Contador:
Última atualização: 23/02/2021

Prólogo

Fazia algum tempo em que não se sentia daquela forma. Na verdade, ela nem lembrava se em algum momento dos seus singelos 26 anos havia se sentido assim. Exausta, mental e fisicamente falando, frustrada, irritada e muito, muito arrependida. O motivo tinha nome, sobrenome, lindos olhos verdes e era seu ex namorado, Derek Johnson. Ela sabia que não deveria ter dado a chance de uma última conversa acontecer. Ele já havia aprontado o suficiente para que ela não fosse tão gentil assim. sempre teve facilidade em desapegar das pessoas pelas quais passaram na vida dela, é verdade. Mas com Derek estava sendo diferente. Talvez porque eles tornaram-se amigos muitos anos antes de namorarem, basicamente desde que ela chegou a Londres, oito anos atrás. Em pouquíssimo tempo os dois não se desgrudaram, fazendo todos acharem que eles eram um casal. nunca pensou dessa forma, nunca havia olhado para ele com outros olhos. E nem percebeu o quanto ele gostava dela além da amizade. Ela só foi descobrir alguns anos mais tarde, depois de já ter namorado outros caras e, principalmente, depois de surgir na sua vida e importuná-la com essas questões. Que de fato eram reais. sempre teve razão. Mas antes não tivesse tido razão sobre isso.
Além de toda essa questão, Derek havia se tornado aquilo que ela nunca pensou que permitiria ter, o amor abusivo. E como em relacionamentos abusivos, por muitas vezes ela se sentiu responsável pelas brigas que tiveram, pelos ciúmes excessivos dele e até mesmo pelas perseguições aos seus amigos. Ela sentia-se absurdamente culpada por ainda ter alguns desses pensamentos, porque ela sabia que isso não era o certo. E por mais que ela tivesse melhorado e superado muito esse amor doente durante os últimos três meses, ele ainda se manifestava em determinados momentos. Lembrando-a que ela não estava totalmente livre dele. E sempre que ela tinha essa constatação, ela se sentia fraca, frustrada e, acima de tudo, cansada. Nunca pensou que seu melhor amigo poderia ser daquela forma. Nunca pensou que algum dia perderia sua preciosa amizade. E esse era outro detalhe que ela não gostava nem um pouco de pensar.
Poucas horas antes de começar o seu ritual pré voo e ela continuava deitada em seu sofá, sentindo-se absurdamente patética por todos aqueles sentimentos controversos ao mesmo tempo e com a cabeça explodindo. Por mais que ela tentasse desviar o foco dos seus pensamentos, eles tinham vida própria e voltavam com tudo. Ela estava até mesmo torcendo por uma ligação da escala informando sobre algum atraso ou cancelamento de voo. Definitivamente, patética. E ela não conseguia nem mesmo impedir esse desejo louco que tomou conta dela. Obviamente que não cumprir com as suas obrigações não era sequer uma hipótese. Mas até onde sabia, sonhar ainda era de graça, afinal de contas. E só de pensar no quanto esse voo foi planejado e aguardado, ela sentia ainda mais raiva por Derek reaparecer em sua vida querendo conversar. Sempre com sua boa lábia, seu olhar de arrependimento e suas doces palavras. Esse combo costumava funcionar muito bem em outros tempos. Mas agora seria diferente. Ela já havia avançado muito na cura daquele amor tóxico e prometido a si mesma, e ela cumpriria. Até porque, podia errar muito, mas se tinha uma coisa em que ela se orgulhava de não fazer, era de não quebrar promessas.


Um


Sinceramente eu nem sabia direito como eu havia conseguido finalizar esse voo. Depois que Derek saiu da minha casa por livre e espontânea pressão, eu só fiz pensar e sentir raiva. Nem a minha soneca pré voo eu consegui fazer. Maldito seja! Com certeza esse tinha sido um dos meus voos mais relaxados do mundo. No pior sentido da palavra mesmo. E eu odiava fazer voos assim, me dava um sentimento de não profissionalismo que eu não gostava de ter. Porque eu amava voar, a minha profissão e tudo o que ela me proporcionava, até os momentos não tão bons como ficar longe dos meus pais. Mas sobre isso até que eu já estava acostumada. Há oito anos eu havia feito a escolha mais difícil da minha vida até então: fazer meu curso de Gastronomia na Universidade de Bournemouth, minha cidade natal e perto de quem eu mais amava, ou fazer as malas e me inscrever na Universidade de Londres. Aquele foi o primeiro momento em que me deparei com despedidas e com a distância. Apesar de todo o laço que eu tinha com meus pais e de sentir falta deles diariamente, eu faria a mesma escolha se voltasse no tempo. Escolher ir para Londres foi minha decisão mais difícil, mas também a decisão mais acertada. Eu era apenas uma garota de 18 anos, morando sozinha em uma cidade gigante como Londres. Pensei várias vezes em desistir, até mesmo liguei para meus pais para dizer que voltaria. Recebi em troca muito amor e compreensão, mas também um puxão de orelha que me fez ver a burrada que seria se fizesse isso. E exatamente três anos depois de fazer as malas pela primeira vez, a British Airways me aceitou como a nova comissária de voo da empresa e descobri que fazer mala seria minha nova habilidade.
O sonho de ser comissária de voo cresceu em mim quando eu ainda era criança, despretensiosamente, enquanto assistia Donna Jensen, papel da Gwyneth Paltrow em Voando Alto, tornando-se a comissária que ela tanto almejou. “Paris, primeira classe, internacional”, esse foi o mantra de Donna no filme e que levei para a minha vida desde então. E assim como a personagem de Gwyneth, eu havia conseguido. Sozinha. Eu me orgulhava tanto de não ter desistido. Assim como também agradecia muito por meus pais não deixarem que eu voltasse para casa pouco tempo depois de sair. Eu era absurdamente realizada nessa profissão e pretendia exercê-la por muito tempo ainda. Eu amava o contato com as pessoas, amava quando tinha alguém falante e que me fazia companhia enquanto atravessávamos o oceano. Adorava conhecer múltiplas culturas, experimentar a culinária dos diversos países que visitava e também poder levar um pouquinho de mim para cada canto. Mas aqui estava eu, cinco anos depois de realizar meu sonho de criança, muitos desafios, escolhas difíceis e estudos intermináveis, fazendo questionamentos que nunca fiz antes e agradecendo por finalmente ter acabado com a minha obrigação do dia. Eu não estava nada no clima para conversas hoje. O melhor que consegui foi vestir a minha capa da felicidade, sorrir como se fizesse propaganda do meu clareamento dental e desviar sutilmente de cada pessoa que tentava trocar mais do que cinco palavras comigo.
Mas enfim o momento de me permitir ser eu havia chegado. Eu estava, finalmente, dentro do meu quarto de hotel que, devo dizer, era daqueles capazes de tirar até nossa vontade de conhecer a cidade. A cama, como sempre, majestosa no centro do ambiente, com inúmeros travesseiros que só de olhar já dava para saber que eram do melhor. O edredom nem se fala, com certeza daquele que te abraçava na cama. Eu estava acostumada com esse tipo de quarto, não podia reclamar das acomodações que a empresa disponibilizava para nós, mas eu sempre ficava encantada de formas diferentes cada vez que eu olhava para a cama super arrumada e chamativa. Eu não era a maior fã de gastar o meu pernoite inteiro na cidade dentro do quarto, mas eu não dispensava nem por um segundo o meu descanso pós voo. Eu tinha um ritual de pré e pós voo que não abria mão. Depois de alguns anos nessa rotina maluca, eu percebi que precisava criar meus próprios hábitos para me sentir mais disposta e feliz. Eu já estava pronta para abrir minhas malas e começar a me desmontar, quando meu celular notificou as inúmeras mensagens, marcações e acontecimentos das últimas 12 horas. Dentre todas elas, vi que tinha recebido algumas mensagens da , minha melhor amiga.

– 17:37
Amiga, eu não acredito que aquele palhaço apareceu aí sem mais nem menos
Desculpa por não te socorrer na hora, estava naquele voo infernal que todos odeiam fazer
E agora acho que vc já está a caminho de LA
Mas como vc está? Me manda msg assim que chegar!


– 20:09
Agora que estou no conforto do meu quarto estou melhor, mas ainda posso sentir minha raiva por ele ter surgido como a Fênix.
Amiga, relaxa! Até parece que não vivemos nos falando por etapas, kkkkk


– 20:11
Mas quando é algo importante como dar um chute na bunda do Derek eu me sinto culpada
Me conta tudo. O q ele queria? Vc não caiu na dele né, ?
Se vc, por algum momento que seja, tenha pensado nisso, eu juro que pego o primeiro voo pra LA p/ dar na sua cara
E ME RESPONDE QUE EU N SOU PALHAÇA PRA FALAR SOZINHA!


– 20:15
HAHAH calma, mulher!
Eu, literalmente, tinha acabado de entrar no quarto quando sua mensagem chegou
Fui tirar minha maquiagem porque depois de quase 14h com esse reboco minha pele de princesa precisa respirar
Vou tomar banho e te ligo!
A propósito, o que você está fazendo acordada às três da manhã? Além de me ameaçar, é claro.


Mais algumas mensagens chegaram depois disso, mas eu sabia que era a falando algumas coisas feias para mim, então não me importei e segui para o banho. Que era a segunda parte do meu ritual pós voo e, talvez, a que eu mais amava. Nada funcionava para mim se eu não tomasse um bom e relaxante banho. Afinal de contas, depois de quase 14 horas com a mesma roupa e mais de 10 horas de voo, não tinha como alguém se sentir limpo e confortável. Eu pelo menos gostaria de acreditar que não. Porque a quantidade de bactérias e sujeiras dentro de uma aeronave era espantosa. E ainda tinha gente corajosa o suficiente para ir ao toalete descalça. Eu nem conseguia acreditar em uma coisa dessas.
Eu achava que quase qualquer coisa podia ser resolvida com um bom banho quente. Não precisava nem ser de banheira, que era uma coisa totalmente fora de cogitação para mim nos hotéis. Eu preferia o bom e velho banho de chuveiro, com a água caindo sobre a cabeça e fazendo os músculos relaxarem. E eu amava aproveitar esse tempo para pensar. Na maioria das vezes pensava na minha vida, no que eu tinha para fazer e nos meus projetos pessoais. Eu não era uma pessoa que vivia com problemas, na verdade eu fugia deles. Eu acreditava muito no poder do pensamento e buscava ver o lado bom das coisas, até daquelas que não pareciam ter. Nesse momento eu estava tendo dificuldades de encontrar um lado bom sobre o ocorrido. Depois de quase onze horas de voo, finalmente me permiti pensar em tudo o que havia acontecido no dia anterior, que eu pensava ser apenas mais um dia normal antes de qualquer voo. Derek costumava ser o cara que eu corria para contar minhas vitórias e também meus problemas. Ele costumava ser o meu ombro amigo desde que fui para Londres, sozinha, cursar Gastronomia. Eu adorava a ligação que tínhamos criado em tão pouco tempo e a nossa amizade. E me culpava um bocado por ter deixado meus sentimentos e, principalmente, os dele, falarem mais alto. Porque agora eu estava nessa situação deprimente. Tive um dia péssimo de trabalho, com meus pensamentos voando mais rápido do que a velocidade da luz e sempre voltados para a conversa que Derek e eu tivemos. A que eu prometi ser a última. Porque eu estava cansada de ouvir as mesmas desculpas dele, sempre seguidas de acusações direcionadas a mim. Eu já havia perdido as contas de quantas vezes ele falou que mudaria, mas nada aconteceu. Ou de quantas vezes sugeri que fôssemos juntos à terapia e sempre recebi “eu não sou louco para precisar de terapia” como resposta, seguido de um olhar debochado. Ri sem humor ao me lembrar de todas as vezes que ele falou isso. “Até parece”, pensei em voz alta, me repreendendo em seguida. Como se apenas os loucos precisassem de ajuda psicológica. E quem dera ele fosse somente um louco. Talvez as coisas tivessem sido um pouco mais fáceis.
Percebi que fiquei tempo demais naquele banho quando o serviço de quarto bateu em minha porta, com o jantar que havia pedido ainda na recepção quando fiz meu check-in. Pensar em Derek e em tudo o que aconteceu era um caminho sem volta, que me tirava o sono e do sério. Mas então também me lembrei de , que estava a milhas de distância esperando por meu contato, e corri de todos aqueles pensamentos e do banho para fazer as duas coisas que eu mais queria naquele momento: comer e me distrair conversando com – ainda que fosse falando sobre tudo o que aconteceu, ela sempre me fazia rir. Resolvi chamá-la por vídeo chamada antes que ela cumprisse com sua promessa de pegar o primeiro voo para LA. E porque também estava com pena da minha amiga, que provavelmente me aguardava ansiosa para saber a fofoca em plena madrugada.
! Você realmente queria que eu gastasse meus dois dias de folga para te bater, né? – disse assim que atendeu ao telefone.
, para de graça que eu sei muito bem que você gostaria de estar aqui comigo – ri junto a ela. – Na verdade, nós duas sabemos que esse voo deveria ter sido seu também – completei.
— Nem fale, sua tonta! Você nem me lembrou de fazer a solicitação no sistema – ela disse fingindo estar realmente irritada.
— Ah tá. Além de ficar responsável por sua escala, não quer que eu faça os voos pra você também? – ri debochada. – Pare de falar e me deixe contar o que aconteceu. Nem parece que já são quase 4 da manhã aí em Londres. A propósito, você não deveria estar dormindo? – questionei.
— Deveria, . Mas, como a melhor amiga que sou, estou aqui pacientemente esperando você me contar o que o Derek queria com você, enquanto você só continua me enrolando – deu uma revirada de olhos, seguida de uma risadinha. É claro que ela não estava realmente incomodada por estar acordada naquela hora e me esperando falar. Ela já devia ter dormido muito durante o dia, afinal de contas.
— Tá ok. Eu vou te falar que o Derek conseguiu me tirar a paciência hoje, amiga. Eu estava terminando de arrumar algumas coisas e me preparando para tirar um cochilo, quando ele bateu lá na porta, pedindo com todo amor e carinho para conversar – ela revirou os olhos, agora realmente sem paciência. – E você sabe, apesar de tudo eu acho que uma conversa decente era tudo o que precisávamos. Isso antes de acontecer, claro. – ri fraco.
— Eu já até imagino. Aposto como ele foi todo fofinho, se dizendo super arrependido quando na verdade sabemos que não está nada. Ele só está com o ego ferido e sentindo falta das regalias que você oferecia a ele – o tom de voz dela já denunciava o quanto estava irritada.
— Pois é, você bem sabe – soltei com pesar. – Mas já te disse, eu não caí na dele de novo.
— Fico feliz, – disse um pouco mais calma. – Mas o que ele te falou para te tirar tanto do sério? – completou.
— Acho que o mesmo de sempre. Que ele só fez tudo aquilo porque eu o obriguei – falei impaciente. – Do jeito que ele fala, parece até que eu apontei uma arma na cabeça dele.
— De novo? Até quando ele vai te pedir desculpas para depois completar com um “mas foi você a responsável por tudo isso”? – ri da voz que ela fez para imitá-lo.
— Derek vai fazer isso até quando ele perceber que precisa de tratamento e procurar por um, – a vi concordar com a cabeça. – Essa insegurança toda e ciúme excessivo fazem mal principalmente a ele. Eu não sei como uma pessoa consegue dormir em paz sendo assim – completei com bastante pesar. Porque acima de qualquer coisa, Derek sempre foi um amigo. E eu não gostaria que as coisas tivessem terminado da forma em que terminaram.
, relaxa! Eu sei que embora você tenha evoluído muito e se libertado dessa coisa tóxica que tinham, você ainda se culpa muito também – censurou. – E sabe de uma coisa? Nem por um segundo sequer você teve culpa. Você nunca o deu motivos para desconfianças, você mudou toda a sua vida para se encaixar na dele, você vivia dentro e fora do trabalho só a mercê dele. Derek tinha acesso as suas escalas, ele que as montava da forma em que fosse melhor para ele e até o período de férias quem escolhia era ele, até antes de vocês se tornarem namorados – reclamou . – Tem noção do quanto isso doentio?
— Sim, – soltei um suspiro cansado. – O que eu quero dizer é que, eu não me sinto culpada por ele ser dessa forma. Não mais. Mas eu ainda me sinto culpada por permitir que ele fizesse tudo isso comigo. Justo eu! Que sempre me orgulhei por ser livre.
— Eu sei, amiga. Mas até nisso a culpa não é sua, acredite.
— Como não? – falei um pouco mais alto. – Eu que permiti isso. E mesmo sabendo que não deveria, mesmo ouvindo todos vocês me falando o quanto isso estava errado, eu só conseguia ouvir a voz dele e a culpa me atingindo.
, você estava indo tão bem – se lamentou . – Por favor, esqueça qualquer coisa que ele tenha te falado hoje. Não é verdade. A não ser a parte em que ele se xingou, essa você pode considerar sim – ela riu, me fazendo rir junto com ela.
— Eu não sei o que eu faria sem você, garota! – falei um pouco mais calma. – Mas vamos falar do que realmente importa. Eu estou tão ansiosa para o festival amanhã. Eu nem acredito que consegui! – disse quase gritando de empolgação.
— Meu Deus, ! Eu quero muitas fotos e vídeos daquele lugar. E de todo homem gostoso que aparecer na sua frente. E por favor, não desperdiça a chance de dar uns beijos na boca!
— Que mané beijo na boca, . Eu ‘to indo lá pelo espetáculo, pelos artistas, pelas comidas e pelas cervejas artesanais, não pelas bocas disponíveis – repreendi.
— E desde quando isso impede que você também aproveite um pouco? – me questionou.
— Não impede, amor. Mas não estou indo com esse intuito – expliquei. – Mas pode deixar que se aparecer alguma que valha a pena eu aproveito – rimos enquanto ela comemorava. – Agora vamos parar de fofocar, você deve estar caindo de sono e eu preciso descansar bastante para aproveitar o meu dia amanhã.
— Estou mesmo. Dormi a tarde toda depois que cheguei de voo, mas continuo cansada – rimos. – Divirta-se muito amanhã, amiga! E eu realmente quero fotos e vídeos enquanto eu fico aqui curtindo minha Netflix.

Depois que me despedi da melhor amiga que eu poderia ter, terminei meu jantar – que já estava frio, diga-se de passagem – para descansar. Falar com minha amiga ao telefone fez toda a diferença para que eu tivesse um sono mais tranquilo. Antes eu só conseguia pensar no Derek, no quanto a visita dele me deixou irritada, na culpa que eu ainda sentia por tudo ter acontecido daquela forma e na culpa por me culpar. Pois é, eu me sobre-culpava, se é que isso existia mesmo. E só de pensar que por um momento depois da nossa conversa eu torci para que meu voo tivesse sido cancelado, eu tinha vontade de dar um tapa em mim mesma. Eu esperei por aquele voo por meses. Fiz planos com , que infelizmente foram desfeitos pela escala. Fiz planos comigo mesma, principalmente. Há anos eu tentava fazer um voo para Los Angeles no fim de semana do Coachella, sempre sem sucesso. E agora a hora tinha finalmente chegado. Eu mal podia acreditar.


Fazia duas semanas que eu estava em Los Angeles para produzir o novo álbum e até agora eu tinha conseguido um total de zero músicas prontas. Aquilo era frustrante demais e eu nem sabia mais o que fazer para produzir algo realmente bom. Não era como se não tivesse nada escrito. Ou produzido. Era mais algo como eu não gostar de nada que a gente tinha feito até aquele momento. , meu amigo e fotógrafo oficial, dizia que eu estava ficando chato e exigente demais. Ethan, meu produtor e amigo de todas as horas, havia gostado de várias e sempre fazia cara feia quando eu reclamava de algo. Eu pensava que era porque ele era o responsável ali e quanto antes terminasse melhor para ele. Mas obviamente que eu só pensava nisso em momentos como aquele, de irritação. Porque Ethan jamais faria isso com o meu trabalho e com o dele também. Talvez eu realmente estivesse mais exigente que o normal. Acontece que depois de quatro anos afastado da mídia, à frente apenas dos meus projetos pessoais, eu precisava de músicas verdadeiramente boas. Eu precisava voltar com tudo. E enquanto eu não sentisse isso, não teria santo que me faria acreditar que estava tudo indo bem.
Enquanto os meninos tinham ido ao Five Guys comprar nosso almoço nada saudável, resolvi sair para tomar um ar e relaxar. A área externa nos fundos do estúdio era, possivelmente, o lugar que eu mais gostava dali. Era totalmente simples, algo que sempre me encantava, com um gramado de dar inveja em muito estádio de futebol, algumas plantas espalhadas e dois mini lounges, um lado mais descolado com redes e puffs e o outro era como uma autêntica área gourmet. Aproveitei para fumar meu cigarro sem que Ethan fizesse um monólogo do quanto aquilo fazia mal para a minha saúde. Eu já sabia de tudo isso (e todos os fumantes do mundo, é claro) e fumar não era mais um hábito meu. Eu acabava me aproveitando da sensação que o cigarro deixava em mim quando tinha momentos como aquele, de irritação e frustração. Sendo bem honesto, eu estava me aproveitando disso nos últimos meses com certa frequência, mas eu não deixaria que isso voltasse a ser um hábito na minha vida. Aproveitei para mexer um pouco nas redes sociais e tive a impressão de que elas estavam cada dia mais chatas. Talvez eu que estivesse me tornando um velho reclamão no corpo de um jovem rapaz. Ri sozinho da minha estupidez. É claro que eu estava me tornando insuportável. Uma prova disso foi Kimberly ter me deixado dois meses atrás. E eu nem sabia o que tinha feito de errado. Pelo contrário, eu tentava fazer sempre suas vontades, tentava ser romântico como eu sabia que ela gostava e me esforçava ao máximo para ser um bom companheiro. Eu me achava um bom companheiro, para ser bem honesto e modéstia a parte. Então eu cheguei a conclusão, naquele momento, que só podia ser por conta da minha chatice mesmo. Suspirei já cansado de me martirizar tanto e fazer da minha vida uma verdadeira lamentação nos últimos tempos. Inclusive esse negócio de que términos de relacionamento eram bons para os compositores era a maior balela. Sempre que isso acontecia comigo, não saía uma música boa. Ficava tudo uma verdadeira porcaria. Saí dos meus pensamentos com uma mensagem de me questionando, pela milésima vez, sobre quais ingredientes eu queria no lanche.

– 13:14
Cara, é sério que vc vai me perguntar isso de novo?
Cacete, . Qual é o seu problema, afinal?


– 13:15
Porra, animal. Dá pra responder?
Se demorar muito vou colocar qualquer merda nesse teu lanche
E a propósito, eu não tenho problema nenhum. Vc que nunca sabe o que quer
Tic-tac


– 13:17
Hahah para de ser idiota
Bacon cheeseburger com tomate, alface, cebola crua, picles, maionese, ketchup, mostarda e molho da casa
E batata
Muita batata


– 13:19
Era mais fácil ter falado “tudo que tiver”
Ainda bem que estamos em quartos separados
Alguém vai ter uma noite de rei hoje, hahaha


– 13:19
Hahah vai se foder
Aproveita e traz milk-shake tbm
De Oreo
E vai logo pq to com fome


– 13:20
O problema é todo seu :)

era, possivelmente, o cara mais idiota que existia nesse mundo. E o mais incrível também. Meu agente custou a acreditar em mim quando eu quis torná-lo meu fotógrafo oficial, porque era aquele cara que levava a vida como uma verdadeira piada. Mas quando o assunto era trabalho, não tinha nada que tirasse ele do foco. “O desgraçado é bom mesmo”, foi o que o meu agente me disse depois de um primeiro trabalho. Na verdade, eu estava cercado de pessoas boas e competentes, e eu devia muito a todos eles. Fiquei vagando tanto meus pensamentos em tudo o que havia acontecido nos últimos quatro anos e no quanto os meus amigos foram importantes para mim, que nem percebi os meninos chegando de volta no estúdio.
— Cara, você não vai acreditar na ideia idiota que o teve – Ethan chegou falando.
— Não sei o que tem de idiota – disse revirando os olhos. – Para ser bem sincero, é uma ideia muito boa e eu tenho certeza que o vai concordar – completou satisfeito enquanto eu o encarava esperando a notícia. – Seguinte, vi um grupo no Five Guys falando sobre e eu não sei como a gente ainda não tinha pensado nisso – continuou, fazendo mistério.
— Porra, . Fala de uma vez – respondi, me levantando da rede onde estava para chegar até o outro lado da área e pegando o meu Bacon Cheeseburger da sacola.
— Vamos para o Coachella! – ele gritou empolgado. E eu só consegui ficar parado o encarando, pensativo, enquanto mastigava calmamente o lanche.
— Eu te disse que era uma ideia estúpida – riu Ethan depois do silêncio que fiz.
— Cara, na verdade, eu achei uma ideia muito boa mesmo – respondi finalmente. – Eu só estava pensando no motivo de não termos saído de Londres já com isso em mente.
— Eu sabia! Sabia que você ia curtir! – comemorou enquanto Ethan rolava os olhos contrariado. Óbvio que ele curtiu a ideia também, ele só não queria dar o braço a torcer por não ser ele o idealizador. Ethan era orgulhoso demais para isso. – Vou fazer umas ligações agora mesmo para conseguir os ingressos. E vocês dois – apontou para mim e Ethan – tratem de arrumar um jeito para irmos até Indio amanhã.

Enquanto via o lance dos ingressos, eu e Ethan decidimos por irmos de carro mesmo. Na verdade, Ethan garantiu que seria o melhor e que ele se responsabilizaria a voltar dirigindo, já que eu e jamais seríamos capazes depois da quantidade de álcool que pretendíamos ingerir. E como ele se comprometeu a fazer isso, decidi que seria o ideal e que se reclamasse por ter que dividir a direção na ida – o caminho era bastante longo – eu o faria sozinho. A ideia de estar em um festival como o Coachella, vendo tantos artistas incríveis, pareceu me renovar e eu senti a minha criatividade a mil. Eu ainda estava lanchando com o pessoal na varanda quando algumas possíveis letras surgiram na minha cabeça. Saí anotando tudo o que aparecia no meu bloco de notas do celular mesmo, para depois reorganizar no meu caderno da forma correta. Aquela notícia me empolgou tanto que eu até me esqueci do motivo central das minhas lamentações de mais cedo.
— Ethan, vê essa letra aqui, por favor – falei entregando minhas anotações a ele assim que voltamos para dentro do estúdio. Em pouquíssimo tempo depois daquela ideia de eu estava, finalmente, finalizando uma possível música para o novo álbum.
Enquanto ele analisava cuidadosamente, eu pensava no quanto o meu bom humor me ajudava a criar canções e já conseguia pensar até mesmo em alguns acordes para aquela letra.
— Mano, isso aqui tá muito bom – sorriu pra mim. – Tem certeza que escreveu agora? – rimos.
— Eu sei, eu sou mesmo muito genial – disse me gabando. – Presta atenção, pensei que esses acordes aqui combinam demais com a letra.

Depois de algumas horas com Ethan e mais um pessoal da produção, conseguimos finalizar a primeira canção do meu próximo álbum. E sendo bastante honesto, ela tinha ficado boa para caralho mesmo. Não era nada parecido com o que eu tinha escrito em todo o tempo que fiquei em hiatus. E menos ainda com o que eu vinha pensando nos últimos dois meses pós Kimberly. Nesse período eu só consegui pensar em músicas melancólicas demais ou incrivelmente revoltadas. E tudo bem algumas músicas serem assim, eu não achava de todo ruim, mas não queria um álbum inteiro que me fizesse lembrar daquele momento. Na verdade, se eu pudesse não ter nenhuma música gravada e espalhada pelo mundo que me fizesse lembrar daquilo, eu ficaria imensamente feliz. Até porque eu sabia muito bem o quanto os tabloides falariam, sabia também que em todo programa, seja de rádio ou TV, que eu fosse para divulgar o meu novo trabalho, seria preenchido por perguntas sobre o significado das músicas. E sempre me fariam lembrar sobre Kimberly, nosso relacionamento que aparentemente era perfeito, mas pelo visto não, e do quanto sofri nesse período pós-término. Essa era, definitivamente, a pior parte do meu trabalho. Tudo ficava exposto demais, algumas pessoas se sentiam no direito de falar coisas ruins para nós. Sem contar que sempre tiravam suas próprias conclusões sobre os acontecimentos.
Sobre o nosso término algumas pessoas falaram que eu tinha a traído e por isso ela acabou com tudo. Outras falaram que eu não conseguia deixar minha vida de solteiro para trás e ela não suportou. Algumas pessoas mais maldosas falaram que ela estava tentando se aproveitar da minha fama e me dar o golpe, mas que havia sido desmascarada. Nenhuma delas era real. E sempre que me questionavam eu me sentia um pouco perdido na hora de responder, porque eu, de fato, não tinha uma resposta concreta sobre o assunto. Eu só conseguia falar que havia sido um término amigável, o que era uma verdade. Porque embora eu não quisesse que acabasse e tivesse tentado reverter a situação, eu tinha plena consciência de que não podia obrigá-la a me amar ou estar comigo. Também costumava responder que estávamos em momentos diferentes em nossas vidas pessoais e, portanto, resolvemos terminar enquanto havia muito respeito entre nós. Eram respostas muito verdadeiras da minha parte, mas eu não podia falar em relação ao sentimento de Kimberly. Eu não sabia o verdadeiro motivo dela ter terminado com tudo, ela não foi tão aberta quanto a isso comigo. Ela apenas chegou a minha casa, em um dia que tínhamos combinado de sair para jantar no restaurante preferido dela, e falou “quero terminar”. Sem mais nem menos. Sem falar nada além disso. E quando questionei seus motivos e tentei reverter a situação, ela apenas me respondeu que não dava mais para continuarmos juntos e que seria melhor daquela forma.
Sendo honesto, eu queria gritar no momento em que ela falou aquilo. Queria dizer coisas como “melhor para quem?” ou “por que não dá?”. Mas eu não podia. Eu jamais gritaria com ela ou qualquer outra mulher, jamais a pressionaria a falar algo que ela não se sentia confortável em falar. Esse não era eu e ainda que eu estivesse me remoendo para saber o motivo real de tudo aquilo, tudo o que fiz foi confirmar com a cabeça e deixar que ela fosse embora. No fim das contas, eu sofri para caralho mesmo. Como eu imaginava que sofreria. Mas ela estava certa, era o melhor para nós dois. Eu ainda sentia a falta dela em alguns momentos, ainda via algumas coisas e tinha aquele sentimento de precisar compartilhar com ela, mas não era tão frequente como nas primeiras semanas. Eu percebi que eu estava me doando muito mais do que recebendo e que eu precisava me focar mais do que estava fazendo no meu trabalho. Percebi que, embora o término não tenha sido muito bom para as minhas composições, estarmos em um relacionamento comigo aqui em LA enquanto ela ficava em Londres também não seria. Afastei meus pensamentos sobre esse assunto que ainda gostava de dar o ar da graça, porque minha criatividade e inspiração pareciam ter voltado e eu só esperava que elas continuassem comigo pelas próximas semanas. Tudo o que eu mais queria naquele momento era poder completar aquele álbum e estar de volta na estrada o quanto antes. E eu tinha certeza de que assim, a Kimberly sumiria dos meus pensamentos de uma vez por todas.


Dois



Já fazia uns 15 minutos que eu estava na porta do hotel tentando achar um Uber disponível, mas os deuses não pareciam querer me ajudar. O nervosismo já dava indícios de aparecer, afinal de contas, eu poderia apostar que pegaria o maior trânsito e levaria umas 4 horas dali do centro de Los Angeles até o Coachella Valley, em Indio. Claro que considerei alugar um carro porque essa viagem custaria meu salário todo, mas eu não sei se estava a fim de dirigir por tanto tempo. Sem contar que eu não poderia aproveitar uma das coisas que eu mais gostaria: as cervejas artesanais. Então se eu já estava na chuva, que saísse dela encharcada mesmo.
Depois de mais algumas reclamações via mensagem para sobre a demora do Uber, o bendito havia finalmente chegado. E graças a Deus que ali dentro tinha ar condicionado, porque eu já estava suando e estragando toda a minha produção por conta daquele calor excessivo de LA. Como as pessoas aguentavam viver assim? Quer dizer, até que ventava um pouco por lá, mas para uma típica inglesa acostumada com o tempo em sua maioria cinzento e com a chuva dando o ar da graça quase todos os dias, aquele clima de LA era quase de deserto. Ou talvez, muito provavelmente, seja apenas um exagero da minha parte mesmo. Eu estava realmente nervosa com aquele festival e não sabia exatamente o motivo. Não sabia se era pelo evento em si, que sempre foi um desejo meu, se era por estar lá completamente sozinha ou algo mais. Eu acreditava que era um pouco de tudo. Veja bem, eu estava super acostumada a sair sozinha. Todo comissário que se preze se acostuma com isso, na real. A gente não tem tempo para ficar esperando companhia. E nem sempre a gente conseguia voar com pessoas minimamente legais. Muitas vezes eu não conseguia passar mais de dez horas dentro de um objeto voador e ainda minhas horas de descanso com as mesmas pessoas. Então o que me restava era desbravar as cidades mundo afora sozinha mesmo.
A verdade é que as pessoas tinham uma visão um tanto quanto distorcida da minha profissão – e da aviação no geral. As coisas não eram tão mágicas quanto pareciam ser. Os comissários não eram tão glamourosos assim. A vida não era tão fácil. A gente não tinha milhares de amigos como parecia. Nem uma lista extensa de amores e contatinhos. Para ser bem honesta, a vida de profissionais da aviação poderia ser bastante solitária. Havia muitos casos de pessoas com depressão e outros distúrbios, justamente por passarmos tanto tempo sozinhos. Particularmente sempre amei passar a maior parte do meu tempo sem ninguém, apesar de amar estar em companhia de outras pessoas também. Acontece que na aviação você não passa a maior parte do seu tempo sozinha, você passa praticamente ele todo. Nem sempre as pessoas que fazem parte da sua tripulação são pessoas legais ou de confiança. Nem sempre são pessoas que valem a pena levar para a sua vida particular. E quando você olha para o seu círculo social, percebe que os amigos de verdade podem ser contatos na palma de uma das mãos. Principalmente se você for uma pessoa exigente como eu. Eu conseguia fazer muitos colegas, em diferentes países, mas amizades que eu levava para a vida toda não eram tão simples. Algumas pessoas não sabiam lidar com isso, mas eu estava bem assim, muito obrigada.
Acordei dos meus pensamentos com o motorista me questionando algumas coisas como: “a senhorita está indo para o festival?”, “e está indo sozinha?”, “não tem medo disso?”, “a senhora não é daqui, né?”, “puxa! Londres? E veio apenas pelo festival?”, “comissária? Uau, o sonho da minha sobrinha é ser comissária”, “vocês passeiam bastante né?”, “e vocês ganham muitas passagens gratuitas?”. Eu já sabia basicamente todo o roteiro de uma conversa com motoristas de táxi ou Uber quando eles tomavam conhecimento da minha profissão. Algumas vezes eu dava risada e respondia numa boa, em outras eu rolava os olhos e falava meio sem paciência porque era bastante cansativo responder sempre a mesma coisa. Mas eu estava em um ótimo dia, diferentemente de ontem, e o senhorzinho era muito simpático e querido, então engatamos em um papo bem legal sobre a minha profissão e também sobre a dele. Afinal de contas, ele também tinha contato direto com o público e estava cheio de histórias hilárias para compartilhar. No fim das contas acabei pegando o contato dele para futuras necessidades e mal vi o tempo passando, mas tenho certeza que levei mais de quatro horas naquele trajeto. E também tenho certeza que depois dessa loucura de festival eu ficaria mais de um mês em contenção de despesas. Mas eu, com certeza, não iria me preocupar com isso agora. E muito menos me culparia por esse mimo absurdamente caro, afinal de contas, eu também merecia me divertir.
Eu apostaria que as pessoas podiam ver os meus olhos brilhando naquele momento. Porque era o que eu sentia que estava acontecendo. Sabe aquele sonho que você carrega consigo por alguns anos e quando você finalmente realiza mal consegue acreditar? Pois é, eu já tive alguns, ou muitos, e eu sabia que estava exatamente como em todos os momentos anteriores, com um sorriso de orelha a orelha apenas por estar naquele lugar. Aproveitei que entrei próximo do local onde a roda gigante ficava para tirar uma selfie e enviar para . Ela com certeza já estava me cobrando por isso, ansiosa do jeito que era. Depois corri para um dos locais de stand de cerveja para começar a minha saga. Eu não pretendia beber até perder a consciência, até porque, eu estava completamente sozinha ali e ainda precisaria voltar para o hotel em LA. Não era nenhuma irresponsável. Mas ninguém me impediria de experimentar a maioria, senão todas, das cervejas artesanais disponíveis naquele ano.

– 14:43
Amiga, que coisa mais linda essa foto. POSTA AGORA!
Que lugar incrível
E os boys? Valem mto a pena?


Assim que voltei a caminhar pelo ambiente recebi a resposta da minha amiga e ri sozinha da preocupação dela apenas com os homens presentes no evento.

– 14:45
Hahahah
Você realmente só quer saber dos boys né?
Mas sim, já vi vários pedaços de mau caminho
Você tinha razão
Como sempre


– 14:46
Eu sempre tenho razão, vc sabe
Então APROVEITA!
E POSTA A FOTO


– 14:50
, não vou postar nada agora
Quero curtir o lugar
Inclusive, não espere que eu vá ficar batendo papo contigo
E vai começar o show do Daniel Caeser daqui a pouco e ainda tenho que andar muito
Te amo


Sei que recebi mais algumas mensagens dela, mas eu realmente queria ver o show daquele garoto e precisava caminhar por uns bons minutos até chegar no palco Outdoor. E sem querer reclamar de um espetáculo desse porte, mas eles podiam colocar uns carrinhos tipo de golfe para que a gente não se desgastasse tanto. Impossível acompanhar as bandas nos diferentes palcos, porque o lugar era simplesmente gigantesco. Ri sozinha dos meus pensamentos, porque obviamente que esse tipo de evento não foi feito para que a gente conseguisse ver todos os artistas. Mas eu até que gostava de ter que caminhar pelo ambiente, eu acabaria fazendo isso de qualquer forma para poder ter uma experiência completa. O ruim era ter que caminhar por tanto tempo debaixo do sol que fazia em LA. O que já não era um problema exatamente da organização do evento e nem algo que tirava a empolgação e ânimo de espectador nenhum. Muito menos o meu, afinal de contas, eu estava lá para isso. Curtir até não ter mais pernas, experimentar muitas cervejas diferentes e andar para todo canto daquele lugar incrível. A cada passo que dava eu ficava mais encantada com tudo. A produção do festival era absurda, tinham stands de comidas e bebidas espalhados pelo local todo, fora a área gastronômica que eu passaria para conhecer mais tarde. A área era gigantesca e com enfeites por todo canto. Mas com certeza o que mais chamava a atenção do público eram aqueles expositores enormes localizados em determinadas áreas, como o astronauta, por exemplo. Eu estava parecendo uma criança naquele lugar, completamente fascinada por cada mínimo detalhe.
A princípio eu achei que as pessoas fossem me encarar o tempo todo com olhares de “quem é a maluca que vem para um lugar desse sozinha?”, porque convenhamos, isso realmente não é muito comum de acontecer. E para ser sincera, talvez se eu não fosse eu, eu seria a pessoa a olhar dessa forma para outro alguém. Mas além de estar nos Estados Unidos, o local onde ninguém julgava ninguém por suas vestimentas ou excentricidade, salvo em alguns ambientes, aqui no festival a galera com certeza estava mais preocupada com outras coisas. Tipo beber até cair e ficar tirando um milhão de fotos para postar nas redes sociais. As pessoas, principalmente as mulheres, faziam verdadeiros books pelos gramados. Sem julgamentos, de verdade. Eu achava um máximo e adorava ver os diversos looks, um melhor e mais bonito que outro. Sem contar os vários rostos famosos que eu via caminhando despreocupadamente. Na maioria das vezes eu não conhecia de verdade nenhum, mas tinha certeza de que minha amiga já havia me mostrado em algum momento da vida. Por vezes eu tirava disfarçadamente umas fotos para enviar à , que estaria surtando se estivesse aqui. Depois de algumas horas aproveitando um pouco de todo o local, resolvi que o melhor seria ficar mais próxima de onde mais queria, como o palco principal, o secundário e o lounge gastronômico. Isso me economizaria tempo e não me deixaria tão destruída no dia seguinte, sem contar que ainda teria um bom caminho a percorrer até o centro de LA, então era melhor economizar energia. Ainda mais porque eu estaria sozinha em um trajeto longo dentro de um carro de Uber, em plena madrugada. Infelizmente não conseguia me dar ao luxo de dormir tranquilamente no banco do carro pelas horas que se seguiriam. Aquele tipo de preocupação e cuidado que apenas quem é mulher entende. Ainda assim, aquela seria uma noite muito bem aproveitada e com certeza memorável.


Mal consegui dormir nessa noite de tanta empolgação que tomou conta do meu corpo. Empolgação pelo festival, empolgação por finalmente ter escrito uma música que tenha me agradado e, principalmente, ter finalizado ainda naquele dia. Depois de tantos dias ruins de trabalho, finalmente o dia anterior tinha valido a pena e eu sentia que dali em diante tudo ficaria um pouco mais fácil. Eu esperava que não fosse apenas uma impressão minha e que talvez eu tivesse adquirido aquele tal de sexto sentido ao qual as mulheres tanto falam. E já que eu não poderia tentar dormir mais um pouco, resolvi me levantar logo antes que algum dos meninos viesse socar minha porta para me apressar. Eu realmente conseguia me atrasar de manhã. Acho que meu corpo acordava, mas minha alma continuava dormindo, então tudo o que eu fazia era em velocidade super-reduzida. Nós estávamos em uma casa em East Los Angeles, um pouco afastada daquele centro caótico, mas ainda assim próximo do estúdio para que não precisássemos acordar muito cedo e enfrentar o trânsito complicado.
Quando cheguei na cozinha Ethan já estava comendo seus cereais enquanto o mexia em algumas fotos no computador. Ele estava aproveitando o tempo aqui em LA também para praticar e atualizar seu portfólio com fotografias de lugares. era um profissional excelente, mas ele estava há muitos anos comigo, o que o impedia um pouco de fotografar outras coisas além de shows, gravações e campanhas publicitárias.
— Essa foto aqui ficou foda, cara – falei apontando para uma das fotografias abertas.
— Sério? Eu achei a do lado melhor, ficou mais vívida.
— Essa também, mas não sei, aquela me chamou mais atenção – rebati. – Mas o profissional aqui é você, então seu olhar é com certeza mais correto que o meu – concluí rindo.
— Mesmo assim, eu também preciso de opiniões de pessoas que não tenham o mesmo olhar de um fotógrafo – assenti, porque sabia bem o quanto ele prezava por opiniões de pessoas “leigas”. – Valeu, cara. Vou colocar as duas, acho que você tem razão sobre essa.
Concordei com a cabeça enquanto ia até a geladeira pegar uns ovos e fazer um café da manhã de verdade. Eu precisava me alimentar bem durante a manhã. E também durante a tarde e a noite. Ri sozinho recebendo uns olhares estranhos dos meus dois companheiros de casa, mas dei de ombros e continuei pegando as coisas para o café.
— E aí, preparados para hoje? Eu nem consegui dormir direito – perguntei.
— Nem me fale. Mas não ‘to nem um pouco preparado para dirigir até lá. O que deu na cabeça de vocês, afinal? – falou em um misto de estresse e deboche.
— Cala a boca, . Eu me comprometi a voltar o caminho todo sozinho e você não pode dividir a ida com o ? – Ethan se manifestou pela primeira vez rolando os olhos.
— Mas eu não tenho nada a ver se você e tiveram essa ideia estúpida – rebateu. – Logo você que estava me julgando por ter a ideia de ir ao festival e se gaba tanto, tendo uma ideia tão imbecil assim.
— Não entendi ainda o porquê de ser uma ideia imbecil.
— Porra, Ethan! Porque estaremos todos cansados e bêbados demais para passar mais de uma hora viajando de carro. O que você acha?
— Eu não estarei bêbado, fale por você – Ethan retrucou. – E se não vai aguentar passar mais de uma hora viajando, por que deu a ideia do festival? – completou com um sorriso presunçoso.
Eu já estava sentado na mesa comendo e rindo baixinho da discussão dos dois, quando respondeu um puro e simples:
— Foda-se.
O que fez com que Ethan e eu caíssemos na gargalhada. Era sempre assim com . Ele tentava debater, começava a se estressar e perder os seus argumentos, então soltava um palavrão qualquer encerrando com a discussão. Às vezes isso estressava, mas na maioria das vezes nos fazia rir. Principalmente quando acontecia em debates tão idiotas quanto aquele. Nós três sabíamos que não era a melhor situação de todas passar tanto tempo dentro de um carro, mas também não estávamos a fim de procurar por um hotel disponível em Indio um dia antes do maior festival dos Estados Unidos. Muito provavelmente não conseguiríamos achar lugar nenhum. Ou acabaríamos tendo duas opções: algum hotel – ou hostel – muito ruim ou algum hotel duzentas estrelas que custaria o aluguel daquela casa. Eu não poderia reclamar jamais de dinheiro, nem os meninos, mas eu também não era do tipo que gastava com qualquer capricho. Não é porque eu tinha grana que eu sairia gastando sem motivo nenhum. Pelo menos não mais.
Depois de mais alguns bons minutos rindo e conversando na cozinha, resolvemos que seria melhor irmos nos arrumar para seguir viagem. Não queríamos chegar lá tão cedo, porque realmente era algo cansativo, mas também não chegaríamos lá com o festival quase acabando. Sem contar que com certeza pararíamos algumas vezes na estrada para comer, do jeito que eu sabia que éramos. Em algum momento na estrada, enquanto dirigia, resolvi dar uma olhada no line-up do dia e isso me deixou ainda mais empolgado. Tinham artistas realmente muito bons naquela tarde de sábado. E eu comecei a desconfiar da nossa sorte e da ideia de .
— Cara, você realmente pensou nesse festival ontem? – questionei depois de um tempo.
— Como assim?
— Você simplesmente teve essa ideia ontem? Assim, do nada?
— Sim, . Por quê? – perguntou desviando a atenção da estrada.
— Curiosidade. Porque o line-up do dia tá foda. Estou um pouco duvidoso da nossa sorte – rimos.
— Na verdade...
— Eu sabia! Você é um grande babaca. Eu sabia que você não tinha escutado conversa de grupo nenhum no Five Guys e resolveu sobre isso ser uma boa ideia de repente – Ethan se meteu entre os bancos quase gritando.
E lá ia mais uma discussão interminável dos dois que eu amava acompanhar.
— Babaca é você, Ethan – ele retrucou. – Nem me deixou terminar de falar e já foi querendo se meter na conversa alheia.
— Claro que me meti. Você ficou com esse papo de que ouviu um grupo e achou a ideia genial. Sem contar que você conseguiu arrumar ingressos rápido demais para quem não tinha nada em mente minutos antes – Ethan acusou.
— Ele tem um bom ponto, .
Resolvi me meter porque sabia o quanto isso irritaria . E porque sabia que possivelmente ele daria a discussão como encerrada, da forma usual dele.
— Vão se foder. Vocês dois.
Gargalhamos até a barriga doer. Até mesmo , porque sabia o quanto tinha sido um debate idiota e porque ele sabia que estávamos certos. E, na verdade, por saber também que ele havia confessado, ainda que entrelinhas, que ele não tinha tirado essa ideia de repente enquanto estava na fila do Five Guys. Provavelmente ele já tinha saído de Londres com esse pensamento, mas deixou para falar em cima da hora, porque sabia que dessa forma ninguém negaria, principalmente o Ethan. O tempo que passávamos juntos era sempre tão bom e cheio de risadas, que quase nunca percebíamos passar. Quando vimos, já estávamos na cidade de Indio, que por acaso estava lotada, e rodando a procura do lugar mais próximo para estacionar. Percebi ali que o problema maior não seria voltar para LA em mais algumas horas de viagem, mas sim conseguir achar o carro na saída. Até porque, com certeza iríamos andar por aquele lugar todo. Claro que não só eu percebi esse detalhe, então continuou no seu discurso do quanto aquela ideia havia sido um completo erro. E para ser bem sincero, eu começava a concordar com ele. Mas jamais falaria isso em voz alta, porque não daria o gostinho de vitória a ele. Não depois dele ter nos enrolado. Até porque, se ele já tinha saído de Londres com a ideia de irmos até lá, ele também deveria já ter pensado em como fazermos para ir e voltar.
No caminho do carro até o local, fomos fotografando alguns pontos estratégicos – ideia de Ethan – e anotando no celular coisas como “vire na rua a esquerda depois da casa azul”. Era uma ideia muito boa e Ethan precisaria bastante dela, porque ele provavelmente seria o único sóbrio tendo que cuidar de e eu. Tenho quase certeza de que ele estava se arrependendo de ter se comprometido com a volta, mas o que estava feito, estava feito. Quando conseguimos finalmente entrar no evento, já passava das cinco da tarde e alguns bons artistas já haviam se apresentado, mas nada que tirasse a nossa empolgação de estarmos ali. Fomos direto para os stands de comida e bebida, pois diferente do que pensei que faríamos, quase não paramos durante o trajeto para chegarmos antes, então estávamos morrendo de fome. E se eu e não quiséssemos acabar com a noite antes do show principal, seria melhor comer algo antes de experimentar todas as bebidas oferecidas.
Eu estava completamente impressionado com o tamanho daquele lugar. Era surreal de tão grande. E a quantidade de pessoas também era de outro mundo. Em todo canto que íamos era uma multidão. Cada mínima sombra feita pelos expositores gigantes que enfeitavam o festival eram ocupadas por inúmeras pessoas. Demos umas voltas pelo local para conhecer um pouco e para conseguir chegar à área do astronauta, que era absolutamente impressionante. Mas era bastante cansativo também ir de um lado para o outro. Por isso acabamos decidindo escolher um bom local para assistirmos apenas os shows do palco principal. Não que os outros artistas não fossem bons ou não merecessem, mas já havíamos perdido as atrações que mais gostaríamos de ver nos demais palcos, então o melhor a ser feito era firmar o pé ali e aproveitar. Sem contar que assim não ficaríamos tão desgastados ao final de tudo. E, talvez o principal para que e eu resolvêssemos que ali seria o melhor lugar, era próximo da área gastronômica. Então seria bem mais fácil de irmos buscar por mais cerveja. Ethan não achou ruim porque ele também se aproveitaria bastante da localização para buscar sempre algum aperitivo diferente. Chegamos naquela área durante o show do Khalid, que era alucinante. O cara era bom demais, com uma presença de palco incrível e uma energia surreal. Era impossível assistir ao show dele e ficar parado ou não cantar nada.
Nos intervalos entre um show e outro existiam dois tipo de galera: a que aproveitava para se jogar no gramado e dar uma descansada ou a galera que aproveitava para ir ao banheiro e pegar bebida ou comida - ou os dois. Como ainda estávamos com nossos copos em mãos e bem instalados, resolvemos fazer parte da galera que se joga no gramado e descansa. Conversávamos animadamente esperando pela próxima atração quando uma mulher, muito bonita por sinal, se aproximou segurando um copo da melhor cerveja que eu havia experimentado até então, e se sentou um pouco mais a frente. Aquele festival era cheio de mulheres – e homens também – lindas, mas confesso que ela acabou me chamando a atenção. Nada em particular, talvez por ser tão simples e ao mesmo tempo parecer levar consigo uma energia potente. E nem me pergunte de onde tirei isso em tão pouco tempo, porque nem eu saberia explicar. Desviei o meu olhar porque não queria ficar secando-a e porque também acreditava que em pouco tempo seu namorado apareceria por ali. Afinal de contas, mulheres como ela não estavam disponíveis. Nunca. Em hipótese alguma. Apesar de voltar minha atenção para a conversa dos caras, inevitavelmente eu acabava transferindo meu olhar para ela. Naquele momento, ela parecia bastante entretida com o seu celular enquanto bebia tranquilamente sua cerveja. Meu Deus, eu estava reparando até na forma em que ela parecia degustar a bebida. O que tinha acontecido com os meus pensamentos?
— Alguém quer mais alguma coisa do bar? – me levantei em um pulo e resolvi pegar mais um copo de bebida antes que aquilo piorasse.
Mas assim que fiz essa pergunta, percebi que ela se virou e pareceu notar nossa presença. Não sei o que tinha no olhar daquela mulher, mas era o olhar mais iluminado que eu já havia visto na vida. Mas não era, com toda certeza, um olhar iluminado de deslumbramento por ver um famoso e reconhecê-lo. Eu conhecia muito bem esse tipo de olhar e não era o que ela demonstrava naquele momento. Era um olhar tão vivo que senti meu corpo estremecer na mesma hora. Me senti um pouco sem graça por continuar encarando-a quase que extasiado e desviei meu olhar para os caras, que estavam me respondendo naquele momento. Assenti para os dois e saí de lá um pouco apressado, sem entender muito bem o que tinha acabado de acontecer e muito menos a resposta dos dois. Aquela garota era, definitivamente, intimidante demais. E ao mesmo tempo, carregava uma aura leve e despreocupada. E mais uma vez me peguei tendo pensamentos estranhos sobre uma pessoa mais estranha ainda. Essa bebida devia estar batizada, não era possível. Aproveitei que tinha saído daquele lugar para passar no banheiro e jogar uma água no meu rosto, porque eu só podia estar enlouquecendo mesmo. Fui abordado algumas vezes por fãs para tirar fotos, alguns me paravam para tirar fotos e tentar algo mais, o que era um pouco engraçado, devo confessar, porque eu sempre me questionava se eles faziam isso com todos os artistas que passavam por eles. Voltei para o nosso lugar com a minha cerveja em mãos – a mesma que a desconhecida parecia gostar – e com bebidas para os garotos. Ethan como sempre estava se acabando de beber água com gás, a sua bebida favorita no mundo todo. Tentei, com todas as minhas forças, não olhar para o lugar onde eu sabia que a mulher se encontrava porque não queria encarar duas coisas: seu olhar e seu namorado, que naquele momento já deveria ter chegado. Mas me surpreendi totalmente quando olhei e ela continuava sentada despreocupada e, o principal, sozinha.
Acabei desviando minha atenção da desconhecida quando os caras me chamaram para falar algo sobre a próxima atração e me forcei a permanecer com o foco apenas neles. Não precisei tanto esforço porque logo as luzes do palco se apagaram e vi o pessoal começar a se levantar para aproveitar o que estava por vir. Pelo menos eu me distrairia de verdade agora ao invés de ficar encarando a garota como uma criança encara o castelo da Cinderela na Disney. Isso era o que eu achava que aconteceria. Mas não foi exatamente o que aconteceu. Na verdade, a minha atenção estava mais nela do que no show de Florence and the Machine. Eu não sabia o que estava acontecendo comigo e para ser bem honesto, já não queria mais saber. Eu estava intrigado com aquela mulher. Tudo nela me intrigava, principalmente o fato de que já fazia mais de meia hora que ela estava ali completamente sozinha. Eu não achava que seria possível alguém estar em um festival daquele tamanho sem companhia. Principalmente se fosse uma mulher como ela. Não me leve a mal, não era nenhum tipo de machismo meu. Eu mesmo jamais estaria ali sozinho, sem a companhia de pelo menos um dos caras. Não saberia aproveitar a minha própria companhia em um lugar como aquele. E ela era bonita demais para não ter um namorado a tiracolo. Mas aparentemente, contrariando tudo o que eu achava normal, ela estava mesmo sozinha em um festival gigantesco e parecia aproveitar muito.
Eu já havia aceitado e desistido de me forçar a desviar meu olhar. Ela tinha um magnetismo único, sem nem precisar estar de frente para mim. Tudo nela estava me encantando. A forma natural como o seu corpo se mexia conforme Florence cantava. A forma em que ela levava o copo até a boca para bebericar a cerveja. O sorriso sincero e satisfeito que ela dava a cada final de música ou depois de sentir o gosto o amargo da bebida na boca. E eu não conseguia ver os seus olhos por completo de onde estava, meio do lado e meio atrás, mas poderia apostar cem libras que seu olhar possuía um brilho especial. Mas foi quando Dog Days Are Over começou que eu perdi todo e qualquer controle que eu ainda tinha sobre os meus pensamentos. Ela cantava os versos daquela música com tanto fervor, parecendo colocar nas palavras seus sentimentos reais, que me vi cantando a música com a mesma vontade que ela parecia ter de externalizar tudo o que sentia.

And I never wanted anything from you
(E eu nunca quis nada de você)
Except everything you had
(Exceto tudo que você tinha)
And what was left after that too, oh
(E o que restou após isso também, oh)
Happiness hit her like a bullet in the back
(A felicidade atingiu ela como uma bala nas costas)
Struck from a great height
(Atirada de uma grande altura)
By someone who should know better than that
(Por alguém que deveria saber melhor que isso)
The dog days are over
(Os dias de cão acabaram)
The dog days are done
(Os dias de cão acabaram)
Can you hear the horses?
(Você consegue ouvir os cavalos?)
'Cause here they come
(Porque aí vem eles)

Depois daquela música parecia que eu tinha entrado em outra dimensão. Eu fiquei, além de obcecado em olhar para a desconhecida, com uma vontade assustadora de trocar nem que fosse algumas palavras com ela. Tudo nela estava me atraindo de uma forma impressionante, que eu nunca havia sentido ou visto na minha vida. Ela parecia esconder um corpo espetacular por debaixo daquele conjuntinho branco. As pernas dela estavam de fora e eram impressionantemente sensuais. O penteado com aquelas tranças de boxeadora davam um charme e uma personalidade única para aquela mulher. Eu nem sabia desde quando conseguia prestar atenção em tantos detalhes como fiz, mas provavelmente se me perguntassem quantas pedrinhas estavam presentes na roupa dela eu saberia responder. Patético, eu sei. E como se tudo isso não fosse ridículo o suficiente da minha parte, acordei do meu transe com a mão dela passeando em frente aos meus olhos, tentando chamar a minha atenção.
— Desculpa, eu estava viajando – dei um sorriso sem graça, recebendo de volta o sorriso mais doce e lindo que eu já havia visto na vida. Patético. – O que você disse?
— Será que você pode tirar uma foto minha? Sabe como é, quero ter uma foto além de selfie.
— Ahm.. É claro! Claro! Posso sim. – tudo bem, , ela já entendeu que sim. Cale a boca.
Eu tenho certeza que Ethan e, principalmente, , estavam olhando para aquela cena com uma cara de deboche e querendo rir de mim. Até mesmo eu queria rir de mim. Talvez até a desconhecida estivesse querendo rir de mim, mas ela parecia ser educada demais para isso. Dei um sorriso ainda mais sem graça do que o primeiro, como o perfeito idiota que eu era, e peguei o telefone da mão dela para fazer o que ela havia me pedido. Acabei dando um olhar de lado para o , rezando para que ele entendesse o meu pedido de socorro. Eu já era péssimo para tirar fotos, mas naquele momento eu sabia que tudo sairia ainda pior do que o normal.
— Se liga, vai ficar melhor virando um pouco esse ângulo – segurou em meus ombros para me virar e lançou um sorriso um tanto quanto galanteador para ela. Eu bem sabia qual era a dele. Agora era ela quem estava com um sorrisinho sem graça, talvez sem entender.
— Ele é fotográfo – expliquei, recebendo um aceno de cabeça. – Mas não se empolgue, ele não é tão bom assim – provoquei dando uma risada e levando um tapa de na cabeça em seguida.
No fim das contas a minha brincadeira rendeu uma foto incrível, digna de capa de revista. Ela saiu rindo de uma forma tão espontânea e leve que só de olhar para a foto dava vontade de sorrir junto. Coisa que eu tinha certeza que estava fazendo naquele momento enquanto encarava a tela do celular. E por um instante repreendi a mim mesmo de não ter tirado aquela foto com a câmera de para que eu pudesse guardar para mim. Mesmo que isso fosse um tanto quanto psicopata da minha parte.
— Uau, ficou demais! Muito obrigada mesmo! – ela me agradeceu verdadeiramente feliz, com um sorriso encantador e contagiante.
— Imagina! A modelo fez toda a diferença, na verdade – soltei sem querer e vi quão sem graça ela ficou. – Bom, preciso ir até ali fazer uma coisa. Foi um prazer!
Cacete, o que porra deu em mim? Saí correndo dali como o diabo foge da cruz depois daquela vergonha que passei. Óbvio que eu pensava muito que a foto só ficou bonita mesmo por conta dela, mas eu não precisava colocar isso em palavras. Definitivamente, patético era pouco para o que eu estava sendo em relação àquela mulher. Era vergonhoso demais. Depois de algum tempo caminhando sem rumo consegui distinguir a risada dos caras em meio a tanta gente falando e parei para que eles me alcançassem. Eu realmente merecia qualquer zoação que eles fizessem. Mas, porra! Eu sabia que aquela mulher era intimidante só de olhar. E eu sei que eu queria trocar algumas palavras com ela, mas eu não estava preparado para aquilo. Eu estava pensando sobre isso e em alguma forma de puxar um assunto sem parecer um babaca qualquer, então fiquei completamente desnorteado quando foi ela quem falou primeiro. Ainda que tenha sido apenas para pedir para tirar uma simples fotografia.
... – Ethan começou.
— Pois é, eu sei.
— Cara, que merda foi aquela? – completou , que nunca conseguia ser sutil.
— Não sei – bufei puto comigo mesmo.
— Você deixou a mulher sem entender nada lá. Se você queria impressioná-la, você fez tudo errado.
, falar isso não me ajuda em nada. Você sabe disso, não é?
— Sim, mas me vi na obrigação de mostrar que você foi patético – sorriu debochadamente.
Eu merecia mesmo esse tipo de comentário, mas não estava com tanta paciência assim para aturá-los, então só dei as costas para os dois e continuei o meu caminho sem rumo. Depois disso eu só pensava que precisava beber mais um pouco. Ou muito. Talvez o problemático da noite fosse eu, não o como de costume. Mas é claro que os caras também não me deixariam tão na merda assim, principalmente o Ethan. Afinal de contas, eu não queria estampar nenhum site de fofoca no dia seguinte por conta da minha má conduta. Continuamos caminhando meio sem rumo, eles já sem a ideia de me provocar e eu um pouco mais controlado pelo papel de imbecil que prestei há alguns minutos. Mudamos de palco para aproveitar outras atrações, paramos para conversar com alguns conhecidos pelo caminho e acabamos voltando para o palco principal, o Coachella Stage, por conta da sua localização. Ethan acabou percebendo depois de um tempo que ele também ficava mais próximo da saída que deveríamos pegar, então juntamos o útil ao agradável. E falando em agradável, quando eu estava quase me esquecendo por completo do mico que passei mais cedo com a desconhecida intimidante, acabei por vê-la na fila da cerveja escolhida por mim como a cerveja da noite – e aparentemente por ela também. Para ser bem honesto eu nem estava ali no lounge para pegar mais uma cerveja, eu estava apenas acompanhando o Ethan para escolher algo para comer. Mas eu não acreditei na minha sorte de estar mais uma vez na presença daquela mulher assustadoramente encantadora, então fiz um sinal para que ele percebesse a minha intenção e corri para ficar atrás dela na fila. Mesmo que eu não soubesse o que falar ou até mesmo se falaria algo, eu queria me aproximar e quem sabe ter mais uma chance de contato com ela. Ela parecia entretida demais no celular e eu passei por um momento de puro questionamento interno se eu deveria interrompê-la ou não. Mas percebi que, ainda que ela estivesse falando com alguém muito importante, eu não poderia deixar essa chance passar. Não quando tudo o que eu quis quando a vi pela primeira vez foi poder fazer justamente isso.
— Desculpe por mais cedo – falei de repente assustando-a. – E por agora também – rimos.
— Que nada, eu que estava distraída mesmo.
Mais uma vez estava fazendo um papel vergonhoso, porque depois disso não soube muito bem o que falar e ela me olhava como se esperasse que eu falasse algo. Afinal de contas, eu quem puxei o assunto, eu deveria ter mesmo o que dizer. Dei uma olhada ao redor para tentar disfarçar o meu constrangimento e também pensar em algo, quando alguém tocou no meu ombro pedindo para tirar uma foto comigo. Tentei sorrir da forma mais natural possível, mas na verdade eu estava ainda mais desconfortável. Primeiro porque eu queria poder falar algo com aquela mulher, mas ainda não sabia o que. Segundo porque eu tinha certeza de que ela não tinha me reconhecido e eu até que estava gostando disso.
— Então... – me voltei para ela sorrindo meio sem jeito. – você realmente gostou dessa cerveja? – na mesma hora me arrependi da pergunta, mas ela pareceu não se importar.
— Sim, amei! Não consegui experimentar todas as disponíveis aqui, mas elegi essa como a minha favorita. Você também gostou, pelo visto – ela sorriu apontando para o meu copo estampado pela bebida.
— Com certeza! Foi a primeira que peguei assim que cheguei e até peguei outras, mas essa definitivamente foi a melhor – sorrimos de forma cúmplice pelo gosto parecido. – Inclusive estou até pensando em comprar algumas para levar. Sabe como é, de lembrança – brinquei fazendo-a gargalhar. E mais uma vez fiquei encantado com o seu jeito de sorrir e com seus olhos brilhantes.
— Sei bem – falou com um tom de desconfiança e deboche. – Mas você me deu uma boa ideia, acho que farei o mesmo. Sabe como é, de lembrança – falou me imitando e me fazendo gargalhar de sua fala. Aparentemente, além de tudo, ela parecia ser bem humorada. Será que ela era real mesmo ou uma invenção da minha cabeça?
—Você está aqui sozinha mesmo ou se perdeu? – era um questionamento que não saía da minha cabeça e eu não aguentava mais pensar. Tinha achado intrigante demais. Mas que obviamente eu não precisava ter feito. – Não precisa responder se não quiser, me desculpa pela pergunta. – completei em seguida passando a mão pelos cabelos.
— Imagina! Mas sim, estou sozinha. Por quê?
— Ah, por nada. Achei curioso alguém sozinho em um festival como esse. Bem incomum, né?
— Bom, eu não tinha companhia para vir. Então só me restava vir sozinha mesmo. Eu não deixaria de vir por falta de companhia, eu estava esperando por esse dia há meses – sorriu sinceramente.
— Tenho que admitir de que isso é impressionante – confessei. – Eu não sei se viria se não estivesse na companhia dos caras.
— Espero que seja impressionante de uma boa maneira – ela retrucou com um sorriso travesso e eu me apressei a respondê-la, porque de forma alguma queria passar a impressão errada.
— Claro! Totalmente!
Entramos em um silêncio um pouco desconfortável, mas eu preferia que ficássemos daquela forma a falar uma merda qualquer. Eu já tinha passado vergonha o suficiente na frente dela. Não estava preparado para mais.
— É a sua primeira vez no festival? – Graças a Deus ela não ficava apenas esperando e me questionou.
— Sim. E estou adorando. E você, já tinha vindo em outra edição?
— Nunca. Já fui a outros festivais, mas sempre sonhei com o Coachella – o sorriso dela a cada frase era lindo demais. E eu já havia me acostumado com ele. O que era um tanto quanto desesperador. – Teve algum artista favorito na noite?
— Definitivamente Florence and The Machine – respondi sorrindo sem nem pensar, porque esse show ficaria preso na minha memória por muito tempo ainda. Talvez não exatamente o show da Florence, mas a lembrança que ele me traria daquela mulher parecendo curtir mais do que qualquer outro presente no festival. – Também gostei muito do Khalid. Ele é impressionante.
— Nossa, sim! Definitivamente foram os meus dois preferidos do dia também – ela concordou com bastante entusiasmo.
E quando pensei que iríamos engatar em uma conversa, finalmente, acabou chegando sua vez na fila e Ethan também se aproximou. Ainda que ele tenha ficado ali ao meu lado sem falar uma palavra, eu sabia que qualquer chance de uma conversa melhor já havia passado. O que foi confirmado por ela quando ela pegou seu copo de cerveja e sua sacola com mais bebidas para levar, me dando espaço para fazer o pedido e virando-se para mim com um olhar que não me dizia muita coisa, mas que identifiquei como um olhar apreensivo. Retribuí seu olhar com a mesma intensidade, porque não queria ter que me despedir dela. Não tão cedo, não quando eu gostaria de fazer várias perguntas, não quando eu gostaria de conhecê-la de verdade. Mas pelo visto esse seria o nosso próximo passo na conversa.
— Bom... – ela começou a falar meio sem jeito. – acho que vou indo então. Ainda tenho um caminho um pouco longo até chegar ao meu destino.
— É, eu também. E tenho que encontrar meu outro amigo ainda, o fotógrafo – eu não conseguia esconder o meu descontentamento daquele momento e tenho certeza de que ele ficou presente no meu tom de voz e na forma em que a respondi. Não me senti tão patético como mais cedo porque percebi que ela também não parecia tão satisfeita em ter que se despedir naquele momento.
— Não se esqueça de pegar as bebidas para levar de lembrança – levantou a sacola para mostrar a sua aquisição e sorrimos cúmplices um para o outro depois disso.
— Com certeza não me esquecerei – respondi tentando passar todo meu sentimento daquele momento nas minhas poucas palavras. Eu queria poder segurar em sua mão e pedir para que ela não se despedisse ainda. Queria poder sentir o toque da sua pele na minha para descobrir se ele era quente como eu achava que era. Ela sorriu ainda mais para mim se afastando e se virando para pegar o seu caminho. E quando já estava longe o suficiente para que precisássemos gritar para sermos ouvidos, virou novamente e falou:
— Até qualquer dia, !
Aquele momento foi tão perturbador para a minha cabeça que eu não consegui responder nem um “Até!”. Eu só fiquei parado, sorrindo idiotamente da mesma forma em que já estava, mas agora olhando para o nada. Acordei do meu transe quando o rapaz do stand chamou minha atenção e me entregou a sacola com algumas garrafas, já atendendo outra pessoa. Olhei para Ethan para ter uma confirmação de que aquilo realmente havia acontecido e ele apenas me abraçou pelo ombro para caminharmos, enquanto soltava um “Isso foi intenso!”. Cheguei onde estava ainda em silêncio, sem entender o que tinha acabado de acontecer e tentando juntar as peças na minha cabeça. Tentava entender se ela tinha me reconhecido, mas de forma muito convincente, devo dizer, disfarçou por todo aquele tempo. Mas também me lembrei de que fui chamado por alguns fãs na fila da cervejaria e que talvez ela tivesse escutado. O que me parecia o mais provável, porque eu sempre fui muito bom em decifrar olhares de reconhecimento. E ela, definitivamente, não havia deixado escapar nem um sequer. E o pior de pensar nisso tudo é que além de ter sido um idiota no primeiro contato, fui um idiota ainda maior no segundo. Porque não fui nem capaz de questionar o nome dela. E agora nem se eu quisesse procurá-la em algum momento da minha vida isso aconteceria, porque eu não sabia absolutamente nada sobre ela. Além do fato de que ela era a mulher mais interessante e enigmática que já havia conhecido nos meus 29 anos de vida.


Três


Acordei naquele domingo com a minha cabeça explodindo, mesmo que eu não tivesse bebido tanto quanto eu gostaria. Eu tinha acordado com aquela velha e conhecida ressaca moral. Aquilo nada tinha a ver com a cerveja do dia anterior. Até porque, apesar de eu merecer beber mais alguns litros depois da última conversa com a desconhecida, eu perdi completamente a vontade de continuar naquele ritmo. Eu acabei passando o restante da noite meio no automático. Curti mais algumas atrações, caminhei mais um pouco com os caras, parei para mais algumas fotos e conversas, mas se me perguntassem qualquer coisa sobre aquele pós-encontro eu não saberia responder nada com precisão. Não que eu não tenha me divertido, porque eu me diverti. Era fácil demais dar gargalhadas com os meus amigos, eles sempre tinham comentários inusitados para fazer. E bêbado era uma das melhores cenas que existiam no mundo. Mas tudo não passava de um borrão agora. Eu me lembrava de ter ficado por mais algumas horas no festival, de arrastarmos o pelas ruas até chegar ao carro, de jogá-lo no banco de trás enquanto ele reclamava por ter batido a cabeça, dele vomitando em algum ponto do caminho e depois caindo no sono, de arrastarmos ele casa adentro e de, finalmente, ter me jogado na cama depois de um banho rápido. Sei que ri, me diverti e conversei, mas nenhum registro além disso.
Eu tinha certeza de que Ethan me faria um questionário sobre tudo o que aconteceu, porque ele era assim, sempre preocupado e prestativo. Sendo sincero, era o que eu mais admirava nele, mas eu não sabia se queria ter isso hoje. Apenas pelo fato de que eu não saberia responder nenhuma de suas possíveis e prováveis perguntas. Eu já estava cheio delas e não conseguia responder nem a mim mesmo. E não tinha a ver em querer esconder algo, porque eu não era desse tipo. Eu não tinha vergonha nenhuma em demonstrar meus sentimentos e nem de admiti-los para seja lá quem fosse. Eu não conseguia responder simplesmente por não entender o que havia acontecido. Eu precisaria de alguns dias, talvez semanas, para compreender aquela confusão toda. A minha mente era um verdadeiro emaranhado, que eu ainda precisava analisar para achar o ponto inicial, e só então começar a decifrá-la.
Resolvi que precisava descer para me alimentar depois de passar mais um bom tempo pensando na cama e também durante o meu banho. Normalmente banhos quentes e demorados me clareavam um pouco os pensamentos, mas dessa vez esse hábito também não foi muito eficaz. Pensei que talvez eu pudesse inverter a ordem e tentar resolver algumas questões com o auxílio de Ethan - e até mesmo de , que não costumava ter conselhos tão bons quanto o outro, mas também era um ótimo amigo e sempre me ajudava. Cheguei a pensar que teria mais alguns minutos para pensar sozinho porque a casa estava em silêncio absoluto, mas quando passei pela sala vi que já estava acordado. Sentado na poltrona com cara de ressaca, sem mover um músculo, mas com os olhos abertos e encarando a televisão desligada. Era sempre assim nos dias pós-bebedeira dele. Ele passava uns bons trinta minutos na mesma posição, como se esperasse por um milagre para melhorar. Normalmente o milagre tinha nome e sobrenome: Ethan White. Ele costumava ser o primeiro a acordar e tinha sempre um comprimido separado para nos ajudar na dor de cabeça. Além de alguma refeição preparada. Às vezes eu me perguntava como o Ethan ainda conseguia nos aguentar depois de tantos anos, mas lá estava ele, firme e forte.
— Boa tarde – cumprimentei Ethan quando entrei na cozinha, recebendo um aceno de cabeça. – Ele já está naquela posição há quanto tempo? – disse apontando para a sala.
— Não tenho certeza, mas acho que já faz uns quinze minutos. Daqui a pouco ele aparece por aqui – rimos. – Estou terminando de montar uma lasanha para almoçarmos, mas se quiser tem café.
— Obrigado, vou só beber um pouco de água enquanto espero o almoço. Quer alguma ajuda?
— Tranquilo. Falta só a última camada e já vou colocar no forno – me respondeu. – Tudo bem com você? – O que eu mais gostava no jeito de Ethan era o fato dele sempre me fazer essa pergunta genuinamente e sempre esperar pelo meu tempo para conversar.
— Sim, só estou sentindo um pouco de ressaca moral – respondi brincando.
— Quer conversar sobre isso, cara?
Eu queria? Queria. Mas não sabia exatamente o motivo e nem o que falar sobre tudo. Minha cabeça começou a pensar em todos os acontecimentos da noite anterior e, principalmente, em todas as sensações que tive na presença daquela mulher que eu não sabia nem o nome. Até mesmo as sensações que tive antes de sequer trocar uma palavra com ela. Passei ainda um tempo refletindo, enquanto Ethan colocava a lasanha no forno, guardava algumas coisas na geladeira, sentava-se de frente para mim e aguardava pacientemente. Ele sabia que eu queria e, acima de qualquer coisa, precisava desabafar. Mas também sabia que eu não tinha ideia de como começar.
— Quero. Você sabe disso. Mas não sei o que falar – respondi finalmente.
Que tal começar falando como você se sente? – arriscou ele enquanto me encarava.
— Não sei, cara – bufei um pouco impaciente. – Eu simplesmente não sei como me sinto. Me sinto, sobretudo, muito confuso. Reparei nela no momento em que ela se sentou na nossa frente no gramado, antes do show da Florence. E daquele momento em diante ficou tudo uma grande confusão. Eu comecei a reparar na forma em que ela bebia a maldita cerveja, na forma em que ela digitava e parecia sorrir para o celular, reparei no penteado dela, nas roupas que ela usava, no seu corpo e a presença dela estava tão marcante que eu precisei sair correndo. Mas quando ela se virou e nossos olhares se cruzaram... Cara! – soltei todo o ar que eu nem sabia estar prendendo. – Meu corpo estremeceu na mesma hora, ela emanava uma energia indescritível e o olhar dela, sério, eu nunca vi um olhar como aquele, Ethan – terminei e o encarei. Ele estava me olhando como se conseguisse me decifrar e ao mesmo tempo um pouco impressionado com tudo o que eu tinha acabado de falar. E parecia escolher as palavras para me responder.
— Uau – disse depois de um tempo e rimos juntos.
— Pois é. Entende porque eu não sei o que falar?
— Eu sabia que tinha rolado alguma coisa, mas não imaginei que tivesse sido tanta coisa em tão pouco tempo, – ele riu mais um pouco, parecendo ainda procurar por algum conselho ou algo relevante para me dizer.
— Você sabe alguma coisa sobre ela? – entrou na cozinha já questionando.
— Não, – soltei em um sopro totalmente frustrado. – Eu não sei absolutamente nada.
— Bom, ela realmente estava sozinha lá? – Ethan perguntou.
— Sim. Eu acabei perguntando sobre isso e ela disse que sim. Disse que não tinha nenhuma companhia e não deixaria de ir ao festival por conta disso.
— Então já sabemos que ela é solteira – afirmou .
— Como você pode ter tanta certeza sobre isso? Ela não falou nada.
— Cara, qual ser humano comprometido iria totalmente sozinho para um festival como o Coachella?
— Sei lá, . Eu não iria sozinho se estivesse comprometido e nem solteiro. Não acho que uma coisa tenha ligação com outra – respondi, considerando todas as hipóteses.
— Ele tem razão, . Isso não significa nada.
— Mas ela te disse que não tinha companhia! – exclamou ele, tentando nos convencer de que aquilo significava que ela era uma mulher solteira. Eu ainda não conseguia associar uma coisa à outra. Eu queria crer que ela estava descompromissada, apesar de não fazer ideia se algum dia ainda a encontraria, mas essa ligação que tinha feito não tinha muito fundamento.
— Bom, isso não importa muito agora porque não consigo ver uma possibilidade de encontrá-la de novo em algum momento – quebrei o silêncio que se instalou. – Eu não faço nem ideia de onde ela seja. Não sei absolutamente nada.
— O que aconteceu com o cara que acredita em destino? – vi que Ethan olhava por cima dos ombros para mim, enquanto me fazia aquela pergunta.
— Eu continuo acreditando. Eu só não fico contando com ele – soltei uma risada.
— Não se esqueça de que o destino te fez encontrar com ela na fila da cervejaria – Ethan falou colocando a travessa de lasanha na mesa e soltando uma piscadela.
Ele estava certo. Depois que tirei a foto dela e saí correndo, considerei que tinha perdido a chance de termos uma conversa decente e já estava começando a desencanar de encontrá-la quando a vi na fila. E isso, na minha cabeça, só poderia ser chamado de destino. Que eu acreditava e muito. Mas também considerava a máxima de que “um raio não cai duas vezes no mesmo lugar”, então não sei se poderia contar com o meu aliado nesse momento. Ele já havia me ajudado, afinal de contas. Eu que não tinha aproveitado da forma como deveria. Os caras resolveram mudar de assunto, por ora, e eu agradeci mentalmente por isso. Ter falado algumas coisas tinha me ajudado um pouco, mas eu precisava pensar mais. E eu sabia que o assunto voltaria à tona mais tarde, enquanto estivéssemos assistindo TV ou fazendo qualquer outra coisa. Por enquanto, eu apreciava o assunto que tinha se instalado: a bebedeira de . No momento estávamos nos divertindo enquanto ele contava do episódio em que ficou sozinho e resolveu dar em cima de algumas mulheres. E do fracasso que isso foi porque ele estava bêbado demais para falar coisas interessantes. sendo . Depois que terminamos de almoçar e arrumar tudo na cozinha – porque nem só de fast food vive o homem -, fui para meu quarto escrever algumas coisas que começaram a surgir na minha mente. Eu estava aliviado por isso, porque depois da notícia do festival, minha criatividade pareceu voltar com força total. E eu precisava mesmo que ela permanecesse comigo por um bom tempo ainda. Gostaria de poder dizer que as letras que saíram naquela tarde de domingo não tinham ligação com a desconhecida, mas não foi o que aconteceu. Mas tudo bem também, porque eu tinha gostado bastante e percebi que cada estrofe tinha uma potência diferente. Se Ethan conseguisse me ajudar com a harmonia, tenho certeza de que aquela seria uma das músicas preferidas do público. E minha também.
— O que acham de pedir uma pizza? – desci as escadas perguntando já com o telefone em mãos.
— Qualquer sabor menos pepperoni, por favor – Ethan falou. Os dois estavam largados no sofá, jogando Call of Duty como se fosse a última coisa que fariam em vida.
— Beleza. E eu preciso que você me ajude com uma harmonia. Pra ontem! – ele me olhou meio desconfiado como se me perguntasse o motivo do desespero. Eu apenas dei de ombros já abrindo o aplicativo para fazer nosso pedido e indo para o quarto pegar meu caderno de música.
— Cara, ela não sabe quem você é? – foi a primeira coisa que ouvi assim que voltei para a sala.
— Não sei, . Ela se despediu com um “até qualquer dia, , mas realmente não sei.
— Ué, então ela sabe – disse me olhando como se eu fosse um retardado.
— Mas eu tenho certeza que ela não tinha aquele olhar de reconhecimento. E vocês sabem que eu sempre acerto – falei a contragosto. – E antes dela se despedir um grupo veio me pedir para tirar foto e eles falaram o meu nome, então realmente não posso ter certeza.
— E se procurarmos por ela nas redes sociais? Podemos pesquisar por alguma hashtag ou marcação do local.
Fiquei fazendo mil teorias depois que deu aquela ideia. Que era muito boa, por sinal. Mas ao mesmo tempo um tanto quanto improvável. Eu sei que isso parecia ser bem pessimista da minha parte, mas quantas mil pessoas frequentavam o Coachella em apenas um dia de festival? Com certeza mais de cem. E quantas delas postavam fotos marcando o evento ou o local? Eu diria que quase 100%. Minha chance de encontrá-la poderia ser muito alta pelo fato de que dificilmente alguém não postava ou não marcava o evento. Mas também poderia ser muito baixa por conta da quantidade absurda de pessoas que faziam o mesmo.
— Olha, pensando pelo lado das redes sociais que o falou, talvez não seja tão fácil de achá-la, mas se ela não te conhecia com certeza passa a conhecer num instante – Ethan disse com um sorriso. – O maior problema é que temos que contar que ela queira isso.
— Obrigado, Ethan. Você já foi melhor nisso – dei uma risada totalmente sem humor. – Eu nem sei se quero que ela pesquise algo sobre mim, gente. Para ser bem sincero. Eu ainda estou muito confuso sobre o que eu senti na presença dela. Sem contar que essas pesquisas de internet sobre famosos são sempre uma furada. Um monte de mentiras ditas por “fontes confiáveis” que ninguém nunca viu.
— Verdade. E imagina se ela vir a sua fama de paquerador. Vai querer correr do relacionamento!
! Você tá emocionado demais, cara. De onde você tirou essa de relacionamento?
— Ué, você que falou dela como se fosse a mulher da sua vida e pudesse pedi-la em casamento a qualquer momento. O emocionado aqui é você – enquanto ele ria, eu só conseguia olhar pra ele com a perfeita cara de babaca que eu tinha. Eu não conseguia acreditar que ele tinha mesmo falado aquilo.
— Eu falei dela normal, seu animal. Só porque eu disse que ela tinha uma energia foda quer dizer que eu queira me casar com ela?
, nós sabemos o que você falou. E não foi só da energia dela – ele sorriu maldoso. Mas eu o conhecia bem demais para saber que ele estava apenas me provocando.

— Tá, chega. Então vamos falar da música que você escreveu. Mostre – me pediu Ethan. Eu sabia que ele estava fazendo mais uma vez aquilo que ele era mestre em fazer: mudar de assunto, me dar tempo e espaço, para depois voltar a me questionar sobre o tema inicial. tinha um sorriso irônico no rosto por conta da interferência de Ethan e porque ele me conhecia bem o suficiente para imaginar que aquela música tinha uma inspiração nova.
— Gostei! Tem uma pegada bem forte, né? – afirmei com a cabeça para Ethan. – Você pensa em uma batida mais lenta ou mais acelerada?
— Pensei em algo mais acelerado. O que acha?
— Acho que no refrão podemos subir umas notas e acelerar, mas no restante acho que a frequência mais baixa ficaria melhor.
Considerei totalmente o que Ethan me falou, primeiro porque ele era o cara que entendia sobre esse assunto. Segundo porque pensando no que poderia sair, eu realmente concordava que aquela seria a melhor forma de finalizar a música.
— Beleza, amanhã vamos começar por essa então. Acho que já tenho algumas ideias e a gente vai conseguir terminá-la ainda pela manhã – pensar que mais uma música poderia ser finalizada em menos de 24 horas me deixava extremamente animado, depois de tanto tempo me frustrando com o que estava sendo feito. – Agora me passa esse controle para eu acabar com vocês.


Quando acordei no dia seguinte do festival eu só conseguia pensar em duas coisas: “o que raios tinha acontecido” e “graças a Deus o voo é só a noite”. Não que eu ainda tivesse muito tempo, porque já tinha acordado na hora do almoço, mas pelo menos eu não sofreria tanto no voo da volta porque tinha conseguido me recuperar bastante do cansaço. Quer dizer, minhas pernas ainda doíam, meus pés estavam um pouco inchados, mas nada do que eu já não estivesse acostumada depois de várias horas de voo. Em dias normais eu teria acordado cedo para tomar um belo café da manhã do hotel – até porque a regra básica de uma acomodação em hotel é: nunca, jamais, em hipótese alguma, recuse o café da manhã -, teria saído de dentro do quarto para curtir um pouco a cidade ou a piscina do hotel, já que não eram todos os pernoites que nos proporcionavam isso, teria aproveitado o parque para fazer meu exercício diário e depois almoçado em algum canto para, enfim, descansar um pouco antes do meu voo de volta. Mas de normal aquele dia não tinha nada. E por mais que eu tivesse dormido bastante, eu só pensava em pedir qualquer coisa para comer no quarto mesmo e continuar deitada na cama. E, quem sabe, mandar uma mensagem para para falar sobre o tal cara desconhecido chamado e que na verdade parecia ser conhecido até demais. Eu sabia que podia parecer loucura minha, mas aquele contato foi o que eu poderia chamar de intenso.
Eu estava tão entretida com algumas besteiras que estava me enviando no momento em que me sentei para esperar pelo show da Florence, que eu não reparei em nada ao meu redor. Mas quando eu ouvi aquela voz, que tinha uma rouquidão natural e sensual, eu despertei totalmente do que estava conversando no celular. Naquele momento, parecia que tinham colocado todo o restante do festival no mudo e apenas a voz dele tinha som. E só de me lembrar do momento em que nossos olhares se cruzaram eu sentia um certo calor. Não era um calor sexual, apesar de eu acreditar que ele tinha muita capacidade para isso também. Era mais como aquele que aquece nosso coração. E não sei de onde isso saía, porque eu nunca tinha visto ou sentido algo assim na vida. Principalmente com uma pessoa totalmente desconhecida como era o caso. Fato é que, com um olhar aquele homem conseguiu me bagunçar de uma maneira assustadoramente maravilhosa. E eu não sei se foi aquele show espetacular da Florence and the Machine, aquela última música do setlist que falava muito por mim e me deixou alucinada ou a presença daquele estranho, mas eu senti uma necessidade quase palpável de falar com ele. Eu precisava ouvir aquela voz mais uma vez e, principalmente, que ela fosse direcionada a mim. Sendo bem honesta comigo mesma, eu não via necessidade nenhuma de tirar uma foto que não fosse selfie naquele momento, eu inclusive já tinha tirado algumas durante o dia. Mas foi o melhor que consegui e pelo menos me deu o prazer de falar com ele. No fim das contas, eu recebi uma foto digna de capa de revista e que eu guardaria para sempre com muito carinho. Eu ainda não tinha tido coragem de divulgar nem aquela e nem nenhuma outra foto no meu Instagram. Nem mesmo tinha visto aquela foto ainda. Era como se qualquer um pudesse ver através da foto todos os meus sentimentos e a nossa troca de olhares, e por isso eu quisesse guarda-la apenas para mim. Claro que eu não conseguiria escondê-la por muito tempo, pelo menos não da minha amiga. Mas por enquanto eu deixaria assim, apenas para que eu admirasse.
– 13:25
N posso acreditar que ainda esteja dormindo
Ainda quero saber tudo sobre o festival


Ri sozinha quando li a mensagem de . Aquilo era tão ela! Na real eu bem sabia que ela estava louca para descobrir alguma fofoca, tipo se eu beijei alguma boca por lá. E eu adoraria poder fazer a felicidade dela e dizer que sim, mas pelo visto isso ficaria somente nos meus sonhos mesmo. Resolvi não respondê-la naquele momento porque sabia que entraríamos em uma conversa que não terminaria tão cedo e eu ainda precisava tomar um banho, pedir meu almoço e ajeitar as minhas coisas pré-voo. Sem contar que eu preferia conversar sobre alguns assuntos com ela apenas pessoalmente, acho que ela poderia me ajudar mais se fosse dessa forma. Pedi um prato de salada qualquer, apesar de não ser a maior fã de saladas, e fui tomar meu banho para que desse tempo do meu cabelo secar naturalmente. Eu odiava perder qualquer segundo passando secador e odiava a forma em que ele ficava também. Eu adoraria ter passado vários minutos debaixo do chuveiro pensando no dia anterior, mas dessa vez o meu banho não poderia durar muito. Aproveitei enquanto almoçava para responder , porque sabia que depois eu não teria oportunidade e ela ia simplesmente me enforcar quando eu chegasse a Londres se não tivesse ao menos uma resposta de “’to entrando na aeronave, bjo”.

– 14:03
Claro que não ‘tô dormindo, eu ainda sou responsável, kkkk
Amiga, provavelmente só conseguiremos falar do festival amanhã
‘Tô aqui almoçando e jajá tenho que me arrumar
Apresentação é às 16:50

– 14:05
Vc reparou que nesse tempo que perdeu podia ter falado sobre o festival?
É sério, vc sabe como eu sou curiosa!


– 14:05
Claro que não dava para falar do festival em 2 minutos, .
Pelo amor de Deus
A não ser que você queira uma resposta tipo “foi ótimo!”


— Você nem ousaria em fazer algo desse tipo, ! – eu mal tinha enviado a última mensagem quando recebi a chamada por vídeo dela. Rolei meus olhos teatralmente porque não consegui falar “oi” e ela já me recepcionava como se estivesse brigando comigo.
— Então por que você acha que eu conseguiria falar detalhadamente sobre tudo o que rolou em apenas dois minutos?
— Não sei, se vira! – gargalhei com a resposta atravessada dela.
— Sem contar que você me enviou mensagem o dia quase todo, você sabe tudo o que aconteceu – óbvio que me conhecia bem demais e veria que eu estava mentindo sobre ela saber de tudo o que rolou. Fora que apesar dela realmente ter me mandado várias mensagens durante o dia, não posso dizer que respondi todas elas. Eu dei uma risada da cara de descrença que ela fez enquanto me aguardava falar a verdade. – Tá bom, você não sabe tudo, mas sabe a maior parte. Tudo que te falei ontem durante o dia é verdade.
, não duvido que seja verdade. Mas o que mais rolou? Você nem me falou se tinha muito homem gato, se aproveitou com algum deles – deu um olhar sugestivo antes de continuar. – Sobre o figurino da galera ou sobre as cervejas que tanto disse que experimentaria.
— Você sabe que eu não vou te falar nada demais nesse momento, certo? – questionei enquanto já ia para frente do espelho começar a me arrumar senão ficaria atrasada para a apresentação, e vi um aceno de cabeça. – Ok, os shows foram incríveis demais, é sério. Eu acho que nunca me libertei tanto quanto no show da Florence and the Machine, amiga. As cervejas eram todas incríveis, mas comprei umas garrafas da melhor que bebi para levar para Londres – sorri despreocupadamente quando me lembrei da cerveja e da conversa que tive com o homem desconhecido, mas nem tanto. É claro que esse sorriso não passou despercebido por minha melhor amiga, mas eu sabia que ela não me perguntaria sobre isso nesse momento. Ela gostava dos mínimos detalhes sobre esses assuntos e eu não poderia fazer isso agora. – Os figurinos eram de dar inveja, amiga. Eu me senti até meio deslocada em alguns momentos com tanta mulher incrível e estilosa.
— Ah, pelo amor de Deus, . Você fala como se você não fosse incrível e estilosa. Sem contar que aquele macaquinho que você estava usando é maravilhoso demais – sorri com sua fala porque a roupa que usei realmente era linda e eu amava.
— Que seja. Inclusive, eu tenho certeza de que vi uma Kardashian por lá. Acredita?
— Jura? Aposto que foi a Kylie!
, você sabe que eu não faço a menor ideia de qual delas seja a Kylie ou de quem era – ri da sua animação com a possibilidade de ter visto tão de perto uma das queridinhas dela. Ela vivia me mostrando sobre a vida daquela família e vivia me explicando quem era quem, mas eu não podia dar menos importância sobre isso, então eu nunca gravava absolutamente nada além da fisionomia. – Mas enfim, vi alguns outros famosos por lá. Sempre tem vários deles, né.
— Acabei de ver aqui, era a Kendall! E ela estava realmente incrível - aquela era uma informação que também não tinha muita relevância para mim, não fazia muita diferença qual delas que estava por lá. Mas o fato dela descobrir tão rapidamente sobre isso me chamou atenção para outra coisa.
, como você conseguiu descobrir tão rápido?
— Primeiro, pesquisei no perfil do Instagram delas duas, que eram as mais prováveis de estarem no festival ontem – sorriu vitoriosa.
— Então no Instagram eu consigo pesquisar alguém que estava no festival? – eu sabia que essa minha pergunta abria precedentes para que ela me questionasse várias coisas, mas eu estava realmente curiosa e era um pouco analfabeta sobre essas coisas de internet.
— Claro que sim! Basta você pesquisar por alguma hashtag ou pela localização. Mas qual é o motivo do interesse? – me respondeu como se fosse muito óbvio e eu fosse louca, dando um sorrisinho superior no final da frase.
— Curiosidade! – respondi correndo. Primeiro eu precisava pensar sobre o assunto e pesquisar sozinha sobre o que eu queria, caso não conseguisse nada, recorreria a ela. – Amiga, preciso desligar porque vou finalizar minha mala e tudo aqui. Quando eu chegar em Londres nos falamos. Beijo, beijo.
Eu sabia que estava sendo um pouco paranoica e que não precisava desligar a chamada na cara dela, mas foi o meu melhor recurso naquele momento. Claro que ela me enviaria algumas mensagens ainda mais desconfiada por conta da minha atitude, mas eu não tinha mais tempo para ficarmos conversando. Eu realmente precisava terminar de arrumar a bagunça que havia deixado no dia anterior e precisava fazer isso com certa calma, sempre que eu corria para arrumar minhas coisas acabava deixando algo para trás. E é óbvio que o maior motivo disso não era o meu possível atraso, mas eu necessitava pensar. A minha cabeça ainda estava confusa demais com tudo o que tinha acontecido no dia anterior, eu não podia dizer exatamente que pensei bastante sobre o assunto. Eu nem tive tanto tempo assim para pensar. Pouco depois que me despedi do tal no lounge de bebidas, fui embora. Já estava tarde e eu não podia me dar ao luxo de estender tanto assim a minha noite porque ainda precisava trabalhar hoje. O caminho até LA não foi exatamente um momento de relaxamento e de reflexão, porque mais uma vez fiz amizade com o motorista do Uber. E tudo o que quis fazer quando cheguei ao hotel foi tomar o meu bom banho quente e deitar na cama para descansar. Tirando todos esses fatores, a conversa com me clareou sobre o fato de talvez conseguir encontrar o não tão desconhecido assim nas redes sociais. Mas eu não achava que valeria a pena e que eu precisava disso como precisava de ar. Até a noite anterior eu realmente acreditava que tivesse dado o meu “adeus” para aquele homem.
Eu não sabia absolutamente nada sobre ele, além de que ele era absurdamente cheiroso, tinha olhos incrivelmente azuis e hipnotizantes, um ar de despreocupado, uma voz rouca alucinante e que ele era irremediavelmente lindo. E por acaso acabei descobrindo que o nome dele era . Fora isso, eu não sabia nada. Não sabia de onde era e nem se estava descompromissado – apesar de eu ter reparado que não havia aliança nenhuma em seu dedo, confesso. Mas uma coisa que eu não sabia, mas desconfiava, era sobre o seu anonimato. Quero dizer, ninguém é parado por um grupo de pessoas para tirar uma foto sem ser alguém conhecido. O que me deixava ainda mais intrigada. Tudo bem que eu não era a melhor pessoa para conhecer famosos assim, a maioria dos que eu conhecia era por conta de . Minha paixão por música sempre foi enorme, mas eu acabava não conhecendo muito os cantores. Nunca fui uma grande fã de ninguém, daquelas que fazem loucuras por seus ídolos e sabem todos os passos deles. Eu focava muito mais na música, independente de quem estivesse cantando. Minha amiga sempre chamava minha atenção porque ela era daquelas que paravam o que estivessem fazendo para assistir o ídolo na TV. Ela nunca me entendia muito bem por ser desligada, assim como eu também não entendia muito bem essa quase obsessão que ela tinha com alguns artistas. Ela sempre surtava quando algum artista entrava no voo dela, enquanto eu sequer sabia que tinha alguém conhecido no meu. Não era descaso, eu apenas não sabia mesmo. Tínhamos hobbies diferentes nos nossos momentos de descanso. Eu gostava de cozinhar, afinal de contas não havia me formado em Gastronomia a toa, ela gostava de assistir seus ídolos em todos os canais possíveis. E talvez fosse por isso que nos entendíamos tão bem e nos completássemos.
No fim das contas, sempre que eu precisava saber o nome de algum artista acabava recorrendo ao meu Google particular mais conhecido como . Dessa vez eu procuraria sozinha antes de tudo. Principalmente porque eu não tinha nenhuma confirmação sobre ser um artista famoso. Eu achava que possivelmente era um delírio da minha mente traidora. E eu nem sabia ao certo porque isso estava me perturbando tanto se não fazia a menor diferença. Talvez fosse apenas por saber que eu poderia descobrir um pouco mais daquele homem encantador. Eu não podia enganar a mim mesma. Eu havia ficado absurdamente interessada dele. Foi aquele tipo de interesse genuíno, que a gente se vê fazendo todo tipo de loucura com a pessoa. E por incrível que pudesse parecer, em alguns momentos eu senti um interesse da parte dele também, e isso acabou despertando em mim muito mais do que eu imaginava ser possível. Eu nem sabia que eu poderia ser tão espontânea e ousada com alguma pessoa do sexo oposto. Todas as vezes em que conheci algum homem, eu sentia que rolava aquela pressão interna para tentar ganhar o interesse do cara. Sempre tentando impressionar o outro com assuntos muito mais relevantes para ele do que para mim, escolhendo as melhores palavras para me encaixar no padrão que o outro achava mais atraente. No fim das contas, meus primeiros encontros costumavam ser um pouco entediantes e robóticos. E é claro, o que tivemos não foi um primeiro encontro, mas para uma primeira conversa, a minha postura foi totalmente atípica. Em momento algum eu me intimidei com sua presença ou respondi apenas o que me era perguntado. Pelo contrário, eu fui a primeira a falar qualquer coisa, ainda que fosse apenas um pedido de foto. E por mais bobo que isso pudesse parecer, era um passo e tanto para mim. Eu me sentia, finalmente, sendo a verdadeira que estivera escondida em algum canto por longos anos.

Quatro


Eu só podia estar louca. Essa era a conclusão mais lógica que eu podia ter. Eu já estava de volta a Londres há três dias e eu ainda não acreditava no que eu via. Ainda não havia conversado pessoalmente com porque assim que cheguei ela saiu para voar. Aqueles desencontros por conta da aviação que já estávamos acostumadas, mas que eu estava odiando com todo o meu ser. Acho que nem quando terminei com Derek e ela estava na Argentina eu odiei tanto assim. Dessa vez era diferente, por um motivo totalmente inusitado e que eu não conseguiria de forma alguma resolver por uma simples vídeo chamada. Assim que cheguei de voo, há três dias, eu só consegui tomar meu bom banho e dormir. Dormir muito. Primeiro porque eu ainda estava cansada do festival, embora eu achasse que não. Segundo porque, diferentemente do voo de ida, o voo de volta foi um verdadeiro caos. Com direito a passageiro falante, crianças chorando por todo canto e uma passageira que precisava de cuidados especiais. Para aquele voo ficar melhor só faltou o clássico atendimento médico de emergência. Terceiro, último e talvez mais importante, porque a diferença de fuso entre Londres e Los Angeles era de oito horas, então quando cheguei aqui o meu corpo ainda estava em um estado desconhecido de aclimatação que, em palavras menos técnicas, seria algo como todo cagado. Quando o corpo não sabe se está no fuso 0 ou -8 e encontra por si só o caminho da cama. A minha sorte era ter três dias seguidos de folga e depois dois dias com voos tranquilos, pela Europa mesmo. E aqui eu me encontrava, no último dia de folga, ainda olhando para a tela de pesquisa da internet. Porque sim, eu dormi como se não houvesse amanhã quando cheguei, mas a primeira coisa que fiz ao acordar foi correr atrás do que tanto me atormentava. Eu estava há dois dias me aproveitando do fato de que estava curtindo muito Buenos Aires para não ter que falar tanto assim com ela.
Não foi nada fácil chegar naquele ponto da pesquisa sem a ajuda da minha amiga, devo confessar. Eu levei mais de uma hora para conseguir alguma informação significativa e muito mais esclarecedora do que eu poderia imaginar. Aquele desconhecido com o nome de não só não era desconhecido, como era muito famoso. E obviamente eu o conhecia. Quero dizer, eu conhecia muito bem as suas músicas e amava várias delas. Mas como a péssima seguidora que eu era, eu não fazia ideia de que aquele que eu conheci no Coachella era o . Me lembrava de tê-lo visto em alguns programas de televisão, até mesmo com , mas isso fazia uns bons anos e meu Deus, ele tinha realmente crescido. Segundo as minhas fontes da internet, já era um homem de 29 anos, com 13 anos de carreira nas costas, alguns prêmios e algumas polêmicas também. Eu ficava sem ar em cada foto que eu via daquele homem. Comecei a ser a FBI que nunca fui e pesquisei até sobre a cueca preferida dele. Não porque eu achasse que essa seria uma informação relevante para mim, jamais. Quem eu era, afinal de contas. Mas porque essas coisas simplesmente foram aparecendo. Junto das várias fotos que vi dele no Coachella, das fotos quase diárias dele em LA, das fotos dele saindo de boates ou pubs um tanto quanto bêbado ao lado dos amigos, dele passeando pela Oxford Street e, a pior de todas, várias fotos dele tomando café da manhã na Starbucks. Definitivamente ele não tinha um bom gosto para café e eu teria que ensiná-lo o verdadeiro prazer dessa bebida. Quem no mundo gostava mais de Starbucks do que do Costa? Gargalhei sozinha no meu pensamento, como se eu de fato algum dia fosse encontrá-lo de novo. Me levantei do sofá ainda rindo porque eu não poderia ter tido um pensamento mais idiota do que esse. Eu realmente estava ficando louca.
Descobrir tantas coisas sobre aquele homem me deixou em um estado totalmente desconhecido de loucura. Quando eu resolvi fazer a minha pesquisa, nunca passou por minha cabeça o tanto que eu descobriria sobre ele. Na verdade, eu nem sei se esperava encontrar algo. Tudo bem que aquele momento na fila da cerveja havia deixado indícios de que ele realmente era alguém conhecido. Mas eu ainda queria acreditar que talvez fosse minha mente criativa imaginando coisas. No fim das contas, minha mente estava mais do que certa. Eu ainda não sabia se tinha achado bom ou ruim ter descoberto tantas coisas sobre o . Ele me encantou de uma forma que eu nunca tinha visto antes, seu olhar parecia penetrar em mim e poder ler a minha mente, seu sorriso era lindo e ele pareceu ser uma ótima pessoa. Daquelas que conseguem alegrar qualquer ambiente e melhorar a energia de qualquer um. Daquelas que fazem a gente querer estar por perto. Mas algumas polêmicas dele também me faziam repensar sobre tudo isso. Enquanto eu separava os ingredientes para fazer um risoto de funghi, o meu preferido, comecei a me lembrar das inúmeras notícias que tinha visto sobre o término do último relacionamento de .
Algumas notícias sobre traição de ambas as partes, sobre um possível golpe da menina, sobre a vida badalada de solteiro dele e até mesmo de um namoro de fachada. Eu não costumava acreditar nessas matérias de fofoca porque sempre tinha muita mentira, mas é claro que o diabinho ficou me importunando nesses dois dias sobre isso. No primeiro momento eu não dei bola nenhuma para nada, até porque não era como se tivéssemos feito algo ou criado algum laço. Mas depois de um tempo aquelas notícias foram me incomodando um pouco, porque eu estava me sentindo enganada por mim mesma e meus sentimentos. Eu costumava ser muito boa em saber quando alguém valia a pena e quando não. Acho que a aviação também nos ensinava muito sobre isso. A gente estava sempre com várias pessoas diferentes, tendo que passar várias horas ao lado delas. Algumas eram pessoas boas, que só queriam fazer o trabalho delas, chegar no hotel e voltar. Outras se mostravam pessoas ruins, daquelas que adoram fazer uma fofoca maldosa, que adoram puxar o tapete do coleguinha. Como em todo setor e toda profissão. A diferença é que na aviação nós tínhamos apenas o tempo do voo para descobrir quem era quem. Desviei minha mente desses pensamentos que não me trariam nada de bom, porque eu estava um pouco cansada deles. Eu estava a dois dias dormindo e acordando com esses pontos na minha cabeça e já estava cansada deles.

– 20:06
E aí, amiga. Como estão as coisas em Buenos Aires?
Você chega amanhã que horas?


Voltei para o meu sofá, agora com meu prato de risoto e minha taça de vinho branco em mãos, e resolvi mandar uma mensagem para . Apesar de eu não acreditar que receberia uma resposta imediata dela, que deveria estar curtindo o seu dia pela cidade, eu precisava de algum contato. Eu estava cansada de ficar só pensando nisso e eu tinha certeza de que a minha amiga conseguiria me ajudar com algo. Eu não falaria nada sobre ter conhecido , mas eu sabia que ela teria alguma coisa relevante para falar sobre ele. Ela sempre tinha. Terminei meu jantar enquanto via mais um episódio de Good Girls, levei todas as louças para a cozinha e arrumei a bagunça que tinha feito antes de dormir porque teria que acordar relativamente cedo para ir voar. Eu amava morar sozinha porque nada me deixava mais feliz do que a liberdade. Mas nesses momentos eu tinha que confessar que sentia falta da minha mãe. Ela com certeza falaria “pode ir lá, filha. Você já fez o jantar, deixa que eu arrumo tudo”. Sorri com o meu pensamento. Eu já estava morrendo de saudade dos meus pais. E fazia menos de dois meses que havíamos nos visto.
Segui para o meu quarto terminar de arrumar a minha mala para o dia seguinte. Apesar de ser um voo curto, no qual a gente nem saía da aeronave e já voltava, era preciso levar mala com alguns itens indispensáveis dentro. Porque precisávamos estar sempre preparados e na verdade muita coisa podia acontecer. O voo de volta podia ser cancelado por mau tempo, por alguma manutenção na aeronave ou inúmeros outros motivos. E caso isso ocorresse, tínhamos que ter o básico para dormir na cidade e voltar no dia seguinte. Peguei meu celular assim que me deitei para tentar dormir e vi que tinha recebido a resposta que eu tanto queria de .

– 20:52
BA é sempre um encanto, né?
E os argentinos então.. não preciso nem falar. Hahaha
Chego só de noite, amiga. Vou fazer aquele voo que sai daqui às 11am
Aconteceu algo?
O que você tem amanhã e depois?


– 21:43
Você não presta, . Hahah
Não aconteceu nada, só curiosidade
Amanhã vou fazer aquele bate e volta para Aberdeen e no dia seguinte Nápoles.


– 21:45
Ai mas que saco!
Qndo é sua folga?


– 21:46
Hoje. Hahah
Vou ter esses dois dias de voo e tenho folga de novo
Vai estar aqui?


– 21:49
Sim, chego de voo e tenho aqueles 4 dias off
Por favor, eu ainda quero saber sobre LA
N aguento mais essa escala desencontrada


– 21:51
Nem me fale!
Falando em festival, você conhece ? Aquele cantor


– 21:51
Claro que conheço!
Ele é um gato
Todo mundo que se preze conhece
Vou te ligar!


Quase tive uma taquicardia quando li a última mensagem de e corri pedir para que ela não fizesse isso. Eu realmente precisava dormir porque acordaria cedo no dia seguinte, mas também não estava nada na disposição de conversar com ela sobre ele. Ela sempre conseguia me decifrar e saber quando tinha algo errado e a conversa não teria fim nunca.

– 21:52
NÃO, AMIGA!
EU PRECISO DORMIR PORQUE VOU ACORDAR ÀS 5AM
Só perguntei por perguntar. Acho que o vi por lá, só isso


– 21:52
Credo! N precisa gritar, hahah
Jura? Ele é tão bonito pessoalmente quanto pela TV?
E meu Deus, agora que vc me fala isso?


– 21:54
Hahah, porque agora que lembrei
É sério, vou dormir
Senão a gente vai conversar até amanhã
Beijo!


Nem esperei pela resposta dela, até porque eu não responderia mesmo. Simplesmente coloquei o telefone na mesinha de cabeceira, desliguei a televisão e me ajeitei da forma mais confortável possível para dormir. O voo do dia seguinte não era tão cansativo assim, mas eu odiava ir voar caindo de sono. Principalmente se fosse por algum motivo não relevante, como ficar conversando no telefone com a minha amiga até tarde. Meu sono não chegou tão rapidamente quanto eu esperava. Eu continuava pensando em e em tudo o que eu tinha lido sobre ele durante aqueles dois dias. Aquilo já estava me estressando em níveis não recomendados. Mas percebi também que a culpa sobre aquilo era minha, porque nos meus dias sagrados de folga eu permiti que esses pensamentos ficassem grudados em mim sem fazer nada para mudar isso. As únicas coisas que não mudei da minha rotina nesses dias foram minha corrida habitual pelo bairro e minhas idas ao Costa. Nesse tempo eu poderia ter ido assistir ao jogo do Arsenal, ao Hyde Park fazer meus exercícios por lá, à Oxford Street ou até mesmo a Camden Town, que era um dos meus lugares preferidos de Londres. Mas tudo o que fiz foi ficar em casa, alimentando cada vez mais a minha mente maluca e deixando meus pensamentos viajarem para milhas de distância.

xx

Para a minha sorte e felicidade, meus dois dias de voos passaram em um piscar de olhos. Trabalhar sempre foi como uma terapia para mim, até mesmo quando eu estagiava em restaurantes da cidade. Mas trabalhar pelos céus desse mundo era ainda melhor. Na maioria das vezes eu mal via o tempo passar e já estava preparando para pousar no destino. Combinei com de nos encontrarmos no nosso restaurante favorito e que ficava a uma quadra de distância da minha casa. Eu sabia que lá não poderia falar sobre muitas coisas do festival, como o meu encontro com o cantor famoso. Mas isso seria tratado depois no conforto do meu lar mesmo. O tempo todo em que ficamos no restaurante foi preenchido por conversas sobre o cara que ela conheceu em Buenos Aires.
— Eu ainda acho que você deveria fazer o mesmo – era o que ela sempre me dizia sobre encontros durante os pernoites. costumava ter contatos em cada canto do mundo.
— E eu já te falei que não dei conta nem com uma pessoa que estava no mesmo país que eu, imagina com alguém do outro lado do mundo – disse achando graça.
— Exatamente! Talvez esse seja o problema. Você precisa se divertir com pessoas de outros países, desapegar e viver romances pelo mundo todo.
, você fala como se eu não me divertisse. Não é como se eu estivesse vivendo dentro de casa depressiva – repreendi. – Eu apenas não sou como você, mas também saímos por aqui o tempo todo e está bom assim para mim. Eu não preciso de romances pelo mundo. Mas e o Kalel? Foi tranquilo fazer o voo com ele?
Resolvi mudar de assunto porque eu não concordava com o pensamento dela e às vezes me sentia um pouco desconfortável com isso. Claro que ela só falava para tentar me ajudar e me animar, mas éramos pessoas diferentes, com personalidades diferentes e nos divertíamos de formas diferentes. Ela gostava de ir para boates e voltar só no dia seguinte, eu preferia um pub local tranquilo ou até mesmo um restaurante. Apesar de sempre puxar esse assunto, ela sabia me respeitar quando eu resolvia sair dele. Quando pagamos a conta, comecei a sentir um nervosismo que ainda não tinha aparecido porque eu sabia que estava mais perto de falarmos sobre o festival e, finalmente, sobre . E tão logo eu abri a porta de casa, ela já veio me bombardeando de perguntas. Mas apenas uma delas foi respondida, enquanto eu seguia para o meu quarto pegar o notebook:
— Sim, tem algo que preciso te contar.
Quando voltei para a sala, continuava parada da mesma forma de quando saí. Ri da feição dela e do seu congelamento, porque eu já conseguia até imaginar o que estava passando por aquela mente fértil.
— Senta, mulher. E relaxa, não tem nada demais – disse, puxando-a para se sentar ao meu lado. – Seguinte, eu estou ficando louca já com isso e preciso compartilhar com você.
— Você ainda me pede para relaxar! Conta logo.
— Aconteceu um lance muito estranho no festival – continuei fazendo o mistério, enquanto a via se mexer impacientemente. – Lembra que te perguntei sobre o ? Cantor? – esperei por sua resposta, mas ela apenas acenou com a cabeça para que eu continuasse. – Acho que ele estava lá. Quer dizer, ele estava. Já pesquisei na internet para ter certeza de que era ele.
, sério. Onde você quer chegar com isso? – bufou totalmente impaciente. Eu sabia que isso a deixava nervosa, mas eu também não sabia muito bem como tocar no assunto e o que falar sobre. Então estava mesmo enrolando mais do que o normal para contar.
— Acontece que ele estava no festival e eu o conheci.
— Conheceu tipo ficou com ele ou o que?
— Não! Não fiquei com ninguém – falei apressada para tirar aquilo da cabeça dela. – Não que eu não gostaria de ter ficado, porque realmente ele é maravilhoso. Mas não é isso.
, se você vai ficar me enrolando pelo restante da noite eu vou precisar de alguma bebida bem forte. Porque já estou começando a ficar irritada com tanto mistério – até eu já estava ficando incomodada com tanta enrolação, mas não deixei de rir da forma em que ela falou, levantando-se em seguida para pegar a garrafa de gin na cristaleira que tinha no canto da sala.
, foi realmente estranho. Eu o conheci do tipo conversei com ele. Mas parecia que tinha algo a mais, entende?
— Não. Algo a mais do que? – eu não sabia se ela estava me sacaneando ou se ela realmente estava falando sério. Será que ela tinha ficado burra de um dia para o outro?
— Porra, . Quer que desenhe para você entender?
— Sim, porque você não tá falando coisa com coisa. O que exatamente aconteceu? – bufei totalmente impaciente.
— Eu estava sentada em algum canto daquele lugar imenso conversando com você, quando ele falou alguma coisa com os amigos dele. Eu nem os tinha visto ali perto de mim. Mas quando eu ouvi a voz dele aconteceu algo surreal. Eu não sei nem te explicar. Só sei que eu virei quase que imediatamente, como se eu estivesse reconhecendo alguém. Mas obviamente que não estava reconhecendo nada. E quando olhei para o dono daquela voz, ele também estava olhando para mim. Amiga, o olhar dele atravessava a minha alma. Parecia que ele podia ver todos os meus segredos mais bem guardados naquele momento. Foi bem louco.
— Consigo perceber. Você tinha fumado alguma coisa?
— Claro que não, – ri descrente da sua pergunta idiota. – Foi realmente uma loucura. Eu nunca tinha me sentido dessa forma. Eu fiquei com vontade de conhecer aquele cara, sabe? – terminei de contar para ela sobre tudo o que aconteceu, desde o momento do meu pedido para que ele tirasse uma foto minha, até o momento em que nos despedimos na área gastronômica, e fiquei esperando que ela tivesse finalmente entendido tudo e me falasse algo pertinente.
— Eu só queria entender como que você conversa com aquele homem sem saber quem ele realmente é. Mas já desisti de entender esse seu lado desligada do mundo dos famosos.
— Obrigada. Mas enfim, pesquisei sobre ele na internet e vi várias coisas, algumas até não tão boas. Eu sei que é loucura minha, afinal de contas a chance de encontrá-lo de novo é quase zero. Mas eu precisava encontrar ele e saber quem era, de onde vinha, o que fazia.
— Não é loucura, amor. Eu faria a mesma coisa que você – sorriu gentilmente para mim. – E não acredite em tudo o que os sites de fofocas falam. Eu não sou a maior seguidora dele, não sei tanta coisa, mas pelo pouco que já vi ele parece ser gente boa. E por que você não aproveitou para seguir as redes sociais dele?
— Porque acho isso bobagem, amiga. Talvez seja tudo um delírio da minha mente mesmo e para ele não teve importância nenhuma aquela troca de olhares. Sem contar que milhares de pessoas devem segui-lo por dia.
— E daí? Milhares de pessoas não são você – gargalhamos com vontade depois que ela falou isso.
— Enfim, acho que agora que compartilhei sobre isso com você vou ficar mais tranquila e acabar esquecendo. Eu já estava enlouquecendo de guardar isso para mim – admiti um pouco mais calma. – E olha a foto que ele tirou como ficou incrível!
Ficamos mais incontáveis horas bebendo gin, falando sobre todos os detalhes do festival ou apenas fofocando sobre o voo que ela fez com o cara que vivia correndo atrás da sua atenção. Eu amava quando nossas folgas coincidiam, porque sempre aproveitávamos da melhor forma. Comendo, na maioria das vezes em casa mesmo porque ela adorava quando eu ativava o meu modo chef de cozinha, bebendo nossos drinks inventados na hora, indo ao Westfield Stratford (nosso shopping preferido) ou indo a Camden Market. Nós éramos completamente apaixonadas por aquele lugar e a energia que ele tinha. Nos divertíamos com todas as lojinhas incríveis que havia por lá, mas nosso lugar favorito era a Cyberdog. Uma loja futurística, que vendia de tudo um pouco, desde roupas e acessórios até brinquedos sexuais, e que sempre tinha dançarinos homens em plataformas enormes fazendo apresentações incríveis. De vez em quando decidíamos ir até o litoral aproveitar o clima de praia ou a algum outro lugar próximo. Nos últimos três meses estávamos ainda mais grudadas que antes porque, além dela ter sido a pessoa mais importante nesse meu período pós término, há tempos não curtíamos tanto sozinhas. Enquanto eu estava namorando com Derek vivi em função dele e do nosso relacionamento. Não que eu fosse daquelas pessoas que esquecem os amigos, mas por conta da minha rotina corrida e meio maluca que a aviação proporcionava, eu acabava aproveitando meu tempo livre para estar com ele. Não era algo do qual me arrependia e que eu sabia que entendia perfeitamente. Mas eu também tinha ciência de que ela sentia falta dessas nossas loucuras, assim como eu sentia. E talvez por esse motivo estivéssemos ainda mais ligadas uma a outra.


Já fazia mais de uma semana que aquele festival tinha acontecido e também fazia mais de uma semana que eu continuava com aquela mulher desconhecida na minha cabeça. Ainda. Eu estava começando a ficar perturbado sem saber o que fazer. Tinha decidido que não tentaria achá-la em rede social nenhuma. Havia tomado essa decisão logo na segunda-feira após o show, quando estava em estúdio e tudo fluía muito bem. Estávamos em um ritmo acelerado naquele dia com a minha última música escrita. Passamos o dia todo trabalhando nela sem nem conseguir finalizar, diferentemente do que eu estava pensando até. E o dia estava tão atarefado que eu mal tive tempo de pensar em qualquer coisa que não fosse no meu trabalho. Não que eu não tenha me lembrado dela em nenhum momento. Porque lembrei. Afinal de contas, a música tinha sido escrita em um dia extremamente inspirador e sendo ela a minha inspiração. Mas não foi mais do que uma ótima lembrança. Por isso, acreditei que toda a minha euforia do dia anterior tinha sido passageira. E então prometi para mim mesmo que não me daria ao trabalho de pesquisar por ninguém na internet. Talvez eu não quisesse me frustrar. O grande problema foi que, assim que coloquei minha cabeça no travesseiro para dormir, ela praticamente se materializou. Minha mente traidora conseguiu ser tão eficaz, que eu tinha certeza que conseguia sentir o perfume dela pelo quarto. Uma insanidade sem tamanho e eu tinha consciência disso.
Diferente do que pensei, ela permaneceu nos meus pensamentos por todos aqueles dias. Ela estava presente assim que abria meus olhos pela manhã e era a última coisa que eu imaginava antes de fechá-los à noite. Para a minha sorte e gratidão, ela aparecia em minha mente durante o dia para me inspirar em alguma letra. Não era nada perturbador quanto estava sendo quando eu ia dormir. E eu achava que não estava atrapalhando tanto o meu rendimento. Mas aquela semana, apesar de muito produtiva para novas criações de letras, não estava sendo tão produtiva assim para as gravações. Eu realmente estava mais distraído do que o normal, tendo que voltar inúmeras vezes para as mesmas estrofes porque sempre errava em algum ponto. Obviamente que isso não passou despercebido por ninguém, muito menos por e Ethan, que me conheciam melhor do que minha mãe. Mas apesar dessa questão não ter passado batida por meus amigos, nenhum dos dois se manifestou até a chegada do fim de semana. Eu realmente estava irreconhecível. Estava completamente desanimado e aproveitei para dormir por boa parte do dia, já que minhas noites de sono durante aquela semana não tinham sido tão boas assim. Quando a noite chegou e ficamos dividindo uma comida tailandesa enquanto assistíamos TV, não aguentou segurar mais o que ele tinha guardado e já foi logo me chamando a atenção.
— Tá legal, desembucha!
Foi a primeira coisa que ele falou em meio ao silêncio que fazíamos. Eu e Ethan nos entreolhamos sem entender muito bem para quem estava sendo direcionada aquela frase. Mas no fundo eu sabia que aquilo era para mim. Eu sabia que eles tocariam no assunto em algum momento. Até porque, a semana estava tão diferente do que eu tinha imaginado, que nem as genuínas manifestações de preocupação do Ethan eu tive. Ele não havia tocado mais no assunto depois que o encerramos no domingo pós-festival. Tentei parecer indiferente sobre a pergunta de e não estender qualquer coisa que eles fossem falar, mas não fui bem sucedido. Parecia que a indignação dele tinha acendido uma faísca em Ethan, que acabou fazendo um sermão sobre o quanto eu estava desligado e o quanto isso estava prejudicando o andamento do álbum. Eu me sentia mal por isso, mas não era algo que estava fazendo intencionalmente.
— Você achou algo que não gostou? Ou não achou nada?
Mais uma vez a fala de veio sem aviso prévio. Eu sabia sobre o que ele se referia. E eu não tinha contado para eles que não havia pesquisado nada. Não havia falado que eu prometera para mim mesmo que não procuraria. Talvez porque eu soubesse que eles me repreenderiam por isso. Quando expliquei para os dois sobre os meus pensamentos na segunda e sobre a decisão que tomei sobre o assunto, eles pareceram ponderar sobre. Ethan foi o mais sutil e quem mais entendeu. se indignou na mesma hora que ouviu minhas palavras e saiu do ambiente.
— Ele não está puto de verdade, você sabe né? – foi o que ouvi de Ethan. E de repente com a mesma velocidade que saiu da sala, ele voltou falando para responder.
— Claro que estou puto! Eu estou puto para caralho, inclusive!
E saiu. Sem falar mais nada. Deixando-nos completamente atônitos com sua atitude e sua fala. Sabíamos que não era verdade. Ele não estava puto para valer. não ficava puto para valer a não ser que fosse algo realmente muito grave. Como quando seu pai traiu sua mãe e ele foi o responsável por descobrir isso. Ele não ficava puto nem quando perdia algum trabalho já terminado nas fotografias dele. Por essa razão, Ethan e eu gargalhamos até perdermos o ar. conseguia me fazer rir até quando não tinha graça nenhuma aparente. E naquela noite ele ainda foi responsável por muitas das minhas risadas. Porque meia hora depois da sua saída teatral da sala, ele voltou todo arrumado e obrigando que fôssemos nos arrumar para ir ao bar. Nós ainda tentamos reverter a situação, porque eu não estava mesmo na vibe de ir para lugar algum e Ethan sempre tinha trabalho dobrado quando saíamos. foi completamente irredutível sobre a noite fora e só faltou me levar para o quarto a chutes.
No fim das contas, eu tinha muito a agradecer a ele. Ele conseguiu tornar o meu dia mais ou menos em um excelente dia. Nós três voltamos para casa quando já estava amanhecendo, eu tinha arrumado o contato de uma mulher que não parava de me olhar no bar e passou as vergonhas que sempre passava depois de beber demais. Ele provavelmente só acordaria na hora do jantar, reclamando de dor de cabeça e prometendo que nunca mais beberia tanto. Claro que a promessa só durava até a bebedeira seguinte. Naquele domingo eu acabei sendo um inútil assim como fui por boa parte do sábado, mas dessa vez por conta da quantidade de álcool que tinha consumido. O que por um lado foi muito bom, porque me poupou dos vários pensamentos que eu estava tendo ao longo daquela semana. Mas em contrapartida, eu acreditei, mais uma vez, que isso significava estar finalmente livre das minhas ilusões e concepções. Achei que provavelmente o que tinha me faltado durante toda aquela semana havia sido justamente uma saída com meus amigos, muitas risadas, mulheres bonitas e até mesmo contatos salvos na agenda. Mas no dia seguinte, lá estava a desconhecida encantada presente na minha cabeça.
Já estávamos quase chegando a mais um fim de semana, com uma sequência de dias produtivos, porém não tanto. Por isso, quando o pessoal da produção resolveu dar uma pausa para comprar algumas porcarias no mercado, eu me vi finalmente respirando em paz. Assim como havia feito um dia antes do Coachella acontecer, fui para os fundos do estúdio tentar relaxar um pouco naquela área que eu tanto gostava e fumar um cigarro. Comecei a considerar se eu realmente tinha feito a escolha certa em não tentar procurar aquela mulher. Eu sabia que minhas chances eram muito pequenas, eram milhares de espectadores por dia e eu não tinha a menor ideia de como começar a fazer uma busca. Mas não procurar também não tinha me ajudado em nada. Eu havia tomado essa decisão por achar que já estava livre dos meus pensamentos loucos sobre ela, mas uma semana e meia depois eu continuava na mesma. Suspirei um pouco cansado de toda essa história. Nos primeiros dias aqui em Los Angeles meu grande problema tinha sido a inspiração que não vinha ou minhas letras apenas focadas em Kimberly. E agora meu grande problema tinha, provavelmente, outro nome e sobrenome, ainda desconhecidos por mim. Bom, pelo menos não podia reclamar de estar com Kimberly na cabeça ainda, foi o que pensei rindo. Decidi naquele momento que quebraria a minha promessa e procuraria por aquela mulher. Ainda que minha procura não fosse efetiva. Pelo menos eu poderia falar que tinha corrido atrás. Talvez meu problema fosse o fato de ter desistido sem nem não menos tentar. E quem sabe assim eu até me esquecesse dela.
— Porra! – Estava tão concentrado no meu papel de Sherlock Holmes que nem percebi o pessoal chegando e muito menos se jogando ao meu lado na rede, o que quase resultou em um tombo épico e ridículo meu. E o retardado só fez rir do meu susto e quase queda.
— Foi mal! – falou ainda rindo. – Mas e aí, cara. Tudo tranquilo?
— Sim, tranquilo.
— Tem certeza? Você ‘tá meio caladão hoje.
— Estou com sono.
— Mesmo? – olhei pra ele meio impaciente, apesar de saber que isso não o intimidaria. – ‘Tá bom, mas você sabe que eu tenho razão.
— Eu não sei como aguento ser seu amigo ainda, cara – dei uma risada debochada. – Não é nada demais, mas resolvi procurar a desconhecida nas redes sociais.
— Cacete, até que enfim!
— O que aconteceu? – Ethan se aproximou perguntando.
— Aconteceu que você está me devendo 50 libras – foi a resposta de , seguida de um sorriso vitorioso.
— Ah não, cara. Não acredito.
— E pode me pagando agora mesmo porque você adora me dar calote.
— Pera aí, o que ‘tá acontecendo? – eu estava completamente perdido na conversa dos dois, mas começava a ter uma pequena ideia do que poderia ser aquilo tudo. E eu não podia nem acreditar na idiotice deles.
quis apostar que não passaria dessa semana para você procurar alguma coisa daquela mulher na internet. Pelo visto ele estava certo – Ethan respondeu fingindo irritação.
— Claro que eu estava certo. Desde quando eu não estou certo?
— Tipo há menos de meia hora quando você cismou que o caminho de volta era pela rodovia.
— Isso não conta, Ethan. Vocês que me fizeram confundir. E você sabe que sou ruim de localização também – eu e Ethan gargalhamos dele, porque era bem verdade mesmo. Ele era péssimo em se localizar, vivia se perdendo, chegando atrasado porque fazia caminhos errados e mesmo com 28 anos ele ainda não conseguia entender o sistema de metrô de Londres. — Mas então quer dizer que você desistiu daquela ideia e resolveu procurar a Coach? – entortei a boca pelo apelido que eles começaram a usar ao falar sobre ela. Ideia do , é óbvio. Ele reclamou por sempre falarmos “a desconhecida do festival”, “a mulher desconhecida” ou qualquer coisa do tipo e achou que seria melhor um apelido. E de repente surgiu com esse nome sem noção porque ele disse que “tem tudo a ver com o lugar onde vocês se conheceram e imagina só se ela é uma coach mesmo. Seria hilário!”.
— Eu odeio esse apelido. Só pra constar.
— Não posso fazer nada se você não tem a criatividade e o bom senso que eu tenho.
— É sério isso? – ele conseguia ser mais idiota cada vez que falava alguma coisa. – Enfim, desisti da ideia e resolvi procurá-la.
— Conseguiu alguma coisa? – neguei com a cabeça para Ethan. – Mas você começou só agora né? Ainda é cedo para ter algo.
— Boa sorte, cara. Eu fiz umas pesquisas rápidas por esses dias e não achei nada – confessou . – Será que ela não tem rede social?
— Você é tão animador e positivo, cara. Obrigado por isso.
Nós três rimos da tentativa de conselho de , que normalmente era daqueles que te deixava ainda mais pra baixo. Mas fiquei feliz por saber que ele tinha feito alguma pesquisa para tentar me ajudar. Mesmo que nenhum deles tenha tocado muito no assunto por esses dias, principalmente quando estávamos no estúdio, eu sabia o quanto ambos se preocupavam comigo e me ajudariam. E isso ficou mais do que claro quatro anos atrás, quando eu perdi meu bem mais precioso do mundo e me senti completamente sozinho nesse mundo gigantesco. Com certeza se não fosse por eles dois, eu não estaria aqui em LA preparando mais um álbum.
, pensei em uma harmonia para aquela música que você mostrou ontem. Quer ver? – fomos interrompidos por Damon, o outro produtor do álbum.
— Claro! Bora lá ver isso e finalizar mais uma.
Voltamos para dentro do estúdio para ver a harmonia e dar continuidade no trabalho que tinha sido interrompido mais cedo. Sempre que falavam sobre algum arranjo para uma nova canção que tínhamos feito ou surgiam com alguma letra, eu ficava empolgado. Estávamos trabalhando na quarta música do álbum. Durante meu tempo em hiatus eu escrevi muitas músicas, mas quando chegamos aqui no estúdio eu acabei não curtindo muito o que eu tinha feito. Não pareciam fazer muito sentido naquele momento para serem gravadas. E as letras que fiz também no período antes de vir para Los Angeles, assim que meu namoro acabou, não estavam me agradando. Então nos vimos sem letras prontas e muito trabalho para ser feito. Não estávamos exatamente atrasados, mas precisava confessar que pensei que estaríamos mais adiantados. E provavelmente estaríamos, se tivéssemos usado as músicas que já estavam escritas. Mas eu estava tranquilo sobre isso, porque eu sabia que estava fazendo o meu melhor para o novo álbum e eu tinha certeza que ele ficaria da forma em que eu idealizava. Não adiantava de nada colocar músicas que eu não me sentia tão confortável apenas para que o trabalho fosse concluído mais rapidamente. Eu já havia passado da fase de fazer o que os outros queriam que eu fizesse e de só receber ordens. Não por nada, eu nem gostava de dar ordem e, menos ainda, sabia fazer isso. Mas a verdade é que no começo da carreira a gente acaba acatando muito tudo o que o nosso empresário fala e quer. Ainda que não estejamos de acordo. Ainda que não seja muito o nosso estilo.
Com o tempo a gente vai aprendendo a falar alguns “não”, às vezes até muda de representante, amadurece e percebe que criar músicas vai muito além de apenas colocar algumas letras em um papel, cantar com umas batidas de fundo, lançar para o mundo e ganhar dinheiro. Com o passar dos anos, a gente aprende que ganhar dinheiro é consequência e não prioridade. Assim como a fama, que sendo bem sincero, nem é tão boa assim. Quero dizer, ela faz parte do combo e é muito importante para qualquer pessoa que queira viver da sua arte. Entretanto a fama não é essencial. Prova disso são as milhares de pessoas que passam a vida cantando em bares do bairro, estreando em peças teatrais da comunidade, apresentando quadros em pequenas exposições ou qualquer outra coisa assim. O reconhecimento é diferente, esse sim é fundamental. Seja para o artista de TV ou o artista de bairro. Na verdade, o reconhecimento é indispensável para qualquer pessoa e qualquer trabalho que seja. Mas de forma alguma, em nenhum momento da minha vida, quis parecer ingrato por tudo o que a fama me trouxe. Até porque foi por meio dela que eu conheci as duas melhores pessoas que estão presentes na minha vida. Foi por meio dela que eu pude sair de Cambridge para ir morar em Londres. Foi por conta da minha fama que eu conheci boa parte do mundo. E também foi por conta dela que eu pude dar vida aos meus projetos pessoais que eram tão importantes para mim. Eu jamais seria ingrato por tudo o que tenho hoje. Mas como tudo nessa vida, a fama também tinha seus contras que às vezes nos estressavam. E a gente tinha que aprender a lidar com eles, balancear as coisas boas e as coisas ruins e encontrar o meio termo para seguir feliz e realizado. E era por esse motivo que eu não queria apressar a produção do álbum, mesmo que ele levasse muito mais tempo do que eu cogitava. Dessa vez tudo seria feito na mais perfeita ordem, com a minha aprovação para absolutamente cada vírgula das músicas e só seria finalizado quando eu realmente estivesse totalmente satisfeito com o trabalho feito.


Cinco


Aquele mês havia passado incrivelmente rápido. E tudo o que eu parecia ter feito nesse tempo era trabalhar, dormir, conversar com e pesquisar sobre . Eu me tornei aquilo que sempre critiquei na minha amiga, uma fã stalker. Não exatamente fã, porque apesar de gostar bastante das suas músicas eu não procurava por conta disso, mas stalker com certeza. Eu acabei criando uma rotina péssima, devo admitir, de sempre entrar no perfil de Instagram dele para ver as novas publicações. Eu acompanhei todas as cinco novas publicações. E também acompanhei todos os milhares de stories postados. Como quando ele divulgou um teaser de pouco mais de quinze segundos de uma das novas músicas. Ou das vezes em que ele esteve em Santa Monica, Long Beach ou Beverly Hills. Também tinham os vídeos que ele fazia dentro do estúdio, sem som algum para que não vazasse algo que não deveria ser visto ainda. Algumas fotos que provavelmente eram tiradas por seu amigo fotógrafo, . Descobri que era esse o nome do amigo. E eu também passei a conferir algumas publicações dele. Via também quando ele publicava alguma noite agitada ao lado dos amigos. E essas inclusive eram as que eu menos curtia ver. Não que eu pudesse achar algo ruim, mas não poderia ser hipócrita comigo mesma. Eu não gostava. Mas esse era um problema apenas meu e de mais ninguém.
Depois daquela noite na companhia de quase não conseguimos mais nos ver. Nossas escalas se desencontraram e isso também me frustrou. Eu tinha alguns outros amigos para sair e também adorava sair sozinha, mas ela fazia falta. Nas poucas vezes que nos vimos foram apenas para compartilhar um café e bater um papo rápido antes da outra ter que ir trabalhar. Ainda assim eu não poderia dizer que não me diverti nesse tempo. Eu consegui aproveitar alguns bons pernoites, como o do Vietnã e da Colômbia. Dois lugares que eu amava e que eu sempre encontrava algo interessante para fazer. No meu voo para o Vietnã eu consegui, finalmente, ir até a praia de Non Nuoc que também ficava em Da Nang e foi uma das melhores experiências de todas. Eu estava muito acostumada a ficar na praia de My Khe porque ficava próxima ao hotel e porque realmente valia a pena também. Acabava sempre deixando para visitar Non Nuoc depois, já que eu gastaria mais tempo em um transporte até lá. Mas definitivamente valia muito a pena. A praia era mais calma, com uma vista maravilhosa, água cristalina e coquetéis incríveis. E em Bogotá, na Colômbia, eu fiz o que eu faço de melhor por lá, eu bebi até dizer chega. Bogotá era simplesmente encantadora demais, com pontos turísticos de fazer a gente perder o fôlego, uma moeda local barata, homens sensuais, cervejas incríveis e bares para lá de animados. Era quase impossível ir para Bogotá e a tripulação toda não querer sair à noite. A vida noturna de lá era de outro mundo de tão agitada. A gente sempre achava que não podia encontrar um bar diferente na Zona Rosa, mas sempre existia. E ainda que não existisse, qualquer um deles valeria a pena ir. Até mesmo as casas noturnas de lá eram incríveis. Talvez esses meus voos também tenham ajudado para que eu nem visse o mês passando.
Mas agora, deitada na minha cama que eu tanto amava e pronta para dormir, eu estava mais preocupada e ansiosa com o meu próximo destino: Las Vegas. E este, depois de muitas tentativas, seria ao lado de . Nós vivíamos solicitando pelo menos um voo em comum no mês, porque sabíamos o quanto tornaríamos aquele momento inesquecível. Muitas vezes fomos contempladas, mas nunca para Vegas. E agora, solteira, eu só conseguia imaginar as loucuras que ela prepararia. A máxima de que “o que acontece em Vegas, permanece em Vegas” era muito real. E as pessoas costumavam levar muito a sério. Enquanto estive solteira, eu também levei muito a sério esse estilo de vida. Mas há um bom tempo que eu não sabia o que era me divertir de verdade por lá. Vegas era outro destino quase impossível de não atrair toda a tripulação para uma noite de bebedeira. E como há muito tempo eu não fazia aquele destino, eu iria me permitir. Sem me preocupar com o dia seguinte. Eu apenas curtiria, como tanto me pedia nos últimos tempos. Além de todas as questões que Las Vegas já incluía, aquele era um dos melhores voos de todos da empresa. Nós chegávamos antes das oito da noite do horário de lá e saíamos apenas às nove horas da noite do terceiro dia. As pessoas mais animadas conseguiam aproveitar já desde a primeira noite, sem descanso. Eu não costumava ser uma delas. Eu preferia descansar tudo o que precisasse, para aproveitar de verdade o dia seguinte inteiro. Minha amiga era uma das que curtia desde o momento em que chegava e estava me enchendo de mensagens sobre isso desde que vimos que teríamos o voo. Ri sozinha ao ler mais uma das suas tentativas.

– 22:33
Por favor, POR FAVOR, vamos no Coyote amanhã
Nunca mais te peço nada


Para a infelicidade da minha amiga, do meu descanso eu não abria mão. Nunca. Muito menos para ir em bar estilo balada. Sem contar que eu queria fazer muita coisa no segundo dia em Vegas, precisaria descansar muito se quisesse curtir a noite.

– 22:37
Hahah até parece que não pede
Mas não dá, amiga. Você sabe que eu preciso descansar
E eu tenho certeza que se você não fizer o mesmo, não vai aguentar toda a nossa programação para o dia seguinte até a noitada.


– 22:38
Nossa, como vc é chata com esse lance de descansar, parece uma velha
E até parece que vc n me conhece, eu sempre aguento. Haha


– 22:40
Sou mesmo, obrigada
E se você abrir a boca durante o dia para reclamar de cansaço, vou te largar sozinha
Por que você não chama o pessoal para sair com você? Sempre tem alguém que topa


Eu sabia que ela falaria algo como “mas eu quero que você vá!”, mas eu realmente não cederia sobre isso. E ela sabia muito bem, ela estava fazendo apenas uma última tentativa. Ou talvez penúltima. Provavelmente a última tentativa seria no saguão do hotel.

– 22:55
N quero ir com o pessoal!
Mas ok, vc venceu
Podemos pelo menos pedir alguma coisa gostosa para comer no quarto do hotel?


– 22:58
Cara, você quer que eu passe mais de 10 horas em voo com você e ainda te encontre para
jantar no mesmo dia?
Me dá um descanso! Hahah


– 23:00
Vai se foder,
Já está marcado. Seu quarto. Depois do voo.
Boa noite


Nem me dei ao trabalho de respondê-la depois daquilo. E eu sabia que desse encontro eu não teria saída, mas estava tudo bem também. Coloquei mais um episódio de Good Girls para assistir enquanto o sono não vinha, aproveitando que não teria que acordar cedo no dia seguinte porque o voo só saía na parte da tarde. Acabei não entendendo praticamente nada daquele episódio, porque minha cabeça estava mais ocupada com outras coisas, tipo o voo do dia seguinte, a saída com por Vegas e tudo o que ela poderia estar programando. Inevitavelmente pensei no meu karma daquele mês, porque era meu primeiro voo para os Estados Unidos depois do fatídico festival. Eu não conseguia não pensar na loucura que aquele encontro foi.
Acordei mais cedo do que eu esperava e aproveitei para dar a minha corrida pela vizinhança e comprar o meu frapuccino de caramelo que eu tanto era viciada. Os atendentes do Costa sentiam até a minha falta quando eu não passava por lá. Palavras deles. Fiz toda a minha rotina pré voo habitual e antes mesmo de eu pensar em avisar , ela estava me mandando mensagem para falar que estava chegando com o Uber. Como morávamos relativamente perto, sempre que dava fazíamos a divisão da corrida. E se eu achava que estava empolgada e ansiosa com aquele voo, com certeza não tinha visto nada. Parecia até que nunca tínhamos viajado juntas, seja a trabalho ou a passeio. Ela foi tagarelando da minha casa até o aeroporto e ficou ainda mais empolgada quando o chefe do voo nos deixou juntas na classe executiva. O que era ótimo porque, além de tudo, ela era uma pessoa incrível para se trabalhar. O voo estava lotado, mas foi muito mais tranquilo do que eu esperava. Eu acreditava muito no poder da energia e na lei da atração. Dificilmente alguma coisa saía errado em voos com uma tripulação majoritariamente boa.
— Você tem certeza que não quer sair hoje? O voo foi tão tranquilo – só não gargalhei porque estava uniformizada e no saguão do hotel, mas foi a minha vontade. Eu tinha certeza de que ela perguntaria isso assim que chegássemos lá.
— Amiga, de verdade eu prefiro descansar hoje. Já são quase nove da noite, até entrar no quarto, tomar banho e me arrumar para sair, já vou querer estar de volta – respondi, vendo-a fazer uma careta. – Mas acho que a Hilary e o Chris animam, fala com eles – completei.
— Não, tudo bem. Eu estou um pouco cansada também, animaria se você fosse. Mas a gente pede um lanche gostoso para comer no quarto mesmo. Claro, se você quiser.
— Claro que quero, . Quer pedir daqui mesmo ou prefere ver com calma depois?
— Vamos pedir logo, eu estou morrendo de fome – respondeu com um sorriso maroto.
Depois que fizemos nosso pedido, seguimos cada uma para seu quarto. Por fim ninguém quis sair naquela noite, porque estavam todos guardando energia para o dia seguinte. O lanche também não demorou muito para chegar, mal tive tempo de fazer minha rotina pós voo com a calma que eu gostava. Mas tudo bem também porque, assim como , eu estava morrendo de fome. Acabamos pedindo um vinho também para tomar, mas quando vimos estávamos bebendo as cervejas que tinham no frigobar e ficamos batendo papo até bem mais tarde do que eu gostaria. Acordei no dia seguinte com aquela dor de cabeça não tão forte, porém chata, de quando misturava vinho com cerveja. parecia ainda pior do que eu quando encontrei com ela no café da manhã. Estava usando óculos escuros para disfarçar a cara de morte dela e se entupindo de suco de laranja para tentar melhorar. Decidimos por ficar aproveitando a piscina do hotel na parte da manhã e marcamos com o restante da tripulação de nos encontrarmos às nove da noite no saguão para sairmos. Hilary acabou se juntando a nós duas e eu me questionei por que não tinha mais voos com ela. Era uma das pessoas mais queridas e simpáticas que eu havia conhecido em toda a minha vida.
— Vocês se importam se eu for com vocês? – Hilary perguntou depois de nos ouvir falar sobre o passeio da tarde nos shoppings e outlets.
— De jeito nenhum – respondi convicta. – Na verdade íamos te chamar, mas vimos que o pessoal tinha te chamado para sair antes.
— Ah sim, eu até tinha pensado em ir. Mas não estou muito a fim de ficar nesse sol o dia todo – rimos concordando.
— Não rola. Eu só estou aqui porque me convenceu – admitiu. – Eu e o sol não somos os melhores amigos. Ela que gosta de ficar torrando.
— Não gosto de ficar torrando, mas nosso país não tem esse clima. Então sempre que dá eu aproveito mesmo. Sendo bem sincera, eu não gosto tanto assim de sol.
— Como não? – interferiu indignada enquanto Hilary apenas ria.
— Não mesmo. Eu gosto de pegar sol assim, na beira da piscina. Mas não sou fã de ficar passeando no sol.
— Mas alguém gosta?
— Tem doido pra tudo, minha cara Hilary – finalizou.

Continuamos em uma conversa sem muita importância sobre o clima do nosso país e as vantagens de poder aproveitar outros climas também, em diferentes países. Conversar com elas duas era fácil e divertido demais. A gente acabava prestando atenção em todos os hóspedes que apareciam por lá. Sempre tínhamos algum comentário para fazer ou algum caso inusitado de algum voo para contar, apesar de evitarmos falar sobre isso. Porque a gente já vivia demais em função da nossa profissão para ainda em nosso momento de descanso só conversarmos sobre. Por esse motivo também eu acabava evitando encontros com a tripulação nos pernoites.

— Amiga, e o bonitão do ? – depois de um momento apenas aproveitando o sol, me questionou. Elas já estavam na sombra curtindo os drinks e eu levei até um susto quando ela perguntou aquilo.
— Como assim? O que tem ele?
, como que “como assim”? Como ele está, tem visto algo? – Hilary ficava apenas trocando a atenção de uma para outra sem entender muita coisa.
— Ué, . Eu sei lá como ele está. Você fala como se eu fosse íntima dele – ri descrente. Fazia muito tempo que ela não perguntava nada sobre ele. Depois que eu decidi que não o seguiria ou qualquer coisa do tipo ela ainda insistiu um pouco, mas logo desistiu porque viu que eu não cederia.
— Mas não é possível que você simplesmente se esqueceu que ele existe e não procurou mais nada – ela acusou.
— Não falei que me esqueci, mas não sou amiga dele para saber como ele está. Eu hein.
— Desculpa, mas quem é ?
. Ela o conheceu no Coachella mês passado – fiz uma careta da boca grande da minha amiga. Claro que não era um segredo que eu tinha o conhecido e ainda que fosse eu não me importaria por Hilary ficar sabendo, mas eu sabia que a não falaria apenas aquilo. Ela encheria a cabeça da outra com as maluquices dela.
— É aquele cantor, não é? – confirmei com a cabeça para Hilary. – E aí, ele é bonito pessoalmente?
— Totalmente. Bonito ainda é pouco para o que ele é – confessei rindo.
— E rolou alguma coisa?
— Não, mas poderia – mais uma vez respondeu por mim, enquanto eu olhava para ela indignada.
— Não poderia não.
— Não acredita nela, Hilary. Ela mente.
— Cala a boca, . Você quem está mentindo. Você nem estava lá para saber.
— E nem precisava – ela tinha a voz cheia de deboche. – Hilary, o cara foi atrás dela no festival. Me diz se poderia ou não ter rolado mais alguma coisa, por favor.
— Nesse caso...
— Meu Deus, você é muito maluca, sabia? – interrompi Hilary totalmente descrente da fala da minha amiga. – Ele não foi atrás de mim, Hilary. Acabamos nos encontrando na fila de um stand de cerveja que gostamos. Só isso! – finalizei encarando .
, você acredita mesmo que foi por acaso?
— Claro que sim, .
— Mas por que ele não poderia ter ido por querer? – Hilary questionou.
— Porque foi tipo muito tempo depois, amiga. Nós estávamos assistindo ao show da Florence and the Machine próximos. Acabamos trocando algumas palavras porque pedi para que ele tirasse uma foto minha – comecei a explicar calmamente para que ela não ficasse com aquela ideia da doida da . – E aí depois de muito tempo, tipo um show inteiro, acabamos na fila. Foi totalmente por acaso.
— Mas quem te garante sobre isso?
, você acha que ele ia mesmo ficar tomando conta de mim, depois me seguir até lá no lounge para trocar mais meia dúzia de palavras? – ela só podia estar de brincadeira com a minha cara.
— Ela tem razão, – para a minha felicidade a Hilary não era desmiolada como minha amiga.
— Obrigada – sorri gentilmente para ela e me virei para com cara de deboche.
— Masss, ele realmente pode ter feito também – Hilary completou e eu fiquei com a boca completamente aberta de espanto. Eu não conseguia acreditar nisso.
— Viu! – comemorou. – Depois eu que sou a maluca.

Após esse comentário eu simplesmente me levantei da espreguiçadeira que estava e fui dar um mergulho na piscina, enquanto as duas permaneciam rindo. Eu sabia que aquele segundo encontro não havia sido proposital, claro. Mas era cabeça dura e maluca demais para acreditar em mim e ver as coisas com clareza. E o pior de tudo é que ela acabou conseguindo mais uma para o clube dela e eu não estava acreditando nisso. Será que as horas acordadas em voo estavam afetando os neurônios daquelas duas? Ou talvez a quantidade de bebida. Precisava ficar de olho nos próximos meses, talvez fosse caso de terapia. Passei um tempo nadando, para que elas esquecessem sobre aquele assunto e, para o meu alívio, quando voltei as duas já tinham pedido mais de uma porção de comida para dividirmos e estavam falando empolgadas sobre a noitada que faríamos. Pelo visto elas dariam trabalho hoje a noite. E eu mal podia esperar para ver isso.

Xx

Estava terminando de passar meu batom quando recebi uma mensagem de perguntando onde eu estava. Juntei as minhas coisas dentro da bolsinha a tiracolo e me olhei mais uma vez no espelho antes de deixar o quarto. Eu realmente tinha gostado das minhas escolhas para a noite de hoje. Estava calor em Las Vegas, mas ainda assim era uma saída noturna, então juntei três peças que eu amava: minha saia curta de cintura alta de couro, uma camisa oversized listrada e meu Vans de cano longo nos pés. Era totalmente o meu estilo, mas eu tinha certeza que minha amiga falaria algo sobre o meu tênis. Eu gostava de me sentir confortável, diferente de , que gostava de arrasar com uma sandália de salto enorme. Esse tipo de coisa não combinava comigo e eu só usava quando realmente era necessário. E dificilmente eu julgava ser necessário esse tipo de calçado nos meus pernoites. Até mesmo ali em Vegas era indispensável para mim.
— Eu não acredito que até aqui você vai usar essa coisa nos pés – ri do comentário de , porque ela nem me deixou chegar perto do pessoal direito para falar o que eu já sabia que ela falaria.
— E vou usar em todos os lugares que eu quiser. Que implicância – rebati.
— Eu adorei, ficou a sua cara mesmo e você tá incrível – Hilary falou me fazendo sorrir satisfeita.
Depois de esperarmos mais um pouco para o restante da tripulação descer, seguimos para o bar escolhido da noite, o Dick’s Last Resort. Eu amava aquele bar e sempre me empolgava demais por ir lá. Era um lugar simples, mas com drinks enormes e deliciosos, comida boa e atendentes de outro mundo. Era sempre uma experiência única e super divertida. Chegamos no bar já pedindo por algumas jarras de cerveja para começarmos a noite, porque depois acabava sempre cada um pedindo por algum drink diferente. Eu e evitávamos conversar sobre coisas de voo, mas quando estávamos em grandes grupos como aquele, era impossível esse assunto não vir à tona. E algumas vezes era até engraçado.
— Gente, eu juro. Eu fiquei de babá da mulher pelas sete horas que faltavam de voo – falei, rindo das expressões do pessoal.
— Mas como assim? O que você teve que fazer?
— Eu só fiquei sentada, em frente ao toalete e toda hora batia na porta para saber como ela estava. Minha vontade era de jogar aquela doida na privada e dar descarga assim como ela fez com o cigarro dela – , que já tinha escutado aquela história assim que aconteceu, soltou um “deveria mesmo”, fazendo todo mundo rir. – E o pior é que no fim das contas a mulher estava fazendo amizade comigo, anotando o número de telefone dela em um papel e falando para eu avisá-la quando eu estivesse pela cidade dela – completei gargalhando.
— Cacete, essa era louca mesmo! – Evans exclamou descrente. – Mas ela foi presa quando chegou né?
— Ah sim, com certeza! Quando pousamos entraram uns sete policiais para tirar a mulher da aeronave.
— O vício faz as pessoas perderam a noção das coisas, né? Olha o risco que ela causou para todo mundo – um dos copilotos do meu voo, que sinceramente eu não me lembrava o nome agora, falou sendo lúcido demais para a quantidade de álcool que estávamos ingerindo.
Dei uma risadinha contida pelo meu pensamento, porque obviamente ficamos preocupados com o acontecimento no dia, mas hoje era motivo de piada o meu momento de babá e a mulher se tornando minha amiga. E eu preferia levar desse jeito. Mas eu já tinha reparado que ele era um pouco chato demais. Assim como já tinha reparado toda vez que ele tentava uma aproximação comigo. Sutilmente eu me afastava ou desconversava para que não ficasse um clima desconfortável. Como naquele momento. Assim que percebi que ele estava tentando puxar um assunto particular comigo aproveitando a mudança no foco da conversa, tratei de pegar meu rumo até o banheiro com a desculpa de que as cervejas já estavam fazendo efeito. De fato aproveitei para fazer minhas necessidades, mas enrolei um pouco mais ajeitando meu cabelo que estava preso em um rabo de cavalo alto e retocando o meu batom. Quando eu me levantei da mesa com a intenção de desviar de um possível assunto indiscreto, não me passou pela cabeça o que aconteceu quando saí do banheiro. Assim como não me passou pela cabeça quando eu acordei de manhã. Ou quando eu estava tomando café hoje. Nem quando eu estava me arrumando para vir ao Dick’s com toda a tripulação. E tampouco durante todo esse mês. Mas quando abri a porta do banheiro, me deparei com a última pessoa que eu imaginaria naquele lugar. estava escorado na parede próximo às portas, com o celular em mãos, uma calça perfeitamente alinhada naquele corpo delicioso, um Vans azul e uma camisa preta simples, mas impecável, que estava dobrada até a altura dos cotovelos deixando suas inúmeras tatuagens a mostra. E quando eu bati os olhos nele, prestando atenção em cada mínimo detalhe, dos pés até a cabeça, reparei que ele tinha um sorriso indecifrável e um olhar misterioso. Não faço a menor ideia de quanto tempo passei o encarando, sem saber o que falar ou o que fazer. E com certeza eu estava com a maior cara de supresa misturada com excitação.
— Então é você mesma! – ele começou falando, ainda com o mesmo sorriso, enquanto eu tentava me recompor. – Lembra de mim?
— Uau! – exclamei ainda procurando por palavras melhores. – Sim, é claro. , né?
— Isso. Do Coachella. – sorriu agora parecendo mais aliviado e parecendo esperar por alguma reação minha. Eu ainda estava completamente descrente que aquilo estava acontecendo.
— Nossa, me desculpa. Eu estou assimilando esse encontro ainda – expliquei dando uma risadinha sem graça. – Que loucura!
— Tudo bem, eu te entendo. Eu também levei um tempo para acreditar que era você mesma por aqui.
— Você já tinha me visto?
— Sim. Vi quando você chegou com seus amigos, mas de começo achei que fosse apenas alguém muito parecida – ele admitiu, me lançando um sorriso de lado. Meu Deus, ele tinha tantos sorrisos diferentes e lindos que eu acabaria ficando louca. – Desculpa te seguir até aqui, mas eu precisava confirmar que você era você. E ainda bem que você se lembrou de mim, me livrou de passar mais uma vergonha – falou passando a mão pela nuca e dando uma risada sem humor, me fazendo sorrir ainda mais por ele pensar que eu não me lembraria. Eu me lembraria dele ainda que passasse cem anos.
— Como eu não me lembraria do cara que me proporcionou a melhor foto da minha vida? – com certeza eu pensava muito nisso, mas não tinha ideia de que eu teria a cara de pau de falar. Felizmente ele pareceu gostar da minha resposta, porque me devolveu mais um dos seus maravilhosos sorrisos.
— Bom, não pode esquecer também que esse mesmo cara foi quem passou vergonha e saiu correndo depois de confessar que a foto só ficou boa por conta da modelo – e lá estava mais um sorriso dele. Mas pelo visto eu não tinha sido a única a colocar em palavras os meus pensamentos. – A propósito, eu estive pensando bastante sobre o fato de que não nos apresentamos. Então, apesar de você já saber o meu nome, prazer, eu sou o .
— Prazer, . Eu sou a – ri, estendendo minha mão para apertar a dele.
— O que faz em Vegas, ?
— Estou a trabalho. E você?
— Trabalho em Vegas? Uau, isso sim é um trabalho – disse rindo. – Vim curtir um fim de semana com os meus amigos, aqueles do festival.
— Na verdade não vim trabalhar aqui, vim por conta do trabalho. Sou comissária, então..
— Então está explicado.

Ainda estávamos com sorrisos sinceros estampados no rosto, trocando olhares intensos e um pouco sem saber como agir um com o outro, quando se aproximou nos assustando um pouco e nos tirando da bolha em que estávamos.

! Que demora, mulher. Eu sei que você tá fugindo daquele pé no saco, mas não precisa passar a noite toda enfiada no banheiro – com certeza ela não tinha reparado que aquele na minha frente era , caso contrário ela jamais chegaria falando daquele jeito.
— Oi, – me virei lançando um olhar matador para ela, que pareceu perceber que eu tinha companhia. – Na verdade eu encontrei um amigo aqui. Por isso ainda não voltei.
— Tudo bem, ? – ele falou, como se já a conhecesse.
— Ei! Sim, tudo ótimo. Você é o mesmo?
— É o que consta no meu documento – brincou nos fazendo rir.
— Você é mais bonito do que a falou.
! Pelo amor de Deus. Eu já vou voltar pra mesa, pode indo na frente – eu não podia acreditar que ela tinha mesmo falado aquilo. Quer dizer, eu acreditava, porque ela era assim. Mas cacete, será que ela nunca ia fechar a boca grande dela? Claro que não era novidade para que ele era bonito, mas eu não precisava passar aquela vergonha, definitivamente. Acho que ela percebeu que tinha falado demais e acatou a minha súplica, dando um aceno para ele e saindo dali.
— Me desculpa, ela é completamente maluca.
— Sem problemas – riu da minha fala e pareceu um pouco desconfortável, como no momento em que nos despedimos no festival. – Bom, acho que você tem que voltar, né?
— Acho que sim. Mas, na verdade, – comecei meio sem jeito de falar o que eu queria. – você quer sentar com a gente? E os seus amigos também, é claro.

Eu estava absurdamente envergonhada de fazer aquela pergunta. E com medo também da sua resposta. Mas eu sabia que deveria. No festival acabamos perdendo algumas oportunidades, até mesmo porque eu logo fui embora, e eu não queria perder de novo. Não que eu achasse que rolaria algo, mas a companhia dele parecia ser agradável demais para simplesmente ser dispensada. No fim das contas, assim que fiz a pergunta, percebi que não deveria ter tido medo algum. O sorriso dele foi tão sincero que refletiu até em seus olhos, com um brilho que eu nunca tinha visto antes.

— Com certeza.

Ele finalmente respondeu, com a voz doce e o sorriso genuíno. E eu tinha certeza que seus olhos e seu sorriso estavam refletidos nos meus.


Eu não podia dizer que aquele tinha sido um mês fácil. Porque não foi mesmo. E nem que ele tinha passado rápido. Porque também não passou. Pelo menos não para mim. Eu senti aquele mês sendo mais arrastado do que qualquer outro daquele ano. A pressão que eu mesmo colocava em cima do novo álbum era um estresse enorme. Eu sabia que o pessoal não estava incomodado com a fase de produção, mas eu sentia como se estivesse ocupando muito o tempo de todo mundo. Me sentia um pouco culpado por não estarmos em um situação mais adiantada, ainda que ninguém demonstrasse nada de negativo sobre isso. Ethan então era o cara mais compreensivo de todos. Estava sempre disposto a me ajudar com algumas letras ou harmonias. E sempre me incentivando com tudo o que eu mostrava a ele. As duas primeiras semanas depois do festival foram ótimas para a minha criatividade escrita. Mas depois eu acabei me frustrando tanto por não conseguir encontrar aquela desconhecida em rede social nenhuma, que parecia ter voltado ao momento de antes do Coachella. Achava todas as letras medíocres e com um estilo que não me pertenciam mais. Mas tirando o problema central, a produção do álbum, as coisas não estavam tão ruins assim. Eu e os caras aproveitamos demais esse mês. Aproveitamos as praias, curtimos a badalada Beverly Hills e fomos em mais bares do que posso contar nos dedos da mão. Apesar de sempre acharem que não, eu acabava aproveitando a noitada masculina muito mais para beber e falar bobagens do que para encontrar uma companhia feminina para a noite. Mas é claro que eventualmente isso também acontecia, não poderia negar. Eu só não era o maior fã desses encontros. Talvez fosse a idade chegando. Ou qualquer merda dessas.
Fato é que, para os meninos, eu já tinha desistido de procurar aquela mulher na internet. E eu tinha mesmo parado de pesquisar diariamente. Mas eu ainda procurava. Acho que, no fundo, eu ainda acreditava que iríamos nos reencontrar. Sem que ninguém soubesse porque não queria ser julgado, apesar de saber que Ethan e não seriam exatamente pessoas que me julgariam. Mas provavelmente me lançariam olhares de tristeza por eu não conseguir nada ainda. Ethan principalmente, que estava sempre preocupado como uma mãe protetora. Depois daquele mês estressante, eu decidi que deveríamos aproveitar um fim de semana de folga em algum lugar épico. E não existia lugar melhor para isso do que em Las Vegas. O lugar onde tudo acontecia, sem julgamento nenhum. O lugar onde as pessoas se permitiam fazer loucuras que jamais fariam. Eu só esperava que nós não voltássemos de lá com uma aliança no dedo e um documento de casório. Bom, na verdade eu esperava que não voltasse de lá nessas condições, já que ele era o mais capaz de fazer algo do tipo. E percebi quando cheguei na cozinha que essa era a maior preocupação de Ethan também.
— É sério, . Vê se não perde a noção das coisas.
— Cacete, Ethan. Eu não sou criança, sabia? – soltei uma risada da frase de , porque ele não era mesmo, mas se parecia muito com uma. – E você está rindo de que?
— Ih, ‘tá atacado logo cedo. Nem parece que está prestes a ir para Vegas.
— Pois é. Porque o Ethan não sai do meu pé – falou se queixando como uma verdadeira criança faria.
— Não estou no seu pé, só estou te lembrando para não abusar e perder a noção – reforçou.
— Sim. E essa deve ser a décima vez que me fala isso. Só hoje. E ainda não chegamos nem na metade do dia.
— Pois então espere chegar em cem vezes – comentei rindo. – E você sabe que precisa mesmo maneirar.
— Tá de sacanagem? A gente vai pra Vegas para que então?
— Para curtir a cidade, mas com responsabilidade – Ethan piscou levando as coisas para a lava louças.
— Porra, gente. Eu quero ir para Vegas ficar chapado, acordar em um quarto com um tigre dentro, roubar uma viatura, casar com uma stripper e achar um de vocês desacordado no topo do hotel sofrendo de insolação – ele concluiu com tranquilidade. Ethan terminou de ajeitar a bagunça que ele tinha feito com uma cara de deboche enquanto eu gargalhava da descrição de “Se Beber, Não Case” de .
— Eu vou te ajudar nessa missão, cara. Fica tranquilo.
— Tá maluco, ? Não dá ideia que esse doente acredita – senti que Ethan ficou até meio vermelho depois da minha fala e eu só conseguia rir mais. Não pensei que ele fosse acreditar, porque era óbvio que eu não ajudaria em loucura nenhuma.
— Você deveria aproveitar mais as coisas boas da vida, sabia? É sempre certinho demais, Ethan – provocou.
— Deve ser porque eu não tenho mais 15 anos como você parece ter. Já estou avisando, não vou tomar conta de nenhum dos dois. Cansei dessa palhaçada.
— Relaxa, cara. No final dá tudo certo e a gente ainda volta de lá com uns faturamentos dos caça níqueis – ri passando o braço pelos ombros de Ethan e levando-o para fora da cozinha.

Terminamos de ajeitar nossas coisas e seguimos para o aeroporto na mesma empolgação que já estávamos durante toda a semana. Decidimos ir na sexta logo no começo da tarde, para que ainda conseguíssemos aproveitar durante aquela noite. Tínhamos feito alguns planos para o fim de semana e não pretendíamos perder nem um segundo daquele mini passeio. Combinamos de maneirar na bebida naquela sexta, para que tivéssemos disposição o suficiente de acordar cedo no sábado, irmos ao Grand Canyon e aí sim, bebermos todas em qualquer lugar que fosse. O voo entre LA e Vegas era tão rápido que eu e Ethan até pensamos que não seria possível nos divertimos com as caretas que fazia. Ele morria de medo de andar de avião desde sempre, nos voos longos costumava se embebedar o suficiente para dar sono ou tomar um remédio para dormir. Mas era sempre um show a parte quando ele não conseguia dormir durante todo o voo e simplesmente ficava tentando disfarçar o pavor de estar a sei lá quantos mil metros de altura. Mas na verdade, aquele voo foi muito mais divertido do que as inúmeras horas que passamos de Londres para cá. Porque ele não bebeu nada, já que seria rápido demais para ficar estragado pelo restante do dia. No fim das contas, foi uma das viagens mais hilárias que já tinha feito ao lado dele. O voo foi um pouco turbulento e ele, ainda que não acreditasse em religião nenhuma, se agarrou em uma fé que deixaria qualquer cristão admirado.
Dessa vez resolvemos gastar um pouco mais de dinheiro, até porque ir a Vegas e não gastar era impossível, e ficamos hospedados em um hotel bem no centro de tudo, na famosa Strip. Claro que também não fizemos a loucura de nos hospedarmos em um Bellagio da vida, mas passaríamos por lá para aproveitarmos a noite de cassino com certeza. Nem perdemos muito tempo quando chegamos, apenas jogamos nossas malas dentro do quarto que dividiríamos, tomamos nosso banho e fomos para a rua beber um pouco e tentar a sorte em alguma jogatina. Eu já tinha ido a Vegas, mas aquele lugar era sempre surreal. O show de luzes, de pessoas, de estilos, de culturas e de atrações era inimaginável. Durante o fim de semana tudo ficava um pouco caótico demais por conta da quantidade de turistas, mas ainda assim não perdia seu encanto.
— Só para você saber que amanhã você não tem escolha. Não quero nem saber se você vai passando mal ou não – falei para que, como era de se esperar, estava querendo quebrar nosso trato e nos dar trabalho já na primeira noite.
— Você ‘tá ficando chato como o Ethan. Por que não vai procurar alguma mulher?
— Deve ser porque você me obriga a tomar conta de você – lancei um sorriso maldoso para ele.
— Ou deve ser porque ainda pensa em certo alguém – retrucou com o mesmo cinismo.
, ok. Faça o que quiser, mas amanhã sairemos do hotel às oito horas com você bem ou mal. Foi o que combinamos e nós faremos exatamente o que combinamos – eu amava e suas loucuras, mas em alguns momentos ele se tornava realmente uma criança chata e era desgastante só ter que cuidar dele. – E por favor, não perca todo o seu dinheiro.

Resolvi alertar meu amigo inconsequente enquanto Ethan estava no banheiro, porque sabia o quão puto ele ficaria quando visse bebendo demais. Ele era adulto e podia fazer o que bem entendesse, mas quando os atos dele atingiam outras pessoas, nós precisávamos nos intrometer. Nós tínhamos feito um acordo, comprado nosso passeio do dia seguinte, estávamos os três no mesmo quarto com um único banheiro e, no fim das contas, quando ele passasse mal, eu e Ethan teríamos que ser os responsáveis por tudo como sempre. Não sei se por pura responsabilidade ou apenas medo de Ethan, resolveu acatar o meu pedido e seguir na linha pelo restante da noite. Que não durou tanto assim, já que nossa agenda do sábado consistia em acordar cedo e explorar o Canyon. Quando acordei, a única coisa que surgiu na minha cabeça era que faria um calor desumano naquele dia e eu acabaria passando raiva naquele passeio. Que por acaso havia sido ideia minha mesmo, então além de tudo, eu também teria que ouvir as lamentações dos caras. Que com certeza viriam. Eu apenas esperava que todas as fotos e vídeos que já havia visto sobre aquele lugar fossem verdadeiros. E que realmente valesse a pena nosso esforço.
No fim das contas, até frio sentimos em alguns momentos porque aquele lugar ventava mais do que em Londres. E aquele passeio era tudo o que falavam e muito mais. Tá certo que nós deixamos nossos rins por lá para que fizéssemos o passeio de helicóptero, mas ele valia cada centavo. E estava certo de que recuperaria um pouco do dinheiro a noite em algum cassino. Eu não estava tão confiante assim, porque antes de buscar por alguma jogatina paramos em um bar que diziam ser um dos melhores dali, então teríamos que contar unicamente com a sorte. O Dick’s Last Resort tinha um ambiente simples, mas assim que chegamos percebemos que era ainda mais animado do que pensávamos. Quando entramos, vimos um grupo de atendentes tocando um sino e fazendo festa. A princípio não entendemos muito bem, mas então uma mulher estava pendurando o sutiã dela junto a vários outros e essa era a grande atração daquele momento. Nós três rimos empolgados porque aquele parecia ser mesmo o lugar perfeito para um começo de noite.
— Ethan, tem certeza de que não quer beber nada mesmo? Aqui parece ter vários drinks interessantes – questionei a ele enquanto ele permanecia estudando o cardápio. Eu e já estávamos com nossas cervejas em mãos e chamando pela garçonete para pedirmos algum aperitivo.
— Esse aqui com uma receita secreta parece uma boa.
— Então é isso, uma porção de nachos e esse drink com a receita secreta, por favor – pedi à atendente antes que ele mudasse de ideia e ficasse apenas na água com gás de sempre.
— Não queria falar nada, mas eu to achando que o meu desejo de ter uma noite louca vai se concretizar.
— E por que chegou nessa conclusão, ?
— Sei lá, o Ethan resolveu beber e pediu logo um drink que nem sabe o que vai dentro.
— Tecnicamente quem pediu foi o , então não precisa se animar tanto – cortou Ethan.
— Mas ele pediu para você.
— Sim, mas quem solicitou foi ele. Então eu posso não beber.
— Você não faria isso.
— Você sabe que eu faria, .

Um daqueles debates que não terminariam a não ser que um deles soltasse um “foda-se” começou enquanto eu só assistia distraído e ria dos dois. Em um dos meus desvios de atenção da conversa deles, percebi uma movimentação maior na porta do bar e acabei prendendo meu olhar nas vozes animadas que passavam pela entrada do lugar. Senti que meu corpo ficou paralisado de repente, meu coração bateu mais rápido e eu soltei até uma respiração um pouco ofegante. Eu estava completamente vidrado naquele grupo que estava chegando no Dick’s, especificamente em uma pessoa. Eu me senti novamente no festival de um mês atrás, quando nada mais parecia estar ao meu redor a não ser a figura daquela mulher. Por um momento pensei que fosse uma alucinação, uma brincadeira da minha mente ou uma pessoa muito parecida. Acordei dos meus pensamentos com um cutucão de , que aparentemente estava tentando chamar a minha atenção há algum tempo.
— Você tá legal? Parece que viu um fantasma – ele questionou assim que virei meus olhos para ele, mas ainda sem ter o que falar.
?
— Oi – respondi simplesmente para Ethan.
— Sério, o que aconteceu?
— Eu acho que estou ficando louco, mas acho que acabei de ver a desconhecida do Coachella entrando nesse mesmo bar.
— Cadê?
— Onde?
Os dois falaram ao mesmo tempo virando os corpos e tentando reconhecer alguém.
— Por favor, me digam que é ela ali naquela mesa enorme perto do bar – pedi quase como uma súplica. Eu estava me sentindo um tanto quanto transtornado naquele momento, principalmente enquanto esperava pela resposta dos caras.
— Puta merda!
— É ela!
Mais uma vez os dois falaram juntos, mas agora com os rostos em um misto de espanto e empolgação. Eu estava me sentindo um típico adolescente esperando para convidar a popular para o baile. Senti minha garganta ficar mais seca do que nunca, um nervosismo que eu não sentia há um mês aparecer e minhas mãos suarem. E eu só conseguia pensar que precisava parar de suar porque não queria ficar fedendo.
— Vai lá falar com ela, cara – interrompeu meus pensamentos de novo.
— Tá maluco? Claro que não!
— Como assim, ? Você finalmente encontra a garota que ficou procurando esse tempo todo e não vai falar com ela?
— Ethan, eu não vou chegar do nada na mesa deles para falar com ela. E se ela nem se lembrar de mim?
— Deixa de ser retardado. Claro que ela se lembra de você, imbecil – olhei sério para . Ele nunca era sutil quando queria mostrar o seu ponto de vista.
, o que o quer dizer é que ela provavelmente se lembra. Vocês tiveram um encontro super intenso naquele dia, eu duvido que ela não lembre.
— Sem contar que você é famoso.
, isso não faz o menor sentido. Qual é a relevância disso?
— Sei lá, cara – falou dando de ombros enquanto eu apenas ria da idiotice dele. – Mas o que eu tenho certeza é que você não pode perder essa oportunidade.
— Ele está certo.
— Eu vou, gente. Mas não agora. Eu preciso me acalmar. E também não vou chegar na mesa dela. Ela está com uma galera ali se divertindo, nada a ver eu chegar interrompendo.
— Ok, então quando ela se levantar para ir ao banheiro ou qualquer outra coisa você vai – estava abrindo a boca para fazer alguma objeção ao que Ethan tinha decidido, quando interviu.
– E ponto final. Se você não for eu vou e ainda te farei passar vergonha.
Ele deu o seu melhor sorriso maldoso e se virou para pedir mais uma cerveja para nós dois. Eu não duvidava nem por um segundo da coragem de . Sabia muito bem do que ele era capaz e jamais pagaria para ver. Porque eu tinha certeza de que ele falaria com ela e, possivelmente, na frente de todo aquele pessoal da mesa. Depois que eles decidiram o que eu faria, voltamos nossa atenção para os nachos e para uma conversa trivial. Na verdade eles voltaram, eu apenas tentei. Fiquei bebericando a minha cerveja, desviando minha atenção dos meninos para aquela que tirou meu sono nesse último mês e pensando no quanto ela estava ainda mais bonita do que eu me lembrava. Me pegava mais uma vez observando-a como fiz no festival. Dessa vez fiquei reparando na forma em que ela interagia com seus amigos, na forma em que ela ria toda vez que a menina que estava em sua frente falava algo e na forma em que ela parecia fazer uma careta e se esquivar todas as vezes em que o rapaz ao lado dela direcionava algum olhar mais interessado. E foi em um desses momentos que a vi se levantar, sozinha, e ir em direção ao banheiro. Instantaneamente os rapazes me lançaram um olhar de incentivo - e também de ameaça. Virei o restante da cerveja que estava no meu copo como se aquilo fosse me dar a coragem que eu precisava e fiz o mesmo caminho que ela havia feito, encostando na parede que ficava na frente das portas para esperá-la. Comecei até a ficar apertado para usar o banheiro e não sabia se ela estava demorando mais do que eu esperava, se era o meu nervosismo dando as caras, se eram as cervejas que eu já tinha bebido ou se era o fato de estar ali na frente do toalete. Quando eu peguei o meu telefone para enviar uma mensagem para um dos caras irem até ali, ouvi o barulho da porta se abrindo. Levantei meu rosto na mesma hora e percebi quando ela paralisou ao me ver, ainda segurando a porta aberta. Eu não conseguia evitar o meu sorriso mais genuíno naquele momento, mas eu tinha certeza de que ele estava um pouco esquisito porque eu estava me sentindo extremamente nervoso sendo observado por ela. Ela parecia não acreditar muito no que via e percebi que não falaria nada. E como eu tinha ido atrás dela, provavelmente eu deveria ser a primeira pessoa a falar alguma coisa.

— Então é você mesma! – comecei falando, ainda observando-a com o mesmo sorriso. – Lembra de mim?
— Uau! – falou um pouco depois parecendo um pouco sem jeito ainda. – Sim, é claro. , né?
— Isso. Do Coachella. – sorri agora mais aliviado. Esperei mais um pouco para saber se ela falaria algo ou se ficaríamos naquela troca de olhares meio doida.
— Nossa, me desculpa. Eu estou assimilando esse encontro ainda. Que loucura!
— Tudo bem, eu te entendo. Eu também levei um tempo para acreditar que era você mesma por aqui.
— Você já tinha me visto? – questionou um pouco surpresa.
— Sim. Vi quando você chegou com seus amigos, mas de começo achei que fosse apenas alguém muito parecida – admiti, lançando um sorriso de lado, meio sem graça por isso. – Desculpa te seguir até aqui, mas eu precisava confirmar que você era você. E ainda bem que você se lembrou de mim, me livrou de passar mais uma vergonha – dei uma risada sem humor e pude ver o sorriso dela se abrir ainda mais depois daquilo. Ela tinha um sorriso que, estranhamente, acalmava meu coração. Todo o nervosismo que eu estava, a vontade de ir ao banheiro, o suor que eu sentia, havia passado apenas com aquele instante.
— Como eu não me lembraria do cara que me proporcionou a melhor foto da minha vida? – sorri verdadeiramente depois da confissão dela, porque saber que ela se lembrava de mim era ótimo, mas saber que ela tinha essa lembrança era ainda melhor.
— Bom, não pode esquecer também que esse mesmo cara foi quem passou vergonha e saiu correndo depois de confessar que a foto só ficou boa por conta da modelo. A propósito, eu estive pensando bastante sobre o fato de que não nos apresentamos. Então, apesar de você já saber o meu nome, prazer, eu sou o .
— Prazer, . Eu sou a – finalmente, pensei. Pelo menos eu não morreria sem saber seu nome.
— O que faz em Vegas, ?
— Estou a trabalho. E você?
— Trabalho em Vegas? Uau, isso sim é um trabalho – disse rindo. – Vim curtir um fim de semana com os meus amigos, aqueles do festival.
— Na verdade não vim trabalhar aqui, vim por conta do trabalho. Sou comissária, então..
— Então está explicado.

Entramos em uma espécie de realidade paralela naquele momento, onde apenas nós dois existíamos. Estávamos nos olhando com interesse e sorrisos sinceros no rosto, mas ainda um pouco sem saber como prosseguir com um papo que sabíamos que queríamos. De repente uma mulher um tanto quanto elétrica chegou do nosso lado, nos trazendo de volta para o mundo real.

! Que demora, mulher. Eu sei que você tá fugindo daquele pé no saco, mas não precisa passar a noite toda enfiada no banheiro.
— Oi, – ela se virou lentamente para a amiga, que pareceu perceber a minha presença apenas naquele momento. – Na verdade eu encontrei um amigo aqui. Por isso ainda não voltei.
— Tudo bem, ? – cumprimentei animado.
— Ei! Sim, tudo ótimo. Você é o mesmo?
— É o que consta no meu documento – brinquei tentando quebrar o gelo que parecia ter surgido.
— Você é mais bonito do que a falou.
! Pelo amor de Deus. Eu já vou voltar pra mesa, pode indo na frente. Soltei uma risada verdadeira depois disso. Eu nem conhecia aquela , mas eu já tinha gostado bastante dela. E principalmente da sua sinceridade. pareceu ficar completamente sem graça com o ocorrido.
— Me desculpa, ela é completamente maluca.
— Sem problemas – ri da sua constatação, mas ao mesmo tempo me senti um pouco incomodado porque eu sabia que teria que me despedir, mas não me sentia pronto para isso. Justamente agora que eu estava, de fato, começando a conhecê-la. – Bom, acho que você tem que voltar, né?
— Acho que sim. Mas, na verdade, você quer sentar com a gente? E os seus amigos também, é claro.

Quando ela terminou a pergunta, eu podia ter certeza de que eu estava com a maior cara de idiota do mundo. Como no dia do festival depois que soltei um “a modelo fez toda a diferença”. Estava sentindo um misto de confusão, com felicidade e surpresa naquele momento que não conseguia nem encontrar a forma correta de respondê-la. Não saberia dizer quanto tempo passamos nos encarando depois daquele convite mais do que inesperado, mas quando eu finalmente me decidi por ser apenas muito sincero e sucinto, recebi de volta o sorriso mais bonito que eu já havia visto em toda a minha vida. Um sorriso que estava, mais uma vez, acalmando o meu coração e me aquecendo por dentro.

— Posso apenas ir ao banheiro primeiro? – questionei depois de mais uma troca intensa de olhares. Aquela vontade que eu senti antes dela sair do toalete pareceu ter voltado com ainda mais força. Talvez pelo nervosismo de agora estar ao lado dos amigos dela.
— Claro, quer que te espere aqui ou que eu vá indo para a mesa?
— Se puder esperar – comecei sem graça, estava me sentindo uma criança pedindo para os pais ficarem comigo na escola. – Vou me sentir menos intrometido de chegar na mesa dos seus amigos.
— Que nada! Eu que te chamei. Mas pode ir lá que eu espero aqui sim.

Eu estava completamente sem palavras com aquela mulher. Completamente encantado e hipnotizado com tudo o que ela falava ou fazia. Eu nem sabia como estava conversando tão tranquilamente com ela. Aproveitei para passar uma água no rosto e tentar me acalmar antes de ir para o campo desconhecido. Ao menos eu teria os meus amigos junto comigo. Vi de longe o olhar de felicidade e animação dos dois idiotas que eu chamava de amigos. Fomos direto para a mesa onde nós estávamos para poder apresentá-los oficialmente.

— Gente, essa é a . Lembram dela? – sorri brandamente para eles. – , esses são e Ethan, meus amigos que me acompanharam no festival.
— E aí, Coach. Tudo bem? – falou empolgado, me fazendo repreendê-lo com o olhar enquanto ela dava uma risadinha sem entender o cumprimento.
— E aí, fotógrafo. Tudo bem e com você? – soltou com uma risada, fazendo me encarar com um olhar ainda mais entusiasmado. – Oi, Ethan. Prazer.
— O prazer é nosso, . Que loucura nos encontrarmos aqui, né?
— Nem me fale, eu levei um susto quando vi o ali atrás.
— Então não ficou muito diferente do nosso amigo aqui quando ele te viu entrando no bar. Ele parecia que ia desmaiar!
Demos uma risada em conjunto. riu verdadeiramente, riu um pouco sem graça, Ethan riu para acompanhar e eu ri desacreditado. era completamente inacreditável. Eu queria simplesmente enfiar a cabeça dele dentro daquele drink gigante do Ethan e deixá-lo por lá até que a noite acabasse. Ele nem estava bêbado e já estava falando demais. Comecei a me perguntar se aquela ideia de nos juntarmos com os amigos dela era uma boa.
— Viemos aqui porque a nos convidou para irmos para a mesa dela.

Decidi falar para cortar o clima estranho que tinha ficado ali e antes que falasse mais alguma besteira qualquer. Chamamos a atendente para que ela fechasse aquela conta e pudéssemos ir para a outra mesa curtir com o pessoal. Eu não sabia o que estava por vir, mas eu estava ansioso para descobrir mais sobre aquela mulher que esteve presente nos meus pensamentos pelo último mês.


Seis


Eu ainda tinha as minhas dúvidas do que seria aquele encontro, que não era encontro, naquela mesa cheia de pessoas desconhecidas. Pelo que percebi, já que tinha me falado que era comissária, todo o pessoal que estava ali tinha a mesma condição dela. Ela fez uma apresentação geral e breve, e percebi um olhar de puro interesse de uma das mulheres, um olhar de empolgação da tal amiga e um olhar de tédio do cara que parecia tentar se aproximar da . Para a, clara, infelicidade do rapaz, ela cedeu o lugar dela para que Ethan se sentasse, ficando entre ele e , e de frente para mim. Acho que nesse momento ela estava extremamente grata por ter nossa presença ali, assim ela conseguiu se afastar do cara.
— Então, . Quem diria hein? – comentou a mulher que tinha me lançado um olhar suspeito. Me senti um pouco perdido naquela tensão que parecia ter surgido, mas percebi que não era algo recente e que sequer se abalou.
— Pois é, menina. Quem diria – lançou um sorriso irônico para a mulher e voltou seu olhar, bem mais sincero, para nós três. – Mas e aí, garotos. Nós estamos só na cerveja aqui e normalmente dividimos a conta toda, mas sintam-se a vontade para abrir outra conta individual.
— Nada, por mim está ótimo assim.
— Você também está aqui passeando ou é daqui, Coach? – perguntou, mais uma vez usando o apelido interno que ele tinha dado a ela.
— Não! Eu sou da Inglaterra. Vocês também, né? – disse ficando instantaneamente sem graça. Ethan e , principalmente, me lançaram um olhar de puro entusiasmo. Só não sei pelo que.
— Sim, nós somos. Estamos aqui nos Estados Unidos trabalhando no meu novo CD.
— Ah, então você é músico? – o cara que não parava de me encarar perguntou. E eu percebi que não foi uma pergunta ingênua, a voz dele estava carregada de deboche. Se eu já não tinha gostado muito dele antes disso, agora eu estava gostando menos ainda.
— Exatamente.
— E é famoso? – riu maldoso.
— Depende.
— Do que?
— De cada pessoa. Para alguns sim, para outros não. Para você, pelo visto, não sou.
— Eu te conhecia já. Então para mim, sim! – , que eu já estava amando ter por perto, interferiu na nossa conversa.
— Entendi. É, até que deve ser bom ser famoso. Você, por exemplo, deve ter várias mulheres em todo canto – aquele cara estava testando a minha paciência com pouquíssimo tempo de conversa. Mas eu sempre me orgulhei de ser uma pessoa pacífica demais, então não seria ele a me tirar o sério. Enquanto eu pensava em uma resposta que fosse a altura de seu comentário, porém que não fosse rude demais já que eu era o infiltrado ali naquele grupo, passei meu olhar por , , outra mulher que depois descobri se chamar Hilary e os caras. Todos com expressões completamente diferentes umas das outras. No fim das contas, foi quem o respondeu e eu nunca poderia ter feito de forma melhor que ela.
— Bom, levando em consideração que a fama de piloto não é nada boa e você também viaja bastante, é possível que esteja com várias mulheres no mundo todo, não é?
Assim que deu a resposta, senti o constrangimento por ele me atingir e abaixei minha cabeça para disfarçar o riso que eu estava com vontade de dar. Infelizmente, ou não, e Hilary não foram tão discretas e riram livremente, me fazendo dar uma risadinha baixa da situação. Eu não sabia qual era a dele com aquelas perguntas sem noção e aquele tom debochado, mas eu sabia que não era nada inocente. Quando levantei minha cabeça ele já estava se inteirando da conversa que o restante do pessoal estava tendo e lancei um sorriso agradecido para , que tinha um misto de divertimento e timidez estampados no rosto.
— Bom, então vocês são da aviação? – Ethan perguntou depois de um tempo em silêncio.
— Somos. Alguns comissários e outros pilotos – Hilary explicou.
— Mas esse pessoal todo veio junto?
— Sim – as três riram. – Essa é a tripulação de um voo como de Londres para cá.
— Cacete, é muita gente. Eu não sabia que eram tantos assim – eu tinha certeza que assim como eu, os caras também estavam um pouco impressionados com essa informação.
— Vocês parecem todos iguais durante o voo – disse sério e sendo bem sincero, arrancando mais uma risada das meninas.
— E vocês, fazem o que? – Hilary questionou.
— Eu sou produtor e esse cara aqui é fotógrafo. Trabalhamos com o .
— Trabalham comigo não. Trabalham PARA mim – falei fingindo uma superioridade e dando uma piscadela para eles. Mas quando percebi o olhar de Hilary um pouco perdido, imediatamente olhei para para ver sua reação. Ela parecia ter percebido o meu tom. Ainda assim resolvi desfazer a brincadeira logo para não ficar com má fama. – To brincando, gente. Por favor, não me olhem com essa cara.
— Se fodeu – riu de mim. – Ele é nojento assim mesmo, meninas. Mas paga bem, né.
— Cala a boca. É mentira dele. Eu não pago bem.
— A verdade é que o não vive sem a gente – Ethan disse como brincadeira, mas só nós sabíamos como isso era verdade. Os últimos quatro anos eram exemplos claros sobre essa afirmação.
— Ele tem razão. E agora não estou brincando. Provavelmente todas as músicas que vocês mais gostaram foram as que Ethan esteve produzindo. Quer dizer, isso se vocês já ouviram alguma, né – completei meio sem graça.
— Claro que já ouvimos.
— Mas então quer dizer que seu sucesso é por conta do Ethan? – perguntou brincando.
— Com certeza! E por conta das fotos e vídeos de , que enganam bem também – rimos.

Continuamos conversando sobre todo tipo de assunto que aparecia. Por incrível que pareça, elas não ficaram questionando muitas coisas sobre o mundo da fama e sobre minha carreira. O que era ótimo. Às vezes conhecer pessoas fora desse meio era complicado. Muitas pessoas eram aproveitadoras e outras pareciam ficar deslumbradas com a nossa vida. E nós também não ficamos perguntando sobre a profissão delas, embora eu estivesse bastante curioso sobre inúmeras coisas. A mesa acabou ficando quase que dividida entre nós seis e o restante, mas sempre rolava alguma interação entre todos também. Em certo momento, depois de já termos bebido mais algumas cervejas, os atendentes começaram a passar nas mesas com sacos de papel para usarmos de chapéu. Sempre com algumas frases engraçadas ou debochadas. Aquele bar realmente era uma atração e tanto de Vegas. Fiquei prestando atenção nas frases de cada um e quando mirei , ela estava olhando para mim também com um sorriso no rosto.
— E aí, como fiquei? – ela me perguntou fazendo uma pose e mais rindo do que séria.
— Ficou linda – disse sinceramente, vendo o riso dela se transformar em um sorriso tímido. – Gostei da frase – apontei para seu chapéu com os dizeres “tranquila como uma manhã de domingo”.
— Não é? Eu amei! Gostei da sua também – riu brincando.
— Sim, achei a minha cara mesmo – comentei rindo, porque estava escrito “Alerta Idiota”. - E eu adorei esse lugar, é incrível. Você já conhecia?
— Já sim. Eu amo, sempre que tenho a oportunidade venho. Aqui é tipo o bar que todo tripulante vem, porque é tranquilo, sem muito luxo e divertido. E o melhor, com cerveja barata!
— Falando em cerveja, – comecei quando me lembrei daquela que bebemos no Coachella. – conseguiu aproveitar as suas em Londres?
— Sim, mas eu só levei quatro. Então acabou bem rápido – respondeu ela. Finalmente estávamos, ainda que na mesa com os demais, tendo uma conversa só nossa. – Até procurei pelo mercado aqui em Vegas ontem, mas não achei. Acho que só vendia no festival mesmo.
— Então, na verdade não. Descobri que em LA vende. A gente tem comprado direto.
— Caramba, que sacanagem. Podia vender pelos Estados Unidos todo.
— Se você quiser posso comprar para você – disse sem ter noção do peso que talvez essas palavras teriam. Ela pareceu um pouco surpresa na hora, mas sorriu logo depois. – Quer dizer, eu não sei exatamente quando volto para Londres e talvez você até faça voo para Los Angeles antes disso, então não sei também.
Eu não tinha muita certeza do motivo do meu nervosismo. Que eu queria poder vê-la de novo não era uma novidade para mim, mas provavelmente seria para ela. E por isso ela pareceu se assustar quando eu disse que poderia comprar as cervejas para ela. Mas também tinha uma pontada de nervosismo por ela simplesmente negar por qualquer tipo de contato maior que aquele. Mesmo que ela tenha me convidado para ficar com eles naquela noite, isso não queria dizer que ela fosse querer me ver novamente. A gente não tinha nem trocado qualquer tipo de contato como rede social ou mesmo número de telefone, esperava que eu não estivesse sendo invasivo demais.
— Nossa, claro que eu aceito! – falou, bem mais empolgada do que eu esperava até. – Às vezes acontece de ir para o mesmo lugar em um período curto de tempo, mas é difícil. Mas se eu não for para LA eu vou querer com certeza. Obrigada!
Sorrimos um para o outro da mesma forma cúmplice de quando estávamos no festival e de quando ela respondeu o piloto chato. Voltamos para a mesma bolha em que entramos quando nos vimos na porta do banheiro mais cedo. Aquele olhar dela parecia me dizer tudo e ao mesmo tempo nada. Era como se eu pudesse ver o que ela me falava apenas com o olhar, mas ele sempre tinha um mistério enorme. E eu me lembrei porque tinha achado aquela mulher extremamente instigante e intimidante. O sorriso era tão genuíno que fazia qualquer pessoa querer sorrir de volta. E com certeza podia melhorar o meu dia em questão de segundos.
— Ei! ! – o piloto inconveniente chamou, parecendo sem paciência e nos tirando do transe. – Nós já vamos fechar a conta. Nós vamos naquela boate. Podemos fechar o que vocês pediram também? – falou agora direcionado para mim.
— Pode sim, cara – Ethan respondeu por mim, me lançando um olhar de súplica que eu entendi muito bem que era sobre a tal boate. O que na real ele nem precisava fazer, porque eu não estava a fim de boate nenhuma hoje, muito menos na companhia daquele cara.
Eles pediram a conta e eu fiquei em uma briga interna enorme sobre chamar ou não a – com as amigas, claro – para nos acompanhar no cassino. Eu não sabia se ela aceitaria, já que foram todos juntos, se as amigas aceitariam e nem se os caras gostariam. Então fiz o que todos costumam fazer na escola, com a diferença de que eu não usaria um papel, e enviei uma mensagem a Ethan.

– 23:26
Disfarça
Tudo bem por vocês se eu chamar as meninas?
É PRA DISFARÇAR!


– 23:26
Hahah tá na terceira série?
Claro que sim, cara!
Não precisava nem perguntar
Já está demorando muito para chamar
Com certeza vai perder a vez pro piloto


A pior parte de eu ter inventado aquela merda de mensagem, era a minha vontade de responder em voz alta por sua última fala ou simplesmente lhe dar o dedo. Mas eu não podia, então ficaria apenas na vontade e com um simples olhar irônico. Vi que o pessoal já estava se levantando para ir embora e esperei mais um pouco para poder fazer o meu convite. Não queria fazer no meio de todo mundo, porque sim, eu era um filho da mãe medroso e que temia levar um fora épico. Eu não estaria com esse medo se a pessoa em questão não fosse . Mas nesse caso as coisas mudavam um pouquinho de figura. O pessoal já estava bem mais a frente e se juntando para pedir algum Uber, quando Ethan me deu uma cotovelada para me fazer acordar pra vida.
— Ei! – chamei as três que andavam a nossa frente. – Nós tínhamos combinado de ir a um cassino depois daqui. Vocês querem ir? – finalmente perguntei, direcionando meu olhar mais para e dando um sorriso.
— Bom, apesar de eu não ter dinheiro para gastar em cassino nenhum, acho que prefiro isso a ir em alguma boate – ela sorriu para mim e voltou seu olhar para as amigas. – O que acham?
— Eu acho que vocês vão me salvar de uma noite terrível ao lado daquele pé no saco – , que não tinha nenhum filtro, respondeu. Todos nós gargalhamos e nos aproximamos do grupo para nos despedirmos.
— Pessoal, nós vamos passar a boate – Hilary falou.
— Como assim? Mas nós já tínhamos combinado – o piloto retrucou parecendo insatisfeito.
— Na verdade nós não combinamos de ir em boate nenhuma. Nós só combinamos sobre o bar. De qualquer forma, agora mudamos nosso plano inicial e vamos dar um rolê por aí. Só viemos avisar e nos despedir mesmo. Aproveitem bastante e juízo! – falou claramente impaciente com ele.
— Obrigado por nos receber, gente. Foi ótimo conhecer vocês – disse para tentar sair logo dali e não correr o risco deles mudarem a ideia da boate para nos acompanhar. Eu não era esse tipo de pessoa e o pessoal parecia até ser legal, mas eu não queria que a minha noite com amigos fosse marcada por um estranho que parecia não curtir a minha presença.
Nos despedimos de todos e fomos caminhando pelas ruas de Vegas. Embora o Dick’s ficasse ao lado do hotel Excalibur, que também tinha um cassino super conhecido, decidimos ir para o Bellagio, por conta do show de água e luz que tinha na frente do hotel. era, de longe, uma das pessoas mais divertidas que eu já tinha conhecido na vida. Ela se parecia um pouco até mesmo com o , mas claro que eu não falaria nada sobre isso. Hilary era um pouco mais na dela, mas também era animada e parecia ter uma facilidade enorme em se entrosar com qualquer pessoa. Nossa caminhada pela Strip até o nosso destino era em meio a gargalhadas e algumas paradas para tirar as fotos dela. rolava os olhos a cada vez que ela fazia isso, com certeza já acostumada com a mania da amiga. , que já tinha consumido uma quantidade considerável de álcool, estava nos proporcionando bons momentos também, sempre atrapalhando alguma foto de e levando uns tapas como resposta.
, pelo amor de Deus! Desse jeito a gente só vai chegar lá amanhã – reclamou depois de mais uma parada. – E assim, não sei se você tá lembrada, mas nós temos um voo para fazer.
— Ah não, ! Eu não acredito que você está falando de voo nesse momento – disse , se virando com uma feição beirando ao desespero. – Aproveita, mulher. Tem um homem maravilhoso do seu lado e você incomodada comigo.
Eu não sabia quem de nós dois estava mais sem graça naquele momento. era sim divertida, mas era também muito descarada. E com certeza isso só piorava com a bebida no sangue. me lançou um olhar como pedido de desculpas e eu apenas acenei com a cabeça, devolvendo um sorriso com a intenção de tranquilizá-la.
— Ela é sem noção assim mesmo. Mas você se acostuma com o tempo.
— Eu meio que já estou acostumado com o , então fica tranquila – pisquei, apontando para os dois amigos em questão que já estavam em mais uma guerra.
— Pelo visto teremos trabalho em dobro hoje, hein – Ethan comentou. Realmente aqueles dois nos dariam trabalho. Hilary ainda me deixava em dúvidas, ela parecia bem, mas dificilmente pararia de beber naquele momento.
— Olha, eu juro que se ela me irritar muito eu vou largá-la sozinha no quarto e não vou ligar se ela perder o voo – disse. Eu e Ethan apenas a encaramos, totalmente descrentes do que ela estava falando. Ela soltou uma risada pelo nariz e admitiu – Tá, claro que não farei isso. Mas com certeza será a minha maior vontade.
— Eu sei qual é a sua maior vontade! Posso falar? – se meteu, levantando um dedo como se estivesse em uma aula e me olhando com um sorriso atrevido.
— Amiga, é sério, podemos agora ir direto para o Bellagio? Não aguento mais ficar andando, meu salto está me irritando – Hilary finalmente falou alguma coisa, recebendo um olhar de agradecimento de . E meu também, porque eu bem sabia que ela falaria alguma besteira que nos constrangeria.
— Por mim teríamos ido até mesmo de táxi – riu. E eu não podia concordar mais com ele. A verdade é que parecia ser um trajeto curto, mas era longo e ficava ainda mais cansativo com a quantidade de paradas que fazíamos.
— Eu aposto dez libras que vai rolar algo com esses dois hoje – falou baixinho ao meu lado. Eu ri concordando com a cabeça.
— Eu sou capaz de apostar cinquenta.
— Estaria disposto a isso tudo?
— Com certeza! Eu conheço o amigo que tenho – soltei. – Sem ofensas à , mas pelo pouco que pude conhecer é totalmente o estilo de e claramente rolou um interesse.
— Você também reparou? – concondei com a cabeça em resposta. – Espero que ele seja tão doido quanto ela, porque senão vai acabar sofrendo.
— Por quê?
— Porque ela é desprendida demais. E nem sonha em nada próximo a um relacionamento – explicou.
— Sobre isso então relaxa. está na mesma.
— Talvez isso também seja preocupante. É assim que começa a dar merda, né – Eu até concordava, mas eu realmente acreditava que se rolasse algo entre os dois naquela noite, ficaria apenas naquela noite mesmo. Pelo menos pelos próximos meses. Ri dos meus pensamentos e vi o olhar de questionamento de .
— Nada, só pensei que eu acredito que eles vão ficar apenas nessa noite mesmo, caso role algo. Afinal, pelos próximos meses dificilmente vão se ver – depois de ter falado em voz alta que percebi o quanto aquilo também se encaixava na nossa situação. Que não tinha comparação, já que nada tinha rolado entre nós dois, apenas uma conexão surreal. Eram cenários totalmente diferentes, mas talvez falar aquilo, naquele momento, não fosse uma boa ideia. Infelizmente, ou felizmente, eu ficava sem filtro e acabava falando várias besteiras toda vez que eu estava na presença de . Por um lado conseguia ver como algo bom, pois mostrava que em momento algum eu fazia algum personagem ou parecia ser quem não sou. Por outro lado era péssimo, porque na grande maioria das vezes eu falava coisas constrangedoras que me faziam querer sumir.
— Bom, isso é uma verdade – ela ponderou. – Mas internet também existe para isso hoje em dia, né?
— Óbvio! Com certeza. Na verdade é um dos melhores propósitos da internet – rebati, vendo-a concordar com um sorriso. – Nossa, os hotéis daqui são surreais. Cada um mais incrível que outro – comentei quase que desesperado para mudar de assunto.
— São todos super luxuosos, né? Tenho até medo de entrar e ter que pagar pelo ar que eu respirar – gargalhei de sua fala. – Na verdade estou bem receosa sobre ir nesse cassino no Bellagio. Tem certeza que podemos só entrar? Sabe como é, sem ofensas, mas pra você é bem mais fácil.
— Em qual sentido?
— Em todos. Você é famoso, o que por si só já deve facilitar muita coisa – concordei refletindo sobre isso. – E você, com certeza, pode pagar por qualquer coisa que te cobrarem lá. Diferente de mim.
— Olha, vou te contar um segredo – disse me aproximando. – Ser famoso realmente facilita muita coisa, mas não é porque tenho um pouco mais de dinheiro que estou disposto a pagar por qualquer coisa que me cobrarem, viu. Principalmente se eu não achar que vale.

Percebi que ela ficou um pouco sem graça com a minha fala e que seu olhar brilhou com mais intensidade depois da minha fala, e eu esperava que isso fosse algo positivo. Eu não estava falando aquilo para fazer cena e parecer humilde, eu realmente acreditava nisso e vivia dessa forma nos dias atuais.
— Uau. Desculpa. Eu, de fato, não esperava por isso – ela admitiu com um sorriso sem graça.
— Imagino que não. Mas tudo bem, o seu pensamento é só uma consequência pela forma como a grande maioria dos artistas age. Não se sinta culpada por isso – sorri verdadeiramente, tentando tranquilizá-la.

Quando chegamos, finalmente, em frente às fontes do Bellagio, soltei um suspiro de satisfação por poder ver aquele espetáculo. Era simplesmente sensacional. Era realmente um show a parte e que valia a pena a caminhada. Ficamos todos em silêncio, apenas aproveitando para admirar o que nossos olhos captavam. Eu não saberia dizer por quanto tempo apenas existimos ali, nem exatamente o que se passava na cabeça de cada um deles. Mas eu aproveitei aquele momento para refletir e muito. Ali, ao lado da mulher que esteve presente nos meus pensamentos durante aquele mês todo, me vi pensando no destino. Ele era mesmo muito louco. Eu já estava completamente desacreditado de um reencontro com . Passei o mês todo variando entre as fases da negação e aceitação. De vez em quando ia ao mercado ou qualquer outro lugar e me pegava observando as pessoas com mais atenção do que de costume, para tentar achar um rosto familiar. Mas então pensava que eu nem sabia se ela era mesmo de Los Angeles ou até mesmo da Califórnia. E então, um mês depois daquele festival, aqui estávamos nós dois, em Las Vegas, ao lado dos nossos amigos e assistindo o espetáculo de luzes e água que aquele hotel proporcionava. Só percebi que estava encarando-a mais do que deveria quando ela me lançou um sorriso encantador e um tanto tímido, me perguntando se estava tudo bem.
— Sim, tudo ótimo – respondi devolvendo seu sorriso. – Estava apenas pensando na loucura que é o destino.
— Você acredita nele? – me questionou.
— Totalmente. Você não?
— Acredito. Talvez não com a sua convicção, mas acredito – rimos. – Mas por que estava pensando nisso?
Levei alguns segundos, ou talvez minutos, para respondê-la. A verdade é que eu queria falar exatamente o que se passava na minha cabeça, mas não queria assustá-la também.
— Porque estava pensando na loucura do destino de te encontrar duas vezes em um festival enorme e pouco mais de um mês depois te encontrar de novo, por acaso, e em outro estado. Louco, não?
— Demais! Foi bem inacreditável, na real – concordou. – Você acredita em sinais?
— Não sei. Acho que nunca parei para pensar nisso.
— Talvez todas essas coisas sejam um sinal – refletiu, voltando seu olhar para o espetáculo das águas. Comecei a pensar nas suas palavras e em tudo o que aconteceu desde o momento em que ela sentou a nossa frente no festival. E se tudo aquilo fazia parte de um sinal, eu esperava que fosse um sinal para nos conhecermos melhor.
— Acho que talvez você tenha toda razão – concluí, olhando em seus olhos brilhantes e sorrindo para ela da forma mais genuína que eu poderia fazer. Seu rosto estava sereno, seu olhar tinha um brilho surreal e seu sorriso era tão verdadeiro quanto o meu. Eu achava incrível como era fácil entrarmos em um mundo só nosso, apenas por firmarmos o nosso olhar. Eu nunca tinha tido essa conexão maluca com nenhuma outra pessoa, mas com ela parecia apenas certo demais e totalmente inevitável.


Aquela noite estava completamente surreal. Desde o momento em que bati meus olhos em , algumas horas atrás, eu sabia que nada de comum aconteceria até o final dela. A começar pelo meu convite, a sua confirmação e nossas conversas. Os amigos dele eram incríveis, cada um com um estilo totalmente diferente. era louco, muito parecido com , inclusive. Ele conseguia fazer qualquer pessoa em um dia péssimo ter motivos para gargalhar. Principalmente depois de beber um pouco – e eu acreditava que aquilo nem chegava perto do que ele ainda era capaz. Ethan parecia o mais responsável deles três, mas uma das pessoas mais gentis que já tive o prazer de conhecer e muito extrovertido também. Quando nos convidou para acompanhá-los, eu quis dar um beijo nele. Sem maldade. Ou talvez com um pouco. Acontece que o piloto, que até agora eu não fazia questão de me lembrar do nome, estava me incomodando desde antes da nossa saída. Na real, desde o voo de vinda. Depois de alguns anos voando, a gente já conseguia interpretar muito bem os diferentes tratamentos. Sabíamos quando eles estavam sendo apenas simpáticos e cordiais ou quando estavam querendo algo a mais. Alguns eram muito sutis durante o voo, outros nem tanto. E os sutis eram os piores, já que tratá-los bem fazia parte do protocolo e muitas vezes eles consideravam isso como uma resposta positiva. Fato é que o de hoje estava se tornando inconveniente por não perceber que eu não queria nada. E mudou da água para o vinho depois que eu reapareci com os três garotos na mesa. Tornou-se, além de inconveniente, bastante grosseiro e um babaca. Eu sabia que a alfinetada que ele havia dado em tinha um fundo de verdade. Sobre os artistas terem affairs em todo canto do mundo. Eu mesma já tinha visto algumas mulheres sendo relacionadas com o na internet. Mas não consegui segurar a minha língua porque sabia muito bem o quanto a nossa profissão também permitia tudo isso. Tinha conhecimento de vários pilotos que tinham famílias na Inglaterra e inúmeros casos ao redor do mundo. Não era novidade para ninguém e alguns nem ao menos faziam questão de esconder.
Mas agora ali, parada em frente às fontes do Bellagio, depois de um bom tempo de caminhada graças à , eu só conseguia sorrir. Sorrir por mais uma vez o meu trabalho me proporcionar coisas incríveis. Sorrir por estar ao lado das minhas amigas. Sorrir por conhecer pessoas novas que eram sensacionais. E sorrir por estar, finalmente, mais uma vez cara a cara com . Era difícil demais de acreditar que passei esse mês pensando nele, pesquisando sobre e, em um estado diferente do que nos conhecemos, ter o encontrado. Eu estava totalmente absorta em meus pensamentos e encantada depois da nossa conversa sobre destino e sinais. Porque antes de reparar que ele me encarava com um sorriso nos lábios, eu estava pensando justamente nessas questões. Então, quando ele me falou sobre destino e o quão louco ele era, eu só conseguia pedir para que ele não fosse apenas mais um daqueles que fingem ser o que não são. Porque eu estava, verdadeiramente, fascinada por aquele homem. O que era muito absurdo quando eu parava para pensar friamente. Eu saí de um relacionamento um tanto quanto longo há poucos meses, no qual eu fiquei realmente machucada e demorei a me recuperar. E agora, quando eu menos esperava e sem nem me dar um aviso prévio, o destino coloca o na minha vida. Nada parecia fazer sentido, muito menos o meu fascínio por ele. Eu até cogitava que talvez fosse o fato dele ser um cara famoso, ter o seu charme característico e que encantava a grande maioria das pessoas. Mas no fundo, no fundo mesmo, eu sabia que não era apenas isso. E eu sentia, ainda que um pouco receosa, que todos aqueles encontros, aqueles olhares e aqueles sorrisos significavam alguma coisa para mim. Eu só esperava, de verdade, que significassem algo para ele também. Porque eu não estava nem um pouco preparada para ter um coração partido agora.
Saí totalmente do meu momento reflexivo com um gritinho de e com a mão de Hilary na minha, me puxando para irmos atrás deles. Ainda um pouco sem entender o que estava acontecendo, fui caminhando com o pessoal para dentro do hotel. Que era ainda mais luxuoso, surpreendente e espetacular por dentro. Eu fiz até como naquelas cenas de filmes, onde a mocinha do interior vai para a cidade grande e roda em seus próprios pés, olhando a sua volta. E eu tinha certeza que o olhar de deslumbramento estava em meus olhos assim como nos filmes. Olhei para o lado e parecia tão boquiaberto quanto eu. De um lado do grande salão tinha a entrada para uma área de jardim, que naquela época do ano estava totalmente enfeitada com o tema do Outono e deixava o lugar ainda mais incrível do que provavelmente já era. Do outro lado do salão principal estava o cassino, que olhando de fora parecia não ter fim. já estava dando uns pulinhos de alegria enquanto andava ao lado de para a direção do cassino e Hilary parecia ter entrado em estado de choque. Cutuquei-a de leve para chamar sua atenção e ela me olhou com um sorriso gigantesco.
— Amiga do céu, obrigada por isso – falou me abraçando de lado. Eu devolvi um olhar de dúvida por não entender sobre o que ela estava falando. – Se não fosse por você conhecer o , nós estaríamos a essa hora em uma boate qualquer e não aqui – explicou.
— Ah sim! Nossa, nem me fale. A gente com certeza iria com eles e essa noite duraria muito mais do que eu gostaria.
— Ei, vocês duas. Parem de falar e vamos logo – chamou .
, eu não tenho certeza sobre esse lugar ainda – comentei baixo ao seu lado, enquanto passávamos pela porta do cassino. – Tipo assim, eles nem devem fornecer água da torneira para nós – ri preocupada. Eu não costumava chorar minhas pitangas por esse tipo de coisa. Quando eu não podia pagar, eu simplesmente não ia. E eu nem queria que ele pensasse que eu estava querendo algo dele, eu apenas estava realmente preocupada sobre estarmos ali.
— Relaxa. De verdade – ele me abraçou de lado, ainda sem jeito, mas de uma forma bem reconfortante. – Nós pesquisamos antes de vir e a qualquer problema, eles não recusam as lavagens de prato – gargalhei, empurrando-o um pouco com o quadril. – To brincando, mas realmente fizemos uma pesquisa e não tem problema nenhum em entrarmos no cassino, apostarmos em algo se quisermos ou apenas jogarmos um pouco em algum caça-níquel.
— Olha lá hein. Estou confiando em você, se me jogarem na cozinha eu vou te expor aqui – brinquei, vendo a risada dele se transformar em um sorriso lindo.
— Pode confiar – piscou de um jeito bem malandro. – E vamos aproveitar!
Seguimos nosso caminho para o salão do cassino que era ainda maior do que parecia ser vendo por fora. e já estavam grudados em uma mesa de Poker, como se fossem grandes especialistas no assunto. Bom, eu não sei se era, mas com certeza era das piores jogadoras, daquelas que não entendem o intuito final do jogo. Nos juntamos a eles apenas para assistir o pessoal e dar risada das baboseiras que falava, sempre com alguma piada pronta sobre tudo. Quando nos cansamos de assistir aquele jogo, que só não estava mais entediante por conta das nossas brincadeiras, os meninos resolveram que seria uma boa ideia irmos ao bar. , por estar um pouco mais alterada, estava completamente sem noção sobre valores, enquanto eu e Hilary nos entreolhamos depois de dar uma olhada no menu de bebidas.
— Pelo amor de Deus, . Eu realmente terei que ir para a cozinha lavar os pratos depois dessa brincadeira aqui – brinquei com ele. Claro que não deixaria de experimentar alguma bebida, mas com certeza também não sabia como o pessoal conseguia ficar bêbado. Provavelmente as pessoas bebiam tudo o que podiam beber em bares do lado de fora, como o Dick’s, para depois só tentar a sorte no cassino. – Eu vou querer uma gin tônica de frutas vermelhas – pedi ao barman.
— Eu quero o mesmo! – Hilary disse. – Uma só não faz mal, né? – completou rindo e se virando para falar comigo.
— Claro que não, amiga. Sem contar que temos que ter experiência para contar depois.
— Meninas, vocês não querem ir comigo ao banheiro enquanto as bebidas não chegam? Acho que eu vou me perder nesse lugar – pediu, com um olhar que dizia muito mais do que apenas aquilo. Fomos atrás dela, que nem esperou a porta do banheiro se fechar para falar – Eu estou muito bêbada ou o vale a pena?
— Em qual sentido? – Hilary questionou, embora já tivéssemos uma ideia sobre o que ela estava se referindo.
— Em todos, menos no sentido amoroso, pelo amor de Deus!
— Amiga, você curtiu ele? – perguntei a olhando pelo espelho e vendo o aceno positivo de cabeça dela. – Então pronto, acho que ele também te curtiu. Não é você que fala tanto sobre aproveitar as oportunidades? Então aproveita.
— Mas ele realmente é legal ou eu que estou bêbada?
— Ele é mesmo legal, – ri da sua dúvida. – Eu não deixaria você fazer isso se ele fosse um babaca.
— E o ?
— O que tem ele?
— Como assim o que tem ele, ? Não se faça de retardada – ralhou, entrando em uma das cabines.
— Não sei, amiga. Ele parece ser mesmo uma ótima pessoa, mas não sei se quero que algo aconteça – admiti sem graça.
— Que? Tá maluca? – Hilary quase gritou, espantada com a minha resposta.
— Eu não sei se vou conseguir fazer como a e depois viver numa boa. Não com ele.
— E quem disse que vai ser isso? – me encarou séria, assim que abriu a porta da cabine, esperando que eu respondesse algo que eu não poderia. – Por Deus, ! Primeiro que eu nunca te vi apaixonada por alguém tão rápido, segundo que é um desperdício você não aproveitar esse homem. E também um desperdício não deixar que ele se aproveite de você, porque vamos combinar que ele deve saber MUITO bem o que fazer.
— Eu não estou apaixonada! – olhei para elas, que me encaravam com olhares duvidosos. – Tudo bem, eu estou BALANÇADA por ele, o que é bem diferente. Mas não estou nada disso que você falou.
— Então por que não conseguiria apenas aproveitar hoje como se não houvesse o amanhã e viver numa boa? – eu simplesmente odiava quando tinha razão sobre meus próprios sentimentos ou pensamentos. Não que eu estivesse apaixonada, porque não estava mesmo. Mas poderia ficar, eu sabia disso.
— Porque assim como você disse, ele deve mesmo saber o que fazer. E pode ser que eu esteja um pouco balançada demais por ele.
— Amiga, – ela começou, pegando em meus ombros para olhar nos meus olhos com toda a sua seriedade que eu não sabia que ainda estava com ela. – não faça isso com você mesma. Não se prive por medo de sentir algo mais por ele. Se isso acontecer e não for recíproco, o que sendo bem sincera eu duvido porque ele te olha como se você fosse a escultura mais importante do mundo, ao menos você curtiu e foi feliz. E, afinal de contas, a vida não é isso? Não é sobre sermos felizes? Não foi o que você sempre me ensinou?
Aquela era a que eu mais amava. A que abria os meus olhos com palavras de conforto e que não me julgava. E que, independente de qualquer coisa, me apoiaria em todas as minhas decisões. Sorri verdadeiramente para ela e a puxei para um abraço, murmurando um “amo você” e recebendo as mesmas palavras de volta. Quem entrasse no banheiro naquele momento pensaria que aquilo era coisa de duas bêbadas sentimentais, mas não era. Quando nos afastamos, ainda sorrindo uma para a outra, vimos que Hilary nos olhava também sorrindo e com os olhos brilhando. A puxamos pelo braço para que ela fizesse parte daquele momento também, porque ela era realmente especial. Nós já nos conhecíamos de outros voos, mas nunca tínhamos tido a oportunidade que esse voo nos deu, e eu era muito grata de poder considerá-la como minha mais nova amiga.
— Vamos, vamos – quebrou o clima amável, já voltando a ser a de antes. – Eu ainda tenho um boy para conquistar.
— É sério? – questionei enquanto caminhávamos de volta para o bar. – Ele está totalmente na sua, . Não tem mais o que conquistar.
— Não mesmo, inclusive ele não para de olhar para você – Hilary comentou com uma risadinha, recebendo apenas um sorriso malicioso de de volta.
— Suas bebidas chegaram, meninas. Inclusive estávamos quase bebendo já – falou. – Eu nunca vou entender o que tanto vocês fazem no banheiro.
— O mesmo que vocês homens, bonitinho. Falamos mal de vocês – respondeu, piscando para ele e sentando na poltrona ao seu lado.
Assim que me sentei de volta ao lado de e vi seu sorriso sincero para mim, percebi que eu seria realmente muito trouxa se não deixasse que nenhuma aproximação ocorresse por medo de me apaixonar. Poderia até não acontecer nada naquele momento ou até mesmo em momento nenhum, mas eu não me privaria de nada. O que tivesse que acontecer, aconteceria. Sem pressão, sem desespero, sem medo e sem questionamentos.
— Essa bebida parece ser realmente boa – ele comentou comigo.
— É uma delícia. Quer experimentar? – disse estendendo minha taça.
— Nossa, com certeza vou pedir essa na próxima rodada.
— Se tivéssemos apostado ambos ganharíamos – comentei baixinho, porque não podia cogitar que estávamos falando sobre aquilo, apontando com a cabeça para os dois mais ao lado. Eles estavam em uma conversa particular, cheia de olhares insinuantes e sorrisos maliciosos. Ele deu uma risada quando olhou para onde indiquei.
— Eu não tinha dúvidas de que mais cedo ou mais tarde rolaria – comentou, para depois abaixar ainda mais o tom de voz e confessar – ele nos questionou sobre ela e se achávamos que ele tinha alguma chance.
— Engraçado, ela também nos perguntou sobre ele – rimos. – Mas ela só queria saber se ela estava bêbada demais para ter um bom julgamento.
— Bom, acho que só dela questionar sobre isso já mostra que ela ainda estava em perfeito estado de decisão. Mas é sempre bom ter a opinião dos amigos, né.
— Com certeza. Até porque ela sabe que teria que ouvir bastante amanhã caso ele não valesse a pena – comentei. – E olha que teremos muito tempo de voo para isso.
— Antigamente eu não ligava muito para essa opinião deles, mas confesso que já me encrenquei tantas vezes por não ouvir o que eles me falavam, principalmente o que Ethan dizia, que hoje em dia acho essencial – declarou, chamando o barman para um novo pedido. – Você bebe mais um desse ou prefere outra coisa?
— Hm, eu não sei – comecei um pouco receosa, logo desistindo de pensar nesse tipo de coisa naquele momento e sorrindo. – Pode ser outro desse, obrigada.
— E você? Costuma ouvir a opinião das meninas?
— Totalmente! é tipo minha voz da razão, por mais incrível que isso possa parecer, já que eu sou a racional dessa amizade – ri, me lembrando das tantas vezes que eu precisei quase segurá-la pelo braço para que ela voltasse a pensar com clareza.
— E você já se arrependeu de não ter escutado a sua voz da razão? – Embora eu soubesse que ele se referia à , eu também achava que tinha um significado subentendido naquela pergunta.
— Com certeza. Eu odeio que ela tenha tanta razão sobre as minhas coisas – confessei. – Mas também sou muito grata por isso, vai entender a loucura.
— Eu sei bem o que é pensar assim. Eu odeio que o Ethan sempre tenha razão, principalmente quando ele tem razão sobre meus próprios sentimentos. Mas eu não sei o que seria da minha vida se não fosse por ele – sorri depois da sua confissão. Tanto por ser algo que eu pensava sobre , como por ver o carinho que ele tinha por seus amigos. – Falando nele, eu nem reparei que ele tinha saído.
— Nossa, nem eu. E a Hilary também. Será que... – sorri maliciosamente, deixando a frase no ar. Ele percebeu e deu uma risada negando com a cabeça.
— Ah não, não. Acho que é mais provável que ele esteja procurando alguém para ela, caso seja esse o interesse de Hilary – comentou, me deixando ainda mais confusa. – O Ethan é gay – concluiu, me fazendo entender, mas ainda me deixando totalmente perdida por conta da revelação.
— Meu Deus, jura? Que bola fora, ainda bem que eu não falei isso na frente dele – ri sem graça e abaixando minha cabeça.
— Relaxa! Ninguém acredita também quando falamos – disse, já se levantando, estendendo sua mão para mim e me enviando um sorriso lindo. – Vamos tentar a sorte em algum caça níquel?
Ainda um pouco receosa devolvi o sorriso e segurei em sua mão estendida. Peguei minha bebida na mesa e fui caminhando ao seu lado, ainda com nossas mãos entrelaçadas. Eu fui o caminho todo até as máquinas apenas rezando para que eu não estivesse suando demais, porque eu não precisava daquela vergonha. Mas também fui o caminho todo agradecendo e aproveitando o seu toque, que era quente e que me passava uma segurança assustadora. Quando estávamos mais próximos das máquinas, mas em uma área um pouco mais isolada, ele parou de repente de andar e se virou para mim, ainda sem soltar minha mão. Seus olhos estavam brilhando e fixos nos meus, que provavelmente estavam com um ar de confusão. Seu rosto estava mais sério, mas ainda assim leve. Ficamos naquela troca de olhares, mais próximos do que em qualquer outro momento, por um tempo que eu jamais seria capaz de dizer. Ele foi o primeiro a se mexer, se aproximando minimamente e abrindo um sorriso quase imperceptível. Eu me sentia uma adolescente prestes a beijar pela primeira vez, completamente estática, sem saber o que fazer. Com cuidado e sem desviar seu olhar do meu, ele pegou a minha taça e depositou em algum lugar que eu não sabia que existia. Sua mão, que antes estava entrelaçada na minha, foi subindo por meu braço lentamente, enquanto ele juntava ainda mais os nossos corpos. Quando ele tocou o meu rosto, fez um carinho com o polegar na minha bochecha da forma mais delicada que eu já havia sentido na vida. Naquele momento eu pareci acordar do meu transe, desviei meu olhar do seu e encarei sua boca, mais próxima e atraente do que nunca. Ainda segurando na lateral do meu rosto com cuidado, ele sussurrou:
- Posso te beijar?
Acho que em todos os meus anos de vida nunca estive em um universo tão distante quanto naquele momento. Eu tinha certeza de que absolutamente nada poderia nos tirar daquela bolha. Voltei meu olhar para o seu, que ainda permanecia esperando uma resposta minha para continuar com o que estava prestes a fazer. Levantei meus braços, envolvendo seu pescoço e fazendo um carinho em sua nuca, enquanto abria um pequeno sorriso em resposta. Ele terminou com a distância que nos separava, encostando seus lábios nos meus de forma tão sutil que eu mal senti. Ficamos por mais alguns instantes apenas daquela forma, ainda com os olhos abertos e vidrados um no outro. Senti quando seus lábios formaram um sorriso, me fazendo ter a mesma reação, para logo depois sentir sua língua contornar minha boca, pedindo passagem para aprofundar o beijo. Meu corpo naquele momento parecia ter vida própria. Eu entrei em um estado de puro frenesi. Eu fiquei aquecida como nunca na vida quando ele passou o outro braço por minha cintura, juntando ainda mais nossos corpos, em um beijo lento, profundo e instigante.
O beijo era indiscutivelmente muito melhor do que eu poderia imaginar. De todos os momentos que me peguei pensando naquilo, em nenhum deles eu sequer cheguei perto do que realmente senti. Era clichê, mas parecia que nossas bocas tinham sido feitas uma para a outra. O encaixe era perfeito, como se fossemos velhos conhecidos. Suas mãos continuavam fazendo um carinho delicioso na minha cintura e na minha nuca, mas sem nenhum tipo de segunda intenção. Nós estávamos no nosso mundo, apenas querendo aproveitar nossas bocas e corpos grudados. O ar naquele momento era completamente dispensável, porque enquanto o meu coração e meu corpo estivessem reagindo daquela forma, nada mais era importante. Depois de incontáveis minutos daquela mesma forma, separamos nossas bocas lentamente, mas ainda mantendo nossos rostos colados. Quando abri meus olhos, ele me encarava com aquele olhar misterioso de quando nos encontramos na porta do toalete e com um sorriso contido. Continuamos nos encarando enquanto nossa respiração voltava ao normal. Em momento algum nossa troca de carícia, totalmente inocente, foi deixada de lado. Ele me deu um selinho demorado, se afastando um pouco mais para me olhar melhor, agora com um sorriso enorme presente.
— Você não tem ideia do quanto eu esperava por isso – disse, segurando meu rosto com ambas as mãos e me dando mais um selinho.
— Talvez eu tenha sim – sorri de lado, me lembrando da primeira vez que coloquei meus olhos nele.
— Desde o momento que você me encarou naquele festival que eu desejo isso. E eu simplesmente não consigo acreditar que realmente aconteceu.
parecia não ter vergonha nenhuma de admitir aqueles sentimentos e sensações para mim e isso só me fazia ficar ainda mais encantada. Eu me considerava, na grande maioria das vezes, uma mulher de atitude. Mas em momentos como aquele eu me sentia uma criancinha. Na verdade eu nunca fui muito boa em demonstrar meus sentimentos e afetos, a não ser com meus pais ou . Mas vê-lo ali, com o rosto ainda próximo demais do meu, sendo totalmente sincero comigo e deixando seu sentimento falar por ele, me fez ter a coragem que sempre me faltou de abrir meu coração e de demonstrar o que eu sentia.
— Eu pensei tanto sobre você nesse último mês – falei bem baixinho, ainda um pouco envergonhada por admitir aquilo. Recebi um sorriso apaixonante, que me aqueceu ainda mais.
— Então estivemos juntos em pensamento, porque você não saiu da minha mente um dia sequer.
E foi ali, olhando nos olhos de , sendo abraçada por ele da melhor forma que eu poderia imaginar e no meio do salão do cassino do Bellagio, que eu percebi o quanto eu estava ferrada. Eu realmente me apaixonaria por aquele homem.

Sete



Se me falassem, menos de uma semana atrás, que eu estaria naquela situação naquele momento, eu riria na cara da pessoa e diria que ela estava louca. Não tinha dois dias que havia chegado de volta a Londres e já estava sentindo meu coração inquieto, como quando estava há muito tempo sem ver meus pais. Diferentemente dos outros momentos, dessa vez a sensação tinha outro causador como protagonista. Um que tinha grandes e cativantes olhos e um sorriso destruidor. Um protagonista que, sendo bem sincera, estava em cena há mais de um mês e bagunçou os meus dias, que eram calmos e sem graça. Um que me fez acompanhar algumas notícias de famosos, algo que eu tanto criticava em .
O grande problema de sentir meu coração inquieto daquela forma era saber o significado desse sentimento e eu não podia mentir para mim mesma nem que tentasse. Era a velha e conhecida saudade.
Quando acordei naquele dia e percebi o que estava acontecendo, surtei. Troquei de roupa mais que depressa, saí de casa sem pensar duas vezes e fui correr. Corri como há muito tempo não fazia, até sentir meus pés latejando e me sentir um tanto desidratada. Sentei no banquinho que tinha em frente à praça para respirar um pouco e me recuperar. Xinguei-me por ter saído tão desnorteada de casa, sem me preocupar em pegar minha garrafa de água, documento e um dinheiro para minha parada obrigatória no Costa ou qualquer coisa do tipo. E o pior de tudo era que de nada adiantou minha corrida desenfreada. O sentimento continuava presente dentro de mim e permaneceria ainda. Eu tinha certeza disso.
Voltei para casa em passos lentos e conformada com a situação. Não havia nada que eu pudesse fazer naquele momento para mudar o rumo das coisas principalmente porque, diferente do que pensei que pudesse acontecer, me mandou mensagem ainda no mesmo dia, me agradecendo pela noite e desejando um bom voo. Ele era o típico cara que a maioria das mulheres sonha, além de absurdamente bonito, fisicamente falando, parecia ser incrível como pessoa. Meu maior medo era me deixar levar por sua presença, gentileza, demonstrações de carinho e atenção. Ele não parecia fazer nada daquilo como um método de conquista, mas eu ainda tinha medo porque sabia o quanto apenas seu olhar mexia comigo e eu sabia o que isso significava.
Estava tentando cumprir o que tinha prometido para e para mim mesma, não me privar por medo. Mas ao mesmo tempo em que sempre me forçava a lembrar sobre isso, também me lembrava de que estávamos à milhas de distância.
Depois que nos beijamos no salão do cassino e fizemos confissões sobre como nos sentíamos, me senti feliz como não me sentia há um bom tempo. Nada além daquilo aconteceu, mas já foi o suficiente para me deixar nas nuvens. Depois do nosso momento a sós, realmente fomos às máquinas de caça níqueis tentar a sorte e o máximo que consegui foram 50 dólares, o que já me fez comemorar como se fosse grande coisa. Hilary e Ethan reapareceram contando sobre as tentativas, hilárias e frustradas, de um pretendente para ela. Enquanto ela reclamava das escolhas de Ethan ou de como não conseguia encontrar uma "boa vibe" em nenhum homem, ele se queixava das exigências dela para quem queria curtir apenas uma noite.
Decidimos por tentar jogar na roleta, porque era o jogo com menos estratégias ou que precisava de menos conhecimentos. Claro que perdemos de todas as formas, mas pelo menos foi divertido ver a decepção de Hilary em cada rodada. Já se passavam das quatro horas da manhã quando resolvemos procurar por e , que simplesmente sumiram de nossas vistas horas antes. Já tínhamos uma ideia do que tinham ido fazer, então apenas fingimos que não existiam. Hilary me lançava olhares maliciosos e animados em todo momento que via e eu tendo momentos mais carinhosos. Eu não conhecia Ethan tão bem, mas poderia apostar que o sorriso que ele enviou para assim que nos viu juntos foi de satisfação.
Após me garantir que eu poderia acionar a polícia se ela não chegasse de volta ao hotel até o meio dia, os meninos fizeram questão de nos acompanhar até o nosso destino. Parecia bobagem, eu mesma acharia isso se não fosse comigo, mas o momento de despedida foi bastante angustiante. Talvez pelo fato de ter ficado um mês apenas acompanhando a vida dele sem que ele nem imaginasse. Sabia que as circunstâncias eram diferentes e que ele inclusive já havia anotado meu número e me enviado mensagem para que eu gravasse o dele, mas parecia errado ir embora naquele momento, justamente quando nos encontramos e nos conhecemos melhor.
Desviei meus pensamentos daquele tópico mais uma vez assim que entrei em casa após minha corrida. Eu estava me desgastando demais por um assunto que talvez nem tivesse tanta importância assim. Decidi, subitamente, que voltaria a ter meus hábitos gastronômicos. Eu amava cozinhar em todos os momentos e por todos os motivos, mas depois de algum tempo afastada desse mundo e vivendo em função da aviação, acabei deixando esse meu lado um pouco esquecido.
Parei um pouco de estudar sobre as diferentes cozinhas, sobre o mundo dos doces e também de um assunto que eu costumava gostar bastante quando estava na faculdade: a harmonização. Nunca pensei em me tornar uma grande especialista nesse assunto, mas achava extremamente importante saber harmonizar os pratos com as bebidas. E como tudo ocorreu rápido demais, acabei deixando os inúmeros cursos disponíveis para trás. Por isso, em um impulso, peguei meu computador e fui direto para a página de uma chef confeiteira que eu conhecia bem.
Sem nem me dar chance de pensar duas vezes, comprei um dos cursos que ela oferecia e já me preparei para fazer uma das receitas que ela ensinava. Acabei passando boa parte da tarde naquela função, sem me importar com celular, mensagens, ligações ou qualquer outra coisa que tirasse a minha concentração do que estava fazendo. Somente me dei conta de quanto tempo havia passado naquela cozinha quando bateu em minha porta, um tanto quanto desesperada, me fazendo levar um susto.
— Quem morreu? – perguntei assim que abri a porta, recebendo um olhar nada amistoso de volta e uma trombada dela enquanto passava por mim, marchando.
— Eu pensei que tinha sido você – Acusou.
— Quê? Tá doida?
— Cacete, . Eu não acredito que estou louca atrás de você enquanto você está aqui brincando de fazer bolo. – Rebateu impaciente, já me tirando do sério. Eu odiava quando ela assumia aquela postura e odiava mais ainda quando ela falava mal da minha cozinha.
— Não estou brincando, . Você sabe muito bem. – Rolei meus olhos, voltando para o que estava fazendo e deixando-a sozinha no meio da sala. – Se veio aqui me insultar pode dar meia volta e ir para casa.
— Estou tentando falar contigo desde ontem à noite e você com essa sua mania de deixar o telefone no silencioso. Até mensagem para o eu mandei – comentou com a voz um pouco mais calma e me deixando completamente confusa com sua confissão. Eu nem fazia ideia de que ela trocava mensagens com ele. – Não me olhe com essa cara, não tem nada a ver. Mandei mensagem para ele porque não podia mandar para o .
— Cara, , você é muito maluca. Eu fico sem te responder por menos de 24h e você já quase aciona a polícia para fazer uma busca. – Ri.
— Sinto muito se eu me preocupo com você.
— Meu amor, eu sei. Também me preocupo, mas você já imaginou se a cada vez que me deixasse no vácuo eu acionasse Deus e o mundo para te achar? – Me aproximei dela, que estava com uma cara de falsa tristeza, para abraçá-la. – Obrigada pela preocupação, mas você precisa me deixar um pouco em paz. Às vezes só quero distância, mas você simplesmente não permite e bate na minha porta! – Reclamei, brincando, e levando um tapa na cabeça como resposta.
— Eu sei que sou exagerada, mas dane-se. O que está fazendo de bom aí?
— Bolos.
— Para quê?
— Para nada, estou apenas aprendendo. Decidi que voltarei a estudar mais sobre tudo que envolve gastronomia, pois acabei deixando muito de lado isso – comentei, empolgada.
— Mas tipo assim, tem algum motivo? – perguntou, se enfiando na geladeira à procura de algo para comer. – Você bem que podia fazer nosso jantar, aproveitando que está no clima.
— Engraçadinha.
— Sério, . Por qual motivo decidiu isso? Do nada?
— Sim, amiga. Decidi porque sei lá, fico o dia inteiro das minhas folgas apenas descansando, vendo TV, fazendo uma corrida ou outra, indo ao shopping. Cansei.
— Mas a folga não serve para fazermos justamente isso? – questionou, em dúvida.
— Também, mas você não cansa de se sentir inútil?
— Com certeza não. Eu já sou útil demais nos dias em que trabalho. – Riu.
— Você tem um bom ponto – Concordei com ela, finalizando o bolo que estava fazendo. – Pronto! Até que ficou bonito. Agora vamos experimentar.
— Pera aí. Você ficou sei lá quantas horas fazendo isso para simplesmente cortar dez segundos depois de finalizar?
— O que quer que eu faça? Uma exposição de bolos?
— No mínimo! – respondeu, desacreditada. – É sério que vai cortar?
— Claro, . Até porque, se não comermos, nunca vou saber se acertei na massa e no recheio. A gente precisa fazer a degustação sempre – respondi, já cortando uma fatia generosa do bolo enquanto ela permanecia um pouco em dúvida. – Vamos apenas experimentar um pouco, depois faço algo para comermos e então poderemos nos entupir disso aqui como sobremesa.
— Tá ok! Até que essa parte não me parece uma má ideia, mesmo. Você pode sempre me chamar para fazer a degustação dos seus bolos se eles estiverem tão incríveis quanto esse daqui – Sorri para ela. De fato o bolo tinha ficado sensacional, com uma massa macia e amanteigada, um recheio de frutas vermelhas e uma cobertura de buttercream de Oreo que melhorava ainda mais o resultado.
— Ficou bom mesmo, não é? Acho que vou mudar de profissão. – Brinquei. Vi que ela ficou estática por um momento, como se tentasse decidir se eu estava falando sério ou não. – O que houve?
— Vai mesmo?
— Não, amiga – respondi, um pouco pensativa. Percebi seu olhar questionador pesando sobre mim e tratei de me levantar do balcão para começar a preparar nosso jantar, a cozinha ficando em um silêncio sepulcral depois daquela brincadeira. Depois de mais alguns minutos apenas daquele jeito, ela resolveu perguntar:
— Tem certeza, ?
— Sim. Pelo menos por um bom tempo. – Sorri complacente para tentar quebrar o clima estranho que tinha se instalado naquele ambiente.
Eu sabia o quanto amava a aviação e se via fazendo apenas aquilo pela vida inteira, mas sempre tinha minhas dúvidas sobre meu futuro. Eu era apaixonada pelo que fazia, totalmente. Nem saberia explicar o quanto fazer aquilo me deixava feliz, não tinha aquele sentimento de pesar por ter que ir trabalhar, por ter que acordar cedo (muitas vezes até mesmo de madrugada) ou por nem conseguir dormir. Mesmo nos meus piores dias, exceto o que Derek apareceu e me tirou do eixo, colocar meu uniforme e ir trabalhar me ajudava de alguma forma, ainda que minimamente.
Porque sempre me distrair durante o voo, sempre ocupava minha cabeça com muitos procedimentos e protocolos e acabava chegando aos diferentes destinos com vontade de apenas viver, mas eu também amava a gastronomia e tudo que ela representava para mim. Eu não sabia se queria viver para sempre naquela loucura que era a aviação, por isso levava comigo, por todos os anos da minha vida, a máxima de apenas ser feliz. Enquanto eu estivesse verdadeiramente feliz como comissária de voo, era dessa forma que continuaria.
acabou aceitando a minha resposta e foi até a sala para ligar a TV em algum desses programas que ela tanto amava. Aproveitei para pegar meu celular e checar se tinham muitas mensagens e ligações, rindo descrente ao ver que ela tinha feito 14 ligações. Passei por um sorriso ao ver o nome do na central de notificações e fui murchando quando vi que tinham duas ligações dele. É claro que, se ela falou com , ele falou com , que automaticamente também se preocupou porque se ela, que estava em Londres, não sabia sobre a minha ausência, quem mais saberia?

– 18:23
Agora estou ficando realmente preocupado
E nem a responde mais o para dar informações se algo aconteceu
.

– 15:37
Te liguei porque estava um pouco desesperada por notícias suas
Ela mandou algumas msgs para , mas eu n soube falar nada
Aqui são 7am ainda e nós deixamos o estúdio só depois das 5
Desculpa se te atrapalhei


– 13:01
Finalmente conseguimos concluir aquela música que comentei com vc
A propósito, bom dia
Tudo bem?
Seria estranho se eu falasse que parece que faz mais de dois dias que vc voltou p Londres?


Resolvi responder suas mensagens de uma vez antes que ele se preocupasse ainda mais porque se fosse Ethan ou me questionando sobre ele, eu possivelmente já estaria surtando. Precisava fazer entender que nem sempre podia agir daquela forma. Da última vez que ela fez isso, minha mãe estava prestes a pegar o carro e vir de Bournemouth até Londres para ver como eu estava. Ela realmente só faltava acionar a polícia atrás de mim se eu ficasse muito tempo sem respondê-la quando sabia que eu estava de folga em casa.

– 18:55
Me desculpa!
é totalmente sem noção, haha
Ela acha que só porque estou de folga, estou 100% livre para mexer no telefone e respondê-la quando ela me manda mensagem
Tudo bem comigo. E com você?
Que bom que conseguiram finalizar aquela música. Vou querer ouvir em primeira mão haha
Seria estranho se eu dissesse que também tenho o mesmo sentimento?


Enviei todas as mensagens que precisava e voltei para a preparação da janta daquela noite, que seria uma simples torta com tudo que tinha na minha geladeira porque eu não estava inspirada para inventar nada elaborado mais. Sem contar que no dia seguinte eu voaria, então precisava mesmo usar algumas comidas já prontas para que elas não estragassem até minha volta. Sabia que não ligava muito para essas coisas e mesmo que ela ligasse naquele dia, eu teria que me contentar com aquilo mesmo, ainda mais depois de ter feito aquela confusão toda apenas por não ter tido respostas minhas. Aproveitei que a bancada da minha cozinha servia de parede para separar um cômodo do outro e abordei sobre esse tema, que não era novo para nós duas.
— Amiga – chamei-a, recebendo sua mão de "espere" como resposta. Ela parecia concentrada em algo que fazia no celular e eu podia apostar que ela falava com naquele momento. – , me escuta – chamei de novo.
— Um segundo. só pode estar querendo que eu pegue o primeiro voo até LA para dar na cara dele – comentou, displicente, ainda sem tirar os olhos do telefone.
— É sobre isso mesmo que quero falar.
— Como assim?
— Amiga, você precisa parar com essa mania de acionar todo mundo quando quer falar comigo. – Comecei calmamente, vendo-a abrir a boca para retrucar e logo completando. – Eu sei que você se preocupa e também me preocupo com você, mas nem por isso mando mensagem para Deus e o mundo para te achar.
— Mas , você não me respondia, não atendia as ligações e eu odeio que você não tenha a opção de "visualizado por último às" – respondeu, se justificando.
, pelo amor de Deus! Você não pode querer que as pessoas te respondam quando acha que elas devem – disse, impaciente. Era muito raro perder minha paciência de verdade com ela, mas esse era um assunto que me tirava fácil do sério. Primeiro porque eu odiava ser controlada, segundo porque já estava cansada dela fazendo a mesma coisa depois de tantas vezes que conversamos sobre.
— Credo, . Do jeito que você fala parece que sou uma controladora.
— E não é? – soltei sem querer, vendo que tinha deixado-a chateada. – Desculpa, amiga. Não quis dizer isso. Você sabe.
— Sim – disse, simplesmente.
— Mas já conversamos sobre isso, . Você sabe o quanto odeio me sentir controlada por qualquer pessoa que seja. – Comecei, bem mais afável do que antes. – E você também sabe como já causou boas confusões por fazer essas coisas. Com Derek, com minha mãe, com meu pai. Eu sei o quanto se preocupa e fico muito grata por isso, mas não dá para agir dessa forma para sempre.
— Eu sei, vou melhorar – respondeu, me fazendo encará-la com um olhar descrente porque sempre falava a mesma coisa. – Eu juro! Dessa vez eu vou me esforçar mesmo para melhorar.
— Ok, eu vou acreditar. Mas é para tentar de verdade! Você sempre diz que vai tentar e nunca tenta, só finge. – Rimos.
— Acho que sou carente demais, acabo querendo sua atenção quando sei que está de folga e surto – comentou, levantando-se do sofá, e vindo sentar na banqueta.
— Então estou precisando de um reserva para quando não puder te responder e acho que já sei até quem pode me substituir. – Brinquei, arqueando minhas sobrancelhas para insinuar sobre quem estava falando.
— Nem começa, . Já falei que não tem nada a ver. Eu só mandei mensagem para ele porque não tinha como mandar para o . Ele nunca me responderia um direct no Instagram.
— Por que não?
— Porque ele tem milhares de seguidores. Jamais veria minha mensagem.
— Mas vocês não se seguem? Provavelmente ele recebe notificação de quem é amigo dele – Insisti.
Eu até acreditava um pouco na história dela, mas tinha uma leve dúvida se ela também não estava a fim de conversar com . Depois da noite quente deles – e de eu descobrir que eles foram para o nosso hotel, me deixando bastante brava por ela ter fingido estar em outro lugar –, ela mal quis falar comigo sobre o assunto. Não insisti muito porque também sabia que isso era um pouco chato e também porque aproveitei enquanto ela não ficava me fazendo inúmeras perguntas sobre .
— Sim, . Mas seria muito mais demorado e eu estava PREOCUPADA. Eu tinha pressa. – Rolou os olhos, fingindo impaciência. – Mas até me arrependi porque ele falou um monte quando fui mandar mensagem para avisar que você estava em casa e bem.
Não pude aguentar a minha gargalhada depois desse comentário. Primeiro pela situação em si, segundo pela cara de desgosto que ela fez, provavelmente por ter levado um esporro de um cara que mal conheceu, mas que aparentemente mexia de alguma forma com ela.
— Desculpa, amiga – pedi após meu momento de risada e também por ver que a expressão em seu rosto só tinha sido reforçada. – O que ele te falou?
— Ah, ficou me questionando sobre várias coisas como quando foi a última vez que tínhamos nos falado, que deveria esperar porque provavelmente você estava apenas me evitando, depois falou que eu não podia deixar todo mundo preocupado do outro lado do mundo e sumir e, por último, falou que eu era exagerada demais. Ele só me irritou e falou merda. Aquele sem noção nenhuma achando que pode me dar lição de moral! – desabafou, falando tudo muito rápido e quase sem respirar. Passei uns segundos pensando enquanto passava o ovo batido em cima da massa da torta e resolvi questionar, mesmo que ela me xingasse depois.
— Você tá gostando dele?
— Porra! Tá maluca, ? De onde você tirou isso? Essa história tua com o está te afetando. Que ideia! Até parece! Só estou puta por aquele sem noção querer brigar comigo.
— Tudo bem. Não está mais aqui quem falou! – Levantei meus braços na altura dos ombros, me rendendo, mas permaneci desconfiada de tudo aquilo. Eu a conhecia bem demais para saber que não era apenas aquele o motivo de sua irritação. Resolvi que ainda não insistiria sobre o assunto porque apenas a irritaria e a gente não precisava de mais estresse naquele dia. – Amanhã você voa?
— Não sei. Amanhã estou de plantão. E você?
— Vou para a África do Sul – sorri, empolgada.
— Nossa, por que você sempre faz os voos legais?
— Pizza de marguerita é a preferida da escala. – Pisquei, brincando. Nós tínhamos essa piada interna de que quando ganhávamos uma escala boa era porque tínhamos presenteado os escaladores.
— Me lembrarei disso para o próximo mês.
Continuamos com nossas brincadeiras até o momento em que ela foi embora carregando um pote com uma fatia generosa do bolo que eu tinha feito e outro com um pedaço da torta. Ela sempre saía da minha casa carregada de coisas depois que inventávamos de jantar. Suspirei, cansada daquele dia que tinha sido bastante longo e um pouco agradecida por ela não ter me questionado nada sobre . sabia que tínhamos ficado no dia do cassino, mas no dia da nossa volta, diferente do que pensei que aconteceria, ela estava muito mais introvertida do que extrovertida. E esse foi o primeiro sinal vermelho para mim.
Quando chegamos a Londres ela sequer me questionou se eu gostaria de fazer algo no dia, disse apenas que estava cansada demais e passaria o dia inteiro dormindo. Apesar de realmente ter sido um voo cansativo, além da ressaca que ela ainda devia estar sentindo, ela não costumava chegar e pensar apenas em descansar. Hilary, que nem a conhecia tão bem quanto eu, achou tudo tão estranho que me enviou uma mensagem assim que nos despedimos no aeroporto para saber se ela estava bem. Quando pensei que ela estava tão eufórica para me encontrar por querer saber mais sobre o que tinha rolado entre e eu, ela ficou completamente muda sobre o assunto, me deixando ainda mais alerta. E, por fim, como um sinal vermelho intermitente enorme, essa irritação toda dela por apenas mencionar algo sobre .
Resolvi deixar essa história toda de lado quando deitei na cama para finalmente descansar. Peguei meu telefone, aproveitando para enviar uma mensagem de agradecimento a ela pela noite, e fui responder as demais notificações, começando por Hilary que, aparentemente, também foi acionada no desespero de .

– 22:03
Oi, amiga.
Me desculpa a demora, mas já vi que a te avisou que me achou kkkk
Desculpa por isso também, ela pode ser bem desesperada às vezes
Você está bem?


Passei para o lado e respondi algumas mensagens dos meus pais, que dessa vez tinham sido poupados da procura de , deixando propositalmente a conversa com por último porque sabia que acabaríamos nos falando e não estava com paciência de conversar com muitas pessoas naquele momento.

– 19:00
Nossa, ela realmente nos deixou preocupados
Mas que bom que nada aconteceu
Estou bem tbm. Feliz por ter completado mais uma


– 22:17
Desculpa pela demora de novo, acabei dando atenção exclusiva para depois que ela quase arrombou a minha porta
Hahahah


– 22:20
Inclusive acho que ela e brigaram, mas n tenho certeza. Só vi que ele ficou de cara feia dps de falar com ela agora. E resmungando bastante também


– 22:21
Sim, parece que eles brigaram mesmo


– 22:23
E por que brigaram?
Eu sei, eu pareço uma velha fofoqueira, mas n quis falar nada


– 22:25
Acho que não gostou muito dela ter acionado vocês
Inclusive peça desculpas a ele, por favor. Espero que ele não esteja realmente bravo com ela. E nem comigo
sempre faz isso e nós já conversamos
Eu não queria atrapalhar o dia de produção aí. Nem ela, claro


– 22:28
Imagina, . N atrapalhou nada
E desde quando fica verdadeiramente bravo com alguém?
Apenas ficamos preocupados, mas já passou
O importante é que vc tá bem


– 22:30
E bastante cansada, hahah


– 22:30
Cansada? Mas hoje vc n estava de folga?
Eu odeio conversar por msg, posso te chamar em vídeo?


Levei um susto quando vi sua última mensagem porque homens dificilmente preferiam conversas por telefone e porque eu também não tinha certeza se estava preparada para aquilo. Nós conversamos desde o momento que nos despedimos na porta do hotel em Vegas, mas acabamos tendo conversas bastante espaçadas por conta do fuso horário, do voo longo e do dia anterior, que passei quase todo dormindo. Além de tudo isso, eu também estava de pijama, pronta para dormir e possivelmente com uma expressão cansada. Acordei dos meus pensamentos com mais uma mensagem dele.

– 22:36
Dormiu?


– 22:41
Não, desculpa
Me desliguei aqui


– 22:42
N tem problema se n quiser que eu ligue
Na real eu nem sei direito a hora aí em Londres
Aqui já passou das 2pm


– 22:44
Não, desculpa. Não é isso
Eu que acabei prestando atenção na tv e esqueci de responder
Pode ligar sim
Às vezes é mesmo bem cansativo conversar por mensagem


Corri para, idiotamente, me olhar no espelho e ver se não estava tão destruída assim antes que ele me ligasse. Tudo bem, eu não me arrumaria para fazer apenas uma ligação, mas também não precisava parecer morta no vídeo. Minha reputação ainda estava em jogo, afinal de contas. Ri do meu pensamento no momento em que senti o telefone vibrar. Respirei fundo, contei até três e aceitei a chamada. E meu Deus, aquele homem era mesmo real?




Aquela noite no cassino, dois dias antes, ainda não saía da minha cabeça. Era para ser apenas um fim de semana entre amigos, curtindo as maravilhas de Las Vegas. Mas foi muito além disso, muito além das minhas expectativas para aquela mini viagem. Eu estava esperando beber até não aguentar mais, curtir algum cassino, quem sabe encontrar alguém legal para passar a noite e voltar para o meu mundo de produção em LA.
O encontro com me pegou de surpresa, assim como sei que também a pegou de surpresa. Tentei aproveitar o máximo que pude nas poucas horas que passamos juntos. Nosso beijo no meio do salão ainda estava marcado em mim como se tivesse acabado de acontecer. Sua pele quente parecia ainda me aquecer e o perfume dela estava mais presente do que qualquer outro aroma. Eu ainda nem acreditava que, em um lampejo de coragem, eu a beijei.
Parecia surreal demais para quem passou o último mês inteiro procurando por uma pessoa que nem o nome sabia. Na primeira noite de volta a LA eu tive medo. Medo do que poderia acontecer dali para frente, que todo o meu esforço tivesse sido em vão. Eu sabia que parecia um doido com esses pensamentos tão extremos e repentinos, mas também sabia que eles eram reais porque o que eu sentia era real.
Ethan estava receoso, mas genuinamente feliz pelo que aconteceu no cassino. Ele sempre estaria com um pé atrás sobre qualquer coisa que pudesse me magoar. era o mais assustado com meus comentários e confissões, mesmo me conhecendo muito bem. Mas eu também achava que toda a cena dele era por querer disfarçar a noite com , que em momento algum foi mencionada. O que não era nada normal para os padrões do meu amigo. Talvez fosse apenas impressão minha, mas ficaria de olho nos passos dele, principalmente porque sabia que estavam mantendo algum contato. O mais estranho aconteceu logo depois de Ethan e eu termos ficado no estúdio até quase 6am, porque a inspiração estava no auge e precisávamos aproveitar para adiantar a finalização de uma das músicas mais trabalhosas do álbum, e chegarmos em casa destruídos: fui bombardeado de perguntas de sobre .
— Eu não sei, cara. A última vez que nos falamos já faz algumas horas e ela comentou que aproveitaria a folga para descansar tudo que precisava. Deve estar dormindo – respondi de modo automático. – Por quê?
me acordou me ENCHENDO de mensagens para saber sobre ela – disse, de mau humor. "Ah, , nunca acorde nosso querido em um dia de descanso dele", pensei.
— Mas ela não está em Londres? Ela deveria saber melhor do que ninguém.
— Pois é, mas ela já me acordou, acabou com o meu sono e me tirou do sério para que perguntasse a você sobre . – Bufou, se jogando no sofá. Eu duvidava muito sobre esse papo de que ele perdeu o sono porque ele conseguiria dormir em qualquer canto que encostasse.
— Mas aconteceu algo? Por que ela está tão desesperada atrás da ?
— Deve ser para falar sobre como o céu de Londres está cinza.
Gargalhei de sua fala porque ele realmente estava sem paciência. Ethan me lançou um olhar preocupado enquanto seguia para a cozinha. Eu não estava entendendo muito bem o que se passava e o porquê de tanto desespero ou preocupação, mas comecei a ficar pensativo sobre o assunto. Peguei meu celular para conferir se não tinha nenhuma mensagem de e para mandar uma mensagem para ela apenas por precaução. A última mensagem que tinha enviado era sobre a música finalmente finalizada poucas horas antes.
Fui pegar alguma besteira para comer antes de subir para descansar um pouco, deixando ainda bufando no sofá. Eu sabia que ele dormiria em questão de minutos caso não continuasse enviando mensagens para ele.
— Conseguiu alguma coisa? – Ethan me perguntou, assim que me viu chegando.
— Não. Mandei uma mensagem só. Eu nem sei que horas são por lá, ela deve estar descansando.
— Será? Por que ficaria tão preocupada assim? – ele questionou, me deixando nervoso, coisa que não estava pouco tempo atrás. Ethan sempre foi a pessoa preocupada, que em qualquer mínimo sinal já começava a querer surtar. O grande problema era que, muitas vezes, ele acabava deixando a gente na mesma pilha que ele.
— Não sei, Ethan, mas não acho que tenha acontecido algo – falei, dando de ombros, ainda que eu não estivesse tão certo sobre isso.
— Bom, tomara que não. Eu vou subir, estou acabado. Qualquer coisa pode me acordar.
— Valeu, cara. Vou só terminar esse pão e também já vou descansar.
Deitei na cama depois de um banho relaxante, ainda pensando em , mas ao invés de pensar sobre nossa noite em Vegas, não parava de pensar se ela estava bem ou se havia acontecido algo. Apesar da minha preocupação, consegui tirar um bom cochilo por conta do meu cansaço. Acabei me levantando para saber se tinha mais alguma informação. Ele parecia ainda insatisfeito por ter seu sono interrompido, mas agora também demonstrava um pouco de preocupação, aparentemente por ter simplesmente sumido, sem mais enviar mensagens.
Decidi enviar mais uma mensagem para , ainda que um tanto receoso de parecer um psicopata e incomodá-la. Felizmente, poucos minutos depois, meu celular apitou com algumas notificações dela, pedindo desculpas por e seu desespero e me informando que estava tudo bem. Somente nesse momento percebi o quanto estava nervoso e não tinha me dado conta. Pude, enfim, relaxar de verdade e dormir por mais algumas horas, aproveitando que estaríamos de folga por termos ficado no estúdio a madrugada inteira.
— Nossa, parece que um trator passou por cima de você – comentou quando apareci na sala.
— Obrigado.
— Não tem nada para comer porque o inútil do não se deu ao trabalho. Estava indo fazer um pedido agora. Quer também?
— Eu quero! – respondeu ao Ethan, sem tirar os olhos da TV.
— Na verdade eu estava perguntando ao , você poderia ter feito algo já – Ethan reclamou, me fazendo rir e fazendo encará-lo com indignação.
— Primeiro: você não sabe do que está falando. E segundo: o que custa pedir pra mim também?
— Cara, você não chegou de manhã como eu e chegamos, ou seja, você poderia ter feito algo. Estava à toa.
— Isso é uma verdade, – impliquei.
— É sério! Vocês não sabem o que estão dizendo. Eu não estava à toa coisa nenhuma, estava lidando com uma louca enquanto vocês tinham o sono de princesa de vocês. – Reclamou, totalmente indignado e ficando até um pouco vermelho. Eu e Ethan nos encaramos antes de olhar para ele e rir.
— O que rolou?
— Rolou que a é maluca.
— Isso nós já sabíamos, mas e aí? – Insisti enquanto Ethan permanecia calado, apenas observando.
— A estava em casa. EM CASA! – gritou, irritado. – Tem noção que ela queria chamar a polícia para ir atrás de uma pessoa que estava EM CASA?
Eu sabia que rir naquele momento não era a melhor resposta, mas foi a única coisa que consegui expressar depois das palavras de . Ele estava realmente puto, o que deixava a situação ainda mais engraçada. E mesmo insistindo um pouco no assunto, foi o máximo que ele falou, apesar de eu ter um breve pressentimento de que ele e não ficaram apenas nisso. Acabamos por pedir em um restaurante italiano algumas massas, enquanto nos divertíamos com as reclamações quase silenciosas do , que passou o restante do tempo resmungando. Aproveitamos também para mostrar a música que tínhamos quase finalizado para ele, mudando um pouco seu humor alterado.
Depois de algumas horas jogado no sofá com os caras, resolvi que ainda queria dormir mais, assim o tempo passaria mais rápido. Pareceu até combinado porque assim que abri a porta do quarto estava lá a notificação que eu vinha mais aguardando nos últimos dias e que sempre melhorava um pouco o meu dia. Era se desculpando pela demora e por ter nos incomodado pela manhã e, em poucos minutos de conversa, eu já tive uma sensação ruim de saudade.
Por fim, acabei me precipitando e pedindo para falar com ela por vídeo e a resposta pareceu demorar uma vida inteira. Eu já estava desistindo quando ela finalmente confirmou, me deixando tão ansioso como no dia em que a vi em Vegas. E, se não fosse tão idiota da minha parte, ela parecia ainda mais bonita quando atendeu minha chamada.
— Bem melhor assim. – Brinquei, depois da minha análise por sua beleza.
— Oi – disse, timidamente.
— E então, senhorita desaparecida. O que fez hoje?
— Senhorita desaparecida? A me coloca em cada situação, viu? – Comentou, rindo.
me disse que ela queria colocar a polícia atrás de você. É verdade?
— Eu não sei, mas não duvido. Ela já quis fazer isso mais de uma vez. – Ri da sua careta ao falar sobre o assunto. Ela não precisava falar muito para eu saber o quanto aquilo a deixava desconfortável.
— Acho que talvez ela seja super protetora.
— Sim, ela é. – Confirmou, suspirando. – E eu amo isso nela, mas ela exagera em alguns momentos. Mas tive, mais uma vez, uma conversa séria sobre isso, então espero que dessa vez finalmente dê resultado.
— Vai sim! – Sorri, tentando amenizar a situação. Ela parecia um pouco desanimada. Talvez estivesse realmente cansada ou talvez fosse impressão minha. – Você parece cansada. Quer desligar? Podemos nos falar amanhã.
— Não – respondeu, prontamente, me fazendo sentir um bichinho da felicidade acordar dentro de mim. – Eu estou cansada, mas não com sono. E quero conversar.
— Hm... ok, então. Sobre o que quer falar?
— Não sei. Conte-me sobre a produção de hoje.
— Então, hoje não fizemos nada além de descansar – falei, achando graça da cara que ela fez. – Na verdade eu e Ethan ficamos no estúdio até quase seis da manhã, lembra?
— Sim. E eu ainda quero ver como ficou a música.
— O lançamento ainda não tem data, mas talvez não demore tanto. – Brinquei, dando uma gargalhada da cara de indignação que ela fez. – Estou brincando. Vou ser legal com você e te mostrar algumas coisas com exclusividade.
— Você não é nem louco! Me prometeu, inclusive.
— Prometi, não é?
— Sim. E eu sou bem chata com promessas.
— Tudo bem, eu não gosto de quebrar promessas.
Percebi que o olhar dela sofreu várias mudanças depois da minha fala, como se a fizesse lembrar algo. Passou de um olhar brilhante para um nebuloso e, por fim, triste. Achei melhor não questionar nada e também mudar de assunto.
— E você, o que fez hoje que a deixou tão cansada?
— Então, eu fui correr de manhã. Acho que exagerei um pouquinho na corrida porque cheguei destruída. – Ri, feliz por saber um pouco mais sobre ela. Como, por exemplo, esse hobby que aparentemente ela tinha de fazer corridas. – Depois eu fiquei vendo uns cursos e fiz alguns bolos.
— Bolo? Tipo de comer?
— Claro. Que tipo de bolo seria?
Eu sabia que a pergunta era extremamente idiota, mas fiquei realmente impressionado quando ela falou sobre. Quer dizer, não impressionado por ela saber fazer bolo, mas sei lá, a forma natural como ela falou, inclusive no plural, me deixou intrigado.
— Sei lá, mas como assim fez bolos?
— Eu já te falei que sou formada em gastronomia? – Neguei com a cabeça, ainda mais sem palavras. – Pois é, eu sou. Antes de toda essa loucura de comissária de voo, me formei em gastronomia.
— Nossa. Uau! Que irado! Eu adoraria saber fazer algo além de macarronada – comentei, rindo. – E como foi parar na profissão atual?
— Eu sempre quis, na verdade. Mas gastronomia sempre me encantou também e quando terminei o colégio resolvi fazer a faculdade. Quando terminei a faculdade tinham vagas abertas, eu tentei e cá estou eu, depois de cinco anos.
— E você já pensou em voltar a trabalhar na área de gastronomia?
— Bom, eu nunca, de fato, trabalhei na área. Não sei se consigo responder isso agora. – Ok, percebi que era outro assunto um pouco delicado. Talvez eu estivesse curioso demais para saber absolutamente tudo sobre ela, mas não deveria ser tão invasivo assim.
— Entendi. E você hoje resolveu fazer bolos? No plural mesmo? – tentei mudar o rumo da conversa, mas sem deixar de questionar sobre seu dia.
— Sim. Cozinhar me desestressa, é como uma terapia para mim. Eu estava precisando de um pouco de terapia, então fui fazer uns bolos. Na verdade foram algumas massas de bolo, mas no fim das contas o resultado é de apenas um bolo inteiro. Deu para entender? – Riu, sem graça.
— Acho que sim. Você decorou e tudo o mais também?
— Sim.
— Eu quero ver – pedi como uma criança, tentando fazer a minha melhor cara de súplica.
— Agora?
— Sim. Qual o problema?
— Grrrr. Não acredito que vou fazer isso – resmungou ela, se levantando da cama e fingindo uma irritação que eu tinha certeza que não existia. – Obviamente não está intacto, pois se aproveita dos meus dotes e levou um pedaço para ela, mas foi basicamente isso.
Depois que ela terminou de explicar, virou a câmera para o bolo e pude ver a obra de arte que ela havia feito. Eu só poderia chamar assim porque aquilo não podia ser considerado outra coisa se não isso, ainda mais para mim que não saberia fazer nem ao menos o recheio daquele bolo. Tinham algumas flores no topo e as cores do bolo eram mescladas, dando um efeito incrível. Ela realmente tinha um dom.
— Caramba! Esse negócio está demais. Nem imagino o trabalho que isso dá.
— Realmente não é tão simples, mas com o tempo a gente aprende e vai tendo mais prática. Na verdade o correto é montar esse bolo em mais de um dia, mas como eu só tinha hoje para isso, montei de uma vez. Eu 'to super enferrujada.
— Porra! Isso é estar enferrujada? Imagino então quando você praticava.
Era verdade. Eu não tinha falado aquilo apenas para agradá-la. Talvez por ela ser formada não achasse aquele bolo grandes coisas, mas era sim.
— Bom, eu ainda preciso fazer alguns cursos e aprender algumas técnicas para ficar algo realmente digno de confeiteira.
— Eu acho que seu trabalho já é incrível – falei com a maior sinceridade possível, vendo-a sorrir, um pouco envergonhada, mas também verdadeiramente agradecida.
— E os meninos? Estão bem?
— Sim. Bom, passou o dia resmungando, como falei na mensagem. Mas estão bem.
— Ele deve ter ficado bem chateado.
— Já falei. Desde quando ele fica chateado de verdade com alguém? – A vi dar de ombros enquanto voltava a se ajeitar debaixo das cobertas. – Ele ficou um pouco estressado com a , mas nada que amanhã não esteja esquecido. Acho que ele acabou se preocupando com você também, mas não queria demonstrar para ela.
— Pode ser. Talvez ele tenha percebido que isso pioraria ainda mais a situação. – Concordei. – Você não acha que eles estão um pouco estranhos?
— Em que sentido?
— Eu não sei. Pode ser coisa da minha cabeça, mas a está diferente desde aquela noite. Sinto que ela está um pouco pensativa demais e eu não imaginava que eles trocariam contato.
— Isso eu também não esperava.
Ficamos um instante em silêncio, acho que pensando sobre as mesmas coisas, apesar de ser um tanto quanto surreal pensar em tudo aquilo. Nós tínhamos até mesmo comentado no dia do cassino sobre ambos estarem na mesma vibe "não estou nem aí para nada". não tinha ficado pensativo desde aquele dia, mas estava mais irritadiço e normalmente era só tocar no nome dela para que ele mudasse de assunto, o que era um tanto quanto estranho.
— Será que está rolando algo mais? – questionei.
— Eu ficaria absolutamente surpresa se estivesse, para ser bem sincera.
— Eu também. Ficarei de olho nele nos próximos dias.
— Não posso dizer o mesmo, mas vou tentar entrar em algum assunto sutilmente com ela.
— Você vai viajar por agora?
— Amanhã vou para a África do Sul.
— Caramba! Mal chegou a Londres e já vai para outro continente de novo. Você não acha louco como estão cada dia em um lugar mais aleatório que o outro? – perguntei, fazendo-a rir. Sempre pensei muito sobre o assunto, mas desde que descobri sobre a profissão dela eu tinha ainda mais curiosidade sobre.
— É louco mesmo, mas a gente se acostuma. Agora é um louco normal.
— E agora você fica por quanto tempo lá?
— Dois dias.
— Dois dias? E volta para ficar mais um dia em casa?
— Basicamente – respondeu rindo, provavelmente achando graça do meu espanto.
— Desculpa perguntar esse monte de coisa, mas é que eu não me aguento – falei, sem graça.
— Tudo bem. A gente já está acostumada com isso – respondeu, me deixando ainda mais envergonhado porque ela devia estar de saco cheio de responder as mesmas coisas. Percebendo que fiquei envergonhado, ela logo completou – Não é isso que está pensando. Desculpa. Eu realmente não me incomodo que você me pergunte sobre a minha profissão, sei que ela causa curiosidade nas pessoas.
— Sem problemas. Sei que às vezes é chato responder a mesma coisa sempre.
— Não, . De verdade, eu não me importo. Eu também tenho vários questionamentos sobre sua profissão que provavelmente você já respondeu um milhão de vezes.
— E por que não pergunta?
— Porque preciso ter certeza de que você não vai sair correndo quando eu começar a perguntar – respondeu, dando uma piscadinha e rindo em seguida.
— Ok. Você quer começar agora?
Eu esperava que a maioria dos questionamentos dela fosse referente à minha pessoa ou meus trabalhos. Não sabia se ela havia pesquisado algo sobre mim e, na verdade, ainda nem sabia se ela realmente já me conhecia quando nos vimos pela primeira vez no festival (inclusive isso era algo que eu com certeza perguntaria em algum momento). Minha vida não era super agitada, eu não vivia fazendo o dia dos jornalistas com escândalos e saindo estampando capas das revistas de fofoca, mas também não era santo. Eu estava bem melhor e mais maduro que antes, mas já havia feito bastante besteira por aí. Ainda que ela tivesse visto algumas matérias – algumas tendenciosas, outras mentirosas –, eu ficava feliz por ela ainda querer me questionar. Talvez isso demonstrasse que ela não acreditasse em tudo, o que era ótimo.
— Como é sair em turnê? – perguntou inocentemente, depois de meu devaneio.
— É demais! Surreal. Às vezes ainda me pego pensando em como aquele garotinho de Cambridge foi capaz de fazer isso.
— Como assim? Você é super talentoso. E você é de Cambridge?
— Sim. Nascido e criado.
— Nossa, eu amo aquele lugar! Quando era mais nova sonhava em fazer faculdade lá – comentou, rindo.
— Acho que é o sonho de muita gente, mesmo.
— Nunca foi o seu?
— Não. – Sorri, nostálgico, me lembrando da cidade, da minha avó, da minha mãe e do seu espanto quando lhe contei que não entraria para nenhuma faculdade. – Minha mãe é professora universitária lá.
— Uau, que demais! Ela dá aula de que?
— História.
— Nossa! Eu sempre gostei, mas nunca fui muito boa. – Ri de sua careta.
— Posso te fazer uma pergunta? – questionei depois que nossas risadas cessaram. Era isso! Eu não aguentava mais pensar se ela me conhecia ou não no festival e sua pergunta sobre eu ser de Cambridge praticamente me confirmava que não, mas precisava ter a confirmação com as suas palavras.
— Claro! – respondeu, parecendo um pouco temerosa.
— Você me conhecia no dia do festival? Desculpa perguntar isso, mas preciso saber.
— Ah, nossa. Era isso? – Soltou a respiração que parecia prender, dando uma risadinha. – Não, eu não conhecia. Quer dizer, eu conhecia suas músicas já, mas não fazia ideia de quem você era. Eu nunca fui muito ligada nessas coisas de conhecer o artista mesmo.
— Entendi.
— Está decepcionado?
— Não, de forma alguma! – Vi sua expressão, esperando que eu completasse. – Com o tempo a gente aprende a perceber quando alguém nos reconhece e eu percebi que você não me conhecia, mas no final se despediu falando meu nome, então fiquei confuso.
— Ah sim! Na verdade eu percebi que você deveria ser famoso já que foram te pedir para tirar foto e eu ouvi seu nome, então quis fazer a linha misteriosa no final. – Brincou. Uma das características que eu mais estava gostando sobre era o fato de que ela não parecia ter vergonha em falar certas coisas.
— Era o que eu imaginava, mesmo.
— Mas eu confesso que pesquisei um pouquinho sobre você. – Sorriu, culpada, enquanto eu fingia me esconder.
— Ah não. Estava bom demais para ser verdade.
— Bom, eu não pude evitar. Sabe como é, né?
— Sei. Eu faria o mesmo no seu lugar. – Confessei. – Na verdade eu até tentei, mas nem o seu primeiro nome eu sabia, então ficou um pouco difícil. Mas isso é assunto para outro dia.
Vi que ela arregalou os olhos e ficou um pouco corada com a minha confissão, passando um tempo sem falar nada além de encarar, como se questionasse se era realmente verdade o que eu tinha dito.
— Ok, eu só vou deixar passar porque está realmente tarde e eu preciso dormir já que amanhã vou voar – comentou, depois de minutos em silêncio. – Mas você não vai fugir de mim!
— Não tenho intenção alguma disso – respondi, sendo muito mais sincero do que esperava e tentando demonstrar que falava muito além do que apenas sobre aquele assunto.
— Tá. Eu realmente não gostaria de ter que me despedir, mas se não desligar vou passar a noite em claro.
— Sim, eu esqueço que aí é bem mais tarde do que aqui. Você precisa mesmo descansar.
— Amanhã nos falamos?
— Claro. Sempre que você quiser e puder – respondi, sincero, recebendo seu sorriso como resposta. Talvez muito mais sincero do que deveria, mas àquela altura eu já não ligava mais para isso. Nunca fui uma pessoa que não demonstrava seus sentimentos, não seria agora que faria isso.
— Na verdade, talvez amanhã não. Mas enfim, depois do voo nos falamos.
— Tudo bem. Então até depois do voo.
— Até!
Passamos uns segundos nos encarando e sorrindo depois daquela péssima despedida. Nenhum dos dois parecia disposto a desligar a chamada e eu resolvi ser, mais uma vez, sincero sobre o que sentia.
— Já estou sentindo falta de você e do seu beijo – falei, antes que a chamada fosse encerrada. deixou um sorriso tímido escapar enquanto abaixava a cabeça, um tanto quanto sem graça.
— Eu também. Fica bem. – respondeu depois de um tempo, me lançando um sorriso lindo que refletia até em seus olhos.
Puta merda, eu realmente estava me apaixonando por aquela mulher! E estava gostando disso. Não tinha mais nada que eu pudesse fazer para impedir que isso acontecesse. Não que eu quisesse, porque não queria. Só esperava que o sentimento fosse recíproco, caso contrário a minha queda seria colossal.


Continua...



Nota da autora: Oi oi oi, gente! Como vocês estão? Demorei bem mais do que eu imaginava dessa vez, mas cheguei com mais um capítulo desse casal que não é casal (ainda?) e espero que vocês gostem! Me contem o que acharam, é aquilo, sinceridade acima de tudo, kkkkk.
Fiquem bem, cuidem de vocês, comentem e compartilhem!



Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.


comments powered by Disqus