Distrito 22

Última atualização: 01/01/2022

Prefácio

Minha filha brincava na neve junto de . Sua mãe tinha vestido todas as peças de roupas possíveis para que se protegesse da neve – quase não conseguia ver seu rosto devido à jaqueta rosa-claro e o capuz de pelos. Ela juntava uma quantidade de neve nas mãos protegidas por luvas de pano brancas e jogava na direção de , de sete anos, que era dois anos mais velho que minha filha.
— Você não fica preocupado com ela? — Hariett me perguntou, se aproximando de mim na varanda do nosso quarto e apoiando a mão direita em meu ombro.
— O que quer dizer? — virei meu rosto em sua direção, que encarava a filha.
— Acha que é uma boa ideia deixá-la crescer aqui?
— É a nossa casa, para onde iríamos? — perguntei, enfiando as mãos dentro da jaqueta azul.
— Charles, você quer que ela cresça com a mesma obrigação e pressão que eu e você tivemos? — seus olhos azuis viraram-se para mim. Ela estava séria.
— Não posso deixar vocês irem embora, Hariett. Aqui dentro, pelo menos, estamos juntos e conseguimos prever certas coisas. Lá fora, não. Tem noção da quantidade de pessoas que poderiam matá-las? — virei-me para a minha esposa, que suspirou profundamente. Ela voltou a olhar para a filha, que estava deitada na neve.
— Não sei qual opção é menos pior.
— Se algo acontecer com a gente, ela vai saber se virar sozinha, Hariett. Ela tem o nosso sangue — dei um beijo na cabeça da minha esposa, onde um gorro estava tampando parte dos seus cabelos loiros. Dei as costas para a varanda e entrei no quarto.


Capítulo 1 – A vida antes da minha morte.

13:30. Era a hora que eu tinha saído do Paris Opera Ballet. Carregava a bolsa preta com meus utensílios de ensaio, como garrafa de água, sapatilhas, entre outros acessórios. As nuvens no céu indicavam uma possível chuva em poucos minutos. Parei na calçada e estiquei o braço para que um táxi parasse para mim. Mesmo com a jaqueta por cima do collant, sentia minhas pernas se arrepiarem com o vento frio, já que estavam cobertas somente com uma saia e uma meia-calça preta.
Finalmente um taxista parou ao meu lado. Abri a porta do banco de trás e entrei; indiquei o endereço para o qual deveria ir e encostei as costas no banco, suspirando baixo. Ainda conseguia ouvir a treinadora chamar a minha atenção com a posição dos braços. A semana estava sendo tão exaustiva.
Depois de alguns segundos em silêncio, senti o celular dentro da bolsa vibrar. Só poderia ser uma pessoa.
Puxei o botão verde para o lado e coloquei-o ao lado do ouvido.
— Mãe? — perguntei, jogando a cabeça para trás até encostar no banco. Ela me ligava todos os dias para ao menos ver se eu estava viva, já que ficou no interior e eu vim para a França.
Oi, querida! Como você está? — a animação dela no outro lado da linha era enorme.
— Estou excelente, como todos os dias. E você? Anda se ocupando muito? — não queria dizer que estava exausta, não tinha um motivo específico. Mas não queria deixá-la preocupada e achando que estava me esforçando mais que o normal.
Não tenho muito o que fazer aqui. Uma hora eu cozinho, outra vou para o tricô… É todo dia a mesma coisa — ela suspirou e deu de ombros.
— Você sente falta de trabalhar, mamãe, mas sabe que não é mais necessário.
Todos os meses, eu mandava uma certa quantia de dinheiro para ela. Minha mãe não conseguia mais trabalhar por alguns problemas de saúde. Ela recebia um auxílio, mas não era lá essas coisas.
Sim, querida, mas não gosto que você me mande seu dinheiro — ela resmungou do outro lado. Parecia estar mexendo em algumas panelas pelo barulho.
— Não vamos discutir sobre isso novamente, está fora de questão — cortei o assunto antes que ela começasse a querer me fazer mudar de ideia.
Ok, Ella, tudo bem — ela concordou, meio relutante. No fundo, pude escutar a campainha da minha antiga casa tocar. — Quem está me perturbando justo depois do almoço? Vou desligar, querida. Até amanhã. Qualquer coisa, me liga!
— Ok, mamãe. Você também pode me ligar, se precisar. Bisous! — retirei o telefone da orelha e desliguei a chamada.
Às vezes, ficava um pouco preocupada com ela morando sozinha, e não tinha quem a arrastasse para Paris. Eu havia tentado de todas as formas, mas aquela casa, para ela, fora tudo o que lhe restou do que conquistou.
O taxista parou em frente ao loft que eu morava. Era bem localizado na cidade e eu tinha dado sorte de encontrar um já com mobília. Saltei do carro depois de pagar a corrida e retirei as chaves de dentro da bolsa. Acenei para o porteiro que ficava de vigia do prédio de quatro andares e, ao colocar o dedo indicador no scanner de digitais, o portão se abriu. Entrei e, com um leve empurrão, deixei que se fechasse sozinho. Em poucos minutos, estava no segundo andar diante da porta branca do loft. Joguei minha bolsa em cima da mesa de jantar e fui até o sofá, onde deixei meu corpo descansar. Talvez não me atrasaria para o trabalho se ficasse por vinte minutos ali, mas, como não queria arriscar, logo me levantei para tomar um banho.
Deixei a água quente escorrer pelo meu corpo por alguns minutos – aquilo me ajudava a relaxar e, principalmente hoje, eu estava precisando. Após uns quinze minutos no banho, fiz minha higiene bucal e saí do banheiro para colocar o uniforme de trabalho. Abotoei a blusa social branca e dobrei o colarinho. Em seguida, vesti a saia preta, quatro dedos acima do joelho, com a blusa por dentro. Depois, fui até o banheiro, onde prendi o cabelo em um coque baixo para ficar bem preso e passei creme nos fios rebeldes que insistiam em ficar para cima. Passei uma maquiagem leve no rosto; não podia fazer algo muito forte. Quando finalmente fiquei pronta, saí do quarto, levando comigo o sobretudo cinza e a bolsa de lado com os meus pertences.
O Uber me deixou vinte minutos antes de bater meu ponto no estabelecimento. Entrei pela porta dos fundos e guardei meus pertences no armário de número 13, pegando somente a caneta e o bloco de anotações dos pedidos. Amarrei o avental na cintura e sentei-me ao lado dos armários para aguardar minha troca de turno com a menina da manhã. O local tinha muitos funcionários, mas somente eu e mais três pessoas trocávamos de turno devido os estudos.


...


— Pontual, como sempre — Oscar apareceu para cumprir seu horário de lanche. Ele trabalhava no balcão, diferente de mim, que ficava rodando pelo salão. Estava no Café de Flore há menos de um mês e quase não tínhamos nos falado. Oscar parecia ser um típico universitário bem focado no que fazia; alto, com algumas espinhas no rosto e um problema de visão. Meio desengonçado, mas conseguia fazer um bom café.
— Sim. Não gosto de chegar atrasada, principalmente no trabalho — dei de ombros enquanto passava os papéis do bloco pelo polegar.
— Me falaram que você é bailarina, é verdade? — ele se sentou ao meu lado com um croissant e um copo de suco de laranja.
— Sim, sim. Por isso trabalho na parte da tarde, meus treinos são durante a manhã — dei um sorriso ladeado, e a menina com quem ia trocar de turno apareceu.
— Olá, Antonella. Lá fora está cheio, movimento demais. As comandas estão no lugar de sempre — Marie colocou seu indicador no scanner para bater o ponto e eu me levantei do banco para bater o meu.
— Obrigada, Marie. Conversamos depois, Oscar — acenei brevemente para ele e empurrei a porta de serviço para entrar no salão. Realmente, a casa estava cheia hoje.
— Antonella, os pedidos da mesa 2! — Warren bateu no sino do balcão, me chamando.
Peguei a bandeja e, sobre elas, coloquei todas as bebidas e duas tortas de limão. Levei os pedidos até a mesa destinada e voltei para o balcão, onde mais pedidos me aguardavam. Ao ver que foram todos entregues e que algumas mesas esperavam por atendimento, fui até o lado de fora do estabelecimento e parei diante da mesa 26. Era um casal de idosos.
Apesar do tempo estar meio nublado, aquele lugar estava sempre cheio. Nunca era um dia ruim. O Café de Flore estava em todos os sites de viagem e recomendação de cafés em Paris – por esse motivo, o movimento era grande. Porém, eu chegava morta em casa. Até minha treinadora reparou que eu tinha emagrecido. Como eu chegava uma e meia da manhã em casa, não tinha vontade de comer nada, somente deitar e acordar para ir ao treino. Minha alimentação estava ficando meio restrita, mas estava valendo a pena. Tinha que me sustentar aqui e mandar uma quantia de dinheiro para ajudar minha mãe. Era tudo pelo meu sonho de me tornar uma das melhores bailarinas já conhecidas. Não podia jogar tudo isso fora simplesmente pelo cansaço.
Assim que meu expediente acabou, peguei uma carona com o menino que trabalhava no caixa. Ele me levava em casa todos os dias. Era muito perigoso voltar a pé, mesmo a cafeteria ficando uns trinta minutos da minha casa, e, naquele horário, pegar um Uber também era perigoso. Ele me deixou na porta do prédio, e, ao entrar em casa, tomei um banho rápido e me deitei na cama para dormir. Foi um dos dias que meu corpo não conseguia se arrastar para fazer nada.


...


Minha rotina era a mesma toda semana. Segunda, terça, quarta e sexta eu tinha ensaios. Na segunda, terça, quarta e quinta eu trabalhava em uma lanchonete próxima de casa das três às dez horas da noite. Como hoje era quinta, eu tinha que ir somente ao trabalho. Nos outros dias, outra menina fazia o turno. A dona gostava de dividir os dias, pois acreditava que ficávamos mais dispostas para atender.
Levantei às nove horas da manhã para preparar meu café, coloquei a água para esquentar e sentei no sofá para assistir às notícias da manhã. Meu celular tocou logo depois. Não tinha mais quem pudesse ser além da minha mãe; era o único contato que me ligava diariamente. Coloquei no viva-voz e fui até a cozinha para coar o café.
— Bom dia, mãe — falei, dando um leve bocejo.
Bom dia, Ella — o tom de voz dela estava diferente. Minha mãe sempre me ligava tão animada.
— Aconteceu alguma coisa? A senhora parece estar preocupada — comentei, enquanto passava a colher pelo coador.
Então... Lembra que ontem uma pessoa apertou a campainha aqui de casa?
— Sim, lembro. Por quê?
Era um agiota, querida — ela respirou fundo antes de continuar. Mas que diabos um agiota queria com a minha mãe? — Seu pai passou o endereço daqui de casa. Pelo visto, ele ainda está vivo, já que pegou o dinheiro emprestado há cinco meses e sumiu do mapa novamente. Como garantia, ele passou o endereço daqui de casa — ela estava começando a entrar em desespero. Aquele informação, logo pela manhã, já tinha estragado todo o meu dia. — Eu tentei explicar que não temos nada a ver com isso, que foi um engano, que ele não mora mais aqui… Mas ele quer o dinheiro mesmo assim, minha filha. Aquele homem é um demônio! — minha mãe soluçava, tentando manter a calma, mas ela já estava em prantos. Iria toda a nossa preocupação novamente. Aquele homem não nos dava sossego.
— A senhora explicou tudo mesmo pra ele? Ele não entendeu? Não tem como a gente pagar? Quanto é o valor? — já tinha deixado até o café de lado e sentado na bancada da cozinha para tentar raciocinar. Eu que precisava resolver as coisas agora, minha mãe não tinha mais condições de fazer isso.
Não, Ella, ele me deu três dias para conseguir o dinheiro. São vinte mil euros! Seu pai saiu do país, vai saber pra onde foi. Por isso pegou o dinheiro com esse homem, pelo menos foi o que ele disse! — Ellie já tinha se acalmado, mas, ainda sim, sua voz estava trêmula.
— Vou dar um jeito de conseguir esse dinheiro. Fica tranquila, mamãe. Daqui três horas eu ligo pra senhora, ok? Não precisa ficar preocupada. Já passamos por isso antes, vamos conseguir sair dessa — desliguei, antes mesmo que ela falasse mais alguma coisa.
Encostei a testa no balcão. Como eu odiava aquele homem que um dia foi meu pai. Para minha sorte, não me lembrava direito de seu rosto, mas, se um dia o encontrasse na rua, sentiria na hora que era ele.
Me arrumei rapidamente e saí de casa sem ao menos tomar o meu café. Tempo era dinheiro e hoje eu precisaria de vinte mil euros. A minha primeira esperança era o banco Montepio, senão quem iria procurar um agiota seria eu.
O táxi me deixou às dez horas em frente ao banco. Desci do veículo, empurrei a porta de vidro e segui para o setor de empréstimos. Peguei uma senha para ser atendida e sentei em uma das cadeiras de espera. Tinha em torno de oito pessoas na minha frente, e elas não saíam de lá muito felizes ao tentarem resolver seus problemas. Eu estava começando a ficar com medo de não conseguir também.
Duas horas e meia de espera não serviram de muita coisa. O banco aceitava somente empréstimos para abrir um negócio ou financiamento de algo. Além disso, a renda que eu recebia constava que não daria conta de pagar os vinte mil euros. Agradeci ao senhor que me atendeu e saí do estabelecimento me segurando para não estar em desespero. Senti um nó se formar na minha garganta, mas não era hora de chorar. Minha mãe seria morta se eu não pagasse aquele cara em três dias. Eu precisava encontrar uma solução, mas, infelizmente, era melhor ficar devendo para um banco do que para um agiota.
Fiquei alguns segundos parada na calçada pensando para onde ir. Talvez conseguiria o dinheiro com a dona da lanchonete em que trabalhava; toda semana entravam rios de dinheiro naquele lugar. Peguei o celular dentro da bolsa de ombro e abri os contatos para ligar para ela, porém fui interrompida por uma gritaria repentina. Levantei a cabeça e vi várias pessoas correrem em busca de abrigo.
Um caminhão vinha desgovernado na direção do cruzamento e os pedestres gritavam de um lado para o outro com medo do veículo atingir uma delas. Por instinto, corri até a porta do banco novamente junto das outras pessoas que faziam um amontoado desesperado. Até que, por fim, consegui entrar junto de outros cidadãos. Porém, senti meu corpo ser impulsionado para frente com brutalidade; o caminhão havia batido no estabelecimento.
Meu corpo bateu com uma força enorme no chão. O barulho da construção desmoronando foi estrondoso. Por pouco, uma enorme pedra não caiu em mim. Estava entre o desmaio e a sobriedade, minha cabeça rodava e eu não conseguia sentir muito bem meu corpo que tinha batido contra a parede. Abri os olhos lentamente e uma poça de sangue se formava embaixo de mim. Era nítido, já que eu estava de barriga para baixo.
O sangue se misturava com o pó dos escombros do banco e encharcava o meu sobretudo branco, deixando-o completamente vermelho. Minha respiração começou a ficar ofegante e tentei mexer meu corpo, mas era impossível. Não conseguia sentir meu braço direito muito bem, e os gritos só me deixavam mais desesperada.
— S-s-socorro... — meu pedido saiu mais como um sussurro do que como um grito.
Mesmo com a visão turva, podia ver alguns pés passando ao meu redor. Meus olhos começaram a pesar e senti uma vontade enorme de dormir. Até que eles se fecharam por completo e eu não me lembrei de mais nada.


Capítulo 2 – Sem rumo.

Dizem que, quando você morre, ou vai para o céu ou para o inferno. Na minha concepção, sempre achei que iria para o céu. Nunca fiz nada de errado durante a vida, sempre tentei ajudar as pessoas e, por tudo o que sofri na adolescência, acreditava que Jesus tinha um propósito para aquilo. Mas sentia que tinha alguma coisa de errado comigo. Minha alma não saiu do corpo como em filmes, ninguém veio me buscar e eu não fui para lugar nenhum. Tudo estava escuro. Afinal, como a morte realmente era? Não acreditava que aquele era realmente o meu momento. Como minha mãe ficaria? Ela não tinha dinheiro para pagar o agiota do meu pai, então seria assassinada? Não era a hora de eu morrer, eu não podia morrer...
“Doutor, ela parece estar acordando”, uma voz masculina ecoou pela minha cabeça. Estava sonhando?
“Deixe-a acordar, já está dormindo tem um tempo”, pude escutar outra voz mais grave e cansada no fundo. Ele parecia estar mais longe de mim.
Na medida que tentava abrir os olhos, senti uma forte luz diante dos meus olhos, o que me fez resmungar. A luz foi retirada do meu rosto por alguém e, aos poucos, pude abri-los por completo. Porém, como estava com muito sono, meus olhos não conseguiam se manter abertos por muito tempo. O local cheirava a hospital e eu me sentia gelada. Meus braços pareciam estar descobertos e parecia que eu ainda podia escutar o barulho do acidente.
— Onde estou? — perguntei, tentando captar algumas imagens do local em que me encontrava. Parecia ser um hospital devido aos equipamentos.
Passei a mão pelo colchão e, em seguida, levantei o braço. Percebi que meu corpo estava coberto por um lençol fino e gelado, por isso estava com um pouco de frio.
— Antonella, dia quinze de agosto de dois mil e trinta e dois, cinco dias após o acidente e encontra-se estável — a voz mais cansada que tinha escutado, dessa vez, estava mais próxima de mim.
— Onde estou? Por favor... — eu buscava forças que não tinha em meu corpo. Me sentia impotente.
— Nós te salvamos do acidente que aconteceu em Paris, Antonella. Você foi uma das feridas entre dezenove pessoas — a pessoa que parecia ser o médico conversava comigo calmamente. Eu já tinha desistido de manter meus olhos abertos, então somente escutava a sua voz. — Agora está em um local chamado Distrito 22.
— Distrito 22? Que lugar é esse? Onde vocês estão me mantendo? — eu estava nervosa. Nunca tinha escutado sobre aquele lugar na minha vida. Minha respiração começou a ficar ofegante, meu braço direito estava em volta de algo pesado. — Minha mãe, preciso falar com a minha mãe, ela vai morrer… Minha mãe... — as lágrimas escorriam descontroladamente pelo meu rosto. Estava quase conseguindo levantar o tronco da maca.
— Aumentem o sedativo dela — escutei um banco se arrastar pelo chão e, em seguida, passos se afastando de mim.
— Sim, senhor — a primeira pessoa que tinha escutado confirmou.
— NÃO! Não, por favor. Minha mãe, minha mã... — meu corpo, aos poucos, ficou cada vez mais amolecido, e meus olhos pesavam uma tonelada cada um. Até que, finalmente, meu corpo se entregou e eu voltei a dormir profundamente.


...


Eu estava meio cansado, precisava de outro médico para me auxiliar. Receber quase uma pessoa por semana estava me deixando meio exausto, principalmente quando se tratava de casos internos como o dessa garota. O impacto que seu corpo causou no chão fez com que ela tivesse várias hemorragias internas. Foi difícil fazer com que o sangramento parasse, mas com calma, paciência e precisão, obtive sucesso. Meus passos ecoavam por todo o corredor que me levava à sala de reuniões. Empurrei a porta de madeira e me dei de frente com a diretora do local onde eu trabalhava.
— Como ela está? — a mulher de cabelos ruivos e vestido preto em formato de tubinho perguntou, virando a cadeira para a minha direção. A paisagem das montanhas atrás dela era algo lindo.
— Bem. Estável. Foi a primeira vez que acordou. Está preocupada com a mãe, parece estar com medo da mãe morrer… Foi tudo o que disse — enfiei as mãos dentro dos bolsos do jaleco branco e permaneci com a postura ereta, enquanto a mulher olhava para mim com cara de paisagem.
— Ok. Se tiver mais informações, me avise, por favor — ela virou novamente a cadeira na direção das montanhas e eu me inclinei para frente, fazendo uma pequena reverência.
Dei as costas e saí do local, voltando para a área de internação. Entrei na ala de repouso, onde algumas pessoas se recuperavam de seus respectivos traumas ou machucados leves. A maioria tinha retornado de alguma missão. Como todos os dias, eu tinha que fazer as análises e liberar alguns para os seus deveres.
— Boa tarde, doutor! O que temos para hoje? — entrou no local, radiante como sempre. Ela segurava uma sacola com roupas limpas e sapatos. Nas horas vagas, tinha o trabalho de encaminhar os novatos para o distrito, onde mostraria cada lugar e em que dormitório se hospedaria.
— Boa tarde, . Que bom que chegou logo — peguei a caderneta do laboratório, onde ficavam todos os remédios e utensílios, como agulhas e acessos. — Hm... Saori Miura — afirmei ao olhar, nos relatórios, os papéis sobre cada uma das pessoas ali presentes.
Deixei a caderneta de lado e me encaminhei para os leitos que estavam mais à frente, com me acompanhando. Puxei para o lado a cortina branca que separava os leitos e encontrei Saori sentada na maca folheando uma revista. Não tinha muito o que fazer ali. Por isso, deixava algumas revistas e tinha pedido para a direção instalar alguns televisores para os pacientes passarem o tempo. Afinal, eles só tinham que aguardar a alta.
— Até que enfim, doutor. Não aguento ficar mais presa aqui, fora que não entendo nada do que essas revistas falam — ela revirou os olhos, jogando a revista em cima da maca. Até que reparou que tinha mais alguém no local, o que a fez ficar em silêncio.
— Saori, essa é . Ela vai te ajudar a se instalar aqui e retirar todas as suas dúvidas. Se precisar de mais alguma coisa, pode me procurar. Sempre estou na enfermaria. Além disso, todo sábado temos uma iniciação para os novatos. Então, fique tranquila que logo irá entender tudo — dei um passo para o lado para que a menina tivesse espaço para se retirar. Ela ficou meio retraída, mas, aos poucos, foi descendo da maca.
— No começo, pode ser um pouco estranho. Eu também estranhei, mas você vai se acostumar. Meu nome é . Trouxe roupas limpas e novas para você. Quando chegar ao seu dormitório, poderá organizar suas coisas — a menina de cabelos castanhos abriu um sorriso acolhedor, o que fez com Saori relaxasse mais.
— Bom, não sei que coisas. Não tenho mais nada — ela disse em tom baixo.
— O Distrito deixa tudo preparado para você. Além disso, se quiser algo, é só pedir ou aguardar mais um tempo até que tenha liberação para sair — saiu do leito e explicou algumas coisas para a novata, que prestava atenção em todas as palavras da mentora.
Fui resolver as outras altas pendentes, como a de Nikolai, que praticamente morava ali. Nunca vi um menino se meter tanto em confusão como ele; ou, às vezes, era simplesmente um exame sanguíneo para verificação de substâncias químicas.


...


A sensação de eu estar totalmente dopada pela quantidade de remédios estava menor. Meu corpo parecia estar mais leve, mas não sabia mais em qual linha temporal estava, ou onde estava, ou como estava. Meus pensamentos estavam uma bagunça.
— Antonella? — uma voz que familiar me chamou.
Meus olhos se abriram com mais facilidade, apesar da claridade me incomodar.
— Hm...? — resmunguei, sentando-me na maca que estava mais inclinada.
Por um segundo, senti meu corpo pender para o lado, mas logo me recompus. Assim que meus olhos se acostumaram com a claridade, pude enxergar claramente onde estava. Estava diferente da vez anterior que tinha acordado: era um leito com menos equipamentos de hospital, e eu não sentia mais o acesso do soro na minha mão. Um total de quatro pessoas me encaravam: uma mulher bem arrumada de cabelo ruivo, dois homens – um médico e um possível enfermeiro –, e uma menina de cabelos castanhos, que vestia roupas mais despojadas.
— Quem são vocês? — perguntei, ao me dar conta novamente que não sabia nada daquele lugar, o que me irritava profundamente.
— Primeiramente, gostaria que permanecesse calma. Tudo será explicado. Porém, gostaríamos que você fosse instalada primeiro, para se sentir mais confortável — a mulher ruiva falou, enquanto olhava para mim com certa calma. Mas eu sentia que ela estava me observando e tirando suas próprias conclusões.
— Primeiramente, gostaria que me explicasse onde eu estou. Não vou me sentir confortável até que os principais pontos sejam ditos — permaneci firme e cruzei os braços, olhando para todos os presentes.
A mulher suspirou alto e fez sinal para que os outros saíssem do leito.
— Mas, senhora... — o médico relutou com um ar de preocupação.
— George — ela apontou para a saída e o homem simplesmente obedeceu.
Visivelmente, era ela que mandava ali, pelo poder que tinha sobre os outros. A mulher virou-se para mim e deu um sorriso torto, puxou uma cadeira que estava próxima da minha cama e sentou-se ao lado da cortina que separava o meu leito dos outros.
— Meu nome é Lenora. Sou eu que administro esse lugar — ela cruzou as pernas, mostrando o scarpin preto no pé. — Você está onde chamamos de Distrito 22. Basicamente, acolhemos jovens que têm grande potencial em nos ajudar nas tarefas desse local, após... Hm... Como posso dizer? — ela tentava procurar a palavra exata para que eu não interpretasse errado. — … Morrerem. Todos que estão aqui vieram de algum acidente ou tragédia. Se enxergamos algum potencial nessa pessoa, ela tem a oportunidade de ficar conosco. Caso contrário, é liberada. Nossas tarefas incluem treinamento, aperfeiçoamento de habilidades, entre outras coisas para, então, atuarem em campo. No caso, seria o trabalho sujo que os governos não querem fazer para não sujarem o próprio nome.
— E como vocês me encontraram? Trabalham para o governo? Vou virar o quê, exatamente? Uma agente? Espera, isso não é rapto? Que tipo de história maluca é essa? Não faz o menor sentido — levei as mãos até a cabeça, tentando amenizar minha respiração ofegante.
— Nós temos pessoas em todos os lugares. Quando você foi para o hospital, parece que uma colega sua da companhia de balé a reconheceu, então pensamos em trazê-la para cá. E acho que não será possível você voltar para casa. Estamos na Eslovênia, especificamente em Bled. E sim, você se tornará uma agente, basicamente — a mulher encarou suas unhas pintadas de preto e suspirou baixo.
— Deixa eu ver se entendi bem. Estou... estou na Eslovênia?! — praticamente gritei ao escutar a informação. Olhei para os lados, incrédula. — Vocês praticamente me raptaram! Mon dieu! Eu quero me levem de volta para a França agora! — virei o rosto na direção da mulher, que soltou um riso baixo. Em seguida, se levantou e veio na minha direção.
— Antonella, você tem certeza que você quer voltar para aquela vida pacata que tinha? Após ser transferida para cá, nós investigamos tudo sobre você — ela falava em tom baixo e apoiava as mãos no colchão, olhando fixamente para mim. — Aqui, você pode simplesmente ter tudo o que quiser, porque eu sei que, no fundo, a sua vida estava te cansando por sempre ser a mesma coisa. Você tinha dúvidas se realmente era aquilo que queria, se realmente iria ser a bailarina tão conhecida que sonhava. Você pode ter literalmente tudo — ela me olhava tão fixamente que eu podia sentir que estava lendo a minha alma. Ninguém nunca diretamente havia falado aquilo para mim, e até que ela não estava mentindo. Porém, aquele lugar me causava dúvidas. Eu estava em um meio completamente desconhecido. — Além do mais... — ela se afastou, voltando para a cadeira em que estava sentada. — Para o mundo lá fora, você está morta. A partir do momento que você entra aqui, você morre — ela disse com tanta naturalidade que eu quase não acreditei.
— Eu... eu estou morta? — levantei as sobrancelhas, surpresa, tentando assimilar tudo o que ela tinha me dito. — E a minha mãe?! Meu Deus, minha mãe! Como minha mãe deve estar agora? — fiquei perplexa, olhando para a cortina na minha frente. Eram tantas emoções que eu não conseguia sentir nada. Tristeza, raiva, preocupação; todas estavam juntas.
— Talvez seja uma informação difícil de lidar, mas a sua mãe está morta. Foi por isso que reconhecemos você pela sua amiga. Nenhum familiar foi à procura de você no hospital.
— O-o-o quê? — minha voz falhou. Era como se tivesse sofrido o acidente novamente.
— Iríamos entrar em contato com sua mãe e pagar a dívida que vocês deviam. Dessa maneira, ela ficaria fora de perigo. Porém, quando a minha equipe chegou, ela já não tinha mais vida — Lenora não era o tipo de pessoa que sabia dar notícias de falecimento. Eu podia sentir as lágrimas descendendo descontroladamente pelas minhas bochechas. Estava em estado de choque. — Já que acabamos, posso me retirar agora. irá ajudá-la a se instalar — ela se levantou da cadeira. Por que aquele nome me trazia uma sensação de nostalgia? — Você tem dois dias para decidir. Acredito que esse lugar vai trazer muito de você à tona ainda — ela sorriu por cima do ombro, empurrou a cortina para o lado e saiu.
Ótimo. Sentia que tinha vendido a minha alma para o diabo. Minutos depois, a menina que estava presente no meu leito quando acordei voltou. E ela estava radiante, exceto quando viu a minha expressão. Deu as costas e saiu da sala.
Simplesmente me deitei na cama novamente e abracei o travesseiro, encolhendo o meu corpo. Como era possível a minha vida mudar dessa maneira? Parecia que o caminhão que atingiu o banco levou tudo de bom da minha vida. Era como se tivesse destruído literalmente tudo. Eu não tinha mais nada. Não tinha nem a minha própria vida. Estava morta. Meus sonhos, minhas roupas, exatamente tudo tinha ido embora. Foi nesse momento que eu comecei a chorar como criança.
A menina nomeada apareceu com o doutor depois de alguns segundos, e ele veio até mim.
— Me deixem sozinha, por favor. Juste quelques minutes — falei, enfiando o rosto no travesseiro. Eu precisava do meu momento de luto. Tinha acabado de saber que minha mãe estava morta. Espaço, precisava de espaço.
O médico recuou e ambos saíram do leito, fechando a cortina para que eu pudesse ficar sozinha. Eu só queria um conforto e aquele lugar não me trazia nenhum.


...


— Licença — entrou na sala e colocou apenas a cabeça para dentro do leito. Olhei para ela e, em seguida, desviei os olhos. A menina entrou e sentou-se na cama ao meu lado. — Quando vai decidir sair? Já faz uma hora.
Ne sait pas — respondi, indiferente.
— Sabe, eu não entendo muito bem francês... — ela deu um sorriso ladeado, meio sem graça.
— Eu falei “não sei”. Viu? Por isso não gosto daqui. Simplesmente me enfiaram em um buraco e me jogaram várias informações que não fazem o menor sentido pra mim. Por que eu? Poderia ser outra pessoa que tivesse no acidente comigo. Eu não pedi pra estar aqui, será que não entenderam? Isso é sequestro! — sentei na cama, indignada, colocando as mãos no rosto. Eu tinha alguns ferimentos nos braços, mas todos estavam bem cuidados e com gaze. Exceto pelo meu antebraço esquerdo, que estava engessado.
— As pessoas que estão aqui não tem nada a perder, Antonella. Eu fui uma dessas pessoas e passei pelo mesmo processo que você. Você tem a escolha de ir embora. Eu também tive, mas decidi ficar. Não estou te influenciando. Eu não tinha uma vida muito boa lá fora, então a oportunidade surgiu e preferi ficar. Pelo fato de você querer ir embora, imagino que goste da sua vida. Agora você não está entendendo muita coisa, mas estou aqui pra isso. É literalmente o meu papel te mostrar o lugar. Então, quer finalmente sair da cama e tentar esfriar a cabeça? — ela se levantou da cama e eu fiquei encarando a menina por alguns segundos.
Agora quem não tinha nada a perder era eu. Minha vida toda tinha ido embora, literalmente. Eu ainda podia voltar, mas uma parte de mim queria entender aquele lugar e o porquê de eu ter ido parar justamente ali.
— Tudo bem — concordei com a menina, que deu um sorriso discreto. Ela pegou a sacola preta de cima da cadeira e a estendeu na minha direção.
— É uma muda de roupa nova com sapatos. Quando estiver pronta, me chame. Não dá pra sair assim, né — ela se referia ao meu pijama branco que eu não fazia ideia de como ou quem tinha colocado.
— Que horas são? — me lembrei que não conseguia distinguir o horário, já que não tinha nenhuma janela ou relógio por perto.
— São mais ou menos onze horas da manhã.
Peguei a sacola da sua mão e a menina se retirou do leito. Na sacola, tinha uma legging preta, um moletom azul e sapatilhas pretas. Vesti a muda de roupa e prendi meu cabelo em uma trança, só para não ficar solto.
Puxei a cortina para o lado e me deparei com , que me esperava no corredor. Ao me ver, o médico veio rapidamente ao meu encontro.
— Se precisar de alguma coisa, pode vir me procurar, principalmente se sentir dores. Como você ficou praticamente duas semanas dormindo, pode vir na semana que vem retirar o gesso. Coloquei por precaução. Você teve ferimentos mais internos que já foram controlados.
— Espera. Duas semanas? — arregalei os olhos para o doutor, que concordou com a cabeça.
— Sim, acho que os analgésicos também estavam te deixando meio sonolenta. Às vezes, acordava com alguns delírios, mas voltava a dormir. Fizemos exames, mas não constou mais nada. vai ser sua guia, ela te falará como tudo isso funciona. Boa sorte! — ele sorriu.
Boa sorte? Aquela fala só fazia piorar a situação. Concordei balançando a cabeça e fui em direção à , que fazia um sinal para que eu a seguisse.
— Então. Por onde eu começo? — ela falou, pensativa, enquanto saíamos da ala hospitalar. — Temos bases no mundo todo, mas a principal é essa aqui. Tem toda aquela história e tudo mais, e se chama Distrito 22 porque foram vinte e dois fundadores. Mas eu não conheço a história mais a fundo. Parece que há mais ou menos cem anos que o distrito foi criado. Como você já percebeu, esse lugar é um labirinto — ela revirou os olhos, parando diante de um elevador. — São em torno de cinco andares, apesar de eu achar que tem mais — ela sussurrou. — Estamos no último, que é a ala hospitalar. O quarto é a administração, o terceiro são as áreas de treinamento, o segundo é o dormitório, e o terceiro, as áreas de recreação — quando entramos no elevador, ela se virou para mim como se tivesse se lembrado de algo. — E só conseguimos sair daqui por helicóptero, não tem estrada.
— Ou seja, estamos no meio do nada? — perguntei, cruzando os braços.
— Exatamente! — ela sorriu. — Como eu disse, essa é a base principal. Porém, somos designados para as bases específicas, que podem ser em qualquer parte do mundo. Quando algum serviço precisa ser feito, apenas entramos em contato com a base de New York, por exemplo, e eles resolvem. Agora, quando é uma missão mais complicada, eles pegam algumas pessoas específicas. Você não deve ficar muito tempo por aqui, deve ser transferida logo. Então, nem vou te mostrar os setores, só a área de recreação e o dormitório.
— Não, não, espera. Você está indo rápido demais, não estou entendendo nada. Pra que serve exatamente esse lugar? — perguntei para a menina, que suspirou e jogou a cabeça para trás.
— Vamos lá, vou tentar te explicar melhor — ela pegou pelo meu pulso e saímos do elevador, seguindo pelo longo corredor de paredes brancas e bem iluminado.
Até que paramos diante de uma porta de madeira. empurrou-a e uma sala com uma mesa de vidro ao centro apareceu diante dos meus olhos. Ao fundo, uma enorme janela de vidro revelava a paisagem das montanhas. Era bem bonito. A menina puxou uma das cadeiras executivas de cor preta e sentou-se, fazendo um gesto para que eu fizesse o mesmo.
— Não vão usar essa sala por agora mesmo, então temos um pouco de sossego — seus cotovelos ficaram apoiados no braço da cadeira e ela entrelaçou os dedos. — Vou começar novamente. Preste atenção. Esse lugar se chama Distrito 22 por ter sido fundado por vinte e duas pessoas há mais ou menos cem anos. Essa é a base principal, porém, existem bases secundárias espalhadas pelo mundo, como em New York, Paris, Japão, Noruega, entre outros lugares. A base principal só serve para meio de pesquisa. Por isso, os novatos são encaminhados pra cá, e os veteranos, podemos assim dizer, fazem parte dos experimentos com armamento. Temos muitos sistemas avançados que o resto do mundo não possui.
— Sistemas avançados? — levantei uma das sobrancelhas, enquanto batia as unhas em cima da mesa.
— Tecnologia. Facilita nas missões, e, para salvar pessoas como você, tinha um estrago bem grande aí dentro. Você acha que está se recuperando tão bem por quê?
— Faz sentindo — concordei.
— Continuando... — ela levantou-se da cadeira e foi até a janela de vidro. — Somos como fantasmas. Quando se junta ao Distrito, você perde o seu nome e sobrenome. Você se torna outra pessoa, seu “eu” do passado morre para que não seja reconhecida nas missões. Agora vem a parte principal: nós praticamente fazemos o trabalho sujo. Descobrimos informações, espionamos, sequestramos e outras coisas que não serão os seus deveres, provavelmente — ela sorriu e apoiou uma perna em cima da mesa.
— Nem consigo imaginar o que seja — tombei a cabeça para o lado em tom de deboche e riu.
— Não quero te influenciar a ficar, Antonella. Mas, se te trouxeram pra cá, é porque viram algo de importante em você. Pelo menos comigo, foi assim. Eu também tinha uma ótima vida pela frente, seria uma excelente médica cirurgiã. Até que tomei um tiro no plantão e vim parar aqui. Agora eu ajudo com as pesquisas que podem salvar milhares de pessoas futuramente. Foi por isso que escolhi ficar. Claro que tem a parte ruim. Tive que abrir mão da minha família, mas foi por uma boa causa. E eu também não tinha muito contato com eles — ela virou o rosto para olhar para a paisagem. — Acredito que você não tenha nada a perder como eu. As recompensas pelas missões são boas. Você não imagina a quantidade de coisas que pode ter e viver sendo um ghost. Tem alguma dúvida? — ela se virou para mim, colocando as mãos atrás da calça jeans.
— Acho que não…
Era informação demais para mim. Eu precisava de um tempo sozinha para processar tudo aquilo e, sinceramente, de certa forma, ela estava certa. Eu não tinha mais nada a perder.
— Vou te mostrar seu quarto agora, que por nenhuma coincidência é o mesmo que o meu — ela riu baixo. — Lenora deve ter imaginado que iríamos nos dar bem.
— E você acha que estamos nos dando bem? — perguntei, levantando-me da cadeira e seguindo a menina para fora do estabelecimento.
— Se não está gostando de mim agora, futuramente você se acostuma — ela riu, seguindo pelo caminho que tínhamos feito para chegar até a sala.
— Vamos para o andar dos dormitórios agora.
— Esse lugar é meio deprimente — confessei, enquanto esperava pelo elevador junto dela.
— Eu também acho, mas prefiro não comentar — ela sussurrou. — O andar dos dormitórios é mais legal. Praticamente, o pessoal todo fica lá e na sala de recreação.
— Entendi... — respondi, entrando no elevador assim que se abriu. Não sei se gostaria de conhecer alguém. Provavelmente, iriam em encher de perguntas. Ou não. Detestava esse sentimento de dúvida.
— Você está melhor? — perguntou, apertando o botão do respectivo andar para onde iríamos.
— Pra ser sincera, não sei. Acho que só preciso de um momento sozinha pra colocar as ideias no lugar, fora que eu acabei de perder a minha mãe — dei de ombros, procurando algum conforto naquele moletom quentinho.
— Preciso fazer algumas coisas na ala médica, então pode ficar tranquila no quarto. Também deixei algumas coisas pra você. Comida e roupas, se quiser tomar um banho. Acho que vai se sentir melhor — ela abriu um sorriso e eu concordei com a cabeça.
Saímos do elevador juntas, passando por um enorme saguão com poltronas e uma máquina de comida e bebidas. Mais à frente, tinha um cruzamento: um corredor que seguia para a direita e um para a esquerda. seguiu para a esquerda até parar diante de uma porta com o número 12. A menina girou a maçaneta e entramos no quarto com duas camas, uma escrivaninha, uma cômoda e uma porta que, provavelmente, era a do banheiro. Entre as duas camas, havia uma janela que também tinha uma vista incrível.
— Tentei deixar mais aconchegante, já que vivo aqui há dois anos — ela comentou, ainda parada ao lado da porta. Tinha algumas fotos de paisagens e uns itens de decoração bem simples pelo quarto. — Sua cama é a da direita. A bolsa está aqui com alguns pertences novos. Vou te deixar sozinha, mas, qualquer coisa, é só apertar o bipe que também está dentro da sua bolsa. Esse lugar é bem grande, sabe?
— Claro. Obrigada — agradeci, e fechou a porta do quarto após dar um breve aceno.
Sentei-me na cama que havia um travesseiro e uma coberta que parecia ser bem grossa. O colchão era bem fofinho. Coloquei a bolsa em cima do colo – ela me remetia ao estilo da minha bolsa de balé. Havia uma nécessaire com produtos de higiene pessoal e outra com gaze, ataduras, remédios e um bilhete indicando as horas que eu deveria tomar os medicamentos; duas mudas de roupa, uma toalha e o bipe que ela havia falado. Peguei os pertences e fui até a porta fechada dentro do quarto, que, segundos depois, descobri que realmente era um banheiro. Retirei minhas roupas e os curativos que estavam pelo meu corpo e finalmente iria tomar um banho.
Estava me sentindo meio largada e relaxada, meu corpo estava estranho. Entrei no box e abri o chuveiro, deixando a água quente escorrer pelo meu corpo. Decisão. Eu precisava tomar uma decisão. Era pra ser fácil, era pra ser um não. Mas por que eu estava pensando na possibilidade de um sim? No fundo, a sensação de perigo me fazia sentir um frio na barriga. Eu estava morta para o mundo. Me trazia uma sensação de liberdade pensar naquilo. Ninguém iria me julgar pelos meus atos. Eu finalmente poderia ser a Antonella, a verdadeira Antonella que era reprimida e se agarrava ao balé como se conseguisse se reprimir.
Minha nossa, no que eu estou pensando? Balancei a cabeça negativamente e tentei finalizar o meu banho sem deixar as ideias virem à tona.
Depois de uns vinte minutos, finalmente sai do box enrolada na toalha e com o cabelo meio úmido. Retirei o pente que haviam deixado dentro da minha bolsa e comecei a desembaraçar os fios loiros do meu cabelo na frente do espelho. Retirei o excesso de água com a toalha e coloquei as roupas íntimas. Higienizei os ferimentos e deixei um próximo da cintura com gaze, pois ainda estava meio feio. Passei somente um remédio líquido no restante e vesti as roupas: uma calça moletom e uma blusa de manga bem larga. Aquelas roupas tinham o tamanho de um homem de um metro e oitenta de altura.
Voltei para o quarto. Deixei a bolsa pendurada na cabeceira da cama e coloquei as meias – o chão estava bem gelado. Ao lado da cama, tinha uma garrafa de vidro com água e um copo. Serviria para mais tarde, pois teria que tomar a primeira dose às seis horas da tarde.
Deitei a cabeça no travesseiro e suspirei, fechando os olhos. Eu precisava pensar no que iria fazer.


Capítulo 3 – Antonella Baudelaire não existe mais.

— Antonella? — uma voz feminina me chamava enquanto meu corpo era sacudido levemente.
— Hm? — resmunguei, abrindo os olhos e me deparando com . Quando me dei conta que tinha caído no sono, sentei-me rapidamente na cama, deixando uma parte do edredom cair do meu tronco para as pernas. — Mon dieu. Que horas são?
— Estava boa a soneca? — ela riu, sentando-se na cama do outro lado do quarto. — São seis horas, temos que ir jantar.
— Ainda bem que me acordou. Preciso tomar os meus remédios também — respondi, pegando a bolsa pendurada na cabeceira da cama.
Peguei a nécessaire com os remédios e retirei dois comprimidos de duas cartelas. encheu o copo de água que estava ao lado da minha cama e me entregou para que eu pudesse tomar.
— Faz parte da rotina jantar às seis horas da tarde? — perguntei, após engolir os remédios.
— Sim — ela concordou com a cabeça. — Todos os dias no mesmo horário, às onze horas, todos devem estar nos dormitórios. Geralmente, ficamos na área de recreação até dar o horário — ela deu de ombros.
— Não vai ser um problema eu comer agora. Estou faminta, não comi nada de tarde. Acabei dormindo e pensando em algumas coisas... — falei, fazendo uma careta. Me levantei da cama e olhei para as minhas roupas. Dei de ombros. Só tinha aquela muda e outra igual àquela que vestia. — Acho que vocês erraram o meu tamanho das roupas.
— Eu preciso concordar — ela riu, indo até a porta.
já não estava mais com o uniforme; vestia uma calça jeans e uma blusa de manga longa amarela, além de sapatilhas pretas. Retirei os chinelos de dentro da bolsa e coloquei-os no chão, calçando-os com meia. Me coloquei diante de um espelho preso na parede e suspirei, observando o meu estado deplorável de moda.
— Pelo menos o cabelo está bom — comentou, rindo.
— Muito obrigada, , isso me conforta profundamente — coloquei as mãos sobre o peito, como se estivesse agradecendo a sua gentileza. Ambas rimos.
O refeitório ficava no andar de baixo, que era toda a parte de recreação. tinha me explicado que o corredor oposto ao nosso quarto era parte dos meninos. Os quartos eram separados. Ao entrar no refeitório, me assustei com a quantidade de pessoas ali presentes, espalhadas pelas mesas redondas distribuídas pelo local. No fundo, estava o self-service. Parecia um refeitório escolar, mas sem o barulho estrondoso. Era mais calmo e não havia somente eu com aquelas roupas de recém-chegado.
— Vem — fez sinal para que eu a seguisse, e fomos até o self-service.
Tinha muitas opções de comida, como carne até alimentos veganos. Optei pelo macarrão com queijo, salada e um pedaço de bife de frango bem grande. , no entanto, pegou grão-de-bico, salada e um pouco de tofu.
— Você é vegetariana? — perguntei, seguindo para uma das mesas da lateral.
— Sim! — ela concordou, colocando a bandeja em cima da mesa. — Não como carne desde... desde o meu primeiro ano de faculdade — ela sussurrou.
— Por que está sussurrando? — perguntei no mesmo tom que ela.
— Não podemos falar sobre nossas vidas passadas. Não é proibido, mas também não é aconselhável. Algumas pessoas deixaram familiares para trás, então é perigoso falar sobre isso. Se você ficar, vai entender que existem pessoas que não são tão confiáveis aqui dentro — ela permaneceu falando em tom baixo.
— Entendi — concordei, retirando meus talheres de dentro do plástico. — Mas po rque não come carne?
— Sinto repulsa, não consigo gostar mais do gosto — ela deu de ombros.
— Te colocaram como babá, ? — uma voz masculina fez com que ambas levantassem a cabeça para olhar quem era.
Meus olhos encontraram um menino alto e relativamente magro. Eu podia perceber alguns traços musculares em seus braços repletos de tatuagens. Ele usava uma blusa um número maior e uma calça preta. Seu cabelo estava cortado baixo, deixando maior somente na parte de cima. Também podia ver uma tatuagem no seu pescoço e um brinco pendurado em somente uma orelha. Meus olhos encontraram os seus assim que ele se sentou de frente para mim; eram azuis bem claros. Confesso que ele era bem bonito.
— Não, Nikolai. Ela precisa de observação, seus ferimentos internos foram bem feios — respondeu, revirando os olhos.
— Ah, eu ouvi falar de você — ele comentou, me encarando. — É a menina francesa, do caminhão.
— Não sei do que está falando — respondi, levando um pouco de macarrão até a boca.
— Como não? Ficou duas semanas dormindo — ele respondeu, apoiando os braços em cima da mesa. — Vy ochen' lenivy, verno? (Você é bem preguiçosa, né?)
Ya ne lenivyy, menya dopilili (Não sou preguiçosa, estava dopada) — respondi com certo tom de deboche.
— Você fala russo?! — olhou para mim com os olhos arregalados.
— Não, por quê? — perguntei, virando meu rosto na sua direção.
— Como não? Você acabou de falar! — ela permaneceu insistindo.
— Não falei em francês? — perguntei, levantando uma das sobrancelhas.
Ne pritvoryaysya idiotom (Não se faça de idiota) —Nikolai respondeu, revirando os olhos.
— Ok, isso é estranho. Ele me chamou de idiota porque estou entendendo o que você está falando? Eu não sei falar russo — balancei a cabeça negativamente, largando o talher no prato. — Me leve pra ala hospitalar! — me levantei da cadeira bruscamente.
— Ela vai surtar, estou gostando dela — Nikolai riu da minha cara.
— Cala a boca, Nikolai! — o repreendeu e veio até mim, tentando me manter calma. — O impacto que você teve na cabeça pode ter influenciado alguma coisa. Vamos ver o George, ele pode tentar explicar. Não precisa ficar desesperada, ok? Tenta se acalmar, senão vai ter um ataque de ansiedade.


...


— Então foi de repente? — George perguntou enquanto analisava os exames que eu tinha feito do cérebro.
— Sim — concordou, também vendo o laudo.
— Antonella, o que a te explicou pode acontecer sim, apesar de eu não ver nenhuma atividade cerebral diferente. Até mesmo quando fiz o teste com o Nikolai.
O menino tinha sido chamado até o leito para que pudesse falar comigo em russo e ver se teria alguma alteração cerebral.
— Tá, então do nada eu entendo russo? Fácil assim? — perguntei, cruzando os braços, enquanto encarava o médico sentado na cadeira de frente para ele do outro lado da mesa.
— Bom... sim. Mas esse processo pode passar, ou não — ele deu de ombros. — Mas é provável que passe. Se não passar, pelo menos o acidente te trouxe algo de bom.
— Excelente, é realmente muito bom tudo isso — ironizei a situação e me levantei da cadeira, saindo da sala.
Que merda estava acontecendo comigo?


...


Empurrei a porta que me falaram ser de Lenora e me deparei com a mulher pegando uma xícara de café da garrafa na parte de trás da sua mesa. Eram em torno de sete e pouco da noite. Ao escutar o barulho da porta, ela se virou calmamente com a xícara branca na mão direita.
— Ah. Olá, Antonella. Sabia que apareceria ainda hoje — ela sorriu, apoiando uma perna na mesa de madeira.
— Se eu aceitar sua proposta, pra onde vai me mandar? — perguntei, cruzando os braços, ainda em pé.
— Como assim? — ela perguntou, levantando uma das sobrancelhas.
— Quero saber pra onde vai me transferir.
— Não vou te transferir, você ficaria aqui por um tempo — ela respondeu, tomando um gole do café.
— Então não temos acordo — dei as costas para a mulher, indo em direção à saída.
— Espera — ela me chamou, colocando a xícara em cima da mesa. Parei e virei-me novamente, sem dar mais um passo. — Por que decidiu tão rápido? — ela perguntou, levantando uma das sobrancelhas.
— Acredito que você não precisa saber dos meus motivos. Acho que só precisa saber que roubou a minha vida quando me tirou daquele hospital e, infelizmente, estou em dívida. Não é por isso que as pessoas ficam aqui? Não me venha com o papo da livre e espontânea vontade. Deve acontecer em uma porcentagem pequena de vezes.
— New York. Vou te mandar para a base de New York — ela finalmente respondeu, sem parar de me encarar.
— Ótimo, é um bom lugar para recomeçar. Obrigada pelo seu tempo — forcei um sorriso e dei as costas novamente.
vai te dizer o que precisa fazer a partir de agora.
Foi só o tempo de eu escutar a informação e fechar a porta atrás de mim, voltando para o segundo andar.
Enquanto andava pelo corredor na direção do meu alojamento, gritou o meu nome nas minhas costas e virei-me para olhar. Ela estava correndo.
— Minha nossa, onde você se meteu? — ela perguntou e colocou as mãos nos joelhos, ofegante. — Te procurei pelo prédio todo.
— Fui falar com Lenora. Decidi ficar — cruzei os braços, encarando os meus pés. Será que tinha sido uma boa decisão?
— Mentira! — olhou para mim, surpresa. Senti ela me abraçar forte; eu não sabia muito bem o que fazer, mas retribuí o abraço. — Minha nossa, finalmente alguém que eu consigo conversar vai ficar!
— Bom... Teoricamente, não. Ela vai me transferir para New York.
— Mas já? Que injusto — ela cruzou os braços, fazendo bico. — Sabia que lá é a segunda base com mais desenvolvimento tecnológico e medicinal? Estão procurando alguém para ajudar, mas não querem me mandar pra lá. Já tentei falar com George. “Não, você será mais útil aqui do lá” — ela tentou imitar a voz de George, o que me fez rir. Estava péssima.
— Desculpe por não poder ficar, .
— Tudo bem. Acontece com todos por aqui — ela deu ombros. cruzando os braços. — Preciso te explicar como vai ser daqui pra frente, então. Vamos precisar de um chocolate antes.
me deu as costas e voltou para o hall do dormitório. Eu me sentei em uma das poltronas, e, depois de pegar o chocolate, a menina jogou uma barra de Snickers para mim e sentou-se na poltrona ao lado da minha, segurando também uma barra de chocolate.
— Como já falei, agora você está morta. Então, vai ter que assumir uma nova identidade. No decorrer das missões, vai ter identidades falsas, claro, mas precisa de um nome que os outros ghosts identifiquem você. Provavelmente, amanhã Lenora vai te chamar pra fazer o contrato e, depois disso, você vai ser transferida para New York. As coisas lá são bem diferentes daqui, mas de um jeito bom — girava a poltrona com os pés de um lado para o outro enquanto conversava comigo. — Na verdade, as outras bases são diferentes daqui. Quando fui para Londres, tive um treinamento. Uma pessoa me ajudou a comprar roupas novas e tive aulas de manuseio de armas, mas vivia no setor medicinal. É o que eu faço de melhor — ela deu uma mordida na barra de chocolate. — Provavelmente, vai acontecer o mesmo com você.
— Sabe, é estranho. Um dia, eu estava no caminho de ser uma bailarina, e agora... agora eu nem consigo achar uma denominação pro que eu vou fazer!
— Por que você escolheu entrar pro distrito? — ela me perguntou, colocando as pernas em cima da poltrona em forma de borboleta, de modo que seus cotovelos ficassem apoiados nos joelhos.
— Eu não quero ser a estranha que sumiu do hospital e voltou depois de duas semanas sabendo falar russo. Fora que eu não devo ter mais casa. Não tenho mais mãe, não tenho mais a minha antiga vida... O que me resta é ficar aqui.
Havia outros motivos também, mas ela não precisava saber.
— Bom, pelo menos você poderia xingar em russo e ninguém saberia — ela deu de ombros, rindo.
— Não funciona assim. Quando aquele menino falou comigo, era como se eu tivesse a resposta na ponta da língua, mas não consigo encontrar as palavras certas agora. Parece ser de imediato.
— Você tem certeza que nunca estudou russo? Pode ser quando era criança, sei lá.
— Tenho. Minha mãe não tinha dinheiro para pagar esse tipo de aula. Ela lutou tanto para me colocar no balé. É impossível que eu tenha estudado russo — franzi o cenho, terminando com o chocolate.
Não era possível isso, era?
— Temos que voltar para o dormitório. Daqui a pouco, pegam a gente aqui — se levantou da poltrona. — Pelo menos Nikolai fez algo que preste. “Apresentou” o russo para você — ela riu, fazendo aspas com os dedos.
— Ele é sempre inconveniente daquele jeito? — perguntei, me levantando da poltrona e seguindo a menina que andava em direção ao nosso quarto.
— Às vezes ele é legal, mas, na maioria das vezes, se esforça pra ser irritante.
Quando chegamos no quarto, fui ao banheiro escovar os dentes, enquanto conversava comigo sobre a vez que visitou New York e os lugares que eu deveria conhecer. Depois, ela entrou para tomar um banho e eu fui deitar. Não me lembro quando ela saiu, pois eu já tinha adormecido, pensando no meu novo nome.


...


Era noite, provavelmente de madrugada. Eu andava pela floresta calmamente; podia sentir a neve sob meus pés. Ainda caíam alguns flocos e fazia frio. Senti um instinto animal dentro de mim, até que vi meu reflexo em um carro – eu estava em um corpo de um lobo, porém, era como se apenas observasse. Saí de trás do carro e vi uma mulher de cabelos loiros ser arrastada por um homem bem alto e musculoso. Ela tentava lutar contra ele, mas ele segurava os seus dois braços.
! — ela gritava desesperadamente, olhando na direção da porta.
A mulher cravou os dentes no braço do homem e mordeu com força, fazendo-o soltar seus braços. A loira voltou correndo para dentro do recinto, porém, o homem conseguiu alcançá-la.
Por instinto, fui em direção ao homem que segurava a mulher e mordi a panturrilha dele com força, fazendo-o cair no chão com a mulher sobre ele. Enquanto arrastava-o para dentro da floresta, olhei para dentro do recinto e vi uma garotinha ser arrastada para dentro por uma mulher. Ela chorava desesperadamente. Em seguida, uma segunda pessoa veio na minha direção para ajudar o homem que lutava para segurar a mulher, quando vi uma arma ser apontada na minha direção.

Sentei-me rapidamente na cama ao levar um tiro no sonho. Percebi que minha respiração estava ofegante. Olhei para o lado e reparei que dormia profundamente. Meus sonhos tinham voltado. Fazia dois meses que eu não sonhava com aquele lugar. O rosto daquela mulher ainda ficava borrado. Se eu a visse na rua, só conseguiria distinguir seu cabelo se fosse o caso.
Voltei a me deitar na cama e cobri meu corpo novamente, deixando apenas os braços para o lado de fora. Alguns sonhos não tinham significados, mas, na maioria deles, sempre aparecia um lobo e eu não fazia ideia porquê.
Olhei para o relógio de ponteiro em cima da escrivaninha e percebi que ainda eram duas da manhã. Suspirei alto e virei-me para o lado da parede para tentar voltar a dormir.

Acordei com as três batidas que deram na porta. Quando eu e acordamos, a porta se abriu e eu me sentei na cama.
— Lenora quer a novata na sala dela daqui dez minutos — um menino deu o recado, colocando a cabeça para dentro. Em seguida, fechou a porta.
Olhei para e ela levantou as mãos, confusa.
— Talvez seja sobre o contrato — minha colega de quarto esticou os braços para cima, se espreguiçando, e eu me levantei da cama.
— Não gosto daquela mulher. Ela me traz uma sensação ruim — resmunguei, indo até o banheiro com os meus pertences. Precisava de um banho antes de encará-la, e começar um dia sem um banho não era um bom começo.
Quando saí do banheiro, não estava mais no local. Provavelmente tinha ido tomar café, já que eram seis horas da manhã. Tomei meus remédios e dei uma olhada rápida no espelho. Até que a calça jeans tinha servido bem, mas a camisa branca tinha ficado enorme como a do dia anterior.
Saí do local e subi para o andar da administração onde ficava a sala da diretora do distrito – se é que eu podia chamá-la assim. Bati na porta duas vezes e girei a maçaneta ao escutar um “entre”. Lenora estava sentada na sua poltrona de couro lendo algum documento.
— Pediu para me chamar? — perguntei, indo até o meio da sala.
— Sim, sim. Chegou em boa hora — ela levantou a cabeça e olhou para mim com um breve sorriso no rosto. — Precisamos resolver a papelada — retirou uma pasta de papel da gaveta ao seu lado e a abriu na minha direção.
Me sentei na cadeira e peguei o papel de dentro da pasta.
— O que significa, exatamente? — perguntei, começando a ler o contrato.
— Significa que você está se juntando ao distrito por livre e espontânea vontade e que, se algo acontecer, nós não temos nenhuma responsabilidade sobre. Inclusive se sua antiga identidade for descoberta.
— Entendi... — falei, ainda lendo o documento.
— Você não precisa ler o documento inteiro — pelo canto do olho, percebi que ela havia revirado os olhos.
— Claro que preciso. Vai que estou vendendo a minha alma para o diabo — dei de ombros, sem retirar os olhos do documento. Lenora forçou um sorriso. Depois de alguns minutos, coloquei o contrato sobre a mesa e voltei a me encostar na cadeira. — Só tem uma coisa de errado.
— O quê? — ela franziu o cenho, pegando o papel de cima da mesa para analisá-lo.
— Quero que vá comigo.
— Acho que você não está em posição de pedir coisas — ela me olhou, colocando o documento de volta em cima da mesa.
— Acho que vocês precisam mais de mim do que eu de vocês — cruzei os braços, tombando a cabeça para o lado. — Se não for comigo, eu não assino o contrato.
— Por que isso de repente? — ela se ajeitou na poltrona, cruzando as pernas.
tem me ajudado muito aqui. Ela me mostrou tudo e falou sobre tudo, fora que não quiseram mandá-la para New York alguns anos atrás — dei de ombros.
— E se eu falar não? — ela arqueou uma das sobrancelhas.
— Eu não assino o contrato e você nunca mais vai me ver novamente. Vocês não me trouxeram pra cá à toa, e você não insistiria para que eu ficasse se eu não fosse útil.
Lenora cruzou os braços e ficou me encarando durante alguns segundos. Ela se inclinou e apertou um botão do telefone.
— Peça para vir para a minha sala — assim que o recado foi dado, ela retirou o dedo do botão.
— Obrigada — abri um largo sorriso e peguei o documento na mão. — Onde eu assino?
— Você vai me dar a sua digital — a mulher estendeu o abridor de cartas na minha direção e eu franzi o cenho, estranhando. — Assinaturas podem ser falsificadas, é só uma precaução — ela deu de ombros.
— Tudo bem — concordei, pegando o abridor da mão dela.
Encarei-o por alguns segundos e espetei a ponta no polegar, deixando uma certa quantidade de sangue fluir, até eu encostar o dedo no papel que estava sobre a mesa. Confesso que fiquei um pouco receosa. Lenora poderia muito bem me envenenar daquela maneira, e todo cuidado era pouco.
— Pronto. Faça bom proveito — levantei-me da cadeira e dei as costas para a mulher, indo até a saída.
— Sabe, Antonella, você finalmente está dando as caras. Aquela menina fragilizada que chegou aqui não me enganou nem um pouco — ela comentou, apoiando as mãos sobre a mesa.
— Acho que nisso somos parecidas, Lenora. Você também não me enganou — antes de abrir a porta, virei o corpo de lado e encarei os olhos castanhos da mulher. — E não é Antonella, é .
Abri um leve sorriso e saí do recinto rumo ao refeitório, afinal, precisava comer. Eu me sentia mais leve, e não tive nenhuma dúvida quanto ao nome. Sentia que tinha alguma ligação com ele. Por que apareceria logo nos meus sonhos? Eu me sentia extremamente confortável.


Capítulo 4 – New York abre as portas para mim.

— Por que não me relatou que a Antonella teve uma consulta com você ontem?
Lenora estava na minha frente. Ela não me parecia irritada. Na verdade, parecia um pouco sim. Ela estava obcecada pela menina, e, pelos anos que eu trabalhava ali, entendia perfeitamente o porquê.
— Não achei que fosse necessário — respondi, enquanto olhava os prontuários dos pacientes que estavam em seus respectivos leitos.
— Eu pedi para você me passar tudo. George, você, mais do que ninguém, compreende a importância desses relatórios. Se essa garota se lembrar do que realmente é relevante pra vida dela, caímos em desgraça! — ela estava começando a ficar realmente irritada.
a trouxe ontem à noite, quando sofreu o impacto no acidente. De alguma forma, o lobo frontal do cérebro dela, que é responsável pela linguagem, relembrou sua habilidade de aprender um novo idioma. E, pelo visto, ela sabe falar russo muito bem — respondi, sem olhar nos olhos da minha superior.
— É claro que ela sabe falar russo — ela riu sarcasticamente. — O pai dela fez questão de dar uma boa educação para a garota, afinal, ele tinha objetivos claros — ela bufou, revirando os olhos. — Você reverteu isso, certo? Não podemos deixar nenhuma ponta solta. Não é à toa que temos ciência de ponta — ela cruzou os braços na minha frente, esperando por respostas.
Não, eu não fiz, Lenora.
— Claro, o procedimento foi simples. Falei que precisava realizar alguns exames, foi fácil colocá-la para dormir — respondi, retirando o olhar do prontuário e encarando a mulher na minha frente. — Mais alguma coisa?
Eu não havia feito porque não mudaria em nada. Antonella nem iria se questionar tanto sobre o novo idioma. Seria indiferente para ela. Lenora não entendia nada sobre o cérebro humano e os tipos de memórias e ela sabia que aquele procedimento tinha falhas. Não havia como apagar tudo 100%, e também não podia garantir que elas não voltariam.
— Não, isso é tudo. Ainda assim, quero um relatório na minha mesa — ela deu as costas e saiu da minha sala.
Soltei a caneta e encostei as costas na cadeira, respirando fundo. Eu não a suportava. Quando Richard estava no comando, tudo era mais fácil. Trabalhar com aquela mulher era exaustivo.


...


— O que você está fazendo aqui? — perguntou, ao ver Nikolai aparecer no heliponto com uma mochila nas costas.
— Gostou da surpresa? — ele respondeu, sorrindo para a menina.
— Você vai com a gente? — perguntei, segurando a bolsa preta que haviam me dado no primeiro dia.
Eu ainda estava vestindo roupas além do meu tamanho. Estava me incomodando o fato daquele lugar não ter roupas decentes.
— Sim, até parece que Lenora deixaria vocês duas irem sozinhas — ele sorriu com deboche.
— Vocês tem mais uma no gr... grupo? — uma menina que tinha traços asiáticos veio na nossa direção, após chegar no heliponto. Ela parecia ter um pouco de dificuldade quanto ao inglês.
— Virou passeio escolar? — Nikolai estreitou os olhos para a garota.
— Você seria o mais burrinho da classe — disse entre dentes para o garoto que mostrou o dedo do meio para ela.
. Agora esse era o meu nome. Ainda não tinha me acostumado com isso. — Essa é Saori. Ela também chegou recentemente.
— Prazer! — cumprimentei a menina, que sorriu.
— Não vai me apresentá-la também? — Nikolai resmungou, olhando feio para .
— Não vale a pena — ela deu de ombros.
— Ótimo, vejo que todos chegaram — Lenora apareceu no heliponto, vindo na nossa direção calmamente, enquanto se protegia do frio com um enorme casaco de pele. Ela estava acompanhada de George. — Todos já devem se conhecer, então vamos pular essa parte. Estou enviando vocês para New York por necessidade. Nikolai tem uma ótima habilidade na direção, Saori para tecnologia, e está indo com a intenção de ajudar na medicina, e, bom... precisa melhorar as habilidades dela — ela me encarou com certo desdém. Vaca. Minha mente praticamente gritou. Eu definitivamente não gostava daquela mulher. — Teoricamente, estão indo como uma equipe, mas, dependendo do que o superior de vocês lá em New York decidir, as coisas podem mudar. Espero me arrepender dessa escolha — ela me encarou no fundo dos outros, e eu retribuí, sem desviar um segundo sequer. — Enfim, façam somente o trabalho de vocês — ela deu as costas e saiu andando na direção do elevador que a levaria de volta à sua sala.
George chamou para uma conversa particular, e o resto entrou dentro do helicóptero que nos levaria para o aeroporto mais próximo, onde pegaríamos um avião para New York. Nikolai parecia segurar o banco com força, mas eu ignorei. Após alguns minutos, entrou no helicóptero, e levantamos voo em direção a um lugar que eu não fazia ideia de como era. De certo modo, aquilo me desesperava. Eu estava sentindo minhas mãos suarem.
— Quem mais está satisfeito de ter saído desse inferno? — Nikolai olhou para a base principal se afastando cada vez mais de nós. Seu peito subia e descia com o ritmo acelerado. Ele parecia ofegante. O que estava acontecendo com ele? Seu semblante parecia normal.
Olhei para , que aparentava ter tido alguma coisa. Ela parecia mais tranquila, seu corpo não estava tão... rígido.
— Ouvi dizer que esse lugar não era tão ruim — Nikolai murmurou, se ajeitando no banco. — Foi depois que Lenora pegou o comando que a merda aconteceu.
— Como assim? — Saori perguntou, confusa.
— Você é novata, não entenderia. deve entender. Afinal, ela ficou anos ali.
— Onde você escutou isso, Nikolai? — ela levantou uma das sobrancelhas, duvidando do comentário do menino.
— Os próprios funcionários falam isso — ele deu de ombros.
O restante da viagem foi um verdadeiro silêncio. Quando pousamos no aeroporto, seguimos para o jatinho que iria nos levar para New York. Provavelmente, ele era uma das regalias que tínhamos. Nossas bagagens foram colocadas no bagageiro dentro do avião, e me sentei em uma das poltronas bege. Eu havia andado de avião uma vez, dois anos atrás, quando fui com a companhia de balé para a Itália. Nikolai, por outro lado, parecia meio... desconfortável.
— O que foi? Você está estranho desde o heliponto — perguntei para o menino na poltrona ao lado. Estávamos separados por um pequeno corredor. Ele se segurava no assento com força, podia-se ver pelas suas mãos.
— Nada — ele olhou feio para mim. — Você é bem enxerida.
— Espera — me ajeitei na poltrona, virando o corpo para o lado para que pudesse vê-lo melhor. — Você tem medo de altura? — perguntei, surpresa, enquanto ria da cara de pavor do menino.
— Não, eu não tenho medo de altura — ele respondeu, como se fosse algo óbvio.
— Nikolai... — olhou para o menino, esperando que ele confessasse. Ela estava sentada de frente para mim.
— OK! Eu tenho medo de altura, tá legal? — ele revirou os olhos, e sentimos o jatinho começar a andar pela pista. — Inferno! — ele praguejou ao sentir o avião se locomover.
Eu e as duas meninas que estavam viajando comigo riram alto.
— Achei que seu dom para pilotar fosse para qualquer veículo — o provocou.
— Óbvio que não! Não confio em coisas que voam, exceto por carros, que, por uma fração de segundo, podem sair do chão numa rampa. Uma coisa é dirigir um carro, outra é ficar a quilômetros de distância do chão! — ele dizia entre dentes.
Eu não estava me aguentando com toda aquela cena. Quando o avião tomou impulso para decolar, Nikolai arregalou os olhos e permaneceu imóvel. Assim que tomamos altitude, o avião se estabilizou.
— Viu? Foi super tranquilo — Saori disse com calma, cruzando as pernas.
Eu não havia reparado muito bem na menina até aquele momento. Suas sobrancelhas estavam bem feitas e o seu cabelo era liso na altura do ombro, de tom preto. A pele do seu rosto era impecável; havia somente uma pinta próximo da boca.
— Não vou ficar satisfeito enquanto meus pés não tocarem o chão — ele resmungou, ainda imóvel em seu assento.
— Então aguenta que vem onze horas de viagem pela frente — murmurou, reclinando a poltrona.
Eu fiz o mesmo que ela. Ainda estava de cinto, mas apoiei os pés na poltrona, fechei os olhos e suspirei, deixando meu corpo descansar dos dias loucos que vivi nas últimas semanas.


...


Russkaya poddelka (Falsa russa) — Nikolai balançou o meu corpo, fazendo-me despertar.
Ao abrir os olhos, vi ele em pé ao meu lado.
— Chegamos, falou, retirando o cinto.
Estava explicado o porquê de Nikolai estar de pé. Eu estava tão cansada que as onze horas de viagem passaram extremamente rápido. Mas me sentia mais renovada. Era a primeira vez que tinha conseguido realmente descansar.
Quando o avião terminou de estacionar, levantei-me da poltrona e peguei minhas coisas no bagageiro. Em seguida, segui junto dos meus companheiros para fora da aeronave. Por algum motivo, não precisávamos passar pela alfândega.
— Algumas vezes, não precisamos ser identificados. É um dos privilégios que temos. O próprio piloto identifica o distrito e somos liberados, afinal, meio que somos protegidos pelo governo — explicou, enquanto andávamos para dentro de um veículo preto. — Fora que você ainda não possui documentos falsos.
Realmente, não tinha parado para pensar naquele detalhe.
Ao entrarmos no carro, o motorista seguiu para fora do aeroporto, pegando a avenida principal. Para ser sincera, acho que ninguém ali sabia exatamente para onde estávamos indo, exceto por .
Eu permaneci em silêncio enquanto e Saori conversavam. Não prestei atenção no assunto, pois estava entretida demais com os prédios que passavam diante dos meus olhos. Eu não fazia ideia que horas eram. Chutava para a tarde, devido ao dia claro e o fluxo de pessoas. O céu tinha poucas nuvens e estava fresco, não muito frio. Inclusive, ninguém usava mais as roupas de frio que era preciso na Eslovênia. Depois de alguns minutos, finalmente o veículo parou. Saltamos do carro e eu olhei para cima. Estava ao redor de vários edifícios, todos eles com um aspecto antigo. O motorista pediu para que nós o acompanhássemos. Então, seguimos para dentro de um prédio cujo acesso era somente por biometria, que ficava localizado bem na maçaneta. Assim que entramos no local, um enorme hall apareceu diante de nós. O interior era bem mais moderno que o externo. Havia dois elevadores à minha direita e uma mesa redonda de madeira com um lustre no centro. No fundo do recinto, havia uma porta enorme de madeira, para onde fomos encaminhados a seguir.
Ao passar por ela, dei de cara com um jardim externo. Confesso que fiquei um pouco confusa, mas, ao olhar ao redor, reparei que aquele jardim estava envolto de outros prédios – era um ponto comum entre todos eles. Depois de encarar bem, reparei que aquilo tudo era um prédio somente; todos eram interligados. Assim que atravessamos o jardim, entramos em um outro prédio. Dessa vez, pegamos o elevador e subimos para o décimo primeiro andar.
— Que lugar quieto... — Saori murmurou.
— Não muito diferente da onde estávamos — Nikolai deu de ombros.
— Lá, pelo menos, podíamos escutar as pessoas conversando. Aqui parece não ter ninguém — estava encostada na parede do elevador.
— Esse é o prédio administrativo, por isso é tão quieto — o nosso acompanhante explicou. Ele também não era muito de conversar.
Assim que as portas do elevador se abriram, nos deparamos com uma enorme sala. Na verdade, parecia um escritório. A pessoa que trabalhava ali tinha uma visão privilegiada de New York. Reparei que havia cinco pessoas na sala; o homem sentado na poltrona de uma mesa grande de madeira e mais quatro pessoas nos sofás ao centro. Um homem e três mulheres.
— Finalmente chegaram! — um homem de idade levantou-se da cadeira ao nos ver sair do elevador. Ele tinha barba e cabelos grisalhos, mas estava em forma. — Sejam muito bem-vindos ao Distrito 14!
— Obrigada...? — murmurei, levantando umas das sobrancelhas.
As quatro pessoas sentadas no sofá simplesmente nos encaravam sem nenhuma reação.
— Me chamo Henrik. Sou o diretor geral daqui. Confesso que foi uma surpresa vocês terem sido transferidos para cá, principalmente duas recém-chegadas... — ele encarou Saori e eu de forma curiosa, e eu troquei o peso do corpo de um pé para o outro.
— Sou , essa é a Sel... — ia começar a nos apresentar, mas o homem fez sinal para que ela parasse.
— Lenora mandou a ficha de vocês. Já conheço um pouco de cada um. Você e o Nikolai são bem habilidosos, mas preciso treinar essas duas — ele fez menção para mim e Saori. Eu estava me sentindo como um feto ainda em desenvolvimento. — Seus mentores vão mostrar o lugar e te ajudar no que for preciso. fica com Olivia na ala médica — ele apontou para a mulher de cabelos platinados sentada no sofá. — Nikolai com Bárbara — a menina de cabelo rosa ao lado de Olivia. — Saori com Jennifer — ela provavelmente era japonesa como Saori, mas não tinha certeza. — E com .
Meu olhar parou por último no menino de cabelos pretos com os lados raspados. Seus olhos eram castanhos bem escuros e, bom... ele tinha um físico muito bom. Estava de calça jeans, uma blusa cinza e botas de couro.
— Os treinos serão feitos separadamente, então vocês devem se ver somente no tempo livre — Henrik continuou, e eu e nos entreolhamos rapidamente. — Estão liberados. Em breve, vejo vocês.
Espera, era só isso? O meu tutor se levantou, pegando uma pasta na mesinha entre os dois sofás, e seguiu para o elevador. As mulheres vieram ao encontro dos meus amigos e se apresentaram mais adequadamente. Aquele homem iria me deixar ali plantada? Olhei para trás e ele entrou no elevador.
— Quando eu ando, você anda — ele murmurou por cima do ombro, segurando a porta do elevador. Comment c'est?
Peguei as minhas coisas e fiz um breve aceno para , que retribuiu. Corri até o elevador e entrei junto do meu mentor, ficando lado a lado dele. Um silêncio mortal invadiu aquele lugar enquanto descíamos para térreo. Pelo canto do olho, reparei que a pasta que ele lia tratava-se de mim. Havia uma foto minha no canto.
— Você sofreu um estrago grande... hm... — ele disse, após procurar meu nome na pasta.
— O meu tutor mal sabe o meu nome... — murmurei, revirando os olhos.
— Me chamaram de última hora. Quero deixar bem claro que não estou feliz com isso — ele olhou para mim pelo canto do olho. — Mas é um ato de caridade.
— Ótimo, então acho que tivemos a mesma impressão um do outro. Eu não preciso da sua bondade — estreitei os olhos para o homem, que ergueu uma das sobrancelhas.
— Então, irá morrer rápido. E eu não falei que tive uma impressão errada de você, somente que não gostei de ser chamado pra ser babá — ele deu de ombros e saiu do elevador assim que se abriu. Permaneci imóvel no lugar. Paguei pela minha língua. Quem manda ser respondona? — Você não me escutou falar que quando eu ando, você anda? — ele olhou para trás com impaciência.
— Na verdade, eu escutei — balancei a cabeça, encostada na parede do elevador. — Mas não sou uma cachorrinha pra você ficar mandando em mim dessa maneira — murmurei, saindo do elevador lentamente.
— Enfim, não tenho tempo pra isso. Essa aqui é a sua programação — ele retirou uma folha de dentro da pasta e me entregou. Em uma olhada rápida, eu só tinha tempo livre nos fins de semana. — Você já sabe que meu nome é . Geralmente, não sou tutor. Mas, por algum motivo, me designaram para ser sua babá — ele bufou, andando pelo corredor.
Pude perceber que o jardim não era o único local que tinha acesso para os prédios. Havia corredores no térreo que facilitavam uma melhor locomoção.
— Pelo visto, vamos passar muitas horas do dia juntos — falei baixinho, enquanto observava o papel nas minhas mãos.
— Se você chegar no ponto que não aguenta mais ficar aqui, é porque eu fiz um ótimo trabalho... — ele olhou para mim pelo canto do olho e deu um sorriso provocador. Revirei os olhos e permaneci seguindo o menino.
— Uma das coisas que você vai descobrir é que eu sou bem insistente.
Por que ele me parecia um douchebag?
— Vou te apresentar o lugar hoje, e espero que tenha memória fotográfica, pois aqui é bem grande.
Paramos diante de um segundo elevador, e eu fiz uma careta ao perceber que a locomoção ali era bem irritante. Nada era amplo. Na verdade, as coisas eram amplas na vertical. Em Paris, eu me sentia mais... livre.
— Amanhã começamos com a rotina, e vou ver se você realmente é insistente como diz ser — ele piscou para mim e entrou no elevador, encostando as costas na parede da máquina que nos levava para cima.
Eu não fiquei constrangida pela piscada. Sabia que ele estava me provocando, extremamente típico.
— Todos os prédios vão até o décimo quinto andar? — perguntei, levantando uma das sobrancelhas.
— Sim. E três andares subterrâneos, onde você vai passar a maior parte do tempo — ele cruzou os braços, ainda segurando a pasta com informações sobre mim.
— Como assim?
— Ao todo são quatro prédios interligados pelo térreo. O bloco A era onde estávamos, a administração. O bloco B é onde estamos agora, com dormitórios, recreação e refeitório. Os dez primeiros andares possuem quatro dormitórios cada. Você está no nono andar, junto dos seus amigos. Vocês tiveram sorte de ter dormitórios para todos.
— Por quê? Esse lugar é tão disputado assim? — lembrei-me da conversa que tive com da época que ela queria ser transferida, mas Lenora não havia deixado.
— Cada distrito tem uma maneira diferente de lidar com os agentes. Aqui, as coisas são um pouco mais liberais. É por isso que tantos querem vir pra cá — ele deu de ombros, saindo do elevador e parando diante de uma porta, onde estava escrito “9-2”. Provavelmente, significava o andar e o número da porta entre as quatro no local. retirou uma chave do bolso e me entregou. — Não se sinta tanto em casa.
— Você sabe qual é a porta da ? — perguntei, destrancando a minha com a chave que ele havia me dado.
— Não procurei saber, ela não é minha obrigação — ele deu ombros e apoiou o corpo na barra da porta, após eu entrar.
— Você é irritantemente grosso — murmurei, jogando as minhas coisas em cima da cama.
Aquele dormitório era maior e bem mais aconchegante que o de Bled. Assim que entrei no quarto, reparei na cama de casal que ficava no centro, de frente para a porta. No lado direito da cama, estava uma porta branca com um sofá ao lado. E, no lado esquerdo, uma janela com uma cômoda. Na parede da porta, ficava uma escrivaninha com alguns ganchos presos para possíveis casacos.
— Já recebi elogios melhores — ele ironizou, me observando abrir a porta entre o sofá e a cama, revelando ser um banheiro.
— Vamos ter bastante tempo pra eu pensar em vários outros — dei de ombros. — Vai me mostrar o restante do lugar ou ficar aí na porta, me admirando? — levantei uma das sobrancelhas, voltando para perto da porta. Eu não conseguia aguentar o meu lado irônico.
— Com essas roupas, é difícil admirar alguma coisa — ele riu da minha cara, dando as costas para mim. — Eles pegaram essas roupas nos achados e perdidos?
Eu sabia que elas eram uns quatro tamanhos maiores que eu. Não entrava na minha cabeça aquele lugar sempre receber pessoas e não tem uma roupa do meu tamanho.
— Cheguei no distrito sem nada. Vai me dizer que você não se lembra de quando entrou? — perguntei e saí do dormitório, trancando a porta atrás de mim.
— Está fazendo perguntas demais — ele respondeu, apertando o botão do elevador. — O último andar tem o refeitório. Os outros são andares mais pra passar o tempo livre, lazer, entre outras coisas — ele havia dado um corte bem perceptível no assunto.
Dei de ombros e entrei novamente no elevador para um tour.
O bloco C era a área médica, onde passaria todo o seu tempo. Segundo , ali eles faziam experimentos e atendiam os agentes. O bloco D era de interesse da Saori. Parece que ela tinha grande potencial em tecnologia, e ali era onde nossos rostos eram apagados da internet, filmagens e de qualquer lugar que fôssemos reconhecidos. O mundo todo estava sendo vigiado ali.
— Por fim, o subterrâneo, onde você vai passar boa parte do tempo, como já falei — ele falou, ao entrar em uma sala enorme com os mais diversos tipos de equipamentos para treinamento: de saco de pancadas até um local com hologramas, onde uma menina treinava com duas pistolas. — Os dois andares abaixo de nós têm os armamentos e a garagem. Onde, provavelmente, o Nikolai estaria.
— Por que me designaram pra cá? — perguntei, olhando ao redor. Eu não tinha muita habilidade naquilo. Era bailarina, jamais tinha pego uma arma na vida.
— Não sei, só estou cumprindo ordens — ele deu de ombros, se sentando sobre uma mesa de metal com vários equipamentos de combate. — Você era bailarina, certo? — perguntou, encarando meus olhos.
— Que eu saiba, informações da minha vida passada ficam lá no passado — respondi, estreitando os olhos. O garoto suspirou e bateu a mão duas vezes sobre a pasta que havia carregado o dia inteiro. É claro que ele sabia. — Sim, eu era bailarina — concordei com desgosto. De certa forma, eu estava incomodada por ele saber tudo sobre mim.
— Até onde eu sei, balé requer disciplina, e você provavelmente deve ter bastante flexibilidade. É loira, tem um olhar marcante, e não posso falar nada do corpo porque não consigo ver por baixo... disso — ele apontou para as minhas roupas, e eu cruzei os braços, encarando o menino com desdém. Ele estava querendo chegar aonde? — Você não serve pra ficar por trás das câmeras. Te querem em campo, é por isso que você está aqui.
— Como é? — levantei uma das sobrancelhas. Ele tinha reparado em tudo isso em menos de uma hora? Aliás, de onde ele tinha tirado tudo aquilo? Balancei a cabeça negativamente. Aquela naturalidade dele me tirava do sério. — Do jeito que você falou, parece que me querem como uma isca sexual.
— Não, é uma isca para matar — ele apoiou os antebraços sobre as coxas, ainda me encarando. — Você só está usando suas habilidades para chamar a presa — ele deu um sorriso ladeado. — Mas, até você aprender tudo o que precisa e ir pra campo, vai demorar — ele suspirou, levantando-se da mesa se aproximando de mim com as mãos no bolso da calça jeans. — Até lá, você vai ter se acostumado com a ideia de atirar em alguém. Porque, através dos seus olhos, só consigo ver uma garotinha assustada. Está dispensada, não quero atrasos amanhã — ele pegou a pasta de cima da mesa e foi na direção da saída.
— Mas... isso faria de nós o quê? Os bons ou os maus? — perguntei, virando-me para trás, para que pudesse olhar para o garoto.
— Depende da perspectiva — ele respondeu, apertando o botão para fechar o elevador.
Eu sentia uma leve sensação que estava fodida. Bufei e revirei os olhos, prendendo o cabelo em um coque. Precisava organizar meus pensamentos. Bom, eu não podia mudar de área porque simplesmente não tinha habilidades com medicina e muito menos entendia de tecnologia com a Saori. Dirigir, então? Muito menos. Eu sabia dirigir, mas ser piloto de fuga daria problema. tinha razão, o balé também implicava em disciplina, e, como eu tinha flexibilidade, seria muito mais fácil aprender a lutar. Além disso, parecia legal...
Parei de andar de um lado para o outro e encarei as armas em cima da mesa. Será que aquilo era realmente necessário?
pode ser um pouco difícil de lidar, às vezes. Mas é um dos melhores agentes daqui — uma voz veio das minhas costas, e me virei para olhar. Era a menina que treinava com os hologramas quando cheguei. — Sou Elena, é um prazer — ela sorriu, deixando as armas em cima da mesa.
— Estava treinando com elas? — perguntei, me referindo às armas. — Desculpe, sou — estiquei o braço para cumprimentá-la e ela retribuiu com um breve sorriso.
— Estava sim. E, pelo visto, você parece estar meio apavorada com isso — ela riu, apontando para os diversos tipos de armas.
— Nunca segurei uma arma antes. É um pouco aterrorizante saber que eu vou ter que... Bom...
— Matar? — ela levantou uma das sobrancelhas.
— Sim — concordei, sentando-me no espaço que antes estava tomado por .
— Olha, no começo, eu também não estava familiarizada com essa ideia. Mas tem pessoas que são extremamente ruins, só fazem merda no mundo, não colaboram em nada para que as coisas melhorem e acaba que o trabalho sujo sobra pra gente. Não é à toa que somos dados como mortos. Além disso, não é sempre que você vai precisar matar alguém. Às vezes, é só retirar uma informação, ou dar um susto, uma ameaça... Depende da missão. Nós só cumprimos ordens, senão quem acaba morrendo somos nós. Essas armas... — ela apontou para os equipamentos em cima da mesa. — Podem ser suas melhores amigas, porque vão existir pessoas que também querem te matar. E, sem elas, você vai acabar morta de verdade.
Elena não estava errada. As pessoas presentes ali olhavam pra gente tentando disfarçar, mas era perceptível que eu era uma nova isca. Eu tinha aceitado entrar pro Distrito, então, deveria seguir as regras, e o que fosse me dado como trabalho era uma consequência. Eu era uma carne nova, e, desde que havia saído da ala médica em Bled, um sinal de alerta ecoava dentro de mim. Eu olhava para Elena, mas não sentia confiança. Ela não transmitia aquilo; nenhuma daquelas pessoas, na verdade. Eu estava no meio de um matadouro, e, diante disso, era tudo ou nada para sobreviver.


Capítulo 5 – Às vezes, a vida me acerta em cheio com uma pancada. Karen é a personificação da vida.

, favor comparecer ao terceiro andar da administração, sala dois. , terceiro andar da administração, sala dois.”

Eu estava indo em direção ao meu dormitório quando escutei meu nome ecoar pelo corredor. Ao reparar bem o local, observei que havia caixas de som embutidas no teto para avisos como aquele. Mudei a minha rota e segui para o andar da administração. A conversa com Elena minutos atrás passava e repassava na minha cabeça, mas eu estava começando a lidar melhor com aquilo.
Assim que cheguei no respectivo lugar a qual fui chamada, bati duas vezes na porta e girei a maçaneta. Coloquei somente o rosto para dentro do cômodo, o que já me chocou.
— Meu Deus... — murmurei, abrindo a porta por completo e dando de cara com um enorme atelier.
Várias roupas estavam penduradas nas araras, além de penteadeiras com diversos tipos de material para beleza. Era o sonho de qualquer mulher. Nas prateleiras, tinham sapatos e joias guardadas em armários com lacres digitais.
— Ah, finalmente! — um homem com uma echarpe respirou aliviado ao meu ver. Ele estava separando várias peças de roupas simples e colocando-as sobre um balcão. — Recebi um pedido de socorro e, olhando para você, é um caso urgente — ele colocou a mão sobre o peito, me olhando de baixo para cima. — Quando me falou, achei que não fosse tão sério.
— Espera. Quem? ? — levantei uma das sobrancelhas, saindo do transe de estar em um lugar tão maravilhoso.
— Ele mesmo, darling. Ele pediu minha ajuda pra te dar roupas novas. De onde você veio, tinha ogros pra usarem roupas desse tamanho? — ele perguntou, incrédulo.
— De onde eu vim, provavelmente não tinha um lugar como esse — comentei, me aproximando do homem loiro. Ele era um pouco mais baixo do que eu e bem magro. Aparentava ter a idade acima dos trinta.
— New York é diferenciada. Você não tem que estar simplesmente vestida para arrasar, tem que estar vestida para matar — ele piscou um dos olhos para mim e sorriu. — Vá até aquela penteadeira e pegue o que quiser. Não posso deixar uma mulher sair daqui sem suas armas de beleza. Já deixei algumas necessaires vazias para você.
— Tudo bem — soltei uma risada baixa e fui até as duas penteadeiras que ele havia apontado. — Aliás, qual o seu nome?
— Me chamo Marco — ele respondeu, ainda separando peças de roupa.
Peguei a necessaire transparente que ele havia separado e mordi o lábio inferior, observando as maquiagens sobre a mesa.
Se me perguntassem antes qual tipo de maquiagem eu usava, diria tons leves. Mas, por algum motivo, os tons mais escuros chamaram a minha atenção. Resolvi pegar uma paleta de cada tonalidade, e foi a mesma situação com os batons. Testei as bases, procurando a melhor que se adaptaria à minha pele, e coloquei-a dentro da necessaire, junto do rímel, blush, delineador e mais algumas outras coisas. Eu não tinha muita prática com aquilo. Então, no tempo livre, precisaria me esforçar para aprender.
— Qual número você calça? — ele perguntou, indo até as prateleiras dos sapatos.
— Trinta e sete — respondi, voltando para perto do homem que analisava os sapatos e olhava para mim.
— Bom, você vai precisar de tênis — ele pegou dois pares, ambos pretos e discretos. Em seguida, me entregou. — Botas — um par de botas de cano baixo foi colocado nas minhas mãos. — Um chinelo... acho que azul — eu não estava dando mais conta de segurar todos aqueles pares. O chinelo era bem bonito e delicado. — Acho que, por enquanto, é isso — ele olhou para mim e para a quantidade de roupas em cima do balcão. — Pode deixar tudo aí que eu vou pedir pra levarem pro seu dormitório. Pedi para que viesse mesmo por conta disso... — ele foi até outro armário e puxou uma gaveta, de onde retirou uma sacolinha rosa de cetim.
— O que é isso? — perguntei, franzindo o cenho, enquanto ele abria a sacola.
— Informações — Marco retirou de lá um passaporte e a minha identidade. — Como aqui somos identificados somente pelo primeiro nome, tivemos que improvisar o seu sobrenome e o restante das informações, como a sua idade — eu era um ano mais velha naquela identidade. — Agora, o mais importante. Temos algumas regras quanto ao uso do celular — ele retirou a caixa de um iPhone fechado de dentro da sacola e o colocou diante de mim. — Você sabe que temos tecnologia de ponta, então, caso entre em contato com algum familiar, você será penalizada. E sinceramente, eu não gostaria de saber o que é, porque não tive notícias boas quanto a esse tipo de pena. Sem redes sociais. Seu chip é para ligações corporativas, entendeu? Corporativas. Se em algum caso você precisar colocar o seu nome em alguma coisa, coloque informações falsas para não te rastrearem. Ok? — ele colocou tudo novamente dentro da sacola e a fechou. — , esse pessoal aqui leva a sério a questão da segurança. Os contatos que precisa já estão salvos no seu chip, sem mais e nem menos.
— Tudo bem... — murmurei, concordando com a cabeça. A parte da segurança tinha ficado bem clara. — Marco, posso te pedir um favor? — perguntei, ao me lembrar de um pequeno detalhe.
— Depende, amor — ele virou-se para mim, curioso.
— Poderia me arranjar sapatilhas de balé? — abri um sorriso sem graça.
Eu não tinha mais sapatilhas, e iria sentir falta dos meus treinos no tempo livre. Por que não praticar?
Para a minha surpresa, Marco também tinha sapatilhas de balé. Para quê? Eu não fazia ideia. Provavelmente, alguma garota poderia precisar para realizar uma missão.
Saí daquela sala completamente equipada. Na verdade, eu estava levando uma muda de roupa somente, porque o restante seria analisado por ele e enviado para o meu quarto. Segundo Marco, ele ainda poderia selecionar mais algumas roupas.
Como estava próximo do horário da janta, corri para o meu dormitório. Aproveitei para tomar um banho decente, já que estava desde a viagem sem um. Marco também tinha me liberado de trazer a necessaire, então fiz a minha higiene bucal e comecei a passar o pente pelos meus fios loiro-escuros, enquanto me analisava no espelho do banheiro.

— Você vai sair assim? — minha mãe me perguntou ao me ver de batom vermelho.
— Qual o problema? — perguntei de volta, me olhando no espelho do banheiro.
— Chamativo demais. Bailarinas não devem chamar atenção — minha mãe começou a falar enquanto pegava um pedaço de papel higiênico para retirar o meu batom.
— Mas mãe... — retruquei, e ela olhou feio para mim.
— Você deve se portar com classe, não com vulgaridade.
Em seguida, ela passou o papel na minha boca para retirar todo o batom.


Vulgaridade... Todas aquelas roupas que Marco separou para mim eram completamente diferentes das roupas que eu usava antigamente. Sempre tons de rosa-claro e branco; nada vermelho, preto, cinza... Minha mãe dizia que atraía energia negativa. Eu não tinha maquiagem, somente blush e gloss. Deveria ser delicada, não chamativa.
Deixei o meu pente em cima da pia e fui até o quarto, onde espalhei todas as maquiagens que tinha ganhado sobre a cama. Eu não era mais Antonella, era . Deixei a toalha pendurada no box do banheiro e fui até o quarto me vestir. Calça jeans clara e uma blusa preta ombro a ombro que ficava colada no meu corpo, mostrando as definições que tinha, principalmente nas pernas, devido o balé. Comecei com o básico para me acostumar. Rímel, blush e um gloss vermelho. Eu estava indo jantar, mas o que custava me sentir um pouco sexy? Ao me olhar no espelho de chão ao lado do sofá, um enorme sorriso apareceu entre os meus lábios. Agora sim eu parecia alguém decente. Dei uma voltinha e passei a mão pelo bumbum – nunca tinha reparado como ficava tão bem de calça jeans. Calcei o All Star branco que tinha ganhado e saí do meu quaro rumo ao refeitório. Já eram sete da noite.
Ao chegar lá, olhei em volta e procurei por , até que a vi sentada em uma das mesas espalhadas pelo local. Entrei na fila do self-service e fiz o meu prato. A comida tinha um cheiro maravilhoso. Talvez o fato de eu estar morrendo de fome influenciasse na minha opinião.
! — levantou as sobrancelhas ao me ver, assim que me aproximei da mesa. Nikolai também estava ali.
? — ele perguntou, olhando-me dos pés a cabeça, fingindo não me reconhecer.
— Engraçadinho — murmurei, sentando-me ao lado da minha amiga. — Vocês viram uns aos outros depois que fomos apresentados pro diretor? — perguntei, abrindo a garrafinha de suco de laranja.
— Não. Simplesmente me enfiaram no bloco C. Não que isso seja ruim. Eu adorei o lugar, parece que estou vivendo um sonho. A medicina lá é tão...
— Entendemos, , fique com os detalhes para você. Ninguém quer saber a parte de um cérebro ou algo do tipo — Nikolai a interrompeu, fazendo-a revirar os olhos.
Idiot — ela resmungou, dando uma garfada na macarronada.
— E você? Pelo visto, sua tour foi bem interessante — Nikolai me encarou com um sorriso ladeado.
— Por que acha isso? — perguntei, levantando uma das sobrancelhas.
está te treinando e parece que uma outra pessoa foi colocada no lugar do Monstro do Lago Ness que existia no seu físico — ele riu, se referindo às minhas roupas.
— É verdade, . Você está com roupas normais agora! — riu da minha cara.
— Vocês são hilários — dei uma risada irônica. — De onde você o conhece? — voltei a minha atenção para Nikolai, lembrando-me que ele se referiu ao .
— Eu já passei por mais distritos que você pensa, e, em todos eles, o nome do cara é tocado. Parece que ele é um dos agentes mais velhos. Boatos dizem que ele nasceu dentro de um distrito.
— Ele nasceu aqui dentro?! — eu e falamos juntas, surpresas.
— Vocês são surdas? — ele disse, impaciente.
“Você está fazendo perguntas demais.” A frase que tinha dito para mim horas atrás ecoou pela minha cabeça. Era só um boato, mas, se fosse verdade, deveria ser complicado para ele. Meio... solitário.
— Alguém viu a Saori? — perguntou enquanto comia.
— Acho que ela vai ser uma das pessoas que menos vamos ver — Nikolai respondeu, se encostando na cadeira. — A galera aqui leva tecnologia a sério.
— Pior que é mesmo — concordei, cortando o bife de frango. — Quando ganhei o celular, me falaram mil e uma regras — revirei os olhos, levando o pedaço de carne até a boca. Ambos viraram para me olhar. — O quê? Eu não poderia viver na época das cavernas pra sempre — respondi de boca cheia.
Depois da janta, Nikolai foi para recreação, e eu e descemos até o nosso andar. Ela me mostrou seu dormitório, que era exatamente igual, e descobri que ficávamos uma ao lado da outra. Nikolai estava do outro lado do corredor. Conversamos um pouco sobre o dia e eu voltei para o meu quarto. Precisava dormir. tinha me contato que os boatos sobre o treinamento de eram pesados. Eu nem imaginava o que estava por vir.
Quando abri a porta do meu quarto, vi três sacolas enormes de tecidos e várias caixas de sapatos empilhadas, uma em cima da outra. Marco tinha mandado deixar o meu novo guarda-roupa ali. Mas como eles tinham acesso ao meu quarto? Olhei para a maçaneta da porta e reparei que, além da fechadura, havia um leitor digital. Privacidade? Pelo vist, eu não tinha. Não pelos meus superiores.
Uma bolsa rosa em forma de sacolinha chamou minha atenção. Na verdade, eram duas. Uma eu já sabia que eram os meus documentos, mas a outra era ainda maior. Me ajoelhei no chão e abri a sacola. Ao olhar para dentro, dei de cara com um par de sapatilhas de ponta e outra de meia-ponta. Junto delas, havia um bilhete.

“Eu não poderia deixar você sem nada. Junto das outras roupas, também há peças para você treinar balé! Aproveite. Não deixe o meu trabalho de procurar essas roupas em vão, !”

Abri um sorriso ao terminar de ler o recado. Eu poderia treinar de novo! Claro que não teria a mesma rotina de antes, mas só o fato de conseguir praticar às vezes já era um grande alívio. Obrigada, Marco!
Peguei as duas sacolas e levei-as até a cama, arrastando uma em cada mão pelo chão. Depois, a terceira. Minha cômoda tinha seis fileiras. A primeira era dividida entre duas gavetas, e o restante, somente uma. Guardei as peças íntimas na primeira fileira. Marco havia exagerado um pouco, já que tinha algumas peças de lingerie. Ele também tinha me garantindo que todas as roupas eram novas e haviam sido lavadas, devido à higienização. Todas as sextas, uma mulher passava recolhendo as roupas de dentro do cesto do banheiro para levá-las até a lavanderia. As outras gavetas foram divididas entre blusas, jeans, roupas de treino e, por fim, peças variadas. Organizei os sapatos, tênis, chinelos, botas e sapatilhas nas prateleiras ao lado da cômoda.
Acredito que uma hora e meia havia se passado e, quando olhei para a cama e não vi mais nada, deitei-me de braços abertos e suspirei aliviada. Meus produtos de higiene pessoal estavam no banheiro e a sacola das minhas sapatilhas no sofá. Agora, eu só precisava fechar os olhos e dormir, mesmo sem os meus pijamas novos.





Aquela menina me trazia uma memória familiar. Ainda não sabia muito bem do que se tratava, mas era como se um sentimento de proteção e dever tivesse retornado, como um fantasma me assombrando. Após passar no Marco, para pedir que ajudasse a garota com roupas, consegui entrar no meu quarto e finalmente respirar. Era uma angústia tão forte no peito. Puxei a cadeira de couro da mesa, onde estava toda a papelada da garota, e fiquei encarando as informações por um momento. Ela tinha uma enorme capacidade de se dar bem ali, mas era como se uma peça do quebra-cabeça estivesse faltando. Quem exatamente era ?
Peguei uma foto da garota que estava entre as pastas e encarei seu rosto. Ela realmente era bonita. Seria uma boa isca para pegar os alvos, mas várias meninas como ela foram recrutadas. Algumas até com habilidades bem surpreendentes. Por que ela? Por que uma bailarina? Por que ? Depois de tanto tempo naquele lugar, já imaginava que a comissão não recrutasse pessoas por acaso. E não saber o motivo de ela estar ali era angustiante.
Revirei os olhos e joguei a foto da garota em cima da mesa. Retirei as botas e me levantei da cadeira rumo ao banheiro. Eu precisava esfriar a cabeça. Poderia pensar em tudo com mais clareza.





Confesso que tinha escutado o despertador, mas aquele colchão estava tão gostoso de dormir que eu o ignorei por completo. Fazia anos que não dormia em uma cama tão boa como aquela. Meu corpo pedia para ficar. “Chega de treinamentos!”, minha mente dizia, irritada. Eu cedi. Infelizmente, não tinha plaquinhas de “não pertube” na porta do quarto, pois foi com várias batidas que eu acordei assustada. Mon Dieu, !
— Já vai! — falei, me levantando a cama rapidamente.
, abra a porta! — ele gritou, e eu corri perdida pelo quarto. Inferno, não estava acostumada com o posicionamento dos móveis. — Você está uma hora atrasada! — ele continuou gritando enquanto esmurrava a minha porta.
— EU JÁ ESTOU INDO! — gritei, puxando a gaveta da cômoda em busca das minhas roupas de treinamento. Legging. Regata. Meias. Ok? Ok! Troquei de roupa rapidamente e calcei os tênis pretos que Marco havia me dado.
Ao abrir a porta, estava de braços cruzados. Não consegui descrever a fúria que transparecia em seu rosto.
— Você estava dormindo? — ele perguntou lentamente, e eu permaneci quieta. Ele respirou fundo e foi em direção ao elevador. — Lave o rosto. Subterrâneo. Sem direito a café da manhã. Cinco minutos ou faço expulsarem você daqui — ele apertou o botão do elevador.
Corri para o banheiro. Eu não tinha nem escovado os dentes!


...


Quando cheguei na sala de treinamentos, estava me esperando no meio de um tatame. Eu estava evitando seus olhos, por isso reparei mais em seu corpo. Ele estava com roupas pretas como eu, porém de camisa, bermuda e somente meias.
— Me desculpe. Não vai mais acontecer — murmurei, me aproximando.
— Tire os tênis, é melhor para treinar.
Me agachei no chão e retirei os sapatos, deixando-os um ao lado do outro fora da tatame.
— Sessenta flexões. Uma por cada minuto que você se atrasou. Se acontecer novamente, você já sabe o que vai acontecer — ele respondeu, colocando os braços para trás do corpo, me observando.
Eu gostaria muito de protestar, mas estava completamente fora da razão. Suspirei baixo e apoiei as mãos no chão. Esticando os braços, apoiei os dedos do pé na superfície e iniciei a sequência de flexões. Às vezes, minha treinadora pedia para que fizéssemos esse exercício para fortalecer os braços e a musculatura dos ombros. Então, estava um pouco tranquilo. Até ele colocar um dos pés nas minhas costas e forçar o meu corpo para baixo.
— Se reclamar, eu vou sentar nas suas costas — ele comentou tranquilamente.
Por que eu sentia que as coisas ainda iriam piorar? Assim que terminei as flexões, me sentei no chão e amarrei o cabelo em um rabo de cavalo.
— O que está fazendo? Nada de descanso. Vamos, levanta — ele fez sinal para que eu me levantasse do chão, enquanto ia até um arsenal na parede. Ele pegou dois bastões, de mais ou menos um metro cada um, e os jogou na minha direção.
— Pra que serve isso? — perguntei.
Quando levantei a cabeça, arregalei os olhos ao ver que o bastão estava vindo na direção do meu rosto. Segurei o objeto com as duas mãos e o ergui na altura da cabeça. O bastão de colidiu com o meu e fez um barulho alto. Que força ele estava colocando naquele negócio? Ao ver seu rosto, sorria.
— Serve pra isso — ele girou no lugar e, somente com uma mão, bateu na lateral do meu corpo, fazendo-me xingar.
— Você não vai me ensinar? — perguntei, olhando feio para o menino. Minha coxa ardia.
— Quero ver como você consegue se virar — ele deu de ombros. Vou te ensinar, mas, pra isso, preciso ver a sua capacidade.
— Tudo bem — concordei, segurando o bastão com as duas mãos.
Ele riu da minha cara ao alisar o objeto que eu segurava. Ali, ele parecia mais à vontade.
— Suas mãos devem ficar mais separadas — deslizou uma de suas mãos pelo bastão, deixando um espaço entre elas.
— Ok... Vamos lá — murmurei para mim mesma, acreditando que iria me dar bem naquela situação. Só acreditando mesmo.
deu o primeiro golpe na direção da minha cabeça. Por um fio, consegui desviar. Tentei bater com o bastão na sua cintura, mas ele me bloqueou. Me agachei, na esperança de dar uma rasteira no menino, mas sem sucesso. Ele apoiou o bastão dele no chão, do outro lado, e conseguiu passar as pernas por cima do meu, usando seu objeto como apoio. O impacto nas minhas costas era esperado. Eu estava vulnerável. Praguejei quando senti o bastão bater nas minhas costas com força e me levantei depois de alguns segundos.
Vamos lá, ... É como dançar. Você aprende os passos e segue o ritmo.
Ao me levantar novamente, coloquei um pé na frente do outro e segurei o bastão de forma correta, exatamente do jeito que tinha começado. Ajeitei a postura e encarei seus braços. Ergui o bastão e fiz o mesmo movimento que ele na primeira vez. Meu bastão bateu no dele e eu girei meu corpo para o lado. Por um fio, não acertei o seu braço.
era rápido. Meu bastão bateu com o dele novamente, e seu ataque veio na minha direção, com o objeto na diagonal em relação ao meu corpo. Os bastões colidiram novamente. O barulho que faziam era como o ritmo da música. Porém, era uma dança em dupla: um passo meu, um passo dele, um passo meu, outro dele. Não havia muitas regras, somente posições e força. Devido a uma brecha minha, passou uma de suas pernas pelas minhas e me deu uma rasteira, fazendo meu corpo bater contra o chão. Ele colocou o bastão no meu pescoço e me encarou.
— Não está tão ruim. Está péssimo — ele resmungou e se afastou.
Me levantei e peguei o objeto que estava no chão.
— Por que estou aprendendo isso? Vou sair por aí com um bastão no meio da rua?
— Não estou te ensinando as coisas à toa. Elas podem ser úteis em algum momento. Nunca se sabe em que situação você vai se encontrar. Um cabo de vassoura pode salvar sua vida, sabia? — ele perguntou com ironia e colocou o bastão no chão. — Você está usando somente uma posição das mãos, está errado. Dependendo do ataque, você pode variar. Segura firme — ele se referiu ao objeto que eu segurava. — Ataque direto — ele esticou meus braços acima da cabeça, de forma que o bastão ficasse na horizontal. — Os dedos sempre ficam para cima. Trave os braços para absorver o impacto e para o bastão não ir contra você — ele foi até o seu e, depois, veio até mim. — Tenta me dar um golpe no pescoço.
Ergui meu objeto e fui em direção ao seu pescoço, porém, me interrompeu ao esticar as mãos acima do corpo, de modo que a arma ficasse na diagonal e na mesma direção do seu braço, que estava esticado.
— Alguns golpes lembram kendo — ele comentou, colocando o bastão no chão novamente. — Independente do lado, suas mãos devem ficar juntas e acima da sua cabeça. O bastão deve ficar na mesma reta do seu braço, senão vai acabar pegando de qualquer jeito nos seus membros inferiores. Deslize suas mãos pelo bastão. Dessa, forma você vai conseguir melhor mobilidade com ele. Não adianta ser somente o corpo. Você também deve ter agilidade com a arma que está usando. Vamos lá, de novo — ele pegou o seu bastão e posicionou os pés, vindo ao meu encontro com o ataque.
A manhã seria bem longa...


...



— Minha nossa, parece que você tomou um choque.
tinha me encontrado no corredor. Estávamos indo para o refeitório almoçar. Seu comentário fazia sentido, já que meus cabelos estavam em pé. Eu tinha apanhado tanto na parte da manhã que quase não sentia os meus braços e as pernas. Eu estava tremendo.
— Se aquele subsolo não é o inferno, não sei mais o que é — resmunguei, apertando o botão do elevador.
— Você vai voltar depois para o treinamento? — ela perguntou, entrando no elevador comigo e mais três pessoas.
— Sim — falei, suspirando baixo.
— Com o tempo, você se acostuma — ela riu ao meu lado.
— Espero que sim. Se eu não me acostumar, ele vai me fazer acostumar na marra — murmurei, olhando brevemente para as outras pessoas no local.


...


Eu ainda tinha alguns minutos do meu horário de almoço. Me despedi de , que foi para o seu prédio, e caminhei até o pequeno jardim aberto no centro dos edifícios. Era um dia ensolarado, com poucas nuvens no céu, mas estava relativamente fresco. Sentei-me em um dos bancos de madeira perto de uma árvore e me deitei ali, colocando um dos antebraços sobre os olhos.
Paz. Alguns minutos de paz.
— Vinte minutos.
Ao retirar o braço dos olhos, encontrei vindo na minha direção.
— Eu sei olhar as horas, obrigada — resmunguei, olhando feio para o menino. Ele iria ficar me seguindo? Eu estava no meu horário de descanso!
— Pontualidade é uma das coisas que prezamos por aqui — ele respondeu, ainda me encarando.
— Eu já entendi isso — sentei-me no banco e dobrei as pernas em posição de borboleta, liberando um espaço para o menino ao meu lado.
— Está cansada? — ele perguntou, sentando-se sobre o encosto do banco e encarando o jardim diante de nós.
— Não — balancei a cabeça negativamente.
Eu estava extremamente cansada, não sei se aguentaria mais luta corpo a corpo. Sentia meus músculos darem espasmos.
— Você é uma péssima mentirosa — ele riu alto.
— Eu estou falando sério, não estou cansada. Quem é você pra dizer que eu estou ou não cansada? — virei o rosto para encarar os olhos do menino, que sustentou o olhar com um sorriso debochado no rosto.
— Tudo bem, se você está dizendo que não... — ele deu de ombros e se levantou do banco.
— Posso fazer uma pergunta pessoal? — perguntei, antes que o menino começasse a andar para longe.
— Depende — ele cruzou os braços e virou o corpo para mim.
— Há quanto tempo está aqui? — perguntei, segurando os meus pés e o encarando.
— Tempo suficiente — ele apenas respondeu e lentamente deu as costas para mim. Aquele assunto não o interessava.
— Ouvi dizer que você nasceu aqui — comentei em tom baixo. Senti que estava brincando com uma bomba.
— E o que isso implica em você? — ele perguntou, parando de andar, ainda de costas para mim.
— Nada. É só que isso parece ser meio solitário e... triste. Você não deve ter conhecido outros lugares por prazer, somente por trabalho.
— Olha, , eu acho que você não deve se meter nessa parte da minha vida — ele deu dois passos na minha direção e me encarou profundamente. — Tem curiosidade sobre mim? Guarde para você.
— Não parece justo você saber tudo sobre a minha vida e eu não conhecer nem metade da pessoa que vou conviver durante a semana inteira por vários meses — cruzei os braços, me encostando na cadeira.
— Os vinte minutos já acabaram. Vamos voltar pro treinamento — ele murmurou, dando as costas para mim.
Antes que eu pudesse pensar em alguma resposta, ele já estava longe. Respirei fundo e me levantei do banco, seguindo para a sala de treinamento que ficava no subsolo. O que me aguardava dessa vez?


...


— Me dê suas mãos — ele me fez um sinal para que eu me aproximasse.
estava escorado em uma das mesas de alumínio com armas em cima, ao lado do tatame.
— Pra quê isso? — perguntei, ao ver que tinha duas fitas de armadura sobre a mesa, e ele havia pegado uma delas.
— Para não machucar os dedos. Apesar de eu achar que isso não vá acontecer — ele disse, indiferente, enquanto passava a armadura pelas minhas mãos.
Enquanto fazia o procedimento, meus olhos estavam fixados no garoto. parecia uma pessoa bem retraída, como se algo muito grave tivesse acontecido na sua vida e ele não conseguisse socializar com as pessoas. Parecia que era somente ele e mais ninguém. Como se estivesse em um looping eterno dessa rotina.
Eu me sentia atraída por ele. Não sexualmente. Mas como se algo estivesse escondido e eu gostaria de procurar, seja lá o que fosse. Assim que terminou, seus olhos encontraram os meus. Ele me encarou por alguns segundos e, em seguida, deu as costas para a bancada.
Relaxa, . Relaxa.
— Por que você não está com as ataduras? — perguntei, levantando uma das sobrancelhas.
— Porque não seria justo eu ter um combate diretamente corporal com você. Sua oponente está ali — ele apontou na direção do tatame, onde uma menina de cabelos azuis me aguardava.
Ela estava com o mesmo uniforme que eu, porém, seu cabelo estava preso em uma trança. Diferente de mim, que usava um rabo de cavalo.
— Amanhã eu não vou conseguir levantar da cama — sussurrei para mim mesma, indo em direção à menina que me esperava com as mãos na cintura. Seus braços eram extremamente definidos. Um soco dela e eu perdi um dente.
, essa é Karen — ele me apresentou para a garota, que somente balançou a cabeça. — Depois de mim, ela é uma das melhores lutadoras daqui. Vou te ensinar o básico — se colocou ao meu lado. — Canhota ou destra?
— Destra.
— Ok. Pé direito na frente, esquerdo atrás. Mãos — ele fechou o punho. — Fecha o punho. Polegares sobre os outros dedos, não ao lado. Mão direita próxima do queixo, esquerda na frente do nariz. Defende com a esquerda e ataca com a direita, se for possível.
— Você sabe que está me fazendo de saco de pancada, né? — comentei, encarando a menina na minha frente.
— Talvez você aprenda mais rápido — ele deu de ombros.
Karen esticou o braço direito na minha direção e, para cumprimentá-la, bati o meu punho com o dela. A garota deu o primeiro golpe na direção do meu rosto, mas desviei para o lado contrário e tentei dar um chute em seu estômago. Porém, ela segurou a minha perna e me puxou, fazendo-me cair no chão. Merda. Rolei para o lado quando vi que a menina iria cair com o cotovelo sobre mim, e me levantei rapidamente.
— Ela vai me matar! — reclamei, ao ver que ela vinha novamente na minha direção.
— Você escutou ele. Quem sabe você não aprende mais rápido — ela deu de ombros e tentou me dar outro soco.
Abaixei o tronco e fui para o lado direito. Quando Karen se virou na minha direção, fechei o punho na intenção de acertar seu nariz, mas ela segurou minha mão e girou o meu braço no sentido contrário, fazendo-me gritar de dor. Que menina encapetada! A garota segurou minha nuca e inclinou minha cabeça para frente, puxando ainda mais o meu braço para trás. Com isso, acabei me ajoelhando no chão, tentando liberar o meu braço.
— Já chega — pediu, de braços cruzados e fora do tatame. Karen não parou. — Karen, eu pedi para parar — ele encarou a menina, que olhou para ele de volta. Em seguida, ela me soltou e empurrou meu corpo no chão.
— Eu sabia que ela não ia aguentar. Ela não tem nada de especial — a garota disse entre dentes e saiu andando para perto de um grupo próximo que observava a luta.
Na parte da tarde, havia muito mais pessoas treinando do que de manhã. Confesso que aqueles olhares me incomodaram. Eu era fraca.
— Consegue levantar? — se agachou ao meu lado. Levantei a cabeça e olhei para ele furiosa.
— Que tipo de treinamento é esse?
— O que quer dizer? — ele perguntou, se levantando do tatame.
— Eu não aprendi nada com isso. NADA! Achei que eu estava aqui para aprender, não para apanhar no primeiro dia — levantei-me do chão e olhei irritada para , que permanecia com a expressão tranquila. Ao olhar para o grupo de pessoas novamente, reparei que eles repassavam dinheiro entre eles. — O que eles estão fazendo?
— Fizeram uma aposta de quanto tempo você aguentaria — respondeu calmamente.
— Uma aposta?
— Sim — ele concordou, retirando os tênis.
— É claro que tinha que ter uma aposta — revirei os olhos, saindo do tatame.
— Onde está indo? Não disse que a aula havia terminado.
— Estou indo embora. O dia que você realmente tiver uma didática de ensino, eu volto. Não sou nenhum passatempo. Eu vim pra esse lugar porque preciso aprender. Se você não está disposto a fazer isso, eu procuro alguém que esteja — peguei o par de tênis que tinha deixado do lado de fora do tatame e dei as costas para , caminhando em direção à saída.
! — pelo tom de voz, eu sabia que ele estava bem irritado.
E, se quer saber, eu não me importava. Respeito é algo mútuo. Se ele não tinha nenhum por mim, eu também não teria por ele.


...


Bati a porta irritada e entrei no meu quarto, jogando-me no sofá. O meu treinador era irritante. Aquele ar de superioridade e ego inflado me irritavam. Maldito aquele que tinha o colocado na minha vida. Botei as mãos sobre os olhos e respirei fundo. Organize os pensamentos, organize. Retirei as mãos dos olhos e me sentei rapidamente, encarando a bolsa com minhas coisas de balé no sofá. O que mais me acalmava do que o balé? Levantei-me e puxei uma das gavetas, onde peguei um collant, meia-calça e a saia. Troquei de roupa e calcei os chinelos. Prendi o cabelo em um coque meio desengonçado e saí do meu quarto, rumo aos andares de cima em busca de algum lugar que eu pudesse treinar.
No andar abaixo do refeitório, eu havia encontrado uma ampla sala que, por nenhuma coincidência, havia uma barra no centro e espelhos. Será que alguém deu aulas ali ou alguma outra pessoa treinava no local? Marco tinha roupas de balé, e agora uma sala de treino? Era um pouco estranho. Ninguém havia mencionado nada. Deixei a bolsa com minha sapatilha meia-ponta no chão e me sentei para me alongar. Depois de alguns minutos, fui até a caixinha de som do local e a conectei com o bluetooth do meu celular. Eu ainda não tinha Spotify e não podia entrar na minha antiga conta. Então, optei pelo YouTube mesmo. Escolhi uma das músicas do Niall Horan, Put A Little Love On Me.
Para mim, dançar era libertador, apesar de ter que seguir diversas regras na companhia. Sempre gostei do balé contemporâneo, mas eu tinha mais habilidade no balé clássico. Sempre fui elogiada por conseguir fazer as posições com perfeição e delicadeza, o que era bem contraditório, já que, momentos atrás, tinha caído no soco com uma menina. Ou, pelo menos, tinha tentado.
Quando a música começou, fui até o centro da sala e respirei fundo com os olhos fechados. Se tinha uma coisa que eu era boa, era o balé. Dominar algo era satisfatório. Levei as mãos até as laterais do pescoço e girei a cabeça lentamente enquanto as descia pelo corpo. Quando toquei as coxas, desci até ficar de joelhos. Apoiei as mãos no chão e estiquei uma das pernas, deixando a outra dobrada. Com os braços, impulsionei meu corpo para trás e deslizei pelo chão, até que eles ficassem totalmente esticados.
O balé era muito mais do que subir em um palco com um tule e fazer uma apresentação. Se você soubesse bem as habilidades que esse tipo de dança te dá, com certeza irá usá-las em muito mais coisas do que imagina. Flexibilidade pode ser simplesmente tudo na sua vida e, com um toque de sedução, você pode sair da zona de conforto e criar uma coreografia totalmente diferente da clássica.
Levantei-me do chão rapidamente e dei duas piruetas, com um pé na frente do outro. Ergui o braço esquerdo e deslizei a mão direita pelo membro inferior até chegar no ombro. Dei dois passos para frente e juntei os pés, dando um pulinho para realizar um dos saltos. Juntei os braços acima da cabeça e joguei o pé para trás até na altura dela, deixando a perna oposta esticada. Minha cabeça estava a mil. Eu não estava conseguindo ter um bom desempenho nas piruetas, a maioria das finalizações estava péssima.
Fui até a barra. Minhas costas doíam – provavelmente, resultado da pancadaria que recebi hoje. Fiquei de costas para a barra e inclinei meu tronco para trás, deixando as costas apoiadas sobre o suporte de madeira. Estiquei os braços para trás e fiquei encarando a sala de cabeça para baixo. Eu não era mais a garota de antes. Minha vida tinha mudado, tudo estava ao contrário como eu. Exatamente como a visão que eu tinha no momento, de cabeça para baixo.
A Antonella não existia mais. Tinha sido escolha minha, mas mudanças eram tão difíceis. O distrito me parecia ser um lugar complexo. As coisas pareciam muito escondidas. Era como se tivesse mais coisa por vir. Eu sentia que algumas estavam por baixo dos panos. Parando para pensar, eu não tinha mais nada. Minha casa provavelmente tinha sido leiloada. Se eu fosse expulsa daquele lugar, não teria mais para onde ir, e, aliás, eu não podia voltar dos mortos. Eles provavelmente me matariam.
Ergui o corpo rapidamente e balancei a cabeça negativamente. tinha me falado para não confiar em ninguém e, provavelmente, eu era uma das meninas mais indefesas daquele lugar. Merda.





Confesso que peguei pesado. Eu não estava feliz com aquele trabalho. Aquela garota me fazia ficar uma pilha de nervos, porque eu sentia que ela me remetia a alguém. Alguém muito próximo. Eu não fazia ideia que tipo de sentimento era aquele. Nunca tinha me aproximado de ninguém que não fosse do distrito, e ela nunca nem esteve ali!
Acabei descontando em situações que não deveria. Ela estava certa em ir embora, e eu tinha gostado de sua atitude. Se algo a incomodava, ela certamente falaria ou iria embora como fez. Como iniciante, não tinha ido tão mal. Era como se ela conhecesse os movimentos, mas não sabia como executá-los.
Não foi tão difícil encontrá-la. Não tinha outro lugar para ir a não ser o seu prédio. Ela ainda não estava familiarizada com os outros para ir atrás da amiga. Quando a encontrei em uma das salas de dança que havia no edifício, meus olhos se fixaram nos movimentos que a menina fazia. Era... encantador. Ela parecia tão leve. Era como se fizesse os movimentos no automático. Parecia tão simples. se parecia muito mais com ela mesma em roupas de balé. Combinava perfeitamente. Era hipnotizante vê-la daquele jeito.
Eu estava começando a entender o que Henrik quis dizer quando disse que “ela chama atenção”. não era uma das meninas que passava despercebida em um lugar, ela só não sabia disso ainda. Dei um tempo para a menina, que parecia estar se aquecendo na barra, e abri a porta lentamente. Encostei o meu ombro no vão da porta e fiquei a observando fazer outros passos. Quando ela percebeu a minha presença, parou o que estava fazendo e colocou as mãos na cintura.
— O que está fazendo aqui? — perguntou, desconfiada.
— Vim me desculpar.
Eu era um pouco orgulhoso, mas realmente havia errado com ela.
— Não quero suas desculpas, quero sobreviver. Não é ao redor disso que esse lugar gira? Se você não me treina, eu morro, logo, volte quando quiser me treinar de verdade — ela deu as costas para mim e voltou a ficar na ponta dos pés, realizando suas piruetas.
— Acho que as desculpas são um bom início — dei de ombros, ainda observando a menina.
— Talvez — ela murmurou, parando de frente para mim, com os braços abertos e o pé esquerdo um pouco atrás do direito.
— Será que podemos recomeçar, então? — levantei uma das sobrancelhas, cruzando os braços. Ela me encarou por alguns segundos e concordou positivamente com a cabeça.
— Mas com uma condição.
Estava fácil demais até agora.
— Qual?
— Eu quero saber mais sobre o distrito e quero saber sobre a história desse lugar. Acho que ninguém mais do que você pra me dizer, já que passou anos e anos aqui. É o que dizem, pelo menos — ela deu de ombros e foi até a caixa de som.
— Você não acha que é mandona demais? — perguntei, apoiando a cabeça na lateral da porta. — Por que quer saber mais?
— Você não acha que tem o ego alto demais? — ela virou o rosto na minha direção e sustentou o olhar em mim. Acabei soltando uma risada baixa. — Conhecimento nunca é demais — deu de ombros e desviou o olhar.
— Acho que você tá aprontando alguma coisa, mas não quero saber. Te vejo amanhã no mesmo horário de sempre, nosso acordo está de pé — dei as costas para a menina e, pelo canto do olho, reparei que ela sorriu levemente enquanto guardava suas coisas.
Por que será que eu me sentia tão bem com o fato de ela voltar para os treinos? Precisava fazer o relatório deles, e só de pensar naquilo me dava preguiça. E Henrik não precisava saber de tudo. Desde o começo, tinha achado o pedido meio estranho.


Capítulo 6 – Há alguns ÁS na sua manga?

Seis horas da manhã e eu já estava de pé, de banho tomado e pronta para o treino que aconteceria em algumas horas. Peguei meu celular em cima da cômoda e caminhei até a porta, onde saí trancando o quarto atrás de mim.
O refeitório não estava tão cheio como de costume. Para o meu café da manhã escolhi algumas frutas, uma xícara de café e duas torradas. Me sentei em uma das mesas vazias pronta para comer em silêncio. Por um momento, achei que fosse conseguir, até Nikolai aparecer com sua bandeja.
— Gostei das duas tranças — ele apontou para o penteado no meu cabelo, dando uma bela mordida na maçã. Eu tinha resolvido mudar um pouco o visual para variar, então fiz duas tranças embutidas para o treino. Também era melhor para mobilidade. — Te deixou com uma expressão mais séria.
— Você não tem outras pessoas para perturbar? — levantei uma das sobrancelhas, encarando a xícara de café que já estava no fim.
— Eu iria te dar boas notícias, mas já que não quer... — ele deu de ombros, pronto para levantar-se da mesa. Mas fiz sinal com a mão para que parasse imediatamente.
— O que é? — meu lado curioso falava mais alto.
— Estão planejando uma festa no fim de semana em uma galeria abandonada. Eu chamei a , mas ela não quer ir. Se quiser ir, me procura que eu te levo. Afinal, não tem outra pessoa para fazer isso — ele deu um sorriso de lado.
— Por que está sendo legal de repente? — perguntei, colocando uma uva na boca enquanto encarava o menino na minha frente. Nunca tinha reparado como ele lembrava o Machine Gun Kelly.
— Sou um cara legal, depende do meu dia — ele sorriu com o braço direito apoiado na cadeira em que estava sentado.
— Terminou o seu café? — uma figura masculina apareceu do meu lado, e, ao olhar para cima, identifiquei . Ele não me dava sossego.
— Nem são sete horas ainda — revirei os olhos, conferindo o horário no celular. Faltavam quinze para as sete. O meu treinador permaneceu me encarou e eu suspirei. — Você é tão irritante. — resmunguei, me levantando da cadeira. — Até mais, Nikolai — me despedi com um breve aceno para o menino, que colocou o indicador e o dedo do meio na testa e fez um sinal de despedida.
seguiu na frente, e acompanhei-o sem abrir a boca para falar nada. Apesar do nosso acordo, eu ainda não estava muito a fim de conversar com ele. Estávamos seguindo uma rota diferente – não estávamos indo para o subsolo, e sim para o prédio da administração.
— Você está muito calada — resmungou, apertando o botão número 3.
— Não estou muito a fim de conversar — dei de ombros e, assim que o elevador abriu, levantei as sobrancelhas em espanto ao ver uma enorme fonte de conhecimento abrir-se diante de mim. Que biblioteca enorme!
— A aula da manhã será aqui — comentou, saindo do elevador. Eram fileiras e mais fileiras de estantes, e haviam dois andares! — Bom dia, Angeline — ele cumprimentou a senhora que estava sentada em uma mesa de madeira. Provavelmente, era bibliotecária. Ela vestia um uniforme azul-escuro com um número do distrito sobre o peito esquerdo.
parou em uma das mesas de madeira retangulares que tinha no local e puxou a cadeira para se sentar. Também havia livros sobre a mesa. Eu me sentei do outro lado da mesa e o encarei, esperando que começasse a aula ou seja lá o que tinha planejado.
— Espero que goste de história — ele resmungou, ajeitando a cadeira de modo que ela ficasse meio torta. Então, colocou os pés sobre a mesa e conferiu se a bibliotecária não estava olhando. — Esses livros vão ajudar um pouco você a entender como tudo por aqui era e como funciona agora — ele apontou para os objetos sobre a mesa. Todos os livros tinham capas escuras e nenhum título, somente um símbolo de três círculos pratas interligados; um em cima e dois embaixo. — A única coisa que eu peço é que não fale para ninguém que estou te contando essas coisas.
— Por quê? — levantei uma das sobrancelhas e peguei um livro.
Olhar para aquele símbolo me trazia um certo frio na barriga. Assim que passei o dedo sobre ele, senti um arrepio percorrer pelo meu corpo. Era uma sensação estranha.
— Contar a história de alguém ou algo é valioso e perigoso. Você passa a saber a vida dela inteira. Para o distrito, quanto menos as pessoas saberem sobre a fundação, melhor.
— E como você sabe disso? E por que resolveu me contar? Não era obrigado a fazer isso.
Ele me encarou por alguns segundos e suspirou.
— Eu realmente estou aqui há bastante tempo — aquilo só me deixava mais próxima da teoria que ele havia nascido ali. — Os superiores confiam em mim, isso você conquista com o tempo... Nunca tinha treinado alguém antes, porque tenho assuntos melhores para resolver. Se você foi designada a mim, é porque algo de interessante deve ter.
O que de interessante eu teria? Essa pergunta ecoou pela minha cabeça por alguns segundos, até voltar a falar:
— E, teoricamente, você me obrigou. Caso pedisse outra pessoa para te ensinar, Henrik não ficaria feliz e eu iria me foder — ele bufou e colocou as mãos sobre a barriga. — Vamos lá. Dois anos depois do fim da Segunda Guerra Mundial, começou a Guerra Fria. Porém, alguns governantes não estavam satisfeitos com isso, resultando no rebaixamento do cargo deles. Eles já estavam meio cansados dessa confusão toda e sempre davam opções mais simples. Com isso, três caras muito próximos resolveram criar o primeiro distrito, afinal, eles foram uma das principais influências e suporte financeiro durante os conflitos. Os três tinham nacionalidades distintas. Um era francês, o outro americano e, por incrível que pareça, um era russo. Mas qual era o objetivo? Eles queriam acabar com todos os conflitos que estavam acontecendo ao redor do mundo. Foi aí que começaram a recrutar ex-combatentes, mas não como algo obrigatório. Era uma opção se juntar ao distrito ou não. Eles tentaram levar o projeto até o governo, porque talvez isso acabaria com a Guerra Fria. Mas não adiantou. Com certeza o projeto seria negado, e o distrito, destruído. A partir daí, passaram a agir por conta própria.
— Como o russo se juntou? Eles não eram inimigos durante a Guerra Fria? — perguntei, confusa.
— O representante da Rússia não era inteiramente russo. Ele era irmão do representante francês, irmão por parte de pai. É uma puta bagunça. Na real, esses caras não tinham mais o que fazer quando inventaram isso — revirou os olhos. — Depois de alguns anos, o governo descobriu o que as três famílias tinham feito e, literalmente, invadiram tudo. Inclusive, o fundador russo foi morto por ter sido considerado espião e praticado traição — respirou fundo e olhou para mim, observando se tinha prestado atenção. — Agora, vamos resumir. Os fundadores do primeiro distrito eram três: um francês, um americano e um russo. O governo descobriu, matou o russo, e os outros dois foram presos. Daí vem a parte em que os governos decidiram compilar com o distrito que tinha sido esquecido. A URSS já estava começando a entrar em crise. O que ninguém sabe é que o presidente soviético da época renunciou por conta de Jacques Armand, o fundador francês. Ninguém sabe o que Jacques fez ou falou pra ele renunciar, mas aconteceu. O distrito passou a ser reconhecido por todos os governos e, pra resolverem os problemas internos e externos, eles contavam com a ajuda do distrito. A coisa tomou uma proporção tão grande que outras bases foram criadas em diversos países pra dar suporte aos governos.
— E caso alguém peça pra cometermos o assassinato de algum governante? —questionei, folheando os livros.
— Não conversaram sobre isso com você? — levantou as sobrancelhas, surpreso.
— Não — balancei a cabeça negativamente, e ele se ajeitou na cadeira.
— O Distrito possui regras. Eles deveriam ter passado isso pra você. Não podemos, em hipótese nenhuma, matar um governante ou alguém que esteja em um cargo no Estado. Isso iria influenciar na história do mundo. O que podemos fazer é dar um susto ou algo do tipo, e, de forma indireta, interferir.
— Por exemplo? — levantei o olhar para prestar atenção no menino.
— Pegar de volta o dinheiro sujo e colocar no lugar. O bloco que a Saori está estudando faz isso todos os dias, desvia o dinheiro que foi desviado para a conta dos corruptos e o coloca de volta no lugar — ele deu um sorriso ladeado. — Viu? Indiretamente, mas jamais matar um governante.
— Ah, esses são os três fundadores?! — perguntei, apontando para a foto em preto e branco no livro.
— Isso. Jacques Armand, Bóris Vassiliev e Andrew . Jacques e Andrew foram soltos e passaram a comandar o distrito junto do filho de Bóris, afinal, eles também tinham herdeiros e iriam passar o cargo futuramente.
— Jura que eles estão em algum distrito? Então Lenora é filha de alguns deles? — levantei as sobrancelhas, surpresa. A foto dos fundadores ainda estava aberta diante de mim, e todos eles usavam uma farda. Fechei o livro quando comecei a sentir um desconforto.
— Não sei te dizer. Nunca vi nenhum deles, não sei se são todos homens ou mulheres. Dizem que eles renunciaram e passaram o cargo para outras pessoas. Outros falam que eles preferem ser discretos e comandar as coisas através de outras pessoas, não tem como saber. — deu de ombros.
— E como eles passaram a recrutar pessoas normais? — questionei, colocando os pés na cadeira, de modo que pudesse abraçar minhas pernas.
— Depois de um tempo, os agentes começaram a ser reconhecidos. Foi aí que surgiu a ideia de fazer uma análise da população. Os nomes são listados e, caso ocorra o que aconteceu com você, é recrutado e passa a ser um fantasma no sistema — ele deu de ombros. — Fora que as pessoas possuem subjetividade, talentos e tudo mais. Agrega mais ao distrito.
— Isso tudo é muito esquisito — franzi o cenho, assimilando tudo o que havia escutado. — Esses caras eram surtados, mas confesso que achei legal a coragem deles. O primeiro distrito fica onde?
— Em Bed — respondeu, colocando os livros um sobre o outro.
— Lá é o 22.
— Porque, ao todo, são 22 distritos. É a junção de todos, como se o último fosse o primeiro. — ele disse, como se fosse algo óbvio.
— Ei. O que está fazendo? — perguntei, assim que o vi pegar os livros.
— Vou guardá-los, já acabamos.
— O quê?! Mas eu nem li eles ainda — protestei, me levantando da cadeira e me colocando na frente dele. — O que são esses três círculos?
— Os três fundadores. Cada círculo é um fundador. Eles possuem um ideal em comum, que é o centro do símbolo. Quando quiser ler, é só me pedir que eu pego pra você — respondeu, dando as costas para mim e sumindo entre as estantes repletas de livros.
Esperei alguns segundos e me levantei da cadeira, indo atrás do menino. Se eu o seguisse, talvez conseguiria descobrir em qual estante os livros ficavam. Olhei entre as estantes, procurando pelo menino, até que uma mão pousou sobre o meu ombro e me fez assustar. Ao olhar para trás, encontrei . Ele já não estava mais com os livros.
— Você não vai achar, esquece — ele riu e deu as costas para mim, indo em direção ao fundo da biblioteca. — Me encontra no segundo andar do subterrâneo, tenho que fazer uma coisa antes. Encontro você lá.
— Mas não é onde ficam as armas? — perguntei, levantando uma das sobrancelhas.
— Sim — ele respondeu, indiferente.
— Ok... — passei pela bibliotecária, que ficou me encarando pelo canto do olho, e entrei no elevador junto de . Ela já não me parecia muito amigável.
Eu e meu tutor nos desencontramos no térreo. Ele seguiu para o andar da administração, e eu fui para o elevador que me dava acesso ao subterrâneo. Assim que as portas se abriram no arsenal de armas, senti um frio percorrer pelo corpo. Entrei no local com os braços cruzados e olhei ao redor. Havia poucas pessoas ali; elas estavam mais concentradas no estande que ficava no fundo da sala. Me aproximei da parede em que ficavam as pistolas, e meus olhos encontraram exatamente duas armas iguais com o cano prata; elas pareciam bem confortáveis de manusear. Mais ao lado ficavam as armas maiores, porém uma em específico chamou minha atenção. Ela era enorme, da cor preta.
— Gostou dela? — escutei uma voz masculina interromper meus pensamentos. — É uma…
— Uma Cheytac M200 — respondi, hipnotizada pela sniper. Passei os dedos lentamente pela arma presa na parede.
De onde eu reconhecia aquilo? Um arrepio passou pelas minhas costas até chegar na nuca. Ao olhar para trás, encontrei meus olhos com os de . Ele parecia meio desconfiado.
— Me disseram que você não sabia nada sobre armas. Como reconheceu um dos melhores rifles do mundo, ? — ele perguntou com uma expressão séria.
— Eu... eu não sei — franzi o cenho, dando um passo para trás.
, como sabe desse rifle? — ele perguntou novamente, dando um passo na minha direção. Minha respiração começou a ficar ofegante, e eu estava suando.

— Já sabemos que você se dá melhor com armas de longo alcance. Vamos testar essa agora — um homem barbudo e careca estava diante de mim, do outro lado do balcão de madeira no meio de um gramado enorme. Estávamos debaixo de uma tenda e fazia sol.
— Essa parece ser interessante, Sr. — abri um sorriso ladeado, encarando o rifle preto e fosco, enquanto o comandante desmontava a arma.
— Identifique as partes do rifle e monte-o novamente. Afinal, você vai ter que fazer a manutenção.
— Coronha. Cabo — aos poucos fui montando a arma novamente, fazendo-a ficar mais pesada. — Cano longo. Supressor. Bipé — peguei o acoplamento da arma, como se fosse um apoio. — A munição e, por fim, a lente, uma luneta tática com ampliador de seis vezes.
— Você sabe que tem mais partes.
— São os detalhes, isso eu já sei — dei de ombros, pegando a sniper e levando-a até o estande. Coloquei os fones e os óculos, só por precaução. Afinal, a arma tinha silenciador. Em seguida, me deitei no chão. Meu treinador mexeu nos controles do alvo, fazendo-o se afastar cada vez mais de mim.
— Você está colocando o alvo mais longe dessa vez — resmunguei, observando-o pela mira.
— Claro, você sempre acerta. Tenho que dificultar — ele riu, e o alvo parou. — Pronto. Suspirei e aproximei meu olho direto na mira. Peguei uma única bala e a inseri na arma, ajustando-a levemente para o lado. Meu dedo apertou o gatilho, e o recuo fez com que a coronha batesse no meu ombro levemente. Ela era muito melhor de manusear.
— É... Acho que hoje também é um dos seus dias de sorte — meu treinador sorriu enquanto olhava para o alvo com o auxílio de um binóculo.


! — estava gritando comigo quando abri os olhos lentamente. Senti meu corpo estranho.
— Hm...? — respondi, ainda deitada no chão, sem me mexer.
— O que houve?! — aquela era a voz da ? Ela parecia preocupada.
— Ela teve uma convulsão — respondeu atrás de mim. Estava explicado porque eu sentia meu corpo estranho.
— Eu est... — não conseguia falar direito, minha língua parecia adormecida.
— Temos que levá-la para a ala médica. Consegue pegar ela no colo? — perguntou, preocupada e ajoelhada ao meu lado, me analisando.
Só balancei a cabeça negativamente. Eu não queria ir.
— Não... — continuei balançando a cabeça enquanto lutava contra , que tentava me pegar no colo. — Não quero ir! — resmunguei, batendo no garoto.
, por favor, temos que ver o que aconteceu — ele passou o braço por baixo das minhas costas e das pernas.
— Não foi nada de mais — cruzei os braços irritada e revirei os olhos.
— Você está toda molenga, como não foi nada de mais? O que aconteceu? — perguntou, acompanhando durante o trajeto.
— Não sei — respondi. Eu realmente não sabia, parecia que havia tido um sonho meio acordada, meio dormindo.
Quando chegamos no leito, me colocou na maca e eu respirei fundo. Não gostava de hospitais ou qualquer coisa relacionada. Ficava desconfortável só de sentir o cheiro do lugar.
— Não foi nada de mais, não sei por que estão tão preocupados — murmurei, sentando-me na maca e olhando para as minhas mãos. Que tipo de sonho tinha sido aquele?
— O que aconteceu? — uma mulher alta e de cabelos curtos acima do ombro entrou no local. Ela vestia um jaleco, e nos pés, um par de Crocs.
— Essa é a Doutora Eve. Ela é especializada em neurologia — respondeu, ficando ao lado da doutora.
— É um prazer conhecê-la...
— respondi, entredentes.
, ótimo — ela sorriu amigavelmente. — O que aconteceu?
— Ela teve uma convulsão, do nada — respondeu, olhando para a doutora.
— Ela bateu a cabeça recentemente? Ou possui epilepsia? — Eve perguntou, analisando meus olhos com uma lanterninha.
— Sofri um acidente algumas semanas atrás, só isso — dei de ombros.
— Hm... — ela se afastou e pegou uma prancheta livre no leito. — Vamos fazer alguns exames. Dependendo dos resultados, você vai ser liberada.
Respirei fundo e deitei na maca novamente, irritada.
— Já, já voltamos — se despediu e saiu do leito junto da minha médica.
Olhei para pelo canto do olho, irritada, e ele fingiu que nem tinha reparado.
— Você sabe que não precisava disso.
— Como você reconheceu a arma? — ele perguntou, virando o rosto na minha direção.
— Eu não sei, merda! Eu não sei — falei em tom alto. Por que diabos aquilo tinha acontecido? Não fazia sentido!
— Ok, se levantou e saiu do leito, me deixando sozinha.
Inferno. Dei as costas para a porta e deitei de lado na cama. Por que tinha um no meu sonho? Ele não parecia com o fundador no livro do distrito. Quando eu achava que as coisas estavam começando a se encaixar, tudo mudava.

Eu tinha passado a tarde inteira sozinha. estava ocupada com suas responsabilidades e havia sumido. Eu já não aguentava mais ficar ali. Tinha passado por diversos exames, e ninguém me dava uma resposta de nada. O cúmulo do absurdo foi quando uma enfermeira veio me avisar que eu iria passar a noite ali por motivos de saúde.
Foi então que resolvi sair daquele lugar: arranquei o acesso da minha veia e me levantei da maca, correndo para o elevador mais próximo e tomando cuidado para que ninguém me visse. Já eram nove horas da noite, eu não tinha comido nada e meu dia não tinha rendido.
— Ei, ei! Segura a porta! — uma voz masculina gritou, e eu coloquei a mão na frente da porta do elevador que dava acesso ao prédio dos dormitórios. Foi então que vi Nikolai. — Kakoy uzhasnyy paren'. (Que cara horrível.)
— Obrigada — respondi, me encostando na parede do elevador. — Horas e horas dentro de um leito sem comer nada, servindo de cobaia — revirei os olhos, sentindo minha barriga roncar.
— Até às dez horas dá tempo de você se arrumar — ele disse, indiferente.
— O que tem às dez horas? — perguntei, virando meu rosto na sua direção.
— Você bateu com a cabeça? — Nikolai respondeu, impaciente.
— Ah, é a festa? Eu não vou — balancei a cabeça negativamente.
— Não sabia que era chata como a — ele fez uma careta.
— Estou cansada e com fome. Não é o meu melhor momento para festas.
— Você acha mesmo que eles não virão te procurar quando derem falta de você na enfermaria? Acho melhor aceitar minha proposta — Nikolai saiu do elevador, dando as costas para mim. Ele tinha razão, aquele lugar era repleto de câmeras.
— Eu vou se você arrumar algo para eu comer — falei, indo atrás do menino.
— Fechado. Em trinta minutos apareço na sua porta. Quanto antes a gente sair, melhor — Nikolai abriu a porta do seu dormitório e entrou lá sem olhar para trás.
Abri a porta do meu quarto e fui direto para o banheiro tomar um banho. Eu não fazia ideia de qual roupa iria vestir e, só de pensar que iria sair com Nikolai, meu estômago dava um nó. Ele não parecia a melhor companhia.
Depois de alguns minutos, saí do banho enrolada na toalha e retirei o excesso de água dos fios loiros com outra toalha. Penteei meu cabelo e liguei o secador pra adiantar o processo de secagem, afinal, não gostava de sair com o cabelo molhado. Assim que terminei, fui até a minha cômoda. Com que roupa eu iria? Suspirei e comecei a retirar as mudas de roupa que tinha ganhado. Até que encontrei um vestido preto de alça fina, que ficava colado no corpo até abaixo da minha bunda. Assim que vesti a peça, me olhei no espelho. Estava satisfeita com o resultado.
Quando me sentei para cobrir os roxos que tinha perto do olho devido ao treinamento com Karen, Nikolai bateu na minha porta. Levantei-me da cadeira e fui até a porta para recebê-lo.
— Aqui está sua comida, l'vitsa (leoa) — ele estendeu um pacote de papel na minha direção e entrou no quarto assim que me entregou.
— Obrigada — respondi, fechando a porta e me sentando no sofá para comer.
— Era a única coisa de fácil acesso que ainda tinha no refeitório — ele deu de ombros, se jogando na minha cama.
— Sanduíche natural e um suco? Deve dar pra enganar o estômago — murmurei, colocando uma almofada sobre o colo. — Quem está organizando essa festa exatamente? — perguntei, antes de dar uma bela mordida no sanduíche.
— O pessoal do distrito mesmo. Tem mais gente do que você imagina nesse lugar — ele respondeu, colocando os braços atrás da cabeça. — Os que passam o tempo com a gente treinando são os novatos. Os veteranos geralmente estão em missão. São eles que organizam no tempo livre.
— Como você sabe disso? — levantei uma das sobrancelhas, curiosa.
— Com você e com a eu posso não ser muito amigável. Com os outros eu sou legal — ele sorriu, egocêntrico, e eu revirei os olhos.
— Você foi meio desagradável comigo quando cheguei. Talvez eu tenha um motivo — dei de ombros, dando um gole no suco de laranja.
— Você não tem muito senso de humor — ele se levantou da cama e veio até o sofá, onde apoiou o corpo sobre o encosto do móvel. — Será que dá pra adiantar? Um sanduíche não é difícil de comer — eu simplesmente levantei o dedo do meio para ele, e o menino riu. — É sério, . Daqui a pouco, o pessoal da enfermagem aparece aqui.
— Estou indo, estou indo! Tenho que tampar esse olho roxo ainda — falei de boca cheia, colocando a comida sobre a mesinha de centro.
Fui até o banheiro e espalhei todos os produtos de maquiagem sobre a pia. Consegui cobrir um pouco com base a parte roxa, mas precisava passar mais alguma coisa nos olhos para não sair daquele jeito. No momento que passei o pó no rosto, escutei três batidas na porta. Olhei para fora do banheiro e Nikolai virou o rosto para mim.
— Merda — resmunguei, preocupada.
— Fecha a porta do banheiro e deixa o resto comigo — ele se levantou do sofá e retirou a camisa preta que usava, revelando um corpo repleto de tatuagens. Arregalei os olhos e fiquei confusa ao vê-lo tirar os sapatos e bagunçar o cabelo. — Fecha logo!
Fechei a porta e encostei o corpo ali, colocando a cabeça perto para que pudesse ouvir.
— Boa noite? — Nikolai falou ao abrir a porta.
— Procuramos por . Ela saiu da enfermaria sem autorização.
— Não sei onde ela está, estou esperando há horas.
— Aqui é o quarto dela. Inclusive, acho que não tem autorização para estar aqui.
— Acho que não preciso dar detalhes do porquê eu estar aqui. A não ser que queria saber sobre sexo.
Tampei a boca para segurar o riso.
— Tudo bem — o homem concordou, e escutei a porta se fechar.
Nikolai abriu a porta do banheiro e eu olhei para ele, colocando as mãos na cintura.
— O quê? As pessoas ficam desconfortáveis quando o assunto é sexo — ele deu de ombros e foi até o sofá para pegar a camisa. — Temos que ir agora. Eles vão conferir as câmeras e vão voltar.
— Mas eu nem terminei a maquiagem! — protestei, e Nikolai olhou para mim com ar de cansaço. — Okay — concordei, pegando as botas de cano baixo para calçar. Assim que terminei, Nikolai saiu do quarto. Fui junto do menino pela saída de incêndio, já que poderíamos trombar com a segurança.
— Vamos logo — ele pegou minha mão e me arrastou pelos corredores, até chegar no elevador que nos dava acesso ao subterrâneo.
Assim que as portas se abriram, fiquei horrorizada com a quantidade de carros que estavam estacionados naquele lugar. Principalmente carros caros. Qualquer um saberia, só de olhar, que um carro daquele valia um rim no mercado negro.
— Como conseguiu a chave? — perguntei, seguindo o menino até um conversível preto.
— Quando se é piloto de fuga, fica fácil saber onde ficam as chaves — ele riu, abrindo o automóvel. — Essa belezinha precisa ser levada pra dar uma volta.
— Parece que estou roubando um carro — resmunguei, entrando nele.
— Eles roubaram parte da gente. Estamos apenas retribuindo o favor — Nikolai respondeu e acelerou.
Quando saímos da vaga, o portão começou a se fechar. Olhei para trás e vi pelo menos oito seguranças vindo atrás de nós.
— Nikolai... — falei, preocupada. Porém, antes que eu pudesse alertá-lo, o menino pisou fundo no acelerador, e senti meu corpo ser empurrado para trás. Eu ainda estava sem cinto!
Meus olhos se arregalaram ao ver que o carro se aproximava do portão que estava quase fechando. Fechei os olhos e gritei assim que passamos. Para nossa sorte, o carro era baixo e o portão fechava na vertical. Acredito que foram três centímetros que salvaram a gente.
Ao sair da garagem, Nikolai agarrou o volante com brutalidade e puxou o freio de mão, fazendo o carro fazer um drift. Me segurei no porta-luvas, sentindo meu corpo ir para o lado, e olhei para Nikolai, desesperada. Ele não parecia nem um pouco preocupado, diferente de mim.
— Você é... in... insano — comentei, tentando recuperar o fôlego. Já estávamos na principal, e, como um bom pé-quente, Nikolai desviava de todos os carros.
— Calma, é só um test drive — ele riu e retirou uma das mãos do volante, o que me fez ficar ainda mais preocupada. Puxei o cinto para que me sentisse um pouco mais segura e encarei a pista à minha frente, rezando para chegar viva ao local. — Você vai ter que se acostumar.
— Estou tendo que me acostumar com bastante coisa. Bastante coisa!
— Você se preocupa demais — Nikolai comentou, parando no sinal. — Para de pensar, apenas faça. Você tem mais o quê a perder? Nada — ele deu de ombros, apoiando os braços no volante.
— Mas...
— Você realmente viveu o que queria nos últimos anos?
Aquela pergunta me pegou de surpresa. Já tinha parado para pensar nisso, mas falar em voz alta era diferente.
— Não sei... — respondi. — Acho que sempre tive um objetivo claro, e agora...
— Agora você não tem mais. Sua vida mudou, . Você precisa aceitar e aproveitar isso. Você já está morta pra todo mundo mesmo, pode fazer o que quiser. A não ser que você tenha um ÁS na sua manga pra virar o jogo — ele sorriu e avançou com o carro assim que o semáforo ficou verde.
Acredito que as pessoas vinham falando isso sempre para mim, mas nunca tinha realmente prestado atenção. Parte mim estava presa ao passado por algum motivo. Eu já estava morta para todo mundo, era como se estivesse... livre.


Capítulo 7 – .

— Chegamos — Nikolai saltou do carro e eu fiz o mesmo.
A galeria de arte ficava um pouco afastado do centro, se é que eu sabia onde ficava o centro. Nikolai retirou a arma que tinha na barra da calça e colocou-a na parte da frente da cintura. O som lá dentro era alto, e eu conseguia ver luzes coloridas pelas poucas entradas que havia local.
— Você está entre as pessoas do distrito, não precisa ficar com medo — o menino passou o braço pelos meus ombros e começou a me guiar em direção ao local.
— Passei a ter medo quando vi essa arma — apontei para a sua cintura, e ele deu de ombros.
— Apenas por proteção.
— NIKOLAI! Você chegooou — uma menina de cabelos ruivos veio correndo na nossa direção, junto de mais duas garotas. Nikolai abraçou-a depois de receber um beijo na bochecha, foi então que ela reparou na minha presença. Seus cabelos estavam presos em uma trança, e ela estava repleta de glitter. — E trouxe convidados! Você é a , né?
— Sou... — respondi, olhando para Nikolai, que enfiou as mãos no bolso.
— Todos sabem quem é a menina que está treinando — ele deu ombros, respondendo a pergunta que se formou na minha cabeça.
— Aposto que ele não sabe que você está aqui — a menina riu, me olhando dos pés a cabeça. — Eu me chamo Lorena, e você precisa de um toque especial. Feche os olhos.
— Para quê? — perguntei, levantando uma das sobrancelhas.
— Você está básica demais. Seu vestido é lindo, mas precisa de brilho — ela se virou para uma das amigas e esticou a mão. A garota retirou um pequeno frasco de glitter do sutiã e colocou—o nas mãos de Lorena. — Feche os olhos.
Antes de fechá-los, vi a menina colocando uma certa quantidade de glitter na palma da mão e, depois, o soprou, fazendo o pó roxo atingir o meu rosto e o pescoço.
— Agora sim, bem melhor — ela sorriu.
— Hm... obrigada? — soltei uma risada baixa e olhei para Nikolai, que fez um breve sinal de “joia” para mim.
— De nada, querida. Agora podemos ir — Lorena me puxou pelo braço, arrastando-me para dentro da festa.
Quando chegamos na portaria, um homem passou uma espécie de leitor pelo meu corpo. Assim que chegou da minha nuca, o aparelho apitou, liberando a minha entrada.
— O que foi isso? — perguntei para Nikolai, que estava atrás de mim.
— É como se fosse a nossa identidade no distrito. Devem ter colocado em você logo quando chegou. O meu fica no braço.
— Nunca me avisaram sobre isso — respondi em um tom mais alto que o normal, devido ao volume da música, que estava extremamente alto.
— Deve ter várias coisas que não sabemos, — Nikolai falou perto do meu ouvido e colocou as mãos na minha cintura, me guiando para perto do bar. — A única regra é: não beba nada que ninguém te oferecer. Não vão simplesmente te drogar, podem te matar. A concorrência aqui é grande. O único lugar confiável para pegar bebida é aqui — ele apontou para os dois atendentes que estavam no bar.
Eu balancei a cabeça positivamente e Nikolai sorriu, virando-se para conversar com alguém. Lorena pedia alguma coisa para o barman. Virei-me para pista de dança e apoiei os cotovelos no balcão, analisando o lugar.
O lugar era todo feito de concreto – não havia cor, somente as paredes ainda estavam manchadas de tinta, com algumas obras junto ao grafite. O DJ estava em um espaço que parecia um mezanino e, de primeira impressão, ele não fazia muita coisa. Estava mais ocupado no celular do que com as músicas que simplesmente passavam pela playlist. As pessoas estavam espalhadas pelo local, mas principalmente no centro, que era a pista de dança. Ali estava mais cheio do que eu esperava. Quase não conseguia andar ali dentro e enxergar alguma coisa, já que a única iluminação era colorida.
— Vamos dançar, eu adoro essa música! — Lorena olhou para mim, assustada ao perceber que uma música latina tocava. Especificamente Mi Gente.
— O quê?! — perguntei, arregalando os olhos. — Eu não sei dançar reggaeton.
— Não faz mal, a gente te ensina.
— A gente?! — perguntei, me deixando ser levada para a pista.
Conociste a un puertorriqueño, chica — ela deu uma piscada para mim e me puxou para junto dos outros. Lorena puxou um menino de cabelos cacheados e colocou a minha mão sobre a dele, sussurrando algo em seu ouvido.
— Me chamo Diego. Se você se sentir incomodada com alguns passos, é só me falar — ele falou perto do meu ouvido para que eu pudesse entender, e eu balancei a cabeça positivamente. Ele provavelmente seria meu professor.
O menino se colocou na minha frente e levantou as minhas mãos na altura do meu busto. Em seguida, pousou as mãos sobre a minha cintura, fazendo-me ir de um lado para o outro. Ele soltou meu corpo quando viu que peguei o jeito e fez sinal para que eu continuasse. Porém, ele veio para o meu lado e começou a dar alguns passos para frente e para trás, para que eu o seguisse. Estava até fácil no momento. Diego sorriu para mim ao ver que eu estava indo bem e pegou as minhas mãos; deu um passo na minha direção e me empurrou para trás levemente para que eu recuasse. Em seguida, ele recuou e me puxou para que eu o seguisse. Sua mão voltou para a minha cintura, porém ele me puxou para perto do seu corpo enquanto segurava a minha mão esquerda.
— Basicamente são os passos para frente e para o lado, mas não pode parar de mexer a cintura — ele sussurrou no meu ouvido. — Vamos tentar os passos mais difíceis, é só deixar eu conduzir.
Ele pegou minhas mãos novamente e colocou-as sobre os ombros dele. Em seguida, segurou a minha cintura, colocando o joelho entre as minhas pernas, puxando meu corpo para perto do dele, uma, duas, três vezes. Até que ele se afastou e pegou minhas mãos novamente, girando o meu corpo para que eu ficasse de costas – um passo para o lado, outro para o oposto.
Nesse meio tempo, a música tinha mudado para Despacito, e senti alguém pegar o meu pulso. Ao olhar para trás, me deparei com Lorena. Eu tinha ensaiado aquela música várias e várias vezes – era o que eu fazia no tempo livre na época que praticava balé. Na época, não tinha outra música nas plataformas digitais além dessa. Lorena colocou-se ao meu lado e eu simplesmente segui a menina; tinha pegado mais o gingado da cintura. Dei dois passos para o lado junto dela e, em seguida, voltei para o lugar, subi a mão para o pescoço e dei meio-rodopio junto da garota.
Até que dois meninos chegaram para dançar conosco – um deles, inclusive, era Diego. Ele segurou minha cintura e eu apoiei minhas mãos sobre seus ombros, deixando-o me puxar para perto dele, enquanto seu joelho ficava no meio das minhas pernas. Depois de algumas repetições, ele colocou a mão no meu pescoço e girou-me, fazendo-me ficar de costas para ele. Diego deu alguns passos para o lado e ficou à minha direita, dando um passo para frente e girando 180° graus. Como estava de costas para ele, o menino segurou a minha cintura e puxou-me para perto dele novamente. Quando a música acabou, ele sorriu e beijou a minha mão.
— Obrigado por confiar em mim — ele sorriu e retirou o chapéu preto da cabeça, colocando-o na minha. — Pra eu ter uma desculpa pra te procurar na próxima dança — ele sorriu e deu as costas.
Lorena olhou para mim, surpresa, e eu levantei os ombros sem entender nada.
— Você disse que não sabia dançar! — ela se aproximou com as mãos na cintura.
— Mas eu não sabia, não muito — ri alto, e ela fez cara feia.
Lorena me chamou para perto do bar e pediu duas bebidas para nós. Meu corpo não era muito acostumado com o álcool. Depois do quinto copo, com todas aquelas luzes piscando e eu me acabando de dançar, o lugar começou a se mover, mesmo eu estando parada. Nikolai tinha sumido e eu tinha ficado por conta própria, afinal, Lorena estava pior do que eu. Provavelmente, ela não tinha ingerido somente álcool.
Quando começou a tocar Mount Everest, simplesmente me entreguei. Eu adorava aquela música. Tinha feito várias e várias coreografias contemporâneas, mas nunca ficava do jeito que eu queria. Levantei os braços e fechei os olhos, jogando a cabeça levemente para trás, balançando devagar o corpo. Naquele momento, eu me sentia no topo do mundo, exatamente como a música dizia.
Ao abrir os olhos, estava exatamente de frente para o bar, onde um menino muito parecido com – porém com mais músculos e com um corte de cabelo melhor – me encarava. Dei de ombros e virei de costas, voltando a sentir o modo como a música me atingia. Eu nunca tinha me sentido tão livre e viva; não tinha ninguém ali que pudesse me controlar.
Depois de alguns minutos, minha mente voltou para o menino. Ele estava realmente me encarando? Olhei para trás, por cima do ombro, e seus olhos ainda estavam fixos em mim. Ele falava alguma coisa. Por leitura labial, talvez eu conseguisse entender.
“Who's in your shadows? Who's ready to play?”
Na medida que a luz branca acendia e apagava, o menino se aproximava cada vez mais de mim. Meu coração estava começando a ficar acelerado, eu estava assustada.
“This is a wild game of survival.”
Ele estava repetindo a letra da música que tocava no momento, da Ruelle. Assim que o menino ficou diante de mim, eu fiquei paralisada. Ele segurou o meu pescoço e encarou meus olhos.
— Você precisa se lembrar, — o menino aproximou seus lábios do meu ouvido, e pude sentir um arrepio tomar conta do meu corpo. Ele cheirava tão bem. — Em hipótese nenhuma deixe te sedarem. Estamos contando com você — ele se afastou de mim, aos poucos, e eu apenas o observei ir embora.
Fiquei ali, parada, sem nenhuma reação. Por que eu tinha ficado daquele jeito? “Estamos contando com você”. Mas quem?!
— Precisamos ir embora — Nikolai me despertou do transe ao me puxar para fora da pista de dança.
— Onde você estava? — perguntei, empurrando seus ombros com força.
— Calma, calma! Eu só te deixei aproveitar — ele deu de ombros. — Não sai daqui pra nada, mas precisamos ir embora.
— Por quê? — perguntei, levantando uma das sobrancelhas.
— Porque são três horas da manhã, e já tem uma galera que não deveria estar aqui. Se não quiser se meter, temos que ir embora.
— Que pessoal? — perguntei, olhando ao redor. Será que aquele menino era um deles?
— Não queira saber — ele respondeu, pegando pela minha mão e me arrastando para fora do estabelecimento.
Na verdade, eu não retruquei – já estava cansada, e meu cérebro não estava muito bem em reconhecer dimensões. Fora que aquele menino que falou comigo parecia ter vindo de outra dimensão.
Nikolai teve um pouco de trabalho comigo para subir até o quarto. Ninguém tinha vindo atrás de nós. Provavelmente, levaríamos um sermão muito bem dado no outro dia, mas, naquele momento, não era a nossa preocupação principal. Pelo menos a de Nikolai, já que eu consistia em rir e reclamar de dor de cabeça. Quando chegamos no nosso andar, ele entrou no quarto comigo e tirou meus sapatos e o chapéu que eu usava, deitando-me na cama.
— Obrigada pela noite — resmunguei, enquanto rolava na cama para me cobrir.
— Não precisa agradecer — Nikolai se despediu, ajeitando a coberta sobre mim.
A última coisa que vi foi a sua silhueta saindo pela porta, até apagar completamente.


...


Meu sono foi interrompido por uma forte dor de cabeça. Resmunguei e me virei para um lado. Nada de voltar a dormir. Virei-me para o outro, sem sucesso. Droga de ressaca. Sentei-me na cama, esfregando os olhos, e assim que os abri, tomei um susto ao ver sentado em uma cadeira com os pés sobre a minha cama.
— Bom dia, Bela Adormecida.
— O que faz aqui? Como entrou aqui? — perguntei, olhando feio para o menino e puxando a coberta para perto do meu corpo. — Isso é invasão de privacidade.
— Bom, você teve uma bela noitada de sexta. Sabe que horas são? — ele perguntou, se levantando da cama e apontando para o relógio digital em cima da minha cômoda.
Eram dez da manhã.
, eu...
— Bom, a sua sorte é que tenho uma reunião agora e preciso que venha comigo. Caso contrário, você veria Karen novamente. Em dez minutos, quero você no sexto andar do bloco da administração. Sala 5. Agora — ele estalou os dedos e apontou para o banheiro.
Me levantei da cama e fui em direção ao banheiro tentando ajeitar o vestido que ainda estava no meu corpo. Droga.
Quando saí do quarto, já não estava mais lá. Meu rosto estava vermelho de tanto esfregá-lo para o glitter sair. Ainda havia alguns, mas ficar mais tempo no banho não faria diferença, só me atrasaria. Coloquei a minha roupa de treino normal e saí do quarto rumo ao local que me foi designado.
Dei duas batidas na porta de número 5 e virei a maçaneta, abrindo-a. Encontrei um grupo de cinco pessoas – entre eles, estavam e a treinadora de Nikolai.
— Licença — entrei no local e me sentei na mesa em que o grupo estava.
— Agora podemos começar — um homem, de mais ou menos 30 anos, estava em pé na nossa frente. Atrás dele, havia uma enorme televisão, e ainda uma tela digital embutida na mesa, como se fosse um grande tablet. — Para a novata, me chamo Gale. Sou um dos comandantes que acompanham vocês nas missões, indiretamente, é claro. Vou explicar o que farão hoje à tarde.
A missão era basicamente pregar um documento em um prédio empresarial. Qual documento? Não sabia. Ao todo eram cinco pessoas. e mais uma menina entrariam no prédio; ea menina de cabelo rosa levaria eu e mais um garoto de guarda e nos traria de volta. Parecia simples. No final da reunião, pediu para que eu o encontrasse na sala de treinamento.
— Eu protestei a sua ida, mas Henrik insistiu que você fosse. Não está pronta ainda — respondeu, pegando a sniper que eu tinha familiarizado no dia anterior. — Parece que a única coisa que você sabe é usar isto — ele colocou a arma sobre a mesa. — Me mostre o que sabe.
— Mas eu... Eu só falei as partes — murmurei, olhando para o fuzil e, em seguida, para ele.
, se você sabe as partes, deve saber como usar. Não tem como eu te carregar nas costas durante a missão — ele cruzou os braços, bufando. — Você já perdeu o horário hoje, não me faça perder mais a paciência.
— Pelo visto, você ainda não aprendeu a conversar — revirei os olhos e peguei a arma com as duas mãos, indo em direção ao estande de tiro. Coloquei os fones de ouvido e o óculos de proteção. Parecia que eu estava familiarizada com o fuzil, mas não sabia como começar e no que mexer, como se faltasse uma parte da minha memória.
Olhei para trás e vi bater sobre o pulso, como se estivesse me cobrando o tempo. Revirei os olhos e olhei ao redor: a mesa estava muito perto do alvo; a mira não me ajudaria. Peguei a arma novamente e caminhei para o fundo da sala. Do local onde eu estava até o estande dava em torno de uns 12m. Me ajoelhei no chão e deitei de bruços, ajeitando a arma no meu ombro. Tombei a cabeça levemente para poder olhar pela mira e puxei levemente a arma para a esquerda. Coloquei a bala e encarei o alvo pela última vez, até puxar o gatilho e a bala sair do cano, atingindo a parte amarela do alvo.
olhou para o alvo e, em seguida, para mim, com uma expressão de indiferença. Levantei-me do chão e coloquei outra bala, depois levantei o fuzil e mirei na direção de . Porém, segui um pouco mais para a direita, na direção de outro alvo. Puxei o gatilho, absorvendo o impacto com o ombro, e a bala passou ao lado da cabeça de , atingindo o centro do alvo.
— Satisfeito? — perguntei, colocando a arma sobre a mesa. — Agora eu devo prestar pra alguma coisa. Sua expressão não estava muito clara.
— Se você tivesse pegado na ponta da minha orelha, eu teria ficado surpreso — ele deu de ombros.
— Tão surpreso como ontem? — perguntei, largando a arma sobre a mesa.
— Isso aqui não me ajuda em nada. Preciso de alguém que esteja em ação, não de vigia — ele apontou para o alvo. — Seria bom você mostrar alguma utilidade. Você só sabe trazer problemas.
— Utilidade? Você está brincando com a minha cara. Você nem disfarça que não acredita mais que eu deveria estar aqui depois do que aconteceu. Você me trata com indiferença, mas duvido que saiba usar esse rifle. Acha que tem algo de errado comigo. E sinceramente, , está há tanto tempo dentro desse lugar que não sabe mais o que é diversão. Por isso ficou tão irritado hoje de manhã quando me viu.
— O problema, , é que você é insolente e acha que as coisas vão ser do seu jeito, mas não vão ser — ele enfiou as mãos dentro da bermuda, me encarando.
— Jura? Quem me disse que eu tinha um ótimo perfil pra estar aqui foi você. Então, acredito que nas missões eu consiga lidar com pessoas como você — abri um sorriso debochado, me aproximando dele. Puxei a gola da sua camisa com as duas mãos, com uma força que eu nem sabia que tinha, e fiquei cara a cara com ele. — Você vai saber qual vai ser a minha utilidade quando eu te salvar de alguém com um tiro daquele fuzil ali, bem ao lado. E eu não vou esperar nenhum agradecimento, até porque, na sua consciência, você vai saber quem foi.
— Você acha mesmo que vai ser chamada pra mais alguma missão? — ele riu em tom debochado.
— Bom, se eu fui designada para essa sem ter muito treinamento, então sim, irei ser chamada — dei as costas para ele e fui em direção do refeitório.
Minha cabeça latejava, e eu sentia que todos os meus neurônios estavam perdidos. Acho que o nome certo era ressaca.


...


— Se você está considerando mandar pra essa missão, você perdeu totalmente o juízo — Lenora conversava com o chefe do distrito de New York por chamada de vídeo.
— Ela se lembrou de como usar aquele rifle, já é algo.
— Algo perigoso. Ela pode se lembrar do restante, esqueceu desse detalhe? — Lenora encarou o homem com preocupação.
— Você a enviou para cá. Se quer que vire a pessoa que você está esperando ser, ela tem que ir pra campo, isso já é alguma coisa. Se começar a questionar os meus métodos, pode pegá-la de volta. Já começou a dar trabalho, mesmo — Henrik suspirou alto, cruzando os braços. — Não só ela, né, o russo também.
— Nikolai? — Lenora perguntou, levantando uma das sobrancelhas.
— Ele mesmo. Inventaram de pegar um dos carros para ir até a festa que deram na noite passada. Seus queridinhos não têm limites.
— Na nossa época, a gente também não tinha — ela deu de ombros. — Caso passem muito do limite, já sabe o que fazer.


...


— Acho que você vai precisar de mais alguma coisa... — um senhor, de mais ou menos 60 anos, havia me equipado dos pés à cabeça.
Eu estava de frente para a porta de vidro, vendo o meu reflexo. Tinha prendido o cabelo em uma única trança embutida, assim o cabelo não atrapalhava a minha visão. Eu estava com uma roupa completamente preta e coturnos, além de um colete que ia somente até metade da minha barriga. Ele era feito de um material bem duro e resistente. Duvido que alguma bala passaria por aquilo.
— Toma — o senhor estendeu uma pistola de cano cinza na minha direção. — Caso você seja surpreendida, seu rifle não vai ajudar muito — ele sorriu e me entregou o suporte para amarrar na perna.
— Obrigada — agradeci com um breve sorriso.
— Vamos repassar as informações — o comandante da missão chamou atenção de todos.
Nos aproximamos da enorme tela digital, onde o mapa da rua estava aberto.
— Primeiro vamos deixar no prédio ao lado, no caso, o prédio 2. Você terá que subir até o décimo terceiro andar. Desse jeito, ficará no mesmo andar que pegará o documento, então, poderá ajudá-lo. Se precisar atirar, atire.
Engoli em seco ao escutar aquelas palavras. Tudo bem, eu sabia usar a sniper, mas nunca tinha atirado em ninguém. Será que realmente tinha errado na previsão de eu estar aqui?
? — me chamou, fazendo-me despertar dos meus pensamentos.
— Hm? — levantei as sobrancelhas.
— Você vai com Mathias, nós vamos com Bárbara. Mudança de planos — ele respondeu, indicando o menino atrás de mim que segurava a chave de um dos carros.
— Okay — concordei, balançando a cabeça.
Depois de repassarmos o plano, cada um pegou os equipamentos. Me deram uma escuta, a qual Bárbara me ajudou a colocar no ouvido. Eu podia me comunicar com eles somente se apertasse o comunicador. Coloquei a pistola no suporte de perna e peguei o restante do meu equipamento, indo para o carro junto de Mathias.
Confesso que senti meu estômago revirar. Meu coração estava acelerado. Essa missão parecia ter saído de última hora; para mim, não estava bem planejada. Eu podia escutar os outros se comunicando, mas, teoricamente, eu não escutava nada, somente a minha respiração.
Quando Mathias parou no prédio que parecia abandonado, olhei para cima e respirei fundo, entrando no local. Tive que retirar uma das placas de madeira que protegia a entrada na força bruta mesmo. Deu um pouco de trabalho, mas consegui adentrar o prédio. O elevador não estava funcionando; foram minutos e minutos subindo as escadas até chegarmos no andar correto. Meu instinto dizia que teríamos problemas, devido ao sol que batia levemente no prédio. Deitei-me com a sniper no chão e contei as janelas: ao todo, eram oito. Eu precisava mirar na terceira. Como as janelas do prédio que eu estava pegavam toda a parede e não havia vidros, tive um ponto positivo. Assim que confirmei minha localização, o carro de Bárbara parou diante do prédio, e vi três pessoas saírem. Porém, algo mais me chamou atenção.
Prendi a respiração e tentei escutar um barulho. Em um movimento rápido, retirei a pistola da perna e rolei para o lado, ficando de frente para o homem que estava atrás de mim. Era como tivesse sido um instinto. Meus olhos se arregalaram ao ver o menino da noite anterior. Ele sorriu e fez sinal para que eu ficasse em silêncio, apontando com a mão livre para a minha orelha. Além disso, ele tinha um rifle apontado para mim.
— Se der mais um passo, eu atiro na sua perna — respondi, ignorando o fato de ele saber que eu tinha um comunicador. — O que você quer?
— Seus amigos não vão encontrar o documento — ele falou, dando um passo para trás.
— Não sei do que está falando.
— O seu documento.
— Ainda não sei do que está falando — respondi, estranhando. — Quem é você?
— Me chamo Daniel. Daniel . Reconhece esse nome?
... Eu tinha visto isso em algum livro. Quando me dei conta, não acreditei.
— Não é possível, é mentira sua — levantei-me do chão, sem parar de apontar a arma na sua direção.
— Ninguém acredita quando eu falo, realmente — ele revirou os olhos, como se estivesse falando consigo mesmo. — Voltemos para o documento que seus amigos estão procurando — ele apontou com o queixo para o prédio. — Eles não vão encontrá-lo, todos já foram evacuados há uma hora. Demoraram demais. Não seria tão fácil entrar no prédio assim.
Não tem nada nem ninguém aqui — pude escutar uma voz no comunicador. — Droga gritou, irritado.
— Eu não sei do que você está falando — continuei dizendo.
Eu me sentia perdida. O que tinha naquele documento?
— Você ainda não se lembrou? Achei que seria mais rápida — ele suspirou alto. — Infelizmente, vou ter que tomar medidas mais drásticas. Me desculpe. Geralmente, não faço esse tipo de coisa com mulheres. Aliás, seu avô mandou lembranças para você.
Assim que ele deu um passo na minha direção, vi que ergueu a arma para cima. Por reflexo, apertei o gatilho e, segundos depois, senti o impacto na minha cabeça. Caí no chão completamente inconsciente.


Capítulo 8 – O dia em que eu voltei a ser eu mesma.

— É sério que você ainda se diz piloto?! — gritou no banco de trás com o menino que dirigia o carro.
— Estou fazendo o melhor que posso — ele estava desesperado.
— PISA NA PORRA DO ACELERADOR! — gritou, fazendo o motorista olhar assustado para trás por um breve segundo. — Eu tenho uma garota com a cabeça sangrando, você quer mais motivo do que isso pra acelerar? — ele perguntou, pressionando o ferimento na minha cabeça. Não era muito grande, mas o fato de eu estar convulsionando o deixava mais preocupado.
Minha cabeça estava uma bagunça, parecia que estava em dois lugares ao mesmo tempo.

— Onde está o meu pai? — olhei para os lados em busca do paradeiro de um homem alto, com a aparência de cansado. — Ele não virá agora, . Temos que ir. — O quê? Por quê? — dei um passo para trás. — Porque seu pai está tentando nos proteger. Nós precisamos ir embora agora — minha mãe encarou os meus olhos, segurando-me pelos ombros. — Mas é a nossa casa. E o ? — Lembra do dia que seu avô conversou sobre você ter grandes responsabilidades em breve? Nós precisamos ir embora agora, para que você esteja segura e ajude o seu avô com essas responsabilidades. O está providenciando algumas coisas, pediram para nós duas irmos embora. Nossa casa não é mais segura. Nós precisamos ir — ela disse pausadamente e séria. — Senhora? Temos menos de um minuto — o segurança se aproximou da minha mãe, alertando-a. — Vamos, , entre no carro — ela pegou a minha mão e me puxou para dentro de um carro. Na medida que íamos nos afastando do Distrito, sentia que alguma coisa estava mudando, e não era pra melhor. Meu pai sempre fez questão de me esconder as coisas, eu estava me sentindo meio perdida na história.


...


? !
Eu me debatia contra os braços de um homem que me arrastava para fora do alojamento.
— ME LARGA! — mordi seu braço. O homem gritou e me largou por alguns segundos; quando voltei a correr para dentro do alojamento, olhei para trás ao escutar passos e vi o mesmo homem que me carregava se jogar contra mim, fazendo-me cair no chão. — MÃE! — gritei novamente, tentando me desvencilhar do brutamontes que me segurava. Eu não tinha nada para me defender. Quando ele me agarrou pelas costas e levantou meu corpo do chão, escutei três tiros seguidos e um silêncio interminável. — Mãe...? MÃE? MINHA MÃE! VOCÊS A MATARAM? VOCÊS A MATARAM! — meus olhos estavam arregalados, eu me sacudia.
— George, dê um sedativo para ela, pelo amor de Deus — uma mulher que estava encostada no capô do carro falou, enquanto gesticulava na minha direção com um cigarro entre os dedos.
Aqueles fios ruivos eram difíceis de esquecer. O homem que me segurava me aproximou do médico do distrito onde nasci.
— MÃE! — eu gritava desesperadamente, na esperança que escutasse a sua voz. As lágrimas caíam pelo meu rosto, eu estava desolada. — Você conseguiram tirar tudo de mim. TUDO — fui vencida pela tristeza. — Acho bom se lembrar dos meus exames, Dr. George. Eu sei que vão apagar minha memória como fazem com qualquer um, mas o senhor sabe que sou motivada a vingança, e elas sempre voltam. O procedimento não funciona comigo, e o primeiro que eu vou procurar vai ser o senhor.
George não respondeu nada, nem conseguiu olhar nos meus olhos, apenas colocou um pano sobre a minha boca e o nariz para que eu apagasse.



...


— O que vocês vão fazer? — eu me debatia contra a maca, tentando me levantar. — Por favor, me deixem em paz, deixem minha família em paz. ME DEIXEM EM PAZ — gritei, jogando meu corpo para frente, porém o cinto que prendia meu tronco na maca era extremamente forte.
— Não se preocupe, , não vai doer — Lenora falou ao se aproximar de mim.
— Sua vaca. Falsa. Traidora. Onde está o meu pai? Quem diria que uma idiota que nem você conseguiria acabar com tudo oque a tríplice construiu... — ri, debochando dela.
— Se eu consegui isso, é porque não sou tão idiota assim — ela deu de ombros, indiferente.
— Claro, com ajuda ficou bem mais fácil com você. Sozinha não teria capacidade de fazer tudo o que fez — cuspi na roupa da mulher que estava ao meu lado e ela deu um passo para trás, irritada.
— Pode começar o procedimento, George.
— Só quero dizer mais uma coisa. Sou da linhagem Armand, o meu bisavô fundou toda essa merda junto da tríplice. Todos vocês me acompanharam e espero que se lembrem do que estão prestes a fazer. Vocês podem apagar as minhas memórias e substituírem por outras, mas um dia eu vou lembrar de tudo o que fizeram. Eu vou me vingar — encarei a luz que estava acima de mim na sala de cirurgia, tentando controlar a respiração.
Merda. Que situação eu tinha chegado.
— Calem a boca dela logo — Lenora revirou os olhos e saiu da sala de operação. A última coisa que eu me lembraria era de cair em sono profundo.
— Ela... ela é motivada por vingança? — um dos novatos perguntou enquanto aplicava a anestesia em mim.
— Sim — George suspirou enquanto organizava os materiais para dar início à cirurgia.



...


— Você fez o quê? — um senhor de idade estava sentado na cadeira com os olhos arregalados para mim.
— Calma, Abel, eu fiz o que eu tinha que fazer — dei de ombros, ainda de pé.
— Bater com a arma na cabeça da minha neta não era a solução, Duncan! — o senhor bateu na mesa, irritado.
— Você disse que ela iria se lembrar, faz mais de anos. Foi um tiro no escuro, eu precisei arriscar. Agora temos que esperar.
— Você é imprevisível como o seu pai era — o mais velho revirou os olhos e respirou fundo.
— Desculpe, senhor, mas precisamos dela aqui — falei, mas Abel levantou-se da cadeira e andou até a mesa onde estava o seu uísque preferido. — Só tenho mais uma pergunta.
Ele se virou na minha direção com o copo na mão.
— Diga.
— Por que Pandora? — perguntei, puxando uma das cadeiras para me sentar.
— Digamos que era o escape de na época do seu treinamento — ele suspirou, tomando um gole do álcool. — Depois, tornamos o nome um comando de emergência. Se tudo der certo, ela não terá muito trabalho pra chegar aqui.


...



?! Minha nossa, o que houve? Vocês não sabem cuidar dela nem por um minuto? É a terceira convulsão essa semana, . Agora, de bônus, ela está delirando! — já estava esperando por nós no subterrâneo.
Ao olhar o estado de e as coisas sem sentido que a garota falava, ela teve um surto. Dois ajudantes de se aproximaram para retirar do carro e colocá-la sobre a maca.
— Eu não tive culpa de nada — me aproximei dela.
— VOCÊ É UM IRRESPONSÁVEL! — gritou, me empurrando para longe. — Não é o tutor dela?! Agora me dê licença — olhou para mim irritada, e um ajudante deu um passo para o lado.
... ! — virava a cabeça de um lado para o outro, como se estivesse sonhando. Quem era ?
— Vamos cuidar de você, e mais duas pessoas empurraram a maca direto para o elevador de emergência, para casos como esse que davam direito para a ala médica.
, por favor — um dos subordinados de Henrik fez menção para que eu o seguisse.
Respirei fundo, tentando colocar as coisas no lugar; quando olhei para as minhas mãos, só consegui ver sangue. Sabia que não tinha sido uma boa ideia levar para essa missão.
Henrik já estava me esperando na sua sala quando entrei, e seu ajudante fechou a porta assim que caminhei em direção a mesa, deixando-nos sozinhos.
— Relatório — Henrik murmurou de costas para mim enquanto olhava pela janela. Preciso como sempre.
— Eles evacuaram o prédio, provavelmente sabiam que iríamos para lá. Não havia nada, nenhum documento. foi encontrada desmaiada no prédio ao lado com um ferimento na testa, provavelmente já esperavam por ela.
— Ótimo. Dispensado.
Confesso que fiquei sem rumo. Como assim? Não tinha nada pra fazer? Ninguém para procurar? Por que a ?
— Por que iriam procurar logo a ? — coloquei as mãos para trás do corpo. Ele nunca me dava informações sobre a .
— Dispensado — Henrik olhou para mim por cima do ombro, e travei meu maxilar. Fiz uma reverência e dei as costas, saindo do estabelecimento com raiva.
Ele nunca respondia as perguntas relacionadas a ela.


...


— O que está fazendo aí? — perguntei, olhando para pelo espelho da sala.
— Nada — ele balançou a cabeça negativamente, e eu sorri.
— Não precisa ficar me vigiando o tempo todo.
— Um dos deveres de um é proteger uma Armand — ele deu de ombros, e eu me virei. — O que está treinando hoje? — me perguntou, olhando para o meu collant.
— Eu te mostro, vem cá — fiz sinal com a mão para que ele se aproximasse. — Você vai ser um ótimo cobaia.
Dei play na música do Two Feet, então puxei uma cadeira de madeira e coloquei-a atrás dele, parando em sua frente. Dei um leve empurrão no menino, e seu corpo encontrou com o da cadeira, fazendo-o se sentar. Rodeei a cadeira calmamente, deslizando a mão pelo seu ombro, até ficar atrás dele. Deslizei minhas mãos do seu ombro até o abdômen, deixando um beijo em seu pescoço delicadamente. Em seguida, fui para o seu lado e passei uma perna por cima do seu colo, de modo que pudesse sentar sobre as suas coxas. Com uma das mãos soltei o coque que estava preso com uma presilha, deixando o meu cabelo cair sobre as costas.
Encarei seus olhos, pousando os braços sobre os seus ombros, aproximei lentamente meu rosto do seu e ele ficou imóvel. Estava tenso, porém algum instinto dentro dele fez com que uma de suas mãos pousasse sobre o meu rosto, seu polegar acariciando minha pele com cuidado. Por um momento eu hesitei, mas não podia me perder naquele olhar. Segundos depois, ele fez uma careta ao sentir um leve incômodo no ombro, por onde a minha presilha com uma lâmina passava levemente. Ele olhou na direção da minha mão e levantou as sobrancelhas.
— Era pra ter sido no pescoço, mas eu fui boazinha com você — sorri e dei um beijo na sua bochecha, me levantando de seu colo. Que arrepio era aquele que passou pelo meu corpo? Era a primeira vez que eu o via tão sem graça. — Senhorita Jones disse que eu posso juntar a dança com o meu trabalho. Se eu consegui distrair todo mundo como você, acho que vou me dar bem. Técnicas de sedução — dei uma piscadinha pra ele e prendi o meu cabelo novamente.
— Seu pai vai deixar você sair em missão? — perguntou ainda sentado na cadeira, com o corpo inclinado para frente. Ele parecia querer esconder alguma coisa, sabia bem o que era.
— Não sei, com você talvez — sorri. — E se eu usasse um pseudônimo? Como os outros do distrito?
— Qual nome seria? Não iria dar certo de qualquer forma.
— Hm... — mordi o lábio inferior, pensando. — Algo que guarde um segredo... uma caixinha de surp... Já sei! Pandora!



...


Voltar para a realidade era como ter morrido e voltado para a vida. Arregalei os olhos e acordei como se estivesse acabado de me afogar; minha respiração estava descontrolada. Olhei ao redor desesperadamente, parecia que tinha acordado de um transe.
Enfermaria? Parecia que nunca tinha saído do hospital. Dor. Dor de cabeça. Dor. Fechei os olhos com força e levei as mãos até a testa, tentando me acalmar. Analise a situação, . Analise a situação. Não havia ninguém no quarto comigo, o que era um ponto positivo. As lembranças voltavam como um tsunami devastando tudo. Era como se eu tivesse duas vidas que estavam tentando conversar entre si.
Volte para a última lembrança. Eu estava na enfermaria, fizeram lavagem cerebral comigo. Eu me tornei Antonella, me mandaram para a França. Quanto tempo tinha isso? Último aniversário. 23 anos. Ferraram com o meu cérebro aos 18 anos. Passei três anos vivendo a vida como Antonella. Sofri um acidente. Me trouxeram de volta para o distrito. Por quê? Não sei.
. virou !
? Você acordou! — entrou no quarto ,fazendo-me tomar um susto. Ela estranhou, mas mesmo assim me deu um abraço. Eu tinha tomado um susto com a aparição dela, parecia que meus sentidos estavam à flor da pele. — Ai, que ótimo! Está tudo bem? Você parece agitada.
— Tem quanto tempo que estou assim? — perguntei, fingindo que nada estava acontecendo. — Estou bem, acho que é a emoção que vivi.
— Umas três horas mais ou menos — ela falou, olhando no prontuário. — Você realmente está bem? — perguntou, virando-se para mim.
— Sim! — confirmei com a cabeça, praticamente gritando. Bem? Eu me sentia um caco. Minha mente parecia uma bomba atômica explodindo.
— Hm... ok. Estávamos esperando você acordar para fazer alguns exames. Acho que amanhã você já fica liberada, levou uma pancada forte na cabeça. A pessoa que fez isso com você era bem forte.
DUNCAN! Ele que me golpeou. Minha mente praticamente gritou e fiz uma careta ao me recordar de outra memória. Como doía.
— Tem certeza que está bem? — estranhou minha careta.
— Sim. Sim. Acho que é só a claridade — apontei para a luz.
— Vou diminuir um pouco pra você, já volto para irmos fazer os exames.
? — chamei pelo nome da minha amiga, que virou-se para mim antes de sair. — Será que posso falar com o Nikolai? — perguntei esperançosa, ainda conseguia raciocinar um pouco.
— Por que o Nikolai? — ela levantou uma das sobrancelhas, curiosa.
— Bom...
— Fiquei sabendo que ele estava no seu quarto esses dias. Achei que se odiavam.
— Ele é só um amigo, . Preciso falar com ele sobre a missão que recebi hoje.
De início estranhou. Será que ela sabia que Nikolai não tinha ido conosco e eu estava inventando apenas uma desculpa?
— Tudo bem — ela concordou. — Eu já volto!
Respirei fundo e fechei os olhos. Eu só precisava fingir que estava tudo normal, e em hipótese nenhuma podia fazer ressonância. Precisava sair dali o quanto antes, e Nikolai era a minha chance.
? — uma voz que eu reconhecia bem entrou no recinto, fazendo-me abrir os olhos. Eu esperava descansar pelo menos um pouco.
... ! — levantei as sobrancelhas, surpresa em vê-lo.
— Fiquei sabendo que você estava acordada — ele já havia trocado de roupa; não me lembrava muito bem até aquele momento em como era tão gato. Um pouco era genética, o irmão dele também era.
— As notícias correm rápido por aqui — respirei fundo e sentei-me na maca. No meu braço havia um acesso por onde passava o medicamento com soro.
— Como você está? — ele me encarou. Parecia que eu não o via há séculos, desde a época que fui embora com a minha mãe. Pelo visto tinham feito o mesmo procedimento com ele. Lenora era uma megera.
— Estou bem, nunca me senti melhor do que agora — respondi, olhando para as minhas unhas.
— Sabe quantos pontos levou? — ele apontou para a minha testa. Eu nem havia me dado conta de que havia um curativo no meu rosto.
— Não, a não me disse nada — balancei a cabeça negativamente.
— Você mandou me chamar? — Nikolai entrou no quarto olhando para mim, até perceber a presença de .
— Sim, preciso conversar com você — balancei a cabeça e me olhou de forma estranha.
— O que precisa falar com ele? — ele perguntou, cruzando os braços.
— Você não tem que saber — fiz uma careta, estranhando a sua postura. Ele sempre fora meio controlador. Em partes era instinto, anos atrás era o seu dever me proteger.
— Eu sou o seu tutor. O que tiver de resolver, pode falar comigo.
— Sim, eu sei. No momento a conversa que preciso ter com Nikolai não é do seu interesse.
sempre fora meio desconfiado, mas parecia que tinham piorado suas emoções.
— Que seja — ele revirou os olhos e saiu do local. Eu não podia perder o foco, precisava me concentrar em sair dali.
— Uuui, acho que ele ficou com ciúmes — Nikolai zombou da situação e sentou-se na poltrona que ficava de frente para a minha maca.
— Preciso de um favor seu — fui direto ao ponto.
— Como sempre direta — ele sorriu. — Você não se contentou em levar uma pancada na cabeça?
— Não. Na verdade, eu preciso sair daqui o mais rápido possível.
— Pelo visto a pancada afetou mesmo o seu cérebro — Nikolai riu da minha cara e eu cruzei os braços, séria.
— Nikolai, eu estou falando sério. Preciso sair daqui, quero que confie em mim como confiei em você no dia da festa — encarei seus olhos, e o menino me olhou sério e desconfiado.
— Espero que você tenha um bom motivo pra sair do distrito depois de ter sofrido um acidente — ele se levantou, ajeitou a jaqueta de couro e veio para perto da maca, apoiando as mãos no colchão, de forma que seu rosto ficasse na frente do meu. — Ty sumasshedshiy. Tebe povezlo, chto ya khuzhe tebya. (Você é pirada. Sorte a sua que sou pior que você) — ele sorriu e segurou o meu queixo, tirando uma chave da jaqueta.
— Ainda te liberam a ficar com as chaves do carro?
— Claro, eu ainda sou o melhor motorista daqui.
— Beleza. Temos que ir. Se alguém perguntar, você está saindo comigo pra tomar um ar. liberou você pra me acompanhar — me levantei da maca e segurei no apoio de ferro onde meu soro estava pendurado. — Detesto essas roupas de hospital — murmurei, andando para fora do quarto.
— Você está sexy — Nikolai debochou. Estreitei os olhos e olhei feio para o menino, que ficou calado.
Durante o percurso até o elevador, alguns residentes e enfermeiros me olhavam com certa desconfiança, mas não chegavam a perguntar nada, pois havia outras pessoas também caminhando pelo corredor. Também era uma forma de fisioterapia, já que muitos estavam ali há tempos.
Assim que entramos no elevador de emergência, que dava diretamente para a garagem, apareceu no fundo do corredor. Se da última vez eu soubesse da existência desse elevador, as coisas tinham sido mais fáceis.
! ! — ela gritou e veio correndo na nossa direção, porém as portas se fecharam e a deixaram para trás.
— Beleza, e agora? — Nikolai perguntou, vendo-me puxar o acesso do soro do braço.
— Agora a gente vaza daqui — respondi, esperando o elevador abrir. — Me dá a sua blusa! — fiz sinal para que retirasse a camisa e tirei a camisola de hospital que haviam colocado em mim. Nikolai não soube disfarçar ao me ver somente de roupas íntimas. — Foca aqui — fiz sinal para que olhasse para os meus olhos, e ele riu. Então, rapidamente me deu sua camisa e colocou a jaqueta de couro novamente, fechando o zíper. A camisa tinha ficado como um vestido, do jeito que imaginei.
Estávamos perto de irmos embora, eu só não estava preparada pela quantidade de pessoas que esperavam por nós no subterrâneo. Incluindo .
Coloquei o pé para fora do elevador e encarei os olhos de Henrik. Ele me conhecia desde a adolescência, era um dos agentes do meu pai, mas era mais ligado a Lenora – todos sabiam que eles tinham um caso. Não me surpreende ele ser o comandante do distrito de New York.
— Aonde vocês pensam que vão? — Henrik perguntou, cruzando os braços de frente para nós.
... — Nikolai murmurou e olhou para mim pelo canto do olho.
— Para um lugar bem longe daqui.
— Se vocês conseguirem passar por esses agentes, tudo bem, eu deixo vocês irem — Henrik estalou os dedos e todos eles apontaram as pistolas na minha direção.
Olhei para e ele não parecia estar convencido do que estava fazendo. Confesso que estava em perigo, precisava achar uma solução rápido. “Pandora”. “Chame por Pandora”. A lembrança surgiu como um click.
— Esse tanto de agente com certeza não está aqui somente para me impedir de ir embora, não é mesmo? — cruzei os braços.
— E por que você iria querer embora, ? — ele perguntou, ainda com a arma na minha direção.
— Estava esperando você me dizer, mas já que não quer, eu faço as honras. Essa arma apontada na minha direção mostra que você esqueceu o significado de respeito. Você sabe que nunca se aponta uma arma para uma Armand. Isso é sinal que você já sabe que eu me lembrei de tudo o que aconteceu — suspirei, fingindo cansaço. — Você e Lenora até que formam uma boa dupla, mas não sabem escutar as pessoas. Vocês foram avisados. Sou muito grata por Duncan ter feito tanto em pouco tempo — me virei para . — Pra você não se lembrar do seu irmão, eles devem ter destruído o seu cérebro, . Lembra de Pandora? O nome que eu tinha escolhido pra sair nas missões com você? Eu e meu avô mudamos o significado e fizemos do nome uma coisa melhor, um comando. Se ele fez questão de me lembrar disso, é porque alguma coisa ele planejou. Então, Henrik, você deve estar muito fodido — soltei uma risada baixa.
— Você está debochando da situação por quê? Não tem como sair daqui, , você está encurralada. Seu deboche não me ofende. Você vai voltar para o centro médico, vamos acabar com as suas memórias novamente e você e a sua família vão voltar para o buraco onde pertencem. Peguem ela — ele fiz sinal com a cabeça para os agentes; porém, em questão de segundos, metade dos agentes voltaram as armas na direção de Henrik, e a outra metade, que estava do lado dele, foram neutralizados.
— Eu avisei — soltei outra risada baixa. Não estava tão surpresa com o fato do meu avô ter planejado infiltração dentro dos distritos, mas não sabia que seria daquela forma.
— Desgraçada! — Henrik olhou para mim com um dos agentes o segurando. Me aproximei lentamente dele e olhei para o homem deitado no chão.
— Eu te apresento, com prazer, o karma — abri um largo sorriso, e Henrik gritou para que o soltassem.
— Senhora. Precisamos ir agora. Precisamos recuar, é uma ordem do Sr. Armand. Parece que mais agentes estão descendo — um dos soldados do meu avô veio até mim para avisar, e eu afirmei com a cabeça.
— Claro, obrigada pela sua ajuda! — apertei a mão do homem e ele deu as costas, avaliando se todos os agentes de Henrik estavam amarrados. Então, andei na direção de , que ainda lutava contra dois dos agentes do meu avô.
?
— Me chamo ! — ele gritou, olhando para mim com desconfiança. — Que diabos acabou de acontecer aqui?
— Não, você se chama . Fizeram lavagem cerebral em você! Você precisa vir comigo, prometo que não vão fazer nada de ruim com você. Te darei as respostas que precisa — ele ficou em silêncio, justo ele que tinha resposta pra tudo. — Cuidem bem dele, por favor — voltei para perto de Nikolai e olhei nos seus olhos. Eu estava feliz, finalmente me sentia no controle, me sentia outra vez. Tinha que colocar muitas coisas no lugar, mas eu era a , a de verdade. — Vamos?
— Quem diabos é você? — Nikolai olhou para mim, surpreso e assustado.
Armand. Uma das herdeiras da tríplice — sorri e dei as costas, andando na direção do carro que me levaria até o meu avô.


Capítulo 9 – Chili.

— Nós vamos sair do Estado? — perguntei ao motorista que estava dirigindo na direção do aeroporto.
Por volta de um mês atrás, não tinha reconhecido o caminho porque não lembrava de New York. Agora a situação era diferente, já que tinha vindo em New York alguns anos atrás.
— Sim. Sr. Armand não está em New York — Nikolai revirou os olhos e eu ri da sua expressão, lembrando que ele tinha medo de andar de avião.
— Então para onde vamos? — perguntei, levantando uma das sobrancelhas.
— Não tenho essa informação, senhora. A partir daqui, outra pessoa estará responsável pela sua segurança — ele respondeu, parando na portaria da área particular para mostrar a identificação.
YA nenavizhu eti rayonnyye izmeneniya. (Detesto essas mudanças de distrito) — Nikolai murmurou, olhando pela janela.
Yesli by vse ostalis’ v odnom rayone, eto byla by katastrofa. (Se todos ficassem em um só distrito, seria um desastre) — respondi em russo, virando o rosto na direção do menino. — Meu pai me fez aprender russo, inglês, espanhol e francês, que é a minha língua nativa. É por isso que logo quando nos conhecemos eu entendi você, parte do procedimento deve ter falhado — dei de ombros, saltando do carro assim que o motorista estacionou.
— O que exatamente fizeram com você? — ele perguntou, vindo atrás de mim.
— Prometo que, assim que chegarmos, eu conto tudo pra você. Não queria deixar para trás por motivos óbvios, ela não faz ideia da onde está se metendo — suspirei, seguindo o motorista que me levava para dentro da garagem onde supostamente estava o jatinho.
Mais à frente pude enxergar um homem alto, com músculos bem definidos e algumas manchas pretas pelo braço, que possivelmente eram tatuagens – não consegui identificar muito bem devido à distância. Ele usava uma camisa preta e uma calça que se assemelhava com o do exército, porém toda na cor preta, além de coturnos. À medida que nossa distância ia diminuindo, reparei que ele parecia cada vez mais com , inclusive o cabelo.
— DUNCAN? — arregalei os olhos ao reconhecê-lo.
— Ei, Chili. Finalmente recuperou a sua memória — ele sorriu, vindo na minha direção.
— Você não faz ideia de como é bom estar de volta — sorri, envolvendo meus braços na sua cintura para um abraço. Afinal, ele era mais alto do que eu e . A diferença de idade dos dois era de três anos.
— Chili? — Nikolai levantou uma das sobrancelhas, confuso.
— Esse é o russo? — Duncan perguntou assim que nos separamos.
— Sim. Esse é o Nikolai. Nikolai, esse é Duncan. Hoje eu não sei muito bem o que ele é, mas deve fazer parte da patente mais alta da força militar do distrito — sussurrei para o menino ao meu lado.
— Você sabe que é arriscado trazê-lo conosco — Duncan permaneceu olhando para o menino fixamente.
— Eu não o traria se não confiasse nele — olhei para Nikolai, que pela primeira vez pareceu intimidado.
— Senhor? — todos viramos para trás ao escutar uma voz chamar por Duncan. Era o segurança com .
— Vocês sabem que vão caçá-los — murmurou, encarando Duncan.
— É bem possível que sim — Duncan concordou, se aproximando do irmão. — É por isso que logo vamos tirar o chip que está no seu pescoço e desses dois aqui — ele apontou para mim e para Nikolai.
— Eu sabia desde o início que tinha algo de errado com você — olhou para mim com raiva. — Se Henrik tivesse me contado mais sobre você, eu teria evitado tudo isso.
— Cansei do seu repertório — Duncan deu as costas para o irmão e seguiu para o avião. — Temos que ir. Já ficamos muito expostos aqui. Henrik também usa esse aeroporto, alguém já deve ter avisado para o distrito.
— Espero que tenha roupas, não dá pra usar isso pra sempre — murmurei, rumo ao jatinho que estava mais à frente, dando uma olhadinha rápida para trás. Eu ficava mal em ver daquela forma, porém tudo ia se acertar logo. Duncan nunca pegou leve com e, pelo visto, aquilo não tinha mudado.
— Seu apelido é Chili? — Nikolai murmurou enquanto me seguia.
— Tanta coisa importante acontecendo e você está curioso com isso? — Duncan olhou para o garoto por cima do ombro.
— Em menos de vinte e quatro horas eu descobri que é mais importante do que aparentava ser. Além disso, quando a conheci, ela basicamente não tinha memórias, então sim, eu estou curioso porque o meu cérebro deu nós suficientes.
— O apelido dela é Chili porque ela ficava vermelha igual pimenta quando perdia para mim e pro .
— Vocês cresceram juntos? — Nikolai perguntou, subindo as escadas para o jatinho.
— Prometo que te explico tudo no caminho — comentei ao passar pela porta do avião.


...


— Ele tem medo de altura? — Duncan perguntou, vindo até mim na cabine de trás enquanto calçava os coturnos pretos.
Haviam me dado roupas novas e mais confortáveis, como no distrito: calça preta com o pano bem confortável e com elasticidade, uma blusa preta sem mangas e um colete que cobria somente o meu busto, feito de um material bem resistente; nas costas, estava marcado o símbolo da minha família. Era bom voltar às raízes.
Uma hora atrás, foram retirados os rastreadores que estavam nos nossos corpos. Nikolai também havia tomado um banho e estava devidamente uniformizado; já eu não sabia o que tinha acontecido.
— Sim — soltei uma risada baixa. — Ele está quase enfiando as unhas no assento, não é? — sorri, puxando as cordas do sapato para que ficassem bem apertados. Por sorte havia um banheiro no jatinho, então consegui tomar um banho rápido. — Meu avô deve estar em um Estado próximo. Eu não esqueci que foi você que me deu aquela pancada na cabeça — abri um sorriso irônico. — Ou você ficou em New York esperando por tudo isso, ou foi e voltou porque era arriscado. Agora vai me dizer para onde estamos indo? — perguntei, colocando as mãos na cintura e aguardando uma resposta.
— Realmente, eu estava em Ohio junto do seu avô. Porém, como as coisas mudaram, estamos indo para a Itália — Duncan riu, sentando-se em uma das poltronas.
— O quê? — perguntei, surpresa e nada feliz. — Itália?
— Sim — ele concordou, balançando a cabeça. — Acho que é melhor termos essa conversa junto do nosso novo amiguinho na cabine do lado. Não estou muito a fim de explicar a situação duas vezes. Meu dever é com você, não com ele. A propósito, você continua a mesma, porém crescida — ele sorriu e deu as costas para mim, seguindo para a cabine em que estava Nikolai. — É bom você prestar atenção no que vou falar agora, porque eu não vou repetir.
— Você está parecendo com . Que temperamento difícil o de vocês — ele revirou os olhos.
— Eu não concordo com a presença dele aqui — Duncan apontou para Nikolai.
— Ah, é? Quem garante que ele não é um Vassiliev? — perguntei, cruzando os braços e encarando Duncan na minha frente.
— Você sabe que não temos notícias de um Vassiliev há anos, antes mesmo de você ser sequestrada! — Duncan respirou fundo.
— Ele era o único russo em Bed. Lenora o mandou para a mesma equipe que eu, você acha mesmo que não é possível? Eu não o trouxe porque criei vínculo. Nikolai foi a primeira pessoa que eu detestei quando pisei no distrito.
, você acabou de recuperar a sua memória. Não dá pra tomar decisões por impulso — Duncan ficou de frente para mim.
— Eu recuperei a minha memória agora porque em nenhum momento vocês foram atrás de mim quando, durante esses anos, vivi uma vida que não ERA MINHA — encostei no seu peito com o dedo indicador, com raiva. — Então, por favor, trate-o com o respeito que você trata os seus homens, porque agora ele é um dos nossos, querendo você ou não. E se você não quiser a responsabilidade, eu assumirei — encarei seus olhos fixamente, mantendo a minha respiração regulada. Duncan permaneceu quieto. — Ótimo, agora me explique por que estamos indo para a Itália — sentei-me na poltrona em frente de Nikolai, encarando Duncan, que sentou no outro lado. Ele nunca gostou de seguir ordens, sempre preferiu mandar – nisso nós éramos parecidos.
— Espera, espera. Desde o início, por favor — Nikolai olhou para mim e, em seguida, para Duncan.
— Você também não ajuda, Nikolai — revirei os olhos. — Você sabe como o distrito surgiu? — perguntei, cruzando as pernas.
— Sim. Por três fundadores, por conta de uma guerra e tudo mais — ele deu de ombros.
— Já é alguma coisa — Duncan murmurou.
— Sim — balancei a cabeça. — Esses três fundadores eram de lugares diferentes. Um era francês, o outro era inglês e um russo. Seus sobrenomes respectivamente eram Armand, e Vassiliev. Eu sou Armand. O meu tataravô fundou os distritos juntos do tataravô de Duncan, ele é um — apontei para Duncan. — , que na verdade se chama , é irmão de Duncan. A família deles é responsável pela parte militar. Não é à toa que , vulgo , era um dos melhores no distrito em New York. Inclusive, foram eles que me treinaram. Antigamente me treinavam porque eu sou a herdeira dos Armand.
— Está conseguindo entender? — Duncan perguntou, apoiando os antebraços nos joelhos.
— Sim, mas e a família russa?
— Eles sumiram depois de um tempo.
Lembro que não tinha me explicado isso quando me deu uma aula sobre a fundação.
— Ninguém sabe pra onde foram. Podem ter feito a mesma coisa com você o que fizeram comigo e com , mas só conseguimos ter certeza por exame de sangue. O fato de você ter sido enviado por Lenora é estranho.
— Agora vamos por partes. Por que apagaram suas memórias? O que é esse procedimento? E por que é estranho Lenora ter me enviado?
— Esse procedimento que estamos falando foi criado em Bed. Tudo começou lá. O certo seria o Distrito ser nomeado como 01, mas preferiram colocá-lo como último. Vou explicar de forma bem simples, porque eu não sou médica. Eles retiram as suas memórias e as deixam em algum estado de hibernação no seu cérebro. Enfiam memórias novas e você tem uma “vida nova” — abri as aspas com os dedos.— Eles criaram esse procedimento pra fazerem militares mais centrados, para que a nossa vida passada seja esquecida e você foque naquilo que é importante, que passa a ser o seu dever distrito. Esse procedimento foi extinto por um tempo, até acontecer o golpe no distrito e uma parte dessas pessoas voltarem a utilizá-lo — dei uma pausa, tentando me concentrar, porém os gritos da minha mãe vinham à tona.
— As famílias fundadoras moravam todas no distrito em Bed, junto de alguns cientistas da época, ou seja, as pessoas mais importantes conviviam lá. Aconteceu que, um dia, o distrito entrou em sinal de alerta e tivemos que evacuar. Conseguimos tirar e a mãe dela. Conseguimos mandá-la para um esconderijo. O avô de foi evacuado também, porém, como ele era o comandante, conseguimos retirá-lo de helicóptero. O pai de ficou para trás, então meu pai, eu e ficamos para procurá-lo. Acabou que, no fim das contas, o meu pai morreu, foi capturado e eu consegui escapar. Minha intenção era ir de encontro com e a sua mãe, mas, quando cheguei, era tarde demais. tinha sido levada e Hariett fora assassinada.
— E o seu pai? — Nikolai perguntou, virando-se para mim.
— Ninguém sabe. Seu corpo não foi encontrado, ele simplesmente desapareceu. Depois desse dia, quem assumiu o comando foi Lenora, então dá pra imaginar que foi ela que deu o golpe junto de mais pessoas. Afinal, praticamente todos os comandantes dos distritos foram trocados, e alguns deles estão desaparecidos. Apagaram a minha memória logo depois que fui sequestrada e me jogaram na França, em uma vida que eu acreditava que era minha.
— Eles permaneceram vigiando a , com uma mãe que na verdade era uma agente. Tentamos chegar até , mas era impossível encontrá-la. Até que eles forjaram o acidente pra trazê-la de volta para o distrito, mas como agente deles, o que claramente ia dar errado. Pois Sr. Armand passou todos esses anos planejando pegar de volta o que é das nossas famílias por direito, até mesmo pra manter a honra, porque nossos agentes são nossa responsabilidade querendo ou não, como a falou — Duncan deu de ombros. — Estamos indo para a Itália, porque agora temos o Distrito 23. Se isso responde a sua pergunta, o seu avô saiu de Ohio ontem à noite e eu vim te buscar hoje de manhã. Você conseguiu entender? — Duncan virou para Nikolai, que concordou positivamente.
— Sim. Sem mais perguntas, por enquanto — ele comentou.
— Preferia ficar em New York, não posso deixar todas aquelas pessoas para trás.
— Você precisa ter paciência — Duncan comentou, passando a mão pelo cabelo.
— Eu só preciso pensar em como vou pegar aquele distrito de volta e colocar nas mãos certas — murmurei e me levantei da poltrona, seguindo para a cabine que estava antes. — Eu jurei que iria voltar para me vingar — respondi, ainda de costas.

Durante a viagem, tentei descansar o máximo possível, mas minha mente não parava um segundo. Confesso que eu me sentia culpada por ter esquecido tudo durante tanto tempo. Precisei de para que eu recuperasse as minhas memórias. Me sentia culpada por não ter resistido mais.
Afundei meu corpo na poltrona e coloquei os pés na da frente. Eu sentia uma energia que precisava descarregar de alguma maneira. Meus sentimentos estavam acumulados; a raiva, a frustação, a tristeza, tudo que eu havia reprimido durante esses anos. Eu finalmente me sentia em casa, porém um caminho árduo vinha pela frente.
Estava sentindo meus olhos se fecharem lentamente quando alguém me balançou, fazendo-me despertar. Assim que levantei a cabeça, vi , que se sentou na poltrona ao meu lado.
— Precisamos conversar sobre algumas coisas — ele sempre tinha um ar de superioridade, mas confesso que isso não me incomodava.
— Desembucha — fiz sinal para que prosseguisse e levantei o meu corpo, encostando as costas no braço da poltrona, de modo que ficasse de frente para ele.
— Seu avô deve conversar melhor com você, mas preciso que comece a entender como as coisas estão funcionando depois de tantos anos. Henrik te mandou para aquela missão porque uma parte da nossa equipe estava naquele prédio. Eu fiquei para trás para surpreendê-la. Conseguimos evacuar o prédio a tempo, então todos foram para a Itália. Não iremos mais voltar para New York, pelo menos por enquanto. Achamos que Lenora está com algum projeto na Itália.
— Como assim? — levantei uma das sobrancelhas, confusa.
— A Itália é um dos lugares que não era cogitado formar um distrito. Seguimos algumas pistas e descobrimos que Lenora esteve na Itália pelo menos uma vez no mês em cinco anos. São os registros mais recentes. Ela não está formando um novo distrito, mas está escondendo algo. No momento, o mais importante é seguir essas pistas. Se descobrirmos o que é, e dependendo do que for, seu avô voltará a comandar com mais facilidade.
— Então eu não vou poder sair da Itália? Tenho negócios inacabados, eu vou precisar voltar.
— Sim, mas não por agora. Não temos muitas pessoas, , vamos precisar de você.
Merda — murmurei, respirando fundo. — Tudo bem. Eu não tenho muita escolha mesmo — dei de ombros.
— Beleza. Quando chegarmos, planejamos as coisas melhor — ele colocou as mãos nos joelhos e se levantou da cadeira. — Senti sua falta, Chili — sorriu e deu as costas, indo na direção oposta à minha.
Respirei fundo e fechei os olhos. Não seria fácil ter os dois irmãos de novo na minha vida.


Capítulo 10 – Home.

Depois de horas de voo suportando Nikolai e Duncan trocando farpas, finalmente havíamos chegado ao nosso destino. Eu estava mais ansiosa do que cansada. Fazia anos e anos que eu não via o meu avô, não conseguia imaginar como ele estava além de velho – esse pensamento me fez rir por um momento. Pela janela de onde eu estava sentada ao lado, podia-se ver uma cidade bem no litoral, além de cadeias montanhosas. Não me parecia ser o interior, devido à quantidade de urbanização.
— Que cidade é essa? — perguntei a Duncan, que estava ao meu lado. Por um momento, achei que ele estava me reparando pelo modo que me olhava com aqueles olhos profundos.
— É a província de Salerno. Vamos pegar um carro para ir até Positano, é onde estamos instalados.
— Finalmente — pude escutar Nikolai murmurar na cadeira da frente. Eu não o via, mas sabia que suas unhas estavam cravadas na poltrona do avião enquanto nos preparávamos para pousar.
— Por que não vamos direto pra lá?
— Você vai entender o porquê — ele deu um meio-sorriso e virou o rosto na direção da janela.
Quando finalmente concluímos o pouso e as portas do aerotransporte foram abertas, Nikolai levantou-se rapidamente e passou pela porta em questão de segundos. Três conversíveis nos esperavam do lado de fora, todos os três de diferentes cores: um preto, outro vermelho e um branco. Retirei o cinto e apertei os cadarços dos coturnos, me levantando logo em seguida.
— Não acho que havia necessidade...
— Você esperava uma frota de carros? Estamos longe de Lenora, mas ainda temos que tomar cuidado. Seu avô está tentando ser discreto, e como algumas pessoas o consideram rico... — ele pensou direito. — Na verdade, bem mais que rico, não iriam estranhar quando fôssemos para Positano — deu de ombros, colocando a mochila que estava no bagageiro nas costas.
De certa forma, fazia sentido.
Assim que desci do avião, Nikolai já estava diante de um dos carros pretos que eu não reconhecia qual modelo era, somente que fora fabricado pela Ferrari, devido ao símbolo.
— Eu fico com esse — ele sorriu, olhando para si mesmo pelo retrovisor.
Duncan revirou os olhos, e eu vi descendo as escadas com dois seguranças ao seu lado; seus braços estavam presos atrás do corpo. Confesso que queria tirar as algemas dele, porém, eu sabia que havia necessidade. Ele podia matar todos nós, pois nos via como traidores.
— Vamos — Nikolai indicou com a cabeça na direção do carro, e Duncan veio para o meu lado.
— Ela vai comigo, novato — ele falou como se cuspisse as palavras para Nikolai. — Ela ainda está sob minha proteção, pelo menos até chegar em casa.
Casa. Não tinha reparado que realmente estaria em casa. Franzi as sobrancelhas e olhei para Duncan.
— Até onde eu sei, não preciso da sua proteção. Ou acha que não sei me proteger? — encarei seus olhos e só recebi um sorriso irônico.
— Não acha que, só porque recuperou a sua memória, recuperou suas habilidades por completo também, .
— Obrigada por me lembrar. Já que as habilidades são minhas, eu posso descobri-las sozinha — respondi, e Duncan respirou fundo. — Poderia agora, por favor... — passei os dedos calmamente por seu rosto, com seus olhos encarando os meus. — Mostrar o caminho? — pisquei para ele e dei as costas, indo para o banco do passageiro da Ferrari. Nikolai abriu um sorriso provocador para Duncan, como se comemorasse sua vitória.
Duncan deu as costas e foi para um dos únicos carros que estava coberto, provavelmente sentaria na parte de trás junto dos dois guardas. Confesso que fiquei um pouco preocupada com o fato de que tudo poderia dar errado com e Duncan no mesmo carro, mas tentei ser positiva e abri a porta do carro.
— Recomendo que não fique provocando Duncan — comentei com Nikolai, sem demonstrar qualquer expressão.
— Ele parece um cão de guarda.
— Ele é um cão de guarda, Nikolai — virei o rosto para o menino, que revirou os olhos. — Você acha que ele comanda o exército do meu avô porque é divertido? Duncan é o mais velho, ele foi treinado para matar.
— E proteger você — ele me olhou pelo canto do olho enquanto seguia Duncan, que estava no carro da frente.
— Isso foi há muito tempo — dei de ombros.
— Acho que ainda é um dever dele, e está disposto a isso.
— Engraçado. Quando você deve calar a boca, você não cala — abri um sorriso irônico, e Nikolai riu.
— É um dos meus charmes.
Quando saímos da cidade em que estávamos, Duncan seguiu para as cadeias montanhosas ainda passando pelo litoral. Mais da metade do trajeto se deu pelas montanhas, até completarmos uma hora de viagem e chegarmos a uma cidadezinha repleta de casas coloridas, que subiam pela montanha e o mar. Aquela imensidão azul-clara encheu meus olhos, com vários barquinhos flutuando sobre a água que transmitiam uma tranquilidade avassaladora. Respirei fundo e fechei os olhos, sentindo a brisa do mar.
Duncan seguiu para um caminho que subia a montanha, deixando todas as casinhas para trás. Durante uns quinze minutos, passeamos entre as árvores que pareciam nos engolir cada vez mais, até pararmos diante de um enorme portão de ferro que deixava exposta a mansão mais à frente. Precisei me levantar do banco e me apoiar no para-brisa da Ferrari para ter uma visão melhor.
Casa. Os portões se abriram e Duncan seguiu seu caminho até estacionarmos na frente da mansão, que estava diante de nós. Eu tinha a ideação de que seria um local mais protegido ao ver aquelas vidraças com ferro pintado em preto. A casa em si parecia ser mais antiga do que eu imaginava; trepadeiras subiam pela parede branca que pude reparar pelas brechas das plantas. Me parecia acolhedora.
— Seja bem-vinda ao Distrito 23, — Duncan disse entredentes assim que saiu do carro. Ele ainda devia estar bravo pelo episódio de uma hora atrás.
— Obrigada pelas boas-vindas calorosas, Duncan — respondi ironicamente, saltando do carro.
— Velhos hábitos nunca mudam — uma voz masculina atingiu meus ouvidos, fazendo-me virar a cabeça para a porta de entrada.
Vovô.
Ele estava em pé, apoiado em uma bengala de madeira. Ainda usava óculos redondos e as roupas de linho de sempre. Meu avô não era chegado a cores claras, então sempre usava azul-escuro. Arregalei os olhos ao vê-lo e não tive outra reação a não ser ficar parada. Eu paralisei. Minha cabeça parecia um turbilhão, todas as memórias da minha infância e adolescência vinham e iam de maneira que eu não conseguia controlar.
— meu avô disse com firmeza, me fazendo piscar rapidamente, como se tivesse saído de um transe.
— Desculpe — balancei a cabeça negativamente, como se afastasse as lembranças, e corri na sua direção para um abraço.
— Ela recuperou as memórias faz pouco tempo — Duncan comentou enquanto envolvia meu avô em um abraço apertado.
Percebi que ele apenas sentiu a cabeça para Duncan e me devolveu o abraço com acolhimento. Foi inevitável não deixar as lágrimas descerem pelo meu rosto. Eu tinha vivido um inferno.
— Vamos dar um tempo para você até que tudo se ajeite.
Mesmo não precisando de tempo, eu apenas concordei para sentir de volta a sensação de ter um lar novamente.


...


Depois do meu encontro com meu avô, fomos convidados a entrar na mansão. Tudo era muito simples e sem muita decoração, exceto pelos quadros na parede – ele sempre gostou de arte – e a mobília necessária.
Nikolai e meu avô foram devidamente apresentados e, pelo seu olhar, vovô ficou com um pé atrás por haver uma pessoa que não fora planejada ali, mas deu um voto de confiança ao russo.
— Antes que se acomode, Duncan vai te apresentar o restante do local. Nikolai virá comigo porque preciso fazer algumas perguntas — Abel nunca fora muito caloroso, exceto quando eu era criança. Quando cheguei na adolescência, ele começou a me dar mais broncas, tarefas, sermões, como se eu fosse... a herdeira. Ele não estava errado. Devia ser por isso que nunca me importei com essa parte fria que meu avô me tratava, como um general mesmo.
— Tudo bem — concordei e dei um breve aceno para Nikolai.
Duncan já seguia para um elevador que ficava no corredor principal. Ele apertou o botão e eu segui para dentro, já apertando um dos botões. Aquela casa só tinha dois andares, um elevador era desnecessário. A não ser que...
Assim que o elevador fechou as portas de vidro, que provavelmente eram blindadas, ele começou a descer. Olhei para Duncan, que estava imóvel.
— Não finja estar surpresa. Achou mesmo que seu avô consideraria aquela casa um distrito? — ele levantou uma das sobrancelhas, e eu virei o rosto para frente, deixando que um imenso subsolo se abrisse para mim.
Tive que tomar fôlego quando vi toda aquela área sob a montanha, escondida, mas rica, rica de longos anos de trabalho. O local era completamente aberto, mas suas alas eram bem definidas. Cu conseguia ver soldados treinando. Uma grande parte do local era para armazenamento e até fabricação de armas, que eu não compreendia.
— Tecnologia de última geração — Duncan comentou ao meu lado, olhando na direção que o meu olhar seguia. — A casa é protegida por campos de força, fora dali que construíram.
Eu não esperava mais nada quando o elevador atingiu o segundo andar do subsolo. Aquele andar tinha o teto um pouco mais baixo, mas eu conseguia ver com clareza diversas pessoas sentadas na frente de computadores e algumas que andavam para lá e para cá, anotando algo em vários quadros brancos espalhados por ali. Era uma ala da informática muito parecida com a do distrito de New York; porém, eles pareciam trabalhar arduamente em algo. O elevador permaneceu descendo até chegar no terceiro andar.
— Essa é a ala médica. Estão tentando desfazer a merda que a cabeça de se tornou.
O local era mais simples, apenas com uma recepção. Eu não tinha nenhuma visão sobre o que tinha lá dentro, a não ser que entrasse. Imediatamente lembrei-me de e o que ele estava passando agora. O elevador parou diante do terceiro andar, e Duncan apertou outro botão, fazendo com que subíssemos.
— Para baixo existem mais andares, onde todas essas pessoas dormem, comem e relaxam. Esse é o distrito, . Você tem livre arbítrio para ir a qualquer lugar, aqui não existem segredos entre nós. O fato de alguns de nós permanecer lá em cima não nos torna mais importantes, e sim mais vulneráveis. Somente quem entra na casa consegue descer, então estamos protegendo o nosso povo aqui. Por isso não podemos deixar ninguém que não more aqui entrar na mansão. Absolutamente ninguém — ele me encarou novamente. Eu sentia como se ele tivesse me descarregado uma responsabilidade em mim que eu já tinha.
Virei o corpo para encará-lo e mantive os braços ao lado do corpo enquanto levantava levemente a cabeça para encarar aqueles olhos profundos.
— Eu agradeceria se você parasse de me tratar menos como criança. Como você disse, é o nosso povo. E quem está mais disposta do que nunca a pegar de volta um dia o que foi da tríplice está bem na sua frente, Duncan.
Por um momento, achei que tivesse calado sua boca, mas ele sorriu perversamente.
— Acredito na sua vontade, Chili, mas isso não significa que vai sobreviver no campo de batalha. Não depois de tanto tempo sem treinar. Acho que ainda temos alguns minutos até termos a reunião — Duncan apertou um dos botões do elevador, que o fez parar diante do primeiro andar, o mais amplo de todos. — Tenho certeza que sua mira como franco-atirador está ótima, mas preciso ver como luta a curta distância.
Tombei a cabeça para encará-lo e ele saiu do elevador, rumo a um dos tatames vagos.
— Vou deixar que escolha qualquer arma, vou te dar uma vantagem — Duncan apontou para a mesa ao lado do tatame, e eu não questionei. Confesso que estava curiosa para saber se algo tinha mudado no seu modo de lutar.
Reparei nas armas e nos objetos que me ajudariam a lutar, e, por fim, acabei escolhendo um par de socos-ingleses. Peguei uma das pistolas disponíveis que coloquei no cinto preso à minha cintura e nas coxas, onde havia um lugar para colocar a arma.
— Pronta? — ele jogou os ombros para trás, como se estivesse se esticando.
Afirmei, fazendo um aceno com a cabeça, e coloquei o soco-inglês nos dedos. Coloquei o pé direito na frente do corpo e ergui os braços, fechando os punhos na frente do rosto, de modo que minha mão direita ficasse ao lado do queixo, e a esquerda, na frente do nariz. Duncan sorriu e, num instante, avançou, pronto para me dar um soco no rosto. Desviei dele, inclinando a cabeça para o lado, e abaixei rapidamente, pronta para desfigurar um soco no seu estômago. Porém, Duncan segurou meu punho, absorvendo o impacto do soco-inglês bem na palma da sua mão. Ele riu e puxou o meu braço que segurava para perto dele, erguendo o joelho para acertar o meu estômago.
— Fácil — murmurou ao me ver cair de joelhos, tossindo. Merda. — Você vai morrer em campo. — ele revirou os olhos.
Como eu odiava os . Enquanto ele ria de mim, levantei rapidamente e o acertei com um soco bem no queixo, vindo de baixo para cima. Duncan apenas cambaleou um pouco para trás e me olhou sarcasticamente.
— Não me irrite — falei entredentes, semicerrando os olhos. — Você quer lutar? Então vamos lutar, Duncan.
Fechei os olhos por um momento para respirar e tentei me lembrar dos anos em que fui treinada. Eu realmente estava meio enferrujada, mas podia fazer alguns estragos nele.
Assim que avancei contra Duncan para tentar acertar novamente seu queixo, ele veio contra mim e esticou o braço, batendo o meu contra o meu tronco, me fazendo cair para trás e bater as costas no chão. Eu chiei. Ele me pegou pelo pescoço e ergueu-me do chão.
Merda. Merda. Merda.
Cravei as unhas em seu braço e olhei feio para o menino. Estava começando a ficar sem ar, mesmo ele não me apertando com muita força.
Com um impulso, ergui os joelhos e coloquei as pernas sob os seus ombros, travando as pernas atrás do seu pescoço. Dessa forma, apertei mais as unhas nos pulsos, fazendo-o me soltar. Nesse momento, levantei o tronco, de modo que sua cabeça ficasse entre minhas pernas. Até que joguei o corpo para trás, fazendo com que Duncan passasse por cima de mim e batesse as costas no chão, como se tivesse dado um mortal. Ele resmungou com o impacto, e eu agarrei seu braço, travando os pés na sua cabeça e puxando o braço para perto de mim, de modo que sua mão ficasse no meu pescoço à medida eu que puxava o seu braço com força.
Duncan imediatamente puxou o braço para cima, na sua direção. Nisso eu não podia competir – ele com certeza era mais forte do que eu. Assim que se soltou, ele ficou de joelhos e me arrastou para perto, segurando meus pés. Em seguida, passou o braço direito ao redor do meu pescoço e começou a apertá-lo, me dando um mata-leão.
— Não está tão fora de forma, Chili — seus lábios estavam perto do meu ouvido. — Você sabe que não tem como me vencer, lembra? — sua voz saiu como um sussurro.
Segurei seu braço com as duas mãos. Ele havia afrouxado um pouco, mas ainda se mantinha atrás de mim.
— Minhas habilidades são outras, você sabe disso — murmurei, puxando seu braço para baixo com força, para que me soltasse. Meu corpo cambaleou para frente e eu apoiei as mãos no chão, retomando o fôlego.
— Me lembro bem de como você deixava as pessoas hipnotizadas quando dançava — Duncan levantou-se do chão, ajeitando os ombros.
— Você nunca gostou — soltei uma risada em tom baixo, retirando os socos-ingleses das mãos.
— Nosso meio de lutar é diferente, por mais que eu insista para que você use os métodos convencionais. Você fica meio sinistra — ele balançou o corpo como se estivesse estremecido.
— Nada que você não se acostume novamente — coloquei os objetos em cima da mesa e comecei a andar na direção do elevador. Tinha muita coisa para tratar com o meu avô; o treinamento eu deixaria para depois. Em certo ponto, olhei para ele por cima do ombro. — Espero que tenha se deliciado em ter me pego pelo pescoço uma vez. Na próxima, eu chuto as suas bolas e você não vai conseguir fazer filhos.
— Estou ansioso por isso, — ele respondeu em tom provocativo.


Continua...



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