Capítulo 01 – A herdeira da família Seo.
O carro reduziu a velocidade ao cruzar o portão automático, descendo suavemente rumo ao estacionamento subterrâneo. As luzes frias refletiam no para-brisa enquanto Seo Ji-Won deslizava o dedo pela tela do celular, lendo as manchetes que já começavam a persegui-la:
“Seo & Co. revoluciona o mercado de luxo com nova linha de joias”
“Han Soo-jin brilha em evento internacional de moda. ”
“Filha mais velha retorna à Coreia: Seo Ji-won foge da alta sociedade há anos.
Ela suspirou. Nem em uma hora de volta e já estava estampada por toda parte. Procurando algum ponto de ancoragem em meio ao incômodo que apertava seu peito, Ji-won levou a mão ao chaveiro pendurado na bolsa. O pequeno pingente de vidro descansava frio contra sua pele. Ela o virou entre os dedos, ouvindo o leve tilintar, quase um sussurro, enquanto observava os minúsculos grãos de areia presos ali dentro. A areia de Sussex. Era engraçado, pensou. Como algo tão simples podia carregar tanto. Quando fechava os olhos, ainda conseguia sentir o cheiro salgado do vento batendo no rosto, o barulho das ondas quebrando de forma irregular, o sol tímido de fim de tarde tingindo o mar de dourado. Aquele lugar tinha sido seu refúgio, sua pausa do mundo, o único canto onde ela não era a “filha mais velha da família Seo”, apenas Ji-won.
O celular vibrou.
Mamãe. Pela vigésima vez.
– Ji-won-ah, onde está? – a voz da mãe soou casual, mas Ji-won conhecia bem aquela camada de ensaio.
– Eomma… – murmurou, cansada. — Não finja que não avisou à mídia que eu voltei. Já está por toda a internet.
– Ora, todos estavam curiosos. — respondeu a mulher com leveza calculada. — Era melhor esclarecer.
Ji-won agradeceu ao motorista com um aceno discreto e caminhou até o hall de acesso privativo. O som dos saltos ecoava no piso de concreto, acompanhado pelo leve zumbido das câmeras rastreando cada movimento.
– Você adora isso, não é? – disse ela. – Agora que está de volta, vai começar a gostar também.
Ela revirou os olhos.
Era justamente por isso que tinha ido embora.
– E o appa? Min-ji? – perguntou tentando mudar o rumo da conversa.
O sensor detectou sua aproximação e a porta de vidro começou a deslizar. Ji-won deu um passo à frente, mas não chegou a cruzar a linha. Um braço surgiu de lado, firme como uma barreira a puxando para trás. O movimento foi rápido demais para que ela pudesse reagir. O impacto leve no antebraço a fez perder o equilíbrio por um instante. A bolsa escorregou, o celular caiu no chão, e a voz da mãe se transformou em estática distante.
Ji-won ergueu os olhos, o coração acelerado.
O homem à sua frente usava uma máscara preta e o boné baixo, mas os olhos tensos, afiados, exaustos. Bastavam para transmitir a mensagem: ele estava no limite.
– O que pensa que está fazendo? – perguntou ela, tentando manter a postura, mesmo com o susto.
– Pare aí. – a voz dele saiu baixa e áspera, cortando o ar entre os dois. Não era um pedido; era um aviso. – Esse acesso é exclusivo. Você não deveria estar aqui.
Ela piscou confusa.
– Na verdade... eu não... – ela tentou se explicar.
Ele soltou um suspiro curto e incrédulo, já sabia quais desculpas ela iria inventar.
– O que? Só está de passagem? Veio visitar um parente? É claro – O tom seco carregava desconfiança. – Igual as outras.
Ji-won franziu o cenho.
– Outras...? – estava completamente confusa. – Você pode me soltar? – tentou puxar o braço, mas a força dele era dominante a dela.
Antes que ela pudesse questionar o que estava acontecendo, dois seguranças do prédio apareceram do corredor, aproximando-se de forma cautelosa, claramente já orientados para lidar com intrusos.
– É ela? – perguntou um dele.
Ele hesitou apenas um segundo, mas o suficiente para denunciá-lo.
– Ela entrou ontem a noite também. – respondeu irritado. – Ficou rondando o estacionamento. Eu quase não consegui chegar em casa.
– Mwo? (O quê?) – Ji-won exclamou não acreditando no que estava sendo acusada.
– Não precisa fingir. – retrucou ele, afastando levemente a máscara. – A administração tem tudo registrado.
A luz branca do corredor bateu no rosto dele, o revelando por completo.
Jeon JungKook.
Os olhos que estampavam outdoors, capas de revista, transmissões ao vivo estava agora a poucos centímetros dela.
– Jeon... JungKook? – sussurrou, atônita.
Ele desviou o olhar, cerrando o maxilar, como alguém que já tivesse ultrapassado o limite do cansaço.
– O gerente está vindo. – murmurou para um dos seguranças. – Não quero repetir isso amanhã.
– Espera! – Ji-won ergueu a mão, tentando alcançar a bolsa para mostrar o cartão de acesso. – Isso é um mal-entendido, eu só…
Antes que pudesse tocar nas chaves, Jungkook agarrou seu pulso novamente, um gesto rápido, instintivo, nascido do esgotamento. Ele estava farto daquela situação, farto de ser encurralado, farto de ouvir que era “por serem fãs”. Naquele momento, decidiu que imporia um limite, nem que fosse da pior forma possível. Ji-won sentiu um risco cortar a sua pele e o pingente de vidro estalou entre eles. O som foi pequeno, quase delicado, mas o impacto foi cruel. Os grãos de areia se espalharam pelo chão, cintilando sob as luzes brancas. Uma gota de sangue surgiu na mão de Ji-won, deslizando lentamente entre os dedos.
Por um instante, Jungkook apenas a encarou e algo em seu olhar, culpa talvez, piscou antes de desaparecer sob a rigidez do seu rosto.
– Eu não... – balbuciou meio hesitante. – É por isso que não deveria ter vindo aqui.
O elevador privativo se abriu atrás dele o manager surgiu, cabelo bagunçado, óculos tortos, claramente tirado da cama ás pressas.
– Jungkook-ah, por favor... – resmungou. – Vamos tratar disso com calma.
Jungkook passou por Ji-won sem encará-la de novo, a máscara de volta ao lugar em seu rosto.
– Se a administração confirmar, tudo bem. – disse ele, a voz fria. – Mas chega de gente entrando aqui. Eu não aguento mais.
Dois carros pretos surgiram no estacionamento, JungKook entrou em um deles, fechando a porta com força contida.
O manager soltou um suspiro, virando-se para Ji-won com uma expressão de desconforto.
– Agassi, mil desculpas. – disse, inclinando-se levemente. – Houve incidentes recente. A segurança está no limite. Precisamos que venha conosco.
Ji-won ergueu o queixo, sentindo o seu orgulho ferido.
– Não precisa. – olhou para os seguranças que se acercaram. – Eu faço questão.
***
As luzes fluorescentes zumbiam e lançavam um brilho esverdeado sobre o balcão gasto. Uma policial digitava no computador com uma rapidez automática, mas os olhos dela, sem nenhuma vergonha, subiam de tempos em tempos, fascinados demais para fingir indiferença. Outro policial, no telefone de emergência, esforçava-se em manter a voz serena, mas o tremor nas mãos denunciava seu conflito interno: manter a postura profissional… ou pedir um autógrafo ao homem sentado a dois passos de distância.
Jeon Jungkook
O ídolo mundial. O homem que, algumas horas antes, acusara Ji-won de invadir seu prédio. Ele parecia deslocado, inquieto, o maxilar apertado numa linha rígida. Era óbvio que ele não estava acostumado a lidar com problemas pessoais em público. Muito menos em uma delegacia comum, iluminada por luzes baratas e cheio de olhares curiosos.
Ji-won cruzou os braços e recostou-se na cadeira dura, observando-o com calma estudada. Esperava com uma paciência que já estava no limite, alguma explicação minimamente lógica para aquela situação absurda.
– O senhor está me dizendo que essa pessoa é uma das suas sasaengs que têm tentado entrar na sua garagem? – perguntou o policial, a voz firme e baixa, já pronto para registrar o depoimento.
O manager de Jungkook foi rápido, quase ansioso, em dar um passo à frente.
– Oficial-nim, faz dois dias que ele voltou para casa e já tentaram invadir a garagem duas vezes – disse, a voz apressada.
Ji-won revirou os olhos, visível o bastante para provocar uma pequena tosse de alguém tentando esconder o riso no fundo da sala. O barulho atraiu o olhar de Jungkook, que virou o rosto em sua direção como se ela tivesse acabado de o insultar diretamente.
– Yah, você está levando isso a sério? – disparou com uma voz carregada de incredulidade.
– Senhor Jeon. – o policial o cortou com calma treinada. – Vamos manter a compostura. E a senhorita... preciso da sua identificação e de uma resposta objetiva: por que estava na área restrita do prédio?
Ji-won pousou sua identidade sobre o balcão com movimentos calmos, quase calculados.
– Porque eu moro naquele prédio, oficial-nim.
O silêncio que se seguiu foi quase cômico. Os policiais se entreolharam, surpresos. Jungkook soltou uma risada curta, claramente descrente.
– Essa foi boa. Melhor do que quando fingiu estar surpresa ao me ver, como se não soubesse quem eu era até eu me revelar.
– Seo Ji-won...? – o policial leu o nome devagar, franzindo o cenho.
– Aigo! Eu sabia! – exclamou a policial da mesa ao lado quase saltando da cadeira. – A herdeira mais velha da Seo & Co.! A senhorita voltou hoje, não foi? Saiu em todas as notícias.
Ela já segurava o celular, animada demais, quase tremendo. Os dois policiais no fundo começaram a sussurrar entre si, e um deles soltou um “jinjja? ” abafado.
– Está me dizendo que ela é… da família Seo? – Jungkook virou para seu manager, completamente descrente. – Hyung, isso faz sentido pra você? Você também viu ela tentando entrar no meu andar!
O manager ajeitou os óculos, o rosto se contorcendo num desconforto visível.
– Havia alguém, sim... mas... não vimos o rosto. – admitiu, quase engolindo as palavras.
Ji-won deslizou a chave de acesso do elevador até o centro do balcão, Jungkook não pode deixar de reparar no curativo improvisado em seu dedo que estava machado de vermelho fresco. Por um instante, a irritação dele vacilou.
– Esta é a minha chave de acesso. Eu teria mostrado antes de tivesse tido a oportunidade de me identificar. – disse, com a voz firme. – Como já devem saber, retornei à Coreia hoje e coincidentemente moro no mesmo prédio que o senhor Jeon. – O olhar dela finalmente encontrou os dele desde que pisara naquela delegacia, ele notou que havia uma certa raiva contida neles. – Como eu disse, tudo isso não passou de um mal entendido.
Um dos policiais riu baixo.
– Daebak... isso dá uma série melhor do que Reply 1988.
O oficial que conduziu o interrogatório suspirou fundo.
– Certo. Vamos registrar como um... “significativo mal-entendido”.
***
Lá fora, o vento da madrugada cortava a pele como lâminas finas. Ji-won já estava há mais de meia hora tentando chamar um táxi, o frio entrando pelos punhos da blusa, irritante, persistente. As ruas estavam vazias, silenciosas demais para uma cidade que raramente dormia. Nenhum farol ao longe. Nenhum motor. Nenhum indício de vida. Seul parecia observá-la de longe, indiferente, como se dissesse “você escolheu voltar, lide com isso. ” Foi então que o mesmo carro preto de antes surgiu, deslizando pela rua molhada até parar diante dela. O vidro escurecido impedia qualquer visão, mas o clique suave da porta do passageiro se abrindo foi suficiente para tencionar seus ombros.
– Entre.
Ela ergueu os olhos, exausta demais para esconder o sarcasmo.
– Você só pode estar brincando.
Jungkook se inclinou um pouco, o rosto iluminado pela luz do poste. Respirou fundo, pensando nas palavras duas vezes antes de falar.
– Senhorita Seo… Seo-ssi – corrigiu com a formalidade adequada, mesmo que soasse engolida. – Não há táxis circulando agora. Por favor, entre. – A impaciência ainda estava lá, vibrando sob a superfície.
Ji-won permaneceu imóvel, encarando-o. Havia tensão em seus olhos. Ela revirou os olhos antes de se virar e começar a caminhar, os saltos ecoando contra o asfalto molhado. O carro permaneceu parado até que a porta se abriu, passos rápidos atrás dela. Uma mão tocou seu pulso de forma impaciente, mas também hesitante. Ela se virou devagar. Jungkook estava perto demais. A luz fraca revelava a preocupação contida em seu olhar, fixo no machucado que ele causara em um momento irracional.
– Ainda está sangrando. – murmurou em um sussurro.
Era uma frase simples, mas o tom, não.
Sema arrogância, sem raiva, sem a defesa automática que ele exibiu mais cedo. Apenas o cansaço e algo que beirava a culpa. Ele abriu a boca para continuar, mas hesitou. As palavras não vieram. O silencio aproveitou a deixa. Dotou uma postura mais rígida, embora tudo aquilo tivesse sido espelho do seu comportamento.
– Permita-me leva-la para casa. – tornou a falar com o tom baixo, nada impositiva. – É o mínimo que eu posso fazer.
Ji-won inspirou devagar. Encarando os olhos dele que agora lhe pareciam pedir desculpas no lugar das palavras.
– O mínimo que pode fazer, Jeon Jungkook-ssi... é me deixar em paz. – sua voz soou cortante. – Acredite, não é somente o senhor que está tendo um dia péssimo.
Ela puxou sua mão de volta e deu um passo para trás, firme, definindo claramente a distância que queria manter. Quando a conversa morreu ali ou quando ela decidiu que morreria, Ji-won ergueu o celular, atendendo a ligação que surgia na tela. Sem olhar para ele nem uma única vez, seguiu pela calçada com passos longos, determinados. Seul a recebia de volta exatamente como ela lembrava: Fria. Barulhenta. E sem nenhum espaço para remorso.
“Han Soo-jin brilha em evento internacional de moda. ”
“Filha mais velha retorna à Coreia: Seo Ji-won foge da alta sociedade há anos.
Ela suspirou. Nem em uma hora de volta e já estava estampada por toda parte. Procurando algum ponto de ancoragem em meio ao incômodo que apertava seu peito, Ji-won levou a mão ao chaveiro pendurado na bolsa. O pequeno pingente de vidro descansava frio contra sua pele. Ela o virou entre os dedos, ouvindo o leve tilintar, quase um sussurro, enquanto observava os minúsculos grãos de areia presos ali dentro. A areia de Sussex. Era engraçado, pensou. Como algo tão simples podia carregar tanto. Quando fechava os olhos, ainda conseguia sentir o cheiro salgado do vento batendo no rosto, o barulho das ondas quebrando de forma irregular, o sol tímido de fim de tarde tingindo o mar de dourado. Aquele lugar tinha sido seu refúgio, sua pausa do mundo, o único canto onde ela não era a “filha mais velha da família Seo”, apenas Ji-won.
O celular vibrou.
Mamãe. Pela vigésima vez.
– Ji-won-ah, onde está? – a voz da mãe soou casual, mas Ji-won conhecia bem aquela camada de ensaio.
– Eomma… – murmurou, cansada. — Não finja que não avisou à mídia que eu voltei. Já está por toda a internet.
– Ora, todos estavam curiosos. — respondeu a mulher com leveza calculada. — Era melhor esclarecer.
Ji-won agradeceu ao motorista com um aceno discreto e caminhou até o hall de acesso privativo. O som dos saltos ecoava no piso de concreto, acompanhado pelo leve zumbido das câmeras rastreando cada movimento.
– Você adora isso, não é? – disse ela. – Agora que está de volta, vai começar a gostar também.
Ela revirou os olhos.
Era justamente por isso que tinha ido embora.
– E o appa? Min-ji? – perguntou tentando mudar o rumo da conversa.
O sensor detectou sua aproximação e a porta de vidro começou a deslizar. Ji-won deu um passo à frente, mas não chegou a cruzar a linha. Um braço surgiu de lado, firme como uma barreira a puxando para trás. O movimento foi rápido demais para que ela pudesse reagir. O impacto leve no antebraço a fez perder o equilíbrio por um instante. A bolsa escorregou, o celular caiu no chão, e a voz da mãe se transformou em estática distante.
Ji-won ergueu os olhos, o coração acelerado.
O homem à sua frente usava uma máscara preta e o boné baixo, mas os olhos tensos, afiados, exaustos. Bastavam para transmitir a mensagem: ele estava no limite.
– O que pensa que está fazendo? – perguntou ela, tentando manter a postura, mesmo com o susto.
– Pare aí. – a voz dele saiu baixa e áspera, cortando o ar entre os dois. Não era um pedido; era um aviso. – Esse acesso é exclusivo. Você não deveria estar aqui.
Ela piscou confusa.
– Na verdade... eu não... – ela tentou se explicar.
Ele soltou um suspiro curto e incrédulo, já sabia quais desculpas ela iria inventar.
– O que? Só está de passagem? Veio visitar um parente? É claro – O tom seco carregava desconfiança. – Igual as outras.
Ji-won franziu o cenho.
– Outras...? – estava completamente confusa. – Você pode me soltar? – tentou puxar o braço, mas a força dele era dominante a dela.
Antes que ela pudesse questionar o que estava acontecendo, dois seguranças do prédio apareceram do corredor, aproximando-se de forma cautelosa, claramente já orientados para lidar com intrusos.
– É ela? – perguntou um dele.
Ele hesitou apenas um segundo, mas o suficiente para denunciá-lo.
– Ela entrou ontem a noite também. – respondeu irritado. – Ficou rondando o estacionamento. Eu quase não consegui chegar em casa.
– Mwo? (O quê?) – Ji-won exclamou não acreditando no que estava sendo acusada.
– Não precisa fingir. – retrucou ele, afastando levemente a máscara. – A administração tem tudo registrado.
A luz branca do corredor bateu no rosto dele, o revelando por completo.
Jeon JungKook.
Os olhos que estampavam outdoors, capas de revista, transmissões ao vivo estava agora a poucos centímetros dela.
– Jeon... JungKook? – sussurrou, atônita.
Ele desviou o olhar, cerrando o maxilar, como alguém que já tivesse ultrapassado o limite do cansaço.
– O gerente está vindo. – murmurou para um dos seguranças. – Não quero repetir isso amanhã.
– Espera! – Ji-won ergueu a mão, tentando alcançar a bolsa para mostrar o cartão de acesso. – Isso é um mal-entendido, eu só…
Antes que pudesse tocar nas chaves, Jungkook agarrou seu pulso novamente, um gesto rápido, instintivo, nascido do esgotamento. Ele estava farto daquela situação, farto de ser encurralado, farto de ouvir que era “por serem fãs”. Naquele momento, decidiu que imporia um limite, nem que fosse da pior forma possível. Ji-won sentiu um risco cortar a sua pele e o pingente de vidro estalou entre eles. O som foi pequeno, quase delicado, mas o impacto foi cruel. Os grãos de areia se espalharam pelo chão, cintilando sob as luzes brancas. Uma gota de sangue surgiu na mão de Ji-won, deslizando lentamente entre os dedos.
Por um instante, Jungkook apenas a encarou e algo em seu olhar, culpa talvez, piscou antes de desaparecer sob a rigidez do seu rosto.
– Eu não... – balbuciou meio hesitante. – É por isso que não deveria ter vindo aqui.
O elevador privativo se abriu atrás dele o manager surgiu, cabelo bagunçado, óculos tortos, claramente tirado da cama ás pressas.
– Jungkook-ah, por favor... – resmungou. – Vamos tratar disso com calma.
Jungkook passou por Ji-won sem encará-la de novo, a máscara de volta ao lugar em seu rosto.
– Se a administração confirmar, tudo bem. – disse ele, a voz fria. – Mas chega de gente entrando aqui. Eu não aguento mais.
Dois carros pretos surgiram no estacionamento, JungKook entrou em um deles, fechando a porta com força contida.
O manager soltou um suspiro, virando-se para Ji-won com uma expressão de desconforto.
– Agassi, mil desculpas. – disse, inclinando-se levemente. – Houve incidentes recente. A segurança está no limite. Precisamos que venha conosco.
Ji-won ergueu o queixo, sentindo o seu orgulho ferido.
– Não precisa. – olhou para os seguranças que se acercaram. – Eu faço questão.
As luzes fluorescentes zumbiam e lançavam um brilho esverdeado sobre o balcão gasto. Uma policial digitava no computador com uma rapidez automática, mas os olhos dela, sem nenhuma vergonha, subiam de tempos em tempos, fascinados demais para fingir indiferença. Outro policial, no telefone de emergência, esforçava-se em manter a voz serena, mas o tremor nas mãos denunciava seu conflito interno: manter a postura profissional… ou pedir um autógrafo ao homem sentado a dois passos de distância.
Jeon Jungkook
O ídolo mundial. O homem que, algumas horas antes, acusara Ji-won de invadir seu prédio. Ele parecia deslocado, inquieto, o maxilar apertado numa linha rígida. Era óbvio que ele não estava acostumado a lidar com problemas pessoais em público. Muito menos em uma delegacia comum, iluminada por luzes baratas e cheio de olhares curiosos.
Ji-won cruzou os braços e recostou-se na cadeira dura, observando-o com calma estudada. Esperava com uma paciência que já estava no limite, alguma explicação minimamente lógica para aquela situação absurda.
– O senhor está me dizendo que essa pessoa é uma das suas sasaengs que têm tentado entrar na sua garagem? – perguntou o policial, a voz firme e baixa, já pronto para registrar o depoimento.
O manager de Jungkook foi rápido, quase ansioso, em dar um passo à frente.
– Oficial-nim, faz dois dias que ele voltou para casa e já tentaram invadir a garagem duas vezes – disse, a voz apressada.
Ji-won revirou os olhos, visível o bastante para provocar uma pequena tosse de alguém tentando esconder o riso no fundo da sala. O barulho atraiu o olhar de Jungkook, que virou o rosto em sua direção como se ela tivesse acabado de o insultar diretamente.
– Yah, você está levando isso a sério? – disparou com uma voz carregada de incredulidade.
– Senhor Jeon. – o policial o cortou com calma treinada. – Vamos manter a compostura. E a senhorita... preciso da sua identificação e de uma resposta objetiva: por que estava na área restrita do prédio?
Ji-won pousou sua identidade sobre o balcão com movimentos calmos, quase calculados.
– Porque eu moro naquele prédio, oficial-nim.
O silêncio que se seguiu foi quase cômico. Os policiais se entreolharam, surpresos. Jungkook soltou uma risada curta, claramente descrente.
– Essa foi boa. Melhor do que quando fingiu estar surpresa ao me ver, como se não soubesse quem eu era até eu me revelar.
– Seo Ji-won...? – o policial leu o nome devagar, franzindo o cenho.
– Aigo! Eu sabia! – exclamou a policial da mesa ao lado quase saltando da cadeira. – A herdeira mais velha da Seo & Co.! A senhorita voltou hoje, não foi? Saiu em todas as notícias.
Ela já segurava o celular, animada demais, quase tremendo. Os dois policiais no fundo começaram a sussurrar entre si, e um deles soltou um “jinjja? ” abafado.
– Está me dizendo que ela é… da família Seo? – Jungkook virou para seu manager, completamente descrente. – Hyung, isso faz sentido pra você? Você também viu ela tentando entrar no meu andar!
O manager ajeitou os óculos, o rosto se contorcendo num desconforto visível.
– Havia alguém, sim... mas... não vimos o rosto. – admitiu, quase engolindo as palavras.
Ji-won deslizou a chave de acesso do elevador até o centro do balcão, Jungkook não pode deixar de reparar no curativo improvisado em seu dedo que estava machado de vermelho fresco. Por um instante, a irritação dele vacilou.
– Esta é a minha chave de acesso. Eu teria mostrado antes de tivesse tido a oportunidade de me identificar. – disse, com a voz firme. – Como já devem saber, retornei à Coreia hoje e coincidentemente moro no mesmo prédio que o senhor Jeon. – O olhar dela finalmente encontrou os dele desde que pisara naquela delegacia, ele notou que havia uma certa raiva contida neles. – Como eu disse, tudo isso não passou de um mal entendido.
Um dos policiais riu baixo.
– Daebak... isso dá uma série melhor do que Reply 1988.
O oficial que conduziu o interrogatório suspirou fundo.
– Certo. Vamos registrar como um... “significativo mal-entendido”.
Lá fora, o vento da madrugada cortava a pele como lâminas finas. Ji-won já estava há mais de meia hora tentando chamar um táxi, o frio entrando pelos punhos da blusa, irritante, persistente. As ruas estavam vazias, silenciosas demais para uma cidade que raramente dormia. Nenhum farol ao longe. Nenhum motor. Nenhum indício de vida. Seul parecia observá-la de longe, indiferente, como se dissesse “você escolheu voltar, lide com isso. ” Foi então que o mesmo carro preto de antes surgiu, deslizando pela rua molhada até parar diante dela. O vidro escurecido impedia qualquer visão, mas o clique suave da porta do passageiro se abrindo foi suficiente para tencionar seus ombros.
– Entre.
Ela ergueu os olhos, exausta demais para esconder o sarcasmo.
– Você só pode estar brincando.
Jungkook se inclinou um pouco, o rosto iluminado pela luz do poste. Respirou fundo, pensando nas palavras duas vezes antes de falar.
– Senhorita Seo… Seo-ssi – corrigiu com a formalidade adequada, mesmo que soasse engolida. – Não há táxis circulando agora. Por favor, entre. – A impaciência ainda estava lá, vibrando sob a superfície.
Ji-won permaneceu imóvel, encarando-o. Havia tensão em seus olhos. Ela revirou os olhos antes de se virar e começar a caminhar, os saltos ecoando contra o asfalto molhado. O carro permaneceu parado até que a porta se abriu, passos rápidos atrás dela. Uma mão tocou seu pulso de forma impaciente, mas também hesitante. Ela se virou devagar. Jungkook estava perto demais. A luz fraca revelava a preocupação contida em seu olhar, fixo no machucado que ele causara em um momento irracional.
– Ainda está sangrando. – murmurou em um sussurro.
Era uma frase simples, mas o tom, não.
Sema arrogância, sem raiva, sem a defesa automática que ele exibiu mais cedo. Apenas o cansaço e algo que beirava a culpa. Ele abriu a boca para continuar, mas hesitou. As palavras não vieram. O silencio aproveitou a deixa. Dotou uma postura mais rígida, embora tudo aquilo tivesse sido espelho do seu comportamento.
– Permita-me leva-la para casa. – tornou a falar com o tom baixo, nada impositiva. – É o mínimo que eu posso fazer.
Ji-won inspirou devagar. Encarando os olhos dele que agora lhe pareciam pedir desculpas no lugar das palavras.
– O mínimo que pode fazer, Jeon Jungkook-ssi... é me deixar em paz. – sua voz soou cortante. – Acredite, não é somente o senhor que está tendo um dia péssimo.
Ela puxou sua mão de volta e deu um passo para trás, firme, definindo claramente a distância que queria manter. Quando a conversa morreu ali ou quando ela decidiu que morreria, Ji-won ergueu o celular, atendendo a ligação que surgia na tela. Sem olhar para ele nem uma única vez, seguiu pela calçada com passos longos, determinados. Seul a recebia de volta exatamente como ela lembrava: Fria. Barulhenta. E sem nenhum espaço para remorso.
Capítulo 02 – Ruído Branco
1:45 a.m.
A porta bateu com um clique macio atrás de Jeon JungKook quando ele entrou no apartamento. Parecia estranho estar ali, como se o lugar tivesse ficado grande demais enquanto ele esteve fora. O silêncio, que antes era um presente, agora parecia um pouco agressivo. Ele tirou a máscara devagar, passou a mão pelo rosto e não gostou do que viu no reflexo da janela: olheiras fundas, olhos avermelhados, o maxilar travado. Estava esgotado. Irritado. Envergonhado. Perdido. Tudo ao mesmo tempo. O manager surgiu logo atrás.
– JungKook-ah... – a voz era baixa e cautelosa.
Ele não respondeu. Apenas seguiu até a sala e deixou o corpo cair no sofá. O manager sentou-se na poltrona à frente, segurando o tablete com as duas mãos.
– A empresa já está lidando com isso. – começou. – Mas precisamos conversar.
JungKook passou a língua pelos lábios, os sentindo secos.
– Sobre o que? – perguntou em um tom quase roco.
O manager virou a tela em sua direção.
Capturas de tela, hashtags, comentários, vídeos de segurança vazados. Gente marcando o prédio, HYBE, seus amigos de banda, até mesmo familiares. E claro... “A mulher misteriosa. ”
Seo Ji-won.
A mulher que ele havia tratado de forma imperdoavelmente grosseira. A quem machucou física e emocionalmente. O olhar dela antes de ir embora ainda perfurava seu estômago como vinagre em ferida aberta.
Ele engoliu em seco.
– A empresa acha que isso pode se tornar um escândalo maior se descobrirem a identidade dela. – disse o manager.
JungKook franziu o cenho.
– Não foi minha culpa.
– Mesmo assim… – o manager passou a mão pelo queixo antes de continuar. – Há vídeos em que você aparece segurando a mão dela. Estão distorcendo tudo, fazendo parecer que vocês têm algum tipo de relação e…
– Como assim? – JungKook ficou confuso.
– Você sabe como eles são… a imprensa, os internautas. — Suspirou. — Nenhuma fã ultrapassou o portão do lobby antes. A Seo Ji-won-ssi estava perto demais para ser “apenas uma fã”.
JungKook fechou os olhos. Ele não queria lembrar disso.
Mas lembrava, muito bem.
– Ela não é uma sasaeng. – murmurou.
Era a primeira vez que ele admitia isso em voz alta desde o incidente.
O manager respirou fundo.
– Nós sabemos disso. Mas a internet não sabe. E não quer saber.
Um silêncio pesado caiu.
Jungkook passou as mãos pelos cabelos se sentindo frustrado.
– A empresa quer que você mantenha distância. – continuou o manager. – Absoluta. Nada de encontrá-la por um acaso, de falar com ela. Nem mesmo pisar no lobby sozinho por alguns dias. Por que não pensa na possibilidade de ficar em outro lugar até que as coisas esfriem?
Ele pressionou os olhos com o polegar e o indicador.
– Quanto à Kim Min-jeong-ssi… — Jungkook congelou. O nome de Winter sempre vinha carregado de turbulência. — A HYBE acha melhor você cancelar sua aparição no W Gala.
JungKook abriu os olhos devagar.
– Eles acham melhor? – perguntou em um sussurro.
– Eles acham indispensável. Desde que você foi ao show da Aespa, a Kim Min-jeong-ssi está recebendo ondas de comentários negativos. Não queremos alimentar mais rumores, certo?
Ele revirou os olhos, cansado de ser refém da mídia e de perder o direito de existir em paz. Seu manager ao notar sua expressão, trancou a respiração enquanto escolhia as palavras.
– Se vocês dois forem vistos no mesmo evento, mesmo que apenas troquem olhares... a mídia vai transformar isso em uma narrativa.
Jungkook ficou em silêncio por longos segundos. Ele não era ingênuo. Estar no mesmo lugar que Winter, depois de tantos rumores, só pioraria tudo. A repercussão seria monstruosa. Mas essa era a última coisa com que ele estava se preocupando no momento. A expressão daquela mulher, a forma como ela o olhou na delegacia, na frieza educada, na ferida que ele havia causado... Aquilo estava descendo de forma amarga em seu estômago.
– Temos um combinado, Jungkook-ah?
A voz do manager o trouxe de volta ao presente.
– Eu não vou. – disse, por fim. – Cancela tudo.
O manager tentou não demonstrar alívio, mas sua postura relaxou.
– Vamos divulgar uma nota dizendo que você está descansando e que precisa de tempo. — fez uma pausa. – A empresa também pediu que você fique off-line. Nada de lives, fotos, ou posts.
Jungkook soltou uma risada seca.
– De novo?
O manager fechou o tablete devagar.
– Ei… — disse com suavidade. — Você não é o vilão aqui.
JungKook olhou para a própria mão, se lembrando da força que usara para segurar o braço da Seo Ji-won-ssi.
– Então por que é exatamente assim que estou me sentindo... – sussurrou para si mesmo.
Ele se recostou no sofá, o peito apertado. Uma mistura de culpa e cansaço pesando nos ombros.
– Tenta dormir um pouco. A empresa vai apagar o incêndio. Você só... respira, hm?
Respirar.
Parecia simples.
Mas também parecia impossível.
***
11:50 a.m.
O barulho que acordou Ji-won não era do despertador, nem dos carros na rua, mas sim o seu celular vibrando. Insistentemente. Quase furiosamente. Ela abriu os olhos de vagar, piscando contra a claridade suave que invadia a cobertura. A casa estava silenciosa, talvez até demais. A cabeça latejando, assim como coração. A roupa ainda era a mesma da noite anterior, não lembrava de muito depois de tomar um remédio para dormir, mas o que ela gostaria de esquecer estava cada vez mais vivido em sua memória. Ji-won respirou fundo antes de tocar no celular enquanto o mesmo vibrava sem cessar. Ela finalmente deslizou o dedo pela tela e o mundo despencou sobre ela.
Notificações.
Centenas. Mensagens de desconhecidos, mencions, matérias, vídeos do incidente. Trecho borrados e alguns não tão borrados assim. Um dos títulos aparecia direto na tela de bloqueio:
“Mulher misteriosa envolvida em confusão na casa de Jeon JungKook. ” Ji-won sente o estômago afundar ao empurrar o celular para longe, como se ele queimasse os seus dedos, mas isso não impediu o celular de continuar vibrando. Ela apertou as têmporas, respirando fundo. Sentou-se na borda da cama por alguns segundos, tentando alinhar o mundo interno e o mundo externo. Sem sucesso. Então decidiu explorar sua nova casa. O apartamento estava do jeito que ela sempre quis: Minimalista, clean, aconchegante e sem exagero. A sala integrada, as plantas, a cozinha impecável... A fazia lembrar de sua casa na Inglaterra e isso era bom, era mais fácil de se sentir em casa. Caminhou descalça até a cozinha, ligando a cafeteira e tentando ignorar o celular que vibrava no balcão. Falhando miseravelmente. A tela acendeu novamente, desta vez, com notificações específicas:
Pai – 6 chamadas perdidas.
Mãe – 12 mensagens.
Hyun-woo – 8 mensagens.
Min-ji – 1 áudio de 22 segundos.
Ji-won apoiou as duas mãos no mármore da cozinha e ficou ali, curvada, tentando não dissolver.
O café terminou de passar, ela se serviu uma xícara e segurou com as duas mãos enquanto trava uma luta interna sobre atender as chamadas ou simplesmente ignorar tudo e todos. O celular tornou a vibrar, desta vez, ela atendeu.
– Finalmente. – disse uma voz feminina, seca e tensa.
Ji-won fechou os olhos.
– Bom dia para você também, eomma. – ela murmurou, irônica.
– Não temos tempo para ironias. – sua mão exasperou do outro lado da linha. – Você está na internet inteira.
Ji-won respirou fundo ao encostar o quadril na bancada.
– É, eu... Eu percebi.
– Vamos resolver isso imediatamente. Preciso que venha para casa.
– Não!
Silêncio.
Soo-jin não era do tipo que estava acostumada a ouvir a palavra “não”
– Ji-won-ah. – a voz estava impaciente. – Isso não é opcional.
– Eu não fiz nada de errado. – respondeu firme. – E eu não vou correr para casa como se tivesse.
Soo-jin respira fundo.
– Muito bem. Você já grande o suficiente para lidar com os seus problemas sozinha. – Soo-jin decidiu recuar no seu papel de mãe protetora com medo de que Ji-won decidisse voltar para a Inglaterra como havia feito há cinco anos ao se sentir pressionada pelo legado da família. – Só não se esqueça que amanhã é o W Pink Illumination Gala. Onde iremos debutar o seu retorno oficialmente a Coreia. Arasseo?
– Eomma, eu estou no meio de um escândalo com uma das maiores figuras públicas mundialmente. Você realmente acha uma boa ideia aparecer nesse evento?
– Vai, sim. Porque você é uma Seo. E por que se você não for, irão acreditar que você tem algo a esconder.
A frase caiu pesada entre elas.
– Estarei te esperando para o almoço. Não se atrase.
E desligou.
Ji-won ficou olhando para o celular como se aquilo fosse fazer parar de fazer as notificações chegarem. Com o café agora morno em mãos, ela caminhou até a sala devagar, sentindo a tensão escorrer pelo corpo e se sentou no sofá. Respirou.
A TV estava desligada.
Ela hesitou.
Depois ligou.
Imediatamente, o rosto de JungKook apareceu rapidamente entre as matérias, flashes, repórteres na frente do prédio, especulações. Resolveu mudar de canal. E lá estava ela, capturada de um ângulo péssimo, com a expressão perdida no pingente quebrado no chão. É claro, Sussex. Ela havia esquecido de Sussex por algumas horas, talvez desde a madrugada. Sua única lembrança viva de um lugar que agora existia só na memória. Olhou para o curativo improvisado em seu dedo e alguns flashes da madrugada teimaram em aparecer. Por mais que ela quisesse esquecer toda aquela situação, ela sabia que na verdade, era apenas o começo.
Capítulo 03 – Efeito Dominó
7:08 P.M
O carro deslizou até a entrada principal do W Pink Illumination Gala e Ji-won sentiu, por um instante, o desconforto do silêncio dentro do veículo. Era enganoso, incômodo, até porque assim que a porta se abriu, o mundo explodiu. A herdeira havia retornado.
– Seo Ji-won-ssi!
– Aqui!
– Olhe para ele lado!
Os flashes estouravam em sequência, brancos, quase violentos. O salto firme tocou o tapete rosado, e o vestido impecável, meticulosamente cortado, parecia ter sido moldado para aquele preciso momento. Ji-won ergueu o queixo, postura exata entre cordialidade e distância Enquanto caminhava, um repórter de entretenimento do Xports News deu um passo à frente, levantando o microfone.
– Seo Ji-won-ssi, podemos pedir um comentário sobre os rumores de relacionamento envolvendo Jeon Jungkook-ssi?
Ji-won não parou de andar. Sorriu apenas o suficiente.
– Boa noite. Estamos aqui para apoiar uma causa importante. Espero que possamos manter o foco nisso.
Outro repórter, agora do Sports Seoul, insistiu:
– Então a senhorita confirma que conhece Jeon Jungkook-ssi? Qual é a relação entre vocês?
O tom era formal, mas o peso das palavras era claro, a expressão de Ji-won não vacilou
– Esta noite não é sobre relações pessoais. – respondeu com serenidade – Estamos falando de prevenção, diagnóstico e tratamento de um câncer que atinge milhares de mulheres todos os anos.
Houve um breve silêncio, os repórteres não esperavam uma resposta tão precisa.
– Mas Seo Ji-won-ssi... – tentou outro – Acredita que é melhor esclarecer antes que os sites publiquem especulações?
Ji-won deixou escapar um sorriso, aquele sarcástico, reservado para situações em que o absurdo era grande demais.
– O público tem o direito à verdade. – respondeu. – E hoje, a verdade mais importante a ser dita é sobre diagnóstico precoce, apoio às pacientes e investimento em pesquisa.
Uma pausa.
– Acredito que isso seja bem mais relevante do que especulações sobre a minha vida pessoal.
Os flashes explodiram outra vez. Ji-won retomou o passo, deixando para trás os repórteres, os microfones e as perguntas que não mereciam resposta. Por dentro, o coração ainda acelerava. Por fora, ela era impecável.
Uma Seo.
Ji-won respirou fundo, endireitou os ombros e ergueu o queixo. Ela podia não se sentir parte daquele mundo, mas pertencia a ele, gostasse ou não. Os olhares começaram a segui-la, alguns curiosos, outros avaliadores, alguns carregados de expectativas silenciosas. O sobrenome Seo ainda tinha peso suficiente para dobrar conversas ao meio. Ela manteve o sorriso discreto, o olhar atento, o passo firme e enquanto atravessava a entrada, Ji-won sentiu o contraste apertar o peito. A parte dela que aprendera a viver fora da Coreia, longe de holofotes, longe de sobrenomes, queria virar as costas, desaparecer no anonimato. Mas essa parte não vestia um vestido de gala, aquela noite exigia outra versão. Ji-won fez uma leve inclinação de cabeça ao ser cumprimentada por um dos organizadores, respondeu com educação precisa, sem excesso. Não precisava se esforçar para ser elegante. Aquilo lhe fora ensinado antes mesmo de entender por quê. Ao cruzar as portas do salão principal, Ji-won sentiu o peso simbólico daquele gesto. Entrar ali não era apenas comparecer a um evento. Era aceitar, mais uma vez, o lugar que o mundo insistia em lhe reservar, mesmo sentindo que não pertencia completamente àquele cenário.
– Seo Ji-won-ssi. – disse um homem de meia-idade, trajando um terno perfeitamente alinhado. Ela o reconheceu imediatamente: um dos principais patrocinadores do evento. – Já faz um tempo.
Ji-won inclinou levemente a cabeça, num cumprimento preciso.
– É um prazer revê-lo. Obrigada por apoiar uma causa tão importante.
Ele sorriu, satisfeito com a resposta correta, aquela que não exigia continuidade pessoal, apenas validação social.
– Sua família deve estar feliz em tê-la de volta ao país.
Antes que pudesse seguir, outra voz se aproximou.
– Seo Ji-won-ssi! – uma mulher elegante, ligada ao conselho criativo da W Korea, segurava uma taça que já não parecia ser a primeira da noite. – Você está deslumbrante.
Ji-won sorriu novamente. Um sorriso que não alcançava completamente os olhos.
– Obrigada. A senhora também. – disse, mesmo sabendo que aquela troca não passaria dali.
Um clique alto ecoou. Ji-won virou levemente o rosto para a câmera mais próxima, ajustando o ângulo do sorriso, o ombro, a postura. Tudo em perfeita harmonia com o que se esperava de alguém do seu sobrenome. À medida que avançava, os cumprimentos se repetiam, quase como um roteiro silencioso, ela respondia a todos com educação impecável, inclinações medidas, palavras exatas. Nenhuma a mais. Nenhuma a menos. Observava enquanto caminhava os grupos que se formavam e se desfaziam rápido demais. Risos altos para um evento que falava sobre prevenção, perdas e sobrevivência. Taças que se enchiam com uma frequência inconveniente. Conversas atravessadas que morriam assim que uma câmera se aproximava. Conscientização em copos largos, pensou, sem permitir que isso transparecesse. Outro flash. Ela sorriu de novo. Dessa vez, um pouco mais curto.
– Se me permite. – A voz grave chegou antes da presença ser totalmente percebida. Quando Ji-won virou o rosto, encontrou uma taça levemente inclinada em sua direção. – Você parece estar precisando de uma dessas para conseguir aguentar todas essas bajulações.
Kim Taehyung estava parado bem ali, à sua frente. Por um breve segundo, algo dentro dela se deslocou, não por admiração ou surpresa, mas pela consciência súbita de que ele escolhera falar com ela abertamente, sabendo exatamente qual era o estado atual da internet e dos tabloides envolvendo o nome “Seo Ji-won” e “Jeon Jungkook”. Ainda assim, Ji-won não demonstrou nada além do aceitável.
– Água com gás. – disse se referindo a taça em sua mão. – Imaginei que talvez você precisasse de algo que não exigisse mais brindes.
– Uma suposição bastante precisa. – respondeu, aceitando a taça. – Obrigada.
– Essas noites costumam ser… intensas. – continuou ele, observando o salão por um instante. – Muitas pessoas falando ao mesmo tempo. Poucas dizendo algo que realmente importa.
Ji-won levou a taça aos lábios, apenas um gole.
– É um talento difícil de dominar. – comentou. – Saber quando falar e quando apenas parecer interessado.
Taehyung soltou uma breve risada baixa, discreta demais para chamar atenção.
– Você parece dominar bem os dois.
Ela inclinou a cabeça, educada. Houve um breve silêncio confortável até que ele retornasse a falar.
– Eu acompanho o trabalho da sua família. – disse, sem floreios. – Especialmente no setor de moda. A forma como equilibram tradição e inovação… é interessante.
Ji-won não conseguiu esconder a surpresa. De todos assuntos possíveis para serem abordado, jamais achou que Kim Taehyung estaria interessado nos negócios de sua família.
– Fico feliz em ouvir isso. – respondeu, em fim. – Nem todos se dão ao trabalho de observar além do sobrenome.
– Seria um desperdício. – disse ele, simples. – Moda não é só estética. É linguagem. Identidade. Posicionamento.
Ela o encarou por um segundo a mais do que o protocolo exigia. O suficiente para qualquer mal-entendido, mas não pode evitar. A Seo & Co. não era apenas uma casa de moda. Era um império que transitava entre alta-costura, prêt-à-porter, joalheria e investimento cultural, respeitado por manter raízes tradicionais enquanto ditava o ritmo do mercado global.
– O senhor fala como alguém que entende do assunto.
– Tenho um apreço antigo. – respondeu, girando levemente a taça entre os dedos. – Não apenas por vestir, mas por construir algo que permaneça.
Ji-won assentiu devagar.
– Então entende por que escolhemos ser cuidadosos com cada passo. – disse. – Principalmente quando tudo é observado.
Desta vez, não eram flashes do evento. Eram cliques secos, rápidos, vindos de algum ponto mais distante do salão. Quem estava fotografando não tinha interesse no vestido, nem no tema do evento, apenas no ângulo certo entre eles. E mesmo sem olhar diretamente, soube: Dispatch ou algo similar havia enviado alguém, infiltrado no staff ou na área de imprensa interna. Não era novidade. Grandes eventos de moda e beneficência eram terreno fértil para isso. Instintivamente, Taehyung ajustou o corpo meio passo à frente, bloqueando parte da linha de visão das câmeras. Não era um gesto protetivo. Era técnico, coisa de quem aprendeu a sobreviver à mídia coreana
– Imagino que esta noite esteja sendo… exaustiva. – comentou. – Bajulações tendem a cansar mais do que críticas.
Ji-won sorriu de novo. Dessa vez, com um toque sincero.
– Pelo menos as críticas costumam ser honestas.
Ele ergueu a taça, em um brinde silencioso.
– À honestidade, então. Mesmo quando ela aparece disfarçada.
Ela ergueu a dela em resposta.
Então outro clique. E dessa vez houve luz. O reflexo no vidro entregou: foco teleobjetiva, distância, captura de ângulo. Ji-won ainda segurava a taça, corpo levemente inclinado na direção de Taehyung, nada íntimo, nada escandaloso, mas, nas mãos erradas, suficiente para virar:
“Seo Ji-won próxima a V do BTS. Triângulo amoroso? ”
– Tudo bem para você? – ela perguntou de forma desinteressada. Não precisava ser associada a mais nenhum escanda-lo que distorcesse totalmente a verdade.
Taehyung olhou para o reflexo no vidro por uma fração de segundo.
– Parece que nossa conversa ficou interessante para terceiros. – disse, leve, quase entediado.
Ji-won exalou um suspiro curto.
– Eles amam uma narrativa. – disse Ji-won, com um sorriso pequeno. – Infelizmente, o contexto nunca vem incluído.
– É pedir muito. – ele suspirou, quase dramático. – Contexto atrapalha o engajamento.
Ji-won teve que segurar uma risada.
– Que pena. Justamente quando eu esperava que pelo menos um rumor tivesse bom senso.
– Rumores têm? – Taehyung franziu o cenho em falsa surpresa. – Preciso conversar com o meu departamento de relações públicas.
– Quem não se interessaria por um triangulo amoroso envolvendo uma herdeira e dois melhores amigos? – Taehyung sorriu, apreciando a precisão.
– Não se preocupe, eu não me arriscaria a vir falar com você se não soubesse exatamente o que estava fazendo. – Ele olhou discretamente para o canto do salão. Um homem surgiu, postura profissional, atenção fixa. Staff, segurança, ou funcionário interno... Ji-won não saberia dizer. Recebeu instruções silenciosas através de um olhar. Isso era o suficiente.
– Se isso virar assunto. – disse ela, com educação impecável – Espero que seja tratado com a mesma superficialidade com a qual foi capturado.
Taehyung a observou por um instante mais atento.
– Estou contando com isso. – ele deu um gole singelo de sua bebida.
– O que quer dizer? – ela franziu o cenho.
Taehyung deixou um sorriso divertido escapar de seus lábios.
– Foi um prazer, Seo Ji-won-ssi...
Com um aceno cordial, desapareceu no meio do salão com a mesma precisão com que surgira.
10:35 A.M
JungKook acordou antes do despertador. O quarto ainda estava escuro, o silêncio pesado demais para ser confortável. Ele levou alguns segundos para lembrar onde estava, como se o corpo tivesse voltado antes da mente. O celular vibrava sobre a mesa de cabeceira. Insistente. JungKook passou a mão pelo rosto antes de pegá-lo, e se surpreendeu com o que viu: notificações acumuladas, mensagens não lidas, links enviados pelo manager, pela equipe de comunicação e até por pessoas que não sabiam mais como falar com ele sem atravessar o filtro da cautela. Ele abriu a primeira notícia.
“Evento beneficente ou festa de celebridades? Público critica Love Your W 2025. ”
Ele franziu o cenho enquanto rolava a manchete.
Fotos dos membros do BTS, incluindo V e J-Hope, aespa, IVE, Stray Kids, atores como Byeon Woo-seok circulavam em looks glamorosos e taças em mãos. Relatos criticavam que o evento parecia uma festa de luxo em vez de uma campanha séria de conscientização sobre câncer de mama. Mais abaixo, outra notícia:
“Faltou foco no propósito: ausência de símbolos como a fita rosa e fala sobre prevenção. ”
Por alguns segundos ele ficou feliz por ter cancelado a sua aparição, mas sua felicidade durou somente até ele ler o nome que foi o motivo do cancelamento.
“Uma das poucas que realmente pareceram entender o propósito da noite. ”
“Elegância e propósito: público aplaude sua postura sóbria. ”
“Ji-won deixa o evento cedo, e isso é visto como respeito ao motivo real da campanha. ”
Aquelas frases se destacavam em meio a críticas sobre fotos de convidados bebendo, dançando e se distraindo como se fosse apenas um coquetel comum. JungKook encostou-se ao colchão, o olhar fixo no teto por um momento longo demais até que sentiu o seu celular vibrar novamente. O nome do manager apareceu no visor, ele atendeu sem dizer nada.
- Você já viu as notícias de hoje? – a voz do outro lado soava cansada, mas controlada.
– Vi. – respondeu JungKook, direto.
- A repercussão mudou. – disse enfim. – E rápido.
JungKook apoiou o cotovelo na coxa, o celular firme na mão.
– Mudou como?
– O foco saiu de você. – explicou. – E, principalmente, do rumor.
JungKook franziu levemente o cenho.
– O que?
– As pessoas estão elogiando a postura da Seo Ji-won-ssi. – continuou o manager. – Muita elegância, propósito, maturidade… essas palavras estão aparecendo com frequência.
JungKook não respondeu de imediato.
– Isso fez diferença. – acrescentou o manager. – Quando o público percebe que não há escândalo real, a indignação perde força.
– E os fãs? – perguntou JungKook, em tom neutro.
– Menos revoltados. – respondeu. – Bem menos. Me atrevo a dizer que se realmente tivesse algo rolando entre vocês, essa seria a melhor hora para assumir. – ele brincou.
– Que baboseira é essa...
– O rumor de namoro não se sustentou. – disse. – Sem interação, sem continuidade, sem comportamento sugestivo. Para muitos, virou só mais uma especulação vazia.
JungKook fechou os olhos por um segundo.
– Então acabou?
– Não exatamente. – o manager foi honesto. – Mas esfriou. – Ele fez uma pausa curta. – Você ficar fora do evento também ajudou. – acrescentou. – Não deu imagem para comparação. Por isso vou repetir: – disse o manager, com cuidado – Nenhum contato. Nenhum encontro público. Deixa a história morrer sozinha.
– Eu sei. – respondeu JungKook.
– Silêncio é gestão de crise barata e eficiente, JungKook-ah. – disse com uma ironia leve. – É rara, mas funciona.
Ele respirou fundo.
– JungKook-ah, precisamos alinhar uma coisa com clareza agora. – disse o manager, direto demais para ser casual. – A situação com a Winter... – disse ele. – E isso não é um problema em si.
JungKook paralisou ao ouvir o nome dela.
– O problema é o timing. – continuou o manager. – E o público. Os fãs não aceitaram antes. Não aceitariam agora. Você acabou de ser dispensado do alistamento, elas ainda sentem que grande parte de quem você é deve pertencer somente a elas. De alguma forma, toda essa confusão com a Seo Ji-won-ssi acabou te favorecendo.
– Estão pensando em usar a imagem dela como distração?
– Não estamos pensando em nada. – o manager foi preciso. – Só não estamos corrigindo interpretações precipitadas.
Silencio.
– Enquanto o público discute algo que não existe... – continuou. – O que existe de fato permanece protegido.
JungKook apoiou o cotovelo na perna.
– E a Winter?
– Protegida também. – respondeu. – O nome dela apareceu menos hoje do que em semanas. Sem ataques diretos. Sem pressão organizada.
– E quanto a senhorita Seo? Tenho certeza de que ela não está muito feliz em ver seu nome associado ao meu por tais motivos.
– Honestamente? – começou. – Ela não reclamou. Ela sabe como funciona esse meio, e sabe que o público interpreta o que quer.
JungKook desviou o olhar para a janela escura. Uma parte dele se sentia aliviada, outra, desconfortável.
– Ainda assim, não acho justo. – murmurou.
– Não é sobre justiça. – respondeu o manager, firme. – É sobre danos. Entre expor uma artista que não tem estrutura para lidar com isso agora e deixar um rumor inofensivo circular… a segunda opção é a menos cruel. Além do mais... A família Seo não é estúpida, muito menos ingênua. Eles entendem que imagem pública é uma moeda… e que, nesse caso, a moeda está valorizando para os dois lados. Caso contrário, já teriam soltado uma nota desmentindo essa situação.
O silêncio que seguiu não foi confortável.
JungKook pensou naquilo e de fato, fazia sentido. A família Seo tem um nome de peso na Coreia, por que deixar rumores sobre a filha mais velha se espelhar justamente quando ela faz o seu retorno para a sociedade coreana?
Houve uma longa pausa antes do manager mudar de assunto:
– Amanhã vamos soltar um comunicado discreto sobre sua agenda pós-dispensação. Nada pessoal, só profissional. Foco em música, em performance, em rotina. Se o público olhar para a sua carreira, mexem menos na sua vida privada.
JungKook assentiu para si mesmo.
– Certo...
A ligação terminou com um bip seco, deixando o quarto mergulhado em um silêncio espesso. JungKook virou o celular na mão, encarando o teto mais uma vez. Não sabia se estava protegendo alguém, escondendo alguém, ou apenas deixando o mundo decidir o que era conveniente. Nenhuma opção parecia boa.
13:10 P.M
O som insistente de um automóvel na rua a fez despertar. Ji-won abriu os olhos devagar, com a sensação de que o próprio corpo demorava para alcançá-la. O teto não era familiar. Nem a luz. Nem o cheiro. Ela piscou algumas vezes, tentando juntar memória e realidade. “Onde eu estou? O edredom era pesado e quente, o tipo caro que só se encontrava em apartamentos de gente muito específica. Ao redor, pistas espalhadas: uma jaqueta preta pendurada na cadeira, calçados importados sem padrão de organização, garrafas vazias de soju e makgeolli num aparador baixo e moderno. Quando tentou se sentar, a cabeça latejou, não como quem está em coma alcoólico, mas como quem imprudentemente disse “geonbae!” mais vezes do que deveria. Flashes surgiram: um bar tradicional, copos alinhados, alguém rindo dela, música antiga de fundo, uma porta de táxi sendo aberta por uma mão masculina…
Ji-won levou a mão ao rosto.
“Eu realmente fui beber depois da W… mas com quem?”
Antes que o pensamento terminasse, ela virou o rosto e congelou.
Kim Taehyung dormia ao seu lado, de bruços, cabelos despenteados e camiseta de malha escura. A respiração era calma, o rosto relaxado. Assustadoramente tranquilo, como se nada tivesse acontecido. Ou como se tudo tivesse acontecido, mas ele não tivesse pressa de lidar. Ji-won prendeu a respiração.
“Não, não, não... O que aconteceu ontem? ”
Tentou puxar outra lembrança: Taehyung segurando o menu do bar, rindo quando ela fez careta ao beber takju, alguém dizendo “isso é muito forte para você”, mais risadas, e depois… Depois, nada contínuo. Apenas flashes. Sem despertar Taehyung, ela jogou as pernas para fora da cama e procurou suas coisas. O vestido da noite anterior estava jogado sobre uma poltrona. A clutch estava caída no chão, com o batom e o cartão de acesso de sua casa espalhados. Ji-won engoliu seco. Vestiu o casaco por cima, amarrou os cabelos como deu, pegou a bolsa e as chaves, até perceber que não sabia onde estava saindo. O coração batia rápido. Ela precisava ir embora antes de qualquer interpretação. Quando alcançou a porta, respirou fundo, ajustou o casaco e girou a maçaneta com cuidado. A porta abriu. E do outro lado, parado de frente para ela, estava Jeon JungKook. Ele estava preste a abrir a porta quando ela o fez. O susto foi mútuo, os olhos dele se arregalaram por um segundo.
– Seo Ji-won-ssi...? – JungKook perguntou completamente confuso.
Ji-won congelou.
– Eu...
Ela murmurou sem conseguir formar a frase, abaixando o olhar enquanto segurava o salto em uma mão e a bolsa na outra. Ninguém sabia o que fazer. O corredor estava silencioso, amplo demais, e o clima carregado de tudo o que não estava sendo dito. E antes que ele pudesse perguntar o que ela estava fazendo ali, ela simplesmente tomou a decisão mais instintiva: virou para a escadaria ao lado e começou a descer. De salto na mão. De cabeça baixa. Praticamente fugindo. JungKook ficou parado na porta, assistindo a cena surreal desaparecer em espirais de cabelo e passos apressados ecoando pelos degraus. Só quando ela sumiu, a ficha finalmente caiu. Ele piscou, inspirou fundo e deixou escapar:
– O que…?
Antes que a frase terminasse, a porta à frente dele se abriu e Kim Taehyung apareceu com o cabelo bagunçado, camiseta larga e expressão de quem não sabia nem que dia era.
– Por que você tá parado ai fora? – Taehyung perguntou, coçando o pescoço.
JungKook virou para ele, ainda processando as últimas cenas.
– Hyung, o que ela estava fazendo aqui? – perguntou rapidamente. Aquele era um complexo que os membros do grupo alugaram para coisas pessoais. Quase ninguém sabia e nem poderia saber da existência daquele lugar.
Taehyung franziu a testa, olhando rapidamente pelo corredor vazio, claramente sem saber do que o amigo estava falando. Depois apenas deu um meio sorriso sonolento, o tipo de sorriso que não explica nada e apenas cria mais perguntas.
– Hã? Do que você tá falando? Entra, tá frio.
E voltou para dentro. Mas parou no segundo depois que ele se lembrou que não estava supostamente sozinho no complexo. Ele voltou até a porta onde JungKook ainda permanecia confuso e o perguntou.
– Espera, você viu alguém aqui? – perguntou.
– A senhorita Seo... ela... desceu as escadas...– não sabia bem se o que vira realmente era verdade. – Espera, o que ela estava fazendo aqui?
– Aish. – Taehyung calçou os sapatos de qualquer jeito e saiu em disparada as escadas com a esperança de poder alcança-la.
JungKook mal teve tempo de impedi-lo de sair, quando o celular vibrou no bolso da calça de moletom. Ele deslizou o dedo pela tela, ainda parado do lado de fora. A mensagem vinha do gerente de Winter:
Manager Han: Ela insiste em te ver. Foi seguida por paparazzi. Conseguiu despistá-los até certo ponto, mas não quer voltar para o dormitório. Está indo até você.
A pulsação de JungKook subiu instantaneamente, um tipo de adrenalina que já era conhecida demais. Ele leu de novo, como se isso pudesse mudar alguma coisa. Não mudou.
Manager Han: Se ela for vista com você... você sabe.
Ele não precisava que terminasse a frase. “Rumores. ” “Escândalo. ” “ Contratos rescindidos. ” “O inferno do Dispatch. ” Todos os cenários estavam implícitos.
JungKook soltou um xingamento abafado e guardou o celular às pressas. Não havia tempo para perguntar nada a Taehyung, nem para voltar ao assunto Seo Ji-won. Agora havia uma emergência muito maior. Correu pelo corredor, apertou o botão do elevador repetidas vezes, como se isso pudesse fazê-lo chegar mais rápido. A tela indicava que ele estava no 15° andar. Não deveria ter cedido aos pedidos de Winter para se verem em segredo, ele foi um idiota por achar que a poeira realmente estava abaixando, que ninguém cogitaria a possibilidade dos dois se encontrarem. Ninguém, absolutamente ninguém, sabia daquele complexo. Era o refúgio secreto do grupo e alguns poucos amigos próximos.
– Droga… – murmurou.
Se os fotógrafos estiverem seguindo Winter até lá, tudo estaria perdido.
Quando o elevador finalmente chegou, as portas se abriram com um ding suave. Ele entrou e apertou o térreo. O elevador desceu em silêncio, apenas o som suave dos cabos e a respiração acelerada de JungKook enchendo o espaço. Na tela, os números iam diminuindo:
14… 13… 12…
Ele lembrava muito bem da última vez que Winter surtou com a possibilidade de ser fotografada com alguém. Desde que o relacionamento dos dois era constantemente especulado, qualquer encontro fora dos espaços controlados era uma bomba-relógio.
9… 8… 7…
Quando chegou no térreo, ele saiu rapidamente, olhando pelos corredores e depois pela recepção discreta do condomínio. O segurança do turno do dia levantou os olhos, reconhecendo-o de imediato, mas não disse nada ali, o silêncio valia mais do que qualquer saudação. JungKook passou direto. Do lado de fora, o estacionamento subterrâneo estava silencioso, frio e à meia luz. Foi então que ouviu passos rápidos ecoando pela rampa. Ele sabia antes mesmo de ver. Winter apareceu com capuz, máscara e a respiração pesada, segurando o celular e uma sacola qualquer que servia mais como disfarce do que como utilidade. Ele mal tinha conseguido dar um passo em direção a ela quando, pelo canto do olho, viu um vulto atrás de um carro estacionado. O reflexo da lente entregou o que faltava. Paparazzi. Não um amador. Era o tipo de fotógrafo que sabiam reconhecer de longe, roupas neutras, postura calculada, e a câmera meia levantada como se estivesse prestes a capturar o maior escândalo nacional. Droga.
O dia saiu do controle mais rápido do que ele podia gerenciar. Se aquele homem tirasse uma foto de Winter ali, naquele endereço que não deveria existir, seria um desastre sem volta. Imagens assim viravam denúncias, investigações de fãs, threads inteiras de TheQoo e NatePann.
Ele avaliou rápido o entorno. Estava tarde demais para fingir que não estava ali. Ele já tinha sido visto.
– Seo Ji-won-ssi! Por favor, espere!
Foi nesse exato momento que Ji-won surgiu atrás dele, ofegante, descendo as escadas de emergência como se estivesse fugindo de um incêndio. Os cabelos soltos, o salto pendurado na mão e a respiração irregular denunciavam a pressa e o pânico. Taehyung vinha logo atrás, não muito diferente dela, mas cheio de explicações para dar. Ji-won parou ao ver JungKook ali, como era possível? Ele estava lá em cima agora pouco. Os dois se encararam em silencio. JungKook sentiu a mente trabalhar numa velocidade quase insana. Quais eram a chance daquela situação acontecer? Ele estava literalmente entre o fogo e a espada e precisava decidir qual morte seria menos dolorosa. A cada passo que Winter dava em sua direção, era como uma tortura ecoando em sua cabeça, ele precisava fazer algo e rápido. Foi aí que o pensamento veio, rápido, sujo, quase criminoso de tão desesperado. Antes que pudesse analisar as consequências, ponderar o absurdo ou medir a imprudência, JungKook agarrou Ji-won pela cintura e a puxou contra o corpo dele. Ela só teve tempo de arregalar os olhos. Depois ele a beijou. Não foi bonito, não foi romântico, não foi ensaiado. Foi urgente. Foi um gesto cirúrgico, quase militar: encobrir, confundir, redirecionar. O clique da câmera ecoou naquele lugar como um tiro. Ji-won estava completamente confusa, o corpo rígido, o cérebro tentando acompanhar a velocidade dos acontecimentos. Winter parou onde estava, imóvel, assistindo aquela cena absurda se desenrolar diante dela. O coração partido em quantidades de pedaços que jamais conseguira contar. Segurou suas lágrimas e voltou para o carro no qual ela havia usado para ir até lá. Uma vez lá dentro, ela não se segurou e deixou todas as emoções tomarem conta de si. Já do lado de fora, haviam outras emoções para serem resolvidas, aquele beijo... O quanto ele iria custar?
Capítulo 04 – Três Meses
A reunião havia sido convocada ainda na madrugada. Ji-won não lembrava exatamente quem fez a ligação, a assessora ou o próprio RP da família, só sabia que, às seis da manhã, já havia um carro esperando na porta. O trânsito até Yongsan foi silencioso, quase cerimonial. Jungkook já estava no prédio quando ela chegou. Não houve troca de palavras entre eles no corredor, apenas um cumprimento curto e formal, como dois profissionais que tinham consciência do que viria a seguir. A sala de conferências estava cheia antes das oito, o que por si só já sinalizava o tamanho do estrago. As fotos já estavam circulando antes mesmo que o sol alcançasse o topo dos prédios. Não havia conjectura, não havia margem para negação, havia registro. Um beijo capturado em três ângulos, com flash, timestamp e o pior: contexto sugerido. O feed noticioso se multiplicava como uma corrente elétrica e a narrativa pública já havia ultrapassado o controle de qualquer assessoria. No ápice do frenesi digital, uma nota oficial da HYBE foi publicada:
“Pedimos respeito à vida privada de nosso artista, que é um adulto e tem direito à sua vida pessoal. A empresa tomará medidas legais contra assédio, difamação e especulação maliciosa.”
Não havia pedido de desculpas, não havia negação e não havia confirmação romântica. Era a forma mais moderna de dizer: aconteceu, e não é problema de ninguém. O bastante para incendiar a internet por uma semana e pautar veículos do mundo inteiro por um mês. Aquela era a primeira vez que Seo Ji-won aparecia no topo dos Trending Topics na Coreia por algo que não envolvia o nome da família Seo. O nome dela estava acompanhado de especulações, comparações e teorias de fãs que ela sequer sabia que existiam. “Herdeira misteriosa”, “possível namorada secreta”, “a garota que saiu da W Korea direto para os braços de Jungkook”. Nenhuma daquelas frases era verdadeira, mas todas pareciam convincentes quando sustentadas por fotos e vídeos replicados. Do outro lado do mundo, o fandom internacional se dividia entre defesa passional e negação histérica, enquanto o fandom coreano, menos emocional e mais pragmático, analisava ângulo, coordenava threads no PANN e discutia a veracidade da situação no theqoo. O Dispatch observava em silêncio. E nisso, todos sabiam, o silêncio do Dispatch nunca significou neutralidade. Significava negociação. A imprensa tentou contato com a HYBE, com o conglomerado Seo, com a revista W, e, quando não obteve respostas, passou ao modo especulativo. Foi então que vieram as perguntas que, de fato, importavam para a indústria.
“Existe vínculo contratual entre eles?”
“Há risco para o comeback do grupo?”
“A garota é figura pública ou civil?”
“Isso afeta a imagem na China?”
Porque para o público a pergunta era sobre beijo. Para o mercado, a pergunta era sobre dinheiro.
A sala de reuniões não tinha janelas, apenas uma mesa de madeira clara, duas garrafas de água e uma tela digital desligada. Um ambiente pensado para que emoções não encontrassem lugar para se apoiar. O ar era de crise, não de hospitalidade. Era assim que a HYBE funcionava. Sobre a mesa, impressões das fotos, no centro, o momento exato do beijo. A imagem não era o problema. O contexto era. Porque, conforme o jurídico pontuou, poucas horas antes dessa foto ter sido registrada, havia circulado um rumor menor, quase despercebido pelo público internacional, de que Taehyung teria sido visto com Ji-won durante a festa W Pink Illumination Gala, e os boatos ganharam corpo: “amiga?”, “namoro secreto?”, “escândalo de chaebol?”. Era o tipo de rumor que, sozinho, morreria em dois dias. Mas somado à foto do beijo? Virava narrativa. Jungkook entrou primeiro acompanhado pelo manager Park. Tirou o boné, cumprimentou todos com um aceno curto e se sentou ao lado vazio. Ji-won chegou minutos depois, acompanhada pela mãe e por um assistente que só disse:
– Senhorita Seo, por aqui.
Do outro lado da mesa, quatro pessoas aguardavam. Lee Hae-in, advogada da HYBE, Han Deok-su, Diretor de PR & Crisis Management da HYBE, Kim Seo-yeon, assessora jurídica do conglomerado Seo e Sora Nakamatsu, gerente de Imagem Internacional. Nenhum sorriso, nenhum aceno. O ar era de risco reputacional, não de hospitalidade.
– Estão dizendo que foi depois da festa. – comentou o manager Park, ainda analisando notificações. – Eu não estava na festa. – Jungkook respondeu, seco.
– Eu sei.
Era por isso que todos estavam ali. Porque uma mentira bem fotografada valia mais do que qualquer verdade mal explicada.
Às nove em ponto, duas equipes, dois mundos e duas narrativas colidiram na mesma mesa. O diretor Han foi quem cortou o silêncio.
– Vamos ser diretos. As fotos existem, estão sendo replicadas e não desaparecerão. O que fazemos agora define o impacto nos próximos meses.
As imagens mostravam o beijo no estacionamento subterrâneo, com Jungkook segurando Ji-won pela cintura. Não havia Winter, não havia Taehyung, não havia contexto algum além do que convenia à especulação.
– Precisamos das versões oficiais. – solicitou Kim Seo-yeon. – O que a senhorita Ji-won-ssi estava fazendo no complexo e o que levou o senhor JungKook-ssi tomar tal decisão.
Ji-won desviou o olhar para o canto da sala, aquela pergunta... ela também queria saber qual era a resposta. Depois do incidente, era arriscado demais voltar a ter contato com qualquer um deles, ela simplesmente não soube o que fazer ou como agir. Nunca esteve nessa posição antes.
E para Jungkook, era irônico que todos quisessem a verdade, mas ninguém ali precisasse exatamente dela. O que importava era a versão publicável. E ele sabia disso.
– Eu... – Ji-won não sabia por onde começar. – Eu não...
– Como todos sabem. – JungKook a cortou intencionalmente. – Seo Ji-won-ssi e eu tivemos um mal entendido no retorno dela para a Coreia e eu fui instruído a evitar alimentar rumores, portanto, não era viável estar no mesmo ambiente que a senhorita Seo. – ele fez uma pausa curta, organizada. – Acordei no dia seguinte a festa, o senhor Park me ligou, eu vi as notícias, havia algumas fotos da senhorita Seo com um dos nossos integrantes, nada sugestivo, mas o suficiente para criar um burburinho e eu optei por me manter mais afastado. – alguns olhares se cruzaram. Jungkook continuou. – O complexo é um espaço reservado, conhecido apenas pelos membros e pela empresa. Quando eu cheguei lá… – seus olhos encontraram, pela primeira vez naquela manhã, os de Ji-won. – Eu esbarrei com a Seo Ji-won-ssi saindo às pressas. Taehyung-hyung foi logo atrás pelas escadas. Eu peguei o elevador e segui para o estacionamento subterrâneo, onde um fotógrafo já estava posicionado. E então… a senhorita Seo apareceu novamente atrás de mim. Todo o resto… aconteceu muito rápido.
A menção a Taehyung fez a mesa absorver a informação com cautela. Ji-won sentiu o corpo esquentar como se a sala tivesse se fechado ao seu redor. Aquilo parecia mais íntimo do que realmente era e, ao mesmo tempo, mais distante do que ela conseguia justificar.
– E o beijo? – o RP da família Seo questionou.
A pergunta era incômoda porque reduzia algo íntimo à verbalização estratégica. Jungkook desviou o olhar para a foto e respondeu.
– Eu não queria que… criassem uma história pior.
A advogada Lee franziu o cenho.
– Pior como?
Era agora que a mentira precisava ser elegante.
– Um escândalo envolvendo o Taehyung-Hyung. – Jungkook completou. – Ou boatos sobre triangulação. Isso sempre… sai do controle.
Era uma justificativa perfeita. Não incriminava ninguém, além dos já envolvidos, e ainda dava à HYBE uma narrativa para proteger outro integrante. O RP dos Seo fez anotações rápidas.
– Então você beijou a minha cliente para evitar um escândalo pior? – RP indagou, com ironia contida.
O silêncio parecia um terceiro personagem na sala. Jungkook não piscou.
– Sim.
Não houve defesas, nem floreios. Apenas o sim.
Ji-won engoliu seco. De alguma forma, não conseguia acreditar nas palavras dele, por mais convincentes que fossem os motivos.
– Antes de qualquer coisa. – disse o diretor Han. – Nós precisamos alinhar como a empresa está vendo a situação. Desde ontem à noite, o material se espalhou rápido demais. Não temos mais controle sobre o fluxo, só sobre a resposta.
Ji-won manteve o olhar fixo no diretor, enquanto a mãe dela observava em silêncio, braços cruzados.
– E o que vocês estão pensando em fazer? – a pergunta veio da assessora Kim Seo-yeon.
– Neste momento... – continuou ele. – As perguntas estão todas direcionadas ao Jungkook-ssi, o que era esperado. Ninguém está atacando a senhorita Ji-won-ssi diretamente, porque o público não sabe quem ela é. O problema é que isso muda em questão de horas, principalmente agora que o fandom internacional começou a investigar. – o gerente abriu um tablet com gráficos e dezenas de abas para provar o seu ponto. – Nós corremos três riscos distintos aqui: imagem do artista, vida privada e segurança. – listou ele, seco. – E isso não é apenas sobre o Jungkook-ssi. A partir do momento em que o nome da senhorita Ji-won-ssi for ligado a Seo & Co., ela entra no mesmo fogo cruzado, gostem ou não.
Ji-won abaixou os olhos por um segundo. Ela sabia que ele estava certo.
A mãe de Ji-won se manteve em silêncio durante todo o discurso. Para quem não a conhecia, podia parecer frieza, quem conhecia sabia que era cálculo. Ela observava cada palavra dita pela HYBE, como quem avalia um contrato invisível. Na cultura dela, escândalo não era drama, era capital social e capital social precisava ser protegido. A advogada da HYBE tomou a palavra.
– Temos três problemas principais: reputação, timeline e narrativa pública. – ela levantou uma das fotos com um movimento preciso. – A mídia já assumiu romance. Se negarmos, vão buscar provas. Se confirmarmos, vão exigir datas. O público não é idiota.
O RP dos Seo completou.
– Para a família Seo, a reputação da Ji-won deve ser preservada. Ela não tem histórico midiático. Não podemos permitir que ela seja taxada como “influencer caça-idol”.
Ji-won abaixou a cabeça por um instante. Doía ouvir aquilo dito em voz alta, mesmo sabendo que era um risco real.
– Se houver invasão de privacidade, doxxing, perseguição física ou postagem de informações pessoais, processaremos sem hesitar. Já estamos monitorando Pann, Theqoo e DCInside – concluiu o RP.
– Já temos o fandom internacional a rastreando. – o gerente os informou, deslizando o dedo no tablet. – A China está especulando no Weibo, a América Latina no X e TikTok, e a Dispatch está checando locais e horários. Se algum desses veículos encontrar uma ligação com o Taehyung-ssi, temos um novo incêndio em questão de minutos.
De repente, Ji-won sentiu como se a presença dela não validasse em nada ali, percebeu que a opinião dela era a que menos importava. Ninguém falou em pedir desculpas pelo beijo. Esse não era mais o paradigma cultural. Um artista adulto namorar não era crime, era apenas inconveniente para o mercado.
A assessora da família Seo se inclinou para frente.
– Precisamos decidir uma linha de comunicação. Silêncio? Privacidade?
Era a pergunta que todos tentavam evitar por que era uma pergunta que ninguém podia responder sem pensar no caos que viria depois. A advogada respirou fundo.
– Então vamos para as opções.
Ela levantou um dedo.
– Opção um: Negamos completamente qualquer relação. Dizemos que era um encontro casual, que o contexto está sendo distorcido e seguimos com medidas legais contra difamação e invasão de privacidade. – disse, extremamente profissional. – Prós: protege a carreira do Jungkook a curto prazo e reduz especulação. Contras: deixa a senhorita Ji-won exposta a investigações online e pode se voltar contra nós se surgir mais material.
Levantou o segundo dedo.
– Opção dois: Não negamos, mas também não confirmamos. Apenas pedimos respeito à vida privada e agimos legalmente contra assédio e ameaças. – olhou para todos na sala. – Prós: evita mentir, não cria narrativa falsa e preserva parte da privacidade. Contras: rumores ficam vivos e a internet continua cavando.
– É por isso que eu pensei em uma terceira opção. – JungKook tornou a falar, chamando a atenção para si. – Pode ser mais arriscada, mas... também pode dar certo.
– JungKook-ssi... – seu manager o cutucou de leve, tentando evitar que o rapaz falasse demais e piorasse a situação.
– Dar o público o que ele menos espera. – ignorou o seu manager. – A confirmação.
O silêncio caiu de novo e dessa vez, mais pesado. Ji-won não soube como reagir diante aquela situação, aquilo que ele estava propondo era um absurdo. A advogada franziu o cenho, como se tivesse acabado de ouvir o maior absurdo.
– Confirmar? – repetiu, devagar. – Você realmente entende o que isso implica, Jungkook-ssi?
Ele respirou fundo antes de responder.
– Entendo que fingir que nada aconteceu só piora. Entendo que, quanto mais negamos, mais caçam. – Seus olhos percorreram a mesa. – E eu entendo que eu sou um adulto. Não um trainee de vinte anos que precisa fingir que nunca beijou alguém pra vender álbuns.
O manager passou a mão no rosto, exasperado.
– Não é sobre beijo, é sobre mercado. – murmurou, baixo demais para ser oficialmente uma objeção, mas alto o suficiente para todo mundo ouvir. Jungkook não oscilou.
– Eu sei. É sempre sobre mercado. Mas dessa vez não é só sobre mim.
Todos seguiram o olhar dele até Ji-won. Ela manteve a coluna reta, como se qualquer fraqueza pudesse virar prova contra si.
Han Soo-jin estava observando tudo de forma neutra, as pernas cruzadas, a expressão serena e intocável. Não interrompera uma única vez, porque sabia que poder, antes de tudo, é silêncio. Mas ali, por trás do brinco de pérola e da postura irrepreensível, estava uma mulher avaliando riscos como quem avalia joias. E quando percebeu que o JungKook esperava algum tipo de benevolência, ela finalmente falou, com a voz baixa, firme, e impecavelmente polida.
– O que você está propondo não é um romance, é um contrato. Certo? – deixou bem claro que entendeu quais eram a intenção dele. – E contrato exigem cláusulas, proteções e contrapartidas. A minha filha não será usada para salvar o senhor do humor de fãs adolescentes e isso não garanti que vai impedir um massacre dos mesmos.
JungKook concordou levemente.
– Não impede. – admitiu ele, sem hesitar. – Mas diminui o incentivo. Sem negar, o fandom não precisa provar nada e podemos criar nossa própria timeline.
Era pragmático. Frio, até. E era isso que deixava a sala desconfortável, ele não estava falando como artista, mas como alguém que conhecia a engrenagem por dentro.
O diretor Han cruzou os dedos sobre a mesa, pesando cada palavra.
– Do ponto de vista estritamente estratégico, a confirmação é o cenário mais caótico no curto prazo e o mais estável no longo. – fez uma pausa. – Mas não é uma decisão que tomamos sozinhos.
Todos na sala encararam a família Seo como se esperassem uma confirmação de imediato. Ji-won estava se sentindo cada vez mais exposta.
– O lado positivo de toda essa história, Han Soo-jin-ssi. – A advogada Lee tomou a palavra depois de pensar nas variáveis. – É que, inegavelmente o público tem um respeito pelo legado da sua família, a senhorita Seo não tem histórico ruim, muito pelo contrário e de alguma forma, os fãs estão controlados. Mas a pergunta é: Até que ponto? – a advogada não teve medo de apelar. – Ás vezes é melhor darmos a respostas antes de fazerem as perguntas e dessa forma, podemos controlar o que ainda pode ser perguntado.
A mãe de Ji-won observou as fotografias durante longos segundos, sem falar. Seu semblante não era de choque, era de cálculo e para quem cresceu sob dinastias corporativas coreanas, era quase um reflexo condicionado.
– Então... basicamente, se confirmarmos, podemos assumir o controle. Se negarmos, criamos uma lacuna. Qual é a alternativa? – ela perguntou, mais para si do que para os outros.
O diretor sugeriu:
– Podemos redirecionar a narrativa. Mas para isso, precisaremos que Jungkook-ssi e Ji-won-sii estejam alinhados… oficialmente.
Houve outra pausa. Desta vez, sua expressão mudou. Não para aceitação, mas para oportunidade. Soo-jin olhou para Ji-won passando uma mensagem real, não falada, não escrita, apenas subentendida: O mundo não te dá escolhas limpas. Escolha a que te deixa com poder, não a que te deixa com emoção. Ji-won respirou fundo, mas não cedeu. Ainda havia mais perguntas, mais fios soltos, mais condições.
– Quanto tempo? – Soo-jin perguntou.
A advogada não hesitou
– É difícil dizer. – exasperou. – Precisamos alinhar todas as opções, pesar novamente os pós e os contra, mas se por um acaso decidirem que assumir um relacionamento é o plausível para essa questão, então eu digo três meses no mínimo. Se o público resistir, seis. Depende da reação internacional.
O silêncio depois daqueles “três meses” pareceu durar uma eternidade. Ji-won sentiu algo dentro dela afundar, não porque era impossível participar daquela encenação, mas porque ninguém sequer perguntou se ela queria. A advogada da HYBE começou a detalhar cronogramas e possíveis abordagens de mídia, mas Ji-won já não acompanhava. Via apenas bocas se movendo, papéis sendo virados, dispositivos vibrando, como se o mundo tivesse sido engolido por um aquário sofisticado e insonorizado. Foi quando Jungkook falou, interrompendo aquela mecânica impessoal.
– Eu gostaria de falar com a Seo Ji-won-ssi. – disse, sem levantar a voz, mas com firmeza suficiente para congelar a mesa. – A sós, por favor.
Todos olharam para ele. O diretor inclinou levemente a cabeça, avaliando se aquilo era estratégico ou inconveniente. Han Soo-jin arregalou os olhos por um instante e depois fechou expressão, voltando à postura calculada de uma matriarca chaebol. Já o RP dos Seo pareceu pronto para protestar.
– Não acho que agora seja o momento para...
– Dez minutos. – Jungkook cortou, ainda sem elevar o tom. – Eu assumo total responsabilidade.
Era quase impossível negar alguém como ele, quando falava daquele jeito. Não era pedido, era um ponto final com voz.
Han Soo-jin observou a filha por um segundo. Ji-won estava rígida, mas assentiu antes que alguém falasse por ela.
– Dez minutos. – a mãe repetiu.
A sala se esvaziou aos poucos. O som das cadeiras sendo arrastadas, pastas sendo recolhidas, passos se afastando e portas se fechando deu àquele silêncio um novo peso. Um que não era mais político, e sim pessoal. Agora só havia os dois. Jungkook ficou em pé por alguns segundos, se preparando para falar com ela. Ji-won não se levantou. Manteve os olhos firme se recusando demonstrar sua insegurança. Ele respirou fundo.
– Seo Ji-won-ssi…
Ela apenas cruzou os braços, o queixo levemente erguido. Fria e inabalável. Exatamente como no dia em que se conheceram.
– O senhor falou muito bem agora pouco. – ela deixou claro que entendia muito mais do que demonstrava. – Parecia até que essa era a sua estratégia esse tempo todo.
Ele engoliu seco.
– De certa forma. – soltou um suspiro. – Sim. Pelo menos depois do nosso último encontro... tinha muito o que pensar.
Ela revirou os olhos ao soltar um sorriso irônico. Ele não podia estar falando sério.
– O que você esperava? – a questionou. – Que o paparazzo deixasse de lado o que pode ser o maior furo da vida profissional dele? Deveria ter pensando nas consequências antes de dormir com o Taehyung-Hyung.
A expressão dela mudou. Aquele dia... ainda era um mistério para ela. Os flashes iam e voltavam sem nenhuma clareza o que tornava tudo mais confuso. Ela se lembrava de ter encontrado uma amiga do meio artístico com quem manteve contato por todos esses anos, a amiga sugeriu que fossem para um lugar reservado para conversarem sobre suas vidas e o que vinha acontecendo desde que ela partira para a Inglaterra. Ela se lembrava de sentir um peso saindo das costas a cada bebida que tomava, por que era a única forma que ela achou para criar coragem e desabafar. Mas não sabia dizer em que momento Kim Taehyung-ssi se encaixava naquela história, como havia parado naquele lugar e se de fato tinha... dormido com ele. Ele continuou.
– Você acha que eu esperaria te encontrar no complexo? Naquelas condições?
Ji-won piscou. Não sabia se aquilo era defesa ou exposição involuntária.
– Você apareceu no pior momento possível. Eu tomei uma decisão ruim em dois segundos para evitar uma pior. – Ele começou a andar de um lado para o outro tentando provar algo. – Nós já temos uma narrativa, devido o mal entendido no dia que nos conhecemos, já estávamos sendo clicado juntos, nossos nomes estavam ocupando a mesma frase, mesmo que por motivos errados...
– Como se isso mudasse alguma coisa. – ela o interrompeu. – Agora eu tenho um continente inteiro discutindo se eu sou a nova "whatever" do seu fandom, e você tem a vantagem de poder se esconder atrás do “não comentamos a vida pessoal dos artistas”.
– Você realmente acredita que não haverá nenhuma consequência para mim? – ele rebateu, num sussurro áspero.
Os olhos de Ji-won oscilaram. Era uma verdade incômoda, fãs coreanas não eram indulgentes e fãs internacionais eram imprevisíveis.
– O que você quer, Jungkook-ssi? – perguntou, finalmente. – Porque não me parece que você pediu esses dez minutos para se desculpar.
Ele finalmente parou de andar pela sala e a encarou novamente.
– Eu pedi porque você merece entender no que está entrando. – respondeu. – Eles vão escolher a rota do silêncio. Já soltaram um comunicado pedindo privacidade. Não vão confirmar, não vão negar.
Ji-won cruzou as pernas, apoiando o queixo na mão como se estivesse avaliando um relatório.
– E eu deveria agradecer o aviso? – perguntou.
Jungkook humedeceu os lábios, desviando o olhar por um instante, antes de encará-la novamente. Ali vinha a parte difícil.
– Mas… – ele começou, e o “mas” já dizia tudo. – Existe outra opção.
Ji-won manteve o silêncio, esperando.
– Você sabe que já nos fotografaram juntos, mesmo antes de… – ele evitou mencionar o beijo. – Então, se quisermos dissipar o caos, podemos dar… outra narrativa.
Ji-won piscou devagar.
– Que tipo de narrativa?
Jungkook engoliu seco.
– Nós dois. Namoro falso.
A frase pairou entre eles, pesada, quase absurda de tão direta. Ji-won não riu, apenas deixou o silêncio trabalhar.
– Não era isso que você estava sugerindo antes? – ela ficou confusa.
– Sim, mas não era só isso. – Jungkook corrigiu. – Vamos dar evidência de afeto. Temos que parecer… – hesitou – Apaixonados.
– Parecer apaixonados? – repetiu ela, como quem saboreia o absurdo. – Isso é sério?
Ele a encarou por alguns segundos, estudando-a, e quando respondeu, fez com calma, como quem sabia exatamente onde tocar.
– A sua mãe te quer de volta nos negócios da família. Quer que você que faça barulho… não só nos bastidores da indústria, mas na mídia. – ele inclinou levemente a cabeça. – E isso te dá exposição. Te coloca nas manchetes certas, nos círculos certos. A alta sociedade adora um nome quente. Você sabe disso tão bem quanto eu. Se optarmos pelo silêncio, a narrativa vai morrer da mesma forma como nasceu.
– A minha família nunca...
– Nunca aceitaria isso? – ele a cortou. – Você tem certeza? – arqueou a sobrancelha. – Até onde eu sei, a Seo & Co. domina o mercado de moda na Ásia. Mas fora dele… vocês ainda são um nome sussurrado. E esse incidente coloca vocês direto no mapa. – parecia eufórico. – A poderosa Han Soo-jin teria acabado com meros rumores desde a primeira vez que eles se espalharam como apenas uma dúvida na cabeça das pessoas sobre quem seria a garota fotografada com um idol de Kpop. Somente alguns cliques e a Seo & Co. já estava estampada por toda parte. E por que você acha que ela deixaria a preciosa herdeira no meio de um fogo cruzado? – cuspia as palavras sem pensar. – Visibilidade.
Ela não reagiu, mas ele percebeu o golpe certeiro. Não era arrogância, era fato. Ela sabia que havia algo de errado no comportamento da mãe, desde que sua família é bem tradicional e conservadora.
Jungkook deu um passo à frente quando percebeu que ela não tinha contra-argumentos.
– E… – sua voz baixou – Eu não vou te arrastar para nada que não esteja sob controle. Sem escândalos baratos, sem fofocas sujas. Só… narrativa.
Ji-won desviou o olhar por um instante, raciocinando rápido, como sempre.
– Isso tudo é… de fato, conveniente para mim e para a minha família. – ela disse, por fim. – Visibilidade, reputação, posicionamento… eu entendo o que eu ganho. – Ela entrelaçou os dedos sobre o joelho. – Mas e você…? Jungkook-ssi, o que exatamente você ganha fingindo estar apaixonado por alguém que mal conhece?
A pergunta não veio com provocação. Veio como uma análise fria, um risco a ser calculado. Jungkook demorou um pouco, como se estivesse escolhendo qual camada da verdade oferecer. Quando falou, não usou o tom estratégico que usara antes.
– Paz. – respondeu.
Ji-won franziu o cenho.
– Paz? – repetiu, confusa.
Ele assentiu, enfiando as mãos nos bolsos.
– Não a paz completa, porque isso não existe para quem faz o que eu faço. Mas… a versão administrável dela. Quando existe um limite claro, as pessoas brigam menos entre elas. Investigam menos. Inventam menos. E me deixam… respirar um pouco. – ele soltou um suspiro cansado. – Sozinho, eu sempre vou ser um rumor. Mas acredito que estando com alguém, mesmo que seja de mentira, exista uma fronteira. Meu fandom vai parar de fugir de um monstro que não existe e começar a vigiar uma cerca. – ele deu um meio sorriso. – E enquanto fazem isso… eu tenho espaço para trabalhar, para viver e para não ter que explicar cada passo que dou.
Ji-won franziu o cenho.
– Mas isso não aumentaria a cobrança?
Jungkook assentiu.
– Aumentaria. Mas cobrança eu já tenho. O que eu não tenho é previsibilidade. – Ele estudou a reação dela antes de completar. – Com um namoro falso, eu vou saber exatamente qual história vão contar sobre mim pelos próximos meses. Eu sei onde vou ser visto, com quem, como e por quê. Não é liberdade, mas é controle. E na minha vida… controle vale ouro.
Não era uma resposta romântica, mas havia algo de tocante na sinceridade dele. Ji-won apoiou o queixo na mão.
– Então para você isso é… gestão de danos?
– Gestão de danos, de imagem e de humanidade. Meu trabalho é cantar e viver num palco. Todo o resto é ruído. Se eu consigo reduzir o ruído por três meses… isso já é lucro.
Ji-won ficou em silêncio, avaliando-o. Havia algo surpreendentemente vulnerável na maturidade dele, não era alguém desesperado por fama, nem alguém se escondendo atrás da empresa. Era alguém tentando sobreviver à própria notoriedade. Sua mente vagou para há alguns dias atrás, exatamente quando se conheceram. Agora era nítido aquela expressão dura, os olhos de alguém que não dormia há dias, as ações imprudentes. Ele só estava... cansado de tudo aquilo.
– Isso é muito mais honesto do que eu esperava. – ela disse, abaixando a guarda pela primeira vez que entrara naquela sala. – três meses? – ela perguntou, o tom de voz contido.
– E a gente termina. – Jungkook respondeu. – Discretamente e amigável. Sem drama.
Ji-won inspirou, analisou mais uma vez, e só então voltou a encará-lo.
– Temos um combinado? – ele estendeu a mão em sua direção.
Ela se levantou e com muita hesitação, pegou na mão dele, selando o acordo.
– Combinado.
Continua...
Nota da autora: Sem nota.
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