Ela sorriu.
— Na verdade... Está bem — disse e ela se levantou. Mollinson olhou para ela.
— Por que está se levantando, senhorita Johnson?
— Fiz minha redação com ela — respondi e ele me fitou por cima dos óculos. Rebecca se aproximou de mim e segurou levemente meu pulso.
— Onde esteve? — sussurrou ao pé do meu ouvido enquanto caminhávamos para frente da lousa.
— Terminando a redação — respondi baixo e viramo-nos para a classe.
— Muito bem... Andem logo — o professor disse, cruzando os braços na altura do peito.
— O.k — respondi, procurando a folha da redação que estava a um minuto na minha mão e a vi em cima da mesa. — Com licença.
Peguei a folha em cima da mesa e Mollinson me olhou com censura. Pigarreei e comecei a ler.
— Outbrooks e Insidebrooks eram a mesma cida...
— Não, não, não — Mollinson me cortou e eu e Rebecca olhamos para ele.
— O quê?
— Eu quero que você apresente a sua redação. Não que você a leia. Quero saber resumidamente a história que você achou e sua conclusão. E diga logo, não temos todo o tempo do mundo. — Ele abanou o ar como se me mandasse ir logo e estava fazendo exatamente isso. Olhei para Rebecca pedindo socorro e ela fez o mesmo. Então sorriu para classe, dando uma risadinha sem graça.
— Bem, a história todos conhecem, não é mesmo? Ao menos quem fez a redação... — ela disse baixo a última parte e pigarreou. — Não vejo necessidade em repetir tudo o que eles sabem. Acho que devemos apenas dizer nossa conclusão e ent...
— Desculpe, senhorita Johnson. Mas quem aqui é o professor? — ele a cortou e Rebecca o encarou com a boca ainda aberta, esperando poder continuar. Ela riu envergonhada.
— O senhor.
— Então faça o que eu pedi. — Ele ergueu uma das sobrancelhas. Ela olhou para mim.
— Muito bem. — Pigarreou. Quando ela ia abrir a boca, eu a impedi.
— Ah, a história é muito simples. Outbrooks e Insidebrooks eram as mesmas cidades, antigamente chamadas Herebrooks, mas por desavenças internas elas se separaram e viraram as cidades que hoje conhecemos. Um dia alguém lançou uma bomba nas plantações de cana da cidade de Insidebrooks e então uma guerra começou, denominada “Guerra das Sete Cabeças”. Durante essa guerra, sete jovens soldados saíram correndo para o campo do inimigo, se infiltraram na tenda do prefeito e general e então foram mortos ali. Mas antes de serem mortos, Bob, o coronel, disse suas últimas palavras: “Eu sinto muito” e vários disparos de balas mataram ele e seus companheiros. Outbrooks ganhou a guerra e agora eles têm um tratado de paz com Insidebrooks. É essa a história, basicamente — disse e olhei para Mollinson com um sorriso no rosto. Ele me observava com a mão no queixo, pensativo.
— A história não é só isso, caro Senhor Styles — ele disse com um sorriso maldoso no rosto.
— Não?
— Claro que não — ele disse e se remexeu. — Por que aquela bomba foi jogada na plantação, o senhor sabe?
Olhei para Rebecca.
— Não, mas...
— Pois é. E cadê o nosso prefeito nessa história? Ele ajudou muito nessa guerra.
— Ajudou? — disse sentindo uma raiva subir lentamente na minha cabeça. — Ele não ajudou em nada! Ficou dentro do seu gabinete, protegido e seguro, observando centenas de pessoas morrerem por uma coisa que ninguém sabe como aconteceu!
Mollinson me olhou como se tivesse o insultado.
— Mas é claro que não, senhor Styles! — Ele se desencostou da mesa. — O prefeito Fairbrother foi quem mais ajudou nesta guerra!
— Ah, sério? E no que ele ajudou? — perguntei, cruzando os braços embaixo do peito.
— Ele ajudou a montar a tática de ataque, oras — ele disse como se fosse óbvio.
— Poxa, sério? Então a parte dele é bem pior do que eu imaginei. Ele ajudou a matar um monte de gente sem ganhar benefícios com isso.
Mollinson me olhou com raiva e respirou fundo antes de fazer qualquer coisa.
— Você tem razão, senhor Styles. Ele ajudou a matar um monte de gente... Mas com toda a certeza houve benefícios. — Ele caminhou até a cadeira de sua mesa e se apoiou ali, olhando para a mesa. — Como, por exemplo, se não fosse por ele, não teríamos ganhado aquela guerra. E então nossa vida hoje em dia seria pior... Estaríamos sendo comandados por Insidebrooks e caso o senhor não esteja informado, isso seria uma coisa que o senhor não desejaria ver.
Ergui a sobrancelha, não entendendo.
— Na verdade, Professor Mollin... — Rebecca deu uma cotovelada extremamente forte na minha costela, impedindo que eu continuasse.
— Deixe estar — ela cochichou para mim. Tossi e pigarreei.
— É... Talvez o senhor tenha razão? — Olhei para Rebecca, que assentiu. Mollinson riu com desgosto.
— É claro que eu tenho razão! — Ele sorriu e se virou para nós. — Pode ir se sentar, não preciso mais do senhor e da senhorita Johnson.
Ele rabiscou algo em seu caderno que se parecia muito com um zero e Rebecca me arrastou para as carteiras depois de agradecer a ele.

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— Por que, raios, você não me deixou responder a ele? — perguntei a Rebecca depois da aula, enquanto caminhávamos pelo o corredor. Ela revirou os olhos.
— Isso é óbvio, Harry! Não se pode responder a um professor. É falta de educação — ela disse e eu me senti um pouco envergonhado, mas ainda assim não me arrependia de ter feito o que fiz.
— Falta de educação é ele defender aquele prefeito. Sabe, se você tivesse lido o livro, teria ficado com um pouco de raiva dele. Não sei realmente se Thomas Fairbrother seria essa pessoa que todos acham que ele é.
Rebecca riu.
— É claro que ele é quem ele é! — Ela se virou para mim. — Harry, você não pode contrariar o Senhor Mollinson.
— E por que não?
— Porque ele é um grande admirador do prefeito — ela disse.
— Mollinson? Sério? — ironizei e ela sorriu.
— Sério. Se você se atrever a fazer isso, ele é capaz até de te mandar para o reitor — Rebecca me disse e eu parei de andar, rindo.
— Como se eu tivesse medo disso.
— Pois deveria ter.
Uma voz disse atrás de nós e paramos de andar. Fechei os olhos com força e respirei fundo. Viramo-nos e vimos o Reitor Thompson me olhando com o olhar repreendedor e os braços cruzados abaixo do peito. Olhei de relance para Rebecca, que me olhava também.
— Olá, Senhor Styles. — Ele sorriu amarelo e eu dei um sorrisinho com a linha fechada da boca.
— Bom dia, reitor Thompson.
— Bom dia, senhorita Johnson. — Ele olhou para ela com um sorriso que me pareceu mais verdadeiro do que o que ele estava me dando antes e se virou para mim. — Posso roubar da senhorita o senhor Styles?
Ela olhou para mim e eu olhei para ela. Rebecca sorriu para mim, me encorajando.
— Claro. Ele é todo seu. — Ela se virou para o reitor, que ficou feliz em saber isso. Sorri para eles dois e o reitor fez uma reverência para que eu fosse andando.
— Até mais, Rebecca — disse enquanto andava, mas consegui ouvir um “Boa sorte” da Rebecca antes de cruzar o corredor e seguir com o reitor no meu encalço. Eu não fazia claramente ideia do porquê de ele estar me conduzindo para algum lugar ou porque ele veio me “roubar” de Rebecca, mas por questão de educação e respeito eu tinha que segui-lo.
Subimos as escadas que levavam para o segundo andar e fomos subindo até chegar ao terceiro. O reitor Thompson me alcançou e ficou ao meu lado.
— Eu não quero parecer rude, reitor, mas por que o senhor me chamou? — perguntei enquanto caminhávamos em direção à sala da secretaria. Ele respirou pesado e abriu a porta para mim.
— Já direi. Por favor, espere aqui. — Ele apontou para um banco de madeira no canto do lugar e seguiu para a sua porta, pegando um formulário amarelo que sua secretária o entregou. Reitor Thompson entrou na sua sala, batendo a porta com força. O estrondo fez a mim e a secretária estremecermos. Olhei para o banco mais uma vez e caminhei até ele, me sentando com as pernas afastadas e com as costas encostadas no encosto do banco.
Comecei a olhar atentamente a secretaria do reitor e a pensar em como ela era longe do primeiro andar. Suas paredes eram brancas até chegar à qual dava na porta marrom e de madeira do reitor — esta parede era vermelha. Havia no centro uma mesa de madeira esculpida também onde se sentava a secretária, que estava trabalhando rodeada por pilhas de papéis. Em uma das paredes, havia uma porta cinza em que se lia, em cima, a palavra “Arquivos”. Tinha também uma divisória entre a mesa da secretária e o resto da sala, quase fazendo parecer o lugar uma delegacia revistada por madeira.
Já deveria ter passado uns sete minutos que eu estava ali e até agora nada do reitor. Suspirei e relaxei os ombros no banco. Olhei uma vez para o relógio e tinha chutado incrivelmente certo o tempo que estava ali.
— O senhor reitor mandou me chamar? — uma voz disse da porta da sala e a secretária e eu olhamos para lá. Jones estava parada ao lado do batente e com um sorriso culpado no rosto. A secretária suspirou.
— Sim, senhorita Jones. — Ela apontou para o meu banco. — Queira se sentar. Ele já irá atendê-la. Mais uma Jones, que Deus nos ajude... — ela murmurou a última parte e aumentou seu sorriso para o lado. Fiquei a olhando caminhar até meu banco e então se sentar na outra ponta dele. Comecei a balançar uma das pernas e bati o olho em seu joelho descoberto pela saia. Voltei o olhar para lá e fiquei o observando por um instante, até que ela pigarreou e jogou a saia por cima do joelho. Pigarreei também e ajeitei a postura, voltando a olhar para o relógio.
Era estranho tê-la quase ao meu lado. Não sei como explicar, mas era.
Mais alguns minutos se passaram e então outra pessoa apareceu na porta.
— Harry? — Ed perguntou, olhando de mim para .
— Ed — disse e ele caminhou até o meu banco.
— Você também foi chamado? — ele perguntou e quando foi se sentar, o telefone da secretária tocou. Ela disse algumas palavras e desligou, se virando para nós.
— O reitor pediu que os três entrassem. — Ela se levantou de sua mesa e caminhou até a porta. A secretária estava prestes a abri-la e se virou para nós. — Venham.
Nos levantamos hesitantes e caminhamos com ela na direção da sala. Ela abriu a porta e nos deu espaço para entrar, depois nos deixando ali e fechando a porta novamente. Estávamos os três, ombro a ombro, olhando para as costas da cadeira do reitor.
— Que bom que vieram — ele disse e se virou. — Sentem-se.
O reitor Thompson nos mostrou as três cadeiras na frente da sua mesa e andamos até elas. Me sentei na da ponta, com Ed no meio, entre mim e .
— E por que o senhor nos chamou aqui? — perguntou sem mais delongas. O reitor respirou fundo e se levantou da cadeira. Ele começou a caminhar em volta dela, indo de um lado para o outro.
— Esta é uma ótima pergunta, Senhorita Jones. Mas — ele ergueu o dedo no ar —, vamos por partes. Que tal primeiro você? — Ele se virou para ela e se apoiou no topo da cadeira aconchegante. ficou o encarando. — O que a senhorita estava fazendo no dia seis de agosto, às quinze horas?
pareceu fazer força para se lembrar e então sorriu.
— Ah, sim. Estava com o Dougie, por quê?
— E vocês estavam fazendo o que, exatamente? — ele perguntou e eu e Ed olhamos para com as sobrancelhas arqueadas. Ela sorriu ainda mais.
— Acho que eu não sei exatamente aonde que o senhor quer chegar — ela disse. O reitor ergueu uma das sobrancelhas e a olhou sério. Então jogou três fotos em cima da mesa e nós a olhamos. aparecia em todas, junto a Dougie, armando armadilhas por todo o colégio. Em uma delas, havia um barbante, lesmas provavelmente mortas e — acredite se quiser — sal. Ed sorriu segurando a risada e olhou para o reitor ainda com aquele sorriso inquebrável. Ele fez um barulho impaciente com a boca.
— Se eu fosse você, tirava o sorriso do rosto, senhor Sheeran. Sua situação não é diferente. — Ele pegou a pasta amarela que a secretária o havia entregado minutos antes e a abriu, mostrando algumas fotos. A primeira de todas era a que eu e Ed estávamos entrando na sala do reitor e a próxima era a de nós conversando dentro da sala. — Eu fiquei de olho em vocês quando vi essas fotos e então descobri exatamente o que eu pensava. — Ele mostrou as outras fotos nas quais me mostrava com Ed e com um pequeno balde. As outras o mostravam saindo da Universidade usando um bigode e um disfarce ridículo. Havia uma também que me mostrava com vários potes de tinta para cabelo colorida correndo para o dormitório feminino. E outra que mostrava eu saindo do dormitório depois do horário — quando saí do quarto de Rebecca.
— Espera... — disse, olhando melhor a foto com as tintas de cabelo. — Eu estava a ajudando com o cabelo!
— Ah, sim. Eu acredito, senhor Styles — o reitor disse irônico.
— Não, eu falo sério! Ela me pediu ajuda com o cabelo ferrado e eu quis ajudar! — disse me defendendo e a ideia de que eu pintei o cabelo de Rebecca pareceu ainda mais ridícula do que a de eu ter plantado algum trote nela.
— Olhe o tom, senhor Styles — ele me repreendeu.
— Mas... Ela tinha mesmo me pedido ajuda! — disse e ele deu de ombros.
— Isso não muda o fato das outras fotos — ele disse e antes que eu pudesse me defender, ergueu novamente o dedo no ar, me calando. — Bom, como podem ver, todas as provas apontam para vocês. E de acordo com as nossas regras, esse tipo de brincadeira não é admissível em nossa instituição.
— Você quer dizer os trotes? — Ed perguntou e o Senhor Thompson fez um gesto com a mão de qualquer jeito que parecia querer dizer um sim.
— Essas coisas que vocês inventam... — ele suspirou e então finalmente parou de andar para lá e para cá e se virou para nós três. — Isso vai contra as nossas regras, senhores e senhorita. Eu deveria puni-los de algum modo, mas vou fazer melhor que isso.
Ele sorriu e se sentou em sua cadeira.
— Vocês irão pagar quarenta e oito horas de trabalho voluntário na cozinha, lavando e limpando todas as noites até a cumprir o tempo durante duas horas por dia, entre segunda e sexta, depois das dez e meia da noite — ele disse e apontou para mim. — E para você, senhor. Temos algumas horinhas a mais.
— Mas por quê? — perguntei confuso e ele apontou para a foto em que eu saía do quarto de Rebecca depois do horário certo e a que eu carregava as tintas. — Ah, não acredito.
— São as regras, Senhor Styles. — Ele sorriu como se sentisse prazer em me castigar. — Por isso o senhor irá cumprir três horas a mais neste sábado, ajudando a preparar a festa de Boas-Vindas.
— Mas...
— Ei, isso não é justo.
Olhei para , que olhava para o reitor, e Ed fez o mesmo.
— Como? — ele perguntou se fingindo de desentendido.
— Eu disse que isso não é justo — ela repetiu.
— E por que não seria justo, senhorita Jones? Posso saber? — ele disse, cruzando os braços e ela riu, irônica.
— Ah, isso é óbvio. Eu já vi vários alunos não cumprindo o horário certo, indo para os quartos depois das dez. — Ela deu de ombros. — E além do mais, ele só estava ajudando a senhorita Johnson — ela disse com um pouco mais de desgosto o sobrenome de Rebecca.
— A senhorita está querendo dizer que eu não sei dirigir a minha universidade, senhorita Jones? — ele perguntou com a expressão brava.
— Eu não estou querendo dizer que você não sabe dirigir a sua universidade. Só estou dizendo que é injusto que ele fique de castigo por mais horas por um mal-entendido.
— Ele estar fora do quarto depois das dez horas não foi um mal-entendido — o reitor retrucou e eu tive que concordar mentalmente, mas deixei-a fazer todo o trabalho como a minha advogada.
— É... É verdade. Mas ele só queria ajudar a garota.
— Se você está reclamando tanto de como eu dirijo esta universidade, que tal fazer companhia para ele também? — ele perguntou com um olhar desafiador.
— Eu acabei de dizer que o senhor estava sendo injusto e você comete outra injustiça, olhe só! — Ela pareceu não acreditar nas palavras do reitor, que pegou um martelinho de madeira que tinha em seu alcance e bateu em sua mesa.
— Acabou de conseguir três horas junto ao seu cliente, senhorita Jones. E — ele a interrompeu antes mesmo que ela começasse a falar — se me responder mais uma vez, terá horas extras ajudando Mary Sutcliffe a lavar os banheiros. Estão dispensados.
— Não acredito nisso... — ela sussurrou a última parte e nos levantamos. Caminhamos para a porta e antes que saíssemos da sala ele disse algo como “A punição começa hoje à noite”. bateu a porta.

— Eu não acredito nisso — disse mais uma vez enquanto esperávamos na salinha de antes. A secretária tinha nos dado três crachás como autorização para andar pelo o campus depois das dez para cumprir o nosso “castigo”.
— Eu esqueci a minha mochila, só um instante... — Ed cochichou para mim e se levantou para buscar o objeto. Olhei andar de um lado para o outro, nervosa. Acho que nunca tinha visto uma garota ficar deste jeito.
— Eu não acredito! — ela disse e passou a mão nos cabelos. Não sabia se deveria agradecer a ela. — Isso foi uma completa injustiça! Como ele pôde fazer isso? Deve ser por causa do Fairbrother... É, ele é só mais um “paga pau” para esse cara.
— Hum... Com licença — tentei interromper o que ela estava dizendo.
— Mas é claro que ele é um “paga pau” para o prefeito, afinal ele dá uma boa quantia todos os anos para esta faculdade!
— Obri... — Fui interrompido por mais um “Injusto!” e consegui dizer: — Obrigado.
Ela riu com desgosto.
— Obrigada? Do que adianta ajudar as pessoas se você se ferra?
— Acho que você deve ajudar as pessoas sem esperar algo em troca — disse em um tom baixo e ela parou de andar. se virou para mim e essa foi a primeira vez que eu e ela nos encaramos rosto a rosto sem aquele silêncio todo. ergueu a sobrancelha e se sentou ao meu lado. Me virei para ela.
Ficamos em silêncio até que ouvimos os passos de Ed chegando.
— Me desculpe — ela disse e eu olhei surpreso para ela. — Tem razão, eu não deveria ficar brava porque aquele homem é um patife idiota.
— Ei. Relaxe — disse e ela revirou os olhos.
— Para um deficiente intelectual, você sabe se posicionar direitinho. — Olhei pra estranhando. — Seu amigo Ed me disse que você era deficiente intelectual naquele dia.
Naquele dia? Que dia...? Ah! Aquele em que ele falou alguma coisa no ouvido dela e ela se virou para mim! Foi por isso que ela se virou para mim!
— Achei! — Ed apareceu sorrindo com a mochila no ombro. Olhamos para ele. — O quê?

📚


— Eu não acredito que vocês ficaram mesmo de castigo — Louis disse, se sentando na minha cama. Ele estava me ajudando a estudar Psicologia Jurídica (na verdade, estávamos apenas sentados na minha cadeira e na minha cama, com o material aberto nas nossas frentes, mas sem utilizá-los). Dei de ombros.
— É o Thompson, o que podemos fazer? — suspirei e Louis bufou.
— Aquele velho não sabe mesmo o que é ser justo e ainda dirige uma universidade que tem Direito! — Ele revirou os olhos e eu ri concordando. — Estou começando a desconfiar de que os velhos de hoje em dia não sabem nada sobre nada.
— Talvez no tempo deles o significado de “justiça” era outro... Sabe? Tempos diferentes — disse, me encostando à cadeira.
— É... É o que o meu pai costuma dizer: os jovens de hoje são os velhos de amanhã — Louis disse e paramos para pensar nessas palavras. Olhamos um para o outro e começamos a rir.
— Sabe o que eu ainda não consigo acreditar? — Louis disse, se deitando na minha cama.
— Não — respondi, girando a cadeira para que eu pudesse colocar o meu caderno em cima da bancada.
— Que Jones também vai estar neste castigo — ele disse e eu me virei para Louis.
— Por que você não consegue acreditar?
— Quem diria que a irmã do Danny seria assim... — Ele ergueu a cabeça para mim. Observei um sorriso se formar no rosto de Louis. Não tinha entendido muito bem o que ele quis dizer com aquilo. Pelo visto, Danny Jones era encrenqueiro também... Primeiro a secretária, agora o Louis.
— Daniel, pelo visto, não é bem o aluno ideal — comentei e Louis riu.
— Danny? Ele é um dos maiores pensadores de pegadinhas da universidade! — Louis se sentou na cama. — Você não acreditaria nesta pegadinha que vou contar se não estivesse lá para ver.
Louis me chamou com a mão e rolei com a cadeira em sua direção. Ele sorriu de lado.
— Era época de exames finais... Todos estavam estudando em seus quartos ou fazendo qualquer coisa, quando o reitor nos comunicou pelo autofalante que as provas haviam sido suspensas até a segunda ordem por uma invasão de lhamas que apareceram magicamente na sala de arquivos e acabaram com a maioria dos que tinha ali. Demorou um bocado para eles recuperarem tudo de volta... — Louis riu fraco. Era realmente uma boa pegadinha, sem falar que era inteligente. Ninguém gosta de ter que prestar exames finais. Sorri animado com essa ideia. Quem sabe podemos também pensar em algo do tipo?
— Na verdade, era bem possível.
— O quê?
Jones ser igual ao irmão — disse e empurrei a cadeira com os pés pelo chão indo na direção da bancada. Peguei alguns lápis e comecei a organizá-los para guardar. — Sabe, há uma grande possibilidade de os irmãos puxarem características uns dos outros.
— Talvez você tenha razão, Harry — Louis disse e se levantou da minha cama. — Eu vou usar o banheiro, só para avisar.
— Fique à vontade — falei, organizando o material e escutei a porta do banheiro bater e trancar. Coloquei o material de lado e peguei a comida do peixe. Joguei um pouco no aquário dele e caminhei até meu armário, abrindo-o e pegando meias. Estava fazendo um pouco de frio no quarto, apesar de a janela estar fechada, e meus pés estavam descobertos. Abri a segunda gaveta — a qual tinha reservado para cuecas e meias — e escolhi uma meia laranja com bolinhas marrons. A meia não tinha o cano tão longo assim, se quer saber. Ela vinha até ao tarso, então não seria percebida por ninguém que me visse usando tênis.
Fechei a gaveta e a porta do armário e andei até a cama, prestando atenção para desenrolar o bolinho que tinha feito com o par de meias e me sentei distraidamente em minha cama, começando a vestir um pé.
— E aí, Harry? — Zayn entrou no quarto e me cumprimentou com um aceno de cabeça. Apenas devolvi com outro, percebendo-o sumir de vista atrás de mim, quando me lembrei de que Louis estava no banheiro. Parei de mexer qualquer músculo do corpo, olhando fixamente para o chão ainda com uma das meias, pronta para ser encaixada ao meu pé, e comecei a pensar.
Louis não sabia que eu dividia o quarto com Zayn. Eu não tinha contado a ele e não me lembrava do porquê, mas se ele saísse do banheiro e desse de cara com o garoto que ele mais odeia nesse mundo, provavelmente iria querer arranjar encrenca. Foi quando um barulho de descarga foi ouvido da outra porta que eu acordei subitamente e levantei-me da cama, ainda com a meia em uma das mãos e passando frio em um dos pés. Me virei para Zayn, que estava pegando alguns livros em sua bancada, e olhei para a porta do banheiro.
— Hã, Zayn? — o chamei baixo e com o som abafado pela torneira da pia do banheiro, em seguida caminhando com passos silenciosos em sua direção.
— Diz.
— Você vai...?
— Estou indo para a biblioteca, se quer saber. Ei. — Ele ouviu algo caindo no chão, seguido por um resmungo no banheiro. Provavelmente Louis deve ter deixado o sabonete escorregar e agora estava tentando pegá-lo, pois ainda se ouvia a torneira da pia escorrer. — Tem alguém no nosso banheiro?
— Hum... Sim! O Ed. Ele veio estudar comigo Psicologia Jurídica.
— Mas já? Ainda estamos na primeira semana, Harry. — Ele pegou os livros e a torneira foi desligada. Olhei de relance para o banheiro e corri até Zayn, começando a empurrá-lo em direção à porta.
— É, é. Mas já temos alguns trabalhos para se fazer... Vai entender. — Dei de ombros e ele parou de andar em frente à porta, segurando os livros. Zayn se virou para mim, me olhando estranho.
— Espera, acho que esqueci meu estojo. — Ele tentou entrar, mas empurrei-o para fora do quarto.
— Eu pego — disse e corri até a sua bancada, peguei seu estojo e joguei na direção de Zayn, que o pegou no ar. — Até mais!
Disse e fechei a porta no rosto dele, quando Louis abriu a porta do banheiro. Ele coçou o nariz e me olhou.
— Quem era?
— A Jenna. A aluna responsável desta ala — respondi e caminhei até a minha cadeira, com a respiração um pouco acelerada e dificultada. Eu era um garoto sedentário, não podia fazer muito esforço físico que quase morria. Louis olhou para mim estranho.
— Jenna? Sério que ela é a aluna responsável? — ele perguntou, se sentando novamente na minha cama. — Cara, nunca pensei que as notas dela seriam tão boas a ponto de ser escolhida como a auxiliar responsável de alguma ala.
— E por que não?
— Ela sempre me pareceu um pouco, hum... Desligada — ele disse, pegando uma bola de beisebol do criado mudo de Zayn e começou a jogá-la para o alto, brincando. — Você ainda não me disse quem divide o quarto com você, Harry.
— Ah... — Me sentei na cadeira e girei para a bancada. Passei a mão pelos meus cabelos e olhei para o relógio. — Você não o conhece.

📚


Era por volta das dez horas e sete minutos e estava terminando a lição de Sociologia I na minha escrivaninha. Olhava de cinco a cinco minutos para o relógio, para me certificar de que não me atrasaria para cumprir com a minha espécie de detenção. Passei a tarde dentro do meu quarto, longe de pensar em ir para a biblioteca ou algo assim. Só saí para jantar perto das nove horas, junto a Ed. Comi a carne com molho de mostarda enfiando tudo na boca de qualquer jeito e prometi a Ed que o encontraria às dez e vinte e cinco, na frente do refeitório. Fiquei no meu quarto fazendo as lições e tentando me distrair um pouco com os Beatles ao som do fundo, mas sempre que se passava um minuto eu pensava que teria que ficar duas horas por dia até cumprir o castigo ao lado de Jones. Não sei por que estava animado com essa ideia, já que era bem provável que ela seria grossa comigo como foi nesta tarde caso eu dirigisse uma única palavra à sua pessoa.
Mentira, eu sabia o porquê de estar animado. Talvez seja um pouco porque seria diferente ser obrigado a conviver com uma garota todas as noites durante alguns dias e porque era a . Nada que vocês estejam pensando é o que eu estou sentindo. Eu apenas... Bem, eu não sei mais.
Olhei mais uma vez para o relógio e só tinha se passado três minutos. Dez e dez. Acho que seria melhor eu tomar um banho ou qualquer coisa do tipo antes de ir para lá. Levantei-me da cadeira e segui para o banheiro, indo com a roupa do corpo como muda para depois. Abri o chuveiro e deixei a água escorrer. Tirei a roupa e entrei no box. Deixei a água escorrer pelo o meu corpo enquanto eu o lavava com o sabonete e depois com um shampoo. Passei condicionador também e então enxaguei o corpo. Desliguei a água e procurei a toalha com a mão, saindo do box, e sequei as costas com ela. Sequei os cabelos e enrolei a toalha no corpo, enquanto colocava novamente a blusa branca do uniforme. Desenrolei a toalha e coloquei a cueca, logo a calça também estava no meu corpo. Joguei a toalha no cabide e passei a mão pelo espelho embaçado, revelando a mim mesmo. Esfreguei os cabelos com as mãos mesmo e deixei que eles ficassem livres para qualquer lado. Terminei de abotoar a camisa e passei um pouco de perfume e desodorante. Saí do banheiro, deixando a porta aberta para tirar o bafo quente de lá de dentro e peguei as mesmas meias de tarde, as calçando e vestindo os tênis cinza. Olhei para o relógio e já eram incrivelmente dez e vinte. Peguei o crachá com a autorização e o preguei na camisa, saindo do quarto e colocando a chave dele no meu bolso.
Caminhei pelo corredor vazio a esta hora e desci as escadas pulando os degraus de dois em dois. Segui para a direção do refeitório pelo pátio e avistei Ed Sheeran parado na frente da porta, brincando com a gravata no pescoço. Ele olhou para mim e acenou com a mão. Acenei de volta e fui até ele.
— E aí, cara? — Ele sorriu e eu apenas o encarei. — O que foi?
— Não acredito que você disse a que eu era deficiente mental — disse e ele pareceu surpreso. Então Ed segurou uma risada.
— Ah, isso. — Ele sorriu para mim. — Bem, eu tinha que arranjar um pretexto para conversar com ela, não é?
— É, e depois daquilo, toda a vez que me via, achava de verdade que eu era um deficiente mental. Muito obrigado, Ed! — disse sarcástico e Ed riu, dando de ombros.
— Ah, já estão aqui — disse atrás de mim e me virei para ela. Ela estava usando a blusa do uniforme da faculdade, com a exceção de estar usando chinelos e uma calça de moletom. — Vamos terminar logo com isso.
Ela disse e adentrou o refeitório. Olhei para Ed, que piscou para mim e seguiu ela. Fui atrás deles também e seguimos pelas mesas, passando por todas. empurrou a porta da cozinha e entrou. Havia duas mulheres ali dentro, uma olhando para o seu relógio de pulso e a outra tirando o avental. Uma delas era Marge.
— Hey, Rita! Marge! — disse, se encostando na bancada da pia. Marge parou de olhar para o relógio de pulso e olhou para Jones com um sorriso no rosto. Rita jogou o avental em uma caixa com vários outros e olhou para ela também.
— Ah, olá, — Rita disse e então suspirou.
— Vieram para cumprir o castigo? — Marge perguntou para nós três, que assentimos.
— Então prestem atenção no que terão de fazer — Rita disse. — Eu preciso que um de vocês lave os pratos que estão na pia e que lavem o chão da cozinha. Também é preciso que tirem as bandejas de cima das mesas do refeitório e que descarreguem as caixas de leite para a geladeira. Entendido?
Demoramos, mas assentimos. Rita respirou, aliviada.
— Ótimo — ela disse e Marge sorriu para nós.
— Obrigada, meninos — Marge disse. — Nos vemos amanhã à noite.
Ela e Rita se despediram e saíram da cozinha, nos deixando sozinhos ali. olhou para nós dois.
— Certo, prestem atenção no que eu vou dizer — ela disse e caminhou em direção ao balde com aventais. — Edward, você irá cuidar do leite. Descarregue todas aquelas caixas e guarde todos na segunda, preste atenção, segunda prateleira da geladeira. E... — Ela olhou para mim.
— Harry Styles — respondi.
— Verdade. Harry Styles, você irá cuidar das bandejas das mesas e eu vou cuidar do chão. Entendidos? — Ela jogou dois aventais na nossa direção e os pegamos no ar.
— Sim, senhora — respondemos ao mesmo tempo. Ed seguiu na direção dos leites e ela foi para o armário onde se encontrava o material de limpeza. Coloquei o avental sobre o corpo e caminhei de novo em direção ao refeitório. Empurrei a porta e parei de andar no instante em que olhei para aquela imensidão de mesas. Não sei como não tinha percebido antes, mas em todas aquelas mesas havia várias bandejas.
— Ah, não... — gemi cansado.
— Tá esperando o que, Harry Styles? — Jones disse já com um esfregão e um balde nas mãos. Respirei fundo e coloquei duas luvas de plástico que estavam no balcão. Caminhei até a primeira mesa e peguei a primeira bandeja que vi. Estava com alguns papeis usados, então os joguei no lixo próximo. Quando voltei para a mesa que estava limpando, vi caminhar até o balcão e começar a mexer nos botões de um rádio velho. Ela o ligou e batidas de tambores começaram a tocar. sorriu e olhou para mim. — O quê?
— Nada. — Dei de ombros e peguei as próximas bandejas, limpando-as também.

(Coloquem essa música para agora, por favor: War — Edwin Star)


Passei um pano na mesa e joguei os papéis novamente no lixo. Dei uma olhada em Jones, que balançava o quadril na batida da música. Ed também estava junto à música enquanto colocava os leites na geladeira. Continuei meu trabalho e passei para a próxima mesa. estava esfregando o chão a algumas mesas longe de mim. Minha cabeça começou involuntariamente a se mexer junto com a música. Peguei todas as bandejas e joguei os papéis em cima de uma única mesa, assim facilitando o meu trabalho. Foi passando para as próximas mesas, tirando os papéis e os jogando em cima de uma única, empilhando as bandejas e as colocando em cima do balcão. estava molhando o esfregão no balde e então voltando a molhar o chão. Observei ela cantar a música — mas como estava muito longe de mim, eu não conseguia ouvi-la — e passei o pano nas bandejas que estavam na pilha em cima do balcão. Peguei o álcool que estava pronto para ser usado e voltei para a próxima mesa. Coloquei um pouco no pano e esfreguei-o, a limpando. Jones estava mais próxima de mim e então uma súbita vontade de dançar me pegou e lá estava eu balançando os quadris.
War, hun. — Ouvi Ed lá da cozinha.
Good God, y’all — eu disse e Jones riu.
What is it good for? — Ela usou o esfregão como microfone.
Absolutely...
... Nothing! — Ed completou.
Voltamos a limpar normalmente as mesas e o chão e a guardar os leites. Mas era impossível não dançar junto com a música. Nem que seja só balançando o corpo quase nada. Estava me aproximando de Jones e ela estava de costas para mim. Peguei as bandejas, as coloquei no balcão e joguei os papeis na outra mesa. Caminhei até esta mesma mesa e peguei todos os papeis que estavam nela, jogando-os no lixo. Voltei para a mesa que eu estava e limpei-a com álcool. se virou para mim e então nosso olhar se encontrou. Ela ergueu a sobrancelha com um sorriso no rosto. Sorri de volta, achando que tinha entendido o que ela pretendia. Peguei o pano e deixei o álcool em cima daquela mesa e pegou o esfregão. Ela jogou água no chão que estava entre mim e ela e eu joguei o álcool na mesa, que também estava entre nós dois.
Ela deslizou pela água com o esfregão quando o refrão voltou e eu deslizei com as mãos pela mesa quase encharcada de álcool. Passamos de costas para o outro e então larguei o pano na mesa, segurando sua mão. Acho que isso foi inesperado, não só para ela, mas também para mim. Ela olhou para mim com espanto e largou o esfregão apoiado em uma das cadeiras. A fiz girar até o meu encontro e de repente estávamos dançando juntos. olhou estranho para mim e então conseguiu se separar de mim. Ed de repente passou pelo balcão, cantando junto a duas garrafas de leite. Peguei o pano novamente e estiquei-o na mesa. Dei um salto, parecendo impressionar a Ed e a mim, além dela, e estiquei os dois pés sobre o pano. Dei um chute na bandeja próxima e a peguei no ar. olhou com um sorriso para mim e Ed estava rindo. Ela subiu também na mesa junto ao esfregão e assim depois Ed estava conosco com as garrafas de leite. Ele jogou uma garrafa na minha direção e eu a peguei no ar. Dei um giro, limpando a mesa com o pano e passou o esfregão na mesa também. Ed não tinha o que fazer, por isso ficou só dançando solitário com a garrafa. Joguei a bandeja na direção do balcão e incrivelmente ela acertou na pilha, parando ali.
Aaaah, war! Hun! — dissemos ao mesmo tempo.
Good God y’all! — foi a vez de Ed dizer.
What is it god for? — Ela jogou o esfregão na minha direção e eu joguei o leite na dela. Pegamos os objetos no ar e então segurei delicadamente o esfregão.
Absolutely...!
Nothing! — gritaram os dois juntos.
Say it again.
War, hun! balançou os ombros junto aos quadris e Ed começou a rodopiar com os braços.
Estávamos dançando feito completos malucos. Não conseguia distinguir ao certo onde eu estava — tudo estava girando e muito animado para que eu distinguisse. Até que eu percebi que um dos meus pés não estava mais na mesa e meu equilíbrio despencou. Percebi que estava caindo tarde demais, quando empurrei Ed, que empurrou e os três deram um berro quando demos de cara com o chão. Barulhos de quebrados ecoaram pelo o refeitório e passos apressados foram ouvidos. Estava com o pano na minha cara e com o esfregão bem naquela parte, e Ed e estavam cobertos por leite. Tirei o pano do meu rosto, sentindo a dor atingir meus países baixos.
— O que está acontecendo aqui? — A voz de Rita ecoou pelo refeitório e o som foi abaixado. Levantei a cabeça e fui seguido por Ed e Jones. Nós três olhávamos culpados para Rita, que revirou os olhos suspirando aliviada. — Ah... Arrumem essa bagunça logo. Crianças achando que podem fazer essa suruba toda nesta hora da noite... — ela resmungou a última parte e voltou a sair, passando pela a porta da cozinha.
Olhei para Ed, que estava rindo junto a . Sorri e levantamo-nos os três. Jones passou a mão no leite que estava em parte na sua camisa e em parte no seu avental e limpou no pano que antes estava na minha mão e que agora estava na mão dela.
Olhei para e apoiei os braços na cadeira que estava atrás de mim. estava distraída limpando a mão e olhou para mim. Ela riu e voltou a terminar de limpar as mãos. Ed tirou o avental sujo. Fiz menção de caminhar até Jones para recuperar o meu pano, quando ela entregou grosseiramente o pano para mim.
— Só um lembrete para vocês dois — ela disse e eu e Ed nos entreolhamos de relance e prestamos atenção nela: — Não achem que depois do que aconteceu aqui iremos ser amiguinhos. Eu me empolgo um pouco com músicas antigas, só isso.
Ela se virou e então Ed sorriu.
— Só quero saber uma coisa — ele disse e se virou para ele. — Quais as chances de nos tornamos amigos?
olhou de mim para Ed algumas vezes e sorriu de lado. Ela caminhou até ficar a menos de dois passos de nós e olhou para Ed e para mim.
— Zero vírgula zero, zero, zero, um de noventa e nove milhões. — Ela aumentou seu sorriso. — Boa sorte em conseguir isso. Agora me ajudem a arrumar essa bagunça antes que a Rita traga a Martha. E, acreditem, não vão querer conhecê-la.
se virou e voltou a caminhar em direção à cozinha. Ed riu baixo e olhou para mim. Olhei de volta para ele, que me deu tapas amigáveis no ombro, logo seguindo ela. Estiquei o pano ainda distraído com a visão dos dois caminhando e um pensamento não pôde ficar de fora.
Apesar de tudo, e eu não sabia ao certo o porquê, eu acreditava nesse zero, vírgula zero, zero, zero, um.


Capítulo Quatro: E é assim que se testa um microfone.

O dia amanheceu cinza. Vou resumir a minha manhã para vocês.
Eu tive aulas, claro, mas estava exausto por conta do trabalho de ontem à noite. continuou nos tratando normalmente do jeito dela durante a noite toda, mas, no fim, quando estávamos indo para os quartos, Ed só falava nela e em como as chances de ficar com ela estavam muito próximas de acontecer. Eu só continuei a ouvir até o momento em que ele se separou de mim e foi dormir. Cheguei ao meu quarto e encontrei Zayn já em seu terceiro sonho, jogado na cama e babando. Fiz o mesmo que ele e me joguei na cama também.
Mas voltando para a minha manhã: Rebecca estava cada vez mais sorridente com seu novo cabelo, me cutucaram durante a aula e me entregaram um bilhete que eu creio que era dela. Quer dizer, eu não sabia se era dela quando eu recebi. Dizia assim:

Todos estão me elogiando por meu mais novo cabelo. Você é incrível. Topa jantar juntos hoje?
Olhei para o garoto que me deu o papel, estranhando, e ele apontou com a cabeça para uma Rebecca que estava me olhando com um sorriso calmo nos lábios. Acenei para ela de uma maneira contida e me virei para frente. Não tinha contado para Rebecca que eu tinha pegado um castigo de quarenta e oito horas e muito menos com quem eu devia cumprir o castigo. Não sei se ela estava sendo educada, acho que sim, pensei muito durante a aula se eu devia respondê-la ou não. No fim, quando bateu o sinal, me levantei e fui até ela, entregando um bilhete. No bilhete dizia que eu a esperaria em frente ao refeitório às oito da noite.
Passei a tarde estudando na biblioteca, como já estava virando costume. Depois de algumas horas nisso, resolvi dar uma pausa. Relaxei os músculos tensos de meus ombros e estiquei meu pescoço para um lado e depois para o outro, alongando tudo. Empurrei a cadeira com os pés no chão e me levantei, esticando agora os braços e soltando um suspiro. Comecei a caminhar para as escadas do segundo andar da biblioteca e subi os degraus, chegando aonde queria. Passei a olhar pelas prateleiras de jornais antigos a respeito da cidade de Outbrooks e encontrei um em especial. A manchete da capa era sobre o prefeito Fairbrother assumindo a prefeitura em seu quarto mandato — acredito que hoje ele já estava no décimo. Comecei a folhear para ver se encontrava alguma coisa sobre a notícia do incêndio que matou Emma Grace, mas nada estava lá.
— Tudo muito estranho... — eu disse baixo, mas fui surpreendido quando alguém bateu contra minhas costas, me projetando para frente da prateleira.
— Ah, desculpa! — se virou para mim e eu para ela, fazendo com que nossos olhares se encontrassem. — Ah, é você.
— Sou eu — eu disse meio sem pensar. Ela me ignorou e voltou a andar pelos corredores. Observei-a virar à direita e ir para o corredor atrás da prateleira que eu estava. Fiquei a olhando por um tempo enquanto ela procurava algum livro.
— Você quer ir para um laboratório juntos para você me dissecar melhor? — Ela disse e eu balancei a cabeça negativamente para ela, voltando para o jornal nas minhas mãos. Coloquei-o de volta na prateleira e botei as mãos em meus bolsos, pronto para descer as escadas correndo. Quando eu me virei para fazer isso, trombei de frente com o meu colega de quarto.
— Ah, foi mal, amigão — ele disse e passou por mim, indo na mesma direção em que tinha ido. Fiquei me perguntando o que eles tanto conversavam e não consegui me conter. Tive que ir atrás deles.
Eu sei, eu sei. Totalmente errado isso o que eu estava fazendo, eu sei que todos merecem e devem ter seus momentos privados, mas eu não consegui me manter quieto na minha. Eu precisei ir atrás deles, meu corpo fez isso sozinho, sem a minha mente ordenar que o fizesse.
Percebi que eles estavam escondidos atrás de uma estante e me agachei atrás de outra, tentando ouvir melhor o que eles discutiam.
— Zayn, não vamos entrar nisso de novo. — Voz de baixa.
— Qual é, ? Eu mudei! Acredite, eu não vou mais ser aquele pirralho idiota de antes — Zayn insistiu, mas pareceu não acreditar, pois suspirou. — É sério. Por favor, me dá uma chance para eu te provar que eu estou diferente!
— Zayn... Entenda, já passou, está no passado agora, já era. Você não me deve nada — ela disse calma, mas ele continuou na insistência.
... — ele tentou dizer, mas ela não respondeu de imediato. Tentei ver entre os livros o que estava acontecendo, mas eles não estavam mais lá.
— Ei.
Dei um pulo assim que disse isso e me virei rapidamente para eles, que me olhavam. Jones lançava um olhar de reprovação para mim, enquanto Zayn ainda olhava para ela.
— Gosta de ouvir atrás das coisas? — Ela perguntou de maneira grossa e eu levantei minhas mãos ao alto, me rendendo.
— Desculpe. Eu não...
— Olha, escuta aqui, cara. — Ela se aproximou de mim. — Eu já disse que não somos amigos e que as chances disso acontecer são mínimas. Acha que vamos virar amigos com você escutando atrás das estantes tudo o que eu falo e faço?
, pega leve, ele não estava nem prestando atenção em nós.
Não existe nós, Zayn — ela disse para ele e ele pareceu surpreso e abalado ao mesmo tempo. Não acreditava que um cara como Zayn poderia se abalar com alguma coisa. Jones se virou para mim e meneou a cabeça. — Até mais, Harry Styles.
Ela disse, andando em direção às escadas e Zayn ficou parado ali, sem saber como prosseguir. Acho que eu também não teria ideia do que fazer depois dessa dura que levamos.


📚


À noite eu estava esperando por Rebecca em frente ao refeitório. Eu ficava toda hora olhando para o relógio no meu pulso, arrumando o cabelo e andando de um lado para o outro, nervoso. Não sabia o que poderia acontecer hoje. Na verdade, eu sabia que nada aconteceria, porém estar perto de Rebecca em um público maior me parecia um tanto quanto assustador. Não por ser ela, mas por eu ter que agir de uma determinada maneira perto de uma garota. Eu tinha falado com Ed sobre isso, ele parecia estranhamente animado com essa notícia, mas eu pedi encarecidamente para que ele não comentasse com ninguém, muito menos com Liam. Não queria arranjar confusões, ainda mais nos primeiros dias aqui na Universidade.
Vi Ed vir na minha direção e eu só o observei chegar até mim. Ele sorria, me encorajando e eu tentei devolver com outro sorriso, mas eu estava muito nervoso e não estava entendendo direito o porquê de tanto nervosismo. Qual é, eu já estive com ela várias vezes, algumas em seu quarto ainda. Ed colocou sua mão em meu ombro e deu batidas de leve ali.
— Vai dar certo, cara. Até o fim da noite, você terá conseguido a garota.
— Eu não quero conseguir ninguém, Edward! — Eu disse e ele estranhou, erguendo uma sobrancelha.
— Não?
— Não!
— Ah, então por que está tão nervoso? — Ele disse meio exasperado e eu me exaltei junto.
— Eu não sei, cara! — Disse, já passando as mãos por meus cabelos. Ele tentou arranjar uma resposta, mas em vez disso ele olhou para além de mim e sua expressão foi se alterando para uma surpresa.
— Como você queria que Liam não visse vocês juntos, mesmo?
— Ah, droga! Eu não pensei nisso — eu disse ficando ainda mais desesperado. Ed me chacoalhou com as mãos pelos meus ombros
— Calma, cara! Eu posso fazer isso por você. Tente sentar escondido no refeitório, eu vou tentar distraí-lo o máximo possível.
Assenti e ele seguiu em direção ao Liam, que se encontrava já dentro do refeitório, sentado e comendo junto a Louis e Drew. Fiquei observando Ed se sentar junto deles e começar uma conversa animada. Eu estava meio escondido na porta, olhando para o refeitório, e comecei a viajar pelas pessoas que já estavam ali. Meu olhar foi indo de mesa em mesa, eu sabia que eu estava procurando uma pessoa, mas não queria admitir para mim mesmo. Então eu a encontrei: Jones estava sentada na mesa, lendo um livro, enquanto a trupe do Poynter estava em volta dela, conversando animados e rindo.
— Oi!
Tomei um susto e virei para Rebecca, que estava já ao meu lado. Ela estava perfumada até que demais. Seu cabelo roxeado estava preso em um rabo de cavalo alto, com alguns fios soltos aleatórios. Rebecca sorria abertamente e depositava o peso do corpo uma hora em uma perna, outra hora, na outra. Finalmente, resolvi respondê-la e acenei, sem dizer nada. Ela riu e me puxou para dentro do refeitório.
— E aí, como foi o seu dia? — Ela disse, enquanto pegávamos o jantar: frango frito com fritas. Estava até com uma cara boa.
— Ah, não sei. Normal, eu acho — eu disse e me lembrei do esporro que levei de Jones hoje à tarde. — E o seu?
— Ah, eu preciso muito desabafar, para falar a verdade. Tudo bem se sentarmos ali? — Ela disse, já indo em direção à mesa no meio do refeitório, mas eu segurei seu braço com delicadeza, a impedindo de continuar a andar. Rebecca olhou para mim confusa.
— Na verdade, podemos nos sentar... Ali? — Apontei para a mesa mais afastada o possível da multidão, ao lado das lixeiras. Ela estranhou, mas soltou uma risadinha, assentindo. Voltamos a andar e fomos até o nosso destino, logo em seguida nos sentando.
— Bom, vou começar a falar então, se prepare — ela disse assim que coloquei a bandeja em cima da mesa. Olhei para ela distraído e Rebecca começou a falar. — Então, hoje eu estive muito estressada, sabe? Fiquei pensando em como meu cabelo está bonito, mas a minha pele, não. Eu estou surtando, porque não sei mais como lidar com esses poros enormes e...
Ela continuou, porém eu fiquei comendo o meu frango e olhando para a trupe do Poynter. Talvez eu não estivesse dando a atenção que ela merecia, mas sei lá, não estava realmente me interessando os poros dela. Ainda mais porque eu estou comendo. O.k., isso também não foi legal de se dizer, afinal, é o corpo humano e eu tenho um corpo humano. Mas só quem é médico gosta de saber sobre o corpo humano e eu estou bem de acordo em continuar a fazer Direito.
Espetei mais fritas no meu garfo e levei até a minha boca a comida, já a enfiando lá e em seguida mastigando. Observei, atrás de Rebecca Johnson, mexer no celular enquanto Dougie jogava uma batata em outro garoto ali sentado. Dougie Poynter era o típico garoto misterioso da minha escola (sim, fizemos escola juntos: Mclaggen High School). Ele não era exatamente uma pessoa alta, eu era mais alto que ele, mesmo assim ele é o cara que te intimida. Não que ele quisesse intimidar alguém, pelo contrário, ele ficava na dele quase que 100 % do tempo — ele não tinha muitos amigos na escola, sempre soube que ele tinha amigos mais velhos e agora estava vendo dois deles com ele sentados na mesa. É o que eu te disse, ele era misterioso. Usava um topete às vezes, às vezes aparecia com o cabelo todo jogado na cara, enfim, até como ele deixava o cabelo era sempre um mistério até que ele aparecesse. Porém, não é mistério para ninguém que ele tinha a amizade de Jones, algo que, por exemplo, Ed tanto almejava e Zayn parecia ter perdido. Por falar nisso, o que será que Zayn e ela são um do outro?
— Harry!
— Hum? — Olhei para uma Rebecca, que parecia irritada.
— Você não me responde há minutos, o que está acontecendo? — Ela disse. O.k., nitidamente irritada.
Eu tentei arranjar uma desculpa rapidamente para que ela não desconfiasse no que eu estava realmente pensando — não nos poros dela —, mas ela foi mais observadora e notou que eu estava trocando o meu campo de visão entre ela e algo atrás dela. Portanto, ela se virou lentamente para trás e chegou ao que eu tanto pensava.
— Ah, você estava olhando para a mesa da Jones — ela disse de repente. Eu assenti, mesmo que ela não pudesse ver. — Eu não a entendo. Ela só tem três amigos e o irmão dela. Zayn vive falando dela para mim, eu já estou enjoadíssima de ouvir o nome dessa garota, sério.
Ela se virou para mim e suas sobrancelhas se juntaram em uma ponte acentuada. Eu devia estar olhando para Rebecca de uma maneira diferente e assim que eu notei que meus músculos faciais estavam tensionados, relaxei no mesmo instante e dei de ombros, voltando a comer.
— É, eu acho — eu respondi e ela continuou a me encarar. Tomei um gole do suco que eu tinha pegado, tentando me manter calmo, mas eu não estava nem um pouco assim na realidade. Senti um gosto estranho assim que a bebida tocou na minha língua e cuspi tudo de volta para o copo. Dei um sorriso mostrando os dentes e ela então esbugalhou os olhos.
— Harry! Está tudo bem? — Ela perguntou e eu estranhei.
— Como assim? — Disse desesperado, olhando para meu corpo. Será que meus poros estavam tão abertos a ponto dela se desesperar também?
— Seus dentes estão totalmente roxos — ela disse meio que com nojo, meio que preocupada. Peguei meu celular num movimento rápido e abri a câmera, olhando para meus dentes que estavam totalmente roxos. Passei o dedo no incisivo central, mas a cor não sumiu dali e foi parar na minha pele do indicador como eu imaginava que aconteceria. Subi meu olhar para as pessoas do salão e encontrei direto com Louis rindo da minha cara. Ed estava ao seu lado com uma expressão de espanto, Drew estava mastigando e Liam estava me encarando. Liam parecia chateado, mas, ao mesmo tempo, satisfeito. Acho que consigo imaginar o porquê do chateado e, principalmente, do satisfeito.
— Filho da... — comecei.
— Harry! Será que isso é tinta para cabelo? Porque é da mesma cor da que está na minha cabeça — Rebecca Johnson constatou o óbvio: Louis Tomlinson roubou as tintas de cabelo do meu quarto e usou para uma pegadinha. O problema era que essa pegadinha era para mim mesmo.
Ótimo. Louis 1 x 1 Ed. E eu: infinitamente zero.


📚


O dia tinha sido exaustivo demais. Eu estava nesse momento na minha cama, olhando para os Beatles no meu teto. Eu os encarava, enquanto eles me encaravam de volta. Só conseguia pensar em como eu tinha sido um idiota por não ter contado para Liam que Rebecca e eu estávamos mais próximos do que ele gostaria. Mas eu não poderia fazer nada porque (a) não fui eu que comecei a falar com ela, foi Rebecca que fez isso, (b) eu não gostava dela como Liam gostava e (c) não sei se exatamente vale a pena ficar pensando nisso, pois a verdade é que (d) em quem eu realmente estava pensando era Jones com sua irritabilidade e seu sorriso incrível, mas isso poderia levar a Ed também ficar triste comigo, e (e) não era isso o que eu queria que ocorresse.
Por falar em Ed e Jones, fizemos nosso trabalho hoje e não trocamos uma palavra, apenas dando as ordens que, pelo visto, ela sempre daria. E eu não sabia o motivo de nós obedecermos, acho que era a autoridade que ela passa — no meu caso, claro, porque no caso de Ed eu tinha quase certeza de que era pelo fato dele estar caidinho por ela. Enfim, de qualquer jeito, esse foi o desfecho da noite. E sobre Liam: ele me ignorou o restante do dia todo, eu nem tentei me defender, eu não sou defensível. Eu estava me sentindo um trapo naquele momento e tudo isso em poucos dias de faculdade.
Ah, e a tinta saiu com a pasta de dente. Não foi tão inteligente assim, Louis...
— E aí, garanhão. — Zayn entrou no quarto e tirou a jaqueta, jogando-a em cima da cadeira e tirando os sapatos em seguida. Ele se tacou na cama, se virando para mim. — Por que você tem esses caras no teto?
Olhei para Zayn e depois para os Beatles.
— Sei lá. Eu sou muito fã deles — eu respondi, voltando o olhar para ele, que fez uma careta.
— Eu diria no mínimo esquisito. Se fosse assim, eu deveria colocar uma foto minha no meu teto também. — E riu em seguida. Suspirei, só pensando em como eu não queria ter que conversar naquele instante, porém eu queria muito perguntar para ele sobre Jones. Será que eles sempre se encontravam naquele espaço da biblioteca? “Sempre” é uma palavra forte, afinal, só tem uma semana mais ou menos de aula, não fazia sentido usar “sempre”, mas acho que vocês me entenderam. — Você é bem caladão, não é, cara?
Olhei para Zayn, pego de surpresa.
— É, eu acho que sou — eu disse, voltando a olhar para o teto, mas estava pensando que eu não era assim porque eu era assim, mas sim porque eu queria ser assim. Eu não fazia exatamente o tipo falante e A Bolha não me deixava ficar próximo das pessoas.
Como explicar “A Bolha”? Ela era o que me deixava são. Eu fui a construindo durante o tempo da escola e agora era algo que estava muito bem estabelecido. Ela é basicamente uma barreira contra amizades. Eu digo amizades profundas. Ela não me deixa ficar muito próximo, me abrir com as pessoas, porque eu só simplesmente não sou o cara certo para isso.
— Mas Becca parece gostar muito de você.
Tentei raciocinar quem era “Becca”, até a ficha cair, me fazendo direcionar a visão para um Zayn de olhos fechados e com um sorriso.
— Ah...
— Ela não parou de falar sobre você desde um dia aí que vocês foram à biblioteca, ou sei lá. Quer dizer, eu vi vocês, mas estava mais ocupado com, hã, as minhas coisas...
Eu queria muito saber se essas coisas tinham algo em comum com Jones.
— Mas acho bom você a tratar bem. Senão, já sabe, né, cara? — Ele disse baixinho e então se virou para o outro lado da cama. — Boa noite, Harry.
Fiquei o olhando por alguns segundos, então virei minha cabeça para os Beatles e disse:
— Boa noite, Zayn.


📚


Acordei com o som do meu despertador de gatos no desespero. Eu tinha colocado para as 7 horas da manhã desse sábado, porque eu tinha que estar no salão de bailes principal para ajudar na organização da festa de Boas-Vindas. Mas estava entretido demais nos meus sonhos — que aliás, envolviam tinta roxa, Liam Payne, Rebecca, Beatles, Zayn, Jones.
Fiquei olhando para o teto depois de desligar o despertador, pensando que eu não era o único que tinha que ajudar na organização da festa e sorri involuntariamente a isso. Não que eu estava pensando em Jones quando eu sorri, mas sim que eu não seria o único ferrado no sábado de manhã, é claro.
Chutei a coberta para a parte sul da cama e levantei-me correndo de lá, indo em direção ao chuveiro e o ligando, voltando para o quarto em seguida e escolhendo minha roupa. Peguei uma camiseta do Star Wars preta e uma calça jeans escura. No fim de semana, não era obrigatório usar o uniforme da Universidade, o que não fazia tanta diferença para mim. Na verdade, era até pior não usar, porque eu tinha que pensar na roupa que eu colocaria. Como agora. Mas eu não tinha muito o que fazer, pois, apesar de ter a possibilidade de o usar, eu seria julgado se aparecesse com ele pelo campus em um sábado.
— Ahn — Zayn, morto, soltou de sua cama e eu apenas ignorei, pegando a roupa escolhida e fui direto para o banheiro. Lá eu lavei bem meu cabelo, meu corpo e principalmente meu pescoço. Se eu queria estar cheiroso? Não, claro que não era uma prioridade, a prioridade era limpar meu corpo direito e estar apresentável, caso o reitor Thompson aparecesse por lá — não queira mais encrencas, por enquanto.
Saí do banheiro já pronto, coloquei os tênis e olhei no relógio do celular, constatando que eu já estava atrasado. Joguei o cabelo para baixo, bagunçando os fios com as mãos e depois os jogando para o lado. Estava preparado para o que aquele dia poderia me proporcionar, então saí correndo do quarto, ouvindo a voz de Zayn dizendo para trancar a porta quando saísse e foi o que eu fiz.
Cheguei ao salão de bailes e as pessoas já estavam trabalhando para colocar as faixas e a decoração por lá. Mas estava tudo ainda muito no início. Fiquei parado ali, observando por alguns segundos, até que fui empurrado pelo ombro para frente e olhei para o lado, procurando quem tinha feito isso.
— Vai ficar aí só olhando? Temos muito o que fazer, Harry Styles! — Jones disse com um meio sorriso na boca e continuou a andar de costas em direção ao centro do salão, até que se virou e seguiu seu caminho. Fiquei a observando até ela se virar novamente e parar de andar. — E aí?
— Ah, sim — eu respondi e pigarreei, indo em sua direção, enquanto ela voltava a caminhar.
— Teremos três horas muito intensas, então é bom que você se prepare para isso. Precisamos colocar a faixa ali no meio do salão, verificar se as luzes estão funcionando, testar o equipamento de som e outras coisas mais. Trabalho muito pesado, sabe como é — ela disse ainda de costas para mim.
— Ah, sim — respondi novamente e ela parou de andar, me fazendo parar também e lançar o meu olhar para ela. — O que foi?
— Eu estou brincando. Não precisamos fazer tudo isso. Eu nem sei o que temos que fazer, cara — ela disse, rindo e eu assenti depois de um tempo, sem entender qual era a graça. — Você precisa relaxar, um pouco, Harry Styles, eu não mando aqui o tempo todo.
— Ah...
— ... Sim? Você só sabe dizer isso?
Wow. Ela estava atacada essa manhã.
— Ah, sim. — Ou eu só realmente sabia dizer isso? Harry, seu idiota, você tem um grande vocabulário, use ele agora, caramba!
— Você é estranho, Styles — ela disse simplesmente e seu rosto se iluminou de repente, olhando para além de mim. — Harry!
— Estou aqui — eu respondi em um susto com o grito dela animado e ela lançou um último olhar para mim antes de seguir para encontrar um outro cara musculoso com um topete atrás de mim.
Olhei Jones pular nos braços dele, que a abraçou. Me senti um pouco desconfortável com o que acabou de acontecer, por eu ter achado que era comigo a animação toda. Mas era óbvio que não era, Harry! Você mal a conhece e, além do mais, ela não parece querer conversar muito com você, cara.
— Quem é esse? — O cara musculoso perguntou e ela se virou para mim.
— Harry Judd, esse é Harry Styles — ela disse e ele assentiu.
— E aí, cara? Somos xarás, então?
— É, eu acho — eu respondi. Não me culpem pela moleza, eu tinha acabado de acordar, estava cansado por não ter dormido direito com os sonhos sobre ontem à noite. O.k., tudo bem, estou enrolando vocês, eu só não sabia o que dizer para ele. Eu não era o cara mais extrovertido do planeta, então só estava sendo eu mesmo nesses momentos esquisitos que a vida proporciona.
— Legal — ele disse apenas e se virou para . — Você sabe, estou no último ano, isso fica ao encargo de nós, quintanistas, a Festa de Boas-Vindas. Dougie que te colocou nessa também, Harry?
— O quê? — Eu perguntei confuso e riu.
— O que, lógico que não, Harry! Ele e Dougie nem sabem que um e o outro existem! Aliás, ele disse que passaria aqui depois das minhas três horas. Você sabe se ele vai cumprir mesmo? Estava precisando conversar com ele...
— Acredito que sim, . Você sabe que por você ele faria tudo, certo? — Harry sorria para ela, o que me fez pensar se Dougie seria o cara preferido de Jones da trupe do Poynter. Se bem que, pensando, o nome da trupe tem o sobrenome dele envolvido, e só foi recebido esse nome no grupo por conta de Jones. O.k., com certeza ele era o cara preferido dela. Mas e por que isso estava me incomodando um pouco? Acho que não era exatamente isso que me incomodava e sim aquele cara musculoso na minha frente. Ele era muito musculoso. Com certeza um aperto de mãos com ele quebraria a minha.
— Ei, cabeça de vento!
Pisquei algumas vezes e olhei para . Aparentemente ela estava me chamando de cabeça de vento. Fiz um meneio de cabeça e ela riu.
— Caramba, estou te chamando há um tempo! Você ouviu o que o Harry disse? — Ela disse parecendo um pouco estressada.
— Hã, que temos que cuidar do equipamento de som? — Perguntei meio grogue e ela se surpreendeu. Sim, eu consegui pensar em como ele poderia me matar só com o seu polegar igual ao cozinheiro do desenho animado da Disney “Ratatoullie” e no que ele disse, ao mesmo tempo.
— Então o que você está esperando? Vamos! — Ela disse e foi andando em direção ao palco. Olhei para Harry com um pouco de confusão na minha cara e ele deu de ombros, sorrindo, e se mandou. Saí correndo atrás de Jones para impedir que ela me chamasse de cabeça de vento novamente em menos de dois minutos.


📚


Já tinha se passado uma hora desde que começamos o trabalho não-voluntário na festa de Boas-Vindas da Universidade de Outbrooks. Eu fiquei observando um pouco pegar um instrumento por vez e testá-lo. Ela sabia tocar quase todos os instrumentos presentes ali, o que, tudo bem, pode ter me deixado impressionado. Fui prestando atenção e notando como a voz dela era bonita. O microfone ainda não tinha sido testado e fiquei ansioso para esse momento acontecer. Queria provar ao meu próprio cérebro que além de um sorriso incrível, Jones vinha acompanhada de uma voz incrível.
Ela estava tentando afinar o violão, mas nunca conseguia achar a nota certa. Eu me aproximei dela e percebi como os músculos do corpo dela se enrijeceram ao passo que eu diminuía a distância entre nós. Ela continuou a tentar afinar, mas agora olhando diretamente nos meus olhos. Fiquei paralisado nesse instante. Não consegui me mexer, nem ao menos respirar direito. Então riu pelo nariz e atingiu a nota que era a certa.
— Por que essa aproximação, Harry Styles? — Ela disse, voltando a olhar para o violão. Tentei normalizar minha situação e dei de ombros, olhando para longe dali.
— Não sei, achei que você precisasse de ajuda — eu disse e ela parou de tocar, me olhando novamente.
— O trato era eu verificar os instrumentos que eu sabia mexer e você ficava com o resto, não é? — Ela disse como se fosse óbvio.
— Hã, sim — eu respondi.
— Deixa eu adivinhar, você não achou que eu soubesse tocar tantos instrumentos assim? — Ela voltou a tocar o violão.
— Bom, eu não te conheço direito, foi só uma suposição de que você soubesse tocar um ou outro, como pessoas normais, mas...
— Pois é, eu sei mais que um ou outro. Pessoas normais? Sério? — Ela disse, rindo e eu fiz um bico involuntariamente — só notei o bico tarde demais. ficou olhando para a minha boca até se lembrar da realidade e desviar o olhar novamente para o instrumento em suas mãos. Senti uma tensão estranha no ar, eu nunca tinha participado de uma tensão dessas, mas acho que finalmente tive a oportunidade. — Além do mais, vamos manter assim, o.k.?
— Assim o quê?
— Você não me conhecendo — ela disse e se levantou, me entregando o violão. O peguei e ela passou por mim, indo em direção ao microfone, finalmente. Fiquei a observando, ansioso. — Teste o microfone, tá? Eu vou tomar uma água.
Murchei totalmente depois dessa. Coloquei o violão em seu lugar e fui até ao microfone, o ajeitando em uma altura boa para qualquer um. Bati uma, duas vezes, nele e pigarreei antes de dizer:
— Alô? Testando, 1, 2, 3, testando — eu disse e algumas — poucas — pessoas que estavam trabalhando ali pararam um pouco e me olharam. Sorri sem graça e dei um aceno para eles. — Vocês me escutam?
— Canta alguma coisa! — Um cara gritou e o pessoal riu.
— É, qualquer coisa! — Outra disse e se cutucaram com os cotovelos. Eu não iria passar por essa, então só abanei o ar e me preparei para ir embora.
— Ah, qual é, Harry! Não conseguimos ouvir você! — Harry Judd disse com uma prancheta na mão e cercado por umas três pessoas.
— Não, estou bem de boa — eu respondi e Harry gritou um “o quê?”. — Eu disse que estou de boa!
— Eles não estão te escutando, Styles — disse, se aproximando de mim com uma garrafa de água nas mãos. Olhei para ela, que sorria com a fina linha da boca.
— Por que não tenta você, então? — Não sei de onde que veio essa coragem toda de dizer isso a ela, mas eu disse. Ela riu e pediu licença para mim, se aproximando do microfone.
Ela bateu duas vezes nele e se virou para mim, começando a cantar:


(Coloque para tocar: Day-o (Tha banana song) — Harry Belafonte)


Daaaaay-o! Daaaaaay-o! Daylight come and me wan' go home. Day, me say day, me say day, me say day, me say day, me say day-o. — Ela sorriu e se virou para as pessoas. — Daylight come and me wan' go home.
As pessoas pararam de trabalhar de vez e eu fiquei hipnotizado com a sua voz. Meu cérebro aprendeu: Jones era uma cantora inata.
Work all night on a drink of rum. — Ela batia palmas junto a música, dando uma melodia a ela.
Daylight come and me wan' go home! — Harry Judd gritou de volta. Ele, já podemos constatar, não cantava tão bem assim.
Stack banana ‘til the morning come! — Ela cantou e o pessoal foi batendo palmas junto dela.
Daylight come and me wan’ go home! — Mais pessoas entraram na brincadeira. Jones se virou para mim e fez sinal com a mão para que eu me aproximasse.
Come, mister tally man, tally me banana — ela cantou, rindo e eu fiquei um pouco incomodado, mas estava gostando. O pessoal continuou a cantar e ela também, dançando com todos e batendo palma para dar ritmo à música.
Eu fiquei observando tudo e como dançava e me chamava para a dança com a mão, mas toda vez que eu me aproximava, ela dava um jeito de se afastar. Eu comecei a dançar discretamente, mas logo que todos estavam dando piruetas e fazendo passos engraçados juntos, eu resolvi me soltar mais. Até que a música terminou e todos disseram em uníssimo:
Daylight come and me wan’ go home!
Todos estavam rindo e se divertindo com esse episódio e me encarou com um sorriso nos lábios, me entregando o microfone.
— E é assim que se testa o microfone, cabeça de vento — ela disse e desceu do palco, indo para a próxima tarefa.
Eu estava perdido. Em muitas maneiras.


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Então as três horas se passaram voando. Eu e tivemos o mínimo de contato, ela mal falava comigo, até que no final, quando estávamos pendurando estrelas na parede, ela se virou para mim e disse “Me passa a fita adesiva”. Aquilo foi o auge para mim, entrei em êxtase — só que não. Eu entendo que eu não era o cara mais legal do mundo, mas ela ter aversão a homens me deixava complexado. O que será que fizeram para ela para ela só querer quatro caras na vida dela? Eu disse quatro, pois estou contando com o irmão de , Danny. Ele se formou já, mas eu sabia que todos eram muito próximos. De qualquer maneira, eu só penso que provavelmente um cara cuzão fez algo para ela e ela só teve a má sorte de encontrar ele na vida.
Espere, e se esse cara for Zayn? É, isso até faz sentido. Quer dizer, ele mesmo disse que não era mais um — como ele disse mesmo? Ah, é, pirralho idiota. Será que Zayn Malik fez a cagada de destruir o coração de Jones e agora ela odeia todos os homens da face da terra? Ed não vai gostar de saber disso. Mas também são só suposições, nada confirmado... Como eu poderia confirmar? Ela não conversava comigo por nada e eu estava tentando mais que o normal. O.k., meu normal não é lá muito conversador, mas o que vale é a intenção. Não sei também se Ed aprovaria eu ficar conversando com ela sem ele. Ah, qual é, ela não é propriedade de ninguém, afinal, ela é um ser humano, então eu não tenho que me preocupar com isso. Ou será que devo?
— Bom, acho que é isso, Styles — ela disse, descendo da escada, onde antes ela estava no último degrau, prendendo estrelas em todos os lugares possíveis. se virou para mim e estava com as mãos na cintura, formando quase que asas. É, a aparência dela era de anjo. Ela poderia ser um anjo, mas também poderia ser um demônio. Enfim.
— Acho que é isso, Jones — eu disse em reflexo. Ela sorria e eu sorri também. Ela e eu ficamos em silêncio por alguns segundos. — Você vai à festa afinal?
— Não sei... E isso não é...
— ... Da minha conta, eu sei — eu respondi e ela riu.
— Você só me surpreendeu hoje, Harry Styles — ela disse, apoiando o peso de seu corpo em um dos pés e pendendo sua cabeça na mesma direção. — Será sempre assim?
Dei um sorriso sincero e espontâneo e dei de ombros, segurando ainda a fita adesiva nas mãos, olhando para o chão.
— Teremos sempre contato? — Eu disse sem pensar e ela ficou me encarando.
— Isso depende de mim. E do zero, vírgula, zero, zero, um. — Sorri novamente.
— Um zero a menos do que você disse antes, devo enxergar isso como um sinal positivo?
revirou os olhos e me deu um soquinho no braço.
— Qual é, Styles! Temos muita louça para lavar juntos ainda! Não se anime, pois serão horas torturantes, com ou sem você — ela disse em resposta. O que estávamos fazendo? Essa conversa estava sendo tão sincera que eu me perdi em seu olhar e ela no meu. Ficamos em silêncio por um tempo, olhou para longe de mim e seu sorriso se tornou largo. — Dougie Lee Poynter!
Ah, claro. Dougie Poynter.
Ela saiu correndo e eu me virei para vê-la pular em seus braços como fez com Harry antes, mas dessa vez eu pude notar algo a mais que eu não sabia o que era. Isso me incomodou mais ainda, mas me mantive quieto, afinal, quem sou eu na fila do pão, comparado ao misterioso Dougie Poynter?
— E aí, Jones? — Eu pude ver seus lábios se movendo e pronunciando essas palavras. Ah, encantador. Ele estava olhando para o chão, aproveitando o abraço de Jones com um sorriso no rosto. Ele levantou o olhar e seguiu pelo local até encontrar com os meus e se surpreendeu. — Harry Styles?
O.k., por essa ninguém esperava. Como Dougie sabia meu nome?
— Dougie? — Eu disse e se largou de Dougie, se virando para mim.
— Vocês se conhecem? — Ela disse confusa. Dougie colocou as mãos dentro dos bolsos da calça e começou a se balançar sob seus pés.
— Harry e eu fizemos escola juntos. Cara, que legal, você decidiu vir para qual curso?
— Direito — eu respondi e ele abriu a boca, assentindo.
— Ah, claro. O mesmo que nós. — Ele se virou para , que o olhava desconfiada.
— Você nunca me disse sobre Styles, Lee — ela disse e Dougie riu.
— Você nunca perguntou, — ele respondeu. Caramba, por essa ninguém esperava: parte 2. — Nah, Harry é um cara legal. Um dos quietos, mas legal.
Você não era exatamente falante, Poynter.
— Ah, valeu? — Eu disse e ele riu. Dougie se virou para , que ainda o olhava estranho.
— Vamos comer? Tô morrendo de fome!
— Hã, claro. Vou só pegar meu casaco — ela disse e se separou do amigo, indo à direção da peça de roupa. Dougie ficou olhando para as estrelas penduradas.
— Caramba, vocês fizeram algo incrível aqui. Quero só ver hoje à noite como estará melhor ainda — ele disse, ainda olhando distraído.
— É, quem sabe depois você me conta. — Eu. Dougie desviou o olhar até o meu e virou a cabeça, estranhando.
— Não vai à festa hoje, Styles? — Poynter.
— Não tenho vontade, cara — eu disse e ele balançou a cabeça negativamente, com um sorriso no rosto.
— Pois agora você terá: vamos com a gente! — Ele disse animado e eu estranhei como Dougie tinha esse bizarro apreço por minha pessoa.
— Hã...
— O que vocês estavam conversando? — perguntou, já com o casaco em mãos.
— Hã, em como você está linda hoje — ele disse, com um sorriso charmoso. Ela revirou os olhos e começou a andar, dizendo um “nos vemos no BK” antes. Ele a observou se afastar um pouco mais e se virou para mim. — Escute, não é lá chegada a fazer novas amizades, mas eu sinto que ela gostou de você. Hoje, quando você aparecer...
Se eu aparecer...
— ... Quando você aparecer, finja que veio por conta própria, tudo bem? Ela surtaria se soubesse que eu chamei alguém a mais do que o pessoal usual.
— Dougie, por que está fazendo isso? — Eu disse de repente. Ele deu de ombros depois de um tempo me olhando.
— Precisava compensar Gordon por fazer a Grande Festa na casa dele e sei que vocês são amigos, então é como se fosse transferência de peso, entende? Além do mais, eu sei dizer quando gosta de alguém e eu vi como vocês estavam conversando animados antes. Não a via conversando assim com outro cara desde muito tempo.
Isso fez com que eu sorrisse. Jones gostava de mim, afinal, han? Estou chocado, porém não tão surpreso. Eu sou gente boa demais, qualquer um gostaria da minha companhia — pelo menos é o que a minha mãe diria. Eu só não quero compartilhar a minha companhia, mas tirando isso, tudo certo. Aliás, nota mental: ligar para minha mãe amanhã à noite.
Dougie se aproximou de mim, segredando:
— Mas não se engane: você não sou eu. Não tente roubar o meu lugar e tudo ficará numa boa entre nós. Capiche?
Eu assenti. Ele sorriu e disse que estava vazando dali. E voltamos para a normalidade, meus caros.


Capítulo Cinco: Ela é quem te salva no fim.

— É o que eu estou te falando, cara! — Louis disse para Ed, enquanto eu estava revendo um trabalho para Sociologia I no computador. Ed estava deitado na minha cama, jogando uma bola de beisebol para cima e a pegando no ar, repetindo infinitamente esse gesto, e Louis estava sentado na cadeira de Zayn — sem ele saber que era de Zayn — girando-a. Os dois estavam conversando sobre algo que eu não fazia ideia do que era, estava mais concentrado nos meus afazeres universitários.
— Não acho possível, mas o.k. — Ed respondeu e Louis estalou com os dentes, se virando para mim. Ótimo, vai sobrar para o otário aqui.
— O que você acha, Harry?
— Sobre o quê?
— Sobre o governo dos Estados Unidos estarem já enchendo de pessoas um planeta fora da nossa galáxia?
— Hum — eu disse e eles voltaram a discutir. Eu ainda estava pensando no que aconteceu mais cedo, pensando em como era incrivelmente solta e dona de si, e em como Dougie Poynter me queria junto da trupe dele, pelo menos por uma noite. Louis já estava de terno, com sua gravata frouxa, e Ed estava de camisa e calça social, os dois prontos para a festa de hoje à noite, e eu estava lá, de pijamas. Convidei os dois para o meu quarto — na verdade, eles se convidaram —, pois sabia que Zayn já tinha se arrumado e estava em algum outro lugar que eu não fazia ideia de qual era. Então sem perigo de Louis o ver.
— Sério, Ed? — Ouvi Louis dizer.
— Seríssimo — Ed balbuciou, ainda com a bola de beisebol na mão.
— Quer dizer então que você passou a manhã com Jones, camarada? — Louis estava nitidamente falando comigo. Eu dei de ombros.
— Talvez.
— E o que você descobriu sobre ela? — Ed perguntou e eu demorei para responder.
— Nada. — Então me lembrei da suposição que eu fiz em relação a Zayn e ela e contei aos dois, dizendo que eu havia escutado a conversa deles e que tudo isso faria sentido caso Zayn tivesse sido um babaca com Jones — que eu descobri que seu nome era Jones.
— Caraca, isso faria muito sentido! Pelo menos pela fama de Zayn... — Ed.
— Mas eu não sei exatamente se isso pode ser verdade — constatei e Louis arfou.
— Estamos falando de Zayn Malik, cara. É óbvio que ele faria algo do tipo — Louis disse. — Ei, preciso ir ao banheiro.
— Pode ir, cara, ninguém tá te impedindo — eu afirmei e Ed riu.
— Mas considerando que você está em território inimigo, eu não pegaria um sabonete do chão se eu fosse você — Edward disse e Louis revirou os olhos, mas logo sorriu.
— Já dei o troco em Harry uma vez, posso dar de novo — ele disse, apontando para seus dentes e eu balancei a cabeça negativamente.
— Só vai lá, cara — eu disse, abanando o ar com a mão. Ele assentiu e se levantou, indo para o banheiro. Escutei a porta se fechar e Ed se sentou na cama.
— E então?
— Então o quê?
— Como é? Você acha que eu tenho chances? Será que ela vai à festa de hoje? — Ed disparou em perguntas e eu o olhei de soslaio.
— Cara, eu realmente acho que você tem que parar de acreditar que você e ela serão algo — eu disse sincero.
— É, mas eu tenho certeza de que você já deu um passo a mais do que eu em relação a ela.
— Ah, é? E que passo é esse? — Eu disse com o coração acelerado.
— Você sabe... Passou mais tempo com ela do que eu. E isso já é algo, não?
Ouvi a porta do quarto começar a ranger e o barulho da maçaneta girando fez com que eu entrasse em pânico. Zayn entrou no quarto, cumprimentando a mim e a Ed. Ele disse que precisava pegar sua carteira, pois ele a havia esquecido, mas em vez de ele a pegar de uma vez, ficou se olhando no espelho e arrumando o topete.
— Você não vai para a festa, Harry? — Ele perguntou e eu escutei o barulho da descarga vindo do banheiro.
— Hã... Não... Acho que Jenna queria conversar com você, cara. Você deveria ir vê-la agora — eu disse, me levantando e o empurrando na direção da porta.
— Ei, calma aí, eu...
— Tchau! — E fechei a porta do quarto, expulsando-o de vez. Respirei fundo e me virei para Ed, que me olhava. — Essa foi por pouco.
— Cara, você precisa contar para Louis que...
— Contar para mim o quê? — Louis disse, saindo do banheiro. A porta era do lado do Zayn e Louis se virou para a bancada ao lado na parede e observou uma carteira.
Droga. A carteira de Zayn ficou aqui.
— Ah, veja se não é a carteira do colega de quarto de Harry. Vou ver quem é — Louis começou e eu disse:
— NÃO!
Louis me olhou e estreitou os olhos.
— Como assim?
— É a carteira de Ed, não do meu colega — eu disse rapidamente e Ed me ajudou, confirmando a história.
— Ah, melhor ainda, Ed está me devendo um dinheiro. — Ele já estava com a mão na carteira e eu gritei “não” novamente, mas era tarde demais. O sorriso de Louis Tomlinson se desmanchou e em seu lugar uma testa franzida e uma expressão de confusão apareceu. — Harry? Por que a carteira de Zayn Malik está no seu quarto?
Fiquei o olhando e Louis voltou seu olhar para mim, ainda com a carteira em mãos.
— Harry?
— Porque... — tentei arranjar uma desculpa, mas nada vinha à minha cabeça. Então suspirei e olhei para o chão. — Zayn é meu colega de quarto.
Louis ficou me observando e tornou a olhar para a carteira, jogando-a em cima da mesa. Ele respirou fundo.
— Não acredito que você escondeu isso de mim até agora. Já faz quase uma semana, Harry, uma semana...
— Eu sei, Louis...
— Não, você não sabe. Esse cara... — Ele apontou para a carteira e respirou fundo novamente. — Quer saber, eu estou atrasado. Vou à festa com uma gatinha, não posso me atrasar.
— Louis... — eu comecei, mas ele levantou a mão, como se dissesse para eu ficar quieto. Assenti e ele abriu a porta, mas assim que o fez, encontrou com Zayn. Ele parou e olhou para mim instintivamente. Tentei sorrir, passar confiança para ele, mas Louis só negou com a cabeça e empurrou Malik para o lado, indo embora. Zayn o observou e depois olhou para mim.
— Eu conheço esse cara de algum lugar... — ele disse e eu me surpreendi com sua resposta. Revirei os olhos e Sheeran riu.


📚


Ed e eu ficamos conversando por mais um tempo, até ele dizer que estava saindo e perguntou se eu iria com ele. Eu disse que passava essa e ele se foi. Terminei o trabalho de Sociologia I e me joguei na minha cama. Eu estava olhando para os Beatles e me perguntando o que eles fariam se Dougie Poynter os tivessem chamado para ir com a turma dele à festa de Boas-Vindas. Eu não queria arrumar problema com Jones, mas também eu não queria arrumar problemas com Poynter. Não sabia o que fazer, fiquei na cama por longos quinze minutos.
Olly caiu da prateleira de livros, me pregando um susto. Olhei para meu companheiro e o peguei do chão, esticando meu braço. Fiquei o observando e pensando como o Harry pequeno gostava de uma festa. Fui perdendo gosto por elas ao longo do tempo, principalmente quando eu estabeleci A Bolha. Não sei se a quebraria, ou se fosse possível fazer isso, mas resolvi que honraria o pequeno Harry.
Levantei-me da cama correndo e fui direto para o meu armário, procurando uma roupa adequada para hoje à noite. Escolhi uma calça social preta e uma camisa azul escura. Botei o cinto preto e os sapatos sociais. Baguncei meus cabelos e os joguei para o lado, tentando arrumá-los de alguma maneira. Passei um pouco de colônia no corpo e me olhei no espelho. Fiquei um tempo pensando que esse era o meu máximo de arrumado para algo, então só afirmei com a cabeça e peguei meu celular e minha carteira, buscando as chaves do quarto em seguida e o trancando atrás de mim.
Sai pelos corredores da faculdade, pensando em como eu deveria estar parecendo um completo idiota por achar que poderia me enturmar com a trupe do Poynter. Acho que eu só estava curioso para saber o que aconteceria se eu fosse mesmo para essa festa. Eu já tinha ido em uma festa no meu ensino médio, porém, foi um desastre. Quem sabe um dia eu conte essa história, mas agora eu estava mais concentrado em chegar nesse maldito salão.
Ao chegar lá, as luzes estavam climatizadas, a banda era realmente boa enquanto ela tocava uma versão de Put Your Records On mais animada ainda do que a original. Observei a decoração que estava uma beleza mesmo, obrigado, e as pessoas se divertindo. Tinha até um bar, esqueci de mencionar. Estava tudo bem incrível, eu diria, porém eu estava me sentindo muito deslocado naquele lugar. Estava sem Louis ao meu lado — ele estava bravo por descobrir a situação de Zayn ser meu colega de quarto e eu não ter contado isso a ele —, e não estava encontrando Ed em nenhum lugar. Comecei a me sentir muito fora dali.
— Ei, você veio!
Olhei para a mão no meu ombro e depois para um Dougie sorridente ao meu lado. Assenti e ele deu um tapinha ali onde ele estava me segurando, me soltando em seguida.
— Que maneiro, cara — ele disse e colocou as mãos nos bolsos da calça. — Vem, vou te apresentar para a galera.
Ele começou a caminhar entre as pessoas e eu o segui, meio sem saber o que fazer. Meu coração estava aceleradíssimo, só pensando quando veria novamente e o que ela poderia dizer sobre eu estar me juntando a eles essa noite.
Mas o que eu vi foi o restante da trupe do Poynter pegando bebidas no bar.
— Ei, caras — Dougie os chamou. Eles se viraram para Poynter e sorriram, olhando para mim depois. — Esse é Harry Styles. Harry, esses são Tom Fletcher e Harry Judd.
— Já nos conhecemos mais cedo — Harry disse e eu fiz um sinal de cabeça para ele, que devolveu com outro. — E aí, cara, tudo bem?
— Você se chama Harry também? — Tom perguntou e eu assenti. — Que maneiro, cara.
Sorri para ele totalmente amarelo, mas ele não pareceu perceber.
— Cadê ? — Dougie perguntou e Tom foi o primeiro a falar.
— Ela está no banheiro. Ah, venha, Harry, experimenta essa bebida. — Ele me entregou seu copo e eu, um pouco desconfiado, tomei um gole que desceu meio que ardendo. — Bom, não é?
— Hã, claro.
— É uma bebida chamada caipirinha. É brasileira! Muito legal, certo? — Tom disse animado e eu fiz que sim.
— Harry nos ajudou hoje de manhã na preparação para a festa de Boas-Vindas — Harry disse.
— Ele não é muito de falar, não é, Harry? — Dougie disse.
— Esse cara? Não foi o que pareceu quando eu o vi falando com . — Judd riu e eu olhei para Dougie, que parecia um pouco incomodado.
— Ah, sim, ela pareceu fazer com que ele falasse mais. Bom, é da que estamos falando, ela faria até uma vaca falar com ela se fosse possível — Dougie constatou.
— O que vocês estão falando?
Me virei para trás e encontrei em um vestido que ia até os joelhos, amarelo, com rendas. Não sei o que eu senti nesse momento, mas era como se eu parasse de respirar por um instante. Estava quente ali, o.k.? Não era minha culpa.
Ela sorria e seu olhar encontrou com o meu, tremendo seu sorriso então.
— Harry Styles? — Ela disse. Sorri para ela.
Jones.
— Ele vai passar a noite com a gente — Dougie afirmou. Ela olhou para Poynter, que sorria para ela. deu de ombros.
— Vocês que sabem. Pegaram bebida para mim? — Foi o que ela disse. Fiquei a observando conversar com seus amigos, Harry entregando um copo para e Tom falando sem parar. Ela não se importava nem um pouco de eu estar ali, mas não sei se essa era uma boa ou uma má notícia. — Ah, tá, como se fosse possível isso.
— O que você acha, Styles? — Harry me perguntou e eu me virei para ele, distraído.
— Sobre o quê?
— Sobre qualquer um ganhar de em uma competição de dança — Dougie respondeu. Olhei meio achando estranho essa conversa e onde ela poderia parar.
— Hã, não sei. Teria que testar essa possibilidade — eu disse. — Digo, será que ela me venceria em uma competição de dança? Eu realmente não sei se eu sei dançar.
Dougie riu e Tom bateu palmas, animado.
— Ótimo! Vamos fazer uma competição entre você e — ele disse e uma música que eu conhecia começou a tocar. — Ah, perfeito! E já começamos!
Tom me empurrou para a pista de dança e todos ficaram me encarando do grupo.
Eu não sabia o que fazer. Então comecei a mexer meu quadril ao ritmo da música. Eles se animaram e começaram a bater palmas ao passo que eu me movia. Não sabia o que eu estava fazendo, mas parecia que eles estavam achando tudo muito bom. Menos Jones. revirou os olhos e correu para a pista, começando a dançar ao meu lado. Eu fiquei a olhando enquanto ela se remexia e dava um show. Ela sabia mesmo como dançar.
— Impressionante — eu disse e ela olhou para mim.
— O quê? — Ela deu uma pirueta e desceu até o chão, dançando em uma espécie de zigue-zague. Então subiu e dobrou os braços na altura dos seios. — Isso não foi nada.
— Mas será que você sabe fazer — eu fiz uma onda com os braços e joguei para ela — isso?
estreitou os olhos um pouco e olhou para seus amigos.
— É sério isso? Vocês querem que eu dance contra um cara que faz ondinha com os braços?
— Qual é, ! Ele está quase te derrotando... — Dougie segurou a risada e eu cocei a minha nuca. Acho que não foi uma boa ideia dançar contra Jones. Ou talvez ter aparecido nessa festa.
— Vamos, Harry. Talvez dançar não seja mesmo o seu forte — Harry Judd disse. Eu assenti, constrangido.
— É, acho que vou ao banheiro — eu respondi e eles concordaram com essa minha ideia.
Segui para o meu destino, mas fui interrompido por um Ed Sheeran muito ansioso.
— Cara! Você estava com a trupe do Poynter! — Ele disse, me parando. Eu olhei para meu amigo e ao seu lado estavam Drew e Liam. Liam não estava falando direito comigo desde ontem à noite, mas, por sua expressão facial, dava para saber que ele estava superando. Eu não tinha conversado com ele sobre Rebecca, então as coisas estavam mal resolvidas entre a gente. Mas eu estava me preparando para esse momento que, eu acredito, aconteceria mais cedo ou mais tarde.
— Como assim, cara? — Eu perguntei, porque eu estava distraído pensando na situação entre mim e Liam.
— Você. Dougie Poynter. Os outros caras. — ele disse e apontou na direção deles. Olhei para o grupo que estava dançando e dando risada um do outro. — Quer juntar os nossos grupos?
Eu me perguntei se Ed estava bravo comigo por eu estar conversando com Jones e ele não, mas ele, desde o início, me pareceu o mais tranquilo dos meninos. Então eu disse que poderíamos juntar os grupos, mas que isso seria só uma tentativa. Não dava para saber se ficaria com eles se mais três caras aparecessem para passar a noite com ela, além dos caras usuais. Acho que ela enlouqueceria, para falar a verdade, do pouco que eu sei dela.
Portanto, os chamei com a mão e caminhei até a Trupe do Poynter. Ao chegarmos lá, olhou para os meus amigos e disse algo no pé do ouvido de Dougie, que sorriu e assentiu, segurando uma das mãos dela e os levando para longe dali. Ed ficou os observando e suspirou, olhando para o chão em seguida.
— E aí, quem são vocês? — Tom perguntou e Harry olhava distraído para a pista de dança.
— Ah, esses são Ed, Liam e Drew — eu disse, observando meu amigo Sheeran se decepcionar com o que acabou de ocorrer.
— Ah, e aí? — Tom sorriu e apontou para Harry, logo em seguida os apresentando quase que gritando, porque a música estava muito alta. Ed e os caras ficaram conversando enquanto eu só me sentei e fiquei observando a cena das pessoas realmente se divertindo naquele lugar.
Aquilo estava me dando uma ansiedade gigantesca, eu não estava acostumado mesmo com festas assim, muito menos pessoas ao redor. Fiquei olhando para um ponto específico, sem notar para quem eu estava olhando. Tentei me concentrar naquele ponto, para diminuir meu nervosismo, mas aí quando eu notei quem era a pessoa que eu olhava — totalmente sem querer — era tarde demais.
— Harry!
Olhei para Rebecca Johnson na minha frente, com um vestido azul brilhante. Eu estava sentado com as pernas abertas e os cotovelos apoiados nos meus joelhos, enquanto meu rosto descansava nas minhas mãos fechadas. Ela sorria de um jeito inexplicável e levou uma mecha de seu cabelo para trás de sua orelha, olhando tímida para o chão. Eu me endireitei para ela e sorri.
— Oi, Rebecca. — E olhei para Liam, que estava ocupado demais conversando com Harry.
— Você veio! Que demais, você... — E eu não consegui ouvir o que ela estava dizendo, já que a música estava ridiculamente alta. Eu gritei “O quê?” e ela repetiu, mas eu não consegui escutar. Rebecca esticou o braço e segurou em uma das minhas mãos, me puxando para cima e eu fui, sem perceber o que estava acontecendo. Ela me levou até um dos cantos da festa, em um lugar em que a acústica estava ótima para rolar uma conversa. — Agora está melhor.
— Ah, sim — eu respondi, arrumando a minha camisa para baixo. Ela sorria ainda e respirou fundo antes de continuar.
— Sabe, eu fiquei me perguntando se ficou tudo bem com os seus dentes, mas agora vejo que sim — ela disse e riu. Eu sorri de lado para ela, envergonhado.
— Pois é, situação complicada, né? — Eu disse e ela riu. Eu fiquei olhando para longe dela, me certificando de que Liam não estava nos olhando. Mas ele estava. Liam arrumou os óculos no rosto e tentou se concentrar na conversa com os outros caras, mas não parou de me olhar com um pesar enorme nos olhos. — Sabe, Rebecca, eu preciso te contar uma coisa...
— Harry, eu fiquei me segurando para não fazer isso, mas acho que não consigo mais. Você quer dançar comigo? — Ela perguntou de repente e eu voltei meu olhar para ela.
— Rebecca, eu preciso te falar uma coisa... — eu disse e ela tentou retrucar, mas alguém bateu no meu ombro.
— E aí, prima, se divertindo com esse paspalho aqui?
Olhei para Zayn Malik. Ele estava sozinho, diferentemente de como eu achava que ele estaria em uma festa dessas.
— Ah, qual é, Zayn, Harry é ótimo! — Ela disse, o empurrando para o lado, rindo. Ele sorriu de lado e olhou para mim.
— E aí, Harry? Tudo certo?
— E aí, Zayn — eu disse apenas e ele começou a conversar com Rebecca sobre alguma coisa que eu realmente não me importava.
Notei enquanto isso que meu mundo social estava totalmente bagunçado. Ed triste por Jones não estar com ele naquele momento, Liam triste por me ver conversando com Rebecca, Louis bravo por descobrir que eu não contei a ele sobre Zayn e tudo o que eu conseguia pensar naquele instante era para onde que Jones foi com Dougie Poynter. Eu não estava os encontrando em nenhum lugar ao passo que eu varria o salão com os olhos.
Eu devia nesse instante estar reforçando A Bolha, porém eu queria encontrá-la por algum motivo desconhecido. E quando eu digo encontrá-la, eu me refiro a . Não sei como e nem por que eu estava deixando de lado A Bolha naquele momento para pensar em uma garota — não romanticamente, é claro —, sendo que o certo que eu deveria fazer era me preocupar com o colapso da minha barreira social.
Nesse meio tempo, Rebecca e Zayn conversavam várias questões que eu não estava ouvindo, mas que pareciam ser realmente importantes e não necessárias de se debater em um baile como aquele. Até que Rebecca Johnson segurou a minha mão, me acordando do transe que eu tinha entrado. Zayn já tinha partido para o encontro de sua acompanhante, portanto, naquele espaço, só estava eu e ela. Rebecca se aproximou de mim e disse no meu ouvido:
— Quer dançar?
Eu devia ter me arrepiado? Não é isso o que as pessoas sentem quando alguém extremamente atraente e simpático chega a uma distância perigosa de você, ainda dizendo ao pé de seu ouvido um “quer dançar?
Não foi o que me ocorreu. Eu só me virei para ela, que sorria, e disse que não era bom em dançar. Rebecca riu, dizendo que tinha me visto dançando com o grupo de garotos mais velhos e Jones, e que eu estava certo: eu não era bom em dançar. Porém, ela queria mesmo assim dançar comigo. E uma música lenta começou a tocar bem naquele instante. Perfeito para casais que estavam apaixonados — ou seja, isso não se aplicava a mim. De maneira alguma.


(Coloque para tocar essa música, por favor: Wooden Chair — Angus Stone)


Mas eu fui.
Pensei em Liam e pensei que, como não era o meu caso e o de Rebecca de estarmos apaixonados, então não tinha problema algum eu dançar com ela uma música lenta.
Certo?
Rebecca me levou até a pista de dança e repousou seus punhos sobre as minhas costas atrás da minha cabeça. Eu não sabia direito o que fazer, mas pensei nas cenas que eu já vi em séries de pessoas dançando músicas lentas e coloquei minhas mãos na cintura dela. Passamos a nos mexer ao ritmo da música e voltei a procurar com os olhos aquela que eu tanto queria descobrir para onde tinha ido.
— Você está muito tenso, Harry, relaxe um pouco — ela disse, deixando um carinho na pele exposta do meu pescoço, fazendo com que eu a observasse. Rebecca sorria com a linha da boca. Seus olhos brilhavam e muito provavelmente ela estava em seu estado mais calmo possível. No entanto, eu estava, de fato, nervoso, mas por encontrar um certo alguém.
Liam me olhava com uma cara de decepcionado e acho que de vez eu tinha o aborrecido e chateado. Eu abri a boca para dizer a ele que não era nada daquilo que ele estava achando que era, mas ele já tinha me dado as costas. Liam Payne sumiu entre as pessoas, me deixando com o coração na mão. Parei de dançar por um segundo. Rebecca pendeu um pouco sua cabeça para o lado direito, deixando as mechas de seu cabelo escorregarem por seus ombros descobertos, e me lançou um olhar curioso.
— Harry? Está tudo bem? — Ela me perguntou e eu olhei para Rebecca novamente, agora se formando em meu rosto um sorriso convincentemente feliz. Mas eu não estava me sentindo dessa forma.
— Está sim — foi o que eu disse. Pensei que não tinha nada para se fazer naquele instante, então continuei a dançar com Rebecca Johnson como se nada tivesse acontecido. Eu estava concentrado de verdade em não pisar em seu pé, por enquanto tudo estava dando certo nesse sentido.
Mas eu a vi. Ela estava dançando com Dougie Poynter com a cabeça deitada em seu ombro, enquanto os dois se mexiam calmamente em seu quadrado. Eu fiquei a observando e pensando se Dougie era um cara realmente legal. Afinal, ele fez o que fez com Gordon na Grande Festa do ano passado — ele o convenceu de que a casa de Gordon era a ideal para essa festa, mas que, no final, foi horrível para meu “amigo”. E acho que ele sabia que seria uma droga para Gordon, mas resolveu se aproveitar do pobre coitado.
Mas Jones não parecia o tipo de garota que faria isso. Aliás, ela não parecia o tipo de pessoa que faria isso. Não, Jones estava mais para a pessoa que salvaria Gordon daquela terrível festa. Era isso.
estava com os olhos abertos e, em uma virada de Dougie, seus olhos encontraram com os meus. Eu não consegui desviar, como geralmente acontecia quando alguém me encarava daquela forma. Pelo contrário, eu mantive o contato pelo olhar, sustentando o que ela queria passar com esse tipo de compartilhamento.
Acho que era isso, ela estava compartilhando algo comigo, mas o que seria? Ela continuava a me observar, ao passo que a música terminava, e ficou assim até o fim. No final, todos aplaudiram a banda, que recebeu a onda de aplausos muito contente. Olhei para onde ela estava, mas estava agora rindo e abraçando Dougie, que ria junto. E eu entendi que ela estava bem e que não queria mais compartilhar comigo aquele momento. É como eu disse, ela não era do tipo que colocaria alguém em maus lençóis, ou que seria salva por alguém. é quem te salva no fim.


📚


Como era de se imaginar, os dias seguintes àquela festa não foram de perto tão bons quanto eu poderia querer. Vou dar uma pincelada a vocês o que aconteceu, até o momento de agora, terça-feira.
No domingo, eu não saí do quarto, quis ficar jogado na cama o dia todo, ouvindo música e assistindo a séries no meu computador. Zayn entrava e saía do quarto a todo momento, às vezes me perguntava se estava tudo bem comigo e eu dizia que sim, logo me deixando sozinho no recinto. Liguei mais tarde para a minha mãe e ela disse que estava com saudades, como sempre. Meu pai não quis conversar, mas me mandou um cascudo caso eu não tenha arranjado ainda uma namorada — o que é o caso.
Ed apareceu no meu quarto no fim do dia para decidirmos as jogadas para a pegadinha oficial nossa, que seria no dia seguinte, na segunda-feira. Ele pesquisou —tentando subornar a garota responsável pela ala dele, mas que não deu certo e ele acabou conseguindo de outra maneira que eu não faço ideia de qual seja — e encontrou os nomes de todos os alunos de Direito do segundo ano, e aí, de lá, ele retirou o nome de Louis e outros caras que estavam ganhando nessa competição de trotes e seus dormitórios. Tínhamos comprado alguns baldes e tinha sobrado o odor de gambá, colocaríamos um pouco em cada balde cheio de água e deixaríamos em cima da porta, acionando o balde e jogando o conteúdo dele na pessoa que abrir a porta de seus quartos. O que deu um trabalhão foi descobrir a rotina dessas pessoas para que a pegadinha desse completamente certo e quem abrisse as portas fossem especificamente elas. Mas Ed conhecia um cara.
Combinamos de colocarmos os baldes às 5 da manhã, que era o horário em que podíamos sair dos quartos. Imaginamos que ninguém acordaria nesse horário e que sairia de seus aposentos para qualquer outra atividade, então conseguimos: fizemos o que tínhamos para fazer e, sim, foi uma tarefa incrivelmente desafiadora.
O dia de segunda-feira se iniciou muito bem, pois constatamos que a pegadinha dera certo, já que era a única coisa que as pessoas estavam comentando pelos corredores. Tive algumas aulas legais, outras chatas, mas que cunharam em um fim de dia muito confortável na biblioteca, lendo um livro que eu peguei por diversão: A arte de governar, de Mary Howard.
É isso mesmo o que você leu, é o mesmo livro que Jones estava lendo quando eu a vi pela primeira vez e que ela entregou logo quando eu estava na biblioteca. Por que eu queria lê-lo? Não sei, algo se despertou em mim depois de sábado à noite. Não que eu tenha chances reais de ter uma amiga e muito menos uma que seja Jones, porém eu achei interessante a maneira como ela descreveu como o livro era bom para a senhorita Montez. E eu queria também saber o que acontecia com a Rainha, então decidi que leria esse bendito livro de uma vez. E devo admitir: não era ruim, não.
Em fato, era muito bom. Eu não estava acostumado com fantasias, apenas com as minhas, mas aquela história estava realmente me pegando de jeito.
Eu estava jogado no sofá, naquele mesmo sofá que eu estive com Rebecca, e fiquei lendo por horas depois das aulas. Eu não estava afim de ir para o quarto e muito menos encarar a realidade, logo, me mantive ali, na minha, enquanto me deliciava com uma leitura empolgante e envolvente.
Virei a página e cocei o meu queixo, voltando a segurar o livro com as duas mãos. Estava usando meus óculos, mas a dor de cabeça voltou a atacar de maneira terrível. Precisei parar de ler por alguns minutos, então repousei o livro em meu colo e fechei os olhos, relaxando no sofá.
— Não pensei que alguém fosse capaz de dormir ao ler “A arte de governar”.
Abri os meus olhos de repente, me assustando com a voz tão já familiar e me sentando em um pulo.
— Ah, oi, — eu disse e ela soltou uma risada. Jones estava de pé, ao lado da outra ponta do sofá, com outro livro nas mãos — aliás, da mesma autora.
— Harry Styles — ela disse apenas e eu pigarreei depois de um tempo de silêncio.
— Como vai?
— Acho que podemos pular esse lenga-lenga, não é? Podemos partir para a parte em que você e seu amigo ruivo pregam peças no pessoal do segundo ano.
Engoli em seco. O que ela queria comigo?
— Ah.
— “Ah” — ela me imitou com um sorriso brincalhão nos lábios. — Qual é, eu não sou o reitor Thompson. Só quero te parabenizar pelo sucesso da pegadinha.
— Certo — eu respondi, mas ainda estava muito desconfiado. Ela sorria.
— Mas não espere que a sua seja a última e melhor pegadinha dessa leva do primeiro semestre, o.k.? — Ela riu e eu sorri, nervoso, sem entender nada.
— O.k.
— Bom, eu tenho que ir. Mary Howard não será lida sozinha, nem para mim, nem para você. — Ela piscou um dos seus olhos.
— Ah, você nem imagina... — eu disse baixinho, mas ela já estava caminhando para longe do sofá. Num impulso, gritei: — !
— Styles? — Ela se virou para mim com uma expressão serena e um leve sorriso no rosto.
— Hã, nada. Eu só queria saber... Não descobrimos mesmo o que acontece com a Rainha?
Jones sorriu abertamente e olhou para o chão por um segundo, levantando o olhar até o meu. Wow, isso me causou um arrepio. Só não sabia se era bom ou ruim.
— Andou escutando minhas conversar por aí, Harry Styles? Você curte fazer isso, não é?
— Por falar nisso, me desculpe pelo outro dia — eu disse, me levantando. estava me ouvindo. — Eu não queria bisbilhotar a sua conversa com o Malik...
— Shhhh! — Ela disse, olhando para os lados, se certificando de que ninguém estava escutando. — Fale baixo!
— Ah, claro. Me desculpe — eu sussurrei a última parte e ela segurou o livro fortemente contra o corpo. Jones assentiu.
— Tudo bem. Eu fui muito dura com você, eu acho... — ela disse, mas logo mudou de ideia. — Não, quer saber, não repita isso, o.k.? Não escute por aí as conversas das pessoas se elas não querem que ninguém escute. Tudo bem?
Eu sorri com a linha da boca, assentindo.
— Claro. — E ficamos nos olhando por uns segundos, até ela olhar para o relógio da parede da biblioteca e acenar com a cabeça.
— Tchau, Harry Styles — ela disse e se virou depois de eu devolver com um “Tchau, Jones”.
Isso podia resumir bastante a minha segunda-feira.

Já a minha terça-feira começou comigo pensando em como eu deveria conversar com Liam sobre o que aconteceu no sábado à noite. Eu não o vi direito desde esse dia. Ele estava, acredito, me evitando. Não posso culpá-lo, eu não sei direito como é essa de gostar de alguém desse jeito, mas imagino que seja uma barra pesada, ainda mais quando é platônico.
Fiquei pensando em como conversar com ele, até que tomei coragem e perguntei para Drew, que geralmente estava junto dele, onde que Liam Payne se encontrava. Ele disse que Liam estava no pátio, então segui meu caminho para o meu destino.
Mas fui interceptado por uma mão que me puxou para dentro de uma das salas de aula.
A porta se fechou e quando eu notei quem era, fiquei assustado, mas, ao mesmo tempo, curioso para saber se ele já tinha me perdoado.
— Ah, oi, Louis — eu disse e ele se virou para mim, passando por minha pessoa e seguindo para a janela, verificando, acredito eu, se tinha alguém escutando a nossa conversa. Ele voltou para onde eu estava parado e suspirou. — Tudo bem?
— Olha, eu fiquei pensando muito na mancada que você deu, que não foi uma simples mancada, foi enorme, porque eu... Eu realmente não suporto Zayn Malik. Mas — ele me interrompeu antes mesmo de eu conseguir dizer algo — depois de ver você conversando com Jones na segunda-feira na biblioteca e até antes mesmo quando você foi à festa de sábado, uma luz se acendeu na minha cabeça. E eu já sei como você pode se redimir comigo.
Ergui a sobrancelha para ele. Por que isso não me cheirava nada bem?
— Ah, tá. E no que você pensou?
Louis sorriu de um jeito maldoso.
— Você vai conquistar o coração de Jones, meu caro. E Zayn Malik terá o que merece.


Continua...



Nota da autora: Olá, meus amores! Trago dois capítulos para vocês hoje! E aí, o que acharam? Rolou um exposed da Julia nos comentários e me senti na obrigação de postar esses dois capítulos que eu tava guardando para postar mais para frente kkkkkkkkkkkkk. Enfim, espero que tenham gostado! Comentem muito para eu saber o que vocês acharam! É isso, não se esqueçam de entrar no grupinho do face e até a próxima! Beijos de Luz :*
Ass: Giulia M.



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