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Enviado em: 10/01/2021

Capítulo Único

O barulho na porta chamou a atenção do rapaz no sofá. Ele, que antes estava deitado mexendo em seu celular, agora se encontrava sentado. Sentia as mãos frias, a respiração ficou entrecortada, o peito parecia um local pequeno para o coração, que batia em ritmo acelerado. A boca seca era outro indicativo do nervosismo e da ansiedade que sentia. Pensou em alguma coisa para falar, mas nada vinha à mente a não ser: Não estrague tudo… de novo.
A mulher entrou no apartamento, rapidamente retirou os sapatos e foi em direção à ilha da cozinha para colocar as muitas sacolas que estavam em seus braços. Depositou o peso ali e voltou para a entrada para fechar devidamente a porta e arrumar os sapatos, que deixou fora do local reservado para eles. Foi nessa volta que ela reparou no coturno preto perfeitamente posicionado no canto direito da entrada.
Naquele instante, a mulher tomou conhecimento que havia mais uma pessoa dentro do apartamento, e, vendo aquele coturno, só poderia ser uma pessoa. Respirou fundo, arrumou os sapatos dela ao lado dos dele. Fechou a porta e encostou a cabeça na madeira. Tentava colocar os pensamentos em ordem, já tinha ensaiado em sua mente esse reencontro deles um milhão de vezes, mas, mesmo depois de tanto treinamento, não se sentia preparada para a realidade. Uma coisa era discutir com um ser imaginário, outra era discutir com ele ali, em carne e osso, e exalando aquele cheiro que era só dele.
Reunindo coragem, soltou um longo suspiro e virou-se para a sala. Olhar para depois de tantos meses separados era maravilhoso, mas, naquele momento, doía. Doía, porque não podia envolver os braços no pescoço dele e sentir-se sendo apertada contra o corpo firme, ter aquelas mãos fortes de novo em contato com o corpo dela. Mãos que, por muitos e muitos momentos, trouxeram prazer, felicidade e, desde a última troca de mensagens, tristeza profunda.

Não venha me visitar, vai ser melhor assim. Estou te deixando livre para seguir a sua vida, não me espere. Fica bem, porque eu prometo a você que ficarei bem também.

Não havia passado nem um dia sem que ela não lesse aquela fatídica conversa. Era certo que, antes mesmo de entrar para o exército, o relacionamento deles não estava indo muito bem, mas nada que não pudesse ser superado. O distanciamento imposto pelo alistamento obrigatório seria doloroso, porém possível de ser contornado. Graças aos avanços tecnológicos e pequenas concessões que os militares estavam fazendo atualmente, os soldados poderiam usar os celulares quando não estivessem em serviço.
— O que você faz aqui, ? — ela disse, caminhando para a sala, parando do lado oposto ao dele. Cruzou os braços na altura do peito, mais uma ação para tentar se confortar do que impor qualquer sentimento de superioridade.
— Eu tentei mandar mensagem... — assim que ele começou a falar, fechou os olhos. Que saudades sentia daquele timbre de voz grave, forte e tão potente que só ele tinha! — ... não acha?
reabriu os olhos rapidamente.
— O que disse? — perguntou um pouco sem graça, recebendo uma pequena risada em resposta. Ele sentia falta das distrações dela. — Você perdeu peso. — disse em tom preocupado.
— Tive uma folga de três dias. Eu iria ver os rapazes no dormitório, mas decidi passar aqui primeiro. Tentei mandar mensagem, mas elas não chegavam para você, então achei melhor vir pessoalmente. — encarou os pés cobertos com as meias pretas por alguns segundos. Reunia seus pensamentos, tentando não gaguejar. — Peço desculpas por ter entrado aqui sem sua permissão. Eu esperei lá fora, só que ouvi a neta da sua vizinha e entrei em pânico. Digitei a senha e entrei.
A mulher entendia o desespero de . A simpática vizinha de , senhora Mi-Sun, tinha uma neta que era muito fã de . Quando a garota o encontrou no hall de entrada do prédio, fez um verdadeiro estardalhaço com a notícia. Pediu várias fotos e agiu de maneira muito invasiva. O rapaz apenas tolerou todo o assédio, pois a menina, que deveria ter pouco mais de 17 anos, estava acompanhada da avó, e a idosa pediu gentilmente que ele falasse com a neta.
Todas as vezes que ela o encontrava, fosse na garagem, hall dos elevadores ou na entrada do prédio, era muito invasiva e agia de forma muito parecida com uma sasaeng, querendo saber o que ele fazia no prédio. Perseguia-o sempre que seus caminhos se cruzavam e ela estava desacompanhada de sua avó. Por conta disso, ele sempre tinha que sair em um andar diferente quando, por infelicidade do destino, entrava no mesmo elevador que a garota.
— Eu esqueci de trocar a senha, mas a única outra pessoa que sabia a combinação estava há quilômetros de distância e sem qualquer chance de retorno pelos próximo dez meses... — ela encolheu os ombros. — Sorte a sua que eu não fiz, não? Ou teria que lidar com Seo-Yun mais uma vez e, por sua causa, eu teria que me mudar daqui. Se da última vez foi muito difícil tirar da cabeça dela que eu não tinha qualquer envolvimento com você, imagina se ela o visse parado na minha porta? Aish, gosto nem de pensar. — coçou a sobrancelha, olhando para os pés.
Ela poderia falar mais, dizer que a situação que ela verbalizou era totalmente culpa dele, e, o conhecendo muito bem, sabia que ele se curvaria pedindo desculpas, assumindo qualquer coisa que jogasse contra ele, mesmo ela sabendo que a culpa era da garota que morava no apartamento ao lado. poderia seguir por esse caminho. Nele, ela ganharia mais alguns minutos para tomar coragem e focar na situação que eles tinham que resolver, mas estava decidido a arrancar o band-aid de uma vez só…
— Me desculpa. — ele começou. — Eu fui um idiota ao tratar o nosso relacionamento de forma tão leviana como eu tratei. — disse, dando um passo para frente, aproximando-se mais de , que se manteve firme em seu lugar, seus olhos travados nos dele. — Nós merecíamos algo melhor. Você merecia algo melhor. Eu não levei em consideração as suas emoções, nem seus apontamentos. Apenas pensei em mim, tentando me proteger, e acabei piorando tudo para nós dois.
se aproximou mais um pouco de , seus corpos ficando bem próximos. Ele não usava perfume, mas o cheiro da loção corporal hidratante, ainda que bem suave, envolveu a mulher de tal forma que precisou de toda a sua força para não pressionar o corpo contra o dele e enterrar o nariz na junção do pescoço com ombro e inalar aquela fragrância, que somente ele poderia exalar.
pegou as mãos de e as pressionou contra o centro do peito, mantendo as dele por cima.
— O que eu fiz foi muito ruim, mas gostaria de me explicar. — confirmou com a cabeça, encorajando-o a continuar. — Estava há apenas duas semanas na base, e já tinha presenciado vários términos. A vida no exército não é tão movimentada, então qualquer novidade na vida de alguém corre muito rápido, porque pessoas entediadas tendem a conversar mais que o normal. — riu, lembrando-se de algo, mas logo voltou ao assunto. — Mas o que me fez ficar muito nervoso e o que me levou a tomar aquela decisão, foi quando um companheiro do meu batalhão, que tinha um relacionamento de quatro anos com a namorada, descobriu que a namorada dele estava namorando com o melhor amigo. Depois de duas tentativas, ele acabou com a própria vida. — , mesmo chocada com a história, prontamente abriu a boca para rebater os argumentos implícitos que ele levantava, mas foi mais rápido e continuou. — Não estou dizendo que você me trairia ou eu cometeria suícidio, mas a situação toda poderia, talvez, ter sido evitada se eles não estivessem mais namorando. Se eles não estivessem tentado o namoro à distância, poderiam seguir com a vida. Ninguém sairia ferido e, se fosse o destino, poderiam se reencontrar de novo.
— Você não pode afirmar isso, muito menos deduzir. — segurava as lágrimas por conta da história e por ter imaginado o que sofreu ao saber da notícia, imaginando-se em uma relação tão fraca que o fez decidir por terminar a tentar consertar alguma coisa. — Me dói muito saber que você não confiou no que nós tínhamos para superar a distância. Tudo bem que estávamos num ponto muito ruim no nosso namoro, mas eu te amava loucamente, assim como ainda amo.
Ela aproximou mais ainda o corpo do dele, retirou uma das mãos do pequeno casulo que ele fazia e percorreu pela lateral do cabelo dele, deixando descansar na nuca. Colou as testas, e ficaram assim por alguns segundos, coordenando as respirações, sentindo o corpo um do outro, matando um pouco a saudade que tinham.
— Vem, estou te achando muito magro. Vamos comer alguma coisa. — ela disse, o puxando para a cozinha.
Durante todo o preparo do jantar, trocaram algumas palavras. Ele contava como eram as coisas no exército, e ela dizia como tinha passado os dias. A interação deles na cozinha se aproximava ao mais perto da antiga realidade deles – enquanto ele preparava os legumes e temperava as carnes para o bibimbap, ela fazia o arroz, ovo e os kyungdans que ele tanto amava, mas não tinham os pequenos toques e carícias de afeto. Os rápidos beijos trocados, o roçar de corpos ao se deslocarem na pequena cozinha, os afagos que ela sempre fazia nos cabelos dele quando ele estava cortando alguma coisa e ela apenas observava-o trabalhando com a faca.
Tendo a comida pronta, levaram-na para a mesa de centro e, depois de tudo disposto, começaram a comer em silêncio. Estavam comendo os kyungdans quando resolveu fazer logo a pergunta que estava martelando na sua cabeça desde que o vira.
— Por que voltou?
— Voltei porque eu, na verdade, nunca fui, não realmente. — esticou o braço por cima da mesa e pegou a mão de , entrelaçando seus dedos. — Terminar com você foi, de longe, a pior decisão que eu já tomei na minha vida. Eu fiquei mal, não só mentalmente, como fisicamente também. Eu parei no hospital por conta disso. A minha sorte foi que o médico que me atendeu não reportou isso no meu prontuário, apenas disse que era uma gripe muito forte e me deu dois dias para chorar a burrada que eu fiz. — ele brincava com os dedos dela. — Dr. Seokmin ficou pelas próximas três semanas me fazendo visitas surpresas durante o meu serviço pra ver como eu estava. Quando ele percebeu que eu estava apenas sendo idiota e não um possível suicida, ele parou de me seguir.
riu do comportamento do bom homem. Estava apenas preocupado com um de seus pacientes, mas as visitas constantes e as pequenas conversas estavam levantando rumores de que talvez a saúde dele não estivesse 100% e eles estavam escondendo isso dos superiores de .
— Eu não estou contando essa história pra você ficar com pena e tentar te manipular com isso, mas é pra você entender como eu fiquei. O estado que fiquei por atos meus. Eu não fiquei bem. — ele contornou a mesa e parou próximo a . Colocou-se de joelhos e curvou-se por cima das coxas, apoiando a cabeça sobre as costas das mãos. — Me desculpa por todo o sofrimento que eu te fiz passar. Eu sei que te feri da pior forma, não confiei em você e no sentimento que temos, mas se você me aceitar de volta, eu prometo que vou passar o resto dos meus dias me esforçando pra ser o que você merece que eu seja.
estava sem reação. Em todos os cenários que imaginou da conversa deles, em nenhum estava se desculpando ajoelhado, mostrando tamanho respeito por ela e o quão profundamente arrependido estava. Imaginou muitas lágrimas dos dois, mas jamais daquela forma, e aquele gesto quebrou todo o controle que ela tinha sobre suas lágrimas. No começo, era apenas um choro silencioso, mas, por ter guardado tanta coisa por todos aqueles meses, logo transformou-se num pranto copioso. Tentou controlar-se novamente, porém isso só piorou e fez aumentar a vontade de chorar.
levantou-se rapidamente ao ouvir o primeiro soluço de e a envolveu em seus braços, a apertando forte. Distribuiu pequenos beijos no pescoço e ombro dela. Ele também não mais segurava as próprias lágrimas. Quando ela finalmente conseguiu se acalmar, ele segurou o rosto dela próximo do seu.
— Me desculpa. — beijou a pálpebra inferior esquerda dela. — Me perdoa. — depositou um beijo na pálpebra inferior direita. — Eu te amo. — a olhou nos olhos. Desviou os olhos rapidamente para os lábios dela e depois voltou a fitá-la nos olhos.
estava aguardando o próximo passo dela. Como a história deles seguiria estava inteiramente nas mãos dela, não roubaria mais nenhum momento de decisão dela. Levou um pouco de tempo, mas ela levemente acenou de forma positiva. Ele selou os lábios com os dela e, no momento que as línguas se encontraram, sentiu que algo que estava quebrado dentro dele estava, finalmente, se consertando. Foi como encaixar a última peça do quebra-cabeça de mil peças e tornar tudo completo de novo.
— Não pense que será fácil. — disse enquanto eles estavam sentados próximo ao sofá. Ela encontrava-se entre as pernas do rapaz e com as costas apoiada no peito de , e ele, por sua vez, encostado contra a mobília de couro preto. — Eu ainda estou muito chateada com você, mas vou te dar um novo voto de confiança, porque você nunca errou comigo e merece essa segunda chance. — virou-se um pouco, sendo possível fitá-lo nos olhos. — Não desperdice, porque você não terá uma terceira.
Ela acreditou na promessa sussurrada contra os lábios dela, antes que mais um beijo entre eles se iniciasse. Até a confissão feita por ele mais cedo, ele nunca havia quebrado uma promessa. Ele não era de prometer qualquer coisa levianamente. Entendia que a palavra de uma pessoa era muitíssimo valiosa e havia honra naqueles que cumpriam suas promessas.
Ficaram por horas matando a saudade um do outro jogados no sofá. Entre um carinho e outro, atualizavam-se com o que tinha acontecido na vida deles durante os pouco mais de oito meses que ficaram separados.
— Minha unidade está bastante famosa quartel. — disse, tentando segurar o sorriso. conhecia aquela expressão. Ele estava querendo se gabar por algo que ele fez, mas não queria levar o crédito sozinho para não parecer arrogante. Ela amava aquela expressão nele, porque todas as vezes ele abria um sorriso lindo. Deus, como ela amava e sentia falta daquele sorriso!
— Verdade? E por que vocês estão famosos? — ela perguntou e levantou-se do sofá, indo em direção à cozinha para tomar um copo d’água.
— A nossa comida está fazendo sucesso. Semana passada, tivemos a visita de dois oficiais no horário do jantar. — respondeu, sentando-se no sofá e alcançando o celular, que deixara na mesa de centro. — Um amigo do quartel estava experimentando uma nova receita de kimchi, e eu o ajudei a fazer. Ele me passou a receita e, na próxima folga, eu vou cozinhá-la pra você.
— Eu sinto saudade da sua comida. — ela disse, apoiada contra a parede do corredor.
— Você está com fome? Eu posso fazer alguma coisa pra gente. O que você quer que eu faça? — foi em direção à geladeira dela ver o que poderia ser usado como um lanche tardio.
— Café da manhã. — respondeu.
a encarou por alguns segundos depois de fechar a porta da geladeira. Não sabia se tinha realmente entendido certo, mas as suas suspeitas se confirmaram quando viu retirar a blusa e ficar apenas de calça e sutiã. O convite não poderia ter sido mais claro. Ele mesmo retirou a própria blusa e a jogou em qualquer lugar entre a cozinha e o corredor. Andou a passos firmes até a namorada e a puxou para um beijo. Levou as mãos até as coxas dela e aplicou pressão para que ela pulasse e enlaçasse as pernas em torno da cintura dele. Ele não precisava olhar o caminho que estava fazendo, pois estivera tantas vezes ali que até mesmo de olhos fechados sabia a direção do quarto dela… do quarto deles. Deitou-a delicadamente na cama, ficando com o seu corpo por cima, não interrompendo o beijo que trocavam. Não aguentavam ficar separados nem mais um segundo sequer e, naquela noite, eles voltariam a ser um de novo.


Fim



Nota da autora: Essa fic foi originalmente pensada e escrita com o Kyungsoo Do (D.O.) do EXO, fico toda soft sempre que penso nesse bebê lindo no exército e vejo fotinhos dele de uniforme e em uma noite de surto no pinterest procurando foto de capa pra uma outra fic, me veio a ideia para esse plot.
Me fala aqui embaixo com quem você leu e o que achou da fic!!! To curiosa pra saber! :D



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