31/10/2025

Capitulo 1

Eu cheguei tarde demais.
Quando virei o corredor, já ouvi o som — seco, cruel — de um soco. E depois, as risadas. Não eram só risadas. Eram aquelas risadas. As que fazem o sangue gelar e a culpa subir pela garganta.
Ryan estava no meio. Sempre está. Os amigos em volta, animados como se fosse um jogo. E , encostado nos armários, tentando não cair.
Por um instante, eu congelei. Parte de mim queria fingir que não via. Foi o que aprendi a fazer. Fingir. Mas ele olhou pra mim — e naquele olhar tinha tudo o que eu já fui.
— Ryan! — Minha voz saiu mais alta do que eu queria. Ele se virou, surpreso, irritado.
— Chega! O que você tá fazendo?
— Só uma brincadeira, amor. — Ele riu. Aquele sorriso que eu antes achava bonito agora me deu nojo. — O cara aqui precisa aprender a ficar no lugar dele.
— Solta ele. — Foi tudo o que consegui dizer. Não soou autoritária. Soou desesperada.
Ryan riu de novo, empurrou com força e foi embora com os outros.
Ficamos só nós dois.
respirava com dificuldade, o rosto marcado. Quando me aproximei, ele me olhou como se eu fosse parte do problema. E talvez fosse.
— Você tá bem? — perguntei, mesmo sabendo que era uma pergunta estúpida.
Ele deu uma risada curta, amarga.
— Agora você se importa?
Essas quatro palavras foram uma bofetada.
Eu tentei responder, tropeçando nas desculpas: — Eu não sabia que eles iam
— Claro que sabia. — A voz dele veio fria, firme. Ele não gritou. Não precisou. — Você só finge que não vê. É o que você faz, né? Finge que nada acontece enquanto o seu namorado joga as pessoas no chão.
E eu quis dizer que ele estava errado. Quis me defender. Mas a verdade é que eu sabia que ele estava certo. Eu sabia.
Ele continuou:
— Como você pode fazer isso? Você já foi uma de nós. Antes de virar o que eles queriam. Lembra como te chamavam? Como te tratavam? Você chorava no banheiro, . Eu lembro.
Eu senti o chão sumir.
Ele lembrava. De tudo. Dos dias em que eu era o alvo.Dos risos às minhas costas. Dos olhos cheios de lágrimas que eu limpava antes de sair do banheiro, fingindo força.
— Eu mudei, — foi o que consegui dizer. Uma tentativa patética de encerrar o assunto.
— Não, — ele respondeu. — Você só se protegeu. Fez o que precisava pra parar de doer. Mas o preço foi virar uma deles.
Doer.
Essa palavra ficou ecoando na minha cabeça.
Eu olhei pra ele — machucado, mas firme, como se ainda acreditasse em alguma justiça que o resto de nós tinha esquecido.
— Você acha que é simples? — perguntei, tentando parecer forte. — Enfrentar todo mundo sozinha? Viver apanhando e fingir que isso é coragem?
Ele sorriu. Um sorriso triste, quase humano.
— Não. Mas alguém tem que lembrar o que é certo, mesmo que todo mundo tenha esquecido.
Foi ali que eu percebi: ele não estava tentando me culpar. Estava tentando me lembrar. E o pior é que funcionou.
O sinal tocou. Eu fui embora antes que ele visse que meus olhos estavam marejados.
Mas enquanto caminhava pelo corredor, cada passo parecia um julgamento. Eu me juntei aos populares pra fugir da dor. Só que a dor não foi embora e talvez nunca fosse.

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FLASHBACK ON

Às vezes eu tento lembrar quando foi que tudo começou a desandar.
Quando o mundo ficou tão… duro.
Mas sempre que volto no tempo, é pra ele que eu volto.
.
Antes de tudo. Antes dos corredores cheios de gente, das máscaras e das festas, havia eu, ele e mais uns três amigos, enfiados na garagem da casa dele, com latinhas de refrigerante, batatas fritas e fichas de RPG espalhadas por todo lado.
A luz era amarelada, o ventilador barulhento, e a gente passava horas discutindo se um mago de nível cinco conseguiria mesmo derrotar um troll sozinho. , claro, era o mestre. Sempre foi. Ele narrava as aventuras com uma empolgação tão verdadeira que às vezes eu esquecia que era um jogo.
— O monstro se aproxima, — ele dizia, com aquela voz séria de quem achava que estava no meio de uma floresta encantada. — Ele te encara, . O que você faz?
— Eu? — eu fingia pensar, tamborilando os dedos no dado. — Dou um soco.
— Você é uma feiticeira. — Ele revirava os olhos, divertido. — Um soco não vai adiantar nada.
— Então eu lanço… sei lá, uma bola de fogo.
— Isso sim. — Ele ria, marcando o movimento na planilha. — Uma bola de fogo que destrói tudo ao redor. Inclusive o seu namorado elfo.
Os outros riam.
Eu fingia ficar brava, mas adorava provocar ele só pra ver esse sorriso.
Naquela época, eu não sabia o que era “gostar” de alguém.
Mas sabia que gostava de estar ali.
Com ele.
Era simples.
Era leve.
A gente dividia Doritos, zombava das piadas ruins dos outros, e às vezes, quando o grupo ia embora, eu ficava mais um pouco. sempre insistia para me levar até o portão.
— Você é muito corajosa no RPG, mas morre de medo de andar no escuro, — ele dizia, sorrindo.
— Não é medo. É instinto de sobrevivência, — eu retrucava.
Aí ele ria — aquele riso fácil, natural, que sumiu com os anos. E, por um instante, o silêncio entre a gente ficava diferente. Nem constrangedor, nem forçado. Só... diferente.
Eu lembro de uma noite em que ele me emprestou o moletom porque o vento estava gelado. O moletom dele era grande demais pra mim, e eu praticamente me afundei nele.
— Tá bom assim? — ele perguntou.
— Melhor do que o seu perfume. — Foi o que eu disse, tentando disfarçar o nervoso.
Ele riu.
Mas depois, por um segundo, o olhar dele mudou — ficou sério, suave, e eu juro que achei que ele fosse me beijar. Mas não beijou.
Apenas ajeitou o capuz na minha cabeça e disse:
— Boa noite, feiticeira.
E foi só isso. Mas foi o suficiente pra ficar guardado.
Às vezes eu me pego lembrando daquela noite, do som dos dados rolando na mesa, do cheiro de refrigerante e papel, e de como era fácil respirar perto dele.
Antes que o mundo resolvesse nos colocar em lados diferentes.

FLASHBACK OFF

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Ele estava lá de novo.
Quando abri a porta da enfermaria, vi sentado na maca, com o rosto virado pro lado, um saco de gelo improvisado encostado na bochecha. A enfermeira não estava. Claro que não — nunca está quando mais se precisa.
Por um segundo, pensei em dar meia-volta. Fingir que não vi.
Mas o barulho do meu próprio coração me denunciou.
— De novo? — perguntei, fechando a porta atrás de mim.
Ele não respondeu. Só mexeu o gelo no rosto e soltou um suspiro curto. Havia algo no silêncio dele que me irritava. Não era arrogância. Era... dignidade. Uma calma que me deixava desconfortável.
— Quem foi dessa vez?
— Os mesmos.
— Ryan?
Ele não olhou pra mim.
— Você realmente quer saber?
Essa pergunta doeu mais do que qualquer resposta.
Peguei outro saquinho de gelo na geladeira da enfermaria e me aproximei.
— Deixa eu ver, — murmurei.
Ele hesitou, depois abaixou o gelo.
O rosto dele estava inchado, um corte pequeno no lábio, a pele marcada perto do olho.
Só que... mesmo assim, ele era bonito.
Bonito de um jeito calado, quase irritante. Alto, cabelo loiro bagunçado, olhos claros — azuis, acho.
O tipo de beleza que ele mesmo parecia não notar.
— Vai doer um pouco, — avisei, pressionando o gelo devagar contra o rosto dele.
Ele fez uma careta.
— Já tô acostumado.
— Não devia estar.
— Alguns de nós não têm escolha.
Essa frase ficou presa entre nós. Eu tentei mudar o assunto.
— Você devia ter ido pra casa. Não precisava ficar aqui sozinho.
— E perder a chance de ter a garota do capitão do time cuidando de mim? Imagina a sorte.
Olhei pra ele, surpresa. O sarcasmo era novo. Ou talvez ele sempre tivesse isso e eu nunca reparei.
— Você sabe que não é assim, — murmurei.
Ele deu uma risada curta, mas sem humor.
— Não é? Porque, pra todo mundo lá fora, é exatamente assim.
Largou o saco de gelo ao lado, os dedos marcados de frio.
— Você fica com ele. Eu apanho dele. O equilíbrio perfeito, né?
— Não fala assim. — Tentei manter a voz firme, mas soou mais como um pedido.
levantou o olhar. Os olhos dele estavam diferentes — não raivosos, mas cansados, como se tivessem visto tudo que eu fingia não ver.
, você sabe quem ele é. Sabe o que ele faz.
— Eu sei. — A resposta escapou antes que eu pudesse mentir.
Todo mundo achava que eu e Ryan éramos o casal perfeito. O capitão do time e a garota que sempre sorria nas arquibancadas. As fotos, as festas, os comentários... tudo parecia funcionar bem, visto de fora. Mas a verdade é que eu nunca gostei de estar com ele. Não de verdade.
No começo, talvez eu tenha confundido atenção com amor. Era fácil gostar da ideia dele — bonito, popular, sempre cercado de gente. Difícil era lidar com a pessoa por trás disso. Com o controle disfarçado de charme, com o ciúme que se escondia atrás de piadas.
Pensei em terminar com ele muitas vezes. Mais do que posso admitir. Mas, toda vez que chegava perto, algo dentro de mim travava. Eu sabia o que acontecia com quem o contrariava. Com quem saía do “ciclo”. Ninguém queria ser o próximo alvo das piadas, dos olhares, dos vídeos que rodavam o colégio como uma febre.
Então eu fiquei. Fingi. Sorri nas fotos, segurei a mão dele, aceitei os beijos que não queria.
Com o tempo, comecei a perceber que, quando ele ficava com outras meninas, eu me sentia... aliviada. Era horrível admitir, mas era verdade. Porque assim eu não precisava vê-lo tanto. Não precisava fingir tanto. Não precisava ser tocada quando só queria distância.
E o pior? Todo mundo sabia. As pessoas viam, comentavam, riam. Sabiam que o “namoro” era só fachada, um tipo de acordo silencioso: eu mantinha a imagem, ele fazia o que queria. Ninguém se importava. Ninguém nunca se importa, desde que tudo pareça bonito por fora.
inclinou a cabeça, me observando.
— Então por quê?
Fiquei em silêncio. O barulho distante do ventilador preencheu o espaço entre nós. Tentei encontrar uma resposta, mas o nó na garganta não deixava.
— Porque é mais fácil, — murmurei por fim. — Fingir que tá tudo bem. Fingir que ele vai mudar.
balançou a cabeça devagar.
— Ele não vai.
Essas três palavras ficaram pairando no ar, mais pesadas do que deveriam. Quando percebi, eu já não conseguia encarar os olhos dele. Eu sabia que não.
— Você devia deixar ele, — ele disse, a voz baixa, quase um sussurro. — Ryan não te merece.
— E quem merece? — perguntei, tentando rir, mas soou fraco, quebrado.
Ele demorou pra responder.
— Alguém que não precise te fazer pequena pra se sentir grande.
Olhei pra ele.
De perto, o rosto dele parecia mais humano — o machucado, o corte, o olhar contido. A vulnerabilidade que eu tentava não enxergar.
— Você não entende, — disse, quase pra mim mesma.
— Eu entendo sim. — A voz dele saiu mais firme. — Entendo o que é se acostumar com o lugar errado porque dói menos do que tentar sair.
Senti um arrepio, não de medo, mas de algo mais fundo, mais perigoso.
Por um momento, ninguém disse nada.
Só o som do gelo derretendo no saco e a chuva lá fora, insistente.
… — comecei, mas parei.
Ele respirou fundo, desviando o olhar.
— Esquece. Eu não devia ter dito nada.
Mas já era tarde.
O que ele disse ficou ali, entre nós, como uma porta entreaberta.
E eu percebi que, por mais que tentasse, não conseguiria mais fingir que não via o que estava diante de mim.
Tentei desviar o olhar, mas não consegui.
Ele me encarava de perto agora — e havia algo ali que me prendia, algo entre raiva e... verdade.
Por um instante, o tempo pareceu desacelerar.
Eu vi o brilho dos olhos dele, a pele quente sob o gelo frio, o jeito que a respiração dele se misturava com a minha. E pensei que era errado achar ele bonito naquele momento. Mas pensei mesmo assim.
Ele notou.
A tensão ficou densa no ar, quase palpável.
— Você devia ir, — ele disse, a voz baixa, firme.
— Por quê?
— Porque você ainda tá tentando acreditar que somos de mundos diferentes.”
As palavras dele atravessaram direto o meu peito.
E eu quis responder, dizer que sim, que somos — que eu sou a namorada do Ryan, que ele é o nerd que todos ignoram, que o colégio inteiro funciona em torno dessas divisões invisíveis.
Mas naquele instante, com o gelo derretendo na minha mão e o sangue seco no rosto dele, eu não consegui acreditar nisso.
Fiquei ali por mais um segundo. Só olhando.
Depois deixei o saco de gelo na mesa e saí, sem olhar pra trás.
Mas o frio do gelo ficou preso nos meus dedos.
E o calor dele, preso em mim.

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FLASHBACK ON

Eu devia estar acostumada, mas não estava.
As risadas ainda cortavam fundo, mesmo quando eu fingia não ouvir.
Elas tinham aquele jeito de falar baixinho só pra eu saber que era sobre mim. As roupas, o cabelo, a minha mochila com chaveiro de dragão — tudo era motivo pra virar piada. E eu, boba, achava que se risse junto, doeria menos.
Mas não doía menos.
Doía igual.
Então, no meio do intervalo, eu me tranquei no banheiro. Encostei as costas na porta e deixei o choro vir de vez. O tipo de choro que a gente prende há dias e só sai quando ninguém tá olhando.
Fiquei ali, respirando o cheiro de sabão barato e o som das torneiras pingando. Me senti pequena. Invisível. Ridícula. Quando o sinal tocou, lavei o rosto, passei papel na cara e olhei pro espelho. Os olhos vermelhos, o nariz inchado, o rímel borrado. Perfeita. Do jeito que elas queriam que eu me sentisse.
Saí do banheiro e quase trombei em alguém no corredor.
Era o .
Ele segurava uns livros no braço, o moletom azul que ele sempre usava, e aquele olhar curioso que parecia ver mais do que devia.
? — ele disse, baixinho. — O que aconteceu?
— Nada. — Passei a manga na cara, disfarçando. — Só tava lavando o rosto.
Ele arqueou uma sobrancelha, cético.
— Com lágrimas?
Tentei rir, mas minha voz falhou.
— É… deve ter vindo com o pacote.
Ele me observou por um tempo, sério.
Depois, disse com calma:
— Você não merecia chorar.
Não sei por que, mas aquilo doeu mais do que qualquer coisa que as meninas tinham dito. Talvez porque ele parecia acreditar mesmo nisso.
— Às vezes eu queria ser como elas, — murmurei. — Bonita, confiante, com aquele jeito de quem pertence a algum lugar.
balançou a cabeça.
— Você não quer ser como elas.
— Quero sim. — insisti, amarga. — Pelo menos ninguém riria de mim.
Ele deu um meio sorriso — triste, mas gentil.
— Elas só riem porque sabem que não têm o que você tem.
— E o que eu tenho, exatamente? — perguntei, sem paciência.
Ele hesitou, olhando pro chão antes de responder.
— Algo real. E isso assusta as pessoas que vivem de aparência.
Ficamos em silêncio por um instante. O corredor estava vazio, e o som distante das vozes voltando pra sala parecia vir de outro mundo.
— Você não devia deixar elas te mudarem, — ele completou, baixo. — Ser como elas seria o mesmo que desaparecer.
Eu ri, mas sem graça.
— Talvez desaparecer não seja tão ruim.
Ele me olhou, e o olhar dele me segurou no lugar.
— Pra mim seria.
E, por algum motivo, foi naquele momento que percebi o quanto ele se importava. Mesmo que eu ainda não soubesse o que fazer com isso.

FLASHBACK OFF

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A casa estava lotada.
Música alta, cheiro de álcool, corpos se movendo como se o mundo fosse acabar naquela noite.
Ryan estava com os amigos, rindo alto, gritando por qualquer motivo. Eu tentava me encaixar, fingir que me divertia, mas por dentro estava distante.
Foi quando o vi.
.
Encostado na parede do corredor que levava ao banheiro, a mesma expressão de quem queria estar em qualquer outro lugar. Os jocks provavelmente o arrastaram pra ali só pra rir dele depois.
Ele me viu também. Por um segundo, achei que fosse desviar o olhar — mas não. Ficou ali, firme, como se me desafiasse a fingir de novo.
O corredor estava meio escuro, longe da música. As pessoas passavam por nós sem perceber. Eu senti algo dentro de mim se mover, uma força antiga e perigosa.
Quando dei por mim, já estava indo até ele.
— Você não devia estar aqui, — falei.
— Nem você, — ele respondeu.
A proximidade era insuportável. O som abafado da festa fazia o mundo parecer menor. Eu vi o reflexo da luz piscando nos olhos dele. Vi o que ele não dizia. E antes de pensar — antes de lembrar que tinha alguém me esperando na sala — eu o empurrei para dentro do banheiro vazio.
A porta bateu.
Por um instante, silêncio. O som da festa pareceu recuar quilômetros, tornando-se um zumbido distante. O mundo inteiro se resumiu àquele banheiro mal iluminado, ao cheiro de sabonete barato e à respiração dele, que eu podia sentir no meu rosto.
Estávamos perto demais. Insuportavelmente perto. Eu vi o reflexo da luz piscando sob a porta nos olhos dele. Ele não desviou o olhar. Ele estava ali, firme, como se estivesse esperando que eu tomasse uma decisão.
E então, o mundo sumiu.
Não sei quem se moveu primeiro. Talvez tenhamos desabado um na direção do outro ao mesmo tempo. Não foi um beijo calmo. Foi uma colisão. O tipo de impacto que você sabe que vai deixar marcas.
Minhas mãos agarraram a frente da camisa dele, puxando-o para mim, e ele não hesitou. Suas mãos subiram pelo meu pescoço, os dedos se entrelaçando no meu cabelo, segurando minha cabeça como se eu fosse fugir.
E eu não ia.
Tudo o que eu vinha segurando — a culpa por estar com Ryan, a raiva por ter que fingir que não o via nos corredores, a curiosidade, a carência, e algo mais profundo... saudade — explodiu. E ele respondeu com a mesma fome. Não era surpresa; era reconhecimento.
Foi um beijo desesperado, profundo, roubado. Tinha o gosto de todos os "oi" que não demos, de todos os olhares que desviamos, de todo o tempo perdido. Era caótico e urgente, como se tivéssemos apenas aquele segundo para consertar meses de erros.
O beijo quebrou por um instante, apenas o suficiente para respirarmos, nossas testas coladas. — ... — ele sussurrou, a voz rouca, como se a palavra o machucasse e o aliviasse ao mesmo tempo.
O som do meu nome, dito daquele jeito, me quebrou. Eu o beijei de novo, desta vez sem a raiva. Foi mais fundo, mais lento, quase doloroso em sua sinceridade. O mundo lá fora deixou de existir. Não havia Ryan, não havia festa, não havia música. Havia apenas o calor da pele dele, o gosto dele, a sensação de que aquilo era proibido e, ao mesmo tempo, a única coisa certa que eu fazia há meses.
Foi o tipo de momento que parece errado e inevitável ao mesmo tempo. O tipo de momento que reescreve a história inteira.
Quando finalmente nos afastamos, eu ainda sentia o coração batendo no pescoço, nas têmporas, em todos os lugares. Meus lábios queimavam. Ele me olhou — não com surpresa, mas com uma compreensão profunda, quase triste. Ele sabia, assim como eu.
E eu soube que tinha cruzado uma linha que não dava pra fingir que não existia.
… — ele começou de novo, a voz cheia de tudo o que não podíamos dizer ali. Mas o pânico da realidade me atingiu. A batida da música lá fora voltou, alta e clara. Eu não deixei ele continuar.
— Não fala nada.
Abri a porta e voltei pra festa, o som me engolindo de novo.
Ryan ainda ria com os amigos, sem ideia do que tinha acontecido.
Mas eu sabia.
E sabia que, por mais que o tempo passasse, eu nunca esqueceria aquele instante — o gosto de algo proibido, o toque de alguém que eu devia odiar, o erro mais certeiro que já cometi.

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A festa já estava no fim quando percebi que algo estava errado. As risadas tinham mudado de tom. Não eram mais de diversão. Eram aquelas risadas — as que vêm quando alguém está prestes a ser destruído.
Ryan estava no centro da sala, cercado pelos amigos. Um deles mexia no celular, conectando algo à TV. O resto esperava, animado, cruel.
— Tá pronto? Vai, coloca logo! — alguém gritou. Eu me aproximei, o gosto do beijo ainda na minha boca, o coração ainda acelerado, sem saber o que estava prestes a ver.
A tela piscou. E então apareceu .
Uma foto dele, alguns anos mais novo, cabelo ruim, aparelho nos dentes. A legenda em letras garrafais: “O REI DO BAILE (QUE NÃO FOI CONVIDADO)”. As risadas explodiram.
Outra foto. Ele no refeitório, comendo sozinho, o olhar perdido. A legenda: “ALMOÇO DOS CAMPEÕES”. Meu corpo travou. Onde eles tinham conseguido aquilo?
A tela mudou de novo. Não era uma foto. Era um print de um blog. Um texto.
— Ah, se preparem! Essa é a melhor parte! — Ryan gritou, me puxando pela cintura. Ele me abraçou por trás, rindo perto do meu ouvido. — Achamos o blog antigo dele. O cara é um poeta!
Ele começou a ler em voz alta, numa voz de choro falsa e dramática. “Oh, a solidão... a dor de ver e não ser visto. Um fantasma no corredor, esperando o toque que nunca vem...”
A sala inteira uivava de rir. Comentários sujos, imitações, assobios.
— Vocês não deviam… — comecei, mas minha voz falhou. — Relaxa, amor. É só uma brincadeira. O cara se leva a sério demais, — Ryan disse, beijando meu ombro.
Foi quando eu o vi. . Parado na porta, assistindo tudo.
Ninguém percebeu que ele tinha chegado. Ele ficou observando em silêncio, o olhar fixo na tela, enquanto Ryan lia outro trecho sobre "olhos que eram o universo". A humilhação era total. Era sobre sua alma, exposta e ridicularizada para todos.
E então Ryan o viu. Um sorriso lento e cruel se espalhou por seu rosto. Ele parou a leitura.
— Pessoal! Pessoal! — Ryan gritou, subindo na mesa de centro, com um copo na mão. A música diminuiu. — O nosso convidado de honra chegou a tempo do prêmio!
A sala ficou quieta. Todos os olhos se viraram para na porta. — Como vocês sabem, nós temos um verdadeiro astro esta noite! — Os amigos dele riram, já sabendo o que vinha. — Eu queria chamar aqui na frente... o único, o incomparável... !
Meu estômago despencou. O gosto do beijo se tornou amargo. estava tenso, pronto para ir embora. — Vai lá, cara! Tão te chamando! — um dos jocks gritou, empurrando para o meio da sala.
Ele ficou parado ali, cercado. Um cordeiro no matadouro. Ele olhou para mim, um pedido mudo de ajuda. — Ryan, para com isso, — eu sussurrei, mas Ryan nem me ouviu.
, — Ryan continuou, num tom falsamente solene, apontando para o slideshow ainda na tela. — Ouvimos dizer que você é um poeta. Um homem de sentimentos profundos. E nós... nós achamos que isso merecia um prêmio de verdade.
Ele fez um sinal. Um dos amigos dele, Mike, apareceu vindo da cozinha. Ele não carregava um troféu. Ele carregava um balde.
Eu não conseguia respirar. — Não, — eu disse, mais alto. — Ryan, não. Mas Ryan já estava rindo. — Relaxa, amor. É só uma brincadeira.
Mike se posicionou atrás de , que estava congelado, olhando para Ryan. — Pelas suas palavras profundas, — Ryan ergueu o copo, o deboche pingando da voz. — E por tentar roubar a minha namorada...
Mike virou o balde. Um líquido escuro e grudento — uma mistura de ponche, cerveja e restos de bebida — desabou sobre a cabeça de . Escorreu pelo seu cabelo, encharcou sua camisa, grudou em seu rosto. Um silêncio chocado durou um segundo. E então, a sala explodiu. Risadas, gritos, gente aplaudindo.
não se moveu. Ele ficou ali, parado, pingando. Depois ele olhou pra mim. Eu ainda estava nos braços de Ryan. Paralisada. Seca. Limpa.
Foi um olhar rápido. Mas suficiente. Não havia ódio. Não ainda. Era pior: era clareza. A clareza de quem vê que a pessoa com quem ele se conectou minutos atrás era, no fim das contas, apenas mais um deles.
Ele virou e saiu sem dizer nada, deixando uma trilha molhada no chão. E o som das risadas seguiu, como se nada tivesse acontecido.
Eu tentei ir atrás dele, mas Ryan segurou meu braço. — Deixa, ele aguenta. É só o perdedor da escola.

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Ele sumiu.
Ninguém o viu desde aquela noite. Na escola, diziam que ele tinha se mudado, que os pais o mandaram embora, que não aguentou a vergonha. Outros falavam coisas piores, sussurradas entre uma aula e outra.
Eu tentava fingir que não ouvia. Mas toda vez que alguém falava o nome dele, meu estômago virava.
E então comecei a juntar as peças.
Os sumiços.
O silêncio.
A chuva.
Dois caminhos possíveis.
Duas respostas que giravam dentro da minha cabeça, me deixando sem fôlego.
Ou também era uma vítima — engolido por tudo o que aconteceu, desaparecendo como tantos outros.
Ou…
Fechei os olhos, tentando afastar o pensamento.
Mas ele voltava, insistente, cortante.
Ou ele era o responsável. O fantasma por trás da máscara.
A ideia me gelava e, ao mesmo tempo, fazia meu coração bater mais rápido, como se uma parte de mim — a mais confusa, a mais errada — soubesse a verdade desde o início.
E o pior era isso. Porque, no fundo, eu não sabia se tinha mais medo de descobrir que ele estava morto… ou de descobrir que estava vivo.
Os dias passaram lentos, sufocados. O som dos corredores parecia mais alto, o riso das pessoas mais falso. E eu comecei a sentir — não sei explicar — uma presença.
Era como se ele ainda estivesse ali. Nas sombras, nos olhares. No espelho do banheiro, quando eu lavava o rosto e achava ver um vulto atrás de mim. Na biblioteca, quando o reflexo da janela parecia se mover.
— Você tá ficando paranoica, — Ryan dizia, rindo. Mas até ele parecia diferente. Desde o vídeo, o jeito dele comigo mudou — frio, impaciente. E eu não conseguia esquecer o olhar de naquela noite.
O olhar de quem entendeu tudo.
O telefone já havia tocado outras vezes. Sempre no mesmo horário, entre dois relâmpagos e um trovão distante. Quando eu atendia, só ouvia o vento, ou talvez minha própria respiração tremendo do outro lado. Eu dizia “alô” uma, duas, três vezes — e nada. Depois, o clique frio de quem desliga sem pressa.
Na terceira noite sem dormir, o medo já não era mais um susto, era uma companhia. Sentei na cama, o corpo tenso, os olhos fixos na janela. Lá fora, chovia pesado, e o som das gotas batendo no vidro parecia seguir um ritmo lento, quase hipnótico. O quarto estava escuro, iluminado apenas pelo reflexo pálido da rua molhada. Eu sentia o coração bater rápido demais para o silêncio que me cercava.
Peguei o celular da mesa de cabeceira e olhei a tela. Nada. Nenhuma mensagem. Nenhum número novo. Nenhum sinal. Mas eu sabia. O toque viria — ele sempre vinha.
E então veio.
O som vibrou no quarto como um golpe. Um número desconhecido. Sem nome, sem origem. Por um instante, fiquei parada, observando o visor aceso, lutando contra a vontade de jogar o telefone longe. Mas, como nas outras vezes, cedi. Apertei o botão verde.
— Alô?
Silêncio. Por um momento, achei que era mais uma brincadeira cruel da minha cabeça. Mas então ouvi — uma respiração baixa, irregular, misturada ao som da chuva.
— Quem é? — perguntei, tentando soar firme, mas a voz saiu menor do que eu queria.
A resposta veio devagar, rouca, com um som metálico, como se passasse por um filtro ou uma gravação antiga. — Saudades de mim, ?
O mundo pareceu encolher. O som da chuva ficou distante, abafado. Aquela voz. Baixa. Distante. Familiar demais para ser coincidência.
— Quem é você? — sussurrei, mas já sabia a resposta.
— Você achou que eu ia sumir, né? — A voz não trazia raiva, nem riso. Tinha calma. E essa calma era o que mais assustava.
— Onde você tá? — perguntei, o coração acelerado.
Ele riu — uma risada curta, seca, sem alegria.
— Perto. Mais do que você imagina.
Virei o rosto em direção à janela. As luzes da rua dançavam sobre o vidro molhado, distorcidas. A cada relâmpago, eu esperava ver um vulto. Mas só via a chuva escorrendo como lágrimas.
— Por que tá fazendo isso? — minha voz saiu entrecortada, quase um sussurro.
Silêncio.
Depois, uma pergunta que soou como uma sentença:
— Você tá com medo, ?
Fechei os olhos. Respirei fundo.
— Sim. — saiu antes que eu pudesse mentir.
Do outro lado, o som leve de uma risada.
Mas havia algo diferente nela — não era prazer, era melancolia.
— Boa. Quer dizer que você sente alguma coisa.
Antes que eu conseguisse responder, o som se foi.
A linha caiu.
Fiquei ali, com o telefone ainda colado ao ouvido, ouvindo o vazio.
A tela piscava, o número desconhecido gravado como uma ferida nova.
Tentei devolver a ligação, mas a resposta veio rápida e impessoal: chamada encerrada.
O quarto pareceu mais frio. Olhei ao redor, esperando algum som, um passo, qualquer sinal de que eu não estava sozinha. Nada. Só a chuva.
E então percebi. O medo que eu sentia não era só dele. Era de mim.
Porque uma parte de mim — a parte que lembrava o toque, o olhar, o beijo que nunca deveria ter acontecido — ainda queria que ele voltasse. Mesmo que fosse pra me assombrar.

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A escola mudou.
O som dos corredores sumiu, como se alguém tivesse arrancado o ar do lugar.
Ninguém ria mais. Ninguém falava alto.
Os rostos estavam pálidos, as vozes, baixas.
Primeiro foi Chris. Depois Susan. Depois Fred.
Três nomes que todo mundo conhecia, agora sussurrados como maldições.
A polícia circulava pelo pátio. Os professores tentavam manter as aulas, mas ninguém ouvia nada. E eu... eu só pensava nele.
.
Sabia que ele estava por perto. Não precisava de provas — era como sentir uma mudança no clima, um frio que vem do nada. O mundo inteiro parecia respirar diferente.
Ryan fingia estar tranquilo, mas eu via o medo nos olhos dele. O mesmo medo que me fazia acordar à noite e olhar para o celular, esperando uma nova ligação. Nada vinha. Até aquele dia.
Era sexta-feira. A chuva vinha forte, grossa, arrastando o som pela rua vazia.
Era tarde — talvez quase madrugada — e eu já estava acordada, sentada na beira da cama, quando ouvi as batidas na porta.
Três, espaçadas, pesadas.
Meu corpo reagiu antes da minha mente. Levantei, o coração disparado, atravessando o corredor escuro da casa. A cada passo, o som da chuva ficava mais alto, como se o mundo inteiro segurasse a respiração.
Quando abri a porta, ele estava lá. .
Ensopado, o cabelo grudado na testa, os olhos fundos, o rosto pálido.
Não disse nada. Só ficou parado, olhando pra mim, com aquele olhar que parecia ver tudo — e carregar mais do que qualquer um devia suportar.
— Meu Deus, o que você fez? — foi a primeira coisa que saiu da minha boca.
Ele não respondeu.
Entrou devagar, como se não tivesse certeza se merecia estar ali.
A água pingava do casaco, formando poças no chão.
… — comecei, mas ele ergueu a mão, pedindo silêncio.
Ficou de pé, diante de mim, os ombros tensos, o peito subindo e descendo rápido. Quando finalmente falou, a voz veio rouca, quase um sussurro.
— Acabou.
Foi tudo o que disse.
Mas a forma como disse — como se cada sílaba pesasse toneladas — fez meu corpo inteiro gelar.
— Acabou… o quê? — perguntei, mesmo sem querer ouvir a resposta.
Ele desviou o olhar.
— Ryan. Tudo isso.
Meu coração apertou.
Senti as lágrimas começarem a subir, a garganta fechar.
, o que você fez?
Ele respirou fundo, mas não respondeu.
O silêncio dele era pior do que qualquer palavra.
E eu entendi.
Fiquei olhando pra ele, o rosto molhado — não sabia se era da chuva ou das lágrimas que eu não percebi escorrendo. parecia vazio, esgotado. Não havia ódio nele, nem satisfação. Só um cansaço imenso.
Ryan estava morto, mas era a liberdade perdida de que me assombrava. O descontrole dele custou tudo, e essa era a verdadeira tragédia que me quebrava.
— Você… não precisava, — eu disse, entre soluços. — Nada disso precisava.
Ele apenas olhou pra mim.
Por um segundo, pensei que fosse chorar também — mas não.
Os olhos dele estavam fixos, calmos, como se tivesse atravessado algo irreversível e agora só restasse o silêncio.
A chuva batia nas janelas, o som preenchendo o espaço entre nós.
E ele, imóvel, parecia uma sombra no meio da sala.
Dei um passo à frente.
Outro.
Até ficar perto o bastante pra sentir o frio da roupa encharcada, o cheiro de chuva e medo.
E então abracei ele.
Sem pensar. Sem pedir permissão. Apenas abracei. Os braços ao redor do corpo dele, firme, como se pudesse impedir que o mundo o engolisse de vez.
Por um instante, ele não reagiu. Ficou tenso, travado. Depois, senti os ombros dele relaxarem, e as mãos tocaram minhas costas com cuidado, como se tivesse medo de me quebrar. Nenhum de nós falou. A chuva fazia o resto — batendo forte contra as janelas, misturando tudo: o som, o ar, o medo, o que ainda existia entre nós. Quando ele se afastou, vi nos olhos dele algo que me partiu em silêncio. Nem raiva. Nem alívio. Só um tipo de tristeza que não tem nome.
Ele era muito mais alto que eu — devia beirar um metro e noventa — e meus meros um metro e sessenta pareciam desaparecer diante dele. Era para eu sentir medo, mas não sentia. Tudo nele, do olhar cansado ao tremor leve nas mãos, exalava vulnerabilidade.
— Vai embora, — eu pedi, a voz quase inaudível. — Foge, antes que alguém te encontre. Por favor.
Ele assentiu devagar, mas antes de virar, se aproximou um passo.
E, com a voz mais baixa do que nunca, disse:
— Você foi a única coisa boa que eu quase tive, .
Depois disso, nada.
A porta se abriu, a chuva entrou junto, e ele desapareceu na escuridão da rua.
Eu fiquei ali, parada, com o som da tempestade e o eco daquela última frase se repetindo na cabeça.

Capitulo 2

Anos se passaram.
De vez em quando, eu ainda sonhava com aquele corredor vazio, o eco dos risos, o som da chuva. Acordava suando, com a sensação de que alguém me observava — mas nunca havia ninguém.
Mudei de cidade, de nome, de vida. Foi o único jeito de continuar respirando.
A pequena livraria onde eu trabalhava ficava numa rua silenciosa, sempre com cheiro de café e papel úmido. As tardes eram longas, pacíficas. Até aquele dia.
Um homem entrou.
Alto, loiro, olhar tranquilo.
Parecia alguém que já aprendeu a se esconder.
— Posso ajudar? — perguntei, sem levantar muito os olhos.
Ele sorriu de leve.
— Talvez.
A voz fez o tempo parar.
Aquela voz.
Baixa, rouca, como se viesse de muito longe.
Meu coração começou a bater rápido.
Levantei os olhos devagar.
E lá estava ele.
Não era o garoto que eu lembrava — o olhar agora era mais contido, maduro, mas ainda havia algo ali. Uma calma perigosa. Uma tristeza antiga.
… — sussurrei.
Ele balançou a cabeça.
— Acho que agora é Adrian. Documentos novos, vida nova. Você entende, né?
Engoli em seco, tentando não rir.
— Entendo. E aí, Adrian... o que posso te mostrar hoje?
Aquela voz veio em seguida, calma, baixa, ainda com aquele tom incerto de quem nunca sabe se está atrapalhando.
— Estou procurando um livro.
Ficamos nos olhando por longos segundos. O som distante da rua parecia não nos alcançar.
— Faz tempo, né? — ele disse, tentando sorrir.
Assenti, sem saber o que dizer. Havia tanta coisa entre nós — promessas quebradas, distâncias, o tipo de silêncio que dói — e, mesmo assim, vê-lo ali me trouxe um alívio tão grande que eu quase ri.
— Quatro anos — murmurei. — Achei que nunca mais fosse te ver.
Ele deu de ombros, com um sorriso pequeno.
— Eu também achei.
O silêncio voltou, confortável dessa vez. Ele passou os dedos pelos livros da prateleira, como se procurasse um refúgio nas capas.
— Ainda gosta de ficção científica? — perguntei, tentando parecer casual.
Ele riu baixo, e o som foi como um reencontro em si.
— Acho que nunca deixei de gostar.
Sorri, sem perceber. Havia um nó no peito, mas, pela primeira vez em muito tempo, ele não doía.
Talvez fosse isso — um recomeço. Não daqueles que prometem tudo de novo, mas o tipo que só precisa de um olhar, um livro e a certeza silenciosa de que, apesar dos anos, algumas coisas continuam vivas.

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Depois daquele dia, ele começou a aparecer com certa frequência. No início, era só coincidência — ou pelo menos foi o que dissemos a nós mesmos. “Estava passando por aqui.” “A chuva me empurrou pra dentro.” “O metrô parou bem na frente.” Nenhuma dessas desculpas fazia sentido, mas eu nunca o desmentia.
Adrian vinha sempre do mesmo jeito: o casaco pesado, o olhar baixo, os dedos inquietos. Às vezes comprava um livro, às vezes só perguntava sobre algum título e ficava por perto, lendo as sinopses como se procurasse algo que ainda não sabia nomear. Aos poucos, o silêncio dele deixou de ser incômodo e virou companhia.
As tardes na livraria mudaram de ritmo. Entre o som das páginas e o cheiro de café velho, ele se tornava parte da rotina — discreto, constante. Começamos a conversar aos poucos. Primeiro sobre livros, depois sobre qualquer coisa que não doesse. Ele ouvia com atenção e, quando falava, fazia isso com cuidado, como quem tem medo de dizer demais.
Com o tempo, notei o quanto ele havia mudado. O riso dele era mais leve, mas havia um peso atrás dos olhos. Às vezes, ele parava no meio de uma frase, como se lembrasse de algo que preferia deixar quieto. Nunca perguntei. Não precisava. Eu sabia que, em algum ponto entre o que fomos e o que nos tornamos, ele tinha se perdido — e estava tentando se encontrar de novo.
Um dia, quando o sol entrava pela vitrine em faixas douradas, ele disse algo que me desarmou:
— Sabe, eu passei muito tempo achando que era uma pessoa ruim. Talvez porque, por um tempo, eu fui mesmo. Fiz coisas... que não fizeram bem a ninguém, muito menos a mim.
Fiquei em silêncio. Ele não me olhava, apenas mexia nos livros, como se buscasse nas páginas algum tipo de absolvição.
— Mas agora — continuou — só quero aprender a ser alguém normal. Alguém que não precisa se esconder o tempo todo.
— Acho que você já é — respondi. — Só não percebeu ainda.
Ele sorriu de leve, sem ironia. Era um sorriso cansado, mas sincero.
As semanas seguiram assim. Ele vinha, lia, conversava. Eu o provocava com recomendações de livros que ele “nunca teria paciência pra ler”, e ele fingia se irritar, só pra depois voltar com o mesmo título debaixo do braço. “Terminei. Quase dormi no meio, mas terminei”, dizia, com aquele humor contido que me fazia rir.
E aos poucos, o que havia entre nós foi se tornando algo diferente. Não era como antes — não havia o desespero adolescente de quem ama porque precisa. Era mais simples, mais calmo. Ele ainda carregava a sombra de quem já foi vingativo, ferido, fechado demais para o mundo, mas agora havia uma doçura nova ali, uma vontade de recomeçar.
Às vezes, enquanto o observava lendo, pensava em como a vida pode mudar devagar, sem fazer barulho. Adrian não era mais o garoto que eu conheci no corredor da escola — e talvez nem eu fosse a mesma. Mas havia algo de familiar em vê-lo ali, entre prateleiras e poeira, tentando ser alguém melhor.
E, de algum modo, isso bastava.



CONTINUA



Nota da autora: Obrigada por chegar até aqui! Talvez tenha um capítulo hot como continuação, dependendo de quanto vocês gostaram da história.

Com carinho,
Tess

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Nota da scripter: Eu amo uma fic, e é isso.

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