Última atualização: 19/03/2021

Prólogo

Uma vez, eu estava percorrendo por uma livraria enquanto procurava por algum livro para que eu comprasse. Ao lado da estante dos volumes infantis, um aglomerado de pessoas se encontrava em fila indiana, e os atendentes caminhavam de um lado para o outro com pilhas e mais pilhas de livros junto ao próprio tronco.
Aquela livraria no centro de Brugges estava uma loucura, e eu, na tentativa de puxar pelo braço a fim de correr para longe dali, esbarrei num certo homem.
Ele tinha olhos castanhos e cabelos no mesmo tom. Sorri, sibilando um pedido de desculpas, e ele sorriu, somente assentindo e passando apressado pelo meu corpo. Subiu as escadas freneticamente daquela livraria enquanto eu observava seus movimentos, completamente confusa com o que havia acontecido.
O murmurinho começou a aumentar, e as pessoas caminhavam apressadas atrás do homem que acabara de passar. Juntei as sobrancelhas, vendo a pilha de livros que habitavam as estantes todas com o mesmo nome em sua capa.
Willian Landay.
A curiosidade me levou a segurar aquele livro em minhas mãos, e uma onda de bisbilhotice aflorou o meu corpo. Percorri o olhar pelo local, à procura daqueles olhos verdes, que ainda se encontravam perdidos numa estante qualquer e bastante colorida, completamente alheios ao frenesi que se topava naquele lugar.
Voltei meus olhos até o livro em minhas mãos e fui até a sobrecapa, à procura do que justificaria a loucura daquelas pessoas por aquele homem.
Defending Jacob relatava a história de um promotor que tinha o seu filho como suspeito de um bárbaro crime. Entre a busca pela verdade e a veracidade dos fatos, aquelas pequenas linhas que determinavam o desfecho misterioso do assassinato e todos os vestígios que apontavam para o seu próprio filho, me vi com o questionamento de como eu me comportaria caso o meu filho estivesse envolvido em algum tipo de caso absurdamente assustador, fosse como vítima ou assassino.
Naquele instante, deixei o livro de lado, em cima daquela pilha desorganizada, e corri até . A intenção daquele segundo seria nunca mais soltar a sua mão.
Algo que eu tentei não fazer, e tive todas as forças do meu corpo perdidas junto àquela tentativa.
Ele não me segurava mais.
A lembrança aflorou a minha mente sem determinar um porquê. Se tratava de uma resposta ao meu sistema nervoso, que estava completamente submerso em perguntas das quais eu sequer possuía rebates.
Eu tinha uma manta envolta ao meu corpo naquele instante, alguns conhecidos entregavam um café ora ou outra, e eu não tinha vontade de colocar nada sob os meus lábios.
A fita havia sido colocada ao redor do portão que envolvia as limitações da minha residência.
CENA DO CRIME.
Um embrulho se formava toda vez que eu observava-a tremular diante um vento mais forte. Uma equipe de quase dez pessoas procurava por indícios de vida sob os 1000 m² que envolviam a minha moradia e o terreno ao redor. Meu coração disparava, e eu poderia afirmar com toda a certeza de que eu estava no meio de uma arritmia cardíaca.
Meus olhos se voltaram mais uma vez até o relógio digital, que estava sobre o meu pulso, e, desde o primeiro segundo que eu finquei meus pés naquele lugar, já havia se passado duas horas e vinte quatro minutos. Os segundos corriam contra o tempo, e eu, que geralmente me qualificaria como alguém que não conseguia esperar por nada, não havia sequer percebido todo o tempo em que tinha ficado ali.
Escutei um murmurinho ao redor do meu corpo e ergui meus olhos até a entrada da minha casa.
Ele caminhava retirando as luvas. Seus passos eram prepotentes e o seu corpo não demonstrava qualquer tipo de sentimento. Seus olhos estavam fixos aos meus, e eu tentei afastar a fita isolante do meu corpo, agachando para percorrer o caminho que nos separava, mas duas mãos apertaram os meus braços para que eu não me movimentasse. negou com a cabeça, e eu senti o coração disparar ainda mais. Tentei me debater, tendo a manta envolta do meu corpo sendo jogada ao chão numa tentativa inútil de me afastar do policial, que me segurava com um controle absoluto.
— Você me prometeu! — o meu grito foi alto o bastante para que as sete ou oito pessoas que estavam por trás da fita de isolamento escutassem e voltassem os olhos para mim. agachou para passar por baixo do isolamento e, puxando o meu corpo para si, me abraçou. Suas mãos apertaram os meus ombros, e eu não quis tê-lo por perto num primeiro momento. Tentei me desvencilhar dele. Afastei do seu corpo e agachei, em uma tentativa de passar pela barreira de policiais que estavam na minha casa.
Eu precisava procurar pelo meu filho.
Antes que eu pudesse adentrar aquele lugar tão conhecido por nós, novamente senti suas mãos, suas grossas, grandes e espetaculares mãos, sobre o meu corpo. Ele voltou a posicionar seu braço sobre o meu ombro, e eu não pretendia olhar para o seu rosto, não até que ele segurasse o meu queixo e direcionasse o meu olhar até o seu.
— Eu não pude fazer nada, você sabe disso.
puxou o meu corpo até o dele e começou a respirar próximo demais ao meu ouvido. Por leves segundos, me deixei embalar pela áurea sexy que ele emanava, até que, como num clique, me lembrei quais eram as minhas reais intenções naquele lugar.
— Sei? Eu quero saber onde está o meu filho — sussurrei com os olhos vermelhos. Ele puxou o meu corpo para o dele, e me deixei chorar baixinho — Eu quero saber do meu filho, Má... Eu preciso do meu filho com vida — Minhas palavras foram expressivas, diretas, e, ao perceber o que eu tinha dito, um torpor repleto por dor invadiu o meu corpo, deixando-me completamente destruída — Ele é tudo o que eu tenho, eu não posso perdê-lo.
— Você me tem, sabe disso — Sua voz, que tantas vezes tinha significado tanto para mim, naquele instante, não passava de meias verdades diante de um futuro completamente incerto.
Duas ambulâncias estavam paradas com as portas abertas. Meus olhos estavam completamente submersos no seu casaco, e eu os fechei, inalando o seu perfume. Ele apertou o meu corpo junto ao dele, puxando-me para um canto mais deserto daquela calçada, e me deixei levar por uns instantes. Sua mão, agora, por dentro do meu sobretudo, percorria por toda a extensão do meu corpo. Senti minha respiração intensificar na medida em que sua respiração se tornava mais pesada, intensa, e ele começava a descer suas mãos na altura das minhas nádegas, apertando sobre a saia de couro preta. Gemi baixinho antes de morder o seu peitoral sob a camisa. Escutei sua risada abafada e neguei com a cabeça quando ele nos aproximou ao mundo em que estávamos vivendo, somente nosso.
— Amor... — Meu tom de voz não passou de um breve sussurro quando eu me deixei embalar por ele. O vício me chamava por cada pequena reação que ele tinha junto a mim, seu poder penetrava por entre a minha pele, e eu me deixava levar, aquela sensação de torpor que ele conseguia deixar visível a cada mínimo segundo em que estivéssemos juntos.
O vício.
— Confia em mim, vai dar tudo certo — Ele afirmou antes de percorrer sua língua pelo meu pescoço, deixando-me quase que alheia ao que verdadeiramente acontecia à minha frente.
Antes que eu pudesse me deixar mergulhar ainda mais na imensidão dele, voltei meus olhos até a entrada daquela casa e observei algo que, por um instante, fraquejou as minhas pernas. Senti segurar-me com força e encarar meu rosto. Senti seus olhos sob os meus e me afastei um pouco, encarando a imagem que se desenhava à nossa frente.
O barulho de uma cama retrátil vinha sendo manipulada por dois bombeiros. Eles seguravam o aço da cama com precisão, e o semblante que externalizavam para mim e todos que estavam era de um completo terror. Soltei-me completamente do corpo do e caminhei até a lateral da ambulância, ao lado da porta, que estava escancarada.
As rodas pequenas e já gastas da maca giravam na medida em que eles se aproximavam do meu corpo, no lugar errado. Não me deixei abalar quando eles finalmente paralisaram-na ao meu lado para colocá-los junto à ambulância. A esperança de vida foi embora quando, ao analisar que o corpo em questão, percebi que estava com uma lona escura.
Tomei a liberdade de tocar a lona e retirá-la do corpo da pessoa que jazia ali, somente para transformar meus piores pesadelos em realidade. Meus dedos trêmulos foram até os meus lábios quando eu escutei, distante, os murmúrios de pessoas, que comentavam sobre o que estavam vendo. Alguns celulares pareciam terem sido acionados, mas eu não enxerguei.
Minha visão estava turva e completamente fixa no rosto daquele pequeno corpo pálido e com lábios roxos à minha frente.
Eu estava completamente exasperada.
O corpo de uma criança estava ocupando metade do espaço da maca, e seus pequenos dedos estavam sobre o tórax. O garoto estava completamente sem roupa, e seus cabelos, completamente picotados. Seus cabelos eram castanhos. No rosto, ele tinha um sorriso um pouco largo demais, mas isso se dava pelos cortes que haviam sido feitos para que o seu sorriso se tornasse extenso. Pontos cirúrgicos haviam sido feitos, e eu tentei levar a mão até os lábios dele, parando no meio do caminho. Ergui meu olhar até seus olhos e não os encontrei. Uma linha fina estava nos olhos dele, e, junto a isso, um buraco. Não existia nenhum tipo de globo ocular. O garoto tinha os olhos arrancados, e eu senti o meu corpo tremular quando comecei a procurar, com o olhar, o meu filho. observou a cena e, quando eu cambaleei para trás e tive o meu corpo derrubado por um tropeço ao chão, vi-o estender a mão para mim. Eu tinha ainda os olhos presos no corpo daquela criança.
O garoto que costumava dormir na minha casa aos sábados junto às outras nove crianças que estudavam com numa escola pacata, de uma cidade tranquila.
Brian era o seu nome.
Minhas mãos tremiam ao pensar no sorriso que eu sempre havia visto daquela criança. Brian não costumava sorrir tão deliberadamente, mas, em todas as vezes em que ele fora na minha casa, se deixou sorrir para os bolos de confeitaria que eu me prestava a fazer.
— Ei — começou a falar próximo ao meu corpo, e eu não conseguir enxergar nada. Enterrei meu rosto em minhas mãos e me deixei chorar baixinho por aquela cena completamente distorcida. A ânsia de vômito se fez presente, e eu inclinei o corpo para o lado a fim de vomitar, algo que não aconteceu. Abri os lábios e senti a sensação ruim vir, e nada de vômito.
Olhei ao redor e tentei colocar meu dedo indicador na garganta. me encarava, e eu não me importava com o que ele poderia ver, tanto fazia. Senti o mal-estar aumentar e abri meus lábios, sentindo o arrepio na espinha ao me forçar a vomitar. Tentei mais uma vez e nenhum bom resultado, algo que me deixou ainda mais frustrada. A sensação ruim no estômago me acompanhou, traduzindo num péssimo incómodo junto à realidade em que eu estava vivendo naquele instante.
— Achamos outro corpo! — um homem gritou ao meu lado, e eu virei o corpo para trás, esquecendo completamente meus pensamentos anteriores. Ergui meu corpo e percebi que o corpo do Brian não estava mais ao meu lado. Me posicionei, segurando a fita de isolamento, enquanto meus olhos ansiosos se fixavam em mais um número de pessoas que caminhavam junto à outra maca.
, sem cerimônia alguma, adentrou o lugar restrito somente para funcionários da polícia e caminhou até a maca, que estava ainda parada. De longe, mordi o lábio com força ao sentir o coração voar pela boca. Ele tinha ido procurar pelo corpo do meu filho, eu poderia ter certeza disso.
Esperei pela sua reação, e quando ele, que ainda observava o corpo que estava sob a maca, ergueu o olhar e os fixou em mim, negando com a cabeça, novamente perdi completamente o controle do meu corpo e me encostei na ambulância. A sensação de alívio por não ter o corpo do meu filho sem vida dava lugar ao desespero da dúvida de onde ele poderia estar.
Meus olhos voltaram até , e ele caminhava, agora, segurando a maca junto aos outros peritos.
Ele conversava com as outras pessoas. Seus olhos não desviavam dos meus, e ali, com uma plateia ao lado da minha casa, eu pensei que, por algum momento, seria muito difícil continuar.
A maca foi paralisada ao meu lado, e o segurou a fita para agachar e passar por baixo dela. Caminhou até o meu corpo e novamente retirou as luvas que havia colocado e eu não tinha percebido.
— Você está bem?
— Quem é?
... Meu amor, fica calma. Eu não acho melhor você... — Sua voz foi se tornando mais distante a cada segundo, e eu quase que corri até a maca, mesmo que ela estivesse ao nosso lado. Num ímpeto de nervosismo, abri o lugar, a fim de ver de quem se tratava, diante a reação dele, e, pela primeira vez ali, o vômito chegaria ao meu corpo sem nenhum resquício de limite.
Inclinei o corpo para o lado e vomitei todo o pouco de comida que eu havia ingerido até aquele momento. Ao meu lado, senti segurar os meus cabelos para que eu vomitasse, e as lágrimas rolavam pelo meu rosto.
Antes que eu voltasse a me deixar vomitar, ergui o corpo, me afastando de , e abri mais um pouco o saco para observar o que eu via perante os meus olhos.
Ao lado da cabeça, duas pernas estavam devidamente bem colocadas, os braços possuíam cortes pequenos, que, numa análise mais precisa, formavam pequenos sorrisos. O corpo do garoto, loiro e de olhos verdes esbugalhados, estava completamente desmembrado, e eu não consegui enxergar muita coisa.
Senti meu corpo cambalear para trás, sentindo a minha visão completamente turva. As imagens começaram a perder o sentido, e os sons começaram a cessar. Ao longe, escutei a voz de , mas não consegui respondê-lo.
Eu tinha o sorriso de perante os meus olhos. Ele corria para o meu corpo ali mesmo, naquela casa. Suas mãozinhas batiam palmas enquanto eu cantarolava uma música nossa.
Numa realidade distante, em frente a uma casa na qual nós, algum dia, fomos felizes.
Por um breve momento, eu observei os olhos de próximos demais ao meu corpo, mas não fazia sentido nada daquilo. Seu rosto estava banhado em sangue, e, sem nenhuma interrupção, eu observei o rosto do meu falecido marido sorrir para mim. O sorriso dele se misturou com o de , e eu somente fechei os olhos.
Eu queria que aquilo parasse.
Eu queria que as mortes cessassem.


Capítulo 1

Duzentos e setenta e nove passos repetidos por quatro dias. Casas brancas com esplêndidos jardins a muro baixo. Acenos com a mão aberta, na altura da cabeça, acompanhados por falsos sorrisos simpáticos e curiosos. Mulheres depositando beijos rápidos e sem emoção nos seus maridos em uma despedida rotineira e obrigatória. Faxineiras entrando em residências por portas traseiras. Pessoas correndo com objetos tecnológicos que mediam batimentos cardíacos rapidamente, expondo corpos perfeitos, numa vida tão mais impecável ainda.
Trocar aquelas pessoas por robôs não determinaria uma diferença gritante na repetição das atitudes, tampouco seria percebido por algum terceiro. A falta de aproximação cultivada por aqueles moradores refletia nos pequenos gestos e se misturava ao céu cinzento e uma rua arborizada, que costumava perder-se na falta de vida.
Os olhos se acostumaram a se perder diante das perspectivas abrangentes. As repetições perante aos mil cento e dezesseis passos dados desde o término do portão da minha residência espaçosa e tão grande quanto as outras geravam aquele cotidiano que conjeturava na reprodução do comodismo. Cada morador repetia, diante da perspectiva de segurança, os mesmos afazeres.
O desejo de muitos e a vida de poucos.
Os gritos do silêncio costumam assustar mentes que projetam, na realidade, a ilusão. Construções silenciosas se fazem repletas por sussurros inaudíveis e, independentemente do local, os barulhos não cessam, assustando até mesmo robôs, que se mantêm num looping eterno de cotidiano que costuma trazer infelicidade.
A estabilidade emocional consiste no comodismo e na falta em arriscar-se diante das novas oportunidades, e eu poderia gritar num raio de quilômetros devido às dores que aquela busca por uma vida perfeita havia me trazido que ninguém, absolutamente ninguém, iria se importar com os meus verdadeiros problemas.
Pequenos vestígios de vida trazem de volta a realidade, corpos que costumam se manter submersos no limbo da penumbra. Eu buscava me afastar de todo aquele blecaute que me envolvia e me apegando a reinícios, a tentativa de felicidade não poderia falhar.
Meus passos lentos me limitavam. Eu corria tão mais rápido do que conseguia visualizar e, indo e vindo o dobro de vezes através dos meus olhos, podia perceber que o tédio era um aconchegante denominador comum.
Aquilo que me igualava a todos aqueles robôs que faziam os mesmos percursos e ações dia após dia, deixando o desejo por mais de lado, contentando-se com aquilo que se tinha.
Novamente, me vi presa ao desejar aquela vida para mim, algo que eu tive num passado não muito distante, noites de sono sem preocupações, dias felizes com bens materiais que nunca almejariam faltar.
E eu aprendi que nunca deveríamos gritar em voz alta a nossa felicidade, por menor que ela fosse.
A pequena mão que se encontrava entrelaçada à minha indicava o motivo das noites repletas por insônia. Os olhos ansiosos, que procuravam os meus a cada novo segundo com um sorriso, eram o verdadeiro porquê de toda a inveja que eu verdadeiramente sentia pelos robôs.
Ou pessoas de vida tranquila e acomodada, sem possíveis mudanças, cultivando uma mesmice chata que me levavam a sentir os olhos repletos por lágrimas ao pensar que a incerteza de futuro me assombrava.
Duas vidas se tornam uma só quando você possui um serzinho que depende de você a cada segundo. Era incrível cogitar a possibilidade ao me ver completamente entregue a um sorriso tímido e amedrontado diante de uma nova rotina que ia contra a tudo o que ele havia vivido até ali, mas eis que a vida prega peças até mesmo àqueles que não aguardavam nenhum acontecimento fora do comum.
— Ansioso para o início das aulas? — Forcei um sorriso feliz no rosto para assistir, pela milésima vez durante os dias que repetimos aquele caminho, um negar com a cabeça, sendo seguido por uma careta. — Vai ser maravilhoso, você vai ver. — Pausei por alguns segundos, buscando pontos interessantes para ele. — Você sabia que na escolinha existe um monte de plantinhas que você pode fazer crescer? — Sorri, movimentando nossos braços, como uma dança na qual nós dois nos familiarizávamos. — Você vai adorar.
Reunindo forças de lugares os quais eu sequer cogitava existir, antes dele, claro, me vi diante de uma felicidade repentina e falsa. Os resquícios de recomeço que pairavam pela minha mente eram tão menores quanto os desejos de em iniciar as aulas naquele lugar completamente diferente e novo para ele.
Crianças não costumavam lidar bem com mudanças, e tal feitio acarretava inúmeros traumas. Eu conseguia entender o quanto era destrutivo a nossa nova realidade, mas, infelizmente, não havia outras opções e, com o telefone de uma psicóloga pregado na porta da geladeira, eu sabia que tanto ele, quanto eu, precisávamos de muito mais do que apenas uma mudança de ares numa cidade pequena e repleta por estranhos.
— Não gosto, mamãe. — negou com a cabeça, apertando nossos dedos entrelaçados, e eu suspirei enquanto andávamos, nos aproximando da escola. — Eu não quero.
— Filho. — Suspirei, fechando os olhos por um instante. — Você precisa ir para escolinha, estudar, aprender a ler e escrever.
— Eu já sei.
— Não estou dizendo que você não sabe, , só comentei que você pode aprender de uma maneira diferente e vão ter amiguinhos para você ajudar.
— Não quero. Eles são maus. — Ele comentou com a voz baixa, e eu parei de andar. Fixei meus olhos no rosto angelical do meu filho e comecei a cogitar a possibilidade de não o levar naquele dia também. Uma repetição que já se desenhava ao longo daquela semana angustiante para ele. Nos encontrávamos entre o portão principal e uma série de passos até a nossa residência. encarava meus olhos, assustado, e eu tentei sorrir. — Não quero, mamãe.
Crianças amedrontadas destroem o coração de qualquer mãe. Eu conseguia entender como aquilo funcionaria pelo resto da minha vida. Meu filho não gostaria de iniciar um novo ciclo em sua vida e o que eu deveria fazer? Além de colocá-lo embaixo dos meus braços e voltar para casa? Lá poderíamos brincar, pintar e cantarolar músicas televisivas sem cessar.
Lá, nós estaríamos distantes de todo o mundo que nos cercava, e aquele lugar não poderia nos fazer nenhum mal, como eu cogitava em noites e mais noites em claro.
Agachei à sua frente e toquei a pele extremamente macia da sua bochecha. fechou seus olhos e movimentou o rosto como uma resposta ao meu toque. Novamente, me vi presa diante ao aperto que foi aumentado dentro do peito, levando-me a puxar seu pequeno corpo para o meu, sentindo-o abraçar-me apertado.
— Mamãe promete, filho. Mamãe promete que ninguém vai machucar você.
Fechei meus olhos. Eu não possuía nenhum controle referente àquela perspectiva, tampouco conseguiria proteger meu filho de tudo o que não se encontrasse ao meu alcance. Naquele instante, eu deveria me apegar a credos, talvez uma religião, e confiar no universo para que os espíritos, ou até mesmo Deus, prezassem pela felicidade do meu filho.
não gosta deles, mamãe. não gosta.
O tom manhoso com o qual ele concluía suas frases foi o motivo de não ter deixado que ele desse um passo adiante no nosso novo cotidiano. O coração derretia, e eu não poderia viver para sempre escondendo sob os meus cuidados o meu filho. Com o coração acelerado, ergui o corpo, vendo seus bracinhos se afastarem de mim lentamente. arregalou os olhos e seus lábios tremeram. Eu vi quando ele fechou a mão fortemente, suprindo a necessidade de uma reação exagerada, e eu busquei alguma frase para consolá-lo do que não existiria para nós dois naquele instante.
— Eu não quero que você fique bravo, filho. — Tentei tocar seu rosto, vendo-o se afastar de mim o máximo que ele pôde, recuando seus passos, avançando cambaleante até que o seu corpo encostasse no muro engradado da escola. Numa reação assustada, eu vi quando ele arregalou os olhos e girou o calcanhar. Meus olhos foram na mesma direção que os seus, e tudo o que nós pudemos perceber, além da grande construção de três extensos andares, foi a falta de cor dentre as acomodações do lugar.
As cores tranquilizam as crianças. O colorido os remete a fantasias nas quais eles podem imaginar e cogitar diante dos seus olhos. As escolas que havíamos analisado anteriormente, em outro lugar, possuíam uma modernidade que muito havia me interessado, as cores claras me cativaram e tranquilizavam e, por se tratar de lugares sofisticados, a mistura de cores retratada ressignificava algo que eu julguei correto, mas, ainda assim, existia.
Algo que não se desenhava à minha frente.
segurou-se na grade de ferro, e eu preferi não imaginar os caminhos os quais sua mente havia percorrido. Não havia crianças correndo pelos arredores do prédio, a ventania se mantinha ainda mais forte, movimentando os galhos das árvores e voltando a minha atenção, e talvez a dele, para aquela dança.
Não havia vestígio de acolhimento. Alguns carros se encontravam estacionados, e eu contei nos dedos aqueles que me remetiam a uma escola infantil. Os carros esportes, para dois passageiros, se mantinham como unanimidade entre os presentes e, não satisfeitos, seus donos percorriam pela extensão da escola como se estivessem em desfiles de moda.
Aquilo não ressoava normal para mim. Tampouco racional. Direcionei meus olhos para a porta principal e foi naquele instante em que vi algumas crianças caminharem com seus pais, babás e qualquer outra pessoa que pudesse deixá-los na escola. Não havia beijos na testa, muito menos despedidas calorosas. Um arrepio percorreu minha nuca, e eu voltei a visão para o meu filho, que havia virado o corpo de frente para o meu e encarava-me como ele tantas vezes fazia.
Deixando-me com a sensação de que não existia nada além de mim ao nosso redor.
— Eu não vou entrar aí. — ordenou. A voz infantil voltou àquela conotação autoritária que não surtia efeito comigo. Dei de ombros, puxando-o pela mão. Senti o corpo do meu filho forçar-se para trás, a fim de que eu recuasse, e, com o rosto um pouco corado diante do escândalo que eu julgava iniciar, neguei com a cabeça. — Mamãe, por favor. Eu não quero. Mamãe, por favor. Eu tenho medo.
— De quê? Não tem nada aí que vá te prejudicar, filho. É uma escola centenária, seu pai...
— Não fala dele! — Sua voz atingiu em cheio o meu corpo, e eu o soltei. Minhas mãos trêmulas foram aos lábios e eu o encarei com os olhos repletos por lágrimas. Meu filho havia cambaleado para trás e caído sentado ao chão. Ele se mantinha com os olhos fixos aos meus e as lágrimas ousavam em cair dos nossos olhos. Nós dois. Presos numa angústia na qual não cogitamos viver tão cedo. Talvez nunca.
Puxei-o para o meu corpo e o abracei. iniciou um choro baixinho, contido, assustado. O portão principal da escola encontrava-se à minha frente, e eu, mais uma vez, diante da covardia que me carregara até ali, cogitei voltar para nossa casa e lá mesmo ficar. Escondidos sob as cobertas, assistindo desenho, tentando esquecer tudo o que nos levou até ali. — Des... Desculpa, meu filho. Des... Desculpa. — Minha voz embargada refletia o meu estado de espírito. O meu corpo e o que havia restado de mim.
Encontrar-me em luto por alguém não era o meu forte, mas dizem por aí que para tudo existe a primeira vez, e eu estava presa entre caixinhas sombrias, que não possuíam chave para serem trancadas.
Não sei por quanto tempo ficamos daquela maneira, presos no nosso mundo, esquecidos de tudo o que acontecia ao nosso redor. O que me recordava foi do instante em que se afastou do meu corpo e tocou meu rosto, beijando-me a ponta do nariz, levando-me a sorrir deliberadamente. Neguei com a cabeça e ergui o corpo, voltando a entrelaçar minha mão à sua, num lapso de calmaria que nos assolou. Percorri a manga do moletom pelo meu rosto, afastando os resquícios de lágrimas ainda existentes, e encarei o que acontecia no presente, deixando o nosso passado para trás.
Suspirei pesadamente quando apertei um pouco a sua mão. me encarou com uma sobrancelha erguida, e eu tentei sorrir.
— Preciso proteger você, mamãe.
— Claro que precisa, você é o homem da casa, esqueceu? — Tentei brincar, levando minha outra mão até seus cabelos, bagunçando-os com naturalidade. — Eu prometo que nada vai dar errado, filho.
— Você é a esposa do falecido ? — Escutei uma voz aveludada por trás da minha nuca e, num sobressalto, puxei meu filho pela gola da camisa em prol da nossa segurança. Meus olhos arregalaram quando eu me deparei com a imagem de uma mulher extremamente bem-vestida à minha frente.
Numa reação automática, percorri os dedos pelas mechas do cabelo, buscando algum tipo de conforto diante daquilo que eu enxergava. O moletom que eu vestia me diminuía ainda mais, caso aquilo fosse possível. Meus grandes olhos se mantinham cabisbaixos, e eu escondia meus cílios compridos por trás da armação grosseira dos óculos que usava naquele instante. Esconder-me seria a caracterização perfeita, a qual eu buscava com bastante afinco por ali. A desenfreada necessidade por ainda desejar manter-me entre as vestes negras da dor por perder alguém pairava pelo ar e, tal qual o ar poluído e extremamente cinzento do lugar, encontrava-se na minha mente e possivelmente na minha alma.
As unhas por fazer e quebradiças refletiam o resquício de uma mulher que havia se perdido pelo caminho. As ruas daquela cidade infernal conseguiam mesmo deixar-me completamente confusa e detestável na maior parte do tempo. Até mesmo quando eu me encontrava. Neguei com a cabeça e parei com todas as indagações, que me levariam novamente para o buraco, e me fixei na mulher à minha frente.
Seus possíveis vinte e poucos anos refletiam nos olhos expressivos e nos lábios repletos por botox. Ela se encontrava com uma legging preta e um salto alto, que me levaram a movimentar a cabeça de um lado ao outro, buscando por um entendimento daquele look pré-moldado que ela teimava em forçar uma casualidade inexistente. As madeixas loiras e onduladas se movimentavam de um lado ao outro diante do vento, e ela acenava positivamente para cada pessoa que trazia o filho com um certo entusiasmo no caminhar. Ergui uma sobrancelha, prestes a contrapor algum questionamento referente a tudo o que se movimentava ao meu redor, em frente à escola do meu filho, voltando atrás.
— Oi. Meu nome é , qual é o seu? — Afastei os pensamentos da mente quando percebi um garotinho com a mão estendida em frente ao meu . Seus cabelos castanhos, os olhos expressivos e as pequenas barrocas que ele carregava ao sorrir determinavam a ansiedade com a qual ele se encontrava em reconhecer, na sua frente, um novo amigo. Alguém que ele pudesse talvez brincar.
Num primeiro momento, ensaiei rapidamente, na mente, palavras de encorajamento para que o cumprimentasse, mas, no segundo em que meu filho apertou minha mão com uma intensidade diferente e extremamente estranha, dei um passo para trás, buscando na memória algum vestígio de sorriso forçado que talvez eu ainda mantivesse preso diante da nova realidade que eu me colocava naquele instante. Algo que não ocorreu.
apertou ainda mais forte o meu pulso. Senti as unhas curtas dele adentrarem a minha pele e, diante do desconforto que senti, forcei-me a sorrir deliberadamente para a mulher que havia saído de uma revista de moda estranha e o seu filho simpático e extremamente agradável à nossa frente.
— O nome dele é . — Comentei, buscando algum suporte no menino à minha frente, que, ainda emburrado, tentava afastar-se ainda mais do outro garotinho. — , fala com o amiguinho, por favor.
Empurrando-o para que ele se afastasse do meu corpo, vi quando o meu filho tropeçou nos próprios pés, indo ao chão. Arregalei os olhos e puxei-o antes que ele iniciasse um praguejo tão natural a ele naquela ocasião e o coloquei nos braços.
Ergui os olhos do que havia acontecido e logo me voltei para a mulher à frente. Ela me encarava séria, tal qual seu filho, que já não tinha a mão estendida. Numa observação mais intensa, pude analisar que ele se encontrava com um casaco de nylon com um cavalinho bordado. Me mantive encarando o cavalo, percebendo que ele começava a se movimentar diante dos meus olhos. Pisquei algumas vezes e neguei com a cabeça, afastando qualquer pensamento confuso que pairou dentro de mim. Quando se aconchegou por entre os meus braços, senti sua cabecinha esconder-se na linha da minha nuca e suspirei.
Havíamos tido um péssimo primeiro instante. Eu não poderia negar a mim mesma de que todas as ideias de vizinhança interessante foram por água abaixo e, ali, diante dos meus olhos, eu havia percebido que novamente passaríamos por uma avalanche de acontecimentos que nos levaria a um novo precipício, uma montanha na qual nós sequer havíamos saído. Algumas árvores se movimentavam com a ventania. Os tons das casas, até mesmo daquela escola, que inicialmente deveria ser colorida, ressoava como a imagem de uma pintura a óleo com cores frias.
Meus olhos já haviam me pregado peças anteriormente, eu poderia admitir para mim mesma, mesmo num sussurro imaginário. Eu já havia projetado imagens que não eram reais e isso não me qualificava como uma mulher desequilibrada. Somente ainda não havia fechado as caixas que possuíam todo e total controle dos meus passos futuros, trazendo-me o tempo todo para aquela espécie de calabouço, onde eu não enxergava cor em absolutamente nada.
— Vamos, crianças?! — Uma mulher se aproximou do meu filho, que ainda escondia o rosto próximo à minha nuca. Desviei meus olhos do que acontecia ao meu redor e me fixei encarando os olhos castanhos e expressivos, que, certamente, referenciava como um ponto de confiança para as crianças. Ela vestia um suéter bonito e extremamente colorido. Corações intercalavam as cores, e a saia midi plissada preta finalizava um look de professora de colegial. Nos pés, ela usava uma sapatilha preta e sem muito alarde. Eu vi quando a saia se movimentou de um lado ao outro, numa dança silenciosa com gestos carinhos para que as crianças entrassem.
correu até a mulher, entrelaçando a mão à dela. Eu sorri, talvez pela primeira vez naquele dia. A criancinha esquecera completamente a amizade a qual ela adoraria ter e se colocou ansiosamente pronto para um novo ano letivo.
Sua mãe fungou ao meu lado, e eu pude notar os cílios postiços piscarem algumas vezes, anunciando um choro teatral. Eu não conseguia adentrar a sua mente para saber o que ela pensava, mas não existia nenhum indício de que ela se sentisse verdadeiramente mal por não ter mais o filho por todas as manhãs e, talvez, metade das tardes. Ela se aproximou do meu corpo e eu a observei sorrir. Diferentemente do que havia ocorrido com a professora, não tive necessidade por manter aceso ante os meus lábios um interesse em sua companhia e, ninando , fechei os olhos, me atendo unicamente a ele.
— Filho, as crianças vão entrar para a aula, por favor. Solta a mamãe. — Funguei antes de iniciar meu discurso extremamente apegado e nem um pouco adepto à modernidade das mães ao meu redor. negou com a cabeça, e eu mais uma vez suspirei. — Mamãe falou que se você entrar, hoje vai ter um jantar que você escolhe. — Sussurrei, apelando para construções mais difíceis, e ele voltou a negar com a cabeça, apertando-me ainda mais forte.
A professora já não se encontrava com ao seu lado, que agora corria pelo grande e verde pátio da escola. Ela caminhava quase que saltitante até o meu corpo, e eu voltei a sorrir. Sentindo o coração bater um pouco rápido pela aproximação com pessoas estranhas que eu nunca tinha visto na minha vida, eu, estranhamente, gostei daquela mulher desde o primeiro instante em que a vi.
Minhas lembranças voltariam até o instante no qual eu, em meio a sapatos engraxados e vestidos rodados, me vi presa junto a uma lancheira com sanduíche natural e uma bolsa na mesma tonalidade da caixinha que se encontrava em minhas mãos. Naquela ocasião, com um sorriso faltando três dentes, eu desejei que dias como aqueles não acabassem. As férias de verão sempre me mantinham adoentada, a saudade dos amiguinhos e da escola sempre se mantinham presentes e eu, tão diferente da criança que se mantinha absorta numa concha impenetrável, encontrava confiança em mulheres como aquela, que, agora, tocava a pequena mão de , que buscava se esquivar.
— Primeiro dia, certo? — Ela questionou, desviando os olhos do seu corpo e encarando meus olhos. Não tive tempo para assentir ou negar, ela sorriu confidente e aproximou seus lábios do ouvido do meu filho. — Sabe, aqui nós temos uma escola de magia, e essa escola te dá o poder de fazer o que quiser.
A proximidade dos nossos corpos me levou a escutar muito mais do que eu gostaria, e uma risada foi quase escancarada ao recordar as histórias mágicas nas quais mergulhei quando criança. No instante em que ela se afastou, aguardando a reação de , eu tive certeza de que seus olhos, que certamente se encontravam fechados, foram abertos quase que automaticamente.
— Vocês têm magia? — Perguntei à professora, sorrindo, e ela trocou um olhar rápido comigo, antes de assentir freneticamente, observando , aos poucos, baixar a guarda.
Crianças são seres mágicos, eu não conseguiria mudar tal opinião por nenhuma outra coisa. Um clique e toda a magia presente é construída. O mundo, que, por muitas vezes, é escondido pelo medo, e até mesmo timidez, evapora e, diante de olhos assustados, um brilho no olhar é observado. Eu senti o coração aquecer. As mãos gordinhas e pequenas do meu filho foram soltando o meu pescoço, voltando a deixar-me respirar com facilidade, uma sensação de alívio que facilmente me levaria às lágrimas.
O receio de deixá-lo com uma completa estranha ainda atormentava o meu corpo, mas eu conseguia lidar com tal ação ou, ao menos, tentaria. não conseguia ficar com ninguém, tampouco se deixava socializar. Uma criança com um sorriso doce, que só enxergava uma pessoa à sua frente.
Eu.
— Eu posso fazer tudo? — sussurrou com uma voz baixa e contida. Deixei que meus devaneios maternos fossem jogados para o lado e me contagiei com o som fascinante da voz daquele pequeno garoto, que se encontrava movimentando o corpo para, enfim, encarar os olhos da senhora à sua frente.
Com a emoção transbordando meus olhos, deixei-me encarar a cena que, aos poucos, foi se desenhando. esticou as pequenas mãos para frente para que a mulher, que ainda não havia se apresentado, segurasse. Meu coração palpitava tão forte que, por um instante, cogitei a possibilidade de ele escutar, devido à nossa aproximação, mas não houve tempo para isso. A criança, que nunca partira dos meus braços, soltou-me, e eu logo senti um vazio avassalador se apossar do meu corpo. O ventre materno, o qual eu mantinha aquecido pelo seu olhar, se desfez, e eu fixei meus olhos no suéter da professora, que iniciara uma dança lenta e psicodélica de corações. Ela balbuciava palavras no ouvido de , que sorria tímido, iniciando um elo de confiança que eu não havia me acostumado em presenciar.
As caixas encontravam-se abertas, eu percebi no instante em que fui um pouco empurrada para o lado, tropeçando nos meus pés e desviando meus olhos do casaco de tricô que ela usava. Cambaleante, senti duas mãos fortes ampararem-me e logo voltei-me para a pessoa que segurava meus braços.
A aliança dourada refletia majestosamente. Grossa e bem trabalhada. Os dedos grandes e largos pressionavam-se sobre o tecido do meu moletom, e foi quando eu iniciei um caminho com o olhar pelo casaco fofinho, igual ao do garoto que havia tentado aproximação com , que percebi que aqueles olhos eram idênticos aos do possivelmente pai.
— Cuidado. Na próxima, talvez não tenha ninguém para segurar você. — O homem bem vestido afirmou, e eu tentei sorrir, afastando-me e recobrando a compostura. Ao seu lado, a mãe do se apressou. Ela deslizou para o lado do homem, abraçando-o pelo pescoço ao sorrir para mim, e eu não tive uma reação apropriada.
Desviei a atenção deles sem afirmar nada, voltando o olhar para o meu filho, que já se encontrava fora do meu campo de visão. Uma angústia se fez presente, e eu levei a mão à nuca. Deixar o filho pela primeira vez no ambiente escolar poderia ser assustador, eu havia lido em alguns livros.
A convivência com outras crianças poderia acalentar os pequenos em busca de uma vida social e destruir a vida de mães, que não possuíam muita coisa além dos filhos para fazer.
Uma mãe como eu.
— É assustador ver os filhos crescendo, não é? — Comentei comigo mesma, sem perceber que o comentário havia sido proferido em voz alta. Um pouco receosa diante do que eu havia tido, busquei fixar o olhar nos meus pés para reformular a frase. — Às vezes, mantê-los embaixo de uma asa materna parece um bom caminho.
— Não quando as asas onde o filho costuma estar escondido não são as asas da mãe, o que é o nosso caso. — O possível pai do direcionou a mão à bunda da sua esposa, apertando-a sem pudor algum. Eu entreabri meus lábios, mas logo me calei quando ela deu uma risadinha sacana em resposta, definindo um costume em receber tal reação. — Não me apresentei a você. Sou o . Pai do garotinho que acabou de entrar e marido dessa mulher que acorda três horas antes do que eu para que eu não a veja sem maquiagem... — Ele ponderou suas palavras, movimentando a cabeça de um lado ao outro, espremendo os olhos ao me encarar com um certo interesse. — Moramos em frente à sua academia. Viúva do , certo? A moça da cidade que teve que mudar para cidade pequena porque...
— Eu não tive que mudar. — Respondi por entre os dentes. Ele ainda se encontrava com a mão na bunda da esposa, e ela analisava as unhas com um falso interesse, escutando com perfeição tudo o que conversávamos. — Acredito que aqui é melhor para criar uma criança.
Num certo momento, eu passei a repudiar gargalhadas escandalosas. Os homens costumavam possuir esse poder. Menosprezando uma mulher, eles debochavam das suas palavras apenas sorrindo, deixando-se demonstrar o ar de superioridade pelos seus poros ao manter uma risada alta, que se mostrava audível para cada pai atrasado que carregava uma criança à força até os portões antigos daquela grande e antiga propriedade.
E ele sorria com uma autoridade e superioridade que eu conhecia muito bem.
— Não incomode a mulher, amor. — A mulher comentou, sorridente, afastando o corpo das suas mãos ao inclinar-se para o lado. Por um instante, trocamos um olhar no qual eu consegui perceber um certo nojo em encontrar-se presente ao lado daquele homem repugnante, e eu não conseguiria recriminá-la por isso. — Talvez ela esteja à procura de um recomeço.
Pela primeira vez, percebi por trás de camadas de maquiagem falsas e um semblante que determinava a mulher com uma limitação intelectual um certo zelo. Um sentimento de irmandade para comigo, que eu não estive esperando, diante do homem idiota que estava ao seu lado. Com um meio sorriso, busquei cumprimentá-la sem que ele percebesse, mas o homem já havia perdido por completo o interesse em nós duas.
Ele avistou um homem alto, que sorria ao caminhar, com uma criança por sobre os seus ombros. O sorriso estampado me fez corar instantaneamente. A jaqueta de couro, a calça jeans e a camisa de algodão, que não ornava com o frio implantado naquela manhã, contrastava completamente com a imagem das pessoas que ainda se mantinham ao redor. Tal qual a minha reação ouriçada devido à aparição, percebi que não foi somente eu que havia percebido sua presença.
— O delegado. — A boa esposa sussurrou ao meu lado e, desviando os olhos dele, que se mantinha extremamente imerso no mundo que construía ao lado da criança sobre os seus ombros, voltei-me para ela, buscando incentivá-la a continuar a fofoca. — O ódio dos homens locais e o desejo das suas esposas. — Ela sorriu sorrateiramente e eu entreabri os lábios, mas não disse nada de início, mordendo minha própria bochecha para que ela se sentisse mais à vontade para falar. — Não que ele se importe com alguma das mulheres daqui.
— Ele é gay? — Pigarreei, vendo-o limitar o sorriso quando seus olhos se fixaram nos meus. Um arrepio percorreu o meu corpo, e não foi em excitação. Os olhos brilhantes do homem construíram uma sistemática travada, deixando de lado a áurea leve que ele havia deixado à mostra para qualquer pessoa. Eu não escutei a resposta da mulher. O foco do meu sistema nervoso se mantinha preso ao homem que havia retirado a criança dos ombros, deixando-a ao chão. Não houve sorriso ao se despedir do garotinho, que correu deliberadamente para a entrada da escola, tampouco qualquer outra demonstração de afeto. Eu gostaria de não levar para o lado pessoal a reação dele ao se deparar com os meus olhos, mas não foi algo muito fácil.
Eu não conhecia ninguém daquele vilarejo ou cidadela, seja lá como as pessoas prefiram definir o lugar. Durante os quase oito anos de casamento, eu não havia me interessado por absolutamente nada que viesse daquele lugar. Não por algum ranço instalado, eu só me encontrava ocupada o bastante para me deixar à mercê de um ambiente tão insignificante, mas isso não se qualificava aos moradores dali.
Aparentemente, todos sabiam exatamente quem eu era.
— Como? — Senti uma mão tocar o meu ombro e me voltei para a realidade, observando os cílios mais uma vez se movimentarem. — Não, ele não é gay. Ele é bonzinho demais e bom... Dizem que ele... — Ela se aproximou do meu corpo, puxando-me para o lado que, trôpega, me deixei levar, mas, antes que sua conclusão fosse exposta, , seu marido, se aproximou de nós duas com o homem bonito e sério ao seu encalço.
, você pode soltar a estrela da nossa cidade, por gentileza? — questionou, e eu olhei ao redor, percebendo que estávamos ao lado das grades que rodeavam os arredores da escola. O pequeno muro de pedras antigas encontrava-se limpo e cinzento. As pedras me levavam para a ideia de paralelepípedos, tal qual o caminho principal rodeado por verde e grama, que se localizava dentro dos grandes portões. Os desenhos esculpidos nas grades de ferro me remetiam a histórias que se desenhavam de acordo com a aproximação do portão principal, que possuía a imagem de dois homens guerreando, envoltos por flores e espinhos, que surgiam dos corpos e se multiplicavam no seu entorno. Não foi com uma grande dificuldade que a imagem distorcida iniciou uma batalha à minha frente. Os homens ergueram suas espadas e movimentaram-se, levando-me a questionar a frequência daquelas ilusões.
A intuição sempre me afastara de lugares sombrios. Segredos não revelados e histórias reais de seres sobrenaturais que se envolviam numa trama repleta por realidade. Grandes cidades me mantinham absorta em movimentos rápidos e certeiros, pequenas cidades, distantes de tudo, sempre elevavam a minha mente, e eu me via com portas abertas e caixas escancaradas.
As caixas da imaginação que acredita em tudo o que se vê e eleva ao imaginário aquilo que não se move, dando vida a tudo, tornando infantil uma mulher de 32 anos.
Respirei fundo e percorri os dedos pelos olhos, habituada. Voltei a atenção para as pessoas à minha frente e logo percebi que eles aguardavam a minha resposta. já ao lado da sua esposa, segurando-a como um objeto, e o homem bonito, que não parecia ser muito favorável à minha presença no ambiente.
— Eu não... — Iniciei a frase, percorrendo as mãos pelos cabelos. — Eu não entendi muito bem.
— Eu perguntei quando você vai reabrir a academia. — Os ombros largos dele denunciaram braços fortes, e eu, por alguns segundos, cogitei como seria a sua performance num ringue de boxe. — Algumas pessoas contam com isso.
— Eu vou vender. — Comentei, vendo as pessoas me encararem abismadas. — Eu não tenho tino para os negócios e não...
— Senhora Sherman. — endireitou o corpo, erguendo uma sobrancelha antes de sorrir. — A senhora não pode vender a academia de boxe, nem qualquer outro bem do seu marido que exista nessa cidade. Não sei muito bem como as coisas aconteceram, mas...
— Mas o quê? — Minha voz ressoou baixa e assustada. A surpresa evidente calou a boca das pessoas ao meu redor e, por alguns instantes, percorri as mãos pelos meus cabelos, tentando entender os motivos daquela afirmação. — Eu tenho advogados, conversamos e eu expliquei exatamente o que estava acontecendo, ok... Eu... — Pigarreei, incerta, mas não me deixei assustar. — Eu sei que tudo o que ele tinha foi levado e usado para pagar suas dívidas, mas eu não acho que... O que ele possuía aqui foi tudo o que me restou.
— Bom. — O homem da jaqueta de couro deu um passo à frente, encarando meus olhos ao dar de ombros. — Existe um motivo das propriedades dele não irem a leilão para sanar suas dívidas, senhora. Coisas que só acontecem por aqui. — Antes de dar de ombros mais uma vez, ele sorriu de lado. Prendi a respiração num misto de inquietude e excitação, que não foi percebido pelos outros dois presentes. — Espero que a academia de boxe seja reaberta com rapidez. — Ele finalizou a frase girando o corpo, iniciando uma caminhada até o carro, que se encontrava estacionado próximo ao meio-fio.
O acompanhei com o olhar até que ele entrasse no carro esporte. Nossos olhos se cruzaram uma última vez antes dele acelerar e desaparecer pela rua de pouco movimento que nos envolvia. Mais uma vez, eu me senti nervosa e ansiosa. Não existiam motivos aparentes para que eles se mantivessem tão convictos de que eu não poderia fazer nada naquela cidade, e eu não conseguia entender muito bem como prosseguir. Deixei que todo o ar dos meus pulmões fosse embora com uma certa urgência e voltei-me para o casal, que me estudava com um pequeno interesse.
— Quanto tempo eu vou levar para entender como as coisas funcionam por aqui?
— Talvez, querida, você nunca entenda. — respondeu com uma tristeza aparente, e eu pensei em retrucar, mas as palavras não saíram. Tal qual o homem bonito que fora embora, o casal se afastou lentamente do meu corpo.
Como num transe, eu observei-os caminhar pela rua repleta por árvores. As mãos encontravam-se entrelaçadas e eles cumprimentavam algumas pessoas que apareciam atrasadas para deixar as crianças na escola. Eu tive um olhar fixo no meu rosto por muitas pessoas que percorreram aquele caminho. A cada nova investida, meu corpo dava um passo para trás, até que eu finalmente encostei-me na grade.
Segurei com uma certa força, sentindo meus dedos apertarem, emanando uma dor curta e agradável. Ao final daquela rua, uma casa antiga me aguardava.
Dentre móveis antigos e os novos que eu trouxera na nossa casa que fora leiloada, a sensação de recomeço não parecia estar presente. Tudo naquela construção me remetia aos dias nos quais eu estive ao lado do , tal qual aquelas pessoas, ou cada canto daquele lugar. Me vi sempre como uma pessoa emotiva a lembranças que se fizeram de um passado feliz e vangloriei-me ao me manter distante do luto que sempre presenciei quando perdi um ente querido. Minhas caixas sempre auxiliaram para que a imaginação me levasse a novas histórias, construindo narrativas divertidas e felizes, até que tudo desabou.
Eu fui uma mulher que tive, por entre os meus dedos, absolutamente tudo o que qualquer outra desejaria obter em vida. A família perfeita, o filho sorridente e carinhoso. Acreditei na história que construí dentro de mim e me mantive imersa naquilo que não me traria nenhum trauma.
Até que tudo desmoronou.
Uma avalanche de neve se fez presente, e eu não consegui emergir, tampouco salvar quem eu amava. Junto ao , que perdeu a vida, eu deixei-me ficar lá e, junto a mim, .
Olhando uma última vez para os arredores da escola, vi que as crianças já haviam entrado. As grandes janelas mostravam pouco e, pelo quase nada que eu conseguia enxergar, sorri ao imaginar que o meu filho poderia encontrar-se diante de uma diversão que eu julguei não mais existir, elevando, em mim, um vazio por talvez perdê-lo. Não que fosse uma ideia coerente.
A solidão por encontrar-se sozinha no mundo. Mães não costumam sentir-se dessa forma, ao menos eu sempre lidei com construções assim. Desde o momento em que se tornou meu filho, eu soube que sempre existiria, ao meu lado, aquele garoto. Um pedaço de mim correndo pelos corredores de uma casa, diante uma risada infantil e talvez, futuramente, netos para chamar de meu. Relutar em tornar-me mãe teria me feito um bem maior. Talvez, caso eu não tivesse engravidado, não existiria a necessidade de encontrar-me naquele lugar em prol de uma estabilidade que uma criança merecia, um adulto não.
A linha que nos segurava lado a lado era a mesma que, por questão de segundos, não me levou a tomar outras diretrizes quando tudo ruiu. Havia sido por ele, seria por ele.
Para o resto da minha vida, por todos os dias em que eu respirasse.
— Eu vou lutar pela sua felicidade, . Confia na mamãe. — Afirmei com um sorriso nos lábios, antes de virar as costas para a escola tradicional e exclusiva dos moradores que possuíam propriedades no local, assim como qualquer outro estabelecimento.
Adentrei as mãos dentro dos bolsos do moletom e comecei a caminhar em cima da calçada, a mente percorria por lugares sombrios e realidades distorcidas, o corpo percorria aquela passagem pela segunda vez naquela manhã e, diante dos detalhes, que mais uma vez passaram imperceptíveis para mim, pude chegar à conclusão de que eu só enxergava aquilo que verdadeiramente me interessava, e nada naquele lugar ressoava como acolhedor.
Absolutamente nada.


Continua...



Nota da autora: Sem nota.



Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.


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