Evans, McKinnon, ghosts, and other paranormal activities

Última atualização: 01/09/2020

Prólogo

Caso 0 ou A Verdade Está Lá Fora

Uma névoa pesada se instalou sobre Londres, deixando bruxos e trouxas igualmente embasbacados. Os jornais comentavam sobre o fenômeno de forma que não desse nenhuma informação vital, para não causar pânico, mas a verdade é que desde o primeiro dia várias mortes estranhas estavam acontecendo.
Grupos de jovens foram encontrados em parques, mortos por hipotermia, depois de apenas 7 horas desaparecidos. No verão. Pessoas que, sem explicação ou antecedentes, começavam a apresentar sintomas severos de depressão e poucas horas depois decidiram tirar suas próprias vidas. A gota d’água para a primeira ministra dos trouxas foi a grande quantidade de pessoas sendo diagnosticadas com paranóia e tentando suicídio pouco depois de relatarem pessoas e objetos voando em frente ao Westminster.
- Faça alguma coisa. - era a única frase do recado que a mulher trouxa tinha deixado para ministra da magia, através da pintura que elas compartilhavam como meio de comunicação.
Sentada na cadeira de seu escritório com as mãos segurando o rosto, Millicent Bagnold se perguntava: fazer o que? Ela já tinha mandado alguns bruxos investigarem, mas eles voltaram de mãos vazias: era muito envolvimento direto com os trouxas, portanto um trabalho arriscado demais. Eles teriam que resolver isso de outra forma.
Dumbledore, sua consciência disse. Não tinha outro jeito. Levantou-se, pegou seu casaco e desaparatou.

~~~~~~~~~~

O som do salto de suas botas soava alto no corredor vazio, fazendo parecer que ela estava mais determinada do que realmente se sentia. Não sabia porque tinha sido chamada, mas não gostava da ideia de ser segredo. Bateu na porta e esperou até ouvir um tom quase pego de surpresa dizendo entre.
- Senhora Bagnold, recebi sua convocação.
- Ah, sim. Sim. - a ministra levantou de sua cadeira de forma desajeitada para apertar-lhe a mão.
O cansaço era evidente não só em seu rosto, mas em suas roupas que, antes formais, agora estavam amassadas, deixando claro que ela estava na mesma posição há várias horas. Mas seus olhos castanhos e sorriso eram energéticos e gentis, como se lembrava.
- Gostaria de ir direto ao ponto, se você não tiver nenhuma objeção.
- Nenhuma.
- Vejo que você está trabalhando conosco há dois anos. - a ministra começou. - Seus exames de Hogwarts foram excepcionais, e sua qualificação trouxa em ciência forense oferece uma perspectiva e abordagem diferentes na forma como você trabalha, certamente fico feliz de saber que temos uma auror como você.
- Fico feliz em contribuir.
Um breve silêncio tomou conta da sala. Bagnold a olhava como se tivesse avaliando bem as próximas palavras a usar.
- Você conhece Lily Evans, não? - uma voz familiar soou atrás de sua cadeira fazendo com que um arrepio descesse da nuca de Marlene até sua lombar. Ela não tinha ouvido Dumbledore aparatar. - Vocês foram da mesma classe em Hogwarts.
- Professor. - Marlene disse como uma forma de cumprimentá-lo. - Me lembro dela vagamente.
- Do que se lembra? - Marlene franziu o cenho enquanto Dumbledore dava a volta em sua cadeira e parava a sua frente. Ele não tinha mudado nada em aparência desde que o tinha visto pela última vez, há dez anos.
- Ahn, ela é ruiva. Estudou na grifinória. Muito inteligente. Tinha uma amizade incomum com Severus Snape, mas acho que eles cortaram relações antes de sairmos da escola. Não me lembro muito mais do que isso.
- Não se lembra, então, que ela é filha de trouxas?
- Sim, me lembro. Isso tem alguma relevância?
Dumbledore sorriu para ela com os olhos, por cima do óculos.
- Nesse momento, sim. - Bagnold respondeu por ele, levantando da cadeira novamente e indo entregar uma pasta para ela. Marlene abriu e começou a folhear: fotos de pessoas mortas e seus relatos estavam por toda parte. - Você com certeza percebeu que estamos envoltos em névoa há algumas semanas, mesmo sendo verão, mas o que provavelmente não sabe é que todos esses crimes que te entreguei começaram na mesma época desse fenômeno. Mandamos algumas pessoas para investigar, mas o risco é grande, precisamos de pessoas competentes que estejam acostumadas a conviver com trouxas sem deixar que nada fuja do controle. É aí que você e Evans entram: ela tem as qualificações necessárias e Dumbledore recomendou você, que me parece ter talentos específicos e complementares ao dela. Se você aceitar o trabalho começará imediatamente, indo se re-apresentar a ela no nível 3 agora mesmo. O nome da divisão é temporário, algo como “assuntos trouxas” ou algo parecido, não tivemos tempo de pensar sobre isso com outros assuntos mais urgentes.
Marlene não sabia quando havia prendido a respiração, mas assim que percebeu decidiu soltá-la de uma vez, produzindo um barulho esquisito, mas pouco audível. Dumbledore a havia recomendado?
- Podemos contar com você? - com a voz perdida em algum lugar da garganta, Marlene olhou rápido entre a ministra e seu ex-diretor, e assentiu. - Ótimo. Você está liberada, fico feliz de tê-la trabalhando nisso.
Levantando-se para apertar a mão de sua chefe e sair, os azuis olhos de Dumbledore encontraram os seus por alguns segundos: havia uma faísca de um plano infalível neles.

~~~~~~~~~~


Na parte mais remota do Nível 2 em uma sala pequena e verde da Seção de Controle do Mau Uso dos Artefatos dos Trouxas, escondida atrás de várias pilhas de arquivos, livros, canetas e penas, Lily Evans encarava um contrato. O contrato em si era muito diferente dos outros documentos na sua frente e era totalmente decisivo para o rumo que sua vida tomaria nos próximos meses. Depois de tão pouco tempo que conseguiu uma vaga no Ministério da Magia alguém - algum bruxo esnobe puro-sangue - poderia dizer que ela estava sendo rebaixada e teria agora que sofrer as consequências por sua curiosidade no caso de Bath e os sereianos.
Um dos seus colegas de trabalho passou pela sala para checar sua condição, deu a volta e viu seus ombros balançando, enquanto o seu rosto estava enfiado nos papéis que lia.
- Lily, não fique triste! Vamos tomar um uísque de fogo depois do expediente... – ele parou de falar quando a ruiva virou a cadeira de lado.
Os olhos verdes brilhavam e a sombra de um sorriso um pouquinho maníaco surgia no rosto sardento.
- O que...? – O colega de trabalho estava no mínimo chocado e mais uma vez não completou a frase toda.
Jogando a cabeça para trás e dando uma gostosa gargalhada Lily disse mais para si do que para o colega:
- Ah, mas eles não sabem o que fizeram!
Obviamente o moço saiu de fininho e decidiu que era mesmo melhor não se envolver com o pessoal daquela divisão.

~~~~~~~~~~

Existiam vários murmurinhos e fofocas rondando o Nível 3, muita gente importante e inteligente fazia parte do Departamento de Acidentes e Catástrofes Mágicas, todo o cuidado era pouco para fazer as investigações e as manutenções no mundo bruxo e trouxa.
A Seção de Ligação com os Trouxas tinha uma reputação ambígua por ali, ao mesmo tempo que despertava a curiosidade por ter contatos políticos e de segurança nacional, era vista com certo desprezo pelo contato direto dos membros da equipe com os Trouxas. A mesma seção também tinha uma divisão com apenas um membro. Ninguém sabia direito qual função tinha, mas todos estavam cientes que a nascida trouxa cuidava dela e só respondia a si e ao chefe do departamento. Isto é, até Marlene McKinnon.
Saindo do escritório do chefe apertando a mão dele, a loira foi direcionada para fim do corredor de mármore negro e, virando à direita, deu certeza a todos de que agora a divisão misteriosa teria um segundo membro. Outras fofocas começaram: como uma sangue-puro de uma família muito conhecida da antiga Sonserina se comportaria com uma nascida trouxa da Grifinória?
A Divisão de Assuntos Paranormais Trouxas era um nome provisório, e a seção estava envolta a tanta confusão e incertezas que a ministra da magia decidiu não divulgar para o resto do ministério. Diferente da antiga sala de Lily, o local provisório era um canto da Sala de Arquivos. Era do tamanho de um salão de festas, com o teto sem fim muito claro e paredes de azulejo azul, quase sem nenhum espaço por conta das torres de arquivos de papéis. Era quase como estar em um local aberto e pudesse ver o céu, mas estivesse cercada por prédios cinzas, uma mesa de madeira flutuante ornada um canto da parede cheia de cartazes e um quadro com anotações. Do outro lado, o oposto à porta, uma mesinha bem pequena em os arquivos eram separados para consulta.
Por dentro Lily se perguntava por que diabos os bruxos não podiam simplesmente aderir aos computadores e facilitar a vida de todos? Mas não, vamos continuar acumulando montanhas de papéis impossíveis de serem rastreados, e que tendiam a sair voando sozinhos entre as torres de arquivos. Ela ia sim, em algum momento, contrabandear um computador para dentro daquela sala, só precisava saber dos hábitos e horários do pessoal… Mas enquanto isso, analisava algumas fotos muito suspeitas de aparições em uma escola abandonada. Até que ouviu alguém bater na porta.
- Está aberta! O seu arquivo provavelmente está separado na mesinha ao lado. – Lily disse sem tirar o olhar da fotografia.
- Ou provavelmente não – Disse uma voz feminina meio rouca. Após uma pausa veio a pergunta: – Isso é uma aparição fantasma?
Lily, que usava grandes óculos de aros dourados, tirou o rosto da foto e viu ao lado da porta fechada a última pessoa que imaginou ver aparecendo por ali naquele dia. Uma mulher que não via há anos, mas tinha a sua idade. Com cabelos muito dourados, usando uma jaqueta azul marinho bonita, calça e botas novos, sua expressão deixava claro que ela esperava a surpresa de Lily.
- Foi essa resposta que chegou à divisão da segunda porta pela qual você passou no corredor, mas felizmente não encontraram nenhuma atividade fantasmagórica. – Lily sorriu e olhou por cima dos óculos que agora caiam no nariz levemente arrebitado – O que devo a honra de sua presença?
A mulher pareceu desconfiada com o tom da pergunta, mas se ajeitou e estendeu a mão.
- Acredito que se lembra um pouco de mim dos tempos de Hogwarts, sou Marlene McKinnon e estou aqui para fazer parte da nova divisão.
Depois de alguns segundos, o suficiente para quase deixar a moça desconfortável esperando o aperto de mão, Lily correspondeu o cumprimento. Não havia qualquer sinal se de fato a ruiva se lembrava da colega de classe, mas após as duas se separarem, ela levanta da cadeira ajeitando os óculos.
- Como exatamente você veio parar por aqui? – Evans perguntou cruzando os braços sob a camisa social branca. – Imagino que não tenha nenhum anúncio no quadro de avisos do Ministério.
- Certamente não, mas existe alguma necessidade. – A loira respondeu e olhou ao redor vendo a mesa de madeira brilhante, a parede atrás, e a aparente falta de organização de alguns dados no quadro. – Alguma dúvida sobre a minha qualificação?
- Ah, não duvido não, Marlene Freya McKinnon. – Lily disse descruzando os braços e colocando as mãos no quadril. – A questão é: o que uma das alunas brilhantes da nossa velha Sonserina, com um dos melhores históricos de Hogwarts, filha de uma família tradicional e com óbvia capacidade de conseguir uma vaga de auror, e quem sabe concorrer para um dos maiores cargos desse ministério, está fazendo aqui?
Depois de alguns segundos em que as duas se encararam tentando perceber se existia ou não hostilidade partindo da outra ou era apenas uma grande curiosidade, Marlene viu um certo brilho no olhar da mulher ruiva. Ela estava a provocando. O motivo era bem dúbio, queria se divertir ou queria uma discussão? McKinnon decidiu por fim devolver a pergunta.
- Você também deve ter um bom motivo para se enfiar em uma divisão nova, ainda mais depois de passar por desprezo pela comunidade bruxa, quando também tem uma óbvia capacidade para ser auror e outros cargos maiores desse ministério. – A loira fez uma pausa e Evans, que não era conhecida pela sua autodepreciação apenas sorriu de lado. – Mas nem todo mundo quer ou precisa ser auror ou ministra da magia para fazer alguma diferença. Isso responde sua pergunta?
Os olhos de Lily se arregalaram até ela começar a rir e bater palmas animada. Não era exatamente o tipo de energia que ela costumava emanar na escola – tirando durante os jogos de quadribol -, mas certamente agora a fazia parecer alguém muito mais divertida, resolvida e um pouco doidinha.
- Brilhante! – Foi a resposta de Evans. – Seja bem-vinda a Divisão de Assuntos Paranormais Trouxas! É um nome provisório, podemos pensar em algo melhor no futuro. Vamos conseguir uma mesa e cadeiras novas para você. Me diga, o que pensa sobre computadores?
Marlene que estava ainda um pouco surpresa com a verdadeira personalidade da ruiva e talvez um pouquinho menos desconfiada, franziu a testa mostrando que considerava mesmo a pergunta.
- São muito práticos e úteis. A capacidade de informações e armazenamento ajudam bastante no dia a dia, ao contrário dessa pilha de papéis. – Com isso ela apontou para as torres de arquivos e depois perguntou baixo, como se alguém estivesse ouvindo da porta - Por acaso está pensando em trazer computadores ao ministério?

Lily tirou os óculos e limpou na camisa com um pouco de cuidado, as bochechas sardentas ainda comprimidas pelo sorriso antes de responder com outra pergunta:
- Tem algum plano para o domingo uma hora da manhã?


Continua...



Nota da autora: Sem nota.



Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.


comments powered by Disqus