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Última atualização: 18/07/2021

Prólogo

Mesmo seu braço esquerdo estando latejando numa proporção muito maior do que pudesse imaginar, e uma de suas coxas sangrando, ela não parou de correr. Não podia simplesmente se dar ao luxo de parar. Pelos sons das botas batendo fortemente no chão, ela diria que estavam a menos de três metros de distância.
E aquilo não era o suficiente.
Seguiu direto pelo corredor e quando encontrara a primeira porta, entrou sem qualquer cerimônia. Jogou seu corpo sem qualquer delicadeza no chão e respirou fundo ao perceber que os soldados haviam passado direto daquela direção. Ainda não tinham a encontrado. Mas ela sabia que era apenas uma questão de tempo.
一 Agente Evanoff? 一 Quase gemeu de felicidade ao ouvir uma voz feminina lhe chamar pelo comunicador ao seu ouvido. 一 Extração prevista em vinte minutos. – Vinte minutos seria muito tempo, e ela não estava em condição nenhuma de um combate, mas sabia que não adiantava dizer aquilo ao piloto da nave.
一 Qual o ponto de encontro?
一 Procedimento padrão, agente. Ponto de encontro no telhado.
一 Droga! 一 Murmurou. 一 Vocês não podem simplesmente facilitar a minha vida? 一 Praguejou baixo. 一 Eu estou sozinha e na porra do subsolo. 一 Eram quase 20 andares pra cima, ela tinha certeza de que havia pelo menos 10 agentes em cada andar. Não iria conseguir. 一 Abortar extração. 一 Depois do que pareciam horas parada, decidiu. E teve que repetir a frase duas vezes, para que o piloto e o co-piloto entendessem o que aquilo significava. 一 Não dá para subir, estou ferida.
一 Evanoff, se você ficar aí, vão te matar. 一 Teve noção de que aquela voz não pertencia a nenhum dos homens na nave, mas sim do próprio Nick Fury na linha direta ao seu comunicador. Mas é claro que tinham relatado isso a ele.
一 Se eu tentar subir, também vou acabar sendo morta, senhor. 一 Fechou os olhos com força, ciente de que dali em diante nada iria melhorar. 一 Estou mandando todo material encontrado para a base, senhor! Começando o escaneamento agora.
Evanoff, isso é uma ordem! 一 Fury esbravejou, cansado. Estava sentado, mas sua postura não era uma das melhores, e em frente a sua mesa, Natasha Romanoff o encarava receoso. A ruiva sabia que aquela não era uma missão para ser feita sozinha, e mesmo tentando avisar isso a Nicholas Fury, o diretor da SHIELD não pareceu lhe dar ouvidos. 一 Suba agora, os reforços estão chegando! 一 Sentindo o coração bater quase numa velocidade recorde, Evanoff rasgou toda a manga de seu traje, o dividindo em dois e os amarrando em cada um de seus ferimentos. Havia perdido muito sangue e sabia que aquilo não era um bom sinal. Ela melhor do que ninguém sabia disso. Respirou fundo mais uma vez naquele pouco espaço de tempo e após ter a certeza de que todos os arquivos foram enviados à base da SHIELD, ela levantou-se. Poderia ser pega e morta, mas não desistiria.
一 Agente Evanoff para quinjet. Estão ouvindo?
一 Em perfeito e bom som, agente.
一 Estou subindo. 一 Murmurou com um sorriso malicioso no rosto. – Diretor, se ainda estiver na linha, saiba que se eu chegar viva aí, o senhor está me devendo um laboratório novo.
一 Quando você chegar, agente. 一 Nick Fury não conseguiu esconder um meio sorriso a frase da sua subordinada.
Já de pé, a mulher tirou uma das pistolas do seu cinto, e olhou para baixo, só tinha duas armas: uma em sua mão e outra armazenada em seu coldre, na parte interna de sua coxa. Checou quantas balas tinha: não o suficiente.
Porém se negou a pensar muito no assunto, pois sabia que se isso voltasse a acontecer, acabaria tirando a própria vida .
Abriu a porta devagar e colocou apenas uma parte do rosto para fora, sabia que não tinha ninguém naquele andar, mas nenhum mal faria se fosse sorrateira e cuidadosa.
E assim seguiu subindo andar por andar, o mais discreta possível e vez ou outra entrando em um combate simples, corpo a corpo. Não poderia perder munições, não sabia o que viria a seguir.
Suas pernas quase fraquejaram ao ver um grupo de oito soldados andando em sua direção naquele largo corredor, e a primeira coisa que a agente fez foi entrar na porta ao seu lado.
Olhou em volta, não tinha ninguém. Era um laboratório. Ótimo!
一 Estamos em posição. 一 O piloto falou ao seu ouvido.
一 Cuidando disso.
Desajeitadamente a mulher pegou um dos jalecos, prendeu o cabelo o mais alto possível e foi em direção a pia, lavando o rosto na intenção de tirar qualquer indício de sangue ou sujeira. Tinha que se misturar. Ao voltar para a porta, notara uma pasta com o símbolo da Hidra e também uns óculos de grau. Era tudo o que precisava. Colocou o objeto no rosto e abraçou a pasta em suas mãos, sairia dali da mesma forma que entrou: despercebida e em disfarce.
Abriu a porta e caminhou até o elevador mais próximo, a cabeça sempre abaixada e quando notou dois soldados em sua direção, rapidamente fingiu estar lendo algo no papel a sua frente, murmurando baixo um “boa tarde”, seguido de “Hail Hidra”. Seus pelos eriçaram apenas com aquela menção.
Ao chegar no vigésimo andar, as coisas não estavam tão calmas quanto nos andares abaixo e a mulher precisou de toda a calma que ela não tinha. Passou por mais dois soldados, até que um deles esbarrara acidentalmente na mulher, fazendo com que a agente perdesse o equilíbrio e caísse no chão. Rapidamente grunhiu de dor e ao olhar para baixo, viu o quanto o jaleco estava sujo de sangue.
Com mais pressa do que alguém que não tinha nada a esconder, a mulher olhou para cima, encontrando os olhos confusos do soldado, para segundos depois, sentir o mesmo pisando brutalmente em seu ferimento.
O grito que saíra de sua garganta fora estrondoso.
一 Evanoff, o que está acontecendo? 一 Fury novamente se fez presente naquela situação.
一 Fui descoberta. 一 Ofegou a mulher que em um pulo se levantou e chutou o soldado a sua frente que estava desprevenido. 一 Estou no vigésimo andar, preciso de reforços.
Indo! 一 Ouviu quando uma voz masculina disse. Estava perto demais do quinjet para simplesmente se entregar.
O soldado cambaleou para trás, mas não antes de tirar uma arma de suas costas. Evanoff agilmente também tirou a sua e começara a atirar nos soldados a sua frente. Mas não tinha balas o suficiente, e quando sua munição acabou, a mulher correu em direção do homem à sua frente e lhe dera uma rasteira para logo depois socar fortemente o seu pescoço, lhe deixando automaticamente inconsciente. Mais soldados estavam aparecendo e ela sabia que não conseguiria segurar todos, por isso correu em direção às escadas de emergência.
Mas não conseguira realizar tal ação, uma vez que uma pressão dolorosa tomou conta de seu corpo, exatamente em suas costelas.
Havia sido baleada.
Seu corpo caiu em frente à porta e sua respiração estava ofegante.
一 Abortar extração. Fui atingida. Tem muitos soldados aqui. – Murmurou.
一 EVANOFF! 一 Fury gritou em seu comunicador.
一 Sinto muito, diretor, mas acho que o senhor ficará me devendo aquele laboratório. – O som melancólico em sua voz fizera com que os seus reforços se apressassem ainda mais. Porém não era uma tarefa tão simples, eles mal conseguiram pousar o quinjet, estavam sendo atacados. Três homens pularam de qualquer jeito no chão um pouco abaixo, já atirando para todos os lados, quando perceberam que não estavam sozinhos.
Aguente firme, Evanoff. Estamos descendo. 一 Mas a resposta da mulher não fora ouvida. O único som captado pelo comunicador era da respiração cortada da mulher, seguida de resmungos de dor.
Evanoff? 一 Nicholas Fury a chamou novamente.
一 HAIL HIDRA. 一 A voz grossa emanou nos ouvidos de todos os agentes da SHIELD, acompanhada de um único barulho de tiro.



Capítulo 01

O avião estava indo a toda velocidade em direção a uma parte do oceano Índico que Steve Rogers não tinha prestado atenção, mas sabia que tanto a latitude quanto a longitude estariam descritas na tela a sua frente. Ele só optou por não ser o centro de sua atenção, uma vez que a explicação de Rumlow tomava todo aquele posto, que informava a todos ali presentes que o navio que eles estavam prestes a pegar de volta era uma plataforma móvel de lançamento de satélite, chamada Estrela da Lemúria.
一 Iam lançar o último carregamento quando piratas a levaram, há 93 minutos. 一 Continuou o moreno, chamando a atenção de Steve.
一 Alguma exigência? 一 O capitão perguntou.
一 1 bilhão e meio... Porque é da SHIELD. 一 Mais uma vez o líder da STRIKE respondera ao supersoldado. Steve olhou do homem para a tela do computador, tentando entender e raciocinar o que aquilo significava para ele e para toda aquela missão que lhe foi designada.
一 Não está só fora de curso. – Deduziu um pouco impaciente. 一 Está invadindo. 一 Finalizou, enquanto olhava de relance a ruiva ao seu lado. 一 Eu estou cansado de ser o faxineiro do Fury. 一 Reclamou ao escutar a resposta defensiva de Natasha Romanoff para os planos de Fury. 一 Quantos piratas? – Voltou a questionar Rumlow, pois sabia que aquela discussão com a ruiva seria uma causa perdida.
一 Vinte e cinco piratas. Mercenários liderados por esse cara. 一 Tocando na tela, Rumlow ampliou a imagem do homem. 一 George Batroc. Ex-DGSE da Divisão de Ação. Ele está no topo da lista vermelha da INTERPOL. Quando os franceses o aposentaram, ele tinha 36 assassinatos nas mãos. É responsável por muitas perdas. 一 Concluiu a fala inspirando um pouco de ar para prosseguir sanando a mais nova dúvida do loiro a sua frente. Agora sobre os reféns. 一 Quase todos são técnicos. Mas há um oficial. 一 Olhou de relance para um dos agentes da STRIKE enquanto ampliava a foto do homem citado. 一 Jasper Sitwell. Estão todos na cozinha.
一 O que o Sitwell fazia nesse navio? 一 Rogers questionou, desconfiado. Talvez se não tivesse tão alheio a movimentação ao seu redor, Steve pudesse ter escutado o engolir seco e o palpitar um pouco mais forte do coração de Rumlow, que estava a pouco menos de 1 metro de distância dele ao perceber a desconfiança crescendo sob os olhos do loiro. Contudo, o capitão estava concentrado demais pensando em todas as informações que lhe foram dadas e em como tirar todos os reféns do navio sem que se machucassem. E após articular todo o plano, o loiro delegou a cada um ali presente uma tarefa, abrindo o compartimento de carga do quinjet e pulando dele em direção ao oceano logo em seguida.

•••••



Steve viu a oportunidade de atacar quando Batroc parou para conversar com seu cúmplice em frente a uma grande janela do convés superior do navio. E não perdendo mais tempo, o supersoldado lançou com força o seu escudo em direção a Batroc, que de alguma forma percebeu o ataque chegando e agilmente se abaixou, desviando rapidamente da investida do loiro. Rogers pegou impulso em seus pés e pulou para a parte da janela que estava quebrada e ao meio corpo entrou totalmente naquele ambiente, para ser chutado no tronco logo em seguida. O impacto o levou um pouco para trás, o suficiente para afastá-lo minimamente de Batroc, que aproveitou a chance e saiu correndo para o hangar inferior. Steve correu em direção ao seu escudo e o pegou, não perdendo tempo e a passos largos indo em direção de Bartoc.
一 Natasha, Batroc está fugindo. 一 O loiro informou a mulher pelo comunicador, enquanto fazia uma pequena varredura por onde andava. 一 Vá até Rumlow e proteja os reféns. 一 Sua respiração estava pesada, e não era para menos, dos vinte e cinco piratas, Rogers tinha lutado com pelo menos quinze deles. E mesmo aquele número sendo um pouco abaixo do que estava acostumado a enfrentar, o capitão teve que derrubar todos os piratas com maior discrição e silêncio possível. Não poderia acabar com o elemento surpresa do resgate assim que colocasse os pés no navio. Precisava seguir o plano. 一 Natasha? Natasha? 一 Steve estranhou o sumiço da mulher, e quando estava prestes a chamar por Rumlow no comunicador, Batroc surgiu o chutando. Era para o golpe acertar seu rosto, mas como o loiro tinha agilidade, rapidamente seu escudo fez o que foi criado para fazer: proteger o Capitão de possíveis colisões em seu corpo.
Porém a batida tinha sido forte demais, fazendo com o que o supersoldado perdesse o equilíbrio e caísse para trás. Tomando um impulso, Steve fez com que seu corpo girasse mais uma vez, ficando de pé agora, de frente para Batroc que tentou mais uma vez investir um chute em seu tronco. Sendo a investida bloqueada pelo escudo do Capitão que agora caíra sentado no chão.
Batroc se aproximou e pegou impulso para jogar seu corpo na direção do Capitão, mas ao tentar acertar seu pé no loiro, Rogers impulsionou seu corpo para o lado, se esquivando da tentativa. Eles se olharam durante menos de um segundo, para logo depois levantarem o mais rápido que conseguiram. Batroc, mais uma vez, chutou o tronco do loiro e jogou todo o seu corpo para atacá-lo, girando no ar na tentativa da força ser maior.
Steve usou o chão como seu apoio e se agachou, levantando quando percebeu o francês novamente com os pés apoiados na superfície. Batroc se aproximou e tentou desferir um soco, sendo totalmente impedido pelo escudo do loiro, e outras séries de golpes foram investidas automaticamente na mesma medida em que Rogers se defendia de todas elas, como se já tivesse decorado a maioria dos movimentos deferidos pelo francês. Até que cansado de toda a proximidade, Steve colocou as duas mãos dentro do apoio do escudo e o empurrou para frente, fazendo com que o corpo de Batroc fosse jogado há metros de distância de onde estava originalmente. Rogers respirou fundo, observando o mercenário encostar todo o tronco no chão com as mãos em cada lado de sua cabeça, e levantando as duas pernas para cima, as arremessando para frente logo em seguida, ficando de pé milésimos depois. Não teve tempo para espera, não teve tempo para nenhum se preparar, Batroc só queria atacar o Capitão e de alguma forma, derrubá-lo. Mais uma vez sua perna foi ao ar para logo depois tentar chutar o supersoldado, tendo Steve bloqueando à tentativa logo que ela veio em sua direção. Rogers tinha percebido que o forte do francês estava em suas pernas, deixando assim um ponto cego em seus braços. Por isso se tornou até mais fácil para o homem se esquivar e bloquear os ataques do pirata, uma vez que ele já tinha decorado todos aqueles movimentos. Por isso deixou que o francês pensasse que estava o encurralando, deixando que ele chegasse cada vez mais perto de seu corpo, apenas para quando a oportunidade chegasse, Steve o segurasse pelos ombros, forçasse o corpo do francês para frente e começasse a desferir incontáveis chutes com seu joelho em direção ao estômago de seu oponente, que foi jogado logo em seguida. Steve não tinha a intenção de machucar nenhum órgão interno do mercenário, mas sabia que o faria se o homem não parasse por bem.
Bartoc utilizou da força que o Capitão teve para jogar seu corpo para trás e antes de cair no chão, colocou suas mãos para segurar o impacto, jogando as próprias pernas para trás, movimentando o corpo perfeitamente em uma acrobacia. Era quase como se estivesse esperando aquela atitude vinda do loiro.
一 Achei que você fosse mais do que só um escudo. 一 Provocou o mercenário, na sua língua natal enquanto abria um sorriso sarcástico para Rogers. Steve respirava fundo, tendo que admitir que o homem à sua frente até tinha uma ótima resistência para a luta, mas o que francês não esperava era que, todo esse tempo Rogers estava medindo seus golpes, indo apenas na defensiva naquela luta. E o Capitão estava cansado de se conter.
Saindo da posição de ataque, Steve pegou seu escudo e o posicionou na trava em suas costas, prendendo o objeto ali, e em seguida, soltou a trava que prendia seu capacete, tirando-o do rosto.
一 Vamos ver. 一 Rogers respondeu também em francês e jogou seu capacete no chão logo em seguida.
O sorriso de Batroc aumentou quando percebeu que o homem à sua frente, havia, de forma silenciosa, aceitado seu desafio.
Aquela seria uma boa disputa, afinal.
Batroc investiu um chute no joelho de Steve que automaticamente segurou o pé do francês com sua mão e a jogou para trás, e na mesma hora o loiro tentou socar o lado direito do rosto do pirata, que bloqueara aquela tentativa com maestria. Foi quase como uma dança sendo iniciada ali, mas ao invés de passos inofensivos, eles concediam os mais rápidos e perigosos golpes e chutes um contra o outro. Steve mal podia pensar, tendo seu raciocínio de luta trabalhando rapidamente naquela situação, uma hora na defensiva para que na seguinte partisse para a ofensiva. O loiro chutou o joelho de Batroc, fazendo o mercenário gritar de dor e perder o equilíbrio, e ali Rogers saltou para trás e deu um giro de 360º, para antes de chegar ao chão, esticar a perna e atingir fortemente o francês na cabeça, que automaticamente caiu desorientado, tamanha o impacto da força do Capitão. Batroc ainda levantou, todavia não estava consciente o suficiente para retomar aquela luta, Steve correu em direção ao homem e jogou seu corpo contra o dele, o arremessando em direção à porta da sala de comunicação do navio. A porta foi completamente arrombada com o impacto do corpo do francês junto com o do Capitão, que socou o rosto do mercenário logo em seguida, como uma forma de garantir que ele não fosse mais um problema.
一 Que constrangedor. 一 A voz de Natasha chamou sua atenção, enquanto ofegava. A ruiva estava em pé, parada em frente a um computador, quando soltou um sorriso malicioso para o capitão.
一 O que está fazendo? 一 Mesmo ofegante o loiro não teve dificuldade de levantar e ir em direção à mulher.
一 Apenas copiando o disco rígido. 一 Deu de ombros. 一 É um hábito que eu tenho.
一 Rumlow precisa de você. O que está fazendo aqui? 一 Steve falou, frisando novamente a pergunta para a ruiva. No grande monitor à sua frente, ele pôde ver que o download do que Natasha fazia estava em 80%. 一 Está recuperando dados da SHIELD. 一 Deduziu.
一 O máximo que eu conseguir. 一 Respondeu, o fitando entre os ombros. Sua atenção estava totalmente no computador à sua frente.
一 Nossa missão era resgatar os reféns. 一 Rogers esbravejou.
一 Não, Capitão, essa era a sua missão. 一 Natasha afirmou em contrapartida. Em seguida o computador fez um bipe, sinalizando que a cópia de dados havia sido concluída e ligeiramente a mulher tirou o pen drive da máquina, o guardando em seguida. 一 E a executou lindamente. 一 Sorriu de forma doce para o loiro, como quem parabeniza uma criança por desenhar uma pessoa em forma de palitinhos. Rogers a segurou pelo braço, impedindo que passasse por ele, exausto demais de todas as mentiras que eram contadas a ele, por Fury ou Natasha.
一 Colocou em risco toda essa operação.
一 Olha, eu acho que você está exagerando.
Contudo, antes que mais qualquer coisa fosse dita, um barulho de metal caindo no chão chamou a atenção dos dois, que olharam na mesma hora em direção a Batroc que não estava mais inconsciente. Muito pelo contrário, o francês agora levantou rapidamente e destravou uma granada, correndo em direção à porta por onde minutos atrás fora arremessado pelo Capitão América, e jogou de lá, na direção de Natasha e Rogers a granada já destravada. Steve na mesma hora acertou a bomba com o seu escudo, jogando-a para o lado contrário de onde eles estavam, entretanto não havia tempo para correr para fora daquela sala, a granada iria explodir a qualquer momento.
Steve virou em direção a Natasha e a pegou pela cintura enquanto corria, a mulher como que entendido o recado, enroscou a perna ao redor do corpo do loiro e quando a bomba explodiu, Steve se arremessou para uma pequena salinha que tinha ali dentro mesmo, na tentativa de causar menos ferimentos possíveis na espiã.
O coração do homem estava acelerado, seu rosto sujo de poeira, sua respiração ofegante, e seu ouvido tentando apaziguar o zumbido inconstante que captava. Se arrastaram com certa dificuldade até a parede mais próxima, encostando logo em seguida, procurando um apoio para seus corpos agora doloridos pelo impacto, e cansados pela adrenalina que se esvaia e dava espaço para os espasmos.
Steve colocou uma parte do rosto para cima, tentando ver se Batroc ainda estava no local ou se tentaria outro ataque contra suas vidas, e um alívio percorreu todo o corpo do soldado ao constatar de que aquela havia sido a cartada final para distrair os dois vingadores e o francês conseguir fugir.
一 Tá bem... 一 A voz cansada de Natasha voltou a soar. 一 Eu dei mole.
一 Pode ter certeza disso. 一 Murmurou o Capitão, fervendo em raiva. Steve tomou impulso para se levantar e sair dali o mais rápido possível, mas ao chegar próximo à porta, parou subitamente.
一 Sabia que não iria sem me ajudar. 一 A russa tentou brincar. Mas Rogers continuou parado de costas para ela, apenas respirando fundo. 一 Steve? 一 Natasha o chamou preocupado, levantando-se com certa dificuldade logo em seguida. 一 O que aconteceu? 一 Perguntou, tentando não parecer preocupada ao chegar ao lado do loiro.
Tem mais alguém aqui. 一 O Capitão sussurrou para a russa que, ao ouvir aquilo rapidamente puxou a pistola do seu coldre e se colocou a postos de ataque. Confusa, Natasha olhou mais uma vez para o Capitão quando não conseguiu ver mais ninguém ali, estava tudo vazio. Além deles, a única coisa ali era poeira e fogo.
一 Acho que você se eng... 一 A ruiva começou a falar, mas parou assim que o Capitão levou seu dedo indicador até a própria boca, fazendo um sinal para que a mulher não falasse nada. E ao obedecer ao comando do loiro, Steve tirou o comunicador de seu ouvido, pois até a voz de Rumlow estava o atrapalhando. E assim ele fechou os olhos e respirou fundo, se concentrando no silêncio presente entre eles.
A primeira coisa que Rogers conseguiu ouvir foram as batidas do próprio coração, que agora se acalmava. A segunda, foram às batidas do coração de Natasha, que estava acelerado, assim como a mulher estava, tamanha a sua inquietude. E a última coisa que Steve conseguiu ouvir foi uma terceira batida, dessa vez bem mais ritmada que a dos dois ali, junto com o barulho de pequenas gotas caindo em direção a um vácuo.
Steve abriu os olhos na mesma hora, olhando ao redor de toda a sala e andando até o meio dela. Ao chegar perto de um gabinete, Rogers percebeu um corte no tapete, formando um quadrado perfeito e muito grande no chão. Sem muito esforço, o capitão puxou o gabinete para o lado e viu que aquele corte terminava no fim da parede de onde estavam.
Era uma sala no subsolo.
Steve olhou para Natasha que inclinou o queixo em direção a nova descoberta, incentivando o Capitão a abri-la. E assim Steve fez, abaixou um pouco e achou uma pequena maçaneta a puxando para cima no mesmo segundo. A escotilha rangeu um pouco e abriu logo em seguida, dando aos dois, uma visão de uma escadaria. Steve destravou o escudo de suas costas, o pondo em frente ao seu troco ao mesmo tempo em que descia as escadas, Natasha por sua vez segurou com ainda mais força a sua arma e seguiu o loiro.
O local não estava escuro, ao contrário, havia muita luz ali. Rogers continuou descendo e quando chegou ao fim, viu uns diários jogados na mesa perto da escadaria, mas isso não foi o que lhe chamou a atenção. O que havia prendido toda a sua concentração foi à imagem da mulher no meio daquela sala. Automaticamente o escudo relaxou em seus braços e ele andou a passos largos em direção ao meio da sala.
一 Steve. 一 Natasha o chamou. 一 Cuidado, não sabemos o que vamos encontrar aq... 一 A mulher perdeu a voz após seguir o homem até o centro daquela sala secreta. 一 Meu Deus! 一 Arregalou os olhos assim que eles focaram na figura abaixo.
Tinha uma fina maca de aço, que era sustentada pelo chão, e havia uma mulher presa ali. A maca era do exato tamanho do corpo da mulher, tanto em largura quanto em altura. Seu rosto estava cortado, os braços cheios de hematomas roxos e marca de perfuração de agulhas. Ela vestia uma regata branca que já estava suja e toda desgastada, e em sua parte inferior apenas uma calcinha-short preta cobria aquela área. As pernas da mulher estavam muito juntas uma à outra, e uma grossa barra de ferro estava envolta de seus tornozelos. Em contrapartida, os braços estavam abertos, as barras envolta de cada pulso, cotovelos e antebraços. Seu pescoço e testa também apresentavam a mesma situação. Quem quer que tenha feito aquilo, não tinha dado espaço para em algum cenário a garota fugir.
Rogers olhou da mulher desconhecida para Natasha que agora parecia ter perdido todos os sentidos. O soldado chamou pela ruiva que não respondeu, surpresa demais com o que via.
Ao lado direito da mulher, havia um soro amarelo alaranjado pendurado no teto enquanto o líquido descia pelo tubo e ia direto para a suas veias. Rogers andou em direção ao soro e delicadamente puxou a agulha do braço da mulher. Ao chegar perto dela, foi capaz de ouvir os sussurros que ela, mesmo inconsciente, repetia. O Capitão então abaixou a cabeça e direcionou um dos ouvidos a boca da garota.
一 ...agente 09, deixada para trás em combate, número de registro da SHIELD 008679. Meu nome é...
. 一 Natasha falou alto o nome da mulher, chamando atenção de Steve que agora tinha se levantado e a encarava procurando por respostas.



Capítulo 02

TRISKELION
QUARTEL GENERAL DA S.H.I.E.L.D
Lat 38N 53’ 33.78 Long 77s 3’ 38.91

Assim que o quinjet aterrissou, médicos e enfermeiros da SHIELD já estavam à espera do retorno da equipe. Natasha não tinha dito uma palavra sequer desde que encontraram aquela mulher na escotilha do navio, e por mais que Rogers tentasse iniciar uma conversa, a russa não dava abertura para que o loiro prosseguisse, continuando muda e dispersa todo o caminho até o quartel general. Steve viu quando os membros da STRIKE foram os primeiros a descer, seguido de Jasper Sitwell (que negou o atendimento médico, alegando estar bem e não ter sofrido nenhum dano), para logo depois os membros da equipe técnica descer um a um, sobrando assim ele, Natasha e a garota que continuava apagada.
Rogers viu quando Romanoff levantou do chão assim que ouviu a voz de Fury no ambiente e correu até ele lhe puxando para um canto mais afastado, sumindo do seu campo de vista. Respirou fundo e andou em direção ao corpo desacordado da mulher e a pegou nos braços saindo do quinjet e a colocando em uma maca que estava a sua espera. Olhou ao seu redor, enquanto fazia isso e percebeu Natasha vidrada naquela cena, bem como Fury, que encarava aquilo com certo espanto. Não conseguiu ouvir o que eles estavam conversando, pois sua concentração fora cortada pela equipe médica que agora lhe perguntava qual o estado que encontrou a garota e o que era aquele soro que ele mencionou. Steve respondeu algumas perguntas e correu em direção ao interior do quinjet, voltando de lá com a bolsa de soro que havia pegado do navio junto com a garota, e entregou aos enfermeiros, que agradeceram em seguida pela precaução do homem em guardar aquela bolsa.
Decidindo de que aquele não era um bom local para indagar o diretor da SHIELD, Rogers seguiu seu caminho até onde estavam suas coisas, mas não tinha intenção de tomar banho. Sua cabeça estava confusa, mil e um pensamentos pairando pelo ar e ele não conseguia controlar a vontade de sair daquele lugar e nunca mais voltar. Não suportava a ideia de ser enganado por Fury, ou pela equipe que de certa forma ele confiava sua vida. Não tinha como liderar uma equipe assim. Era impossível as coisas darem certo daquele jeito.
Impaciente e com o corpo cheio de adrenalina, o capitão constatou que muitos minutos haviam passado desde que voltaram, fechando seu armário e andando a passos largos e duros em direção à sala de Fury. Não dava mais para esperar por aquela conversa, toda aquela situação estava o incomodando ao extremo.

一 Você não consegue deixar de mentir, não é? 一 Começou falando assim que abriu a porta, sem sequer deixar que alguém lhe anunciasse a Nicholas Fury. O diretor, contudo, já esperava aquela reação do capitão, estava esperando apenas que ele chegasse, o que tinha demorado cinco minutos a mais do previsto.
一 Eu não menti. 一 Rebateu. 一 A agente Romanoff tinha uma missão diferente da sua. 一 Deu de ombros como se fosse a coisa mais óbvia a ser constatada.
一 E você não se sentiu obrigado a compartilhar? 一 Retrucou.
一 Eu não sou obrigado a fazer nada. 一 Fury rebateu ainda de costas para o capitão. A mente do diretor da SHIELD vagava entre o relatório de missão de Natasha, para Jasper Sitwell estar naquele navio quando ele supostamente estava em Nova Iorque, e logo depois corria diretamente para a mulher resgatada.
一 Eles seriam assassinados, Fury. 一 Mais uma vez a voz do soldado soou ao seu redor, lhe tirando de seus devaneios e fazendo com que o diretor perdesse parcialmente o pouco de sua paciência.
一 Eu enviei para essa missão o melhor soldado da história para que salvasse meus homens! 一 Exprimiu, tentando continuar calmo, virando-se para fitar os olhos do loiro.
一 Soldados confiam uns nos outros. É o que faz deles um exército. Soldados não são apenas um bando de caras correndo com armas! 一 Rogers rebateu com convicção.
一 Da última vez que eu confiei em alguém eu perdi um olho. 一 Internamente Fury se debatia em raiva a oposição do capitão com sua forma de direcionar a SHIELD, o diretor já tinha muita coisa para se preocupar ali dentro, e estar sendo confrontado por Steve Rogers naquele momento não lhe ajudava em nada. 一 Olha, eu não queria que você fizesse nada que te deixasse desconfortável. A agente Romanoff fica confortável fazendo qualquer coisa. 一 Justificou sua atitude.
一 Eu não posso liderar uma missão em que as pessoas que eu lidero tenha missões individuais. 一 Aquele era o ponto que o capitão queria que Fury enxergasse. Como ele iria se dedicar inteiramente ao trabalho se poderia ter a possibilidade de um de seus aliados estar em outra missão que acabasse prejudicando toda a operação pelo qual liderava?
一 Isso se chama compartimentalização. 一 Esclareceu, entediado. 一 Ninguém revela todos os segredos, até porque ninguém sabe de todos eles.
一 Mas você é à exceção disso tudo, não é? 一 Rogers abriu um sorriso sarcástico ao expor aquela pergunta retórica.
一 Está errado ao meu respeito, capitão. 一 Assegurou o diretor. 一 Eu compartilho. Eu sou um cara muito legal. 一 Fury viu que aquele sorriso sarcástico continuava intacto no rosto do soldado, o que fez com que ele perdesse completamente a paciência.
一 Quem era aquela mulher? 一 Finalmente o soldado colocou para a fora a dúvida que crescia em seu interior desde o momento que colocara os olhos na mulher.
一 Como eu sou um cara muito legal, e eu sei compartilhar... 一 Fury voltou a falar dando a volta em sua mesa e parando ao lado do loiro. 一 Peço que me siga.
Os dois saíram lado a lado daquela sala e ao entrarem no elevador mais próximo, Fury logo anunciou a inteligência artificial de que queria ir à ala especial de contenção. A inteligência verbalizou que Steve Rogers não tinha acesso àquele setor, uma vez que era nível 8 na hierarquia da SHIELD. Rogers olhou pelo canto dos olhos, enquanto Fury murmurava um comando de voz que anulava temporariamente aquela ordem e lhe dava acesso livre para circular ali. Desceram em silêncio até o andar destinado e saíram em uma ala médica um pouco diferente da que estava acostumado a se tratar quando voltava machucado de alguma missão. Deixou que o diretor lhe guiasse, visto que nunca tinha estado naquele setor e não sabia por qual direção seguir. Rogers notou quando Fury parou a pouco mais de um metro de distância de um quarto. Toda a divisão entre o quarto e o corredor era feita de um grosso vidro transparente, que lhe dava total visão de seu interior. E de onde estavam, ele era capaz de ver nitidamente a mulher.
一 Essa é Evanoff. 一 Fury relatou depois de dar mais alguns passos e parar agora frente a frente com o vidro que lhes separavam. 一 Mais conhecida como Agente 09. 一 Rogers continuava absorvendo todos os detalhes daquele quarto, os equipamentos em volta do corpo da garota, os dois finos tubos de oxigênio que entravam sutilmente por suas narinas, os sensores presos a sua artéria computando os batimentos cardíacos. 一 Ela saiu em uma missão um pouco parecida com a de Romanoff. 一 A voz do homem cortou a linha de pensamentos do capitão, lhe fazendo prestar atenção no que o diretor narrava. 一 Era pra ser algo simples: copiar o disco rígido da base, extraindo e salvando todos os arquivos possíveis da SHIELD. Ninguém sabia dessa missão, exceto Romanoff e eu. 一 Nicholas Fury agora virou seu corpo em direção ao do loiro e o encarou o mais sério que conseguiu. 一 E sabe o que é mais engraçado nisso, capitão? Eles estavam lá... Esperando por ela. 一 Respondeu de imediato, abrindo um sorriso macabro.
一 Eles quem? 一 Steve perguntou, confuso. Fury tirou seu telefone da parte interna do sobretudo digitando uma sequência numérica logo após, e o som que o aparelho emitiu em seguida deixara o loiro em total alerta.

“一 Sinto muito, diretor, mas acho que o senhor ficará me devendo aquele laboratório.” 一 Steve deduziu que aquela voz deveria pertencer à mulher inconsciente naquele quarto. A voz dela estava ofegante e entrecortada, e ela murmurava coisas desconexas. Parecia estar se despedindo.
“一 Aguente firme, Evanoff. Estamos descendo.” 一 Uma voz grossa soou um pouco desesperada. E Rogers esperou pacientemente pela resposta da garota, mas ela não veio. A única coisa que continuava ouvindo era o som alto da respiração um pouco mais falha da mulher.
“一 Evanoff?” 一
Rogers levantou o olhar para Fury, ao identificar a aflição presente na voz do diretor.
“一 HAIL HIDRA.” 一 Ao ouvir aquela frase, imediatamente o capitão desceu o olhar novamente para o aparelho que Fury segurava, e segundos depois ouviu um tiro, com a mensagem automática de “conexão perdida” sendo dita pela voz da inteligência artificial logo em seguida.
一 Hidra? Isso é impossível! Quando isso aconteceu? 一 O soldado falou em disparada, procurando por respostas na feição de Fury.
一 Isso aconteceu um ano atrás. 一 Disse por fim, voltando a sua pose inicial fitando a mulher.
一 E qual foi a ordem para busca? Qual o relatório? 一 Questionou.
一 Não teve ordem, Capitão. 一 Fury confessou. 一 Você ouviu a gravação. Não mandei ninguém ir atrás dela. 一 Suspirou. 一 Achávamos que ela estava morta.
一 Nós acabamos com a Hidra, Fury. Eu acabei com a Hidra! Quem quer que esteja por trás disso, eu posso lhe garantir, não é ela! 一 Esbravejou, nervoso. Havia sacrificado tudo há setenta anos, não conseguia sequer imaginar a possibilidade de tudo ter sido em vão: perder sua vida, seu melhor amigo, seus amigos... Peggy. Era demais.
一 Depois desse incidente, não houve menção a Hidra outra vez. Então achamos que foi um caso isolado, e isso serviu de combustível para que eu agilizasse as coisas aqui dentro. 一 Steve continuava olhando para o corpo inconsciente de , e agora, sem aquelas grossas barras de metal que envolviam o corpo da garota, ele foi capaz de ver mais vergões em sua pele pálida. Não conseguia imaginar o que ela havia passado. 一 Fizeram alguma coisa com ela, Capitão. 一 A voz preocupada de Fury chamou sua atenção. 一 Digo, além dessas marcas e machucados. O cabelo dela não era dessa cor. Era curto, na altura do pescoço. Mas sabemos que o cabelo pode crescer. 一 Acrescentou. 一 Porém me diga, Capitão, qual a necessidade de pintar o cabelo de uma mulher que está sendo feita de prisioneira? 一 Steve parou para pensar naquelas informações soltas e sem sentidos que Fury agora havia dito, e o soldado não achava nenhuma conexão entre elas. Se havia sobrevivido, então quem quer que tenha lhe sequestrado, estava com ela todo esse tempo. Pois se a garota tivesse fugido, já teria procurado ajuda da SHIELD meses atrás. O que quer dizer que estavam a mantendo presa, provavelmente tentando tirar informação da organização. Isso poderia facilmente explicar os vergões. Tortura. Ela provavelmente havia sido torturada. Isso era o óbvio para qualquer um ali, então porque ele tinha a sensação que Fury insinuava outra coisa? A confusão no olhar do loiro se tornou quase que automaticamente em aflição. Se a mulher tinha mudado a sua aparência, como o diretor fez questão de frisar, aquilo só poderia significar uma coisa: disfarce.
Ao chegar à linha de raciocínio que Fury apresentava, o soldado o encarou.
一 Fizeram alguma coisa com ela. 一 Repetiu preocupado encarando com ainda mais intensidade a imagem de deitada naquela cama. Quase parecendo estar num sono tranquilo.
一 E é por não saber de onde vem o perigo que eu gostaria de compartilhar com você uma segunda coisa nesse dia. 一 Caminhou novamente para o elevador. 一 Mas só porque eu sou um cara muito legal. 一 Finalizou com um sorriso sarcástico antes de falar “Plataforma do Insight” para a inteligência artificial.

•••••

Horas mais tarde, depois da despedida mal educada do capitão e de averiguar mais de perto alguns detalhes do Projeto Insight, o diretor da SHIELD voltou para sua sala. Fechou a porta atrás de si e andou em direção a grande janela, observando a cidade um pouco mais distante. Aquele era um bom lugar para pensar, e Fury tinha muitos pensamentos para colocar em ordem naquele momento.
Agora com uma dúvida nascendo atrás de sua orelha. Tinha procurado Jasper Sitwell por toda a base não o encontrando, e coincidentemente, ao tentar entrar em contato, o homem não atendia suas ligações.
E ninguém colocava Nicholas Fury na caixa postal.
Desde que retornaram, Fury sentia que de alguma forma, o careca o evitava descaradamente. Saiu escoltado pela STRIKE assim que colocou os pés na base geral; seu relatório de missão tinha sido feito por um agente que não foi designado por Fury, e sim por Alexander Pierce; e agora ignorava as ligações do diretor.
Tinha alguma coisa errada ali. E Fury não chegou a essa conclusão por conta disso, o motivo do mais velho ter suas suspeitas estava única e exclusivamente ligada à misteriosa presença do oficial naquele navio. Sitwell não deveria estar ali.
一 Isolar escritório. 一 Pronunciou para a inteligência artificial, que automaticamente obedeceu ao seu comando. O diretor da SHIELD encontrava-se no escuro com aqueles acontecimentos, e não gostava nada disso. Nada poderia acontecer na SHIELD sem que ele soubesse. Com a janela agora completamente isolada, o homem deu meia volta e caminhou para a sua mesa, abrindo uma gaveta e revelando um fundo falso. Pegou o pendrive que mais cedo a agente Romanoff lhe entregara e o conectou na base. 一 Abrir arquivo do lançamento do satélite da Estrela da Lemúria. 一 Observou a grande tela acender e a I.A obedecer ao seu comando.
Acesso negado. 一 A voz robótica a I.A soou segundos depois ao ser bloqueada.
一 Decodificar. 一 Disse estranhando. A tela a sua frente, que ia quase que de uma parede a outra, mostrava vários arquivos presentes no pendrive, todos da SHIELD, porém, como o navio foi atribuído diretamente ao projeto da Estrela da Lemúria, era exatamente sobre isso que Fury gostaria de ver.
Falha na decodificação.
一 Comando do diretor. Fury, Nicholas J. 一 Aquele comando, seguido do reconhecimento de sua voz, deveria ser o suficiente para lhe dar acesso a qualquer coisa na SHIELD, uma vez que, além de diretor, ele estava no alto da hierarquia da sua companhia. Dentro da SHIELD ninguém estava acima de Fury, mas Fury estava acima de todos. Bom, pelo menos era o que ele pensava.
Comando negado. Todos os arquivos protegidos.
一 Quem foi que ordenou isso? 一 Desconfiado, ele perguntou.
Fury, Nicholas J. 一 A voz robótica e fria da I.A soou, somando a sua desconfiança. Fury não tinha dado aquela ordem, não tinha chegado a abrir qualquer arquivo desde que a equipe liderada pelo capitão havia retornado. Então como era possível ele ter dado aquela ordem, se ele não tinha aberto os arquivos ainda? E o pior, como ele teria feito para negar seu próprio acesso caso quisesse olhar os arquivos depois?
一 Relatório de missão: Sitwell, Jasper. Navio da Estrela de Lamúria. 一 O diretor se apressou em falar, agora com um incômodo muito maior crescendo. E esse não estava atrás de sua orelha. Fury sentia como se tivesse crescendo por todo seu corpo.
Não há nenhum relatório presente.
­
一 Decodificar. 一 Isso era impossível, o diretor viu quando um dos agentes levava Sitwell para uma sala de interrogatório.
­一 Acesso negado.
一 Quem ordenou isso? 一 Sua mão foi em direção ao seu olho bom e pressionou o local, na falha tentativa de clarear sua visão... E quem sabe a mente.
Fury, Nicholas J.
一 Abrir arquivos de Sitwell, Jasper. 一 Não fazia sentido. Ele estava confuso. Nenhuma daquelas ordens tinham partido dele.
Acesso negado.
一 Quem deu a ordem?! 一 Quase gritou.
Fury, Nicholas J.
Mesmo não querendo dar ouvidos às suas paranoias, a explicação, contudo, era muito clara. Não estava nos planos de ninguém que aquele navio fosse raptado por piratas. Logo, se tudo corresse como o programado, iria ser uma viagem de um ponto a outro, e ele não precisaria se preocupar. Consequentemente, ignorando todos os detalhes fúteis. Como por exemplo: o que Sitwell estava fazendo ali? Por que não conseguia ter acesso aos arquivos do seu próprio projeto? E o mais importante... O que estava fazendo ali?
Aquela era uma missão da SHIELD. Era um navio da SHIELD.
A menos que não fosse.
Precisava se manter calmo, pois o que estava deduzindo era bem mais obscuro e perigoso agora.

一 Onde Alexander Pierce está? 一 Perguntou, um pouco atordoado. Seu colega de trabalho poderia ouvir suas preocupações e dar um fim àquela desconfiança. Tinha certeza de que Pierce seria capaz de lhe explicar o que era aquilo e que não passava de um mal entendido. No entanto, porque sentia que estava certo sobre aquilo? Aquilo não era uma paranoia, seus instintos gritavam por isso. E Fury sempre confiava em seus instintos.
Está em sua sala, senhor. No setor do Conselho Mundial de Segurança. Em uma reunião.
Entretanto, antes de conseguir seguir seu plano para ir de encontro ao homem, mais uma vez a voz da I.A o chamou. 一 A doutora Hastings está na linha direta, e deseja falar com o senhor.
一 Me passe a ligação. Isolação total. 一 Murmurou, cansado.
Diretor? 一 Chamou, um pouco incerta.
一 Alguma atualização?
Preciso que o senhor venha aqui.
一 Tenho uma reunião para atrapalhar agora.
Senhor, preciso que venha aqui... Agora.

Estranhando o pedido urgente da médica, Fury rumou até a ala especial de contenção. Aquela conversa com Alexander Pierce poderia ser feita em outro momento, seria até melhor para o diretor. Lhe daria tempo para acalmar seus ânimos e colocar aquelas informações no lugar.
Ao passar pela porta do elevador, todos os pensamentos relacionados à Pierce e Sitwell ficaram para trás, pois uma nova onda de questionamentos se formava em sua cabeça. E todos eles o levavam até . Claro que se percebesse que existia qualquer chance de a agente continuar viva, ele iria buscá-la. Mas o que ouviu em seu comunicador naquele dia, há um ano, não deixava brecha para a hipótese da mulher continuar viva.
era sua melhor agente, já tinha lutado inúmeras batalhas pela SHIELD. E quando precisou, a organização lhe virou as costas.
Entretanto, Nicholas Fury sabia que toda aquela angústia ao pensar na agente, era porque ele se via um pouco ligado ao caso. Além de ser sua melhor agente, para o diretor, em quesito de confiar a sua vida, ela estava em segundo lugar, logo abaixo de Maria Hill. O que já dizia muito sobre como aliviado, espantado e preocupado ele se sentiu após Natasha lhe contar quem havia resgatado.
一 O que aconteceu? 一 Sua voz alta soou no fim do corredor, chamando a atenção da doutora e alguns enfermeiros que estavam ali.
一 O senhor precisa ver isso. 一 Hastings assegurou ao alcançar os passos largos do homem, andando lado a lado com ele. Entraram no quarto, continuava inconsciente, mas agora Fury era capaz de ouvir o batimento forte do coração da mulher. Estava se recuperando. 一 Retiramos um fio de cabelo dela para análise e o resultado acabou de chegar.
一 Você pode, por favor, mostrar um ponto nisso tudo? 一 Pediu, impaciente.
一 Como estava dizendo... 一 Continuou a médica sem se abalar pela impaciência do homem. 一 A análise chegou agora, então eu solicitei a antiga ficha médica dela para poder comparar. Não achei nada de diferente, nem no seu sangue ou na sua estrutura de DNA. Estava tudo igual. Mas... 一 A mulher agora levantou a mão em direção a Fury, que novamente iria lhe interromper. 一 Eu só olhei para a ficha, não para a foto da agente. 一 Finalizou, esperando que aquela ênfase tivesse sido o suficiente para o homem perceber sozinho. E quando aquilo não aconteceu, ela respirou fundo, não era tão difícil assim de perceber. 一 A cor do cabelo dela está diferente.
一 Isso é óbvio! 一 Esbravejou. 一 Você me chamou aqui para me fazer perder tempo?
一 Diretor... 一 Tinha um certo tom de repreensão na voz da mulher quando ela fechou apertado seus olhos. Fury nunca estava em um dia bom para esperar uma conclusão. 一 Qual a cor natural do cabelo da agente Evanoff?
一 Sei lá... Preto? 一 Respondeu, impaciente. 一 Aonde você quer chegar com isso, Hastings?
一 Bom, de acordo com a análise feita há minutos atrás, essa... 一 Apontou com a caneta para o cabelo da mulher. 一 É a cor natural do cabelo dela.
一 Mas o quê? 一 Fury olhava espantado da médica para . Ele não entendia muito de cor de cabelo, mas sabia que o cabelo da mulher era escuro, quase um preto. E agora ele estava... Loiro. Um dourado, quase âmbar. Com algumas mechas grossas mais claras ainda, chegando em um tom perolado. Aquilo não era possível.
一 E não para por aí! 一 Hastigns pousou o tablet que carregava ao lado dos pés de Evanoff, e se aproximou ainda mais. 一 Venha ver. 一 Convidou gentilmente o homem a se aproximar. Um pouco incerto, Fury seguiu o caminho até as duas mulheres, e notou quando Hastings tirou uma pequena lanterna de um dos bolsos do jaleco, acendeu o objeto e o posicionou perto da pálpebra fechada de . 一 Eu não sei o que tinha naquele soro, mas estamos esperando a análise chegar para criarmos teorias sobre isso... 一 Não terminou de concluir a fala, pois no segundo seguinte, levou seu dedo delicadamente até uma das pálpebras da mulher e a abriu com cuidado, revelando assim seu olho e íris. Naquele momento Fury gostaria de esbravejar um palavrão, e ele estava na ponta de sua língua, porém havia perdido momentaneamente a habilidade da fala. Seu olhar estava perdido no rosto da agente inconsciente. estava exatamente do mesmo jeito que ele vira da última vez. Bem, exceto por aqueles dois detalhes. Mas ela não estava mais magra, o que lhe dava a certeza de que estava sendo alimentada. Seus músculos, que antes eram mais definidos, agora perdiam um pouco de definição, lhe mostrando que em algum momento ela parou de treinar, porém, não em todo aquele espaço de tempo. 一 Não que esteja um pouco na cara... 一 A voz da médica lhe chamou de volta para a realidade. 一 Mas também imaginamos que essa não é a cor natural dos olhos dela. Na verdade... Não é a cor natural dos olhos de ninguém. 一 Assim como os cabelos, a cor dos olhos da mulher estava diferente. Antes tinha os olhos azuis esverdeados, numa cor tão profunda e intensa, que era quase como se tivesse um oceano dentro de sua íris. E agora os olhos da mulher estavam num amarelo, puxado para o âmbar.
一 Ninguém mais pode saber disso até eu dar uma segunda ordem. 一 Fury se prontificou em dizer. Sua cabeça trabalhava rápido, formulando medidas protetivas e sigilosas para tratar aquela situação. 一 Redobre os cuidados nesse setor, a partir de agora apenas níveis 9 podem ter acesso aqui. Quero que você monte uma pequena equipe de confiança para tratar esse caso. Ninguém pode saber disso. 一 A mulher o encarava assustada e desconfiada. 一 O que aconteceu agora?
一 Minutos atrás, os agentes Rumlow e Sitwell estavam aqui.
一 Sitwell esteve aqui? 一 a médica balançou a cabeça afirmando. 一 E o que ele queria?
一 Veio ver o estado da agente, perguntou o que descobrimos. E eu expliquei tudo para ele da mesma forma que estou explicando para o senhor agora.
一 Ele viu isso?
一 Sim. E… 一 Continuou receosa. 一 Ele… 一 Pigarreou. Agora percebendo que acatar aquela ordem não havia sido a escolha mais inteligente. Na verdade, havia sido uma ordem estranha, mas ela aprendera desde cedo a não fazer perguntas. 一 Ele quis ficar sozinho com ela no quarto. Rumlow quase me tirou a força. Ficou parado na porta sem deixar ninguém entrar. Mas uns cinco minutos depois saiu rapidamente e escoltado por Rumlow. Achei que estávamos com problemas, foi então que solicitei sua presença. 一 Explicou.
一 Dispensada, Hastings. 一 Fury murmurou e a médica saiu logo em seguida, o deixando sozinho com Evanoff.
A dor que Fury estava sentindo latejar em sua cabeça não poderia ser normal e ele tinha certeza disso. Como o bom estrategista que era, estava sempre se concentrando em encontrar a melhor solução para os problemas que a SHIELD trazia. Apesar disso, naquele momento, ele não estava conseguindo formular nada. Olhou ao redor rapidamente e viu que não tinha ninguém ali, Hastings deveria ter esvaziado o local, e mentalmente agradeceu por isso.
Sentou-se na poltrona que estava ao lado da cama que se encontrava ainda inconsciente, e fechou o olho. Se concentrando no silêncio que emanava ali. Buscando internamente a resposta de como agir naquela situação.
Se Sitwell tinha ido até ali, então ele estava na base enquanto Fury o procurava, e ele estava fugindo a todo custo de encontrar com o diretor. Sitwell e Rumlow. Sua desconfiança estava certa afinal. Não poderia confiar em ninguém.
Levantou-se de supetão da poltrona e varreu o quarto com o olho, procurando um pedaço de papel. Não tinha. As fichas da SHIELD agora acompanhavam a tecnologia do século: digital. E Fury sabia que tudo digital poderia ser potencialmente invadido e alterado. Contudo, o diretor também sabia que havia coisas que não poderiam ser substituídas.
Concluindo aquela linha de raciocínio, o diretor andou em direção ao banheiro do quarto, e parando em frente a pia, puxou um papel toalha que estava suspenso e preso na parede. Tirou uma caneta do bolso e apoiando de qualquer jeito o papel contra a parede, escreveu um recado para sua antiga protegida. estava com os braços estirados e repousados na cama, um cobertor seguia dos seus pés até o meio de sua cintura, deixando os braços e mãos de fora.
Fury se aproximou da mulher, amassou o pedaço de papel e o depositou em sua mão, fechando a palma da mulher logo em seguida, na tentativa de esconder a mensagem.
Não confiava em ninguém, aquilo era um fato. Porém, aquela regra não era aplicada a Hill e .
Bom, ele esperava que aquilo ainda valesse para a mulher. Era um movimento arriscado, um ano tinha se passado. O rosto poderia continuar sendo o mesmo, mas ele não sabia quem iria acordar.
Contudo, a lista de pessoas que ele confiava estava ficando cada vez menor e não gostava nem um pouco disso.
Mas valia a tentativa.
Se quem acordasse fosse a Agente 09, ela entenderia o recado. Caso contrário, apenas alertaria que Fury estava ciente de tudo.
No papel amassado, as letras trêmulas diziam apenas sete palavras.

•••••


O barulho do bipe repetitivo latejava em sua cabeça, chamando sua consciência de volta à realidade. Mas aquela imensidão vazia e escura que estava imersa, lhe parecia muito mais convidativa. Não queria abrir os olhos. Até tentou, porém suas pálpebras pareciam que pesavam uma tonelada. Gostaria de continuar dormindo por mais algumas horas. Sua cabeça estava pesada, girando, confusa. E ao tentar levantar um dos braços, notou o quão dolorido seu corpo estava. Tudo doía, tudo estava machucado.
“Ela está acordando” 一 Uma voz feminina soou minutos depois. abriu os olhos sem muita vontade, para só então encarar o quarto vazio. Ela estava sozinha. Então quem havia falado? Olhou em volta e automaticamente reconheceu o quarto médico que estava, já havia passado por aquele setor algumas vezes. Porém nunca estivera ali como uma paciente, e isso a deixava angustiada, aos poucos lembrando o que tinha acontecido.
“Ela parece estar confusa. Acho que vou chamar a doutora Hastings.”
Assustou-se quando ouviu novamente a mesma voz. Em seu campo de visão, continuava sozinha. Com mais esforço do que previu, a loira levantou seu tronco, ajeitando-se naquela maca até que ficasse sentada, e quando estava prestes a chamar alguém, uma mulher alta, esbelta, morena e que aparentava ter seus quarentas anos, entrou em seu campo de visão.
一 Como está se sentindo, querida? 一 Emma Hastings perguntou, cautelosa.
一 Como se eu tivesse sido atropelada. 一 murmurou ácida, arrancando um sorriso frouxo da mais velha. 一 Por favor, me diga que estou na SHIELD. 一 Pediu, esperançosa.
一 É exatamente onde você está, querida. 一 Um alívio imediato percorreu por todo o corpo da mulher ao escutar aquilo. Estava salva, finalmente. Entretanto, embora estivesse sentido aquele alívio enorme, agora parecia que aquela sensação estava sendo drenada, e a medida em que ela era expulsa, uma nova emoção era imposta em seu corpo. Aflição. De onde vinha aquele medo? encarou os olhos da mulher e percebeu ali um receio. Aquele sentimento não era seu, era da mulher ao seu lado.
一 O que aconteceu? 一 Questionou sem rodeios. A médica a encarou um pouco espantada, já tinha ouvido boatos que a agente 09 era bastante perspicaz com o que acontecia ao seu redor, mas aquele raciocínio rápido era quase impossível. A loira tinha acabado de acordar, como era possível perceber que tinha algo errado?
一 Temos muito que conversar, mas por que primeiro você não vai tomar um banho? 一 Desconversou, sentindo a necessidade de adiar aquela conversa pelo menos por agora. Sabia que o momento chegaria, mas não imaginava ser nos primeiros minutos lúcida da agente, e pelo menos aquilo lhe daria tempo para pensar no que dizer a loira. 一 Tem uma muda de roupas dentro do banheiro, estarei te esperando aqui.
nada disse. Mesmo sabendo que tinha algo errado, que algo muito estranho tinha acontecido, ela também sabia que precisava de um banho. Quanto tempo que não tomava um? Não lembrava, nem gostaria de forçar sua memória para recordar aquele fato inútil.
Emma retirou o pequeno lençol de suas pernas e o choque térmico fez com que seus pés e mãos se encolhessem sobre o lençol.
Foi ali que ela sentiu. Seu olhar instintivamente se direcionou até a mão esquerda, onde sentiu o pedaço de papel amassado. Desconfiou, contudo não sabia se poderia confiar na médica ao seu lado para questionar aquilo. Por isso fechou com ainda mais força a mão, na tentativa de esconder qualquer detalhe do pedaço de papel. Viu quando Emma estendeu sua mão para lhe ajudar a levantar, e balançou a cabeça negativamente. Poderia se levantar sozinha. Sem muita delicadeza, girou seus quadris para o lado da cama, deixando agora suas pernas suspensas. Puxou o ar com mais força, e se pôs de pé. Estava praticamente colada à cama, os braços faziam força, como uma resposta automática de seu cérebro que tinha medo de cair. Encarou o chão por alguns minutos e quando se sentiu confiante o suficiente, deu o primeiro passo, e depois mais outro, e outro. Nada parecia estar errado.
Olhou para a mais velha, que encarava aquilo um pouco abismada, porém com um sorriso no rosto, e não sabia como, mas sentia a hesitação que vinha da médica.
Mais alguns passos à frente e a espiã já estava dentro do banheiro, fechando a porta e a trancando logo em seguida. Seu olhar virou em direção onde se encontrava, analisando todo o ambiente: logo ao seu lado direito, um espelho pendurado na parede e abaixo dele uma pequena pia. A sua frente, um pequeno box com chuveiro. E ao lado da pia, um pouco mais distante, um vaso sanitário, com a tampa fechada, e em cima, uma muda de roupas.
Respirou fundo ao notar estar segura ali, deu um passo para trás se encostando à porta que agora lhe servia de apoio e abriu o pequeno papel que estava escondido em sua mão.

Acho que minha esposa está me traindo.

Respirou fundo. Uma, duas, até mesmo quatro vezes. Reconheceria aquela letra mesmo depois de 100 anos sem vê-la. E a forma como a escrita estava apressada e falha, só lhe mostrava a urgência que a pessoa teve ao escrever e deixar aquele bilhete para trás com ela.
Fury não tinha esposa, e só tinha uma coisa que ele mencionava em algumas brincadeiras “ser casado”: a SHIELD.
Nicholas Fury dizia não ter tempo para romances porque estava casado com o trabalho.
Seu trabalho era na SHIELD. Era a SHIELD.
Então, Fury havia deixado uma mensagem secreta para ela, a alertando que a organização estava comprometida? Toda a organização?
Amassou ainda mais o bilhete em sua mão, andou em direção ao vaso sanitário, abriu a tampa, jogou o pedaço de papel e deu descarga.
Havia um motivo para aquilo estar escondido e ela já tinha percebido.
Fury não queria que ninguém descobrisse.
Tirou as roupas de seu corpo rápido e de qualquer jeito e entrou no box logo em seguida. A água quente tocando em sua pele, enviando estímulos relaxantes por todo seu corpo, quase sendo capaz de fazê-la esquecer do que tinha acabado de ler. Precisava pensar em algum plano. Precisava falar com Fury.
Manteve os olhos fechados quase que o tempo todo, aproveitando minimamente seus poucos segundos de paz. Até que colocou a cabeça debaixo do chuveiro, e quando a água molhou todo seu cabelo, desfazendo o coque que o prendia, ela notou o quão grande ele estava. Ele não era daquele tamanho. Pegou uma mexa e arregalou os olhos, se espantando com o tom mais claro que observava. Fechou o registro imediatamente e saiu do box às pressas indo em direção ao espelho embaçado. Passou a mão no vidro na tentativa de limpar a camada de vapor e desfoque que tinha se formado e assustada, deu um pulo para trás ao encontrar seu reflexo.
Suas mãos trêmulas imediatamente subiram em direção ao seu rosto, tocando ao redor dos olhos, logo abaixo da pálpebra inferior enquanto observava, com mais cautela e intensidade, a cor dos seus olhos sendo refletidos a sua frente. Desviou minimamente o olhar, reparando que aquilo não era a única coisa diferente ali… Seu cabelo estava muito longo, um pouco depois de sua cintura, e… Loiro. Em dois tons: dourado e perolado.
Quando isso tinha acontecido? Ou melhor, o que aconteceu com ela?
A única ordem que seu cérebro enviava ao resto do corpo era a paralisação. Por um minuto, todo seu corpo travou. E a única coisa que era capaz de produzir agora, eram aquelas dúvidas. Baixou a cabeça e fitou seus pés descalços, sentindo-se incapaz de continuar encarando aquele reflexo que um dia pareceu ser seu. Fechou fortemente os olhos e se forçou a lembrar qualquer coisa. Recordava-se fielmente da sua última missão. Do alerta de invasão a uma antiga e inativa base da SHIELD. De se disfarçar para entrar na base. Perceber que aquele local não estava inativo e tão pouco tinha sido invadido… Quer dizer, em algum momento houve uma invasão, porém, ao notar como o lugar estava desenvolvido, aquela invasão não tinha acontecido nos últimos trinta minutos. Lembrava-se também de conseguir salvar os dados da SHIELD. De tentar fugir. De levar um tiro. E então… Acordar minutos atrás.
Quanto tempo tinha passado desde aquela memória?
Seus olhos agora amedrontados voltaram ao espelho, mirando profundamente em seu rosto. Pálido, mais magro, cansado e machucado.
“Quanto tempo?” pensou. Contudo, ao julgar pelo tamanho de seu cabelo, constatou ter sido muito. Decidida a não ficar se remoendo em dúvidas, puxou a toalha e enxugou seu corpo rapidamente. Andou em direção a muda de roupas que viu e pôs-se a vestir. Não era um uniforme de combate, muito menos um moletom da SHIELD. Era uma roupa de civil. Calça jeans de lavagem clara, uma camiseta cinza e um tênis branco. Não era a melhor combinação da sua vida, porém também estava longe de ser a pior. Qualquer coisa era melhor que aquela camisola de hospital. Enrolou a toalha na cabeça, na intenção de secar um pouco seus cabelos e vestiu-se com pressa. Estava passando a blusa por sua cabeça quando ouviu a voz da médica sair contida e pávida do outro lado da porta. Ao escutar seu nome, Evanoff olhou em direção ao som, e se esforçou para ouvir aquela conversa.
一 Ela acabou de acordar, agente Rumlow. escutou a voz abafada e nervosa de Emma. Escutou também quando passos pesados se aproximavam cada vez mais em direção à porta. Evanoff passou rapidamente a camiseta por sua cabeça, terminando de se vestir e velozmente ficou de frente a porta, segurando a maçaneta como se sua vida dependesse daquilo. Não entendia de onde todo aquele nervosismo e medo estava vindo, nunca tinha ficado tão aflita em toda sua carreira, e o pior… Por nada. Já havia trabalhado com Rumlow outras vezes, não tinha motivo algum para temer o homem. 一 Não ouse abrir a porta, agente. Ela é minha paciente e só será liberada quando eu disser que ela está liberada. 一 Percebeu a tentativa da mais velha em ser autoritária e exigente, contudo, como havia dito, conhecia Rumlow. E aquilo definitivamente não seria o suficiente. Ainda assim, ao identificar os passos do homem ficando cada vez mais distantes e abafados, suspirou em alívio.
Você tem vinte minutos. E então eu vou voltar aqui e a levarei. 一 O alívio, contudo, se esvaiu completamente quando o timbre grosso daquela voz entrou em contato com seus ouvidos. Sua cabeça doeu. Latejou. Tinha alguma coisa diferente na voz dele que fez com que sua estrutura fraquejasse por um momento. Mas não era só a voz dele. Era ele. O que a deixava confusa, porque já trabalhara com o agente por anos, e o homem já tinha a salvado tantas vezes que até tinha perdido a conta, então… Por qual razão seus batimentos aceleraram e seu estômago revirou?
Contudo, antes de pensar em uma explicação, arfou ao sentir uma pontada muito forte em sua cabeça e uma de suas mãos foram de encontro ao local que agora palpitava em dor, sua visão ficou totalmente ofuscada e sua mente a levou para outro lugar.

Suas pernas vacilavam à medida que as forçava a correr ainda mais. Tinha noção de que alguém estava correndo atrás dela, mas não ousou olhar para trás em nenhum momento, sendo barulho dos passos fortes o suficiente para que soubesse que estavam próximos. Aquele lugar era como um labirinto, entrava em um corredor que levava para uma sala e nessa sala, uma porta que a levava a outro corredor longo, vazio, sem vida. Era um ciclo sem fim. Estava perdida. Uma fraca luz irradiava ao fim daquele imenso vazio, era uma placa, que dizia em perfeito russo “Saída”. Seu coração por um momento quase parou de bater, sem acreditar que finalmente iria conseguir escapar daquele lugar. Apertou os passos, e prendeu um sorriso de alívio que teimava sair, agora mais determinada a dar um fim àquele longo e terrível pesadelo. Estava quase no meio do caminho quando sentiu uma rasteira em seus pés, fazendo com que todo seu corpo fosse bruscamente de encontro ao chão. Seus reflexos, por mais que estivessem um pouco cansados, não a abandonaram, fazendo com que instintivamente, com suas mãos, empurrasse o corpo para cima levantando-se. Encarou o homem que lhe aplicara o golpe, e ele carregava um sorriso sarcástico. Não a atacou de novo, ao contrário, estava esperando que levantasse para que lutasse contra ele.
Não era a primeira vez que o via ali, ele estava presente em todos os momentos desde que ela chegara aquela base. Ele havia atirado nela em sua última missão a SHIELD. Ele que havia delegado que a torturassem, por pura diversão, para tentar fazê-la abrir a boca e contar o que sabia sobre Fury. Ele que, quase uma vida atrás, Evanoff confiaria sua vida de olhos fechados.
一 Rumlow. 一 Pronunciou o nome dele com nojo escancarado em sua voz.
一 Para onde está indo, agente? 一 Aquele sorriso sarcástico triplicou de tamanho. A última palavra quase fazendo cócegas na língua do homem.
一 Estava te procurando. 一 Apontou para ele dando de ombros. 一 Tenho que te dar uma surra grande antes de voltar para casa. 一 Mesmo após sabe-se lá quanto tempo ali, e tendo passado por inúmeras torturas, sendo elas psicológicas ou físicas, não havia perdido a confiança e a prepotência em sua voz. Por dentro estava se debatendo em medo, mas diferente das outras pessoas, o medo não a fazia correr. O medo era o combustível para que ela atacasse. Sem esperar uma resposta do homem e o pegando desprevenido, fechou o punho e com toda força que tinha, acertou a traqueia de Rumlow. As mãos do moreno foram em direção ao local atingido quase que automaticamente, já sentindo a falta de ar que aquele golpe produzia. Evanoff girou o corpo em uma cambalhota e com as pernas no ar, atingiu-lhe o peito, fazendo-o cambalear para trás e cair logo em seguida. Rumlow não a tinha atacado, pois queria a menosprezar um pouco antes disso, pensava que a mulher estava fraca demais para entrar em combate. Talvez aquele tenha sido o seu maior erro. Subestimá-la. Havia um motivo para ser conhecida como Agente 09 na SHIELD. Pois, quanto menor o número de identificação de um agente, maior era o perigo que ele representava. No mesmo momento em que seu corpo se retraía em desgaste, ele forçou-se a levantar, a encarando com ódio. 一 Pretendo levar para Fury, sua cabeça imunda e traidora em uma bandeja. 一 A mulher debochou.
一 Vamos ver. 一 Passou as costas da mão por sua boca, limpando um resquício de saliva que encontrou por ali. Rumlow se colocou em posição de ataque e correu em direção ao seu alvo. As tentativas de socos e golpes que ele concedia contra o corpo da mulher eram facilmente desviados por ela. era uma ótima estrategista em ataque, primeiro estudando os movimentos do oponente, para depois atacar. Naquele caso, não seria diferente. Mesmo já conhecendo o estilo de luta de Rumlow, a mulher se viu na necessidade de observar como ele estava a atacando, visto que, não se sentia forte o bastante naquele momento. Sua única opção era usar o peso do corpo do homem à sua frente como vantagem. Quando sentiu-se completamente segura, segurou a mão de Rumlow que veio em punho fechado para lhe acertar o rosto. Com força, torceu a mão dele e aproveitando o apoio do peso do mais velho, Evanoff impulsionou suas pernas para cima, ficando de ponta cabeça e passando cada uma de suas pernas ao redor da cabeça do seu adversário. Seu apoio agora, além daquele corpo, era a mão do seu oponente, que torcia fortemente. Treinou aquele golpe tantas vezes com Natasha, que agora seu corpo o reproduzia naturalmente. Agora com as pernas envolta a cabeça do homem, mais especificamente em torno do pescoço, forçou seu corpo para trás, fazendo com que o peso em suas pernas o desequilibrasse completamente, que girou antes de cair batendo fortemente suas costas no chão. Rumlow ainda tentou se debater, mas a mulher segurava seu braço com vigor, uma mão em seu pulso, ainda o torcendo, e a outra em seu antebraço, forçando no sentido oposto. Os pés de Evanoff se entrelaçaram, e ela flexionou os joelhos, intensificando ainda mais aquela pressão. Não demorou cerca de trinta segundos naquele golpe, e o homem desmaiou.
levantou-se rapidamente, e antes de dar as costas e fugir, chutou o estômago do seu oponente com toda força que ainda lhe restava.
一 Cuzão. 一 Juntou o máximo de saliva que conseguiu e cuspiu o rosto dele. Girou-se no sentido contrário a aquele corpo desmaiado e novamente pôs-se a correr em direção aonde acreditava ser a saída. Seu coração batia descompensado, estava ofegante e sentia a expectativa crescendo forte em seu peito. Iria conseguir. Estava tão perto. Tão perto.

O som dos dois toques na porta foram o bastante para quebrar sua concentração, a trazendo de volta a realidade num lampejo. Não precisava de um espelho para perceber que seu rosto estava contorcido em uma careta, ou que sua nuca estava molhada em suor, ou que continuava segurando aquela maçaneta com tanta força, que seria capaz de arrancá-la da porta a qualquer instante. Sua cabeça doía, agora bem mais que minutos atrás, porém não como uma pontada forte e violenta. Ela sentia uma dor latejante, uma dor que pesava e emanava por todas suas terminações nervosas. Não tinha dúvida de que aquilo se tratava de uma lembrança, e em resposta ao estímulo de minutos atrás, seus pelos eriçaram completamente. Fury estava certo, afinal de contas. Sua esposa estava mesmo o traindo. Mesmo tendo acordado minutos atrás, aquela lembrança não parecia uma alucinação. Evanoff sentia que sua mente estava nos eixos. Rumlow era o traidor que Fury mencionava? Mas, a mensagem contida naquele bilhete mencionava toda a SHIELD. Então, toda a organização estava comprometida? Eram muitas perguntas sem respostas, e aquela situação a deixava estática, beirando ao desconforto. Soltou a maçaneta e levou suas mãos até a altura de seu peito, notando ali o quão trêmulas elas estavam. Precisava se acalmar antes de qualquer coisa, ansiedade e nervosismo não lhe ajudariam em nada a partir dali. Passou os dedos por seus (agora) longos cabelos na tentativa de deixá-los mais arrumados e abriu a porta, encontrando Emma Hastings sentada na poltrona ao lado da cama, batucando as pernas e com o dedo na boca. Estava nervosa, deduziu a agente.
一 Não temos muito tempo… 一 Foi a primeira coisa que Hastings disse ao ver a silhueta da garota entrar novamente naquele ambiente. parou de andar no momento em que recebeu aquela informação. 一 Ele vai voltar a qualquer momento. Adiei o máximo que consegui, eles queriam que eu te induzisse a acordar, e eu disse que você teria que fazer isso sozinha. 一 A morena levantou e caminhou até ficar frente a frente com Evanoff, a segurando pelos ombros. 一 Mas você acordou, e não demorou muito para que os boatos corressem…
一 O que está acontecendo? 一 Sua voz saiu como um sussurro, com medo de que alguém pudesse estar escutando aquela conversa.
一 Não confie em ninguém. 一 Hastings tirou um óculos escuro do bolso do jaleco e entregou para . 一 Não deixe que desconfiem de você. 一 Ao pegar aquele objeto, a loira captou a mensagem que Emma lhe passou, colocando-o no rosto no mesmo momento. As lentes escuras do óculos impediam que vissem a cor dos seus olhos.
一 O que está acontecendo? 一 Voltou a perguntar, muito mais desconfiada agora do que antes. Algo crescia dentro dela, e não saberia dizer em que momento todo aquele medo passou a correr por suas veias. Aquilo não vinha dela. 一 O que aconteceu comigo?
一 Eu queria poder explicar… 一 A mais velha soou frustrada. 一 Mas infelizmente não tenho essa resposta. 一 abriu a boca para falar mais alguma coisa, porém não sabia o que dizer, por isso a abriu e fechou várias vezes. Estava muda, perdida em pensamentos. As duas mulheres se encaravam, os olhos das duas transmitindo coisas diferentes, que ao mesmo tempo, eram tão iguais: dúvida e apreensão. Toda a desconfiança que a agente nutria pela médica, se esvaiu no momento em que a mulher lhe tocara nos ombros. sentia que ela estava sendo sincera. E aquele sentimento não fora deduzido logicamente, como aprendera em um de seus treinamentos. Claro que a agente tinha observado cada aspecto da doutora. Os olhos dela estavam fixos aos seus, não quebrando o contato em momento algum. Sua voz estava contida, mas sem fraquejar. E sua expressão era de preocupação. Hastings não estava mentindo. Contudo, o que fez com que a espiã acreditasse na morena foi a sensação que teve. E era forte, gritante.
一 O que faremos agora? 一 Tentou soar o mais profissional e neutra, mesmo que a agonia tomasse conta de todo o seu interior. No entanto, antes mesmo que a médica tivesse a oportunidade de falar alguma coisa, o sentiu. O arrepio forte e doloroso tomou conta de toda sua pele. A raiva e o ódio criando vida dentro de si. Ele estava ali. Virou a cabeça lentamente em direção a saída do quarto e sua visão encontrou o homem que a encarava sério. Rumlow estava com os braços cruzados na altura do peito e encostado na lateral da porta. Espontaneamente seu braço esquerdo levemente empurrou a doutora para o lado e seu corpo tomou a frente do dela. Criando com seu corpo, uma barreira de proteção para a médica. Como dito, o medo não a fazia correr. A deixava em alerta, pronta para o ataque. Por longos segundos o silêncio reinou, apenas o som da respiração dos três era possível de se ouvir. sentia o medo da médica ao seu encalço e a hesitação do homem à sua frente. Mas ela continuava parada, esperando alguma reação do líder da STRIKE.

“Ela não se lembra de nada.”

Era a voz de Rumlow que dizia aquilo, mas os lábios não se mexeram. franziu o cenho ao perceber aquilo. Como era possível escutar a voz de alguém que não havia falado?

一 Você deixa sua parceira fazer uma missão sozinha e ela quase morre. 一 Meio hesitante, falou. 一 Tcs. Tcs. 一 Sua língua prendeu no céu da boca, emitindo um som de negação. 一 Desse jeito nunca mais vamos poder te dar missões individuais. 一 Completou em um tom brincalhão. continuava parada, em posição de ataque, encarando seriamente o semblante risonho do traidor. 一 ? 一 A chamou, desconfiado, agora sua postura ficando séria. Seus braços, antes cruzados, rompeu o entrelaçar e sua mão desceu lentamente, ficando bem próxima a arma presa em seu coldre. De repente, a hesitação crescia novamente em seu interior.

“Não deixe que desconfiem de você”

Era o que dizia a voz de Emma sussurrando ao pé de seu ouvido, quase que dentro da sua mente. Sem tempo para questionar o motivo de escutar todas aquelas vozes em sua cabeça, decidiu seguir o que a única voz de confiança daquele quarto, a orientava.
一 Eu sei que você estava morrendo de preocupação. 一 Relaxou sua postura e formou o maior sorriso maldoso que conseguia.
一 Nunca mais faça isso comigo! 一 A loira notou quando o pensamento do moreno comemorou por estar certo. não sabia de nada. 一 Desculpe ser grosso mais cedo, doutora. 一 Se desculpou, olhando para a mulher que continuava atrás da agente. 一 Perdi a cabeça quando soube que você tinha acordado e precisava te ver. 一 Voltou a falar olhando para Evanoff.
一 Cuidado, Rumlow. Falando assim vou pensar que está apaixonado. 一 Calculando friamente sua entonação, a mulher falou. O tom poderia até ter saído divertido, mas sua mente estava atenta a cada movimento.
一 E esses óculos? 一 O moreno perguntou com curiosidade. teve que segurar a resposta malcriada na ponta da língua. De acordo com a lembrança que teve minutos atrás, o líder da STRIKE estava presente em todos os momentos do seu sequestro, então era mais do que claro que ele sabia o que ela escondia por trás da lente escura.
一 Os olhos dela estão sensíveis. 一 Foi a vez de Hastings se pronunciar.
一 Está tudo bem? 一 Rumlow a perguntou, a entonação abalada em sua voz. Quase fazendo com que acreditasse que estava preocupado. Quase. balançou a cabeça em afirmação, não prolongando muito aquele assunto.
一 Então, veio aqui para ver se me beijando eu iria acordar?
一 Sempre cheia de piadas. 一 Rolou os olhos. 一 Estou aqui para te levar até o Secretário Pierce. 一 Foi direto ao assunto. 一 Todos ficamos muito felizes quando soubemos que você acordou, e o Secretário quer falar com você.
一 Poderia me adiantar o assunto? 一 O que o conselheiro mundial de segurança iria querer com ela? Suas suspeitas só aumentavam, entretanto, sabia que se negasse ir de encontro ao secretário, iriam desconfiar de sua conduta. Afinal, qualquer agente ficaria honrado em ser reconhecido por membros tão altos da SHIELD.
一 Não diga que eu te disse, mas tem a ver com um pedido de desculpas. 一 Rumlow falou baixo, como se fosse um segredo.
一 Isso eu pago para ver. 一 Riu, descrente daquela possibilidade. 一 Até mais doutora. 一 Virou-se para a mulher e tocou suas mãos, tentando de alguma forma lhe dizer que estava tudo bem, que ela tinha entendido o recado. Haviam muitas perguntas, mas infelizmente não teria tempo de descobrir as respostas junto da médica, o melhor a se fazer para a segurança das duas era seguir Rumlow e agir como se não soubesse de nada. O líder da STRIKE internamente comemorava a amnésia da espiã, e era nisso que ela iria se segurar. Se ele estava esperando que ela acordasse sem memória, era exatamente isso que faria. Encarando a mais velha por dois segundos enquanto sua mente repetia aquilo, desejando que de alguma forma, ela pudesse ler seus pensamentos também. Viu quando a médica franziu o cenho, mudando sua feição para desconfiada ao mesmo tempo que balançava a cabeça, concordando. interrompeu o toque, e foi em direção a porta, sendo acompanhada por Rumlow que vez ou outra fazia alguma brincadeira com ela. Enquanto isso, Emma Hastings continuava parada, observando aquela cena, até os dois entrarem no elevador e sumirem de sua visão ao fechar das portas. Emma ficou naquela posição por longos minutos, e se perguntava como era capaz de ela ter ouvido com tanta nitidez, a voz calma e segura da agente, lhe dizendo que iria ficar tudo bem e que havia entendido o recado.



Capítulo 03

O elevador logo abriu no andar solicitado pelo líder da STRIKE, não tiveram mais tempo de conversarem depois de ter saído da ala de contenção e agradecia mentalmente por aquilo. Todos os seus esforços no momento estavam direcionados a continuar no personagem que Rumlow pensava. E oh, ele pensava bastante.
Ao saírem do elevador, Alexander Pierce os estava esperando em sua porta. O mais velho acenou com a cabeça para Rumlow que imediatamente parou, deixando que apenas prosseguisse até seu encontro.
一 Agente 09. 一 Ele a cumprimentou, sorrindo, segurando sua mão em seguida. 一 Sou Alexander Pierce. 一 Apresentou-se. o sentia calmo, sereno. Não hesitava sua presença, ao contrário, emanava um pouco de felicidade ao vê-la ali. E pelos minutos seguintes, a loira decidiu confiar nele.
一 Senhor, é uma honra. 一 Retribuiu o aperto de mão com confiança. Pierce estava vestindo um terno cinza escuro, uma camisa social preta, e a gravata ao redor do seu pescoço imitava a cor da camisa. O homem esticou a mão para dentro da sala, indicando para que a mulher entrasse. A sala era grande e com poucos móveis, dando um ar mais sofisticado ao local. A grande mesa estava posicionada próxima à porta que acabaram de passar, e ficava de frente a grande janela, lhe dando a visão da cidade inteira a sua frente. O dia estava bonito, o céu azul em contraste com aquela sala em tons cinza fazia com que seus olhos doessem um pouco.
一 Sinto muito pelo que tenha passado, agente Evanoff. 一 Pierce chamou sua atenção. Agora ele estava próximo a um aparador, destampando a garrafa de uísque e se servindo em seguida.
一 Obrigada, senhor. 一 Murmurou.
一 Me diga, agente… 一 Continuou, agora andando em direção a sua mesa e indicando para a mulher sentar na poltrona à sua frente. 一 O que houve com seus olhos? 一 Até aquele momento, a mulher não havia tirado os óculos de seu rosto, e praguejou baixo ao perceber isso. Porém, as palavras de Emma ainda ecoavam em sua cabeça. Poderia confiar em Pierce? Soltou um risinho nervoso e passou o olhar por toda a sala, encontrando ali, em cima do aparador, ao lado de algumas garrafas de uísques, uma foto de Pierce com Fury. Eles pareciam bem mais novos na foto, estavam frente a frente, e pelo que notou, faziam um juramento, pois a mão direita dos dois estava erguida. Ao fundo era possível ver a bandeira dos Estados Unidos, junto com o símbolo da SHIELD esculpido na parede. voltou a encarar o secretário, e o olhar que ele sustentava enquanto aguardava sua resposta, a deixou desconfortável. Abaixou a cabeça, mirando seus pés protegidos pelo tênis branco, Fury confiava naquele homem, e sabia que trabalharam juntos quase que a vida toda. Fechou os olhos com força e sua mão se direcionou até os óculos escuros os tirando. Levantou a cabeça e abriu os olhos, sustentando agora o olhar do secretário. Alexander Pierce admirou aquela íris amarelo âmbar, internamente estava orgulhoso do que sua organização foi capaz de fazer. 一 O que aconteceu com você?
一 Eu não sei. Não consigo lembrar. 一 Mentiu. Estava prestes a confidenciar ao mais velho o que tinha lembrado, quando novamente uma onda de sentimentos lhe atingira. E ela sentia que o homem à sua frente estava orgulhoso do que estava vendo. Em partes, realmente não conseguia lembrar o que tinha de fato acontecido com ela para que estivesse daquele jeito, mas se lembrava o suficiente para compreender que Rumlow era um traidor. Sua mente, mais uma vez entrou em um curto, porém, agora durou apenas 1 segundo. Um segundo e ela lembrou-se da última coisa que escutou antes de apagar. Hail Hidra. 一 Lembro da minha missão. 一 Continuou. 一 Tinha que recuperar arquivos da SHIELD, tentei fugir e levei um tiro. Depois disso, a minha última lembrança foi acordar aqui. 一 Pessoas normais mostravam certa relutância em mentir, apresentando, mesmo que inconscientemente, um padrão de nervosismo. Como não conseguir olhar nos olhos da pessoa. Ou sempre desviar o olhar para a direita antes de falar. Ou batucar os pés. Segurar as mãos... Mas não apresentava nada. Para ela mentir era tão fácil quanto respirar.
一 Vou pedir que você vá ao laboratório e faça alguma tomografia do seu crânio. 一 Alexander disse, cordial. 一 Mas não se preocupe, Emma disse que você não aparenta ter problema algum. Vamos só tentar encontrar a causa dessa amnésia e quem sabe descobrir quem fez isso com você. Adoraria prendê-lo com minhas próprias mãos.
一 Obrigada, senhor. 一 Hesitou, pensando em como tocar no próximo assunto. 一 Senhor… 一 O chamou. 一 Gostaria de falar com o Diretor Fury. Não o vi desde que acordei.
estava pronta para se levantar, quando viu Pierce tomar um grande gole do seu uísque respirando fundo em seguida. Fitou seus olhos, e eles queriam transparecer tristeza, mas estava vazio. O olhar de Pierce era oco. Um incômodo grande começou a se formar dentro do corpo da garota, que ansiava pela resposta do secretário que parecia fazer uma pausa dramática antes de lhe dizer algo ruim.
一 Eu sinto muito, . 一 Escutou quando seu primeiro nome saiu da boca do mais velho, na tentativa de enfatizar o quão sério era aquilo. 一 Fury está morto. 一 Por um momento sentiu seu coração parar de bater, uma dor avassaladora tomando conta de seu peito, o impedindo de bombear sangue. Não notou quando tinha prendido a respiração, mas a queimação de seus pulmões em busca de oxigênio foi o suficiente para lembrar que precisava respirar. Levantou-se da cadeira no mesmo segundo em que assimilava as últimas palavras do secretário. Fury estava morto.
Acho que minha esposa está me traindo.
Fury morreu.
Acho que minha esposa está me traindo.
Fury morreu pelas mãos da SHIELD.
Acho que minha esposa está me traindo.
Fury morreu e antes disso acontecer, deixou com ela um bilhete.
Iria vingá-lo.
Sentiu quando a mão gélida do secretário Pierce tocou seu ombro, na tentativa de chamar sua atenção, pois tinha certeza que se perdera mais uma vez em pensamentos. Felizmente, ou infelizmente, o toque do homem contra sua pele, mesmo que protegida pelo tecido da camiseta cinza, não a protegeu de reconhecer todos os sentimentos que o mais velho emanava. Dois em questão, a deixaram em alerta. Pierce estava feliz e aliviado ao falar em voz alta que Fury estava morto. Aquela realidade onde Fury não existia mais para atrapalhar seus planos, o agradava.
一 Quando isso aconteceu? 一 Sua vista estava embaçada pelas lágrimas que tentava a todo custo não deixar cair. Não daria o gostinho de chorar pela morte do seu chefe à pessoa que provavelmente encomendou sua morte.
一 Dois dias atrás. 一 Pierce disse, tentando soar ameno. 一 Mas não se preocupe, criança. 一 Afagou sua cabeça. 一 Já estamos cuidando disso, temos um suspeito.
一 Quem? 一 Queria fugir dos toques que Alexander estava oferecendo, sentindo um nojo crescendo na boca do seu estômago, a ânsia de vômito subindo para a sua boca.
一 O Capitão América foi a última pessoa que viu Fury vivo. 一 Pierce controlava cada movimento que exercia. 一 Fury morreu no apartamento do Capitão. 一 Sua linguagem corporal se tornou tensa, esforçando-se para mostrar desconforto ao lhe dizer aquilo, na tentativa de manipulá-la a acreditar que Steve Rogers tinha alguma coisa a ver com o assassinato de Nicholas Fury. E foi ali que sentiu pela segunda vez. A mesma hesitação que Rumlow emanou ao vê-la, estava vindo agora do Conselheiro Mundial de Segurança.
一 Eu preciso de ar. 一 Sussurrou. 一 Obrigada por me receber, senhor. 一 Tentou parecer grata por aquela conversa.
一 Estarei aqui caso precise conversar sobre Fury. 一 Alexander parou em frente a mulher, mantendo o olhar triste. 一 Sei o quanto Fury confiava em você e fico feliz que esteja de volta a organização. 一 Estendeu a mão para a mulher. 一 Sinto muito por ter lhe dado a notícia assim. 一 apertou a mão do homem antes de sair da sala, mas desde o momento em que conseguiu ter acesso a tudo o que ele sentia, sua mente gritava, o chamando de traidor e mentiroso. Naquele momento não fora diferente.
一 Obrigada, senhor. 一 Alexander esboçava um pequeno sorriso, e ao apertar com firmeza a mão da mulher, algo lhe chamou atenção.
O secretário cerrou os olhos em desconfiança, porém manteve o sorriso todo tempo ao seu lado. soltou suas mãos e saiu da sala sem esperar por qualquer liberação. Sentia aquela enorme sala diminuir mais e mais, chegando ao ponto de sentir-se em um cubículo, com Pierce sussurrando a sua nuca. Rumlow não estava mais do lado de fora a esperando e agradeceu aos céus por isso, agora mais do que nunca não iria saber lidar com mais um traidor. Aquilo ia mais fundo do que poderia imaginar, e sentiu apenas a ponta do iceberg ao entrar em contato com os sentimentos de Pierce.
Entrou rapidamente no elevador e a I.A a reconheceu, pronunciando seu nome e mostrando na tela a sua frente o nível de hierarquia que se posicionava na SHIELD. Nível 9. Uma das poucas agentes com maior escalão ali. Nem o Capitão América estava naquele nível. Em agentes de campo, como espiões, ele pertencia a apenas 3 pessoas: Ela, Hill e Natasha. Respirou fundo, notando que agora tinha mais perguntas para tentar responder e ninguém para ajudá-la com isso. Comunicou à I.A que a levasse para a central de armamento, precisava sair daquele lugar e procurar por ajuda. Hill e Natasha. Eram os nomes que ecoavam em sua mente. E se as duas também tivessem virado as costas para Fury, era o fim para a SHIELD.

•••••


De volta a sala do conselheiro, Alexander Pierce estava conduzindo até que bem aquela conversa com Evanoff, porém, em algum momento ele sentiu que a mulher ficou mais tensa. Não quis criar alarde com isso, o secretário imaginava que a notícia da morte de Fury fosse mexer com os ânimos da agente. Contudo, com todo toque de sutileza e o mais calmo que pudesse transparecer, algo mudou quando deu a entender que o Capitão América havia matado o antigo companheiro de trabalho.
Quando levantou-se para ir embora e Pierce tocou sua mão a dela, se esforçou para continuar sorrindo, mas estreitou os olhos e observou a mulher sair de sua sala como um furacão, sem ao menos esperar ser dispensada. Caminhou lentamente até o aparador e se serviu de mais uma dose de uísque, virou todo o líquido do copo de uma vez, sentindo o queimor descer até encontrar seu estômago. Praguejou baixo, frustrado. Os cientistas disseram que os experimentos feitos em Evanoff não tiveram nenhum resultado bom. Que eles só alteraram a cor dos seus olhos e cabelo, e a deixou resistente à lavagem cerebral, mas que já tinham dado um jeito nessa parte. Tecnicamente, Evanoff não deveria se lembrar de nada. Então porque, antes da mulher sair da sua sala, ao tocar suas mãos, ele conseguiu ouvir claramente a voz firme dela em sua cabeça?

“Traidor”
“Mentiroso”

As palavras ecoaram. Era a mesma voz da mulher que apertava sua mão e o saudava como superior. E ela estava mentindo olhando nos seus olhos. E o pior, até aquele segundo, ele estava acreditando.
Não muito contente, puxou o telefone do bolso da calça e digitou os números que já sabia de cor, tantas foram as vezes que o chamou para realizar seus trabalhos sujos.
Ou como ele gostava de pensar, a limpeza para um mundo melhor.
Sim? 一 Rumlow atendeu em expectativa.
一 Mande o soldado. 一 Murmurou. 一 Ela sabe.



Capítulo 04

Não foi muito difícil sair da base geral da SHIELD. Todos os agentes estavam ocupados demais procurando pelo Capitão América e pela Viúva Negra. E saber que sua ex-treinadora também estava sendo procurada, de alguma forma alegrou seu coração. Assim como ela, Romanoff sentia-se no vermelho com a sociedade, e estava na SHIELD justamente para balancear aquela dívida, por isso, a Agente 09 sabia que a russa não estava envolvida com a morte de Fury e com a traição da SHIELD.
Não perdeu a oportunidade de arrombar o armário da antiga treinadora e pegar as peças de roupas que estavam disponíveis ali. Bom, se tinha que andar com os civis, pelo menos o estilo de Romanoff era melhor do que aquele que a SHIELD lhe ofereceu. Sem se importar que alguém chegasse no vestuário e a visse nua, Evanoff se despiu e começou a vestir-se com as roupas deixadas por Natasha. Uma calça jeans preta colada ao corpo com um cinto da mesma cor, botas coturnos de salto, uma blusa preta de alcinhas e solta, e por cima, uma jaqueta de couro bege claro. Deixou os cabelos soltos, agora começando a gostar daquele comprimento. Rumou para a garagem principal da base e não teve dificuldade em pegar um carro, visto que todas as chaves ficavam perto da ignição. Carregava consigo apenas duas armas, um uniforme que deu sorte de roubar de alguma agente ali, e um celular. Não poderia sair com mais coisas sem que chamasse a atenção de algum agente ou superior.
Estacionou o carro na primeira cafeteria que encontrou, colocou novamente o par de óculos escuros sob seus olhos, escondendo a mais nova cor de sua íris, posicionou as duas pistolas na parte de trás de sua calça, sendo escondida pela jaqueta, e saiu do carro, sentando-se em uma mesinha do lado de fora do estabelecimento. Tirou o celular do bolso prestes a ligar para Romanoff quando notou a data que a tela do aparelho mostrava. Por alguns minutos só conseguiu encarar aquilo, absorvendo aos poucos a verdade de que passou um ano nas mãos da Hidra e não se lembrava.
Ela demorou um ano para ser resgatada por Fury. Eles tiveram um ano para brincarem de cientistas malucos com seu corpo e sua mente. automaticamente desceu sua mão até uma de suas coxas, passando os dedos por cima do jeans grosso, ela podia sentir, mesmo por debaixo daquele tecido, a cicatriz. Uma das, na verdade. Na base, enquanto vestia as roupas de Romanoff, observou que seu corpo tinha algumas marcas de tortura que antes não existiam. Pensar na ideia de ter sido torturada e feita de brinquedo nas mãos da Hidra, fez seus pêlos eriçarem e um arrepio gelado subir por sua espinha. Suas mãos um pouco trêmulas agora, digitava o número que ela lembrava-se ser de Natasha, torcendo internamente para que a ruiva não tivesse o trocado.
O número chamou sem parar até que caísse na caixa postal, bufou em frustração, sentindo-se por um momento idiota ao ligar para o número pessoal da mulher. Se a SHIELD estava atrás dela, era óbvio que estavam rastreando aquele número. Expirou cansada, se dando ao menos um minuto de folga. Eram muitas coisas para assimilar em um período tão curto de tempo. Primeiro, acordar naquela ala da SHIELD com o bilhete de Fury; Segundo, as bruscas mudanças em seu cabelo e olhos, e alguma coisa ali a fazia pensar de que aquela cor em seus cabelos não era resultado de tinta; Terceiro, a lembrança da luta que teve contra Brock Rumlow para escapar daquela base inimiga, bem como a memória do homem atirando em suas costelas em sua última missão da SHIELD; Quarto, descobrir que Alexander Pierce estava de alguma forma conectado a isso; e por último e extremamente doloroso, descobrir que Fury estava morto.
Se tinha mais coisas deixadas de lado, a garota não percebera. Aquelas cinco informações eram as únicas que rondavam seus pensamentos, quase a deixando tonta e enjoada. Passou a mão por seu cabelo, parando o movimento assim que observou, mais uma vez, aquela cor clara. Suspirou, só agora parando para pensar também que, em algum momento, as vozes de Hastings e Rumlow ecoaram dentro de sua mente, assim como foi capaz de sentir também a aura deles, junto com a de Alexander Pierce. Ela não tinha aquelas… Habilidades antes de ser capturada pelo inimigo. Antes disso, ela era só uma agente. Não qualquer agente. Uma das melhores. Mas ainda assim, apenas uma agente, com aptidão e capacidade de um ser humano qualquer. Logo, não era tão difícil assim descobrir quem eram os culpados. Difícil mesmo seria saber o que fizeram.
Depositou o telefone em cima da mesa e observou o garçom atendendo outros clientes naquele espaço, bom, se foi capaz de ouvir a mente das pessoas na SHIELD, era capaz de ouvir a mente de todos. Na teoria ela deduziu ser aquilo, na prática, ela não tinha ideia de como fazer para acontecer de novo. Cravou seu olhar no garçom que limpava uma mesa agora vazia, cerrou os olhos e se concentrou na imagem do rapaz. Ficou assim por quase 2 minutos e nada aconteceu. Praguejou frustrada, não deveria ser complicado, quer dizer… Ela tinha feito isso, o quê… três vezes? Sim. Três vezes desde que acordara.
Respirou fundo novamente, tentando limpar a mente de todas as preocupações que lhe rodeavam. Se conseguiu fazer sem querer, conseguiria naquele momento. Fechou os olhos e se concentrou em ouvir os pensamentos do garçom. Abriu um grande sorriso e quase pulou de alegria ao escutar a primeira palavra ecoar dentro de sua cabeça.

“миссия”

Voltou a abrir os olhos, achando aquele pensamento confuso. A voz pronunciava em um russo perfeito a palavra “missão”. O sorriso aberto em seu rosto perdeu força, fazendo sua boca fechar em uma linha reta e seu rosto expressar uma careta. Subitamente toda a aura de conforto e calmaria que aquela pequena cafeteria emanava para a mulher, fora bruscamente arrancada do seu peito. De repente seu interior estava gritando em agonia e ódio. Olhou ao redor do estabelecimento e tudo parecia normal, as pessoas continuavam conversando e comendo, os garçons continuavam servindo as mesas, alguns pedestres continuavam passando por aquela calçada. Tudo continuava normal.
Mas de onde estava vindo todo aquele ódio que esmagava seu peito e fazia seu interior tremer? Por um momento se amaldiçoou por tentar usar aquela habilidade.
Não havia espaço para felicidade, amor, alegria, paz…
Não havia espaço para questionamentos.
A única coisa presente era o vazio, a angústia e a missão.

“миссия”
“миссия”

Colocou a mão na cabeça ao ouvir mais alto aquela voz, impedindo-a de ter seus próprios pensamentos. Estava se aproximando, ela sentia cada vez mais forte e perto. Sua face estava comprimida em uma careta de dor com a pontada fina e intensa que sentia em suas têmporas. Levou seus olhos até a rua, não percebendo até aquele momento que a rua antes movimentada, estava parada, não passava nenhum veículo no local. Desconfiou daquilo assim que seu cérebro notou a falta dos carros transitando por ali.
Grunhiu em dor, levando os dois braços ao seu peito quando, dessa vez, a solidão lhe atingiu. E então a raiva. A aversão. Hostilidade. Violência. Aquelas emoções faziam seu corpo arder. Queimar. Todas elas lhe atingindo com intensidade e ao mesmo tempo. Viu quando o garçom parou preocupado ao seu lado, lhe perguntando se estava tudo bem, mas antes de conseguir responder, ouviu de novo.

“миссия”
“Убить девушку”

Matar a garota. 一 Sussurrou, repetindo a última frase que ecoaram em sua mente.

Ignorando o homem ao seu lado, Evanoff lentamente girou sua cabeça, de forma que conseguisse olhar para trás, e ainda sentada, mirando seus olhos para o fim da avenida parada, ela o viu. Ele andava devagar e com destreza até seu encontro. Calçava uma bota militar de coturno, que ia até metade de sua canela, e mais acima, joelheiras de proteção. Vestia uma calça preta, com alguns bolsos espalhados por ela, mas notou que em um dos bolsos perto de sua coxa esquerda, era possível ver o cabo de um canivete, enquanto sua coxa direita possuía um coldre com uma pistola.
Ao redor de sua cintura, um cinto grosso com alguns compartimentos de cada lado. Seu tronco era coberto por um colete preto de couro com algumas amarrações ao redor, era de mangas compridas, mas que só cobria seu braço direito, já que o braço esquerdo estava amostra. O rosto do homem estava protegido por uma máscara que partia do seu pescoço, vindo de dentro do colete, e ia até seu nariz. Ele carregava uma metralhadora modificada, com a ponta da arma sendo a de um fuzil, estava apontada para cima, e caminhava lentamente em sua direção, o vento balançando os cabelos que batiam em seus olhos, cobrindo parcialmente o que restava do rosto em amostra.
Já tinha ouvido as histórias, mas a maioria dos grupos de espionagem não acreditava em sua existência. era uma das que achavam que ele era um mito, uma lenda… Um fantasma. Naquele momento, lembrou-se de uma conversa que teve com Natasha Romanoff, em que a ruiva lhe contara que em uma missão, ao escoltar um engenheiro nuclear para fora do Irã, alguém atirou no engenheiro através dela. arfou ao se dar conta de quem era. Do que era. O braço biônico de metal não deixava espaço para dúvidas.

Soldado Invernal. 一 Arfou.

Assim que reconheceu seu opositor, não restavam dúvidas para de que ela era o alvo. Todo seu corpo estremecia em ansiedade, medo e violência, e a mulher não sabia em qual dessas sensações se concentrar. Decidiu por fim que o medo seria um ótimo combustível para que fizesse de tudo para sair viva dali.
Sua mente trabalhou rápido tentando formular um plano de fuga com maior probabilidade de sucesso. Sim, fuga. sabia que a opção mais segura ali seria fugir. Evitaria uma luta corpo a corpo com o homem a qualquer custo. Não deixaria que ele chegasse muito perto, estava apenas com duas pistolas, sem colete a prova de balas e não teria tempo de trocar a roupa de civil pelo uniforme da SHIELD. Se bem que a mulher tinha a leve impressão que nem o uniforme mais confortável e rígido a faria ganhar uma luta corpo a corpo com o soldado.
Desconfiada e esforçando-se para não parecer que estava prestes a atacar, puxou lentamente o celular da mesa, guardando-o no seu bolso, pegou a chave do carro e segurou fortemente com uma das mãos, a outra se direcionou até a pistola escondida em suas costas, quando sentiu sua mão encaixar perfeitamente a arma, num movimento rápido tirou a pistola a segurando com as duas mãos, os dois braços esticados de frente ao seu peito, saiu da cadeira agachada e girou de frente para a direção do soldado. Seu joelho direito estava encostado no chão, lhe dando mais apoio e segurança na hora que apertou o gatilho pela primeira vez.
O impulso fez com que seu corpo forçasse um pouco para trás e a chave presa em sua mão gerou um atrito com o metal da arma. Não poderia esperar que ele a atacasse primeiro, naquele cenário, sua melhor vantagem era pegá-lo de surpresa e aproveitar a distância que tinham um do outro. Ele ainda estava longe, mas não o bastante. Escutou quando as pessoas que estavam ali saíram correndo ao vê-la disparando a arma, mas não se importou, na verdade até ficou grata.
Quanto menos pessoas estivessem ali, menos civis seriam machucados. O tiro infelizmente acertou no braço de metal do soldado. viu quando a força do impacto da bala fez com que o ombro esquerdo do homem tombasse um pouco para trás, fazendo-o parar de andar por um momento. Ele voltou a sua postura ereta quase que no mesmo instante, como se o tiro de uma pistola não fosse o suficiente para lhe causar algum dano. O soldado maneou a cabeça, à procura de onde o ataque partira, e ao localizar seu alvo agachado com uma pistola apontada em sua direção, puxou o ar com muito mais força para dentro de seus pulmões. O ódio dominava todo seu corpo, sua visão estava focada nela. Era sua missão. Tinha que matá-la. Destravou o pino de sua metralhadora colocando a munição e soltando o encaixe, mirou onde a loira estava, apertando o gatilho logo em seguida. Era o corpo de uma metralhadora, acoplado com um fuzil.
Lógico que um disparo daquela arma causaria um estrago enorme. Ao ver os movimentos do homem, correu em direção ao meio da rua, tendo seu corpo jogado um pouco para frente quando a explosão atingiu a pequena cafeteria que estava. Embolou em uma cambalhota e se posicionou entre um carro estacionado, tirou a outra pistola de suas costas e agora atirava as duas ao mesmo tempo, uma em cada mão. Passou rapidamente o olhar pelo ambiente à procura do veículo da SHIELD que estava e o encontrou a poucos metros de distância. Quando a munição das duas pistolas acabaram, a mulher se levantou e correu apressadamente e sem olhar para trás, até chegar ao carro da SHIELD. Um pouco afobada, abriu a porta e entrou no veículo. Acionou a chave na ignição e partiu assim que o ronco do motor soou.
Os passos do soldado que antes eram contidos mudaram bruscamente para largos e apressados, esforçando-se o máximo para romper a distância entre eles. Ao notar que a mulher agora estava em um carro, parou bruscamente de andar e mirou a arma em direção a ele, recarregando-a com a munição e atirando em seguida.
estava tentando colocar o cinto de segurança ao mesmo tempo em que olhava para a avenida e tentava ligar a inteligência artificial que estava vinculada ao veículo para pedir por reforços. Contudo, antes de virar a esquina, olhou pelo retrovisor buscando pelo soldado. Não teve muito tempo para tomar qualquer atitude a partir disso. Ela olhou pelo retrovisor e encontrou o homem parado no meio da rua, perto do estabelecimento que havia atacado, e a arma dele agora apontava para frente. No segundo em que percebeu que ele iria atirar, atacou urgentemente o cinto e segurou vigorosamente o volante.
O grande impacto veio em menos de dois segundos. O carro voou e ao cair no chão capotou três vezes, parando no meio da esquina. estava de cabeça para baixo quando tomou de volta a consciência. Respirava com certa dificuldade devido ao aperto daquela fita de couro em seu tórax e pescoço, um zumbido alto e constante se fazia presente aos seus ouvidos. Tossiu ao se engasgar com a própria saliva e franziu a testa sentindo quando uma fina e quente linha de sangue escorria do seu nariz e ia direto até a raiz de seu cabelo.
O cinto a prendia no banco do motorista e ela chegou a pensar que se não tivesse o colocado a tempo, provavelmente agora estaria morta. Com muita dificuldade e sentindo todo seu corpo doer com o movimento, ela se forçou a olhar para trás. Ele estava vindo. Tentou tirar o cinto, mas a trava de segurança estava emperrada. Apertou de novo, não obtendo o resultado que desejava.
Conseguia sentir o choro preso em sua garganta crescendo ao mesmo tempo que sua visão embaçava com as lágrimas. Olhou novamente para trás. Ele estava perto. O sangue fazia o caminho contrário ao seu corpo devido a posição que se encontrava, iniciando uma pressão em sua cabeça que a deixava tonta. Passou os olhos ao redor de onde estava, a lataria do carro estava toda amassada. O parabrisa estava um pouco quebrado e os vidros das portas estavam rachados. Fechou os olhos com força. Estava ficando difícil pensar. Pendeu seus braços, pesados e doloridos, para cima, tocando agora o que seria o teto do veículo, e esperou. Não tinha mais o que fazer. A pressão cada vez mais intensa e latejante ao redor de sua cabeça dificultava seu raciocínio.
Esperou até que o soldado viesse ao seu encontro e acabasse logo com aquilo. Continuou com os olhos fechados e gemeu em um espasmo de dor que fez sua mão tremer, no segundo seguinte seus dedos tocaram em algo pontudo e que lhe tirou um fiapo de sangue. Com muita dificuldade olhou para cima, encontrando ali um pedaço do vidro do parabrisa. Se não estivesse tão tonta, machucada e cansada, poderia até ter aberto um sorriso aliviado, mas o tempo estava passando e cada segundo perdido lhe dava gradativamente a certeza de sua morte.
Envolveu o pedaço de vidro em suas mãos, não se importando com o corte que ele provavelmente lhe causaria, forçou suas pernas para cima e as apoiou também no teto do carro. Com esforço, voltou sua mão para o cinto e agora começou a serrar com força o pedaço de couro. Quando sentiu o aperto em seu tórax afrouxar, a agente largou o objeto e sustentou com dificuldade o peso do seu corpo enquanto suas pernas a impulsionaram para frente, atingindo em cheio o parabrisa. O impacto fez com que o vidro minimamente saísse do lugar, mas a brecha ainda era pequena demais para que conseguisse passar. Escutou quando os passos do soldado agora bateram forte no chão e juntando toda a força que lhe restava, chutou mais uma vez o vidro, agora o lançando para a rua.
Todo o parabrisa caiu, e o barulho do impacto só fora abafado pelo som estridente do Soldado Invernal tentando arrancar a porta com seu braço biônico. Jamais desejaria continuar ali para ver o que aconteceria depois que o moreno arrancasse aquela porta. Por isso, ao notar novamente o esforço do homem, se esganiçou pelo parabrisa e saiu correndo, virando a esquina. Ao olhar para trás, antes de perder a visão daquela cena, ela viu quando o soldado invernal puxou a porta do veículo e a jogou do outro lado da rua, como se fosse feita de papel. Não esperou para que ele a procurasse ou percebesse que já não se encontrava mais ali.
Correu freneticamente até parar em uma rua movimentada. Seu nariz sangrava. Sua mão sangrava. Seu rosto estava sujo de poeira e sangue seco. Seu cabelo estava emaranhado e bagunçado. Sua roupa, antes preta, agora estava rasgada e suja. Tinha um corte na lateral do seu antebraço que estava coberto pela jaqueta de couro, mas isso não impedia que o líquido quente e vermelho escorresse e fosse pingando em direção ao chão. Assustou-se quando um carro buzinou as suas costas e virou em um pulo.
A senhora que dirigia o veículo a observou e preocupada com a situação da loira, saiu do carro para socorrê-la. Assim que viu a oportunidade, tirou a única pistola que continuou atrás da calça e apontou em direção a mulher. Estava sem munições, mas pelo olhar assustado da mulher a sua frente, aquela ameaça muda havia surtido efeito. A mulher colocou as mãos para cima, em sinal de rendição. se dirigiu até ela e apalpou seus bolsos encontrando um celular. Puxou o aparelho para si e murmurando um “eu sinto muito por isso”, atingiu a nuca da senhora com a lateral da pistola. A mulher caiu desacordada no mesmo segundo. Evanoff suspirou cansada, tombando o próprio corpo para dentro do carro, o acelerando logo em seguida. Não se importava com os cortes abertos em seu corpo. Estava viva. Havia sobrevivido há um ataque do Soldado Invernal, era tudo o que importava.
Quando sentiu que sua cabeça estava ficando cada vez mais zonza, a impossibilitando de continuar dirigindo. Se viu obrigada a parar. Assim como cada parte do seu corpo, a cabeça doía. O ar entrava de maneira rarefeita para seus pulmões. Sentia que iria desmaiar a qualquer momento. Forçou o tronco para o lado e pegou o aparelho celular o observando, digitou uma sequência de números muito antiga, quase não tendo esperança de continuar ativa, porém, era tudo o que tinha naquele momento.
Esperou pacientemente até o último toque e ao cair na caixa postal levou o celular rente ao vidro e começou a batucar os dedos ali, fazendo com que o contato de seus dedos trêmulos com o vidro produzisse uma sequência específica de som. O destinatário da mensagem iria entendê-la. Bom, ao menos era isso que esperava. Desligou a ligação e deixou o aparelho grudado ao seu tronco. Suspirou exausta e aos poucos foi sentindo seus olhos pesarem. Tombou a cabeça para trás, obrigando-se a continuar em alerta. Se tudo saísse como planejado, aquele celular tocaria nos próximos minutos. Mas estava tão difícil se manter acordada.

•••••


Romanoff estava no quarto de hóspedes da casa de Sam Wilson. Perdida em pensamentos após a conversa que acabara de ter com Steve Rogers, a ruiva continuava sentada na ponta da cama, fingindo enxugar seus cabelos com mais concentração que o necessário. Estava adiando o resto da conversa, não saber de quem eram as mentiras que contava a deixava incomodada.
O loiro continuava ali, sentado de frente para a russa a encarando, o que queria dizer que aquela conversa ainda não tinha acabado. Quando Steve abriu a boca para continuar consolando a amiga, um toque de celular, porém, o fez parar. Olhou confuso para Romanoff que arregalou os olhos, parecendo ter visto um fantasma. A ruiva levantou-se da cama em supetão e procurou o aparelho pela bagunça que estava o emaranhado de suas roupas sujas. Franziu o cenho quando o pequeno celular em flip apareceu em seu campo de visão. Era uma mensagem na caixa postal, como combinado. Apenas duas pessoas tinham aquele número, e a ruiva sabia que Barton evitaria contato com ela no momento, preservando sua esposa e filhos da ira da SHIELD.

一 Quem é? 一 A voz branda de Steve soou lhe chamando a atenção. Os olhos da mulher deslizaram do aparelho até a íris azul do soldado. 一 Natasha?
一 Eu fiz o café da manhã. 一 Sam disse parando na entrada do quarto, observando os dois. Notando o ambiente silencioso e incômodo, se pronunciou. 一 Aconteceu alguma coisa?
一 Apenas duas pessoas têm esse número. 一 Começou se explicando enquanto balançava o aparelho em frente ao tronco. Não se importava de Wilson escutar aquela conversa. As únicas pessoas que a mulher confiaria sua vida naquele momento, estavam ali. 一 E uma delas não me ligaria agora, não com tudo o que está acontecendo. 一 Sentou-se novamente na beirada da cama, abriu o aparelho e apertou para ouvir a caixa postal no viva voz.
一 O que é isso? 一 Steve perguntou curioso ao primeiro som da batida. 一 Código Morse? 一 Chutou olhando para Wilson, que negou veemente.
一 Não. 一 Romanoff murmurou concentrada na mensagem por trás daquele código. 一 É o código que aprendemos na Sala Vermelha. Está em russo. 一 Quando a mensagem chegou ao fim, Natasha pediu a Sam um papel e uma caneta, colocou novamente a mensagem para ser reproduzida começou a escrever. Teve que repetir o processo mais duas vezes, já que em alguns momentos, o som da batida ficava fraco e confuso aos seus ouvidos, sendo necessário Steve reproduzir o batuque com seus dedos, pois apenas sua audição de supersoldado conseguira ser o suficiente para entender. Assim que largou o lápis em cima da cama, a ruiva observou o peso que significavam as palavras à sua frente, agora já traduzidas para o inglês.
一 Não faz sentido. 一 Sam parou ao seu lado, observando também a mensagem.
一 Quem mandou isso pra você, Nat? 一 Steve voltou a sua frente, questionando. 一 Até onde nós sabemos isso pode ser a Hidra.
一 Isso não é da Hidra. 一 Ignorando a dúvida do loiro, a russa começou a pronunciar a mensagem em voz alta. Sabia quem era o remetente, só precisava saber se era uma mensagem confiável. 一 “Natasha, é a . Estamos em perigo. Fury me disse que a esposa está o traindo. O soldado invernal acaba de tentar me matar. Acho que Pierce está por trás disso tudo. Precisamos conversar, eu não confio em mais ninguém.”
一 Agora sim isso parece muito com uma armadilha. 一 O tom brincalhão de Sam contradizia sua expressão séria.
一 Não é uma armadilha. 一 Rogers se pronunciou pela primeira vez. Claro que estava em conflito desde que ouvira aquela mensagem misteriosa, mas depois da decodificação da ruiva, Steve identificou outro código aliado a mensagem. E esse por sua vez, apenas ele sabia. 一 Diga de novo, por favor. 一 Pediu a sua amiga. 一 Aqui. 一 A interrompeu. 一 Quando Fury foi ao meu apartamento no dia que foi assassinado, ele me disse uma coisa parecida. 一 Fechou os olhos enquanto repassava a breve conversa que havia tido com o diretor. 一 “Minha esposa me expulsou de casa.” 一 A voz do homem soou pensativa e baixa ao recordar as exatas palavras ditas por Fury. 一 E quando eu disse que não sabia que ele era casado, ele me disse que a SHIELD estava comprometida.
一 Claro que ele disse isso. 一 Romanoff riu sarcástica. Agora que o loiro tocara no assunto, a lembrança de algumas brincadeiras sem graça do ex-diretor descrevendo aquilo, começavam a passar por sua cabeça. 一 A “esposa” era a SHIELD.
一 É uma metáfora muito errada? 一 Wilson perguntou retoricamente observando Steve. 一 Qual o protocolo entre vocês? 一 Questionou novamente depois de longos minutos em que o silêncio se fez presente entre os três.
一 Agora eu tenho que retornar. 一 Natasha explicou, desviando seu olhar de Wilson para Rogers.
一 Faça isso. No viva voz. 一 Steve pediu. Tentou não parecer tão incomodado ao notar que seu pedido saira mais como uma ordem.
一 Cuidado Capitão, desse jeito vou achar que não confia em mim. 一 Natasha debochou enquanto retornava para o número gravado em sua caixa postal.
一 Eu confio, agora. 一 Rogers frisou a última palavra olhando para a mulher pelo canto do olho. Natasha entendia os motivos do loiro e não negava que tinha sido um começo difícil para os dois.
一 Então... agora confiamos na garota da mensagem? 一 Sam sentou-se no chão, encostando as costas na parede, uma perna esticada e a outra dobrada. Ouviu quando os toques soaram e antes de conseguir obter uma resposta, a ligação foi atendida.

一 Oi Tasha. 一 A voz rouca e fraca de preencheu o ambiente daquele quarto. Steve encarou Natasha, incentivando que ela respondesse.
一 Bom saber que está acordada. 一 Natasha não poderia negar o tamanho do alívio que percorria seu corpo ao escutar a voz de Evanoff. Fazia um ano que a tinham dado como morta, e de repente, ela voltou para sua vida. A respiração falha e entrecortada da mulher do outro lado da linha a deixou inquieta. 一 Quando você acordou?
Romanoff… 一 Steve captou o exato momento que a ligação chiou baixo pela tosse da mulher. 一 Eu adoraria te contar todas as aventuras que passei nessas últimas duas horas desde que acordei, mas eu não te liguei para fofocar.
一 O que você quer, Evanoff? 一 A russa, identificando a urgência na voz abafada de , perguntou.
Quero saber se posso confiar em você. 一 já tinha sua resposta, mesmo tendo acabado de responder grosseiramente a ruiva. Ela confiava em Natasha, caso contrário não teria ligado para a mulher.
一 Engraçado… Eu iria te fazer a mesma pergunta. 一 Desdenhou.
一 Nat, quando eu acordei, Fury tinha deixado um bilhete pra mim. 一 Mesmo sentindo tudo a sua volta girar e o ar entrar com dificuldades no seu pulmão, a agente 09 despejou de uma vez aquela informação. 一 E a mensagem dizia “acho que minha esposa está me traindo.”. Então eu ac… 一 Tossiu um pouco engasgada. Sua cabeça estava tombada para cima, na falha tentativa de conter a náusea que crescia subindo pelo seu estômago 一 Eu descobri que Fury tinha sido assassinado e tentaram me fazer acreditar que o Capitão América tinha o matado. 一 Romanoff observou quando os músculos de Rogers ficaram rígidos ao ouvir aquilo.
E você acredita nisso? 一 Claro que com toda a Hidra atrás deles, a melhor forma de convencer os poucos agentes da SHIELD dentro da base geral era fazendo-os acreditarem que Steve tinha matado Nicholas Fury. Assim todos se uniriam em busca do Capitão. Romanoff continuava encarando o loiro no momento em que a agente do outro lado da linha respondera sem hesitar, fazendo automaticamente o homem respirar em alívio.
Mais é claro que não! Respondeu convicta, como se aquela dúvida fosse até um insulto. 一 Natasha, você não sabe se pode confiar em mim, mas eu sei que posso confiar em você. 一 Cansada de todo aquele joguinho de gato e rato, a agente suspirou. Era verdade, ela em momento algum havia desconfiado da russa, não tinha motivos para começar a fazer isso agora. 一 Você não está envolvida nisso, muito menos o Capitão América. Eu preciso que você me ajude, o Soldado Invernal acabou de tentar me matar. Eu não sei onde estou, parei de dirigir quando me senti tonta demais, mas sei que é uma rodovia. 一 Olhou para os lados tentando encontrar alguma placa que pudesse lhe dizer onde estava. Não encontrou. 一 Estou em um carro vermelho. Vou deixar a ligação ativa para que você possa me rastrear. 一 Ponderou um pouco antes de continuar. Mordeu o lábio com força antes de confessar sua real situação à espiã do outro lado da linha. Era um risco. Porém não tinha o que temer. Natasha não a machucaria. Sugou o ar o máximo que pôde e confiando nos seus instintos, falou. 一 Eu estou desarmada. 一 Abaixou minimamente o olhar até a pistola repousada no banco do passageiro. Não tinha mais munições. 一 Machucada 一 Pendeu a cabeça para o lado, vendo o sangue escorrer pelo interior do seu antebraço. 一 E quase inconsciente nesse exato momento. 一 Não tinha ideia de como estava continuando aquela conversa, apesar de estar parada, a cabeça de continuava girando. Seus ouvidos continuavam zumbindo. 一 Se você vir, vou saber que confia em mim. 一 O ar saiu pesado por sua boca. O oxigênio agora parecia não adentrar em seus pulmões, e aos poucos foi perdendo a consciência. Sendo seu nome a última coisa que escutou antes que tudo fosse substituído por um vazio enorme e escuro.

A ruiva ainda chamou por sua pupila mais duas vezes ao escutar o exato momento em que o celular parecia ter caído de sua mão. Não esperou pelas ordens de Steve ou pelos comentários de Sam. Levantou-se da cama e correu em direção a cozinha daquela casa, onde tinha visto o notebook de Wilson. Teve noção de que os dois homens estavam na sua cola e que Rogers chamava por seu nome. Não importava. estava ferida e estava confiando sua vida a ela. estava disposta a correr o risco de ser morta, pois confiava plenamente que a russa não estava envolvida com aquilo. O coração da espiã batia rapidamente a repreendendo por um momento desconfiar da garota. Evanoff era tão fã da SHIELD e seus ideais, quanto Coulson fora um dia.

一 O que você está fazendo? 一 Wilson verbalizou de forma mais alta, passando um pouco mais rápido pela silhueta de Rogers e tentando pegar o notebook antes da russa.
一 Salvando minha amiga. 一 Natasha murmurou. Pegou o cabo do celular e conectou a primeira entrada do notebook. Seu olhar encontrou com o do Capitão, e num pedido mudo, ela pediu para que ele acreditasse nela mais uma vez. Steve colocou a mão no ombro de Wilson, fazendo-o parar. 一 Vocês não precisam acreditar nela ou vir comigo. 一 Acrescentou digitando freneticamente a sequência de letras e números que daria acesso à localização da garota. 一 Mas eu vou lá. já morreu uma vez, e eu definitivamente não vou deixá-la morrer de novo.
一 Espera aí. Ela já morreu uma vez? 一 A confusão no olhar do moreno se espalhou ao tentar entender o que a mulher disse.
一 Ela foi dada como morta. Acharam que ela tinha morrido. 一 Steve explicou calmamente dando duas batidinhas no ombro do amigo e soltando um riso nasalado.
一 Então confiamos na garota? 一 Wilson repetiu a pergunta de minutos atrás, mas dessa vez ele não olhava para Natasha, seu olhar estava direcionado a Steve. Ele estava esperando a decisão de Rogers para saber se poderia ou não confiar no que Romanoff dizia. Assim que entendeu a pergunta, Natasha parou de digitar e também olhou para o loiro. Era um tiro no escuro. Porém, mesmo que eles não fossem com ela, iria sozinha, já havia decidido.
一 Confiamos na garota. 一 Rogers murmurou afirmando, depois de analisar a situação por alguns minutos. No cenário atual, ele sabia que a russa não tomaria nenhuma decisão que os prejudicasse. Mesmo estando com um pé atrás disso, Steve lembrava-se perfeitamente da conversa que teve com Fury ainda na base. Quando Evanoff ainda estava desacordada. Rogers viu o quão aliviado e ao mesmo tempo preocupado o diretor da SHIELD estava. Poucas eram as pessoas que possuíam a genuína preocupação do homem. Se para Fury era importante, Rogers iria seguir os passos do diretor.
一 Ótimo, porque eu acabei de encontrá-la. 一 Virando o aparelho na direção dos dois homens, Natasha mostrou a exata localização onde estava.


Continua...




Nota da autora: Oiii, voltei com mais um capítulo para vocês, e como prometido, ele não foi pequeno! Confesso que eu morri escrevendo aquela cena do encontro da Raven e do Soldado Invernal, meu Deus! Passei dias naquela parte e estou com medo de vocês não gostarem dela.
Já entramos aqui mais a fundo no relacionamento da Agente 09 com a nossa querida Natasha Romanoff e é perceptível uma amizade hein?
Espero de verdade que vocês estejam gostando do que estou fazendo e do rumo que DMP está levando.
É isso, gente. Até a próxima att e muito obrigada por todas as visualizações e comentários.
Um beijão.




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