Entre Nós, Seoul

Última atualização: 16/03/2026

Capítulo 01 – A herdeira da família Seo.

O carro reduziu a velocidade ao cruzar o portão automático, descendo suavemente rumo ao estacionamento subterrâneo. As luzes frias refletiam no para-brisa enquanto Seo Ji-Won deslizava o dedo pela tela do celular, lendo as manchetes que já começavam a persegui-la:

"Seo & Co. revoluciona o mercado de luxo com nova linha de joias"
"Han Soo-jin brilha em evento internacional de moda. "

"Filha mais velha retorna à Coreia: Seo Ji-won foge da alta sociedade há anos.

Ela suspirou. Nem em uma hora de volta e já estava estampada por toda parte. Procurando algum ponto de ancoragem em meio ao incômodo que apertava seu peito, Ji-won levou a mão ao chaveiro pendurado na bolsa. O pequeno pingente de vidro descansava frio contra sua pele. Ela o virou entre os dedos, ouvindo o leve tilintar, quase um sussurro, enquanto observava os minúsculos grãos de areia presos ali dentro. A areia de Sussex. Era engraçado, pensou. Como algo tão simples podia carregar tanto. Quando fechava os olhos, ainda conseguia sentir o cheiro salgado do vento batendo no rosto, o barulho das ondas quebrando de forma irregular, o sol tímido de fim de tarde tingindo o mar de dourado. Aquele lugar tinha sido seu refúgio, sua pausa do mundo, o único canto onde ela não era a "filha mais velha da família Seo", apenas Ji-won.
O celular vibrou.
Mamãe. Pela vigésima vez.
Ji-won-ah, onde está? – a voz da mãe soou casual, mas Ji-won conhecia bem aquela camada de ensaio.
Eomma… – murmurou, cansada. — Não finja que não avisou à mídia que eu voltei. Já está por toda a internet.
Ora, todos estavam curiosos. — respondeu a mulher com leveza calculada. — Era melhor esclarecer.
Ji-won agradeceu ao motorista com um aceno discreto e caminhou até o hall de acesso privativo. O som dos saltos ecoava no piso de concreto, acompanhado pelo leve zumbido das câmeras rastreando cada movimento.
– Você adora isso, não é? – disse ela. – Agora que está de volta, vai começar a gostar também.
Ela revirou os olhos.
Era justamente por isso que tinha ido embora.
– E o appa? Min-ji? – perguntou tentando mudar o rumo da conversa.
O sensor detectou sua aproximação e a porta de vidro começou a deslizar. Ji-won deu um passo à frente, mas não chegou a cruzar a linha. Um braço surgiu de lado, firme como uma barreira a puxando para trás. O movimento foi rápido demais para que ela pudesse reagir. O impacto leve no antebraço a fez perder o equilíbrio por um instante. A bolsa escorregou, o celular caiu no chão, e a voz da mãe se transformou em estática distante.
Ji-won ergueu os olhos, o coração acelerado.
O homem à sua frente usava uma máscara preta e o boné baixo, mas os olhos tensos, afiados, exaustos. Bastavam para transmitir a mensagem: ele estava no limite.
– O que pensa que está fazendo? – perguntou ela, tentando manter a postura, mesmo com o susto.
Pare aí. – a voz dele saiu baixa e áspera, cortando o ar entre os dois. Não era um pedido; era um aviso. – Esse acesso é exclusivo. Você não deveria estar aqui.
Ela piscou confusa.
– Na verdade... eu não... – ela tentou se explicar.
Ele soltou um suspiro curto e incrédulo, já sabia quais desculpas ela iria inventar.
– O que? Só está de passagem? Veio visitar um parente? É claro – O tom seco carregava desconfiança. – Igual as outras.
Ji-won franziu o cenho.
– Outras...? – estava completamente confusa. – Você pode me soltar? – tentou puxar o braço, mas a força dele era dominante a dela.
Antes que ela pudesse questionar o que estava acontecendo, dois seguranças do prédio apareceram do corredor, aproximando-se de forma cautelosa, claramente já orientados para lidar com intrusos.
– É ela? – perguntou um dele.
Ele hesitou apenas um segundo, mas o suficiente para denunciá-lo.
– Ela entrou ontem a noite também. – respondeu irritado. – Ficou rondando o estacionamento. Eu quase não consegui chegar em casa.
– Mwo? (O quê?) – Ji-won exclamou não acreditando no que estava sendo acusada.
– Não precisa fingir. – retrucou ele, afastando levemente a máscara. – A administração tem tudo registrado.
A luz branca do corredor bateu no rosto dele, o revelando por completo.
Jeon JungKook.
Os olhos que estampavam outdoors, capas de revista, transmissões ao vivo estava agora a poucos centímetros dela.
– Jeon... JungKook? – sussurrou, atônita.
Ele desviou o olhar, cerrando o maxilar, como alguém que já tivesse ultrapassado o limite do cansaço.
– O gerente está vindo. – murmurou para um dos seguranças. – Não quero repetir isso amanhã.
Espera! – Ji-won ergueu a mão, tentando alcançar a bolsa para mostrar o cartão de acesso. – Isso é um mal-entendido, eu só…
Antes que pudesse tocar nas chaves, Jungkook agarrou seu pulso novamente, um gesto rápido, instintivo, nascido do esgotamento. Ele estava farto daquela situação, farto de ser encurralado, farto de ouvir que era "por serem fãs". Naquele momento, decidiu que imporia um limite, nem que fosse da pior forma possível. Ji-won sentiu um risco cortar a sua pele e o pingente de vidro estalou entre eles. O som foi pequeno, quase delicado, mas o impacto foi cruel. Os grãos de areia se espalharam pelo chão, cintilando sob as luzes brancas. Uma gota de sangue surgiu na mão de Ji-won, deslizando lentamente entre os dedos.
Por um instante, Jungkook apenas a encarou e algo em seu olhar, culpa talvez, piscou antes de desaparecer sob a rigidez do seu rosto.
– Eu não... – balbuciou meio hesitante. – É por isso que não deveria ter vindo aqui.
O elevador privativo se abriu atrás dele o manager surgiu, cabelo bagunçado, óculos tortos, claramente tirado da cama ás pressas.
– Jungkook-ah, por favor... – resmungou. – Vamos tratar disso com calma.
Jungkook passou por Ji-won sem encará-la de novo, a máscara de volta ao lugar em seu rosto.
– Se a administração confirmar, tudo bem. – disse ele, a voz fria. – Mas chega de gente entrando aqui. Eu não aguento mais.
Dois carros pretos surgiram no estacionamento, JungKook entrou em um deles, fechando a porta com força contida.
O manager soltou um suspiro, virando-se para Ji-won com uma expressão de desconforto.
– Agassi, mil desculpas. – disse, inclinando-se levemente. – Houve incidentes recente. A segurança está no limite. Precisamos que venha conosco.
Ji-won ergueu o queixo, sentindo o seu orgulho ferido.
– Não precisa. – olhou para os seguranças que se acercaram. – Eu faço questão.

***


As luzes fluorescentes zumbiam e lançavam um brilho esverdeado sobre o balcão gasto. Uma policial digitava no computador com uma rapidez automática, mas os olhos dela, sem nenhuma vergonha, subiam de tempos em tempos, fascinados demais para fingir indiferença. Outro policial, no telefone de emergência, esforçava-se em manter a voz serena, mas o tremor nas mãos denunciava seu conflito interno: manter a postura profissional… ou pedir um autógrafo ao homem sentado a dois passos de distância.
Jeon Jungkook
O ídolo mundial. O homem que, algumas horas antes, acusara Ji-won de invadir seu prédio. Ele parecia deslocado, inquieto, o maxilar apertado numa linha rígida. Era óbvio que ele não estava acostumado a lidar com problemas pessoais em público. Muito menos em uma delegacia comum, iluminada por luzes baratas e cheio de olhares curiosos.
Ji-won cruzou os braços e recostou-se na cadeira dura, observando-o com calma estudada. Esperava com uma paciência que já estava no limite, alguma explicação minimamente lógica para aquela situação absurda.
– O senhor está me dizendo que essa pessoa é uma das suas sasaengs que têm tentado entrar na sua garagem? – perguntou o policial, a voz firme e baixa, já pronto para registrar o depoimento.
O manager de Jungkook foi rápido, quase ansioso, em dar um passo à frente.
– Oficial-nim, faz dois dias que ele voltou para casa e já tentaram invadir a garagem duas vezes – disse, a voz apressada.
Ji-won revirou os olhos, visível o bastante para provocar uma pequena tosse de alguém tentando esconder o riso no fundo da sala. O barulho atraiu o olhar de Jungkook, que virou o rosto em sua direção como se ela tivesse acabado de o insultar diretamente.
– Yah, você está levando isso a sério? – disparou com uma voz carregada de incredulidade.
– Senhor Jeon. – o policial o cortou com calma treinada. – Vamos manter a compostura. E a senhorita... preciso da sua identificação e de uma resposta objetiva: por que estava na área restrita do prédio?
Ji-won pousou sua identidade sobre o balcão com movimentos calmos, quase calculados.
– Porque eu moro naquele prédio, oficial-nim.
O silêncio que se seguiu foi quase cômico. Os policiais se entreolharam, surpresos. Jungkook soltou uma risada curta, claramente descrente.
– Essa foi boa. Melhor do que quando fingiu estar surpresa ao me ver, como se não soubesse quem eu era até eu me revelar.
– Seo Ji-won...? – o policial leu o nome devagar, franzindo o cenho.
– Aigo! Eu sabia! – exclamou a policial da mesa ao lado quase saltando da cadeira. – A herdeira mais velha da Seo & Co.! A senhorita voltou hoje, não foi? Saiu em todas as notícias.
Ela já segurava o celular, animada demais, quase tremendo. Os dois policiais no fundo começaram a sussurrar entre si, e um deles soltou um "jinjja? " abafado.
– Está me dizendo que ela é… da família Seo? – Jungkook virou para seu manager, completamente descrente. – Hyung, isso faz sentido pra você? Você também viu ela tentando entrar no meu andar!
O manager ajeitou os óculos, o rosto se contorcendo num desconforto visível.
– Havia alguém, sim... mas... não vimos o rosto. – admitiu, quase engolindo as palavras.
Ji-won deslizou a chave de acesso do elevador até o centro do balcão, Jungkook não pode deixar de reparar no curativo improvisado em seu dedo que estava machado de vermelho fresco. Por um instante, a irritação dele vacilou.
– Esta é a minha chave de acesso. Eu teria mostrado antes de tivesse tido a oportunidade de me identificar. – disse, com a voz firme. – Como já devem saber, retornei à Coreia hoje e coincidentemente moro no mesmo prédio que o senhor Jeon. – O olhar dela finalmente encontrou os dele desde que pisara naquela delegacia, ele notou que havia uma certa raiva contida neles. – Como eu disse, tudo isso não passou de um mal entendido.
Um dos policiais riu baixo.
– Daebak... isso dá uma série melhor do que Reply 1988.
O oficial que conduziu o interrogatório suspirou fundo.
– Certo. Vamos registrar como um... "significativo mal-entendido".


***



Lá fora, o vento da madrugada cortava a pele como lâminas finas. Ji-won já estava há mais de meia hora tentando chamar um táxi, o frio entrando pelos punhos da blusa, irritante, persistente. As ruas estavam vazias, silenciosas demais para uma cidade que raramente dormia. Nenhum farol ao longe. Nenhum motor. Nenhum indício de vida. Seul parecia observá-la de longe, indiferente, como se dissesse "você escolheu voltar, lide com isso. " Foi então que o mesmo carro preto de antes surgiu, deslizando pela rua molhada até parar diante dela. O vidro escurecido impedia qualquer visão, mas o clique suave da porta do passageiro se abrindo foi suficiente para tencionar seus ombros.
– Entre.
Ela ergueu os olhos, exausta demais para esconder o sarcasmo.
– Você só pode estar brincando.
Jungkook se inclinou um pouco, o rosto iluminado pela luz do poste. Respirou fundo, pensando nas palavras duas vezes antes de falar.
– Senhorita Seo… Seo-ssi – corrigiu com a formalidade adequada, mesmo que soasse engolida. – Não há táxis circulando agora. Por favor, entre. – A impaciência ainda estava lá, vibrando sob a superfície.
Ji-won permaneceu imóvel, encarando-o. Havia tensão em seus olhos. Ela revirou os olhos antes de se virar e começar a caminhar, os saltos ecoando contra o asfalto molhado. O carro permaneceu parado até que a porta se abriu, passos rápidos atrás dela. Uma mão tocou seu pulso de forma impaciente, mas também hesitante. Ela se virou devagar. Jungkook estava perto demais. A luz fraca revelava a preocupação contida em seu olhar, fixo no machucado que ele causara em um momento irracional.
– Ainda está sangrando. – murmurou em um sussurro.
Era uma frase simples, mas o tom, não.
Sema arrogância, sem raiva, sem a defesa automática que ele exibiu mais cedo. Apenas o cansaço e algo que beirava a culpa. Ele abriu a boca para continuar, mas hesitou. As palavras não vieram. O silencio aproveitou a deixa. Dotou uma postura mais rígida, embora tudo aquilo tivesse sido espelho do seu comportamento.
– Permita-me leva-la para casa. – tornou a falar com o tom baixo, nada impositiva. – É o mínimo que eu posso fazer.
Ji-won inspirou devagar. Encarando os olhos dele que agora lhe pareciam pedir desculpas no lugar das palavras.
– O mínimo que pode fazer, Jeon Jungkook-ssi... é me deixar em paz. – sua voz soou cortante. – Acredite, não é somente o senhor que está tendo um dia péssimo.
Ela puxou sua mão de volta e deu um passo para trás, firme, definindo claramente a distância que queria manter. Quando a conversa morreu ali ou quando ela decidiu que morreria, Ji-won ergueu o celular, atendendo a ligação que surgia na tela. Sem olhar para ele nem uma única vez, seguiu pela calçada com passos longos, determinados. Seul a recebia de volta exatamente como ela lembrava: Fria. Barulhenta. E sem nenhum espaço para remorso.

Capítulo 02 – Ruído Branco

06/13/25 – Friday
1:45 a.m.


A porta bateu com um clique macio atrás de Jeon JungKook quando ele entrou no apartamento. Parecia estranho estar ali, como se o lugar tivesse ficado grande demais enquanto ele esteve fora. O silêncio, que antes era um presente, agora parecia um pouco agressivo. Ele tirou a máscara devagar, passou a mão pelo rosto e não gostou do que viu no reflexo da janela: olheiras fundas, olhos avermelhados, o maxilar travado. Estava esgotado. Irritado. Envergonhado. Perdido. Tudo ao mesmo tempo. O manager surgiu logo atrás.
– JungKook-ah... – a voz era baixa e cautelosa.
Ele não respondeu. Apenas seguiu até a sala e deixou o corpo cair no sofá. O manager sentou-se na poltrona à frente, segurando o tablete com as duas mãos.
– A empresa já está lidando com isso. – começou. – Mas precisamos conversar.
JungKook passou a língua pelos lábios, os sentindo secos.
– Sobre o que? – perguntou em um tom quase roco.
O manager virou a tela em sua direção.
Capturas de tela, hashtags, comentários, vídeos de segurança vazados. Gente marcando o prédio, HYBE, seus amigos de banda, até mesmo familiares. E claro... "A mulher misteriosa. "
Seo Ji-won.
A mulher que ele havia tratado de forma imperdoavelmente grosseira. A quem machucou física e emocionalmente. O olhar dela antes de ir embora ainda perfurava seu estômago como vinagre em ferida aberta.
Ele engoliu em seco.
– A empresa acha que isso pode se tornar um escândalo maior se descobrirem a identidade dela. – disse o manager.
JungKook franziu o cenho.
– Não foi minha culpa.
– Mesmo assim… – o manager passou a mão pelo queixo antes de continuar. – Há vídeos em que você aparece segurando a mão dela. Estão distorcendo tudo, fazendo parecer que vocês têm algum tipo de relação e…
– Como assim? – JungKook ficou confuso.
– Você sabe como eles são… a imprensa, os internautas. — Suspirou. — Nenhuma fã ultrapassou o portão do lobby antes. A Seo Ji-won-ssi estava perto demais para ser "apenas uma fã".
JungKook fechou os olhos. Ele não queria lembrar disso.
Mas lembrava, muito bem.
– Ela não é uma sasaeng. – murmurou.
Era a primeira vez que ele admitia isso em voz alta desde o incidente.
O manager respirou fundo.
– Nós sabemos disso. Mas a internet não sabe. E não quer saber.
Um silêncio pesado caiu.
Jungkook passou as mãos pelos cabelos se sentindo frustrado.
– A empresa quer que você mantenha distância. – continuou o manager. – Absoluta. Nada de encontrá-la por um acaso, de falar com ela. Nem mesmo pisar no lobby sozinho por alguns dias. Por que não pensa na possibilidade de ficar em outro lugar até que as coisas esfriem?
Ele pressionou os olhos com o polegar e o indicador.
– Quanto à Kim Min-jeong-ssi… — Jungkook congelou. O nome de Winter sempre vinha carregado de turbulência. — A HYBE acha melhor você cancelar sua aparição no W Gala.
JungKook abriu os olhos devagar.
– Eles acham melhor? – perguntou em um sussurro.
– Eles acham indispensável. Desde que você foi ao show da Aespa, a Kim Min-jeong-ssi está recebendo ondas de comentários negativos. Não queremos alimentar mais rumores, certo?
Ele revirou os olhos, cansado de ser refém da mídia e de perder o direito de existir em paz. Seu manager ao notar sua expressão, trancou a respiração enquanto escolhia as palavras.
– Se vocês dois forem vistos no mesmo evento, mesmo que apenas troquem olhares... a mídia vai transformar isso em uma narrativa.
Jungkook ficou em silêncio por longos segundos. Ele não era ingênuo. Estar no mesmo lugar que Winter, depois de tantos rumores, só pioraria tudo. A repercussão seria monstruosa. Mas essa era a última coisa com que ele estava se preocupando no momento. A expressão daquela mulher, a forma como ela o olhou na delegacia, na frieza educada, na ferida que ele havia causado... Aquilo estava descendo de forma amarga em seu estômago.
– Temos um combinado, Jungkook-ah?
A voz do manager o trouxe de volta ao presente.
– Eu não vou. – disse, por fim. – Cancela tudo.
O manager tentou não demonstrar alívio, mas sua postura relaxou.
– Vamos divulgar uma nota dizendo que você está descansando e que precisa de tempo. — fez uma pausa. – A empresa também pediu que você fique off-line. Nada de lives, fotos, ou posts.
Jungkook soltou uma risada seca.
– De novo?
O manager fechou o tablete devagar.
– Ei… — disse com suavidade. — Você não é o vilão aqui.
JungKook olhou para a própria mão, se lembrando da força que usara para segurar o braço da Seo Ji-won-ssi.
– Então por que é exatamente assim que estou me sentindo... – sussurrou para si mesmo.
Ele se recostou no sofá, o peito apertado. Uma mistura de culpa e cansaço pesando nos ombros.
– Tenta dormir um pouco. A empresa vai apagar o incêndio. Você só... respira, hm?
Respirar.
Parecia simples.
Mas também parecia impossível.



***

06/13/25 – Friday
11:50 a.m.




O barulho que acordou Ji-won não era do despertador, nem dos carros na rua, mas sim o seu celular vibrando. Insistentemente. Quase furiosamente. Ela abriu os olhos de vagar, piscando contra a claridade suave que invadia a cobertura. A casa estava silenciosa, talvez até demais. A cabeça latejando, assim como coração. A roupa ainda era a mesma da noite anterior, não lembrava de muito depois de tomar um remédio para dormir, mas o que ela gostaria de esquecer estava cada vez mais vivido em sua memória. Ji-won respirou fundo antes de tocar no celular enquanto o mesmo vibrava sem cessar. Ela finalmente deslizou o dedo pela tela e o mundo despencou sobre ela.
Notificações.
Centenas. Mensagens de desconhecidos, mencions, matérias, vídeos do incidente. Trecho borrados e alguns não tão borrados assim. Um dos títulos aparecia direto na tela de bloqueio:

"Mulher misteriosa envolvida em confusão na casa de Jeon JungKook. " Ji-won sente o estômago afundar ao empurrar o celular para longe, como se ele queimasse os seus dedos, mas isso não impediu o celular de continuar vibrando. Ela apertou as têmporas, respirando fundo. Sentou-se na borda da cama por alguns segundos, tentando alinhar o mundo interno e o mundo externo. Sem sucesso. Então decidiu explorar sua nova casa. O apartamento estava do jeito que ela sempre quis: Minimalista, clean, aconchegante e sem exagero. A sala integrada, as plantas, a cozinha impecável... A fazia lembrar de sua casa na Inglaterra e isso era bom, era mais fácil de se sentir em casa. Caminhou descalça até a cozinha, ligando a cafeteira e tentando ignorar o celular que vibrava no balcão. Falhando miseravelmente. A tela acendeu novamente, desta vez, com notificações específicas:

Pai – 6 chamadas perdidas.
Mãe – 12 mensagens.
Hyun-woo – 8 mensagens.
Min-ji – 1 áudio de 22 segundos.


Ji-won apoiou as duas mãos no mármore da cozinha e ficou ali, curvada, tentando não dissolver.
O café terminou de passar, ela se serviu uma xícara e segurou com as duas mãos enquanto trava uma luta interna sobre atender as chamadas ou simplesmente ignorar tudo e todos. O celular tornou a vibrar, desta vez, ela atendeu.
Finalmente. – disse uma voz feminina, seca e tensa.
Ji-won fechou os olhos.
– Bom dia para você também, eomma. – ela murmurou, irônica.
Não temos tempo para ironias. – sua mão exasperou do outro lado da linha. – Você está na internet inteira.
Ji-won respirou fundo ao encostar o quadril na bancada.
– É, eu... Eu percebi.
Vamos resolver isso imediatamente. Preciso que venha para casa.
– Não!
Silêncio.
Soo-jin não era do tipo que estava acostumada a ouvir a palavra "não"
Ji-won-ah. – a voz estava impaciente. – Isso não é opcional.
– Eu não fiz nada de errado. – respondeu firme. – E eu não vou correr para casa como se tivesse.
Soo-jin respira fundo.
– Muito bem. Você já grande o suficiente para lidar com os seus problemas sozinha. – Soo-jin decidiu recuar no seu papel de mãe protetora com medo de que Ji-won decidisse voltar para a Inglaterra como havia feito há cinco anos ao se sentir pressionada pelo legado da família. – Só não se esqueça que amanhã é o W Pink Illumination Gala. Onde iremos debutar o seu retorno oficialmente a Coreia. Arasseo?
– Eomma, eu estou no meio de um escândalo com uma das maiores figuras públicas mundialmente. Você realmente acha uma boa ideia aparecer nesse evento?
Vai, sim. Porque você é uma Seo. E por que se você não for, irão acreditar que você tem algo a esconder.
A frase caiu pesada entre elas.
Estarei te esperando para o almoço. Não se atrase.
E desligou.
Ji-won ficou olhando para o celular como se aquilo fosse fazer parar de fazer as notificações chegarem. Com o café agora morno em mãos, ela caminhou até a sala devagar, sentindo a tensão escorrer pelo corpo e se sentou no sofá. Respirou.
A TV estava desligada.
Ela hesitou.
Depois ligou.
Imediatamente, o rosto de JungKook apareceu rapidamente entre as matérias, flashes, repórteres na frente do prédio, especulações. Resolveu mudar de canal. E lá estava ela, capturada de um ângulo péssimo, com a expressão perdida no pingente quebrado no chão. É claro, Sussex. Ela havia esquecido de Sussex por algumas horas, talvez desde a madrugada. Sua única lembrança viva de um lugar que agora existia só na memória. Olhou para o curativo improvisado em seu dedo e alguns flashes da madrugada teimaram em aparecer. Por mais que ela quisesse esquecer toda aquela situação, ela sabia que na verdade, era apenas o começo.

Capítulo 03 – Efeito Dominó

Ano 2025, dia 14 de junho.
7:08 P.M


O carro deslizou até a entrada principal do W Pink Illumination Gala e Ji-won sentiu, por um instante, o desconforto do silêncio dentro do veículo. Era enganoso, incômodo, até porque assim que a porta se abriu, o mundo explodiu. A herdeira havia retornado.
Seo Ji-won-ssi!
Aqui!
Olhe para ele lado!
Os flashes estouravam em sequência, brancos, quase violentos. O salto firme tocou o tapete rosado, e o vestido impecável, meticulosamente cortado, parecia ter sido moldado para aquele preciso momento. Ji-won ergueu o queixo, postura exata entre cordialidade e distância Enquanto caminhava, um repórter de entretenimento do Xports News deu um passo à frente, levantando o microfone.
– Seo Ji-won-ssi, podemos pedir um comentário sobre os rumores de relacionamento envolvendo Jeon Jungkook-ssi?
Ji-won não parou de andar. Sorriu apenas o suficiente.
Boa noite. Estamos aqui para apoiar uma causa importante. Espero que possamos manter o foco nisso.
Outro repórter, agora do Sports Seoul, insistiu:
Então a senhorita confirma que conhece Jeon Jungkook-ssi? Qual é a relação entre vocês?
O tom era formal, mas o peso das palavras era claro, a expressão de Ji-won não vacilou
– Esta noite não é sobre relações pessoais. – respondeu com serenidade – Estamos falando de prevenção, diagnóstico e tratamento de um câncer que atinge milhares de mulheres todos os anos.
Houve um breve silêncio, os repórteres não esperavam uma resposta tão precisa.
– Mas Seo Ji-won-ssi... – tentou outro – Acredita que é melhor esclarecer antes que os sites publiquem especulações?
Ji-won deixou escapar um sorriso, aquele sarcástico, reservado para situações em que o absurdo era grande demais.
– O público tem o direito à verdade. – respondeu. – E hoje, a verdade mais importante a ser dita é sobre diagnóstico precoce, apoio às pacientes e investimento em pesquisa.
Uma pausa.
– Acredito que isso seja bem mais relevante do que especulações sobre a minha vida pessoal.
Os flashes explodiram outra vez. Ji-won retomou o passo, deixando para trás os repórteres, os microfones e as perguntas que não mereciam resposta. Por dentro, o coração ainda acelerava. Por fora, ela era impecável.
Uma Seo.
Ji-won respirou fundo, endireitou os ombros e ergueu o queixo. Ela podia não se sentir parte daquele mundo, mas pertencia a ele, gostasse ou não. Os olhares começaram a segui-la, alguns curiosos, outros avaliadores, alguns carregados de expectativas silenciosas. O sobrenome Seo ainda tinha peso suficiente para dobrar conversas ao meio. Ela manteve o sorriso discreto, o olhar atento, o passo firme e enquanto atravessava a entrada, Ji-won sentiu o contraste apertar o peito. A parte dela que aprendera a viver fora da Coreia, longe de holofotes, longe de sobrenomes, queria virar as costas, desaparecer no anonimato. Mas essa parte não vestia um vestido de gala, aquela noite exigia outra versão. Ji-won fez uma leve inclinação de cabeça ao ser cumprimentada por um dos organizadores, respondeu com educação precisa, sem excesso. Não precisava se esforçar para ser elegante. Aquilo lhe fora ensinado antes mesmo de entender por quê. Ao cruzar as portas do salão principal, Ji-won sentiu o peso simbólico daquele gesto. Entrar ali não era apenas comparecer a um evento. Era aceitar, mais uma vez, o lugar que o mundo insistia em lhe reservar, mesmo sentindo que não pertencia completamente àquele cenário.
Seo Ji-won-ssi. – disse um homem de meia-idade, trajando um terno perfeitamente alinhado. Ela o reconheceu imediatamente: um dos principais patrocinadores do evento. Já faz um tempo.
Ji-won inclinou levemente a cabeça, num cumprimento preciso.
É um prazer revê-lo. Obrigada por apoiar uma causa tão importante.
Ele sorriu, satisfeito com a resposta correta, aquela que não exigia continuidade pessoal, apenas validação social.
Sua família deve estar feliz em tê-la de volta ao país.
Antes que pudesse seguir, outra voz se aproximou.
Seo Ji-won-ssi! – uma mulher elegante, ligada ao conselho criativo da W Korea, segurava uma taça que já não parecia ser a primeira da noite. Você está deslumbrante.
Ji-won sorriu novamente. Um sorriso que não alcançava completamente os olhos.
Obrigada. A senhora também. – disse, mesmo sabendo que aquela troca não passaria dali.
Um clique alto ecoou. Ji-won virou levemente o rosto para a câmera mais próxima, ajustando o ângulo do sorriso, o ombro, a postura. Tudo em perfeita harmonia com o que se esperava de alguém do seu sobrenome. À medida que avançava, os cumprimentos se repetiam, quase como um roteiro silencioso, ela respondia a todos com educação impecável, inclinações medidas, palavras exatas. Nenhuma a mais. Nenhuma a menos. Observava enquanto caminhava os grupos que se formavam e se desfaziam rápido demais. Risos altos para um evento que falava sobre prevenção, perdas e sobrevivência. Taças que se enchiam com uma frequência inconveniente. Conversas atravessadas que morriam assim que uma câmera se aproximava. Conscientização em copos largos, pensou, sem permitir que isso transparecesse. Outro flash. Ela sorriu de novo. Dessa vez, um pouco mais curto.
– Se me permite. – A voz grave chegou antes da presença ser totalmente percebida. Quando Ji-won virou o rosto, encontrou uma taça levemente inclinada em sua direção. – Você parece estar precisando de uma dessas para conseguir aguentar todas essas bajulações.
Kim Taehyung estava parado bem ali, à sua frente. Por um breve segundo, algo dentro dela se deslocou, não por admiração ou surpresa, mas pela consciência súbita de que ele escolhera falar com ela abertamente, sabendo exatamente qual era o estado atual da internet e dos tabloides envolvendo o nome "Seo Ji-won" e "Jeon Jungkook". Ainda assim, Ji-won não demonstrou nada além do aceitável.
Água com gás. – disse se referindo a taça em sua mão. – Imaginei que talvez você precisasse de algo que não exigisse mais brindes.
Uma suposição bastante precisa. – respondeu, aceitando a taça. Obrigada.
Essas noites costumam ser… intensas. – continuou ele, observando o salão por um instante. Muitas pessoas falando ao mesmo tempo. Poucas dizendo algo que realmente importa.
Ji-won levou a taça aos lábios, apenas um gole.
É um talento difícil de dominar. – comentou. Saber quando falar e quando apenas parecer interessado.
Taehyung soltou uma breve risada baixa, discreta demais para chamar atenção.
Você parece dominar bem os dois.
Ela inclinou a cabeça, educada. Houve um breve silêncio confortável até que ele retornasse a falar.
Eu acompanho o trabalho da sua família. – disse, sem floreios. – Especialmente no setor de moda. A forma como equilibram tradição e inovação… é interessante.
Ji-won não conseguiu esconder a surpresa. De todos assuntos possíveis para serem abordado, jamais achou que Kim Taehyung estaria interessado nos negócios de sua família.
Fico feliz em ouvir isso. – respondeu, em fim. Nem todos se dão ao trabalho de observar além do sobrenome.
Seria um desperdício. – disse ele, simples. Moda não é só estética. É linguagem. Identidade. Posicionamento.
Ela o encarou por um segundo a mais do que o protocolo exigia. O suficiente para qualquer mal-entendido, mas não pode evitar. A Seo & Co. não era apenas uma casa de moda. Era um império que transitava entre alta-costura, prêt-à-porter, joalheria e investimento cultural, respeitado por manter raízes tradicionais enquanto ditava o ritmo do mercado global.
O senhor fala como alguém que entende do assunto.
Tenho um apreço antigo. – respondeu, girando levemente a taça entre os dedos. Não apenas por vestir, mas por construir algo que permaneça.
Ji-won assentiu devagar.
– Então entende por que escolhemos ser cuidadosos com cada passo. – disse. – Principalmente quando tudo é observado.
Desta vez, não eram flashes do evento. Eram cliques secos, rápidos, vindos de algum ponto mais distante do salão. Quem estava fotografando não tinha interesse no vestido, nem no tema do evento, apenas no ângulo certo entre eles. E mesmo sem olhar diretamente, soube: Dispatch ou algo similar havia enviado alguém, infiltrado no staff ou na área de imprensa interna. Não era novidade. Grandes eventos de moda e beneficência eram terreno fértil para isso. Instintivamente, Taehyung ajustou o corpo meio passo à frente, bloqueando parte da linha de visão das câmeras. Não era um gesto protetivo. Era técnico, coisa de quem aprendeu a sobreviver à mídia coreana
Imagino que esta noite esteja sendo… exaustiva. – comentou. – Bajulações tendem a cansar mais do que críticas.
Ji-won sorriu de novo. Dessa vez, com um toque sincero.
Pelo menos as críticas costumam ser honestas.
Ele ergueu a taça, em um brinde silencioso.
À honestidade, então. Mesmo quando ela aparece disfarçada.
Ela ergueu a dela em resposta.
Então outro clique. E dessa vez houve luz. O reflexo no vidro entregou: foco teleobjetiva, distância, captura de ângulo. Ji-won ainda segurava a taça, corpo levemente inclinado na direção de Taehyung, nada íntimo, nada escandaloso, mas, nas mãos erradas, suficiente para virar:
"Seo Ji-won próxima a V do BTS. Triângulo amoroso? "
– Tudo bem para você? – ela perguntou de forma desinteressada. Não precisava ser associada a mais nenhum escanda-lo que distorcesse totalmente a verdade.
Taehyung olhou para o reflexo no vidro por uma fração de segundo.
– Parece que nossa conversa ficou interessante para terceiros. – disse, leve, quase entediado.
Ji-won exalou um suspiro curto.
– Eles amam uma narrativa. – disse Ji-won, com um sorriso pequeno. – Infelizmente, o contexto nunca vem incluído.
– É pedir muito. – ele suspirou, quase dramático. – Contexto atrapalha o engajamento.
Ji-won teve que segurar uma risada.
– Que pena. Justamente quando eu esperava que pelo menos um rumor tivesse bom senso.
– Rumores têm? – Taehyung franziu o cenho em falsa surpresa. – Preciso conversar com o meu departamento de relações públicas.
– Quem não se interessaria por um triangulo amoroso envolvendo uma herdeira e dois melhores amigos? – Taehyung sorriu, apreciando a precisão.
– Não se preocupe, eu não me arriscaria a vir falar com você se não soubesse exatamente o que estava fazendo. – Ele olhou discretamente para o canto do salão. Um homem surgiu, postura profissional, atenção fixa. Staff, segurança, ou funcionário interno... Ji-won não saberia dizer. Recebeu instruções silenciosas através de um olhar. Isso era o suficiente.
Se isso virar assunto. – disse ela, com educação impecável – Espero que seja tratado com a mesma superficialidade com a qual foi capturado.
Taehyung a observou por um instante mais atento.
– Estou contando com isso. – ele deu um gole singelo de sua bebida.
– O que quer dizer? – ela franziu o cenho.
Taehyung deixou um sorriso divertido escapar de seus lábios.
– Foi um prazer, Seo Ji-won-ssi...
Com um aceno cordial, desapareceu no meio do salão com a mesma precisão com que surgira.





***

Ano 2025, dia 15 de junho.
10:35 A.M


JungKook acordou antes do despertador. O quarto ainda estava escuro, o silêncio pesado demais para ser confortável. Ele levou alguns segundos para lembrar onde estava, como se o corpo tivesse voltado antes da mente. O celular vibrava sobre a mesa de cabeceira. Insistente. JungKook passou a mão pelo rosto antes de pegá-lo, e se surpreendeu com o que viu: notificações acumuladas, mensagens não lidas, links enviados pelo manager, pela equipe de comunicação e até por pessoas que não sabiam mais como falar com ele sem atravessar o filtro da cautela. Ele abriu a primeira notícia.

"Evento beneficente ou festa de celebridades? Público critica Love Your W 2025. "

Ele franziu o cenho enquanto rolava a manchete.
Fotos dos membros do BTS, incluindo V e J-Hope, aespa, IVE, Stray Kids, atores como Byeon Woo-seok circulavam em looks glamorosos e taças em mãos. Relatos criticavam que o evento parecia uma festa de luxo em vez de uma campanha séria de conscientização sobre câncer de mama. Mais abaixo, outra notícia:

"Faltou foco no propósito: ausência de símbolos como a fita rosa e fala sobre prevenção. "

Por alguns segundos ele ficou feliz por ter cancelado a sua aparição, mas sua felicidade durou somente até ele ler o nome que foi o motivo do cancelamento.

"Uma das poucas que realmente pareceram entender o propósito da noite. "

"Elegância e propósito: público aplaude sua postura sóbria. "
"Ji-won deixa o evento cedo, e isso é visto como respeito ao motivo real da campanha. "

Aquelas frases se destacavam em meio a críticas sobre fotos de convidados bebendo, dançando e se distraindo como se fosse apenas um coquetel comum. JungKook encostou-se ao colchão, o olhar fixo no teto por um momento longo demais até que sentiu o seu celular vibrar novamente. O nome do manager apareceu no visor, ele atendeu sem dizer nada.
- Você já viu as notícias de hoje? – a voz do outro lado soava cansada, mas controlada.
– Vi. – respondeu JungKook, direto.
- A repercussão mudou. – disse enfim. – E rápido.
JungKook apoiou o cotovelo na coxa, o celular firme na mão.
– Mudou como?
O foco saiu de você. – explicou. – E, principalmente, do rumor.
JungKook franziu levemente o cenho.
– O que?
– As pessoas estão elogiando a postura da Seo Ji-won-ssi. – continuou o manager. – Muita elegância, propósito, maturidade… essas palavras estão aparecendo com frequência.
JungKook não respondeu de imediato.
Isso fez diferença. – acrescentou o manager. – Quando o público percebe que não há escândalo real, a indignação perde força.
– E os fãs? – perguntou JungKook, em tom neutro.
Menos revoltados. – respondeu. – Bem menos. Me atrevo a dizer que se realmente tivesse algo rolando entre vocês, essa seria a melhor hora para assumir. – ele brincou.
– Que baboseira é essa...
O rumor de namoro não se sustentou. – disse. – Sem interação, sem continuidade, sem comportamento sugestivo. Para muitos, virou só mais uma especulação vazia.
JungKook fechou os olhos por um segundo.
– Então acabou?
Não exatamente. – o manager foi honesto. – Mas esfriou. – Ele fez uma pausa curta. – Você ficar fora do evento também ajudou. – acrescentou. – Não deu imagem para comparação. Por isso vou repetir: – disse o manager, com cuidado – Nenhum contato. Nenhum encontro público. Deixa a história morrer sozinha.
– Eu sei. – respondeu JungKook.
Silêncio é gestão de crise barata e eficiente, JungKook-ah. – disse com uma ironia leve. – É rara, mas funciona.
Ele respirou fundo.
– JungKook-ah, precisamos alinhar uma coisa com clareza agora.
– disse o manager, direto demais para ser casual. – A situação com a Winter... – disse ele. – E isso não é um problema em si.
JungKook paralisou ao ouvir o nome dela.
O problema é o timing. – continuou o manager. – E o público. Os fãs não aceitaram antes. Não aceitariam agora. Você acabou de ser dispensado do alistamento, elas ainda sentem que grande parte de quem você é deve pertencer somente a elas. De alguma forma, toda essa confusão com a Seo Ji-won-ssi acabou te favorecendo.
– Estão pensando em usar a imagem dela como distração?
Não estamos pensando em nada. – o manager foi preciso. – Só não estamos corrigindo interpretações precipitadas.
Silencio.
Enquanto o público discute algo que não existe... – continuou. – O que existe de fato permanece protegido.
JungKook apoiou o cotovelo na perna.
– E a Winter?
Protegida também. – respondeu. – O nome dela apareceu menos hoje do que em semanas. Sem ataques diretos. Sem pressão organizada.
– E quanto a senhorita Seo? Tenho certeza de que ela não está muito feliz em ver seu nome associado ao meu por tais motivos.
– Honestamente? – começou. – Ela não reclamou. Ela sabe como funciona esse meio, e sabe que o público interpreta o que quer.
JungKook desviou o olhar para a janela escura. Uma parte dele se sentia aliviada, outra, desconfortável.
– Ainda assim, não acho justo. – murmurou.
Não é sobre justiça. – respondeu o manager, firme. – É sobre danos. Entre expor uma artista que não tem estrutura para lidar com isso agora e deixar um rumor inofensivo circular… a segunda opção é a menos cruel. Além do mais... A família Seo não é estúpida, muito menos ingênua. Eles entendem que imagem pública é uma moeda… e que, nesse caso, a moeda está valorizando para os dois lados. Caso contrário, já teriam soltado uma nota desmentindo essa situação.
O silêncio que seguiu não foi confortável.
JungKook pensou naquilo e de fato, fazia sentido. A família Seo tem um nome de peso na Coreia, por que deixar rumores sobre a filha mais velha se espelhar justamente quando ela faz o seu retorno para a sociedade coreana?
Houve uma longa pausa antes do manager mudar de assunto:
Amanhã vamos soltar um comunicado discreto sobre sua agenda pós-dispensação. Nada pessoal, só profissional. Foco em música, em performance, em rotina. Se o público olhar para a sua carreira, mexem menos na sua vida privada.
JungKook assentiu para si mesmo.
– Certo...
A ligação terminou com um bip seco, deixando o quarto mergulhado em um silêncio espesso. JungKook virou o celular na mão, encarando o teto mais uma vez. Não sabia se estava protegendo alguém, escondendo alguém, ou apenas deixando o mundo decidir o que era conveniente. Nenhuma opção parecia boa.



***

Ano 2025, dia 15 de junho.
13:10 P.M


O som insistente de um automóvel na rua a fez despertar. Ji-won abriu os olhos devagar, com a sensação de que o próprio corpo demorava para alcançá-la. O teto não era familiar. Nem a luz. Nem o cheiro. Ela piscou algumas vezes, tentando juntar memória e realidade. "Onde eu estou? O edredom era pesado e quente, o tipo caro que só se encontrava em apartamentos de gente muito específica. Ao redor, pistas espalhadas: uma jaqueta preta pendurada na cadeira, calçados importados sem padrão de organização, garrafas vazias de soju e makgeolli num aparador baixo e moderno. Quando tentou se sentar, a cabeça latejou, não como quem está em coma alcoólico, mas como quem imprudentemente disse "geonbae!" mais vezes do que deveria. Flashes surgiram: um bar tradicional, copos alinhados, alguém rindo dela, música antiga de fundo, uma porta de táxi sendo aberta por uma mão masculina…
Ji-won levou a mão ao rosto.
"Eu realmente fui beber depois da W… mas com quem?"
Antes que o pensamento terminasse, ela virou o rosto e congelou.
Kim Taehyung dormia ao seu lado, de bruços, cabelos despenteados e camiseta de malha escura. A respiração era calma, o rosto relaxado. Assustadoramente tranquilo, como se nada tivesse acontecido. Ou como se tudo tivesse acontecido, mas ele não tivesse pressa de lidar. Ji-won prendeu a respiração.
"Não, não, não... O que aconteceu ontem? "
Tentou puxar outra lembrança: Taehyung segurando o menu do bar, rindo quando ela fez careta ao beber takju, alguém dizendo "isso é muito forte para você", mais risadas, e depois… Depois, nada contínuo. Apenas flashes. Sem despertar Taehyung, ela jogou as pernas para fora da cama e procurou suas coisas. O vestido da noite anterior estava jogado sobre uma poltrona. A clutch estava caída no chão, com o batom e o cartão de acesso de sua casa espalhados. Ji-won engoliu seco. Vestiu o casaco por cima, amarrou os cabelos como deu, pegou a bolsa e as chaves, até perceber que não sabia onde estava saindo. O coração batia rápido. Ela precisava ir embora antes de qualquer interpretação. Quando alcançou a porta, respirou fundo, ajustou o casaco e girou a maçaneta com cuidado. A porta abriu. E do outro lado, parado de frente para ela, estava Jeon JungKook. Ele estava preste a abrir a porta quando ela o fez. O susto foi mútuo, os olhos dele se arregalaram por um segundo.
– Seo Ji-won-ssi...? – JungKook perguntou completamente confuso.
Ji-won congelou.
– Eu...
Ela murmurou sem conseguir formar a frase, abaixando o olhar enquanto segurava o salto em uma mão e a bolsa na outra. Ninguém sabia o que fazer. O corredor estava silencioso, amplo demais, e o clima carregado de tudo o que não estava sendo dito. E antes que ele pudesse perguntar o que ela estava fazendo ali, ela simplesmente tomou a decisão mais instintiva: virou para a escadaria ao lado e começou a descer. De salto na mão. De cabeça baixa. Praticamente fugindo. JungKook ficou parado na porta, assistindo a cena surreal desaparecer em espirais de cabelo e passos apressados ecoando pelos degraus. Só quando ela sumiu, a ficha finalmente caiu. Ele piscou, inspirou fundo e deixou escapar:
– O que…?
Antes que a frase terminasse, a porta à frente dele se abriu e Kim Taehyung apareceu com o cabelo bagunçado, camiseta larga e expressão de quem não sabia nem que dia era.
– Por que você tá parado ai fora? – Taehyung perguntou, coçando o pescoço.
JungKook virou para ele, ainda processando as últimas cenas.
– Hyung, o que ela estava fazendo aqui? – perguntou rapidamente. Aquele era um complexo que os membros do grupo alugaram para coisas pessoais. Quase ninguém sabia e nem poderia saber da existência daquele lugar.
Taehyung franziu a testa, olhando rapidamente pelo corredor vazio, claramente sem saber do que o amigo estava falando. Depois apenas deu um meio sorriso sonolento, o tipo de sorriso que não explica nada e apenas cria mais perguntas.
– Hã? Do que você tá falando? Entra, tá frio.
E voltou para dentro. Mas parou no segundo depois que ele se lembrou que não estava supostamente sozinho no complexo. Ele voltou até a porta onde JungKook ainda permanecia confuso e o perguntou.
– Espera, você viu alguém aqui? – perguntou.
– A senhorita Seo... ela... desceu as escadas...– não sabia bem se o que vira realmente era verdade. – Espera, o que ela estava fazendo aqui?
– Aish. – Taehyung calçou os sapatos de qualquer jeito e saiu em disparada as escadas com a esperança de poder alcança-la.
JungKook mal teve tempo de impedi-lo de sair, quando o celular vibrou no bolso da calça de moletom. Ele deslizou o dedo pela tela, ainda parado do lado de fora. A mensagem vinha do gerente de Winter:
Manager Han: Ela insiste em te ver. Foi seguida por paparazzi. Conseguiu despistá-los até certo ponto, mas não quer voltar para o dormitório. Está indo até você.
A pulsação de JungKook subiu instantaneamente, um tipo de adrenalina que já era conhecida demais. Ele leu de novo, como se isso pudesse mudar alguma coisa. Não mudou.
Manager Han: Se ela for vista com você... você sabe.
Ele não precisava que terminasse a frase. "Rumores. " "Escândalo. " " Contratos rescindidos. " "O inferno do Dispatch. " Todos os cenários estavam implícitos.
JungKook soltou um xingamento abafado e guardou o celular às pressas. Não havia tempo para perguntar nada a Taehyung, nem para voltar ao assunto Seo Ji-won. Agora havia uma emergência muito maior. Correu pelo corredor, apertou o botão do elevador repetidas vezes, como se isso pudesse fazê-lo chegar mais rápido. A tela indicava que ele estava no 15° andar. Não deveria ter cedido aos pedidos de Winter para se verem em segredo, ele foi um idiota por achar que a poeira realmente estava abaixando, que ninguém cogitaria a possibilidade dos dois se encontrarem. Ninguém, absolutamente ninguém, sabia daquele complexo. Era o refúgio secreto do grupo e alguns poucos amigos próximos.
– Droga… – murmurou.
Se os fotógrafos estiverem seguindo Winter até lá, tudo estaria perdido.
Quando o elevador finalmente chegou, as portas se abriram com um ding suave. Ele entrou e apertou o térreo. O elevador desceu em silêncio, apenas o som suave dos cabos e a respiração acelerada de JungKook enchendo o espaço. Na tela, os números iam diminuindo:
14… 13… 12…
Ele lembrava muito bem da última vez que Winter surtou com a possibilidade de ser fotografada com alguém. Desde que o relacionamento dos dois era constantemente especulado, qualquer encontro fora dos espaços controlados era uma bomba-relógio.
9… 8… 7…
Quando chegou no térreo, ele saiu rapidamente, olhando pelos corredores e depois pela recepção discreta do condomínio. O segurança do turno do dia levantou os olhos, reconhecendo-o de imediato, mas não disse nada ali, o silêncio valia mais do que qualquer saudação. JungKook passou direto. Do lado de fora, o estacionamento subterrâneo estava silencioso, frio e à meia luz. Foi então que ouviu passos rápidos ecoando pela rampa. Ele sabia antes mesmo de ver. Winter apareceu com capuz, máscara e a respiração pesada, segurando o celular e uma sacola qualquer que servia mais como disfarce do que como utilidade. Ele mal tinha conseguido dar um passo em direção a ela quando, pelo canto do olho, viu um vulto atrás de um carro estacionado. O reflexo da lente entregou o que faltava. Paparazzi. Não um amador. Era o tipo de fotógrafo que sabiam reconhecer de longe, roupas neutras, postura calculada, e a câmera meia levantada como se estivesse prestes a capturar o maior escândalo nacional. Droga.
O dia saiu do controle mais rápido do que ele podia gerenciar. Se aquele homem tirasse uma foto de Winter ali, naquele endereço que não deveria existir, seria um desastre sem volta. Imagens assim viravam denúncias, investigações de fãs, threads inteiras de TheQoo e NatePann.
Ele avaliou rápido o entorno. Estava tarde demais para fingir que não estava ali. Ele já tinha sido visto.
– Seo Ji-won-ssi! Por favor, espere!
Foi nesse exato momento que Ji-won surgiu atrás dele, ofegante, descendo as escadas de emergência como se estivesse fugindo de um incêndio. Os cabelos soltos, o salto pendurado na mão e a respiração irregular denunciavam a pressa e o pânico. Taehyung vinha logo atrás, não muito diferente dela, mas cheio de explicações para dar. Ji-won parou ao ver JungKook ali, como era possível? Ele estava lá em cima agora pouco. Os dois se encararam em silencio. JungKook sentiu a mente trabalhar numa velocidade quase insana. Quais eram a chance daquela situação acontecer? Ele estava literalmente entre o fogo e a espada e precisava decidir qual morte seria menos dolorosa. A cada passo que Winter dava em sua direção, era como uma tortura ecoando em sua cabeça, ele precisava fazer algo e rápido. Foi aí que o pensamento veio, rápido, sujo, quase criminoso de tão desesperado. Antes que pudesse analisar as consequências, ponderar o absurdo ou medir a imprudência, JungKook agarrou Ji-won pela cintura e a puxou contra o corpo dele. Ela só teve tempo de arregalar os olhos. Depois ele a beijou. Não foi bonito, não foi romântico, não foi ensaiado. Foi urgente. Foi um gesto cirúrgico, quase militar: encobrir, confundir, redirecionar. O clique da câmera ecoou naquele lugar como um tiro. Ji-won estava completamente confusa, o corpo rígido, o cérebro tentando acompanhar a velocidade dos acontecimentos. Winter parou onde estava, imóvel, assistindo aquela cena absurda se desenrolar diante dela. O coração partido em quantidades de pedaços que jamais conseguira contar. Segurou suas lágrimas e voltou para o carro no qual ela havia usado para ir até lá. Uma vez lá dentro, ela não se segurou e deixou todas as emoções tomarem conta de si. Já do lado de fora, haviam outras emoções para serem resolvidas, aquele beijo... O quanto ele iria custar?

Capítulo 04 – Três Meses

Ano 2025, dia 20 de junho. 9:00 A.M




A reunião havia sido convocada ainda na madrugada. Ji-won não lembrava exatamente quem fez a ligação, a assessora ou o próprio RP da família, só sabia que, às seis da manhã, já havia um carro esperando na porta. O trânsito até Yongsan foi silencioso, quase cerimonial. Jungkook já estava no prédio quando ela chegou. Não houve troca de palavras entre eles no corredor, apenas um cumprimento curto e formal, como dois profissionais que tinham consciência do que viria a seguir. A sala de conferências estava cheia antes das oito, o que por si só já sinalizava o tamanho do estrago. As fotos já estavam circulando antes mesmo que o sol alcançasse o topo dos prédios. Não havia conjectura, não havia margem para negação, havia registro. Um beijo capturado em três ângulos, com flash, timestamp e o pior: contexto sugerido. O feed noticioso se multiplicava como uma corrente elétrica e a narrativa pública já havia ultrapassado o controle de qualquer assessoria. No ápice do frenesi digital, uma nota oficial da HYBE foi publicada:

"Pedimos respeito à vida privada de nosso artista, que é um adulto e tem direito à sua vida pessoal. A empresa tomará medidas legais contra assédio, difamação e especulação maliciosa."

Não havia pedido de desculpas, não havia negação e não havia confirmação romântica. Era a forma mais moderna de dizer: aconteceu, e não é problema de ninguém. O bastante para incendiar a internet por uma semana e pautar veículos do mundo inteiro por um mês. Aquela era a primeira vez que Seo Ji-won aparecia no topo dos Trending Topics na Coreia por algo que não envolvia o nome da família Seo. O nome dela estava acompanhado de especulações, comparações e teorias de fãs que ela sequer sabia que existiam. "Herdeira misteriosa", "possível namorada secreta", "a garota que saiu da W Korea direto para os braços de Jungkook". Nenhuma daquelas frases era verdadeira, mas todas pareciam convincentes quando sustentadas por fotos e vídeos replicados. Do outro lado do mundo, o fandom internacional se dividia entre defesa passional e negação histérica, enquanto o fandom coreano, menos emocional e mais pragmático, analisava ângulo, coordenava threads no PANN e discutia a veracidade da situação no theqoo. O Dispatch observava em silêncio. E nisso, todos sabiam, o silêncio do Dispatch nunca significou neutralidade. Significava negociação. A imprensa tentou contato com a HYBE, com o conglomerado Seo, com a revista W, e, quando não obteve respostas, passou ao modo especulativo. Foi então que vieram as perguntas que, de fato, importavam para a indústria.

"Alguma marca pausará campanhas?"

"Existe vínculo contratual entre eles?"

"Há risco para o comeback do grupo?"

"A garota é figura pública ou civil?"

"Isso afeta a imagem na China?"

Porque para o público a pergunta era sobre beijo. Para o mercado, a pergunta era sobre dinheiro.

A sala de reuniões não tinha janelas, apenas uma mesa de madeira clara, duas garrafas de água e uma tela digital desligada. Um ambiente pensado para que emoções não encontrassem lugar para se apoiar. O ar era de crise, não de hospitalidade. Era assim que a HYBE funcionava. Sobre a mesa, impressões das fotos, no centro, o momento exato do beijo. A imagem não era o problema. O contexto era. Porque, conforme o jurídico pontuou, poucas horas antes dessa foto ter sido registrada, havia circulado um rumor menor, quase despercebido pelo público internacional, de que Taehyung teria sido visto com Ji-won durante a festa W Pink Illumination Gala, e os boatos ganharam corpo: "amiga?", "namoro secreto?", "escândalo de chaebol?". Era o tipo de rumor que, sozinho, morreria em dois dias. Mas somado à foto do beijo? Virava narrativa. Jungkook entrou primeiro acompanhado pelo manager Park. Tirou o boné, cumprimentou todos com um aceno curto e se sentou ao lado vazio. Ji-won chegou minutos depois, acompanhada pela mãe e por um assistente que só disse:
– Senhorita Seo, por aqui.
Do outro lado da mesa, quatro pessoas aguardavam. Lee Hae-in, advogada da HYBE, Han Deok-su, Diretor de PR & Crisis Management da HYBE, Kim Seo-yeon, assessora jurídica do conglomerado Seo e Sora Nakamatsu, gerente de Imagem Internacional. Nenhum sorriso, nenhum aceno. O ar era de risco reputacional, não de hospitalidade.
– Estão dizendo que foi depois da festa. – comentou o manager Park, ainda analisando notificações. – Eu não estava na festa. – Jungkook respondeu, seco.
– Eu sei.
Era por isso que todos estavam ali. Porque uma mentira bem fotografada valia mais do que qualquer verdade mal explicada.

Às nove em ponto, duas equipes, dois mundos e duas narrativas colidiram na mesma mesa. O diretor Han foi quem cortou o silêncio.
– Vamos ser diretos. As fotos existem, estão sendo replicadas e não desaparecerão. O que fazemos agora define o impacto nos próximos meses.
As imagens mostravam o beijo no estacionamento subterrâneo, com Jungkook segurando Ji-won pela cintura. Não havia Winter, não havia Taehyung, não havia contexto algum além do que convenia à especulação.
– Precisamos das versões oficiais. – solicitou Kim Seo-yeon. – O que a senhorita Ji-won-ssi estava fazendo no complexo e o que levou o senhor JungKook-ssi tomar tal decisão.
Ji-won desviou o olhar para o canto da sala, aquela pergunta... ela também queria saber qual era a resposta. Depois do incidente, era arriscado demais voltar a ter contato com qualquer um deles, ela simplesmente não soube o que fazer ou como agir. Nunca esteve nessa posição antes.
E para Jungkook, era irônico que todos quisessem a verdade, mas ninguém ali precisasse exatamente dela. O que importava era a versão publicável. E ele sabia disso.
– Eu... – Ji-won não sabia por onde começar. – Eu não...
– Como todos sabem. – JungKook a cortou intencionalmente. – Seo Ji-won-ssi e eu tivemos um mal entendido no retorno dela para a Coreia e eu fui instruído a evitar alimentar rumores, portanto, não era viável estar no mesmo ambiente que a senhorita Seo. – ele fez uma pausa curta, organizada. – Acordei no dia seguinte a festa, o senhor Park me ligou, eu vi as notícias, havia algumas fotos da senhorita Seo com um dos nossos integrantes, nada sugestivo, mas o suficiente para criar um burburinho e eu optei por me manter mais afastado. – alguns olhares se cruzaram. Jungkook continuou. – O complexo é um espaço reservado, conhecido apenas pelos membros e pela empresa. Quando eu cheguei lá… – seus olhos encontraram, pela primeira vez naquela manhã, os de Ji-won. – Eu esbarrei com a Seo Ji-won-ssi saindo às pressas. Taehyung-hyung foi logo atrás pelas escadas. Eu peguei o elevador e segui para o estacionamento subterrâneo, onde um fotógrafo já estava posicionado. E então… a senhorita Seo apareceu novamente atrás de mim. Todo o resto… aconteceu muito rápido.
A menção a Taehyung fez a mesa absorver a informação com cautela. Ji-won sentiu o corpo esquentar como se a sala tivesse se fechado ao seu redor. Aquilo parecia mais íntimo do que realmente era e, ao mesmo tempo, mais distante do que ela conseguia justificar.
– E o beijo? – o RP da família Seo questionou.
A pergunta era incômoda porque reduzia algo íntimo à verbalização estratégica. Jungkook desviou o olhar para a foto e respondeu.
– Eu não queria que… criassem uma história pior.
A advogada Lee franziu o cenho.
– Pior como?
Era agora que a mentira precisava ser elegante.
– Um escândalo envolvendo o Taehyung-Hyung. – Jungkook completou. – Ou boatos sobre triangulação. Isso sempre… sai do controle.
Era uma justificativa perfeita. Não incriminava ninguém, além dos já envolvidos, e ainda dava à HYBE uma narrativa para proteger outro integrante. O RP dos Seo fez anotações rápidas.
– Então você beijou a minha cliente para evitar um escândalo pior? – RP indagou, com ironia contida.
O silêncio parecia um terceiro personagem na sala. Jungkook não piscou.
– Sim.
Não houve defesas, nem floreios. Apenas o sim.
Ji-won engoliu seco. De alguma forma, não conseguia acreditar nas palavras dele, por mais convincentes que fossem os motivos.
– Antes de qualquer coisa. – disse o diretor Han. – Nós precisamos alinhar como a empresa está vendo a situação. Desde ontem à noite, o material se espalhou rápido demais. Não temos mais controle sobre o fluxo, só sobre a resposta.
Ji-won manteve o olhar fixo no diretor, enquanto a mãe dela observava em silêncio, braços cruzados.
– E o que vocês estão pensando em fazer? – a pergunta veio da assessora Kim Seo-yeon.
– Neste momento... – continuou ele. – As perguntas estão todas direcionadas ao Jungkook-ssi, o que era esperado. Ninguém está atacando a senhorita Ji-won-ssi diretamente, porque o público não sabe quem ela é. O problema é que isso muda em questão de horas, principalmente agora que o fandom internacional começou a investigar. – o gerente abriu um tablet com gráficos e dezenas de abas para provar o seu ponto. – Nós corremos três riscos distintos aqui: imagem do artista, vida privada e segurança. – listou ele, seco. – E isso não é apenas sobre o Jungkook-ssi. A partir do momento em que o nome da senhorita Ji-won-ssi for ligado a Seo & Co., ela entra no mesmo fogo cruzado, gostem ou não.
Ji-won abaixou os olhos por um segundo. Ela sabia que ele estava certo.
A mãe de Ji-won se manteve em silêncio durante todo o discurso. Para quem não a conhecia, podia parecer frieza, quem conhecia sabia que era cálculo. Ela observava cada palavra dita pela HYBE, como quem avalia um contrato invisível. Na cultura dela, escândalo não era drama, era capital social e capital social precisava ser protegido. A advogada da HYBE tomou a palavra.
– Temos três problemas principais: reputação, timeline e narrativa pública. – ela levantou uma das fotos com um movimento preciso. – A mídia já assumiu romance. Se negarmos, vão buscar provas. Se confirmarmos, vão exigir datas. O público não é idiota.
O RP dos Seo completou.
– Para a família Seo, a reputação da Ji-won deve ser preservada. Ela não tem histórico midiático. Não podemos permitir que ela seja taxada como "influencer caça-idol".
Ji-won abaixou a cabeça por um instante. Doía ouvir aquilo dito em voz alta, mesmo sabendo que era um risco real.
– Se houver invasão de privacidade, doxxing, perseguição física ou postagem de informações pessoais, processaremos sem hesitar. Já estamos monitorando Pann, Theqoo e DCInside – concluiu o RP.
– Já temos o fandom internacional a rastreando. – o gerente os informou, deslizando o dedo no tablet. – A China está especulando no Weibo, a América Latina no X e TikTok, e a Dispatch está checando locais e horários. Se algum desses veículos encontrar uma ligação com o Taehyung-ssi, temos um novo incêndio em questão de minutos.
De repente, Ji-won sentiu como se a presença dela não validasse em nada ali, percebeu que a opinião dela era a que menos importava. Ninguém falou em pedir desculpas pelo beijo. Esse não era mais o paradigma cultural. Um artista adulto namorar não era crime, era apenas inconveniente para o mercado.
A assessora da família Seo se inclinou para frente.
– Precisamos decidir uma linha de comunicação. Silêncio? Privacidade?
Era a pergunta que todos tentavam evitar por que era uma pergunta que ninguém podia responder sem pensar no caos que viria depois. A advogada respirou fundo.
– Então vamos para as opções.
Ela levantou um dedo.
Opção um: Negamos completamente qualquer relação. Dizemos que era um encontro casual, que o contexto está sendo distorcido e seguimos com medidas legais contra difamação e invasão de privacidade. – disse, extremamente profissional. – Prós: protege a carreira do Jungkook a curto prazo e reduz especulação. Contras: deixa a senhorita Ji-won exposta a investigações online e pode se voltar contra nós se surgir mais material.
Levantou o segundo dedo.
Opção dois: Não negamos, mas também não confirmamos. Apenas pedimos respeito à vida privada e agimos legalmente contra assédio e ameaças. – olhou para todos na sala. – Prós: evita mentir, não cria narrativa falsa e preserva parte da privacidade. Contras: rumores ficam vivos e a internet continua cavando.
– É por isso que eu pensei em uma terceira opção. – JungKook tornou a falar, chamando a atenção para si. – Pode ser mais arriscada, mas... também pode dar certo.
– JungKook-ssi... – seu manager o cutucou de leve, tentando evitar que o rapaz falasse demais e piorasse a situação.
– Dar o público o que ele menos espera. – ignorou o seu manager. – A confirmação.
O silêncio caiu de novo e dessa vez, mais pesado. Ji-won não soube como reagir diante aquela situação, aquilo que ele estava propondo era um absurdo. A advogada franziu o cenho, como se tivesse acabado de ouvir o maior absurdo.
– Confirmar? – repetiu, devagar. – Você realmente entende o que isso implica, Jungkook-ssi?
Ele respirou fundo antes de responder.
– Entendo que fingir que nada aconteceu só piora. Entendo que, quanto mais negamos, mais caçam. – Seus olhos percorreram a mesa. – E eu entendo que eu sou um adulto. Não um trainee de vinte anos que precisa fingir que nunca beijou alguém pra vender álbuns.
O manager passou a mão no rosto, exasperado.
– Não é sobre beijo, é sobre mercado. – murmurou, baixo demais para ser oficialmente uma objeção, mas alto o suficiente para todo mundo ouvir. Jungkook não oscilou.
– Eu sei. É sempre sobre mercado. Mas dessa vez não é só sobre mim.
Todos seguiram o olhar dele até Ji-won. Ela manteve a coluna reta, como se qualquer fraqueza pudesse virar prova contra si.
Han Soo-jin estava observando tudo de forma neutra, as pernas cruzadas, a expressão serena e intocável. Não interrompera uma única vez, porque sabia que poder, antes de tudo, é silêncio. Mas ali, por trás do brinco de pérola e da postura irrepreensível, estava uma mulher avaliando riscos como quem avalia joias. E quando percebeu que o JungKook esperava algum tipo de benevolência, ela finalmente falou, com a voz baixa, firme, e impecavelmente polida.
– O que você está propondo não é um romance, é um contrato. Certo? – deixou bem claro que entendeu quais eram a intenção dele. – E contrato exigem cláusulas, proteções e contrapartidas. A minha filha não será usada para salvar o senhor do humor de fãs adolescentes e isso não garanti que vai impedir um massacre dos mesmos.
JungKook concordou levemente.
– Não impede. – admitiu ele, sem hesitar. – Mas diminui o incentivo. Sem negar, o fandom não precisa provar nada e podemos criar nossa própria timeline.
Era pragmático. Frio, até. E era isso que deixava a sala desconfortável, ele não estava falando como artista, mas como alguém que conhecia a engrenagem por dentro.
O diretor Han cruzou os dedos sobre a mesa, pesando cada palavra.
– Do ponto de vista estritamente estratégico, a confirmação é o cenário mais caótico no curto prazo e o mais estável no longo. – fez uma pausa. – Mas não é uma decisão que tomamos sozinhos.
Todos na sala encararam a família Seo como se esperassem uma confirmação de imediato. Ji-won estava se sentindo cada vez mais exposta.
– O lado positivo de toda essa história, Han Soo-jin-ssi. – A advogada Lee tomou a palavra depois de pensar nas variáveis. – É que, inegavelmente o público tem um respeito pelo legado da sua família, a senhorita Seo não tem histórico ruim, muito pelo contrário e de alguma forma, os fãs estão controlados. Mas a pergunta é: Até que ponto? – a advogada não teve medo de apelar. – Ás vezes é melhor darmos a respostas antes de fazerem as perguntas e dessa forma, podemos controlar o que ainda pode ser perguntado.
A mãe de Ji-won observou as fotografias durante longos segundos, sem falar. Seu semblante não era de choque, era de cálculo e para quem cresceu sob dinastias corporativas coreanas, era quase um reflexo condicionado.
– Então... basicamente, se confirmarmos, podemos assumir o controle. Se negarmos, criamos uma lacuna. Qual é a alternativa? – ela perguntou, mais para si do que para os outros.
O diretor sugeriu:
– Podemos redirecionar a narrativa. Mas para isso, precisaremos que Jungkook-ssi e Ji-won-sii estejam alinhados… oficialmente.
Houve outra pausa. Desta vez, sua expressão mudou. Não para aceitação, mas para oportunidade. Soo-jin olhou para Ji-won passando uma mensagem real, não falada, não escrita, apenas subentendida: O mundo não te dá escolhas limpas. Escolha a que te deixa com poder, não a que te deixa com emoção. Ji-won respirou fundo, mas não cedeu. Ainda havia mais perguntas, mais fios soltos, mais condições.
– Quanto tempo? – Soo-jin perguntou.
A advogada não hesitou
– É difícil dizer. – exasperou. – Precisamos alinhar todas as opções, pesar novamente os pós e os contra, mas se por um acaso decidirem que assumir um relacionamento é o plausível para essa questão, então eu digo três meses no mínimo. Se o público resistir, seis. Depende da reação internacional.
O silêncio depois daqueles "três meses" pareceu durar uma eternidade. Ji-won sentiu algo dentro dela afundar, não porque era impossível participar daquela encenação, mas porque ninguém sequer perguntou se ela queria. A advogada da HYBE começou a detalhar cronogramas e possíveis abordagens de mídia, mas Ji-won já não acompanhava. Via apenas bocas se movendo, papéis sendo virados, dispositivos vibrando, como se o mundo tivesse sido engolido por um aquário sofisticado e insonorizado. Foi quando Jungkook falou, interrompendo aquela mecânica impessoal.
– Eu gostaria de falar com a Seo Ji-won-ssi. – disse, sem levantar a voz, mas com firmeza suficiente para congelar a mesa. – A sós, por favor.
Todos olharam para ele. O diretor inclinou levemente a cabeça, avaliando se aquilo era estratégico ou inconveniente. Han Soo-jin arregalou os olhos por um instante e depois fechou expressão, voltando à postura calculada de uma matriarca chaebol. Já o RP dos Seo pareceu pronto para protestar.
– Não acho que agora seja o momento para...
– Dez minutos. – Jungkook cortou, ainda sem elevar o tom. – Eu assumo total responsabilidade.
Era quase impossível negar alguém como ele, quando falava daquele jeito. Não era pedido, era um ponto final com voz.
Han Soo-jin observou a filha por um segundo. Ji-won estava rígida, mas assentiu antes que alguém falasse por ela.
– Dez minutos. – a mãe repetiu.
A sala se esvaziou aos poucos. O som das cadeiras sendo arrastadas, pastas sendo recolhidas, passos se afastando e portas se fechando deu àquele silêncio um novo peso. Um que não era mais político, e sim pessoal. Agora só havia os dois. Jungkook ficou em pé por alguns segundos, se preparando para falar com ela. Ji-won não se levantou. Manteve os olhos firme se recusando demonstrar sua insegurança. Ele respirou fundo.
– Seo Ji-won-ssi…
Ela apenas cruzou os braços, o queixo levemente erguido. Fria e inabalável. Exatamente como no dia em que se conheceram.
– O senhor falou muito bem agora pouco. – ela deixou claro que entendia muito mais do que demonstrava. – Parecia até que essa era a sua estratégia esse tempo todo.
Ele engoliu seco.
– De certa forma. – soltou um suspiro. – Sim. Pelo menos depois do nosso último encontro... tinha muito o que pensar.
Ela revirou os olhos ao soltar um sorriso irônico. Ele não podia estar falando sério.
– O que você esperava? – a questionou. – Que o paparazzo deixasse de lado o que pode ser o maior furo da vida profissional dele? Deveria ter pensando nas consequências antes de dormir com o Taehyung-Hyung.
A expressão dela mudou. Aquele dia... ainda era um mistério para ela. Os flashes iam e voltavam sem nenhuma clareza o que tornava tudo mais confuso. Ela se lembrava de ter encontrado uma amiga do meio artístico com quem manteve contato por todos esses anos, a amiga sugeriu que fossem para um lugar reservado para conversarem sobre suas vidas e o que vinha acontecendo desde que ela partira para a Inglaterra. Ela se lembrava de sentir um peso saindo das costas a cada bebida que tomava, por que era a única forma que ela achou para criar coragem e desabafar. Mas não sabia dizer em que momento Kim Taehyung-ssi se encaixava naquela história, como havia parado naquele lugar e se de fato tinha... dormido com ele. Ele continuou.
– Você acha que eu esperaria te encontrar no complexo? Naquelas condições?
Ji-won piscou. Não sabia se aquilo era defesa ou exposição involuntária.
– Você apareceu no pior momento possível. Eu tomei uma decisão ruim em dois segundos para evitar uma pior. – Ele começou a andar de um lado para o outro tentando provar algo. – Nós já temos uma narrativa, devido o mal entendido no dia que nos conhecemos, já estávamos sendo clicado juntos, nossos nomes estavam ocupando a mesma frase, mesmo que por motivos errados...
– Como se isso mudasse alguma coisa. – ela o interrompeu. – Agora eu tenho um continente inteiro discutindo se eu sou a nova "whatever" do seu fandom, e você tem a vantagem de poder se esconder atrás do "não comentamos a vida pessoal dos artistas".
– Você realmente acredita que não haverá nenhuma consequência para mim? – ele rebateu, num sussurro áspero.
Os olhos de Ji-won oscilaram. Era uma verdade incômoda, fãs coreanas não eram indulgentes e fãs internacionais eram imprevisíveis.
– O que você quer, Jungkook-ssi? – perguntou, finalmente. – Porque não me parece que você pediu esses dez minutos para se desculpar.
Ele finalmente parou de andar pela sala e a encarou novamente.
– Eu pedi porque você merece entender no que está entrando. – respondeu. – Eles vão escolher a rota do silêncio. Já soltaram um comunicado pedindo privacidade. Não vão confirmar, não vão negar.
Ji-won cruzou as pernas, apoiando o queixo na mão como se estivesse avaliando um relatório.
– E eu deveria agradecer o aviso? – perguntou.
Jungkook humedeceu os lábios, desviando o olhar por um instante, antes de encará-la novamente. Ali vinha a parte difícil.
– Mas… – ele começou, e o "mas" já dizia tudo. – Existe outra opção.
Ji-won manteve o silêncio, esperando.
– Você sabe que já nos fotografaram juntos, mesmo antes de… – ele evitou mencionar o beijo. – Então, se quisermos dissipar o caos, podemos dar… outra narrativa.
Ji-won piscou devagar.
– Que tipo de narrativa?
Jungkook engoliu seco.
– Nós dois. Namoro falso.
A frase pairou entre eles, pesada, quase absurda de tão direta. Ji-won não riu, apenas deixou o silêncio trabalhar.
– Não era isso que você estava sugerindo antes? – ela ficou confusa.
– Sim, mas não era só isso. – Jungkook corrigiu. – Vamos dar evidência de afeto. Temos que parecer… – hesitou – Apaixonados.
– Parecer apaixonados? – repetiu ela, como quem saboreia o absurdo. – Isso é sério?
Ele a encarou por alguns segundos, estudando-a, e quando respondeu, fez com calma, como quem sabia exatamente onde tocar.
– A sua mãe te quer de volta nos negócios da família. Quer que você que faça barulho… não só nos bastidores da indústria, mas na mídia. – ele inclinou levemente a cabeça. – E isso te dá exposição. Te coloca nas manchetes certas, nos círculos certos. A alta sociedade adora um nome quente. Você sabe disso tão bem quanto eu. Se optarmos pelo silêncio, a narrativa vai morrer da mesma forma como nasceu.
– A minha família nunca...
– Nunca aceitaria isso? – ele a cortou. – Você tem certeza? – arqueou a sobrancelha. – Até onde eu sei, a Seo & Co. domina o mercado de moda na Ásia. Mas fora dele… vocês ainda são um nome sussurrado. E esse incidente coloca vocês direto no mapa. – parecia eufórico. – A poderosa Han Soo-jin teria acabado com meros rumores desde a primeira vez que eles se espalharam como apenas uma dúvida na cabeça das pessoas sobre quem seria a garota fotografada com um idol de Kpop. Somente alguns cliques e a Seo & Co. já estava estampada por toda parte. E por que você acha que ela deixaria a preciosa herdeira no meio de um fogo cruzado? – cuspia as palavras sem pensar. – Visibilidade.
Ela não reagiu, mas ele percebeu o golpe certeiro. Não era arrogância, era fato. Ela sabia que havia algo de errado no comportamento da mãe, desde que sua família é bem tradicional e conservadora.
Jungkook deu um passo à frente quando percebeu que ela não tinha contra-argumentos.
– E… – sua voz baixou – Eu não vou te arrastar para nada que não esteja sob controle. Sem escândalos baratos, sem fofocas sujas. Só… narrativa.
Ji-won desviou o olhar por um instante, raciocinando rápido, como sempre.
– Isso tudo é… de fato, conveniente para mim e para a minha família. – ela disse, por fim. – Visibilidade, reputação, posicionamento… eu entendo o que eu ganho. – Ela entrelaçou os dedos sobre o joelho. – Mas e você…? Jungkook-ssi, o que exatamente você ganha fingindo estar apaixonado por alguém que mal conhece?
A pergunta não veio com provocação. Veio como uma análise fria, um risco a ser calculado. Jungkook demorou um pouco, como se estivesse escolhendo qual camada da verdade oferecer. Quando falou, não usou o tom estratégico que usara antes.
– Paz. – respondeu.
Ji-won franziu o cenho.
– Paz? – repetiu, confusa.
Ele assentiu, enfiando as mãos nos bolsos.
– Não a paz completa, porque isso não existe para quem faz o que eu faço. Mas… a versão administrável dela. Quando existe um limite claro, as pessoas brigam menos entre elas. Investigam menos. Inventam menos. E me deixam… respirar um pouco. – ele soltou um suspiro cansado. – Sozinho, eu sempre vou ser um rumor. Mas acredito que estando com alguém, mesmo que seja de mentira, exista uma fronteira. Meu fandom vai parar de fugir de um monstro que não existe e começar a vigiar uma cerca. – ele deu um meio sorriso. – E enquanto fazem isso… eu tenho espaço para trabalhar, para viver e para não ter que explicar cada passo que dou.
Ji-won franziu o cenho.
– Mas isso não aumentaria a cobrança?
Jungkook assentiu.
– Aumentaria. Mas cobrança eu já tenho. O que eu não tenho é previsibilidade. – Ele estudou a reação dela antes de completar. – Com um namoro falso, eu vou saber exatamente qual história vão contar sobre mim pelos próximos meses. Eu sei onde vou ser visto, com quem, como e por quê. Não é liberdade, mas é controle. E na minha vida… controle vale ouro.
Não era uma resposta romântica, mas havia algo de tocante na sinceridade dele. Ji-won apoiou o queixo na mão.
– Então para você isso é… gestão de danos?
– Gestão de danos, de imagem e de humanidade. Meu trabalho é cantar e viver num palco. Todo o resto é ruído. Se eu consigo reduzir o ruído por três meses… isso já é lucro.
Ji-won ficou em silêncio, avaliando-o. Havia algo surpreendentemente vulnerável na maturidade dele, não era alguém desesperado por fama, nem alguém se escondendo atrás da empresa. Era alguém tentando sobreviver à própria notoriedade. Sua mente vagou para há alguns dias atrás, exatamente quando se conheceram. Agora era nítido aquela expressão dura, os olhos de alguém que não dormia há dias, as ações imprudentes. Ele só estava... cansado de tudo aquilo.
– Isso é muito mais honesto do que eu esperava. – ela disse, abaixando a guarda pela primeira vez que entrara naquela sala. – três meses? – ela perguntou, o tom de voz contido.
– E a gente termina. – Jungkook respondeu. – Discretamente e amigável. Sem drama.
Ji-won inspirou, analisou mais uma vez, e só então voltou a encará-lo.
– Temos um combinado? – ele estendeu a mão em sua direção.
Ela se levantou e com muita hesitação, pegou na mão dele, selando o acordo.
– Combinado.

Capítulo 05 – Quem sabe

HYBE Labels — Comunicado Oficial 25 de junho, 11:00 AM (KST)


"Pedimos respeito à vida privada do nosso artista Jeon Jung-kook.
Jungkook é adulto e tem direito à sua vida pessoal.
A empresa não comentará especulações infundadas.
Tomaremos medidas legais contra assédio, difamação e divulgação de dados pessoais."
HYBE Corp.






***


27 de junho. Zermatt, Suíça / Gravações de "Are You Sure?!"




O sol ainda não tinha derretido a fina camada de gelo sobre o corrimão do terraço quando Jungkook empurrou a porta de vidro, respirando o ar frio que chegava direto dos Alpes. Lá embaixo, Zermatt acordava devagar, turistas com cafés fumegantes, trilhas começando, campainhas de bicicletas que ecoavam entre as ruas estreitas. A produção do Disney+ já estava montando equipamentos na praça principal. Um drone testava voo sobre o bairro, e a equipe japonesa discutia o roteiro em inglês. Jimin estava encostado na mureta tentando equilibrar duas fatias de pão entre as luvas, falhando miseravelmente.
– Você come isso ou eu como? – ele perguntou, oferecendo metade.
Jungkook aceitou e deu uma mordida, ainda olhando para o Matterhorn ao fundo.
– Você come devagar demais.
– Tá frio.
– Sempre tá frio aqui.
Jimin riu e foi puxado pela coordenação para refazer um trecho do walking shot da ponte. Jungkook ficou ali por alguns segundos antes de voltar para o quarto pegar o celular, já no modo silencioso desde a noite anterior. A tela abriu direto no widget de notícias coreanas, ele nunca configurou aquilo, mas alguém da empresa fez e ficou. As manchetes eram previsivelmente parecidas.

"HYBE permanece silenciosa após rumores"
"Netizens divididos sobre artista X"
"Seo & Co. realiza evento restrito em Seoul"

Essa última o fez parar por um instante. A foto não era de Ji-won, era da coleção. Tecidos drapeados, joias de design moderno, e um recorte sobre a diretora criativa recém-anunciada. Sem legenda pessoal ou entrevistas. Ele rolou mais um pouco, viu um vídeo curto feito por um convidado. Entre um corte e outro, Ji-won apareceu ao fundo, sorrindo para alguém fora da câmera. Nada mais. "Bom", ele pensou. Eventos sem declarações eram quase vitórias. Do lado da cama, o tablet da equipe vibrava com uma notificação coletiva do grupo de produção.

[PRODUÇÃO] Zermatt → Da Nang (Vietnã) dia 29. Clima úmido, roupas leves. Script atualizado no drive.

Jungkook respondeu só com um joinha. A agenda seguia e devia seguir. Quando a equipe chamou para a gravação de uma doceira local, o produtor apenas perguntou.
– Tudo certo, Jungkook-ssi?
– Sim.
Ele colocou o celular no bolso sem reabrir nada. Na praça, a câmera estava pronta, o vendedor local posicionou a vitrine, e Jimin levantou a mão para sinalizar o início. Trinta minutos depois, enquanto experimentavam um doce suíço coberto de chocolate, Jimin comentou em voz baixa, sem câmera e microfone.
– A ARMY está te defendendo, sabia?
Jungkook mastigou, neutro.
– Elas sempre fazem isso.
Jimin não insistiu no assunto. Quando encerraram o bloco final, o produtor japonês anunciou.
– Fechamos Suíça. Próximo país: Vietnã. Bom trabalho!
Palmas tímidas, abraços curtos, e a equipe começou a guardar equipamentos enquanto o sol descia. Na van de volta ao hotel, o celular vibrava de novo, dessa vez não era feed, nem news, nem empresa. Era uma mensagem curta, sem nome no topo, apenas um número com código coreano. Uma única frase:

"Saudade"
Sem ponto final.
Ele olhou por alguns segundos e bloqueou a tela. Da janela, os trilhos do trem passavam devagar, e tudo ali fazia mais sentido do que o barulho do outro lado do continente. Às vezes, o trabalho era o único lugar onde o mundo fazia sentido.

O lounge do hotel estava silencioso quando Jimin empurrou o crachá no bolso e se jogou ao lado de Jungkook no sofá do lounge. O staff circulava com pressa, ajustando horários e mochilas com microfones.
– Você viu a internet hoje? – Jimin perguntou, casual, pegando uma garrafa d’água.
Jungkook nem precisou perguntar "sobre o quê". Apenas ergueu uma sobrancelha, resignado.
– A Seo & Co. – Jimin completou, abrindo o celular. – Sua amiga virou tópico quente. Dizem que assumiu um cargo e que a marca vai fazer colaboração internacional. Tem fãs comparando ela com a Jennie-ssi, sabia?
Jungkook soltou um meio sorriso, mas não comentou. Jimin deslizou a tela, mostrando sem entregar diretamente.
– E tem gente jurando que vocês nem se conhecem. – Falou isso com um tom leve, quase divertido e bastante provocador.
Jungkook recostou a cabeça no sofá, fechando um pouco os olhos. Claro que tem. A internet vive disso. Jimin ficou em silêncio por alguns segundos, observando a reação dele antes de acrescentar, mais baixo.
– Ela tá indo bem. Pelo que vi, os comentários estão positivos.
O staff chamou para preparo do próximo take. O barulho de walkie-talkies e zíperes ecoou pelo lounge. Jimin levantou, mas antes de ir fez um gesto com o celular.
– Você podia mandar uma mensagem, né?
– Nós não... – JungKook olhou a sua volta para se certificar que não tinha alguém olhando e baixou o tom de voz. – Não estamos namorando de verdade e você sabe disso. – voltou a relaxar no sofá.
– Eu sei, eu sei... Mas se vocês quiserem que o público ache que estão, não vão conseguir se continuarem se evitando. – para ele aquilo era bem óbvio.
Jungkook abriu um olho, preguiçoso.
– O que você está sugerindo, exatamente?
– Uma mensagem no Kakao. Privado. Igual gente normal. – Jimin respondeu, rindo. – Você complica demais.
O staff acenou de novo. Ele se afastou correndo, deixando Jungkook sozinho no sofá. Por alguns segundos, Jungkook encarou o teto. Depois, puxou o celular. Olhou para o histórico de conversa vazio, desde alguns dias atrás e soltou um suspiro quase imperceptível. O polegar pairou sobre o teclado, sem coragem de digitar nada.


***


O relógio marcava quase 18:00 da tarde quando o conselho criativo tomou forma ao redor da mesa ovalada. Croquis, amostras de tecido e relatórios de exportação se acumulavam entre xícaras de café esquecidas. Ji-won estava sentada à cabeceira lateral, não por status, mas por dever. O pai escutava mais do que falava, e ela preenchia os silêncios com muita precisão.
– A demanda do Oriente Médio cresceu oito por cento no último trimestre. – apresentou uma gerente de marketing, girando o gráfico para que todos vissem. – Eles querem algo mais… escultural. Peças que funcionem como joias.
Ji-won fez uma anotação curta ao lado do sketch de um colar modular.
– Escultural não significa pesado. – ela comentou, sem esperar convite. – Trabalhem com vazios, não com volume. Elegância é ar.
A frase caiu bem, algumas cabeças assentiram. O diretor industrial anotou algo em seu tablet. Foi quando o celular vibrou, quase imperceptível, dentro do bolso interno do blazer. Ji-won ignorou. A vibração se repetiu alguns segundos depois, dessa vez curta, de mensagem única. Ela deslizou a mão, sem pressa, apenas para garantir que não fosse a mãe ou o jurídico da empresa. Uma prévia apareceu no topo da tela bloqueada.

Jeon Jung-Kook: Parabéns pela nomeação. Vi as notícias. Fico feliz por você.

Ji-won travou o olhar por um segundo, surpresa.
– Ji-won-ssi? – chamou o pai suavemente, tirando-a do breve transe. – Você mencionou algo sobre joalheria modular?
Ela recolocou o celular no blazer, intacto.
– Sim. – Voltou ao assunto sem desviar. – Se formos competir com exclusividade, precisamos modular o luxo também. Não é só sobre diamantes, é sobre intenção.
A reunião seguiu. Mais gráficos, mais amostras de couro, mais cafés sendo trocados. Nada no rosto de Ji-won denunciava a presença de qualquer notificação fora da pauta. Quando o encontro finalmente foi encerrado e a diretoria começou a recolher os materiais, ela ficou por último, juntando os próprios sketches. Só então pegou o celular de novo. A mensagem ainda estava lá, à espera. Ji-won digitou devagar:

"Obrigada. Apenas trabalho."

Apagou.
Tentou outra:

"Você deveria focar no programa."

Apagou de novo. Ela não sabia como lidar com aquilo. Por fim, só ficou com o celular entre os dedos, sem nada na tela. O cursor piscando, e ela imóvel, como se qualquer resposta fosse abrir uma porta que ela não tinha planejado. Antes que pudesse decidir, alguém bateu levemente à porta de vidro.
– Eonni? – Min-ji, irmã mais nova de Ji-won, entrou com o crachá pendurado no pescoço e um café na mão. – A stylist quer saber sobre o tecido das peças do editorial de outono. Ela disse que você sumiu.
Ji-won apagou o rascunho sem pensar, guardando o celular dentro do blazer.
– Acabei aqui. – respondeu, simples. – Vamos.
Enquanto saiam, o celular no bolso vibrou mais uma vez, uma notificação de notícias sobre a própria empresa. Ji-won não olhou. Não agora.

Era quase dez da noite quando Ji-won chegou em casa. A sala principal estava parcialmente iluminada, com abajures quentes a televisão ligada na Arirang TV, volume baixo, o canal transmitia um especial sobre tendências internacionais de luxo, algo que o Sr. Seo costumava assistir antes de dormir. A mãe estava sentada ao lado dele, com um livro aberto e os óculos escorregando pelo nariz, ela lia, mas escutava absolutamente tudo.
– Chegou tarde. – disse a mãe, sem levantar os olhos. – De novo.
Ji-won deixou a bolsa na poltrona e tirou o blazer.
– Reunião estendeu. – respondeu apenas.
O pai ajustou o volume quando o programa começou a comentar as semanas de moda europeias. Não fez nenhum comentário imediato, apenas observava. Ele tinha o hábito de absorver o mundo em silêncio, talvez porque aprendesse mais antes de tomar qualquer posição. – Janta está na cozinha. – disse a mãe.
– Não estou com fome.
A mãe fechou o livro devagar, como quem decide mudar de cenário.
– Engraçado. – comentou. – Passa o dia inteiro falando de estética, proporcionalidade e cuidado, mas cuida dos outros melhor do que de si mesma. – Ji-won não discutiu, conhecia bem esse tom. – Tome um banho e coma alguma coisa. – completou. – Sua irmã disse que quase desmaiou de sono te esperando na reunião.
O pai, até então quieto, aumentou o volume mais um pouco quando o programa mostrou um editorial parisiense. As modelos desfilavam com peças estruturadas, joias geométricas e a comentarista citava "luxo inteligente".
– Estão falando da Seo & Co. – ele informou, com a serenidade de quem não faz alarde.
Ji-won olhou de relance.
– Estão?
– Da nova fase. – corrigiu o pai. – Comparam nossa joalheria com a Cartier. Não sei se é elogio ou se é exagero.
A mãe sorriu com o canto da boca.
– É exagero. E elogio.
Ji-won soltou um suspiro curto, quase imperceptível. Nem orgulho, nem alívio. Apenas a constatação de que o mundo lá fora estava prestando atenção. Só ainda não sabia se era pelos motivos certos. Min-ji desceu as escadas nesse momento, interrompendo o silêncio.
– Te chamaram de "novo rosto frio do luxo coreano" no Daum Café. – contou, claramente divertida. – Eu achei ótimo. Frio é a melhor coisa que alguém pode ser quando está auge.
Ji-won revirou minimamente os olhos. A irmã riu pelo nariz, satisfeita com o mínimo de reação que obteve, e a seguiu pelo corredor. A mesa do jantar já estava posta, arroz recém-cozido, kimchi fresco, anchovas ao gergelim e tofu ensopado. Ji-won puxou a cadeira com um suspiro e serviu-se em silêncio, mas não teve mais que dois segundos antes de ouvir passos apressados atrás de si. A mãe surgiu logo depois.
– Não vai sentar? – perguntou Han Soo-Jin, já puxando uma cadeira.
Min-ji se acomodou primeiro, apoiando os cotovelos na mesa de uma forma que teria sido corrigida se estivesse em um restaurante, mas que era tolerada em casa.
– Então… – começou Min-ji, com um brilho malicioso no olhar. – Quando vocês vão oficializar?
Ji-won nem levantou a cabeça.
– Está falando do que?
– Do que mais seria? – Min-ji encarou a irmã.
A mãe ajeitou os óculos. Não parecia surpresa, talvez estivesse apenas esperando o tema surgir.
– Ele está na Suíça – Ji-won comentou casualmente. – Viajou logo após a reunião.
– Como você sabe? – Min-ji questionou.
– Ele mandou uma mensagem.
Han Soo-Jin bebeu um gole de água antes de concluir.
– Então vocês conversam.
Ji-won pensou sobre aquela frase.
Eles haviam trocado algumas palavras desde a última vez que se viram, mas não chagaria a chamar aquilo de "conversa".
– A Seo & Co. poderia ter alguns compromissos lá. – Soo-jin disse um pouco radiante pela ideia que acabara de ter. – Reuniões com fornecedores de couro, talvez. Ou algo relacionado ao fortalecimento da linha de acessórios. Seria um bom momento para você ir.
– Eomma, eu acabei de assumir um cargo na empresa, que aliás foi ideia sua. Não posso viajar assim... – exasperou. – E só para lembrar vocês duas, nós não estamos namorando.
– Se vão sustentar uma narrativa pública, precisam parecer que estão. – Min-ji sustentou o plano da mãe.
Ji-won largou os hashis no descanso e levantou.
– Vou tomar um banho. – anunciou, já dando meio passo para trás. Não era fuga. Era preservação de recursos.
Min-ji levantou imediatamente. Soo-jin apenas fechou a garrafa de água, sem pressa. Quando as duas estavam de pé, Ji-won soube que estava perdida, rara era a ocasião em que mãe e filha caçavam em dupla.
– Seo Ji-won. – chamou a mãe, com delicadeza estratégica.
Ji-won congelou no segundo degrau. Existiam ordens. E existiam frases com o nome completo. O segundo caso não requeria gritos.
– Sim, eomma.
– Você sabe que quando uma relação se torna assunto público, deixa de ser apenas uma relação. Torna-se uma narrativa. E narrativas mal geridas costumam ser cruéis.
Ji-won virou para encará-la. Era impressionante como sua mãe conseguia misturar afeto, ameaça e pragmatismo numa única frase sem elevar o tom.
Min-ji apoiou o queixo no corrimão.
– Traduzindo: se vocês não mostrarem que estão juntos, o público vai inventar um motivo para separarem vocês. E vai ser um motivo pior.
– Obrigada, Min-ji. – Ji-won respondeu, seca. – Tradução desnecessária.
Soo-jin continuou, implacável.
– Você tem dois caminhos: gerir o enredo, ou ser gerida por ele. Para alguém tão competente em branding, estranho hesitar justamente no seu próprio.
Ji-won desceu um degrau, apenas para que o território ficasse menos simbólico.
– E o que exatamente você está sugerindo? Que eu vá até a Suíça, sorria para câmeras e convença o mundo de que vivemos um romance de livros?
Soo-jin respirou fundo, com gentileza perigosa.
– Não estou pedindo para você se apaixonar por ele, Ji-won-ah. Estou pedindo para você não permitir que um assunto de RP defina sua vida pessoal… sem a sua permissão.
A lógica era impecável. O incômodo também.
– Vocês falam como se eu tivesse controle sobre isso.
Min-ji deu de ombros.
– Você tem. Não é isso que te assusta?
Ji-won piscou devagar, porque Min-ji às vezes tinha o péssimo hábito de acertar.
– Você é insuportável.
Deixou claro para a irmã antes de dar um abraço na mãe e subir até o seu quarto.
Ji-won havia concordado que voltaria para a casa dos pais por tempo indeterminado, ou pelo menos até terem certeza de que ela não estaria sendo vigiada, nem por meios de cominações, fotógrafos ou fãs. No começo ela resistiu, mas acabou cedendo e no fundo ela sabia, que não poderia continuar no mesmo prédio que JungKook, pelo menos, não por hora. Ela colocou o blazer no cabide, tirou os brincos, guardou o relógio na caixinha e decidiu ajustar alguns projetos que lhe fora passado. Duas horas depois, quando pegou o celular para colocar no carregador, a mensagem ainda estava lá, imóvel. Ji-won ficou olhando por alguns segundos. Não havia alguma insinuação, nem subtexto evidente. Era educado e simples, porém confuso. Eles não tinha essa intimidade, tinham? Ela sentou na beira da cama, abriu a caixa de mensagens e viu o cursor piscar no campo de resposta. Digitou:

"Obrigada. E boa sorte nas gravações."

Simples e neutro. Sem intimidade extra. Levantou, foi até o closet pegar um roupão e desapareceu no banheiro com a porta semiaberta. Do lado de fora, o celular ficou sobre a cama, a tela acesa por alguns segundos antes de apagar.


***

Zermatt — 17:30hrs
O quarto do hotel estava na penumbra, apenas a luz azulada da televisão piscava, com imagens de um documentário sobre esportes de inverno. Jimin dormia no lado oposto, camiseta amassada, máscara de hidratação ainda presa no rosto, o staff os mandara "descansar" antes da viagem do dia seguinte, como se fosse algo controlável. Jungkook estava prestes a sair para caminhar quando a tela do celular acendeu.

Seo Ji-won: "Obrigada. E boa sorte nas gravações."

Jungkook piscou, surpreso. Havia cerca de sete horas de diferenças no fuso horário.
– Ela está acordada agora? – murmurou, franzindo o cenho.
Desbloqueou o celular e respondeu:

Jeon Jung-kook: "São 00:30 aí."



Seoul — 00:50hrs
O vapor ainda escapava pela fresta da porta quando Ji-won empurrou o banheiro para fora. Usava uma tolha para secar os cabelos enquanto vestia uma camisola de seda extremamente confortável e o creme de rosto deixava um brilho discreto nas maçãs do rosto. Ela caminhou até a cama para pegar o celular, estava exatamente onde havia deixado, mas agora com a tela acesa. Não esperava obter uma resposta tão rápida, se sentiu pega de surpresa. Mordiscou a ponta dos lábios ao responder.


Seo Ji-won:
"Sei ver as horas."



Zermatt — 17:51hrs
Ele riu pelo nariz. Digitou, mantendo o tom neutro, de alguma forma, aquela resposta era tão ela.

Jeon Jungkook: "Não era uma crítica, só surpresa. Não deveria estar dormindo?"

Ele hesitou um pouco antes de enviar, como quem se pergunta se está sendo social ou inconveniente. Enviou.




Seoul — 00:52hrs
A mensagem apareceu quando Ji-won estava prestes a usar o secador. Ela franziu os lábios, porque aquilo soava relativamente justo. Pegou o celular de novo e respondeu.

Seo Ji-won: "Trabalhar tem horários. Dormir nem sempre."

Ela olhou a frase por um segundo e decidiu que estava suficientemente honesta e educada. Enviou.




Zermatt — 17:57hrs
Jungkook sentou no sofá do quarto, deixando o casaco jogado no encosto. Leu a frase com um meio sorriso.

Jeon Jungkook: "Achei que você não era do tipo que responde mensagens depois do expediente."

Enviou. Arrependeu-se imediatamente. Muito pessoal? Não estava acostumado.



Seoul — 00:59hrs

Ji-won leu a mensagem e ficou dois segundos avaliando. A frase era só uma frase, mas ainda assim… Ela inclinou a cabeça, dedos no teclado.

Seo Ji-won: "Normalmente eu sou uma pessoa funcional... Pelo menos até agora."

Ela parou, relendo. Era polida? Sim. Era provocativa? Um pouco. Bom, que fosse. Enviou.




Zermatt — 18h:00rs
Quando a notificação surgiu, Jungkook riu baixinho, apoiando o celular na testa.
– Ok… isso parece um progresso.
Digitou:

Jeon Jungkook: "Fico aliviado em saber, pensei que fosse parte do cargo virar notívaga oficialmente.

Silêncio.
Jungkook se levantou, fez meia volta no quarto, olhou pela janela como se o Matterhorn pudesse dar conselhos.




Seoul — 01:04hrs
Ji-won estava com o secador ligado quando a notificação apareceu na tela. Ela desligou a máquina por um instante, silêncio imediato, só o zumbido do prédio lá fora e a mente criticando a própria curiosidade. Leu a mensagem, apoiando o celular no colchão, a sobrancelha subiu meio milímetro. "Virar notívaga oficialmente".
– Como ele conhece essa palavra… – murmurou, secando as mechas para trás. Digitou devagar:

Seo Ji-won: "Acredite, ninguém na indústria do luxo dorme cedo. O glamour mente."

Ela olhou a frase e acrescentou, porque não queria parecer séria demais.

Seo Ji-won: "Mas fazer disso um hábito seria irresponsável."

Enviar.
Ela jogou o corpo para trás na cama, cabelos ainda meio úmidos e a camisola de seda franzindo nas laterais. Não era nem confortável admitir, mas… estava curiosa pela resposta. A tela apagou. Ji-won respirou. O secador ligou novamente.




Zermatt — 18:15hrs
Jungkook estava encostado na janela, testando se a neve lá fora poderia dar alguma clareza. O celular vibrou. Ele leu a primeira linha, depois a segunda… e a boca fez aquele sorriso rápido, quase de reflexo.
– "O glamour mente…" – repetiu em voz baixa soltando um sorriso. – Se ela disser que isso parece slogan publicitário eu acredito.
Jimin virou no travesseiro, meio acordado.
– Está falando sozinho de novo?
– Não. – mentiu. – Só respondendo alguém.
– Hm. – Jimin tombou o rosto de volta. – Se está rindo, é porque gostou.
JungKook ficou encarando a tela, só então percebendo que estava rindo. Ele fechou o sorriso.
– Ainda não sei. – respondeu ao pigarrear.
Digitou:

Jeon Jungkook: "Jimin-Hyung acha que eu deveria te conhecer melhor."

Ele hesitou, olhou para o celular hesitante e… enviou.





Seoul — 01:19hrs
Ji-won travou. Literalmente travou, ficou ali parada, segurando o celular com a toalha pendurada no ombro. "Ótimo", ela pensou. "Agora até o Jimin entrou nessa confusão. Era só o que faltava." Secou o cabelo mais um pouco e respondeu:

Seo Ji-won:
"Engraçado. Minha mãe teve a mesma ideia."
Acrescentou:
Seo Ji-won: "Aparentemente todos ao redor acham que fingir intimidade exige… intimidade."
Enviar.


Zermatt — 18:27hrs
Quando a notificação surgiu, Jungkook quase soltou um riso, mas segurou. Não queria que o amigo o escutasse. Ele leu a primeira frase em voz baixa e bufou, incrédulo.
– Ótimo, estamos sendo gerenciados intencionalmente.
Digitou, polegar apoiado no queixo.

Jeon Jungkook: "Conveniente. Alguém aí sugeriu um roteiro?"

Pensou um segundo, depois permitiu um toque de sarcasmo suave.

Jeon Jungkook: "Porque aqui a ideia envolve refeições compartilhadas, exposição ao frio e ouvir Jimin dizer ‘isso é fofo’ a cada 10 minutos."

Enviar.
Ele apoiou a cabeça no encosto do sofá e esperou, sem admitir que estava esperando.




Seoul — 01:31hrs
Ji-won estava hidratando a pele quando o celular vibrou. Sorriu pelo canto da boca. Mas foi a última frase que a fez parar com o serum ainda na ponta dos dedos. Sentou na cama, cruzou as pernas, apoiou o cotovelo no travesseiro.

Seo Ji-won: "Aqui envolve minha mãe tentando decidir se eu devo marcar um jantar ‘casual’ ou simplesmente atravessar o Atlântico e aparecer por perto."

Ela pensou, olhou o relógio no canto da tela, e acrescentou.

Seo Ji-won: "Aparentemente ninguém sabe trabalhar com meio-termo."

Enviar.





Zermatt — 18:42hrs

Jungkook leu as mensagens em sequência lenta, como se estivesse degustando sarcasmo. A parte do "atravessar o Atlântico e aparecer por perto" o fez fechar os olhos por um segundo.

Jeon Jungkook: "Sua mãe é mais pragmática do que o meu staff, considerando as opções."

Pausa. Olhou para a tela, pensou em onde aquilo estava indo, ou poderia ir e continuou.

Jeon Jungkook: "Para registro, ninguém aqui saberia o que fazer se você aparecesse. O que é, ironicamente, um ponto positivo."

Enviar.
Jimin virou de novo, olhos ainda fechados.
– Você está rindo sozinho há meia hora.
– Estou trabalhando. – Jungkook respondeu, sério demais para convencer.





Seoul — 01:45hrs
Ji-won já estava deitada, luz apagada, só a luminária lateral acesa. O celular iluminou o quarto por instantes, e ela leu sem mudar a expressão, mas os olhos entregaram um pouco do humor. "Ninguém aqui saberia o que fazer se você aparecesse." Ela inclinou a cabeça para o travesseiro e digitou, com eficiência.

Seo Ji-won: "Imagino. Vocês têm cronogramas e protocolos. Eu seria um problema logístico."

Enviar.
Fechou os olhos por alguns minutos.





Zermatt — 18:51hrs

Ele riu de vez, deixando escapar um som real que fez Jimin abrir os olhos de susto.
– Você está rindo. – Jimin constatou, apontando.
– Nada demais. – Jungkook rebateu.
– "Nada demais" não faz você sorrir. – Jimin deitou de bruços, olhos estreitos. – Quem é?
– Seo Ji-won-ssi. – ele disse, curto.
Jimin piscou lentamente.
Um sorriso lento apareceu, o sorriso irritante de quem entende mais do que deveria.
– Perfeito. – disse. – Pergunta se ela gostaria de ir.
– Aonde? – Jungkook franziu o cenho.
– Pro Vietnã. – Jimin gesticulou, como se fosse óbvio. – Vocês vão ter que se conhecer de verdade alguma hora.
– Você não manda em mim. – Jungkook retrucou.
– Não, mas eu sou mais velho e os mais velhos estão sempre certos. – e voltou a dormir como se nada tivesse acontecido.
Jungkook suspirou, desacreditado, mas as palavras ficaram ali, na cabeça. Digitou:

Jeon Jungkook: "Jimin diz que você seria um problema logístico ‘interessante’. Traduza como quiser."

Enviar.





Seoul — 01:58hrs
Ji-won leu a mensagem duas vezes. "Problema logístico interessante." A sombra de um sorriso surgiu no canto da boca. Digitar parecia, por um segundo, uma decisão estratégica demais para a hora da madrugada. Ainda assim, seus dedos se moveram.

Seo Ji-won: "Jimin fala demais."

Apagou, embora fosse verdade.

Seo Ji-won: "Interessante não é exatamente um adjetivo tranquilizador."

Pensou um pouco e acrescentou.

Seo Ji-won: "Mas é melhor que entediante."

Enviar. E então ela largou o celular ao lado do travesseiro, sem desligar a luminária.





Zermatt — 19:04hrs
Jungkook deixou o celular vibrar no sofá por uns quatro segundos antes de pegar. A última frase fez um sorriso escapar antes que ele pudesse controlar, ela estava provocando de volta. Isso contava como progresso, definitivamente. Ele digitou devagar.

Jeon Jungkook: "A propósito, estamos em Zermatt até amanhã de manhã. Depois Vietnã."

Hesitou, porque aquilo tinha peso. Convite camuflado, aviso logístico ou só informação? Enviou mesmo assim. Antes que pudesse se arrepender, completou:

Jeon Jungkook: "Não é exatamente perto. Mas perto nunca foi o problema, certo?"

Enviar.





Seoul — 02:11hrs
O celular acendeu de novo e, dessa vez, Ji-won precisou virar de lado na cama para ler. "Zermatt até amanhã. Depois Vietnã." O raciocínio automático veio primeiro: distância, fuso, rota, compromissos. O segundo pensamento foi menos lógico e mais irritante: tempo. Ela apertou os lábios, digitando com cuidado.

Seo Ji-won: "Imagino que o staff tenha opiniões fortes sobre deslocamentos não programados."

Ela quase deixou por isso mesmo, mas algo, talvez a madrugada, talvez o cansaço, talvez o "poderia ser", empurrou mais uma linha.

Seo Ji-won: "De qualquer forma, a Suíça não fica no Atlântico."
Enviar. Ela apagou a luminária desta vez, mas ficou olhando o teto.



Zermatt — 19:23hrs
Jungkook soltou um riso curto, sem som, só o tipo de sorriso que se sente nos olhos. "A Suíça não fica no Atlântico." Certo, ela entendeu. Talvez desde o começo. Ele deixou o celular na mão, pensando que poderia só responder algo neutro, ou educado, mas honestamente, tarde demais pra isso. Pensou um segundo mais, e digitou a frase exata que Jimin diria se estivesse acordado.

Jeon Jungkook: "E, por coincidência, as conexões são mais fáceis do que parecem."

Enviar.





Seoul — 02:31hrs
Ji-won ficou olhando para a tela acesa por alguns segundos, sem piscar. "Conexões são mais fáceis do que parecem." Ele não estava brincando, ou estava? Não importava. O convite não era explícito, mas existia. E existia do tipo que fazia a mente trabalhar mais do que deveria às duas e meia da manhã.

Seo Ji-won: "Quem sabe?"

Ela parou ali, já era suficiente. Só faltava a parte difícil. Por três segundos o polegar pairou sobre o teclado, até que ela digitou a última linha, com um detalhe que nem a própria mente registrou de imediato.

Seo Ji-won: "Boa noite, JungKook."

Sem honorífico. Sem sobrenome. Sem o "-ssi".





Zermatt — 19:52hrs
Jungkook leu a mensagem uma vez, depois outra. "Quem sabe?." E depois: "Boa noite." Sem formalidade. Ele piscou, meio rindo, meio sem entender.
– Ela acabou de… – murmurou, tentando definir. – Provocar?
Jimin dormia, então a observação ficou só para ele. E, no entanto, a reação veio antes do pensamento.
– Tá. – disse para si mesmo. – Isso foi diferente.
Notou a informalidade como quem nota um passo em direção proibida. E gostou discretamente, do jeito que ninguém precisa comentar. Ficou ali, celular ainda na mão, quando alguém bateu na porta duas vezes.
– Jungkook-ssi, Jimin-ssi. – chamou uma voz da equipe, num tom educado, mas claramente prático – O jantar está pronto no salão. Precisamos descer em dez minutos. Jungkook respondeu, guardando o celular no bolso do casaco e respirou fundo. A Suíça estava fria lá fora, o Vietnã era amanhã, e o "quem sabe" tinha acabado de se tornar uma variável real.

Jeon Jungkook: "Boa noite, Seo Ji-won-ssi"

Capítulo 06 — O Lado Invisível do Caos

01 de Julho -Da Nang, Vietnã. 07:20 A.M. (hora local)


Assim que Jungkook deslizou a porta de vidro da varanda, a brisa vinda do mar trouxe um cheiro salgado e doce ao mesmo tempo, denunciando o verão vietnamita. O céu estava cor de pêssego, e as ondas quebravam preguiçosas na areia. Tinha alguma beleza ali, mas o sono lento denunciava o jet lag. Ele apoiou os antebraços no parapeito e observou o movimento lá embaixo. Caminhões descarregando estruturas metálicas, telas de LED sendo erguidas, funcionários uniformizados passando com walkie-talkies presos ao peito. A produção vietnamita não era grande, era enorme.
– Hyung! Café chegou! – alguém gritou no corredor, em coreano. Era um produtor da equipe coreana, acompanhando o reality desde Seul. Jungkook virou sem pressa, vestia apenas uma camiseta branca e shorts esportivos pretos. O cronograma no celular piscava.
08:30 – Briefing.
09:15 – Touch de styling & maquiagem.
10:00 – Gravação do episódio.
14:30 – Intervalo / troca de locação.
Nada novo. Só que, desde que aterrissou ali, tudo parecia mais devagar, como se a vida estivesse no modo "delay". Ele se abaixou, pegou o copo de café colocado na mesinha e caminhou até o canto do quarto. A equipe tinha deixado um script impresso com anotações de marcação de câmera, cues e tempos estimados. Ele folheou, já reconhecendo a dinâmica familiar de um programa que mistura travel, gastronomia e lifestyle. Enquanto lia, o telefone vibrou. Notificações de fãs. Hashtags vietnamitas. Clips do aeroporto. Ele deslizou a tela distraído… até parar na conversa com Ji-won. A última frase dela ainda estava ali. A mudança, o tom, a informalidade… Ele ainda não tinha decidido se tinha sido proposital ou se ele só estava interpretando demais. Mas o certo era, ele estranhou. E, discretamente, gostou. Alguém bateu a porta duas vezes.
– Jungkook-ssi, podemos entrar? – era o coordenador de produção coreano, acompanhado de uma assistente vietnamita com headset e prancheta.
– Claro. – ele deixou o celular virado para baixo.
A sala virou um pequeno formigueiro: ajuste de microfone, teste de bateria dos packs, checagem do in-ear, discussão de rotas de filmagem.
– Hoje começamos no mercado Han. Muitas tomadas externas, então precisamos ser rápidos. Depois vamos para a praia. – o coordenador falava enquanto entregava mais um roteiro.
– E visitantes? – Jungkook perguntou casualmente, como se fosse sobre qualquer coisa.
– Visitantes?
– Sim. Pessoas de fora da produção. Acesso ao set.
O coordenador franziu o cenho, tentando entender aonde ele queria chegar.
– O acesso é controlado, mas se quiser colocar alguém na lista, só precisa avisar com antecedência. Aqui é mais simples que em Seul. – Jungkook assentiu, mas não respondeu.
Alguém do styling surgiu com um cabide, camisa leve de linho bege, calça de algodão areia, tênis claro. Look pensado para o calor e para as câmeras. Enquanto provava a camisa na frente do espelho, passou o polegar pelo canto do celular, ainda virado para baixo na mesa. Quem sabe. Ela realmente tinha dito aquilo. E era a primeira vez que ela quebrava a formalidade, logo ela. Um bater leve na porta interrompeu o pensamento.
– Estão chamando para o café da manhã. A equipe está descendo agora.
Ele colocou o celular no bolso, a camisa ainda meio aberta e deu um último olhar pela varanda. Ele abriu a porta e acompanhou o grupo pelo corredor. A movimentação era alta, água mineral sendo distribuída, walkies chiando instruções em coreano e vietnamita. Antes de entrar no elevador, ouviu seu nome chamado.
-Jungkook-ssi! Vamos comer antes que esfrie!
Ele levantou a mão numa resposta silenciosa e entrou, ainda sentindo o calor subir pela gola do linho enquanto as portas se fechavam.

Jungkook desceu da van com uma garrafa de água na mão e óculos escuros, sentindo o calor colar na pele. O staff já estava montando câmeras perto de uma cafeteria charmosa, fachada amarela, letreiro em francês e vietnamita, Da Nang adorava lembrar que já tinha sido três cidades diferentes ao longo da História.
– Hoje tem passeio de barco no fim da tarde, não esqueçam. – avisou o produtor, abanando um caderno enquanto tentava não derreter.
Jungkook assentiu e puxou a máscara para o queixo, respirando fundo. Jimin saiu logo atrás, de boné branco e short jeans, acenando para alguns turistas que já estavam começando a reconhecer os dois. E ali veio a primeira onda de fãs. Contidas, mas apaixonadas. Duas garotas vietnamitas se aproximaram, com celulares erguidos e olhos brilhando.
Oppa, welcome to Vietnam! – uma delas disse, meio tímida e elétrica.
Jungkook sorriu com o corpo inteiro, aquele sorriso que tinha pouca defesa.
Thank you very much.
Jimin autografou um caderninho e ainda completou.
Você tem uma letra bonita. – a menina quase explodiu de alegria.
O staff observava atento, mantendo uma linha invisível de organização, mas deixando a interação existir, parte do charme do programa era exatamente esse, os dois sendo eles mesmos em contexto estranho. Quando a van seguiu caminho para a locação seguinte, Jimin sentou ao lado de Jungkook no último banco e tirou a máscara apenas o suficiente para murmurar.
– Então… – puxou o assunto. – Algum progresso?
Jungkook piscou.
– Progresso do quê? – Jimin não comprou a atuação.
– Por favor. – apoiou o braço no encosto. – Eu ouvi você rindo sozinho no hotel aquele dia. E desde que chegamos aqui você não para de olhar o celular. Então? Ela respondeu depois do "quem sabe" ou aquilo foi o grand finale?
Jungkook desviou o olhar para a janela.
– Não teve resposta depois do boa noite. – admitiu, finalmente. – Mas eu meio que não esperava. Era tarde.
Jimin estreitou os olhos.
– Você está chateado?
– Não. – Jungkook respondeu rápido demais. – Eu ficaria chateado com o que?
Jimin riu baixo, aquele riso de quem tinha um pouco de pena e um pouco de diversão.
– Da última vez que eu te vi sorrindo daquela forma para uma tela, você... – a voz dele foi perdendo o volume quando ele percebeu o que iria falar. Pigarreou. – Enfim, já tem um tempo.
Antes que Jungkook pudesse retrucar, o assistente abriu a porta da van.
Vamos! Câmeras montadas. Eles querem pegar vocês andando até a ponte! – o produtor fez um sinal com as mãos, coordenando tudo com eficiência militar.
Jungkook respirou, colocou a máscara no rosto e desceu. O sol o atingiu imediatamente. Ele ouviu Jimin atrás.
– E ah! – Jimin completou, puxando o boné pra trás. – Se ela não respondeu, talvez esteja esperando você mandar a próxima. Mulheres gostam de reciprocidade. Fórum da internet me ensinou.
Jungkook apenas balançou a cabeça.
– Me lembra de nunca ouvir seus fóruns. – Jimin sorriu.
– Tarde demais. Já aconteceu.
A câmera ligou. O diretor levantou a mão.
Ação!
Jungkook caminhou pela calçada, acenou para mais um grupo de fãs que filmava discretamente, e pensou, sem admitir para si mesmo, que se estivesse em Seoul, às 02:00 da manhã, talvez estivesse olhando o celular por motivo completamente diferente. E por um segundo, só um, o calor sufocante não parecia ser a única coisa difícil de respirar.


Da Nang — 17:48 PM


O calor tinha finalmente decidido diminuir quando o sol começou a escorregar atrás da Ponte do Dragão. A luz dourada refletia no Han River como tinta líquida, e o ar ainda úmido, mas menos agressivo, dava a impressão de que o mundo estava exalando. Jungkook e Jimin estavam sentados em uma mesa externa, latas de água de coco pela metade, o produtor revisando o footage do dia no monitor portátil.
– Amanhã a gente pega a parte cultural. – disse o produtor, rolando o vídeo. – Mercado, culinária, e talvez o barco. Depende da maré.
Jimin assentiu, já guardando o microfone no case.
Sem comida picante, por favor. – murmurou. – Meu estômago não passou no alistamento hoje.
O staff riu. Jungkook só balançou a cabeça, mordendo um pedaço de banh mi que alguém do set havia distribuído como tentativa de "mimo local". Foi quando uma pequena aglomeração começou a se formar no canto da praça. Duas adolescentes vietnamitas, depois mais três, depois um grupo misturado de turistas e locais, todos com celulares levantados, alguns tremendo.
Oppa! Can we take a picture? – disse uma, meio tímida.
Jungkook levantou com naturalidade, sorriso controlado. Jimin também. Eles sempre deixavam o staff pegar a linha defensiva, mas nunca ignoravam os fãs. Fotos, pequenos vídeos, autógrafos rápidos, tudo com eficiência gentil. Foi então que ele ouviu um coreano fluente.
Com licença… poderia autografar aqui?
A voz veio de trás de dois turistas. Familiar no tom, mas deslocada no contexto. Jungkook virou automaticamente, sem associar nada, apenas surpreso por alguém ali estar falando como nativo coreano. Era uma garota com boné preto, máscara branca, camisa de manga leve e shorts discretos. Ela segurava um caderno pequeno, nada de celular no modo selfie. Ele pegou o caderno e a caneta, ainda ouvindo o eco mental do coreano perfeito.
Seu coreano é muito b…
A frase morreu no meio. Por meio segundo, o cérebro dele tentou preencher o rosto a partir dos fragmentos visíveis, linha da mandíbula, mecha de cabelo solta abaixo do boné, postura reta, as mãos segurando o caderno com calma excessiva. Era familiar. Muito familiar. Jungkook piscou. O olho dele subiu para encontrar o dela. A máscara escondia a metade inferior do rosto, mas o olhar… aquele olhar entregava tudo. Ji-won ergueu uma sobrancelha para confirmar.
– Oi. – murmurou, baixo o bastante para não vazar em nenhum vídeo.
A respiração dele perdeu o timing por alguns segundos. Jimin, que estava tirando foto com duas fãs, só percebeu quando viu Jungkook parado como estátua. Ele se aproximou, curioso.
– O que fo…?
Antes que a frase se completasse, outra figura encostou no ombro de Ji-won. Era Min-ji. Mesmo boné, mesmo máscara, mochila nas costas, pulseiras finas, camisa oversized de algodão e um crachá de visitante pendurado no pescoço escrito "Merchandising / Buyer".
– Unnie, a câmera do mercado fecha às seis. – disse em coreano, sem perceber o caos ao redor.
Quando ela levantou os olhos e reconheceu quem estava à frente, congelou por meio segundo.
– Oh… – foi tudo que saiu.
Ji-won apenas inclinou o rosto e fez um cumprimento rápido. Jimin abriu a boca um centímetro, fechou, e depois sussurrou em coreano, devagar.
Não! É sério?
Min-ji inclinou ligeiramente o corpo para fazer uma reverência educada.
– Prazer… – disse e se virou para Ji-won. – Por que você não avisou que… eles estariam aqui?
– Eu não sabia. – respondeu Ji-won, seca. E então, em inglês, para despistar vídeos. Nice to meet you.
Jungkook devolveu o caderno, ainda processando. A produtora do programa levantou a cabeça do monitor nesse instante.
Jungkook-ssi! Jimin-ssi! Jantar em quinze minutos! Vamos!
Jimin respirou fundo, olhou para Jungkook e depois para Ji-won e soltou, quase rindo.
Isso vai ser divertido.
Min-ji se afastou um passo, puxando Ji-won pelo braço para a lateral da multidão. No movimento, deu um tapinha discreto nas embalagens de amostra que carregava dentro da mochila.
– Unnie, o designer está esperando a gente. E o showroom fecha nove horas. – disse ela em sussurro aflito, como se aquilo fosse mais urgente do que o literal Jungkook a dois metros.
Ji-won olhou para Jungkook por cima do ombro e falou quase inaudível.
A gente se fala. Vai lá.
Jungkook demorou um segundo para se mexer, mas se mexeu. Quando o staff os puxou para dentro da van, Jimin virou para ele com uma expressão que era metade susto, metade otimismo tóxico.
– Você não disse que ela viria.
Jungkook encostou a cabeça no banco, ainda vendo o boné preto de Ji-won desaparecer atrás da vitrine de um café. Ainda processando que Ji-won estava, de fato, ali.

Da Nang — 19:47

O showroom não era exatamente luxuoso, mas tinha aquela iluminação branca impecável que deixava tudo parecer mais caro do que realmente era. Prateleiras com cerâmicas artesanais, tecidos tingidos à mão, garrafas de café local e amostras embaladas com capricho. Min-ji estava agachada perto do chão, conferindo códigos de lote num tablet enquanto uma funcionária vietnamita esperava a assinatura. Ji-won estava ao lado dela, comparando notas no caderno e observando uma sequência de tigelas esmaltadas.
– Essa aqui é boa. – disse Ji-won, tocando a borda da cerâmica. – O acabamento não é poroso.
– É, mas a produção é limitada. – murmurou Min-ji em coreano. – Se a Seo & Co. quiser linha estável, vai ter que negociar exclusividade ou mudar fornecedor.
A funcionária sorriu educadamente sem entender nada, e Ji-won devolveu o sorriso com postura impecável. Assinaturas trocadas, planilhas atualizadas, amostras devidamente guardadas na mochila de Min-ji. Quando saíram para o lado de fora, o ar úmido da noite bateu no rosto das duas, carregando cheiro de peixe da proximidade do porto e de óleo das cozinhas de rua. Min-ji resmungou, conferindo o relógio.
– O designer do mercado pediu pra confirmar o meeting de amanhã às oito. – e então levantou a cabeça, arqueando a sobrancelha. – Oito da manhã. Quem marca reunião às oito?
– Não reclame, pedimos isso em cima da hora. – respondeu Ji-won, puxando uma garrafa de água da bolsa.
Andaram alguns metros, procurando um táxi, quando o celular de Ji-won tocou no bolso.

Jeon Jungkook
: Estão com fome, querem comer alguma coisa?

Min-ji nem precisou perguntar quem era, estava tão óbvio.
– Só lembrando que esta viagem era pra evitar especulações e manter o acordo profissional, segundo você. – e fez aspas com os dedos. – Resultado? Você encontra ele no Vietnã como se fosse um plot de dorama.
Ji-won cruzou os braços, olhando o taxi se aproximar.
– Foi coincidência. – não mentiu.
– Coincidência é esbarrar no ex no supermercado. – rebateu Min-ji. – O que ele quer? – perguntou ao entrarem no taxi.
Ji-won apenas sorriu para a irmã antes de responder "claro" para JungKook.

O bar internacional era pequeno e abafado, o tipo de lugar que vendia cerveja local e algumas garrafas de soju importado para os coreanos expatriados da cidade, com mesas baixas e luz amarelada demais para qualquer câmera se interessar. A música tocava suave, misturada ao burburinho de vozes em idiomas diferentes. Era um ambiente discreto e o staff tinha reservado as mesas no canto, então ninguém estava filmando. As garrafas já não estavam cheias. Min-ji apoiava o cotovelo na mesa, o copo entre os dedos, ouvindo Jimin falar com atenção exagerada. Ele gesticulava enquanto contava alguma história sobre uma gravação que tinha dado errado, rindo antes mesmo de terminar a frase, se sentindo à vontade como se não fosse a primeira vez na frente delas.
– Você está entendendo? – Jimin perguntou, rindo. Ele já tinha deixado a formalidade toda de lado a essa altura. – Porque na minha cabeça isso foi cinema.
Ji-won riu junto, inclinando o corpo.
– Estou tentando imaginar você levando isso a sério.
– Eu levo tudo a sério. – ele respondeu, fingindo estar ofendido. – Principalmente quando envolve comida.
Min-ji fez um som de concordância, erguendo o copo.
– Apoio esse valor de vida. – disse ela. – Meu estômago respeita quem respeita ele.
Jimin gargalhou alto, imediatamente interessado.
– Viu? Ela me entende! Qual é seu nome mesmo?
– Seo Min-ji. – respondeu ela, inclinando a cabeça. – Sou a irmã mais nova e o suporte emocional. – Que legal, é o meu nome ao contrário. Min-ji, Jimin... conseguiu entender?
Ji-won revirou os olhos, mas um sorriso escapou pelos lábios. A luz quente do bar recortou o perfil dela, e por um instante pareceu fácil esquecer quem ela era fora dali. Jungkook a observou em silêncio, levando o copo a boca com calma. Não havia nada de errado ali. Jimin era exatamente assim. Fácil e naturalmente cativante, seria lógico, até óbvio, que Ji-won estivesse confortável ao lado dele. Ainda assim, Jungkook precisou lembrar-se disso duas vezes. Talvez três. Mesmo que o próprio JungKook nunca tivesse visto esse lado dela. Na delegacia, tinha sido gelo. No estacionamento, choque. Nas reuniões, formalidade. Não sabia que ela sorria tão fácil, estava sempre com a expressão fria e parecendo sem tempo. Talvez fosse o álcool amolecendo arestas, talvez o bar, talvez, mas quando Ji-won riu mais uma vez, dessa vez com os olhos, algo dentro de Jungkook se ajustou sem aviso, como uma corda tensa que recua um milímetro. Ela estava confortável. Descaradamente confortável. Jimin, já visivelmente mais solto, apoiou os braços na mesa e olhou de um para o outro, elaborando um plano.
– Então, o que vocês irão fazer? – encarou Ji-won e Jungkook.
– Do que está falando, Hyung?
– Bem, Ji-won-ssi veio até aqui por causa de um combinado, e o Vietnã não é exatamente meia hora de Seoul. E vocês... – ele apontou com o copo. – Mal se olharam desde que chegaram.
Ele serviu mais soju nos três copos.
– Jimin Oppa tem um ponto. – Min-ji murmurou, baixinho.
Ji-won chutou a canela dela por baixo da mesa. Min-ji continuou bebendo, imune.
– Não deveriam estar se conhecendo melhor?
Ji-won piscou devagar. Jungkook pigarreou.
– Nós, estamos conversando, não é? – se virou para Ji-won brevemente.
– É, claro. – concordou e em seguida virou um copo.
Jimin semicerrou os olhos, desconfiado.
– Então vamos fazer um jogo.
Ji-won levantou o queixo devagar, desconfiada.
– Um jogo?
– Um jogo simples. – Jimin respondeu, ignorando totalmente o tom defensivo. – Cada um diz três coisas que gosta no outro.
Jungkook engasgou com o próprio ar.
– Isso não é um pouco infantil? – ela anunciou, imediata.
– Muito infantil. – Jungkook completou, sincero.
– Eu adorei a ideia. – Min-ji declarou.
– Você não está ajudando.
– Eu sei. – Min-ji sorriu, apoiando o queixo nas mãos.
Jimin serviu os quatros copos novamente.
– É tipo naquele filme… como é mesmo o nome? – ele olhou para cima, procurando o título no teto – "Esposa de Mentirinha"! Isso. Igualzinho. Sem a parte do casamento falso… quer dizer... – ele olhou para os dois e mordeu a língua. – na maior parte.
Ji-won desviou o olhar para o copo. Jungkook encarou Jimin se perguntando por que havia o convidado.
– Você está bêbado, Hyung. – JungKook observou.
– Eu começo. – Jimin o ignorou, feliz demais.
Ji-won cruzou os braços. Jungkook suspirou e Min-ji estava adorando tudo aquilo. Jimin pensou por alguns segundos apenas e apontou para Jungkook.
– Três coisas que eu gosto nele: ele trabalha muito bem sob pressão, ele tem senso de responsabilidade mesmo sendo maknae e… – Jimin inclinou a cabeça, observando o amigo. – Ele sempre consegue tudo o que quer.
Jungkook corou nas orelhas, virou o copo e evitou contato visual.
– Hyung, isso não conta. – reclamou, rouco. – Você me conhece há mais dez anos.
– Claro que conta. – Jimin rebateu. – E é só um exemplo.
Ele então virou-se para Min-ji com os olhos cheio de expectativas.
– Min-ji-ssi, três coisas que você gosta na sua irmã?
Min-ji nem precisou pensar naquilo.
– Gosto que você seja a mais velha, assim a mamãe pega mais no seu pé. – Ji-won rolou os olhos. – Gosto quando você paga a minha comida e... – ela hesitou um segundo, medindo se deveria ou não expor a última. – Gosto que tenha voltado da Inglaterra. – disse, segurando o olhar da irmã por um breve segundo.
Ji-won piscou, surpresa com a declaração da irmã. Quando Ji-won partiu, Min-ji ainda era só uma adolescente mimada que fazia questão de não se importar com nada. E Ji-won acreditava que isso era verdade, que a irmã nunca percebeu sua ausência. Enquanto ela atravessava triunfos e fracassos sozinha em outro país, Min-ji parecia continuar, intacta, vivendo como quem nunca precisou encarar expectativas.
– Certo... – Jimin cortou o ar tenso que estava se formando. – Ji-won-ssi, sua vez. – sorriu para eles. – Três coisas que você gosta no Jungkookie.
Ji-won não soube onde enfiar a cara.
– Eu não… – ela gesticulou com as mãos. – Não nos conhecemos o suficiente.
Jimin ergueu as sobrancelhas.
– Ele respira, ele nunca te atropelou na rua, ele tem tatuagens legais, qualquer coisa serve.
Jungkook passou a mão pelo rosto, resignado. Ji-won soltou o ar, derrotada pelo absurdo.
– Tudo bem… – ela se ajeitou na cadeira, hesitante. – Então… três coisas… – respirou fundo ao encará-lo. – Gosto da sua voz. Não que eu seja exatamente uma ARMY, mas eu também não vivia em baixo de uma pedra. Suas músicas tocam em todo lugar, de verdade. – ela confessou.
Ele escondeu sorriu de canto, não que fosse difícil acreditar naquilo.
– Gosto de como você tenta manter tudo sobre o controle... mesmo quando claramente não sabe como fazer isso.
O riso apagou no meio do caminho.
– Isso parece mais uma crítica.
– Não é. – ela respondeu. – É humano.
Houve uma pausa curta antes dela acrescentar.
– E eu gosto do fato de você nunca ter me tratado como um "problema".
O silêncio que se seguiu não foi desconfortável, os dois se encaravam como se pela primeira vez, estivessem se vendo de verdade. Jimin e Min-ji se olharam trocando um sorriso satisfeito.
– Viu, não foi difícil. – disse os fazendo ficar sem graça e desviar os olhos. – Agora você JungKook-ah. – apontou para ele.
Jungkook pensou por tempo demais para um jogo simples. Passou o polegar pelo copo, se sentindo intimidado e quando falou, sua voz saiu baixa, um pouco íntima demais.
– Gosto da sua ironia. – começou, sem rodeios. – Me faz rir.
Ji-won ergueu o canto dos lábios, um sorriso pequeno, quase secreto.
– Gosto da forma como você escuta antes de falar. Isso é raro. – olhou para Jimin esperando que ele capturasse a indireta. O mesmo apenas deu de ombros o ignorando. JungKook abaixou o rosto rapidamente antes de dar um sorriso enviesado e falar a última, por que era algo que o incomodava secretamente, mas há alguns dias ele tinha entendido o porquê.
– Gosto dos seus olhos. – disse enfim, levantando o olhar para ela. – Eles são grandes… e têm esse brilho... – ele procurou a palavra no ar. – Não é só bonito. É… luminoso. Como vista noturna. – ele soltou uma risada curta, envergonhada. – Tipo quando você está no topo da Namsan Tower e a cidade inteira vira luz lá embaixo. É assim. É o que eu vejo. – Ji-won sentiu o rosto esquentar de repente. – E você me olha como se eu fosse apenas uma pessoa comum. – completou, mais baixo, se lembrando da forma como ela havia o olhado no dia em que se conheceram. – E a muito tempo alguém não me olha dessa forma.
A última frase ficou pairada no ar. Sem estrondo, mas com peso. Por dois segundos, ninguém respirou do lado certo.
– Não vai dizer três coisas que gosta em mim? – Jimin arqueou a sobrancelha, cortando o clima, obviamente bêbado.
JungKook rolou os olhos, Min-ji e Ji-won não seguraram o riso.
– Gosto do som você faz quando fica quieto. – disse de forma atravessada, virando o corpo de lado para tomar o soju, fingindo um repentino respeito.
– Isso é muito ousado para alguém que não consegue manter o rosto em foco.
Jimin rebateu apontando para Jungkook com um olho meio aberto. Os três trocaram olhares confuso antes de rirem do que Jimin acabara de dizer.

Os copos vazios já haviam sido empilhados discretamente por um dos garçons, e o ar dentro do bar estava começando a ficar denso, como sempre acontece depois da meia-noite. O produtor apareceu na calçada falando baixo com alguém no telefone, e poucos segundos depois um carro preto parou em frente ao bar. O staff do programa desceu do passageiro e fez uma pequena reverência.
– Jimin-ssi, vamos? – perguntou, em coreano firme e profissional.
Jimin suspirou, olhou para as duas meninas e depois para Jungkook.
– Foi divertido. – disse em inglês arrastado para Min-ji, que riu do sotaque exagerado. Ji-won apenas inclinou a cabeça, educada. – Devemos fazer isso mas vezes? – e se despediu.
O carro partiu, levando metade do barulho junto. Ficaram os quatro: Jungkook, Ji-won, Min-ji e o motorista que aguardava instruções.
– Eu levo vocês até o hotel. Não faz sentido pegarem táxi agora.
Ji-won abriu a boca para protestar, mas Min-ji já assentava.
– Isso é muito gentil da sua parte.
Ji-won semicerrou os olhos para a irmã antes de segui-la e soltar um "muito obrigado" baixo e tímido. O trajeto até a Vo Nguyen Giap, onde o hotel delas ficava, levou menos de quinze minutos. A rua costeira estava calma, com luzes de hotéis refletindo no asfalto úmido e o som distante do mar quebrando em ondas abafadas. Quando o carro parou em frente ao saguão envidraçado do Holiday Beach Hotel, Min-ji abriu a porta antes mesmo do motorista desligar o motor.
– Obrigada. – disse para Jungkook, fazendo uma reverência curta. – Boa noite.
Ji-won esperava que ela completasse com alguma provocação, mas nada. Min-ji estava sóbria o bastante para medir limites e bêbada o suficiente para perceber que não precisava forçar. Ela entrou no lobby iluminado demais, subiu as escadas rolantes internas e desapareceu no segundo andar onde ficavam os elevadores. O carro ficou silencioso por alguns segundos até o motorista perguntar.
– Quer que eu espere? – olhando para Jungkook e Ji-won que desciam do carro.
Jungkook hesitou, olhou para Ji-won, e antes que pudesse pensasse melhor, Ji-won falou.
– Jungkook-ssi... – reuniu toda a sua coragem. – Você gostaria de subir?
Jungkook piscou uma vez, depois outra, tentando assimilar o que acabara de ouvir.
– Pode ir. Eu me viro. – ele disse ao motorista, sem desviar o olhar dela.
O funcionário acenou, engatou a marcha e o carro sumiu na curva da rua, deixando os dois parados na calçada quente, com o barulho abafado do mar logo atrás.

Ji-won passou o cartão na porta e entrou primeiro. Jungkook a seguiu, fechando devagar para não fazer barulho no corredor. O quarto era simples, limpo e organizado, cortinas longas balançando com a brisa úmida do mar que vinha da sacada misturado com o perfume leve da chuva que havia caído antes. A cortina flutuava, lembrando que aquela cidade dormitava sob um manto quente e pesado de monção. Havia uma luz amarela indireta vinda da cabeça da cama que deixava o ambiente mais íntimo do que qualquer um deles esperava. Ji-won largou a bolsa em cima da poltrona e tirou o blazer leve dos ombros.
– Min-ji-ssi está no outro quarto? – Jungkook perguntou, olhando ao redor.
– No outro corredor. – ela respondeu enquanto abria o frigobar. – Você quer beber mais alguma coisa? Nada forte… o hotel só tem essas miniaturas ridículas. – Ela ergueu duas garrafinhas minúsculas. – Sério, isso aqui é um insulto.
Ele riu.
– Aceito um insulto. – pegou uma mini garrafa de vodka. – Já que estamos colecionando momentos improváveis hoje.
Ji-won pegou outra, brindou no ar e beberam.
– Por que quartos separados? – ele perguntou, voltando ao assunto inicial.
– Privacidade. – respondeu simples. – Sempre funcionou melhor assim.
Jungkook assentiu, girando a lata entre os dedos.
– Ela parece muito confortável com você. – comentou, quase neutro. – Foi… bonito o que ela disse no bar.
Ji-won desviou o olhar, tentando não dar importância.
– Min-ji fala sem pensar. – ela murmurou. – Nem tudo é tão profundo assim.
Jungkook soltou um som curto que não chegou a ser riso.
– Às vezes é justamente porque ela não pensa que sai a verdade. – falou, tomando um gole pequeno.
Ji-won encarou a garrafa por um momento, dedos subindo e descendo no vidro.
– Ela tinha dezenove anos quando eu fui pra Inglaterra. – disse, num tom mais explicativo do que sentimental. – E quando eu voltei, ela estava… grande e independente. Ela adora trabalhar na empresa, ela faz parecer tão simples quanto respirar.
Ele apenas assentiu. Não foi invasivo e não pediu mais.
– Acho que ela sentiu a sua falta. – observou.
Ji-won respirou fundo, aceitando o fato, mesmo sem saber o que fazer com ele.
– Talvez. – respondeu. Ji-won encostando as costas na bancada, segurando a garrafa pela metade. Bateu com o dedo no rótulo, hábito antigo de quando precisava organizar pensamentos. – Você sabe… – começou, mas parou, pedindo permissão a si mesma para continuar. – Todo mundo sempre acha que eu fui para Inglaterra porque eu queria "viver". Ou "estudar". Ou sei lá… ser cosmopolita. – a tentativa de humor saiu fina e sem força. Ele não interrompeu. – A verdade é que eu não estava vivendo. – disse, finalmente. – Minha família tem essa coisa de… legado. – continuou, fazendo um gesto com a mão. – Seo’s isso, Seo’s aquilo. Negócios, reputação, "cargo de herdeira". Eu cresci ouvindo todos esses termos como se fossem sobrenomes. – Jungkook não reagiu, só se manteve atento. Ela desceu o olhar para o chão. – No começo, eu tentava corresponder. Estágio, reuniões, faculdade, eventos. Eu pensava: "É isso que eu tenho que fazer, então eu faço. " – ela respirou, lenta. – Só que teve um momento em que as pessoas esqueceram que eu tinha vinte e poucos anos, e eu mesma… esqueci também.
Um silêncio curto.
– E aí eu comecei a… – ela buscou a palavra certa, apesar de já tê-la na ponta da língua. – Afundar. – terminou, simples. Sem rodeios. Não havia vergonha no termo, só cansaço. – Depressão soa como algo que aparece num dia específico, mas comigo foi tipo… – ela levantou os olhos, procurando uma metáfora. – Um quarto escurecendo aos poucos. Primeiro você vê tudo, depois só sombras, e quando percebe… já está no escuro. – deu um meio sorriso triste. – E o pior é que todo mundo lá fora ainda acha que a luz está acesa.
A garrafa fez um som leve quando ela a pousou na bancada.
– Londres apareceu como uma solução meio desesperada. Um "vai, respira, sai daqui antes que você apague de vez". Eu não fui porque eu era corajosa. Eu fui porque eu estava quebrando. – admitiu, com um tom tão honesto que parecia doer no ar.
Ela não chorou apesar dos olhos marejados pela verdade exposta de forma limpa.
– E lá eu tive tempo. Pra falhar. Pra não ser "a herdeira". Pra ficar dois dias sem responder ninguém. Pra fazer terapia sem me sentir fraca. – um riso curto escapou. – Eu precisava lembrar como era existir sem estar no pedestal da família.
Só então ela ergueu o olhar para ele, lembrando que não estava falando sozinha.
– Então… acredito que seja por essa razão que Min-ji esteja feliz que eu esteja de volta. – ela deu de ombros. – Significa que agora, eu estou bem. – no fundo, não tinha tanta certeza assim, mas ela disse, e naquele momento foi suficiente.
Jungkook não se moveu por alguns segundos. Ele deixou a garrafa de lado, entendendo que barulhos desnecessários também são desrespeitosos. Quando ele finalmente falou, foi com a voz mais baixa do que ela já tinha ouvido dele.
– Deve ter sido muito solitário. – não era uma pergunta, nem uma conclusão. Era algo dito com cuidado por alguém que reconhecia uma ferida sem tocar nela.
Ji-won assentiu, lentamente.
– Foi. – admitiu.
Jungkook assentiu devagar, a encarando. Depois de alguns segundos ele aproximou-se num passo calculado, não queria assustá-la. Ficou ao lado dela, não na frente, porque encarar de frente às vezes era íntimo demais.
– Obrigado por me contar. – disse, enfim, num tom cheio de respeito. – Eu sei que… não é uma história que se conta pra qualquer um.
Ji-won assentiu novamente.
– É. – murmurou. – Normalmente eu só ignoro até que alguém mude de assunto.
Ele inclinou levemente a cabeça, curioso.
– Por quê?
Ela deu de ombros, olhando para o nada.
– Explicar dá trabalho. E as pessoas querem respostas rápidas, tipo "já melhorou?" ou "mas você tinha tudo", e a maioria das vezes eu nem sei o que responder. – ela suspirou. – Então eu paro de tentar.
Jungkook assentiu, lento.
– Sabe… – começou, se sentindo tímido – É estranho… mas eu nunca fui muito bom em ouvir as pessoas falarem de verdade sobre si mesmas.
Ji-won inclinou o rosto um centímetro, curiosa.
– Não porque eu não queira. – ele corrigiu. – Mas porque a maior parte das conversas que eu tenho giram em torno do que eu faço… não do que eu sinto. Tipo entrevistas, ensaios, bastidores. "Qual foi a inspiração?", "Como está o álbum?", "Quando é o próximo comeback?" – ele riu baixo, um som sem ironia. – É sempre sobre o que eu entrego. Nunca sobre o que eu aguento.
Ji-won não disse nada, só deixou que ele continuasse.
– Então, ouvir você falar disso com tanta clareza… – ele olhou para frente, não para ela. – Meio que me faz pensar se as pessoas esquecem que tudo isso aqui… – ele fez um gesto leve, apontando entre eles, o mundo, as expectativas. – Também pesa pra gente. Só que de jeitos diferentes.
Ele se sentia leve por poder falar sobre aquilo com alguém que não fosse os membros.
– Às vezes. – ele continuou. – Eu subo num palco ou lanço algo solo e parece que o mundo inteiro decidiu que eu tenho que acertar. Tipo… se eu entregar menos que perfeito, eu decepciono alguém. Se eu tento algo novo, é arriscado. Se eu repito, eu acomodo. E aí… – ele soltou um suspiro curto. – Aí eu começo a pensar: "Por que eles gostam de mim, afinal?" ou "E se eu perder isso amanhã?"
Ele deu uma risada quase envergonhada, a mão subindo para a nuca em um gesto defensivo.
– O mais louco é que não é ego. É medo. Medo de não corresponder a algo que eu nem entendo direito. – Só então ele a olhou nos olhos, mostrando sua vulnerabilidade e não exigindo nada de volta. – Então eu não vou fingir que sei como é ser uma herdeira e carregar o sobrenome de uma empresa nas costas. – disse com honestidade limpa. – Mas eu sei como é ser visto o tempo inteiro e, ainda assim… se sentir sozinho dentro disso.
Jungkook ficou alguns segundos em silêncio, com algo ainda preso na garganta. Ji-won achou que fosse o final da conversa, mas ele inspirou devagar e apoiou as mãos na bancada, com cuidado, escolhendo as palavras.
– Tem outra coisa.... – disse, a voz um pouco rouca. Ela ergueu os olhos, surpresa pela mudança súbita de tom. – Eu… preciso me desculpar.
Ji-won piscou, confusa.
– Por aquela noite na garagem. – ele continuou, mantendo o olhar baixo por um instante, perdendo a coragem no meio. – Eu estava paranoico, cansado e… sinceramente, não pensei. Eu só reagi. E você não merecia isso. Ninguém merecia.
Ela não respondeu, mas o silêncio demonstrava entendimento da parte dela.
– E também… pelo beijo. – acrescentou, baixinho, quase como se confessar em voz alta fosse aumentar a culpa. Ji-won comprimiu os lábios. – Eu fiz aquilo sem te explicar nada, e você ficou confusa. Você não tinha porquê entender. Eu só… estava tentando impedir outra pessoa de ser jogada no meio do furacão. E você estava ali. Foi injusto.
Ela não sabia como reagir, por que um pedido de desculpas era o que ela queria ouvir todo esse tempo, e agora que ela estava ouvindo... não sabia mais o que fazer.
– E, por último, por ter te arrastado pra esse… – ele girou o vidro no tampo de mármore, procurando uma palavra que não soasse ridícula. – Teatro. Relação. Sei lá. – O riso fraco dele morreu antes de virar humor.
Ele levantou o olhar, e havia algo ali que escapava da persona pública, um cansaço vulnerável, quase triste.
– Então… desculpa. Por tudo isso. Não tem justificativa boa o suficiente.
Ela soltou um breve sorriso.
– Sabe o que é mais engraçado? – ela começou. – É que, por um tempo ridículo… eu só queria ouvir isso. Um "desculpa". Nada elaborado, ou dramático. – Ela o olhou novamente. – " Me desculpa, eu achei que você fosse uma fã louca, por isso te tratei com frieza", "me desculpa, eu te beijei para não encrencar um amigo de trabalho", mas... o pedido nunca veio. – Jungkook baixou o olhar por um instante, um reflexo involuntário era como se cada exemplo fosse uma pedra discreta empilhada nas costas dele. – Só que aí eu parei pra pensar. – continuou, a voz agora mais baixa. – E percebi que não era só sobre mim. Você também estava no meio de um caos que eu não fazia ideia. Tinha coisas acontecendo que não eram da minha conta e sem querer, eu acabei me envolvendo. E, no final das contas… – ela deu de ombros, simples. – Você estava tentando sobreviver ao seu lado do inferno, e eu ao meu.
De alguma forma estranha, eles se entendiam e isso era tão obvio que não precisava ser dito. Talvez desde o início eles sempre souberam, só não era tão simples de entender. Mas ali, naquele quarto de hotel, sozinhos e expostos... longe de câmeras ou olhos atentos, eles conseguiam em fim, conseguir ser eles mesmos e essa era definitivamente a melhor parte daquele acordo. JungKook foi o primeiro a quebrar o silêncio. Ele abriu a mini garrafa, fez uma careta antes mesmo de beber, e perguntou num tom sorrateiro.
– Isso aqui… tem gosto de remédio ou eu que estou imaginando?
Ji-won piscou, surpresa pelo corte abrupto do clima, e riu antes que percebesse que estava rindo.
– Não é você. – ela respondeu. – É o hotel. Acho que eles compram coisas que ninguém mais quer.
Ele deu um gole minúsculo e fez uma expressão de: "por que fiz isso".
– Definitivamente remédio. – decretou.


Capítulo 07 — A Última Peça Do Quebra-Cabeça!


A Coreia tinha retomado sua cadência habitual como se Da Nang fosse apenas um intervalo registrado no calendário. No prédio da HYBE, Jungkook reaprendeu o próprio corpo. Não no sentido filosófico, embora pudesse ser, mas no sentido prático. Entre um ensaio e outro, ele cruzou com rostos familiares. Um aceno curto de Hoseok. Um "sobreviveu ao calor?" de um staff sorridente. Yoongi passou por ele como uma sombra produtiva, café na mão, fones no pescoço e zero interesse em socialização. Em outro ponto de Seul, Ji-won ocupava sua cadeira na Seo & Co. como quem nunca a havia deixado. A mesa estava limpa demais, sinal claro de que alguém tentara ser eficiente em sua ausência. Os relatórios empilhados traziam post-its em caligrafias diferentes, todos pedindo atenção imediata. Reuniões sucessivas, decisões rápidas, perguntas feitas com cuidado. Em um intervalo curto, ela devolveu um parecer com uma única anotação à caneta, "reavaliar risco jurídico" e encerrou o assunto sem discussão. Ninguém mencionou o Vietnã. O silêncio, no entanto, dizia mais do que qualquer comentário. Alguns olhares demoravam meio segundo a mais. Certas frases vinham acompanhadas de um "claro, considerando o momento". Ji-won respondia como sempre, objetiva, profissional e sem oferecer brechas. Sabia exatamente o que pensavam. Sabia também que não lhes devia explicações. A manhã avançou para os dois quase no mesmo ritmo, sem que soubessem disso. Foi só depois do almoço que JungKook foi chamado para uma sala menor, longe dos estúdios. Nada de mesa longa ou projeções na parede. Apenas o essencial, um executivo do PR, o manager e alguém que falava pouco, mas anotava tudo.
– A reação foi melhor do que o previsto – disseram. Mas não havia comemoração, pelo menos não uma que pudesse ser demonstrada.
Explicaram que o interesse havia diminuído, que o público parecia aceitar a narrativa de um artista adulto com vida pessoal. Que não havia necessidade de recuos, mas também não de avanços. Desde que não pareça planejado, coincidências funcionam melhor do que confirmações. JungKook assentiu e não discordou, muito menos perguntou algo. Já tinha aprendido que certas conversas não eram convites à participação, apenas avisos. Quando saiu da sala, o corredor estava vazio. Ele caminhou alguns metros antes de parar, apoiando o peso em uma perna só, o corpo pediu por um tempo. O celular vibrou no bolso. Ele não olhou. O ensaio já tinha passado do ponto ideal quando Namjoon bateu palmas uma vez, seco, sinalizando pausa.
– Cinco minutos. Antes que alguém desmaie. – disse, largando a prancheta no banco.
Jungkook se jogou no chão sem cerimônia, de costas, braços abertos e encarando o teto. Jimin sentou ao lado, puxando a toalha do pescoço.
– Eu juro que o jet lag só resolve quando você aceita que nunca mais vai dormir em um horário normal. – Jimin comentou, bebendo água.
– Da Nang ainda tá rodando na minha cabeça. – JungKook disse, rindo. – Toda vez que fecho o olho, parece que ainda tô naquele carro indo pra gravação às seis da manhã.
– Pelo menos o clima ajudava. – Jin respondeu e os meninos não souberam dizer se era ironia ou não.
Taehyung estava encostado no espelho, mexendo no celular com desatenção suspeita. Jimin percebeu, é claro.
– O que foi? – Jimin perguntou, sem olhar diretamente. – Tá sorrindo pra quem?
– Nada. – Taehyung respondeu rápido demais, bloqueando a tela. – Só… mensagem atrasada.
– Mensagem atrasada te faz sorri? – Jimin arqueou a sobrancelha, divertido. – Interessante.
– Você também sorri quando finge que não tá interessado em nada. – Taehyung devolveu.
Namjoon suspirou, sentando-se.
– Vocês dois são impossíveis.
O assunto poderia ter morrido ali. Não morreu.
– Falando em mensagens… – Jimin tornou a falar, casual. – Conheci uma pessoa. – Jimin disse, com cuidado. – Seo Ji-won-ssi. Em Da Nang, lembra dela? – olhou para Taehyung.
Jungkook virou o rosto. Por que aquele Hyung precisava trazer aquele assunto à tona?
– Lembro. – Taehyung disse, recebendo o olhar de todos.
Jungkook soltou uma risada curta, sem humor.
– O que é engraçado? – Taehyung questionou.
– Nada. – Jungkook respondeu, dando de ombros. – Só achei curioso.
– Curioso o quê? – Taehyung insistiu.
Namjoon interveio, tentando manter a temperatura baixa.
– Acho que esse assunto já está esclarecido, não é?
O clima de repente ficou pesado e desconfortável, Jimin pigarreou.
– Enfim, minha impressão dela foi boa. – disse, sincero. – Muito centrada. Nada do que alguns podem estar pensando.
Jimin queria apaziguar a situação, já que parecia ter um mal entendido entre os meninos. Um dia Seo Ji-won é flagrada com JungKook, no outro... aparecera no complexo com Taehyung. Por mais que aos olhos do público, ela esteve o tempo todo com JungKook naquela noite, internamente, para os mais próximos... alguns sabiam que não havia acontecido exatamente assim. Porém, com a agenda apertada, não parecia um motivo sólido para merecer cinco minutos do dia, pelo menos até agora.
– Ninguém tem que pensar nada. – Taehyung respondeu, defensivo. – Aquela noite na festa… não aconteceu nada.
– Mas ninguém sabe o que realmente aconteceu... – Yoongi deixou a curiosidade falar mais alto.
Taehyung abriu a boca, fechou de novo.
– Ela apagou. – disse, finalmente. – Eu não sabia o que fazer e decidi leva-la pra um lugar seguro. Só isso.
– E deixou ela pensando o contrário. – Jungkook respondeu, sem elevar a voz. Isso tornava tudo pior.
O próprio não pode conversar sobre esse assunto com Ji-won, por mais que quisesse. Não se viram depois da reunião e quando estavam, finalmente a sós, não foi a hora certa.
Jin se levantou, estalando os dedos.
– Ok. Pausa acabou.
Hoseok assentiu.
– Concordo. A gente tá aqui pra ensaiar.
Jungkook respirou fundo, passando a mão pelo cabelo curto, se sentindo frustrado. O espelho refletia todos eles, alinhados, profissionais outra vez. Mas a tensão não tinha ido embora. Só tinha sido empurrada para depois. Namjoon bateu palmas novamente.
– Do começo.
A música voltou, o assunto não.
Jungkook sempre foi bom em separar as coisas. Trabalho era trabalho. Imagem era imagem. O resto ficava trancado em compartimentos bem organizados, onde nada vazava sem permissão. Ele aprendeu isso cedo demais. Por isso, o incômodo o pegou desprevenido. Não era ciúmes, ele sabia disso. Não havia base, eles não tinham sequer uma história real para defender. O que existia entre ele e Ji-won era um alinhamento frio e profissional. Um namoro falso construído para conter os danos que eles haviam causado e evitar perguntas inconvenientes. Nada além disso. O ensaio já tinha recomeçado quando alguém da equipe apareceu na lateral da sala. Não interrompeu a música de imediato, fez apenas um gesto discreto para o manager, que assentiu com a cabeça e esperou o break natural da coreografia. Quando a música parou, o manager se aproximou de JungKook sem elevar o tom.
– Jungkook-ah, rapidinho.
Ele saiu da formação, pegou a toalha e o celular, o corpo ainda quente do ensaio. O espelho refletia uma expressão neutra enquanto caminhava até o corredor. O manager Park se aproximou com o tablet na mão e o olhar preocupado.
– Estão puxando de novo. – disse, sem rodeios. – Você e a Winter-ssi.
Jungkook pegou o tablet. Não precisou ler tudo. Bastaram as imagens capturas de tela, recortes de posts, círculos vermelhos marcando detalhes que, para qualquer outra pessoa, seriam irrelevantes. Um boné parecido. Um moletom de mesma marca. Um acessório discreto no pulso. Coisas pequenas para serem provas, porém o suficiente para serem ignoradas na Coreia. Os fãs tinham memória longa quando queriam. Os comentários se acumulavam em camadas. Uns defendendo, outros ironizando e muitos confusos.
"Mas ele não estava com aquela mulher?"
"Nada foi confirmado."
"Então nunca foi sério?"
"Por que tudo sempre volta pra Winter?"
Jungkook devolveu o tablet devagar, o pensamento voou em Ji-won. Se pegou pensando em como aquilo poderia soar para ela, não queria que ela interpretasse errado suas intenções, embora tudo aquilo tivesse começado de forma errada, tudo havia mudado desde Da Nang, pelo menos para ele. Manager Park voltou a falar.
– O público ainda não decidiu o que pensar da Ji-won. Isso pode deslocar a empatia.
Deslocar a empatia. Era assim que se dizia "ela pode sair prejudicada".
Jungkook ouviu tudo calado, as mãos apoiadas nos joelhos, o olhar perdido em algum ponto do corredor.
– Eu preciso pensar. – deixou claro que queria ficar sozinho. O manager respeitou a decisão e se afastou.
JungKook pegou o celular no bolso, imaginando que a essa altura Ji-won já estivesse sabendo de tudo. Pensou em contar a verdade, desde o início. Coisa que ele deveria ter feito no dia em que a HYBE se reuniu com a família Seo, mas não teve coragem, não parecia relevante e muito menos algo que se tornaria um empecilho entre os dois. Em nenhum momento, antes de Da Nang, achou que poderia sentir... algum tipo de apresso por Ji-won, então não achou relevante mencionar nada sobre Winter, porque não importava. Mas aquela maldita sensação de incomodo continuava crescendo dentro dele e ele odiava isso. Porém não fazia ideia por onde começar. Qualquer coisa que soasse casual demais pareceria descaso e qualquer coisa mais cuidadosa soaria como explicação. E ele ainda não sabia qual das duas coisas Ji-won menos merecia. Foi quando ouviu a voz atrás de si.
– Jungkook-ah
Ele fechou a mão em torno do telefone antes mesmo de se virar. Taehyung estava encostado na divisória de vidro do corredor. Havia algo contido em sua postura, e um receio em seu olhar.
– Agora não. – Jungkook respondeu, direto. – Depois a gente...
– É sobre a Ji-won-ssi.
Jungkook ficou imóvel por um segundo. Depois respirou fundo, curto. Sabia que uma hora ou outra, eles acabariam tendo essa conversa.
– O que foi?
Taehyung não respondeu. Apenas se virou e seguiu em direção a uma área menos movimentada do prédio, uma daquelas salas de apoio que quase ninguém usa, longe das câmeras e do fluxo. A porta se fechou atrás deles. Por alguns segundos, o silêncio foi mais eloquente que qualquer fala. Taehyung passou a mão pelo cabelo, inquieto.
– Eu errei. – começou. – Eu devia ter falado antes. Não falei porque me pediram para não me envolver, disseram que quanto menos nomes circulassem internamente, melhor. Eu aceitei. Foi mais fácil ficar quieto.
Ele passou a mão pelo cabelo, um gesto nervoso.
– Mas o silêncio também é uma escolha.
Jungkook não respondeu. Cruzou os braços, encostando-se à mesa. O olhar estava atento.
– Na noite da festa W. – Taehyung continuou. – Eu saí mais cedo, tinha combinado de encontrar o Seo-joon-Hyung. Ele estava com uns amigos fora do circuito da festa, coisa discreta.
O nome não surpreendeu Jungkook. Wooga Squad sempre foi uma extensão informal da vida de Taehyung.
– Quando cheguei no bar, a Ji-won-ssi estava lá com uma amiga. Ela já tinha bebido… não estava fora de controle, mas estava diferente. Mais solta. A gente conversou, coisas aleatórias. – Ele franziu levemente a testa. – Algumas coisas que ela disse… pareciam fora de contexto.
Taehyung respirou fundo.
– O Seo-joon-hyung precisou sair mais cedo e só depois percebi que a amiga dela também tinha ido embora. Ficamos só nós dois. Continuamos conversando, rindo e em algum momento… ela apagou.
Ele ergueu os olhos, encarando Jungkook com firmeza.
– Eu não soube o que fazer. – Taehyung admitiu. – Não dava pra eu leva-la para casa dela por que poderia ter algum fã, ou paparazzo... Não dava pra levá-la pra um hotel. E… – ele hesitou. – Achei que o complexo era o único lugar seguro. Ninguém entra lá. Ninguém sabe como chegar. Pelo menos era o que eu achava.
JungKook desviou o olhar por um instante.
– E no dia seguinte. – Taehyung continuou, o tom de voz mudou. – Você apareceu, havia um paparazzo lá e... – Taehyung não precisou terminar a frase para JungKook saber sobre o que se tratava. Ele sabia da Winter. – Enfim... Você fez o que fez por que achou que seria a melhor opção, mas... Nós dois sabemos que ela não merecia. E eu sei que você carregou uma parte disso que não era sua. Eu estava lá, poderia ter sido pior se tivessem me visto e graças a você não viram, mas você sabe que não foi por minha causa, ou por sua causa. – ele olhou diretamente para Jungkook. – E agora… talvez seja. Se existe alguém que pode acabar com essa história, é você.
JungKook permaneceu pensativo, Taehyung tinha a completa razão.
– Eu achei que estava protegendo todo mundo. – ele disse, finalmente. – Mas talvez eu só tenha adiado o problema.
Jungkook olhou para o celular ainda preso na mão. Quanto mais o tempo passava, parecia mais difícil contar a verdade.
– Só… – Taehyung acrescentou. – Não deixa ela pagar por um erro que não é dela.
JungKook não respondeu com palavras. Quando saiu da sala, caminhou devagar pelo corredor silencioso da HYBE. Parou perto da janela, desbloqueou o celular e, dessa vez, começou a digitar como quem finalmente entende onde precisa estar. Antes de enviar, hesitou apenas um segundo. Depois, escreveu.

Ji-won ainda estava na sala de reuniões quando a tela acendeu pela quarta vez em menos de dois minutos. Não precisou olhar para saber que não era algo urgente, não no sentido corporativo da palavra. Ainda assim, o estômago dela reagia como se fosse. A apresentação já tinha terminado, os diretores recolhiam papéis e tablets, trocando comentários baixos sobre prazos e ajustes finais. Ji-won encerrou a pauta com a mesma firmeza de sempre, agradeceu e saiu antes que alguém tentasse prolongar a conversa. O corredor do andar executivo estava quase vazio. Ela caminhava em direção à própria sala quando o celular vibrou dentro da bolsa. As notificações se acumulavam. Portais de notícias, mensagens indiretas em grupos corporativos que fingiam tratar de outro assunto, links enviados com um "viu isso?" Que nunca vinha sozinho. Ji-won entrou na sala, fechou a porta atrás de si e abriu uma das matérias. Jungkook. Winter. O texto era previsível, supostos indícios, antigos rumores, coincidências que reacendem especulações. Fotos reaproveitadas, capturas de tela ampliadas até perderem o sentido, nada concreto. Ji-won virou o celular com a tela para baixo ao se sentar em sua cadeira. Abriu um relatório na frente, alinhou a pilha de documentos à esquerda, pegou a caneta. Leu a mesma linha três vezes até o celular vibrar novamente. Não sentia raiva e muito menos estava surpresa. O incômodo parecia mais a falta de contorno, como tentar identificar uma dor que não sabe de onde vem.
– Unnie?
A voz veio da porta.
Min-ji apareceu com o crachá ainda pendurado no pescoço e um copo de café na mão, claramente já no modo fim de expediente.
– Você saiu da reunião rápido demais. – comentou, entrando sem pedir permissão. – O que, estatisticamente, significa problema.
– Eficiência. – Ji-won a corrigiu, organizando alguns papéis que não precisavam ser organizados.
Min-ji arqueou a sobrancelha ao notar o barulho do celular sobre a mesa.
– Tá todo mundo comentando disso. – disse, num tom casual. – Do… – fez um gesto vago. – Entretenimento corporativo do dia.
Ji-won soltou um suspiro curto e decidiu desligar o celular.
– Eu suponho que estejam.
– Você parece estranhamente calma. – Min-ji observou.
– E como eu deveria estar, exatamente? – tentou soar indiferente.
Min-ji encostou na mesa, avaliando.
– Não está irritada?
– Não. – respondeu imediatamente.
– Com o orgulho?
– Não... – deu um breve olhar para a irmã. – Eu acho.
– Chateada?
Ji-won demorou um segundo a mais dessa vez.
– Talvez. Mas não de uma forma dramática.
Min-ji soltou um sopro irônico.
– Claro que não. Você não faz drama, no máximo contenção.
Ji-won abriu a boca para retrucar… e não conseguiu. As palavras ficaram presas entre o pensamento e o orgulho. Pela primeira vez naquele dia, ela não tinha um argumento preparado.
– Eu não sei… – começou, e odiou o som da própria dúvida. – Eu não sei o que está acontecendo comigo. Tudo isso é... irritantemente confuso. – se levantou. – Em Da Nang, nada disso importava, podíamos ser apenas nós mesmo e não foi estranho, mas aqui em Seoul... – sentiu o olhar preocupado da irmã. – E eu nem sei se tenho o direito de sentir alguma coisa. – parecia que iria explodir. – A gente nem se conhece, estamos fardados há um compromisso falso e ele nem me mandou uma mensagem desde que voltamos e... – ela parou no exato momento em que se deu conta de que estava cuspindo todos os pensamentos intrusivos que a invadiram desde que recebera as notícias. Não ousou olhar para a sua irmã para não acusar o rosto envergonhado.
– Você se apaixonou por ele? – Min-ji precisava saber.
– Não! – exclamou, se sentindo ofendida. – Nada haver.
Min-ji semicerrou os olhos pensando se aceitaria aquela resposta.
– O que... exatamente aconteceu em Da Nang? – Min-ji perguntou, um pouco curiosa e muito perplexa em ver a irmã se expressar daquela forma, mas perplexa de uma forma boa.
Ji-won olhou pela janela de vidro que mostrava Seoul que a olhava de volta, mas dessa vez de uma forma indiferente.
– Vocês... não fizerem aquilo, fizeram...
– Ai meu Deus, não. – se virou para irmã não acreditando no que ela estava insinuando.
– Contou sobre o seu sonho de criança em ser a Barbie sereia?
Ji-won rolou os olhos.
– Ta, agora estou ficando irritada. – tornou a se sentar. A irmã não conseguiu segurar um riso ao se sentar de frente a ela, por dentro estava sentindo uma emoção avassaladora.
– Unnie, você sempre foi diferente de todo mundo que eu já conheci. – encarou a irmã. – Você sempre aceitou tudo em silêncio, quase nunca deixava ninguém saber o que estava pensando ou sentindo. Como se fosse um luxo que você não podia se permitir. Quando a mamãe disse que você ia para a Inglaterra, eu fiquei tentando entender onde eu estava naquela decisão. Você era tudo que eu queria ser. A filha perfeita. A inteligente. A que todo mundo elogiava. E nossos pais… – um meio sorriso breve e amargo escapou. – Eles te olhavam como se você fosse intocável e talvez você fosse. – pareceu buscar por aquelas lembranças. – Então eu fiquei secretamente com raiva. Não porque você foi embora… mas porque você não explicou. Eu fiquei achando que você só… não precisava de ninguém aqui ou de mim.
Ji-won mordiscou o lábio inferior ao abaixar os seus olhos.
– E depois, quando eu descobri a verdade… – a voz dela vacilou. – Eu fiquei com raiva de mim por não ter percebido, por não ter enxergado o que estava acontecendo.
Os olhos de Min-ji brilhavam discretamente.
– Eu nunca soube como chegar até você, unnie. – confessou. – Você estava sempre tão perto… e ao mesmo tempo tão longe. Eu achava que você era inalcançável, como se tivesse uma porta invisível entre a gente.
Ela deu um meio riso, sem graça.
– E eu me arrependo de não ter tentado abri-la antes.
Ela segurou a mão da irmã.
– Talvez eu não tenha o direito de opinar sobre isso tudo. – continuou, mais suave. – Mas como alguém que passou a vida te observando de longe… tem uma coisa que eu posso dizer com certeza.
Ji-won levantou os olhos para ela.
– É a primeira vez que eu te vejo se expressar assim. Se sentindo confusa, perdendo um pouco o controle. – Min-ji sorriu, e havia alívio naquele sorriso. – E, estranhamente… isso me tranquiliza.
As duas trocaram um sorriso silencioso.
– Seja lá o que aconteceu em Da Nang… seja lá o que você esteja sentindo pelo JungKook-ssi… você merece entender isso. Merece sentir isso. Sem tentar organizar antes ou pensar nas consequências.
Ji-won ouviu em silêncio, mas alguma coisa dentro dela se deslocou. Ela percebeu, com uma pontada quase dolorida, que a menina que sempre ficou alguns passos atrás agora estava ali, segurando a mão dela com firmeza. A orientando e a colhendo.
– Desde quando você ficou tão madura, Min-ji-ssi? – questionou entre um sorriso tímido.
Min-ji deu um meio sorriso, orgulhoso.
– Eu também sou uma Seo, no final das contas.
Ji-won soltou uma risada sincera e puxou a irmã para um abraço. Os braços de Min-ji a envolveram imediatamente, firmes, familiares e seguros. Ji-won fechou os olhos e, por um instante raro, deixou o peso que sempre carregava descansar ali. O mundo não precisava dela perfeita naquele momento. Ela só precisava ser a irmã. E, escondido naquele abraço silencioso, havia algo que nenhuma das duas disse em voz alta, mas que ambas sentiram com clareza dolorosamente doce:
"Você não está mais sozinha. "

Algumas horas depois, a noite já havia se assentado sobre Seoul, Ji-won decidiu que era hora de retomar a vida, não iria mais fugir, seja de fãs, paparazzo ou seus conflitantes sentimentos. Ji-won entrou no prédio pela entrada secundária, a que dispensava cumprimentos longos e curiosidade. O segurança a reconheceu de imediato, lhe deu um aceno discreto e profissional. O elevador privativo aguardava vazio. Ela entrou sozinha. As portas se fecharam com suavidade, abafando o mundo do lado de fora. O painel refletia um rosto cansado. Ji-won respirou fundo enquanto o elevador subia, rápido, silencioso. Ela estava imersa em seus pensamentos quando a porta se abriu e Jungkook estava ali. Não vinha do corredor, vinha da área restrita, alguns passos atrás da linha do elevador, como alguém que conhecia bem os tempos, os trajetos e os pontos cegos. O celular ainda estava colado ao ouvido, a ligação recém-iniciada. Na tela acesa, o nome dela. Ele congelou no mesmo instante em que a viu. O polegar pairou sobre a tela, e então ele desligou a chamada que havia caído direto na caixa postal. Por um segundo, o silêncio foi absoluto. Nenhum segurança. Nenhuma câmera ostensiva. Apenas aquele espaço neutro onde o mundo real não entrava.
– Seo Ji-won...
Ele quebrou o silêncio.
Era a primeira vez que eles se viam desde Da Nang, poucos dias haviam se passado, mas o sentimento que estava ali, era de que havia sido meses.
– Senhor Jeon. – lhe deu um aceno educado.
Ele respirou fundo ao notar a frieza dela.
– Podemos conversar?

O apartamento era amplo e contido. Havia sinais claros de rotina. Tinha uma jaqueta jogada sobre a poltrona, um copo esquecido na bancada, o tablet desligado ao lado do sofá. Assim que entraram, ele se abaixou e alinhou os próprios tênis perto da parede e antes que Ji-won avançasse um passo além da entrada, Jungkook abriu o armário baixo ao lado da porta e retirou um par de chinelos limpos, simples, claramente pouco usados.
– Pode usar esses. – disse, estendendo-os a ela. – São novos.
Ji-won hesitou por um segundo se sentindo estranha por estar ali, mas teve que se lembrar de que não era a primeira vez que eles ficavam sozinhos dentro de um espaço fechado e então aceitou. Tirou os sapatos com cuidado, o contato dos pés com o piso aquecido trouxe uma estranha sensação de abrigo. O lugar não era grande, mas era amplo o suficiente para respirar. Um sofá cinza-claro, largo, ocupava o centro do ambiente, voltado para uma TV grande presa à parede lisa. Não havia quadros chamativos, nem prateleiras cheias de troféus. Apenas uma mesa baixa, alguns livros empilhados de maneira distraída e uma luminária que emitia uma luz quente que quebrava o branco predominante.
– Eu te mandei uma mensagem. – Jungkook disse, ao se virar para ela.
Ji-won segurou a bolsa firme em seu ombro.
– Eu desliguei o celular. – disse, em fim. – Era muita... informação para mim.
Ele assentiu, compreendendo mais do que precisava.
– Faz sentido.
Houve um pequeno silêncio estranho. Jungkook foi até a cozinha sem avisar, abriu a geladeira e pegou duas garrafas.
– Posso te oferecer algo? – virou-se para ela. – Sikhye? Ou yuzu tea quente?
– Sikhye está ótimo.
Ele serviu com cuidado. Entregou o copo a ela com as duas mãos, um gesto respeitoso demais para a intimidade que não tinham nomeado. Sentaram-se no sofá, mantendo uma distância segura. Ji-won segurava o copo sem beber. E Jungkook apoiava os antebraços nos joelhos, respirou fundo ao se preparar para aquela conversa.
– Ji-won-ssi... sobre esses rumores...
– Você está bem? – ela o interrompeu sem perceber. A pergunta era sincera e inesperada. Jungkook ergueu os olhos, pego completamente de surpresa. Esperava frieza, impor uma distância, talvez ironia. Não aquela preocupação.
– Não deveria ser eu te perguntando isso?
– Está brincando? O nome da Seo & Co. está por todo lugar e as suas fãs estão me defendendo pela "suposta traição". – não segurou um riso, um pouco forçado, mas era um riso. – É você quem precisa se preocupar com a sua reputação.
Jungkook soltou o ar devagar pelo nariz. Um alívio silencioso percorreu seu corpo ao perceber que ela não estava brava.
– Alguém sempre precisa ser o vilão ou a vítima. – Ele levou o próprio copo à boca, mas não bebeu. O gesto ficou suspenso. Ji-won percebeu. – Embora eu não me sinto nenhuma das duas coisas. – completou ele.
Ela observou o perfil dele por alguns segundos. A postura era rígida demais para alguém na própria casa, ombros levemente tensionados. Parecia alguém que ainda não tinha entendido que estava em segurança.
– Eu sou arisca de início e eu sei muito bem disso. – ela mudou o assunto, de repente. Ele a encarou confuso. – A vida me trouxe esse lado chegado ao ceticismo. – deu de ombros e se serviu um gole. – Parte sarcástica, parte arredia. Um lado sempre erguendo a sobrancelha, não sei ao certo.
– Por que você... – ele queria questionar o motivo daquela conversa.
– Nós não deveríamos supostamente nos conhecer melhor? – ela o encarou de volta. O olhar claramente dizendo que estava tudo bem.
Ele piscou algumas vezes, tentando acompanhar aquela linha de raciocínio.
– Vai, sua vez. – Ji-won deixou o copo na mesinha central, levantou e começou a andar pela sala com os olhos curiosos, seus dedos tocavam as superfícies com cuidado a lombada dos livros, a madeira da estante, um porta-retrato virado para baixo.
– Acho que você passou tempo demais com Jimin-Hyung. – deixou um sorriso escapar.
– Ele não ficaria orgulhoso de mim? – ela perguntou por cima do ombro, já folheando um livro. – Comunicação emocional improvisada. Parece ser a cara dele.
JungKook se endireitou no sofá e ficou a encarando por alguns segundos antes de se render.
– Eu não consigo comer tteobokki sem sentir saudades de casa. – confessou, se sentindo envergonhado. Ela lhe olhou de relance, segurando um riso.
– Eu choro vendo Diário de uma Paixão. Toda vez. Mesmo sabendo exatamente quando vou chorar.
– Eu julgo pessoas que fingem que não choram nesse filme. – ambos trocaram um riso.
– Sempre fui boa em arrumar desculpas para os erros que os outros cometiam comigo. – de repente o ar ficou sério. JungKook assentiu em silêncio, processando tudo. – E eu sempre fui boa em me condenar quando eu mesma errava.
Mais silêncio.
– Evito me perguntar como poderia ter sido. – ele engoliu em seco. Ji-won o analisou. – Uma vida normal. Faculdade, andar na rua sem alguém filmando. Sem alguém esperando que eu seja alguma coisa o tempo todo.
Ela baixou o olhar, ficando de lado para ele. Ainda com o livro em mãos.
– Ainda tenho medo do escuro. – respirou fundo. – Ele me devolve pensamentos que eu pensei ter ficado para trás.
Jungkook não conseguiu deixar de reparar nela. Nos olhos que diziam mais do que a boca. No jeito como os lábios se comprimiam para segurar palavras. Na postura correta, elegante até no desconforto. O cabelo alinhado de um jeito que emoldurava o rosto com perfeição injusta. Ela era… estonteante.
– Eu costumava ser egoísta, o meu era meu e o de todo mundo, também era meu. – relembrou sua fase mais jovem. – Aprendi da pior forma que isso não funcionava.
Ji-won concordou silenciosamente. No fundo, ela sempre desejou ser egoísta ao invés de se preocupar com o que os outros poderiam pensar dela ou da família.
– Tenho a péssima mania de não querer que as pessoas saibam como eu me sinto. – a voz dela saiu baixa, mas não o suficiente para que ele não escutasse. Ele se levantou e andou lentamente até ela que ainda estava ocupada com o livro.
– Ás vezes eu penso que as pessoas nunca me veem quando elas me olham. – JungKook tomou de forma sutil o livro das mãos de Ji-won que se virou para ele sem conseguir o encarar. Ji-won mordeu o lábio inferir, sentindo suas bochechas esquentarem. Ele estava perto demais.
– Cada pessoa te vê com os olhos que elas têm e o que elas veem não é problema seu. – Ji-won praticamente sussurrou aquelas palavras. JungKook desceu os olhos até os seus lábios comprimidos e não conseguiu se segurar.
– Eu não consigo esquecer o gosto do seu beijo.
Praticamente sussurrou aquelas palavras e pós hesitar, ele levantou sua mão na altura do rosto de Ji-won, colocando uma mexa de cabelo atrás da orelha, seus olhos se encaravam de forma sincronizada, a boca dela, meio entreaberta denunciava a respiração falha. Os olhos dele desceram deliberadamente até os lábios dela, traçando uma linha com uma pressão sútil e provocadora com polegar. Ji-won se inclinou imperceptivelmente para o toque, como se seu corpo tivesse vontade própria. Então ele deslizou a mão até o queijo dela o inclinando em sua direção. Seus olhos, aqueles olhos que pareciam o despir diante dela, por que sempre pareciam tão intensos? O espaço entre os dois foi se diminuindo até que ele a beijou, um beijo quente e ansioso, daqueles que consomem o folego. Ji-won cedeu espaço para a língua sedenta, tanto quanto a dele e não tinha nenhuma intenção de negar. Suas mãos subiram até sua jaqueta, abrindo todos os botões à fazendo deslizar pelos braços de JungKook, sem quebrar o beijo, ele pressionou a sua cintura contra a dele desejando desesperadamente que ela sentisse o quanto ele a queria, e já fazia um tempo. Ji-won arfou, buscando pelo mínimo de folego, quando seus olhos se encontraram novamente, estavam ardentes, dilatando. Um sorriso surgiu nos lábios de ambos ao notarem que aquele desejo era mútuo. Dessa vez, Ji-won quem tomara a iniciativa do beijo, logo em seguida, sentiu as mãos de Jungkook puxa-la para seu colo, ela enlaçou a cintura dele com suas pernas e sentiu as mãos dele a segurar firme. Sem quebrar o beijo, ele a levou em direção ao seu quarto enquanto ela enlaçava o pescoço de JungKook com seus braços, sentindo seus lábios o desejando cada vez mais e mais. JungKook a deitou na cama, permanecendo parado de pé em frente a ela. Ficou a observando por alguns segundos, os cabelos emaranhados, a boca borrada de batom, a respiração acelerada, tudo nela era tão convidativo.
– Você não vai ser um clichê e perguntar se eu tenho certeza do que estamos preste a fazer, não é? – Ji-won o perguntou, claramente se divertindo.
JungKook puxou a regata e a passou por cima da cabeça, arrastando pelos braços e a deixando cair no chão, o cabelo levemente desgrenhado deixava o clima ainda mais quente. Ji-won observava aquela cena atentamente, até ele se arrastar pelo seu corpo e deitar entre suas pernas, aproximando o rosto o suficiente.
– Você não diria isso se soubesse tudo o que eu quero fazer com você.
Sem deixar que Ji-won lhe desse uma resposta atravessada, ele começou a beijar o pescoço de Ji-won enquanto suas mãos subiam até os botões da camisa dela, desabotoando um por um. Em um movimento rápido, Ji-won ficou por cima dele, se sentando sobre ele. A camisa, completamente aberta deixava à mostra seu sutiã, os seios reluziam na meia taça de renda, fazendo um formato perfeito e sexy. Aquela cena o desconcertou. Ela estava ali, linda, e entregue e ele estava pulsando por ela.
– Você tem noção do quanto é linda? – a pergunta escapou dele num tom reverente, como se dissesse algo que guardava há tempo demais.
JungKook se sentou na cama, retomando o beijo cada vez mais sedento e pedindo por urgência. Ji-won deslizou as mãos pelos ombros dele, sentindo a tensão firme sob a pele quente. Por um instante, o mundo pareceu reduzir-se apenas àquele quarto, ao som irregular da respiração dos dois e ao calor que crescia entre eles como se tudo parecesse finalmente ter encontrado o momento certo para acontecer. JungKook deslizou a mão pela alça de seu sutiã, a despindo e no segundo seguinte ele chupou gentilmente um mamilo, deslizando uma mão ao outro seio e com o polegar rodeou muito devagar o outro mamilo, alongando-o. Ji-won soltou um gemido e sentiu uma doce sensação descer até a sua virilha. Estava muito úmida. Os lábios dele se fecharam ao redor de seu outro mamilo, quando o lambeu, ela quase sentiu uma convulsão, jogando a cabeça para trás, a boca aberta e um gemido, as pernas endurecerem. JungKook voltou a ficar por cima dela, terminando de retirar todo o pedaço de pano que ainda havia em seus corpos. Sem desgrudar os olhos, ele levantou o braço até o criado mudo do lado da cama para retirar uma camisinha, precisou se inclinar um pouco para trás, para conseguir desliza-la pelo seu membro. Ji-won mordeu os lábios tentando controlar a respiração. JungKook se inclinou novamente para frente, apoiando as mãos ao lado da cabeça dela, de modo que ficasse suspenso sobre ela. A olhou nos olhos com a mandíbula apertada e os olhos ardentes.
– Eu sei que é clichê, mas eu preciso saber...
Ela segurou o rosto dele com as suas mãos.
– Eu quero isso tanto quanto você. – disse antes de puxar o seu rosto e o beijar fervorosamente.
Ji-won sentiu o membro de JungKook a penetrar, duro e ereto. Ele soltou um gemido de satisfação e começou a se mover dentro dela, primeiro devagar e com delicadeza e a cada segundo, foi aumentando a velocidade, notando que os dois estavam sentindo o mesmo prazer. Ele acelerou ao escutar o seu gemido, depois investiu com força, cada vez mais depressa, sem piedade, a um ritmo implacável, enquanto ela manteve o ritmo de suas investidas. JungKook abaixou o rosto a beijando bruscamente e voltou a morder seu lábio inferior com os dentes.
– Eu quero sentir você gozar. – sussurrou, quase em folego.
Era como se ele sentisse que Ji-won já estivesse chegando perto do seu ápice e assim que ela escutou aquelas palavras, se permitiu gozar, sentindo seu corpo relaxar pós clímax. E enquanto ele também goza, soltando outro gemido de prazer. Uma última investida e ficou imóvel, como se tivesse se esvaziando dentro dela.

Horas depois, o quarto estava mergulhado em uma quietude morna. A única luz vinha do abajur no canto, derramando um tom dourado sobre os lençóis desalinhados. O ar ainda guardava o calor deles. Ji-won tinha a cabeça apoiada no peito de JungKook, enquanto o silêncio confortável se acomodava entre eles. O braço dele estava relaxado ao redor dela. Ji-won passou os dedos distraidamente pelo antebraço dele, seguindo as linhas de tinta que subiam pela pele. As tatuagens pareciam ainda mais vivas sob a luz amarelada. Ela parou na mão dele, virando-a com curiosidade.
– Posso perguntar uma coisa? – murmurou.
– Você já perguntou. – respondeu ele, se divertindo.
Ji-won ignorou a provocação e passou o polegar devagar sobre as letras tatuadas.
– "ARMY".
JungKook abriu um olho, observando o gesto dela.
– Eu sei o que significa. – ela continuou. – Mas você realmente tatuou o nome do fandom na mão?
Ele soltou uma pequena risada.
– Eu disse uma vez que queria algo que sempre me lembrasse de onde eu vim. – respondeu, simples. – Então… acabou ficando aí.
Ji-won inclinou um pouco a cabeça, analisando os outros símbolos ao redor.
– O coração é meio autoexplicativo… – disse, tocando a pequena tatuagem. – Mas e a coroa?
JungKook deu de ombros.
– Meio que… lembrar de ter confiança. – murmurou. – Ou pelo menos tentar.
Ela deslizou o dedo até o pequeno emoji sorrindo.
– Essa parece suspeita.
– Essa é só… felicidade. – disse ele, com um meio sorriso. – Nem tudo precisa ser profundo.
Ji-won continuou explorando as tatuagens do braço dele, seguindo as linhas do desenho maior.
– E essas?
JungKook ficou em silêncio por um instante, se perguntando se ela realmente estava curiosa sobre suas tatuagens ou apenas adiando a conversa que eles eventualmente precisariam ter.
– Algumas coisas são só… arte que eu gostei. – respondeu, honesto.
Ji-won levantou o rosto para olhar para ele.
– Então você é do tipo que tatua coisas importantes… – ela passou o dedo mais uma vez pelas letras na mão dele.
– E coisas que só parecem bonitas.
JungKook virou a mão e entrelaçou os dedos nos dela. Ji-won sorriu de leve e voltou a se acomodar contra o peito dele.
– Você foi embora de repente... – mudou o tom e o rumo da conversa, o que fez Ji-won lhe dar um olhar curioso. Ele desviou o olhar por um instante antes de voltar a encará-la. – Em Da Nang. – acrescentou, para deixar claro do que estava falando.
Depois daquela noite no Vietnã, algo entre eles havia mudado. Pelo menos era assim que JungKook lembrava. Para ele tinha sido óbvio, ou talvez quisesse acreditar que fosse. Havia algo naquela madrugada que tinha ficado suspenso no ar, algo que parecia importante demais para simplesmente desaparecer. Ji-won sustentou o olhar dele por alguns segundos antes de soltar um pequeno sorriso torto, quase provocador.
– Pois eu achei que fiquei mais do que deveria.
– Poderia ter pelo menos deixado um recado.
Ela levantou o rosto, se sentindo ultrajada.
– Você também não mandou nenhuma mensagem.
– Eu não queria parecer clichê. – passou a mão pelo lençol que cobria o corpo dela o deixando à mostra.
– Por não mandar mensagem no dia seguinte?
Sentiu o corpo de JungKook se deitar sobre o dela e no segundo seguinte, eles estavam se beijando. O beijo começou quase como uma provocação, mas rapidamente ganhou intensidade. Ji-won segurou o rosto dele com as duas mãos, puxando-o mais para perto, enquanto JungKook se apoiava sobre os braços para não esmagá-la completamente contra o colchão.
– Isso definitivamente não parece alguém evitando clichês… – ela murmurou contra os lábios dele.
JungKook soltou um pequeno riso abafado e voltou a beijá-la, mais lento dessa vez, como se estivesse saboreando o momento. A mão dele deslizou por sua intimidade, encontrando o clitóris dela. Os dedos apertaram levemente a pele, o massageando, Ji-won não conseguiu segurar um gemido antes de ver JungKook desparecer por de baixo do pano, ele saiu distribuindo beijos por todo o corpo nu de Ji-won quando um bip eletrônico curto ecoou pela casa. O som foi sutil, mas inconfundível. Os dois pararam, um segundo depois, veio o som da fechadura digital destravando. Ji-won franziu a testa.
– Você está esperando alguém há essa hora?
JungKook já estava se levantando da cama.
– Não que eu saiba.
Embora a surpresa, ele não parecia alarmado. Aquela porta só abriria daquela forma se fosse alguém que tivesse a senha. JungKook pegou a calça jogada no chão e a vestiu rapidamente, passando a mão pelo cabelo bagunçado enquanto caminhava em direção a porta.
– Fica aqui. – disse, olhando por cima do ombro.
Mas Ji-won claramente não tinha intenção nenhuma de obedecer, rapidamente se levantou para vestir suas roupas. Ainda do quarto, ela ouviu os passos dele atravessando a sala. A porta já estava aberta quando JungKook apareceu no corredor, ele parou no meio do caminho. Por um instante, não disse nada. Encostada casualmente no batente da porta estava Winter, segurando o celular em uma mão. Ela ergueu os olhos lentamente para ele, o olhar percorreu JungKook da cabeça aos pés, cabelo desalinhado, peito nu, calça vestida às pressas. Um sorriso surgiu imediatamente.
– Oppa! – antes que ele pudesse reagir, ela atravessou a pequena distância entre eles e o abraçou com força. O impacto do abraço fez JungKook dar meio passo para trás.
No quarto, Ji-won reconheceu imediatamente o som de uma voz feminina e andou até o batente da porta do quarto, ainda abotoando sua camisa. Sua expressão mudou de confusão para surpresa quando conseguiu reconhecer quem estava ali.
– Min-jeong-ah… – ele murmurou, ainda claramente atordoado. – O que você está fazendo aqui?
– O manager Park me contou tudo. – ergueu o rosto imediatamente, ainda dentro do abraço, como alguém que esperava exatamente aquela pergunta. – Não foi culpa dele, eu o pressionei. Não brigue com ele.
– Do que você está falando...
– Você não está namorando aquela mulher, não é? É tudo uma farsa, você estava apenas me protegendo, nos protegendo dos haters. – a voz dela ficou mais suave. – Me desculpe não ter vindo até você antes, eu deveria ter percebido. – afundou o rosto no peito de JungKook enquanto os braços o apertavam fervorosamente.
Foi então que a fixa caiu e Ji-won finalmente conseguiu juntar a última peça do quebra cabeça que ainda faltavam. Nunca foi sobre ela, Taehyung ou qualquer baboseira que ele tenha inventado para convencê-la a fazer parte daquele teatro. Ele estava a usando. Ji-won ficou parada no batente da porta, sentindo algo frio em seu peito. De alguma forma, agora tudo fazia sentindo.
– Hm? – Winter viu a silhueta de Ji-won parada na porta. – O que ela faz aqui?
JungKook se virou imediatamente encontrando os olhos de Ji-won que refletiam a sua decepção e sentiu o seu peito afundar. Como aquele cenário havia mudado de forma tão drástica daquela forma? Minutos atrás eles estavam na mesma cama, agora parecia existir um abismo entre eles. Como ele explicaria toda aquela situação a Ji-won sem que ela o julgasse? Ji-won abaixou os olhos ao soltar um suspiro cansado.
– Jin-won-ssi... – instintivamente, afastou os braços de Winter da própria cintura e deu um passo em direção a ela.
Sem dizer nada, terminou de ajeitar a camisa por dentro da saia e abriu a porta do quarto por completo, passou reto pelos os dois, ignorando a presença dos mesmos. Pegou a sua bolsa que havia ficado no sofá, caminhou até a porta de entrada e se agachou para calçar os sapatos. Ninguém a impediu.
– Seo Ji-won! – JungKook a seguiu, a fazendo parar no corredor.
Ji-won fechou os olhos por um segundo, respirando fundo, tentando organizar a confusão de pensamentos que se atropelavam em sua cabeça. Quando finalmente se virou, o rosto estava calmo demais para alguém que havia acabado de descobrir que talvez tivesse sido apenas uma peça conveniente em uma história que não era sua.
– Aquele dia no estacionamento... – o olhou. – Ela estava lá, não estava?
Por um segundo, Jungkook apenas a encarou. Era uma pergunta simples. Sim ou não. Ele abriu a boca para responder, mas não saiu nada. As palavras que tantas vezes tinham passado pela cabeça dele, explicações, justificativas, versões menos cruéis daquilo tudo, simplesmente desapareceram. O silêncio entre eles se alongou de forma desconfortável, deixando o ar do corredor pesado demais para respirar. Ela o observou, não havia acusação imediata em seu olhar, mas sim uma atenção. Ela viu o momento exato em que Jungkook tentou falar outra vez, o leve movimento da mandíbula. A respiração que ele puxou, como se estivesse prestes a começar uma frase e então... a hesitação. Algo no peito dela se contraiu, porque aquela pausa… aquela fração de segundo em que ele não conseguia responder… dizia mais do que qualquer explicação. Ji-won assentiu devagar confirmando algo que no fundo, ela já suspeitava.
– Entendi...
– Ji-won-ssi, eu...
– Você não me beijou para proteger a mim e ao Taehyung-ssi de um escândalo maior. – o interrompera. – Você precisava de uma distração, alguém que a mídia pudesse transformar em uma história… enquanto a pessoa que realmente importava ficava protegida.
O maxilar dele travou. Ji-won deu alguns passos na direção ao elevador e apertou o botão se sentindo patética enquanto esperava as portas se abrirem.
– Não foi bem assim que... – ele tentou falar, mas naquela altura, parecia que nada do que dissesse seria uma desculpa descente para o que tenha acontecido.
– Então como foi? – virou o rosto bruscamente em sua direção, porém novamente, não obteve uma resposta. – Sabe o que é curioso?
Ela manteve o rosto erguido, ao encarar o seu reflexo no metal a sua frente, enquanto os números rolavam no painel.
– No primeiro dia que a gente se encontrou… você achou que eu era uma sasaeng. Você nem me conhecia… e já tinha decidido quem eu era.
O painel do elevador indicou que ele estava chegando ao andar. Ji-won observou o número mudar antes de voltar a olhar para ele.
– Acho que no fim das contas… eu cometi o mesmo erro. – ela acrescentou quando as portas se abriram. – A diferença é que eu demorei muito mais para perceber.
Ela lhe deu um último olhar antes de entrar no elevador e desparecer diante de seus olhos. Ele permaneceu parado no corredor, olhando para o metal refletivo por alguns segundos, por um breve momento, Jungkook considerou apertar o botão de chamada. Ir atrás dela. Dizer qualquer coisa, qualquer explicação que pudesse impedir que aquilo terminasse daquela forma, mas ele não se moveu. Pela primeira vez desde que tudo tinha começado, Jungkook pensou naquela noite no estacionamento. No olhar frio com que tinha acusado Ji-won de algo que ela nunca foi. Na forma como ela tinha sustentado a humilhação sem recuar. Ele tinha passado semanas tentando provar que não era o tipo de homem que ele demonstrou naquele dia. E, de alguma forma, tinha acabado exatamente no mesmo lugar.



Continua...



Nota da autora: Olá, tudo bem? Não sou muito boa com notas e eu nem sei se tem alguém além de mim, lendo essa história, seria interessante saber se mais alguém se diverte lendo tanto quanto eu me divirto escrevendo. Em fim... Essa é minha primeira história +18, então espero que não se importem com a falta de detalhes nas cenas. É isso. Até a próxima att 




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