Última atualização:22/08/2020

Prólogo

Nunca mais vou vê-la de novo. O pensamento surgiu atropelando outros centenas na minha cabeça. Dizem que quando você está prestes a morrer sua vida passa diante de seus olhos, mas o que eu estava experienciando era muito mais caótico que uma sequência organizada de imagens da minha vida. Todos os arrependimentos, lembranças, angústias e sonhos, que agora nunca se realizariam, pareciam acompanhar as batidas aceleradas do meu coração. Centenas de batimentos acompanhados de pensamentos desordenados por minuto.
Nenhum treinamento tinha me preparado para isso. Atrás de uma pedra, encolhido como uma criança com medo de um bicho papão, eu tentava estancar o sangue que saia de um rasgo no meu braço. Minha varinha tinha caído no momento em que corri para me esconder, tinha a impressão de que não estava muito longe dali, mas não podia arriscar procurar. Estava completamente escuro, mas o mais assustador não era o breu e sim o silêncio. O único som que eu escutava era o da minha própria respiração ofegante. Talvez, tinha conseguido despistá-lo. Fechei os olhos e suspirei de alívio com esse pensamento e por um momento, pensei que tivesse uma chance real de sobreviver.

– Realmente achou que podia se esconder de mim? - uma voz ecoou pela caverna e a cada vez que ela se repetia, meu coração parecia bater mais forte.

Tomado de terror, vi a caverna se iluminar por inteira com o jato de fogo que tinha sido direcionado a pedra que eu pensava me encobrir, na parede a minha frente a sombra daquele monstro se projetava imensa e ameaçadora. Com um movimento, o animal quebrou a pedra atrás de mim e nesse momento eu soube. A minha morte era inevitável.


Capítulo 1

Inglaterra


O vento agitava meus cabelos e tinha que usar o dobro da força que normalmente usaria para conseguir empinar a vassoura na direção certa. A chuva também não ajudava muito, meu uniforme grudava no corpo e meu queixo batia por conta do frio. Não estávamos contando com esse tempo péssimo. Era a final contra a Sonserina e apesar dos esforços do meu time, o placar mostrava nossa desvantagem de 20 a 70 para a rival. Meus amigos não iam aguentar por muito mais tempo com a chuva e principalmente com o desânimo pela desigualdade enorme em que nos encontrávamos. Eu precisava agir. Fechei os olhos e respirei fundo antes de vasculhar o campo pelo pomo. Precisei dar duas voltas até que um reflexo dourado brilhou na minha frente, empinei a vassoura e comecei a perseguir o que resultaria na vitória da Grifinória. Ele se mexia rápido e acompanhá-lo era difícil, mas consegui chegar perto o bastante. Estendi meu braço e podia sentir o bater das suas asas nos meus dedos, mais um pouco e eu...

– Bom dia, raio de sol! – Gui gritou enquanto abria as cortinas do quarto.
– Eu estava quase pegando o pomo – Charlie resmungou cobrindo a cabeça com seus travesseiro.
– Claro que sim, irmãozinho – com um único movimento, retirou as cobertas de seu irmão e as dobrou na ponta da cama.

Charlie sentou-se enquanto esfregava os olhos, logo em seguida deu uma longa espreguiçada e quando abriu os abriu encontrou Gui sorrindo para ele. Seus cabelos ruivos e longos estavam presos em um rabo de cavalo, usava um dos suéteres que a Sra.Weasley o dera no natal passado e algo em sua expressão dizia que não pretendia atender a um pedido de “mais cinco minutinhos” que Charlie pretendia fazer.

– Tire esse pijama – Gui se virou para a cômoda e abriu uma gaveta, pegando algumas roupas para em seguida as atirar no colo do irmão – Vamos sair!
– A essa hora da manhã?
– Charlie, já é quase uma da tarde – Gui revirou os olhos e sentou em sua própria cama – E aliás, eu tenho todo um planejamento pra hoje! É meu último dia aqui na Toca e você daqui uns dias vai pra Romênia, vai ser raro a gente conseguir um tempo juntos daqui em diante.

Gui tinha razão. Charlie não queria pensar nisso, nunca tinha ficado tão longe do irmão ou mesmo do resto de sua família, ia ser muito difícil. Além disso, na carta que recebeu do Santuário ele foi desaconselhado a contar com folga nos feriados, o que deixou sua mãe furiosa. Podia jurar que ela ia mandar um berrador para quem quer que fosse o encarregado do lugar.

– Desculpa, não queria te deixar triste – Gui falou baixinho como se adivinhasse os pensamentos do outro.
- Tudo bem, Gui – Charlie sorriu para o irmão e começou a se trocar – Você tá certo, vamos fazer seja lá o que você planejou.
- Ótimo! – disse Gui se levantando em um pulo e batendo palmas – Quando terminar de se arrumar, desce que eu te conto um pouco mais do que vamos fazer.

Gui abriu a porta e desceu as escadas com agilidade. Os dois sempre se deram bem, desde pequenos compartilhavam uma conexão difícil de explicar em palavras. Gostavam de pregar peças (mas, tinham que admitir que os gêmeos definitivamente tinham ficado melhores nisso do que eles jamais seriam), jogar quadribol, ler até tarde da noite e sair juntos. Sempre podiam contar com um ao outro para tudo, fosse para invadir a Floresta Proibida ou servir de ombro amigo para um desabafo pós-término de namoro (no caso, o ombro amigo sempre era o papel de Charlie).
Com o tênis na mão, Charlie pegou alguns galeões e sua varinha – com lascas faltando e algumas partes até queimadas, ela com certeza tinha visto dias melhores – colocou tudo nos bolsos da calça e desceu as escadas da casa. O barulho das tábuas rangendo e do vampiro no sótão se lamuriando faziam uma sinfonia engraçada à medida que os sons se misturavam com as conversas que vinham da cozinha.
Sua mãe perambulava pela cozinha coordenando potes, panelas e colheres de madeira para o almoço, mal pareceu o notar. Seu pai se escondia por detrás do Profeta Diário enquanto fingia ouvir o que Molly falava tão enfaticamente. Enquanto isso, sua irmã Gina desenhava animadamente e seus irmãos riam de algo que Percy tinha falado.

- É claro que nós vamos todos trabalhar pra você um dia, Percy – Jorge falou com um tom sério enquanto dava batidinhas nas costas do irmão.
- É nosso destino servir chá para o grande Percy Inácio Weasley no futuro – Fred salientou no mesmo tom sarcasticamente sério de Jorge.
- Que bom que vocês estão cientes disso – disse Percy em um tom de soberba. Jorge cuspiu quase todo seu suco de abóbora ao ouvir Percy, o que fez com que consequentemente todos os outros irmãos rissem, inclusive Gina.
- Fred e Jorge eu juro que se... – gritou a senhora Weasley fazendo com que as panelas todas caíssem com um estrondo na pia e no forno, mas logo foi interrompida por seu marido. - O jardim está infestado de gnomos – o Sr.Weasley baixou o jornal e olhou com um olhar complacente para Percy, que parecia imerso em sua própria cópia do Profeta Diário – Que tal vocês darem uma limpada nele, hein?
Alternando olhares entre si, Molly e Arthur, os gêmeos se levantaram dando risadas baixinhas e saíram pela porta da frente. Charlie puxou uma cadeira para se sentar, mas foi impedido por Gui.
- Já estamos de saída – anunciou para todos na sala – Devemos voltar um pouco antes do jantar.
- Aonde vocês vão? – Rony perguntou com a boca cheia de pãezinhos.
- Ao cabeleireiro? – perguntou esperançosamente Molly olhando para o primogênito.
- Nós vamos fazer compras – respondeu Gui para Rony, ignorando a Sra.Weasley, já acostumado com sua obssessão por seu cabelo longo – Vamos, Charlie!

O mais novo dragonologista foi arrastado porta a frente, recebendo um rápido aceno de seu pai e um alerta de sua mãe para não chegar muito tarde. Os gêmeos giravam os gnomos e os atiravam para os quintais vizinhos, não muito longe dali e podia-se ouvir os resmungos dos gnomos tonteados tentando retornar ás suas tocas.

- Vamos para o Beco Diagonal – Gui avisou já puxando sua varinha – Acho melhor aparatarmos, vamos chegar mais rápido. A menos que você esteja com medo de pousar em uma senhora trouxa de novo!

Charlie revirou os olhos e suspirou. Teve que fazer o teste para aparatação mais de uma vez, por que sempre pousava no lugar errado e para sua eterna vergonha - e motivo de zoação de seus irmãos – ele tinha pousado uma vez muito longe do lugar esperado e em cima de uma idosa trouxa, que ainda por cima o bateu com sua bengala inúmeras vezes pois achou que ele estava tentando a assediar.

- Vamos logo – Charlie não conseguiu evitar o sorriso que se formou em seu rosto antes de seguir seu irmão na aparatação.

...

O Beco Diagonal não estava nem um pouco cheio. O ano letivo de Hogwarts tinha acabado há pouco tempo e ainda faltava muito para o tão esperado primeiro de setembro, perto dessa data ficava impossível andar por ali e era preciso desviar de muitos pais atarefados e estressados com listas de material, sem contar com as crianças que os seguiam, que corriam de um lado para o outro animadamente. Mas, naquele dia não. Era possível caminhar tranquilamente pela rua e só aproveitar a ausência da multidão.

- Parabéns! – Gui disse passando o braço pelo pescoço do irmão – Nenhuma velhinha foi ferida durante o percurso!
- Cala a boca – o ruivo empurrou de leve o irmão – Sinceramente, não sei como aqueles duendes te aguentam! Na primeira piada eu já teria te mandado embora!
- Charlie, você fala como se eu fosse idiota o bastante para fazer piadas perto dos duendes do Gringotes – Gui bagunçou os cabelos do irmão e parou de andar – Mudando de assunto, aqui estamos! Nosso primeiro destino!

O letreiro da loja de varinhas balançava com o vento que cortava a rua, mesmo confuso Charlie não pôde evitar uma pontada de nostalgia.

- Achei que seria legal te dar uma varinha nova – Gui sorriu amavelmente – Como um presente de despedida, sabe? E também por que acho que essa sua varinha é muito caquética pra lidar com dragões cuspidores de fogo.
Charlie abriu a porta e um sininho anunciou sua chegada. Lembrava-se bem da primeira vez que tinha ido até Olivaras. As prateleiras abarrotadas de caixinhas com varinhas chegavam até o teto e sua animação também, era como se tivesse voltado a ter onze anos de novo.

- Weasleys – uma voz arrastada chamou por trás do balcão – Estava esperando por vocês.
- Como sabia que viríamos? – Charlie perguntou surpreso.
- Relaxa, ele não tem um sexto sentido – Gui afirmou se sentando em um banquinho perto da porta – Eu enviei uma coruja avisando que viríamos.
- Separei algumas opções interessantes para você, Charles – Olivaras disse colocando uma dúzia de caixas em cima do balcão – Vamos lá, não fique parado aí, teste!

E assim testou. Por mais de meia hora o jovem bruxo balançou varinhas, causou pequenas explosões e sacudiu muitas caixas pelo ar, mas nada parecia se encaixar. Charlie já estava cansado e Gui tinha até cochilado por alguns momentos.

- Bom, talvez eu deva te dar algo mais adequado a sua nova vida – Olivaras se dirigiu até uma das estantes e subindo numa escada bamba puxou uma caixinha da última prateleira e a jogou na direção de Charlie.

Ela tinha uma cor levemente avermelhada, belos detalhes entalhados em seu cabo e algo no ato de a segurar deu segurança ao ruivo. Fez movimentos simples com ela e a princípio nada aconteceu. De supetão, um vento multicolorido passou a rodear Charlie, fagulhas saíam da ponta da varinha e um sorriso se formou em seus lábios, tinha sido escolhido.

- Salgueiro, trinta centímetros e... – pausou por um tempo e sorriu para seu cliente – corda de coração de dragão.

...

- Não precisava ter pagado – Charlie disse enquanto saboreava seu sorvete de baunilha da Florean Fortescue.
- Bobagem – Gui por outro lado tinha optado por um chocolate quente -, é um presente e você merece um.
- Vou sentir sua falta – Charlie murmurou cabisbaixo – Não faço ideia de como vai ser lá, queria poder te levar comigo.
- Você vai sobreviver, Charlie – sorriu para o irmão – Além do mais, pra que você acha que existem corujas? Vou te encher de cartas o tempo inteiro.
- É melhor mesmo, ou vou ser obrigado a mandar um berrador para seu trabalho – riram juntos lembrando dos inúmeros berradores que a mãe já tinha enviado para eles – Bom, o que mais você tem em mente para hoje?
- Infelizmente, não é lá muito emocionante – admitiu Gui – Depois da varinha, dos doces e do sorvete pensei em voltar pra casa e jogar xadrez ou snap explosivo como a gente fazia antigamente em Hogwarts.
- Você realmente está muito nostálgico
- E você pode me culpar? – Gui deu um sorriso triste para o irmão – Vamos logo antes que nós dois comecemos a chorar no meio da rua, eu tenho limites até mesmo pra você.

Os dois riram, sacaram suas varinhas e aparataram para casa, onde uma família de cabelos cor de fogo os esperava e onde suas preocupações pareciam não ter tanta importância assim.

....

Romênia


As manhãs eram sempre a parte mais difícil do dia de Adamastor. Sua mente e seu corpo pareciam funcionar melhor à noite, enquanto que na manhã parecia ter que gastar o dobro de energia para os mais simples pensamentos. A luz forte do verão dificultava tudo mais ainda, mesmo as cortinas grossas de veludo vermelho não conseguiam conter alguns raios rebeldes que iluminavam certos cantos do quarto. Adamastor odiava sol e agradecia todos os dias pela maior parte de seu trabalho ser feito do lado de dentro do Santuário. No entanto, havia uma coisa que tornava as manhãs um pouco melhores: o café da manhã – que no caso estava atrasado, provavelmente descuido de alguém da cozinha.
A papelada com os aspirantes a dragonologistas já estava pronta, as cartas de aceitação já tinham sido enviadas e em poucos dias os pupilos chegariam. Tinha um longo tempo desde a última vez que tinham aberto vagas para novos aprendizes, mas a renovação dos funcionários era importante para a manutenção do próprio conhecimento da dragonologia. Mal podia esperar para ver o castelo com energias renovadas. Batidas fortes na porta indicavam que seu café já estava pronto.

- Finalmente! – Adamastor levantou rapidamente, quase tropeçando em seu longo robe preto indo em direção a porta – Vocês elfos domésticos parecem ficar cada vez mais preguiçosos! É impressionante! Talvez eu devesse dar vocês de comida aos...

No lugar de um ser pequeno e de orelhas pontudas, estava uma garota e seu olhar parecia perfurar a cabeça do homem. Ela trazia uma bandeja em uma das mãos, enquanto a outra afastava a cabeça de um pequeno elfo, que sacudindo os braços no ar tentava de todas as formas superar a força da menina e tomar a bandeja de volta.
- Mestre Adamastor, Nino só queria servi-lo! – choramingou o elfo ainda tentando tomar a bandeja, sendo que agora a garota a segurava acima da própria cabeça, tornando mais impossível ainda que o elfo doméstico a pegasse.
- Foi o único jeito que eu encontrei de que você abrisse a porta pra mim – a garota se pronunciou – Se recusar a falar comigo? Tudo bem! Mas, sabia que você não ia abrir mão da sua maldita sopa de cebola.

Adamastor suspirou fundo e mandou Nino ir embora com um simples aceno, o elfo saiu correndo aliviado.

- Entre, – o homem fez uma reverência forçada – Imaginei que não fosse conseguir fugir de você por mais muito tempo...
- Imaginou certo – a menina se sentou na poltrona em frente a mesa em que ele estava há pouco e colocou cuidadosamente a bandeja em cima da mesa – Desculpa, entrar assim, mas não achei outra alternativa para conseguir conversar com você!
- Suponho que queira conversar novamente sobre o período de treinamento – o diretor do Santuário se sentou em sua cadeira e puxou a bandeja para perto de si – E, infelizmente, vou ter que te dizer mais uma vez que não vou poder te liberar dele.
- Adam, eu vivo nesse lugar há anos - a garota começou um discurso que seu amigo já tinha praticamente decorado -, conheço cada centímetro, funcionário e dragão desse Santuário. Acompanhei o trabalho feito aqui, estudei muito e passei mais tempo na biblioteca do castelo que você. Então, eu gostaria que, por favor, você tirasse a ideia de que eu tenho a obrigação e a necessidade de um treinamento para iniciantes da sua cabeça.

Adamastor tinha vivido muitos anos, conhecido muitas pessoas, explorado vários cantos do mundo e mesmo assim, conseguia ser ainda a pessoa mais persistente que conhecera em toda sua vida.

- Você abomina a ideia de ter que passar por um treinamento...
- Por que é humilhante e dá a entender que você duvida das minhas capacidades, sendo que você foi meu professor durante todos esses anos – o interrompeu.
- Nunca repita isso – Adamastor disse apontando para ela com uma colher que tinha colhido da bandeja – Tenho minhas razões e elas são ótimas, além disso sua mãe concordou com elas.

A garota grunhiu e fez uma careta, claramente seu plano de argumentação não estava surtindo nenhum efeito sobre Adamastor.

- Vai ser uma ótima oportunidade para você.
- Você sempre diz isso, desde a primeira vez que conversamos sobre o treinamento e nunca me explica realmente qual a grande oportunidade que eu não estou enxergando aqui – pontuou a jovem bruxa afundando na poltrona em frente à mesa de Adamastor.
- E mesmo assim você ainda não confia em mim, não é mesmo? – o homem riu enquanto prendia um guardanapo embaixo de seu pescoço.
- Essa não é a questão, eu confio em você...Mas, não entendo...

Adamastor alternou o olhar por alguns segundo entre seu café da manhã e a jovem a sua frente, pensando se valeria a pena deixar sua sopa esfriar ou não por conta daquela conversa. No fim, suspirou pesadamente e empurrou a bandeja para longe, colocando os cotovelos sobre a mesa e apoiando sua cabeça nas mãos.

- , me diga três coisas essenciais no trabalho de um dragonologista, seja qual for a sua especialidade.
- Bom, com certeza, roupas resistentes ao fogo, uma varinha obviamente e... uma jaula portátil?
- Nada mais? - questionou Adam com um semblante mais sério do que o do início da conversa.
- Você só me pediu três coisas... Acho que tem uma série de equipamentos que eu poderia citar, ou você quer algo mais subjetivo como “habilidades com animais extremamente perigosos que podem te matar em cinco segundos”?

Adamastor riu enquanto balançava a cabeça de um lado para o outro.

- Uma equipe – o romeno revelou, fazendo a garota arquear as sobrancelhas surpresa – A segurança e o sucesso nas tarefas de um dragonologista na maior parte do tempo demandam companhia. Uma armadura pode ser penetrada, sua varinha pode se perder e com isso uma jaula vai ser inútil. Mas, um parceiro pode evitar que você se machuque, pode cuidar dos seus ferimentos, pode buscar ajuda e até mesmo dividir o fardo de uma missão mal sucedida. Infelizmente, , você ainda não tem experiência suficiente no quesito trabalho em equipe.

Um silêncio longo se estendeu entre os dois, Adamastor esperou por uma reação mais enérgica vinda de , no entanto ela nunca veio. A menina olhava para Adam com os lábios meio abertos e uma expressão de como se tivesse lembrado de algo ruim. Depois de um tempo de silencio, que se tornou constrangedor, finalmente Adamastor teve uma reação.

- Entendi – com essa resposta curta, a menina levantou devagar e foi até a porta – Desculpe por tomar seu tempo.

O homem observou ela caminhar até a porta e sair, não sabia muito bem como interpretar a reação da menina, por mais que a conhecesse há muito tempo. era muito boa em esconder o que sentia. Na melhor das hipóteses ela iria para seu quarto chorar ou reclamaria com sua mãe, com o nariz fungando, como fazia quando tinha quatro anos e Adamastor fingia roubar seu nariz.
Não se arrependia de contar a verdade para , ela já tinha atingido uma certa idade em que se acostumar com as decepções poderia ser bom, pelo menos assim ele pensava. Adamastor pegou a colher mais uma vez e, finalmente, levou um pouco de sopa até sua boca, mas fez uma careta depois de prová-la. Estava fria.

...

precisava pensar. Seu primeiro instinto foi seguir até a porta da biblioteca, os livros eram uma espécie de refúgio para ela desde que tinha se mudado para a Romênia e o silêncio poderia ajudá-la a se concentrar. Mas, desistiu da ideia um pouco antes de entrar. Se entrasse, se perderia em histórias e não teria foco para cuidar dos próprios problemas.
Pensou em ir até o quarto de sua mãe conversar, mas haviam mais chances de ela estar no subsolo trabalhando e ela odiava ter seu raciocínio interrompido, então sem chances de descer até lá. Sem mais criatividade, fez o que a maioria das pessoas da sua idade faria depois de uma chateação: foi para seu quarto.
Subiu em silêncio as inúmeras escadas até a Torre onde seu quarto ficava, já acostumada com a sensação de queimação na batata da perna que vinha sentindo há anos. Abriu a porta de seu quarto e se jogou na cama. Não demorou muito até que ela escutasse um miado e algo subindo em cima dela.

- Oi, - se virou e sorriu para o gato a sua frente – Sabe, , pra mim a única equipe que eu preciso já está formada, somos eu, você e minha mãe. Não precisamos de mais ninguém...Precisamos?

O gato se aconchegou em seu colo e a observou com seus olhos azuis, em seguida miando mais vez como se concordasse com ela. Mas, agora no silêncio de seu quarto, a própria não sabia se tinha certeza sobre o que tinha dito.


Capítulo 2

Há mais de meia hora, Rony e Charlie tentavam fechar seu malão, que estava abarrotado de casacos de inverno (uma insistência da Sra.Weasley) e botas para neve. Eram três malões no total, dois de roupas e um com livros e materiais que poderia vir a precisar.

- Decidiu colocar o seu quarto inteiro no malão ou o que? - Rony não parava de resmungar.
- É a droga do casaco de pele, só pode ser – Charlie já estava vermelho de tanto esforço.
- Por que você não tira o casaco da mala? - Rony perguntou sentando mais uma vez no malão.
- Mamãe me mataria – Charlie respondeu também sentando no malão.
- Talvez eu possa ajudar – uma voz vinda da porta anunciou. O Sr. Weasley adentrou o quarto com um sorriso no rosto e fez sinal para que os dois saíssem de cima do malão. Exatamente no momento em que eles levantaram, as roupas pareceram explodir de dentro dele. Arthur pegou três casacos monumentais e duas botas de neve, apontou a varinha para as peças de roupa e disse:
- Diminuendo! - as roupas encolheram e agora provavelmente só caberiam nos dedos de Charlie, mas era uma boa solução.
- Obrigado, pai – Charlie agradeceu colocando rapidamente as pequenas roupas no malão, que agora fechava sem problemas – Algum sinal do transporte?
- Nada ainda, mas se eu fosse você desceria esses malões o quanto antes possível, eles logo logo devem estar chegando.
- Vou esperar no quintal com o Perebas – Rony anunciou e saiu do quarto correndo, deixando pai e filho sozinhos.
- Então, finalmente o dia chegou – Arthur disse se sentando na cama do filho – Como você está?
- Nervoso – admitiu Charlie - É estranho, esperei por muito tempo por isso e agora que chegou o momento de ir, estou com medo.

O Sr.Weasley sorriu melancólico e passou um braço pelas costas do segundo filho mais velho, o envolvendo em um abraço.

- O medo normalmente precede os maiores acontecimentos de nossas vidas, as maiores mudanças. Agora, você pode estar apreensivo, mas daqui alguns anos vai olhar pra trás e ver como valeu a pena!

Charlie sorriu e apertou o pai em um abraço. Seu pai sempre sabia o que dizer para confortá-lo.

- Posso participar do momento também ou é pedir muito? - a Sra.Weasley, que pelo visto estava lá a algum tempo se pronunciou.
- Pode vir, mãe! - Charlie disse revirando os olhos e rindo – Tem espaço pra família inteira aqui.

Os três ficaram abraçados pelo tempo que julgaram necessário e teriam ficado por mais ainda se não fosse por uma brisa que invadira o quarto e acompanhada dela, uma sombra que manchava o chão. Foram os três para a janela ver o que era e quando viram, ficaram boquiabertos. Quatro cavalos alados granianos pousavam no jardim em frente da Toca, carregando o que parecia ser uma carruagem.
O transe em que todos estavam envolvidos, especialmente Rony e Gina que estavam a poucos metros de distância dos animais, foi interrompido quando a porta da carruagem foi aberta e uma cabeça loira pulou para fora e passou a vomitar no jardim. Alarmados, desceram as escadas correndo e foram de encontro a menina.
Enquanto a Sra. Weasley acudia a garota, que parecia estar verde de enjoo, Charlie observava a carruagem mais de perto. O brasão do Santuário estava encrustado na porta e trazia nele os símbolos de duas varinhas cruzadas na frente de um Dente de Víbora Peruano. O coração dele pareceu pular uma batida.

- Aqui, beba isso – o Sr. Weasley voltou de dentro da casa e deu um frasco de um poderoso tônico para enjoo para a menina, que o tomou em um gole só.
- Obrigada – a menina agradeceu com alívio nos olhos para os Weasley, depois pousando o olhar em Charlie – Precisamos voltar para a carruagem, ela tem um horário a seguir.

Ela agradeceu mais uma vez pelo tônico e entrou de volta a carruagem. Tinha chegado o momento mais doloroso: a despedida. Não era como as despedidas para Hogwarts, ele estaria indo para muito mais longe e para esse primeiro ano não voltaria para casa no Natal, na verdade sabe-se lá quando ele voltaria.
Gina foi a primeira a abraçá-lo, puxou um papel do bolso do vestido sujo de terra e o deu de presente para ele. Era um desenho de Charlie montado em um dragão que cuspia fogo. Apertou a irmãzinha em um abraço e guardou o desenho com cuidado no bolso da calça.
Em seguida veio Rony, que deu um abraço rápido e ficou eufórico quando Charlie puxou sua antiga varinha e a deu de presente para ele. Sabia que não era lá essas coisas, mas que serviria de economia para os pais e o ajudaria a praticar para o próximo ano, quando ele fosse para Hogwarts.
Então, chegou a vez de seus pais. A Sra.Weasley segurou as lágrimas e não poupou palavras para assegurar de que Charlie não se metesse em problemas e escrevesse toda semana para ela. Já o Sr.Weasley se limitou a um sorriso orgulhoso e um abraço apertado. Os dois ajudaram a colocar as malas dentro do bagageiro abaixo da carruagem e se despediram. Vê-los entrar dentro de casa foi a coisa mais difícil que Charlie já tinha feito.

- Vai ficar aí parado ou vai entrar logo? - a porta se abriu novamente e a mesma menina de antes se mostrava impaciente.
- Desculpa – Charlie disse subindo na carruagem.

Ao fechar a porta, o jovem aspirante a dragonologista não conseguiu deixar de soltar um “uau”. Por fora, a carruagem não pareceria ser capaz de transportar mais do que quatro pessoas, mas seu interior dizia o contrário. Cerca de quatro cabines espaçosas e abertas ocupavam o espaço, entre elas uma mesa com garrafas de suco de abóbora, doces, aperitivos e outros ganhava destaque. Cada cabine possuía dois sofás, um de frente para o outro, quase como no Expresso de Hogwarts. Nunca tinha visto um Feitiço Indetectável de Extensão ser utilizado em um transporte daquela forma.
A carruagem chacoalhou e Charlie quase foi de encontro ao chão. Estavam, provavelmente, iniciando a subida. Era melhor sentar logo. Correu para a cabine mais perto e jogou-se no sofá sem perceber que ali estava a mesma garota de antes.

- Putain! Sai de cima de mim, seu inglês stupide!
- Desculpa! Foi sem querer, eu... - Charlie começou a falar enquanto saia de cima da menina e se colocava agora ao seu lado – Meu nome é Charlie Weasley.
- Adéle Dennis – a menina respondeu com um sotaque francês - E está é Carolina.

Só agora Charlie tinha percebido a presença da outra menina. Diferente de Adéle ela era pequena, tinha a pele morena e cabelos negros encaracolados, ela trazia um sorriso sem graça no rosto como se estivesse se desculpando pelo comportamento da amiga. Ela ergueu a mão em um comprimento para o garoto.

- Carolina? De onde você é? - perguntou apertando a mão da menina.

Inesperadamente, ela começou a fazer gestos com as mãos, o que fez Charlie franzir o rosto em estranhamento. Adéle por outro lado prestava atenção atentamente e balançava a cabeça em entendimento.

- Ela é do Brasil, do Rio de Janeiro.
- Como você sabe? Por que ela está fazendo essa dança esquisita? - Charlie estava extremamente confuso com o comportamento da menina a sua frente.

Adéle suspirou e rolou os olhos. Já tinha percebido que pelo visto, se tornara interprete de Carolina para os bruxos. Com toda a calma que poderia ter, explicou para Charlie a situação:

- Carolina é deficiente auditiva, ela não escuta – falou bem devagar e pausadamente como se estivesse falando com uma criança - Ela se comunica pela linguagem de sinais, no caso a linguagem de sinais francesa comigo, que foi inventada por trouxas para que pessoas como ela pudessem se expressar.

Charlie ficou bastante intrigado e tinha certeza que se fosse seu pai ali em seu lugar, que a menina já estaria se afundando em perguntas e questionamentos sobre essa linguagem. No entanto, não se lembrava ao certo de ter aprendido sobre isso em sua matéria de estudos dos trouxas.

- Entendi, mas como ela compreendeu o que eu disse agora mesmo?
- Ela faz leitura labial, pela forma como você movimenta sua boca de bocó, ela consegue te entender - Adéle respondeu enquanto puxava um pirulito do bolso, certamente da bancada que ficava não muito longe dali.

De repente, Carolina chutou a canela de Adéle e com um olhar de reprovação no rosto começou uma série de gestos bem enfáticos, parecia que a outra estava levando uma bronca. Adéle reclamou e massageou sua perna, agora parecendo um pouco arrependida. Direcionou alguns gestos para Carolina e se virou para Charlie.

- Hã...Quer um pirulito...? - ela disse com o sorriso forçado, claramente ela estava sendo coagida a ser mais educada com ele.
- Claro, nunca recuso comida! - Charlie aceitou o pirulito vermelho e reluzente fazendo com que Carolina abrisse um belo sorriso.

Os três ficaram conversando pelo resto da viagem. A conversa na verdade parecia ser só entre Carol e Charlie, com Adéle traduzindo e de vez em quando soltando alguns comentários sarcásticos. Conversando com elas, Charlie conseguiu desviar o foco de atenção de seu nervosismo para conversas mais triviais, isso até a noite cair e os sofás da cabine parecerem verdadeiras camas para ele.

...


- Ei, oi, princesa adormecida, alou!

Adéle chacoalhava o ombro de Charlie, que só faltava babar no encosto da cabine. Pela janela da carruagem a noite já se erguia lá fora, a Lua iluminava as montanhas dos Cárpatos, as árvores e os lagos. A paisagem se tornava cada vez mais próxima à medida que os cavalos desciam em direção ao chão. O solavanco do encontro das rodas da carruagem com a terra foi suficiente para fazer Carolina sair do sofá e para acordar Charlie de seu sono.

- Finalmente, - Adéle disse enquando o ruivo se espreguiçava - pensei que precisaria carregá-lo para fora.
- Você adoraria, tenho certeza – o garoto rebateu, mais de brincadeira do que de implicância.

Carolina foi a primeira dos três a levantar e seguir os outros jovens para fora da carruagem. Em seguida, Adéle e Charlie foram atrás. Logo ao colocar a cabeça para fora, Charlie foi atingido por um enorme pânico. Não havia nada ali. Estavam no meio de uma ampla vegetação, rodeados, do que pareciam ser, enormes cadeias de montanhas. E quando o garoto achou que não poderia ficar pior, a porta da carruagem se fechou e os granianos voaram levando com eles todas as bagagens.

- Perfeito, levamos um golpe – riu Adelé consigo mesma – Aposto que daqui a pouco alguém vai aparecer e roubar nossos órgãos!
- Não temos interesse em seus órgãos, senhorita Dennis – uma voz feminina falou por detrás deles – Somente nas suas habilidades.

Os jovens se viraram para encontrar uma mulher e um homem. A que tinha acabado de falar apresentava um sorriso contido. Cabelos loiros emolduravam seu rosto e ela usava um sobretudo azul escuro, trazia também um par de óculos fundo de garrafa que aumentavam seus olhos. Seu nariz era levemente curvo e com os olhos grandes, isso a fazia parecer uma pequena coruja.
Já o homem ao seu lado era oposto de pequeno. Ele tinha mais que o dobro do tamanho dela. Seu cabelo negro estava amarrado em um longo rabo de cavalo, em seus ombros havia um casaco de pele de cervo. Na verdade, ele estava completamente trajado por roupas de pele. Trazia um sorriso ferino no rosto e várias cicatrizes nos braços à mostra. Algo dizia a Charlie que ele não era alguém com quem ele gostaria de se meter.

- Sou a Dra.Ridgebit - houve um burburinho por entre os jovens – E este aqui é...
- Leander Fangs - o homem disse dando um passo à frente, tampando a bruxa que falava – Estamos aqui hoje para mostrar o castelo a vocês e explicar mais a frente como as coisas funcionam por aqui, se eu fosse vocês prestaria atenção, não vão querer parar sem querer em um ninho de dragão, não é? Pois bem, como eu ia dizendo...

Enquanto Fangs falava sem parar, sem deixar pausa alguma que a Dra.Ridgebit pudesse se inserir, Carolina começou mais uma série de gestos e suas feições eram um misto de choque e animação. Adéle observava atentamente e respondia na mesma rapidez com que a brasileira usava em seu gestual. Charlie observou por um tempo, ainda muito impressionado com a linguagem.

- Ei, o que vocês tanto conversam? - o grifinório perguntou curioso, aprender a linguagem seria uma boa ideia, ele pensou.
- Carol é bem nerd - Adéle sussurrou – Disse que aquela mulher é filha do fundador do Santuário, por isso o falatório quando ela disse o próprio nome.
- Harvey Ridgebit teve uma filha?! - Charlie falou um pouco mais alto e se sentiu acuado quando algumas pessoas viraram para olhá-lo.
- É, e a maçã não caiu longe do pé, pelo visto - Adéle salientou – Incroyable! Ela é medibruxa, magizoologista, especializada em dragões! Viajou o mundo inteiro e Carol disse que ela desenvolve medicamentos e produtos a partir do seu conhecimento de dragões!
- Incrível mesmo, mas...e quanto ao outro cara? O que ela sabe?
- Ela só reclamou e disse que ele é extremamente prolixo - Adéle riu trocando um olhar com Carolina, que acompanhava toda a conversa.
- Ele realmente não para de falar!
- Oh, me desculpe, ruivinho! Estou atrapalhando sua conversa com minhas explicações prolixas?

O sangue de Charlie gelou. Aparentemente ele tinha sido pego por um daqueles momentos em que todos estão mais ou menos quietos e o mínimo levantar de voz é o suficiente para parecer que se está gritando para todos ouvirem o que se tem a dizer. Antes que ele pudesse se desculpar ou inventar uma desculpa, o homem o cortou assim como fez antes com a medibruxa.

- Já que o nosso ilustre convidado está com pressa, acho melhor ir direto ao ponto e mostrar a passagem da qual estava lhes falando – Leander disse olhando diretamente para Charlie – , por que não nos dá as honras?

A doutora parecia até surpresa de ter sido novamente incluída na conversa, mas logo tomou a frente e se posicionou no meio dos alunos, de forma que foi formado um círculo em volta dela. Ela remexeu seus bolsos e puxou um pequeno saco. Dele ela retirou uma espécie de semente, a qual ela depositou cuidadosamente em um buraco cavado com suas próprias mãos. Após cobrir a semente de terra, ela se afastou do buraco e inconscientemente todos os fizeram também.
A princípio nada aconteceu. Mas, após um momento longo de silêncio e expectativa, o chão começou a tremer e algo parecia se movimentar por debaixo de todos. Um som ia crescendo à medida que a terra começava a tremer mais e mais, até que um enorme pinheiro saiu do solo como um foguete. Alguns galhos ameaçaram bater nos bruxos, mas a partir do momento que o enorme tronco tinha pulado de dentro da terra, todos tinham corrido para o mais longe possível. Quando a árvore atingiu cerca de cinco metros, parou de crescer e o som e os tremeliques pararam. foi a primeira a se aproximar, com o maior costume do mundo.

- Alohomora! - ela apontou a varinha para o tronco e deste abriu-se uma porta, dela vários morcegos saíram voando em disparada.
- Quem quer ser o primeiro a andar pelos nossos belos túneis? - perguntou Leander com um sorriso de escárnio, imaginando que ninguém se ofereceria.

Os bruxos se olhavam com desconfiança, parecia uma espécie de pegadinha de mau gosto. De repente, uma mão se ergueu no ar e todos viraram sua atenção para ela. Carolina mantinha a mão levantada e com um sorriso no rosto tomou um passo à frente. Adéle começou a gesticular algo na língua de sinais, mas Carol logo a interrompeu com um rolar de olhos e mais gestos.

- Ela disse que não tem medo de morcegos, já viu coisas piores de onde ela vem - Adéle riu de nervoso.
- Pois bem, desça então, Caladinha – zombou Leander.

Carolina lançou um olhar desafiador ao homem e caminhou até a porta de pinheiro. Desceu sem hesitar e sem sequer olhar para trás. Aos poucos os outros foram tomando coragem e se aproximando da porta. Charlie foi um dos últimos a entrar e ao pular dentro da porta foi engolido breu adentro. Tinha certeza que voltaria a ter medo de escuro depois daquilo.
Charlie desceu uma espécie de tubo, pelo que pareceu uma eternidade. Várias vezes, em curvas perigosamente acentuadas, bateu a cabeça nas laterais dos túneis. Reto, direita, esquerda. Charlie parecia um pião humano. Em uma última decida reta, ele caiu gritando no chão de um salão amplamente iluminado, que se moveu como uma cama elástica para amortecer sua queda e dos outros que vinham logo atrás dele. Esperava que aquela fosse a última vez que ele teria de fazer aquilo.
Após a última pessoa ter caído, o chão voltou ao normal. e Leander, já de pé, esperaram todos se levantarem e se recomporem.

- Divertido, não? - Leander sorria – Eu que desenvolvi esse método!
- Tinha que ser... - Adéle murmurou enquanto se apoiava em Carolina, cobrindo a boca para não vomitar.
- Alguns avisos importantes antes de... - começou, mas Leander logo fez menção de interrompê-la novamente.
- Olhem só, eu...
- Acho que seu trabalho terminou por aqui – ela o cortou seca – Muito obrigada por trazer todos em segurança, Sr.Fangs.

O olhar que ela direcionava a Leander não a fazia mais parecer com uma coruja e sim com um gavião. O efeito foi imediato. Leander manteve o olhar por um tempo desagradável, mas foi o primeiro a desviá-lo. Murmurou um boa noite e saiu vencido em direção a escada para o segundo andar.

- Bom, agora sem mais interrupções - se virou para nós com um sorriso de satisfação no rosto – Gostaria de explicar alguns pontos importantes! Juntem-se aqui, por favor!

Comparado a Hogwarts, o castelo parecia ser até aconchegante. As paredes do salão eram repletas de tapeçarias e um grande lustre pendia do teto. O castelo era mais velho que todos ali naquela sala, bruxos e bruxas de todos os cantos do mundo já deviam ter passado por lá. Charlie mal podia esperar pelas memórias que criaria ali.

- Primeiramente gostaria de parabenizá-los por estarem aqui! O processo seletivo é longo e muito acirrado, se vocês estão aqui hoje é por que muitos foram recusados! Mas, não se enganem, no fim do processo de treinamento, mais da metade das pessoas desta sala terá desistido.
- Uau, por essa eu não esperava – Charlie comentou olhando os outros apresentarem o mesmo choque que ele.
- O estudo e o trato de criaturas mágicas do porte de um dragão é um trabalho árduo, vai exigir muito de vocês e ao mesmo tempo ficará claro quem tem ou não talento de verdade para isso – correu os olhos por cada um dos alunos lentamente - Serão cerca de seis meses de treinamento e mais seis de capacitação na área escolhida por vocês, vocês estarão estudando com os melhores profissionais do mundo. Não desperdicem essa chance.

O coração de Charlie parecia um tambor. Ele sabia que não seria fácil, mas não esperava que fosse tão assustador assim. Não sabia que teria que treinar por tanto tempo, será que teriam avaliações? Colocou a mão no peito e sentiu uma breve falta de ar, já não prestava mais atenção nas outras informações que a Dra. Ridgebit falava. A sala estava girando. Sentiu uma mão em seu ombro e para sua surpresa era Adéle.

- Ajuda se você contar e respirar – ela demonstrou e contou nos dedos o tempo que prendia e soltava o ar.

Charlie a imitou e depois de alguns minutos se sentiu melhor. Nunca tinha sentido aquela sensação antes. O nervosismo realmente o tinha afetado. Não fazia nem uma hora que estava ali e já sentia um desconforto absurdamente desagradável. Sorriu de leve para Adéle, que acenou com a mão como se estivesse dizendo “não foi nada” e voltou a prestar atenção na doutora. A crise existencial poderia esperar.

- ... por fim, estejam amanhã aqui no salão às 8:00. É isso, obrigada! As chaves de seus quartos estarão em seus bolsos!
Os alunos começavam a se dispersar e a subir as escadas sabe-se lá para onde. Charlie estava perdido, não tinha prestado atenção em metade da explicação.

- Pra onde todos estão indo? - perguntou a Carolina e Adéle.
- Para os quartos, eles ficam no segundo andar - Adéle respondeu – O jantar vai ser servido lá mesmo.
- E quanto ao resto do castelo? Não vamos fazer um tour ou algo do tipo?
- Você realmente não prestou atenção, não é? - Adéle rolou os olhos enquanto se mexia em direção às escadas – Faremos a visita amanhã de manhã. Agora, se me dá licença, eu e Carolina precisamos achar nosso quarto, pelo que está escrito aqui nós vamos ficar em uma das torres. Bonne nuit.

Carolina acenou rapidamente antes de ser puxada pela outra em direção a outro lance de escadas. Charlie olhou em volta e percebeu que ali não haviam portas. Nenhuma, menos por uma grande porta dupla com dragões entalhados nas maçanetas. Agora, desejava ter conseguido prestar atenção em .
Sem mais alternativas, começou a olhar o que os outros estavam fazendo. Um garoto loiro e cheio de sardas encostou a chave que retirou de seu bolso na parede, após alguns segundos ela girou sozinha e pareceu ser engolida pelo papel de parede vermelho. Uma porta se abriu e ele entrou em seu quarto. Charlie, então retirou a chave de seu bolso e fez o mesmo.
Ao girar a chave, uma porta se abriu para um quarto amplo. E ele não estava vazio. Dois garotos discutiam aos berros e a vontade de Charlie era dar meia volta e ir embora. Mas, alguma parte estúpida de sua cabeça o fez ficar parado na porta olhando a cena.

- Você precisa levar esse bicho embora! Eu sou alérgico! - um garoto franzino de óculos choramingava em um canto. Ele tinha os olhos puxados e uma aparência tão frágil, que fez com que Charlie tivesse pena dele.
- Mas ele é tão bonitinho! E ele adora você! - o outro garoto parecia ser o oposto, tinha uma pele escura, quase azulada. Era alto e trazia um sorriso de escárnio, de quem tem prazer em atormentar os outros.

Ele segurava um gato de pelo cinza e ao terminar de falar o aproximou do japônes, que se encolheu mais ainda no canto quando o gato guinchou alto ao ser erguido em sua direção.

- Nosso novo inquifelino! - o garoto alto falou acariciando a cabeça do gato, que aparentemente não pareceu gostar de ter sido chacoalhado de um lado para o outro, o arranhando – AI!

O gato foi jogado dos braços dele e caiu em cima de Charlie, que conseguiu segurá-lo. A partir daquele momento, os outros dois perceberam a presença do ruivo. O grifinório nunca desejou tanto sumir de um lugar.

- Hã...Oi? - começou um pouco em dúvida de como se inserir naquela situação - Eu sou o Charlie. Charlie Weasley.
- Prazer, Charlie! - o jovem de óculos se curvou para a frente em uma saudação - Viu! Esse é o nosso verdadeiro companheiro de quarto! Uma pessoa!
- Katsuo não gosta muito de animais como pode ver – o garoto alto se dirigiu a Charlie, ignorando o outro – Sou Desmond Nnaji.
- De quem é esse gato? - Charlie perguntou. O felino ronronava em seus braços, tendo enfim sossego.
- Achei esse carinha no hoje de manhã no Corujal – Desmond deu de ombros – Pensei que seria legal brincar com ele, mas o bicho só sabe dormir! Dormiu a tarde toda, assim como o nosso amigo ali! Mas, Katsuo é um estraga prazeres e quer que eu o leve embora...
- Kuso... - o asiático murmurou baixinho.
- Tem alguma reclamação? - Desmond virou para Katsuo, que engoliu em seco e balançou a cabeça negativamente várias vezes.
- Desculpa, mas...como assim hoje de manhã? Vocês chegaram antes?
- São duas carruagens separadas, uma ronda a Europa e a América e outra a Ásia e a África, chegamos um dia antes de vocês por conta do fuso horário - Katsuo respondeu se aproximando a uma distância segura do gato.
- Entendi – Charlie assentiu começando a reparar melhor no quarto e à sua volta. Notou que a decoração do quarto era bem peculiar. Do lado onde estava Desmond, havia uma cama de futom verde, um papel de parede laranja e um grande baú com estampa de peles de animais. Já do lado de Katsuo, uma cama baixa e simples contrastava com duas lâmpadas de papel vermelhas penduradas na parede. O canto que imaginava ser seu não tinha nada, estava vazio. Desmond percebeu seu olhar e riu.
- Vem cá, Weasley, vou te mostrar como decorar – fez um gesto para que ele se aproximasse de seu canto - Tá vendo aquele buraco ali na parede? Coloca um dedo ali.

Charlie não sentia muita firmeza na declaração do garoto, mas deu o benefício da dúvida. Colocou o gato no chão e seguiu até a parede. Suspirou e fez o que o novo companheiro de quarto tinha dito. A princípio, nada aconteceu. Então uma boca se formou na parede, dando uma dentada em seu dedo.

- AI! - os outros dois meninos riram da sua reação - O que foi isso?!
- Chega pra cá pra você ver – Desmond falou ainda rindo.

Charlie obedeceu meio contrariado. Ali do lado de Desmond, ele viu algo extraordinário. Os móveis surgiam do chão e as paredes iam explodindo em cores. Após alguns segundos, uma cama de madeira vermelha surgiu, junto com fotos de seus times preferidos de quadribol e até bandeirinhas da grifinória.

- Uau! - Charlie estava boquiaberto.
- Incrível, não? A mordida é um pouco demais, mas o resultado é incrível - Katsuo disse animado.
- Bom, agora que você está acomodado – Desmond empurrou Charlie em direção à porta – Que tal você levar nosso amigo de volta pra onde ele veio? Sim? Nossa, muito obrigado, tchau!

Quando percebeu, Charlie já estava fora do quarto e o bicho se esfregava em suas pernas. Mal tinha chegado e já tinha sido expulso do próprio quarto. Tomou um grande fôlego e pegou o gato nos braços.

- Bom, vamos te levar pra o corujal, amigo... - o gato miou em resposta e Charlie podia jurar que ele o tinha entendido. Charlie tinha a mania de achar que todos os animais entendiam o que ele falava, na verdade ele gostava de pensar que entendiam melhor que os humanos. Caminhando em direção aonde achava ficar o corujal, começou uma conversa longa com o gato, que não faria sentido para ninguém mais além deles.

...


Enfiada embaixo das cobertas e no conforto de seu quarto, não queria nem sequer espiar os novos aprendizes. Ela não admitiria nunca para Adamastor, mas a ideia de ter que trabalhar em equipe a assustava sim, e muito. Tinha se mudado muito nova de Londres para o Santuário, suas amizades eram feitas com adultos e ela cresceu brincando sozinha pelos corredores do castelo. Bom, não sozinha o tempo inteiro, às vezes as estátuas a faziam companhia. Os seres de mármore se compadeciam dela, ela sabia. Mas considerava as esculturas, chafarizes e adornos de jardins suas amigas mesmo assim.
Pessoas de verdade, feitas de carne e osso eram uma novidade. Humanos da sua idade então, mais ainda. Não fazia ideia de como se portar. Talvez devesse culpar a mãe por tê-la obrigado a estudar em casa com Adamastor e não em uma escola como Hogwarts. Ela tentou buscar algum livro sobre amizades na biblioteca, mas como esperado não achou nada. Foi uma busca em vão. A biblioteca não era especializada nisso e, infelizmente, seres humanos e, principalmente, jovens adultos não vinham com um manual de instruções.
Seus devaneios foram interrompidos pelo ranger da porta. Sua mãe entrou no quarto e acendeu todas as luzes, fazendo os olhos de queimarem com a inusitada claridade. Ridgebit não era muito sútil.

- Permissão para entrar na caverna? - a mulher de meia idade perguntou sorrindo.
- Permissão concedida – disse, erguendo as cobertas de forma a criar uma abertura para seu refúgio de edredons.
- Acabei de trazer os aprendizes, você tinha que ver o Leander! Não me deixou falar quase nenhum segundo, no final mandei ele embora e mostrei pra todo mundo quem manda! - disse se aconchegando ao lado da filha.
- Uau! - fez uma expressão irônica - Leander sendo um babaca! Pelas barbas de Merlin, que surpresa!
- Você deveria ganhar o prêmio de debochada do ano – riu e empurrou de leve o ombro da filha – Mas, não vim falar sobre isso, na verdade tenho uma surpresa para você.
- A última vez que você disse que tinha uma surpresa pra mim, parte do meu cabelo foi incendiada pelo arroto de um bebê de Verde-Galês.
- É uma surpresa tão boa quanto essa foi! Mas, talvez você reclame um pouco...
- Ok, fala logo, por favor – cravou os olhos em - Você está me deixando nervosa!
- Bom, conversei com Adamastor e ele achou melhor que você não recebesse tratamento especial durante o treinamento – disse enquanto brincava com as madeixas encaracoladas da filha - Então, decidimos que seria bom que você tivesse colegas de quarto como os demais.
- O QUÊ? - gritou, jogando as cobertas para o alto e saltando da cama, desfazendo seu refúgio - Mas...
- Nada de “mas” - levantou da cama e apontou um dedo em aviso, como a maioria das mães fazem – São duas meninas muito bacanas e que vão ficar aqui até o fim do período de treinamento.
- Nós temos, tipo uns cem quartos no segundo andar! Não podia botar elas em qualquer um destes?! - gritou erguendo as mãos no ar, como fazia quando ficava nervosa.
- Elas vão ficar aqui e ponto, disse indo em direção à porta – Nino vai trazer o jantar de vocês daqui a pouco.
- Argh! Quando elas chegam? - perguntou .
- Elas, na verdade, já estão aqui fora – declarou e abriu a porta revelando duas meninas bastante acanhadas. Ótimo, pensou , as duas escutaram toda a conversa.
- Preciso resolver algumas coisas, podem entrar meninas! - disse puxando as garotas para dentro.
- Obrigada..? – uma das meninas disse, trocando um olhar com a outra, como se dissesse “o que estamos fazendo aqui”.
- Ah! Já ia me esquecendo! - retirou sua varinha do bolso e ao bater duas vezes na parede, duas camas a mais surgiram no quarto, junto com os malões das mais novas inquilinas.

lançou um último olhar de aviso para e deixou as três sozinhas. A princípio ficaram em silêncio, se olhando e sem saber exatamente o que fazer. Adéle deu o primeiro passo, caminhou até a cômoda de , pegando em suas mãos um globo de neve. Os flocos dançavam em volta da miniatura do Big Bang, uma lembrança de sua cidade natal.

- Quarto legal - Adéle anunciou chacoalhando o globo - Então...Não te vi na carruagem, ou na recepção. Como chegou aqui? - Eu moro aqui – disse puxando um cacho acastanhado de seu cabelo, como fazia quando estava nervosa.

As duas meninas se entreolharam mais uma vez. Carolina apontou para e pediu na linguagem de sinais para que Adéle traduzisse.

- Como assim você mora aqui?
- Minha mãe cuida do castelo, vocês já a conheceram – esperava atentamente para que as garotas ligassem os pontos.

Uma longa pausa se passou e segurou todo ar nos pulmões. Não fazia ideia de como os outros lidariam com o seu nome e com o fato de que, praticamente, o Santuário era sua herança de família. Seu avô, Harvey Ridgebit, tinha deixado o Santuário nas mãos de sua mãe e de Adamastor, mas em um futuro próximo seria responsabilidade de cuidar do lugar.

- Então, vamos basicamente dormir do lado da princesa do castelo - Adéle constatou de forma jocosa, recebendo uma discreta cotovelada de Carol, algo que parecia estar virando um costume. Carol desviou sua atenção para , com um olhar receoso elevou suas mãos em uma série de sinais.
- Não vamos pedir pra trocar de quarto! – Adéle respondeu virando os olhos e sussurrando – Se ela estiver tão incomodada assim, que durma no corredor!
- Eu estou bem aqui, consigo te escutar – apontou rapidamente – Não precisam trocar de quarto, eu não me importo.

As mãos nervosas mexendo nos cabelos e o sorriso vacilante denunciavam sua mentira. Nunca tinha dividido nada antes e compartilhar um quarto não parecia a melhor de forma de iniciar essa prática. As duas bruxas assentiram, comprando a mentira e se puseram a desfazer as malas. Seu primeiro encontro com outros aprendizes não tinha sido tão ruim como imaginava que seria. Deitou na cama e começou a folhear seu caderno de desenho.

- Eca! – ouviram Adéle gritar de seu canto do quarto – Tem um monte de ratos mortos no seu lixo!
- São presentes do meu gato – respondeu distraidamente rabiscando no caderno.
- Por essas e outras que prefiro cães – Adéle murmurou para si mesma – Onde ele está?

se deu conta de que não via desde o almoço, quando ele tinha trazido para ela um passarinho morto. Fechou o caderno de desenho e calçou as botas aveludadas de camurça, de que tanto gostava. Saiu sem se despedir e suspirou ao fechar a porta do quarto.
Descendo as escadas encaracoladas da torre tentou afastar os pensamentos que surgiam na sua cabeça. Ela não precisava que as garotas gostassem dela, só precisava que a tolerassem. Não tinha a mínima vontade de estourar a sua tão cuidada bolha. Mas, ela precisava focar em achar seu gato agora.
Caminhou pelo primeiro andar inteiro e pelos corredores do segundo andar repletos de portas e mais portas. gostava de deitar nos parapeitos das janelas, nos pés das estátuas e em cima de mesas de vidro. Não parecia estar em lugar algum e ele não era um gato do tipo que gostava de se esconder. Subindo as escadas para o segundo andar, começava a suspeitar que alguém poderia tê-lo pegado.

- Veja só quem decidiu dar o ar da graça! – uma voz conhecida se pronunciou.

Apolo tinha sido o primeiro amigo de no castelo. Esculpido em mármore, o deus grego permanecia envolto em uma túnica, com os cabelos cacheados rodeados por folhas de louros e nas mãos trazia uma lira, a qual volta e meia utilizava para importunar quem passava com cantorias e poemas não requisitados.

- Só queria desenhar e ficar no meu canto hoje – desabafou.
- O que está fazendo perambulando a essa hora pelo castelo? – uma voz feminina e carregada de preocupação perguntou.

Ártemis, a estátua gêmea de Apolo, virou o rosto de mármore para . Diferente da túnica simples de Apolo, a sua tinha o formato de um vestido longo, algo que ela considerava um erro de seu escultor, pois ela nunca caçaria vestida naquilo. Mas, não podia negar que o conjunto do vestido esvoaçante, os cabelos longos e encaracolados emoldurando seu rosto e o arco e flecha pendurado nas costas a transformava em uma visão estonteante.

- Não consigo encontrar . Vocês viram algum sinal dele?
- Não tem muito tempo que eu vi um garoto passeando pelo segundo andar – Ártemis observou – Podia jurar que ele estava conversando com alguém, mas tenho certeza de que ouvi alguns miados!
- Em que direção ele foi? – perguntou alarmada pelas suas suspeitas estarem se provando corretas.
- Para a torre norte – Ártemis puxou uma flecha do arco em suas costas – Se ele fizer mal a um fio de pelo de , traga ele aqui que meterei uma flechada no meio de sua cara.
- Espero não precisar fazer isso – riu.
- Quando voltar, você precisa escutar meu novo poema – Apolo disse – É um belo haikai sobre uma...
- Vá e não volte mais – Ártemis cortou o irmão – Pode ter certeza que não vale a pena, eu já escutei e se pudesse apagaria da minha memória.
- Você nunca gosta de nenhum dos meus poemas! – Apolo respondeu magoado.

Percebendo que se iniciaria mais uma das costumeiras brigas entre as estátuas irmãs, saiu de fininho em direção à Torre Norte, onde ficava o Corujal do castelo. Agradeceu mais uma vez a Merlin por ter nascido filha única.

...


- ... aí meus irmãos ganharam um berrador cada um!

Charlie tinha perdido a noção da hora. Sentado no chão frio do Corujal, contava algumas histórias que julgava serem engraçadas para o gato a sua frente, que não desgrudava os olhinhos azuis do bruxo. O som das corujas e do vento adentrando pelas inúmeras janelas reverberava pelo espaço, a luz da Lua iluminava a Torre, de forma que não tinha sequer uma vela acesa no local. Era silencioso e pacífico ali em cima, Charlie tinha certeza de que voltaria para estudar ali.

- Eu sempre quis um gato, sabe? – Charlie confessou ao seu amigo felino – Mas, pra ser justo eu sempre quis encher minha casa de bichos, nem sempre dos mais bonitinhos como você.

Pegou o gato no colo e se pôs a fazer carinho em sua cabeça cinzenta, recebendo um ronronar leve indicando que ele estava gostando.

- Se nós vamos continuar a ser amigos, vou precisar te dar um nome – Charlie disse sorrindo.
- Ele já tem um nome – uma voz surpreendeu Charlie e o fez dar um sobressalto.
- Por Merlin, quando foi que você chegou aqui? – o garoto tinha a mão no coração e seu movimento brusco tinha espantado o gato, que agora se enroscava nos pés de sua dona.
- Não importa – respondeu tomando o gato no colo – Você pegou meu gato. Por que?
- Em minha defesa, meu colega de quarto que o pegou, eu só vim devolvê-lo pro lugar onde o acharam.
- Bom, está devolvido – disse dando meia volta e indo em direção a saída, mas antes de sair se virou e acrescentou – Diga pro seu amigo não mexer mais com meu gato.
- Espera! – Charlie se levantou e seguiu a menina – Pensei que trazer animais fosse proibido.
- mora aqui há mais tempo que todos vocês, essa é a casa dele – respondeu enquanto iluminava com sua varinha o caminho escuro das escadas da torre.
- Interessante – Charlie disse tentando alcançar o passo da garota, que apesar de ter pernas mais curtas que as dele andava bem rápido – Mas, se esse gato é seu e ele mora aqui...Então, você mora aqui também?
- Moro – respondeu apressando mais ainda seus passos, agora pelo corredor do segundo andar.
- Meu nome é Charlie Weasley – o garoto correu para sua frente a fazendo parar, estendeu uma das mãos e abriu um sorriso que fez se perder completamente por um segundo.

Antes que pudesse responder, um som de algo se quebrando se propagou no ar. tinha certeza de que tinha vindo da sala de Adamastor e que se ele a visse caminhando pelo castelo a essa hora ganharia uma interminável bronca sobre disciplina e como deveria respeitar seu toque de recolher. Não pensou duas vezes ao puxar o garoto sardento para detrás de uma estátua de um dragão chinês, que roncava em seu sétimo sono.

- Por que estamos nos... – Charlie não conseguiu terminar a frase, pois tampou rapidamente sua boca com a mão livre, na outra trazia agarrado a seu peito.

As portas da sala de Adamastor se abriram com um estrondo, expelindo Nino para fora. O pequeno elfo caído no chão parecia ainda menor diante de Adamastor. O diretor do Santuário tinha uma aparência pouco convencional com sua pele alva quase branca como papel, os cabelos pretos penteados para trás, as orelhas levemente pontudas e os olhos âmbar, mas raramente trazia uma feição como a que portava agora. Espiando com cuidado, notou que apontava a varinha para Nino. Algo estava errado.

- Nós somos os únicos que sabem da existência do mapa – Adamastor dizia entredentes – Nem sabia que ele estava na minha sala! Você é o único que tem acesso à minha sala, Nino!
- Nino jura, mestre! – o elfo se agarrava desesperadamente aos pés do patrão – Nino não pegou mapa!
- Se você não pegou pode muito bem ter contado para alguém onde estava – o diretor ainda apontava a varinha para a criatura, mas sua mão começava a vacilar.
- Não, mestre! Nino nunca trairia o senhor!
- Desculpe, Nino – com uma das mãos ergueu o elfo e ao estalar os dedos este ficou desacordado.

Carregou o elfo nos braços, descendo escada abaixo em direção ao subsolo do castelo. Charlie e esperaram silenciosos até que perdessem o homem de vista. Assim que ele estava longe o bastante os dois levantaram. estava confusa. De que mapa ele estava falando? Da sua parte, o Weasley martelava a mesma coisa na cabeça.

- Do que eles estavam falando? – o ruivo perguntou.
- Não faço a mínima ideia, mas nunca vi Adamastor agir assim – comentou baixinho, ainda em choque.
O olhar nos olhos do seu mentor não era de ira, era de puro medo.
- Acho melhor voltarmos pra nossos quartos – Charlie disse e a bruxa assentiu.
- – a garota disse rapidamente indo em direção aonde ficava seu quarto.
- O quê? – o jovem perguntou confuso.
- É o meu nome – ela disse antes de se perder na escuridão do corredor para a sua torre – Bem-vindo ao Santuário.

Ela deu as costas para Charlie. O coração do garoto batia a mil ainda por conta da cena que tinha presenciado. Mal tinha chegado ali e já parecia estar se metendo em algo que não devia. Sua cabeça se enchia de perguntas, a maioria sobre a garota de cabelos castanhos que acabara de conhecer.


Capítulo 03

Eleonora não dormiu. Depois de retornar ao seu quarto deitou na cama e com as cobertas até a cabeça ficou encarando o escuro, digerindo o que tinha visto. O Adamastor que ela conhecia ria de piadas ruins, jogava snap explosivo muito mal e gostava de dar presentes quando voltava de viagens. Em suma: era tão inofensivo como um tio qualquer. O Adamastor dela não ameaçava elfos indefesos.
Puxou o cobertor grosso de lã de cima da cabeça e esfregou os olhos, notando a presença de raios tímidos de Sol que entravam pela janela da torre. O relógio na mesa de cabeceira marcava sete horas da manhã. Adéle e Carolina ainda dormiam pesadamente em suas camas. Eleonora tinha recebido uma cópia do horário das aulas do treinamento e sabia que a primeira só começava às nove. Então, como um estalo, uma ideia surgiu em sua cabeça.
Trocou o pijama por uma roupa mais confortável, já que teria aula de luta, e saiu tomando cuidado para não acordar as garotas. A melhor forma de saber onde Nino estava era ir à cozinha do castelo. Os elfos provavelmente não saberiam de nada, mas para sua sorte eles não eram os únicos seres mágicos que trabalhavam na cozinha.
As zânăs não criavam muitos problemas e trabalhavam no castelo por vontade própria, no entanto diferente dos elfos elas tinham passe livre para ir e vir quando bem quisessem. As fadas romenas não eram nem um pouco parecidas com as da Inglaterra, tinham uma Inteligência acima da média e um fraco por fofocas, o que as tornavam as principais informantes de Eleonora. Além disso, eram extremamente solicitas e carinhosas, às vezes até demais.
Os passos de Eleonora reverberavam pelo salão do primeiro andar e eram o único som preenchendo o espaço. Mas, quanto mais ela se aproximava da cozinha mais sons iam surgindo. Vozes, ruídos de panelas batendo e grunhidos iam formando uma sinfonia que ela conhecia bem. Eleonora abriu a porta da cozinha devagar, em pouco tempo sua presença foi notada.

- Tão cedo fora da cama, senhorita Eleonora? – uma fadinha de olhos completamente negros e com um pequeno vestido de folhas indagou a poucos centímetros de seu rosto.
- Não consegui dormir.
- Quer um chá de camomila?
- Posso cantar pra você!
- E se eu fizesse uma massagem no seu cabelo?!

Um pequeno bando tinha se aglomerado em volta dela, gritando uma por cima da outra e cada uma oferecendo as mais diversas soluções mirabolantes. Eleonora suspirou e contou mentalmente até dez antes de abrir um sorriso vacilante e dizer o que realmente precisava.

- Na verdade, preciso de informações – as fadinhas cintilavam ao seu redor e seus grandes olhinhos não desgrudavam dela. – Alguma de vocês viu Nino?
- Ele não apareceu hoje de manhã – uma fada de pele azulada e olhos vermelhos se pronunciou. – Mestre Adamastor deve ter dado alguma tarefa para ele.
- Entendi – Eleonora respondeu desapontada. – Se tiverem notícias dele, falem comigo.
- Claro, senhorita! – elas responderam em coro.

Eleonora já ia se virar para ir embora, quando sentiu seu cabelo ser levemente puxado.

- Não vá, senhorita Eleonora! – uma delas disse com a voz aguda e infantil. – Venha! Vamos trançar seu cabelo e comer covrigis!

Eleonora tentou dizer não, mas logo se viu sentada num banquinho com um pretzel romeno nas mãos e tendo várias fadinhas se revezando em manobras para criar tranças em pontos aleatórios de seu cabelo. Ela não escutava nada que estavam dizendo, só conseguia pensar no mistério que começava a se desenrolar em sua casa.

...


- Katsuo, mais quantas vitaminas você vai enfiar goela abaixo, hein? – Desmond indagou observando o colega de quarto puxar do bolso um pote com diversas cápsulas de várias cores e tamanhos.
- Por mim eu tomaria até mais – Katsuo afirmou com convicção, engolindo três pílulas de uma vez só. – Só Deus sabe a quantas doenças diferentes estamos sendo expostos nesse lugar, estou tentando evitar ficar doente.
- Você está paranoico, cara – Desmond riu e em seguida se dirigiu a Charlie. – Não concorda comigo, Weasley?

Charlie concordou com um aceno rápido, mas na verdade não tinha escutado uma palavra sequer. A Dra.Ridegbit já os tinha mostrado a biblioteca, a sala onde eles teriam aula, o corujal, a sala de convivência e agora eles pareciam estar prestes a finalizar seu breve tour do castelo, conhecendo a área externa.

- Mas e a área de pesquisas? – Adéle indagou caminhando ao lado da mulher. – Pensei que fôssemos conhecê-la também.
- O subsolo do castelo não é lugar para vocês... – após uma pausa longa acrescentou – Ainda.

Charlie tentava focar e continuava malsucedido. Tinha procurado com os olhos por Eleonora, mas claramente ela não estava ali. Não faria sentido de qualquer jeito, ela não precisava de um tour pela própria casa. Tinha muitas perguntas para fazer a ela na próxima vez que se vissem.

- ...compreenderam? – perguntou e recebeu um coro de respostas positivas, Charlie mais uma vez tinha perdido uma explicação.
- O que ela disse? – perguntou a Desmond que estava ao seu lado.
- Que devemos evitar sair do castelo para a reserva sem motivos, eles não querem que viremos jantar de dragão.
- Acredito que nenhum de nós quer – Charlie concluiu enquanto atravessava os enormes portões do castelo.

Um rebanho de carneiros pastava não muito longe do castelo. A vista dos Cárpatos era de tirar o fôlego, com suas enormes montanhas e o que pareciam ser infinitos tapetes verdes. A sede do Santuário ficava no topo de uma das mais altas montanhas da região, o que garantia uma visão incrível de quase toda a extensão do local. Mas, que pelo visto não agradava a todos. Adéle se apoiava em Carolina, com uma das mãos em seu ombro e outra tampando a boca. Ela parecia ter um problema sério com alturas.

- A cidade mais próxima daqui é Brasov e vocês podem visitá-la quando quiserem – continuava a dar várias informações sobre a rotina dos aprendizes.
- Ei, o que é aquilo ali? – Katsuo disse endireitando os óculos e apontando para o alto.

A princípio Charlie só conseguia enxergar uma mancha disforme e distante no céu, mas ela cada vez mais parecia se aproximar e crescer. O som veio antes da forma. Um rugido que ele nunca tinha escutado em sua vida arrepiou até o seu último fio de cabelo. Era o primeiro dragão que ele via. Suas escamas de um tom azulado e os olhos profundos denunciavam sua espécie.

- Um Olho-de-Opala! – Desmond disse quase na mesma hora que Charlie.

Nesse momento Carolina ficou inquieta, sacudiu Adéle e começou a se comunicar por seus sinais. Todos estavam maravilhados demais para notar, mas o dragão estava cada vez mais próximo. Demorou mais do que deveria para que todos percebessem o que Carol viu primeiro: o dragão vinha na direção deles.
Fumaça saia das narinas da criatura e ela parecia se preparar para soltar fogo em cima dos estudantes. Um pânico generalizado começou, alguns tentavam correr para dentro do castelo enquanto outros permaneciam imóveis sem saber o que fazer. Felizmente, sabia. A bruxa puxou a varinha e apontou para a fera:

- Relashio

O dragão freou bruscamente e a fumaça desapareceu de suas narinas. Ele pareceu perder o interesse no grupo, dando meia volta e voando para longe calmamente. Seus olhos tão característicos estavam completamente brancos, algo que incomodou profundamente Charlie.

- Pensei que Olhos-de-Opala fossem os dragões menos agressivos, claramente estava enganada – Adéle disse visivelmente irritada.
- E eles são – disse de forma enigmática, se virando para Adéle e para os aprendizes que ainda estavam ali. – Mas, dragões são inconstantes. Não precisam se desesperar, logo vocês aprenderam a lidar com essas situações! Acho que já está bom de área externa por hoje, podem voltar ao castelo! Seu professor os espera.
- Você reparou nos olhos dele? – Charlie indagou a Adéle enquanto caminhavam em direção ao castelo.
- Estava mais ocupada reparando em quão perto nós estávamos de morrer – ela disse revirando os olhos.

Charlie sentiu uma mão em seu ombro e sentiu o olhar de Carolina recair sobre ele. Ela o encarava e apontava para si mesma. O bruxo não precisava falar sua língua para compreender o que ela estava dizendo. Ela também tinha notado os olhos opacos e sem vida do Olhos-de-Opala.

- Tinha algo de errado com ele, não? – o ruivo perguntou novamente e Carolina assentiu.

Alguns dragões tinham predileções por humanos, era verdade. Mas, Olhos-de-Opala evitavam ao máximo o contato com eles. Essa pequena violação de hábitos e a aparência estranha de seus olhos deixou Charlie bastante incomodado, talvez o dragão tivesse adoecido. Os pensamentos dele foram interrompidos quando chegou na sala onde ocorreria sua primeira aula. Parado no meio dela, estava Leander Fangs. No lugar das peles que cobriam seu corpo todo na primeira vez que o viram, agora havia somente um collant de ginástica. Uma visão extremamente curiosa, no mínimo.

- Sejam bem-vindos à sua primeira aula de Combate! – o professor disse – Vocês devem estar se perguntando o porquê desta aula! Bom, um dragonologista precisa não só ter uma mente afiada, como também um corpo resistente! Portanto...

A porta da sala se abriu novamente, chamando toda a atenção dos presentes para quem entrava. Uma menina com um penteado um tanto peculiar corou ao se sentir observada. Charlie reconheceu Eleonora por entre as inúmeras tranças que emolduravam seus cabelos. Ela se sentou em um canto, isolada dos demais e não retribuiu o olhar do ruivo.

- Da próxima vez, Eleonora, tente colocar uma melancia na cabeça, talvez assim consiga chegar mais rápido na aula e receber a mesma atenção que quer – Leander argumentou sufocando uma risada. – Como eu ia dizendo...

Os próximos minutos se passaram na mesma velocidade de uma lesmalenta. Charlie não conseguia dizer se tinham se passado dez, vinte ou cinquenta minutos. Não havia nenhum relógio na estranha sala repleta de tatames e bonecos de madeira, que pudesse acalmar a mente do grifinório. Leander falava sobre técnicas de artes marciais trouxas, exercícios para fortalecer os músculos e até como aprender a segurar o fôlego embaixo d’água. Após o que pareceu um século, o primeiro exercício foi lançado. Fangs distribuiu luvas de boxe e aparadores e os ensinou como usá-los.
Passaram o resto da manhã inteira desferindo e recebendo golpes de boxe, além de correr por entre obstáculos e levantar pesos. Por conta do quadribol, Charlie tinha um condicionamento físico razoável, mas até ele não estava mais se aguentando em pé no fim do treinamento. Quando Leander os liberou, não conseguia mais sentir os próprios braços e sentia as roupas grudarem ao corpo com o suor. Felizmente, era o horário de almoço e eles teriam um descanso merecido.
Eleonora, assim como ele, estava exausta e era possível ver pela sua respiração irregular e as bochechas coradas que ela também não estava acostumada com aquilo. Seus cabelos estavam presos em um coque e ela limpava o suor da testa repetidas vezes. Charlie a analisava sem saber exatamente por que e perdeu um pouco da compostura quando ela levantou o olhar para ele. Mas, ele não desviou os olhos. Fixaram-se um no rosto do outro, quase como se estivessem competindo para ver quem cederia primeiro e olharia para outro lugar.

- Se encarar demais ela vai perder o interesse, tigrão – Desmond disse fazendo Charlie ficar da cor dos próprios cabelos. – Você precisa lançar a cordinha, mas depois puxar, sacou?
- N-Não é nada disso, eu só... – o Weasley gaguejou tentando se defender.
- Me engana que eu gosto – Desmond envolveu um de seus longos braços ao redor do pescoço de Charlie – Vamos comer e eu vou te ensinar tudo que eu sei.

Desmond arrastou o colega porta a fora, mas isso não impediu que Charlie se virasse discretamente para olhar para Eleonora. Ela estava virada de costas para ele, o que o desapontou um pouco, gerando uma sensação esquisita em seu peito. O que ele não sabia, era que a mesma sensação passava pelo corpo de Eleonora.

...


Eleonora foi uma das últimas a arrumar seu prato, o que foi uma péssima ideia pois agora as mesas já estavam quase que completamente ocupadas. Ela ficou um bom tempo em pé com seu prato de mititei nas mãos e teria ficado por mais tempo se não fosse o milagre de um grupo inteiro vagar uma mesa. Ela se apressou e sentou-se aliviada. Agora podia comer em paz.

- Esse lugar está ocupado?

Antes mesmo de levar a primeira garfada a boca, Eleonora foi interrompida. O garoto que tinha roubado seu gato e que agora lançava olhares para ela durante a aula estava do seu lado e esperava com um aspecto nervoso por uma resposta. Eleonora balançou a cabeça negativamente e suspirou, seu plano de se isolar não parecia estar dando muito certo.

- Leander pega bem pesado, não é? – disse enquanto remexia a comida no prato – Quando eu estava no time de quadribol, nossos treinos não chegavam nem perto daquilo.
- Provavelmente por que você não estava treinando pra lidar com dragões – Eleonora disse constatando o óbvio.

Um silêncio desconfortável se colocou entre eles por alguns minutos.

- Não quero ser grossa – Eleonora soltou de repente – Mas o que você quer?
- Pra quem não quer ser grossa, você não está fazendo um bom trabalho – ele brincou, mas como não recebeu nenhuma reação logo ficou sério. – Eu queria conversar com você.
- Sobre?
- Bom, sobre a vida, dragões, essa comida esquisita...Sobre o elfo e o tal mapa roubado, principalmente.
- Fala baixo – Eleonora olhou para os lados furtivamente, mas ninguém parecia prestar atenção neles. – Ninguém mais precisa saber disso!
- Esse é o ponto – Charlie sussurrou. – Nós não sabemos absolutamente nada sobre isso.
- Não foi isso que eu disse – Eleonora retrucou também sussurrando. – Primeiro: eu estou investigando e segundo não tem um nós.
- Sinceramente acha que vai conseguir investigar sozinha?
- Você não me conhece – Eleonora salientou começando a se irritar.
- Não preciso conhecer pra saber que duas cabeças trabalham melhor que uma só.

Eleonora bufou e continuou a comer como se o rapaz não estivesse ali. A sua insistência em ajudar a tinha irritado profundamente. Sua mãe, Adamastor e agora esse garoto. Quando as pessoas iam parar de duvidar das suas capacidades? Cortava os charutos de carne como se estivesse dilacerando alguém.

- A comida não é lá essas coisas, mas você não precisa descontar na coitadinha, mon chéri – uma voz conhecida se fez ouvir e Adéle se sentou ao lado de Eleonora, acompanhada dela veio Carol.
- Tem espaço pra mais dois? – Katsuo se aproximou e Desmond veio logo atrás.
- Podem vir! – Charlie disse sorrindo.
- É claro que tem mais espaço... – Eleonora murmurou em um tom que denunciava sua irritação.
- E então, majesté? – Adéle indagou a Eleonora – Gostei bastante do seu penteado de hoje de manhã, acho que pode ser a próxima moda em Paris.

Todos da mesa abafaram o riso, exceto por Desmond que riu abertamente e socou a mesa ao lembrar das inúmeras tranças intercaladas de forma desordenada nos cabelos da colega. Carolina sinalizou um “Não estava tão ruim” para a colega, que foi erroneamente traduzido por Adéle como um irônico “Você tem grande estilo”. Eleonora explicou sobre as zânăs, o que não tornou seu penteado anterior menos engraçado.

- Então você é amiga das fadas? – Katsuo perguntou horrorizado – Sabia que as fadas podem transmitir gripe feérica? Faz seu nariz soltar pó mágico quando espirra!
- Nunca ouvi falar dessa doença – Charlie disse enfiando mais um charuto de mititei na boca.
- As fadas do castelo são muito bem cuidadas – Eleonora rebateu – Pode ficar tranquilo.
- Como sabe disso? – Katsuo perguntou.
- Moro aqui – Eleonora respondeu sentindo uma pontada de deja vú passar pela sua espinha. Era tão estranho assim ela morar ali?
- Você está falando com mademoseille Ridgebit – Adéle disse seu sobrenome sílaba por sílaba de uma forma pausada, como se Katsuo necessitasse receber a informação aos poucos.
- Gomen nasai! – Katsuo levantou e fez uma reverência para Eleonora. – Perdão! Não sabia quem você era!
- Você é neta de Harvey Ridgebit! – Charlie disse exasperado. – Quando eu era pequeno, meu sonho era conhecer seu avô! É verdade que ele sempre carregava o canino do Dente de Víbora Peruano que capturou com ele?! E que ele conseguia voar ao lado dos dragões na própria vassoura?! E que...
- Calma aí, fã – Desmond cortou Charlie. – Claramente você sabe a biografia inteira do homem. Mas, e você...?
- Eleonora – a menina disse percebendo que não tinha se apresentado.
- Eleonora – Desmond repetiu e abriu um enorme sorriso, revelando uma fileira de dentes brancos. – Qual a sua história?
- Quando meu avô faleceu alguns anos atrás, eu me mudei pra cá com a minha mãe.
- E o que mais...? E seu pai? – Katsuo questionou.
- Ele morreu antes de eu nascer – a menina deu de ombros e ficou em silêncio em seguida.
- Ótima história em duas frases – Desmond disse se arrependendo de perguntar.

Repentinamente, foram todos surpreendidos quando um gato pulou em cima da mesa trazendo uma borboleta morta entre os dentes. O felino deixou o inseto no prato já vazio de Eleonora e sentou na sua frente, seu olhar atento assimilava o rosto da dona à procura de sua aprovação.

- Outro presente? – Adéle disse torcendo o nariz para o inseto morto.
- sabe que eu gosto de borboletas – Eleonora acariciou a cabeça do animal que ronronou satisfeito. – Ele quase nunca consegue pegar uma, deve ter passado a manhã toda tentando.
- Então ele é seu? – Desmond disse tentando chamar a atenção do bichano. – Fiz amizade com ele outro dia, mas infelizmente tive que devolver por que Katsuo é alérgico a gatos fofinhos.

Como que para confirmar o que o colega tinha acabado de dizer, Katsuo espirrou alto e deslizou sobre o banco em que sentava para o mais longe possível do gato.

- – Desmond chamou com uma repentina intimidade que incomodou a garota. – Me diga, é comum os dragões atacarem as pessoas daqui?
- Por que a pergunta? – Eleonora devolveu a pergunta surpresa com a mudança de assunto.
- Hoje de manhã um Olho-de-Opala quase nos atacou – Charlie revelou e conseguiu chamar a atenção de Eleonora para si. – Ele parecia bem estranho.
- Não é tão fora do comum quando se trata de dragões – Eleonora ponderou – Mas, também não é exatamente normal.
- Isso já aconteceu antes, então? – Desmond pressionava por uma resposta.
- Sei que vocês acabaram de chegar, mas já pararam pra reparar nas pessoas que andam por aqui? – Eleonora disse olhando nos olhos de cada um da mesa. – A maioria tem arranhões, queimaduras, cicatrizes...Se machucar é algo normal nesse lugar.
- Então a resposta é sim – Adéle murmurou com um ar preocupado.
- Sinceramente, se vocês não esperavam isso do trabalho foram bastante ingênuos em vir até aqui – Eleonora declarou enquanto se levantava.

Adéle parecia pronta para contestar, mas sua fala foi logo abafada por um alto som de tilintar de sinos. O horário de almoço tinha terminado. Eleonora saiu sem se despedir e foi seguida alegremente por seu gato. Charlie a observou ir embora e ficou desapontado com o fato de não ter conseguido conversar mais com ela, e ainda mais com o seu empenho em recusar sua ajuda.

- Garota difícil essa que você escolheu – Desmond disse dando tapinhas nas costas do colega.
- Eu não...
- Vai definitivamente precisar da minha ajuda – o nigeriano afirmou mais para si mesmo do que para Charlie.

...


A primeira semana de treinamento passou surpreendentemente rápido para todos. Ou quase todos. Eleonora nunca tinha frequentado uma escola formal e conforme as aulas iam passando, cada vez mais ela tinha certeza de que mal aguentaria seis meses daquilo, para ela os que aguentaram sete anos em uma escola mereciam uma condecoração da Ordem de Merlin. As matérias envolviam vários conhecimentos diferentes. História da dragonologia, luta corporal, estratégia, anatomia de dragões e mais, agora consumiam os pensamentos de Eleonora. Por mais que ela estivesse bastante familiarizada com os conteúdos das aulas, a garota tinha que admitir – mesmo que de forma relutante – que havia muito o que aprender ainda.
Quando as aulas do dia acabavam, ela era a primeira a sair da sala. A fim de evitar contato com os colegas, ela se fechava por entre as estantes da biblioteca e ficava lá até seu horário de dormir. A única pessoa com quem conversava era sua mãe. Eleonora tinha conseguido convencer de que seria uma boa ideia as duas almoçarem juntas todos os dias.
Às vezes ela sentia a sensação de que estava sendo observada e acabava pegando Charlie a olhando com o canto do olho. No entanto, ele não tentou chegar perto dela novamente. Já as meninas tentaram e muito. Carolina e Adéle a cumprimentavam nas aulas todos os dias e se sentavam perto dela sempre que podiam.
Era sexta-feira, o último dia da semana em que eles teriam aula. Durante a semana vários funcionários do Santuário tinham se revezado para dar as matérias, então cada dia era uma surpresa. A aula do dia era Estratégia. Em seu interior, ela torcia para que fosse uma aula prática e de preferência que a aproximasse dos dragões reais e não os dos livros.
A porta da sala bateu e Eleonora se virou para ver quem entrava. Adamastor passou por ela vagarosamente e depositou alguns livros em cima da mesa reservada para o professor. Ela não via o homem desde o começo da semana, ele não veio sequer perguntar como estava sendo a experiência para ela, o que a deixou extremamente chateada. Apesar disso, algo tomou sua atenção ao olhar para o mentor. Olheiras fundas circundavam seus olhos, que mal abriam por conta do sono. Sua pele naturalmente pálida conseguia estar quase translúcida e carregava em seu rosto uma feição de extremo incômodo. Ele definitivamente não estava em um de seus dias bons.

- Ele parece um vampiro – alguém sussurrou perto de Eleonora seguido por uma onda de risinhos abafados e descrentes.
- Não seja idiota, quem aceitaria um vampiro como professor? – uma menina questionou expondo o que provavelmente seria a opinião comum de todos a sua volta.
- Harvey Ridgebit aceitaria – Adamastor falou de costas para a turma enquanto limpava o quadro negro, o grupo que antes ria agora estava calado. Adamastor se virou e sorriu mostrando os dentes extremamente brancos antes de continuar.
- O fundador do Santuário não só me aceitou como seu professor um dia, como também me nomeou o diretor encarregado desta instituição, portanto eu reveria meus prejulgamentos se fosse vocês, futuros dragonologistas.

Eleonora sentiu os cantos de sua boca formarem um sorriso involuntário. Podia não estar falando com ele, além de estar completamente brava e com uma leve suspeita de que ele talvez tivesse dado um sumiço no elfo mais irritante do mundo mágico. Mas ainda assim, ela não conseguia evitar a satisfação que sentia toda vez que Adamastor colocava um bruxo preconceituoso em seu devido lugar.

- Eu sou Adamastor, seja bem-vindo a aula de Estratégia – seu olhar repousava alternadamente entre os rostos dos alunos, contemplando todas as divisões da sala. Ele não olhou para ela.
- Tem um motivo para essa aula ser a última da semana – Adamastor se movimentava de um lado para o outro na frente da sala, não havia uma cabeça que não girasse para acompanhá-lo. Eleonora notou que Charlie parecia até segurar o fôlego em excitação enquanto balançava nervosamente uma de suas penas – Aqui é o momento em que vocês provam que estão aprendendo de verdade alguma coisa. Teremos muitos estudos de casos e...
- Aulas práticas?! – uma voz exasperada se ergueu do meio da sala.
- Sim, senhor...?
- Weasley – Charlie respondeu um pouco alto demais parecendo se arrepender logo depois por não conseguir conter a animação.
- Não se preocupe, Sr.Weasley – Adamastor sorriu para o garoto – As aulas de campo acontecerão, mas talvez não tão cedo quanto você deseja.

Charlie murchou de imediato em sua cadeira e Eleonora não pode deixar de fazer o mesmo ao afundar na sua própria carteira. Ela se perguntava quando o Santuário deixaria de tratá-los como crianças e passaria a vê-los pelo que realmente eram: bruxos adultos. Ou quase isso.
Após uma breve recapitulação dos conteúdos da semana, Adamastor deu início ao primeiro dos quatro estudos de caso que veriam durante a aula. Tratava-se de como o dragonologista deveria adaptar-se ao tempo para capturar ou observar um dragão.
Enquanto seu mentor falava, Eleonora não visualizava a cena que ele descrevia. Ela não via como dias ensolarados e descobertos eram melhores para observar dragões ou que temporais eram perfeitos para missões de captura. Ela fechava e abria os olhos e continuava enxergando a mesma coisa. Adamastor carregando o corpo inconsciente de Nino escadas a baixo. Uma versão de Adamastor colérica, desesperada e bruta, a qual ela nunca tinha visto antes.
No entanto, ela tinha que admitir. A aula passou bem mais rápido do que ela esperava. As lições acabaram pontualmente no horário de almoço e não demorou muito para que os estudantes esfomeados coletassem suas coisas e saíssem apressadamente da sala. Eleonora pretendia seguir o fluxo de colegas com a mesma rapidez para chegar até o escritório de sua mãe, onde almoçavam juntas, mas foi interrompida por uma mão fria em seu ombro.

- Pensou que poderia sair sem falar comigo, fată? – seus caninos levemente pontiagudos estavam a mostra em um sorriso largo, que não foi retribuído com a mesma intensidade.
- Bom, você não fala comigo tem quase uma semana então...Sim, pensei que poderia sair tranquilamente sem te dar um oi.
- Parece que alguém andou afiando a língua – Adamastor observou em tom de brincadeira. – Estive ocupado essa semana inteira, só tenho trabalhado e dormido praticamente. Sinto muito não ter falado com você antes. Como está sendo o treinamento? Fez alguma amizade já?
- Normal e não – Eleonora respondeu de forma seca.
- Uau, por favor, poupe-me dos detalhes sórdidos – Adamastor debochou de sua resposta curta. – Tem tentado conversar com alguém pelo menos?
- Não.
- Imaginei que isso fosse acontecer, você tem pavor de interações sociais – Adamastor afirmou enquanto se distanciava de Eleonora para recolher os próprios materiais.
- Não tenho pavor de interações sociais! – Eleonora gritou e Adamastor parou do outro lado da sala, segurando um livro no ar e a olhando com a testa franzida.
- Calma, não é sua culpa – ele tentou consertar o que tinha dito – Não é como se o Santuário sempre estivesse cercado de pessoas da sua idade o tempo inteiro, é normal que você não saiba lidar com isso.
- Eu sei lidar com isso, estou lidando muito bem! – Eleonora gritou mais uma vez, mesmo sabendo que não era verdade.
- Claro, está estampado na sua cara – Adamastor finalizou indo em direção à porta. – Quando realmente quiser conversar, sabe onde me encontrar, dê preferência para depois do jantar. É o horário em que estou menos ocupado.

Ele saiu em direção ao corredor enquanto era observado por Eleonora. Ela estava errada em ficar brava por ele ter escondido coisas dela? Será que deveria pergunta-lo sobre o elfo? A cabeça da garota latejava de tantos pensamentos. Suspeitar desse jeito de alguém que ela conhecia a anos não era exatamente o ponto alto daquela sexta-feira. De repente, Adamastor deu meia volta e gritou já de longe:

- Ah, quase me esqueci! Sua mãe pediu para avisá-la que não vai poder almoçar com você hoje!

Ótimo, pensou Eleonora. Aquele definitivamente não era o seu dia.

...


Charlie sentia falta da comida da comida de Hogwarts. Tortinhas de abóbora, pastelão de rins, peixe defumado...Se fechasse os olhos e se concentrasse conseguia sentir o gosto em sua boca. Não que a comida do Santuário fosse ruim, mas se ele tivesse que comer aqueles mesmos charutos de carne todos os dias durante meses, ele não responderia mais por suas ações. Então quando Desmond mencionou sua ideia de visitar a cidade mais tarde, só a possibilidade de encontrar um pub com mais de uma opção no cardápio já foi suficiente para fazer o ruivo topar.

- Podemos procurar alguma loja de doces – Katsuo disse animado. – Posso achar uma livraria também! Só não sei se romenos vendem mangás japoneses em suas livrarias...
- Acho bem improvável – Desmond disse roubando um charuto de carne do prato de Katsuo. – Tenho uma ideia ainda melhor! Que tal chamarmos a sua prometida?
- Não tenho uma prometida – Katsuo disse confuso.
- Estava falando com Charlie – Desmond riu e complementou. – Obviamente.
- Primeiro: ela não é minha prometida – Charlie disse empurrando seu prato para que Desmond comesse o resto de seus charutos. – E segundo: duvido que ela toparia acompanhar a gente sozinha.
- E se nós chamássemos as colegas de quarto dela? – Katsuo sugeriu e recebeu um olhar de aprovação de Desmond.
- Katsuo essa é a coisa mais brilhante que você disse hoje – o garoto de pele azulada o parabenizou – O que me diz, Weasley?

Charlie correu seus olhos pelo salão e encontrou Eleonora recostada aos pés de uma estátua enquanto comia sozinha, ela ria de algo que Apolo tinha dito e sem perceber ele riu também. Ela não parecia tão difícil ali daquele jeito, parecia uma garota comum. Uma garota comum que vinha o ignorando e se negando a receber ajuda. Ele não tinha muita certeza do motivo, mas queria conhece-la melhor. E, é claro, estar a par do que estava acontecendo no castelo.
- Acho uma ótima ideia.

...


Os pés de Eleonora pousavam cuidadosamente na prateleira mais baixa da estante, enquanto sua cabeça se encontrava apoiada em outra. Não era lá uma posição muito confortável e provavelmente sua coluna ficaria doendo depois, mas ela gostava de se abrigar por entre as estantes. Era geralmente mais quieto e mais privado do que ficar nas mesas da biblioteca, claro que vez ou outra ela tinha que desfazer sua posição para deixar algum bruxo passar procurando por algum título, mas mesmo assim, valia a pena.
Rabiscava uma ilustração de Nino em um de seus muitos cadernos de desenho. Do lado do rosto da criatura de olhos enormes e esbugalhados tinham algumas anotações escritas em sua letra cursiva e quase horizontal. Desaparecido? Estava gravado perto do queixo do elfo. Uma seta ligava a pergunta ao nome de Adamastor. Até agora era só isso que ela tinha: frases sem sentido, setas desorganizadas e incertezas. Com a outra mão livre, ela acariciava a cabeça de .

- Então é aqui que você se esconde.

Eleonora ergueu seu olhar para encontrar Adéle a observando.

- Não estou me escondendo.
- Claro que não – Adéle disse se sentando no chão ao seu lado. – Se espremer nesse espaço minúsculo e no lugar menos movimentado da biblioteca por quase o dia inteiro está bem longe de se esconder.
Eleonora sorriu por educação. Quando as pessoas iam parar de questionar as suas escolhas?
- deixou alguma coisa na sua cama de novo? – ela perguntou. Ao ouvir seu nome o gato levantou as orelhas e olhou atentamente em sua direção. O felino parecia estar tentando ganhar a confiança da parisiense com pedaços de galhos e insetos mortos, o que não estava funcionando muito bem.
- Pelo bem dele espero que não – Adéle disse encarando o gato e em seguida voltando a focar em Eleonora. – Na verdade, eu queria te convidar pra fazer uma coisa.
- Ah – Eleonora respondeu surpresa.
- Algumas pessoas vão pra Brasov hoje – a francesa disse enquanto prendia os cabelos loiros em um coque alto – Desmond convidou Carolina, eu e você pra fazer companhia a ele e seus colegas de quarto.
- Hm.
- É, essa foi minha reação também – Adéle disse e dessa vez Eleonora sorriu de verdade. – Mas ele disse que se nós fôssemos ele pagaria uma cerveja amanteigada pra cada uma, também disse que seria a melhor noite das nossas vidas, mas eu só foquei na primeira parte. O que você acha?

Eleonora estava pronta para dar uma desculpa esfarrapada como “Não vai dar, tenho que dar banho no meu pufoso” (ela não tinha um pufoso) ou só negar educadamente, mas algo a impediu. Mais especificamente as palavras de Adamastor de manhã. Ela queria provar que ele estava errado. Inferno, ela queria mostrar pra si mesma que conseguia. Eleonora poderia ser a mestra das interações sociais se quisesse.

- Vou estar lá – ela respondeu e Adéle sorriu. – Mas, se eu ficar muito entediada eu vou embora.
- Somos duas – a ex-estudante de Beauxbatons rebateu e Eleonora riu mais uma vez.

...


Charlie tinha tanta certeza de que Eleonora não viria quanto acreditava que quadribol era o melhor esporte existente. Então, não é preciso dizer como ele ficou surpreso ao vê-la descer as escadas junto a Carolina e Adéle. Desmond trocou um high-five com Katsuo e se limitou a dar um soquinho no ombro de Weasley. Ao chegarem onde eles estavam seguiu-se um longo momento de silêncio, quebrado por Carolina.

“Então, vamos?”

- Claro! – Desmond respondeu após Adéle traduzir. – Só precisamos descobrir como chegar lá...
- Você nos convidou para um lugar, o qual você não sabe como chegar? – Adéle perguntou em tom acusatório.
- Bom...É...Sim? – Desmond respondeu intimidado. O garoto tinha quase um metro e noventa de altura, Adéle era quase uma cabeça menor que ele e mesmo assim conseguia o deixar desconcertado.
- Eu sei chegar lá – Eleonora interviu antes que uma briga se desenrolasse ali.
- Não me diga que é por uma daquelas árvores com túneis esquisitos e escuros – Katsuo disse já tremendo levemente.
- Não, na verdade, a maneira que eu mais gosto é usando uma chave de portal – a garota disse e puxou um objeto diminuto da bolsa de couro que trazia atravessada pelo corpo. Charlie reconheceu na hora a miniatura da característica cabine telefônica vermelha de Londres.
- Que bom que eu consegui um elixir anti-náusea na enfermaria – Adéle disse tomando em seguida um gole de um frasco que trazia consigo.
- Todos prontos? – Eleonora indagou e os outros responderam afirmativamente – Toquem na cabine.

Alguns segundos mais tarde tudo estava girando. Suas vozes se distorciam pelo caminho e a sensação era de que eles estavam dentro de um furacão, mas logo passou. Com um solavanco chegaram ao que parecia ser o interior de uma barraca. Charlie sentiu alguém pressionar seus ombros para se equilibrar e corou ao perceber quem era.

- Desculpa, estava quase caindo – Eleonora disse, soltando-se rapidamente.
- Sem problemas – ele conseguiu balbuciar.
- Vamos – Eleonora disse á todos e saiu por uma fenda no tecido da tenda.

Ao sair encontraram uma grande praça. Um chafariz tomava seu centro e construções coloridas de diversos tamanhos circundavam o local, com destaque para uma grande igreja no estilo medieval. O lugar pareceria ter parado no tempo se não fossem pelos inúmeros trouxas que ali circulavam.

- Essa é a Piața Sfatului – Eleonora anunciou.
- Tem certeza de que é seguro aqui? – Katsuo questionou olhando em volta – Não parece ter outro bruxo aqui além de nós.
- Onde estão os bares? Tem bares aqui, não é? – Desmond indagou.
- Os romenos são bem supersticiosos e muitos acreditam na nossa existência – Eleonora disse baixinho – Há séculos atrás os bruxos que viviam aqui precisaram encontrar uma forma de sobreviver às caças as bruxas constantes deles.
- E como eles fizeram isso? – Adéle perguntou interessada.

Eleonora sorriu e fez sinal para que a seguissem mais uma vez. A garota parou perto do chafariz e puxou sua varinha, não antes de checar se nenhum trouxa estava prestando atenção.

- Revelio – ela disse e imediatamente Charlie sentiu um tremor sob seus pés.

As pedras que formavam o chafariz começaram a se mover, revelando o começo de uma escada que se iniciava dentro da água da fonte. Com certeza havia algum feitiço de disfarce ali, pois os trouxas continuavam andando tranquilamente ao redor deles. Com um salto, entrou na fonte e começou a descer a escadaria. Ao ver que ninguém a estava seguindo, ela deu meia volta e gritou:

- Vocês vêm ou não?
- É pra já, madame – Desmond disse e imitou seu salto.
Sem opção, os outros o seguiram e logo todos estavam descendo em direção a sabe-se lá o que. Charlie tentava tatear no escuro pelas paredes, forçando sua visão para enxergar o máximo possível naquele momento. Pelo que pareceu uma eternidade, eles andaram. O grifinório começara a pensar que aquele túnel talvez não tivesse fim, no entanto velas apareceram e ele conseguia escutar sons abafados de uma melodia enérgica não muito longe dali. A claridade foi aumentando e quando desceram o último degrau, todos ficaram em choque. Ali diante deles se estendia um bairro subterrâneo.

- Meu Merlin, já ouvi falar de aldeias clandestinas de bruxos, mas isso aqui – Desmond disse girando de braços abertos – Isso aqui é surreal!
- Ascunzătoarea – Adéle leu em uma placa – O que quer dizer isso?
- Esconderijo – Eleonora respondeu.
- Os bruxos antigamente não eram muito originais – Adéle disse arrancando risadas do grupo.
- Onde podemos comer? – Charlie perguntou sentindo seu estômago grunhir.
- Conheço o lugar perfeito – revelou demonstrando animação genuína pela primeira vez naquele fim de tarde.

...


A Taberna do Dragão tinha uma decoração no mínimo curiosa. Peles, chifres e tapeçarias se encontravam espalhados pelo ambiente de forma caótica. As mesas eram dispostas tão perto umas das outras que era preciso ter cuidado até para manusear os talheres, se não seus cotovelos poderiam bater nas costas de outra pessoa. Zânăs se moviam de forma ágil por cima de suas cabeças, carregando juntas pratos o dobro de seus tamanhos. Tinha famílias, apostadores, ambulantes e bêbados cantantes. Era barulhenta, visualmente cansativa e de gosto questionável. Eleonora a achava perfeita.
Juntos já tinham dividido duas porções de costelas, vários bolinhos de frango, espetinhos de carne e um número considerável de tortinhas, que faria qualquer dono de restaurante checar os estoques com preocupação. A princípio, Eleonora estava um pouco acuada. A bruxa ficava quieta enquanto ouvia os outros falarem e se perguntava se aquilo já seria considerado como uma interação social só pelo fato dela estar presente ali. Mas, aos poucos ela foi se soltando. Foi acrescentando alguns comentários. Rindo de piadas. E, sem perceber, ela não estava mais pensando naquilo como uma obrigação. As palavras anteriores de Adamastor não ressoavam mais em seus ouvidos. Ela realmente estava se divertindo.

- Não sei se aguento comer mais – Katsuo disse acariciando a barriga inchada.
- Nem me fale, estou torcendo pra que as fadinhas esqueçam aquela outra porção de torta de abóbora que não veio antes – Adéle disse e Carolina balançou a cabeça enfaticamente.
- Mas eu acabei de desabotoar a calça! – Charlie disse com a maior incredulidade e Eleonora rolou os olhos para o alto – Ainda tenho espaço!
- Acho que nosso jantar já terminou – Desmond afirmou – Mas a noite só está começando...

“O que você quer dizer com isso?”

- Eu quero dizer, pequena Carol, que tenho uma ideia fenomenal e que adoraria compartilhar com vocês – Desmond disse em um tom misterioso.
- Parle, mec! – Adéle bateu na mesa fazendo suas canecas de cerveja amanteigada balançarem.

Sugando os dentes com a boca e olhando para cada um deles, Desmond puxou de dentro de seu casaco estampado um saquinho com várias folhas marrons do tamanho de um dedo. Houve uma reação imediata de Adéle, Carolina e Katsuo, mas Charlie e Eleonora se entreolharam confusos.
- O que é isso? – Eleonora e Charlie disseram ao mesmo tempo.
- Estão brincando comigo? – Desmond jogou o saquinho no meio da mesa e espalmou as duas mãos no tampo de madeira. – Vocês nunca fumaram folha de aliquente?
- Eu nunca fumei nada na minha vida – Charlie disse pensativo.
- Já experimentei cigarro, mas nada parecido com isso – Eleonora disse.
- Vocês são bem sortudos de ter me conhecido – Desmond disse tomando o último gole de sua cerveja – Eu faço o melhor aliseado do mundo bruxo.
- Não podemos fumar aqui – Adéle disparou.– Vamos pro nosso quarto! A torre é bem alta e ninguém vai sentir o cheiro!
- Acho que nossa programação está feita! – Desmond disse se levantando – Preparem-se pra experiência mais doida de suas vidas!

...


Ao acordar naquele dia, a última coisa que Charlie pensava que estaria fazendo àquela hora seria estar sentado no quarto de Eleonora em uma espécie de círculo enquanto escutava Desmond palestrar sobre os efeitos da droga que eles estavam prestes a consumir. Por Merlin, ele tinha certeza que em algum lugar da Inglaterra, sua mãe estaria se remexendo por conta do seu sexto sentido maternal.

- Vou resumir tudo então – Desmond disse erguendo os dedos indicadores para cima – Sim, Katsuo, essa folha é legalizada e usada até por muitos adivinhadores. Não, ninguém aqui vai receber uma notificação do Ministério da Magia. Sim, vocês vão ficar eufóricos, risonhos e provavelmente vão falar com animais imaginários, que coincidentemente vão parecer com as suas avós, sobre traumas da adolescência.

“Isso foi extremamente específico”

- Concordo – Charlie murmurou para Carolina.

- Pardon, mas acho que você deixou algo muito óbvio de fora – Adéle disse recostada em sua cama. – Ninguém é obrigado a fumar, se não quiser não force.
- Isso – Desmond disse a contragosto. – Quem está comigo?

Todos levantaram as mãos menos Katsuo.

- Sou alérgico a drogas alucinógenas – o japonês se justificou com um dar de ombros.
- Careta – Desmond disse e recebeu um tapa na cabeça, dado por Adéle – Ai! Quero dizer, que jovem consciente e seguro de suas escolhas. De qualquer forma, vamos começar o show.

Desmond puxou três folhas do saco que carregava consigo. Os outros observavam enquanto o bruxo enrolava as folhas com uma agilidade excepcional. Não demorou muito para que ele obtivesse o resultado desejado. Com um sorriso orgulhoso, o ex-aluno de Uagadou mostrou seu famoso aliseado. Não demorou muito para que o acendessem e começassem a passá-lo de mãos em mãos.
Carol passou o pequeno charuto para Charlie, que hesitou por um tempo antes de tomá-lo entre seus dedos. A fumaça subia em espirais da ponta do aliseado e seu cheiro forte começara a impregnar o quarto. Levou as folhas aos lábios e tentou imitar o que os colegas anteriores a ele tinham feito. Puxou de uma vez só a fumaça e se arrependeu no mesmo segundo. Charlie teve um acesso de tosse e ficou tão vermelho quanto seus cabelos. Carol bateu de leve em suas costas e o alertou:

“Dá próxima vez, tente ir mais devagar”

- Certo – Charlie respondeu com os olhos marejados pela força com que tossiu.
- E então? Quanto tempo até algo interessante acontecer? – Eleonora questionou.
- Uns cinco a quinze minutos – Desmond respondeu.

Uma risada alta irrompeu de Adéle, a primeira de muitas que se seguiriam.

- Ok, talvez menos que isso – Desmond se corrigiu.

Não demorou muito para que todos estivessem rindo e com um sorriso bobo no rosto. Adéle ria histericamente de uma mancha no teto, que ela jurava estar contando piadas hilárias. Desmond gargalhava e se contorcia no chão afirmando que a barba de Katsuo tinha ganhado vida e estava lhe fazendo cócegas. Katsuo, olhava a cena e acariciava sua barba fictícia. Carol sorria enquanto via o cômodo alternar de tamanho. Eleonora dançava conforme uma música inexistente para os outros. Charlie, no entanto, não sentia nada. Ficou um pouco desapontado, esperava estar rindo de coisas ridículas a essa hora, mas tudo que podia fazer era observar os amigos.
De repente, fortes batidas na porta foram ouvidas e todos suprimiram os risos.

- Filha, tudo bem aí? – Adéle sinalizou enfaticamente para que respondesse.
- Sim – Eleonora disse com uma voz abafada por sua mão, que cobria sua boca para que as risadas não escapassem – Estou treinando...piadas. Muito engraçadas!
- Certo... – a mãe de Eleonora disse por trás da porta – Não vá dormir muito tarde, bom ensaio.

Assim que ouviram os passos de se distanciando, as gargalhadas emergiram e não pararam por um longo tempo.

- Essa foi por pouco – Adéle disse.
- Estou morrendo de fome – Desmond disse afastando a barba imaginária de Katsuo.
- Vou pegar comida – disse Eleonora rindo e cambaleando em direção a porta.
Charlie levantou em um pulo e correu em direção a ela, bloqueando a porta com os braços.
- Sem chance de você descer assim – Eleonora o olhava com irritação e os braços cruzados – Eu posso descer, não estou sentindo nada.
- Ele tem razão – Adéle disse ainda rindo – Vem, Eleonora, vamos dançar.
- Tá bom – a garota caminhou para perto de Adéle e agora as duas rodopiavam juntas.
- Eu até iria no seu lugar pra cozinha– Katsuo disse atrás dele. – Mas, você sabe, gripe féerica...
- Tudo bem, fique de olho neles – Charlie advertiu e destrancou a porta.

Charlie fez um trabalho excepcional na cozinha. Conseguiu bolinhos e alguns pães que tinham sobrado do café da manhã, não sem antes recusar um corte de cabelo, uma massagem e uma série de outras ofertas das zânăs. Elas eram bem persistentes, ele reconheceu. Com uma cesta em cada braço ele atravessou o salão principal a passos largos, mas antes de subir a escada ele parou.
Algo estava errado. As cestas escaparam de suas mãos e caíram no chão, espalhando bolinhos para todo lado. Charlie nem percebeu, estava ocupado demais perdendo a noção da realidade. O enorme lustre do salão parecia ainda maior, tinha a sensação de que ele próprio estava aumentando e diminuindo de tamanho. As estátuas pareciam derreter. Esse sentimento durou por tempo demais, até que ele o viu. Nino, o elfo olhava para ele de cima da escada. Ele parecia falar alguma coisa, mas Charlie não conseguia escutar. Então, tudo escureceu e o Weasley desfaleceu no chão.


Capítulo 4

- Você acha que ele desmaiou porque pegou gripe féerica?
- Provavelmente, agora estamos todos infectados, principalmente você que o encontrou primeiro...A propósito isso embaixo do seu nariz é pó de fada, Katsuo?
- Tem pó de fada no meu nariz!?
- Ferme ta bouche, ele está acordando!

Os olhos de Charlie abriram-se devagar e demoraram alguns segundos para se acostumar com a luz. Sentia como se tivesse hibernado por um ano inteiro, seu corpo pesava na cama e sua cabeça pendia para trás. Aos poucos tomou consciência da onde estava e notou cinco cabeças o observando. Seus amigos olhavam para ele preocupados.

- O quê...O quê aconteceu? – disse coçando os olhos.
- Você estava demorando muito para trazer o lanche – disse. – Então, mandamos Katsuo atrás de você.
- Ele te achou caído no chão... – Desmond continuou. – Mas, não conseguia te arrastar escada acima...

“Aí ele começou a demorar e nós descemos para procurá-lo”

- Esqueceu de dizer que descemos completamente chapados e mortos de fome – Adéle adicionou logo depois de Carolina.
- Por um milagre, acho que quando te vimos caído no chão, ficamos sóbrios na hora e te trouxemos pro quarto dos garotos – mexia nervosamente nos cabelos encaracolados – Sorte nossa que ninguém estava passando por ali.

Flashes de lembranças começaram a invadir a mente de Charlie. Cores brilhantes, dragões dançantes, músicas estranhas e que...tinham gosto? A sensação era como se seu cérebro estivesse mergulhado em uma caixa de feijõezinhos de todos os sabores, uma descrição que ele tinha certeza que só fazia sentido naquele momento por que ele ainda estava sobre o efeito da erva. Mas, de uma coisa ele se lembrava bem: uma criatura de olhos saltados que o observava.

- – ele disse alcançando o braço da garota. – Eu vi o elfo.
- Ele tinha dois metros, cinco braços e falava alemão? – Desmond indagou interessado. – Se não, não é mais legal do que o que eu vi.
- Não é uma competição para saber quem viu o elfo mais bizarro – Adéle disse rolando os olhos.

“Tenho certeza de que o Desmond ganharia”

- Obrigado, Carol – o nigeriano agradeceu com um sorriso.

e Charlie estavam completamente alheios à conversa que se desenrolava a sua volta. Os dois se olhavam com curiosidade, tentando decifrar um no outro o que se passava em suas cabeças. O garoto teve que se controlar para não perguntar na frente dos outros colegas o que ela achava que tinha acontecido.

- Acho melhor você descansar – disse se soltando gentilmente do braço do ruivo.

´´Acho melhor todos nós descansarmos``

- Carol tem razão, hoje não temos aula, mas já temos trabalhos pra fazer – Katsuo lembrou.
- Vamos indo, então – Adéle disse se afastando da cama de Charlie. – Mas, antes de ir e não acredito que vou dizer isso...Ontem...
- Foi a melhor noite da sua vida? – Desmond tentou.
- Nem perto disso – Adéle riu com escárnio. – Eu ia dizer que não foi uma completa perda de tempo.
- Vou aceitar como um elogio – o bruxo rebateu sorrindo.
- A gente se fala depois – disse, olhando para Charlie, indo em direção à porta – Vamos?

As outras se despediram e saíram. Charlie mal teve tempo de protestar e quando tentou levantar da cama, foi barrado por Katsuo.

- Onde pensa que vai, Charlie-san?
- Preciso conversar com a – o grifinório respondeu.
- Tá brincando? – Desmond disse de longe, deitado em sua própria cama. Usava uma máscara de dormir chamativa, com estampa de leopardo e sua expressão denunciava sua exaustão.
- Você precisa dormir – Katsuo tentou mais uma vez convencê-lo a recostar na cama.
- Já dormi por sei lá quantas horas, Katsuo – o ruivo não queria ceder – Não estou com sono.
- Eu não sei você, mas eu preciso dormir – Desmond disse puxando as cobertas e abaixando a máscara para cobrir os olhos. – Além do mais, acho uma péssima ideia você ir atrás dela. Se você ficar em cima dela o tempo inteiro, ela vai cansar de você! Praticamente passaram a noite inteira juntos, você precisa dar um tempo para ela sentir saudades de você.

Charlie, que há um minuto atrás estava sentado na cama pronto para levantar, agora repensava seu próximo passo. já tinha se mostrado uma pessoa que valorizava bastante o próprio espaço e já vinha se negando qualquer aproximação com ele, principalmente a sua ajuda. Caso fosse atrás dela, talvez botasse tudo a perder.

- Acho que vou começar o trabalho de História da Dragonologia – disse se levantando, mas para pegar os livros e pergaminhos.
- Bem pensado, acho que tam... – Katsuo começou a falar, mas um bocejo irrompeu de sua boca.
- Acho que é melhor você deitar – Charlie sorriu.
- Hai – concordou indo de encontro a sua própria cama.

Charlie abriu o livro ´´História da Dragonologia – Era medieval``, mas teve que reler o primeiro parágrafo por, pelo menos, umas cinco vezes. Se concentrar ia ser difícil. O que será que teria acontecido com o elfo? O que ele sabia? Chegou até a questionar a si próprio, talvez tivesse imaginado. A única certeza que tinha era que demoraria para terminar seu trabalho.

...


- Aonde você vai? – Adéle perguntou ao ver andar na direção oposta a torre onde seu quarto ficava.
- Vou na cozinha pegar alguma coisa pra comer – mentiu.

´´Vamos com você``

- Não! – disse rapidamente. – Eu...Vou pegar algo pra nós três, não se preocupem.
- Ok, então – Adéle disse e logo em seguida bocejou. – Só não espere que eu esteja acordada até lá.

esperou as colegas de quarto sumirem de vista, pelas escadarias da torre, para fazer o que realmente queria. O salão ainda estava vazio e ela sabia que o movimento não começaria por pelo menos uma hora. Era tempo o suficiente para obter algumas respostas.
Seu avô sempre fora fascinado por estátuas. Não foi uma surpresa, para ninguém que o conhecia minimamente bem, quando ele decidiu substituir a decoração usual de quadros por esculturas animadas e com tanta personalidade quanto seus irmãos de pinceladas. Diferente das pinturas, as estátuas não podiam sair andando por aí, estavam para sempre presas ao seu pedestal.
Harvey Ridgebit era obcecado por duas coisas: criaturas mágicas e mitologia. Assim, contratou um artista que materializou suas duas paixões. Os seres de mármore se distribuíam pelo castelo, dragões em miniatura – que felizmente não eram capazes de produzir fogo –, pelúcios que seguravam baldes de moedas de ouro, bezerros apaixonados, hipogrifos e muito mais. No entanto, só haviam duas estátuas no castelo que eram capazes de falar. Apolo dormia pesadamente encostado no corrimão da escadaria, já Ártemis estava sentada de pernas cruzadas em seu pedestal examinando seu arco.

- Bom dia, querida – seu rosto enrijecido adquiriu um sorriso cálido. – Noite agitada?
- Você não faz ideia – respondeu, sentando-se ao seu lado no pedestal – Preciso te perguntar uma coisa.
- Pois não?
- Ontem à noite...Você viu alguém? – a garota perguntou. – Mais especificamente um elfo?
- Desculpe, – a escultura disse sem graça. – Você sabe que eu tenho um sono pesado, não escuto nada quando durmo.
- Realmente, essa aí dorme feito uma pedra – disse Apolo se espreguiçando. – Mas, eu não.
- Seus trocadilhos nunca parecem ter fim – Ártemis bufou.
- Eles são bem sólidos – o deus do Sol disse dando uma piscadela.
- Esse sequer fez sentido – sua irmã retrucou.
- Enfim – Apolo disse sentando no próprio pedestal -, seu amigo fez um barulho altíssimo ontem quando caiu, acordei assustado e não fui o único.
- Alguma outra estátua se assustou? – levantou e caminhou em direção à ele.
- Não, mas um elfo doméstico passou correndo por mim – disse a estátua ajeitando sua coroa de louros. – Acredito que vocês o chamam de Nino.

inspirou fundo. Então, era verdade. Charlie não tinha alucinado, ele realmente vira Nino. Uma sensação de alívio muito grande tomou conta de seu corpo, Adamastor não o tinha machucado. Mas, ainda havia muito o que descobrir.

- Obrigada – disse.
- Ei, mais tarde pode trazer o xadrez bruxo aqui? – Apolo pediu. – Tem um tempo que não jogamos e você pode contar como foi sua semana.
- Pode deixar – sorriu. – Só não reclame quando eu te destruir no jogo.
- Nós duas sabemos que ele não vai se aguentar – Ártemis disse rindo.
- Veremos – Apolo finalizou, em seguida erguendo sua lira para começar sua sessão matinal de música.
- Vejo vocês mais tarde – disse se afastando.

sabia que não bastava saber por terceiros do paradeiro do elfo, ela precisava ir direto à fonte. Aos sábados, Nino ajudava na estufa do castelo. A grande redoma de vidro abrigava diversas plantas, utilizadas para fazer medicamentos para os dragões e para os dragonologistas do Santuário. nunca entendera muito bem de herbologia, era a matéria que ela menos prestava atenção. Mas, ela gostava da atmosfera do lugar. Além da estufa, a torre sul também contava com um pequeno jardim em seu terraço com direito a uma elaborada fonte de pedra. O sereiano, também de pedra e que permanecia no meio da fonte, estava constantemente irritado e triste, já que não alcançava a água de seu pedestal.
O céu estava nublado quando chegou no terraço. Mesmo assim, de longe ela conseguia ver alguns dragões sobrevoando as montanhas. Forçou a porta de entrada da estufa e notou que ela já estava aberta, seu plano era esperar ali dentro pelo elfo, mas aparentemente ele tinha vindo mais cedo realizar seu trabalho, o que tornava tudo mais fácil.
A estufa era dividida em duas fileiras, com um corredor no meio para que as pessoas circulassem e cuidassem das plantas. No fim deste corredor, um elfo que se equilibrava em uma torre feita de vasos de planta, tentava regar algumas delas.

- Precisam arranjar uma escada pra você – disse, fazendo com que o elfo se assustasse e caísse.

A garota correu para socorrê-lo e o ajudou a levantar.

- Por que a senhorita sempre atrapalha Nino? – ele choramingava.
- Não vamos exagerar, não é? – não tinha muita paciência com Nino, mas sabia que precisava pegar leve senão ele poderia se recusar a conversar com ela. – Não era minha intenção, desculpe.

O elfo grunhiu e voltou a montar sua pilha de vasos.

- Você meio que sumiu essa semana – ela disse e não obteve resposta.
- Ninguém sabia onde você estava – tentou de novo.
- Nino estava doente – ele finalmente respondeu após alguns segundos de silêncio. – Mestre Adamastor cuidou do pobre Nino.
- Ah é? – disse enquanto observava uma planta de folhagem felpuda se sacudir como um cachorro molhado. – Como você ficou doente?
- Nino não sabe – o ser mágico desconversou.

não podia continuar com esse jogo por muito tempo, precisava ir direto ao ponto.

- Você não saberia nada sobre mapas, não é, Nino?
- Nino não sabe nada sobre nada, Sra.Ridgebit – o elfo engoliu em seco.
- Bom, não sei o que fazer com o mapa que encontrei outro dia pelo chão do castelo – disse, chamando a atenção de Nino. – Ele tinha alguns desenhos interessantes, mas acho que vou jogá-lo fora.
- A senhorita deveria jogar fora – o elfo disse surpreendendo .
- Por que diz isso?
- Nino não deveria contar para ninguém – o pequeno ser enrugado disse olhando para os lados, checando se alguém estava escutando. – Mas, como é a senhorita... deveria tomar cuidado com o mapa do subsolo.
- Do subsolo?
- Nino não podia ter contado – o elfo enterrou a cabeça entre as mãos. – Mas, a senhorita parece ter capacidade para resolver tudo...Argh! Nino mau!

Nino podia ser bem leal, mas obviamente não sabia guardar segredo. Um mapa do subsolo? O que teria de tão importante nisso? sabia o que tinha de fazer. Saiu sem se despedir e parte dela se sentia péssima por ter pegado informações com Nino, mas poderia compensar isso depois. Ela precisava encontrar Adamastor. E só havia um lugar possível para ele estar: sua sala.
Descendo rapidamente os degraus da torre sul, procurava estruturar uma possível abordagem. Mas, nada parecia ser adequado para a situação. Não havia um cenário em que ela não parecesse enxerida demais. No entanto, seria invasivo querer saber sobre algo referente ao lugar que ela considerava sua própria casa? Ela descobriria logo.
O horário de dormir de Adamastor não era nada constante. Alguns dias ele trocava o dia pela noite, em outros sequer dormia. Mas, sempre odiava manhãs. Mesmo assim, lá estava ela. Batendo na porta da sua sala, pronta para incomodá-lo. O meio-vampiro não gostaria nada disso.

- Está aberta! – a voz do diretor gritou de dentro da sala.

abriu a porta e encontrou Adamastor pendurado de cabeça para baixo. Qualquer um acharia estranho, mas ela já estava acostuma a suas manias. Ele dizia que pensava melhor de cabeça pra baixo e ela esperava que ele, talvez, também fosse mais compreensivo assim.

- Precisa de ajuda com algum trabalho? – ele perguntou ao vê-la.
- Na verdade, queria conversar com você – a jovem hesitou antes de dizer de uma vez o que queria. – Sobre o mapa do subsolo.

Na mesma hora em que ela mencionou o mapa, o homem se soltou do apoio e pousou no chão.

- Que mapa? – ele disse com um semblante de falsa confusão.
- Você realmente vai se fazer de desentendido? – não esperava essa reação, mas não ia se dar por vencida. – Eu vi tudo, vi você apagando Nino e o acusando de pegar o tal mapa.
- Como sabe que o mapa é do subsolo? – Adamastor indagou, deixando o fingimento para trás.

A garota ficou em silêncio, tinha medo do que poderia acontecer com Nino.

- Quer saber? Isso não importa – ele afirmou em voz alta, visivelmente nervoso. – Qualquer interesse que você tem sobre esse assunto acaba aqui.
- Não! – disse se aproximando dele. – Por que você não me trata como uma adulta?
- Você não é uma adulta – ele disse pausadamente o suficiente para notar que ele estava perto de um surto. – E mesmo que fosse, eu não agiria diferente.
- Você é muito grosso às vezes – a bruxa se sentia derrotada. – O que tem de tão especial nesse mapa que você precisa manter segredo?
- Não tem nada de especial – ele disse e viu uma faísca daquele mesmo terror que tinha identificado em seu olhar na outra noite. – É perigoso!

Ele andou em direção à sua poltrona e afundou a cabeça nas mãos. O bruxo mestiço deixou sair um longo suspiro antes de olhar nos olhos. Um olhar penetrante, do qual ela não conseguia desviar. Seus olhos levemente amarelados denunciavam o tormento de sua cabeça.

- Não machuquei Nino, se é o que você pensou – ele disse em um sussurro. – Precisei interroga-lo.
- Por uma semana?
- As magias da mente não são fáceis, – ele confessou. – Para mim, então, são quase impossíveis.

sabia o que ele queria dizer. Adamastor era um caso raro. Não era só mais um mestiço, era metade vampiro e metade bruxo. No entanto, seus poderes eram limitados. Ele não tinha plenas capacidades bruxas, assim como carecia de muitas habilidades naturais para os vampiros. Era uma aberração para os bruxos e um pária para os vampiros.

- Existem coisas sobre esse castelo, das quais você não sabe – ele continuou. – O mapa em questão expõe uma delas e nas mãos da pessoa errada...Bom, nas mãos de qualquer um, pode ser catastrófico. Seu avô sabia sobre isso e confiou a mim para guardar este mapa. Porém, há pouco mais de uma semana, ele desapareceu. Nino era o único que sabia sobre ele. Ele descobriu por acaso e eu não tinha capacidade suficiente para obliviá-lo, ainda não tenho. Como também não podia pedir para alguém apagar sua memória sem contar o que apagar.

A garota esperava com atenção pela conclusão daquele pensamento. O tom sério dele estava começando a assustá-la.
- Então, pedi que ele guardasse segredo – ele disse, rodando nervosamente os anéis nos dedos. – O que ele fez, por um longo tempo. Mas, ao que tudo indica, alguém foi capaz de persuadi-lo a contar onde eu guardava o objeto.
- Quem? – perguntou.
- Não sei, fată. – Adamastor retrucou. – Fiz uma busca pelos quartos dos novatos, não encontrei nada. Também não achei nada nas casas dos funcionários, cheguei a um beco sem saída.
- Isso é péssimo – a garota disse.
- Sim, é – o vampiro-bruxo suspirou. – Mas, o pior é saber que você tem conhecimento sobre isso.
- Eu posso te ajudar! – disse irritada.
- Eu só vou dizer isso mais uma vez – Adamastor se levantou da cadeira e inclinou seu corpo sobre a mesa. – É perigoso. Um dos últimos desejos de Harvey foi que você e sua mãe nunca soubessem sobre isso. Ele tinha pavor do mapa.

A menção ao nome de seu avô a desarmou. Ele era corajoso, tinha enfrentado inúmeras ameaças. Para ele ter medo de um pedaço de papel, era por que, realmente era algo para se ficar longe.

- Você não pode contar para ninguém – Adamastor disse, mas mal sabia que já era tarde demais. – Por favor, não se envolva nisso. É o que seu avô gostaria.

Adamastor soltou o ar que comprimia seus pulmões. Tensão irradiava dele, conseguia sentir. Quem era ela para ir contra a vontade do avô? Esse, definitivamente, não era o resultado que ela esperava.

- Promete que vai ficar fora disso? – Adamastor segurou suas mãos.

não gostava de desistir. Persistência era uma das suas características mais marcantes. Mas, até ela sabia quando estava prestes a cruzar um limite.

- Prometo.

...


Charlie levou a manhã inteira para escrever três parágrafos e nenhum deles estava muito bom. Ele suspirou e pousou a pena no tinteiro. Não que ele fosse ruim na teoria, ou que não gostasse dela. Ele adorava. Mas, a prática sempre fora o seu forte. Que saudade que ele estava de escapar para a Floresta Proibida e ser arrastado de volta para Hogwarts por Hagrid. Precisava de um descanso.
Ainda usava as roupas do dia anterior, para disfarçar pegou um dos suéteres Weasley que trouxe consigo de casa e vestiu por cima da camisa amarrotada. Saiu na ponta dos pés e encostou a porta devagar, tudo para não acordar os amigos que ainda dormiam. Quando fechou a porta, ela automaticamente foi absorvida pela parede, algo que ele tinha certeza de que nunca ia se acostumar.
O grande salão estava bem movimentado, mesmo sendo fim de semana o trabalho continuava. Os dragonologistas andavam de um lado para o outro carregando desde cordas até enormes pedaços de carne. Vários traziam os braços a mostra, com suas cicatrizes e queimaduras. Charlie só conseguia imaginar as histórias que cada uma delas carregavam.
Sentada no último degrau da escadaria estava . Ela jogava xadrez bruxo com uma das estátuas, enquanto seu gato dormia a seus pés. Seus cabelos cacheados estavam presos no alto da cabeça e ela franzia o cenho olhando para o tabuleiro, provavelmente prevendo sua próxima jogada. Charlie desceu as escadas e sentou dois degraus acima para observar o jogo, ou pelo menos era isso que ele afirmava para si mesmo.

- Ele está bem na minha frente! – a torre branca de reclamava com ela. – Me deixe esmaga-lo!
- É um truque, peça estúpida – a garota murmurou. – Sabia que esse xadrez era velho, mas as peças realmente estão caducas.
- Uau, nunca te vi com tanta raiva em um jogo – a estátua retrucou rindo. – Mas, sim é um truque, assim que você movesse a sua torre eu ia acertá-la com meu bispo.
- Francamente, Apolo – outra estátua disse. – Você realmente achou que ela fosse cair?
- Não custa tentar – Apolo disse e se virando para jogar, notou a presença do bruxo. – Parece que temos platéia.

olhou em sua direção e ao vê-lo se pôs a guardar as peças dentro de um saco.

- Ei, eu estava quase te vencendo! – Apolo protestou.
- Quase não é vencer – a garota disse fazendo a estátua feminina rir. – Amanhã continuamos.
- Vou te cobrar – Apolo disse sentando de volta em seu pedestal.
- Pode me seguir? – disse para ele.
- Claro.

Andaram lado a lado, em um silêncio perturbador, por alguns minutos. Charlie reconheceu o caminho para uma das torres do castelo. As tochas alojadas nas paredes de pedra iluminavam o caminho. Depois de alguns lances de escada, que fizeram Charlie levemente ofegante, chegaram a uma porta com puxadores com formato de duas cabeças de dragão. Os olhos deles observavam os dois e pareciam esperar por algo.

- Galben disse e os olhos dos dragões brilharam em um vermelho vivo, em seguida a porta da sala se abriu.
- Galben? É algum tipo de dragão? Ou um bruxo? – Charlie perguntou.
- Galben quer dizer amarelo em romeno – respondeu. – Era a cor preferida do meu avô.

A sala não era muito espaçosa, mas era bastante aconchegante. Vários pufes e sofás estavam espalhados por ela. Uma lareira de pedra escura estava acesa, mesmo sendo verão, e alguns dragonologistas conversavam perto dela. Alguns livros de ficção também estavam a mostra em uma pequena estante, que abrigava também caixas de jogos.

- Vocês têm uma sala comunal? – Charlie disse surpreso.
- Nós chamamos de área de convivência, mas acho que dá no mesmo – disse se sentando em um sofá, afastado das outras pessoas. – É só para quem trabalha aqui, mas eu sempre tive acesso. De qualquer forma, eu te trouxe aqui por que queria conversar longe dos outros.
- Descobriu alguma coisa?
- Não – ela disse rapidamente. – E não vou descobrir mais nada.
- Como assim? – Charlie estava confuso, não entendia o que ela queria dizer com isso.
- Olha, não foi nada demais, aquilo com o elfo – ela disse meio que atropelando as palavras. – Você pode esquecer tudo isso?
- Não parece que você não descobriu nada – Charlie disse se sentando ao seu lado.
- Eu descobri que é perigoso – disse, frisando a palavra perigoso. – E muito.
- Mas...
- Charlie, por favor, você pode esquecer o que viu? Assim como eu esqueci? – a garota implorou olhando dentro de seus olhos. – Por favor?

O Weasley se assustou com sua postura. Não se importava muito com o fato de ser perigoso, afinal quantas vezes ele já tinha ignorado esse mesmo tipo de aviso? Mas, a forma como tinha se expressado o fez pensar duas vezes antes de insistir. Ela era como ele, já tinha percebido. Era atraída por mistérios. Se ela – alguém bastante teimosa pelo pouco que tinha conhecido – tinha decidido esquecer, talvez ele também conseguisse.

- Posso, mas...
- Mas...? – ela perguntou.
- Isso quer dizer que você estava me incluindo na investigação em primeiro lugar? – ele disse com um sorriso.
- Você é impossível – ela disse revirando os olhos, mas sem conseguir conter um sorriso.
- Deveria me ver jogando xadrez bruxo, eu não desisto nunca – ele retrucou.
- Nem eu – ela disse e como se a ideia lhe ocorresse imediatamente, continuou. – Quer jogar?
- Vai ser um prazer – Charlie sorriu.


Capítulo 5

Antes do treinamento, tinha cem por cento de certeza de que estava apta para começar a trabalhar imediatamente. Na maior parte do tempo, a garota se considerava uma pessoa bastante inteligente. Mas, o período de teste do Santuário tinha uma maneira diferente de provar o contrário. Com plena consciência da própria arrogância, percebeu que estava errada. Agora, ouvindo Charlie repetir pela milésima vez a função dos sacos aéreos do sistema respiratório dos dragões, ela só conseguia pensar em como falharia na prova oral do dia seguinte.

- Chega, Charlie. – A bruxa disse fechando o livro grosso de anatomia que repousava no colo do amigo. – Vou decorar o parágrafo do livro e é isso.
- Ah, para! – O ruivo abriu o livro novamente com um balançar de sua varinha. – Primeiro que decorar não é entender e segundo que essa matéria é fascinante!
- Estudar dragões de perto é fascinante, já isso aqui... – disse segurando o livro teórico ao lado da cabeça.
- Tudo que você precisa saber é que o sistema pulmonar subcutâneo de sacos aéreos ajuda na oxigenação de músculos, dá suporte para as asas e faz com que os dragões fiquem leves o suficiente pra voar.
- Com certeza vou lembrar disso tudo até amanhã – a garota disse ironicamente.
- Não foi você que leu quase todos os livros da biblioteca? – Charlie provocou, ela tinha contado para ele como enfrentara Adamastor sobre participar do período de treinamento.
- Ok, talvez eu tenha exagerado um pouquinho. – admitiu constrangida. – Eu li todos os livros de história, meio que deixei anatomia de lado...O que é péssimo por que agora eu sou obrigada a encher seu saco pra aprender.
- Você não enche o meu saco, eu gosto de te explicar. – Ele disse enquanto mexia em seus resumos de pergaminho.
- Eu gosto de te ouvir explicando. – respondeu distraída e não notou que Charlie sorriu discretamente ao escutá-la.

A aula de História da Dragonologia tinha sido cancelada naquela manhã, algum incidente tinha acontecido, deixando a matéria sem um professor disponível no dia. Os estudantes se dividiram entre aqueles que tinham decidido voltar aos seus quartos para dormir mais um pouco e os que estudavam freneticamente para o teste do dia seguinte. e Charlie se encaixavam mais na segunda metade.
O calor do sol de verão prevalecia sobre a brisa das montanhas, no alto da torre da estufa. Sentada na borda de uma fonte, observou as reverberações da água em contato com seus dedos. O reflexo dela tremeluzia e a encarava de volta com uma expressão séria. Tinham se passado mais de duas semanas desde que ela tinha decidido ceder aos pedidos de Adamastor para deixar de lado sua busca pelo que o castelo escondia. As aulas, os livros e os amigos eram ótimas distrações, mas mesmo assim ainda existiam momentos como esse. Momentos em que ela se pegava pensando se estava realmente fazendo a coisa certa.
Deixou seu reflexo em paz e voltou seu olhar para Charlie. Sua cabeça estava encostada em uma das mãos, enquanto a outra folheava um exemplar de Escamas, asas e garras. já tinha percebido que quando ele se concentrava, duas linhas fundas surgiam no meio de suas sobrancelhas e ele, inconscientemente, murmurava as palavras que lia. Ela sorriu, não admitiria tão cedo em voz alta, mas gostava bastante da companhia dele. Era fácil conversar com Charlie. Além do mais, eles compartilhavam um segredo e esse é um elo difícil de quebrar.
foi pega de surpresa pelo ruivo, que tirou os olhos dos livros e percebeu que ela o encarava. Mas não foi isso exatamente que chamou sua atenção.

- Olha só – ele disse baixinho apontando para a perna da menina.

Um pontinho multicolorido se movimentava devagar pela coxa de . Seu primeiro instinto foi levantar a mão para dar um tapa no inseto, mas Charlie a impediu. Segurou sua mão com delicadeza.

- É uma joaninha arco-íris, é inofensiva – ele colheu o ser diminuto com cuidado e sentiu a coxa formigar com seu toque. – Elas são usadas para fazer corantes mágicos que mudam de cor.

A joaninha subiu em seus dedos e ele ergueu a própria mão, sem soltar a mão dela.

- Olha as asas. – Ele sussurrou e como se pudesse ouvi-lo a joaninha brilhou de um azul cintilante a um verde vivo.
- É lindo – sussurrou de volta e observou o pequeno inseto trocar de cor novamente, agora para um rosa degradê.
- É muito bonita mesmo. – Charlie disse, olhando para ela.

tentou pegar a joaninha. Chegou a sentir as patinhas dela contra sua pele, mas não durou muito. O inseto voou contra o vento. No entanto, suas mãos continuavam entrelaçadas. O ruivo abriu a boca, como se fosse dizer algo, mas hesitou. separou suas mãos e recobrou a compostura no mesmo instante. Vez ou outra, eles caiam nessas situações estranhas.

- Então... – Charlie começou. – Você pretende estudar à tarde toda hoje?
- Só até eu precisar lançar um feitiço em meus olhos pra que eles não fechem com o cansaço.
- Ok, parece que você quer ir até de manhã. – Charlie comentou com tom desaprovador.
- E eu tenho escolha? – A bruxa perguntou retoricamente.

Se não estudasse o máximo que pudesse ficaria para trás, a pressão de provar para si mesma que merecia estar ali aliada a necessidade de ser bem vista pelos professores a cansavam. Mas, ela não desistiria. Queria ser como seu avô, ele sabia de cor todos os nomes dos ossos de um dragão, podia identificar várias espécies diferentes e sempre tinha uma história de aventura para contar. Sentia saudades dele.

- ?
- Sim? – Não tinha percebido que Charlie estava falando com ela.
- Você vai ou não?
- Aonde?
- Assistir à partida de quadribol na cidade, ouvi dizer que o time do Santuário vai jogar. – Charlie repetiu e o rosto de se contraiu involuntariamente. – O que foi?
- Nosso time é horrível, dói assistir.
- Jura? – Charlie perguntou, sua animação murchando com a resposta da garota. – Ia te chamar pra ver, ouvi dizer que no final dos jogos tem uma apresentação com jogo de luzes e tal.
- Sim, tem um ou dois fogos pra comemorar o começo da temporada. – disse ainda distraída. – É bonito mesmo, mas nada imperdível.
- Bom, se mudar de ideia... – Charlie começou a frase e deixou que ela se perdesse no ar.

abriu a boca para começar a ler em voz alta o parágrafo que pretendia decorar, mas um grito raivoso desviou sua atenção. Carol e Adéle se aproximavam deles, a brasileira gesticulava de forma brusca e ninguém precisava ser fluente em língua de sinais francesa para entender que ela estava irritada.

- Eu sei, eu sei. – Adéle repetia sem parar.
- Aconteceu alguma coisa? – Charlie perguntou quando elas se sentaram perto deles.
- O imbecil do Leander insiste em chamar Carol de ‘’mudinha’’. – Adéle disse.

A carioca murmurou um ‘’estúpido” e inspirou devagar, numa tentativa de se acalmar.

- Vou reclamar com Adamastor. – disse para Carol. – Leander não pode ficar pegando no seu pé desse jeito.

Carolina balançou a cabeça em negação e sinalizou ‘’sozinha‘’.
sorriu, concordou e de forma desajeitada tentou reproduzir os sinais de ‘’boa sorte’’ no alfabeto de LIBRAS, que Carol vinha ensinando para ela e Adéle nos últimos dias. Carolina riu e a mostrou o sinal correspondente, muito mais rápido do que soletrar. sempre soube da existência de pessoas surdas, mas a amiga brasileira era a primeira que ela conhecia no mundo bruxo. Carol era filha de um diplomata francês e uma cantora brasileira, os dois ouvintes e trouxas. estava fazendo o máximo para aprender sobre a cultura e as particularidades da condição da amiga. Ao contrário do que Leander acreditava, ela não era muda.

- Vocês viram que vão servir papanași no almoço? – Adéle perguntou encerrando o assunto.
- Papanasi?! – Os olhos de Charlie brilharam ao repetir, os doces romenos realmente o tinham conquistado. – Mas, pensei que hoje fosse dia de...
- Eles mudaram o menu. – Adéle disse e logo completou. – É uma pena que eles acabem tão rápido, désolé...

Charlie hesitou, olhou para o relógio que trazia em seu pulso e depois para .

- Eu assumo daqui, obrigada pela ajuda. – agradeceu, mas Charlie não pareceu muito convencido.
- Tem certeza?
- Vou sobreviver, Weasley. – A garota revirou os olhos, mas deixou escapar um sorriso.
- Se precisar de ajuda ou mudar de ideia sobre...
- Pode ter certeza que eu vou correndo atrás de você. – disse.

O ruivo riu e balançou a cabeça. Quando sorria, seus olhos se tornavam duas linhas finas e uma covinha aparecia em sua bochecha esquerda. E ele nunca parava de sorrir. Pegou seus livros, despediu-se e assim que sua silhueta desapareceu pela escada, Adéle e Carolina entraram em ação.

- Se...precisar... de ajuda... – Carol disse com seu sotaque, segurando o braço da francesa.
- Pode ter certeza que eu vou correndo atrás de você, Charlie! – Adéle imitou uma versão de com a voz fina e afetada.
- Vocês duas são hilárias – ironizou.

‘’Nós sabemos’’ Carol sinalizou.

- Por quanto tempo vocês pretendem fazer isso? – inclinou a cabeça para trás irritada.
- Até vocês se assumirem. – Adéle piscou para a amiga.
- Pelo amor de Morgana, assumir o quê? – perguntou, mas ela já sabia a resposta que Adéle daria.
- Adoro quando você faz a desentendida, Ridgebit – a parisiense sorriu maliciosamente.

Não era segredo para ninguém que os dois estavam passando muito tempo juntos, mas como amigos. No entanto, Adéle e Carol insistiam em apontar um outro ângulo da história. Elas tinham certeza absoluta de que Charlie gostava dela, talvez um pouco mais além do âmbito da amizade. sabia que as duas eram bem mais experientes que ela no assunto, mas não conseguia concordar com a interpretação delas. Ela mal estava acostumada a ter amigos, quem dirá se envolver com alguém.

- Alguma de vocês vai ao jogo hoje? – tentou mudar o assunto.
- Não, não é? – Adéle disse confusa. – Esqueceu que nós vamos assistir ‘’De volta para o futuro II’’?
- Ah sim, o filme do carro vira-tempo. – relembrou a descrição animada de Carol sobre o filme trouxa.

‘’A menos que você tenha algo melhor pra fazer...’’ Carol insinuou.

- Como ir a um encontro com um certo alguém... – Adéle completou, as duas esperando ansiosamente por uma reação de .
- Não é um encontro! – negou – Sim, Charlie me convidou pra ir ao jogo com ele, mas tenho que estudar e esqueci que a gente ia ver o filme ho...

‘’Ele te chamou pra sair?!’’

- As desculpas, – Adéle rolou os olhos para o alto.

‘’O filme vai ficar em cartaz por um bom tempo ainda e você vai precisar descansar em algum momento’’ Carol ponderou.

- Não é tão simples assim – rebateu. – Aliás, eu combinei de sair com vocês primeiro.
- A gente não liga, – Adéle disse brincando com o medalhão que trazia no pescoço. – Nós não somos ciumentas.
- Ah, não? – apoiou a cabeça nas mãos, com um olhar de divertimento nos olhos. – Então por que mentiram para Charlie sobre o papanasi? Moro aqui há anos e o cardápio nunca mudou.

Carol e Adéle se entreolharam culpadas, porém não conseguindo segurar o riso.
‘’Podemos explicar’’

- Sim, mas na verdade é melhor mostrar...- Adéle disse misteriosamente, enquanto puxava um pote cuidadosamente embalado de sua bolsa. Quando puxou a tampa, o cheiro de geleia invadiu o ar. Três papanasis cobertos de creme e separados por pequenas divisórias exalavam uma leve fumaça, pareciam ter acabado de sair do forno.
- Passamos na cidade agora pouco e compramos essas belezinhas aqui – Adéle puxou uma rodela da caixa e deu uma mordida satisfeita.

Carol fez o mesmo, em seguida segurou a caixa perto de para que ela pegasse o último.

- Vocês enganaram Charlie para não ter que dividir os doces? – não conseguia parar de rir.

‘’Claro’’

- Ninguém aqui divide comida, mon coeur – a parisiense disse e terminou seu doce na segunda mordida.

pegou seu papanasi e riu mais uma vez antes de se deliciar com o doce romeno.

- Você devia ir ao jogo hoje – Adéle disse lambendo os restos de geléia dos dedos.

‘’Também acho’’ Carol concordou.

- Não quero dar a ideia errada saindo com ele – disse enquanto limpava o canto da boca sujo de creme.
- Aha! – Carol gritou.
- Então, você acha que é um encontro! – Adéle apontou um dedo acusatório para a amiga.
- Eu não disse isso! Não é um encontro! – afastou o dedo da parisiense com a mão.

‘’Do que você tem tanto medo?’’ Carol perguntou.
Não sei. Essa foi a primeira coisa que pensou em responder, mas não passava de uma mentira. Estava bem claro na cabeça dela tudo o que a amedrontava. Não saber como se vestir, o que falar, como agir... Além dela mesma não ser muito boa em ler as pessoas. Dezoito anos enclausurada em um castelo, onde seus melhores amigos eram duas estátuas e seu gato, tinham seus efeitos nas pessoas.

- Eu agradeço os doces e a preocupação de vocês com a minha vida amorosa inexistente – admitiu. – Mas, assunto encerrado.
- Você quem manda, majesté! – Adéle levantou as mãos para o alto em rendição.
- Agora, vocês ainda me devem a explicação da parte dois do filme do carro enfeitiçado.

‘’Não é um carro enfeitiçado’’ Carol começou a explicar pela milésima vez ‘’É uma maravilha da ciência, criada por...’’

- E lá vamos nós... – Adéle implicou e Carol deu um soquinho em seu ombro.

riu enquanto Adéle tentava se proteger colocando sua bolsa entre ela e a brasileira. Ridgebit não conseguia mais imaginar passar por essa experiência sem as duas patetas que via na sua frente. Ter uma equipe não era tão ruim assim, pensou.

...


Adéle tinha se enganado. Não tinha nenhum sinal de papanasis no salão. Charlie suspirou decepcionado, talvez pudesse comprar alguns na cidade para comer enquanto assistia ao jogo. Sozinho. Abriu a porta de seu quarto e se jogou na cama. Patético, isso que ele era.

- Dia difícil, campeão? – Desmond perguntou do outro lado do quarto.
- Pfffssmo
- Pode repetir?
- Eu disse péssimo – Charlie levantou a cabeça do travesseiro, dessa vez sua voz saiu alta e clara.
- Convidou a menina pro jogo? – Desmond indagou.
- Eu tentei, mas acho que fui rejeitado – Charlie disse se virando na cama para encarar o colega de quarto.

Desmond usava um roupão de um verde chamativo, que refletia a luz do lustre pendurado no teto. Nos pés, tinha um par de pantufas de oncinhas, enfeitiçadas para rugir toda vez que ele dava um passo. Cordões de ouro estavam pendurados em seu pescoço e as pulseiras que ele usava faziam barulho conforme ele balançava os braços. Seu estilo era inegavelmente único.

- E daí? Ser rejeitado faz parte do complicado jogo da conquista. – Desmond sentou na ponta de sua cama. – Acha que eu me tornei o rei delas em Uagadou sendo aceito por todas as garotas?
- Sim...?
- Ok, esquece. – Os braceletes tilintaram nos seus pulsos – Tenho uma coisa que pode te animar.

O garoto correu até seu baú e puxou uma pequena caixinha de dentro dele. Charlie sentou-se e apoiou a cabeça na cabeceira da cama. O ex-estudante de Uagadou posicionou o objeto entre eles, ao retirar sua tampa uma infinidade de estrelas e planetas invadiram o quarto. Charlie nunca tinha visto algo assim antes sem um telescópio.

- Está vendo como aquele planeta está intercalado a noventa graus da constelação principal do siste...
- Des, não sou muito bom em astronomia – Weasley interrompeu a animação do amigo.
- Certo – Desmond assentiu, repensou sua explicação e tornou a falar – A conjuntura dos céus de hoje pode favorecer o seu encontro.
- Como assim?
- Hoje é o dia perfeito pra você usar encantamentos de beleza, não está vendo?
- Essa é a sua ideia? – Charlie perguntou incerto. – Encantamentos de beleza?

Desmond fechou a caixa e a pequena galáxia foi sugada para dentro dela mais uma vez.

- Cada um com seus métodos, então – o garoto disse levemente ofendido.
- Não estou julgando! – Charlie tratou logo de se explicar. – É que acho que tratamentos de beleza não vão me fazer ganhar tantos pontos assim, entende? Beleza não é tudo.

Desmond riu alto ao ouvi-lo.

- Você é tão engraçado – disse limpando uma lágrima dos olhos.

Charlie puxou as cobertas sobre a cabeça e ficou encarando o teto acolchoado que formou sobre sua testa. Ele gostava de e queria passar mais tempo com ela. Não tinha problema se ela não quisesse nada com ele, eles ainda seriam amigos...Não seriam?
Enfiou a mão dentro do travesseiro e puxou um pequeno bolo de papéis. Em pouco mais de um mês, já tinha recebido várias cartas de sua família e de amigos curiosos com o Santuário. Separou as cartas que recebera no começo da semana, as quais não tinha tido tempo de ler ainda. Uma carta de Olívio Wood, um envelope suspeito dos gêmeos, uma cartela de cupons de desconto do Beco Diagonal, três cartas de sua mãe, um outro envelope mandado por Hagrid e uma...Carta de Gui!
Rasgou o envelope com os dentes e puxou a carta de dentro dele. Segurando a varinha com a boca, murmurou um ‘’Lumos‘’ para conseguir enxergar o pergaminho. Tinha esperado um bom tempo por uma carta de Gui, estava até um pouco magoado inclusive. A letra de forma de seu irmão era irreconhecível para muitos, apesar dos esforços da Sra.Weasley em sua alfabetização, os garranchos predominaram.

Ilustríssimo irmão,
Me desculpe pela demora para te responder, sei que prometi que trocaríamos muitas cartas e o tempo inteiro... Mas as coisas estão um pouco difíceis. Como sou relativamente novo aqui ainda, me colocam nos piores trabalhos, os que ninguém quer pegar. Até agora consegui cumprir todos, mas estou tentando fazer com que percebam que eu posso fazer mais.
Li todas as suas quinze cartas (Quinze cartas? Jura? Devo começar a te chamar de Molly Weasley?). As primeiras pareciam um tanto desesperadas e até meio arrogantes, preciso dizer. ‘’Todos aqui sabem muito de dragões, até mais que eu’’ Oh! Merlin permita que os bruxos selecionados para atuarem no Santuário de Dragões sejam...especialistas em dragões? Não se preocupe, tenho certeza que em Hogwarts você ainda é conhecido como o sabichão de dragonologia. Agora falando sério, não se diminua. Você nasceu pra isso, conhecimento qualquer um pode ter, agora talento? Isso é pra poucos.
Fiquei feliz em saber que você está se dando bem com as pessoas. E como assim você experimentou uma droga?! Sem mim?! E quem diria, você praticando luta. Será que vou conseguir te reconhecer na próxima vez que te ver? Mais uma vez peço desculpas pelo atraso na resposta, prometo te enviar o dobro de cartas assim que puder parar em um país só. Pode ter certeza que eu ainda tenho muito o que falar.

Juízo,
Gui.


Charlie não conseguiu tirar o sorriso do rosto, não podia ter pedido por um irmão melhor que Gui. Uma única carta não mataria sua saudade dele, mas era o suficiente por enquanto. Ele sempre sabia o que dizer.
- Nox – Charlie sussurrou e a ponta luminosa de sua varinha se apagou.

...


não gostava do subsolo do castelo. Quando ela era criança, sua mãe e outros funcionários do Santuário contavam histórias sobre como várias pessoas já tinham se perdido por entre o labirinto de túneis, corredores e passagens que corriam por baixo da terra. Os efeitos dessas histórias perduravam até os dias atuais, ela mal botava os pés naquele lugar. Mas, às vezes era necessário. Sua mãe passava mais tempo lá embaixo do que qualquer outra pessoa, se não descesse até sua sala poderia passar dias sem vê-la.
Era estranho caminhar por ali, agora sabendo que o labirinto presumivelmente tinha uma saída ou um mapa. Os dragonologistas andavam de um lado para o outro, mesmo com os equipamentos de proteção cobrindo seus rostos, ela conseguia identificar aqueles que a viram crescer. Mesmo na correria, alguns paravam para cumprimenta-la e perguntar sobre o treinamento. Ela dava a resposta padrão ‘’sim, ótimo, obrigada por perguntar’’ e seguia em direção à sala de sua mãe.
O gabinete ficava em um recuo, no topo de uma escada caracol. estava na metade da escada quando alguém gritou seu nome.

- Bom dia, querida! – uma voz anasalada disse.

Erasmina Lovelock era uma bruxa velha. Muito velha, como uma tartaruga centenária. Tinha sido o braço direito do avô de por anos e agora ajudava a organizar seu tempo, ou pelo menos tentava. Ela vivia esquecendo onde deixava as coisas e volta e meia era pega tirando um cochilo em sua mesa. Era difícil imaginar que a idosa que reclamava de dores nas costas, usava bengala e perdia, constantemente, seus óculos no próprio rosto poderia ter sido também uma das primeiras mulheres especialista em dragões no mundo. Ainda assim, era uma péssima secretária.

- Sua mãe não fica mais aqui – Erasmina comunicou enquanto apontava um dedo ossudo para a porta do escritório.
- Desde quando? – perguntou confusa.
- Oh, desde...semana passada? – a senhora colocou um dedo no queixo pensativa, tentando se lembrar da data exata – Ela mudou para a antiga sala de Harvey.

levantou as sobrancelhas em uma expressão surpresa. Após a morte de seu avô, a sala tinha sido trancada por ordem de sua mãe. Há anos ninguém entrava lá. Muito menos Ridgebit.

- Obrigada por avisar, Erasmina.
- De nada, meu bem! – A senhora disse e foi seguindo seu caminho a passos lentos.

Era provável que quando estivesse voltando da sala, que encontrasse a mulher ainda na metade do caminho de seu destino de tão lenta que era. Sorriu para a velhinha e cortou caminho por um corredor iluminado por pequenas lamparinas de fogo azulado, mais conhecido como fogo fátuo. Ficou orgulhosa ao perceber que ainda se lembrava da direção para a sala de seu avô. Podia contar nos dedos a quantidade de vezes em que tinha visitado o avô ali, sempre acompanhada de sua mãe para não se perder.
Os olhos de uma estátua negra de coruja, um dos símbolos da deusa Atena, a acompanhavam de cima do portal. Ao empurrar a porta, um rangido incômodo invadiu seus ouvidos e se propagou como um eco pela extensão dos corredores. Fechou a porta com cuidado para não bater e deu uma olhada em volta. Seu nariz imediatamente começou a coçar com tanta poeira acumulada pelo ar. Teias de aranha envolviam os cantos do teto e uma camada grossa de pó pairava acima da lareira, nas estantes de livros e na escrivaninha.
Sua mãe estava sentada de pernas cruzadas no chão, rodeada por vários papéis e caixas. Ela estava tão absorta no que estava fazendo que mal notou quando ajoelhou-se ao seu lado.

- Esse lugar precisa de uma boa limpeza – a garota disse.
- Eu sei – murmurou – Acho que tem vinte gerações de aranhas vivendo aqui.

pegou um bolo de fotos do chão. A maioria eram de seu avô já bem idoso, sorrindo em todas as fotos, com a grande barba grisalha contrastando com sua careca reluzente. Ele costumava brincar que estava deixando a barba crescer para fazer uma peruca e a mini versão de acreditava piamente.

- Por que agora? – a menina disse tocando o ombro da mãe.
- Já estava na hora, não acha? – devolveu a pergunta, um sorriso triste se formando em seus lábios.

acompanhou o olhar da mãe. Ela segurava uma fotografia levemente amassada, dois jovens sorriam e alternavam seu olhar entre a câmera e si mesmos. Eles usavam os uniformes característicos de Hogwarts, pareciam ser um pouco mais novos que . Um deles era baixinho e atarracado, tinha os olhos pequenos e amendoados, uma mancha de cor vinho cobria parte de sua testa. O outro era bem alto, com cabelos castanhos volumosos e dentes tortos.

- Quem são esses? – perguntou para .
- Esse aqui é seu avô – ela apontou para o menino de sorriso torto e cabelos cheios – O outro eu não tenho certeza, atrás da foto só tem escrito a data.
- Estranho ver ele tão novinho.
- Estranho saber que ele um dia teve cabelo – disse e as duas riram.

De repente, uma lágrima escorreu pela bochecha da mulher. Retirou os óculos e tratou logo de limpá-la com o dorso da mão. Não rápido o suficiente para passar despercebida por . Ela passou um braço pelas costas da mãe, a reconfortando em um meio abraço. A loira respirou fundo e recolocou os óculos na ponta do nariz.

- Passam os anos e a saudade é a mesma – afirmou – Espero que aonde ele estiver...que esteja orgulhoso de mim e de Adamastor.
- Impossível não estar, mãe. – deitou a cabeça no ombro dela.

Ficaram um tempo assim, até que sua mãe mudou de assunto. Ela era assim, nunca deixava de mostrar sua vulnerabilidade, mas em uma fração de segundos se reerguia.

- Vai ao jogo hoje, não é? Andei treinando algumas novas táticas com o time, acho que agora pegamos o jeito.

Sim, Ridgebit era a capitã interina do time de quadribol do Santuário. O antigo treinador tinha se aposentado precocemente depois de um incidente no qual se acidentou quando chegou muito perto dos ovos de uma dragão fêmea. Ninguém queria ocupar sua vaga, sem escolha a cientista decidiu intervir. O time era um legado de Harvey Ridgebit, fanático por quadribol e apaixonado por esportes. Dissolver o grupo não era uma opção.

- Não tenho certeza ainda, vou sair com as meninas um pouco antes e devo passar qualquer segundo livre estudando pra prova de amanhã.
- Sei que você acha nosso time muito ruim, mas te ver na arquibancada seria muito bom – disse fazendo biquinho – Pode até levar suas amigas ou aquele menino ruivo bonitinho que não desgruda de você...
- Mãe...
- O quê? – disse com as mãos na cintura. – Pensou que eu não ia reparar em um marmanjo cercando minha filha? Por Merlin, eu esperei tanto tempo pra poder falar isso!
- Ok, chega, estou com vergonha alheia de você – disse envergonhada – Não vou assistir ao jogo e não tem ninguém me cercando.
- Ele te chamou pra ir pro jogo? – cutucou o braço da filha várias vezes, esperando que ela respondesse – Hein? Hein? Convidou?
- Você é pior que a Adéle e a Carol juntas – se esquivou de mais um cutucão.
- Sabe, você nunca me pediu antes, mas posso te dar conselhos – revelou.
- Estou bem, obrigada – deu um sorriso amarelo. – Não vou sair com ninguém e não tenho interesse em ninguém.

devolveu as fotos ao chão e segurou uma das mãos da filha.

- Mesmo? – olhou fundo nos olhos dela.
- Sim, mãe, porquê? – indagou impaciente, esse assunto estava começando a irritá-la.
- Bom, você tem tendência a rejeitar ideias sem ao menos tentar bota-las em prática – disse enquanto a filha escutava atentamente. – Se nunca tentar como vai saber, certo?

A garota desviou o olhar de sua mãe e respirou pesadamente. Ser questionada ou pressionada a fazer algo não estavam entre os passatempos preferidos dela. Felizmente, ela não precisou responder a esse questionamento. Erasmina bateu na porta e entrou empurrando um carrinho.

- , aqui estão os bolinhos que você pediu – ela disse orgulhosa.
- Oh, obrigada, Erasmina – agradeceu.
- De nada, querida – a secretária sorriu e saiu em seus passinhos diminutos.

Assim que a Sra.Lockbrock fechou a porta, uma gargalhada irrompeu de . A confusão estampou o rosto de .

- É o terceiro prato que ela me traz hoje – ela explicou e as duas riram juntas.
- Não vamos desperdiçar, não é? – disse se levantando.

As duas sentaram na escrivaninha e comeram os bolinhos recheados de chocolate. agora falava animadamente sobre um novo teste de um traje de resistência que estavam desenvolvendo. No entanto, não prestava atenção. Enquanto comia seu bolinho, ela repassava a questão de sua mãe. Será que mais uma vez ela não estava conseguindo enxergar uma oportunidade bem diante de seus olhos? Chacoalhou sua cabeça, tentando se livrar do pensamento e voltou a ouvir sua mãe. Pensar em trajes à prova de fogo davam menos dores de cabeça.

...


O estádio de Ascunzătoarea era...curioso? Charlie esperava ver um extenso campo verde, com arquibancadas decoradas e vários torcedores animados, pintados com as cores de seus times. No entanto, ele encontrou um terreno de terra batida e arcos enferrujados. Pelo menos o lugar estava bem cheio, bruxos e bruxas de todas as idades preenchiam os largos bancos de concreto de altura considerável. O ruivo já tinha comprado seu ingresso e esperava sua vez na fila de um carrinho de doces.
O dia tinha corrido bem rápido. Charlie estudou de tarde os conteúdos da única aula que tinham tido no dia e passara um bom tempo praticando movimentos de luta com Desmond, que também precisava melhorar nessa aula. O Weasley riu sozinho só de lembrar das reclamações do amigo “Não entendo a necessidade de aprender a lutar! Já viu alguém meter uma gravata em um dragão?’’. Depois ainda arranjou um tempo para responder todas as cartas que tinha recebido, além de jogar várias partidas de snap explosivo com Katsuo.

- Următor! – o vendedor chamou pelo próximo.
- Oi! Uma nuvem de algodão doce, um sapo de chocolate e um covrigi – o garoto apontou para os itens que queria.
- Parra já! – o homem bigodudo por trás do carrinho disse com seu forte sotaque romeno.
- Na verdade, são dois covrigi, por favor – uma voz familiar disse atrás dele.

Charlie se virou e encontrou . Ela sorria um pouco envergonhada e tinha as duas mãos enfiadas nos bolsos do moletom azul marinho. Ele riu de nervoso ao vê-la, seus planos tinham mudado um pouco desde a última vez que tinham se falado.

- ? O que você está fazendo aqui? Achei que fosse estudar até de madrugada.
- Fui assistir um filme com as garotas e relaxei bastante, não estou mais tão preocupada assim com amanhã, então...Decidi vir – ela respondeu olhando para o chão.
- Nossa, que bom – Charlie respondeu com o rosto contraído.
- Você não parece estar achando tão bom assim – a bruxa disse, agora examinava sua expressão com o cenho franzido.
- É que eu...Bom...
- Covrigi e algodon! – o ambulante disse, entregando a comida de rua para Charlie, que agradeceu rapidamente.
- Você quer que eu vá embora? – perguntou abruptamente.
- Não! – Charlie gritou e sua voz falhou por um instante. – É que eu chamei outras pessoas.
- Ah.

E como se tivessem sido conjurados, Desmond e Katsuo apareceram correndo ao lado deles. Os dois usavam mãos de espuma em formato de patas de dragão e camisetas combinando, com setas que apontavam um para o outro e que diziam ‘’Esse cara é fã dos Dragões’’ e ‘’Esse cara também é fã dos Dragões’’. A camisa de tamanho único praticamente engolia o japonês e ficara bem curta em Desmond, era uma visão bem engraçada.

- Weasley, olha só essas camisetas customizadas que a gente fez! – Katsuo disse animado.
- Criativo – disse sarcasticamente.
- Eu sei, não é?! – Desmond disse e em seguida arregalou os olhos ao perceber a garota. – ! Que honra ter sua presença aqui!
- Eu só vim dar um oi mesmo, vou voltar pro castelo – ela disse com um sorriso sem dentes, sem graça.
- Vem assistir ao jogo com a gente! – Katsuo convidou e Desmond logo o apoiou.
- É! Te dou metade do meu algodão doce se você ficar!

olhou para Charlie, examinando sua reação. O garoto sardento sorriu e ergueu os ombros.

- Quero o algodão inteiro – ela apontou para a pequena nuvem de cor azul que flutuava ao lado de Charlie.
- Fechado! – Com um gesto de sua mão, o algodão doce voou de Charlie para perto de .

Charlie nunca se acostumaria com o fato de que Des muitas vezes não precisava usar varinha para realizar magia. Uma sirene tocou alto e todos começaram a correr para seus lugares, esse era o indicativo de que o jogo começaria em poucos minutos.

- Vamos? – Katsuo disse pegando o sapo de chocolate da mão de Charlie, o único doce ao qual ele parecia não ter alergia.

Os quatro seguiram até uma das arquibancadas. Desmond e Katsuo andavam na frente, abrindo caminho na pequena multidão de gente. andava ao seu lado em silêncio. Apesar de estar feliz por ela ter mudado de ideia, Charlie não conseguia parar de pensar no que a teria convencido a vir.

...


inspirou e procurou se acalmar. Tinha ficado com um pouco de pena de deixar Charlie assistir ao jogo sozinho, nem passou pela sua cabeça a ideia de que ele poderia ter chamado outras pessoas para ir com ele. Sentada entre Charlie e Katsuo, ela arrancava vários pedacinhos da nuvem de algodão doce, que agora tinha se tornado pouco menor que o seu punho. Se dissesse que não para Desmond e Katsuo talvez fosse parecer que ela queria ficar sozinha com Charlie ou isso era muita paranoia de sua cabeça? Agora não importava mais, ela estava ali, paciência.
Refletores iluminaram o campo, os jogadores tomaram suas posições e a casa começou os aplausos ensandecida. Começo de temporada era assim, o povo se animava bastante. Depois a frequência ia diminuindo. Os Dragões Dente de Víbora se alinharam e acenavam para a torcida, eram em sua maioria funcionários mais velhos do Santuário, cientistas, curandeiros... mas, nenhum jogador de quadribol de fato. Eles iam jogar contra os Linces de Brasov, o time formado pelos aurores da região, todos bem mais jovens. Inclusive, seu treinador tinha jogado um ano na seleção da Romênia. provavelmente assistiria a partida por entre os dedos no rosto, de tanta vergonha.

...


Já tinha se passado uma hora e os Linces estavam muito na frente deles. Charlie entendia agora o que tinha falado, era de fato doloroso assistir. Os batedores do Santuário não conseguiam evitar que os balaços derrubassem os jogadores, o goleiro parecia estar vivendo em outra realidade porque corria para os aros errados na hora de defender e os artilheiros, melhor nem comentar. O árbitro também não ajudava muito, tinha marcado várias faltas dos Dragões e parecia fazer vista grossa para o outro time. Era torturante de assistir.

- Será que o vendedor aceita devoluções? – Katsuo disse olhando para a própria camisa de torcedor.
- Vamos descobrir – Des se levantou e antes de ir embora fez um sinal de joinha para Charlie, felizmente não notou.

Os dois saíram, já tirando as camisas e os dedos de espuma.

- Eu te disse que eles eram terríveis – reiterou.
- Alguém precisa demitir o capitão do time deles – Charlie brincou, mas não riu.
- Minha mãe é a capitã.

Charlie morreu levemente por dentro. Quantas bolas fora eram possíveis uma pessoa dar em um único dia? Ele se limitou a dizer um ‘’ah’’ e ficou em silêncio. Levou a palma a testa em descrença com a própria capacidade de falar besteira.
A audiência gritou ao ouvir o locutor, Charlie não entendeu nada. Até que viu no centro do campo, o apanhador do time adversário tinha pego o pomo. Estava aliviado pela partida ter chegado ao fim e despontado ao mesmo tempo. Esperava mais. Os atletas se cumprimentaram e o time derrotado saiu de cena, todos cabisbaixos, porém não surpresos. Talvez o jogo de luzes salvasse a experiência.

- Înainte de spectacolul nostru de lumină, am dori să vă prezentăm noul nostru... – o locutor começou a narrar em romeno e Charlie não fazia ideia do que ele estava dizendo.
- Vou te ajudar – percebeu sua confusão, apontou a varinha para seu ouvido e proferiu um feitiço – Romanian transferendum.

As palavras do locutor de repente se tornaram reconhecíveis. Ele estava apresentando o mais novo patrocinador do campeonato amador de quadribol local, que falaria algumas palavras antes do show de luzes. Um homem barrigudo, calvo e que usava uma espécie de roupão apareceu em uma espécie de projeção aumentada no meio do campo, que antes mal prestara atenção no jogo agora tinha até se inclinado sobre o parapeito da arquibancada.

- Dorin Grimsbane – sua voz não soava nada feliz.
- Quem é ele?
- Fundador e presidente da Sociedade Anti-Dragão, um mentiroso estúpido – disse, suas mãos apertando com força as barras da arquibancada.

O homem agradeceu aos aplausos e pediu silêncio, de jeito pomposo.

- Meus queridos amantes de quadribol! Sinto muito atrasar o show, que se diga de passagem está muito melhor esse ano graças a mim, mais exatamente a minha equipe! – anunciou com falsa modéstia. – Mas, não é sobre isso que quero falar. Todos sabem sobre meu trabalho sério e árduo contra o dito ‘’Santuário’’. Ele, meus amigos, se torna mais necessário do que nunca agora.

Uma liga anti-dragão? Charlie nunca tinha ouvido falar nisso antes. Pensava que todos estivessem de acordo com a importância de um lugar como a reserva. Quem seria contra a preservação e o estudo de criaturas tão magnificas? Bom, aquele homem era e a ponto de fundar uma organização com objetivo de dissolver o lugar.

- Dragões foram vistos aterrorizando moradores do campo dos Cárpatos – ele disse com um tom dramático, até as luzes pareceram mudar para elevar o clima de sua performance. – Dilaceraram gados, queimaram plantações e o pior... Destruíram uma casa de família!

A multidão soltou um ‘’oh’’ em coro. balançou a cabeça diversas vezes e saiu em disparada pelas escadas.

- Aonde você vai?! – o ruivo gritou.
- Acabar com essa palhaçada! – ela berrou de volta, sem olhar para trás e o deixando sozinho ali.

...


arrancou uma vassoura das mãos de um dos jogadores dos Dragões. Estava pronta para alçar voo e interceder naquela performance ridícula. Dorin tinha passado dos limites, discursar para um estádio suas ideias mirabolantes era demais para ela. Deu alguns passos para trás, porém foi impedida de voar. Uma pessoa puxou seu braço. Quando virou para o lado, encontrou sua mãe.

- O que você pensa que está fazendo? – indagou ainda segurando seu braço.
- Vou fazer Grimsbane engolir as próprias sandálias, é isso que vou fazer. – A garota respondeu ríspida.
- Não, você não vai – com um assobio a vassoura saiu debaixo de e recuou para trás, quase a derrubando no chão.
- Mãe, ele está mentindo! Não podemos deixar ele difamar nosso trabalho dessa forma!

limpou a garganta e moveu os óculos inquieta.

- Acontece, filha...que ele não está mentindo dessa vez.

arregalou os olhos e sua boca se abriu em choque. Pensou ter ouvido errado e pediu baixinho para que ela repetisse. Isso não podia estar acontecendo, era impossível.

- Os dragões estão em perigo e há riscos de que... – pausou antes de continuar. – Que a reserva seja fechada.


Continua...



Nota da autora:Oi, gente! Primeiramente quero pedir desculpas pela demora na atualização, tive um pouco de dificuldade para escrever e fiquei meio bloqueada. Mas, agora tô de volta e com motivação renovada! Espero que vocês e as suas famílias estejam bem, da melhor forma possível com tudo que está acontecendo. É isso! Espero que gostem do capítulo <3 Fiquem em casa se puderem!



Eu não escrevo nenhuma dessas fanfics, apenas scripto elas, qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.


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