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Finalizada em: 06/08/2020

INTRODUÇÃO


, conhecida só como , é formada em jornalismo e acaba de virar a repórter-entrevistadora da revista Britânica, One For The World, mais conhecida como OFTW. Tem 28 anos e cabelos castanhos recém cortados que batiam 1 palmo abaixo do seu ombro. E tudo que queria era não desapontar sua chefe, Fiona Mendonça. Gosta de coisas verdadeiras e também de se exercitar ao ar livre.
Hoje, em especial, ela está muito animada por estar indo entrevistar pessoalmente seu primeiro artista. Ela não sabia nada sobre antes de ter recebido essa tarefa, mas ele deve está tão animado quanto ela, já que está prestes a se casar.


CAPÍTULO 1


Entrei em um quarto de hotel espaçoso e cheio de móveis, e lá estava ele sentado em um dos 2 sofás no centro do cômodo, mexendo no celular. Assim que me viu entrar, disse que só estava vendo a hora, escondeu o celular entre as mãos e se levantou para me comprimentar. Olhei no relógio que apertava um pouco meu pulso e confirmei que não estava atrasada, sorri aliviada e caminhei até um que parecia animado.
Nos sentamos, um em cada sofá, um de frente para o outro. Ele cruzou as pernas e abriu os braços sobre as costas do sofá, aparentando estar completamente relaxado. Eu por outro lado estava ansiosa para a entrevista e com um sentimento bom, mas que eu não conseguia distinguir exatamente.
— Tudo bem? — disse com um sorriso torto e eu só consegui concordar com a cabeça, então pisquei os olhos algumas vezes e lembrei de procurar meu velho gravador. Virei minha cabeça para o lado para pegar o gravador e, antes que minha mão chegasse na minha bolsa, uma coisa chamou a atenção dos meus olhos. No chão tinha uma bolsa de cores vivas do lado dos pés de . Da bolsa meu olhar passou para o tênis da Vans que calçava, em seguida reparei que ele estava com uma calça jeans preta apertando suas pernas… camiseta larga… subi mais o olhar até chegar em seu rosto, onde encontrei seu sorriso cercado por suas bochechas em um tom avermelhado.
— Você gosta do que vê? — Ele disse com uma voz rouca em tom divertido. Dei risada um pouco envergonhada pelo acontecido. — Eu tenho o tempo que quiser. — Ele só pode estar com pressa! Me dei um tapa na cara, em pensamento, e voltei a ser a repórter competente e profissional que sou… eu acho...
— Me desculpe! — Disse procurando o gravador. — Não quero tirar muito do seu tempo na verdade. — disse enquanto procurava o gravador na bolsa.
— Não... — Ele disse e eu parei de procurar e olhei pro mesmo. 'Não' o quê? — Eu falo sério. A minha casa tá cheia de mulheres com o rosto cheio de máscara de abacate e rodelas de pepino nos olhos. — Dei uma gargalhada com as sobrancelhas juntas enquanto lembrava dos fins de semana que passava na casa da minha mãe.
— E com certeza estão com aquelas toucas térmicas na cabeça, hidratando o cabelo há mais de 1 hora enquanto o esmalte vermelho seca nas unhas. — Eu completei rindo e imaginando. Ele me olhou com os olhos semi-fechados como quem desconfia.
— Eu deveria saber… — Ele disse fazendo mistério.
— O quê? Que isso é a razão para elas terem caspa? Ou para a pele delas ser oleosa? — Disse listando o que passava na minha cabeça.
— Não… — Ele riu. — Que você é de fazer essas coisas também. — Quem? Eu? Tá cego? Olha só minhas unhas!!! É melhor nem querer conferir meu cabelo... deve ter um rato dentro desse coque… Continuei rindo sem dizer nada. — Não é que seja ruim, mas depois que comecei a namorar , ela só fica se encontrando com minha mãe e fazendo essas tardes de beleza com as amigas delas, e agora com os preparativos do casamento parece que a frequência de encontro aumentou. — Ele disse e depois raspou a garganta e ficou sério.
— Entendi. Na verdade minha mãe tem esses dias de beleza, mas eu sempre dou uma desculpa para que nem ela e nem suas amigas reclamem do meu cabelo mal cortado ou das minhas unhas mal feitas. — Sorri mostrando minhas unhas e voltei a procurar meu gravador.
— Esse seu relógio… — disse e eu olhei pro meu pulso, já segurando o gravador.
— Eu tenho desde criança. — Disse prontamente.
— Eu já vi um desses… — Olhou para o gravador. — Bom, vamos começar! — Disse animado.

A OFTW tinha a política de que os entrevistadores não poderiam usar celulares nas entrevistas para nunca acontecer de vazar informações, como fotos e vídeos, de forma indevida.

...

— Ah, já acabou?? — Ele perguntou e afirmei com a cabeça, com o coração um pouco tristonho. — Eu te convidaria para um café, mas acho que você tem mais o que fazer. — Ele levantou e pegou a bolsa... Fala sério, nem se o Silvio Santos aparecesse na minha frente me oferecendo um caminhão de aviãozinho azul, eu perderia essa chance!!!
— Na verdade, eu não tenho! — Eita! Mentira!
— Certo... Então vamos! — Ele disse simpático pegando a bolsa do chão e eu lhe segui em direção a porta.
Paramos em um café perto do parque e conversamos bastante, demos bastantes risadas e pude degustar da torta de limão mais gostosa que já comi, me distraí como não fazia há muito tempo. Daí então meu celular tocou interrompendo nosso momento amigável. Eu não queria atender, mas era minha chefe.
— Desculpe, preciso atender. — Pedi licença e me afastei um pouco da mesa, vendo ele concordar com a cabeça. — Oi, Fiona. — Sim, a gente não se falava formalmente.
, POSSO SABER POR QUE VOCÊ NÃO ESTÁ NO ESCRITÓRIO? — Ela perguntou mas com certeza não queria resposta. — VOCÊ SABE QUE EU TENHO QUE VER A MATÉRIA ANTES QUE SEJA PUBLICADA. E EU PRECISO QUE ELA SEJA PUBLICADA ESSA SEMANA, DE PREFERÊNCIA AMANHÃ.
— Mas o que houve com a matéria da Rose que seria para essa semana?
— ROSE NÃO FAZ UMA BOA MATÉRIA HÁ MESES, ENTÃO TOMEI UMA ATITUDE E, SE VOCÊ NÃO APARECER NA MINHA SALA EM 10 MINUTOS, PODE IR DIRETO AO RH QUANDO CHEGAR. — Ela disse e desligou sem ouvir uma resposta.
Voltei para a mesa.
— Bom, eu tenho que ir, o trabalho me chama! — Disse fazendo bico sem perceber.
— Ah, tudo bem. Eu vou ficar por aqui mais um tempo... — Ele disse e levantou para me dar um abraço forte. Bateu uma brisa em seus cabelos e eles voaram na minha cara, trazendo seu cheiro. O que me parecia familiar, apesar de ser a primeira vez que o vejo pessoalmente. Por ser uma chance única, eu abusei um pouco dessa proximidade e acariciei seus cabelos macios.


CAPÍTULO 2


Fiona falava muitas palavras em um segundo só, mas eu não conseguia entender nada porque a maior parte da minha cabeça estava em , em como ele é simpático e cheiroso… E em como eu precisava abrir meu e-mail da empresa para abrir a gravação da entrevista e escutar a doce voz dele de novo.
— Pode ir agora. — Ela disse por fim me trazendo de volta à realidade. — Espero não ser decepcionada de novo.
— Sim, senhora. — Disse querendo colocar um fim naquele sermão dela. — Fiona, sei que está tarde e você quer ir pra casa descansar, então eu posso fazer essa matéria sozinha e publicar amanhã cedo, sem problema algum.
— E quem que vai colocar os glitter que mantém essa revista no ranking das melhores? — Ela disse sabendo que sou contra esses malditos glitter que distorcem a verdade e criam falsas cogitações sobre os famosos.
— Na verdade eu tenho certeza que essa matéria não vai precisar de glitter algum. E pensei em fazermos uma matéria mais carismática, dessa vez.
, não me aborreça com esse papo, você sabe que os leitores desta revista só estão aqui por causa dos meus glitter... Faça o rascunho e me mande por e-mail, eu vou dar uma olhada na matéria em casa, hoje à noite porque tenho um jantar com minha filha hoje, e amanhã cedo eu mesma dou uma revisada antes de enviar.. — Sorriu falsamente. — Agora por favor... — E apontou para a porta.

Fiona Mendonça nunca foi flor que se cheire, mas depois de pegar seu ex marido com sua própria secretária no motel, no ano passado, ela passou a virar um cacto, totalmente viciada em ser a melhor no trabalho e mal dá atenção à própria filha. Nossa revista é uma das melhores do país, mas para ela quanto mais fuxico, mais sucesso e com isso seremos a número 1 em breve. E eu só tentava fazer ela mudar de ideia e deixar de ser compulsiva por fofoca, mas parece que quanto mais tentava, mais ela me ignorava. E eu não podia fazer muito, já que a empresa está nas mãos dela agora.

Na manhã seguinte, quando cheguei na empresa, ainda não tinha quase ninguém, então pensei em publicar antes que Fiona chegasse. Mas fui surpreendida pela imagem da mesma saindo da sala de gráfica. Droga, ela chegou antes de mim.
— Oi, . — Ela disse.
— Oi, Fiona. Chegou cedo hoje! Como foi o jantar com sua filha? — Eu disparei a dizer sentindo o frio descer pelas minhas costas.
— O imprestável do pai dela não levou ela pra casa ontem. — Ela disse e logo sacudiu a cabeça e pediu com as mãos para eu me aproximar da mesa onde ela estava sentada. — Hoje eu cheguei mais cedo porque essa matéria vai bombar. Ela vai ser o pico alto da nossa semana. Eu editei ontem à noite mesmo, mas hoje recebi uma informação extra. — Ela dizia e mexia as mãos como se estivesse saindo pó mágico de seus dedos. — Será que você pode pegar um café pra mim? — Ela fez voz meiga pra pedir o café... Foi quando eu percebi que tinha alguma coisa muito mais errada que o normal.
— Você está bem? — Não consegui segurar a pergunta.
— Sim. Estou bem, mas se eu estiver com meu copo de café em 10 minutos vou estar ótima. — Ela sorriu... Pelo jeito essa informação extra deixou ela muito animada mesmo. Será que é um namorado novo?

Levei o café pra ela e tentei mais uma vez falar sobre a matéria e ela me jogou literalmente para fora de sua sala. Logo o pessoal foi chegando no escritório e eu fui fazendo minhas tarefas normais. 2hrs mais tarde comecei a receber vários e-mails e notificações do assunto , ao abrir eram capas de outras revistas com a mesma foto em destaque: Eu acariciando seus cabelos enquanto o abraçava, no restaurante que fomos ontem. Eu gelei. Como eu não imaginei que poderia ser fotografada com ele? Estávamos na rua! Estou ferrada!
E o pior, saímos na capa de quase todas as revistas… e jornais.

"Garota misteriosa é vista passando a tarde com nosso queridinho , do McFly."

"Enquanto se diverte com os preparativos para seu casamento, seu noivo, , se sente entediado e procura por sua própria diversão secreta... Não tão secreta assim."

"Será que o noivado dos sonhos acabou?"

E então meu coração quase parou quando vi o e-mail seguinte.

"DESPEDIDA DE SOLTEIRO ENTRE AMIGOS É PARA OS FRACOS, ESTÁ UM PASSO À FRENTE DE TODOS E SABE COM QUEM SE DEVE ESTAR EM UM EVENTO COMO ESTE.
"Ontem o nosso queridinho foi ao seu restaurante favorito acompanhado da repórter . Alguns rumores, já confirmados, dizem que eles estavam a sós no luxuoso hotel Greater Greece provavelmente fazendo uma "festinha" particular entre os dois, alguns minutos antes de as fotos serem tiradas.
[Foto dos dois descendo a escadaria do Hotel]
"Mas o que nos dá toda a certeza do ato é a forma como eles se despediram: com um longo e caloroso abraço onde trocaram carícias e provavelmente marcaram de se encontrar de mais uma vez.
"É, galera, o nanico do McFly cresceu e está um passo à frente da gente. Onde imaginaríamos que aquele quieto e reservado garoto viria a quase passar despercebido nessa. E vocês acharam que acabou? Veja a seguir uma entrevista recente com .”

Quando eu terminei de ler toda a matéria eu queria esganar a Fiona com minhas próprias mãos. Por ela ter transformado em um tremendo babaca e por ter publicado a minha entrevista no nome dela.
Sai batendo o pé até a sala da Fiona e entrei sem bater na porta. Eu estava tão furiosa com ela que não me importei se ela estava em reunião.
— FIONA, EU PRECISO FALAR COM VOCÊ. AGORA!!! — Eu disse na frente dela e de mais 3 caras de terno que começaram a cochichar assim que me viram. Me segurando pra não explodir ali mesmo, vi Fiona pedir licença e me seguir para fora da sala.
— O que foi agora? Não gostou da matéria? — Ela sussurrou e sorriu com ironia. — Dessa vez eu não mudei uma palavra da sua reportagem, só dei um pouco de brilho na introdução.
— Sabe, Fiona, eu não consigo te entender. Você passa por cima das pessoas, como se fossem nada, só para ter o reconhecimento elevado dessa revista.
— Querida, a gente tem que ir atrás do nosso objetivo, custe o que custar. E você não me disse que iria tomar um chá da tarde com um amigo. Eu tive que descobrir com o meu paparazzi particular o que você estava fazendo.
— Você distorceu todo o sentido da história e ainda acabou difamando o como se ele fosse seu inimigo. E pra piorar me colocou nessa coisa toda. — Eu queria gritar, bater em Fiona, mas estava a beira de começar a chorar de agonia.
— Se eu soubesse que vocês eram íntimos, isso poderia ter nos ajudado a contatar outros artistas.
— Você sabe muito bem que eu nunca vi antes dessa entrevista que... — Me calei antes que falasse o que não devia.
, eu estou no meio de uma reunião. Vai aproveitar seus 15 minutos de fama e sai do meu pé. — Ela disse e saiu, me deixando falando sozinha. Por mais raiva que eu estivesse naquela hora, não consegui regir. Fiquei parada pasma. Apesar de sempre parecer uma bruxa, Fiona nunca fez nada contra mim… Depois disso tudo, ficou claro pra mim que eu nunca receberia uma chance de Fiona para mostrar meu trabalho… E eu definitivamente não podia mais trabalhar pra ela.
Sem conseguir pensar em muita coisa, resolvi fazer uma caminhada, que virou corrida, no parque perto de casa. Parei próximo de uma árvore para recuperar o fôlego. Encostei a mão na árvore e…


CAPÍTULO 3


— ...você apagou a mulher e ainda trouxe pra cá. — Um homem falava. — Eu to ferrado se alguém descobrir...
— Shiu! Ela tá acordando. — Outra voz masculina foi anunciada.
Minha cabeça doía e minha vista estava embaçada.
— Ai, minha cabeça. — Coloquei a mão na mesma, em uma tentativa frustrante de diminuir a dor. — O que aconteceu? E onde estou? — Me forcei para dizer, e consegui enxergar parecendo preocupado e seus amigos de grupo estavam ao lado. Percebendo então quem estava ao meu lado fiquei assustada. E me sentei rapidamente.
— Bom, eu tenho muita sorte e meus amigos estavam jogando baseball e acertaram a bola na sua cabeça. E, em vez de te levarem para o hospital, trouxeram você para a minha casa. — Disse um nada contente.
— Então eu devo ir ao médico! — Pensei em voz alta querendo fugir dali.
— Não precisa, o Dr. Hitcliff já está a caminho pra te examinar. — Foi a vez de se pronunciar, foi então que percebi que também estava por ali, com uma bolsa de gelo entre as mãos.
O silêncio incomodou por um tempo, então alguém tocou na porta. Assim que o médico entrou, reclamou que a entrada estava cheia de câmeras. Ou seja, eu, por estar na casa de , não poderia ir embora tão cedo. O Doutor me examinou e disse que o certo era fazer uma tomografia para se assegurar de não ter nada sério, mas, graças ao gelo que o colocou na minha cabeça, não tinha inchaço, também não tinha nenhum corte e eu aparentava estar bem. Ele me deu um comprimido para a dor e pediu para que eu descansasse, e foi o que eu fiz, só não imaginei que dormiria por 10 horas seguidas.
Acordei às 3:34 da madrugada, com a garganta seca, morrendo de calor e em um quarto que eu não conhecia. Em um estalo recuperei a memória do acontecido do dia anterior. Minha dor de cabeça tinha ido embora e agora eu estava um pouco grogue e com muita sede. Abri a porta do quarto e andei por um corredor silencioso e mal iluminado, no final dele tinha uma sala com grande portas de vidro, escondida por longas cortinas brancas que davam para a varanda. E em uma brecha dava para ver o céu ainda escuro e algumas luzes colorindo a escuridão da cidade. Olhei para o cômodo e vi deitado no sofá. Me aproximei e tirei uma mecha de cabelo que caía sobre seu rosto. Ele parecia um anjo, e ali fiquei algum tempo lhe olhando respirar tranquilamente.
Passei os olhos pelo cômodo e vi um outro corredor com uma porta dupla de madeira daquelas de vem e vai, e pensei que só podia ser a cozinha. Passei pela porta, que fez um leve rangido, e acendi a luz. Meus olhos arderam um pouco com tanta claridade repentina e, assim que abri os olhos, vi a geladeira, peguei a jarra com água gelada e coloquei na xícara que estava no armário ali perto. Quando abri a geladeira de novo vi um delicioso bolo com chantilly e morangos em cima. Me deu água na boca e pensei que não teria problema algum comer um pedaço, já que comeram uma fatia… achei um pratinho no mesmo armário da xícara, confesso que cortei um generoso pedaço, que era 4 vezes maior que a fatia que faltava, encontrei uma faca e uma colher na gaveta perto do fogão e me sentei no balcão que ficava no centro da cozinha. Parti um pedaço do bolo e me derreti na gostosura daquele doce, comi um pedaço do morango e coloquei outro pedaço de bolo na boca. Estava com tanta fome que nem percebi que estava sendo observada.
estava com a cara amassada e um sorrisinho maroto. Fiquei com tanta vergonha que congelei.
— Ah! Peguei a gata no pulo! — Ele disse e se aproximou da geladeira.
— Desculpa… é que estava com uma cara ótima. E eu…
— Não precisa se desculpar. Você deve estar com fome por ter dormido 10 horas seguidas. — Ele disse me impedindo de gaguejar. E eu sorri sem graça sem acreditar que dormi por tantas horas seguida. Colocou o bolo na bancada e logo estava sentado ao meu lado comendo uma fatia do bolo. — A dor de cabeça melhorou?
— Ah, sim, sim. Só dói se encostar. Muito obrigada por chamar o Doutor…
— Por nada. Não fiz nada demais. Gostou do bolo?
— Sim. Está muito bom. — respondi e fiquei envergonhada por estar de boca cheia, depois ainda mais por lembrar o que Fiona fez. Ele deveria estar pensando e falando várias coisas absurdas sobre minha revista e não me tratando bem. Ele parece não saber do que aconteceu.
Raspei a garganta. E ele olhou pra mim, mas não consegui olhar de volta.
— Bem… sobre ontem. Desculpe pelo constrangimento. — Comecei dizendo, procurando as melhores palavras para falar que foi minha chefe quem destruiu a imagem dele.
— Não precisa se desculpar. Os meninos sempre aprontam uma. Nao sei como conseguiram te trazer até aqui, e não garanto que você não está nos jornais como a garota misteriosa carregada por 2 membros do McFly. — Gelei com o começo dessa última frase.
— Ah, certo! — Disse tentando seguir o script que se formou na minha cabeça. — Então, sobre a entrevista da revista… — Ele olhou pra mim de novo e dessa vez não desviei o olhar, mas perdi a coragem de continuar.
— Ah é, verdade! Você estava super animada com a entrevista. Você já publicou? — Como assim? Ele realmente não soube do escândalo com o nome dele? Fiquei lhe olhando sem acreditar que ele não sabia mesmo.
me olhou um pouco mais e desviou o olhar para seu pedaço de bolo, e eu continuei lhe olhando sem acreditar. Eu precisava contar tudo, então, deveria falar tudo de uma vez para não perder a coragem.
, na verdade…
A campainha tocou.


CAPÍTULO 4


[]
Olhei para a porta da cozinha e resmunguei alguma coisa enquanto ia em direção à porta do apartamento.
. O que faz aqui tão cedo? Seu voo não ia chegar às 11:00 da manhã?
— Eu não consegui dormir depois da última notícia sua que saiu nos jornais.
— Bom, entre e vamos conversar. — Eu e os garotos da banda estávamos no nosso fim de semana sem celular, justamente porque às vezes temos que nos desintoxicar das fofocas e cobranças sobre a gente e a banda.
andou meio hesitante para dentro do cômodo, sentou no sofá e encarou as mãos. Sentei ao seu lado.
— Quer alguma coisa? Um chá? Uma água?
— Não precisa, , quero ser o mais breve possível. Sabe o Matthew. — Eu assenti com a cabeça. — Ele pediu demissão há 2 meses e deixou de ser meu segurança. — Onde ela quer chegar? Pensei que fosse falar da tal fofoca sobre mim. — E agora não temos mais motivos para ficarmos separados. — Eu não tô conseguindo entender. — Matthew e eu já nós gostamos há algum tempo, então não acho certo continuarmos com esse noivado. — Uma onda gelada passou pela minha espinha. Eu não podia acreditar no que estava escutando. E não conseguia saber ao certo o que estava sentindo, eu parecia estar aliviado e ao mesmo tempo com medo. E acho que deveria ter uma reação exagerada, mas como sempre eu não conseguia demonstrar minha emoções corretamente. Soltei a respiração que segurei sem perceber. Então, só fiquei ali parado olhando com seus lindos olhos claros, marejados, e eu não conseguia dizer uma palavra sequer. — Confesso que me senti culpada todo esse tempo, até procurei ficar um pouco distante de você, e pensei que deveríamos seguir com os planos do nosso noivado que esse sentimento iria passar, mas não passou, e continuar com isso não é o certo, . Eu devo seguir meu coração para ser feliz. E é isso que meu coração está me pedindo no momento. — Uma lágrima caiu de seu olhar e eu me senti culpado por ainda estar ali parado. O que será que saiu na mídia para fazer tomar uma decisão dessas… pronto! — Eu espero que isso seja verdade e que mesmo em caminhos separados possamos ser felizes. — Ela parecia estar sendo sincera, mas eu ainda não estava conseguindo aceitar que tudo ali era real. apareceu na sala. E levantou no mesmo instante que a viu.
, não é nada disso do que você está pensando… — disse avançando em direção a .
— Vendo você aqui a essa hora vejo que só pode ser verdade mesmo, mas espero que minha intuição seja verdade e aquelas revistas tenham exagerado… — sorriu fraco limpando seu rosto com as mãos. — fico feliz e aliviada por você não estar sozinho, . Eu só vim te devolver o anel, — ela colocou o mesmo sobre a mesinha de centro da sala — e dizer que, se você me perdoar por isso, ainda podemos ser amigos. — Olhei de pé prestes a ir embora, e não conseguia me mexer, mas uma angústia presa no meu peito quase não me deixava respirar.
, espera… isso tudo é um engano. — disse entrando na frente de .
— O que está feito, está feito. Só cuide direito do , ele é um cara maravilhoso. — tirou uma revista da bolsa, entregou para e andou até a porta. — Agora é com você. — Eu não sabia o que estava acontecendo lá fora, mas estava ali naquela revista.
, por favor. Deixa eu explicar o que aconteceu. — começou a dizer e deu mais um passo em direção a , que esticou o braço para impedir que chegasse perto. — É melhor não me seguir, o prédio inteiro tá cheio de paparazzi disfarçados, é melhor você passar alguns dias longe das portas e janelas. Por favor, evitem escândalos com meu nome, não quero mais paparazzi atrás de mim.
— DROGA!!! — disse e socou a parede do lado da porta. Me levantei assustado.
, você pode me dizer o que está acontecendo? — Eu finalmente consegui sussurrar alguma coisa. Levantei e parei de frente para ela. Minha cabeça estava a mil e eu não lembrava quando havia começado a chorar. — Como que te conhece? E por que ela terminou comigo?
— Me desculpa, … — começou a soluçar e chorar. — Eu ia te contar… na verdade eu pensei que você já soubesse…Me desculpa! Me desculpa! — Puxei a revista que ela escondia em seus braços e não pude acreditar… Joguei a revista no chão.
— NÃO ACREDITO! NÃO ACREDITO! EU PENSEI QUE VOCÊ FOSSE DIFERENTE, MAS PARECE QUE VOCÊ SÓ QUERIA FAZER SEU TRABALHO. — Respirei tentando recuperar a calma. — Como você pode estar aqui na minha frente, na minha casa, assim, tão tranquila depois de ter estragado minha vida lá fora?
, eu não queria que fosse assim… algum paparazzi tirou as fotos… — tentava falar mas só conseguia chorar e isso estava me deixando mais irritado.
— Eu nunca senti tanta raiva por uma pessoa quanto tô sentindo por você agora. — Assim que terminei a frase percebi que tinha pegado pesado. abriu a porta para ir embora, e era o que eu mais desejava naquele instante. Mas não podia deixar ela ser fotografada saindo aquela hora da minha casa. Dei um tapa na porta fechando a mesma e a assustando. — Eu também adoraria que você fosse embora agora, mas não quero que tudo piore. — Disse entre os dentes. Mas também queria abraçá-la e chorar junto. Só posso estar ficando louco. — Pode ficar no quarto. — Disse por fim e fui para a cozinha.
Meu coração estava acelerado, minha respiração rápida. Tomei um pouco de água da pia e, ao me virar para o balcão, vi que o bolo ainda estava lá. Peguei para guardar na geladeira, mas o prato escorregou da minha mão e caiu levando tudo para o chão.
— DROGA!


CAPÍTULO 5


[]
Eu imaginei que se casaria com , teria filhos e seriam felizes, assim como os outros membros da banda. Mas não imaginei que assistiria , que parecia super animada, terminar o noivado com o .
Eu imaginei que me pediria uma explicação e eu provaria o que realmente aconteceu, mas como pude ser tão ingênua de imaginar isso? Nem somos tão próximos assim.
Eu imaginei que poderia ficar alguns dias trancada em casa até a poeira abaixar, mas fui acertada por uma bola na cabeça e acabei aqui.
E o que nunca tinha imaginado é que eu iria ficar trancada no mesmo ambiente com uma pessoa que me odeia… e muito menos que essa pessoa seria .

Entrei no quarto e desabei a chorar. Dali, do chão do quarto escuro, escutei quebrar alguma coisa. Eu quis desaparecer naquele momento. Para piorar a situação, meu celular estava descarregado, e eu estava literalmente sem contato com o mundo lá fora. E eu precisava sair de perto de , não só porque estava lhe fazendo mal, mas porque me sentia péssima e culpada por não ter conseguido evitar essa tragédia.
Acendi o abajur próximo da cama e caminhei pelo quarto, parei em frente ao espelho do banheiro, quando tive uma ideia desesperada.
Peguei uma tesoura na gaveta da pia e encontrei a bolsa que estava com o no dia da entrevista, nela tinha pó descolorante e água oxigenada. Procurei mais um pouco e achei um matizador azul. Dei uma última olhada na atual e comecei a cortar meu cabelo, quando o olhei o tufo de cabelo na minha mão comecei a chorar de novo.
Enquanto o matizador estava no meu cabelo fui até o closet de e peguei uma calça jeans, uma camiseta social azul claro, uma bandana vermelha. A calça ficou colada na medida certa, a camisa ficou comprida, então cortei um pouco a barra, e a bandana deixei como faixa na cabeça coberta por meu cabelo recém pintado. Eu sei que você deve esta pensando que eu sou doida, e que deveria me desculpar ou pelo menos não mexer nas coisas de para nao deixar ele mais furioso, porém ele já me odeia e ficando aqui dentro parada não vai adiantar nada. O plano era sair de fininho sem ser notada pelos paparazzis. Eu já tinha outra cara agora, só tinha que sair dali.
Algumas horas já haviam passado, lá fora dava para ouvir o barulho do trânsito, mas aqui dentro estava silencioso demais. Saí do quarto a caminho da sala, que estava vazia, então caminhei para a cozinha e também estava vazia. E lá estava o rastro da fúria de . O chão estava cheio de cacos das xícaras e dos pratos que usamos para comer bolo mais cedo, e tinha bolo pra todo lado. Eu queria falar com , tentar explicar o que realmente aconteceu e me desculpar, mas sentia que o melhor era só sumir da vida dele. E como ele não estava ali pra me ver, isso seria mais fácil. Caminhei de volta para a sala e na porta tinha um papel amarelo escrito "Nem pense em sair". Amassei o papel e ignorei o que estava escrito, puxei a maçaneta e a porta não abriu, tentei mais algumas vezes e nada. Agora, eu não tinha o que fazer. Estava de volta à estaca zero.
Comecei a andar aleatoriamente de um lado pro outro, e descobri que na cozinha tinha um corredor para a lavanderia onde tinha um outro quarto totalmente vazio. Voltei para a cozinha e comecei a recolher os cacos pelo chão, quando dei por mim estava fazendo uma faxina no apartamento todo. Eu limpava como se dependesse daquilo para viver.
Já estava escurecendo quando saí do banho e me sentei em frente à TV até cair no sono.

Eu estava deitada na praia de barriga para baixo, sobre uma esteira. E o calor do sol esquentava minhas costas.
— Eu sempre quis vir à praia. O barulho do mar é tão relaxante. Hoje é o melhor dia da minha vida. — Eu disse feliz.
— Dá pra ver claramente o quanto você está feliz. Está há horas aqui e não parece cansada. — riu.
— Passa protetor solar nas minhas costas?
— Sim, claro. Vou aproveitar e usar também.
Então me sentei na canga e olhei o homem que estava ao meu lado.
— Onde estão meus pais? — Perguntei a .
— Eles foram comprar sorvete e já voltam. — Ele respondeu terminando de passar o protetor solar em minhas costas.
— Vamos dar um mergulho? — Disse me levantando da esteira.
— Ah não, prefiro ficar aqui na minha sombra, sossegado.
, vamos! Não é todo dia que que vamos à praia. — Fiz bico e puxei seu braço. — Vai, vamos.
— Tá bom. Mas só um mergulho.
...


CAPÍTULO 6


Acordei com o noticiário da manhã na TV e a luz do dia iluminava a sala por detrás das cortinas. Me sentei no sofá e pensei no sonho que tinha acabado de ter… Achei estranho porque eu geralmente não lembro do que sonhei. Na verdade eu não tenho um sonho desde minha adolescência.

Tudo indicava que não esteve ali. A porta ainda estava trancada e tudo ainda estava como antes. Fui até o banheiro e escovei os dentes com a escova (nova) que tinha encontrado ontem. E escutei minha barriga dar sinal de fome.
No armário da cozinha tinha macarrão e na geladeira alguns legumes.
Depois as horas pareciam estar se arrastando de novo. Eu estava super cansada de não ter nada pra fazer, eu não gostava de assistir TV, ainda mais agora que estavam falando que foi de um cara certinho a um cara espertinho e sacana. Eu não tinha encontrado nenhum carregador, e o interfone do apartamento estava mudo, então estava sem comunicação com o mundo lá fora, e tinha acabado de decidir que eu não merecia ser punida por algo que eu não fiz. Se quiser fazer algo contra mim, vai ter que ter provas e ter uma boa explicação por ter me aprisionado nesse apartamento sem comida e nada pra fazer.
Tomei banho e lavei meu cabelo, agora, branco azulado. Mexi em algumas gavetas e achei um esmalte preto com glitter. Liguei o rádio baixinho na cozinha, sentei no balcão e comecei a pintar as unhas. Quando levantei minhas costas estavam doendo, então me alonguei no caminho do quarto, guardei o esmalte onde encontrei e comecei a espiar pela janela a rua lá fora. O vidro da janela estava um pouco embaçado do calor lá dentro e com gotas da chuva que caíra o dia todo. Deitei na cama e fiquei olhando para o teto e então…

Eu era a do colegial, quando esbarrei com o garoto novo no caminho da sala de aula.
— Me desculpe. Deixa que eu te ajudo a pegar suas coisas. — Ele disse com pressa em me ajudar.
Ele era da mesma sala que eu e também gostava de sentar no fundo da sala. Na hora do recreio ele estava sentado sozinho olhando para a bandeja de comida intocável. Me aproximei e ele permaneceu de cabeça baixa. Então, um cara do time de hóquei se aproximou acenando pros amigos a algumas mesas dali e disse:
— Ei, coisa estranha com 4 olhos, por que você não volta pra onde saiu? — Coloquei minha bandeja na mesa e disse com a maior calma do mundo:
— Muito engraçado! — cruzei os braços. — Por que você não se desculpa antes que eu conte pra sua namorada que você traí ela no ginásio toda quarta-feira? — No mesmo instante o sorrisinho que ele tinha se desfez.
— Desculpa. — Ele sussurrou coçando a cabeça. E saiu sem graça. Olhei o garoto sentado com seus cabelos espetados, me olhando surpreso. Descruzei os braços e me sentei perto dele.
— Oi, sou .
. — Ele disse simplesmente e começou a comer.
E foi assim que começou uma grande amizade. Sempre estávamos juntos em tudo. Nas aulas de pintura em tela, por minha escolha, e nas aulas de música por escolha dele. Ele me ensinou a tocar piano para o musical que ele iria estrear e até decidimos ter uma banda um dia. Mas sua mãe arrumou um ótimo trabalho em outra cidade e, por ser mãe solteira, não tinha como recusar, então ele se mudou. E ele tinha o número do telefone da minha casa, mas nunca me ligou…


Acordei com um clarão seguido de um trovão ecoando no quarto. Tudo ficou escuro de novo ao som da chuva barulhenta lá fora. Flashes do sonho vieram na minha cabeça.
Minha barriga deu um rangido tomando minha atenção e lá fui eu atrás de comida.


CAPÍTULO 7


Na madrugada do dia seguinte, acordei com o barulho de chave na porta da sala. Finalmente vou sair daqui. Me levantei e quando a porta abriu tomei um susto e gritei. O homem que entrou não era o e nem alguém que eu conhecia. Na mesma hora o homem bateu a porta e pulou em cima de mim e tampou minha boca com as mãos.
— Shiiu. Fica quieta! — Ele disse baixo.
Quem é esse homem? Será que é um paparazzi? Quem mandou ele aqui? Como ele tem a chave?
Mordi a mão dele e ele segurou um palavrão. Corri pra porta e ele segurou meu braço.
. Foi o que me mandou aqui. Fica calma. — Soltei meu braço e peguei o vaso de planta vazio que tinha ali pra me defender.
— E por que ele te mandou aqui? Quem é você?
— Eu sou o , amigo de banda dele. Ele pediu pra te trazer uma roupa de disfarce e te ajudar a passar pelos paparazzi e as câmeras do prédio. — Eu acendi a luz e reconheci seu rosto das pesquisas que fiz antes da entrevista. Coloquei o vaso no lugar que estava. Coloquei a mão no peito e disse:
— Você me assustou.
— Tudo bem, mas não temos muito tempo. Em 23 minutos as luzes do prédio vão se apagar, por isso as lanternas dentro da bolsa. E as luzes ficarao apagadas por 8 minutos, tempo suficiente para descermos pelas escadas e chegarmos ao carro que nos espera na garagem. Então, vai se trocar logo e come algumas dessas barras que tem na sacola, sei que não tem muita comida em casa. — E de repente eu estava com tanta fome que, enquanto ele falava como, eu estava comendo a primeira barrinha.
Depois que já estava vestida com as novas roupas: calça jeans escura, uma camiseta verde do blink 182, um casaco com capuz preto e óculos escuro, calçando meu tênis velho; estava pronta para seguir o plano.
Tudo correu bem até que entrei no carro que nós esperávamos na garagem e estava no volante…
— Podem me deixar no ponto de táxi ali na frente.
— Essa hora não tem táxi nem ônibus.
— Eu vou pedir para um amigo vir me buscar. — estalou a língua. E eu lembrei que meu celular estava descarregado. — Eu só preciso que me emprestem o celular e ta tudo resolvido.
— Não precisa incomodar ninguém a essa hora, já faz parte da missão te levar até em casa. — Respondeu .
Depois disso um silêncio se instalou e , que estava sentado no banco da frente, ligou o rádio bem baixinho, encostou a cabeça e fechou os olhos. Eu poderia ter aproveitado a oportunidade e me desculpar mais uma vez, mas eu estava chateada com o fato de não acreditar que eu era uma boa pessoa.
Chegando na minha rua, mesmo me sentindo desconfortável, agradeci por terem me ajudado com o plano e saí do carro batendo a porta um pouco mais forte do que o esperado. O porteiro tirava uma soneca e nem me viu entrar no prédio.
Chegando no meu apartamento a primeira coisa que fiz foi colocar o celular pra carregar na cozinha e me joguei na cama para descansar um pouco e me distraí com o furo que tinha na camiseta que eu vestia. Parecia uma queimadura de cigarro. Olhei mais um pouco e percebi que essa camiseta não era comprada recentemente como as outras peças de roupa, essa camiseta era velha e surrada, tinha partes desbotadas, tinha esse furo e… o cheiro de . Acho que fiquei tanto tempo no apartamento dele que o cheiro ficou impregnado...

e eu esperávamos na fila do fast-food mais famoso do momento. Ao comprar um combo de casal, levávamos um balde de batata frita com cheddar derretido, grátis. O que todo mundo na escola já tinha experimentado e nós 2 ainda não. Estávamos super animados por isso.
— Eu experimento primeiro. — Eu disse.
— Nem pensar! Eu experimento primeiro.
— Que belo cavaleiro você!
— Não adianta fazer bico, eu tô morrendo de fome.
Assim que a comida chegou, corremos pra fora daquele lugar lotado e sentamos no gramado lá fora. E no mesmo instante nos 2 colocamos a mão dentro do balde e enchemos a boca.
— Uaaaauuu!!! — Dissemos juntos e entupimos a boca de batata de novo.


Quando acordei meu celular tinha 34 chamadas, 18 mensagens de texto, 15 e-mails e 7 mensagens de voz.
A grande maioria era da Fiona ameaçando me demitir, como se eu quisesse continuar trabalhando ali, e algumas chamadas da minha mãe. Enquanto preparava um lanche liguei pra minha mãe para avisar que iria visitar ela. Depois fui a OFTW. Entrei no escritório e ninguém pareceu me reconhecer, entrei em minha sala e coloquei minhas coisas em uma caixa, eu sabia o procedimento de desligamento da empresa. Deixei minha carta de desligamento no RH e peguei um táxi até meu apartamento. Tudo a tempo para não encontrar Fiona.
Conforme o carro andava, meu coração se sentia apertado e eu sabia que não voltaria mais ali.


CAPÍTULO 8


De volta ao meu apartamento, comecei a colocar minhas coisas na mala e algumas em umas sacolas para doar. Eu não tinha muita coisa! Anunciei alguns móveis na internet e deixei avisado para o síndico que algumas pessoas viriam buscar até o fim do mês.
A viagem de trem até Corringham foi longa, mas só consegui pregar os olhos quando cheguei na casa da minha mãe e me deitei em minha antiga cama, no meu antigo quarto.

O garoto de cabelos espetados agora tinha cabelos metade pretos e metade verde enquanto segurava uma sacola de mercado e seguia na minha direção. Eu estava chegando da aula de natação.
, que cabelo é esse? — Eu disse dando risada. — Como sua mãe deixou você sair de casa assim? — Continuei rindo.
— Muito engraçado. — Ele disse rabugento com uma careta. — Custava perder a aposta pra me ajudar? Agora minha foto do Natal desse ano vai ficar horrível. Justo esse Natal que nos mudamos…
— Não precisa me deixar culpada. Você que perdeu a aposta, é a vida. — Ele começou a caminhar em direção a sua casa. — Ah, e não esquece de comprar meu presente de Natal. — Disse e entrei em casa toda saltitante.
No dia de Natal, me deu um porta retrato com conchas de verdade coladas nele:
— É para a sua primeira foto na praia. — Eu simplesmente adorei. Estava muito animada porque meus pais prometeram me levar na praia no próximo verão. Dei um pulo no sofá, abracei e lhe agradeci, depois foi a vez dele ganhar o seu presente, que era uma camiseta verde do blink 182.
— Eu vi que você ficou olhando na loja. — Nem tinha terminado de falar e ele já estava vestindo por cima da roupa que estava.
— Obrigado!!! Eu adorei, mas nada é melhor do que ver você de cabelo metade vermelho, metade verde. — Ele gargalhou.
— Agora você achou engraçado, né… — E dei risada junto. — Achou mesmo que eu deixaria você se destacar sozinho na foto de Natal?


Acordei ainda no meio da madrugada e percebi que a blusa que eu havia acabado de sonhar era a mesma que eu vestia. Que aliás era de . Eu precisava de um banho o mais rápido possível.
Tomei um banho quente. Depois preparei um copo de leite quente e voltei para meu quarto, deitei e dormi.

...depois do Natal, e inventaram de experimentar um cigarro. Pagaram para um garoto do último ano comprar cigarros pra eles e correram para atrás da escola onde ninguém ia geralmente, e acenderam o cigarro. deu a primeira tragada e começou a tossir, depois passou o cigarro para , que fez o mesmo.
— Não sei que graça o pessoal acha de fumar cigarro. — disse e cuspiu pra tentar tirar o gosto de cigarro da boca. — Minha garganta tá ardendo.
— Concordo com você. — disse e começou a rir da careta de . — Ai!!! — Ele disse e começou a se bater.
— O que foi? — disse preocupada. jogou o cigarro no chão e pisou no mesmo.
— Além de não fazer bem para a saúde e de deixar um gosto horrível de fumaça na boca, ainda me queimou. — Ele disse e mostrou o furo na camisa verde que ganhara de . riu.


CAPÍTULO 9



Acordei com barulho de panela batendo e algumas vozes. Tinha esquecido que as paredes dessa casa são finas. Fui até a cozinha.
— Pai? — Não acreditei quando lhe encontrei ali na casa da minha mãe, tomando uma xícara de chá fumegante. — Quanto tempo. — Corri pro seu abraço. — O que você está fazendo aqui tão cedo? — Ele olhou pra minha mãe e depois pra mim.
— Bem, a sua mãe te conta depois. Agora eu preciso ir trabalhar. Beijo, querida. — E deu um beijo no topo da minha cabeça.
Assim que ele fechou a porta, eu olhei pra minha mãe, que tentou disfarçar passando geleia em algumas torradas.
— Mãe?
— Tá bom. Tá bom. Eu vou contar. — Sentei de seu lado e comecei a comer uma torrada. — 8 meses atrás seu pai e eu nos esbarramos na padaria aqui do bairro, porque aparentemente ele sentia falta do pão desta padaria. No dia seguinte, nos encontramos no mesmo lugar e ele disse que tinha voltado a morar aqui no bairro e que nos encontraríamos mais vezes. — Ela sorriu. — Os dias foram passando e quando percebi estava me arrumando e passando horas na padaria. Era nosso ponto de encontro. Então, depois de 5 anos de divórcio, estamos namorando de novo. — Seu rosto tinha um brilho que ficava difícil negar que estava amando.
— Esse tempo todo e você não disse nada. — Fingi estar magoada fazendo bico. — Eu sempre te conto tudo. — Mas estava tão feliz quanto ela demonstrava estar.
Ela deu risada e eu lhe abracei.
Era bom ter uma distração, mas eu não lembrava por que eles tinham se divorciado.
— Agora que já contei tudo, me diz, por que seu cabelo está assim? Você nunca foi de pintar o cabelo.
— Eu precisei me disfarçar…
Contei tudo sobre a Fiona e o fato de eu ter mudado meu cabelo para não ser reconhecida na rua. Minha mãe ficou enfurecida pela injustiça, mas eu não tinha condições de fazer nada agora. Tinha coisas mais importantes acontecendo, como por exemplo eu voltar a sonhar depois de anos. Ou o fato de eu precisar de um emprego logo. Já que me mudei pra ficar, que pelo menos eu ajude com as despesas.
— Pelo menos a vida te trouxe pra perto de mim de novo. E hoje é dia de compras. Vamos ao mercado, só vou tirar esse pijama e já vamos. — Ela disse colocando a louça dentro da pia. — E você, pode tirar essa roupa, por aqui você não é uma celebridade.
De certa forma me senti aliviada por saber que isso era verdade.
— Tá bom. Mas eu preciso de um banho antes.
— E você acha que eu não sei? Sua toalha já está no banheiro. Vai rápido senão vamos pegar fila no açougue.

Quando chegamos no mercado, vi que eles tinham uma vaga pro período noturno e pra mim isso pareceu ser um sinal para que eu aproveitasse a oportunidade. Por minha mãe ser conhecida e o dono do mercado me conhecer desde pequena, eu consegui a vaga de primeira, já poderia começar semana que vem. E por enquanto no período diurno eu ajudaria minha mãe a fazer suas famosas geléias de framboesa.
Quando voltamos do mercado, guardamos as compras e minha mãe começou a pintar meu cabelo de castanho. E eu resolvi contar o que estava escondendo.
— Mãe, lembra que eu não conseguia sonhar e você me pediu para lhe contar se eu tivesse algum sonho? — Disse meia incerta de como seria a conversa, já que não conversamos muito sobre o fato de eu ter perdido grande parte da memória da minha infância até minha adolescência.
— Sim. Por quê? Você sonhou?! — Ela perguntou animada, parando o que estava fazendo.
— Sim. — Respondi. E ela continuou a pintar meu cabelo. — Por acaso você conheceu ou ouviu falar de alguém chamado ?
— Eu lembro que você tinha um amigo inseparável nos tempos da escola. A gente chamava ele de -. Ele tinha os cabelos espetados, usava óculos e era magriiiinho... — Minhas mãos começaram a suar e minha cara perdeu a cor. — Por que está fazendo essa cara? Tá passando mal? — Minha mãe disse ficando de frente para mim.
— Na verdade eu tive um sonho… mais de um sonho com um garoto exatamente como a senhora descreveu e você sabe que eu não consigo ter sonhos desde o acidente. Então, acho que minhas memórias podem estar voltando nos meus sonhos.
— Filha, precisamos ir ao médico o mais rápido possível. Amanhã mesmo vamos no consultório do Dr. Evaldo fazer os exames necessários. — Ela me abraçou e voltou a passar a tinha. — Eu estou tão feliz por você poder recuperar a memória...

E lá estava eu de novo fazendo exames e indo ao psicólogo. Parecia que eu tinha voltado no tempo e estava acordando do acidente que eu não lembrava.
— ... Mudou alguma coisa na sua rotina ultimamente?
— Na verdade minha vida toda mudou nos últimos dias. Aconteceu uma coisa muito desagradável e eu tive que ficar em um apartamento 24hrs por dia e agora voltei a morar com minha mãe. Mas os sonhos voltaram depois que essa tal coisa desagradável me aconteceu.
— Parece que teve um gatilho nesses acontecidos que lhe levaram a ter esses sonhos. Geralmente é quando o paciente tem uma batida na cabeça, ou sente um cheiro que traz memórias. Pode ser por ter passado em algum lugar ou feito uma coisa que você fazia antes.
— Agora eu não lembro exatamente o que pode ser, mas eu bati com a cabeça recentemente… na verdade jogaram uma bola de futebol na minha cabeça, quando eu estava no parque.
— Entendi. O bom é que você está recuperando a memória aos poucos e logo estará mais segura sobre quem você foi e é hoje. É só tentar continuar fazendo o que levou você a acionar o gatilho.
— Mas eu não sei o que foi exatamente.
— Essa é a missão que você terá até a próxima consulta no mês que vem.


CAPÍTULO 10


Alguns dias depois...
Durante o período da manhã, meu pai vinha tomar café da manhã na casa da minha mãe e comemos assistindo o noticiário. Eu não estava prestando muita atenção na TV até ouvir o nome da OFTW.
... A OFTW abriu falência depois de tanto tentar permanecer firme. — A imagem de Fiona sentada em sua mesa falando ao telefone apareceu na tela. — A verdade veio à tona depois que um vídeo de Fiona Mendonça, editora chefe, ter vazado na internet. No vídeo ela confessa ao telefone ter contratado um paparazzi para tirar fotos de com uma funcionária sua na época. Essa fofoca deu o que falar semanas atrás, porque e terminaram o noivado na mesma semana em que ela foi publicada e a tal moça, suposta amante de , que trabalhava na OFTW, simplesmente desapareceu do mapa. Não sabemos se tudo foi por causa dessa matéria, mas sabemos que dessa vez o tiro saiu pela culatra.
— Viu como Deus é justo, filha?! Ele tarda, mas não falha! — Disse meu pai passando por mim e indo pra cozinha.
— Parece que finalmente essa Fiona se engasgou com o próprio veneno. — Disse minha mãe pegando o prato e xícara que eu segurava antes de seguir meu pai.
Eu sorri com a sensação de justiça e me sentei no sofá por um momento.
Segui com as atividades do dia. Ajudei minha mãe a fazer as geléias, fui para a natação e, no caminho até o ginásio e durante a aula, parecia que algumas pessoas me encaravam na rua. Eu sabia que tinha sido reconhecida, porque, mesmo sem ser exposta na TV, as notícias com minha cara estava na internet. Quando acabou minha aula de natação, o professor disse que eu poderia treinar por mais tempo se quisesse, mas eu optei por ir embora mesmo. No vestiário algumas garotas me deixaram tomar banho primeiro. No caminho de volta para casa, as pessoas pareciam mais simpáticas, passavam por mim e sorriam, algumas pessoas me comprimentavam. Até que ouvi meu nome.
! — Uma senhora disse caminhando em minha direção.
— Oi? — Disse confusa se ela estava mesmo me chamando ou não. Já que não a reconheci, mas a ouvi dizer meu nome.
— Uau. Como você cresceu. — Eu sorri um pouco tímida. — Lembra de mim? Você me chamava de Sra. quando ia na minha casa brincar com meu filho. — Eu realmente não lembrava dela, mas já tinha visto seus olhos em algum lugar.
— Você é a mãe do ? — Eu disse espantada.
— Isso!!! … era assim que você chamava meu filho. Vocês eram inseparáveis, mas daí tivemos que nos mudar e perdemos contato com você e sua família. Mas estou muito feliz por te reencontrar. — Ela pegou seu celular na bolsa e pediu meu número. — Vou te mandar meu novo endereço, e marcamos um dia pra você ir lá em casa comer minha famosa torta de limão.
— Não posso recusar, é a minha torta favorita. — Sorri e passei o número da casa da minha mãe, já que tinha me desfeito do meu celular por um tempo indefinido.
— Sinto falta das geléias da sua mãe. Como vai ela e seu pai?
— Eles estão bem. A gente continua no mesmo endereço, quando quiser pode vir nos visitar.
— Não vejo a hora de contar pro meu filho que te encontrei. Ele vai ficar tão feliz. Mas agora tenho que ir. Ainda estou tirando as coisas da mudança da caixa.
— Tá bom. Vou falar pros meus pais que encontrei com a senhora. — Ela sorriu empolgada e me abraçou. Seus cabelos soltaram um cheiro conhecido, e eu me senti reconfortada em seu abraço. Tinha a sensação de a conhecer há muito tempo.
Durante o jantar daquela noite contei pros meus pais sobre a Sra. e eles ficaram super animados, porque eu não estava conseguindo recuperar minha memória ultimamente, e esse encontro com a Sra. poderia me ajudar a sonhar de novo. O que seria bom, já que eu não sabia nada sobre ela. Nada além de ser a mãe do meu grande amigo de infância. Fiquei tão ansiosa que demorei a dormir.

A jovem caminhava pela rua segurando algumas caixas de papelão dobradas, enquanto cantava animada o refrão de Waiting for a Girl Like You, do Foreigner.

"Estava esperando por uma garota como você entrar na minha vida
Estava esperando por uma garota como você, e um amor que irá sobreviver
Estava esperando por alguém novo para me fazer sentir vivo
Sim, esperando por uma garota como você entrar na minha vida"

No lugar de girl, ela dizia boy.
Parou na frente da casa onde a Sra. varria a calçada e disse sorridente.
— Bom dia, Sra. .
— Bom dia, .
está em casa? Ele ficou de pegar algumas caixas lá em casa, mas não nos encontramos desde a semana passada.
— Ele saiu cedo hoje. — Ela disse pegando as caixas da minha mão. — Ele disse que precisava arejar a cabeça.
— Obrigada, Sra. . Já vou indo. — E saiu correndo escutando ela agradecimento ao longe.
chegou em frente à escola e sorriu assim que viu sentado nas escadas comendo uma casquinha de creme. Ela parou para recuperar o fôlego.
— Você consegue, , você consegue! — Sussurrou para si.
" parecia estar prestes a tomar uma grande decisão." Ajeitou sua roupa e arrumou seu cabelo, pegou um papel no bolso da sua calça e abriu. Leu seu endereço e o número do telefone da sua casa e então tomou coragem para caminhar pelo jardim e ir de encontro com seu melhor amigo. Mas, assim que colocou o pé na rua, ouviu a buzina de um caminhão e sentiu alguém lhe empurrar.
Tudo ficou preto.


CAPÍTULO 11


— ... Então, acordei chorando e chamando minha mãe. — Eu contava ao Dr. Evaldo. — Eu contei a ela o sonho que tinha acabado de ter, e ela disse que foi isso que lhe contaram na emergência. E completou que o senhor que me ajudou passava na hora e viu que eu seria atingida pelo caminhão então, sem pensar 2 vezes, me empurrou. Nós dois caímos na calçada do outro lado da rua. Na queda ele acabou quebrando o braço e eu bati com a cabeça e fiquei inconsciente. Ele ligou para a emergência, onde encontraram o papel no bolso da minha calça e ligaram para meus pais. Eu tive que ser operada às pressas e perdi a memória de tudo. Meu cérebro reiniciou 3 meses depois, quando eu saí do coma.
— Apesar de não ter sido uma lembrada boa, eu acho que para você foi reconfortante. Você está indo muito bem, . Você deve continuar se reencontrar com a Sra. .
— Sim. De qualquer forma eu gostei de poder me lembrar. Depois dessas 2 semanas sem conseguir sonhar nada, encontrei outro gatilho para me ajudar… Eu passei tanto tempo querendo saber o porquê fui a escola em época de férias.
— Acho que o filho dela também pode te ajudar, afinal de contas, em todos os sonhos que você teve ele está presente. — Assim que o doutor disse, uma lâmpada se acendeu na minha cabeça. Era realmente verdade! Eu sempre sonhava com ele! Sorri animada em pensar que poderia recuperar minhas memórias e me sentir uma pessoa completa de novo.

Quando cheguei em casa minha mãe estava fazendo geleia e eu aproveitei para separar algumas para a senhora . Hoje era minha folga no trabalho e eu já tinha combinado de encontrá-la.
, você veio mesmo. — Disse a senhora na porta de sua casa. — Entre, a torta acabou de sair do forno! — Ela era tão animada.
— Trouxe suas geleias. — Eu disse assim que entrei em sua sala. Tinha algumas caixas de papelão empilhadas.
— Desculpa a bagunça. Eu me mudei há uma semana e tem algumas caixas com coisas pesadas, mas meu filho ficou de vir semana que vem para me ajudar com a mudança. — Ela pegou a caixa de geleia da minha mão e foi andando por um corredor. Eu a segui e, assim que passei pela porta da cozinha, avistei a torta em cima do balcão da cozinha. — Senta, , vou te dar um pedaço da torta. — Ela disse pegando um pratinho e talheres. Me sentei e ela logo me serviu uma generosa fatia da torta.
— Obrigada. — Eu disse e dei a primeira garfada. Parecia ter uma explosão de sabores na minha boca. Não era só o sabor da minha torta favorita, era a minha torta favorita. A mesma torta que eu comi com no café do restaurante Grandioso. Eu não consegui falar alguma coisa além de gemer e continuar comendo.
— Engraçado que você teve a mesma reação a primeira vez que experimentou. — Sra. , que me observava, agora tinha ido guardar as geléias. Eu não lembrava de ter comido quando era jovem, mas essa será minha torta favorita ever. — Foi com essa receita que eu conquistei os corações dos jurados do "Chefes em ação", e venci a final. E pude abrir meu próprio restaurante e café Grandioso.
— Sério? — Disse deixando o garfo de lado e não acreditando na sorte grande que eu acabava de descobrir que tinha.
— Sim!!! Você conhece? — Ela disse com seus redondos olhos azuis brilhantes.
— Eu estive lá. — Disse animada. — Eu não sabia que era seu restaurante. Que sorte a minha! — Eu sorri e automaticamente a abracei. E, quando a soltei, ela disse:
— Eu contei pro meu filho que te encontrei e ele disse que viu você há algumas semanas. — Ele me viu? Onde? — E que, quando ele vir daqui a alguns dias, vocês podem se encontrar novamente e conversar.
— Estou ansiosa para reencontrar ele. — Disse com um sorriso amarelo pensando: Por que ele não veio falar comigo?
— Vocês ficariam tão lindos juntos! A ex-noiva dele só queria ir na minha casa e fazer dia de beleza com as amigas e elas sempre estavam de dieta, e nunca experimentaram da minha comida. — Eu escutava enquanto comia o restante da torta. — Eu sei que ele terminou o noivado recentemente, mas eu quero netos. — No começo eu não entendi bem onde ela estava querendo chegar com aquele assunto. Talvez fosse só atualização da vida do filho dela. Mas então me passou uma ideia na cabeça e olhei para a Sra. , que me olhava como se eu fosse a Rainha da Inglaterra. E me pareceu que aquele pensamento não era só meu. Comecei a tossir, quando entendi o que ela dizia. Ela me trouxe um copo de água, do qual tomei um gole. — Querida, não precisa se assustar. Tudo na vida tem um propósito, e, se ele está solteiro e você também e eu quero netos… — Ela disse dando risada. Tomei outro gole de água antes de dizer...
— Na verdade, eu não lembro muito bem dele. — Eu disse sem graça pensando que precisava contar que ele é, basicamente, um estranho para mim. Ele pode ter se transformado em qualquer pessoa hoje em dia. Pode ser preguiçoso, cabeludo e barbudo… Ele pode ser uma pessoa totalmente diferente, faz mais de 10 anos que não vejo ele.
— Ah, querida, é porque vocês não conversaram como antes. — Ela disse com sua voz meiga. — Mas tenho certeza que, assim que vocês se encontrarem de novo, não vão se separar tão mais. — Suas finas sobrancelhas se uniram em uma expressão triste. — Meu filho sentiu muita falta sua. — Ela segurou minhas mãos. — Mas eu precisava me mudar naquela época. — A Sra. sempre conseguia transmitir alegria e serenidade às demais pessoas. Eu me perguntava se ela havia encontrado o segredo da felicidade. Meu celular começou a tocar. Era minha mãe dizendo que ia sair com meu pai, mas aproveitei a oportunidade para fugir daquela situação na casa da Sra. .
— Minha mãe está precisando de mim. Mas eu volto pra visitar a senhora. — Eu disse caminhando pra sala.
— Tá bom, querida… — a última sílaba teve de ser gritada para eu poder escutar do lado de fora da casa.
Naquela noite eu fui dormir antes dos meus pais chegarem. Eles estavam namorando firme e eu achava aquilo tão lindo. E pensando nisso me senti solitária e comecei a pensar que eu já deveria ter tido um namorado e me casado. Assim não seria uma mulher de quase 30 anos que mora com os pais.

Já era fim de tarde e o sol começava a ir embora. Eu estava caminhando de mãos dadas com pelas ruas de nosso bairro. Nós dois estávamos com mochilas pesadas nas costas.
— Que pena que perdemos o ônibus. Eu queria tanto ir acampar. — Disse triste.
— A gente pode ir no ano que vem. — eu disse e meus olhos brilharam com a ideia que tive. — A gente pode pedir pros meus pais pra acampar na sala lá de casa, daí a gente pode procurar comida direto da floresta cozinha, e lutar com os insetos porta da geladeira e o melhor de tudo. E, quando meus pais forem dormir, podemos passar no mini bar do meu pai. — Quando terminei de falar, estava com os olhos arregalados e um grande sorriso.
— Essa é uma ótima ideia! Eu vou pra casa pedir pra minha mãe. Você vai pra sua e, se seus pais deixarem, você liga lá em casa.
Meus pais deixaram! E correu lá pra casa. Montamos nossas barracas na sala em frente à TV, a barraca de era enorme e tinha espaço suficiente para 2 pessoas; a minha barraca era de quando eu fui acampar quando era criança, meus pés ficavam pra fora e não dava pra fechar o zíper. Colocamos um filme enquanto comíamos batata chips. Meus pais foram dormir cedo. E nós colocamos o plano em ação. Comemos todas as comidas não saudáveis da casa e tomamos uma garrafa de vinho tinto suave. Começamos a rir desembestadamente e pouco tempo depois estávamos bocejando de sono.
— Acho que já vou dormir. — Eu disse da entrada da minha barraca, depois de ter colocado a garrafa de vinho no latão de lixo do lado de fora de casa.
— Eu também já vou. — Ele respondeu se levantando e indo desligar a TV.
— Se quiser pode continuar assistindo o filme.
— Eu já assisti várias vezes. — Disse e desligou a TV.
Tudo ficou escuro e eu entrei na minha barraca e me cobri. Depois ouvi se mexer na sua. Pouco tempo depois ele entrou na minha barraca e se jogou com sua coberta, em cima de mim.
? O que você está fazendo aqui? — Eu sussurrei antes de ter minha boca tomada por um beijo seu...


Acordei com meu coração aquecido e acelerado, e um sorriso sincero. Ter sonhado com minha primeira vez me trouxe a certeza de que não era apenas um amigo pra mim. Ele era o meu primeiro amor.


CAPÍTULO 12


Duas semanas depois…
Meu pai e minha mãe estavam indo para Londres juntos. Ela estava super animada para conhecer o London Eye e o Big Ben, e meu pai estava animado porque iria pedir minha mãe em casamento mais uma vez. E eu estava muito feliz pelos dois e também porque eu podia acompanhar o relacionamento deles de perto dessa vez. Então acabei participando de muitas coisas, e ajudando também. Eu que descobri o anel que minha mãe sonhava em ter, e levei meu pai na loja que encontrei o modelo.
Para não ficar sozinha em casa enquanto eles viajavam, comecei a correr pelas ruas do bairro para me ocupar no meu tempo livre. E, como já havia passado a semana de que viria para a casa da Sra. , eu resolvi ir na casa dela lhe fazer uma visita e levar as geleias que eu mesma havia preparado.

Toquei a campainha da casa dela e esperei ela aparecer, para poder entrar.
! Como você está? — Disse a Sra. da porta de entrar de sua casa e fez um sinal para que eu entrasse.
— Estou bem e a senhora? — Eu disse antes de colocar a mão por dentro do portão e puxar o trinco.
— Tô ótima! Está de folga hoje? — Ela disse alegre.
— Ah, sim. E vim te trazer mais geleiras. Essas eu mesma quem fiz. — Disse passando pelo portãozinho da entrada e passando pelo caminho de entrada no meio do gramado bem cultivado. Quando cheguei até ela, lhe abracei.
— Venha, querida, vamos conversar. — Sim! Nós precisamos conversar, Sra. !

Há alguns dias a Sra. ligou em casa enquanto eu estava no trabalho, minha mãe atendeu e acabou contando que tínhamos perdido o contato porque tiveram que ficar horas no hospital por causa do acidente que eu sofri naquele dia, que era o mesmo dia da mudança deles. E também esclareceu que eu tinha perdido a memória daquela época, então eu não lembrava dela e nem de , mas estava feliz que tinha encontrado a Sra. porque ela estava me ajudando com a minha memória.
— Fiquei sabendo que minha mãe te contou sobre o meu acidente. — Disse já do sofá da sala.
— Sim. Ela contou. Eu não sabia! Sinto muito, querida. — Ela disse tentando parecer normal, mas percebi que ela estava um pouco desconfortável.
— Tudo bem, Sra. . Desculpa ter sumido, é que…
— Deixa pra lá. — Por sorte a Sra me interrompeu, porque eu não tinha uma desculpa desta vez. — Você está aqui agora. Pena que não pôde vir antes. Meu filho quer muito te ver. Sua mãe e eu pensamos em fazer um jantar aqui em casa pra vocês dois se reencontrarem.
— É uma boa ideia. Aí a senhora pode fazer aquela torta de limão, que só a senhora faz.
— Espertinha! Meu filho disse a mesma coisa. — Ela disse com seu alegre sorriso e eu sorri de volta.
— Ah, Sra. . Pode por favor não contar a ele sobre o meu acidente? — Eu pedi sem graça e com medo de ela já ter contado. — É que eu prefiro contar pessoalmente.
— Sim. Claro! — Ela disse e se levantou. — Se quiser pode ir no quarto dele, é a segunda porta à esquerda subindo a escada. Talvez tenha algo que possa te ajudar em alguma coisa. — Ela disse e foi caminhando em direção à cozinha. — Vou aproveitar que você trouxe mais geleias e fazer o chá da tarde com torradas. — Ela disse sumindo porta a dentro da cozinha.
Me senti ansiosa, e não pensei duas vezes antes de subir as escadas.
O quarto tinha as paredes azuis, e duas janelas de vidro pintadas de branco, assim como a porta, e cortinas brancas, em frente às janelas tinha uma mesa com um computador. A cama de casal tinha 2 criados mudos onde ficavam dois abajures e uma cômoda. Caminhei até a janela e olhei o jardim lá fora. Ao lado da cômoda tinha uma estante com alguns livros, CDs e mais algumas coisas. A cômoda de roupa eu não abri, porque seria demais pra mim fuçar as roupas de uma outra pessoa. Então passei os olhos por cima da cômoda e encontrei um retrato com 5 rapazes. 4 deles eu conhecia, mas 1 não. E ele só podia ser o . Olhei a foto por mais um tempo e tentei lembrar de algo sobre ele, mas na verdade aquele rosto não era nada conhecido pra mim. Os anos tinham passado e parece que tinha mudado bastante.
Continuei a procurar algo que me lembrasse sobre mas não encontrei nada, até que estava folheando uma revista e caiu uma foto de tamanho 3x4, quando peguei a foto reconheci meu rosto e sorri feliz. Coloquei a foto no lugar e encontrei mais CDs, pôster e revistas de uma banda que deve ser a favorita dele.
— Ele é tão fã do McFly. — Eu disse sem acreditar na tamanha coincidência. Continuei curiando as coisas daquela estante e tinha de tudo do McFly. Quando me virei para a porta para descer percebi que estava sendo observada.
? O que está fazendo aqui? — Eu disse surpresa. Parecia que ele tinha saído de algum dos pôsteres que eu estava vendo, tinha passado em casa e vestido uma roupa mais casual e aparecido ali na minha frente.
— Eu sempre venho aqui. — Ele sorriu e se aproximou da janela. Ele é super amigo de . — Eu preciso muito falar com você, . — Eu não faço ideia do que ele poderia querer conversar comigo. Mas quero muito ouvir. Caminhei em silêncio até a cama. Ele ficou um pouco distante. — Não que faça muita diferença, mas eu sei que você não seria capaz de ter feito aquela matéria que foi publicada. Desculpa ter ficado nervoso e acabado deixando você trancada no apartamento só com macarrão instantâneo. — Eu ri do modo que ele falou. — Foi sem querer. E obrigado por ter dado uma geral na minha cozinha.
— Tudo bem, . Eu entendo que você estava de cabeça quente. — Eu disse me referindo ao fim do noivado com . — E era a única coisa que eu podia fazer depois de você ter libertado sua fúria mortal naquele bolo inocente. — riu.
— Na verdade, eu esbarrei nele sem querer. Era o primeiro bolo que eu fiz e decorei sozinho, eu nunca jogaria no chão de propósito.
— Você que fez aquele bolo? — Perguntei com as sobrancelhas levantada. Ele concordou com um sorriso na boca. — Uau! Tá de parabéns! — Bati palmas realmente impressionada.
— Eu só segui a receita da minha mãe. Nada demais! — E seu sorriso foi virando uma expressão mais séria. se sentou ao meu lado. — No dia que você me entrevistou, eu era uma pessoa que só me sentia realmente à vontade estando com minha mãe e meus amigos de banda. Então, daquela vez eu me senti espontâneo e fui ao meu restaurante favorito e comi um pedaço da minha torta favorita com uma pessoa que me fez pensar que eu podia me sentir eu mesmo ao lado dela. E que eu não precisava ser perfeito. Eu podia acertar tanto quanto podia errar e mesmo assim não seria julgado. — Eu fiquei olhando para ele sem conseguir dizer nada. — Eu não consegui te tirar da cabeça desde então. — Ele fez uma pausa. Ele tá se declarando pra mim?! — Eu acredito que tudo na vida tem seu propósito e que não foi por acaso que eu te encontrei naquele dia. O nosso destino está traçado. — disse cheio de certeza e sorriu alegre com as bochechas rosadas, e eu mal conseguia respirar. — E isso é o que eu quero para mim. — Ele passou a mão no cabelo que caía no meu rosto o encaixando atrás da minha orelha. — Você é o que eu quero. — Olhei em seus olhos e não consegui me mexer, então ele me beijou. No começo eu retribui o beijo, mas logo depois me afastei de . Ele me olhou sem entender.
— Desculpe, … Eu já gosto de alguém. — Eu disse e fiquei de pé com as mãos impaciente.
— Ah. — levantou. Saí correndo escada a baixo. A Sra. estava servindo o chá na mesa de centro da sala.
— Preciso ir, Sra. . Vou deixar o chá para uma outra hora. — começou a descer a escada e eu saí pela porta apressada.
Eu estava em mais um fim de semana sozinha em casa e me sentia mal por ter se apaixonado por mim só porque se sentiu bem ao meu lado uma vez. Ele nem me conhece direito.

Eu estava caminhando sozinha para a escola e não encontrei no caminho. Fiquei esperando o mesmo na frente da escola. Quando ele apareceu, um sorriso se formou no meu rosto.
!! — Eu disse correndo em sua direção.
— Ahh. A aniversariante já chegou. — Ele me abraçou e pegou uma caixinha na mochila.
— Claro! Você disse que ia me dar presente. — Sorri largo fazendo meus olhos sumirem.
— Verdade. Mas primeiro quero meu beijo. — Ele disse e fez bico. Eu revirei os olhos e lhe dei um selinho, peguei a caixinha em sua mão e entrei saltitante pra dentro da escola. Quando estava no sentada da sala de aula, abri a caixinha ainda um pouco ansiosa e meus olhos brilharam. Olhei pra sentado do meu lado.
— Humm. Pelo jeito gostou do presente.
— Eu amei!!! — Eu disse tirando da caixinha e dando mais uma olhada no relógio na versão ilimitado. — Coloca em mim? — Ele assim o fez e o professor entrou na sala. — Obrigada! — Eu sussurrei pra , segurei sua mão e dei uma piscada. E voltei a atenção para o professor.


CAPÍTULO 13


— … Mãe, não precisa fazer festa para meu aniversário. Nem tem quem convidar. — Eu disse colocando os vidros cheio de geléia nas caixas para envio. — Temos que pensar é nos preparativos para o casório.
— Pelo menos um jantar. — Minha mãe dizia tentando me convencer. — Parece que o também faz aniversário essa semana.
— Como você sabe? — Eu disse parando o que estava fazendo, porque tinha acabado as caixas de embalagens de geléia. A senhora me olhou culpada e eu lhe olhei com a mão na cintura esperando sua resposta.
— Lembra que a Sra. e eu estávamos organizando um jantar? — Eu concordei. — Então, eu liguei na casa dela e atendeu o telefone. Conversamos um pouco e eu disse que ele deveria vir comemorar o seu aniversário no fim de semana que vem, daí ele disse que o aniversário dele era essa semana pensei de fazermos a comemoração dos dois no mesmo dia, mas ele ficou de ver se consegue vir porque estava ocupado com o trabalho. — Ela parou de colocar as geleias nos vidros, virou pra mim e soltou. — Eu acabei contando que você perdeu a memória em um acidente na adolescência.
— MÃE!!! — Eu disse parecendo brava, mas estava aliviada por não precisar contar isso a ele. Eu não sabia como contar.
— Desculpa, filha, foi sem querer. — Ela se apressou em dizer.
— Tudo bem, mãe. Eu nem sabia como contar a ele. — Eu disse e a abracei antes de ir na garagem pegar mais caixas. A garagem estava cheia de caixas da mudança do meu pai pra cá. Tive que vasculhar entre as caixas para encontrar as certas e enquanto eu procurava um porta retrato me chamou a atenção na estante de ferramentas. Era o porta-retrato com conchas de praia que eu havia visto em um dos meus sonhos. Estava com um pouco de poeira, então eu peguei para olhar melhor a foto que tinha. Era eu e deitados na areia de costas para quem tirou a foto, com as pernas esticadas e o resto do corpo apoiado nos cotovelos, nós dois estávamos sorrindo um para o outro. Peguei as caixas que procurava, o porta-retrato e fui para dentro de casa.
— Mãe, você lembra dessa foto? — Eu disse lhe mostrando o porta-retrato.
— Lembro! Foi eu mesma quem tirou essa foto. Na primeira vez que você foi na praia. Todos estávamos tão animados… — Me perdi em pensamentos enquanto minha mãe falava de como nos divertimos naquele dia. Comecei a sentir um buraco no peito por não lembrar do que fizemos. Me senti frustrada por não lembrar daquele garoto que fez parte da minha história e inventei uma desculpa qualquer para ir no meu quarto chorar.
Por que eu não lembrava dele? Por que justo eu tinha que perder a memória?

Mais tarde, estava ajudando minha mãe a procurar um buquer de flores claras e de repente recebi um e-mail de uma ex-colega que trabalhava na OFTW. Minha mãe olhou pra mim e eu olhei pra ela, com as sobrancelhas juntas.
— Abre, filha. — Ela disse atiçando minha curiosidade.
No e-mail, Wanessa me contava que estava trabalhando em uma empresa ex-concorrente da OFTW, a TT (The Times), e que a grande parte dos ex-funcionários da falida OFTW estavam trabalhando lá agora. E a TT estava abrindo um novo escritório em Londres e que eles estavam precisando de uma editora chefe e ela falou de mim. E ela ficava no aguardo de uma resposta minha.
— Filha, você não pode perder essa oportunidade. — Minha mãe disse animada, mas eu só conseguia pensar que teria que me mudar de novo… e me sentir sozinha agora que já estou acostumada a morar com minha mãe e sempre ver meu pai. Mas por outro lado era a oportunidade de emprego que eu sempre quis. A TT sempre foi a número um do país, por sua ética de ser respeitosa, cuidadosa e verdadeira. Olhei pra minha mãe quando terminei de ler o e-mail, e não precisei dizer nada que ela já tinha percebido o que eu tinha pensado. — Filha, você pode vir nos visitar sempre que quiser. Você sabe que seu quarto vai sempre estar aqui. — E me abraçou.
— Vou sentir falta de vocês.


CAPÍTULO 14


O jantar de aniversário tinha sido combinado na casa da Sra. e eu estava um pouco atrasada porque tinha acabado de chegar de Londres. Assim que eu cheguei na casa da senhora e abri a porta, dei de cara com um sorridente. Parecia que ele estava esperando eu abrir a porta para começar a falar.
— Acho que você não se lembra de mim na época do Colégio. — Ele começou. — E assim que eu vi o relógio na versão ilimitada, com as letras iniciais de nossos nomes, que eu mesmo pedi pra fazerem, pensei que fosse coincidência. Percebi que não era só coincidência quando você fez a mesma cara de sempre quando comeu a torta de limão da minha mãe. E depois vi seu nome e sobrenome naquela revista, eu te reconheci. A mesma garota doce e ingênua, por quem estive apaixonado em segredo por muito tempo. — Eu fui pega de surpresa e abri a boca pra tentar dizer alguma coisa, mas não consegui pensar em nada. sorriu e continuou dizendo. — Naquele dia que você ficou no apartamento. Eu voltei mais tarde e te encontrei dormindo no sofá. Não acreditei que você tinha mudado a cor do cabelo, então me aproximei de você e passei a mão em seus cabelos. — Nesse momento tocou alguns fios de cabelo que caíam sobre meu rosto. — Você se encolheu parecendo estar com frio e eu fui no quarto e voltei com uma coberta. Você parecia estar em um sono profundo, mas mesmo assim sussurrou "", da mesma forma que você me chamava anos atrás — colocou suas mãos em meu rosto e olhou em meus olhos. — E eu acabei te beijando. — colocou seus lábios nos meus, em um beijo calmo, mas que me fez prender o fôlego por alguns segundos. Quando ele me soltou vi que meus pai e a Sra. estavam atrás de , que me olhava com os olhos brilhantes ainda com as mãos em meu rosto. Abaixei meu olhar e ele me soltou. — Eu fiquei me sentindo estranho quando fui embora, mas sabia que tinha que te tirar dali, então chamei para me ajudar… — Ele me abraçou. — Estou muito feliz de ter te encontrado de novo. — Ele disse e dava para sentir a felicidade em sua voz. Mas eu estava me sentindo confusa.
— Desculpe, . — Eu sussurrei com os olhos baixos, quando ele me soltou.
Eu me senti perdida nos meus sentimentos naquele momento. Não estava entendendo o que ele havia dito e nem o que estava acontecendo dentro do meu peito. Meu coração parecia que queria sair pela minha boca… Eu pensei que estava apaixonada por , por isso eu sonhava com ele e a vida trouxe ele de volta pra mim. Mas aquele batimento no meu peito era algo diferente e eu não conseguia distinguir se era ansiedade para encontrar , ou era por causa do beijo que havia me dado. Falando nisso, onde está ?
Um carro buzinou lá fora e olhei pela porta aberta atrás de mim e vi dar um tchauzinho.
— Bom. — Disse com um olhar tristonho. — Agora eu tenho mesmo que ir. está me chamando. Obrigada por tudo, Sr. e Sra. . Mãe. — Ele disse sem jeito e todos na casa se despediram dele, que passou por mim antes de sair porta afora.
Virei para meus pai e a Sra. e, ainda sem conseguir porque meu coração pulava tanto, tentei dizer algo mas não estava entendo a situação.
— O que aconteceu, querida? Pensei que você quisesse se reencontrar com o . — Disse a Sra. vendo minha cara pálida.
— E quero. Quando ele vai chegar? — Eu disse e tentei sorrir.
— Filha, ele acabou de sair pela porta. — Minha mãe disse e meu pai balbuciou algo incompreensível e bateu as mãos. Coloquei a mão no peito percebendo o que tinha acontecido.
— O é o ? — Eu perguntei e os três confirmaram com a cabeça.
é o nome do meio de ! — Disse a Sra. . — .
— Como eu pude ser tão… tão… tão lenta?! — Peguei meu casaco. — Mãe, me empresta a chave do carro? — Ela jogou pra mim na mesma hora e eu saí correndo.
é o ! Agora faz sentido a camiseta verde do blink 182 com o furo de cigarro. A sensação de conhecer ele no dia da entrevista. E ele ter comentado sobre meu relógio. O restaurante dele favorito ser o Grandioso, e seu doce favorito ser a torta de limão da Sra. , que aliás é a mãe dele.
Tudo fazia sentido! Mas eu ainda não me sentia completa. Tinha um grande vazio na minha vida… e no meu coração.
... estava se preparando para uma turnê mundial depois de muito tempo. E eu só descobri que encontrei o cara por quem sempre estive apaixonada, até mesmo antes de perder a memória, quando ele estava para se distanciar. Que filosofia de vida!

Quando cheguei na estação de trem, o último trem já tinha saído. Eu não aguentei segurar a angústia no meu peito. A sensação de perda estava me sufocando, então, ali na entrada da estação, eu soltei meu grito de frustração e comecei a chorar dali até em casa.
Nós nos encontramos tantas vezes e para mim tudo era uma mera coincidência. Como se ele fosse um desconhecido.


CAPÍTULO 15


Algumas semanas depois eu estava no casamento dos meus pais na velha igreja do bairro e eu estava nervosa por ter que discursar como madrinha. Não tinham tantas pessoas, mas eu estava nervosa.
— Obrigada, mãe, por ter me tido. Obrigada, pai, por ter encontrado minha mãe. Obrigada aos noivos por terem se casado antes e me criado muito bem. Obrigada por sempre terem estado ao meu lado e me apiado. Obrigada por terem me escolhido como madrinha. — Fiz uma pausa e olhei para as demais pessoas. — Como todos sabem, eu não lembro da minha infância e de uma parte da minha adolescência. Mas uma vez, quando eu não queria fazer nada, não queria comer, não queria beber, não queria falar e nem mesmo queria tomar banho, — eu ri — minha mãe e meu pai entraram no meu quarto e meu pai disse: “Vai se arrumar pra gente comer hambúrguer e batata frita. Eu não aguento mais fazer essa dieta médica com vocês”. E eu não pensei duas vezes e corri pro banheiro. Na época eu pensei que tinha quebrado a dieta médica, mas depois descobri que o médico já tinha me liberado pra comer essas coisas. — Eu sorri lembrando de como me senti culpada por comer fast-food. Olhei para meus pais e eles sorriam para mim. — Eu só tenho a agradecer vocês dois. E desejar muita felicidade. — Levantei minha taça e os demais fizeram o mesmo, então disse sorrindo: — Viva os noivos! — E tomamos o líquido doce de nossas taças.
Eu sabia o quanto meus pais estavam felizes com aquela celebração. O primeiro casamento deles foi tudo muito simples, não teve cerimônia nem festa e a comemoração deles se resumiu em 2 garrafas de champanhe no trem a caminho de Corringham, enquanto fugiam da casa de seus pais, que não aprovavam o casamento de um rapaz filho de um bancário com uma garota filha de uma professora. E foi nessa cidade que eles cultivaram seu amor um pelo o outro e, mesmo quando todos pensaram que eles não ficariam mais juntos, eles ficaram.
Eu abracei eles e fui para o piano. Chamei a atenção de todos e anunciei a dança dos noivos. Minha mãe me olhou surpresa enquanto era guiada por meu pai para o meio do salão.
— Mãe, essa é pra você. — E comecei a tocar e cantar Your Song, de Elton John, que era a música favorita dos meus pais.

Sua Canção
É um pouquinho engraçado este sentimento aqui dentro
Eu não sou do tipo que consegue disfarçar sentimentos
Não tenho muito dinheiro, mas, cara, se eu tivesse
Eu compraria uma casa bem grande pra gente morar

Se eu fosse um escultor, mas de novo, eu não sou
Ou um homem que faz poções num show itinerante
Eu sei que não é muito, mas é o melhor que posso fazer
Meu presente é minha canção e essa aqui é para você

E você pode contar pra todo mundo que esta é sua canção
Pode ser bem simples, mas agora que está pronta
Eu espero que você não se importe
Espero que você não se importe que eu expresse em palavras
Como a vida é maravilhosa com você nesse mundo

Eu sentei no telhado e arranquei os musgos
Bem, alguns dos versos, bem, eles me deixaram bastante confuso
Mas o Sol foi tão gentil enquanto eu escrevia esta canção
É por pessoas como você que ele continua a brilhar

Então me desculpe por esquecer, mas eu faço essas coisas
Veja só, eu esqueci se eles são verdes ou se são azuis
De qualquer forma, o que eu realmente quero dizer é
Seus olhos são os mais doces que eu já vi

E você pode contar pra todo mundo que esta é sua canção
Pode ser bem simples, mas agora que está pronta
Eu espero que você não se importe
Espero que você não se importe que eu expresse em palavras
Como a vida é maravilhosa com você nesse mundo

Eu espero que você não se importe
Espero que não se importe que eu expresse em palavras
Como a vida é maravilhosa com você nesse mundo.


Todos bateram palma e eu anunciei a banda, que logo começou a cantar I got you (I feel good) de James Brown. E todos fomos para a pista de dança.

Eu Tenho Você (Eu Me Sinto Bem)
Eu me sinto bem, eu sabia que me sentiria
Eu me sinto bem, sabia que me sentiria
Tão bem, tão bem, por ter você

Eu me sinto bem, como açúcar e tempero
Eu me sinto bem, como açúcar e tempero
Tão bem, tão bem, porque tenho você

Quando te tenho em meus braços
Sei que não posso fazer nada de errado
E quando te tenho em meus braços
O meu amor não te fará mal algum!

E eu me sinto bem, como açúcar e tempero
Eu me sinto bem, como açúcar e tempero
Tão bem, tão bem, por que eu tenho você

Quando te tenho em meus braços
Sei que não posso fazer nada de errado
E quando te tenho em meus braços
O meu amor não te fará mal algum!!

E eu me sinto bem, como açúcar e tempero
Eu me sinto bem, como açúcar e tempero
Tão bem, tão bem, bem, porque eu tenho você

Oh, eu me sinto bem, eu sabia que me sentiria
Eu me sinto bem, eu sabia que me sentiria
Tão bem, tão bem, porque eu tenho você
Tão bem, tão bem, porque eu tenho você
Tão bem, tão bem, porque eu tenho você

Heey!
(Oh, sim!)


CAPÍTULO 16


Quando terminamos de agitar, abracei meus pai.
— Filha, eu não sabia que você tinha voltado a tocar piano. — Disse minha mãe.
— Eu queria fazer algo especial. A Sra. sugeriu que eu tocasse piano. E eu pensei que não lembrava como tocava, mas conforme toquei nas teclas do piano do auditório do Colégio, Nocturne de Chopin fluiu nos meus dedos. — Eu expliquei. — Então pensei na música que vocês gostam de cantar juntos…
— Você estava linda lá em cima do palco. E sua voz… parecia um anjo cantando. — Meu pai disse.
— Que nada, pai. — Eu disse com o coração quentinho.

Depois da festa meus pais foram para a lua de mel na praia. Na manhã seguinte eu iria para a minha casa nova em Londres, então passei a noite terminando de arrumar algumas coisas.

Cheguei em Londres, e alguém me esperaria para me levar a minha nova casa. Saí do trem pensando no que pediria pra comer depois que tomasse um banho relaxante.
Quando cheguei do lado de fora da estação um homem com boné tampando o rosto, que estava encostado em um carro preto, segurava uma placa com meu nome. O vento de outono da gelada Londres balançava as pontas do cabelo que escapavam do boné, e eu trazia até mim o seu perfume, que já era como uma droga viciante.
? — Eu disse sem acreditar que era ele mesmo. E parei no meio do caminho entre nós. — Pensei que tivesse saído em sua turnê mundial. — Me aproximei mais dele e seus olhos sumiram em um sorriso.
— É então, era pra ter acontecido. Mas tivemos o imprevisto da Coronavírus. Vamos ter que adiar por um tempo indeterminado. — Sorri torto com a sensação do coração pulando no peito. E de repente ele estava tão próximo que eu mal conseguia respirar.
— E como...? — Perguntei me referindo a tudo.
— Ontem a banda recebeu a notícia de que devido a Pandemia da Covid-19 e eu liguei pra minha mãe, que me contou que você não lembrava que meu primeiro nome é e o segundo , e que quando eu fui embora naquela noite, você foi correndo atrás de mim, mas não conseguiu chegar a tempo. E ela também disse que você estava vindo pra Londres ficar no meu apartamento...
— Espera aí… — Eu disse interrompendo ele. — Então a casa que sua mãe me disse que tinha conseguido pra mim… é a sua casa?
— Sim. — Ele disse sorrindo.
— E você é o dono da casa com quem vou ter que dividir as despesas e que também viria me buscar e me deixar em casa?
— Sim. — Eu sorri de volta pra ele e me permitii encarar seus olhos por um segundo. Percebi que meu coração sempre bateu mais forte quando eu estava perto de . Beijei seus lábios e senti uma onda de calor percorrer meu corpo. Pela primeira vez em muito tempo eu não senti um vazio no peito. Então percebi que eu não precisava de todas as minhas memórias para me sentir completa. Eu só precisava de .

olhou pra mim inquieto e eu puxei sua mão com a palma virada para cima e coloquei lá um pequeno papel dobrado.

[]
Quando eu abri o papel tinha um endereço e número de telefone anotado. Me custou um segundo para entender o que aquilo significava. No mesmo instante meu peito se encheu de felicidade e meus olhos se lacrimejaram.
— Você lembrou! — Eu disse já sabendo a resposta. Não me contive e lhe beijei.

No dia que eu estava de mudança para Londres, eu e éramos mais que amigos, éramos namorados e não vivíamos um longe do outro. Então foi um processo um pouco difícil para nós dois. Eu tinha certeza de que queria viver com ela para sempre então lhe propus um acordo.
"Se você também quer continuar namorando comigo para sempre, me responde com o endereço e número do telefone da sua casa."
Marcamos de ela me responder no dia da minha mudança. Na frente da escola. Mas a resposta nunca chegou até agora.
— Desculpe a demora. — Ela disse e uma lágrima caiu de seu olhar. Passei a mão em seu rosto e lhe abracei.
— Você sabe o que isso quer dizer? — Eu lhe perguntei.
— O quê? — Ela disse inocente.
— Que agora estamos noivos. — Respondi segurando suas mãos. E foi a vez dela de me abraçar. — Eu te amo.
— Eu sempre te amei. — Ela disse com a cabeça deitada em meu peito.


Fim.



Nota da autora: Sem nota.

Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.


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