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Última atualização: 08/12/2021

Prólogo

Fazia frio nessa noite em Yokohama. As ruas escuras e desertas eram um sinal de que todos estavam em suas casas, tomando um belo chá quente e enrolados no futon*. Porém, não para ela. A moça andava sorrateiramente pelas sombras da rua mal iluminada observando seu alvo. Não era a primeira vez que a chamavam para tal tarefa, afinal ela era a especialista para tal. Aquele homem mal teve oportunidade de lutar. Em segundos, seu corpo caiu ao chão e o sangue lhe escorreu pela garganta.
Akutagawa limpou sua faca e ergueu o corpo, voltando a ficar ereta. Examinou o homem agonizando, engasgando com o próprio sangue. E, por fim, o viu dar seu último suspiro.
Com sua missão cumprida, a jovem assassina fez o caminho inverso e retornou para sua casa.

*Espécie de edredom, usado como cama

— Está finalizado, senhor Ōgai — disse a moça ao telefone, comunicando-se diretamente com seu chefe.
— Excelente. Amanhã quero detalhes, está dispensada — comunicou ela e desligou.
finalmente poderia descansar. Não que o trabalho como a mais eficiente assassina da Máfia do Porto da cidade não lhe agradasse, porém, especificamente hoje, só queria voltar para sua casa. O encontro com o velho senpai** foi constrangedor e tenso. Mexeu muito com ela.

**Termo usado para alguém que lhe ensina algo, normalmente no trabalho ou escola. Um veterano.

Flashback On - Naquele mesmo dia, pela manhã

Uma brisa agradável ditava o clima fresco daquela manhã em Yokohama. Na estação de trem, Osamu Dazai aguardava a vinda do trem ao lado de seu companheiro e pupilo, Nakajima Atsushi, que lhe parecia ansioso. Tranquilamente, Dazai levantou-se do banco e chamou a atenção do outro jovem.
— Atsushi-kun — disse ele ao erguer o corpo e pôr-se de pé. Atsushi o olhou ansioso.
— Sim? — perguntou o jovem. Seus grandes olhos amarelados, lembrando muito os de um tigre, encararam o mais velho.
— Não tenho como evitar uma coisa. — A expressão séria de Dazai deixou Atsushi ainda mais apreensivo ao que viria a seguir.
— O que seria? — Fazendo suspense, Dazai suspirou e encarou o outro com o olhar ainda sério.
— Vou ao banheiro! — Mudando a feição, Dazai levou as mãos até a virilha e torceu levemente as pernas. — Não vai dar! Não vai daaaar!!!
Atsushi fez uma cara de interrogação e de quem pensa "Hã? Sério, Dazai-san?!", tudo ao mesmo tempo.
Deixando Atsushi sozinho, Dazai caminhou até os fundos da estação. O lugar estava aparentemente sem ninguém além dele, que passava tranquilamente. Ali parecia ter funcionado a velha estação de trem: trilhos enferrujados, instalações muito antigas da antiga estação. Observando com atenção à sua volta, ele confirmou algo.
— Aqui ninguém mais nos vê — anunciou ele, falando sozinho, aparentemente. — Apareça logo. — Não demorou nem dois segundos para que houvesse a reação à fala do rapaz. Saindo da escuridão, uma faca afiada logo estava cercando a garganta de Dazai e a presença conhecida esquentava suas costas. Ele foi rendido. — Opa! -chan, cresceu, hein? — O sorriso satisfeito e os olhos castanhos de Dazai foram direcionados à figura atrás dele, os olhos acinzentados o encaravam de volta com muita seriedade.
— Então sabia que estávamos de olho em você? — questionou uma mulher na frente dele. A jovem parecia ser mais nova que ele e um pouco mais baixa. Vestia uma camisa branca, calça, sapatos e um paletó na cor preta. Os loiros cabelos estavam presos para cima, deixando os fios soltos numa franja arrumada sobre os olhos. Ela engatilhou a arma e apontou para Dazai.
— O criador das técnicas da Máfia do Porto fui eu, sabe? — Gabou-se ele e soltou um risinho. — Pois bem, o que querem de mim? — O jovem perguntou com a convicção de que a resposta não seria boa.
— Não crê que a arma já diga tudo? — A loira falou com deboche.
— Não creio — respondeu Dazai, tranquilo. Sua respiração era tão serena que nem parecia estar com uma faca na garganta e uma arma engatilhada para si. — Para um grupo de assassinos, contrataram uma turma bem barulhenta — zombou ele e completou: — Na minha época não era tão desorganizado… — disse de forma nostálgica.
— Sua época não existe mais! — Rebateu a loira, a arma firme nas mãos ainda apontada para Dazai.
-chan — ignorando a loira, Dazai voltou seu olhar para a figura atrás dele —, isso é perigoso, pode afastar? — Pediu ele colocando o indicador na lâmina afiada da faca. Rapidamente, abaixou a faca e se afastou, mas manteve-se por perto.
— Obrigado, minha querida — disse ele com um sorriso encantador. não conseguiu esconder as bochechas rubras.
— Está certo, não viemos para isso. — A loira abaixou a arma, travou e guardou a peça dentro do paletó. — Tenho uma mensagem do chefe — ela disse, parecendo frustrada por somente dar uma mensagem a Dazai.
— Do Mori-san? — Dazai disse com surpresa e uma pitadinha de sarcasmo. — O que será?
— A mensagem é a seguinte: Dazai-kun, te interessa voltar a ser um dirigente da Máfia do Porto? — Após ser transmitida a mensagem do chefe da Máfia, fez-se um silêncio que não tardou a ser quebrado pela risada estridente do Dazai.
— Nossa! Que convite lisonjeiro! — disse ele, os olhos fechados enquanto ria e as mãos dentro dos bolsos do sobretudo bege que usava por cima do terno cor de chumbo.
— Baixei sua ficha — disse a loira por cima da risada dele, que logo ficou sério e a encarou. — O seu sangue é escuro de máfia. Mais do que qualquer um neste país.
— As pessoas mudam — sereno, Dazai rebateu a revelação da loira. — Veja só a altura da -chan. Ela era uma menina delicada — ele fez o gesto mostrando a altura que tinha quando criança, batia na altura das pernas dele atualmente. Ele olhou de imediato para para ver sua reação. Dazai tinha um sorriso vitorioso e o olhar travesso, enquanto , mesmo usando uma máscara cirúrgica, não conseguiu esconder a vermelhidão no rosto.
Dazai deu uma boa olhada nela. definitivamente havia crescido. Não era mais aquela criança indefesa e chorosa que ele conheceu anos atrás. Ela estava mais alta, mas ainda era menor que ele, que tinha 1,81m. Os cabelos muito pretos presos para cima com uma longa franja em cima dos olhos, ainda tinha os olhos cinzas que Dazai sempre julgou serem lindos e combinarem com ela.
— Não fuja do assunto, Dazai-san — a voz delicada de foi ouvida pela primeira vez. Dazai gostava da voz doce dela, apesar dela quase não falar. O rapaz conseguiu disfarçar o arrepio que lhe percorreu ao ouvir a moça depois de tanto tempo. A loira encarava ambos com muita surpresa.
— M-Menina?! — gaguejou ela boquiaberta. Era fato que era o membro mais habilidoso da Máfia do Porto, mas poucos sabiam de seu real gênero.
— Alguma coisa não bate — recomeçou Dazai, mudando de assunto e voltando sua atenção para a loira. — Por que Mori-san deixaria gente de fora dessa charada?
— Para protegê-lo — respondeu ela rapidamente.
— Me proteger? — perguntou confuso.
— O chefe soltou o Q. — Dazai arregalou o olhar, assustado.
— Impossível! Fazem ideia do que ele deixou livre?! — Questionou de maneira esganiçada. — O Q é uma catástrofe ambulante. Ele traz ruína a todos: amigos e inimigos.
— A Máfia não discrimina meios para seus fins.
— Por que pensa que ele foi confinado? — Os olhos estreitos e raivosos de Dazai a encararam — Porque possui o mais repugnante dos poderes: o controle mental. Ele ataca sem distinção até destruir seu alvo por completo. — explicou ele e completou: — Você disse que vieram me proteger… essa não! Atsushi!
Dazai saiu correndo sem olhar para trás e as deixou sozinhas. Ambas não se preocuparam em seguir o jovem, àquela altura, o Kyusaku Yumeno já havia de ter destruído a mente de Atsushi.

Flashback Off

Suspirando de maneira pesada, tirou os sapatos no hall de entrada de seu apartamento e caminhou até a sala. Assim que entrou, sentiu o cheiro da comida.
Tadaima — disse ela anunciando sua chegada em casa.
Okaeri — respondeu o rapaz lhe dando boas-vindas, ele era mais alto que ela e tinha os mesmos olhos acinzentados.
— O cheiro está ótimo, Ryūno-kun — falou , carinhosa. Akutagawa Ryūnosuke, irmão mais velho dela, também integrante da Máfia do Porto e tinha 20 anos. era um ano mais nova.
— Vai tomar banho, está quase pronto — disse ele enquanto mexia a comida na panela. Os cabelos tão pretos quanto os de , na altura dos ombros, com as pontas brancas, o que dava um contraste bonito. Combinava com seus olhos. — Ah, -chan — chamou Akutagawa, parou na porta da cozinha. — Higuchi me disse sobre sua missão para proteger o Dazai-san — ele referia-se à loira que acompanhava mais cedo. sentiu o rosto esquentar.
— E, e, e o que ela disse? — questionou, tentando se manter calma.
— Sobre a missão, sobre o Q, sobre o Atsushi e — ele deu uma breve pausa ainda mexendo a comida — sobre sua reação ao que Dazai-san disse sobre você. — deu um salto no próprio corpo. Agora seu rosto estava em chamas de tanta vergonha.
— E-Eu… Ryūno-kun, eu… — Akutagawa nunca mais tinha visto a irmã agir dessa forma. A última vez tinha sido quando Dazai elogiou seu cabelo, a garota tinha 10 anos de idade.
— Não precisa ter essa reação, -chan. Está tudo bem — o rapaz tirou a panela do fogo e o desligou. O jantar estava pronto. Caminhou até a irmã e segurou-lhe as mãos com um sorriso no rosto — Eu sei que gosta do Dazai-san ainda. — O rosto rubro de não negava.
— Ryūno-kun… — suspirou ela e abaixou o rosto, que logo foi reerguido pelo irmão.
— Por que não conta para ele?
— Você sabe que não seria possível, ele é da Agência de Detetives Armados e eu da Máfia! Organizações inimigas, onii-chan***!
— Podemos convencer ele a voltar…
— Ele não vai voltar! Não vai!

***Termo para se referir ao irmão mais velho.


Descontrolando-se, gritou e deixou algumas lágrimas caírem. Era raro ela chorar, muito raro. Calando-se, o irmão dela apenas acolheu a jovem em seu abraço com carinho e afagou seus cabelos, como fez nas vezes em que a irmã chorou com saudades do Dazai.


Capítulo 1 - A Máfia do Porto

A poderosa Máfia de Yokohama.
Organização que continha os membros mais perigosos e com habilidades assassinas, todos sabendo controlá-las perfeitamente bem. Eram conhecidos como “Guardiões da Noite”, por agirem na escuridão e frieza da noite da cidade.
O grande negócio da Máfia era o lucro, eles agem por dinheiro. Qualquer forma de obtenção de lucro é muito bem-vinda. Encomendas de mortes, torturas, sequestros, tráfico de armas e pessoas, tudo isso era feito pela Máfia em troca de uma boa quantia de dinheiro, o que aumentava a reputação maligna da afiliação. Ao contrário do que possam imaginar, os negócios da Máfia, que tinha o porto da cidade como sua sede, eram feitos dentro da “legalidade”. Essa “legalização” era intitulada Permissão de Negócios de Habilidade, basicamente a realização de negócios com o uso das habilidades de seus membros, o que permitia que suas atividades não fossem totalmente fora da lei.
O mundo era composto por pessoas que possuíam habilidades especiais. Algumas podiam não nascer com elas e ainda assim serem extraordinárias, como era o caso da Akutagawa. Sua falta de habilidade especial nada lhe prejudicava, a moça superava as expectativas sendo a melhor da Máfia com sua agilidade com as adagas, rapidez e inteligência. A moça só não superava as habilidades mortais de seu irmão Ryūnosuke.
A Máfia não ficava de fora em possuir membros com habilidades especiais. O mais promissor deles era, sem a menor dúvida, Ryūnosuke Akutagawa, que possuía o poder do Roushamon, a besta negra que suga tudo que chega perto dela. O atual chefe da Máfia, Ōgai Mori, possuía a habilidade Vida Sexualis que permitia que ele controlasse Elise do jeito que ele quisesse. Se ele quisesse que ela parasse o que estava fazendo para salvá-lo de algum perigo, ela faria, como um fantoche humano. Mas, aos olhos alheios, parecia que era ele que era controlado pela garotinha. Educado com aliados e inimigos, o ex-médico Ōgai era mais do que capaz de usar seu conhecimento para magoar os outros da pior forma.

[...]

O alvo da Máfia nos últimos meses era o item mais caro de todos os tempos no Mercado Clandestino: o dono da Besta do Luar, Atsushi Nakajima, o “homem-tigre”, capaz de se transformar em um tigre sob à luz da lua cheia. Por ter um poder extremamente raro e poderoso, o jovem Atsushi valia 7 bilhões no Mercado Clandestino. Obviamente que a Máfia queria parte desse dinheiro.
Foi justamente esse o assunto que rondava a imensa sede da Máfia do Porto quando voltou de uma missão.
— … esse tigrinho insuportável consegue controlar seu poder agora — comentou um dos membros da Máfia, sentado despreocupadamente em um dos sofás de couro vermelho que compunham a sala. Toda a decoração da sede era em tons de vermelho e preto. — Como pode? Só um garoto e consegue controlar todo aquele poder! — Atsushi tinha 18 anos.
— Não sei como… — disse o jovem ruivo.
Chuuya Nakahara, o dito “monstro” da Máfia por possuir o poder de controlar a gravidade que, quando está em seu ápice, faz o jovem perder o controle de seus atos. O único capaz de controlá-lo era Dazai, que possuía o poder Não mais Humano que cancelava qualquer outro poder.
— Sim! Isso me deixa irritado! — Voltou a falar o outro, até que notou a presença de , que sentou-se silenciosamente ao lado de Chuuya no outro sofá. — ! Já voltou? Nem havia notado… — zombou ele. A moça apenas o olhou de canto.
— Não provoque, Tachihara — alertou Chuuya. Michizou Tachihara era outro membro da organização, extremamente impulsivo e provocador.
— Vamos lá, — continuou Tachihara —, fala alguma coisa! Está sempre calado! — O movimento feito por foi tão rápido que a única coisa que Chuuya sentiu foi o vento do vulto da moça passando por ele.
— Você quer que eu fale em seu ouvido, Tachihara-kun? — sussurrou perigosamente no ouvido dele. A moça saltou no encosto do sofá onde ele estava e empunhou uma de suas adagas contra pescoço dele.
— Q-Que voz… que voz é essa?! — disse ele, trêmulo.
— A voz de uma mulher, ora essa — comentou Chuuya e completou: — Não me diga que não sabia? — E, de fato, não sabia. Tachihara era um dos muitos que achavam que era um homem.
— N-Não! — disse ele de maneira esganiçada, a afiada lâmina da adaga de roçando perigosamente em sua garganta.
— Ah!! — Chuuya soltou uma risada debochada. — Anos trabalhando ao lado dela e você não notou? Você é um idiota, Tachihara! — Zombou ele, ainda rindo.
— Verdade — disse , a voz sussurrante no ouvido do rapaz que tremia —, você é um idiota, Tachihara-kun. — O jovem estremeceu. Sempre tão provocativo e metido, o rapaz se viu amedrontado nas mãos da companheira de trabalho.
— Ok, , já chega! — ordenou Chuuya — Se derramar o sangue dele no carpete, o chefe certamente ficará insatisfeito. É um excelente carpete, de fato — concluiu ele com o olhar fixo na moça.
… por favor… — suplicou Tachihara, de olhos fechados e a expressão de medo na face.
recolheu sua adaga e voltou a guardá-la na bainha da cintura. Ela não costumava acatar ordens tão facilmente, nem de seu chefe Ōgai, apesar de respeitá-lo profundamente. tinha suas próprias vontades.
— Não deveria provocá-la, cara. Ela ainda vai te matar. — aconselhou Chuuya.
Tachihara relaxou o corpo e voltou a respirar normalmente. Viu caminhar para fora da sala e sumir no corredor. A revelação do gênero da colega realmente o deixou surpreso e intrigado em saber mais sobre ela.

[...]


A proposta feita ao jovem e caríssimo item mais cobiçado pela Máfia do Porto era simples e direta: uma rendição sem sangue. Tal proposta ecoava na mente de Atsushi desde que ele acordara após o ataque que sofreu da Máfia. O garoto precisava proteger aqueles que o ajudaram tanto, não poderia envolvê-los nesse assunto mortal que tinha com a Máfia. Foi então que tomou sua decisão.
Do outro lado da cidade, Higuchi estava de plantão à frente do telefone exclusivo para receber ligações para negociações. O aparelho tocou e prontamente ela o atendeu:
— Sim? Quem fala? — disse ela com a voz suave. Ouviu do outro lado a respiração irritadiça de alguém. Nada fora do comum para ela.
— Sou eu… — a voz falhada de Atsushi lhe soou pelos tímpanos.
Tigroman?! — Esse era o nome dado a ele no Mercado Clandestino. Higuchi logo pensou que o motivo da ligação dele só podia ser um e sorriu com a possibilidade. — Entendo… — concluiu seu pensamento em voz alta e continuou: — Seus colegas te salvaram naquele dia, mas não haverá uma segunda chance — ameaçou. — O que deseja?
— Vou sair da agência — anunciou ele com a voz menos controlada que antes. — Vou sair e fugir sozinho. Me peguem, se puderem! — Devolveu a ameaça num tom raivoso.
— Entendo — Higuchi sorriu sarcástica. Já estava acostumada a receber ameaças e lidar muito bem com elas. — Quer que deixemos a Agência de lado?
Sem resposta, Higuchi ouviu o som que indicava o fim da ligação. A moça não esperava que o jovem Tigroman lhe respondesse, porém, encarou o fato dele ter batido a ligação em sua cara um desafio. Ela adorava desafios.
A loira levantou do sofá e ordenou:
— Chamem o Lagarto Negro!


Capítulo 2 - O Lagarto Negro

O passar dos dois minutos além do horário combinado com seus capitães fez o homem suspirar em irritação. O grisalho sacou um cigarro do bolso interno de seu sobretudo e um isqueiro, pôs o cigarro na boca e o acendeu, tragando-o e soltando um pouco de fumaça. Ajeitou os óculos de grau na ponte do nariz e manteve seus olhos fechados, respirando fundo.
— Está atrasado dois minutos — anunciou ele à figura de Tachihara, que caminhava adentrando o beco escuro e úmido em que se encontravam. O capitão se fez visível à luz do sol que iluminava parcialmente o lugar.
— Velhote, não seja tão rígido! — zombou Tachihara se referindo à rigidez de seu chefe.
Ryurou Hirotsu, líder do Lagarto Negro. Hirotsu tinha fama de ser extremamente rígido, polido e sério, porém, tão cruel quanto. Seu poder era um dos mais temidos.
— Que lugar ruim esse! — Reclamou Tachihara num tom de deboche. Hirotsu mantinha seus olhos fechados — Cadê o maluco do ? Quer dizer… a , né? — Tachihara ainda não se acostumara com o fato da jovem comandante ser uma mulher. Isso lhe dava calafrios, além de outras sensações que ele não sabia identificar direito. — Ela também se atrasou?
— Já chegou. Está atrás de você — respondeu Hirotsu e soltou uma baforada de fumaça. Ao notar a presença de atrás de si, Tachihara se assustou.
— Putz, para variar a mesma maluca esquisita. Sendo homem ou mulher — provocou ele e completou: — Você me dá nos nervos! Medonha, como sempre — irritada, partiu para cima dele e empunhou sua adaga encostando bem na garganta de Tachihara, dessa vez pela frente. — Quer brigar? — provocou ele mais uma vez, encarando os olhos frios da moça e lhe apontando sua arma na altura do peito dela.
— Basta, ralé! — gritou Hirotsu, chamando atenção de todos. Ele abriu os olhos para fuzilar os comandantes — Querem ser reportados ao senhor Ōgai?
Irritado, Hirotsu ativou seu tão temido poder: a Camélia Decadente, que enviava qualquer objeto, ou pessoa, pelos ares com uma força poderosa, mortal para um ser humano. Assustados, os comandantes pararam e se afastaram, guardando suas armas.
— Já sacamos — disse Tachihara em rendição. Hirotsu recuou e voltou a tragar seu cigarro tranquilamente — Que velhote difícil, hein? — comentou o jovem com , que apenas concordou com um gesto de cabeça ao guardar sua adaga na bainha da calça.
O celular de Hirotsu tocou. Calmamente, o mais velho atendeu:
— Sim?
Todos já chegaram? — disse a voz de Higuchi do outro lado.
— Estão aqui. Qual a missão dessa vez?
Ótimo. Vocês irão invadir a Agência.
— Achei que você já tivesse cuidado desse assunto junto com o Akutagawa — debochou Hirotsu, mesmo sabendo que a missão de Higuchi havia dado errado.
Aquela ralé da Agência salvou o Tigroman no último minuto — explicou-se ela, irritada com o deboche.
— Que amador — Hirotsu continuou a zombaria.
Isso não importa agora! — disse ela, desviando-se do assunto. — Invadam a Agência e deem um recado ao Tigroman: Não se brinca com a Máfia — sua voz saiu com muita amargura e um pouco de loucura.
— E se não houverem sobreviventes? — Hirotsu perguntou apenas por formalidade, não havia como sobreviverem a um ataque do Lagarto Negro.
Não me importo — respondeu ela com raiva.
— Como queria — disse Hirotsu e encerrou a ligação.
— Qual a missão dessa vez? — questionou Tachihara.
— Aniquilar a Agência — respondeu Hirotsu demonstrando prazer ao falar e tragou mais um pouco de seu cigarro que estava quase no fim.
sentiu um arrepio lhe percorrer o corpo. Aniquilar a Agência? Internamente, ela torceu para que ele não estivesse lá.

[...]

A respiração descompassada da Akutagawa mais nova indicava seu nervosismo. Estavam todos os três pelotões do LN alinhados em suas posições, prontos para invadir o simpático prédio sede da Agência de Detetives Armados, a ADA. O edifício, que ficava numa esquina movimentada de Yokohama, foi invadido silenciosamente pelos integrantes do LN. Os comandantes alinhados ao lado de seu líder já posicionados à frente da porta principal do local. Hirotsu bateu à porta com elegância. O prédio todo parecia estar vazio, silencioso demais, fato que intrigava .
— Oh, visitantes a essa hora! — disse um dos membros da ADA, um garoto que não passava dos 15 anos de idade, de chapéu de palha e macacão jeans, sua voz tinha um sotaque rural. Certamente, ele não era de Yokohama.
— Seu chefe se encontra? — Adentrando ao local sem ser convidado, Hirotsu pôde ver que todos da Agência pareciam trabalhar normalmente antes da chegada do LN. correu o olhar pelos rostos de todos e, para sua angústia interna, avistou Dazai ao fundo da sala.
— O sr. Fukuzawa está viajando — anunciou o alto rapaz.
Kunikida Doppo, membro da Agência que possuía a habilidade de transformar qualquer coisa que for escrita em seu diário em algo real. Era considerado o “coração” da equipe.
— Quer deixar recado? — disse ele, com zombaria. Ele conhecia bem quem eram esses à sua frente e para quem trabalhavam.
Tisc… — resmungou Tachihara, levemente incomodado com a fala de Kunikida.
— Está acontecendo algo, cavalheiros? — A voz de Dazai surgiu junto com sua figura alta e imponente em meio aos demais. O sorriso de deboche nos lábios e seus olhos penetrantes caíram diretamente em . — Dama. — Completou ele e os olhares de todos caíram sobre a moça que se mexeu incomodada ao lado de Hirotsu, que a olhou de esguelha.
Dama! Ainda não acredito nisso… — comentou Tachihara alto demais e recebeu um tapa na nuca. Ao virar-se, viu voltando para o lado de seu líder. — Hey! — reclamou ele.
— Querem parar?! — sibilou Hirotsu sentindo o corpo quase explodir de raiva. Dazai sorriu vitorioso com a situação que causou.
— Bom, senhores… — recomeçou Dazai num tom teatral — e senhorita — mais uma vez ele encarou , que sentiu o rosto corar —, já que não querem deixar recado ao nosso presidente, peço que se retirem. Temos muito trabalho, como podem ver — pediu ele, educado.
Hirotsu, que tinha outro cigarro aceso na boca, deu uma tragada e soltou a fumaça na direção de Dazai, que espantou a pequena nuvem tóxica com as mãos de maneira exagerada.
— Receio não ser possível. — Mesmo com a fumaça lhe impedindo de ver direito, Dazai avistou o sorriso macabro que Hirotsu exibia na face e fez sinal para Kunikida.
Em segundos, a ADA foi tomada por tiros disparados pelos cães da Máfia, todos de terno e óculos escuros, com metralhadoras nas mãos gastando todo o pente na direção dos membros da Agência.
e Tachihara cercaram pelas laterais da mediana sala principal as estagiárias que tentaram se esconder na sala do presidente que, de fato, não estava lá. Enquanto lutava com o garoto do interior que atendeu a porta, tentou ver onde estava Dazai, que até então sumiu de seu campo de vista. A força do jovem que lutava com ela era sobre-humana. Impressionada com a habilidade do garoto, desviou dos objetos que lhe foram arremessados. Objetos não comuns, pois qualquer pessoa normal jogaria canetas, livros, um monitor, a TV, qualquer coisa mais leve. Porém, aquele garoto carregava nas costas, com extrema facilidade, a mesa de escritório mais próxima e jogava contra como se estivesse arremessando uma bola de beisebol.
— Seu verme! — ouviu Tachihara gritar e olhou na direção de que veio sua voz, avistando o comandante lutar contra Dazai.
Pondo um fim em sua luta individual com o jovem superforte atingindo-o com um golpe de adaga na nuca, passou por cima do corpo desfalecido dele e foi na direção da briga entre Tachihara e Dazai. Sorrateira, a moça foi andando agachada e, num movimento rápido, atingiu Tachihara nos tornozelos, fazendo-o desequilibrar e cair. desapareceu para a frente da sala logo em seguida.
Com um sorriso de canto, Dazai ativou seu poder e tocou a testa de Tachihara, cancelando seu poder Midwinter Memento, que lhe dava a habilidade de manipular o metal, lhe permitia também o controle remoto de qualquer objeto de metal, principalmente sua espada e armas dos cães de caça (como eram chamados os membros da Máfia). Dazai deu um chute no queixo do outro para finalizar sua vitória.
Se vendo em desvantagem, Hirotsu resolveu usar sua habilidade e explodiu tudo o que via pela frente. Já prevendo o ocorrido, os membros do LN deixaram o local, atirando-se pelas janelas. carregou Tachihara nos ombros, mas, antes de saltar pela janela, a moça olhou para trás e viu Dazai a encarando e sorrindo ao vê-la.
Obrigado. — Os lábios finos de Dazai se mexeram sem som.
Mais uma vez, ruborizou e então saltou do prédio.

[...]

O irmão de usou sua habilidade da Besta Negra para escalar o prédio e capturar os membros do LN que saltaram de lá.
Neste momento, todos já estavam na sede da Máfia e os ânimos estavam bastante exaltados.
— É TUDO CULPA DELA! — Urrou Tachihara andando de um lado a outro no grande salão da sede da Máfia. Todos assistiam ao descontrole do rapaz. — SE ELA NÃO TIVESSE SE METIDO E AJUDADO AQUELE VERME, EU O TERIA MATADO! — ele referia-se a e ao fato dela ter ajudado Dazai na luta contra o comandante.
— Por acaso está falando de mim, Tachihara? — disse , que estava em pé, encostada na parede próxima a uma das saídas do salão. Ela girou suas adagas no ar. O olhar furioso de Tachihara virou para ela.
— Você protegeu ele! Sua tola! — falou e apontou o dedo para ela, que não se abalou com o surto do rapaz. Os demais apenas observavam-no gritar irritado. não respondeu e voltou seu olhar para suas adagas girando em seus dedos habilidosos.
— Pare de berrar, Tachihara — disse Akutagawa, que também estava no salão, tentando colocar alguma ordem na conversa já que ele era o prodígio da Máfia e queridinho do chefe — E fale direito com ela. — Essa última frase foi dita num tom mais repreensivo que a anterior.
— Não a defenda, olha o que ela fez! Fez com que aquela agenciazinha nos derrotasse! — O tom de Tachihara ainda era muito alterado, porém mais contido.
— Controle-se, Tachihara — aconselhou Chuuya com a voz calma e bebeu despretensiosamente mais um gole de seu whisky, olhando a grande pedra de gelo bater no vidro do copo.
— Essa bastarda! — Continuou o rapaz e dessa vez foi o suficiente para tirar do sério.
— Como disse?! — disse ela enquanto marchava com as adagas empunhadas na direção de Tachihara.
— Quer brigar? Pode vir, acabo com você e depois vou lá terminar meu serviço com o verme do Dazai — estava quase alcançando o jovem furioso, mas Akutagawa a barrou no meio do caminho.
— Limpe a boca para falar do Dazai-san, — começou o dono da Besta Negra encarando o outro que estava à sua frente — e não ouse encostar na minha irmã.
De repente, fez-se silêncio em todo o salão.
Os ocupantes dali encaram Akutagawa à frente de , que ainda tinha as adagas empunhadas, Tachihara avistou a besta de Akutagawa surgir às costas dele, crescendo imponente e perigosa.
Muitos boatos a respeito de corriam pelos corredores internos da Máfia. De que ela era um homem. De que era um homem gay. Ou, até mesmo, de que era um robô. Essa última a fazia rir. O mistério que rondava a moça era a diversão dos membros mais descontraídos da Máfia que adoravam criar novas teorias sobre ela. Porém, nenhuma delas envolvia um irmão. E, pior ainda, o Akutagawa.
Ryūno-kun… — sussurrou , bem próxima a ele.
Os dois combinaram, ainda crianças quando entraram na Máfia, que enquanto estivessem a serviço da Máfia, eles não iriam se comunicar ou se tratar tão intimamente, apenas o necessário. E jamais iriam mencionar que eram irmãos.
— Me desculpa, … — o mais velho lhe sussurrou de volta. A moça suspirou e disse:
— Tudo bem…
— IRMÃ?! — berrou Tachihara, assustado do mesmo jeito que ficou quando descobriu que era uma mulher — A É IRMÃ DO AKUTAGAWA?!
— Ela é minha irmã sim, e não se meta com ela — disse Akutagawa num tom ameaçador, a besta cada vez maior atrás de si.
— Não preciso que me defenda, Akutagawa — falou e todos no salão ainda estavam assombrados com isso: eles eram irmãos! Isso nem o Chuuya sabia.
— Eu sei que não, minha irmã — pela primeira vez, ele usou um tom carinhoso para falar com ela na frente dos companheiros de Máfia —, mas é bom que Tachihara saiba que eu estou de olho nele.
A tensão era palpável e estava suspensa no ar, pesando na cabeça de todos.
Higuchi, que não estava presente no salão, pois estava em reunião particular com o chefe Ōgai, entrou no salão, ignorando a tensão visível, e chamou Akutagawa. Ōgai tinha uma missão importante para ele.

[...]

saiu mais cedo e não esperou pelo irmão para voltar para casa, como sempre faziam. Já havia trocado de roupa, voltando a usar os cabelos soltos e um vestido cor de pérola até os joelhos com um sapato confortável. Seu celular tocou e acusou uma mensagem de seu irmão.

“Sei que está chateada. Me desculpe por hoje. Não aguentei ver o Tachihara te insultar daquela forma…
Me encontre na praça de sempre.
Com amor,
Ryūnosuke


Ao concluir a leitura, a moça sorriu. Guardou o celular e voltou alguns metros de seu trajeto para voltar à praça. Sentando-se num banco vazio, ela relaxou um pouco o corpo e se permitiu não pensar no dia de hoje. Porém, ao fechar os olhos a única coisa que enxergou foi Dazai.
A imagem de Dazai em meio ao caos do combate entre a Agência e a Máfia não lhe saía da mente. Os cabelos dele caídos nos olhos, muito vastos e castanhos iguais aos seus olhos. Ah, os olhos de Dazai que nunca revelavam exatamente o que ele sentia. Mesmo assim, conseguia ver no olhar do jovem e bonito membro da Agência certo amor e sinceridade. A doçura do olhar dele ia de encontro à expressão debochada ou descontraída que ele sempre mantinha.
suspirou e abriu os olhos, verificou as horas mais uma vez e estranhou o atraso do irmão. Olhou para os lados e reparou algo estranho: a praça ficou vazia de repente. Sentiu um ar frio passar por ela e uma sensação de perigo lhe percorreu o corpo. Com os sentidos em alerta, checou suas adagas na bainha que usava por debaixo do vestido. Jogou os cabelos para frente do corpo e brincou com as pontas deles, enrolando-as nos dedos.
O golpe veio rápido e certeiro.
caiu no chão, zonza, mas conseguiu empunhar sua adaga com dificuldade e tentou focar em seu alvo, que tentava segurar a moça. Ela deu o primeiro golpe e viu o homem se defender com as mãos e gemer de dor em seguida.
Depois disso, não houve um segundo golpe, tudo escureceu para .




Continua...



Nota da autora: Sem nota.

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