Última atualização: 28/04/2021

Prólogo

Você não acredita em criaturas da noite, até que algo te faça acreditar. Minha família, era uma família grande, não éramos ricos e nem pobres, mas éramos felizes. Eu e meus irmãos, nossos pais haviam partido, eu como irmã mais velha cuidava da casa, ou pelo menos deveria cuidar. Não éramos solitários por viver sem nossos pais, a casa estava sempre cheia. Mas eu tinha que trabalhar, conseguir alimento para a nossa mesa, o dinheiro que nossos pais deixaram não duraria para sempre. Muitas vezes eu tinha que ir para outras cidades e Takashi, o mais velho depois de mim, assumia a casa. Eu geralmente levava no máximo três dias fora, voltava sempre recebida por abraços quentes, que me fortaleciam. Mas, um dia eu voltei, e não existiram abraços, apenas sangue. Minha casa havia sido atacada por um assassino cruel, minha família? Todos mortos. Aquele foi o momento da minha vida em que um Oni cruzou o meu caminho pela primeira vez, e eu não sei como, eu esmaguei a cabeça dele com uma pedra. E foi quando meu caminho se cruzou com o caminho do Urokodaki-san.

Urokodaki-san se tornou meu mestre, não apenas meu mestre, mas ele treinava um outro garoto comigo. Seu nome era Tomioka Giyu, nosso treinamento foi demorado, e com isso nos aproximamos bastante. A seleção final foi o maior desafio da minha vida, nenhum treinamento do mundo se comparava com aquele lugar, mas eu sobrevivi. Quando vi Giyu vivo, me senti completamente aliviada, seríamos Espadachins e acabaríamos com aquelas coisas. Infelizmente, com o tempo, fomos sendo mandados para missões diferentes e nos distanciamos. Existe um colar, que Giyu fez para mim quando estávamos ainda no treinamento, ele tem um e eu tenho outro, toda vez que me sinto sozinha, seguro este colar com força. Sempre estaremos unidos, pelo nosso treinamento, nossa amizade, nossa força, e sempre teremos o mesmo objetivo: exterminar onis.

Ninguém mais deve sofrer por causa desses demônios, eu irei decapitar todos que cruzarem o meu caminho. Até que um dia, o destino coloque na minha frente, o Oni que destruiu meu lar, que matou a minha família, que era minha única luz. Mas, mesmo com minha família morta, o Urokodaki-san e o Giyu servem como faróis para mim. Sempre poderei voltar ao Monte Sagiri, que se tornou o meu lar. Mas jamais voltarei, sem levar orgulho para o meu treinador. Jamais voltarei, até que eu tenha certeza que protegi todos que poderia proteger. Gostaria de olhar nos olhos dele mais uma vez, e dizer que o que nos une não é apenas o ódio por onis, mas como? Jamais nossos olhares se encontrarão de novo, jamais.

Em memória de Takashi, Yuna, Hideki, Saori e Yuki. Eu, , faço esse juramento: protegerei todas as famílias que eu conseguir, e exterminarei todos os onis que encontrar.


Capítulo 1: Quando as folhas caíram.

Era de tarde, estava começando a escurecer e eu ainda estava longe de chegar em casa. Nenhum corvo irritante me gritou, então achei que poderia voltar tranquila, sem ordens, sem missão. Eu estava torcendo para não encontrar nenhum oni no caminho, seria frustrante acabarem com o pouco de sossego que eu havia conseguido. Eu não estava com medo, nem nada, era apenas um pouco de preguiça. A missão que eu tinha acabado de voltar, coincidia em uma série de ataques padrões, apenas crianças desapareciam. Eu não sou uma pessoa muito sentimentalista, ou pelo menos tento não envolver meus sentimentos com as missões, mas os pais tendo seus filhos levados de si, o desespero deles, aquilo me marcou bastante. Na vida, houveram algumas missões que me marcaram, a primeira foi exatamente a minha primeira missão sozinha, quando encontrei um oni que usava kekkijutsu, logo na minha primeira missão, encontrar um daqueles foi azar. Eu voltei bastante machucada, mas foi a primeira vez que arranquei a cabeça de um oni em missão, e eu não consegui sentir raiva dele. A segunda, foi a missão que me tornou Hashira, quando matei um dos Doze Kizuki, que são como os oni de elite, que recebem o sangue do líder deles e são mais fortes, entretanto, arranquei a cabeça também. Esse estava dizimando famílias em uma montanha, e acreditava nos próprios devaneios, acho que foi um alívio para ele quando cortei sua cabeça. E a terceira foi essa, e o pior, foi não conseguir trazer nenhuma daquelas crianças de volta.

Um frio na espinha, seria um oni?

Enquanto pensava nessas missões, não notei muito o que estava acontecendo ao meu redor. Eu tenho essa sensação, quando tem um oni por perto, algum tipo de instinto que me faz identificar a presença deles, mas todo esse lugar tinha a presença de um oni. Olhando ao redor, o lugar estava um pouco parecido com a minha casa, eu preferi não morar perto de nenhum dos outros Hashira, já que eles são difíceis de lidar. Então, as árvores estavam secas, tinha neve por toda parte, mas não estava frio, pelo contrário, mesmo sem sol, a temperatura estava agradável, eu deveria ter parado para acampar em algum lugar, mas agora não importa mais. Saquei minha espada e caminhei devagar em direção às casas, aquela sensação só aumentava, era como se todo o lugar fosse feito de oni. Respirei fundo, se aquilo era mesmo neve, o tempo estava ao meu favor.
— Fuja! — Escutei alguém sussurrar, caminhei em direção à voz e encontrei a dona dela, uma mulher abraçada com uma criança, escondida atrás de um armário.
— Por que? — Perguntei baixinho.
— Um monstro matou o meu marido, leve meu filho e fuja. — Disse a mulher, sua coragem me admirou.
— Continuem escondidos aqui, eu volto já. — Sorri e empurrei o armário, caminhando para fora. — Tudo bem, oni maldito! Eu sei onde você está, não me faça ir até você. — Menti.
— Sabe mesmo? — Bom, saber eu não sabia, mas com ele vindo na minha direção com essa velocidade, eu consigo sentir o vento. Virei a espada que bateu no braço dele, respirei fundo.
— Respiração da neve, quarta forma: Tōketsu katto. — O dragão que saiu da minha espada, virou uma lâmina de gelo, mais fina que a própria espada e decapitou o oni. — Sério? Você parecia ser melhor- quê? — Senti como se alguém estivesse cortando minha cabeça e o oni se regenerou.
— Eu arranquei minha cabeça antes de você acertar o golpe. — Ele riu.
— Interessante. — Respondi, a lâmina que antes havia ido para a direita, voltou para a esquerda, o decapitando de verdade.
— O que? — Me abaixei ao lado dele.
— Não subestime um Hashira, essa forma, fica presa ao ponto que usei para cortar, e sempre volta se o alvo se mexer.
— Então… Hashira? — Seu corpo foi se transformando em cinzas, enquanto todo o lugar voltava a ter vida, respirei fundo.
? — Escutei uma voz me chamar, me assustei e golpeei com um chute o dono da voz, que me olhou confuso.
— Tomioka? O que está fazendo aqui me assustando? — Perguntei, irritada.
— Eu estava em uma missão, eu era quem estava mais próximo, muitos de níveis mais baixos morreram para esse oni. — Explicou, com a mão na cabeça, devido à pancada.
— Parece que eu estava mais perto. — Estiquei a mão para que ele se levantasse. — E esse oni era um fraco.
— É nítido como o esquadrão diminuiu sua força. — Disse, enquanto arrumava suas roupas.
— Nem todos os treinadores são o Urokodaki-sensei. — Respondi e ele assentiu.
— Obrigado por fazer o meu trabalho por mim, te devo uma. — Ele sorriu.
— Você me deve várias, Tomioka. — Arqueei as sobrancelhas, ele veio na minha direção, como se fosse me dar um abraço, mas acabou sendo
golpeado de novo, dessa vez por um soco no rosto.
— Qual é o seu problema, criatura?! — Perguntou, com a mão na bochecha.
— Você não tem o direito de me abraçar depois de sumir por anos, respeite meu espaço. — Cruzei os braços e fiz bico, virando o rosto para o lado.
— Você ainda age como uma criança manhosa. — Resmungou.
— E você como um fedelho irritante! — Me preparei para acertá-lo de novo, mas ele me impediu, com um abraço.
— Senti sua falta. — Sussurrou, por uns segundos, eu me permiti sentir aquele abraço. O que era estranho, Giyu não costumava me abraçar nem quando éramos crianças, me soltei do abraço, então.
— E-eu vou avisar a senhora que ela já pode sair. — Disse, meio desnorteada e com as bochechas queimando.
— Eu vou preparar um funeral para a vítima. — Disse ele, eu assenti e entrei na casa. Tomioka estava aqui, não era sonho, e ele me abraçou de verdade.


Capítulo 2: A neve.

Fizemos um funeral para o marido daquela mulher, e não conversamos muito, eu estava irritada e ele com um olhar triste, estávamos indo para a montanha em que eu residia. Resolvi quebrar o silêncio.
— O que está te incomodando? — Perguntei.
— Um garoto e sua irmã, a família foi vítima de Kibutsuji. — Me espantei com a resposta.
— Como você sabe? — Perguntei.
— A irmã foi transformada em oni. — Ele abaixou a cabeça. — Se eu tivesse chegado um pouco antes.
— Ei, ei, ei! Tomioka! — Parei de caminhar, o empurrando. — Não deve se culpar, você mataria o Muzan sozinho? Não é como se pudesse.
— Eu poderia, se estivesse lá. — Respondeu, fazendo cara feia, provavelmente porque duvidei da capacidade dele.
— Mas você não sabe, sinto muito que tenha tido que matar a garota na frente do irmão, mas esse é o nosso trabalho. — Falei, voltando a caminhar.
— Sobre isso… — Ele começou a dizer, mas parou, quando sentiu a mesma coisa que eu senti, um floco de neve tocando os nossos rostos. — Neve? — Perguntou, um pouco confuso.
— Sim, aqui quase sempre neva, algumas lendas dizem que esse lugar foi amaldiçoado. — Respondi, enquanto ria. — Mas eu amo morar aqui.
— Foi aqui que você descobriu a respiração da neve? — Indagou, eu sabia que ele estava curioso com isso.
— Não. — Acenei com a cabeça negativamente. — Eu descobri por acaso, durante uma luta, só me veio na mente. — Sorri, enquanto explicava.
— E como isso funciona? Eu nunca tinha escutado nada sobre respiração da neve. — Disse, com a mão no queixo.
— Eu estava mesmo pensando em te perguntar se já havia ouvido falar. — Respondi.
— Não, já ouvi sobre a respiração da névoa, mas nada sobre neve. Talvez o Urokodaki-san saiba algo sobre isso, deveria falar com ele. — Sugeriu.
— É, talvez aquele velho saiba de algo. — Murmurei, com a mão no queixo, fazendo Giyu rir fraco.
— Você é fofa. — Disse ele, me fazendo corar com o elogio repentino. — Mas apenas na aparência. — Completou, fiz biquinho.
— Poxa, Tomioka-kun. — Fiz uma voz fofa.
— Não, isso não funciona com quem já apanhou de você. — Disse ele, empurrando meu rosto de leve. Cruzei os braços e bufei.
— Você sempre foi assim comigo. — Virei os olhos.
— O que você tem feito? — Perguntou ele, mudando completamente o assunto.
— Matado onis, e você? — Sorri amarelo.
— O mesmo, mas você não pode mandar uma carta dizendo que está bem? — Perguntou, me encarando sério.
— Você também poderia mandar, mas você não se importa. — Cruzei os braços.
— Não é que eu não me importe. — Disse ele, coçando a cabeça.
— Você só não se importa o suficiente. — Completei, ele virou os olhos.
— Fala sério, ! — Ele me empurrou de leve. — Você deveria ser mais gentil.
— Não sou paga para isso. — Retruquei.
— E você é paga? — Ele arqueou uma sobrancelha.
— É claro que sim, como você acha que eu manteria uma casa dessas? — Apontei para a casa na montanha.
— Como você consegue viver em um lugar como esse? Nunca faz sol? — Ele perguntou, um pouco confuso com o lugar.
— Às vezes sim, é um lugar vazio, foi abandonado por todos, desde que a neve nunca cessou. — Expliquei, respirando fundo, era bom voltar para casa. Ele murmurou algo que eu não entendi, enquanto dava uma boa olhada no local.
— Não se sente sozinha? Ou sente saudades de casa? — Ele parecia preocupado.
— Não, quanto menos pessoas para eu me apegar, melhor. — Sorri, abrindo a porta para que ele entrasse. Giyu agia como sempre agiu, mas havia algo o incomodando, e eu sabia disso.
— Você cresceu. — Disse, enquanto olhava minha casa.
— Você também, não deveria ser uma surpresa para velhos amigos. — Respondi, tirando o kimono, que usava acima do uniforme.
— Sobre isso, existe algo que quero terminar de te contar. — Giyu estava sério, mas de um jeito diferente do que costumava ficar. Coloquei água para esquentar e preparar um chá, e me sentei com ele.
— Diga. — Respondi, sentando ao lado dele.
— Eu mandei o menino para o Urokodaki-san treiná-lo.
— Que menino?
— O da montanha, que mencionei há pouco… — Eu o interrompi.
— Sim, eu estava pensando sobre isso. — Disse, enquanto passava a mão nos cabelos. — Por que Kibutsuji está atacando famílias em montanhas? Ele se mantém escondido a vida toda, por que chamar a atenção assim?
— Eu não sei, mas aqueles eram irmãos diferentes. — Respondeu ele, sério.
— Como assim? — Inclinei minha cabeça.
— A garota, que virou oni, tentou proteger o irmão, não devorá-lo.
— O que? Impossível! — Eu estava boquiaberta.
— Pois é, eu o mandei com ela para o Urokodaki-san… — O interrompi, furiosa.
— Está me dizendo que deixou um oni viver? — Me levantei.
— Não era um oni qualquer, ! — Ele se levantou também.
— Para mim, todos são iguais. — Vesti o meu kimono e apaguei o fogo do chá.
— O que está fazendo? — Perguntou ele.
— Vou terminar o seu serviço mal feito. — Coloquei minha espada na bainha, e abri a porta, tendo meu braço segurado por Giyu.
, você não entende. — Disse ele, me puxando para perto, dei socos em seu peito.
— Não, você não entende! Se não queria que eu fizesse algo, por que me contou? Experimente perder tudo, eu jurei exterminar todos eles, Giyu! — O empurrei para longe e virei de costas.
— E se um dos seus irmãos tivesse sido transformado em oni… — Gelei, simplesmente fiquei paralisada. — e você tivesse a chance de salvá-lo, após perder todos, você o mataria? — Fechei meus olhos com força, eu preferia o tempo que ele estava longe, preferia não ter essas informações e preferia não ter que pensar nessa resposta. — Eu sei que você faria o mesmo que o garoto, mesmo se seu irmão ou sua irmã tentasse te atacar, o que a dele não faz. Se houvesse uma chance de cura, você iria atrás dela.
— E há? — Perguntei, fazendo Giyu suspirar.
— Eu não sei, mas ele está tentando, e aqueles dois são diferentes, confie no meu julgamento. — Ele estendeu a mão para mim, que mesmo de costas, pude ver. Me virei, com os olhos marejados, e segurei sua mão, deixando as lágrimas rolarem.
— Eu faria. — Respondi. — Faria tudo que fosse possível, para ter pelo menos um deles comigo. — Giyu colocou a mão sobre meu ombro, ele não era uma pessoa de abraços, e como já havia me dado um, acho que estourou a cota.
— Quando eu te conheci, , você parecia uma flor. Mas você era uma flor que estava murchando, era a única coisa que eu conseguia comparar com você. — Nos abaixamos juntos. — Mas aqui, hoje, acho que você se parece com a neve. — Ele sorriu, de canto. — Você não é fria sempre, e mesmo na sua frieza, há muita beleza. — Fechei os olhos com força, Giyu apertou minha mão.
— Tomioka-kun… — Falei, engolindo o choro. — Obrigada. — Aquele aperto forte de mão, era melhor do que qualquer abraço, porque para nós, significava “eu estou aqui por você”. E por um momento, eu havia me esquecido de quem nós éramos, eu havia me esquecido que Tomioka me conhecia o suficiente, para me confiar aquela informação. Eu havia me esquecido, que nós éramos nós. E tudo isso voltou, no instante em que ele quebrou as barreiras que estavam entre nós.


Continua...



Nota da autora: me perdoem pela demora na att, eu torci o pulso e depois desencadeou uma tendinite que me atrapalhou muito :/ mas já estou melhorando, espero ficar 100% logo! Espero que tenham gostado desse capítulo! xx--

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