Contador:
Última atualização: 22/03/2021

Prólogo

Se você reparar, em qualquer lugar onde há um emaranhado muito grande de pessoas, elas tendem a se dividir em grupos. Faz parte da nossa essência humana. Não conseguimos interagir em grupos muito grandes e as sub-divisões de um grupo maior em menores, com pessoas que tem algumas afinidades em comum, torna mais fácil a socialização.
É como se todos os lugares que frequentamos é uma grande empresa onde setorizamos cada equipe. Como no ramo empresarial, o estudantil segue a mesma lógica, assim como qualquer bar que você entrar em qualquer cidade.
A divisão pode ser feita de diversas maneiras. Seja por idade, por afinidade, por aparência, mas de fato há a subdivisão e tudo bem. É isso o que chamamos de circulo de amizade, afinidade, etc. Não é crime.
era observadora. Quando abriu a porta do bar, se deparou com essa subdivisão clara. Aqueles que estavam interessados apenas em sexo, os que estavam ali para esquecer alguma mágoa, os que saíam com amigos e os que estavam ali só de passagem depois de um dia cansativo. Por fim, tinha o grupo ao qual ela se encaixava: os que estavam ali para comemorar.
Após uma semana na capital holandesa e devidamente instalada, decidiu sair sozinha para comemorar que seu sonho estava realizando: cursar a faculdade fora do país de origem, Brasil. Tinha deixado tudo para trás, família, amigos, relacionamentos e, principalmente, uma vida. Queria focar na sua carreira profissional e isso era o que a interessava. E, já que não conhecia ninguém, o que importava era apenas a comemoração e faria isso sozinha, porque somente ela sabia o que tinha passado pra chegar ali.
Arrumou-se como se fosse o evento do ano. Sandálias de tiras com as iniciais de Yves Saint Laurent no salto e o vestido tubinho preto que acabava um pouco acima do joelho deixavam seus seios marcados. Esse vestido falava: sexy sem ser vulgar. Se olhou no espelho e sentiu-se do jeito que era: uma grande gostosa. Além de inteligente pra caralho, tinha um corpão daqueles? Como não se amar?
Door 74 era o nome do bar em que encontrou pelo Google Maps e que as fotos do interior a agradaram. As luzes mais fracas deixavam o ambiente aconchegante e a música suave que tocava a deixava animada. Era hora de celebrar!
A garota apoiou a sua clutch também preta de matelassê Bottega Veneta no bar feito de madeira escura e sentou-se na banqueta quadrada feita do mesmo material do bar. O bartender veio perguntar o que ela gostaria de beber e, sem precisar pensar por um segundo se quer, pediu uma cosmopolitan.
Enquanto seu drink era preparado, olhou em volta, identificando as sub-divisões do bar em grupos. Não havia erro. Qualquer lugar que entrasse ela poderia identificar os grupos e, nos casos em que precisasse se enturmar, sabia bem com quem conversar.
O drink chegou a sua frente no bar, tirando a atenção da garota dos holandeses a sua volta. Antes de beber o drink pensou mais vez “a eu mesma” e bebeu, se sentindo animada com o que estava por vir dessa nova experiencia. Quando baixou a taça no balcão, percebeu que bebeu bem mais do que a etiqueta permitia. Riu para si mesma e em seguida sentiu a espinha gelar, quando uma voz ao seu lado tirou sua atenção da taça do drink vermelho.
- Você não é daqui. – A voz era de um rapaz um pouco mais velho ou mais novo? Não sabia dizer. Vestido com uma camisa de algodão perfeitamente passada e com um paletó preto, clássico, também impecável. Os cabelos escuros dele estavam penteados para trás, formando um topete para o lado direito e a barba por fazer o deixavam com um ar sexy. Na mão dele, uma Heineken.
- Não mesmo. – Respondeu , simpática.
O garoto abriu um sorriso de canto de boca e deu um bebericada na cerveja. Em seguida, estendeu a mão:
- . Qual o seu nome?
apertou a mão do rapaz de maneira firme e viu em seu olhar que ficou impressionado. Por favor, ela era mais do que um rostinho bonito.
- .
- Prazer em te conhecer.
- Igualmente.
O rapaz, então, sorriu, galanteador e sentou-se ao seu lado no bar, enquanto continuava seu drink, tentando memorizar cada detalhe daquele lugar e dos segundos que passava naquele país, quando a voz do rapaz voltou aos seus ouvidos.
- Então, não vai me contar?
- Contar o quê? – A menina sorriu, levando a taça de volta a boca e terminando o drink de um vez por todas.
- De onde você é, oras. – Ele riu e logo voltou-se para o bartender a sua frente. – Mais um cosmopolitan para a moça aqui, por favor.
- Martini. – A garota o interrompeu. Dando um sorriso forçado para ele.
- Martini, então. – O rapaz concordou, assim como o bartender que se apressou em começar a bebida. se voltou para e arqueou a sobrancelha para que continuasse.
Então, ponderou: por que ela contaria alguma coisa aquele cara? Riu sozinha e mentiu:
- Sou inglesa.
- Faz sentido. – Ele concordou e ela pensou consigo mesma: bingo!
O bartender a deu a taça, bebericou sorrindo e, após isso, tudo o que se lembra daquela noite são flashes.
Ela lembra de conversar assuntos banais com o cara do bar, de rir, de apertar braço e pensar que ele era mais malhado do que ela realmente acreditava que era. Lembra-se do cheio de seu perfume caro e extremamente sexy, também se recordava de várias taças de martini e, por fim, as mãos na sua bunda na rua escura na saída do bar, dos beijos em seu pescoço - que fazia seus pelos se arrepiarem -, das apertadas que ele dava em sua cintura, juntando os corpos, e que a fazia suspirar, lembrava-se dos amassos no táxi e, por fim, de uma sensação de prazer que nunca tinha sentido na sua vida.
Quando amanheceu, acordou e encarou o teto. Sabia que não estava no seu apartamento. Deixou-se tomar por uma dor de cabeça e fechou os olhos com força, desejando que aquilo acabasse. Quando os abriu novamente, estava no mesmo lugar. Droga! Uma semana e já tinha feito merda, pensou. Olhou para o lado direito e um homem dormia ali. rolou os olhos, desejando que aquilo acabasse. Levantou-se para encarar e ver se era quem ela pensava que era e sim, estava ali, dormia enrolado no edredom com as costas largas virada para ela.
Sem pensar duas vezes, levantou-se da cama e procurou suas roupas. Era incrível como todas estavam espalhadas por diferentes partes do apartamento luxuoso que dormira. Após juntar todas as suas roupas, achou um banheiro e lavou o rosto, limpando a maquiagem dali. Tentou pentear os cabelos com dedos, vestiu-se e correu conferir se dormia de novo. Ela viu que sua respiração pesada confirmava que ele estava longe de acordar.
Fazendo o mínimo de barulho possível, saiu do apartamento. Chamou um táxi e, assim que sentou-se, deu o seu endereço ao motorista. Por fim, encostou a cabeça no vidro do carro e rezou, mas rezou com todo o seu coração para Deus apagar aquela noite de sua cabeça, senão a culpa a carregaria até o fim de sua vida.


Ato I



Capítulo 1

O começo de todas as ciências é o espanto das coisas serem o que são. – Aristóteles



A Universidade de Amsterdam era incrível. Os prédios reuniam o antigo com o moderno. A mistura de arquiteturas a deixava intrigada, assim como tudo naquele país. As fachadas de vidro dos prédios enormes a fez sentir um arrepio e um sorriso gigantesco abrir em seu rosto, quando ficava parada olhando a fachada da faculdade.
estava parada na rampa de entrada olhando o prédio que tinha um pé direito altíssimo apoiado em uma viga que criava uma espécie de área embaixo dele, antes mesmo de entrar no local. Os raios de sol da manhã faziam um desenho de luz muito bonito ali embaixo.
Primeiro dia do que ela sempre sonhou.
O seu celular apitou com uma notificação no WhatsApp. Era Davi:
“Boa sorte no seu primeiro dia. Amo você.”

Ao ler a mensagem, primeiro sorriu, pensando que, mesmo longe, ele se importava com os mínimos detalhes. Porém, logo em seguida, sua cabeça voltou para um mês atrás na porta do bar Door 74 e, enquanto seu sorriso se desfazia, ela sentia novamente os arrepios ao lembrar da mão de nos seus cabelos, cintura, bunda... Droga!
Respirou fundo, chacoalhou a cabeça e respondeu um obrigada com emoji de coração. Preocupada que aquela cena viesse novamente à tona, resolveu ocupar sua cabeça em achar a sua sala de aula daquele dia.
Os corredores da Universidade de Amsterdã eram gigantescos e majestosos assim como campus todo. Do lado direito sempre havia vidros do chão ao teto que permitiam que os alunos vissem o dia lá fora, bem como a entrada de luz. Os raios de sol batiam no vidro e entravam ali, formando pequenos arco-íris pela extensão da universidade.
Após andar por aproximadamente quinze minutos e pedir informações a duas pessoas, encontrou a sua sala.
Ao contrário do Brasil, as salas da Universidade de Amsterdã são em formato de auditório. Isso quer dizer que, você entrava pelo fundo da sala e ia descendo os degraus até encontrar sua mesa preferida. Cada degrau tinha cerca de 10 lugares de cada lado do corredor do meio, formando uma letra u. Cada uma das poltronas acolchoadas de cor branca disponha de uma mesa apoiada na cadeira do degrau debaixo onde, caso o aluno precisasse, poderia abaixá-la e usar. O lugar comportava cerca de 100 alunos facilmente.
Ao final dos 10 degraus, estava o professor com o projetor gigantesco sobre a sua cabeça. riu, apostava se os professores da Universidade Amsterdã se sentiam como Aristóteles dando aulas naquelas salas. A garota reparou que o professor apanhava um pouco do projetor para passar seus slides ali e entendeu ser a deixa perfeita para que procurasse o melhor lugar para se sentar.
Como era o primeiro dia, queria fazer o que sabia de melhor: observar. Sentou-se mais ao fundo da sala do lado direito. O professor usava microfone para as aulas, então não haveria problemas em ouvir e também perceber as panelinhas. Era solitário ficar ali, sim, mas não ligava, afinal estava sozinha naquele país mesmo.
Não demorou muito para a aula de Direito Internacional começar e abriu o notebook para fazer as anotações sem deixar, nem por um minuto, de reparar tudo a sua volta.
Os alunos daquela matéria pareciam normais e achou engraçado como toda vez sua teoria de que pessoas parecidas se atraiam em sub-grupos poderia, mais uma vez, ser provada facilmente. Logo percebeu os garotos mais malhados se aproximando, mais especificamente três deles, cada um com suas camisetas coladas no corpo que mostravam os músculos salientes e super sexy. O grupo encarava três meninas mais a frente.
desviou o olhar para o grupo de garotas que os três encaravam. Tratavam-se de três meninas muito bonitas, roupas justíssimas e decotadas. As três conversavam baixinho, ignorando o professor ali na frente e passando maquiagem no rosto, que já deveria ter mais de cinco camadas de pó compacto. soltou um riso baixo e voltou-se para o quadro, anotando mais alguns tópicos sobre o surgimento do Direito Internacional e o Estado Moderno.
Quando sua cabeça vagou novamente, viu um grupo na primeira fileira em frente ao professor, dois rapazes e três garotas extremamente focados, com óculos e vestidos de maneira engraçada. “Nerds...”, suspirou.
Na última escaneada, percebeu duas meninas no meio da sala, vestidas de maneira normal, prestavam atenção mas também conversam entre si, estavam arrumadas, mas não com cinco quilos de pó compacto no rosto. Dos grupos formados ali, pensou , aquele era o que ela parecia se encaixar.
No fim da aula, ficou certo que deveriam entregar um essay sobre a formação do Estado Moderno no próximo encontro. anotou em sua agenda e suspirou. Esperou as duas garotas, que classificou como normais, levantarem para ir ao encontro e tentar uma aproximação, afinal, não gostaria de permanecer sozinha para todo sempre naquele país.
Assim, sutilmente, esbarrou na menina loira e fez cair seus livros.
- Ai, meu Deus! Me desculpa, mesmo! – se desculpou, como se não tivesse causado aquilo ali. Era ótima em fazer amigos mesmo.
- Capaz! Não tem problema algum. - A menina disse, juntando seus livros. – Prazer, . – A garota estendeu a mão direita após ficar em pé novamente, no braço esquerdo segurava os livros.
- . – Sorriu, apertando a mão da menina.
- Essa é a . – , uma menina morena de olhos castanhos, vestida de blusas de alcinha branca, calça jeans e uma sandália azul piscina, sorriu também, estendendo a mão a , que correspondeu, repetindo o movimento que fizera minutos atrás.
- Prazer – As duas falaram ao mesmo tempo, se cumprimentando.
- , eu sei que você vai me achar maluca, mas você anotou o que o professor passou para o próximo encontro? – perguntou. – Eu e a conversamos bem na hora e ficamos com vergonha de mostrar o quanto somos distraídas já no primeiro dia. – Falou baixo, como se contasse um segredo.
- Tenho sim, vocês querem se sentar em algum lugar para anotar? Para não atrapalharmos mais quem está passando? – deu um sorrido forçado, desviando de um aluno que pedia licença, afinal, as três estavam reunidas bem na porta da sala de aula.
As três se encaminharam até uma área de recreação que estava mais a frente. e conversando sobre os bonitões da sala e, embora soubesse que deveria se enturmar, cada vez que andava por aqueles corredores, pensava se algum dia se acostumaria que estava realizando um sonho.
- O que você acha, ? – a tirou de seus pensamentos.
- Desculpe. Pode repetir? Estava com a cabeça em outro lugar. – confessou.
riu e repetiu:
- Aqueles três bombadinhos da nossa turma, não são uma graça?
- Ah, eu não sou do “maromba team”, – falou, soltando um riso – mas os três eram muito bem apresentáveis, eu diria.
As meninas riram, concordando e logo se sentando numa mesa redonda que havia no pátio.
- Eu não quero nem ver como vai ser esse ano, porque semana que vem tem recepção dos calouros e, bom, tomara que algum deles vá. – falou.
deu risada.
- O bom é que são três, se combinarmos direitinho temos um pra cada e nós três podemos curtir a noite super bem. – piscou para as amigas.
- É... Bom, eu acho que só vocês. Eu tenho namorado, na verdade. – falou sob o olhar de surpresa das suas novas amigas.
- Ah não, não acredito! Quem entra na faculdade namorando? – falou, rindo de . – Aliás, quem vem de outro país estudar namorando, porque, querida, eu sei que você não é daqui. – A garota completou de maneira afetada, tirando um riso de e .
- Pois é, eu sou brasileira. – tentou mudar de assunto, ignorando o fato de que havia mais uma vez se lembrado da noite no bar com . Quanto tempo demoraria para que conseguisse esquecer?
- NÃO BRINCA! – falou alto, atraindo a atenção de todos que estavam ali para elas. – Eu sempre quis conhecer o Brasil, vocês devem ter muitos surfistas saradões e gostosos.
- Bom, no natal podemos passar uns dias lá e eu levo vocês a praia para viver um pouco do verão brasileiro. – falou, tirando sua agenda da bolsa e fazendo as meninas rirem.
- Eu espero que esse verão tenha um pouco de “sex on the beach”, então. – completou, arrancando risos das meninas e em seguida tomando a agenda da para anotar as especificações do essay pedido pelo professor.

...


O fim das aulas daquele dia chegou e ficou surpresa como sempre acertava na hora de escolher o grupo de amigos. Não deu outra, fim do dia e as três já tinham se enturmado super bem. Descobriram, inclusive, que os apartamentos ficavam na mesma rua. e no mesmo prédio e no prédio da frente. Aquilo era fantástico.
Quando dobraram a esquina dos prédios, estavam indo a pé por morarem próximo ao campus. perguntou fazendo cara de cachorro sem dono:
- Tá, mas, , a gente falou dos bombadex e quando você confessou que tinha namorado esquecemos de perguntar o fato que realmente importa: você só vai ficar estudando, então, enquanto tá aqui?
riu. Não é porque tinha namorado que deixaria de aproveitar com as amigas os dias que tinha ali. Obviamente com limites.
- Jamais! Não é porque namoro que não posso curtir com as amigas, né? – Instantaneamente, o sorriso das meninas se alargou, enquanto relembrou pela terceira vez aquele dia das mãos de . Puta que pariu.
- Ótimo, porque é na próxima semana a recepção dos calouros e eu queria ir junto com vocês já que agora somos amigas. – falou, abraçando as duas pelo ombro.
e riram junto com , mas foi quem respondeu:
- Então, pronto, já temos nossos parceiras de rolês.

...


Naquela noite, tomou um banho e olhou para a cidade de Amsterdã e a viu como era ainda mais bonita de noite. Riu sozinha, abrindo o seu notebook e conferindo as notificações. Uma chamada perdida no Skype. Era de Davi. Suspirou. Se sentia culpada, suja e imunda todas as vezes que falava com Davi depois que o traiu. Pensou nos cinco anos de relacionamento, nas experiências que viviam e em como a mãe do rapaz cuidava dela, em como a família de Davi era fantástica com ela. Ela não o merecia. Sorte dela que nunca mais tinha encontrado e essa história, se dependesse dela, não chegaria ao Brasil tão cedo.
pensou sobre , sobre aquela noite. Onde estava com a cabeça? Não é como se ela não amasse Davi, porque o amava. Ela sabia que se sentia sozinha naquela cidade depois de um mês ali, sabia que sentia falta os beijos e carinhos de Davi, mas não conseguia encontrar uma explicação plausível para ter ido para a cama com um desconhecido. Por Deus! Ela sequer alguma vez fez isso na sua vida. Ela não era assim.
afastou os pensamentos e tentou retornar a chamada de Davi. Quando ele atendeu, os dois conversaram por duas horas sobre o dia de na nova universidade. Uma parte de o queria ali com ela, mas, desde o primeiro dia em que comentou sobre Amsterdã, Davi respondeu que era pra ela nem pensar em sonhar com ele indo pra lá também. Davi jamais deixaria os pais por tanto tempo no Brasil, ainda mais porque era super apegado com a sua mãe.
Os dois brigaram, mas no fim se acertaram. Davi entendeu que era o sonho de e ambos se amavam, certo? Cinco anos juntos. Decidiram que fariam o relacionamento funcionar a distância. Por mais que Davi fosse ciumento, seria uma oportunidade gigantesca de crescimento para ele, em questão de confiança, já que tiveram outros importunos durante essa estrada de cinco anos. Bom, no final, Davi estava certo. não era de confiança.
Os dois desligaram quando viu no relógio que já era uma hora da manhã ali na Holanda. Davi concordou porque, embora o Brasil tivesse cinco horas atrás no fuso horário, queria deixar a namorada descansar e ter um bom dia seguinte. Após se despedirem com eu te amo, fechou o notebook e, mais uma vez lembrou-se de .
Deixou o notebook na sua escrivaninha e suspirou. Como eles fariam aquilo dar certo sendo que Davi estava cinco horas atrás dela e, para ajudar, em cada eu te amo que trocavam, lembrava da mão de na sua bunda?
Chacoalhou a cabeça, querendo esquecer aquilo tudo e deitando-se para dormir.

...


Na manhã seguinte, acordou cansada, querendo jogar o despertador no lixo, mas resistiu. Levantou-se e colocou a roupa de ginástica. Ia fazer o único esporte que não odiava: correr. Precisa disso. Colocou os fones sem fio com The Who no último volume.

Dizzy in the head and I'm feeling blue.
The things you've said, well, maybe they're true.
I'm gettin' funny dreams again and again
I know what it means, but
Can't explain
I think it's love
Try to say it to you
When I feel blue


A letra da música nunca fez tanto sentido na sua cabeça.
estava confusa consigo mesma, se sentindo uma impostora. Aquilo a consumia todos os dias. Às vezes sonhava com isso. Era uma bela merda. parou no meio da rua, olhou os rios de Amsterdã, as pessoas andando de bicicleta. Apoiou as mãos no joelho e soltou o ar.
Quando recuperou sua postura, respirou fundo mais uma vez. Ela precisava se livrar daquilo. Pegou seu celular do bolso de braço que usava para correr e mudou para qualquer música eletrônica sem letra. Não queria ficar pensando naquilo. Terminou a caminhada, analisando mais uma vez a cidade. Ela era muito sortuda de estar ali e seus erros não iriam modificar quem ela era e nem atrapalhar seu maior sonho.
Quarenta minutos mais tarde, tinha voltado ao apartamento, tomado banho e se arrumado. Encontraria as meninas, e , para irem juntas à faculdade. Após fazer a maquiagem leve e arrumar a mochila, prendeu parte dos cabelos com uma fita verde Tiffany, adorava esse ar delicado e romântico que os acessórios de cabelo davam. Por fim, jeans e uma bata branca se juntaram a bolsa da faculdade e estava pronta.
Desceu as escadas, encontrou e já na rua.
- Vamos passar comprar um café? Estou exausta. – falou.
sentiu que a menina leu seus pensamentos e concordou, juntamente com . As meninas caminharam pela cidade falando de assuntos sem importância sobre as expectativas para esse ano letivo até chegarem na cafeteria.
A Starbucks próxima do campus estava um pouco cheia. As meninas entraram e fizeram os pedidos uma a uma. Primeiro , depois e, por fim, .
Quando pegou seu café, agradeceu ao atendente, que lhe deu uma piscadela e virou-se procurando as amigas. As avistou conversando com dois meninos mais a frente, um loiro e um de cabelo raspado que não reconhecera e foi ao encontro delas.
Os dois garotos eram bonitos e bem apessoados. não os colocaria no grupo de nerds, mas também não os colocaria no de marombas, embora tivessem braços definidos. Eram ok e, em um primeiro olhar, considerava que poderiam ser do mesmo grupo de amigos, ela só esperava que eles não fossem viciados.
- Ah, essa é a . – falou entusiasmada, apresentando a amiga.
Os rapazes cumprimentaram que também foi simpática.
- Vamos então? – falou.
- Eles vão também? – perguntou, tentando não soar rude porém falhou miseravelmente.
- Não quer nossa presença, ? – O loiro, que se apresentou como , falou debochando.
então percebeu como soou rude suas palavras.
- Me desculpem, eu não quis soar rude.
- Tudo bem. – , o garoto de cabelos raspados falou, arrumando a camiseta vermelha e pegando a mochila. – Nós também estudamos na Universidade de Amsterdã e, para a sua surpresa, no mesmo curso, mas, na hora que contamos isso às meninas, você não estava. – Deu ombros.
sorriu, envergonhada pelo que acabava de falar.
Os cinco seguiram para a Universidade a poucas quadras dali. Os garotos eram bem legais e ficou feliz pelas amigas que estavam se interessando neles. Pelo canto do olho, várias vezes viu e encostarem os braços nos dos meninos e darem risadas de piadas que eram realmente sem graça, mas ria junto – sem fazer todo aquele escândalo, obviamente – para se enturmar. Entre esses meninos ou o grupo de marombas com shake de Whey Protein? Esses, sem pensar duas vezes.
Quando chegaram ao campus, se reuniram em uma das mesas que tinham espalhadas por ali para uso dos alunos. Até aquele momento, as meninas haviam descoberto que os meninos eram veteranos, estavam um ano a frente delas na formação, mas tinham reprovado em Direito Constitucional e, por essa razão, iriam assistir a aula com elas hoje. Pelo jeito, a matéria era uma das mais difíceis do curso e a professora não ajudava muito.
e se animaram instantaneamente por saber que os garotos iriam para a mesma sala que elas e, em seguida, as três se olharam, cumplices. sabia o que passava na cabeça das meninas ali. Pelo jeito, na primeira festa do ano as amigas já tinham pares.
Foi quando um garoto veio correndo e se jogou ao lado de e , quase caindo da cadeira. Sentou-se quase deitado e tampou o rosto com a mão.
- Que isso! Tá maluco, cara? – arqueou a sobrancelha para o garoto ali.
O menino tirou a mão do rosto e segurou o ar instantaneamente.
- Vim correndo! Estava morrendo de medo de chegar atrasado e essa mulher louca não me deixar entrar. – O garoto falou. – Sabem como ela é.
e riram do garoto, que ainda não tinha notado a presença de ninguém ali e estava pronta para levantar da mesa, quando tossiu chamando a atenção para as três. Droga!
- Ah, eu já estava esquecendo. – começou e apertou os olhos, querendo sair correndo. – Essas são a , e a as conhecemos hoje na cafeteria, são calouras, e estão nessa matéria de hoje conosco. Meninas, esse é o .
O rapaz endireitou a coluna na cadeira e cumprimentou uma a uma com um aperto de mão começando por , passando por e chegando, finalmente, em , que sorriu ao encarar os olhos de diretamente nos seus. Como ele foi parar ali? Mas, tudo bem, eles estavam bêbados naquela noite, era capaz dele não se lembrar. Por isso, estendeu a sua mão e o cumprimentou, confiante, como se fosse a primeira vez, falando um “olá”.
Os olhos de , entretanto, reconheceram no momento em que se encontraram, porque, assim como ela, ele lembrava dela constantemente. Nunca entendeu porque ela saiu correndo naquele dia. Geralmente era ele quem fazia isso. Talvez o destino tenha sido bonzinho com ele e feito ele se reencontrar com ela. Pensando nisso, deu um sorriso galanteador e falou:
- Você não é daqui, né? – Olhando bem no fundo de seus olhos.
sentiu sua espinha arrepiar e, pela segunda vez aquele dia, lembrou-se das mãos, dos suspiros, gemidos, apertos, do cheiro inesquecível de ... Mas antes que pensasse em responder, se meteu na frente:
- Não! Ela é brasileira. Legal, né? – Falou, animada, atraindo a atenção de todos ali.
Quando ouviu a voz da amiga, agradeceu que a mesma se intrometeu e respondeu por ela. Num piscar de olhos, tirou as mãos das de , um pouco nervosa com tudo aquilo. Era para ele ter sumido! Ela ia esquecê-lo e nunca mais precisariam se ver, a vida continuaria. Mas, agora, com ele ali, tudo ficava confuso.
- Brasileira? – falou, tirando do transe em que se encontrava ao encarar . Por um minuto lembrou-se de ter mentido a ele naquela noite falando que era inglesa. Merda!
- Sim, brasileira. – Confirmou, colocando o café na boca para impedir que tivesse de responder qualquer coisa nos próximos segundos. Mas, mesmo assim, sentia os olhos curiosos de sob ela.
- A gente se conheceu ontem, mas já estamos planejando ir para ela no recesso de final de ano. – adicionou, enquanto concordava animada. – Vocês sabem, Brasil, samba, praias...
- Ah, cara, eu morro de vontade de conhecer o Bra... – ia falando, mas foi interrompido pela imagem da professora entrado na sala de aula. – Acho que devemos ir, a professora já chegou.
levantou-se rápido assim como os outros, juntando seus pertences e seguindo para a sala de aula. Ela sentia os olhos de nela o tempo todo, mas tentava ignorá-lo a todo custo.
Quando entraram na sala de aula, havia apenas seis lugares disponíveis e as meninas se apressaram para sentarem lá. pegou o primeiro lugar vazio, seguida por e .
olhou para o lado para ver quem sentou do seu lado e gelou. estava ali. Ótimo! Mas, tudo bem, prestaria atenção na aula. Tudo ficaria bem.
respirou fundo pela décima vez em apenas cinco minutos, baixou a mesa na sua frente e abriu o notebook. Todos ali faziam o mesmo. Quando apertou o botão de ligar do computador e apareceu na tela de bloqueio sua foto com Davi dando um beijo, sentiu os olhares de mais uma vez, o que a fez ficar um pouco tonta. Digitou a senha rapidamente a abriu o Word para fazer as anotações, tentando ignorar o rapaz do seu lado.
A aula começou e, de vez em quando, via e sorrindo para e respectivamente. Além disso, os olhares de pareciam mais constantes. As vezes, pareciam olhares tão intensos, que sentia um arrepio na espinha. Mas que merda!
estava nervosa, sentada totalmente ereta na cadeira. Resolveu relaxar. Acomodou-se, olhando para a frente anotando algumas coisas sobre o Estado de Bem Estar Social, quando a voz baixa e quase rouca de preencheu seus ouvidos arrepiando seu corpo inteiro.
- Brasileira, huh? Achei que era inglesa.


Capítulo 2

engoliu seco, mas se recompôs em alguns segundos. Ela não iria ficar intimidada por um ficantezinho. Ela não era assim. Homens não a intimidavam.
- Você acredita em tudo o que garotas estranhas te falam, ? – Perguntou ao rapaz, sorrindo. Os dois ficaram se olhando nos olhos, tentando decifrar o que pensavam e aproveitando a tensão sexual que havia se instaurado ali. Em seguida, balançou a cabeça, tentando afastar aqueles pensamentos e voltando seu foco a aula de Direito Constitucional.
fez os mesmos movimentos, entretanto, não tinha mais estomago para aquela aula. Sua cabeça estava naquela noite, em Davi, em como ela era uma filha da puta. Não tinha mais volta. Ele lembrava dela. Ela lembrava dele. Mas, assim que tivesse a oportunidade, contaria que tem namorado, que aquilo foi um erro e as coisas seguiriam o fluxo normal. Pronto. Estava resolvido. Respirou fundo tentando, inutilmente, voltar seu foco a professora com pós-doutorado no Inferno que lecionava a disciplina na sua frente.

...


O resto da aula passou tranquilo para e , que não paravam de trocar olhares com os meninos. Se não estivesse tão nervosa com os olhares de a aula com certeza teria sido tranquila para ela também.
No intervalo da disciplina – os alunos da Universidade de Amsterdã tinham apenas uma disciplina por dia, isso quer dizer que seriam quatro horas de aula com o mesmo professor - , , , e resolveram que iriam sair para comprar algum lanche na cantina.
estava torcendo para que resolvesse os acompanhar. Mas, como ele não fez menção de que iria levantar um dedo para sair dali, inventou que precisava pegar algum livro na biblioteca, para não ter que ficar vinte minutos olhando para lhe devendo explicações.
Levantou-se e começou a caminhar em direção à biblioteca, mas segundos depois, sentiu a sua espinha arrepiar. Ele foi atrás dela. Droga! continuou se fazendo de desentendida, até, porque, nada mais constrangedor do que isso, uma pessoa que você ficou uma vez na vida te perseguindo pra lá e pra cá. O que ele era exatamente? O maníaco do parque?
Quem via de longe, percebia andando de forma normal, todavia, na cabeça dela, ela queria sair correndo. Abriu as portas da biblioteca ignorando o rapaz atrás dela, inclusive deixando a porta quase fechar no rosto dele, que a fez soltar um sorriso discreto. Ah, ele tinha visto aquele sorriso. Ela só poderia estar de brincadeira.
perguntou à bibliotecária onde ficavam os livros de Direito Internacional, que pediu para que ela a acompanhasse. seguiu a mulher sentindo no seu encalço, ele não desistiria.
Quando a mulher a mostrou uma prateleira infinita de livros e foi embora, olhou em volta e percebeu que finalmente a tinha deixado sozinha. Soltou o ar que nem tinha percebido que segurava e se virou para a estante, encarando os livros e pensando em quais precisaria para usar no seu essay.
- Você mentiu pra mim. – falou no seu ouvido, fazendo a garota arrepiar.
virou-se de frente para ele, que sorriu malicioso.
- Eu não costumo a dizer a verdade para desconhecidos. – deu ombros, encarando-o nos olhos.
Ele riu.
- Você é engraçada. – confessou. – Sabe, eu sempre me perguntei por que naquela noite você saiu correndo.
riu e virou-se novamente para a estante de livros.
- Achava que eu te pediria em casamento depois de transarmos, ? Ah, por favor, não seja um desses caras emocionados. – Ela disse sarcástica, arrancando riso dele.
, então, ficou ao lado de , encarando os livros ali organizados em prateleira.
- Você tá procurando pelo que exatamente?
- Um livro para meu essay sobre o Estado Moderno de Direito Internacional. – falou, pensativa, vendo, em seguida, tirar um livro do topo da prateleira e entregar a ela.
- Ele adora esse autor. Se usar esse livro, você tira 10 sem precisar se esforçar muito. – deu uma piscadela e saiu dali.
segurou o livro vendo o garoto dando as costas para ela. Apoiou as costas na estante de livros e respirou fundo. Talvez Amsterdã fosse um pouco mais complicada do que ela sonhava.

...


No fim das aulas daquele dia, e as meninas se despediram dos meninos e se encaminharam novamente a biblioteca para começar os trabalhos. A professora tinha acabado de passar um trabalho imenso e elas ainda tinham o essay de Direito Internacional. Se formar numa faculdade tão rígida como a de Amsterdã acabara de se tornar mais complicado.
Mas com e , as duas matracas – como as tinha apelidado agora – , estudar não seria tão fácil quanto o planejado.
- Eu achei aquele um gatinho. – falou, com a bochecha apoiada na mão, rabiscando alguma coisa em seu caderno. riu da situação da amiga.
- Menina, nem me fala, os três são tudo de bom. Se o namorado da largar ela, não que eu deseje isso tá, amiga, mas se... Você pode ficar com o . – falou, soltando um risinho junto com . Mal sabia, coitada.
riu para a amiga. Até cogitou em algum ponto ali contar para as amigas que conhecia , mas achou melhor não. Ela queria que aquele dia morresse. Queria esquecer, superar. Porque, talvez, se aquele dia sumisse, ela poderia dormir sem culpa depois de conversar com Davi.
Davi. sentiu o remorso tomar seu corpo mais uma vez. Merda! Por que tinha que ter saído aquele dia? Por que tinha que ter bebido? Não poderia simplesmente comprar uma bolsa para comemorar? Então, lembrou-se de e os beijos que o rapaz distribuíra em seu pescoço, as suas mãos firmes na cintura dela, o jeito que segurava seus cabelos firmes na hora de beija-la, a sua mão escorrendo das costas a sua bunda. Mordeu o lábio sem querer quando foi tirada do transe.
- Né, ? – falou.
não sabia do que estavam falando, mas fez que sim com a cabeça.
- Ótimo, então vou falar para eles nos encontrarem ali na frente do prédio às oito horas da noite. – falou e arregalou os olhos.
- Como é que é? – Só então percebeu com o telefone na mão digitando alguma coisa.
- , onde você tá? – riu. – Vamos encontrar os meninos, na frente do prédio às oito horas, pode ser? Vamos só comer uma pizza, não tem nada demais. Fala pro seu namorado que hoje você é nossa.
Onde havia se metido? respirou fundo e concordou com as meninas, fingindo animação. Sacou o celular do bolso, encaminhou uma mensagem de texto a Davi, falando que iria tentar chegar por volta da meia noite para que conversassem. Minutos depois, o celular de vibrou na mesa e viu que Davi a tinha respondido.
“Desencana. Conversamos amanhã. Bom passeio! Cuidado na rua tarde da noite. Te amo.”

olhou a mensagem e se sentiu pior ainda. Ela não o merecia.

...<


Algum tempo depois, e estavam tão dispersas que resolveram ir embora, deixando sozinha na biblioteca.
finalmente pôde ter um tempo para colocar a cabeça no lugar e adiantar o conteúdo da faculdade. Ela adorava as amigas e admirava o quanto estavam animadas em sair com aqueles garotos. não podia acreditar na falta de sorte que tinha em, entre tantos alunos naquele lugar, encontrar com .
Quando o relógio dizia que já era seis horas da tarde, recolheu suas coisas e foi embora da biblioteca para o seu apartamento. Tomou banho, passou uma maquiagem e se vestiu com um scarpin, saia preta rodada, blusa de alcinha e uma jaqueta de couro para o frio daquela noite.
Ao descer as escadas, e a olhavam, ansiosas para a noitada.
- Você tá muito gata, amiga! – falou animada.
sorriu, reparando nas duas que também estavam muito bem vestidas. apostou no jeans mas com um belo decote na blusa, já colocou um vestido mais casual com botas over the knee. Ambas estavam de matar.
- Vocês também estão lindas! Aposto que e não irão resistir a vocês duas. – falou, dando um tapinha na bunda delas e em seguida apontando para o Uber que se aproximava dali.
As três entraram e se dirigiram ao endereço marcado com os garotos. Chegando lá, os três estavam com o que gostava de chamar de uniforme masculino: camisa social, jeans e algum tênis mais limpo que encontraram.
riu ao ver no mesmo estilo dos amigos. Ele não parecia aquele homem com perfume caríssimo e roupas de tecidos incríveis que conhecera no bar, parecia mais como um universitário normal. Quando os olhares se encontraram, o rapaz revirou os olhos fingindo drama e arrancando um sorriso da menina.
e cumprimentaram rapidamente, já dando atenção às duas meninas em quem estavam interessados. Mas, foi quando chegou perto, que espalmou sua mão no fim das costas de , quase chegando a sua bunda e dando um beijo lento e demorado na sua bochecha, bem perto de sua boca, que a garota percebeu, de verdade, onde tinha se enfiado.
Os outros ali não pareciam notar toda aquela tensão sexual que tinha entre e . Para ajudar, teve que sentar-se entre e . “Ótimo!”, pensou na hora que viu o único lugar que sobrava.
O garçom entregou o menu e, enquanto os outros cinco brigavam pelos sabores de pizza, reparou no quão aconchegante era aquele lugar. Queria poder trazer seus amigos brasileiros ali algum dia. Tratava-se de uma pizzaria pequena, com quatro mesas apenas, todas estofadas como se fossem canto alemão. Apenas duas delas estavam ocupadas, uma por eles e outra por um casal com cara de poucos amigos.
Mais a frente, do outro lado da porta de entrada tinha uma dupla, em cima de um palco improvisado que faziam uma espécie de show ao vivo, tocando covers de várias bandas. Um rapaz e uma mulher. O rapaz tocava violão e a mulher cantava. Pelos olhares que os dois trocavam, concluiu que os dois tinham alguma espécie de relacionamento amoroso. A frente deles uma pequena pista de dança que, naquele momento era ocupada por ninguém.
Quando o grupo finalmente decidiu os detalhes das duas pizzas que pediram, passaram a conversar novamente.
- Então... – pigarreou . – Vocês já foram convidadas para a festa dos calouros?
- Ainda não. – respondeu prontamente.
- Então, tenham isso como um convite. Se quiserem podemos ir em pares, inclusive. – completou, um pouco receoso. – Eu poderia ir com você, . Se quisesse, claro.
riu baixo do nervosismo do rapaz. Estavam tentando deixar tudo o mais casual possível mas seus jeitos e trejeitos exalavam suas intenções.
- Ah, eu adoraria. – respondeu, meiga, olhando .
A garçonete já de meia idade ressurgiu ao lado da mesa e então interrompeu a fala dos rapazes:
- Nós esquecemos de perguntar o que vão querer para beber.
Todos na mesa se olharam, mas sentiu que era a sua deixa. Se ela iria aguentar no seu encalço a noite toda, precisaria de um pouco de álcool. Não muito, porque quando se bebe muito ao lado dele, bom...
- Eu quero uma Smirnoff Ice, por favor. – pediu logo após a garçonete terminar de falar.
- E eu, uma Heineken, por favor. – pediu. Típico. Enquanto os outros faziam seus pedidos, o garoto aproximou sua boca do ouvido de e sussurrou:
- Sem martinis ou cosmopolitan?
se arrepiou, assim como todas as vezes que escutava a voz do garoto. Em seguida respondeu:
- A última vez que bebi isso, não colecionei boas memórias. – Sarcástica.
- Outch. se fez afetado, arrancando um riso pequeno de .
- Então, como a gente tava dizendo... – retomou o assunto após a garçonete sair. – Já que a vai com o Rafa, você pode ir comigo, .
A menina deu uma leve corada, concordando com a cabeça. E estava ali, achando tudo muito fofo até continuar o assunto:
- Acho uma boa ideia, mas não queremos deixar a ... –Foi interrompida pela garçonete trazendo as bebidas. Ela mal colocou na mesa, e percebeu levando a Heineken a boca. Quando a garçonete deixou tudo ali, retomou:
- Não queremos deixar a sozinha, preferimos ir nós três como amigas... A gente pode se ver lá.
- Mas, por que a não poder ir com ? – falou num ar de inocência.
Em seguida, engasgou. olhou para o lado, rindo e voltou-se a .
- Bom, eu irei a festa, claro, mas eu... – estava procurando palavras para dizer aquilo sem parecer rude. – Eu me sentiria um pouco mal indo em casal, entende? – Todas as atenções da mesa estavam voltadas para ela, que não se sentia tão confortável assim.
- Por quê? – questionou.
- Bom, é.... – estava nervosa em falar aquilo na frente de e não sabia exatamente o porquê. – Eu já... bem...
- Ela já tem namorado. – completou, tomando mais um longo gole de sua cerveja e fingindo indiferença.
As cenas seguintes foram engraçadas para : e se entreolharam e depois olhavam com os olhos arregalados.
- E por que ele não está aqui hoje? – perguntou. Ele achava que estava blefando? – Não o convidou?
- Ele mora no Brasil, . – riu tomando finalmente um gole de sua bebida.
Um “Ahh” uníssono tomou a mesa. Os olhares dos meninos a agora eram de pena e ele respondia dando ombros porque conseguia ver pelo canto do olho. O clima na mesa ficou desconfortável por um minuto até mudar para um assunto banal e salvar a pele de .

...


O resto da noite passou rápido na pizzaria. Os rapazes eram realmente divertidos e e estavam extremamente afim deles. Conversam sobre coisas sem importância por muito tempo, teve que ensinar algumas palavras em português a todos ali e a pizza, bem, a pizza era maravilhosa.
Às vezes, sentia os olhos de sob ela. Mas preferia fingir que não era nada. Era só não virar para o lado que ele estava, ignorar a existência dele ali e tudo estaria certo e no seu devido lugar, né? Não.
sabia provocar. Vez ou outra esbarrava suas pernas fazendo-a virar para ele, que dava uma piscada. Ou, então, o garoto se espreguiçava repousando a mão no encosto da cadeira de . Por Deus, o que era aquilo ali? Terceira série?
Foi na quarta (ou sexta) garrafa de Ice de que a dupla de cantores começou a tocar alguma musica lenta e os meninos chamaram e para dançarem. As duas, mais do que animadas, não postergaram e se dirigiram para a pequena pista de dança que tinha ali, deixando e sozinhos.
tomou um longo gole de sua bebida e, pela primeira vez naquela noite, encarou nos olhos, de verdade. Não sabia se era porque seu sangue já continha álcool ou porque estava puta com seus cutuques e espreguiçadas.
- Ta bom, qual é a sua? – Perguntou séria.
- O quê? – Ele se fingiu de desentendido bebericando a cerveja e dessa vez a ignorando.
- , qual é a sua? – repetiu pausadamente. – Por que está se comportando assim? Me cutucando e passando o braço na minha cadeira e... – pensou um pouco – como você sabe que eu namoro?
O rapaz a olhou pelo canto do olho e riu. Esticou os braços pra cima, como quem estava precisa se espreguiçar e soltou os braços no encosto da cadeira de , novamente a fazendo bufar.
- Eu vi seu papel de parede hoje mais cedo. A não ser que você tenha um papel de parede beijando seu irmão na boca daquele jeito. – olhou para , rindo um pouco. – E, depois, até onde eu sei, encostar e espreguiçar não é considerado traição. Traição é aquilo que você fez comigo um mês atrás.
tentou manter a compostura, mas não conseguiu. Aquilo ali era demais pra ela. Quando terminou a frase, soltou o ar exausta.
- Olha, por favor, não conte a ninguém, ok? – Suplicou para o rapaz, que agora encarava seus olhos de cachorrinho ficando sem graça pelo que havia acabado de dizer.
olhou mais uma vez para e soltou o ar.
- Bom, eu já contei, né!? – Os olhos da menina saltaram do rosto praticamente. – Calma, - riu completando a frase. – Contei que transei com essa menina, a um mês atrás, que ela tinha o mesmo nome mas eles não sabem que era você. Até porque eu disse que ela era inglesa, né?
- Ótimo! – sorriu, lembrando-se da mentira que contara. – É melhor assim.
deu ombros.
- Faz parte, no seu lugar acho que qualquer um faria o mesmo. Ou não. – Falou, rindo da cara de e do tapa de levou no braço em seguida.
não se lembrava muito de , dos assuntos que tiveram. Tinha apenas flashes na cabeça daquela noite. Mas ali, ele parecia alguém divertido e de quem ela poderia ser amiga. Talvez, bem talvez, não seria uma má ideia, né?
De repente, virou-se para perguntando:
- Mas me diz... – Ele se inclinava sob ela na cadeira quase a beijando. Aquela distância conseguiam sentir o hálito de cerveja um do outro. – Você acha que... – Ele colocou uma mecha de cabelo de atrás da sua orelha. Por um segundo, fechou os olhos sentindo o toque do garoto ali e segurando o ar. - ... seu namoradinho é ruim de cama? Por isso você me procurou aquela noite?
queria matá-lo.
Mas também queria beijá-lo. Ele tão próximo a fez sentir saudade de tudo o que vivera naquela noite um mês atrás.
- Vai a merda, . – E, com o pingo de coragem que a sobrava, o empurrou para longe arrancando uma gargalhada do garoto.
- Tá, eu to guardando seu segredo e você não quer me contar por que fez aquilo? – Ele falou divertido.
riu nervosa.
- Eu não sei, ok? – Confessou. – Eu queria comemorar que estava aqui, era meu sonho vir pra cá. Não deveria acabar daquele jeito logo na primeira noite que eu saí aqui.
olhou a garota com olhar divertido. Aquilo ali ia ser melhor do que ele pensava.
- É por isso que você está sentada aqui, como se tivesse num funeral, então? – Indagou.
- Como é? – respondeu, sem entender onde ele queria chegar.
O rapaz levantou-se, tomou o resto da sua cerveja em um gole e esticou a mão para :
- Vem. – Disse, autoritário.
- Eu não vou a lugar nenhum com você, tá maluco?
- Para de ser chata! Vem, vamos dançar. Prometo não te abusar. – Revirou os olhos quando ela ainda assim não pegou sua mão. - Você vai deixar de se divertir por que tá com medo do que pode acontecer de novo? Olha suas amigas ali, rindo, e você aqui, com medo que tudo o que aconteceu aquele dia se repita. Já foi, , esquece isso.
ficou receosa, mas deu a mão a que a puxou para a pista de dança. Ele estava certo, ela não ia passar a noite sentada de braços cruzados, não havia nada demais no que fariam, e ele concordou em esquecer aquele dia então, tudo bem, era focar agora dali para a frente.
a puxou pela cintura e colou o corpo dos dois, mexendo no ritmo da música. Logo, todos ali riram e se divertiam dançando. Os cantores intercalavam entre músicas mais alegres e mais lentas. ria para as amigas, que a correspondia. Estavam se divertindo demais.
Alguns minutos depois, alguma música country tocava e os garotos combinavam os passos de dança arrancando risos das meninas. Tudo estava maravilhoso.
- , vem! – chamava animada e um pouco adulterada pela bebida.
tinha ido pegar a garrafa Smirnoff Ice que deixou pela metade na mesa, quando voltou para o lugar que a chamava. A amiga tinha entregue o celular a cantora do lugar e todos estavam posicionados para tirar foto da primeira noite do grupo de amigos fora em Amsterdã.
e estavam baixados no chão, e estavam em pé atrás deles acompanhadas de . , como chegou por último ficou ao lado do rapaz. Na hora de bater a foto a cantora anunciou:
- No três, hein? Um... Dois...
A partir daí tudo foi rápido, segurou a cintura de com força a puxando mais para perto.
- Três. – O flash estourou em seus rostos.
O garoto se soltou dela, que o olhou tentando formar uma palavra para questionar suas ações. saiu correndo pegar o celular com uma ainda atordoada no seu encalço, queria ver o que acabara de acontecer. abriu a foto e , ao se ver, tomou o resto da Ice que segurava de uma vez só. Ela saíra sorrindo e segurando a garrafa com ao seu lado a olhando com uma expressão divertida no rosto, enquanto segurava sua cintura. Pareciam um casal.
Talvez aquilo seria mais difícil do que pensava.


Capítulo 3

- E você se divertiu? – Davi falava, enquanto comia um cheeseburger pelo Skype.
- Foi bem legal. – confessou, deitada na cama, observando o namorado. Sentia falta das saídas deles para lanches.
- E as meninas já ficaram com os rapazes?
“Que merda, Davi! Pare de perguntar sobre ontem.” pensava.
- Sim. Estavam animadas que eles tinham pegada e sei lá mais o quê. – Riu, lembrando de e contando naquela manhã de sua noite.
- Que bom, amor! Fico feliz que esteja se enturmando aí. – Davi olhou para ela solidário. Ele imaginava o quão difícil era estar sozinha em um país totalmente diferente. – Mas tenho uma coisa importante para te contar.
- Conta, então! – falou animada, arrumando a postura e viu Davi deixando o lanche no prato e esfregando as mãos numa tentativa de limpá-las.
- Lembra daquela promoção que iriam me dar na empresa, mas que eu já tava achando que era mentira? – Davi indagou e fez que sim com a cabeça. – Então, hoje meu chefe me enviou a proposta, eu assinei. Vou ganhar o dobro do que ganho atualmente.
deixou uma lágrima escorrer, vendo a alegria de Davi ao lhe contar aquilo. Ele era um garoto trabalhador e que se esforçava muito no emprego. Aquela promoção lhe era devida e ela queria estar lá para comemorar.
- Eu nem sei o que dizer, Davi! – falou animada, secando uma lágrima de alegria que caía do seu rosto. O garoto, pela tela do computador, estava envergonhado.
- Ah, nem me fala! Eu queria você aqui para comemorarmos. – Ele riu malicioso. – Finalmente vou poder comprar meu carro novo. – Os dois gargalharam. – Mas, , não fica triste não, ok? Bom... – ele continuou – eu tenho que ir porque amanhã começo mais cedo por causa da promoção. Se cuida, tá?
secou a lágrima que caia e concordou com a cabeça. Em seguida os dois disseram uníssono:
- Eu te amo!
Ao fim, desligaram o computador e, mais uma vez, se sentiu culpada.

...


A semana passou rápido e as meninas se adequaram ao cronograma de aulas da faculdade. Todos os dias aulas a manhã toda, cada dia de uma matéria. À tarde, iam para a biblioteca encaminhar os trabalhos. Durante aquela semana, deu umas escapadas da biblioteca para encontrar , assim como e . No meio da tarde, as duas sumiam e deixavam sozinha, que não reclamava, já que essa era a única forma de colocar as coisas em dia. Com as meninas ali, elas sempre paravam para conversar em vez de trabalhar.
estava amando a companhia delas. As duas eram divertidíssimas e tinhas personalidades completamente diferentes. era mais romântica e a um pouco mais bruta, digamos assim. As duas eram brincalhonas e super queridas. Não faziam se sentir excluída, por mais que fosse a única do grupinho que não estava enrolada a um dos meninos que conheciam.
andava sumido, o que não achava ruim, já que ele por perto a fazia sentir-se nervosa. Depois da aula de terça feira, eles tinham apenas a aula de sexta juntos – que também reprovou – , mas dessa vez ele sentou mais ao fundo em vez de acompanhar as meninas. não achou ruim, mas seria mentira dizer que ficou feliz com ele sentando tão ao fundo e longe delas. Será que ele ficara magoado aquela noite com ela?
Pelo menos agora não era hora de pensar nisso. olhou no relógio e eram 17 horas. Daria tempo de tentar adiantar mais alguma coisa e depois teria que ir para casa se arrumar para ir a badalada festa dos calouros. estava animada para ter uma descontraçãozinha, ver gente nova e começar a superar a traição idiota que tinha feito.
Levantou-se da mesa da biblioteca, procurando por um livro para o trabalho de Direito Tributário nas prateleiras. Quando encontrou o livro que precisava, ela parou. Ela analisava o livro no topo da prateleira, pensando em algum jeito de alcançá-lo sem passar vergonha. não era muito baixa, mas aquelas prateleiras eram enormes.
Ela apoiou o pé na prateleira perto do chão e esticou o braço o máximo que conseguiu. Os dedinhos, por mais que se esticassem, não estavam conseguindo puxar o livro. Foi quando uma mão apareceu, do além, e retirou o livro da prateleira e o entregou em sua mão. abraçou o livro e olhou para quem o entregou, não poderia ser outra pessoa: .
- Então, você é integrante do grupo de nerds? – Falou, rindo, encostando o corpo na prateleira.
- Não sou nerd, só sou estudiosa. – contrariou, arrumando o óculos de leitura no rosto.
- Você fica sexy de óculos. – sorriu malicioso, enquanto sentia-se arrepiada. Queria que ele largasse do seu pé.
ia falar alguma coisa sobre o quão pretencioso era, quando uma das peruas da sua turma chegou ao corredor que os dois se encontravam:
- ! – A garota falava baixo para que não fosse expulsa da biblioteca. – Ah, aí está você. – Falou, se aproximando e colando os lábios de aos seus.
coçou a cabeça um pouco desconcertado e prosseguiu sem jeito:
- Ah, , essa é a Priscila. Vocês estão na mesma turma, devem se conhecer.
A menina, então, virou-se para , que, até o momento, estava sendo totalmente ignorada por ela.
- Ah, sim! – estendeu a mão e cumprimentou a garota. – Muito prazer, Priscila. E obrigada, , pelo livro. – Apontou para o livro em sua mão, enquanto saia e deixava o casal ali.
encarou saindo, suspirou e voltou sua atenção a Priscila, que falava rápido sobre algo totalmente desinteressante para o rapaz.

...


As horas subsequentes passaram-se correndo. subiu ao apartamento de para arrumarem-se juntas. não pode vir porque estava atrasada com seus trabalhos da semana.
- , eu não sei o que vestir. – confessou com o babyliss enrolado aos seus cabelos dourados.
- Quer ver alguma coisa minha? – ofereceu.
- Sério?
- Sério, ué. O que que tem?
- Nada. Só acho suas roupas muito legais. – deu ombros, arrancando um sorriso de .
A loira terminou o babyliss e abriu o guarda-roupas de , ficando boquiaberta.
- Agora tá explicado porque você quase não repete roupa. Mulher, você tem um shopping aqui. – riu.
- Eu gosto de ter opções.
fuçava o guarda-roupa até que encontrou um vestido pink Prada que adorou. Modelava seu corpo e realçava os cabelos loiros. Deu uma rodada com ele no corpo buscando pela aprovação de , que encenou o queixo caindo da boca arrancando risos da amiga.
- Esta maravilhosa, . Acho que o não vai resistir.
- Ai, nem me fale em , aquele garoto é tudo o que eu quero hoje. – confidenciou. – Você acha que ele vai gostar, ?
- Amiga, você gostou? – perguntou e fez que sim. – Então, pronto. – sorriu com a amiga. Ela gostaria de ter a opinião de , com certeza. Mas a mais importante ali era a sua.
, após arrumar seus cabelos, usou a mesma sandália com as iniciais de Yves Saint Laurent no salto, desta vez, com um vestido mais curto e menos formal de seda preto, com um maquiagem natural e os lábios vermelhos. Se olhou no espelho e gostou do que viu.
Quando e chegaram na rua do prédio, avistaram correndo para atravessar a rua e encontrá-las.
- Eu vou vendar porque se ele ver vocês assim me troca na hora. – A menina gritou para as amigas
As meninas riram, se abraçaram e logo chamaram um táxi para irem a tal da festa de recepção dos calouros.

...

[N/A: eu escrevi daqui até o final do capítulo escutando Animals – Martin Garrix, se quiserem colocar pra tocar em looping na hora de ler, vai ficar legal (: ]
A festa ocorria em uma grande mansão. Não era nível High Society, com todas aquelas futilidades, mas também não era baderna. Havia um DJ que tocava músicas eletrônicas extremamente boas, um buffet gigantesco com aperitivos chiquérrimos e, por fim, um bar incrível, gigante, com bartenders chacoalhando as coqueteleiras. Uma sala fora transformada em pista de dança e no mini palco onde, vez ou outra, o DJ falava alguma coisa recebendo um “YEAH” do pessoal na pista.
Alguns casais se pegavam pelos cantos, corredores e salas mais reservadas da mansão. A festa parecia ir para o segundo andar dali também.
As luzes eram mais escuras deixavam o ambiente parecendo uma real balada, com exceção da pista de dança que continha diversas luzes coloridas.
ficou dividida entre o bar e o buffet. Mas não deu muito tempo pensar, os meninos logo as encontraram ali na entrada mesmo. As três meninas olhavam tudo em volta animadas, quando e se aproximaram. Nesses momentos, ficava um pouco desconfortável. Os meninos davam selinhos demorados nas meninas e ela ficava ali admirando a cena, segurando a sua Prada nas mãos, esperando o constrangimento acabar e a vida seguir.
Após os meninos cumprimentarem , ela decidiu que era melhor se desvencilhar dos casais e ir atrás de conhecer gente nova. No buffet, pegou um camarão da bandeja de aperitivos e seguiu para o bar. Sentou-se no banco, esperando o bartender e, quando ele chegou, abriu a boca para pedir sua bebida, mas foi interrompida por uma voz que conhecia muito bem.
- Cosmopolitan, para a moça, obrigado. – falou antes dela e sentou-se ao seu lado, encarando-a com um sorriso nos lábios. O rapaz estava menos formal, calça jeans, camiseta branca e uma camisa por cima azul clara com os primeiros botões abertos. Um gostoso.
- Obrigada, mas sou capaz de pedir meu drink sozinha. – bufou e riu.
- Você precisa relaxar, .
- Eu estou relaxada.
- Não. Não está. – Ele olhava para ela divertido. – Você é mais divertida relaxada.
A verdade é que não sabia relaxar perto de . Estava sempre preparada para o pior.
O bartender entregou a taça a , que sequer piscou já havia tomado a metade.
- Como você ousa falar algo assim?
- , - falou, sorrindo. – Você quase bebeu essa taça inteira de uma só vez. Tens que relaxar. – A voz dele era atenciosa. Quase maternal.
soltou o ar e respirou fundo.
- Eu não sou terapeuta. – continuou. – Mas posso te dizer, se ficar nervosa toda vez que for sair de casa porque tem medo de si mesma e do que pode fazer era melhor nem ter vindo pra esse país.
pensou em responder mas, mais uma vez, ele tinha razão. O olhou em agradecimento. O rapaz levantou, a envolveu pela cintura e deu-lhe um beijo demorado na bochecha. sentiu a região que ele havia encostado os lábios formigar. Odiava como mexia com ela a fazendo pensar no quão culpada era por aquilo.
- Se diverte! – Ele disse com a voz rouca, perto de seu ouvido, antes de sair de perto da menina.
Mas ele não precisou falar duas vezes. Alguns shots de tequila depois, estava no meio da pista de dança ensinando uma menina que havia acabado de conhecer como dançar funk e, ela podia dizer com propriedade, holandesas não sabem rebolar.
Havia passado pelos amigos algumas vezes, , , e estavam toda hora em um canto diferente tentando fundir seus corpos. Pelo amor de Deus, aquilo era uma mansão, achem um quarto.
A menina que conhecera ali se identificou como Marcela e foi a principal companhia de naquela noite. Se a garota era lésbica e queria mais com ela, ela não sabia. O fato é que as duas dançaram juntas, bebiam juntas e pareciam que se conheciam há anos. Alguns caras se aproximavam das duas, mas elas estavam tão mais focadas na diversão que nada ia muito além de dois minutos de conversa.
Entre uma dança e outra com Marcela, avistou engolindo Priscila em algum sofá por ali e, por mais que ela quisesse dizer que não deu a mínima, bom, uma pontadinha sentiu no seu coração. Se era ciúme? Não. Estava mais para saudade. Sentimento esse que a garota fez questão de afastar na hora, voltando para a pista de dança e deixando aqueles holandeses quadrados chocados.
Em um momento, se pegou ao lado do DJ, falando para todo mundo colocar as mãos para cima, avistou as amigas, e , dançando na pista, rindo, divertidas, e a incentivando. Logo depois, desceu dali para acompanhá-las na dança. Nunca havia se divertido tanto.
Na hora que o DJ começou uma música lenta com a baboseira de que seria para todos os casais apaixonados, revirou os olhos e correu mais uma vez para o bar. Sabia que tinha passado do ponto mas isso não importava mais. Dessa vez pediu um martini e, quando o bartender a entregou a bebida, virou-se de costas para o bar afim de encarar a festa. Finalmente estava curtindo Amsterdã do jeito que devia.
estava entretida, vendo alguns dos caras bombados da faculdade ficarem se intimando para uma briga, perto da mesa de sinuca, mas nunca ninguém dava o primeiro soco e riu sozinha, pouco antes de se sentir arrepiada por uma voz rouca que chegava perto do seu ouvido.
- Eu vi você dançando. – abriu um sorriso galanteador. – Você com certeza não é inglesa. – Riu baixinho, chegando mais perto de . Ela conseguiu sentir seu hálito de cerveja misturado com seu perfume que tinha toques cítricos e amadeirados.
A menina estremeceu por um segundo com a voz do rapaz e o álcool em suas veias. Ela estava tentando ignorar ali tão perto, que estava bêbado, assim como ela. Ele colocou a mão em sua cintura a abraçando de lado. se sentia estranhamente confortável, mas, mesmo assim, tentava não olhá-lo nos olhos. Ele roçava o nariz em seu pescoço a deixando arrepiada.
tomou um longo gole de sua bebida afim de reunir coragem e dizer:
- , por favor. Pare. – falou com dificuldade, quase num sussurro, fazendo o garoto se afastar dela no mesmo momento e respirou fundo.
aproveitou a oportunidade, levantou-se dali e saiu andando pela casa, sem olhar nos olhos do rapaz, numa tentativa falha de livrar-se dele, que, para sua surpresa, passou a segui-la. Ela se enfiava no meio das pessoas sem qualquer educação, tentando despistar . Estava confusa, sem conseguir respirar direito, a música eletrônica altíssima tinha voltado a tocar. não sabia o que fazer.
Subiu para o segundo andar, achando que tinha se livrado dele e, quando olhou para trás, ele acabava de subir as escadas. Revirou os olhos e continuou andando, buscando algum cômodo ou qualquer lugar naquela infinidade de quartos onde pudesse se recompor dos toques de e da proximidade que os dois tiveram. Organizar sua cabeça e voltar, de alguma forma, a curtir a festa que estava tão boa até segundos antes. Sua cabeça girava e os sons eletrônicos não ajudavam.
Virou-se em um corredor, depois em outro. sentia seu coração acelerado. Ela iria ter um infarto? De repente, percebeu que a quantidade de pessoas estava diminuindo a sua volta. Virou-se e entrou em um corredor sem saída. “Merda!”, pensou. Virou para trás, querendo sair dali, mas deu de cara com a encarando próximo, como se ele mesmo tentasse obter controle de seus atos. Era isso, ela teria que contestá-lo. Cruzou os braços na frente do corpo decidida a enfrentá-lo, se era isso que ele queria. Com o resto de coragem que tinha em seu corpo indagou:
- , o que você quer? – Falou o mais autoritária que conseguiu, mas sua voz tinha pequenas falhas e percebeu.
Ela não precisou repetir. veio em sua direção, puxando a garota sem qualquer delicadeza pela cintura para si com uma mão e a outra apoiando na parede atrás dela.
- Você. – Disse, antes de beijá-la.
não poderia dizer que odiou, porque seria mentira. Mas de tempos em tempos murmurava algo como “Daniel... Por favor, não...” ou então “Daniel, você está acompanhado.” “É errado...” e ele chegava a parar de beijá-la, mas passava a beijar o pescoço e apertar sua cintura. não sabia se era por estar pegando em todos os seus pontos fracos, o seu perfume embriagante ou o efeito de álcool, talvez a combinação de todos esses elementos que faziam que sua entonação dissesse a verdade: ela não queria que ele parasse. Quando suas desculpas acabaram, ela relaxou, finalmente arrancando um mínimo sorriso do rapaz e essa foi a deixa para que o puxasse para um beijo voraz, no qual as línguas diziam o quanto sentiram saudades.
A música eletrônica no andar debaixo fazia tudo ficar mais intenso. Não os deixavam pensar muito.
As mãos de iam de seu cabelo, suas costas, sua bunda e lhe apertavam a cintura. , em compensação, fazia carinho em sua nuca, passava a mão por seu abdômen, mas queria, de verdade, era se livrar daquelas roupas. Os dois pareciam famintos por aquilo.
apertou sua coxa, a puxando para seu colo. Abriu a porta que tinham ao lado e entraram, a fechando em seguida. Ele abriu os olhos para ver onde estavam e tratava-se de um pequeno escritório. Sem demora, colocou em cima da mesa, envolvendo as pernas dela em sua cintura. Sua mão direita vez ou outra apertava suas coxas, agora a mostra, enquanto a esquerda vagava entre seus seios e cintura.
estava embriagada pela combinação dos beijos de , da bebida e da música alta que não a deixava pensar direito no que fazia ali. Os dois beijavam-se de maneira intensa e cada vez mais aumentavam o ritmo.
Para , aquilo ali não era tão complicado como para , ele sentia saudade. Ô se sentia saudade. O cheiro, o toque dela, tudo nela era embriagante para ele. Muito mais do que qualquer bebida alcóolica.
O beijo ia se intensificando, demonstrando que os dois sentiram falta daquela única vez em que estiveram juntos. Inclusive, boa o suficiente para tornar-se inesquecível a ambos.
distribuía beijos no pescoço de , às vezes mordia sua orelha com cuidado, ou então lhe chupava a pele, deixando pequenas marcas que faziam a garota suspirar e chamar seu nome baixinho, coisa que ele adorava e só o deixava com mais tesão.
Quando o rapaz finalmente puxou o zíper do vestido de , desejando-a nua, em um surto, o empurrou para longe, desceu da mesa, o olhou de maneira assustada, correu a porta e saiu correndo dali.
não acreditava que deixou isso acontecer, de novo.


Capítulo 4

Flashback ON
abriu os olhos e uma dor de cabeça tremenda o invadiu. Tentou se lembrar de alguma coisa da noite anterior e, para sua surpresa, vinha mais a sua cabeça do que ele imaginava.
Tinha essa garota... Ela usava um vestido preto que realçava todas as suas curvas e fazia dela uma tremenda gostosa. Ele a viu entrando e, em seguida, sentando-se no bar do Door 74, onde costumava ir com os amigos de infância, sozinho. Nenhum acompanhante, nada. Ela parecia feliz e o sorriso que deu ao bartender era incrível. queria saber mais sobre ela.
Seus amigos também acompanharam com o olhar a entrada dela. Todos estavam boquiabertos. arriscava dizer que o bar inteiro a desejava. Mas ele, ao contrário dos outros, não conseguia, de maneira alguma, tirar os olhos dela. Era constrangedor. Algo sempre o puxava para ela.
Pedro, um dos rapazes com quem estava, viu o garoto encarando a menina e cutucou seu braço.
- Vai lá, cara! – Incentivou.
riu do amigo, pegou sua Heineken e se dirigiu ao bar rezando para que ela não lhe desse um tapa no rosto ou algo do tipo. Não queria saber de humilhações públicas, ainda mais em um bar como aquele.
Ao se aproximar, viu que a fisionomia da garota a fazia especial. Era muito bonita, seu corpo era perfeito, mas tinha algo ali... Ela não era holandesa. Ele tinha certeza. E essa era a brecha perfeita para puxar um assunto sem parecer idiota.
- Você não é daqui. – Perguntou.
- Não mesmo. – A garota respondeu dando um sorriso discreto. Seus olhos castanhos o deram arrepio.
lançou um sorriso de canto de boca galanteador e deu uma bebericada na cerveja. Em seguia estendeu a mão apresentando-se:
- . Qual o seu nome?
Ela apertou a mão de de maneira firme que ficou impressionado. Ela era segura.
- .
- Prazer em te conhecer.
- Igualmente.
sorriu novamente, dessa vez sentando-se ao lado dela no bar. A garota parecia meio distraída, porém animada. não sabia exatamente com o quê. Viu que ela estava em um transe e resolveu chamar sua atenção novamente:
- Então, não vai me contar?
- Contar o que? – A menina sorriu levando a taça de volta a boca e terminando o drink de uma vez por todas.
- De onde você é, oras. – Ele riu e logo voltou-se para o bartender a sua frente. – Mais um cosmopolitan para a moça aqui, por favor.
- Martini. – A garota o interrompeu. Dando um sorriso forçado para ele.
- Martini, então. – concordou, assim como o bartender que se apressou em começar a bebida. achou graça naquilo. Ela era difícil. Determinada, forte e decidida. Ela era, com certeza, o ponto fraco de . Ele então voltou-se para , arqueando a sobrancelha, para que a garota lhe contasse finalmente de onde era.
- Sou inglesa. – Ela respondeu.
- Faz sentido. – concordou. Mesmo tendo certeza que ela tinha algo que não era exatamente europeu ali. Deu ombros. Não importava naquele momento.
Além disso, também se lembrava de risos trocado entre os dois, de olhar para os amigos de maneira discreta vez ou outra, que faziam gestos obscenos em resposta. Lembrava-se de sair do bar e finalmente beija-la. Das mãos bobas dele e dela, dos apertos que ela dava em seu cabelo, braços. Se lembrava de alguns amassos dentro do taxi e por fim, da urgência com que tiravam as roupas quando chegaram a casa do rapaz.
queria aquilo de volta, mas o sol batia em sua cama e a dor de cabeça que sentia atrapalhavam qualquer outro pensamento.
O rapaz se virou e se deparou com a cama vazia. tinha ido embora. Ele soltou um riso. Era melhor assim, ele sabia disso, mas uma pequena parte de si desejou vê-la novamente naquela manhã.
se levantou, calçou os chinelos e percebeu suas roupas jogadas pela casa. Para cada lugar que havia uma peça de seu terno Yves Saint Laurent jogado no chão, ele tinha um flash em sua cabeça de : ela o beijando, ele a beijando, ela sem roupa, ela gemendo em seu ouvido. juntou as peças de roupa que fediam a álcool, e jogou no canto sofá. Teria que enviar aquilo para lavanderia.
Caminhou até a cozinha, tomou um remédio para aquele inferno de dor de cabeça e buscou os cereais e leite. Sentou-se na bancada tomou seu café e desejou que mais tarde, arrumando a casa, encontrasse o número daquela garota em algum pedaço de papel jogado por ali. Mas ele nunca encontrou.
Flashback OFF
...


Naquela manhã, sentiu a mesma dor de cabeça de um mês atrás na hora em que abriu seus olhos. Mas, dessa vez, ele sabia que olharia para o lado e não a encontraria.
Depois que saiu correndo, perdeu a cabeça e socou a mesa do escritório de raiva. Só de se lembrar, sentiu sua mão doer. Mas que merda! Se o que ele queria era, ao menos, se aproximar dela, falhou miseravelmente. Além disso, porque diabos a perseguiu pela festa? Era um assassino agora? Ela deveria estar com medo dele.
encarou o teto de seu quarto, tentando afastar os pensamentos. Olhou para o seu lado e avistou Patrícia. Suspirou. Era um idiota.
Quando conseguiu relaxar e parar de sentir tanto tesão depois de o deixar, ele correu escada abaixo encontrando Patrícia e foi nela que descontou tudo o que gostaria de ter feito com . Mas não era a mesma coisa.
Patrícia era fresca, sem sal, e de tudo reclamava. Seus beijos não lhe causavam arrepios, não lhe deixavam com frio na barriga, não havia nada além de uma garota muito sensual ali. Para piorar tudo, não era . virou os olhos pensando que agora teria que dar um jeito de se livrar dessa menina e tira-la de seu apartamento.
Levantou-se e foi tomar uma ducha, tentando, inutilmente se livrar dos pensamentos que tinha em .
Refletia sobre toda essa confusão em que estava enfiado até o momento enquanto a água caia em seu corpo. Desde o sábado em que esteve com , passou todos os sábados posteriores indo ao mesmo bar, no mesmo horário na esperança de que aparecesse novamente, mas ela nunca apareceu. Quando menos esperava e, na pior hipótese, ela ressurge no meio da sua faculdade.
Para ajudar, tinha namorado e estava arrependida de ter ficado com ele aquela noite. Era só o que lhe faltava. Provavelmente não o perdoaria pelo que fez e agora nem sua amizade teria mais. Estava fodido. Era como se o destino estivesse de gozação com sua cara.
A pouca aproximação que tinha dela agora tinha sido jogada no lixo. Ela pensaria duas ou até cinco vezes antes de aceitar qualquer convite que envolveria . Ele era um merda. Não poderia perde-la. Ele sentia necessidade de tê-la por perto. Ela era inteligente, daquelas que você não acredita que poderia ser assim.
Na faculdade, era focada. Estava sempre anotando tudo, prestando atenção, poderia se passar por uma nerd facilmente. Nos intervalos e finais de semana, ela era outra pessoa. Divertida. Ela ria de tudo, contava piadas ruins e suas aventuras pelo Brasil eram eletrizantes. , depois de reencontra-la a queria ainda mais por perto, queria ser amigo dela, queria rir com ela da mesma maneira que riram na pizzaria, a primeira vez que saíram com os amigos.
Se fosse em outros tempos, ele ficaria feliz de ter pego Patrícia na festa da faculdade. Depois de ter saído com o mulherão que era, qualquer uma parecia não ser nem a metade daquela garota.
Por que tinha que ter feito aquilo? Por que tinha que ter perdido o controle?
Dizer que ele planejava ter beijado ela aquela noite era demais. Ele não havia planejado. Estava morrendo de vontade sim, mas sabia que seria rejeitado. não o queria daquela maneira. Tinha pedido para que ele esquecesse, que superassem aquilo e ele queria conseguir apenas provoca-la como quando a elogiava, ou quando perguntava se o seu namorado não era bom de cama. Mas, na verdade, era ela quem o provocava. Com sua maneira de tentar ignora-lo e suas respostas prontas e ríspidas. Talvez gostasse que pisassem nele.
Na festa não foi muito diferente. estava disposto a deixar pra lá e esperava que ela se divertisse. Ele beijava Patrícia vez ou outra para se distrair, mas tinha dominado a pista de dança. Não havia um homem ali que não havia reparado nela e em Marcela, uma garota da sua turma.
Marcela até tentava acompanhar o rebolado de , mas nunca conseguia. Para afastar a tentação de agarra-la, bebia tudo o que lhe ofereciam e, caso não fosse suficiente, ia atrás de Patrícia para de alguma forma se ocupar e não olhar mais ali.
Depois de várias garrafas de cerveja, já não estava mais em si e o resto, bom... Vocês sabem. Quando ela saiu daquela pista, ele correu atrás dela, assim como após ela deixa-lo no bar. Precisava dela, não aguentava mais. E ele sabia que ela sentia falta porque, toda vez que chegava perto, conseguia ver os pelos da nuca dela se arrepiar. Não era possível que somente ele sentira falta daquela noite.
suspirou, voltando a realidade. Desligou o chuveiro e enrolou a toalha em sua cintura. Respirou fundo antes de abrir a porta e encarar Priscila. Ele precisava se recompor.

...


acordou em um quarto que não era seu. Ela com certeza jamais teria as paredes pintadas de bege como eram naquele lugar.
Apoiou-se nos cotovelos, e olhou a sua frente tentando entender onde estava. surgiu pelo corredor a frente da sua cama e abriu um sorriso quase maternal a amiga:
- Acordou a margarida! – Falou animada e em seguida sentou-se na beirada do colchão de casal de frente para .
- Estou na sua casa? – indagou antes de ser tomada por uma dor de cabeça horrenda que a fez fechar os olhos com força.
- Sim, está. – riu da cara feia que a amiga fez. – Toma. – Estendeu um copo e uma aspirina que segurava.
não pensou duas vezes antes de tomar. Engoliu o comprimido com certa dificuldade e fez questão de beber o copo todo de água. Quando o entregou novamente a , viu que a garota a olhava com curiosidade.
- O que foi? – Perguntou.
riu.
- Eu quero saber, ué. – A loira falou como se fosse óbvio.
arqueou a sobrancelha, sem saber do que se tratava fazendo revirar os olhos.
- Quero saber o que aconteceu para eu te encontrar chorando em um lavabo na mansão noite passada. É bom que o babado seja forte, porque eu vim pra casa com você e deixei lá sozinho. – falou divertida.
Os olhos de se arregalaram com a fala de . Não poderia acreditar. Subitamente, vários flashes da noite passada voltavam a sua cabeça, como na primeira vez que se envolveu com .
lembrava-se de dançar, beber, cantar, animar a festa ao lado do DJ, dançar mais, beber mais, rir mais e, por fim, dos beijos, do cheiro de , da música alta, de se sentir confusa, entregue e suja. suspirou, ponderou sobre o que falaria e, por fim, achou melhor mentir.
- Eu acho que... – tentou fazer sua melhor cara de perdida, se tinha alguma coisa que sabia fazer era mentir. – Acho que senti falta de casa. Não sei ao certo.
riu.
- Você estava sentindo falta era de Davi, não é? – a olhou com pena. – Quando te encontrei, você estava sentada no chão de um lavabo no segundo andar chorando descontroladamente e falava muito “Davi deve me odiar”. Confesso que foi meio difícil entender com esse teu sotaque aí enquanto falava bêbada, mas... – então o olhar de se tornou piedoso – Eu imagino o quão difícil deve estar sendo pra você se adaptar com tudo isso. – A amiga esticou os braços até o ombro de e fez um carinho, como se demonstrasse seu total apoio.
soltou o ar pela boca. não sabia de e era melhor deixar assim.
- É muito difícil estar longe. – adicionou a sua mentira. – Davi deve me odiar, eu vim contra a vontade dele, eu sinto falta dele e, ver vocês felizes ontem com os garotos, me fez ficar pior ainda. Senti ciúmes. – Confessou.
sentia falta de Davi sim. Não era mentira. Mas dizer que os motivos de seus choros na noite anterior eram ele, talvez não fosse totalmente certo. Em parte, queria que ele estivesse ali, as coisas seriam mais fáceis. Ela pedira inúmeras vezes para que ele a acompanhasse nessa aventura. A resposta sempre foi não. Talvez se ele tivesse aceitado, as coisas não estariam tão confusas. Mas, no fim, ela sabia, a maior culpada por aquilo era única e exclusivamente ela.
Estava perdida.
agora era parte do seu grupo de amigos, ela teria que encara-lo uma hora ou outra. Ele andava com e que, consequentemente, ficavam com e . Mas ela teria que passar as coisas a limpo. Aquilo não poderia acontecer nunca mais.
encarou nos olhos finalmente. A amiga a olhava com pena. suspirou.
- Mas agora vamos esquecer isso. – tentou mudar de assunto e parecer animada. – Me conte sobre . Eu vi vocês ontem. – Olhou para com malicia.
soltou um risinho e começou a falar de .
ficou surpresa com o que a havia contado. Ela disse que era um rapaz muito atencioso, extremamente carinhoso e que a fez se divertir muito na noite de ontem. Ela não deixou que nada além dos beijos e mãos bobas rolassem ontem, mas que eles haviam marcado de sair juntos no sábado à noite novamente.
contava tudo animada, gesticulando com as mãos. ria das reações da amiga. Queria estar tão entusiasmada quanto ela.
- Mas... – então a olhou com malícia. – Tem mais uma coisa que precisamos conversar. – Endireitou a coluna.
arqueou uma das sobrancelhas esperando o que viria. Que não fosse .
- Amiga, onde você aprendeu a dançar daquele jeito? – Agora a olhava de maneira divertida arrancando gargalhadas de que parou subitamente após sua cabeça dar uma pontada.
- Aquilo lá é normal no Brasil, um dia te ensino.
- fez um storie seu no Instagram e pelo menos uns 10 garotos responderam com emoji de fogo. – falou procurando no celular que agora estava em suas mãos a conversa com onde era possível ver um print das mensagens diretas de . estava inclinada ao lado da amiga para ver.
O rosto de corou. Aquilo seria pior do que ela esperava. ainda era segredo, ela dançando estava na internet não era mais segredo. Quantas pessoas foram atingidas com aquela publicação? Seus amigos no Brasil viram aquilo? Davi viu aquilo?
mostrou o vídeo a . se viu ao lado de Marcela com as mãos apoiadas sob os joelhos e a bunda virada para a câmera, balançando. As duas riam e olhavam para a câmera fazendo cara maliciosa e depois voltavam a rir uma para outra. Em seguida ficavam em pé e gritavam alguma coisa levantando os copos de chopp.
riu. Não podia acreditar que era ela. Parecia uma doida.
- Todos os olhares naquela festa eram seus. – falou bloqueando a tela do celular. – Você vai ter que nos ensinar essa sua dancinha, senão logo não terá mais homem nessa cidade que não seja apaixonado em você e aí eu fico como? – falou debochando e saindo em direção a cozinha. – Você vai querer tomar café ou almoçar direto?
Por um minuto ficou pensando o que Davi pensaria se visse aquele vídeo. Afastou aqueles pensamentos porque, por mais que ele provavelmente sentiria ciúmes, nada era pior dos beijos que ela e se envolveram.
A voz de ecoou pelo apartamento em seguida falando que preferia o almoço, mas que antes iria ao seu apartamento tomar uma ducha. Levantando-se dali, juntou suas sandálias, bolsa e vestido. Olhou seu corpo pela primeira vez e viu que vestia um pijama, provavelmente de .
As duas combinaram se encontrar em uma hora para o almoço na entrada do prédio. Então acreditou ser a deixa perfeita para subir ao seu apartamento e lavar seu corpo e, de alguma forma, todos os pensamentos ruins que estava acumulando desde que chegara a Amsterdã.

...


No banho, não parava de pensar em . Assim como da outra vez, se lembrava pouca coisa, mas sabia que tinha gostado. Ela queria poder conversar e esclarecer as coisas. Embora uma parte dela gostava das sensações diferentes que a provocava e que, mesmo com Davi, nunca sentira, ela sabia que era errado e que aquilo precisava acabar.
Mas, ao mesmo tempo que gostaria de apagar aquilo, queria deixar salvo e nunca esquecer das mãos de . Confusa era como se sentia.
Davi era o que sempre buscou. Seus pais, desde cedo, falavam que ela deveria procurar por um garoto “certinho” e Davi era assim. Quase não bebia, mal saía com os amigos e ela conseguia confiar totalmente nele. Inclusive, o rapaz chegava a assumir papeis quase paternais em sua vida. Por outro lado, por vezes, sentiu que era a errada ali.
Quando a pressão apertava na sua vida, queria sair, beber, dançar, viver a juventude... Mas Davi a impedia falando “o que os outros vão pensar?”. revirou os olhos lembrando. Além disso, seu ciúme por vezes excessivo a afastou de alguns amigos de infância. A garota suspirou.
Para vir a Amsterdã, demorou os cinco anos de relacionamento para convence-lo. Perdeu a conta de quantas vezes ele falou que se ela quisesse ficar longe dele era melhor que terminassem. Por Deus, ela queria viver! Queria sentir a noite enquanto ainda era jovem, porque logo, a beleza a deixaria, a disposição também, e tudo o que restaria seriam as risadas e lembranças daqueles dias.
Suspirou mais uma vez.
Como poderia ter deixado chegar a aquele ponto?
Davi nunca tivera tanta razão. Suas escolhas no último mês a levou a trai-lo, a se aproximar de e se tornar uma pessoa suja. O que os outros iriam pensar se descobrissem sua traição? Se descobrissem que, enquanto fala todas as noites com Davi e planeja seu futuro ao lado dele, sonha com beijos de ?
Por mais que tomasse banho, se sentia suja. Ela sentia como se aquilo não pudesse sair de seu corpo. Queria poder voltar no tempo.
Talvez teria sido melhor desistir de Amsterdã.
desligou a ducha e saiu do banho. Seu celular tocava.
Enrolou-se em uma tolha e prendeu outra no seu cabelo, abriu a porta do banheiro vagando pelo apartamento vazio em busca do celular. Quando o encontrou na mesa da cozinha, olhou para o rastro de água que deixava pingando pela casa e tomou o aparelho em seus dedos, era Davi.
A garota sentou-se na poltrona que havia ali perto deslizando o botão do seu celular para atender a chamada de vídeo de Davi. A hora que atendeu, viu em sua expressão de poucos amigos. Sentiu seu estômago revirar.
- Foi pra isso que você foi para Amsterdã? – Ele perguntou de maneira firme, mas também um pouco desapontado. baixou o olhar e preferiu olhar para qualquer coisa que não fosse o celular. – Responde, . Mas que merda! – Esbravejou.
- Eu não fiz nada, ok? – Mentiu.
- Nada? Suas amigas postam fotos suas abraçadas com um cara num dia, no outro com a bunda pra cima em festa com todo mundo te olhando e você me diz que não está fazendo nada enquanto tá aí? – Falou ríspido.
- Olha... – tentou manter a calma. – Eu não sei de que foto você está... – Mas foi interrompida.
- Ah, não sabe? – Davi virou a câmera mostrando o Instagram aberto na tela de seu computador. Ali havia uma foto que reconheceria até na lua. A do dia em que fora na pizzaria com os meninos. – Você me disse que suas amigas tinham se interessado pelos caras, mas a única abraçada a um deles, é você aqui, .
, suspirou. Odiava seu nome saindo daquela forma da boca de Davi. Mas viu que ele não sabia de , assim como ninguém naquela cidade, e não seria ela que contaria.
- É só uma foto, Davi. E quanto a festa, eu estava apenas me divertindo com a amiga que fiz lá, ok? Não posso fazer nada quanto a sua preocupação excessiva. Você está sendo possessivo. Nenhuma das coisas que você me mostrou provam nada além de que não confia em mim. – falou o mais firme que conseguiu, se sentindo uma impostora. Quem era ela para cobrar dele qualquer confiança? Por Deus!
- , se você precisou ir para outro país acabar com nosso relacionamento e me fazer de corno, gastou dinheiro à toa. Poderia ter feito isso aqui. – Davi falou ríspido. – Sinceramente, onde você estava com a cabeça? – Davi estava estressado, passava a mão nos cabelos constantemente.
franziu a testa, fazendo-se de indignada. Ela sabia mentir.
- Se você não quer confiar em mim, ok. A escolha é sua. Você é livre, Davi. De noite conversamos. Preciso me arrumar para ir almoçar com as meninas ou a insegurança de vossa senhoria não permite isso também? – Completou debochada e em seguida desligou o celular.
sentiu uma lágrima escorrer em seu rosto. Ela estava perdida. Brigava com Davi como se tivesse alguma razão naquela história e ela sabia que não tinha. Era uma impostora.
A garota, enrolada na toalha e com o celular no colo finalmente se permitiu chorar pela situação em que ela mesma se metera. Não precisava de muito para Davi suspeitar, ela sabia que as fotos e os vídeos sozinhos não provavam nada mas, se não fosse a culpa de realmente ter feito algo errado, provavelmente não se sentiria daquela forma.
queria cancelar o almoço, chorar até anoitecer só que, ao mesmo tempo, recusava comportar-se daquela forma. Ela veio a Amsterdã para viver, os problemas de relacionamento poderiam ser resolvidos outra hora, certo? Bem, ela não tinha certeza, entretanto, era o que tinha para aquele dia.
Quando conseguiu se acalmar, levantou e se arrumou. Colocou um vestido, jaqueta de couro e botas acima do joelho. Usava corretivo para tentar corrigir aquelas olheiras de ressaca e de choro, além de seus narizes vermelhos.

...


Quando desceu, encontrou as amigas na frente do prédio já com cara de tédio. Estava, com certeza atrasada.
- Graças a Deus! – falou gesticulando excessivamente com os braços abertos. – Eu estava quase subindo para ir te buscar. – Falou divertida. Todavia, quando viu como estava cabisbaixa, parou as brincadeiras na hora.
- Tudo bem, ? – perguntou preocupada.
- Conversamos sobre isso no restaurante, pode ser?
As amigas concordaram e, após pedir um táxi, chegaram ao restaurante onde iriam almoçar aquele dia.
O restaurante era muito bonito. Tinha um ar aconchegante assim como tudo naquela cidade. As portas verdes com toldo verde escuro em formato de semicírculo escrito CASTILLO. Aquele provavelmente deveria ser o nome do lugar.
Por dentro, o lugar tinha uma luz amarelada mais baixa. No primeiro andar ficava o bar e no segundo as demais mesas, todas elas com toalhas brancas e taças contrastando com as cadeiras de tom bege. Para a hora do almoço de um sábado, o lugar parecia meio escuro, mas não a ponto de se tornar assustador.
O garçom que as atendeu na porta, perguntou se tinham reserva e falou que estava em seu nome. Após olhar um papel, o rapaz que não deveria ter mais de 40 anos as levou a uma mesa para seis pessoas no segundo andar e perto da janela. Ao ver a quantidade de lugares posto na mesa, revirou os olhos sabendo o que viria.
Sentaram-se de costas para a janela, deixando no meio das duas outras amigas. O garçom entregou os cardápios, mas avisou que estavam esperando alguém e, por essa razão, demorariam um pouco mais para pedir. O garçom concordou e em seguida se retirou.
Quando se acomodaram, não deixou pensar duas vezes.
- Ok, amiga. Conta. – Falou autoritária.
- Não é nada demais, ok? – falou um pouco sem graça. Por mais que considerasse e suas amigas, não sabia se ficava confortável contando seus problemas com Davi a todos, mas, assim como investimentos, amizades funcionam com base em apostar em algo incerto. , por fim, resolveu confiar nas meninas ao seu lado, ao menos em parte.
- É Davi, meu namorado. Ele viu os posts de não sei como e me ligou brigando. – desabafou de uma só vez.
Os olhos de se arregalaram.
- Se eu soubesse que te colocaria em problemas, jamais teria feito isso. – confessou.
- Não, não é sua culpa. Mas ele é ciumento e viu aquela foto na pizzaria onde o saiu me abraçando... – falou baixo com medo de alguém lhe escutar. – Você postou no Instagram, não foi? E me marcou nela? – fez que sim com a cabeça. - E depois, eu acredito que ele tenha te seguido ou visto seus stories no Instagram, sei lá. – Deu ombros.
sacou o celular do bolso e começou a analisar sua lista de seguidores e mostrar para a amiga que estava sentada ao seu lado direito na mesa redonda. gelou quando viu que a havia seguido.
apontou falando qual dos perfis era o de Davi.
Ele, mesmo longe, se comportava como o grande irmão, observando-a.
Por um minuto, não se sentiu tão confortável com seu namoro, apesar de seus erros.


Capítulo 5

, no último lance de escadas, percebeu as três meninas concentradas no celular de . Olhou para trás chamando e que subiram as escadas correndo e pararam ao seu lado admirando-as por poucos segundos.
sorriu ao ver com os cabelos soltos e concentrada no que quer que fosse. Estava bonita. Deu um tapa no braço de e fez sinal com a cabeça para . Eles as assustariam.
Os três rapazes chegaram discretamente na mesa, e posicionaram-se de forma que pudessem ficar extremamente próximos das garotas. se posicionou atrás de que pareceu não notá-lo ali. O rapaz viu que olhavam o perfil do namorado de no Instagram, revirou os olhos. Não queria lembrar da existência desse cara hoje.
levantou os olhos para os amigos, contou até três apenas mexendo os lábios, ao fim da contagem os três cutucaram as cinturas das meninas que pularam assustadas segurando os gritos por estarem em local público, arrancando gargalhadas dos garotos que, em seguida, tornaram a sentar-se na mesa.
ficou ao lado de , de frente para e, por fim, ao lado de .
fitou sentando-se ao seu lado com sua camisa jeans e calças pretas. Ele estava bonito. Conseguiria reconhecer seu perfume de longe.
- Como está a garota sensação da nossa festa? – perguntou se referindo a tirando risos de todos na mesa. – Sério, , eu não sei o que você estava dançando, mas eu nunca vi tanto macho babando junto. – Concluiu arrancando risos de todos ali.
ficou sem graça. Não queria lembrar do que acontecera naquele lugar porque estava tendo que lidar com os problemas que isso causou a um oceano de distância.
- Por favor, , respeito com a moça. – falou fazendo cara séria afetada, mas que logo se desfez, arrancando risos dos que estavam na mesa.
- Vocês holandeses que são quadrados. – finalmente se pronunciou em tom divertido.
- Eu já agendei aulas com ela, porque se ela continuar dançando daquele jeito em todas as festas não sobra homem pra mim. – fez bico e logo em seguida riu junto com o resto dos amigos da cara de bravo que fez.
O garçom finalmente chegou anotando os pedidos. pediu um risoto e um suco de laranja, estava animada para almoçar ali, pelo que tinha visto, as avaliações do restaurante eram ótimas.
Enquanto o garçom terminava de anotar os pedidos dos demais, chamou a atenção de falando baixo perto de seu ouvido que arrepiou automaticamente.
- Você sabe onde estamos? – indagou divertido.
fez que não com a cabeça o olhando com inocência.
Em seguida, apontou com o queixo para a janela que ia do chão ao teto atrás de a fazendo virar a cabeça. Dali dava para ver as pessoas passeando na rua tranquilamente, o restaurante era localizado em uma rua pequena e estreita. Super calmo.
- O que que tem? – indagou a sem saber onde ele queria chegar com aquelas perguntas.
aproximou-se da garota, colocou uma das mãos no encosto de sua cadeira e, sem seguida, colocou a mão livre no queixo de o virando com delicadeza para a janela.
- Ali – apontou – é o bar que nos beijamos pela primeira vez.
Em um pequeno surto, voltou a encarar nos olhos. Eles estavam muito próximos, novamente. Então a garota pigarreou fazendo sentar-se direito e recuperar a compostura. Aquela tensão sexual entre os dois a todo momento teria que acabar.
- Sua namorada não veio? – perguntou baixo com olhar divertido para tentando não deixar transparecer a tensão que se encontrava no momento.
- Hoje sou só seu, amor. – O rapaz respondeu a encarando nos olhos e dando uma piscadela e, por fim, arrumou o guardanapo de pano em seu colo.

...


O resto do almoço passou tranquilo. A comida do restaurante era maravilhosa e os planos do feriado prolongado dos meninos era basicamente ir para uma casa de campo. Ideia essa que animou e a , deixando apreensiva. Não que ela não quisesse ir, mas estava cansada de andar com seus amigos e se sentir tentada o tempo todo perto de .
Quando deram por si, já era três da tarde e, quando os garçons perguntaram se poderiam limpar a mesa, o grupo de amigos percebeu que era a deixa para irem embora. Poderiam ficar ali o resto do dia.
Na hora de acertar a conta, e pagaram o almoço de e deixando numa situação desconfortável com . Já que quando ele se ofereceu a garota recusou fazendo o rapaz virar os olhos, arrancar o papel de sua mão e pagar contra a vontade dela.
Quando estavam na frente do restaurante foi que sentiu-se em uma armadilha, e anunciaram que iriam para casa de , obviamente ninguém ali estava sendo convidado e, após essa brilhante ideia, e declararam que também iam a casa de deixando sozinha com .
O rapaz não parecia ligar e, como precisava ser educada, também dizia que não se importava de ser deixada sozinha com , o que era mentira. Às vezes, pensava em contar para as amigas o ocorrido com antes do início das aulas, pra ver se elas se tocavam que não poderiam simplesmente sair correndo a deixando com , assim, sozinha.
Quando táxi de e saíram, começou a pedir um Uber pelo seu celular, entretanto, fora impedida rapidamente por que tomou o celular da menina de sua mão.
- , não faça isso. Eu preciso ir pra casa. – falava em suplica enquanto o garoto segurava o celular.
a olhou divertido e levantou-se do banco que estavam sentados colocando o celular da menina em seu bolso.
- Vamos. – Chamou, já se levantando. – Eu te dou carona.
rolou os olhos. Não poderia aceitar carona dele.
- , por favor, o celular. Eu não posso ir com você.
- Por que? – quis saber.
- Porque não, ! – Falou um tom acima do que costumava a falar. – Eu estou cansada, ok? Eu estou cansada de me sentir culpada, eu estou cansada de todo final do dia responder ao Davi que amo ele, sendo que eu dormi com outro cara, sendo que eu beijei outro cara ontem! – Suspirou apoiando os cotovelos no joelho e passando as mãos no cabelo.
voltou a sentar do lado de , em silêncio.
Os soluços baixos da menina tomaram conta do ambiente. passou o braço em seu ombro, um pouco desconfortável com a situação. Não queria que chegasse naquele nível. Quando finalmente percebeu que tinha se acalmado, voltou a falar:
- Desculpa. Eu não sabia que te fazia tão mal. – Confessou.
- Não é como se fosse culpa sua exclusivamente né, ? Eu só... – não sabia o que sentia, essa era a verdade, como poderia colocar em palavras o que sente se sequer sabia o que passava dentro dela. – Eu só queria um jeito de resolver tudo.
Ambos ficaram mais um tempo em silencio, sentindo o vento bater neles.
- Davi viu nossa foto na pizzaria. – falou baixo mexendo nos dedos.
- E aí? – perguntou curioso.
- Ele está bem bravo. Viu os vídeos que postou também... Ele não me acusou de traição, mas não gostou de eu ser a única na foto abraçada a um cara nem de me ver com a bunda pra cima e todo mundo olhando.
Os dois riram baixo da última frase que soltou.
- Se eu te namorasse também não ia gostar. – O rapaz confessou arrancando um sorriso frouxo de .
queria dizer que lembrava das noites com direto. Que sentia falta dela. Mas aquilo parecia impossível naquele momento. Nunca se sentira assim antes.
- Eu não quero deixar de ser seu amigo. – falou baixo depois de mais um período de silêncio.
- Eu queria poder começar tudo de novo. – falou. – Se fosse pra te conhecer, preferia ter te conhecido na faculdade, como as outras meninas. Facilitaria muito a culpa que eu carrego. Quer dizer, ela nem ia existir.
sentiu aquilo doer dentro dele. Ela se arrependia do dia que ficaram juntos? Era isso?
Suspirou.
- E se, de agora para frente, a gente fosse apenas amigos? – O rapaz sugeriu num pico de ansiedade, sem saber direito porquê fez aquilo já que não queria ser apenas amigo dela.
, pela primeira vez naquele tempo todo que estavam sentados o olhou nos olhos.
- , eu não quero deixa de te ter por perto, você é engraçada, gente boa e, se continuarmos separados, bem... Isso vai ser impossível. e estão totalmente boiolas por e .
Os dois riram.
- Eu não quero deixar de ser sua amiga, . Eu só queria tirar de mim essa culpa, esse sentimento de que eu estou suja o tempo todo. – confessou quase caindo em lagrimas novamente e sendo abraçada de lado pelo rapaz. – Eu não aguento mais me sentir assim e, toda vez que planejam algo, igual falaram de ir pra casa de campo do , eu sinto como se eu fosse perder o controle e simplesmente fazer tudo acontecer de novo.
Nesse ponto, já não conseguia mais segurar o choro. não sabia o que fazer. Garotas chorando o deixava nervoso. Quando se acalmou, sentiu que ela a hora de voltar a falar:
- Eu sei que eu tenho sido péssimo. Eu te incentivo a curtir mais a vida e depois vou lá e te beijo. – Os dois riram. – Mas eu prometo que, de agora pra frente, seremos amigos e eu estou literalmente descartado do seu baralho.
riu limpando as lágrimas. No final das contas, era a pessoa ideal para quem ela deveria desabafar.
- Se eu não bebesse que nem um Opala, eu também não teria te enfiado nessa situação desconfortável. Me desculpa, também. – falou sincera enquanto concordava com a cabeça.
Em um solavanco, o rapaz se levantou.
- Agora venha, vou te levar pra casa. – Falou estendendo a mão para que aceitou em seguida, cedendo e dando a mais uma chance.
O Audi de estava estacionado no final da rua, ele, como um cavalheiro, abriu a porta para que, embora estivesse envergonhada, não recusou, sentando-se no banco do passageiro um pouco encolhida. A garota estava estressada, de ressaca e havia brigado com o namorado, tudo o que precisava era ir para casa.
O garoto contornou o carro, colocando os óculos escuros, como num filme do James Bond e entrou no veículo o ligando em seguida a caminho da casa de .
O caminho foi tranquilo. Enquanto o rapaz dirigia, fuçava no rádio. No fim das contas, o gosto musical dos dois era extremamente parecido. colocou para tocar uma música aleatória do The Kooks e encostou a cabeça do vidro em silêncio no caminho. Estava mais calma, sim. Mas ainda teria muito o que enfrentar. Mal percebeu que adormeceu. Sendo acordada pela voz de no carro.
- ! – chamou chacoalhando a garota que limpou a baba que escorria da boca arranco riso baixo do rapaz.
- Desculpa, eu dormi.
- Chegamos. – falou divertido.
olhou para o prédio em que morava pelo vidro e suspirou.
- Obrigada, . Você é a única pessoa que eu posso contar nessa muvuca toda, a única que sabe disso tudo.
O rapaz assentiu e depositou um beijo na testa da amiga.
sorriu saindo do carro, o ouvindo arrancar em seguida, e entrando no prédio.

***


Quando ouviu o barulho do despertador, xingou. Segunda-feira era oficialmente o pior dia da semana.
O rapaz com os cabelos bagunçados e sonolento desligou o celular e viu que tinha algumas mensagens para responder, dos meninos e de Patrícia. Ele não entendia porque ela continuava grudada no pé dele, mas, era gostosa então não tinha muito o que reclamar, ainda mais depois do pior fora que levou na vida no dia anterior por .
Depois de pensar várias vezes se devia ir à faculdade naquele dia, levantou-se e resolveu se arrumar. Após um banho rápido, tratou de pegar seu computador e mochila e foi de carro para a faculdade.
Não demorou muito até avistar os outros dois rapazes em uma das mesas do prédio, próximo a sala de aula. Quando se aproximava, ouviu a voz de ecoar pelo campus:
- Daniboy chegou!
sorriu sem graça com a quantidade de gente que reparava neles ali. Mas quando percebeu o grupo de amigas de Patrícia reparando nele e o olhar nada decente da garota resolveu se render.
Cumprimentou os amigos na mesa chocando as mãos e fazendo um estalo gigantesco. Assim que se sentou, Patrícia veio a mesa rebolando. Em seguida cumprimentou e de longe, que secavam a menina, enquanto ela ia em direção a e sentava em seu colo para lhe dar um beijo que chegava a ser obsceno para aquela hora do dia.
O casal da mesa foi interrompido por um pigarro de , que sentava ao lado dos outros meninos junto com e a .
- Nem oito horas da manhã e vocês praticando atentado ao pudor no meio do campus? – falou arrancando riso dos demais que sentavam-se a mesa.
O olhar de cruzou com o de que ria do rapaz e, por um minuto, ele desejou que ela estivesse com só um pouquinho de ciúme dele, mas ali, olhando os olhos da menina, não pode identificar isso.
- Você está com inveja deles? Porque a gente pode imitar aqui e agora. – respondeu para garota e levou um tapa em seguida.
- Credo, vocês são obscenos. – acrescentou enquanto abria uma barra de cereal. – Eu preciso da ajuda dos meus amigos veteranos queridos.
- Pode falar, , estamos às suas ordens. – respondeu dando uma piscadela.
- Como eu faço pra me inscrever na academia da faculdade?
- Você faz academia? – perguntou com Patrícia ainda em seu colo.
- Ué, faço. É tão difícil assim acreditar?
- Não, . É só que você, quando sóbria, é a mais comportada daqui. – falou arrancando risos de todos ali. – Não parece ser daquelas pessoas que vão pra academia se não for arrastado por uma força maior.
- Obrigada pela parte que fala que eu bêbada sou a garota devassa que corpo de tio bêbado do bairro, . – riu.
- Eu te ajudo. Faço academia lá. – se ofereceu recebendo um olhar feio de Patrícia, que o rapaz fez questão de ignorar.
- Obrigada. – agradeceu olhando nos olhos do rapaz por um período mais longo de tempo mesmo com Patrícia a fitando.
- A gente também devia ir. – falou para .
- Deus que me perdoe! Eu não aguento nem subir as escadas do meu prédio que mais ir pra academia. Estou bem no meu sofá, amiga. – falou mordendo um muffin arrancando risos dos amigos e uma virada de olho de .
- Vamos juntas então, . – falou ainda rindo de e terminando sua barrinha de cereal. Enquanto a amiga apenas oferecia um hi-five. – Mas agora vamos para a aula que a professora já chegou. – Falou se levantando.
Os amigos a seguiram para a sala de aula. e se sentaram junto com elas, mas seguiu Patrícia para o grupo de amigas dela. não podia negar que não aprovou muito a ideia, principalmente porque se sentiu sozinha ali. Mas não demorou muito para que o seu novo amigo aparecesse:
: 08:45 AM Aula chata.
Como foi ontem com Davi?

: 08:46 AM
Como você tem meu número?
Não conseguimos conversar.
Entrei em coma depois que cheguei em casa. :/

: 08:50 AM
Tenho meus contatos.
Me avisa se precisar de alguma ajuda com isso, ok?

: 08:52 AM
Ok, agora presta atenção na aula que a professora não aguenta mais você nessa disciplina.

bloqueou o celular buscando focar na aula e esquecer de , mas foi interrompida por , ao seu lado, sussurrando em seu ouvido.
- Qual a chance de você, como a mulher compromissada que é, ir com a gente no feriado pra casa de campo do ?
queria dizer: zero. Mas ela sabia que em primeiro lugar: ela queria muito ir e em segundo que seria injusto demais com ela não lhe dar uma última chance, principalmente depois de terem conversado.
- Eu não durmo no chão. – falou arrancando um sorriso radiante da amiga.

***


A semana havia sido tranquila. A correria de provas e trabalhos impedia de pensar em qualquer outra coisa que não fosse prazos. O clima com Davi ainda não tinha voltado ao normal, até porque os fusos horários e a correria que os dois se encontravam os impedia de ter uma conversa franca sobre o assunto e aquilo estava matando aos poucos.
Agora que a sexta-feira havia chegado, queria, antes de tudo, comemorar que finalmente teve um tempo pra ir à academia. Já que a abortou a ideia sem mesmo se matricular, ela seguia firme e forte. Não queria jamais perder o corpinho que levou anos para conquistar em um mês fora.
Planos para o fim de semana? Talvez assistir um jogo de futebol num estádio com ingressos que o pai de arrumou pra eles e se acertar com Davi. Estudos? Não por esses dias, obrigada.
fechou o armário, pegou sua bolsa e celular e colocou novamente os fones de ouvido. Havia acabado a série de exercícios na academia e estava pronta para tomar um banho digno e relaxante em seu apartamento. Ao sair do vestiário, fez o caminho de saída da academia, a morena sorriu ao ver o carro de entrando ali.
Ela jamais admitiria para alguém se perguntassem, mas sentira falta de seus amigos essa semana, mas , era algo a mais. Sempre era algo a mais. Ela jamais esqueceria seu cheiro? Jamais deixaria de ter saudade da noite que mal lembrava dos detalhes? Todo dia se perguntava isso. Jamais deixaria de se sentir culpada?
Chacoalhou a cabeça espantando esses pensamentos e procurou pela bicicleta alugada que havia estacionado na entrada da academia. Abaixou-se para retirar o cadeado.
Por favor, não estava desesperada pela atenção de , mas tinha algo nele que nem Davi foi alguma vez capaz de despertar nela. Uma sensação quentinha no coração quando via o riso galanteador de ... Era indescritível.
Não foi surpresa o susto que levou ao levantar-se e dar de cara com sorrindo para ela ali abaixada e toda suada enquanto tirava o cadeado da bicicleta.
- Oi. – O rapaz falou abrindo um sorriso.
vestia uma bermuda preta Adidas e camiseta branca junto com algum tênis colorido da moda. Nas mãos uma garrafa de água.
- Eu nem te vi essa semana. – Confessou para .
- Eu tinha artigos para entregar, esses professores estão cada dia piores. – confessou se levantando.
fez que sim com a cabeça.
- Eu queria falar com você, inclusive. As meninas devem ter te contado, não sei, eu pedi para não contarem, - falou enrolado enquanto coçava a nuca sem graça – consegui ingressos pro jogo de futebol de domingo e eu ia chamar só os homens, coisa de macho sabe? – Falou sorrindo e arrancando riso de . – Mas eles não quiseram, sabe como o e o estão boiolas né? E aí, eu consegui mais três ingressos e queria saber se você também quer ir.
sorriu.
- E a sua namorada? – Indagou.
- Que namorada? – falou assustado.
- Ué, a Patrícia. Ela não vai?
sorriu, achando graça naquilo.
- Primeiro, a Patrícia não é e nunca vai conseguir ser minha namorada. – Apoiou a mão no banco e no guidão da bicicleta aproximando-se de – Segundo, ela não é você. – Disse galanteador.
sorriu ao ver próximo.
- Ainda bem que eu sei que somos só amigos, . Que horas domingo?
- Uma da tarde. – O rapaz falou sorrindo vitorioso. – Passo te buscar, ok?
fez que sim com a cabeça para que saía mandando beijo para a morena em direção a academia.
tinha a sensação de que se arrependeria, mas não poderia deixar de, mais uma vez, dar a o benefício da dúvida. Afinal, nos últimos dias, ele se demonstrou muito respeitoso. Nas poucas conversas que tiveram, todas foram normais com picos galanteadores como os que ele teve minutos atrás, mas sempre a respeitando e entendendo como ela estava confusa nessa história.
subiu na bicicleta, e preparou-se para voltar pedalando para casa quando ouviu um assobio atrás de si. Era .
- ! – O rapaz voltou correndo em sua direção, apoiando mais uma vez a mão no guidão da bicicleta e aproximando-se da garota, retirando um fone de ouvido, e em seguida, falando baixo perto do ouvido dela: - Esse short te deixa uma gostosa.
revirou os olhos e deu um tapa no ombro de arrancando riso do rapaz, o que a impediu de conter o dela. sempre seria .
O rapaz se afastou novamente mandando beijos e aproveitou para sair correndo dali.

***


Em casa, tomou uma ducha e buscou preparar um lanche rápido. Estava procurando uma panela para cozinhar quando ouviu o seu celular tocar no quarto. Quando pegou o aparelho em mãos, se surpreendeu ao ver o nome de Davi na tela em uma chamada de vídeo.
Não hesitou em atender.
Do outro lado da linha, Davi estava triste. Decepcionado, talvez?
- Oi? – atendeu.
- Eu sei que eu não sou o namorado perfeito, ok? – Davi disparou. – Mas eu nunca me senti tão inseguro. Se você tem algo pra me falar, , esse é o momento. Eu estou há dias tentando encaixar um horário pra falar com a minha namorada, você tem noção do quão frustrante isso é pra mim? A pessoa que eu quero do meu lado, do outro lado do universo? Sem eu poder sequer ligar na hora que eu posso, sem eu poder chamar pra sair um final de semana? Todos me perguntam o tempo todo como está você e eu só consigo me sentir deixado.
- Eu nunca te deixei, Davi. – falou sentando-se na frente da cama, vendo como o namorado estava abalado.
- Eu me sinto assim.
- Não é sobre te deixar, é sobre o meu sonho. Eu queria estudar fora, antes de te conhecer esse já era o meu sonho. A gente combinou que no natal eu voltaria para casa, e em dezembro eu estarei aí.
- , eu não sei se é você mesmo quem vai voltar. A que eu conheço não me faria de corno.
- Eu não te fiz de corno! – exclamou. Ela sabia que era mentira. Sabia que devia contar, mas não estava pronta, mais uma vez.
- Eu sei! Mas eu não sei mais o que fazer. – Davi confessou.
- Muito menos eu. – desabafou.
Então o silêncio reinou. não tinha mais cabeça para participar de uma discussão como aquela mais. Naquela noite, eles ficaram como faziam quando brigavam no Brasil. deitou-se com o celular ao seu lado, mostrando seu rosto o tempo todo e Davi também. Não disseram mais nada.
Somente os dois sabiam o que era estar naquele relacionamento.
Enquanto carregava a culpa por algo que Davi não sabia que acontecera, Davi culpava pelo sentimento de rejeição que ele tinha desde que ela partiu.
Não era sobre traição, era sobre rejeição.
Ficaram ali até adormecerem.
e ligaram várias vezes para , mas ela nunca atendeu. Aquele dia precisava refletir o que passava com Davi, antes de qualquer coisa, antes de qualquer jogo de futebol, antes de ver qualquer pessoa.
Naquele momento ela era de Davi.


Capítulo 6

: 08:45 AM
Amiga, você vai pro jogo amanhã?

: 09:16 AM
, topa um almoço no shopping?
Você vai no jogo amanhã? falou que só falta você confirmar.

: 09:50 AM
Oi, , você vai no jogo amanhã? Ninguém tá conseguindo falar com você.

: 11:52 AM
A quer ir no shopping almoçar, mas não está conseguindo falar com você. Como já está tarde vai só eu e ela você vai ficar brava?
Acho que os meninos vão também.
, estamos preocupados. Cadê você?

Deitada na cama, reviu as mensagens que as amigas deixaram pela barra de notificação mais uma vez. Já passava da 13h, não tinha conseguido abrir o olho antes do meio dia. Desde então ficava rolando na cama de um lado para o outro, tentando assimilar pela milésima vez tudo o que ela estava passando nos últimos meses.
Não se lembrava de desligar o telefone para poder dormir. Mas se lembrava do silêncio matador que ela e Davi estiveram. O silêncio por vezes fala mais do que pensamos e tinha certeza que aquele ali era um caso desses.
olhou o celular mais uma vez, rodou o Instagram, Twitter e não se deu o trabalho de entrar no WhatsApp para não ter que lidar com explicações. Apenas virou-se de barriga para cima, apoiou o celular na barriga e passou a encarar o teto refletindo sobre o que ocorrera para que ela acabasse ali. Respirou fundo.
.
Era ele quem vinha a mente dela.
Sempre.
Ele foi o pivô disso tudo. Com seus papos furados e encantamentos. Totalmente desprovido de qualquer vergonha na cara. queria dizer que sentia raiva dele. Mas não sentia. Se ele tivesse feito algo contra a vontade dela, talvez ele pudesse ser punido, até criminalmente. Mas nem quando os dois beberam foi algo contra a vontade dela.
Não podia negar que não gostou de reencontra-lo na faculdade. Seu rosto, seu cheiro, seu sorriso. Tudo a embriagava. A fazia sentir coisas que nem Davi fora capaz. queria dizer que era amor, mas tinha certeza que era culpa. Só poderia ser a culpa que surgia nela todas as vezes que olhava nos olhos. Até quando suportaria aquilo?
A barriga de vibrou.
Assustada, a garota atendeu o celular sem ver direito quem a ligava.
- Tá todo mundo te procurando. – falou em tom preocupado do outro lado da linha.
respirou fundo arrependida por ter atendido tão rápido sem sequer ver quem a chamava.
- Desculpa. Eu não queria falar com ninguém hoje. – Confessou.
- Você vai no jogo amanhã?
- Vou. Só não queria falar com ninguém hoje. – A voz de era baixa e pouco animada. sentia algo estranho.
- Tá tudo bem, ?
- Tudo certo, por quê?
- Sua voz... Você tá estranha.
fungou.
- Estou um pouco triste, de TPM. Só isso.
- Só isso?
- Só.
Então o silêncio se instaurou por alguns minutos sendo cortado por em seguida.
- Você falou com Davi, não foi?
abriu a boca para responder algumas vezes. Mas não conseguiu. Do outro lado da linha, escutava o choro da menina. Queria poder fazer qualquer coisa. Ele sabia que tinha culpa por ela estar assim. Então, desligou o telefone.
ficou sem entender a reação no mínimo grossa de . Mas não reclamou. Não queria saber dele. Não queria saber de Davi. Queria ficar sozinha. Então jogou o celular longe, virou-se e começou a chorar novamente. Dessa vez de verdade. Não queria saber se alguém a ouvia. Precisava libertar toda a dor que sentia dentro de si. Não aguentava mais viver daquela maneira, com aquela culpa, se sentindo suja. Ela amava Davi. Era isso e pronto. Sempre foi ele.
Queria por perto sim. Mas não era a mesma coisa. Davi já era seu namorado. Tomou seu coração antes. Não era hora de ser emotiva e ficar tendo duvidas com base em uma noite de loucuras. Davi nunca saberia que aquilo aconteceu. Ela reestabeleceria a confiança do rapaz, e seria seu amigo. Mas apenas isso.
Não podia ficar o resto da vida se culpando. Mas precisava arrumar uma forma de arrumar aquilo. Todos erram. Uma noite embriagada não poderia jogar fora um relacionamento de anos.
Apesar dos pesares, ela tinha assumido o compromisso com Davi. Engana-lo era errado. Mas nunca foi o que ela realmente quis. Ou foi? Era confuso aquela montoeira de emoções. Mas talvez, se ela não tivesse tido aquele pequeno deslize, tudo seria diferente. Não saber como era o beijo de talvez fosse um privilégio que ela já não tinha mais.
secava as lágrimas determinada quando seu pé começou a vibrar. Era seu celular tocando novamente.
- Eu estou aqui na porta do seu prédio. Favor abrir pra mim, obrigado. – E desligou.
não imaginava que apareceria ali tão rápido. Na verdade, não imaginava que ele apareceria. 30 minutos atrás ele tinha desligado na cara dela. Mas o fato é que ela não queria abrir a porta para que a visse naquele estado. Ela sequer havia tomado banho, por Deus! O que quer que ele quisesse, ela o mandaria embora.
levantou-se e percebeu ainda estar com as roupas velhas do dia anterior. Os cabelos parcialmente molhados por ter ido dormido com eles assim.
A garota desceu as escadarias do prédio, implorando para que nenhum vizinho a visse naquele estado. Abriu a porta do prédio e deu de cara com . Afastou apenas um pouco a porta, o suficiente para que ele dissesse o que quer que fosse e não entrasse. Ela não queria lidar com ninguém naquele momento.
- Não vai me deixar entrar? – Indagou o rapaz.
- Não. – respondeu seca.
- Achei que éramos amigos.
- Nós somos. – A garota respondeu revirando os olhos.
- Não parece. Você não me deixa entrar.
- Não quero receber visita. – confessou.
- Eu sei. Por isso eu vim. – falou sorrindo.
- O que você tá fazendo aqui, ?
- Sendo seu amigo. – Ele levantou uma sacola de supermercado que dava para ver um vinho e algumas besteiras.
- Eu não bebo mais perto de você.
O garoto arqueou a sobrancelha olhando de forma séria. A garota até tentou, mas não conseguiu ficar sem rir da expressão caricata do rapaz. aproveitou o momento de distração, empurrou o portão e entrou no prédio. suspirou e se deu por vencida tomando frente e guiando até seu apartamento.
não se lembrava de algum dia ter entrado na casa de . Mas se surpreendeu com a quantidade de livros que alguém pode ter em uma estante. O rapaz, sem pedir licença, se dirigiu a cozinha e começou a desfazer as sacolas.
o seguiu e tentou ajudar.
- O que você pretende fazer com milho enlatado e esse negócio aqui esquisito? – A garota perguntou vendo os produtos em cima da bancada, algum legume que parecia uma batata, mas ela não tinha certeza se era.
- Xiu. – falou tomando o alimento de sua mão.
- Você tem um gosto esquisito de compras, . – falou dando ombros.
- Escute aqui, sente-se naquela banqueta – ele apontou para a banqueta da cozinha de – e só saia de lá quando estiver alimentada.
- Você vai cozinhar pra mim? – perguntou surpresa se dirigindo a tal da banqueta.
- Você já almoçou? – O rapaz perguntou.
- Não.
- Eu imaginei.
- Como imaginou?
- e foram ao shopping almoçar com os boiolas dos meus amigos e você atendeu o telefone chorando. Logo...
- Não precisava vir cozinhar pra mim, .
- Tudo bem. Eu precisava de uma desculpa para mandar a Patrícia embora.
- Ai meu Deus! – falou com a mão na boca. – Você expulsou a sua namorada da sua casa pra vir cozinhar aqui?
- Primeiro, eu vou repetir pra você: ela não é minha namorada. Segundo: tá tudo bem, eu não via a hora de ter um tempo de paz. – falou revirando os olhos ao se lembrar dos assuntos mais sem pé nem cabeça que Patrícia tinha. – Você não sabe o quanto a minha cabeça dói de ficar falando de procedimentos estéticos, roupas de marca da grife tal, da vida dos outros e coisas assim o tempo todo.
- Mas você usa coisas de marca. – falou divertida.
- Você também. – falou sorrindo e dando ombros. – Só sei lá, queria falar de música, mal dos nossos amigos ou então de alguma série ruim que a Netflix lançou. O mundo é mais do que compras na Prada. – Desabafou.
sorriu pela primeira vez naquele dia. Vendo que talvez não era só ela em um relacionamento conturbado. Talvez o de fosse em menores níveis do que o dela, mas mesmo assim conturbado.
- E você e Davi? Se acertaram? – mudou de assunto enquanto descascava uma cebola.
suspirou antes de responder.
- Vamos ficar bem... Eu acho. – Confessou.
arqueou as sobrancelhas dando deixa para que ela continuasse.
- Não é como se a gente fosse algum dia o casal perfeito, sabe? – Confessou. – Eu e Davi somos muito diferentes. Ele é tímido, vive quieto. Eu sou mais extrovertida, gosto de sair, passear, dançar... Acho que ele nunca pensou em namorar alguém que o sonho fosse sair do país para estudar. – Desabafou. – Mas mesmo assim, eu sempre senti que opostos se atraem e a gente se completava de certa forma. Ele sendo mais essa parte pé no chão e centrada, e eu a parte mais bagunceira da relação.
riu da frase de .
- Acho que pra ele foi um baque ver nossa foto juntos. – falou sem graça. - Ver eu bêbada em uma festa já na primeira semana de aula. Mas eu sou assim. Só que com ele, eu me restringia mais dessas coisas, porque ele é mais certinho. Eu nunca o vi bêbado.
- Não acredito! – falou boquiaberto.
- É sério. – soltou um riso nasalado enquanto brincava com as unhas. – Ontem quando conversamos, eu senti que ele se sentia rejeitado por mim. A gente ainda se ama, ). Mas tudo tem sido tão novo. Ele tentou me apoiar nos primeiros dias aqui, eu falava que ia tentar chegar mais cedo dos passeios que dávamos para conversar e ele falava pra eu aproveitar, mas ver aquelas fotos e vídeos que postou... Foi o fim pra ele.
Quando ergueu a cabeça, viu o olho de cheio de lágrimas. A garota se assustou.
- , você tá... Chorando?
- Essa cebola do caralho.
saltou da banqueta à procura de um pano para ajudar o amigo, que tentava secar os olhos com a camisa, deixando parte da barriga a mostra. tentou fingir que não viu aquilo e então entregou um pano limpo e quando finalmente se recuperou os dois desataram a rir.
- Desculpa, , não queria fazer desfeita da sua história. – falou rindo.
- Tudo bem. – disse divertida. – Já foi, eram só reflexões. – Falou voltando a sentar-se na banqueta.
- Eu posso dar minha opinião? – falou um pouco inseguro, mas muito sério.
fez que sim.
- Eu não acho que na situação do seu namorado, eu ia estar muito diferente. Deve ser muito difícil ver quem a gente ama e que estamos acostumados a ficar perto de repente ir para longe.
- Só que as vezes eu não queria que isso fosse sobre mim, sabe? – falou baixinho. – Eu sei que por causa dos meus erros eu não estou em condições de pedir nada, mas é o que queria, eu não queria esse drama todo. Eu não me arrependo de ter vindo pra cá. Eu me arrependo de ter sido desleal com ele.
concordou, de forma mais passional possível tentando esconder o baque de realidade que as palavras de davam a ele toda vez que ela dizia que a noite deles foi um erro. Para a melhor de sua vida, para algo que deveria ser apagado da história.
- Eu quero ir pra lá no Natal. – A garota continuou sem perceber o quanto era afetado ali. – Queria levar você, as meninas e e ... Mas se esse drama com ele não passar, eu não sei se quero trazer mais gente pro meu drama pessoal.
- Eu achava que o papo de “vamos para o Brasil” era brincadeira das meninas. – confessou.
- Bom... É. Mas eu queria chamar vocês, ia ser legal, não ia? – falou esperançosa.
- Eu não conheço o Brasil. – falou. – Mas não sei se quero conhecer Davi.
as vezes falava mais do que a boca e havia se esquecido de como algumas coisas tinham outras proporções para .
- Me desculpa. – A garota falou.
- Pelo que? – falou surpreso.
- Por tudo isso. Por te colocar no meio dessa história. – Suspirou tapando o rosto com as mãos. - Eu nem devia estar te contando tudo isso, né? Mas eu não sei pra quem mais recorrer, )! – falou em tom de desespero, dessa vez, sendo tomada por lágrimas que sequer percebeu que iam sair. – Eu não tenho coragem de dizer a ninguém que a gente já se conhecia antes das aulas começarem ou então contar como a gente se conheceu. Eu me sinto a pior pessoa do mundo e eu só tenho pensado em mim e em Davi e eu esqueço, meu Deus, eu esqueço que também te afeto. Eu sou a pior pessoa do mundo, .
já chorava de maneira inconsolável. Soluçando e se confundindo um pouco nas palavras.
secou a mão molhada em um pano e correu a abraçar.
ficou ali, balbuciando mais algumas palavras que se esforçava para entender, mas não conseguia. Vez ou outra soltava um “desculpa” ou “me desculpa mesmo”. Mas ele não ligava. Se meteu nisso porque quis, não tinha como tirar a culpa dele por tudo aquilo também. E mais uma vez, estava ali porque quis.
Quando se acalmou. pediu a ela que tomasse um banho para que eles pudessem comer. A verdade é que também queria ficar um pouco sozinho pra digerir aquilo tudo. Sabia que mais cedo ou mais tarde conseguiria. Mas naquele momento específico o rapaz queria entender como foi ficar perdido por uma garota que sequer queria dar uma mínima chance pra ele.
Quando topou a amizade ele se surpreendeu. Até então achava que o que a garota mais queria era mata-lo ou acabar com a existência dele. Pelo menos era o que ele esperava. Talvez, como falou, a oportunidade de serem amigos fosse algo bom. Embora não tivesse todos os benefícios que queria ter.
Mas a grande surpresa (para ambos) naquele sábado foi, na verdade, como era bom cozinheiro. Apesar de trazer ingredientes de origem duvidosa, o rapaz fez um ótimo Stamppot, um prato tradicional holandês que se baseia em batatas amassadas acompanhado de legumes, no caso enlatados, e carne. O vinho que combinava perfeitamente com o sabor do prato, foi um toque especial.
saiu do banho com uma mesa posta maravilhosa com rosas enfeitando. Não sabia onde tinha tirado aquilo tudo. Mas ela já sabia a caixinha de surpresas que o rapaz era. O pensamento de que se Davi soubesse o que ela estava fazendo naquele momento a mataria logo veio a mente. Mas fez questão de afasta-lo afinal, desde a semana anterior, e haviam imposto limites e agora eram apenas amigos, certo? Certo. Então não tinha porquê pensar daquela forma.
comeu como se não houvesse amanhã. Dieta? Onde? inclusive se divertia ao ver a garota de pijama e cabelos recém-secos em sua frente, totalmente diferente da garota que encontrou no bar meses atrás, se deliciar em um prato tão fácil de fazer.
Após a refeição, sentaram no sofá e maratonaram alguma série sobre lavagem de dinheiro na Netflix. Quer dizer, maratonou, não demorou muito para que dormisse em seu colo e encharcasse a calça que ele usava de baba. Ela devia estar cansada. fez carinho no cabelo de e a observou. Queria poder fazer mais por ela. Cuidar melhor dela. Ou simplesmente socar a fuça do namorado dela.
Ao mesmo tempo, sabia que não era indefesa. Inclusive, era algo que admirava na garota. A bravura que ela teve de largar tudo o que tinha para seguir seu sonho. Talvez ele jamais conseguiria isso. Não sabia se seria corajoso ao extremo daquela forma. Só de pensar em ficar longe da sua amada vozinha, já se sentia horrível.
Quando viu que no relógio já davam nove horas da noite e não havia sinal de acordar, a carregou nos braços para a cama e deixou um pequeno bilhete avisando que passaria às 10 horas para buscá-la no outro dia. Esperava que ela acordasse a tempo de ver.
Com sorte, ainda daria tempo de passar no shopping buscar um agradinho para que curtisse o domingo no estádio.
***

Quando o domingo chegou, acordou com baques gigantescos na porta de seu apartamento. Por um minuto achou que o mundo estava acabando. A garota correu atender a porta ainda um pouco perdida e se surpreendeu ao dar de cara com e ali que nem pediram licença e já foram entrando.
- A gente estava morta de preocupação. – falou.
- Meu Deus! A gente tinha achado que você foi sequestrada, não sei. – falou junto.
As meninas falavam tantas teorias malucas. não sabia nem o que estava acontecendo.
- Calma, gente! Tá tudo bem! – falou quando houve um espacinho de tempo entre as loucuras das amigas. – O que vocês estão fazendo aqui, exatamente? Que horas são?
- hoje tem jogo! Você não vai? – falou indignada.
- Ela vai sim! Nem que seja arrastada. – completou.
- Eu vou! Só preciso me arrumar. – falou já abrindo o guarda roupas e procurando uma camiseta e um tênis. – Que time vai jogar?
e se olharam como se aquela fosse a pior pergunta da face da terra. E era. Elas não sabiam qual time elas estavam torcendo, pra falar a verdade.
- Esse aqui! – falou apontando para a camisa de time vermelha e branca que usava.
- É pra esse que vamos torcer? – Perguntou .
- Deve ser, os meninos que nos deram essas camisetas ontem, mas eu não sei direito qual o nome. O que significa AJAX? – falou olhando pra como se pedisse por ajuda, mas estava entretida com um pedaço de papel e não prestou atenção na deixa da amiga. – , você sabe o nome do time?
- Oi? – A loira perguntou.
- O que é isso que você tá lendo? – perguntou interessada.
- , quem vem te buscar às 10 hoje? – falou.
- Que eu saiba ninguém, eu ia de Uber ou de carona com vocês. – respondeu com a voz um pouco abafada já que estava quase dentro do guarda-roupas procurando uma camiseta vermelha. – Por quê?
- Esse papel aqui. – falou enquanto se aproximava.
- Que papel? – falou se aproximando também. – Ah, - falou tomando da mão da amiga e vendo a letra D assinada. – deixou aí, eu acho. Ele veio aqui ontem.
e a se entreolharam como se estivessem desconfiando daquilo. Mas antes que pudessem perguntar qualquer coisa, o interfone de tocou e a mesma correu para atender.
- Oi! – Falou um pouco aliviada por se livrar do interrogatório das amigas que viria a seguir. – Vou mandar abrir. – Continuou sobre os olhares de interrogação das meninas. – Tá, tanto faz, subam aqui.
digitou o código para destravar o portão e correu para o banheiro em seguida enquanto falava:
- e já estão aí embaixo. Vocês os atendem? Eu preciso me trocar. – falou correndo em direção ao banheiro.
***

conferiu se a carteira estava no bolso. Pegou o celular, as chaves e óculos de sol. Olhou para a sacola na cadeira, com o logo da loja oficial do time de Amsterdã, o AJAX, e sorriu. iria adorar.
Após entrar no carro e dar partida, ligou o rádio para ouvir um pouco de música no caminho até a casa de , estava animado para o jogo.
***
- Se me falassem que você tinha tanto livro assim, , eu não ia acreditar. – falou olhando a estante em sua frente.
sorriu enquanto arrumava a blusa ao seu lado com a frente por dentro da calça jeans skinny. Os outros três amigos estavam sentados na cadeira da cozinha jogando conversa fora e pouco reparavam em e .
- Sempre tive o hábito de ler. Quando vim pra cá eu trouxe apenas uma parte porque era a coisa que mais demonstrava a minha personalidade que eu poderia trazer pra decorar minha casa nova. Não sei explicar. – A garota confessou dando ombros.
- Na verdade é porque você é a mais inteligente de nós todos, né?
olhou nos olhos e falou algo como “ah tá, aham” em claro som de ironia. Que arrancou um riso nasalado do rapaz.
- Mas, , escuta. – O garoto pediu sério pela primeira vez atraindo a atenção da garota. – Eu queria fazer uma surpresa para a hoje, e queria saber se você pode me ajudar.
- Hum, estou gostando! – falou animada pela primeira vez aquele dia. – Continue.
***

batucava no ritmo da música no volante. Um dia livre de Patrícia, ao lado dos amigos e da sua nova amiga: , vendo o time que ama. Era o domingo perfeito.
Quando parou no sinal, percebeu finalmente o celular vibrando no banco do carona com o nome de sua mãe na tela. Resolveu atender.
- Oi, mãe!
***

- Eu queria dar um presente pra ela. Mas precisava que ela estivesse me esperando na arquibancada quando todos saíssem do estádio. Você acha que pode leva-la lá? – confessou.
Os olhos de brilhavam. Ela mal podia esperar para ver a reação da amiga.
- Posso, mas com uma condição. – Falou aos olhares preocupados de . – Quero saber qual é o presente.
Ele fez que não com a cabeça.
- Nem pensar! Isso eu quero que seja surpresa para todos.
- Ah, não, . Não faça isso. Não me torture dessa forma! Vou passar o dia todo com essa curiosidade, é injusto! – falou fazendo biquinho.
***

A partir daquele momento foi tudo muito rápido. A mãe de explicou que a sua avó tinha caído no banheiro de casa e que estavam no hospital. Todos muito preocupados porque não sabiam mensurar os danos da queda e, ao final, perguntava se poderia ir lá passar o resto do dia e a noite com ela.
ouviu tudo segurando o ar sem perceber. Suas pernas balançavam, e ele escutava os outros carros buzinando atrás de si. Não sabia se conseguiria dirigir até o hospital. De uma hora para a outra o mundo perfeito que havia criado minutos antes acabava de se partir.
***

- Não! Nem pensar! – fez que não com a cabeça pela milésima vez para uma insistente e curiosa, sendo interrompido em seguida por um grito de .
- , já tá pronta? – gritou da cozinha.
- Sim, por quê? – perguntou indo em direção ao grupo de amigos fazendo sinais com a mão para avisando que aquela conversa não teria acabado ali.
- Ah, tá, só pra saber. está atrasado. – completou.
- Ele pode ter ido buscar a Patrícia. – sugeriu.
- Não sei se o quer a Patrícia com a gente lá. – falou coçando a cabeça.
- Claro que quer, . É a namorada dele. – respondeu.
- Namorada? – perguntou em claro som de quem não sabia de nada. – Aí você forçou a barra, ! – Terminou rindo e arrancando riso de .
não entendeu nada, mas saiu da mesa para conferir seu cabelo pela última vez.
***

Quando conseguiu voltar a respirar, arrancou o carro e ao invés de seguir a rota em direção a casa de , virou a esquerda. Estava indo para o hospital.
***

Haviam se passado cerca de 30 minutos desde que estava pronta. Todos ali aguardavam por . Não havia nenhum sinal dele. havia ligado três vezes, e incontáveis vezes e e cansaram de mandar mensagem.
- Eu acho melhor a gente ir, então. Senão vamos perder o jogo. O ) sabe ver hora, sabe que tá em cima da hora, vai nos encontrar lá, tenho certeza. – garantiu.
- Não sei, gente, e se alguém ficar aqui esperando ele? – sugeriu.
- Acho melhor não, . Ele sabe que o jogo já está pra começar, se estiver atrasado, não vai vir aqui. – respondeu.
concordou com a cabeça pegando sua bolsa. Os amigos também começaram a procurar seus pertences e em poucos minutos estavam todos do lado de fora do prédio entrando no carro de e dirigindo-se a Arena Amsterdã finalmente.
O estádio não ficava muito longe de lugares como os que conhecia em Amsterdã. Que eram bem poucos, diga-se de passagem. A arquitetura moderna da arena a fazia sentir saudade de casa. Pensou no Brasil e no quanto era bizarro assistir um jogo de futebol longe de lá e não torcer para Neymar, Gabigol ou qualquer um desses nomes conhecidos. Jogo sem a narração do Galvão Bueno era um crime no seu país. Via as pessoas com suas camisas vermelha e branca... Ok, era legal, mas a camiseta amarela brasileira não tinha igual. Por um minuto, quis sua casa. Sentiu saudade de casa.
- ! – chamou sua atenção. – Tem um documento aí?
acordou do transe de reflexão que estava para pensar e entregou o passaporte a , que passou a .
sentiu o celular vibrar nos dedos. Olhou a tela:
Davi: 11:10AM
Bom jogo!
Me liga de noite?

sentiu coração acelerar. Iam recomeçar do zero? Era esquecer os problemas e inseguranças e seguir em frente? Ou terminariam de vez? Por isso, respondeu um emoji de joinha e um coração. Em seguida voltou a se juntar com as meninas tentando esquecer aquele pequeno detalhe do seu dia.
Enquanto e tentavam retirar os ingressos reservados por , os tais ingressos VIP segundo eles, ficava mais afastada admirando a arquitetura daquele estádio gigantesco, as famílias e torcidas entrando com os rostos pintados, ao lado de e que não paravam de falar o quão animadas estavam para o jogo.
ria com as amigas quando sentiu seu celular tocando no bolso da calça novamente. Pensou no que Davi queria daquela vez. Se afastou das amigas um pouco quando em meio a um pequeno susto viu o nome de no visor e não o de Davi.
- ? – A voz do rapaz estava um pouco rouca.
- Oi, )! Estamos no estádio te esperando. – falou animada ao finalmente ter notícias de .
Não houve resposta do outro lado da linha.
- )? – chamou novamente.
- Não vai dar pra eu ir, . – respondeu com a voz cabisbaixo e ainda um pouco rouca como se estivesse chorando.
- Ué, por quê? – falou preocupada acenando para os amigos que a chamavam, avisando que estava no telefone.
- ... – fungou do outro lado da linha. – A minha avó está no hospital e eu... Bem, ela caiu hoje e se machucou, vou ficar com ela, ok? Você avisa o restante do pessoal que eu não vou poder ir?
respirou fundo em frustração. Dava pra ouvir pela voz de o quão afetado ele estava de sua avó estar no hospital.
- Em qual hospital você está? – A garota perguntou.
- No Hospital de Amsterdã mesmo. Você pede desculpas ao e por mim? Estamos planejando esse passeio a eras...
- Peço sim, sem problemas.
Em seguida, deram tchau e desligaram.
Por um minuto, ficou pensando no quão desesperado deveria estar, sua voz era melancólica e ela nunca o viu assim, pelo menos não no pouco tempo em que estiveram juntos. Lembrou também do dia anterior e do quanto estava mal quando chegou e preparou todo o almoço e cuidou dela. Naquele momento, sabia qual era a decisão certa a tomar.
Dirigiu-se ao grupo de amigos e quando a avistou já esticou o ingresso junto com o passaporte da morena.
- Ah, eu não vou ficar. – anunciou.
- Como assim, não vai ficar? – perguntou.
- acabou de me ligar, gente. Ele está no hospital, pelo visto a avó dele passou mal, algo assim. – e se entreolharam ao ouvir , ambos preocupados. – Eu vou lá ver como ele está e se deixarem assistirei o jogo com ele, pela TV mesmo. Não precisam se preocupar comigo.
- , você não prefere que um de nós vá? – perguntou.
- Vocês estão em casal, vão curtir o fim de semana. Eu estou sobrando mesmo, então acho que não tem problema. Mando mensagem quando tiver informações sobre ele e a avó, ok?
Os dois casais concordaram com a cabeça um pouco aliviados por ter assumido o papel e não ter estragado o encontro deles. se despediu sacando o celular do bolso e pedindo um Uber.
***

Ao adentrar o hospital, pensou pela primeira vez no que estava fazendo: não tinha noção do que procurar ou por quem procurar. Ela sabia que tinha sim um sobrenome, mas não se lembrava nem qual. Ele havia lhe contado aquela noite, ne? A noite do bar. Ok, mas quantos havia em Amsterdã? Iria tentar a sorte.
- Boa tarde. – falou se aproximando do balcão onde uma enfermeira de pele bem branca anotava em uma prancheta. – Eu queria saber qual o quarto da família . Eu queria falar com , sei que ele está aqui com a avó...
A enfermeira com cara de poucos amigos olhou de cima a baixo deixando a garota desconfortável.
- Só pode entrar família.
- Eu sou família. – respondeu por impulso.
- Ah é?
- Sim, sou namorada do . Ele está aqui com a avó, muito abalado. – falou levantando a aliança que carregava no dedo desde a festa de início do ano letivo esperando que a convencesse a tal enfermeira.
A mulher soltou o ar e encarou mais uma vez. Puxou o telefone que estava do lado do balcão e discou alguns números.
- Boa tarde, desculpe o incomodo, mas tem visita para a sua avó, isso... Sua namorada a... – A enfermeira fez sinal para que falasse pela primeira vez seu nome e a morena sussurrou baixo para que só ela escutasse.
- . – Falou.
- . – A enfermeira completou com cara de tédio. – Ok, sim. – Desligou o telefone em seguida. - Quarto 3012. Terceiro andar. – A mulher informou a assim que desligou o telefone indicando os elevadores.
agradeceu com a cabeça e seguiu em direção a eles, ignorando totalmente o mau humor da enfermeira.
Quando chegou ao terceiro andar, não sabia nem para que lado ia, decidiu ir para a direita o que acabou sendo o lado correto já que a poucos passos do elevador, estava o quarto 3012, da avó de .
bateu de forma fraca na porta para que caso alguém estivesse dormindo não acordasse, em poucos segundos a abriu.
- O que você tá fazendo aqui? – O garoto falou seco.
se assustou com a recepção nada calorosa do rapaz que a deixou sem reação.
- E... Eu não... eu não sei. – Gaguejou.
a olhou nos olhos por alguns segundos tentando decifrar o que acontecia ali. Mas fora inútil.
O rapaz a frente de soltou o ar pela boca e puxou para dentro do quarto.
O quarto era privativo, então quando o adentrou, logo reparou numa senhora de uns 70 ou 80 anos deitada na cama, fraca, com curativos na cabeça e dormindo. podia ver na avó de os traços do rapaz, como o nariz por exemplo, que tinha certeza que era o mesmo de .
) puxou uma cadeira perto da sua e ajeitou as coisas para que se sentasse perto dele. fez tudo em silêncio, apoiou sua bolsa e celular em um armário que havia ali e em seguida ocupou o lugar vago ao lado de . Parte por estar em choque com a reação do rapaz e por não saber se era bem-vinda ali e parte por respeitar um momento como aquele.
finalmente sentou ao lado de , com as mãos cruzadas no colo, sem dizer nenhuma palavra também.
Quando o silêncio estava prestes a se tornar constrangedor, o quebrou:
- ), se você não quiser que eu fique, eu posso ir embora eu só queria ver como vocês estavam... Você pareceu tão triste no telefone...
a olhou como quem quisesse a ler mais uma vez. No fim, ele sabia que era isso que queria. Por que estava ali?
Respirou fundo mais uma vez, colocou a mão sobre a coxa de e apertou em um gesto de carinho que não a incomodou nenhum pouco.
- Eu estou feliz que você veio, . – Falou baixinho a olhando fundo nos olhos.
sentiu no olhar de que aquilo era importante para ele. Ter alguém por ele.
- Qual o nome da sua avó? – perguntou querendo mudar de assunto.
- Anne. – respondeu baixinho. – Foi ela quem me criou. Meus pais sempre viajavam então a maior parte do tempo eu passava na casa dela. Graças a Deus a minha mãe foi almoçar lá hoje e estava lá para ajudá-la quando ela caiu no banheiro.
- E como ela está agora? – perguntou interessada.
apertou os olhos com a mão que não estava na perna de e respirou fundo antes de responder.
- Eles disseram que ela bateu a cabeça muito forte e vão esperar ela acordar para fazer outros exames. Por enquanto está tudo bem, mas podem aparecer outros danos nos outros exames. – parou. sentiu a voz do rapaz começar a embargar. não esperou muito e de repente abraçou chorando desesperadamente.
sentia sua blusa vermelha molhar com as lágrimas do rapaz. O susto que ele deve ter tomado com o acidente de sua avó deveria ser imenso. não sabia como conforta-lo e então ficou ali apenas dando apoio a ele, assim como ele dera a ela. Esperou se acalmar, o entregou um copo de água. Ela conseguia sentir o desespero do garoto.
acariciava os cabelos de enquanto ele tomava a água tentando se recompor entre uma frase e outra. Não sabia o que dizer, como dizer. Tudo o que conseguia ver era alguém fragilizado. Desesperado. Sozinho.
Todas as vezes que tentava balbuciar alguma coisa entre os soluços, sussurrava em seu ouvido:
- Tá tudo bem, ). Estou aqui com você.
Quando se acalmou e finalmente o silêncio passou a reinar novamente, levantou-se e abriu o armário em busca de uma manta já que o ar condicionado estava mais gelado. Cobriu ) e ligou a TV baixinho no canal de esportes.
- O que você está fazendo? – perguntou, vendo a movimentação de .
- Vamos assistir ao jogo, ué. Por mais que não estejamos lá. Tudo bem que não é no acento VIP, mas a sua avó assistirá com a gente e tenho certeza que ela vai adorar. Não é, Anne? – falou se aconchegando ao lado de que sorriu balançando a cabeça.
- Você é doida, mulher. – Foi tudo o que ele falou arrancando um riso de .
- Eu disse a enfermeira que era sua namorada. Espero que não fique bravo.
riu da ironia que aquilo ali carregava.
- Ela me disse no telefone, eu achei até que era a doida da Patrícia que ia subir.
- Então ela é sua namorada? – falou sorrindo como se sua hipótese finalmente estivesse certa.
- Não. Não é, e nunca será. - respondeu firme.
- Sei. – A garota deu um olhar desconfiado a que apenas sorriu e virou o rosto para a TV. – Ela não queria me deixar entrar. Disse que só família poderia entrar, eu precisava comprovar que era família. Daí mostrei minha aliança – levantou a mão direita – e falei que você tinha me dado.
riu mais uma vez. Como ele queria ter dado a aquela aliança.
- Você pode ir presa por falsidade ideológica.
- Tudo bem, eu espero você se formar e me defender, pode ser?
balançou a cabeça em descrença junto com riso anasalado mais uma vez e voltou a sua atenção para o jogo. Dessa vez um pouco mais feliz, por saber que, pela primeira vez, não estava sozinho.
- Obrigado. – Falou finalmente encarando com seriedade.
sabia que ele falava dela ter vindo ao hospital, mas decidiu fingir que não sabia do que ele falava somente para melhorar o clima.
- Pelo o quê?
revirou os olhos arrancando um sorriso da menina.
- Por tudo, . Você é a única que está aqui. Isso significa muito.
sorriu e se aconchegou no sofá passando as pernas por cima das de para que pudessem assistir ao jogo juntos, em silêncio e confortável. segurou as pernas de e se endireitou no sofá. Não demorou muito, ) caiu no sono. não o julgou. A garota ficou ali mais um tempo até ter certeza que ) não acordaria tão cedo. Após, saiu sem fazer qualquer barulho, em total silêncio para que nem ou sua avó acordassem.
***

chegou no apartamento mais tarde do que achou que chegaria. O dia já estava escurecendo. Tomou uma ducha rápida e juntou as pequenas bagunças deixadas pelos amigos ali. Não sabia que era possível alguém estar tão cansada. Pediu um fast food qualquer que chegou quando a garota já estava quase dormindo no sofá o que a fez se xingar por ter pedido comida. Deveria ter ido dormir com fome mesmo.
Depois de agradecer o entregador e pedir desculpas, já que se sentia culpada de ter deixado o rapaz esperando por cinco minutos enquanto ela lavava o rosto e tentava se recompor da cara de sono, pegou o lanche e dirigiu-se a sua mesa de estudos ligando o computador enquanto organizava o prato, copo e etc. Quando finalmente conseguiu desbloquear a tela inicial, viu que tinha esquecido um trabalho pela metade e xingou mentalmente. Teria que terminar aquilo ali com o resto de energia que tinha para poder entregar na segunda-feira de manhã. Xingou mais uma vez e mentalmente a ideia absurda de ter topado ir ao jogo por um minuto.
***

Na manhã de segunda-feira, acordou disposta. Fez um café da manhã reforçado e com frutas, em casa mesmo, amarrou o cabelo em um rabo de cavalo alto e colocou uma roupa fitness – que consistia em uma legging e uma blusinha. Após calçar o tênis e sair de casa, repetia a si mesma que estava determina a sair para correr todos os dias. Vida sedentária? Nunca mais.
Quando abriu o portão do prédio, o vento gerado pelos carros que passavam na rua bateu em seu rosto, olhou para o céu. O dia estava amanhecendo. Era perfeito para uma corridinha antes da aula começar. Talvez ela chegaria atrasada, mas valeria a pena. A menina então respirou fundo, contou até três e saiu correndo pelas ruas de Amsterdã.
As pessoas passavam de bicicleta por ela, e ela retribuía os sorrisos que davam. Eram os primeiros minutos de uma mudança de hábito gigantesca na vida de , já que ela sempre fora sedentária. A garota sorria e pensava “por que eu nunca fiz isso antes?”
Mas isso foram os primeiros dois minutos. Em seguida, continuou correndo, mas passou a sentir a respiração começar a falhar, o pulmão implorar por mais ar e uma sede tremenda a invadiu como se não houvesse mais água no mundo. entrou em desespero. Será que estava morrendo?
A garota parou numa esquina. Apoiou a mão nos joelhos e tentou recuperar o ar, mas de repente tudo parecia tão quente, o ar parecia que não entrava em seus pulmões. E água... Ela precisava de água. endireitou a coluna e colocou as mãos na cintura. Do outro lado da rua avistou o Starbucks que costumava a frequentar com as meninas antes ou no final das aulas. Água! Ali teria garrafa d’água.
Ainda respirando pela boca e tentando se recompor, atravessou a rua e se dirigiu direto pro balcão. Uma garota loira, magrela e alta na sua frente demorou alguns minutos para fazer a escolha e queria enforca-la. Quando chegou a sua vez, pediu com o resto de fôlego que tinha por uma garrafa de água bem gelada, o atendente riu da garota ainda meio ofegante, mas logo foi buscar a garrafa em uma geladeira. Enquanto ele buscava a bebida, aproveitou para dar uma olhada na cafeteria que estava um pouco mais vazia do que geralmente estava quando ela ia, por causa do horário. De repente, seus olhos bateram em que não a avistou.
sorriu para o atendente em agradecimento quando ele entregou a água e foi direto sentar-se na mesa de que mexia distraidamente em seu computador. Ficou feliz que tinha alguém conhecido ali, porque ela queria muito contar que agora era fitness, tudo bem que por cinco minutos, mas era algo que ela queria prolongar, então tudo bem contar por aí.
Quando estava há cinco passos da mesa de , a garota loira que estava na sua frente na fila minutos atrás ressurgiu e ocupou a cadeira ao lado do rapaz o puxando pela nuca em seguida e beijando seus lábios. O rapaz sorriu com o gesto e em seguida se afastou.
parada a metros dali soltou a garrafa de água no chão que respingou em todos que estavam perto, inclusive em que levantou-se furioso para brigar com quem quer que fosse, mas quando seus olhos encontraram os de , foi incapaz de soltar uma palavra sequer.


Capítulo 7

passeava pelos corredores exausta de mais um dia de muito estudo. Tinha dormido pouco na noite anterior preocupada com e sua avó, as olheiras a denunciava. Tinham trocado várias mensagens durante a noite e havia dito que o resultado dos exames tinha saído. Nenhum dano maior havia sido causado a sua avó. Ela precisava apenas descansar e melhoraria.
ficava repassando as cenas do dia anterior na sua cabeça. Queria poder ajudar mais. O que ela presenciou no dia anterior não era o brincalhão e charmoso que ela estava acostumada. Muito pelo contrário. Estava desesperado, aflito e, ainda arriscava dizer, sozinho.
Enquanto andava pelos corredores, resolveu parar e admirar o quadro de avisos da faculdade. O curso de Direito costumava a colocar avisos de estágio e monitoria de estudos em algumas disciplinas nesses murais. Era sempre uma boa oportunidade de ganhar um dinheiro extra ou ocupar melhor o tempo.
sabia que desde que chegara em Amsterdã tinha se ocupado demais com os dramas pessoais, mas agora estava disposta a deixar os erros do passado para trás, supera-los e voltar a cabeça ao seu principal foco: os estudos. Por isso, segurou a caneta pendurada ali com um cordão para que os alunos pudessem se inscrever e optou por inscrever-se no estágio de pesquisa de Direito Tributário. Estava determinada. As coisas mudariam dali para a frente.
- ! – gritou do outro lado do corredor acenando para a amiga.
checou mais uma vez seu nome escrito no quadro e desviou finalmente sua atenção para .
- Meu Deus que desespero! - falou se surpreendendo ao encontrar todos os amigos que viam todos em sua direção. com uma cara feia inexplicável e com uma cara de boba que jamais tinha visto. – Estou viva, cheguei. Como foi ontem?
- MA-RA-VI-LHO-SO. – respondeu animada. – Foi uma pena que você não estivesse lá, amiga.
- Como está o , falando nisso? Hoje ele não respondeu nenhuma mensagem minha. – falou um pouco chateado.
- Ele estava bem nervoso ontem. – falou de ombros caídos ao lembrar de que não parava de chorar. – O susto com a avó dele foi gigantesco. Acho que ele tá super mal ainda porque também não respondeu minhas mensagens. Estava pensando em ir lá agora que a aula acabou.
- Acho que seria bom ir mesmo. – falou pensativo.
- É! É bom quando as pessoas que a gente gosta se importam com a gente. – complementou olhando para as unhas.
Antes que o clima na roda se tornasse pesado por causa do acontecimento com a avó de , fez questão de mudar de assunto, embora não tivesse certeza se era isso que estava deixando o clima ali esquisito.
- Agora, mudando de assunto, me contem como foi a experiência. Eu vi o jogo todo pela TV com o .
- Amiga, foi tudo! – se pronunciou finalmente e desencadeou contar sobre como eles assistiram ao jogo de uma área VIP com, inclusive, as esposas de alguns jogadores. fez uma nota mental de perguntar a como ele havia conseguido aqueles ingressos depois dessa afirmação.
- Ai, tomara que o consiga ingressos bons assim outra vez porque eu também quero tirar foto com gente que eu não faço ideia quem seja! – falou fazendo biquinho, e arrancando risos dos amigos, quando baixou o celular com uma foto dele com Dušan Tadić, o camisa 10 do AJAX.
- E a melhor parte... – falou fazendo um clima de suspense que fez revirar os olhos. – Isso daqui – completou mostrando uma aliança de compromisso no dedo.
- AI. MEU. DEUS. – falou pausadamente puxando a mão de . – Não acredito! !
não se arrependia de ter ido ver como estava, mas ficou triste por ter perdido um momento tão importante para alguém que fazia parte da melhor história da sua vida.
- Não acredito que era isso que você planejava, ! – falou dando um tapa no ombro do amigo que sorria largamente.
- É! Agora tem que manter, viu? – falou em tom de ironia.
- Eu acho bom o conseguir um ingresso super VIP no próximo jogo do AJAX pra compensar esse momento que perdi. – falou alegre e abraçando a amiga.
- provavelmente vai conseguir, já que o pai dele é advogado do clube. – respondeu com indiferença.
- Isso explica o carrão. – falou fazendo os amigos rirem novamente.
- Eles não se dão muito bem, - continuou mudando de assunto rápido para não dar brecha a mais uma vez – mas tem lá os seus benefícios.
- Falando em , eu acho que vou indo. Quero passar no hospital ver como ele e a avó estão. Ela estava bem fraca ontem. – falou se levantando. – Mas depois nós três vamos sair para beber e conversar sobre isso viu, mocinhas? – falou segurando a mão de .
Recebendo sorrisos e risadas de uma super feliz em troca e um revirar de olhos de que a deixou confusa.
- Manda notícias pra gente sobre como eles estão. – falou séria.
fez que sim com a cabeça e após se despedir seguiu para o hospital em um Uber que pediu. Antes de entrar no prédio, passou na floricultura que tinha a uns metros do hospital e comprou um pequeno buquê de tulipas amarelas e uma barra de chocolate para levar.
***

Chegando ao hospital passou pela mesma enfermeira carrancuda, que dessa vez reconheceu a garota e simplesmente a deixou passar sem fazer qualquer movimento que indicasse que queria barra-la ou de estar interessada no trabalho que desempenhava.
Quando finalmente encontrou o quarto 3012, fez menção de bater, mas a porta fora aberta antes disso revelando a face de um de ao menos 35 anos mais velho do que conhecia, com terno perfeitamente alinhado. Atrás dele uma senhora com scarpins preto no pé e uma Birkin pendurada no braço direito, vestido abaixo dos joelhos e cabelos presos em um coque.
engoliu seco. Não é como se tivesse medo, mas o olhar matador que o casal, que aparentemente estava de saída, jogou nela a intimidou um pouco.
- Posso ajudar? – A voz grossa e rouca do mais velho quebrou o silêncio e fez com que se recompusesse da cara de espanto que tinha no rosto.
entendeu que aquela era a deixa para que ela tomasse a rédea da situação.
- . – falou esticando o braço livre para o homem. Mas antes que ele pudesse retribuir o gesto, empurrou o casal com um pouco de desespero a chamando.
- ? – Falou intrigado.
- Oi, ! – abriu um sorriso pela primeira vez, não sabia se era por vê-lo ou por finalmente alguém a tirar daquela situação esquisita. – Vim ver como você e sua avó estão. – Falou com um sorriso quase de orelha a orelha. – Tentei ligar no caminho, mas ninguém atendeu.
- Eu estava acompanhando minha avó nos exames o dia todo, nem lembrei da existência do meu celular. – confessou. – Entra.
Após o casal que aguardava quieto observando a situação dar licença a , ela finalmente entrou no quarto onde Anne a observava com alguns curativos na cabeça sem entender porque aquele quarto estava praticamente claustrofóbico com tanta gente.
Essa é a , - disse colocando a mão no ombro da menina e se dirigindo aos pais – ela é brasileira e começou a estudar na nossa faculdade esse semestre, está no começo do mesmo curso que eu.
fez o seu melhor sorriso de boa moça. A única vez que conheceu pessoas com tanta formalidade foi quando Davi a chamou para apresenta-la como namorada aos pais. Na situação que ela se encontrava, não era nem namorada, era apenas uma amiga e se sentia ainda pior com os olhares desconfiados e sérios sobre ela.
- , esses são meus pais. – continuou dessa vez olhando para a amiga. – Anelise – apontou para a mae. – e Wander – apontou para o pai.
como a boa observadora que era já tinha analisado o casal da cabeça aos pés, mas não sabia direito o que dizer de qualquer forma.
- É... É um prazer conhecer vocês. – Falou simpática. – Eu trouxe essas flores, . São para sua avó. – virou-se um pouco insegura para a avó de que apenas observava a cena sentada na cama um pouco fraca ainda da medicação que estava tomando. – Eu sei que vocês vivem numa cidade de tulipas, mas eu li que as tulipas amarelas simbolizam energias positivas e melhoras e é isso o que eu desejo para a senhora.
Então andou até o lado esquerdo da cama de Anne e apoiou as flores no criado mudo. Em seguida, apertou a mão de Anne que deu um sorriso fraco em forma de agradecimento a moça.
A mãe de , vendo a cena, empurrou a bolsa cara para o colo do marido e abraçou com força enquanto segurava-se para não chorar. não fez nada além de retribuir, sem saber direito o que pensar. Tentava ver a reação de , mas a diferença de altura entre ela e Anelise a impedia. Quando finalmente foi solta, percebeu que a mãe de limpou uma lágrima que escorreu dos olhos.
- Obrigada por isso, . Significa muito. Eu queria poder sentar e conversar com você, mas eu e meu marido temos que realizar uma negociação muito importante agora e não tenho como te dar atenção. Mas eu sou – ela fez uma pausa e entendeu que era para se recompor – imensamente grata por esse pequeno gesto.
Wander pela primeira vez pronunciou-se estendendo a mão para em forma de agradecimento. “Homem de poucas palavras”, pensou.
Com um abraço rápido e um “qualquer coisa me liga” para , Anelise arrastou o marido para fora do quarto deixando e finalmente soltar o ar.
Os dois se encararam por poucos segundos, tentando decifrar o que passava na cabeça um do outro, até rir e abrir um sorriso. A garota inclusive pode perceber que Anne soltou um pequeno sorriso que fez com que ficasse reconfortada.
- Ah! – A garota soltou quando lembrou-se de que havia comprado algo para também. – Eu te trouxe isso. – falou estendendo uma barra de chocolate escrita “Parabéns!” para que pegou sem entender muito o que estava acontecendo.
- Obrigado. Mas... – falou pensativo – você está me parabenizando pelo que exatamente?
sorriu vendo a confusão do rapaz.
- É que eu pensei que você não tivesse comido nada. – falou pausadamente e de maneira divertida. – Aí como eu só podia parar em um lugar porque senão não daria tempo de chegar aqui, eu parei na floricultura, comprei flores para a sua avó e a única coisa que tinha para comer era esse chocolate aí com mensagem de parabéns ou um com uma mensagem de “feliz 40 anos”. – falou dando ombros e sorrindo com o presente sem sentido.
riu alto.
- Eu não sei se você comeu a comida ruim do hospital, mas essa foi a única coisa gostosa que eu achei pra comprar. - confessou.
- Eu estou sem reação, na verdade. – falou divertido com o chocolate em mãos. – Mas eu não comi a comida do hospital porque estava muito nervoso, então essa vai ser a primeira refeição que vou ter no dia.
- Chocolate aumenta a felicidade. – falou como se o seu gesto tivesse sido cem por cento pensado.
não sabia dizer o que falar, apenas ficou olhando nos olhos. Estava apenas grato de poder vê-la depois de um dia tão corrido e tumultuado.
desviou o olhar para os pés, envergonhada quando foi tirada de seus pensamentos pela avó de com a voz fraca a olhando.
- Beija ela! – Anne falava para .
- Vó! – falou sem graça se dirigindo para o lado de que estava posicionada à direita da cama de sua avó. – Ela ainda está meio dopada dos remédios, .
- Não estou não. – A senhora falou mais uma vez arrancando riso de .
- Tudo bem. - falou olhando para Anne. – Eu não posso beijar o , eu tenho um namorado, no Brasil. – falou divertida.
- A vida só se vive uma vez, minha filha. – Anne respondeu rapidamente como se estivesse proferindo algum de seus ensinamentos mais profundos.
coçou a nuca com a situação, nunca havia se sentido mais desconfortável do que ali.
- , meu filho, - dessa vez Anne se reportou a . – Vou dormir um pouco. Não aprontem nada sem eu ver.
- Sim, vó. – falou achando graça, cobrindo a senhora e em seguida lhe dando um beijo na testa que arrancou um pequeno sorriso da mulher.
- Eu acho que vou indo então, . – falou ao perceber que a avó de queria descansar.
- Eu vou com você até lá embaixo, tenho que te entregar uma coisa, tá lá no carro. – falou apontando a porta.
fez que sim com a cabeça, sem imaginar do que falava, se dirigiu a porta com no seu encalço. O silêncio se instaurou de forma até constrangedora entre os dois.
No elevador, e pararam cada um em uma extremidade, em silêncio. Às vezes os dois se olhavam e sorriam. Não sabiam muito bem o que falar. não via, desde que a avó de fora internada, a pose de machão sedutor que o amigo sempre carregava e sentia vergonha de agir perto de depois dela tê-lo visto tão vulnerável.
Mesmo assim, foi quem quebrou o silêncio assim que o elevador abriu.
- Não sabia que você usava óculos.
arrumou o acessório no rosto e sorriu envergonhada.
- Dormi demais, aí fiquei com preguiça de colocar minhas lentes.
- Fica bonita assim, .
sorriu em forma de agradecimento ainda envergonhada. Olhou nos olhos, queria saber o que passava na cabeça do rapaz para ter ficado tão tímido de repente. Ele devolvia o olhar penetrante novamente, tentando decifrar o que pensava. desistiu e voltou a encarar os pés, totalmente desconfortável com a situação.
A porta do elevador se abriu revelando o estacionamento e apontou a saída para que fosse na frente. Em seguida se juntou a ela também em silêncio e a guiou para perto de seu carro. Quando chegou ao lado do Audi, abriu a porta traseira e tirou de lá uma sacola, estendeu-a para em seguida.
- O que é isso? – A garota perguntou divertida para que sorriu sem graça. Ele sabia que o presente que havia planejado não teria tanto valor quanto no dia anterior.
- Uma bobagem, . Era pra eu ter te dado ontem, mas...
sorriu com o gesto do amigo. Apoiou a sacola no capô de e abriu com cuidado retirando uma camiseta vermelha e branca com o brasão do AJAX, time holandês de futebol que eles tinham ingressos no dia anterior.
- ...
- Eu sei que é bobo. Mas você só deve ter camisetas do Neymar... A gente também tem futebol aqui, só não o melhor do mundo. – falou sorrindo sem graça.
não sabia o que pensar. Estava tão feliz com o pequeno gesto do amigo. Tão grata por finalmente ter superado a fase de intrigas e desconforto e estar caminhando para uma amizade sincera com .
Em silêncio, guardou a camiseta na sacola e abraçou . Por ser menor que o rapaz, sua cabeça bateu no peito dele. o abraçou pela cintura e ficou sem reação. Não esperava.
- Obrigada. – falou baixinho.
apertou o abraço, sem querer que aquele momento acabasse. Queria poder congelar aquela cena.
- O que precisar eu estou aqui. – sussurrou para e em seguida beijou seus cabelos.
ficou mais alguns segundos ali, mas não demorou para se desvencilhar de .
queria beija-la. Mas não podia. Ele queria muito, mas não podia. Sabia que não era justo nem com ela, que tem namorado, e nem com ele, que voltaria a estaca zero e deixaria todos aqueles sentimentos surgirem de forma descontrolada novamente. Eles estavam indo tão bem. Assim, quebrou a troca de olhares coçando a nuca em sinal de desconforto.
entendeu a mensagem. O clima pesou não só pra ele. Mesmo assim, foi nos braços de pela primeira vez, desde que subira no avião em Guarulhos com destino a Amsterdã, que a garota se sentiu segura.
- , obrigada pelo presente.
- Eu queria poder te levar, mas eu tenho que ficar com a minha avó.
- Não tem problema, eu peço um Uber.
- Deixa ao menos eu pagar pelo Uber, .
olhou para como se estivesse ofendida.
- ! Por favor, né? Eu vim porque quis, não precisa se preocupar comigo, vou pedir o Uber e vou para casa, você fique com sua avó. Depois nos falamos. – falou autoritária enquanto pegava a sacola com a camiseta do AJAX.
Em seguida a garota se apoiou na ponta dos pés, deu um beijo demorado na bochecha de que sentiu o local formigar enquanto fechava os olhos para receber o carinho. o fazia sentir como um banana.
- Tchau, . – sussurrou em seu ouvido.
respondeu um tchau quase inaudível e em seguida presenciou a cena de se distanciando e indo embora.
Soltou o ar.
passou a mão no rosto em sinal de desistência, bagunçou os cabelos e dirigiu-se ao elevador. Como era possível alguém chegar, do nada, e bagunçar toda a sua cabeça daquela maneira? Por que aquela menina tinha um efeito tão grande sobre ele?
***

sentou no sofá de casa e pegou o celular pela primeira vez naquele dia. Tinha voltado do hospital e só tinha dado tempo de tomar um banho e comer. Estava exausta e sem dormir direito. Quando desbloqueou a tela e abriu o WhatsApp, se surpreendeu com a quantidade de mensagem tanto de familiares como de amigos que ela não conversava a tempos devido aos dias corridos. Mas foram duas conversas que chamaram sua atenção:

: 20:34PM
, podemos sair tomar café amanhã?
Nós duas?
Tenho umas coisas que quero conversar.
: 20:58PM
Vamos sim! Te ligo quando tiver saindo de casa.
: 20:59PM
👍 😘

sorriu ao fechar a conversa. Mal poderia esperar pelo babado que viria. Em seguida pulou para a próxima. Era de Davi.

Davi: 20:37PM:
Pode falar?
deu um pulo! Havia se esquecido completamente de falar com o namorado noite passada porque precisou terminar o trabalho. Não acreditava que tinha dado aquela mancada! Ele devia estar a odiando. Olhou no relógio mais uma vez, seu horário era adiantado em relação ao do Brasil, mas mesmo assim não teria mal ligar aquele momento. não hesitou em apertar o botão de chamada de vídeo do aplicativo e no segundo toque um Davi com cara de poucos amigos atendeu.
- Davi, me desculpa! – falou visivelmente abatida. – Eu liguei o computador pra te chamar, mas vi um documento perdido de um trabalho que precisava entregar hoje sem terminar. E aí eu me esqueci completamente.
Davi ouvia tudo em silêncio, deitado na sua cama. Apenas observava falar.
- Eu cheguei em casa tarde hoje, depois da aula. Dormi mal ontem, foi tudo muito corrido. Me desculpa mesmo! – não sabia direito o que falar diante da impassividade do namorado. Optou por não contar a respeito da avó de pois tinha medo que piorasse a situação. – Eu não sei o que fazer pra me redimir. – Confessou por fim.
- Quer saber, ? – Davi falou quando viu que finalmente havia terminado o pequeno monólogo de desculpas. – Eu cansei. Você tem brincado comigo.
- Eu não tenho brincado com você, Davi... Só que tudo tem sido uma loucura.
- Loucura mesmo! Que tipo de pessoa fala que ama alguém e se esquece de se resolver com o namorado? Qual o nível de importância você tem dado pra crise que nosso relacionamento se instaurou?
- Davi! Você instaurou a crise, eu só estou tentando estudar!
- Não, estudar é uma coisa, sair todo final de semana e ir em festa rebolar a bunda pra todo mundo é outra.
- Você tá sendo abusivo!
- Abusivo? Minha namorada vai pro outro lado do mundo e não tem a decência de parar, sentar e conversar comigo sobre os problemas que estamos tendo. – Suspirou. – , eu quero dar um tempo. Eu não aguento mais essa montanha russa emocional que a gente virou. – Davi falou finalmente quase como um desabafo.
gelou. Sentiu as pernas ficarem bambas. Não esperava por isso. Nem na pior das hipóteses. Sempre achou que eles superariam. Estava enganada demais. Sem perceber, uma lágrima solitária escorreu pelo rosto da menina.
- Davi...
- Não, . Sem Davi. Cansei, eu preciso pensar.
Davi não deu tempo para que a namorada pudesse tomar qualquer atitude. Apenas desligou o telefone. Ele não estava certo de sua decisão, mas estava cansado de se sentir rejeitado e deixado de lado o tempo todo. Por Deus! Ela sequer lembrou de conversar com ele! Enquanto ele tinha trabalho afetado pelos problemas de relacionamento, pensava única e exclusivamente nela. Talvez fosse a hora dele pensar em si mesmo também.
soltou o celular no chão e desencadeou a chorar. Não estava pronta para aquilo. Ela sabia que seu relacionamento não ia as mil maravilhas, é verdade. A maior parte era sua culpa sim, mas não é que ela quisesse, ela só não sabia que fazer para arrumar.
A cabeça de estava a mil. Ela pensava em mil coisas ao mesmo tempo. Quando finalmente cansou de chorar, adormeceu no sofá com as luzes acesas mesmo e sem perceber.
***

estava sentada no café há 30 minutos. Quase atrasada para a aula. tinha dito que elas tomariam café juntas, mas não apareceu. Embora tivesse enchido a amiga de mensagens a mesma também não respondeu.
era a pessoa mais enérgica do grupo de amigos, passava o dia fora e mesmo assim ficava até tarde estudando. sabia que no fim, a amiga só não tinha acordado.
Pelo menos era o que ela esperava.
A garota tomou o último gole de café olhando pela janela e pensando que fora naquele estabelecimento que pegou traindo a namorada. Para era tudo uma loucura! Como alguém poderia trair alguém assim tão na cara dura? Aliás, traição por si só era algo horrível! Como foi capaz de fazer isso? Como ele dormia a noite sabendo que era duas caras nesse nível?
E ? Que andava pra lá e pra cá se exibindo com o tal do anel de compromisso e na cabeça crescia um chifre enorme que nem a mais cara das joias ia fazer ficar chique? suspirou.
Queria ter dado um jeito de proteger a amiga de tudo aquilo.
O celular vibrou mais uma vez e achou que era mensagem de , mas era, pela milésima vez, .

: 07:34AM
, por favor, vamos conversar.
Eu preciso te explicar.

revirou os olhos ao ler mais aquela mensagem. Como poderia explicar o porque uma loira estava enfiando a língua na boca dele quando ele deu um anel de compromisso para ?
Irritada, jogou o café no lixo e se dirigiu para a faculdade antes que se atrasasse mais. Estava com raiva de tudo e de todos, de porque não apareceu, de porque enfiou um chifre em sua amiga, de por alguma razão ainda desconhecida, de por ser tão inocente e nunca desconfiar de nada e de que ela nem entendia como alguém podia namorar e babar por alguém compromissada como ao mesmo tempo. Onde ela havia se enfiado? Não tinha amigos mais normais pra achar não?
Quando chegou na faculdade, fez o caminho direto para a sala de aula. Não queria falar com ninguém ou ver ninguém. Passava por conhecidos com a cabeça baixa. estava muito revoltada. Muito.
- ! – chamou, mas não obteve qualquer resposta da amiga.
andava com os fones. percebeu quando se aproximou e puxou o fio dos fones de ouvido arrancando um grito de no meio do corredor que chamou a atenção de todos ali para as duas.
- ! – falou mais uma vez.
- Que é? Por que você me deixou igual uma planta parada na cafeteria hoje? – falou na defensiva com os braços cruzados na frente do corpo demonstrando total insatisfação com a amiga.
- Desculpa, amiga, aconteceu umas coisas ontem com a minha família, acabei dormindo depois da ligação deles e esqueci de colocar o despertador pra tocar.
pareceu avaliar se dizia a verdade. Depois de ponderar por um tempo, decidiu que poderia confiar nela e soltou os braços ao lado do corpo em clara posição de derrota.
- Escuta, . – finalmente falou em tom baixo e sério. – A gente precisa conversar. Eu vi algo muito preocupante e muito sério. E você é a única pessoa que eu posso confiar pra avaliar isso.
- Mas o que aconteceu? – falou preocupada. – Quem isso envolve?
- Bom, o e a .
ficou preocupada.
- Mas o que tem eles?
- ! – falou surgindo do nada ao lado das meninas.
A expressão no rosto de mudou da água para o vinho. A cara de preocupação se tornou em desgosto total no rosto da menina.
- Você não percebeu que eu não quero falar com você? – respondeu seca a .
estava ali, sem entender nada.
- Mas eu quero falar com você! – falou duro.
- , meu anjo, nem que você tente, você vai conseguir se explicar. – falou irônica e entre dentes.
- Explicar o que, gente? – falou surgindo do nada.
estava completamente fora da conversa. Quanto tempo ela passou preocupada com o próprio umbigo pra não ver o que acontecia entre os amigos?
- O conteúdo de Direito Constitucional que seu belo namorado reprovou de novo. – disfarçou e riu.
- Amor, já falei que você tem que pedir esse tipo de ajuda pra . Ela que é a estudiosa daqui. – falou como se fosse óbvio encaixando o braço no do namorado e sorrindo.
pela primeira vez parece ter notado a presença de ali, os dois trocaram um sorriso amarelo, envergonhados pela situação. Mas foi quem quebrou o gelo.
- Gente, falando nisso, eu acho que a nossa aula já vai começar. Vamos?
Os amigos concordaram. Com e andando na frente, agarrou o braço de que sussurrou para a amiga:
- O que foi que acabou de acontecer, ?
- Era isso que eu queria te falar no café. – respondeu no mesmo tom de voz baixo. – Depois conversamos.
***

chegou em casa cansado. Finalmente sua avó havia sido liberada do hospital e ele estava aliviado e em paz. Assim que colocou Anne para dormir, entendeu que era o momento perfeito para tomar uma ducha. Seu dia havia sido acompanhar a avó nos últimos exames e enviar e-mails justificando as faltas para os professores das disciplinas. Não que ele fosse um aluno aplicado, mas ficar em hospital é um desgaste gigantesco. Não via a hora de voltar a sua rotina.
O barulho do chuveiro fez sorrir.
Como era bom estar em casa, finalmente.
Por um tempo, ficou ali apenas observando seu corpo ser molhado e sentir os músculos relaxarem com a água quente. Como aquilo era bom.
Quando finalmente terminou o banho, secou-se e enrolou a toalha na cintura. Assoviou uma música eletrônica qualquer até seu closet, colocou uma bermuda solta e confortável e uma camiseta mais velha qualquer. Era quase uma sensação de liberdade andar com aquelas roupas pela casa.
Saiu do quarto em direção a cozinha, mas se assustou ao dar de cara com Patrícia sentada na beira do sofá com as pernas longas a mostra em seu short cruzadas uma sobre a outra.
- Achei que seu banho não ia acabar nunca. – A garota falou abrindo um sorriso. – Uma pena não ter me chamado para tomar com você.
se assustou. Não estava esperando a garota e muito menos queria alguém ali naquele momento. Seu objetivo era única e exclusivamente o descanso.
- Ah... Oi? – falou sem jeito. – Como te deixaram entrar?
Patrícia riu alto e levantou-se em direção de . Jogou os braços em volta do pescoço do rapaz e sussurrou no ouvido dele:
- Isso é jeito de cumprimentar sua namorada, ?
Em seguida o beijou. As mãos de foram involuntariamente a cintura da garota. Apesar de Patrícia claramente estar feliz em o ver, , com os olhos abertos, tentava entender o que estava passando ali. Ele queria relaxar, companhia era legal, mas simplesmente não estava no clima.
Quando finalmente conseguiu se afastar, soltou em tom de brincadeira:
- É sério, como te deixaram entrar?
Patrícia revirou os olhos:
- O porteiro me conhece, né, bobinho?
sorriu e deu um selinho na garota finalmente se soltando e sentando-se no sofá. Enquanto procurava o controle da TV foi interrompido por uma Patrícia com cara de poucos amigos do nada.
- O que foi? – falou ao ver a cara da garota do outro lado da sala parada com as mãos na cintura.
- Eu não vim aqui pra ficar vendo TV. – Patrícia falou revoltada.
respirou fundo.
- Pati... Olha... Hoje não dá, tá? Minha avó está em casa, eu estou cansado...
- Shhhh! – Patrícia falou sentando-se no colo de com uma perna de cada lado de seu corpo. – A gente pode resolver isso rapidinho. Tenho certeza que é só estresse seu com tudo o que aconteceu. – A garota falava calma e devagar enquanto desenhava com as unhas no braço do rapaz. – Tenho certeza que você vai ficar bem melhor.
revirou os olhos, mas antes que pudesse responder qualquer coisa, sua boca já estava grudada na de Patrícia e a mesma já pedia passagem com a língua para aprofundar o beijo. concedeu, porque, ao fim das contas bobo também não era.
Mas a cena não durou muito.
O beijo foi logo interrompido por um pigarro que tirou dos pensamentos pervertidos que estava tendo naquele momento.
- Estamos atrapalhando algo? – A mãe de falou olhando a cena com total desgosto e avaliando Patrícia de cima abaixo. O olhar da mulher intercalava entre o filho e a garota que limpava a baba do rosto sem demonstrar qualquer sinal de vergonha.
- Eu achei que vocês iam chegar mais tarde. – falou empurrando Patrícia do colo que parecia não se tocar que essa era a deixa para que ficasse em pé.
- Percebemos. – Anelise respondeu dura.
- Patrícia Boerman – a garota falou estendendo a mão para Anelise que julgou se apertaria ou recusaria. Por fim, concordou em aperta-la.
- Anelise . Uma pena te conhecer numa situação dessa, Patrícia. – A mulher falou de forma dura e fria. – Já que está tão familiarizada com a casa, podemos contar que ficará para o jantar, certo?
Patrícia não sabia o que responder. Olhou para como uma súplica por ajuda, mas não obteve resposta. Enquanto isso, o rapaz parecia se comportar como se aquela situação nada tivesse a ver com ele, olhava para os pés envergonhado pelos pais o pegar num momento tão constrangedor. Além disso, sabia que mais tarde deveria dar explicações a sua mãe.
Ao perceber que nenhum dos dois se pronunciaria, Anelise tomou as rédeas da situação novamente:
- Ótimo, vou tomar um banho enquanto peço para a empregada preparar o jantar. Aposto que você vai amar, Priscila.
Além de errar o nome da menina de propósito, Anelise saiu rebolando pela sala com o marido no encalço. Estava indignada em encontrar numa situação daquela em sua casa, com uma garota que, segundo uma avaliação prévia e totalmente preconceituosa, não valia nada.

***

- Entra. – falou quando ouviu a campainha tocar pela décima vez.
adentrou o apartamento da amiga toda afobada.
- Meu Deus! Se acalme, mulher! – falou rindo da amiga que jogava as coisas no sofá. – Eu comprei pizza e cerveja pra gente comer enquanto você me coloca a fofoca em dia.
- Ai, que bom, porque é muita coisa, menina. – falou quase em tom de desabafo.
Depois de sentarem a mesa e começarem a comer com calma, finalmente começou a falar.
- Você não sabe, mas eu estava tentando ter uma vida fitness já que você começou a academia. Aí eu me senti motivada pra largar o meu lifestyle 100% sedentarismo e resolvi sair pra correr ontem de manhã.
começou a rir da história que a amiga contava. Imaginava tudo menos que estava tentando se exercitar.
- Você fez esse auê todo pra me contar que estava se exercitando?
- Não, sua ansiosa, deixa eu continuar. – falou depois de ter engolido um pedaço gigantesco da pizza de queijo. – Aí eu corri até não sei onde, mas corri até o Starbucks ali em cima que a gente para pra tomar café direto, sabe? Eu estava morrendo, sem ar. então achei que valia a pena entrar e comprar uma água.
fez que sim com a cabeça. Tentando segurar o riso do jeito afobado que a amiga contava.
- Então, - limpou o rosto sujo de pizza - daí eu dei de cara com o e eu estava super feliz de poder contar pra alguém que eu comecei na minha vida fitness até que uma garota loirassa que super me atrapalhou na fila de pedir apareceu do além e – parou por um minuto fazendo suspense - tascou um beijão na boca de !
deixou o queixo cair, não estava entendendo nada.
- E aí?
- Ele ficou lá me olhando com aquela cara de mongo. – revirou os olhos - Já me mandou várias mensagens, tá me perseguindo pelo campus todo. Você viu, né?
concordou com a cabeça.
- Eu nem sei como contar para ! – desabafou. – Ele foi tão sujo! Eu acho traição a pior coisa que alguém pode fazer nessa vida! Como ele pode? Ele assumiu um compromisso, ! Ele assumiu! Na frente de todo mundo naquele estádio, aquele lazarento! Eu estou tão indignada!
engoliu seco. Não é como se ela tivesse tanta moral para julgar , afinal ela mesma tinha ido pra cama com outro cara assim que pisou em Amsterdã.
- , - falou baixo atraindo a atenção da amiga que comia rápido mais um pedaço da pizza em claro sinal de nervosismo. – você não acha que talvez seja importante ouvir o lado dele?
- Ah, ! De que lado você tá? Pelo amor de Deus! O cara TRAIU A SUA AMIGA, e você vem com essa de ouvir o lado dele?
- Eu sei... Mas é que ele tem te procurado tanto.
- Não quero saber de um A de . Eu quero que ele se foda. Eu quero apenas conseguir contar pra .
fez que sim com a cabeça. Não era como se tivesse muita alternativa já que estava desesperada e nervosa lhe contando aquela história. Resolveu dar tempo ao tempo. Embora nunca quisesse ter traído Davi e aparentemente o caso de era de um homem duas caras, resolveu que tentaria não julgar. Iria acolher e , acharia um jeito de contar a com a ajuda de e dar a amiga o direito de escolha. Direito esse que ela mesma não deu ao próprio Davi, embora soubesse que estava errada.
Pelas próximas horas, ficou na sua casa, resolveram que passariam a noite juntas. estava estressada, precisava desabafar e não poderia chegar a com tamanha indignação. Não queria ser uma peça chave para a briga e sim para acolher e ajudar a amiga.
***

A mesa da sala de jantar da casa dos era gigantesca. Anelise pediu para o jantar fosse feito um risoto e de acompanhamento tinham alguns pedaços de cordeiro assado. Patrícia estava acostumada com aquele tratamento, já que as formalidades não eram diferentes em sua casa quando tinha alguém de fora.
mal tinha encostado na comida. Todo o clima de paz e relaxamento havia sido destruído por Patrícia, que agora comia de forma serena enquanto recebia olhares reprovadores dos seus pais do outro lado da mesa. De tempos em tempos revirava os olhos. Ele só queria que o dia acabasse e ele pudesse finalmente dormir.
As vezes Anelise perguntava coisas pontuais a Patrícia, como por exemplo o que os pais dela faziam da vida, onde ela havia estudado no ensino médio ou ainda porque escolhera a faculdade de Direito. Mas nenhum desses temas se prolongavam no tempo pelo simples fato de Patrícia não ser uma pessoa interessante, na visão de e de seus pais. Toda a vez que Patrícia terminava de falar via o olhar de seu pai julgar-lhe a escolha do que eles estavam achando que era a sua namorada.
queria chutar a mesa, falar que não estava mais com fome e dormir. Mas não seria educado e isso só pioraria a sua situação. Pensou como seria se tivesse ali, não pode deixar de esboçar um pequeno sorriso enquanto remexia a sua comida. Sua mãe provavelmente havia gostado dela. Anelise era muito boa em julgar as pessoas à primeira vista e sentia que ela havia gostado de . Queria que tivesse ali, as coisas seriam tão mais fáceis.
- Não é, ? – Anelise falou pela segunda vez tentando tirar o filho do transe que se encontrava. Sem sucesso. Precisou bater palmas para que piscasse duas vezes e voltasse a realidade. – ?
- Oi? – O rapaz falou saindo do transe.
Patrícia soltou um riso discreto.
- Estava falando a Patrícia que você marcou com os meninos de irem para o campo passar o feriado, não é mesmo? – Anelise falou séria.
De todos os assuntos que a sua mãe poderia trazer à tona, aquele com certeza era o pior.
- É... – falou desconfortável sem saber onde sua mãe queria chegar.
- Então, e não chamou Patrícia? – A mulher falou com olhar de dúvida sobre o filho, que engoliu seco.
Para falar a verdade, nem se lembrava da viagem nos últimos dias e para piorar não estava em seus planos levar Patrícia. Queria apenas curtir os amigos e um dia longe das neuroses de alguém que queria ser sua namorada e sequer ligou para perguntar como a sua avó estava.
- É... – tentava pensar numa resposta. – É.... – Mas nada lhe vinha à mente. – É... Como passei esses últimos dias cuidando da vovó acabei esquecendo. – Acabou por usar a primeira que veio a sua mente torcendo para que funcionasse.
- Ah, não tem problema, amor. Não tenho compromisso esse fim de semana mesmo. – Patrícia falou sorrindo para os pais de que concordaram forçando um sorriso de volta para a menina e percebendo o claro desconforto do filho com o assunto.
estava na merda. Duas vezes mais do que quando iniciou a noite. Não só ouviria muito de seus pais quando Patrícia colocasse os pés para fora daquele apartamento como dos amigos que provavelmente não gostariam da surpresa. Será que se importaria?




Continua...



Nota da autora: Oi, gente! Como vocês estão? Espero que estejam bem. Essa att, apesar de dividida em dois (conforme avisei no grupo do FB, se você não está, entre!) foi mais recheadinha que as outras. Isso porque nos próximos dias quero me dedicar a escrever para um ficstape que vem aí... Por isso, já vou deixando avisado pra você que chegou agora: o próximo capítulo vai demorar um pouquinho, mas ele vem! Aliás, como estão os ânimos depois do Davi pedir um tempo? O que será que vem aí?
Ei, leitoras, vem cá! O Disqus está um pouco instável ultimamente e, às vezes, a caixinha de comentários pode não aparecer. Então, caso para você deixar a autora feliz com um comentário, é só clicar AQUI.






Nota da beta: Ah, só um tempo? A Laura deveria ter emendado esse pedido de tempo e ter terminado tudo logo, ele é muito chato e completamente abusivo. Até parece que não conhece a namorada que tem!
Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.


comments powered by Disqus