Declínios de Uma Adolescente Rica

Última atualização: 15/05/2021

Capítulo 1 - O PROBLEMA

Já era a sexta combinação de roupa que eu experimentava e ainda assim estava insatisfeita. Meu cabelo também não era algo que agradava naquela manhã e já era a terceira vez que Gertrudes me chamava para tomar café antes de ir à escola, informando que já estava atrasada.
Andar no horário era algo totalmente incomum para . Todos os dias, eu chegava a escola pelo menos 20 minutos atrasada, mas hoje, era o dia que nada me agradava. O período menstrual era algo que me tirava dos eixos.
Por fim, acabei escolhendo a roupa mais normal que possuía: uma saia curta de pregas cor de rosa, uma blusa de manga curta branca, e o casaquinho que fazia parte do conjunto com a saia. Coloquei a meia branca 3/4 e o saltinho rosa com pompom rosa. Prendi a parte da frente do cabelo para trás e retoquei o rímel (já que estava a com a maquiagem intacta feita pós-banho).
Dei um beijo em Lilith, a Yorkshire mini que havia ganhado em meu aniversário de 16 anos. Rapidamente desci as escadas e fui até a cozinha, onde um prato com minhas frutas favoritas (morango, abacaxi e kiwi) estavam picadas e com um garfo ao lado do prato prontas para serem devoradas.
Meu papi, naturalmente estava com um dos três celulares que usava em mãos, enquanto falava com alguém por outro aparelho, minha mami lia atentamente algum livro voltado a psicologia, e meu irmão Nico, jogava um jogo qualquer em seu tablet.
— Bom dia, família! — sentei-me à mesa, colocando a primeira garfada de fruta na boca.
— Você está atrasada — disse Leonor, sem tirar os olhos do livro. — O que houve?
— Ah, mami, não estou me sentindo bem hoje — disse fazendo bico, enquanto os olhos dela agora eram voltados para mim. — TPM e suas desvantagens desde sempre!
— Coisa de meninas! — meu irmão menor falou, enquanto mexia em seu tablet. Mostrei a língua para ele.
— Hoje você irá comigo — mami fechou o livro, guardou na bolsa e tomou mais um gole de café. — Aparentemente o colégio recebeu um aluno complicado e pediram para que eu faça um rápido atendimento.
— Amor, acho que não vou voltar hoje — finalmente papi se pronunciou, colocando os celulares na mesa. — Vou levar o Nico para o colégio e vou pedir para que Durval o traga para casa ao fim da tarde. Surgiu um imprevisto, terei que ir até o Rio. Preciso assinar alguns papéis na filial e em seguida eu prometo que iremos fazer nossa viagem, tá bom? — mami sorriu e segurou sua mão. — , não sei se comentamos com você, mas um sobrinho meu está passando por algumas dificuldades e decidi convida-lo para passar um tempo aqui. Ele irá estudar no Paulo da Cunha. Quando você chegar lá, sua mãe irá apresentá-los.
— Eu não o conheço, né?
Achei um tanto estranho, pois o colégio é mega caro e se o garoto fosse estudar lá, significava puramente que Ângelo também estaria pagando seus estudos.
— Não — papi voltou os olhos para mami, que apenas assentiu.
— Ok — sorri e voltei a devorar as frutas.
Já dentro do carro, mami buscava ouvir uma rádio tranquila pela manhã, sempre a mesma rotina, sem nos falarmos. Estava muito acostumada com a vida boa, mas o trânsito de São Paulo definitivamente era algo que entrava para a lista de "odeios".
Ao chegar no colégio, peguei a bolsa cor de rosa e abri o carro, assim como mami fez ao pegar sua bolsa de mão. Enquanto ela caminhava para a direção, eu ia até o pátio, encontrando as minhas amigas logo na entrada.
— Você não vai acreditar — Tati caminhou em minha direção, trabalhada em branco. — Tem uma garota nova em nossa turma.
— E desde quando isso é uma grande novidade? — perguntei passando o dedo mínimo pelas sobrancelhas.
— Desde que a garota é uma loser! — Cami completou, fazendo meu sorriso se abrir. — Todos sabem do seu apego por losers, ! E outra, esse é o nosso último ano!
Dei de ombros. Ela tinha razão, eu gostava de transformar a vida desses losers. Eu via potencial neles.
Nós três andamos em direção à primeira aula, atrasadas, claro. O professor já estava em sala, mas ainda não havia começado nada. Sentei-me em meu lugar por direito: na primeira carteira do meio e as outras duas amigas ao lado. Tiramos todo o material perfeitamente organizado de dentro da bolsa, já que eu achava um absurdo não ter armários na escola assim como na escola da minha prima, nos Estados Unidos.
— Nós iremos retomar do assunto que paramos na semana passada — o professor falou olhando o diário enorme em cima de sua mesa. — Afinal, Capitu traiu ou não Bentinho?
Muitos se irritaram e gritaram que não, enquanto um ou outro falavam que sim e muitos burburinhos tomavam conta da sala. Aquele era o tipo de assunto que deixava muita gente fora de si, de todas as histórias de Machado de Assis; era como perguntar se Ross realmente traiu Rachel (o que claramente eu concordava que sim), mas sinceramente não sabia opinar muito sobre Dom Casmurro, afinal, nem havia começado a ler. Não era do tipo que lia muitas coisas.
— Acalmem-se, pessoal — pediu o professor, em meio a risos. — Vamos aos fatos: quem concorda que sim, fiquem de mãos levantadas — ele observou e riu. — Certo, chegaremos aos pontos finais. A primeira versão que fora publicada em 1899 tinha uma visão completamente de um homem traído, trazendo à tona a imagem do adultério, o que era um grande pecado na época.
Enquanto o professor prosseguia, a porta foi aberta e entrou uma garota com os cabelos pretos escorridos, toda vestida de preto e um outro garoto logo atrás, usando jeans rasgado, um tênis qualquer e blusa de frio com touca. Caminharam direto para o fundo da sala, mas senhor Ramiro não deixou passar e parou-os.
— Acredito que estejam atrasados, senhor e dona Silva — quando ele mencionou o sobrenome da garota, todos riram. Não entendi a graça e passei a encara-los.
O garoto tinha um olhar perdido, estava com a alça da mochila segura pela mão e era bem alto. Acredito que daria dois de mim facilmente. A menina era bem mais baixa e tinha os olhos azuis que destacava a maquiagem preta, ou vice-versa.
Enquanto eu colocava o fundo do lápis na boca para observá-los, ele me encarou. Seus olhos focaram em mim e por mais que eu quisesse tirar dali, não conseguia. Hipnotizada, a única coisa que desviou minha atenção fora a voz dele respondendo o professor Ramiro.
— disse, lambendo os lábios. Desviei os olhos e fiquei encarando a lousa branca. Senti meu corpo reagir aquele garoto e isso só poderia ser a maldita TPM.
— Suelen Silva — a menina respondeu, quando Ramiro perguntou seus nomes e pediu para se apresentarem.
Eu não lembro qual foi o seguimento da aula, pois eu estava mais preocupada em tirar certas imagens da minha cabeça, a começar pelas traiçoeiras que meu cérebro criou com ele.

💖

Antes de sair da aula, eu fui atrás da novata e tive que correr alguns metros com aquele saltinho. Ela não parecia nenhum pouco com vontade de conversar, mas consegui convencê-la a fazer o trabalho sobre Dom Casmurro. A mudança dela começaria ali!
— Podemos fazer na minha casa — disse, já com ideias bem preparadas em minha cabeça. — Fazer alguns lanchinhos, e...
— Tanto faz, patricinha — a garota falou, colocando-se para fora da escola, deixando-me um tanto incomodada com sua frieza em me afastar.
Bufei e andei até a parte da direção, onde mami aguardava depois da aula. Finalmente iria conhecer o sobrinho de Ângelo. Não estava nenhum pouco contente com as novidades, mas tudo bem, iria superar aquilo e acreditava que poderia sobreviver com um garoto dentro de casa.
Porém todas as chances se reduziram a 0 assim que avistei o estranho da sala ao lado de mami. Ele não tinha uma cara muito diferente da que havia entrado em sala pela manhã e mesmo que falasse algumas coisas para ele, o garoto apenas balançava a cabeça.
Mami, podemos ir? — chamei atenção assim que me aproximei e ela sorriu para mim.
, esse é o , sobrinho do Ângelo — ele voltou os olhos para mim, o que me deixou com um pouco de vergonha. — , essa é minha filha , . Ela é um pouco difícil, mas no fundo é gente boa — virou-se para mim arregalando os olhos. — Seja legal, sim!?
Mami andou na frente enquanto eu e ele ainda nos encarávamos. Eu estava MUITO ferrada e meu cérebro já começava uma brincadeira sem graça com meu corpo. Minhas mãos suavam e pareciam pedras de gelo. Ele já aparentava ter percebido essas sensações, pois sorriu de lado.
— Para você é — tratei de demonstrar minha aversão por ele e demarcar meu território, mostrando até onde ele tinha direito a chegar.
— Fica tranquila, boneca — abaixou um pouco para falar em meu ouvido. — Tente controlar seus hormônios dentro do seu corpo, sua respiração forte está te entregando.


Capítulo 2 - SOB O MESMO TETO

O silêncio reinou dentro do carro até chegarmos em casa. O banco de trás parecia confortável, pois quase não ouvia a respiração do novo morador da minha casa. Mami parecia muito confortável com aquele desconhecido entre nós e seguiu o caminho como sempre fazia: bem atenta ao trânsito. Eu por outro lado, agora tentava não pensar muito na cólica que estava sentindo, pois quanto menos eu pensasse, menos eu sentiria.
Em casa foi bem estranho, pois enquanto Mami tomou seu caminho para seu escritório, eu corri para o meu quarto e ficou largado na sala. Ouvi minutos depois sua voz no corredor, quando Gertrudes estava lhe apresentando o quarto de hóspedes, que seria dele dali para frente.
Depois de tomar meu banho, consegui me acalmar. Nada como banho com sais de camomila e muita espuma. Coloquei um vestido cor de rosa e desci para o almoço que estava com um cheiro muito bom, mas eu não me daria ao luxo de comer tanto; coloquei algumas azeitonas, salada e tomates. Um pequeno pedaço de frango com queijo e coloquei o suco de uva em meu copo. Enquanto comia de pernas cruzadas, dando atenção unicamente a minha comida, o silêncio que me agradava tanto acabou quando o novo morador desceu as escadas parecendo uma cavalaria.
Ele estava de cabelos molhados e usava uma bermuda com uma regata. Puxou um prato e começou a fazer a montanha de comida. Era arroz, feijão, frango com queijo (muito inclusive) e catou um garfo. Sentou na parte da mesa a minha frente, colocou o suco e deu a primeira garfada, lotando a boca de comida. Antes mesmo que acabasse, colocou mais e fechou os olhos saboreando. Ok que a comida da Gertrudes era maravilhosa, mas ele estava se comportando como um ogro!
— Que foi, boneca? — perguntou ao abrir os olhos. — Incomodada?
— Sim! — exclamei com toda razão. — Coma direito, por favor.
Boneca — engoliu e já preparava outra colher —, isso está uma delícia! É que você não come, né? — apontou meu prato e eu olhei rapidamente para o mesmo. — Então não tem como saber.
— Eu preciso manter...
— A forma, né? — deu de ombros e engoliu novamente.
— Sim, é isto — fiz cara de nojo ainda olhando. — Perdi o apetite — falei empurrando o prato mais para o centro da mesa e ele revirou os olhos.
— Você é uma chata.
Ignorei-o apenas e levantei-me da mesa, andando até a sala de TV, onde eu passei a maioria do meu restante de dia. Lilith estava o tempo todo deitada ao meu lado e vez ou outra ia até o hall de entrada tomar água. Não haviam deveres, mas eu já estava nervosa em pensar em ler Dom Casmurro. Não tinha o hábito de leitura e seria difícil para mim.
Por fim, no final da tarde mami mandou uma mensagem falando que teria que viajar às pressas. Nico ficaria na casa de um amigo e eu ficaria em casa, cuidando de tudo junto com o novo morador. Ela quis que Gertrudes ficasse o final de semana inteiro caso precisássemos de alguma coisa, mas falei que não precisava, que podia libera-la. Éramos grandinhos o suficiente para ficarmos em casa sem companhia.
Quando estava subindo as escadas, novamente a cavalaria estava descendo. Ele estava novamente de cabelo molhado, usava calças jeans e um moletom qualquer. Usava lápis de olho, o que eu achei bem diferente referente a sua personalidade.
Mami pediu para avisar que terá que viajar, então estamos responsáveis pela casa — alertei, começando a subir outros degraus.
— Quanto tempo? — sorriu de lado e cerrei os olhos.
— Se você está pensando em trazer alguma garota, pode parando — levantei um dos dedos. — Precisamos passar confiança para mami e papi.
— Beleza, boneca, mais tarde estou de volta — piscou, e voltou a descer os degraus. — Não morra sem mim e se ouvir barulho, não ande em direção à ele, é assim que morre a patricinha em filmes de terror.
E com essa péssima frase de efeito ele deixou a nossa casa; não sei a horas que retornou, mas olhei no relógio e já eram quase 0h quando fui dormir e não havia sequer um sinal dele.

💖

Depois de escolher um conjunto vermelho de saia e colete para usar com minhas novas sandálias, desci as escadas em direção à sala de jantar para tomar meu café da manhã. Não havia muita coisa na mesa, apenas frutas, pois Gertrudes sabia que eu não comia nada além disso; os frios e pães deveria ser para o , que não demorou descer.
Ele usava jeans, camiseta branca e um colete acolchoado preto. Sentou-se de frente para mim e pegou um dos pães, abrindo e colocando os frios. Rasgou o pão com a boca, e depois de tomar um gole de suco, subiu os olhos amendoados cobertos com lápis preto e deu um sorriso falso, mostrando parte da comida que comia. Revirei os olhos e voltei a atenção para meu celular e minhas frutas.
Eu não ia aguentar viver com aquele cara. Só poderia ser um pesadelo e eu não via a hora de mami e papi chegarem logo, para colocar esse garoto na linha.
? — ouvi Gertrudes vindo da cozinha e parei de comer, virando-me para ela. — Como Ângelo e Leonor não estão, vocês terão que ir à escola com Durval. O carro já está pronto aguardando vocês terminarem.
Espera aí: ser vista na escola com ele, não estava dentro dos meus planos. Acredito que minha cara fez todo o trabalho de aversão à notícia, pois Gertrudes tratou de fazer uma careta para mim, que revirei os olhos e voltei a ficar de frente para aquela coisa, com os braços cruzados e o maior bico que eu poderia fazer.
Eu não queria chegar no colégio e ser vista com ele, afinal, nem cheguei a contar para as meninas que tinha agora um novo morador em minha casa, porém parecia algo inevitável. Eu não tinha outros meios de ir à escola, pois ainda não havia tirado a CNH, afinal, eu nem idade para isso tinha.
Apenas levantei e peguei minhas coisas. O carro estava parado em frente de minha casa e antes que eu pudesse dar o primeiro passo para entrar, o garoto trombou em mim, passando reto ainda comendo um dos pães. Ele entrou no banco da frente e fechou a porta. Abriu o vidro e colocou a cara para fora:
— Vamos, boneca, você vai se atrasar!
Eu não sei aonde ele tinha arrumado aqueles óculos escuro em dois minutos, mas ele estava diferente. Entrei no banco traseiro e puxei meu celular, olhando a mensagem das meninas que estavam no pátio me esperando.
Quando chegamos numa esquina antes da escola, Durval parou o carro e saiu. Fiquei meio confusa, mas antes de sair andando, ele gritou pela janela:
— Estou evitando ser visto com você!
Confesso que essa frase feriu meu ego; quem não queria ser vista com ele era eu, mas não imaginava que minha ilustre companhia pudesse incomoda-lo. Mesmo um pouco emburrada, desci do carro quando parou em frente à escola e segui em direção ao pátio.
O meu "primo" — se é que posso chamá-lo assim — já estava com um grupinho em uma das mesas. Aquele grupo em questão era cobiçado por todas as garotas — menos eu — da escola. Antony Peres, o famoso Tony era líder do Grêmio estudantil, Ricardo Amaral era filho do diretor e Daniel Novaes era o novato que chegou roubando vários corações.
— Ah, e não é só ele que roubou os corações não, viu? — Tati riu, apontando pra . — Parece que as meninas estão caidinhas por aquele ali também.
Então, sobre essa parte: não contei para as minhas amigas sobre , porque não queria realmente que ninguém soubesse sobre ele na minha casa. Se elas tivessem perguntado quando descêssemos juntos do carro, eu iria dizer que ele era o novo aluno que pediu carona e com pena, dei carona. Ainda bem que ele não esperou por isso, o que facilitava para mim.
— Ah, falando em novatos — lembrei-me da Suzana. Suzana? Era esse o nome dela? Enfim, tanto faz. — A novata vai lá em casa para darmos início à um trabalho.
— Hoje eu não poderei ir — Cami falou olhando ainda para o celular. — Minha mãe inventou de fazer compras e eu vou ter que ir junto.
— Eu também não irei — Tati disse em seguida e me senti um pouco insegura. Não vivia sem minhas amigas e não estava tão acostumada a fazer algo sem elas. — Meu pai pediu para que eu fosse até o hospital hoje.
— Tudo bem — respondi, mas não está nada bem.
? — escutei alguém gritando atrás de mim e virei para ver uma garota que eu nunca vi, vindo em minha direção. — Que horas irá começar a festa?
Festa?
— Festa? — perguntei confusa.
— Tá rolando um boato que hoje à noite, a festa será em sua casa!


Capítulo 3 - FESTA?

Juro que não sei dizer o momento em que eu desmaiei, mas alguém me segurou e me levou para a enfermaria. Me fizeram cheirar álcool e bateram em meu rosto; estava sentindo minhas bochechas queimarem.
Quando dei por mim, estavam as meninas e o novato a minha volta. Todos me olhando com olhos esbugalhados esperando uma reação. Céus, eu deveria estar horrível.
Sentei e coloquei a mão na testa, enquanto assimilava as informações que havia recebido antes do meu apagão.
Festa? Minha casa? Meu Deus, aquilo só poderia ser uma grande brincadeira!
Antes de responder qualquer pergunta corri pelo colégio, tentando me equilibrar sobre meus saltos. E ao chegar no corredor principal, vi entrando no banheiro. Corri mais um pouco, olhando para todos os lados possíveis. Ninguém poderia ver aquilo que eu estava prestes a fazer.
Abri a porta do banheiro masculino e fechei atrás de mim. se sobressaltou com o estrondo e tenho certeza que iria falar alguma coisa, mas fui mais rápida que ele:
— Festa? — quase gritei, vendo em pé em frente ao mictório.
— O que está fazendo aqui? — perguntou olhando para mim e para frente. — Você está ficando maluca, boneca?
— Guarda isso — apontei para a torneirinha que ele segurava. — Precisamos conversar!
Ele revirou os olhos, terminou o que tinha de terminar e fechou as calças virando para mim. Levantei as sobrancelhas indicando a pia e ele riu, passando por mim, ameaçando me tocar. Quando finalmente lavou as mãos, cruzei os braços e ele se virou apoiando na pia.
— Não vai me explicar? — exigi e ele riu. — Para de rir!
— Quantos anos você tem, boneca? — perguntou e eu pisquei confusa.
— Dezessete.
— Eu tenho dezenove, quase vinte — fiquei surpresa, não imaginava que ele era tão... velho. — É de lei; os pais saem, os ratos fazem a festa. E como você não tem irmão mais velho, posso fazer esse... papel. Afinal, não mudaria muita coisa — estranhei, mas logo voltou os olhos para mim. — Enfim, boneca, você será a anfitriã e ninguém vai saber sobre nós.
Nesse mesmo momento alguém abriu a porta e antes que eu pudesse se quer pensar, já estava dentro de uma cabine, junto com . Ele trancou e ficamos em silêncio. A outra pessoa abriu a cabine do lado, mas parou na frete da nossa. Senti os braços de me pegando pelas pernas e me levantando. Enlaçou minhas pernas em sua cintura e eu quis brigar com ele, mas ele só fez cara feia e mexeu a boca mandando eu "ficar quieta". A pessoa ficou uns minutos parada na frente da nossa porta e vi sua sombra mexendo. Ele estava tentando olhar por baixo da porta? Em seguida entrou no banheiro do lado. Fez xixi, saiu da cabine, lavou as mãos e saiu do banheiro cantarolando.
No mesmo momento, suspirei e joguei as mãos mais tranquila pelos ombros do . Sua respiração estava batendo em minha bochecha e sua mão apertou minha cintura. Voltei os olhos para os seus e nossos narizes se encostaram. Aquele banheiro era realmente pequeno, precisava aumentar um pouco; e tudo parecia mais quente. Meu Deus, e o ar-condicionado do banheiro?
pigarreou, me colocando no chão em seguida. Lambi os lábios e suspirei enquanto abria a cabine que estávamos. Até que aquele banheiro masculino não fedia tanto.
— Eu vou sair primeiro e depois você sai — disse já abrindo a porta principal do banheiro.
— Ei, não me deixa aqui! E se alguém me ver saindo do banheiro masculino? — perguntei aflita, e ele apenas riu. — E sobre a festa? Você trate de espalhar que não acontecerá!
— Pensa como seria estranho: você há dois minutos atrás, ia dar a festa; depois desistiu — ele analisou, o que me deixou confusa. — Como ficaria sua reputação na escola como a estraga prazeres? Ah, boneca, se você fizer essa festa, você vai ser ainda mais popular, pensa só? Detalhe: sem organizar a festa maravilhosa que será, porque eu estou organizando. Ninguém irá saber e ainda vai levar todo o crédito.
Eu não queria ser conhecida na escola como a estraga prazeres, afinal minha reputação eu tinha a zelar. Mesmo um pouco contrariada, concordei que aquilo aumentaria minha popularidade na escola, se não, na cidade! Isso me soava bem aos ouvidos, por isso, balancei a cabeça e riu, já abrindo a porta.
Não foi tão difícil sair do banheiro masculino, porém dentro de cinco segundos que eu estava do lado de fora, o sinal tocou e todos os alunos saíram das salas, indo para a segunda aula do dia.
Na saída da escola, me despedi das meninas e na porta de entrada a novata estava me esperando. Mascava um chiclete e os olhos azuis me encararam. Durval já estava me esperando e abriu a porta para entrarmos. Quando sentei no banco, ela já jogou um livro em minhas pernas, o que me deixou confusa e só então me dei conta de ser Dom Casmurro quando virei o livro.
— Você precisa ler, patricinha — bateu a porta do carro e jogou a mochila no colo. — Se vamos trabalhar juntas, não quero trabalhar com uma burra.
Fiquei ofendida. Não era porque eu não gostava de ler que eu era uma burra, ou que eu não sabia fazer alguma outra coisa; eu ia muito bem em matemática. Era uma das melhores alunas da sala. Só não tinha o hábito de ler, mas ainda assim eu não ia deixar aquela garota me menosprezar e provaria a ela que leria.
Assim que chegamos em casa, Gertrudes já arrumava a mesa para o almoço. Sua comida estava muito cheirosa e tenho certeza que havia feito guloseimas deliciosas para nós.
— Ger, essa é a... minha colega da escola — falei, tentando lembrar o nome dela, mas não conseguindo.
— Tudo bem, mocinha? — perguntou e a novata sorriu. Acredito que muito sincera, nunca vi aquela cara nela.
— Sim — ficou em pé. — Prazer, Suelen.
Elas começaram a conversar sobre comida, enquanto eu devorava minha salada e tomava um pouco do meu suco. A porta principal foi aberta e antes que eu pudesse correr e impedir , ele já estava na sala, pronto para comer. Cumprimentou Gertrudes com um beijo e parou quando me viu com a novata logo ao lado. Ela ficou vermelha e ele sorriu.
Eu estava nervosa; não queria que ninguém soubesse dele ali e tenho certeza que uma grande incógnita surgiu na cabeça dela. Ela devorava um prato de comida e parou assim que se fez presente.
— Oi, Suelen — cumprimentou-a, depois pegou um prato, começando colocar sua comida. — Está sendo torturada, huh?
— Vocês... — ela apontou para nós dois fazendo uma careta — Vocês são irmãos?
— Claro que não! — resmunguei exaltada. — Ele está morando aqui de favor. Na verdade, ele é sobrinho do meu papi que eu nem sequer conhecia.
— Jamais imaginaria — ela arregalou os olhos e voltou a comer.
— Suelen, não comenta com ninguém — pediu , comendo mais devagar do que o que ele estava acostumado. — Não quero ter a fama de viver com ela.
— Qual problema comigo? — larguei o garfo dentro do prato, cruzando os braços irritada.
— Nenhum, boneca, mas você é muito... — ele fez uma careta — você.
Queria relevar e dizer que aquilo não me chateava, mas eu sempre olhava minhas atitudes e perguntava aonde eu havia errado para merecer esse tratamento. Confusa, levantei da mesa e subi para o meu quarto. Precisava de ao menos cinco minutos sozinha, mas nem Lilith deixava. Feliz pela minha chegada, ela pulava animada nas minhas pernas e então tirei as sandálias de salto e finalmente coloquei meus chinelos, coisa que eu raramente usava. Aquilo me levava de volta à infância, mas não gostava de ficar tão vulnerável assim. Se é que um chinelo tinha todo esse poder.
Minutos depois, Suelen entrou no quarto sem ao menos pedir licença, com a camiseta toda molhada de suco. Estava um pouco irritada por isso.
— Posso te arrumar uma camiseta — fiquei em pé, entrando no closet. Ela veio junto a meu encalço e escolhi uma babylook rosa claro, escrito "feminist". — Se quiser tomar um banho... — entreguei uma toalha. — Pode ficar à vontade, usar a banheira, meus produtos, não me importo!
ESSA ERA A MINHA CHANCE!
Ela só balançou a cabeça e agradeceu. Se trancou no banheiro e pelos próximos trinta minutos, foi lá que ela ficou. Peguei finalmente o livro para ler e mesmo que a linguagem fosse bem difícil eu tentava entender. O começo parecia tão confuso e ainda estava na página cinco!
? — ouvi a voz de Suelen fora do banheiro. — Onde eu posso colocar a toalha molhada?
— Pode deixar no cesto do banheiro, que no final da tarde eu desço para Gertrudes lavar — cruzei as pernas em cima da cama e a minha nova colega sentou-se em frente, agora com os cabelos molhados, minha camiseta e ainda com sua calça.
— Não liga para a forma que o falou com você. Garotos não batem muito bem — ela disse e eu me senti estranha. Quando as pessoas me magoavam, não tinha ninguém que chegasse e me falasse que estava tudo bem e me consolasse.
— Tudo bem. Posso secar seus cabelos? — pedi um pouco ansiosa e ela revirou os olhos, mas ficou de costas para mim.
Enquanto eu passava o secador pelos fios negros dos seus cabelos, ela comentava sobre algumas cenas do livro, algumas partes importantes que deveríamos incluir no nosso trabalho e coisas do tipo. Quando terminei, não pensei duas vezes em levá-la até a penteadeira e enquanto ela digitava o trabalho, eu passava maquiagem em seu rosto. Éramos da mesma cor e a base era sensacional em nós duas.
— Não sei porque está fazendo tudo isso — ela disse finalizando mais um parágrafo, estralando os dedos.
— Hoje teremos a festa aqui em casa, lembra? — pisquei, colocando-a para ver seu rosto.
A maquiagem que eu havia passado era bem clara, diferente do lápis preto que ela usava, diferente do cabelo escorrido — que agora tinham ondas leves — e também bem diferente do batom vermelho sangue, estava um batom rosado espalhado por seus lábios.
— E antes mesmo que você fale que não tem roupa, eu posso emprestar alguma coisa aqui — voltei correndo para o meu closet e encontrei uma saia curta de lantejoulas que nunca havia usado, pois não servia em mim, era um tanto mais larga. — Esse ficará ótimo! E com essas botas ficará lindo!
— Botas Louis Vuitton? — ela arregalou os olhos e eu assenti. Não usava muito as botas, mas poderia emprestar sem problema algum. — Você deve estar muito doida!
— Eu vou tomar um banho também e começar me organizar, preciso de tempo — disse, já pegando caminho para o banheiro. — Caso precise de algo, Gertrudes pode ajudar, basta apertar o 9 no telefone da cabeceira.
Feliz, apenas entrei no banheiro e demorei meus longos minutos lá dentro, questão de lavar os cabelos direito e fazendo vários nadas na água morna do chuveiro. Passei uma máscara para diminuir a oleosidade da pele e sai do banheiro com o roupão de banho no corpo e a toalha de rosto na cabeça. Suelen estava vendo na minha coleção de Barbies, que ficava na parte vertical da escrivaninha, fechada. Era mais de cem bonecas, todas em perfeito estado, com roupas bem estilosas e cuidadas.
— Por isso te chama de boneca? — ela perguntou e eu fiquei pensativa. Apenas dei de ombros e comecei a pensar na roupa que usaria.
— Acredito que não — comentei, separando a roupa e pegando o sapato também. Ainda era pouco mais de 18h, mas queria estar pronta para quando todos chegassem. — Ele está morando aqui tem dois dias e nunca entrou nas dependências do meu quarto. Também não entendo o motivo de me tratar da forma que ele me trata.
— Ele parece ser uma pessoa tão legal — ela continuava deitada, como se fôssemos melhores amigas até tal ponto.
Dei de ombros, afinal, não queria falar de enquanto escolhia as cores da minha maquiagem.
— Em meu quarto só tem ursos de quando eu era criança — Sue falou sentada no meu puf de salto.
— Eu tenho alergia a pelúcias — comentei espalhando um corretivo nos meus olhos. — Quando eu era pequena vivia no hospital e mami teve que doar todos.
— Aí você fez uma coleção de Barbies? — perguntou rindo e eu apenas dei de ombros; não gostava quando ironizavam minha coleção.
Base, sombra marrom, rímel, blush e finalizei com um gloss labial avermelhado, bem simples. Meus cabelos já estavam secos — já que Suelen insistiu para retribuir o favor — e apenas finalizei com um reparador de pontas.
Era mais de 20h quando finalmente terminei de me vestir. Tive que ajudar Suelen organizar sua roupa, já que a camiseta estava um pouco sem estilo para o seu jeito despojado e mesmo amando a blusinha, dei a liberdade de corta-la e fazer um cropped. Coloquei o vestido que tanto pelejei para usar: um vestido preto de couro da John John. E a minha incrível sandália de pelinhos da Manolo. Estava me sentindo linda. Uma grande mulher. Maravilhosa!
— Eu queria ter tanto dinheiro assim, para jogar para o alto — disse Suelen. — E ainda dizem que não traz a felicidade...
Apenas ignorei, afinal estava muito animada já podia ouvir a música das caixas de som da área da piscina. Abri a porta do quarto e percebi que a casa estava silenciosa.
Descemos as escadas e assim que saímos pela porta da cozinha, tranquei a porta com chave para que ninguém invadisse e fizesse besteiras. Caminhamos em direção ao salão da piscina, onde grande parte da escola já estava. Realmente, falou que organizaria tudo e estava tudo muito iluminado e cheio de pufs pelo gramado. Quando cheguei, bateram palmas e logo encontrei minhas amigas no centro do salão, chamando atenção de vários garotos da escola.
— Meninas, Sue, Sue, Tati e Cami! — apresentei e todo mundo se cumprimentou.
Andei até o bar e pedi uma Pina colada. Não demorou para o barman contratado entregar para a anfitriã. Ainda não havia visto o meu "parceiro" de crime, mas sabia que deveria estar por aí correndo, pois, organizar festas não era nada fácil, nem mesmo para ele.
— Ficou tão incrível — Cami falava enquanto eu voltava para a roda. — Amiga, como conseguiu organizar isso tudo tão rápido?
— Ah... — não sabia o que responder. — A deve conseguir tudo — uma voz masculina falou logo atrás de mim, mas não quis me virar para ver quem estava falando. — Mexe alguns pauzinhos e puf, tudo pronto!
, esse é o meu irmão mais velho — disse a minha nova colega. — Dani, essa é a , minha mais nova amiga.
E então ele sorriu.


Capítulo 4 - FESTA + PROBLEMAS

O álcool fazia um efeito muito rápido em meu organismo, por isso decidi que deveria deixar de lado meu terceiro drink ou estragaria meu Manolo novo de alguma forma.
Daniel ainda estava parado me olhando intensamente com aqueles olhos incrivelmente azuis e curiosos. Aquilo me deixava sem jeito, mas logo as meninas trataram de nos deixar a sós. Será que rolou um clima e elas perceberam e deram o fora? Porque eu era muito ruim para entender qualquer sinal, ainda mais vindo de um garoto tão lindo.
Se juntasse nossos genes, nossos filhos seriam lindos; louros escuros, de olhos indecisos entre verdes ou azuis e a pele clara, quase com tom de neve.
Mas... Gente eu estava pensando em casar com ele? Tão logo?
— Parabéns pela festa — disse, me tirando do transe e apenas abri um sorriso curto. — Está ótima, a cerveja é boa e os petiscos são uma delícia.
— Obrigada! — ri sem graça, me engasgando logo em seguida, arrancando um fio de preocupação dele. — Estou bem, tenho asma! — foi a desculpa que eu consegui dar de imediato e ele ficou um pouco surpreso.
— Sei bem como é, também tenho — ele deu de ombros e começou a andar em direção ao jardim, mas eu tentava pisar nas pedras próprias para não pisar na grama. Não queria meu Manolo atolado na terra. — Por que não se livra dos seus saltos por alguns minutos?
— Ah, não acho uma boa — falei sem graça e ele deu de ombros, sorrindo. — Me sinto bem de salto.
— O tempo todo? — perguntou e eu estranhei. Logo suas bochechas ficaram vermelhas e ele mordeu o lábio. — Eu percebi isso na escola, esse lance do salto.
— Ah — ri sem graça. Olhei para o lado e percebi que no fundo do quintal alguns garotos usavam drogas, pois conseguia ver a ponta da algo aceso. — Alguém está usando alguma coisa ali!
— Não acha melhor deixar para lá? — sugeriu Dani e eu apenas neguei, já andando cautelosamente até o local.
O cheiro de algo queimando estava muito forte e não parecia ser cigarro. Em meio aos meus passos, eles perceberam e trataram de apagar as pontinhas acesas. Quando dei por mim, um com olhos vermelhos e pesados vinha em minha direção um tanto sorridente. Ele era um dos que estava usando alguma coisa que eu não sabia dizer o que era??
— Oi, boneca — passou as mãos pelos bolsos e eu tentei ver quem estava junto com ele. Era Ricardo, Antony e mais dois garotos que eu não lembrava ser da escola.
? — segurei seu braço e entrei na parte detrás do salão, enquanto deixava os outros meninos para trás. — O que está fazendo?
— Me divertindo? — respondeu olhando-me de cima abaixo e levantou as sobrancelhas fazendo um bico. — E você? Como consegue se divertir em cima desses saltos?
, para de fugir do assunto — voltei seus olhos para os meus, segurando seu rosto. Estavam completamente vermelhos. — O que você está usando?
— Jura que você não conhece o cheiro de maconha, boneca? — passou a língua pelos lábios e sorriu.
— Se tivesse mencionado que teria uso de drogas, nada disso estaria acontecendo — reclamei um pouco irritada por ele ter zombado o fato de eu nunca ter sentido cheiro de maconha e me fazer sentir bobinha.
— Você é muito careta, boneca! — revirou os olhos, voltando-se para mim. Tirou uma parte de um baseado do bolso e um isqueiro, voltando a acender sem dificuldade. — Que tal dar uma relaxada, hein?
— Isso é muito errado — senti o álcool atingir mais uma vez minha consciência e o cheiro da maconha voltou a entrar pelo meu nariz. — Pelo amor de Deus, tenha cuidado para que ninguém veja, porque se mami e papi descobrem que teve uma festa, vou tomar um castigo, mas se descobrirem sobre as drogas, capaz de eu ter que me mudar para Itália, para um colégio interno de freiras.
— Você não faz o tipo de garota que viraria freira, boneca — ironizou, revirando os olhos.
Sua mão direita encostou na parede que estava atrás de mim e o cheiro de seu perfume me deixou um pouco desnorteada. Era cítrico e cada vez mais eu me sentia... Não sei dizer, mas acho que estava me dando dor de barriga, pois sentia um grande aperto no pé de minha barriga. Sua outra mão levantou o baseado para a boca e antes que pudesse sugar a fumaça, ele sorriu.
Boneca — ele me encarou. Seus olhos estavam rentes aos meus e tudo que eu conseguia ver, era o quão vermelho eles estavam.
Colocou o baseado entre os lábios e sugou o máximo possível. Segurou a fumaça por alguns segundos e soltou para o lado, enquanto eu só conseguia observar. Ele riu divertido e eu estava um pouco tonta só pelo cheiro tão próximo. Sua mão subiu pela minha coxa e levantou na altura de sua cintura. Me prendeu ainda mais em direção à parede e senti alguma parte do seu corpo tocar o fundo da minha calcinha, o que me fez morder o lábio.
— Você quer? — ofereceu-me o baseado, mas apenas neguei.
Ele então puxou mais um pouco e mais uma vez soprou para o lado, empurrando-se ainda mais em direção ao meu corpo, mas eu estava perdida. Apenas empurrei-o um pouco, abaixando a minha perna e ajeitando meu vestido. Eu precisava sair dali!
— Cuidado com... Isso — apontei para o cigarrinho e caminhei pelo outro lado do salão, pronta para entrar no banheiro.
Foi quando achei o banheiro do SPA que estava incrivelmente limpo. Entrei e me sentei na privada. Estava com o corpo quente ainda e acho que havia feito um pouco de xixi na calcinha, mas não era aquilo que pareceu quando eu abaixei a minha calcinha. Já havia acontecido uma ou outra vez, mas não tão... TÃO.
Por fim, usei o banheiro e voltei para a festa. Onde encontrei Sue beijando um cara qualquer, Tati estava com outras meninas conversando e Cami estava dan... CAMILA ESTAVA DANÇANDO EM CIMA DA MESA!
Eu precisava salvar minha amiga de tamanha vergonha!
Por isso corri até onde ela estava e insisti para que ela descesse, porém ela fingia não ouvir. Peguei uma de suas mãos e puxei sem força, apenas para ela abaixar. Gritei em seu ouvido mandando ela parar com aquilo, mas pouco se importou e continuou. Por fim não insisti, já que minutos depois ela desceu e jogou-se no gramado.
Percebi uma movimentação estranha na frente a minha casa, pessoas correndo para os fundos do quintal, pulando as cercas de arbustos e sumindo. Caminhei até onde conseguia ver o enorme portão principal e pude ver alguns carros de polícia estacionados. Eles já estavam entrando na nossa propriedade com aval do porteiro e então eu gelei. Ali parada, fiquei até que eles chegassem em mim.
— Senhorita ? — perguntou e eu assenti amedrontada. Estava ferrada! — Recebemos algumas denúncias da sua festa, música alta, uso de álcool e drogas.
— Drogas? — coloquei as mãos para frente e as juntei. Atrás do policial que falava comigo, tinha mais quatro, o que me deixou mais nervosa ainda. — Não há ninguém usando nenhum tipo de droga.
Menti. Até eu deveria estar com cheiro de maconha.
— Podemos fazer uma vistoria? — indicou com os olhos a parte do salão. — Visto que a maioria é menor de idade, nem deveriam consumir bebidas alcoólicas.
— Claro, a vontade.
Caminhei logo atrás deles, mas desfiz meu caminho quando lembrei de Cami jogada no gramado. Ela estava completamente bêbada e não poderia deixar minha amiga ali para ser vista pelos policiais e consequentemente ser levada para o hospital.
Com muita dificuldade e meus saltos entrando dentro da terra, levantei minha amiga — que agora resmungava — por um dos braços. Corri por trás da casa, pegando as chaves da cozinha dentro do meu decote. Abri a porta e entrei com uma Cami quase morta. A primeira dificuldade foi subir as escadas com aquele peso morto e com meus saltos — que agora deveriam estar quase fracassados.
Entrei no quarto e coloquei minha amiga dentro do chuveiro, em água gelada, mas de nada adiantou. Tirei suas roupas, sequei seu corpo e cabelos com a toalha e por fim coloquei um dos meus pijamas. Larguei-a na cama e desci correndo para o andar debaixo, pronta para voltar ao salão, mas a luz da sala estava acesa e alguns policiais estavam ali.
Caminhei até o centro da sala e a parede que cobria o resto da visão acabou. O sofá estava completamente cheio, assim como havia algumas pessoas sentadas pelo chão.
— Os papais já foram acionados e estão a caminho para buscar os filhos mal criados — disse o policial que parecia ser o responsável pela "missão".
No sofá eu podia ver Sue, Tati, uma menina que eu não conhecia, Antony, Ric, Dani, Liz, Fabio, mais alguns que eu não lembrava o nome no chão e no canto de um dos sofás, estava , ao lado do policial que se achava. Ele estava encostado, com a face completamente tranquila, enquanto todos pareciam nervosos com a situação. Percebi que ele tinha uma parte do lábio machucada e nem por isso desmanchava a tranquilidade no rosto.
— Onde você estava? — perguntou o policial que estava ao meu lado. Ele era enorme, tinha a barba bem feita, os braços grandes e o corpo todo musculoso. Seus olhos azuis estavam focados em mim desde que eu havia chego, o que me deixava um tanto incomodada.
— Eu... — não podia falar que Cami estava no andar de cima. — Vomitaram nos meus Manolos e eu fui lavar — olhei junto com ele para as minhas sandálias agora molhadas, mas por conta do banho que dei em minha amiga. Eu não acredito que fiz isso com minha sandália.
Ele apenas me olhou de canto e piscou um dos olhos, o que me deixou desconfortável. Procurei algum lugar para me sentar e encontrei os olhos de fincados no policial ao meu lado.
Na mesma hora, a campainha tocou e abri a porta para os pais de Antony. Ele parecia furioso com o garoto e quase arrancou suas orelhas quando o policial o liberou. Sentei-me ao lado de e foi então que percebi que ele estava algemado. De todos, ele era o único.
— Ei! — protestei com o policial e arregalou os olhos, apenas balançando a cabeça para mim, negando. — Por que ele está algemado? — olhei todos os outros e não encontrei ninguém da mesma forma.
— Acontece que o boyzinho aqui é maior de idade — disse o policial. — Como todos são menores, os pais estão vindo limpar a barra, mas o garotão não tem esse privilégio, além do mais, encontramos ele usando drogas com outros menores de idade e uma certa quantidade de maconha.
— Mas...
Boneca, não piora — disse . Ele apenas fechou os olhos e tombou a cabeça para trás. Seu tom tinha sido carinhoso, não o presunçoso de sempre.
Depois disso, eu fiquei quieta. Não queria complicar as coisas e ele não parecia querer minha ajuda, se bem que eu não poderia fazer muita coisa. Apenas abracei meus braços e deitei minha cabeça em seu ombro, o que fez ele se mexer ao meu lado.
Sue e Dani acabaram indo embora juntos, pois pasmem: ela era maior de idade e estava responsável pelo Dani. Quando todos foram embora e sobraram apenas eu e , os policiais começaram a se organizar para sair de casa.
— Fica em pé, princesinha — o grandão de olhos azuis falou, com uma fitinha de náilon na mão.
— Vocês disseram que menores de idade teriam a barra limpa — ficou em pé em minha frente. Ele era bem maior que eu, quase da altura do policial.
— Barra limpa com os pais! — respondeu ele, voltando os olhos para mim e puxando meu braço.
— Ei, você está machucando ela — interviu, empurrando o cara com as duas mãos, voltando a ficar em minha frente.
— Você quer tomar outra porrada, garoto? — um policial que estava do outro lado falou, rindo junto com outro. — Você vai pegar uns 4 anos de jaula.
— Tudo bem, mas deixem ela aqui! Em casa, segura — ele olhou para mim e seus olhos não pareciam nada contentes com a situação. — Ela não sabe lidar com isso.
Ele sabia muito bem, pelo visto.
A porta foi escancarada no mesmo momento e pude ver papi entrando em casa com outros caras atrás dele. Estava aparentemente nervoso e mami vinha logo atrás. Eu havia estragado a viagem a trabalho; realmente, eu não consigo ficar sozinha.
— Façam o favor de tirar as algemas dele agora — apontou para e voltou-se para o policial mais perto de mim —, e se afaste da minha filha.
Os policiais seguiram as ordens e me dei conta de ser o delegado amigo de papi ao seu lado. Tiraram as algemas de e logo ele estava massageando os pulsos.
— Acredito que o nosso trabalho acabou por aqui — o delegado disse sério, chamando com as mãos seus policiais.
Todos fizeram uma fila e saíram de dentro de casa. Mami apenas fechou a porta e jogou as chaves no aparador, enquanto papi andava de um lado para o outro na sala. Ele estava furioso com toda a situação e mami parecia desapontada.
— O que vocês tinham na cabeça? — perguntou de início e apenas ficamos quietos. — , qual seu problema? Deixar a organizar uma festa?
— Na verdade eu quem organizei — papi encarou ele surpreso. — Pois é, a bo... não teve culpa. Ela até tentou impedir e eu manipulei ela.
— Que ideia de adolescente foi essa? Você tem dezenove anos! E ainda ser pego com drogas? Em uma festa com menores de idade? Pego fumando com eles? — papi gritava mais, enquanto mami apenas observava atrás dele. — , você não acha que tem problemas demais para fazer outros?
— Ah qual é, Ângelo! — ele se exaltou, ficando em pé. — Você nunca se importou e quer se importar agora? Pelo amor de Deus — ele revirou os olhos.
— Acontece que sou seu responsável legal — disse papi, apontando o dedo em seu peito. — Será a última vez que pago sua fiança. E você percebeu que quase colocou... em problemas?
pareceu se incomodar agora. Ele virou-se em minha direção e sorriu de lado. Eu deveria estar com a cara mais de tacho impossível, porque ele fazia uma cara engraçada ao me olhar.
— Desculpa, — falou sincero. Mesmo de longe eu poderia ver que sua pele estava quente. — Não vai mais acontecer, mas você deveria parar de acreditar tanto nas pessoas.
Papi pareceu ficar ainda mais furioso, mas não se importou e subiu as escadas de casa em um único pique para seu quarto. Aquele aviso tinha sido sobre ele?
— Você usou maconha? — papi perguntou e eu neguei nervosa. — Ótimo. Já para o seu quarto! Está de castigo por uma semana.
Obedeci, começando a subir as escadas e olhando a desgraça que aconteceu com os meus Manolos, mas acho que meus pais não perceberam que eu ainda não havia sumido e começaram a conversar.
— Eu realmente não sei o que fazer com ele, Leonor — papi jogou-se em uma das poltronas. — Desculpe pelo que ele está causando com .
— Amor, nós daremos um jeito — mami afagou o peito de papi e ele sorriu. — Ele ainda irá superar Gabriel.


Capítulo 5 - ESPECULAÇÕES

Gabriel. Aquele nome havia me perturbado a noite inteira e não consegui dormir direito. Tive que passar algumas camadas de corretivo na manhã seguinte para amenizar minhas olheiras.
Não havia descido para o café da manhã, na realidade não estava com muita fome. Ouvi barulho de água vindo do meu banheiro, então com certeza Cami estava tirando resquícios de ressaca.
Revirei na cama e fiquei de barriga para baixo. Peguei meu celular e comecei ver as postagens da festa; até que foi legal apesar do fechamento de ouro que tivemos com papi e mami furiosos com e consequentemente comigo.
Havia uma foto de Cami completamente louca em cima da mesa, de Sue beijando o garoto pelos cantos, Tati e Dani fazendo desafio Pong Beer (o famoso jogo dos copos com cerveja, quem acertar bebe), Antony e Ric com e outros garotos nos fundos do quintal, e uma de .
Ele estava de olhos fechados, soltando fumaça de maconha pelos lábios e uma mão feminina estava em seu pescoço, como se o estivesse enforcando. O que dava noção de aquela garota estar sentada em seu colo e o pior: era a poltrona que havia no quarto de hóspedes.
Quando a porta do meu banheiro abriu, levei um pequeno susto, mas continuei olhando aquela foto com muita atenção. Era muita cara de pau daquele garoto.
— Você não vai acreditar, Cami — comecei agora bloqueando a tela do celular e me virei para conversar com a minha amiga. Mas não era ela. — O que você está fazendo no meu quarto?
— O chuveiro do meu banheiro queimou — estava apenas com a toalha embolada por cima da torneirinha e o resto do corpo nu.
Ele tinha algumas tatuagens espalhadas pelos braços e era a primeira vez que eu conseguia ver, porque ele sempre estava de jaqueta cobrindo os desenhos. Um dos braços era fechado, tatuagens coloridas e pretas cobriam, enquanto o outro ainda estava intacto e havia uma grande tatuagem no peito com asas de anjo e um número em algarismos romanos entre as asas.
— Garoto! — lembrei que estava de calcinha shorts rosa e camiseta de pijama. Puxei o cobertor para cima de mim. — Como você é petulante! Tem o banheiro do corredor se você não sabe!
— Eu queria saber como é usar os produtos de Barbie — ele deu as costas, indo para a porta.
Gente, aquele era o paraíso; ou o inferno!!! Porque que bunda mais sexy! Por incrível que pareça, ele não tinha pelos no bumbum e as pernas eram cobertas de pelos finos, não muito exagerados. Dos lados do bumbum dele, tinham entradinhas e no final das suas costas, dois furinhos.
— Limpa a baba, boneca! — ele disse assim que saiu porta a fora.
O único protesto que fui capaz de fazer, foi pegar meu Manolo que estava ao meu lado e tacar em suas costas.

💖

Ainda sobre Gabriel: eu precisava saber quem era essa pessoa, e porque ela mexia tanto com .
Será que foi algum namorado?
Eu não acho que seja gay, mas poderia ser bissexual.
Não poderia perguntar para papi e nem para mami, assim como não ia chegar diretamente e conversar com sobre isso, porém eu não imaginava outra forma de descobrir. Ele é sobrinho do papi, mas nunca tivemos contato com sua família, eu nem se quer o conhecia antes de morar conosco.
Se eu realmente queria descobrir alguma coisa, teria que arrumar alguma forma e por isso, fazer amizade com ele era a única opção mesmo a contragosto.
O final de semana seria de castigo. Mami nem se quer deixou Cami ficar em casa e pediu para Durval levá-la assim que terminou o café da manhã. Eu estava sentada na sala de TV assistindo um filme, quando papi passou completamente arrumado e mami vinha atrás em seus saltos finos.
— Teremos um evento para ir e como você e estão de castigo ficarão em casa sob os cuidados de Gertrudes — papi disse, ele estava bem sério, não ia contrariá-lo de forma alguma. — Se eu sonhar com outra festa ou algo do tipo, você estará encrencada!
Lilith estava no meu colo quentinha, completamente sonolenta enquanto assistíamos um filme qualquer e eu estava quase caindo no sono, mas ouvi alguns acordes musicais que não vinham do filme é sim do escritório do papi.
Ele não usava o piano havia alguns anos; parou de praticar quando... quando mami sofreu um acidente.
Era uma noite chuvosa, mami estava voltando de sua viagem de Minas Gerais, um congresso de psicologia sexual; antes dela sair, eles brigaram, pois papi estava suspeitando que mami estava tendo um caso com colega de trabalho — foi tudo que consegui ouvir aos meus 12 anos — e claro que ela negava. Dizia que era coisa de sua cabeça, que jamais faria isso com ele e que iria pensar sobre o relacionamento durante a viagem e orientava que ele fizesse o mesmo. Por fim, fiquei em casa e papi se embebedou e começou a tocar músicas e músicas durante os dias que mami estava fora. E naquela última noite da sua vinda, um caminhão desgovernado bateu em seu carro e amassou o lado do passageiro, deixando mami intacta. Papi arrumou meios, trouxe mami para o melhor hospital de São Paulo e alguns dias depois, ela já estava muito bem, inclusive disposta a não desperdiçar nada em sua vida, inclusive a paz. Depois disso, nunca mais vi meus pais brigando nem por uma azeitona.
Caminhei até o escritório e conseguia ouvir perfeitamente a música Shallow da Lady Gaga com o Bradley Cooper. Espiei pela fresta da porta e tinha os dedos em ação, enquanto sentia a música de olhos fechados.
Abri um pouco mais a porta e entrei no local. Ele me observou andar, mas não parou de tocar, apenas voltou os olhos para as teclas. Seus olhos estavam carregados de sentimentos desconhecidos e confusão, isso eu pude perceber e sentir. Seu sentimento atravessou por mim, me deixando um tanto triste por vê-lo daquela forma e meu coração ficou acelerado. Eu não sabia o que estava sentindo ou porque estava sentindo.
Coloquei os dedos sobre as teclas e comecei tocar a música junto com ele, mas logo ele tirou seus dedos e deixou que eu tomasse conta da música.

I'm off the deep end, watch as I dive in
I'll never meet the ground
Crash through the surface, where they can't hurt us
We're far from the shallow now

Cantei suavemente, sentindo a música aos poucos sair de mim. Eu nem sabia ao certo se estava cantando corretamente, mas estava gostando do que estava fazendo.

In the shallow, shallow
In the shallow, shallow
In the shallow, shallow
We're far from the shallow now

Ele cantou comigo e eu sorri surpresa, porque se tinha uma coisa que ele parecia fazer muito bem, era cantar. Toquei algumas últimas notas, apenas tirei os dedos das teclas e virei-me para ele.
— Não sabia que você cantava assim tão bem — comentei e ele deu de ombros. — Nem que tocava. Nem que tinha tatuagens...
— Há muita coisa sobre mim que você não sabe, boneca — ele piscou e passou as mãos pelos cabelos.
— Quero saber o motivo de me chamar de boneca — pedi ficando em pé e ele fechou a proteção das teclas do piano.
— É óbvio! — revirou os olhos. Eu pulei para me sentar na calda do piano, fazendo-o observar todos os meus movimentos. — Você é toda popular, uma patricinha, rica e tem tudo sob o seu controle, porque querendo ou não, é poderosinha. Fala sério, não vai concordar?
— Isso é colocar estereótipos sobre uma pessoa, você sabe? — disse e ele manejou a cabeça.
— Dentro de todos os seus apelidos, boneca é o meu favorito, sabe por quê, boneca? — neguei ansiosa. — Porque só eu te chamo assim.
Quando dei por mim, já estava debruçada sobre o piano, com o rosto próximo ao de , que estava sentado no banco em frente as teclas. Meus olhos captaram os dele rapidamente, assim como os seus encaravam os meus olhos e lábios. Nossos narizes se tocaram, mas a porta se abriu e nos separamos rapidamente, enquanto Gertrudes trazia suco e torradas para comermos.

💖

O final de semana havia passado tão rápido que mesmo de castigo, não havia percebido. Havia muita coisa do colégio que não havia feito, então tomei atitude de finalizar tudo.
O café da manhã foi um tanto estranho. havia simplesmente sumido, enquanto mami e papi estavam em seus mundos fechados. Quando ele desceu, ia passando direto para a porta, mas papi percebeu e chamou.
— Você pode pegar o Renegade para ir para escola — entregou-lhe as chaves, deixando o outro confuso. — Sua responsabilidade é levar e trazer , ir aonde ela quiser.
Não sabia se ficava revoltada por ter uma babá ou se ficava agradecida por ter alguém disponível para fazer o que eu quisesse, quando eu quisesse.
— Achei que iria ser apenas escola — ele colocou os óculos escuros sobre os olhos e continuou o caminho pela porta. — Você vem ou não, ?
Estranho. Me chamando de ? Essa era nova.
Larguei minhas frutas para trás, pois percebi que ele não queria trocar palavras com papi, nem o mesmo ambiente.
De uma coisa era certa: carro automático + , não era uma boa combinação. O carro dava trancos fortes e quando ele freava, o cinto me enforcava.
— Você é péssimo — falei quando paramos mais uma vez em um semáforo, depois de uma quase decapitação.
— Nunca nem se quer peguei em um carro automático, boneca — ele revirou os olhos, ligando o som do carro. — Você deveria agradecer, pois agora tem um motorista particular, somente seu.
— Por que me chamou de ? — notei. Ele desviou os olhos e então acelerou, e o carro deu uma bela arrancada. — Por causa do papi?
— Aconteceu que eu e seu papi, não nos damos muito bem — frisou a palavra, e suspirou.
— E porque está morando conosco? — sondei curiosa. Curiosíssima!
— Isso não vem ao caso, dona — piscou, virando a esquina antes da escola e parando o carro. — Você poderia descer e evitar que fôssemos vistos juntos?
Abri a boca chocada. Não acredito que ele estava fazendo isso! O carro dos MEUS pais, e ele pedindo para eu descer? Quem tinha que estar com vergonha dele era eu!
— Brincadeirinha! — ele voltou dirigir o que me deixou carrancuda. — Ah, desfaz o bico, boneca! Você fica linda assim, mas não quero chegar na escola e perguntarem o que aconteceu.
Fiquei um pouco incomodada com o comentário dele, mas logo estava na frente do colégio, liberta de ouvir suas asneiras.
Observei que todos olhavam para saindo do carro e muitas garotas já estavam completamente carrancudas porque me viram saindo do mesmo carro que ele. Felizmente (ou não), agora todos sabiam que alguma coisa entre nós rolava — mas eu precisava dar um jeito logo de desmentir qualquer boato sobre eu e ele estarmos juntos e comecei contando a história para minhas amigas, que quase me bateram por não ter contado antes sobre o "novo morador".
Antes de entrar no corredor das salas, olhei para trás e ele andava conversando com Suelen. Ela estava com um sorriso radiante para ele e usava uma blusinha que havia lhe dado antes da festa. Primeiro ponto marcado: a loser usando a blusinha que eu havia dado!
Mais do que satisfeita entrei para a aula de literatura, onde já começava me culpar por nem se quer ter começado a ler Dom Casmurro.
— Capitu era maravilhosa! — comentou Suelen lá do fundo da sala. — Um fato muito importante, foi o poder feminino da época, a mulher e sua inteligência, até porque naquela época, o costume era mulher calada e serva. Capitu foi bem ousada e querendo ou não, os olhos de cigana oblíqua até hoje encantam.
— Dona Suelen fez uma ótima leitura de Capitu em poucas palavras! — o professor andava de um lado para o outro. — E sobre Bentinho, alguém tem algo a dizer?
— Bentinho era o típico garoto mimado, que não aceitava questionamentos e quando percebeu o hino de mulher que era Capitu, sentou na graxa — um garoto da sala falou, recebendo aplausos do resto da sala.
Eu realmente precisava ler aquele livro.
Depois de toda uma releitura do livro e algumas aulas básicas de geografia, fomos liberados para ir para casa. Fiquei cerca de 30 minutos esperando em frente ao carro e quando ele finalmente apareceu, estava com a novata.
— A gente pode adiantar alguma coisa do trabalho hoje? — ela perguntou nervosa, olhando de rabo de olho e eu estranhei. — Não vou ter tanto tempo livre assim.
Apenas concordei e entrei no banco do passageiro. Peguei meus fones cor de rosa de dentro da minha mochila e conectei em meu celular. Não queria ouvir a voz dele nos próximos 15 minutos da minha vida.
Gertrudes havia preparado hambúrgueres para quando chegássemos e fez o meu favorito de lentilha que eu tanto amava. Devoramos e corremos para o quarto dar continuidade no trabalho, porém comentamos mais sobre a festa do que sobre o trabalho.
— Fiquei com um garoto na festa, que eu nem se quer sei o nome dele — disse, jogando-se na cama. — Só sei que ele era extremamente viciante.
— E como vamos achar ele? — me animei, ficando de joelhos na cama. — Podemos... Desfilar amanhã pela escola completamente...
— Ok, princesa, vamos com calma — ela disse levantando a mão, apontando um dos dedos para mim e eu ri. Observei atentamente sua mão com alguns anéis de prata. — Qual roupa sua podemos provar hoje?
Quase ia me esquecendo de pensar, porque aquele anel na mão dela me lembrava alguma coisa, parecia que eu já o tinha visto em algum local, mas apenas dei de ombros e fiquei em pé para ir procurar uma roupa e seguir com a missão "faça da loser uma winner".


Capítulo 6 - QUEBRANDO REGRAS

Cami e Tati estavam ao meu lado enquanto víamos Sue andar de botas coturno e um conjunto azul de listras que eu tinha no guarda roupas, porém nem usava. Seus cabelos estavam com cachos largos e usava uma maquiagem mais leve, que eu mesma havia feito dentro do banheiro em poucos minutos.
Os garotos a olhavam surpresos e as meninas com um pouco de inveja, eu acho. Quem não queria ser amiga de ? Todos queriam.
Seguimos Sue, indo todas juntas para a sala de aula onde o professor de matemática já nos aguardava. Nessa aula eu prestava muita atenção, sabia várias coisas e ainda ajudava as pessoas que não iam tão bem.
— Oi, meu nome é Louise — uma garota me abordou quando saí da sala. Parecia um pouco envergonhada de conversar comigo, mas sorriu. — Eu sou nova na escola, não estou acostumada ainda. Vi que você é muito boa em matemática, poderia me ajudar algum dia desses?
Ela tinha a pele negra e usava trancinhas cor de rosa em todo o cabelo. Tinha alguns piercings e olhos escuros. Usava jeans rasgados e um cropped amarelo. Achei muito interessante seu estilo.
— Prazer, sou a — falei primeiro abrindo um sorriso. — Quer tentar alguma coisa hoje?
A aula seguinte era de educação física e eu não gostava muito. Coloquei meus shorts preto e uma blusa rosa. Peguei minhas polainas rosa escuro e depois coloquei meu tênis preto. Era dia de vôlei!
O professor dividiu dois times mistos e então entregou uma bola de futebol, mandando os líderes escolherem campo ou bola. Foi então que entendi: mudança de planos, a aula seria sobre futebol.
Eu não acompanhava tanto futebol, mas papi era viciado e corintiano roxo, o que me irritava, pois em dias de jogos ele gritava com os amigos dele até a casa quase cair. Fora que ele e mami brigavam por causa de alguns jogos, na qual ela queria ver o Palmeiras jogar, mas ele estava dono demais da televisão.
Eu era do contra: não acompanhava futebol, por isso, não torcia para nenhum time, e nem sabia jogar.
Fiquei no time contra e Sue, enquanto Cami e Tati sempre estavam comigo e chamei Louise para jogar conosco. Roubaram a minha bola algumas vezes e fizeram alguns gols com meus erros, o que deixava os meninos da sala irritados com a minha "agilidade".
Quase no final do jogo, perdendo de 7 a zero para o time adversário, um garoto do meu time simplesmente pegou a bola dos meus pés e me empurrou, o que me fez cair de bunda no chão. Doeu muito e quando percebi, estava com um pouco de falta de ar pela pancada.
Dani correu em minha direção e começou a conversar comigo, instruindo como eu deveria respirar e outras pessoas começaram a se aglomerar ao nosso redor. A professora interrompeu o jogo e levou o garoto até o diretor e pediu para que alguém me acompanhasse até a enfermaria. Não achei necessário, por isso com ajuda das meninas fui em direção ao vestiário. No meio do caminho, vi que apenas olhava de longe enquanto mantinha algum diálogo com Sue do outro lado da quadra.

💖

Estávamos concentradas fazendo nosso trabalho em meu quarto, quando Gertrudes trouxe nossos lanches. As meninas amavam as comidas de casa e dessa vez não resisti em comer o sanduíche que ela havia feito, nada light por sinal.
Acabei convidando Louise para se juntar à nós e Sue achou uma ideia muito legal, diferente de Cami e Tati. Segundo elas, de "novata" já bastava a Suelen.
— Vocês viram que amanhã a festa é na casa do Antony? — Tami perguntou, fechando o próprio caderno.
— Disseram que a casa dele é sensacional — Cami continuou escrevendo qualquer coisa no caderno. — Nós vamos, né?
— Estou de castigo até domingo, não posso sair de casa — falei vendo as meninas fazerem bico. — Mas vocês podem ir!
— Claro que você irá, ! — Sue falou. — também está de castigo e já me disse que irá.
Ela e eram amigos a ponto de se conversarem assim? Combinar de ir juntos aos lugares e sair escondidos? Eu não podia acreditar que ele também queria roubar minha nova amiga.
— Acho que meus pais não estarão em casa — pensei: eles viajavam muito. — Acho que por hoje chega, não é, meninas?
— Acho que sim! — Cami ficou em pé, terminando de organizar sua bolsa. — Nos vemos amanhã na escola, . Tati, quer uma carona?
— Quero sim! — elas saíram juntas do meu quarto.
Sue ficou terminando de guardar seus livros, enquanto eu organizava a mesa do computador novamente. Estava uma zona. Louise estava bem entretida mexendo no celular.
— Acho que as meninas ainda não se acostumaram com a minha presença entre vocês — Sue riu e eu estranhei. — Elas me trataram como um zero à esquerda.
— E eu nem se fala, né? — Louise bloqueou o celular e ficou de pernas cruzadas em cima da minha cama.
Fiquei um pouco pensativa. Meu objetivo era apenas transformar Sue em uma popular assim como eu e que ela fizesse parte do nosso grupo, mas acabei realmente gostando da amizade dela. Não sei se as meninas compartilhavam desse mesmo sentimento, mas quando estávamos apenas nos três, elas agiam diferentes.
Não podia falar sobre Louise, que conheci ainda hoje e chamei ela para vir até em casa para estudarmos um pouco de exatas.
— É questão de costume, meninas — caminhei até a porta do quarto. — Se você quiser, posso pedir para Durval te deixar em casa, Sue. A Louise ainda vai estudar um pouco comigo.
— Ahn, não precisa — ela riu, saindo do meu quarto. — Pode ficar no seu quarto, eu já sei o caminho de saída!
Dei de ombros e voltei para o meu quarto, fechando a porta depois de ver Sue descer os primeiros lances de escada. Não era nem 17h ainda e peguei o caderno indo até a cama para explicar a matéria desde o início para a minha nova colega.
Algumas horas depois ela resolveu que estava na hora de ir embora e a acompanhei até a porta. Voltei para o quarto e liguei minha televisão para reVER Friends. Fiquei com Lilith em meu quarto até a hora do jantar, que Gertrudes gritou para que descesse.
Papi estava com um semblante um tanto estranho e mami não estava nenhum pouco diferente. Alguma coisa tinha acontecido e eles estavam tentando esconder. Percebi que não havia sinal de por nenhuma parte da nossa casa desde que chegamos da escola, o que me deixou preocupada.
— O que houve? — perguntei chamando atenção dos meus pais, que me olhavam confusos. — Aconteceu alguma coisa com o ?
— Não que eu saiba — papi se interessou. — Por quê? Ele aprontou mais uma?
— Não sei, eu não o vi depois que chegamos da escola — sentei-me em um dos lugares da mesa ao lado de mami.
— Estamos tendo alguns problemas com... com...
— A empresa — mami completou a frase de papi. Estranho.
— É, mais uma vez vamos ter que viajar a trabalho — ele suspirou olhando mami e depois para mim. — Parece que algumas documentações estão dando erro na vistoria e precisamos resolver. O ruim é que é na filial do Rio.
— Então iremos mais uma vez passar o final de semana longe — mami não tinha uma cara boa. Algo sério estava acontecendo. — Você e ficarão em casa, mas não queremos que aprontem, por favor.
— Poxa, quando eu poderei ir? — perguntei esperançosa.
— Dessa vez vai ser muito cansativo, bebêzinha — disse papi, e eu sorri pelo apelido carinhoso. — Mas na próxima, quem sabe?
Quando ele terminou a frase, entrava pela porta principal. Ele estava com um jeans e uma blusa de moletom com gorro. Fiquei curiosa para saber onde ele estava, mas ele não parecia a fim de dividir um tempo conosco. Pelo menos não com meus pais.
, venha jantar — papi falou com a voz firme, o que fez ele parar no meio do caminho. Poderia jurar que ele bufou irritado, e contrariado andou até nós. — Onde você estava?
— Eu fui resolver alguns trabalhos da escola com o pessoal do meu grupo — disse, pegando um dos pratos em cima da mesa. — As meninas estavam aqui, não quis atrapalhar.
— Gentil da sua parte — mami disse, e ele apenas assentiu. — Ah, tem suco de uva que você adora!
— Obrigado, Leonor — ele sorriu de canto, e sentou-se ao meu lado. Seu cheiro cítrico era muito gostoso. — Tudo bem, ?
— Sim e você? — voltei a atenção para o meu prato com algumas verduras.
— Tudo. Depois poderíamos... — ele olhou para os meus pais que já nem prestavam mais atenção em nós. — Conversar?
— Claro, mas sobre o que? — perguntei curiosa e ele revirou os olhos, olhando para os meus pais e eu assenti. — Desculpa.
Depois que terminei de jantar, falei que iria para o quarto e já não gostava de ficar na presença do meu papi, mas com mami ele era tranquilo. Acho que ela o compreendia melhor.
Peguei Lilith no colo depois de quase me atacar por ter atrapalhado seu sono magnífico, e achei que falaria comigo naquele momento, mas apenas ouvi a porta de seu quarto ser trancada e só fui vê-lo na tarde de sexta-feira, quando abriu a porta do meu quarto me assustando um pouco.
Ele usava uma camiseta preta, calças pretas e coturnos. Os cabelos estavam ainda com aparência molhada, muito bem penteados para trás e usava um lápis borrado nos olhos e alguns anéis nos dedos. Ele estava lindo.
Ele fechou a porta e eu rapidamente fiquei curiosa. Ele queria falar comigo desde o dia anterior, mas deixou para última hora. Eu sentei na cama e ele caminhou até poder se sentar à minha frente.
Lilith era realmente cadelinha dele, porque assim que ele chegou, ela começou a latir e abanar o rabinho por atenção.
— Então, sobre hoje à noite — ele começou pegando ela no colo e recebendo várias lambidas no rosto. — O que foi?
— Sobre fugirmos de casa e ir na festa do Marcos? — ele assentiu. — Achei que fosse algo realmente sério, . Basta pular a varanda.
— Olhando pelo lado que estaremos muito ferrados caso seus pais descubram que fugimos no castigo, eu acho algo sério — ele deu de ombros. — Além do mais, Gertrudes vai dobrar o cuidado sobre nós e já que você dorme de porta aberta, tenho que pensar por dois, né? — colocou Lilith na cama e puxou uma embalagem do bolso. — Enfim, vou trancar a porta do meu quarto e iremos montar minha boneca inflável para deixar aqui no seu quarto.
— Espera — comecei rir, enquanto ele tirava de um plástico a boneca. — Você tem aquelas bonecas infláveis que alguns caras usam para...
— Até que para uma santinha você é bem inteligente, hein? — ele riu, e eu fiz cara feia. — Mas não, não uso para isso. Comprei para zoar com o Antony na festa, mas temos uma emergência maior, né? Agora que tal parar de fazer perguntas e me ajudar a encher, huh?
, eu estou terminando de me arrumar e me desculpe, mas não imaginei que tocaria o corpo de uma mulher em uma situação na qual ela não tem vida — expliquei, fazendo-o revirar os olhos para mim, enquanto já começava a encher o balão.
Depois de uns cinco minutos, ele tinha terminado de encher e eu fui até o closet para escolher as roupas que iria usar, mas nem isso eu podia fazer em paz, já que entrou procurando a roupa que eu usaria.
Por fim, não achei uma má ideia, já que ele escolheu um vestido cor de rosa rodado e minhas sandálias Clarita 100 nude. Me vesti no banheiro e precisei de sua ajuda para subir o zíper e então estava pronta para então irmos até a festa.
— Agora a parte mais importante: descermos pelas escadas do seu quarto — ele disse depois de arrumar a cama com a boneca inflável e ligarmos a TV na primeira temporada de Friends. — Eu vou descer primeiro e se por um acaso precisar de ajuda, vou estar lá para te ajudar.
E assim fizemos. Me despedi de Lilith, deixando-a na ponta da cama aconchegada ao meu cobertor e ele desceu sem dificuldades alguma. Eu, no entanto, pensei em tirar o salto, mas já estava na metade da escada. Não podíamos fazer barulho algum, porque Gertrudes estava na cozinha e então era tudo sussurrado.
— Vai logo, boneca! — ele disse e eu mais uma vez me irritei com ele me apressando e olhei para baixo. Aquele descarando estava o tempo todo olhando minha bunda pelo vestido e simplesmente se aproveitando da vulnerabilidade. Terminei de descer os degraus e no último pulei em seu colo, que me segurou com um pouco de dificuldade.
— Você estava o tempo todo olhando minha bunda, — reclamei, e ele revirou os olhos.
— Eu estava olhando seus pés, por que que burrice foi essa de descer de salto? — ele abriu caminho na cerca do vizinho e logo estávamos na rua. — Eu juro que não estava de olho na sua bunda.
Ele deixou o assunto de lado e pediu um uber. Disse que não teria como irmos de carro para Gertrudes não desconfiar e porque ele iria beber, não queria causar acidentes.
A casa de Antony ficava do outro lado da cidade, Zona Norte de São Paulo. A casa era realmente bonita como algumas pessoas falavam e claro, espaçosa. Muitas pessoas já estavam lá e assim que chegamos, os meninos estavam perguntando a se ele havia levado o "esquema". Entregou um plástico para os meninos que saíram de lá, falando que estariam no jardim de inverno da casa.
Boneca, você já pode ir encontrar suas amigas — ele disse quando os meninos nos deixaram a sós por alguns minutos.
, você trouxe maconha? — perguntei cruzando os braços. — Na boa, já fugimos de casa e não seria legal papi descobrindo novamente que você está usando esse tipo de coisa. Tenta colaborar, por favor? — Relaxa, boneca — ele riu, tirando do bolso um brigadeiro todo amassado pela metade. Ele mordeu um pedaço e estendeu o outro para minha boca. — Relaxa, não tem droga. Gertrudes fez alguns e roubei uns.
Segurei sua mão e comi o doce entre seus dedos, chupando todo o doce dali. Ele suspirou olhando meus lábios e eu o encarei. Suas pupilas estavam dilatadas enquanto ele sorria de canto.
— Consigo ver Cami e Tati daqui — disfarçou apontando, então eu olhei na mesma direção. — Vou falar com os caras e a gente se encontra depois, tá bom?
Assenti, andando em direção às minhas amigas que bebiam um martine com uma azeitona dentro e vários caras tentavam falar com elas.
— Oi, meninas — cumprimentei e elas bateram palmilhas.
— Fugiu com o estranho do quarto ao lado? — perguntou Cami, que riu junto com Tati.
— Sim — respondi, pedindo uma bebida para mim também. — Se meus pais descobrem, eu estou frita!
— Ah, o Dani já está perguntando de você pela festa — Cami comentou. — Parece que você deixou o outro novato caidinho por você, !
Eu estava meio perdida na festa. Não sabia ao certo o que estava fazendo ali. Eu senti uma enorme vontade de voltar para casa, mas voltei a conversar com as meninas e elas falavam do boy que estavam a fim.
— Olha a Sue e a Lou — Tati apontou e as meninas vieram até nós. Sue estava com a boca bem vermelha, assim como os olhos.
— Tudo bem, meninas? — perguntou, andando até a mesa de comida. Ela pegou um prato e separou algumas coxinhas, alguns salames e pediu um copo de refrigerante.
— Ahn, sim! — Cami perguntou olhando-a comer tudo aquilo. — E com você?
— Sim! — sentou-se no banco próximo ao balcão. — O Dani está procurando você, .
Olhei ao redor e consegui ver Dani. Ele estava realmente como se estivesse procurando alguém, então o meu coração acelerou. Será que ele realmente estava a fim de mim?
Caminhei em sua direção, mas fui puxada para o lado por um meio em choque que acabava de desligar o celular. Ele parecia estar bem, seus olhos não estavam vermelhos, mas ele tinha muito cheiro de maconha.
— O que houve? — perguntei confusa e ele apenas balançou a cabeça. — , está tudo bem?
Caminhei para um local mais vazio e ele não respondia nada. Peguei um copo de água e dei para de beber e depois passei a mexer em seus cabelos. Depois de alguns minutos fazendo isso, ele finalmente suspirou e abriu os olhos.
— Não foi nada, só me deu uma crise de ansiedade — ele falou e então eu arregalei os olhos. Poderia ser algo muito grave!
— Vamos para o hospital agora então! — fiquei em pé e ele logo pediu que eu sentasse novamente.
— Não precisa, boneca — ele suspirou mais calmo. — Você foi a única pessoa que eu... encontrei no meio do caminho e conhecia.
— Não é mais fácil você ir a um psicólogo? — perguntei um pouco preocupada.
— Na verdade eu não tenho muito dinheiro para ir — ele deu de ombros e então eu me senti um pouco culpada, porque a minha mesada pagaria algumas sessões e sobraria dinheiro.
Estávamos em um lugar bem mais reservado, onde ninguém tinha visão de nós dois. Suspirou fundo fechando os olhos e apoiou a mão na parede, segurando minha cintura com a outra mão.
Antes que eu pudesse falar alguma coisa, seus lábios se juntaram aos meus e eu fiquei um pouco surpresa. Jamais imaginava que era desses de beijar assim e... Tão bem. Arfei em seus braços, sentindo sua língua quente com gosto de erva enlaçar a minha. Seus dedos apertavam a minha cintura e cada vez mais, parecia que eu estava sem ar, pois ele me apertava ainda mais ao seu corpo.
Quando consegui respirar, ele desceu as mãos para minha bunda até que, por um estalo eu parti nosso beijo. Aquilo não poderia acontecer.
, acho que...
— Relaxa, boneca, eu jamais faria algo sem sua permissão — ele disse se aproximando novamente e selando nossos lábios com carinho. — Volte para a festa e depois a gente se vê.
E ele saiu como se nada tivesse acontecido.


Capítulo 7 - ENCONTRO NA CAPITAL PAULISTA

— A gente precisa ir — falou em meu ouvido algumas horas depois de termos nos separado.
Peguei o celular para ver o horário e então concordei, já eram quase 5h e logo Gertrudes iria acordar para preparar o café da manhã de sábado.
Cami e Tati já estavam esperando o motorista para ir embora, já que muita gente já havia saído para outras festas ou ido para alguma balada ou bar na Avenida Paulista.
Estava sentindo um pouco de frio, já que não havia levado jaqueta ou coisa do tipo. Precisava me policiar mais com as intervenções que estava fazendo na minha vida, para evitar coisas realmente drásticas.
— Vamos, boneca — ele jogou sua jaqueta de couro pelos meus ombros e segurou minha mão. — Vou chamar um uber para você e vê se não faz muito barulho quando chegar em casa.
— Aonde você vai? — perguntei curiosa, passando os braços em frente ao meu corpo.
— Tenho que resolver algumas coisas — ele respondeu olhando para o celular e depois levantando os olhos para mim.
— Foi aquela ligação que você recebeu?
— É, sobre, um amigo meu — ele lambeu os lábios um pouco nervoso.
Estranho, um amigo... Será que ele ia encontrar algum "amigo"? Talvez... O GABRIEL! Será que ele estava indo encontrar o Gabriel e não queria falar porque ele não tinha superado o garoto?
, você é bissexual? — joguei na lata e ele estreitou os olhos, me olhando curioso.
— Sem filtros, por isso gosto de você — ele comentou sorrindo, depois deu de ombros. — Sim, por quê? — respondeu com tranquilidade.
Ok, aquilo era realmente uma novidade. Suspeitar da sua sexualidade era algo normal, mas ouvir dele que também ficava com homens, era algo realmente... Realmente.
— Ah, não! Não estou indo encontrar algum cara, se bem que independente do contexto... — ele riu, voltando os olhos para o celular e depois olhou para o final da rua de onde vinha um carro. — Seu uber está chegando.
Então ele estava indo encontrar uma garota e só não quis deixar aquilo explícito. Antes que entrasse no carro, tirei sua jaqueta e estendi para ele com meio sorriso no rosto. Até que morar na mesma casa que ele e tentar manter uma amizade, não parecia de todo ruim.
— Acho que você irá precisar mais do que eu, afinal, estou indo para minha cama quentinha — não respondeu nada mas pegou a jaqueta também sorrindo.
Quando cheguei em frente à minha casa, entrei pelo quintal do vizinho, da mesma forma que eu havia saído. Como era um condomínio fechado de casas, nenhuma casa tinha portão ou muro, porém minha casa tinha câmeras na parte da frente e a última coisa que eu queria era meus pais vendo minha fuga e retorno logo pela manhã.
Subi as escadas do meu quarto com a mesma dificuldade em que desci e então tirei os saltos e o vestido para finalmente relaxar. A boneca inflável estava intacta aonde havíamos colocado e o sol já invadia o meu quarto àquela hora da manhã.
Não tomei banho, nem se quer coloquei pijama. Apenas entrei embaixo da coberta e relaxei até o sono chegar.

💖

Naquela mesma noite, mami e papi voltaram para casa e nos liberaram do castigo. Se eles soubessem da fugida que demos para uma festa, talvez teriam deixado durante mais duas semanas e sem televisão.
Não tenho certeza a hora exata que o chegou em casa, mas quando acordei por volta das 15h, ele já estava lá e conversava animado com Gertrudes, comendo uma macarronada preparada por ela. Seus cabelos estavam molhados e seus olhos pareciam mais suavizados.
Na verdade tinha uma beleza típica dos anos 90 e ele lembrava muito o Joey de Friends em um dos primeiros episódios. Seu cabelo sempre grande e de preferência molhado, suas camisas variavam entre branca, preta e cinza e usava calças jeans ou calças pretas. A jaqueta era de couro ou jeans. Os tênis preto ou branco. Perfume cítrico, nunca amadeirado.
Eu, por outro lado, gostava de muita cor. Usava qualquer cor, todos os modelos possíveis de roupas da moda e sempre fazia combinações de roupa com acessórios. Ser homem, em questões de roupas era algo bem mais fácil, mas ser mulher era uma delícia. Se maquiar, usar saltos, roupas diferentes e estilosas... Deve ser por esse motivo que muito homem se montava e se apresentava como Drag Queen!!!
— Estou sentindo o cheiro dos seus neurônios queimando daqui! — falou virando em minha direção e eu arregalei os olhos, voltando a andar até a bancada da cozinha.
Gertrudes colocou um prato em minha frente, com a minha quantidade de salada para o almoço, mas olhei o prato de e me deu muita vontade de comer macarrão.
— Ger? — chamei e ela voltou para ver se tinha algo errado. — Você poderia colocar um pouco de macarrão para mim? Me deu vontade!
Ela estranhou mas não demorou a colocar outro prato a minha frente. Comecei a comer, e nossa, fazia muito tempo que não experimentava um macarrão como aquele.
— Ainda prefere comer alface do que essas maravilhas preparadas pela Ger? — apertou meu nariz e eu bati em sua mão para que parasse de invadir meu espaço. — Seria uma delícia comer um lanche enorme, cheio de queijo e bacon, não?
— Muitas calorias! — falei enrolando mais uma garfada de macarrão e colocando na boca, ele observava meus movimentos. — Que foi? Não tem nada para fazer se não ficar olhando eu comer?
— Na verdade... Não — ele riu e eu tive que rir junto. — Você topa?
— O que, ? — revirei os olhos engolindo minha comida, largando o garfo para olhar para ele.
— Comer um lanche enorme, boneca! Eu conheço um lugar muito legal — ele disse, ficando com o rosto apoiado em suas mãos.
— Você acabou de comer um prato enorme de macarrão, não tem fundo não? — perguntei deixando de lado meu resto de macarrão.
— Definitivamente me pergunto isso todos os dias — ele ficou em pé e então estendeu a mão para mim. — Estou esperando você!
Mesmo que eu não quisesse ir, não resisti ao convite, afinal, seria melhor do que ficar em casa olhando para o teto.
— Preciso me trocar e colocar algum salto em que eu me sinta mais confor...
— Você está deslumbrante, vamos! — e então eu estava sendo arrastada por ele.
Por mais que eu protestasse falando que não apareceria como uma mal arrumada onde ele nos levaria, mais forte ele me puxava para o carro, até que me colocou no banco da frente e me prendeu com o cinto, fechando a porta por fora.
— Não estou bem vestida! — protestei mais uma vez, olhando meu slide Fenty by Rihanna de pelinhos cor de rosa em meus pés. — Estou de vestido de ficar em casa!
— Qual a marca desse vestido? — perguntou saindo com o carro da garagem, pronto para sair do condomínio.
— Esse é... — cocei a garganta um pouco incomodada. — Um Ralph Lauren.
Era um vestido envelope bem soltinho no corpo e era florido com vários tons de rosa.
— Isso deve ter custado muito caro para você simplesmente falar que é um vestido de ficar em casa — colocou os óculos escuros e abriu o teto solar do carro, abrindo também as janelas. — E o lugar que vamos não será tão chique assim.
Minutos depois entendi o que ele queria dizer, pois estávamos estacionados em frente ao mercado municipal de São Paulo. Se ele estava pensando que eu comeria aquele lanche enorme de mortadela com pão — essa era definitivamente a ordem correta —, ele estava muito enganado! Eu nem se quer gostava daquele tipo de comida processada.
Quando entramos no mercado, íamos nos desviando de várias pessoas. Estava cheio o local, pois se tratava de um sábado à tarde! Não poderia deixar de ser diferente. Passávamos por várias lojinhas com uma diversidade de produtos diferentes; barracas de frutas, de peixe, de queijo e milhares de coisas mais.
Paramos em frente a algo como um "boteco" do seu Lipo e então ele puxou uma cadeira de metal para que eu me sentasse. Não hesitei e então ele sentou-se à minha frente, sorridente.
— Sabe, boneca, as vezes é legal sair do mundinho que você vive para saber como é viver de coisas mais simples como isso — ele olhou ao redor, agora tirando os óculos. — Você está acostumada apenas com coisa de granfino, mas tem um mundo tão grande para você conhecer do portão do seu condomínio para cá!
Ele falava com os olhos brilhantes, como se ele realmente me quisesse ali com ele. Antes que eu pudesse responder, fomos interrompidos.
? — perguntou um senhor que estava com uma boina na cabeça e com um pano de prato jogado no ombro. — Bambino mio! Quanto tempo!
— Quanto tempo, seu Filippo! — ele ficou em pé abraçando o senhorzinho que estava muito contente em vê-lo. — Que saudade daqui!
— Ah, bambino! Sinto tua falta correndo por este lugar! — disse o senhor, depois virando para mim. Ele tinha um sotaque italiano extremamente forte. — E essa bella ragazza, huh? Tua fidanzata?
— Não, seu Filippo, ela não é minha namorada — ele riu voltando-se para mim. — Boneca, esse é o seu Filippo. Minha mãe trabalhou com ele aqui durante alguns anos enquanto eu ainda era moleque. E essa é a boné... ! Isso, essa é a , filha do meu... tio.
— Muito prazer, bambola — ele ironizou o "boneca" em italiano, beijando a minha mão.
— Tudo bem, seu Filippo? — cruzei as pernas, olhando para o balcão de comidas. — O que você tem que não seja muito calórico no seu restaurante?
— Seu Filippo, não precisa ouvir ela — revirou os olhos. — Por mais que seu Filippo seja italiano, o restaurante dele é bem brasileiro. Então seu Filippo, pode fazer aquele que eu amo? Faz dois. Porque ela vai amar.
Per ora! — o senhor saiu para a cozinha do lugar, falando com alguns outros clientes.
olhava ao redor, acredito que ele lembrava da sua infância por ali e por um momento me senti estranha. Não conseguia ver uma criança pequena indo trabalhar junto com a mãe e isso me deu uma dorzinha no coração.
Quando ele olhou para mim, tinha um sorriso largo estampado em seu rosto e seus olhos demonstravam a mesma alegria. Por mais que aquilo fosse algo bem humilde, as lembranças traziam felicidade a ele.
Aquilo me fez rever meu passado, onde só havia creches e escolas integrais caríssimas pela cidade de São Paulo e poucos momentos com meus pais. Ah, e muitas babás também.
— São tantas lembranças boas que tive aqui — ele quebrava um palito de dentes que pegou de um paliteiro da mesa. — Minha mãe, algumas amizades, meu primeiro beijo.
— Primeiro beijo? — perguntei rindo confusa.
— Sim — ele apontou para uma garota que estava atrás do balcão. Aparentemente ela não tinha visto ainda. — Eu e ela estudávamos juntos. Estávamos na quinta série quando aconteceu. Geralmente fazíamos dever de casa nessa mesa que estamos sentados — ele passou a mão sobre a superfície da mesa, como se estivesse organizando os materiais. — E aí que terminamos e fomos brincar. Por fim, acabamos em um lugar mais vazio, ela disse que gostava de mim e nos beijamos. Foi meio babado, dentes batidos.
— E você gostava dela? — perguntei e ele riu tímido.
— A gente se dava bem — deu de ombros e voltou os olhos para ela. — Aí que minha mãe parou de trabalhar aqui porque a casa que morávamos no Brás ficou muito cara, então fomos morar na Freguesia do Ó. Perdemos o contato e depois de muito tempo que eu voltei aqui. Sempre que dá, eu venho.
— Vocês ainda se gostam?
Não sei como me senti, ainda mais recebendo olhares fulminantes da tal garota do balcão. Acho que o fato de eu estar ali sentada com o enquanto ela trabalhava, a incomodava.
— Não, — ele respondeu sorridente.
Depois ela pegou uma bandeja e veio andando em nossa direção, então presumi que aquele deveria ser o que comeríamos — ou ao menos o que eu tentaria comer.
— Quanto tempo você não aparece aqui, — ela colocou meu pratinho em minha frente e arregalei os olhos em ver um pão redondo recheado e com queijo derretido transbordando. — Como cê tá?
— Estou bem, Rê — ele pegou logo os talheres e praticamente gemeu ao ver o prato a sua frente. — Muitas novidades. E você?
— A mesma vida pacata de sempre — ela puxou uma cadeira e sentou-se ao lado dele. Ficando debruçada na mesa e me ignorando. — Te falei que ia começar a faculdade da última vez que você veio aqui, né?
— Sim, veterinária, não é? — ele perguntou e ela balançou a cabeça eufórica. — Fico feliz por você. Eu estou terminando o último ano do Ensino Médio ainda.
— Logo termina e você vai querer voltar — ela riu acariciando a mão dele. Eu estreitei os olhos. Estava sendo ignorada para ela flertar com ele? — Sábado que vem eu vou estar livre. A gente poderia ir naquele museu que a gente adorava, não é?
— Podemos marcar sim, Rê — ele disse e ela ficou em pé. — Anota seu número para mim?
— Rê? — Filippo chamou da cozinha. — Preciso de você aqui, bambina!
— Pronto! — ela falou depois de anotar seu número em um guardanapo. — Depois a gente se fala!
E então saiu, me deixando com cara de tacho. Olhei para e ele já devorava aquele lanche enorme, enquanto eu ainda não havia nem se quer tocado.
Não gostei dela simplesmente me ignorar para flertar com . Nós nos beijamos na noi... EU ESQUECI DESSE FATO!
A gente se beijou na festa e nem se quer lembrava disso! Mas aquilo não vinha ao caso; o que vinha ao caso era: eu odiava ser ignorada e ainda mais por causa de homens!
— Mais uma vez neurônios queimando! — riu e eu voltei os olhos para ele. De fato, se fosse uma animação, apareceria aquele balãozinho dos meus pensamentos e agora eles estourariam. — Não vai comer?
Eu não respondi.
— É uma delícia, boneca. Tem molho de tomate, pepperoni, azeitona, queijo, bacon, mais queijo, um pouco mais de queijo e para finalizar: queijo — ele levantou e cortou um pedaço do meu, enrolando o queijo no garfo. — Come.
estava tão animado em estar ali, que eu coloquei na boca só para não desanimá-lo. Porém era realmente uma delícia! Segurei meu garfo e comecei a cortar outro pedaço, só lembrando como seria para eliminar todas as calorias que eu estava comendo com tanto gosto.
Até que sobrou metade do meu lanche, porque eu não conseguia mais comer, porém também comeu e no final pediu uma Coca-Cola. Ele pagou a conta, mesmo eu pedindo para pagar, mas ele disse que da próxima eu podia pagar e ele escolheria o lugar mais caro.
Nos despedimos do pessoal e seguimos pelo outro lado que não havíamos andado ainda. Me deparei com uma enorme bancada de morangos e não tardou pedir por um para o dono da banca, que sorridente cedeu um dos frutos.
— Abre a boca — disse, quase empurrando o morango na minha cara e eu ri, mas mordi a ponta.
Logo em seguida ele selou nossos lábios. Okay, eu nunca havia feito nada tão íntimo em público e aquilo era estranho. e eu? Não tinha chance de acontecer, eu acho.
Antes que ele pudesse prolongar o beijo no meio do tanto de gente, eu roubei o morango da sua mão e comi o restante, andando em direção à saída enquanto ele vinha correndo atrás de mim.


Capítulo 8 - DECEPÇÃO

Ainda não consigo entender pessoas que gostam de domingos. Será que existe essa população específica? Porque com todas as minhas forças, eu odiava!
Domingo foi o dia de refletir sobre o sábado que eu havia tido. Acho que fazia tempo que eu não tinha um dia tão divertido quanto ontem. Realmente, havia tanta coisa fora dos muros que eu costumava viver entocava, que não havia oportunidade de conhecer muita coisa.
E então lembrei daquele beijo da festa. Do quão sexy estava, parecia simplesmente enviado para me seduzir, coisa que parecia funcionar e muito bem com meus hormônios, o que gerou uma longa pesquisa durante a madrugada de domingo e se estendeu para a parte da tarde.
Eu podia sentir todo o efeito que ele tinha sobre mim e depois daquele beijo, parece que meu corpo agia de uma forma diferente só de lembrar que ele estava no quarto da frente.
Eu nunca tive experiências sexuais, mas tinha lido que o auto toque era uma forma de liberação da tensão e eu queria tentar. Porém em meio ao ato, eu acho que eu dormi e sonhei. De alguma forma, entrou no meu quarto com todo aquele ar misterioso de quem não quer nada, mas poderia arrancar sua calcinha com os olhos. Comecei primeiro tirando a toalha de meu corpo, acariciando meus seios. Eu podia sentir que ele estava ali, apertando-os com seus dedos grandes. Não sei se era uma boa minha primeira tentativa pensar em um garoto, mas eu não conseguia arrancá-lo dos meus pensamentos.
Fui descendo a mão para a minha... é, que já estava molhada a esse ponto, só em pensar em , na sua língua e... em outras partes do seu corpo. Por mais que eu fosse virgem, me excitava ao pensar, me deixava louca querendo sentir seus toques.
Acariciei toda a minha intimidade, enfiando um de meus dedos no buraquinho que parecia ser muito apertado. Eu tinha visto algumas dicas de como fazer aquilo e comecei colocar para fora e para dentro, até que eu senti necessidade de mais. Enfiei mais outro dedo curvado para cima, bombeando a parte de dentro, fazendo um fogo subir pelo meu corpo. Eu estava muito molhada, sentia que a lubrificação pingava no colchão da cama. Tirei os dedos e logo toquei o meu ponto de prazer, esfregando-o assim como li nas indicações. Senti uma onda gostosa e continuei, pois aquilo parecia muito certo a se fazer.
Até que ouvi um barulho da porta sendo aberta. Me assustei e parei o que estava fazendo, pronta para sumir de vergonha, mas então vi o sorriso no rosto de . Ele estava ali parado, sem camisa e vestia apenas um calção branco folgado, que mostrava completamente seu... é. Ele estava sem cueca? — O que você estava fazendo, boneca? — ele perguntou curioso, enquanto eu tentava esconder meu corpo na toalha. — Eu não acredito que você estava fazendo o que eu realmente vi. Você me surpreende, sabia?
— O que está fazendo aqui?
— Eu ouvi alguns gemidos baixinhos, achei que estivesse tendo um sonho ruim, mas pelo contrário, você estava simplesmente se tocando — ele disse, olhando fixamente para minha toalha e o que ela tentava cobrir. — Você está tão molhada! E nem se quer conseguiu terminar o que fazia.
— Na verdade, eu... Ahn, terminei sim — ajeitei mais a toalha e ele balançou a cabeça em negação.
— Você só estava fazendo carinho, a melhor parte você não chegou — ele disse me deixando sem palavras. Eu não estava conseguindo pensar direito. — Se você quiser, posso te ajudar a chegar lá, posso te ensinar.
Hesitei. Ele não poderia estar falando sério, mas suas pupilas estavam dilatadas e eu conseguia ver aquilo com a claridade do pôr do sol que entrava pela janela do meu quarto. Claramente era bem mais experiente nisso, e só de pensar nele vendo tudo, um arrepio subia pela minha coluna.
Balancei a cabeça, e então ele subiu as mãos pelos meus tornozelos, acariciando minhas pernas. Soltei a toalha que eu prendia com tanta força e abri minhas pernas. Suas mãos voltaram para as suas coxas, e ele olhava minha vagina com adoração.
— Volte os movimentos sobre seu clitóris, boneca — pediu, e eu desci os dedos um pouco trêmulos, olhando para ele. Até aquela altura, com toda certeza eu já estava ainda mais lubrificada. — Agora você vai fazer movimentos circulares, não precisa ser rápido, mas se precisar, pode aumentar a velocidade.
Ouvir sua voz me ensinando, me deixava ainda mais excitada. Tudo que eu queria era que ele encostasse em mim, e ao invés de eu apenas pensar nele, ele mesmo fazer algo.
— Agora você vai colocar seus dedos dentro, e fazer o vai e vem — ele mostrou dois de seus dedos e senti um espasmo ao imaginar ele me tocando.
Eu obedeci sua instrução e senti ainda mais a lubrificação. Ele fez movimentos com os dedos que eu copiei e senti minha perna ficar mole. E então tirei o dedo, voltando a fazer o circular em meu clitóris.
— Isso, boneca, faz mais rápido. Sente o que você mesma pode fazer com o seu corpo, o quão incrível você é, e o prazer que você pode sentir sozinha — ele disse, mas sua voz parecia cada vez mais além. — Continua, boneca, consigo ver você contraindo já, pronta para ter um orgasmo.
— Me toca — pedi, e ele sorriu balançando a cabeça em negação. — Por favor.
— Não, boneca, hoje não. Você precisa fazer isso sozinha — repetiu, e eu comecei sentir dor. Eu precisava muito gozar, mas estava segurando ao máximo. — Na próxima, eu vou te chupar tão gostoso, que você vai esquecer de onde estaremos.
— Por favor! — implorei sentindo um aperto no pé da barriga.
— Use a outra mão, coloque dois dedos dentro de você é não pare de massagear — obedeci, sentindo que estava muito próximo. — Isso, boneca, que delicia, olha o quão apertadinha você está! Agora é só liberar — eu continuei os movimentos, e ele continuava olhando. — Goza, boneca, vem! Eu quero experimentar seu sabor.
Em dois segundos eu explodi. Minhas pernas tremiam, minha vagina apertava meus dedos e meu clitóris ficara escorregadio. Assim que terminei, fiquei parada daquele mesmo jeito, com as pernas abertas, mas mãos em cima da barriga, e a cabeça no mundo da lua.
Senti as mãos de em volta do meu pulso, e quando menos esperei, estava sentada em seu colo. Os bicos dos meus seios estavam eriçados devido ao vento em meu corpo quente.
— Você foi incrível — ele disse, segurando minhas mãos. — Da próxima, eu vou querer chupar cada pedacinho da sua buceta, e tocar partes que você ainda não conseguiu tocar.
Quando menos esperei, ele colocou meus dedos dentro de sua boca e os chupou. Aquilo me fez ficar excitada novamente e roçar minha intimidade ainda molhada no seu membro coberto apenas pela bermuda fina. Ele estava muito duro, muito quente.
— Até mais, minha boneca. Você foi incrível.
E lá estava eu deitada na cama da mesma forma, usando a toalha que eu havia tomado banho e suando. Meus batimentos cardíacos ainda estavam descompassados e eu sentia o corpo cansado. Eu... Isso realmente aconteceu? Ele realmente aconteceu?

💖

Era tarde de segunda-feira e mais uma vez estávamos fazendo o trabalho de literatura em meu quarto. Confesso que cheguei na décima página de Dom Casmurro!!! Isso era uma grande evolução para uma garota que não tem hábitos literários, então, eu estava me sentindo muito orgulhosa!
Depois de tanta gente falar mal do Bentinho, que ele era meio "doido", eu comecei lendo com essa resistência e de verdade estava sendo difícil.
Estávamos na quinta página, sendo que precisávamos de dez. E depois dessas dez, resumiríamos para uma frente e verso. Então eu não via necessidade alguma em fazer as dez, se poderíamos fazer uma. Mas Sue era nerd demais e queria seguir as regras. Por fim, ela disse que iria tomar água e que continuássemos fazendo.
— Sabe com quem eu fiquei na última festa? — Cami riu e eu pulei na cama para saber quem era o sortudo. — Com o Antony!
— QUE? — eu e Tati gritamos surpresas.
— Gente, ninguém pode saber! — falou Cami se jogando na cama, fazendo com que eu e Tati fizéssemos o mesmo, na maior cara de apaixonada. — Vocês sabem que eu sempre gostei dele e de verdade, não achei que um dia ficaríamos.
— Ah, estou tão feliz por você, amiga! — fal
ei abraçando Cami e Tati nos abraçou. — O Antony é um anjo! Ele realmente era. Não era o tipo de garoto que ficava com várias garotas da escola, mas também não era tão santo, porque depois que o chegou na escola, ficou meio... "desandado". Mas não seria isso que faria eu desgostar do Antony.
— E você, ? — Sue perguntou referente ao seu irmão. Eu não gostava de expor tanto, mas realmente precisava falar o que tinha rolado na noite da festa. Não só com seu irmão.
— Então...
— Ah, calma! Momento da Cami! — Tati interrompeu e eu fiquei com vergonha. — E vocês... é... fizeram alguma coisa? — perguntou curiosa.
— Não, Tati! Não mesmo! — Cami pareceu nervosa e então ela sentou-se. — Acho que ainda sou muito nova para isso.
— Você tem dezesseis, Cami — Tati acrescentou, o que achei estranho. — Não que isso signifique algo.
— Tati, você ainda é virgem? — perguntei. Eu costumava ser direta com as pessoas, o que era duas uma: ou ela gaguejava (que significava verdade), ou ela negava e morria a história.
— Nossa, ! — ela riu nervosa. — Que pergunta?
— Tati, se não for, ok — falei e ela mordeu o lábio nervosa. — Ninguém aqui irá te julgar e na verdade, nós somos amigas!
— Eu não sou — ela confessou e olhou bem para nós, para ver nossa reação e o que fizemos foi olhar com cara de segundas intenções para ela. — Parem! Parem já! — ela riu e então jogou-se na cama. — Aconteceu no último verão. Foi com um primo meu, quando fui passar férias na casa de praia da minha avó.
— E como foi? — perguntei curiosa, me aproximando. Estava curiosa. Só.
— Bom — ela simplesmente respondeu. — Todo mundo coloca tanta expectativa, mas na verdade não é tão legal assim, pelo menos a primeira vez. As próximas passam a ser gostosas, porque você começa a sentir realmente prazer.
— Eu quero sentir isso! — Cami revirou os olhos, o que nos fez rir. — Será que Antony já...?
— Eu duvido que não! — falou Tati. — A maioria desses garotos já passou a cobrinha deles por aí. Inclusive a do seu morador, deve estar caindo agora mesmo.
— Que? — perguntei confusa porque ela olhava fixamente para mim. — A Sue está demorando muito, ou seja, deve estar em algum cômodo da sua casa, perdida com o seu priminho — Tati riu e eu engoli seco.
Não sei porque a hipótese me deixou incomodada. Não que não pudesse viver a vida dele, muito pelo contrário, Sue era a minha amiga e ele não podia simplesmente viver a vida dele enganando uma amiga minha. Que ele não presta, eu sempre soube!
— Vou atrás da Sue — coloquei meus chinelo slide de pelinhos e comecei andar em direção à saída do quarto.
— Se ela realmente estiver em algum momento íntimo, ? — Louise andou até a mim falando mais baixo e ignorando minhas amigas. Ela mordeu o lábio tensa e eu suspirei nervosa. — Você vai simplesmente assistir, atrapalhar? Não é melhor deixar para lá?
— Não.
Então saí do meu quarto, fechando a porta em seguida. A primeira coisa que fiz foi abrir a porta do quarto de que estava escorada. Não havia ninguém lá dentro e ainda assim entrei para conferir o banheiro.
O quarto de era uma zona. Havia roupas espalhadas pelo chão e pela cadeira da mesa que em cima tinha várias anotações, cadernos e havia um porta retrato. Um único porta retrato em pé no meio de toda aquela zona. Era uma mulher entre dois garotos e um deles era . Estavam todos sentados em um sofá simples, na qual o garoto usava uma camisa do Palmeiras, a mulher do São Paulo e do Corinthians. Provavelmente ele deve ter herdado esse amor pelo time por causa do papi que é tio dele.
E mais uma vez fugi do foco principal. Encontrar Sue.
Meu coração estava apertado e eu não sabia porquê. Deve ser o suspense de ver algo ilícito! Certeza que sim!
Caminhei para a porta novamente e desci as escadas em silêncio. Será que eu estava em um filme de terror? "A patricinha sempre morre no começo" era o que meu cérebro gritava, mas FOCO! A casa estava em silêncio e não havia sinal de ninguém por ali.
Andei até a sala e nada, vazia, televisão desligada. Fui até a cozinha e a luz estava acesa, mas sem ninguém ali também. Encostei-me na mesa, pensando em ir até a piscina. Com certeza Sue estava lá e não estava em casa.
Me preparei para ir até a porta dos fundos até que ouvi barulhos de estalos vindos da lavanderia, cômodo após a cozinha, que tinha a porta. Andei um pouco mais adiante e então de relance vi que Sue estava sentada em cima da máquina de lavar que estava funcionando e estava encaixado entre as pernas dela, já sem camisa, apenas de calças jeans.
Sue estava usando suas calças pretas, mas já estava sem camiseta, apenas de sutiã e parte das calças abertas. Eles se beijavam tão... ferozes, que eu fiquei um pouco constrangida. Deveria ter ouvido minhas amigas e não simplesmente ignorado. Poderia evitar ver esse tipo de coisa e...
Droga!
Senti meu braço tocar em alguma coisa e então ouvi o barulho da moringa de cristal da mami espatifar pelo chão da cozinha. Me escondi atrás da geladeira onde ninguém iria me ver e então pude ouvir que os dois pararam de fazer aqueles malditos estalos.
— Quem será? — ouvi Sue perguntar, mas não ouvi a resposta.
? — ? Ele nunca me chamava assim! Aonde foi parar o "boneca"? — Alguém?
— Será que alguém viu a gente? — ela riu baixinho e ele acompanhou o riso, saindo da lavanderia e entrando na cozinha.
Tentei me esconder, me apertar ainda mais em direção à parede, mas a única coisa que eu fiz, foi fazer a geladeira se mexer e os dois ficarem em silêncio. Não queria que eles me vissem de forma alguma!!! Seria como... a vergonha do século.
— Eu vou recolher essa bagunça e tenho certeza que a Leonor vai ficar um pouco chateada pela moringa — ele disse, voltando para a lavanderia e vi que ele jogou a camiseta para Sue.
— Acho que eu já vou embora — ela falou, percebi que estava um pouco sem graça. — Deixei minhas coisas aqui embaixo, você pode avisar para a ?
— Posso.
Ela simplesmente deu um "tchauzinho" de longe e então foi até a sala pegar sua bolsa, fechando a porta logo em seguida.
Agora eu precisava de uma maneira de sair dali despercebida, mas eu precisava esperar terminar de pegar do chão, os cacos de cristal que eu havia quebrado. Se eu corresse quando ele estivesse dentro da lavanderia? Será que daria tempo de ele não me ver? Será que eu não faria barulho demais?
— Pode sair de trás da geladeira, boneca — ele disse e eu fiquei espantada. Como? — Eu sei que você está aí! — Meu Deus, agora tudo que eu queria era que o chão abrisse e então eu sumisse para o centro da terra. — ? Por favor, não sejamos infantis.
Suspirei e fiz o que ele estava falando. Ele estava em pé em frente ao armário, segurando a vassoura e a pá. Ele estava sem camisa, revelando suas tatuagens absurdamente lindas e o botão da sua calça aberto, deixando o jeans caído e mostrando sua cueca branca.
— O que você estava fazendo aqui? — perguntou escorando na vassoura. Ele não parecia nervoso, apenas tinha um semblante exausto.
— Eu vim tomar água e ouvi o que vocês estavam fazendo — engoli seco, cruzando os braços em frente aos meus seios. — Inclusive muito inapropriado.
— Olha, boneca...
— frisei o meu nome. Não queria que ele me chamasse daquele jeito depois do que vi e ouvi. — Foi assim que você acabou de me chamar.
— Sério, boneca — insistiu —, desculpa pelo que você viu aqui — ele falou sem graça, passando a mão esquerda pelo cabelo, bagunçando-o. — Ainda mais com uma amiga sua, e...
— Não quero suas explicações, — suspirei, virando de costas para ele. — E para você é , como eu disse no primeiro dia que te conheci. Odeio que me chame de boneca.
E então mais uma vez engoli um bolo de coisas com dificuldade. Já conseguia sentir meu nariz arder, mas ainda não entendia tamanha angústia dentro de mim.
A sala do papi era o local mais apropriado para mim agora, por isso foi lá que me tranquei e foi lá que fiquei durante resto do dia, dedilhando algumas notas no piano, tentando manter minha cabeça ocupada.


Capítulo 9 - SEGUINDO EM FRENTE

— Bom dia! — cumprimentei todos que estavam à mesa e sentei em meu lugar.
Nico comia o cereal com leite enquanto jogava em um tablet. Meu pai olhava o celular, minha mãe lia um livro e só comia.
As frutas que eu mais gostava já estavam cortadas em meu prato, junto com algumas torradas e requeijão. Ninguém ali parecia se importar com a presença de ninguém, por isso finalizei meu café da manhã e andei até a sala, onde eu havia deixado minha bolsa.
Papi, vou com Durval a partir de hoje, ok? — avisei já dando as costas para a saída.
— Espera aí, mocinha — ele parou de olhar para o celular e mami também estava com a atenção voltada para mim, assim como . — E o que conversei com você sobre ficar com o carro e vocês irem juntos?
— Não acho que seja mais uma boa — fiz bico em uma falsa mentira. — Prefiro Durval, papi. O não dirige muito bem, eu quase vomitei no Jeep semana passada por isso.
— É mentira! — protestou, mas papi não ia acreditar nele. Ele sabia disso.
— Acho que poderia continuar com o Jeep, não me importo que ele use, mas prefiro Durval — por favor, papi, não me faça implorar mais uma vez!
— Tudo bem, meu amor — ele levantou-se para me dar um beijo e eu aproveitei para abraçá-lo.
— Tchau, mami. Amo vocês — disse beijando sua bochecha.
Caminhei para a saída de carros e entrei no carro com Durval. Era a coisa certa a fazer: manter distância de . Não queria ter que lidar com ele nunca mais em toda a minha vida.
Cheguei na escola no horário de sempre e caminhei pelo pátio, onde a maioria dos alunos já estavam. Tati e Cami sentaram em uma das mesinhas do centro, onde outros garotos aproveitavam para conversar.
Antony ficou em pé ao lado de Cami, mas não tinha nenhuma demonstração de carinho; Tati falava mais do que o homem da cobra com todos da mesa, como sempre. Me juntei a eles e percebi que até Dani estava sentado em uma das pontas, trocando papo com o pessoal.
— A rainha do Paulo da Cunha chegou! — Ric, o cara mais chato da turma, que não largou do meu pé durante dois anos seguidos falou e eu apenas sorri falsa.
— Você sumiu ontem, — Tati falou um pouco cautelosa. — O que houve?
Papi pediu um favor no escritório e eu fui fazer, só que estava morrendo de sono e acabei dormindo — dei de ombros, colocando meus materiais em cima da mesa.
falou mesmo que você tinha se trancado no escritório e que Sue tinha ido embora — Cami mexi no celular, mas prestava atenção em tudo.
Antes que eu pudesse me sentar, entrou pelos portões da escola, fazendo com que várias meninas olhassem para ele. Realmente ele era um cara de tirar o fôlego, pois era mais velho, usava roupas descoladas e era extremamente bonito.
O sonho de todas era ver ele jogando futebol sem camisa, mas ele não dava esse tipo de brechas. Deixava cada uma com mais vontade ainda de presenciar aquele corpo escultural.
Ele estava como sempre: usava as típicas calças pretas, all star, camiseta branca, jaqueta de couro e uma bandana vermelha pendurada no bolso detrás. Seus cabelos estavam molhados, tinha lápis de olho borrado e andava completamente despretensioso pelo pátio, até chegar a nossa mesa.
Cumprimentou todos com toques de mão, e parou ao meu lado. Ele sempre com aquele maldito cheiro cítrico como se tivesse acabado com o frasco de perfume em um uso apenas.
— Vocês não vinham juntos? — perguntou Antony, apontando para mim e para .
— Sim — ele passou o braço pelo meu ombro. — Mas a boneca decidiu que não queria mais caronas e prefere vir com o motorista, não é, boneca? — ele acariciou minha bochecha com seus dedos.
— Tira a mão de mim, — empurrei seu braço e andei para outra direção, mas ele segurou-me encurralando para que nossos amigos não conseguissem ouvir nossa conversa. — O que você quer? Da para me deixar em paz?
— Eu já pedi desculpas por ontem, boneca.
— E o que eu já disse sobre me chamar assim? — apenas tirei sua mão de meu braço e ele parou sobre uma das pernas.
— Você nunca se incomodou — disse fazendo uma careta. — Nunca se incomodou com meu toque e nem com o apelido, achei até que gostasse.
— Novidade, : eu odeio! — bati palma no ar, querendo fugir dele.
— Ei, espera aí — ele abriu um sorriso e eu o encarei perdida. — Você está com ciúme! Não, só pode ser!
— Ciúme? Ah, faça-me o favor, — irritei-me ainda mais, se é que era possível. — Eu com ciúme de você! Há!
Boneca, nós não estamos em um relacionamento sério, ok? Não precisa ficar com ciúme, só...
Por mais que fosse verdade, aquilo me chateou. Me livrei dele, deixei que falasse sozinho. Contornei a mesa e fiquei de frente para Daniel, que agora parava de conversar com os outros meninos e olhava para mim, parada a sua frente. Muitas pessoas começaram a observar e então eu encarei , que com dúvida observava meus movimentos.
Não que eu estivesse fazendo alguma coisa para provar para ele, mas eu estava a fim de beijar Daniel e aquela parecia a oportunidade perfeita, além de humilhar o egocentrismo de .
Passei as mãos pelos cabelos de Daniel e antes que ele pudesse fazer qualquer pergunta, colei nossos lábios, pedindo passagem com a língua. Comecei a ouvir gritos e senti as mãos do garoto segurando com firmeza minha cintura.
Ele tinha gosto de melancia. Não era meu sabor favorito, mas que ele beijava muito bem, isso de fato era verdade. Depois de mais gritarias, me separei dele e então ajeitei meu cabelo. Ele sorriu estourando uma bola com seu chiclete. Passei os dedos sob meus lábios e ele fez o mesmo em sua boca, com um sorriso lascivo.
Peguei minhas coisas que estavam em cima da mesa antes que algum inspetor visse o que eu havia acabado de aprontar e então segui em direção ao corredor de salas. ainda estava parado no mesmo local e passei esbarrando de propósito.
— Acho que isso não é atitude de uma garota com ciúme, é? — pisquei, voltando a andar em direção às salas, deixando ele ali com cara de tacho.

💖

As aulas não demoraram a passar. Matemática era como sempre a minha parte favorita e eu tinha planos de cursar economia. Seria legal poder tomar as rédeas da empresa de papi e então continuar seu império. Acho que ele ficaria orgulhoso da minha atual ideia!
Fiquei esperando Durval por cerca de trinta minutos, mas ele não apareceu. Sempre que eu chegava no portão ele estava ali, mas hoje não havia acontecido isso; o que me deixou preocupada.
O tempo não estava muito quente apesar de fazer sol; o vento gelado batia nas minhas bochechas, o que tenho certeza que estava deixando-as mais ressecadas. Quando chegasse em casa eu iria lavar o rosto com um sabonete hidratante e passar algum creme também hidratante para evitar que ficasse com uma aparência estranha.
Boneca? O que está fazendo aqui ainda? — perguntou passando por mim. Ele estava segurando uma das alças da sua mochila que estava jogada nas costas.
— Não sei, Durval ficou de me buscar, mas está atrasado tem meia hora — disse olhando novamente para a hora em meu celular. — Será que aconteceu alguma coisa grave?
— Não sei, mas eu posso te levar para casa, se você quiser — ele disse, ficando de costas para a rua.
Eu poderia aceitar a carona, mas eu não queria ficar no mesmo ambiente que . Muito menos em um ambiente tão pequeno quanto um carro. Olhar para ele me trazia lembranças muito quentes, então era algo que eu tinha que evitar. Mas ficar ali na frente da escola, sem saber o que aconteceu com Durval, parecia pior. E se ele por algum motivo não viesse?
? — ouvi outra voz vindo atrás de mim e virei-me reconhecendo Daniel.
Não tinha falado com ele depois da cena do pátio. Acho que precisávamos conversar sobre aquele ato exibicionista, mas eu não sabia como falar para ele.
— Você está indo para casa? — perguntou e eu virei para encarar que estava agora olhando para ele. — Poderíamos bater um papo? Claro, se não for te atrapalhar em nada.
— Pode ser — ajeitei minha bolsa no ombro. — , depois eu ligo para o Durval me buscar ou peço um uber, tá? Pode levar meus cadernos para casa?
— Beleza — respondeu pegando as coisas das minhas mãos e saindo de onde eu estava em direção ao estacionamento da escola.
— Quer ir aonde? — comecei caminhar ao lado de Dani, não sei exatamente para onde estávamos indo.
— Que tal se fôssemos assistir algum filme? — perguntou desconfiado e eu ri. — Ou então algum parque? Eu não sei. Fazia tempo que eu não chamava uma garota para sair.
— Então isso é um encontro? — perguntei rindo mas de nervoso.
— Consideravelmente se você quiser, sim — ele sorriu e então me estendeu a mão.
Pegamos um ônibus quase em frente à escola que eu não fazia ideia de onde ir, mas alguns minutos depois paramos no início da Avenida Paulista e entramos no parque do Trianon.
Eu não sabia que os ônibus de São Paulo eram cheios daquela forma e Dani ainda disse que eram mais cheios em horários de "pico" e aconteciam brigas por espaço. Assustador.
O parque era muito arborizado, mas também com tantas construções em volta, o mínimo era manter aquele espaço um pouco verde.
Sentamos em um banquinho que tinha mais próximo da entrada e então ficamos conversando sobre trivialidades de São Paulo que eu não fazia o mínimo que acontecia. Em que estado eu morava?
Eu não sabia que tinha tantas linhas de trem e metrô que iam para tantos lugares diferentes e demoravam horas. Tinha uma linha que ia até o aeroporto de Guarulhos!!!
Nem sempre estudar em uma escola particular durante a vida inteira, te faz uma pessoa cem por centro inteligente; se você vive apenas dentro dos muros que são criados ao seu redor e não faz o mínimo esforço para sair, você está conhecendo o mundo errado, igual eu conheço; na verdade conheço só o meu próprio mundo.
— Na próxima oportunidade, vou te levar até lá — Dani falou, assim que comentamos sobre o Beco do Batman. — Você vai adorar!
— Certo! — me escorei em seu ombro, juntando as mãos nas pernas. — Acho que deveríamos voltar, não quero que fique tão tarde.
— Ah, beleza! — Dani se levantou primeiro, estendendo sua mão para mim. — Acabamos falando de tantas coisas que não falamos sobre nós — ele riu e eu fiquei tensa. — Eu te acho linda e gosto de você, . Não vou te pedir em namoro, até termos certeza dos nossos sentimentos. Se os seus sentimentos não forem como os meus por você, eu quero saber, assim como eu vou te dizer.
Não respondi, apenas fiquei de ponta de pés para juntar nossos lábios. Dani era um garoto maravilhoso, não tinha do que reclamar e tenho certeza que meus pais iriam adora-lo.
Pedi para que Durval fosse nos buscar e em questão de vinte minutos ele chegou. Primeiro deixou Dani, depois nos levou para casa.
Era quase 17h quando chegamos e a primeira coisa que eu fiz foi subir para o meu quarto. Havia alguém usando meu banheiro e só de ver a porta do quarto da frente aberta, eu sabia quem era.
! — gritei e empurrei a porta do banheiro.
Ele estava na minha banheira com uma toalha enrolada na cabeça, uma meleca branca na cara e pepinos nos olhos. Tinha uma taça de champanhe em mãos e velas acesas na beirada da banheira.
— O que você está fazendo de novo aqui? — perguntei confusa, escorando no batente da porta. — O papi mandou consertar seu chuveiro pelo que bem me lembro.
— Eu não tenho uma banheira e queria relaxar dentro de uma — disse tomando o líquido da sua taça. — Fora seus produtos que são ótimos!
, você está usando meu creme de pepino? — peguei a embalagem quase vazia. — Isso é caríssimo! Você não precisa disso.
— Nem você, com essa pele de pêssego — ele continuava relaxado na banheira, como se quem não quisesse sair.
— Se eu tenho pele de pêssego, é porque eu uso ele, né? , faça o favor? Eu preciso tomar banho! — tirei a tiara que eu usava no cabelo e coloquei em cima do balcão.
— Pode entrar, ainda está quente a água — ele sentou-se melhor, como se estivesse me dando passagem para compartilhar o banho com ele.
— Para de ser maluco, ! — cruzei os braços na frente do corpo. — Se você não sair nesse momento da banheira, eu vou gritar a Gertrudes e acho que ela não vai gostar de ver você aqui!
Ele tirou os pepinos dos olhos e largou a taça no suporte do lado da banheira, ficando em pé com as mãos na cintura. Ele estava completamente pelado, na minha frente.
Fechei os olhos querendo gritar, mas tentei evitar o máximo, mandando ele se cobrir logo ou eu iria definitivamente gritar por ajuda.
— Se você pegar a toalha que está ao seu lado, eu posso até pensar em esconder alguma coisa — provocou e eu abri apenas um olho, puxando a toalha.
Caminhei até ele para lhe entrega a toalha e esperei que ele levantasse a mão para pagá-la, mas ele não fez nenhum movimento, ficou apenas em silêncio.
Abri meus olhos e ele estava com a máscara branca no rosto, tentando não rir de mim. Segurou a toalha e saiu de dentro da banheira, enrolando em volta de seu quadril, tampando da cintura para baixo.
— Como foi o encontro? — perguntou penteando os cabelos na frente do espelho, perguntando como se não importasse, mas eu sabia que ele estava curioso. Começou a lavar o rosto, tirando todo o creme que havia passado.
— Normal — eu respondi o necessário e ele riu. O que eu falei de tão engraçado? — O que foi?
Percebi que ele tinha algumas marcas nas costelas e algumas tatuagens cobriam. Estranhei, porque aquilo não estava ali quando eu o vi quase pelado da última vez.
— Nada — colocou o pente de volta na bancada.
, o que é isso na sua costela? — toquei o roxo que havia visto e ele se encolheu, reclamando de dor. — Você se meteu em alguma briga? — Claro que não — ele cruzou os braços tentando esconder. — Eu bati, não é nada de mais.
? — segurei seus braços, querendo ver novamente e ele segurou minhas mãos. — Você apanhou de alguém! Foi da escola? Se foi podemos dar um jeito, a pessoa não pode ficar em pune assim.
, não foi nada — falou novamente. — Você pode ficar fora disso? Você nem se importa comigo assim para dar chilique!
Seus olhos estavam perdidos e então balançou a cabeça reprovando minha atitude. Qual delas eu não sei. E então se retirou do meu banheiro e do meu quarto, trancando-se na porta da frente.
Havia alguma coisa errada acontecendo, e algo me dizia que não era nada bom.


Capítulo 10 - HOSPITAL

O final de semana foi silencioso dentro de casa. Papi estava o tempo todo ocupado em seu escritório e mami não havia saído de seu consultório. Aparentemente seus clientes estavam dando mais trabalho do que ela imaginava.
Eu tentava a todo custo me concentrar na leitura de Dom Casmurro, mas parecia que pensamentos surgiam a todo o momento e eu não conseguia me concentrar em uma única página por completo. O hóspede do quarto da frente era um grande motivo para isso acontecer.
Falando nele, tinha sumido. Confesso que sentia falta dele alguns momentos, mas dentro do quarto ele ficou e não ouvi saindo durante o resto da noite e nem durante o dia de sábado.
Gertrudes estava preocupada. Não sei o que esse garoto tinha feito com ela para que ela gostasse tanto dele a ponto de perguntar a todo minuto e falar dele sempre que me via. Até que ela não aguentou e em meio ao meu almoço sagrado decidiu que iria até o quarto dele, mas sem sucesso, não foi atendida.
— Você poderia tentar conversar com ele e ver se ele come alguma coisinha, né, ? — disse ela pegando uma bandeja.
— Ger, não me mete nessa — revirei os olhos. — Se ele não falou com você, quem diria comigo?
— Você poderia ao menos tentar?
Eu não conseguia negar nada a ela e por isso peguei a bandeja com o prato de comida bem saudável que ela havia feito e subi as escadas em direção ao quarto dele. Bati duas vezes e nada.
— Você bem que poderia ser um pouco legal e abrir a porta, né? — parei sobre um dos pés e nenhuma resposta. — A Ger tá bem preocupada.
Até que parei de falar e tentei girar a maçaneta, que estava incrivelmente aberta. Ele nunca deixava aberta. Algo errado estava acontecendo, por isso entrei no quarto que estava completamente escuro. Com as mãos, procurei a mesa do quarto e deixei ali em cima a bandeja.
Por conta do silêncio, conseguia ouvir a respiração de vindo da cama e então ao invés de ligar a luz, abri uma parte da cortina.
Ele estava deitado de bruços, aparentemente muito coberto para um dia que não estava muito frio. Me aproximei e toquei suas costas, vendo que sua temperatura estava muito elevada.
— O que foi, boneca? — sua voz estava rouca e eu me assustei.
— Você está muito quente.
— As meninas costumam dizer isso — ele riu sínico e eu bufei.
— É sério, o que você tem? Está trancado aqui desde ontem à tarde, não está comendo — sentei-me na ponta da cama e ele se remexeu para olhar para mim. — A Ger está bem preocupada.
— Só não estou muito disposto — ele abriu um sorriso tímido. Seus olhos estavam inchados de sono, assim como seu rosto estava marcado do travesseiro. — Quando eu ficava assim, mami sempre me levava ao médico — falei ficando em pé. — Eu vou te levar no médico. Me ajude!
— Médico? — ele jogou-se mais uma vez na cama. — Não mesmo, .
Liguei a luz e peguei uma camisa que estava jogada em cima da cadeira do computador. Andei até a cama e o puxei pela mão. Em meio a reclamações ele ficou sentado e eu passei a blusa pela sua cabeça e os braços com sua ajuda.
— Suas calças? — perguntei olhando em minha volta e encontrando uma calça de moletom no canto. — Acho que você pode vestir sozinho.
Boneca, sem chance de irmos ao hospital — ele disse. — Não tem nada de mais, beleza? Eu só...
— Você apanhou, não vou insistir em como, de quem, ou porquê. Só quero que você fique bem e olha — apontei para ele — você não está nada bem. Só faz o que eu tô te pedindo? E por favor, para de andar ou mexer com o que for que te cause isso?
— Você está preocupada, boneca? — ele ficou em pé e andou em minha direção. Segurou minhas mãos e entrelaçou nossos dedos. — Queria poder... Vamos para o hospital se é importante para você.
Ele pegou sua blusa de moletom e colocou um tênis qualquer e então segurou as chaves do carro entre os dedos. Descemos sem que Gertrudes percebesse e pegamos o Jeep na entrada de carros. Ele foi dirigindo, insistiu que estava bem para se manter acordado e em menos de cinco minutos estávamos no hospital onde eu ia quando não estava bem.
— A consulta deve ser uma fortuna, boneca, acho melhor irmos em um público — ele falou parando na recepção do hospital.
— Você precisa de atendimento rápido, , e eu não quero que espere muito para isso — andei até a moça da recepção. — Oi, é... Ele não está se sentido bem, com febre.
— Convênio?
— Particular — falei entregando meu documento do hospital. — Pode colocar na conta do meu papi.
— Vou ter que entrar em contato com ele pedindo autorização — ela falou pegando o telefone.
Aguardamos uns minutos e papi quase surtou do outro lado perguntando se havia algo de errado comigo, por fim, ele liberou para passar no médico, mas não parecia muito preocupado.
Ele foi examinado, mandado para uma tomografia por conta dos hematomas espalhados pelo seu corpo e foi constatado que uma de suas costelas estava trincada e inflamada, por isso a febre alta. O médico passou alguns remédios, mandou ter repouso e que não se metesse em "brigas de adolescentes" nos próximos dias, ou pioraria sua situação.
— Se precisar de alguma ajuda por conta da fratura, pode me chamar — falei na porta do meu quarto segurando a maçaneta, vendo ele no meio do corredor.
— Você já fez muito por mim hoje, boneca — encostou-se no batente da minha porta. — Desculpa pelo modo que falei ontem com você. Só acho que você não merece estar envolvida na minha vida complicada.
— Acho que eu já sou uma das complicações — falei rindo e ele me acompanhou.
— Você não faz ideia do quanto.

💖

Segunda feira era um dia feliz para mim, afinal, vinha de um dia tedioso que era domingo e então eu me sentia reiniciada em uma nova semana. Não entendo pessoas que não gostam desse dia em específico.
Escolhi uma saia curta jeans e uma camiseta mais larga. Coloquei meu saltinho médio e peguei minhas coisas. Meus óculos espelhados azuis estavam na minha cabeça e meu cabelo loiro estava solto com algumas ondulações nas pontas.
Tomei um café bem tranquilo ouvindo mami falar com alguns funcionários do seu consultório e papi falar sobre a empresa e que teria um grande evento dali há um mês.
Até que ele apareceu. Se aquele garoto não era um deus grego, não sei que tipo de entidade ele era.
Seus cabelos estavam secos, perfeitamente lisos e penteados. Usava uma blusa preta de mangas 3/4 com botões até a metade do peito, e gola V. Usava calças pretas e o famoso all star.
— Bom dia! — sentou-se ao meu lado, parecendo muito melhor do que o dia anterior.
— Bom dia, querido! — mami cumprimentou e ele sorriu. — Como você está?
— Graças à , estou bem — disse piscando para mim e papi reprovou o gesto. Ele não estava com cara de bons amigos, muito menos parecia feliz em ver que estava bem. — Obrigado, boneca.
Ele abriu um sorriso gostoso para mim, na qual tenho certeza que qualquer garota se derreteria, mas eu não era desse tipo de garota. Eu não sabia se ainda estava com raiva dele, sei lá, fiquei realmente com pena de ver ele ontem doente; mas eu... Confesso que não sabia sobre o que eu sentir em relação à cena do sextape dele com a Suelen.
Boneca? — papi quase gritou do começo da mesa, olhando ele irritado. Eu quase pulei da cadeira, porque minha mente estava em outra dimensão. — Quem te deu o direito e a intimidade de falar assim com a ?
Papi, calma — eu falei, mas na realidade eu não sabia o que dizer.
O que eu ia dar como desculpa? Não tinha motivo para ele me chamar desse jeito, se não fosse a intimidade que eu dei a ele, mesmo que no fim, por estar com raiva dele, pedi para que não me chamasse daquele jeito. E também porque eu estava acostumada com isso.
— Tranquilo, Ângelo — tomou a frente e eu fiquei atenta. Queria saber qual desculpa ele daria. — Eu só chamo a assim, porque ela realmente se parece com uma Barbie. Sem intimidade, afinal, você sabe como eu sou, né?
Papi não estava nenhum pouco feliz com a sua ousadia e eu também não estava nenhum pouco calma. Mami estava assim como eu: apenas observando e rapidamente capitei que por mais que estivesse vivendo conosco, papi estava sendo obrigado por algum motivo a "suportar" ele ali.
E como o é? Fiquei pensando. Até que ele me chamou, disse que estava indo para escola e que daria uma carona se eu quisesse; por isso, antes que papi falasse algo, eu fiquei de pé e sai da mesa.
Aquele dia parecia muito estranho, porque ele estava tão quieto quanto eu, e o som do carro estava desligado. gostava de ouvir alguns rocks e amava programas de futebol, mas parecia aéreo.
Eu não queria puxar assunto, para mim estava tudo ok. Decidi respeitar seu espaço até chegarmos à escola, e ele parar na frente sem desligar o carro.
— Você não vem? — perguntei curiosa, já tirando o cinto de segurança.
— Preciso resolver umas coisas — respondeu colocando os óculos escuros. — Se precisar, me liga.
Apenas balancei a cabeça. Quis voltar e pedir para que ele tomasse cuidado, mas ele já não estava mais lá parado; podia ver o Jeep no final da rua, dobrando a esquina.
Eu precisava descobrir em que estava metido, pois boa coisa não era e se precisasse, eu iria envolver papi na história, porque eu sabia que ele podia ajudar.
Voltei meus passos em direção à escola, tentando organizar a saia do meu conjuntinho desatenta. Havia uma faixa de aviso na qual muitos alunos olhavam e falavam sobre algo.

PAULO DA CUNHA APRESENTA:
LEILÃO BENEFICENTE
Mais informações na reunião geral as 10h no auditório no dia 15/03.

Eu estava muito curiosa para saber qual era a novidade que a escola estava trazendo para nós, e então mal consegui me concentrar na aula de matemática, e quando deu 10h, eu já estava no auditório com as minhas amigas.
— Bom dia, Paulo da Cunha! — a diretora falou do palco, enquanto mais jovens chegavam e se acomodavam pelo auditório. — Nós estamos com um novo projeto para a chegada do inverno, que consiste em ajudar pessoas carentes. Colocaremos uma caixa no pátio para a campanha do agasalho. Por fim, faremos um leilão! Um leilão de encontros!
— Encontros? — ouvi varias vozes perguntando dentro do auditório.
— Calma, eu vou explicar — ela acalmou o alvoroço que virou. — Alguns estudantes vão se candidatar e faremos o dia do leilão, lembrando que é para garotos e garotas, viu? Quem der o maior lance, irá ter um encontro com a pessoa, com tudo pago pelo Paulo da Cunha. Ah, e todo valor arrecadado será revertido para o abrigo que temos aqui perto da escola, que auxilia pessoas carentes e moradores de rua.
— Esse evento é muito machista! — gritou uma garota da ponta.
— E não toleramos nenhum tipo de preconceito! Estamos organizando esse evento para animar a escola, inclusive o terceiro ano que se forma logo no final do ano, e também por uma boa causa, que é ajudar o próximo! — a diretora complementou, e eu olhei para as minhas amigas que pareciam muito animadas. — Preciso de alguns voluntários para organização. Quem pode ficar responsável pela lista de inscrição?
— Eu! — fiquei em pé e gritei. Foi quando me surpreendi. Eu?
ficará responsável pela inscrição dos alunos do que terão um encontro leiloado, então procurem ela! — a diretora me entregou uma prancheta junto com uma ficha. — Quem será responsável pela organização do evento? Preciso de 5 pessoas.
E a reunião continuou enquanto a diretora organizava os grupos para organizar o evento, como decoração, música comida, e afins. Eu amava essa escola e ainda mais eventos para ajudar pessoas carentes, por mais estranho que fosse leiloar um encontro.
Na saída da escola, me despedi das minhas amigas e peguei meu celular, em dúvida se deveria ligar para o ou se deveria falar com Durval para me buscar. Depois de mandar uma mensagem para o meu "inquilino", guardei o celular e comecei a pensar no evento que estávamos organizando.


Continua...



Nota da autora: Sem nota.



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