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Última atualização: 20/01/2021

Capítulo Único

“I am the, I am the best
She claimed and more
A battle scarred conquistador
We will, we will, we will
Rise again
This is a fight for our love
Lust, hate, desire
We are the children of the great empire
We will, we will, we will
Rise again”


Now


Os sons de batalha estavam morrendo ao redor de , o estridente grito de metal se chocando, ressoando com os gritos de homens morrendo e matando por glória e honra. Cada um dos soldados que seguiram-no naquela missão tinha um motivo para estar ali, dos mais nobres aos mais sórdidos. Alguns o seguiam pela honra da batalha e a adrenalina da luta. Outros, pelo ouro prometido, fosse para qualquer finalidade. Alguns poucos tinham intenções menos honradas – e, desses, daria cabo assim que a guerra estivesse ganha.
Não demoraria muito, ele sabia. Com a xiphos na mão, ele cortou um soldado vestindo as cores de Kórinthos, a expressão intacta mesmo com o homem sangrando até a morte em seus pés. A cidade estava queimando, quase entregue ao exército de renegados de Spárti, e os poucos que ainda lutavam diminuíam em número a cada segundo.
Agitando a capa vermelha para que não se arrastasse na poça de sangue, o espartano não pode deixar de olhar pra cima, para o céu claro e sem nuvens, um dia perfeito. Talvez fosse ingenuidade da parte dele, mas parecia que a mão divina estava do seu lado, abençoando a conquista. Ou, mais provável, mostrando-se contente com o acontecido.
Inevitavelmente, os olhos do rapaz recaíram sobre as escadas que levavam à acrópole – a própria Acrocorinth. Era impressionante, não podia negar, e também parecia quase impenetrável. Talvez fosse, para um exército normal, para um general que era motivado por menos que a vontade divina. Esse não era o caso dele, que não seguia os ridículos códigos de conduta que alguns insistiam que pertenciam ao campo de batalha. Um ou dois homens bem pagos, alguns outros assassinados, e nem mesmo as mãos de Helios e Poseidon – protetores de Kórinthos – puderam proteger a cidade-estado da lâmina espartana.
O monumento magnífico era seu destino final e o espartano não demorou a colocar-se em caminho, subindo a colina em direção das colunas de mármore cintilantes. Os últimos protetores de Kórinthos eram os obstáculos, soldados desesperados vestindo a armadura da cidade-estado se jogando no caminho do invasor, ódio e amor à pátria se juntando e dando coragem para homens que, para todos os propósitos, já estavam mortos.
Talvez, se a missão de tivesse sido menos importante, ele teria encontrado dentro de si humanidade o suficiente para sentir pena. Para admirá-los. Mas, no momento, eles estavam entre ele e seu objetivo. Não havia lugar para piedade.
Entre o colidir de espadas, as faíscas de ferro estalando no ar e o cheiro de morte e sangue pairando como uma névoa, se encontrou enfrentando um dos maiores homens que ele já tinha visto, bloqueando sua visão da acrópole. A mão escorregadia de sangue apertou o punho enrolado em couro da espada e ele estalou o pescoço, os olhos penetrantes vidrados no adversário. Seria ele um desafio maior do que podia enfrentar? Talvez. Mas ele havia olhando na face de uma deusa e vivido para contar a história.
Não havia espaço para medo.
Com um grunhido gutural, o homem avançou na direção do espartano mas, antes que pudesse chegar perto, uma dory atravessou o pescoço espesso do soldado na abertura mínima entre o capacete e o couraça, derrubando-o em uma fração de segundos. Sobressaltado, se virou, espada a postos, e deu de cara com seu segundo em comando.
. – O alívio era audível na voz do rapaz, que deu o bote atrás de si, rápido como um relâmpago, abrindo a garganta de um soldado inimigo enquanto flechas vindas de seus próprios homens choviam na direção da acrópole.
Perigo passado, ele novamente mirou a atenção no recém-chegado.
– Não que eu não esteja grato... Mas eu não precisava de ajuda.
deu os ombros, o sorriso malandro visível mesmo com o capacete.
– Eu sei. Não o teria seguido se não achasse que fosse capaz. Mas você... – Ele apertou os olhos, olhando em direção da acrópole contra o sol. – Você tem um objetivo e ele está lá em cima. Pra quê perder tempo? Vá, general, e conquiste essa cidade de merda. Eu preciso de férias.
De maneira dramática, ele pivotou sem mais uma palavra, imediatamente engajando em combate com o próximo inimigo. tomou aquilo como sua deixa para seguir o conselho do comandante e continuar seu caminho, mal parando para executar quem entrasse na frente. Naquele momento, ele sentiu como se o próprio deus da guerra tivesse tocado-o e abençoado, como se nada o pudesse parar.
Foi em um borrão de sangue, morte e determinação que ele se encontrou frente às muralhas da acrópole, cujo portão estava escancarado. Era o único convite que ele precisava, adentrando a fortaleza sem nem mesmo parar para apreciar a impressionante arquitetura. Talvez alguns de seus homens o fariam, mais tarde. Homens feitos pra guerra, programados para ver a beleza nos instrumentos de combate como fortalezas.
, por outro lado, não era nada do tipo. A guerra foi uma necessidade, não uma escolha, e a beleza que ele apreciava era mais suave, delicada. Não menos mortal, mas não era feita de blocos gigantescos de pedra e portões imponentes. Assim que seu objetivo fosse cumprido, ele esperava poder voltar a admirar o que era mais importante para si.
Os defensores de Kórinthos eram esparsos quanto mais ele se aproximava do ponto mais alto da Acrocorinth, mas ele não baixou a guarda. tinha uma ideia do motivo, afinal, e ele se provou certo quando visualizou o castelo, construído como um templo, que abrigava seu objetivo final.
Guardando os enormes portões de bronze, parados nas escadarias de mármore, estava a guarda real. Eles nem mesmo mexeram-se ao avistá-lo, segurando o posto que seria a última barreira entre os invasores e a vitória completa. Eram uma dúzia de homens robustos, as armaduras refletindo o sol impiedoso, capas flutuando com o vento feroz.
Cerrando os olhos, suspirou e situou-se. Eles não o esperariam subir as escadas para atacar – o rapaz conseguia ver que alguns deles carregavam arcos. Naquela distância, seria inútil para os guardas gastarem flechas. Mas qualquer movimento de para aproximar-se... Não, aquela não era uma opção. Não havia chegado tão longe para morrer por uma flecha qualquer.
Em meio à ventania que assolava a rocha monolítica, o aroma inconfundível de lírio com um fundo metálico assoprou na direção de , enchendo seus pulmões com o perfume que era tão familiar quanto o próprio nome. Fazia anos que ele o havia sentido pela última vez, mas ainda lembrava-se como se fosse a única coisa a inflar seus pulmões.
E, assim, ele sabia o que fazer.


Then



– O preço que exijo de você é alto, de Spárti, e a missão, árdua. – O hálito quente da deusa acariciou a pele dele, os olhos escuros tão profundos que eram quase caleidoscópicos. – Mas você não estará sozinho, enquanto a sua fé em mim guiá-lo. Clame pelo meu favor, mortal, banhe em sangue as terras gregas e sacrifique seus inimigos em meu nome, e eu o ajudarei.
Ele arfou, imóvel e em reverência da proximidade daquele ser divino.
– Como saberei, minha senhora, se você virá a minha ajuda?
O sorriso dela era maroto.
– Você vai saber. – Ela prometeu, a voz sedutora ecoando dentro da mente dele.
No segundo seguinte, ela havia sumido, deixando para trás o perfume intoxicante de flores e sangue.


Now



O sinal não poderia ser mais claro. A sua senhora, de seu trono prateado, estava lembrando de que ele não estava sozinho. Sua mão e sua espada eram guiadas pelo favor divino e este não o faltaria quando mais precisava. Ele nem mesmo precisava pensar no que fazer – era tudo tão claro, tão óbvio, que seu corpo se mexeu antes mesmo de ele entender o que era necessário.
Segurando o punho da espada com as duas mãos, levantou a arma, lâmina apontada para o chão, e enterrou-a no solo com força. O aço não se estilhaçou como deveria, mas brilhou como fogo prateado e, do local onde a espada estava cravada, fraturas surgiram na rocha, serpenteando em direção ao palácio. Os estalos que o solo fazia enquanto rachava-se cada vez mais eram altos, chamando a atenção dos guardas e causando um desespero que era notável mesmo à distância.
não fazia a mínima ideia do que estava acontecendo, mas ele sabia que cumpriria o objetivo. Por um momento, pareceu que os tremores e as rachaduras eram as únicas coisas que iriam acontecer. E até isso parou, de repente, fazendo com que os defensores de Kórinthos olhassem uns para os outros, confusos.
Antes que eles pudessem recuperar-se, no entanto, o chão tremeu mais uma vez e, das fraturas, surgiram mãos esqueléticas, escalando para fora das fissuras que, ao momento em parou pra pensar, provavelmente estendiam-se até o submundo.
Um presente, uma benção e uma ajuda da deusa da morte.
Quando o exército macabro terminou a procissão de rastejarem-se para fora do submundo, conseguiu contar trinta deles, vestidos em variações de armaduras de todos os lugares, armas e escudos em punho. Na entrada do palácio, os guardas murmuravam entre si e, embora não conseguisse ouvir o que falavam, ele sabia qual palavra passava pelos lábios dos inimigos.
– Spartae. – Ele murmurou para si mesmo, os olhos correndo por seu recém-chegado reforço.
Os espíritos malevolentes exalavam violência e inquietação, mas não saíram da formação por um segundo.
– Será que-...
Mordendo o lábio com força, puxou a espada para fora da terra e apontou para o palácio, firme.
– Spartae! Προς τα εμπρός, avante!
A ordem foi seguida imediatamente e a falange se moveu impecavelmente, lanças erguidas e passadas silenciosas enquanto avançavam na direção do palácio. As flechas não demoraram a começar a chover contra os reforços de , mas os soldados já estavam mortos. Nada os assustaria, ou pararia.
Era quase bizarro assistir a batalha acontecendo. O terror de ter que lutar contra um inimigo que já estava morto quebrou a confiança dos guardas do rei de Kórinthos, que tentaram fugir ou confrontar os esqueletos antes que os mesmos chegassem no palácio. Imperturbáveis, os presentes da senhora de avançaram sem piedade, abatendo um por um os últimos defensores da grande cidade-estado.
deu um passo à frente, para juntar-se à batalha, quando sentiu uma mão gélida em seu ombro. Isso não fazia muito sentido, já que ele usava armadura, mas era um frio sobrenatural. A voz que dirigiu-se a ele era como lâminas, rouca e vagamente ameaçadora. Ela definitivamente não combinava com o rosto angelical, mas mortalmente pálido, que encarava-o quando ele se virou.
de Spárti. Nós finalmente nos encontramos. – O sorriso da assombração que ainda segurava-o quase dolorosamente pelo ombro ela horripilante. – O favorito de minha mãe.
– Lady Melinoë, – A deusa dos mortos que nunca descansara, filha da senhora que servia. – é uma honra.
A deusa inclinou a cabeça, os cabelos escorridos exalando um cheiro fortemente adocicado, revirando o estômago do guerreiro.
– Não minta pra mim. Vocês mortais... É uma pena que durem tão pouco. Fazia tempo que não via a senhora minha mãe tão entretida. São poucos os que ainda a tratam como deve ser trada, que oferecem a ela a devoção que ela merece.
Com isso, podia concordar. Ele pensava daquela maneira desde a fatídica noite na qual primeiro adentrou o templo quase abandonado de sua senhora, na colina cuja sombra o vilarejo no qual ele nasceu encontrava-se.
– Isso vai mudar. – Ele prometeu, desconfortável com a presença de Melinoë, mas também honrado que sua senhora havia mandando a própria filha, a única que tinha, em seu auxílio. – O nome de sua venerável mãe será cultuado por toda Hellas, enquanto eu viver.
A risada de Melinoë era como o arranhar de unhas no mármore.
– É uma pena, ó, rei de Hellas, que vocês, mortais, vivam tão pouco.
Tão subitamente quanto ela apareceu, a deusa sumiu em um miasma que cheirava a morte.
Só então percebeu que mal estava respirando. Tentando acalmar-se, ele inspirou profundamente e segurou a espada em punho, firme, marchando na direção da batalha que estava mais do que ganha. Os dois últimos guerreiros de Kórinthos não durariam até que ele chegasse, e a maioria dos Spartae já haviam retornado para o submundo, esgueirando-se como parasitas pelas mesmas rachaduras de onde vieram.
O tapete macabro de corpos que recepcionou não era nada que ele não havia visto durante a campanha de anos que havia travado para conquistas as cidades-estado, e ele se manteve impassível em seu caminho, subindo as escadarias escorregadias de sangue em direção aos imponentes portões de bronze do castelo.
A construção era impressionante e um pouco arrogante, imitando os templos das divindades com suas colunas de mármore e arquitetura polida. Não surpreendia , que sabia bem o quão arrogante o rei de Kórinthos era – e o quanto ele gostava de equiparar-se aos deuses quando podia.
Mas, a não ser que o próprio Ares fosse descer do Olimpo para salvá-lo, o rei cairia como qualquer mortal.
Talvez nem assim.
Como esperado, o rei Demetrius de Kórinthos o esperava, pronto para batalha, em uma reluzente armadura que podia ser de ouro de tanto que brilhava. Na cabeça, o elmo coroado escondia a maior parte da expressão do monarca – mas não precisava ver para saber o que o homem sentia.
Medo.
Depois de toda Hellas cair ante o exército de , era de esperar-se que Demetrius estivesse aterrorizado. Se Athína e sua marinha formidável não haviam resistido, quem poderia? O medo exalava e enchia o ar, um fedor pungente com o qual havia acostumado-se desde que havia largado a enxada para pegar na espada em nome de sua senhora. Era também o cheiro da vitória.
Das primeiras vezes, quando ele começou sua campanha, ainda perdia seu tempo fazendo discursos e dando aos inimigos a oportunidade de renderem-se. De dizerem as últimas palavras. Certas vezes, ele admitia, era seu próprio ego querendo mostrar as conquistas que havia acumulado.
Anos depois e muito mais maduro, tudo o que queria era acabar com a batalha. E, parecia, Demetrius queria o mesmo.
As espadas se encontraram em um choque que ecoou pela sala do trono, o homem mais velho se movendo com uma rapidez que contradizia a idade e o peso da armadura, lançando-se contra com a fúria de dois mil soldados. O impacto o fez oscilar mas, passada a surpresa, o rapaz revidou na mesma moeda.
Muitos haviam descrito embates como aquele como danças ou algo do tipo, naturalmente graciosas e coreografadas. Como algo belo e fluído, quase arte. Mas aquelas pessoas nunca haviam estado em batalhas de verdade, em guerras sangrentas que arrastavam-se por anos.
Não havia nada de artístico na maneira que a xiphos de Demetrius colidiu com o ombro de , fazendo-se latejar mesmo com a armadura. Nada sublime no golpe que mirou no joelho do rei, que cambaleou em direção às escadas que levavam ao trono elevado. Nenhuma fluidez na manobra astuciosa que ele engatou, aproveitando o vacilo, golpe após golpe chovendo sem pausa ou hesitação até que o grandioso rei de Kórinthos, o último rei independente de toda Hellas, caísse de joelhos frente à espada de .
Não havia nada de gracioso na maneira que a cabeça de Demetrius, último de seu nome, rolou no chão de mármore.
Respirando com dificuldade, abaixou a espada, que pingava sangue no chão, e tentou recuperar o fôlego. Ele podia escutar o barulho de botas subindo as escadas atrás dele, mas dificilmente seriam inimigos. Não havia ninguém vivo naquela cidade para lutar contra eles.
Dito e feito, a voz que ecoou era de . Havia um quê de deslumbre na voz dele, algo misturado com... Apreensão. só podia imaginar que ele tinha visto a carnificina do lado de fora.
– Por todos esses anos... Eu acho que nunca pensei que realmente chegaríamos aqui. – O comandante suspirou, mas o som reverberou pelas paredes da sala. – Mesmo com todas as conquistas, não achava que veria o dia...
virou o rosto para encará-lo e sacudiu a cabeça, ainda em choque. O general não podia culpá-lo. A campanha foi longa e árdua e nenhum de seus homens possuía o que ele tinha: fé. Ah, vários deles eram devotos desse deus ou daquele, mas era guiado pela vontade divina. Não havia espaço para dúvidas ou falhas.
Ele foi retirado de seus pensamentos pela voz de , dessa vez, mais próxima.
– O rei está morto. Vida longa ao rei. – O homem mais velho limpou a garganta, mão apertando com força o ombro de . – Rei de Spárti e de toda Hellas.
Rei de Hellas... Finalmente. Anos e incontáveis campos de batalha depois... Ele finalmente tinha sua coroa.
Largando a espada no chão com um alto retinir, caminhou até onde a cabeça de Demetrius havia rolado e, com facilidade, liberou a coroa elaborada de Kórinthos do elmo. Não fazia seu estilo, rebuscada demais, brilhante demais. Porém era dele, por direito divino e de conquista.
Sem hesitar, a colocou no topo dos cabelos desalinhados e caminhou em direção ao trono, tomando seu assento legítimo e observando seus homens entrarem aos poucos no salão.
A missão havia sido finalmente cumprida.



Poucos sabiam, mas a parte mais problemática de uma guerra era o final dela. Estraçalhar inimigos na ponta da espada e da lança era a parte fácil, montar planos de sítio era como uma segunda natureza até para um rapaz que nasceu camponês. Era o que fazer quando as armas eram abaixadas e as cidadelas tomadas: governar, descobriu, era a parte difícil.
Mas depois de tantas cidades, tantas conquistas, já começava a sentir como rotina. Não ficou mais fácil, mas saber o caminho das pedras deixava o processo menos complicado. Ainda exausto da batalha, ele deu as ordens para que a cidade fosse revirada e qualquer inimigo escondido, capturado e executado. se encarregaria da população, para ter certeza de que a proclamação da mudança de governante fosse entendida e seguida sem rebeliões desnecessárias.
Outro de seus comandantes, Jackson, estava organizando a contagem de riquezas e suprimentos dentro da cidade. Mark, sabia, estava no comando de recolher os corpos e dar início aos rituais. Felix, sem ninguém pedir, tinha decidido colocar ordem no castelo para que as coisas funcionassem com o mínimo de conforto.
E, mesmo com a armadura pesando e os membros tremendo de exaustão, supervisionou as primeiras horas depois da batalha, recebendo os nobres de Kórinthos – os que sobraram, é claro – e aceitando a fidelidade deles.
Horas e horas de enrolação, agitação arrepiando a pele de ... E ele finalmente conseguiu um momento sozinho. A noite havia caído e, com ela, os trabalhos na cidade entraram em pausa. Não a parte da segurança, é claro, mas havia pouco a ser feito até que o sol raiasse novamente e todos precisavam descansar. A corte foi dispensada e um dos servos que havia acompanhado o exército preparou os aposentos reais para o uso de .
Depois de tanto tampo, tantos castelos e riquezas, o luxo exacerbado das elites deixou de surpreender o rapaz, mas ele achava que jamais ficaria totalmente confortável em palácios como esses, pingando decadência e exagero. Era, no fim das contas, o mesmo menino de um vilarejo nada importante em Spárti, cuja família agradecia todos os dias as refeições que conseguiam fazer.
O pensamento trouxe um sorriso seco para os lábios bem desenhados. Ninguém nunca teria imaginado que ele, de todas as pessoas do mundo, se tornaria o rei de Hellas.
Dispensando o servo, fechou as portas decoradas dos aposentos e lançou um longo e cobiçoso olhar para a cama enorme, desejando nada mais do que enfiar-se debaixo dos cobertores macios e dormir por dois dias. Mas ele ainda usava a armadura encrustrada de sangue seco e havia uma banheira de mármore cheia de água fumegante esperando-o a uma porta de distância. Ele conseguiria ficar acordado por mais um tempo.
estendeu a mão para o ombro esquerdo e soltou o broche que segurava a capa, assustando-se quando tocou a pele macia de uma mão delicada.
– Paz, meu rei. – A voz que atormentava os sonhos de todas as noites por anos soava divertida, os dedos ágeis desfazendo rapidamente o fecho.
O tecido se amontoou no chão, o broche fazendo um barulho estridente ao chocar-se contra o mármore.
– Sou só eu.
Ele se virou, esperança e dúvida nos olhos expressivos, que encontraram a imensidão escura dos de sua deusa.
– Minha senhora. – Automaticamente, tentou ajoelhar-se, mas o aperto em seu ombro aumentou. – Eu não... Eu não a esperava.
Espalmando as mãos contra a couraça de bronze da armadura dele, a divindade ergueu uma sobrancelha.
– Não? Mas eu disse que viria, não disse?
Como se fosse a coisa mais normal do mundo, ela moveu as mãos para os lados do torso de , trabalhando nas amarras e fivelas que mantinham a armadura no lugar.
– Quando eu fosse digno, sim, mas... – Ele foi cortado por um beijo, doce, afiado e tudo que ele havia desejado por anos a fio.
A expressão no rosto perfeito de era intensa, mas íntima e quase... Humana.
– E você é. Você se lembra, ó, rei de Hellas, o que eu te disse quando veio implorar pela minha atenção?
– Não existe nenhuma possibilidade de eu esquecer, minha senhora. – fechou os olhos, a cena tão fresca e nítida em sua mente como se tivesse ocorrido apenas minutos atrás, e não anos.
Sorrindo, desatou o último nó e segurou a peça de bronze para que não caísse, colocando-a delicadamente no chão e ajoelhando-se na frente dele. Era quase um sacrilégio, pensou, ver uma criatura de poder imensurável como a deusa que ele servia ajoelhada para um pobre mortal como ele. removia peça por peça a armadura das pernas dele, livrando-o das botas e do metal como se fosse uma mera serva.
– Você, tão jovem e inocente, se prostrando na frente de meu altar abandonado e implorando por um vislumbre de minha face que fosse, ardendo em sua paixão descabida por alguém inalcançável... – Ela riu novamente, colocando a última peça de bronze no chão e olhando para cima.
Com os cabelos caindo em cascata e emoldurando o rosto perfeitamente esculpido, jamais poderia ser confundida com uma mortal. Os lábios eram vermelhos como sangue, úmidos e viçosos, a seda quase líquida da túnica prateada acariciando a pele escura, quase reluzente, deixando pouco para a imaginação ao delinear o corpo curvilíneo. Aninhada entre os seios firmes estava uma pedra de um vermelho vivo e pulsante, com veias negras correndo pela superfície, segura apenas por uma corrente fina de prata.
O jeito com que ela o olhava era o mais cativante, para . Desejo e divertimento, uma inocência afetada que fazia o sengue dele ferver. E o cheiro... O perfume enlouquecedor que devia servir como um aviso para afastar-se só fazia com que ele quisesse mais e mais.
– Nem mesmo imagino o que você deve ter pensando, minha senhora. – A voz de saiu rouca, os punhos cerrados para conter o impulso de tocá-la. – Um mortal atrevido, desejando algo do qual ele não é digno, ousando amar uma força da natureza.
– Eu cogitei matá-lo, pela insolência. – Levantando-se com uma graça sobrenatural, repousou as mãos delicadas sobre a túnica fina de , sentindo o bater descontrolado do coração dele. – Mas você se mostrou tão dedicado, tão tenaz... Imaginei onde você poderia chegar, meu escolhido, se tivesse o incentivo correto. E eu estava certa.
Ele a segurou pela cintura, mãos tremendo, temendo que a mulher à sua frente fosse desaparecer como uma miragem. Quantas vezes tinha sonhado com aquilo, com ela, sentindo o gosto da pele imaculada em sua língua, mãos traçando os vales do corpo divino... Só para acordar, sozinho, desesperado e ainda longe de seu objetivo.
continuou, os olhos mirando a coroa ainda firmemente colocada na cabeça de .
– Então eu atendi seu pedido e apareci, permiti que me tocasse e te dei uma oportunidade. – Os lábios dela tocaram o maxilar dele, hálito quente e sensual banhando a pele. – Quando sangue corresse pelas ilhas de Hellas, quando as coroas de todos os reis fossem-me oferecidas como tributo, quando um exército consagrado em meu nome sob seu comando fosse o mais temido de todas as nações e quando você se sentasse no trono mais alto que um mortal poderia alcançar...
Era como se estivesse traçando as palavras contra o rosto dele, roçando a boca pelo maxilar dele e então pelo pescoço, deixando um rastro molhado por onde passava. Havia algo pesado, sensual na maneira com que ela o fazia, desejo crepitando no ar.
– E eu o fiz, minha senhora. Por amor e por devoção. E tudo que eu peço é o seu reconhecimento, a sua benção.
Ele queria mais? É claro, parecia um homem perdido no deserto e , um oásis. Mas ele sabia que não tinha nenhum direito de pedir mais do que aquilo. Foi naquele momento que percebeu que, por toda a sua glória, era mais baixa que ele. Ela precisava olhar pra cima para encontrar os olhos dele, ao mesmo tempo exasperada e afeiçoada.
– Tolo. Você é o rei dos reis e, meu favor, você já tem. Acha que perco meu tempo com qualquer mortal? Teu caminho, meu guerreiro, está cheio das provas de minha preferência. – Ela deu um sorrisinho maroto, desfazendo os laços da túnica que ele usava. – Peça o que quiser. Exija. Comande como o espartano que você é, .
Chocado, o rapaz percebeu que era a primeira vez em que havia usado seu nome. Em nenhum momento, durante todos os aqueles anos... Mas, naquele momento, despindo-o do resto das roupas que ele ainda usava, a deusa primordial usava seu nome como se não fosse nada. perdeu o fôlego quando as calças se amontoaram no chão, deixando-se nu.
O olhar apreciativo de quase fez com que ele corasse, mas levantou o queixo e encontrou o olhar da mulher com firmeza, vendo aprovação na expressão dela.
– Você. Tudo o que eu quero e desejo é você. Se é meu direito comandar, minha senhora... Então eu ordeno, hoje e todas as noites depois dessa, que você seja só minha.
Com um gesto quase que casual, soltou o broche que prendia o vestido de seda e o mesmo deslizou pelo corpo escultural da mulher, abandonado no chão como se não fosse nada. Se vestida ela era uma visão de outro mundo, nua, sob a luz do luar que filtrava pelas portas abertas da sacada... Aquele era todo o paraíso que podia querer.
– O desejo do rei de Hellas é uma ordem.
Com passadas firmes e quase predatórias, ela o empurrou em direção à cama, fazendo com que ele tropeçasse e acabasse sentado sobre as cobertas decadentes, observando atônito enquanto se ajoelhava entre as coxas torneadas dele.
Existia a bem distinta possibilidade de ele ter morrido e aquilo ser a recompensa prometida aos guerreiros. não sabia se ia ficar chateado ou aliviado se fosse o que estivesse acontecendo.
– Eu acabei de sair de um campo de batalha, minha senhora. – tentou argumentar, ainda boquiaberto. – Deixe que eu pelo menos me limpe...
fez um barulho com a boca, claramente querendo que ele se calasse.
– Não se faça de inocente, espartano. A batalha é o tempero mais doce que existe.
Os dedos delicados envolveram o membro já enrijecendo dele, devagar e claramente provocando, um movimento do pulso de fazendo estremecer. Ela riu baixinho e, sem quebrar o contato visual, abaixou para envolver os lábios aveludados ao redor da cabeça.
Nunca, nem mesmo em seus sonhos mais vívidos, havia imaginado algo assim. Mas o calor surreal da boca de em volta dele era maravilhoso demais para ser imaginação, para ser qualquer coisa que não realidade. Ainda encarando-o com aqueles olhos mágicos, a mulher deslizou os lábios pela extensão, saliva realçando a fricção e estimulando-o.
não sabia dizer o que era mais alto: o barulho molhado do deleite de com seu membro ou os próprios gemidos incontidos. Apesar de estar longe de ser virgem, o rapaz não tinha tempo ou desejo para as perdições da carne, e o toque de sua venerada senhora era mil vezes mais prazeroso do que qualquer outra coisa que ele já havia sentido na vida.
Não demorou para que ele estivesse completamente ereto, assistindo se deleitar com o membro, lábios brilhando com saliva e fluido, inchados com o abuso.
– Sou apenas um mero mortal, minha senhora. – arfou, tocando os cabelos sedosos da mulher com os dedos trêmulos. – Tenha piedade.
Com um barulho obsceno, endireitou a cabeça, privando do prazer estonteante. Ela parecia achar graça de alguma coisa, correndo a ponta da língua pelos lábios enquanto levantava-se com um movimento fluido.
– Impaciente. Muito bem, vou lhe dar o que tanto quer... De novo e de novo. Temos a noite toda, não é mesmo? – Ela engatinhou pela cama, seguindo o exemplo de e aproveitando o espaço que eles tinham.
Ele se fez confortável contra a montanha de travesseiros e ela permaneceu ajoelhada entre as pernas dele.
– Como foi que você disse? E todas as noites depois dessa? Sou uma mulher de palavra, majestade.
jogou os cabelos longos sobre o ombro, fazendo-os cascatear pelos seios enrijecidos, completando a pintura de pura luxúria e beleza feminina que faria Afrodite chorar de inveja.
Algo como uma prece ou uma súplica escapou por entre os lábios dele quando sentiu seu membro sendo envolto pelo calor aveludado e apertado do corpo de , aninhado dentro dela enquanto a mulher se sentava no colo do rapaz, a cabeça jogada para trás em êxtase. A visão de estava borrada e ele precisou piscar várias vezes para voltar a enxergar, a respiração falhando em sintonia com a de , que apoiava-se na cama, costas arqueadas e inteiramente preenchida por ele.
– É esse o paraíso dos guerreiros? – Ele se perguntou, quase delirante, fazendo com que risse, rouca.
– Não, meu rei. Guerreiro nenhum maculou o corpo de uma divindade como você está fazendo agora.
– Minha senhora...
Ela o cortou, corrigindo.
. Chame-me pelo meu nome, se vai me possuir como nenhum mortal antes de você jamais ousou.
. – Ele repetiu, com adoração. – , , ...
não conseguia parar de repetir o nome como um mantra, a deusa em questão movendo-se no colo dele, ondulando os quadris e fazendo choques de prazer atingirem os dois ao mesmo tempo. Ela se curvava na direção dele, naquele momento, as mãos apoiadas no peito nu enquanto cavalgava sem piedade.
Uma das mãos de se enroscou nos fios que arrastavam contra seu peito, sem puxar os cabelos dela, mas segurando com firmeza, os gemidos rosnados se misturando com os miados arquejantes de . E eles não conseguiam deixar de olhar nos olhos um do outro, a conexão profunda envolvendo mais do que os corpos... E estava perdido.
Nada mais existia naquele momento e ele se perguntava, delirante, se era com aquilo que ascender aos céus parecia. Era o mais perto da imortalidade que ele chegaria.
A mão livre se esgueirou para repousar na curvatura da coluna de , pressionando com força contra a pele macia, dedos se enterrando na carne e deixando marcas que não ficariam visíveis. desesperadamente queria deixar algo para trás, uma prova de que a noite tinha acontecido e de que ele, o conquistador de toda Hellas, havia também conquistado o corpo da mais poderosa deusa do panteão.
parecia entender a angústia que ele não conseguia colocar em palavras, capturando os lábios dele em um beijo avassalador, profundo, molhado e sem nenhuma delicadeza.
– Você é meu, de Spárti. Meu, e só meu, e eu o matarei eu mesma antes de permitir que me deixe. – As palavras tinham um tom de promessa, de ameaça, e se sentiu aliviado por algo que deveria assustá-lo.
O ápice se aproximava com tanta rapidez que roubou a respiração dele, o corpo tenso na tentativa de atrasar o fim, mas começou a estremecer no topo dele, gemendo contra os lábios de , e ela se despedaçou com a força do orgasmo.
Ele nunca havia imaginado que uma deusa poderia parecer tão... Mortal. Frágil, real, humana. Foi essa realização, que havia despojado uma deusa da própria divindade, que fez com que ele despencasse no precipício. O orgasmo o atingiu com tanta força que tirou o ar de seus pulmões, fazendo-o ofegar.
Com os olhos desfocados e corpo languido, estava praticamente desfalecida em cima dele, bebendo o espetáculo que era se afogando em seu próprio prazer. A imagem dela parecia alongar ainda mais a duração, tornando difícil a concentração e a volta à Terra.
Uma eternidade depois, ainda fitando a perfeição que havia contemplado-o com sua presença, finalmente encontrou coerência o suficiente para acariciar o rosto de , os cabelos desalinhados grudados na pele pegajosa de suor.
– Dez nações, eu subjuguei. Dez coroas, eu tomei à força. Como pode que foi só quando eu a tive em meus braços que senti que conquistei alguma coisa de valor? Eu a amo, e amava antes mesmo de tocá-la. – Talvez fosse o relaxamento derivado da união que eles tiveram que levou a ser tão sincero, mas ele não podia arrepender-se quando viu o rosto de suavizar.
Ela parecia quase... Gentil.
– Me diga, rei das dez nações, detentor das dez coroas... – olhou rapidamente para a sacada, para o céu estrelado e a lua que brilhava tão forte que parecia prata líquida. – Como se manifestaria o amor de uma deusa, se não pela proteção de seu favorito?
Confrontado com aqueles olhos infinitos, finalmente entendeu.


Fim.



Nota da autora: "primeiramente, obrigada por ler e acompanhar essa loucura! Embora a fic seja interativa, acho importante falar que tudo nasceu depois que eu assisti, ao vivo, essa apresentação no MAMA 2020 (https://www.youtube.com/watch?v=d1QMXlDbUJ0). Assistam, vocês não vão se arrepender. Mas Lumiya...você vai escrever um coreano como espartano, é isso mesmo? Vou, vou e fui. Mas pra isso eu tive que, óbvio, dar uma adaptada.
Então vamos lá: os nomes de lugares, divindades e armas utilizados na fic são reais. Eu decidi não usar os nomes das cidades-estado em português por um motivo: essa fic se passa em um universo alternativo. A Grécia virou Hellas, Esparta virou Spárti...e assim vai. A história é baseada nos locais, história e religião reais, porém eu tomei liberdade artística onde eu precisei. Como, por exemplo, a existência da pp rs. Fora isso, vocês vão notar que a estrutura política e militar também não tem muito a ver – as cidades-estado que tinham organizações próprias e seguiam modelos diferente é um outro exemplo. A descrição dos locais, como a Acrocorinth, porém, são mais ou menos reais. A única diferença é o palácio que, na verdade, é o templo de Afrodite. O rei Demetrius citado na fic tem um xará da vida real que foi governante de Kórinthos - mas a única coisa que eles têm em comum é o nome e o fato que os dois morreram. Se eu não me engano, o Demetrius original era macedônio.
Ah, e Kórinthos realmente era consagrada a dois deuses diferentes hahaha. Poseidon ficou com a parte litorânea e o complexo defensivo construído ali, e Helios ficou com a Acrocorinth. Falando em deuses, a deus mencionada como filha da pp é, na verdade, filha de Perséfone com seu marido/tio Hades. Ou com seu pai/tio Zeus. Ou os dois, que aparentemente foram a mesma entidade em certo ponto. Galera, Grécia não é o meu forte, aqui é SPQR. Porém ela é real e a atribuição que eu dou a ela na fic (deusa dos mortos sem descanso) é uma das que ela tem. Os Spartae também são parte da crença Grega, embora eu não tenha procurado muita informação sobre eles (Grécia realmente não é o meu negócio, essa fic a parte).
Eu...acho que é isso? Espero que tenham gostado, que as minhas liberdades literárias não tenham ofendido nenhum leitor historiador e que esse delírio tenha feito sentido pra alguém <3 Prometo nunca mais escrever uma nota gigante dessas hahahah
Kv, Lumiya"



Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.


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