Half-Twins Bakery

Última atualização: 15/02/2021

Prólogo

Sempre que eu digo que Catarina não é minha irmã por ambas as partes, eu consigo ouvir o som de 404 error que surge na cabeça do interlocutor.
Visto que somos fisicamente idênticas, a única coisa que difere entre nós são as cores dos olhos, que puxamos de nossas mães. O que é bizarro, e eu sei que você também vai ficar confuso quando eu disser que somos meio-irmãs por parte de pai.
É sempre muito divertido afirmar e comprovar isso toda vez que conheço alguém novo.
Não por desprezo a ela ou nossa ligação sanguínea, pelo contrário, amo minha irmã tanto quanto amo nossos pais, mas já que superei o trauma de nossa história, eu me divirto com as reações alheias.
Nossa estrutura familiar é constituída por seis avós (sendo 2 paternos, 2 maternos e 2 de consideração, emprestados pela irmã), 2 mães (uma biológica e outra de consideração, emprestada pela irmã) e 1 pai.
Durante nossa infância e adolescência, moramos num apartamento, Holly, minha mãe biológica, Marta, minha mãe de consideração emprestada pela minha irmã, Catarina, minha irmã, e eu. Sendo que o apartamento em frente ao nosso pertencia ao meu pai, Charlie.
Um ótimo ambiente para criar duas crianças qu,e desde o primeiro dia que pisaram na Terra, dividiam os mesmos traços.
A história de como tudo isso aconteceu é simples e esquisita, mas tenha em mente que nossas mães nunca foram um exemplo a ser seguido. Ainda estou tentando decidir se acho-as absurdamente estúpidas ou geniais.
Amigas de infância que nunca sequer brigaram, Holly e Marta são as maiores incógnitas que já pisaram no planeta Terra. E isso não é um exagero.
Viveram suas vidas sendo melhores amigas e morando na mesma rua, mesmo que alguns quarteirões as separassem. Quando resolveram ir para a faculdade, e mudaram-se para Cardiff, deixaram de ser vizinhas e tornaram-se roommates. E foi aí que Charlie apareceu em suas vidas.
O comumente esperado nessa parte da narrativa é que o interlocutor acredite que ambas gostaram do meu pai ao mesmo tempo, ele se envolveu com as duas e, por isso, engravidaram, mas não. Tornaram-se grandes amigos em pouquíssimo tempo, Charlie mostrava a cidade para elas, eles saíam juntos com os amigos dele e, quando viram, já tinham uma amizade de faculdade incrível daquelas de filmes americanos.
Papai nunca foi do tipo certinho e já assumiu que ofereceu-se para ajudar nossas mães a estabelecerem-se na cidade com segundas intenções, mas as coisas saíram dos planos e, dali, nasceu o que, durante os anos de faculdade, era conhecido pela “turma” como “Os três mosqueteiros”.
O ápice da loucura de Marta e Holly aconteceu um ano e meio antes de Caty e eu nascermos, e foi exatamente por causa disso que viemos ao mundo. Complexo, não é?
As duas tiveram a genial ideia de ir atrás de algum pobre coitado desavisado que topasse ser o doador de esperma delas. E não, eu não sei o quão doentia é a cabeça dessas duas mulheres.
Meu pai também não é dos mais normais. Quando elas contaram pra ele o que queriam fazer, ele se ofereceu logo, com a única condição de participar da vida dos bebês.
Trato feito. Procuraram clínicas de fertilização assistida e, em alguns meses, ambas estavam grávidas.
Imagine você ter uma mãe e ela ter uma melhor amiga, essa melhor amiga é sua mãe também, e elas não tem nenhum tipo de relacionamento amoroso, ao mesmo tempo que a melhor amiga da sua mãe é mãe da sua meio-irmã por parte de pai. Pai este também cuja a única relação que tem com as duas mulheres é amigável.
Se não tivesse acontecido comigo, provavelmente, eu nunca acreditaria que isso poderia ser possível.
Não tinha como dar errado, certo?
Errado.
Caty e eu passamos por uns maus bocados para entender essa loucura toda. E olha que nascemos e crescemos nela.
Então está tudo bem se você não entender logo de cara (ou nunca).
Mas já que você está devidamente integrado à história de minha família maluca, posso começar a contar a história de minha irmã e eu.


Capítulo 1

Quando eu e minha irmã decidimos sair da casa das nossas mães, não foi por razões negativas.
Nós só queríamos sair de de baixo das asas de Marta e Holly. Por mais que eu as ame do fundo do meu coração e não duvide do amor de Caty, elas são marcação acirrada.
Muito difícil ser jovem numa casa com duas mulheres que aprontaram de tudo na juventude e sabem todas as artimanhas.

🍰


Desde o último ano do ensino fundamental, Caty e eu tínhamos nosso próprio negócio. Nós vendemos sobremesas e, modéstia à parte, eu sou muito boa na confeitaria.
Durante o ensino médio, nossas rotinas consistiam em estudar e dedicar-nos à nossa pequena empresa.
No último ano letivo, acumulando nossa renda com os doces e a mesada, tínhamos dinheiro suficiente para dar entrada em um imóvel, e foi o que decidimos fazer.
É incomum duas jovens na flor da idade conseguirem juntar essa grana toda, eu sei. Mas nossas mães não aliviavam para que nós fizéssemos nada divertido de verdade e, sempre que saímos com nossos amigos para o cinema ou um lanche, elas, que sentiam-se culpadas por quase nunca fazermos esse tipo de programa, pagavam por nós.
Sendo assim, logo após a formatura, reunimos os três à mesa de jantar e decidimos ter "a conversa" com nossos pais.
– Agora que todos estamos reunidos, vamos dar início a esta reunião familiar. – Falei de forma exagerada e minha irmã riu.
– Cala a boca, . – Ela pediu e eu encolhi os ombros. – A gente pediu para jantar com vocês juntos porque precisamos conversar.
– Qual de vocês está grávida? – Meu pai perguntou, receoso.
– Ninguém tá grávida aqui não, Deus nos livre. – Falei rapidamente, batendo três vezes na mesa de madeira.
– E o que pode ser tão sério?
– Nós queremos morar sozinhas. – Caty quem falou.
– O quê? – Holly literalmente gritou.
– Nós. Queremos. Morar. Sozinhas. – Repeti a fala da minha irmã pausadamente.
– Por quê? – Foi Marta quem perguntou, com um tom de voz magoado.
– A gente ama vocês, mas vocês sufocam a gente demais. E nem adianta falar que vocês vão mudar porque todos nós sabemos que é mentira. – Eu respondi direta e vi os três se encolherem nas cadeiras.
– E como vocês não querem ter filhas vagabundas, nós já temos tudo pensado. Só vamos precisar de uma ajudinha.
– E para onde vocês vão? – Tom perguntou, rendido.
– Nós conversamos com o vovô, ele tem um amigo que está vendendo um imóvel em Glasgow e nós vamos comprar. – Caty explicou.
– Glasgow? – Os três perguntaram, exasperados.
– Sim. E nem adianta vocês tentarem mudar nossa cabeça. Já até separamos o dinheiro da entrada. – Falei e minhas mães começaram a rir.
– E vocês roubaram um banco por acaso? – Marta perguntou em meio às risadas.
– Bom, a partir do momento em que a gente trabalha, a gente tem dinheiro. – Caty falou, simples.
– E isso é suficiente para pagar um imóvel?
– A entrada e dois anos do financiamento. – Falei com uma sobrancelha arqueada e recostei na cadeira de forma espaçosa.
– Desde quando vocês têm tanto dinheiro?
– São mais de quatro anos trabalhando, vocês acharam que a gente estava fazendo o quê com os lucros? A gente mal sai de casa. – Revirei os olhos.
– A gente não pode deixar vocês irem pra Glasgow. – Tom falou.
– Até onde eu sei, nós duas somos maiores de idade, vocês não podem nos impedir. – Mostrei a língua de forma infantil. – E é a uma hora daqui, não estamos saindo da Europa.
– Vocês querem tanto se livrar da gente assim? Por que não procuram um apartamento aqui? – Marta tinha um quê de tristeza em sua voz.
– Porque a proposta é incrível! O imóvel está em ótimas condições e, ainda assim, o valor está ótimo, afinal, o dono é um grande amigo do vovô.
– Filhas... – Ela tornou a abrir a boca.
– Sem chantagem emocional. – Caty quem interrompeu. – A gente vai explicar direitinho para vocês, mas vocês precisam entender que esse jantar é para fazer um comunicado e não pedir permissão.
– Nossas meninas vão embora. – Holly disse em um tom nostálgico.
– Mas vocês vão poder nos visitar sempre! Me deixa mostrar as fotos e a planta do imóvel! – Eu falei, indo buscar meu laptop.
Mostrei aos nossos pais todos os benefícios que teríamos em comprar o imóvel de três andares.
Basicamente, era um duplex em cima de uma loja onde antigamente funcionava um restaurante, ou seja, perfeito para nós.
– Ok, eu estou surpreso que vocês estão realmente preparadas para isso.
– Obviamente, não vamos embora amanhã, mas já começamos a lidar com as questões legais e, em algumas semanas, já podemos nos mudar. As chaves já estão conosco. – Caty falou, finalmente colocando o molho enorme de chaves na mesa.
Holly e Marta encararam o molho e seus olhos encheram d'água.
– Eu não estava preparada pro baque. – Holly foi quem falou.
– Vocês fizeram tudo isso sozinhas? – Marta perguntou, seus olhos brilhavam com as lágrimas e, ao ver-nos assentindo, ela sorriu. – Vocês realmente cresceram.
– Falta só perder a virgindade para nos tornarmos mulheres adultas de verdade. – Falei e meu pai se engasgou do nada, começando a tossir desesperadamente.
Marta tentava ajudar enquanto Holly foi buscar um copo de água e ele ficava cada vez mais vermelho.
– Ah, pai, pelo amor de Deus! – Caty zombou depois que ele voltou ao normal. – Até parece que a gente ainda é virgem. – Ela completou com um sorriso malandro e eu pensei que meu pai fosse desmaiar, o que fez com que caíssemos na risada.
– Vocês não estão ajudando. – Holly pontuou.
– Seria um ultraje vocês acharem que a gente ainda é virgem, a gente já tem 18 anos! – Falei, fingindo estar ofendida. – Mesmo a gente sendo. – Terminei, emburrada.
– E a culpa é de vocês! – Caty completou, brava. – Nós somos as únicas pessoas da nossa idade que continuam virgens no Reino Unido inteiro!
– E vão continuar assim até os 30! – Tom falou e eu soltei uma gargalhada.
– Pai, eu não vou casar virgem. Eu nem quero casar, imagina esperar casar pra transar.
– Eu não quero ter essa conversa. – Ele falou com uma careta.
– Ótimo, vamos para o próximo tópico. – Falei como se nada tivesse acontecido antes disso. – Catarina, apresente nossos projetos educacionais aos senhores.
Minha irmã abriu uma apresentação de PowerPoint que explicava nossos planos de a) colocar Caty para cursar Gestão e b) deixar-me com meus cursos de culinária sem faculdade. Sempre tive uma aversão enorme ao ensino superior e não abriria mão das minhas convicções.
Depois de muita conversa, nossos pais nos apertaram em um abraço e choraram mais um pouco. Não foi nem mesmo novidade ver Tom chorando, já que meu pai conseguia ser mais emotivo que as duas mães juntas.
, você é a mais velha, tem que me prometer que vai cuidar bem da sua irmã. – Ele me pediu.
– São só algumas horas de diferença, você sabe disso, né? Ela é muito mais responsável que eu.
– Eu estou falando do emocional da sua irmã. Você sabe como ela é.
– A gente vai cuidar uma da outra como sempre. Ela me mantendo longe de problemas e eu mantendo o coração dela inteiro. – Sorri pro meu pai, fazendo carinho em sua bochecha molhada pelas lágrimas.
– Eu amo tanto vocês que dói, sabia?
– Você é o único cafajeste que eu sei que é capaz de amar. – Pisquei pra ele e abracei-o forte.
– Tenho que amar minhas princesas, quem mais faria isso?
O sentimento que prevaleceu no final daquela noite foi orgulho. E eu não poderia estar mais feliz quando deitei a cabeça no travesseiro.

🍰


Quando acordei naquele dia, meu celular mostrava um lembrete de encomenda, era o último bolo que eu faria como residente de Edimburgo.
Levantei sem enrolação e, em poucos minutos, já estava na cozinha, preparando o café da manhã e separando o que eu usaria para finalizar o red velvet que deveria ser entregue antes das seis da tarde num espaço de festas próximo de casa.
Eu estava preparando a pasta americana quando Holly entrou na cozinha.
– Madrugou, querida?
– Caso tenha se esquecido, seu afilhado casa hoje, tenho um red velvet de três andares para montar. – Falei enquanto fazia um esforço descomunal para abrir a massa doce.
– Hmmm, aquele red velvet com avelã, né? Ainda bem que fui convidada para esse casamento.
– Você é a madrinha dele! Para de drama.
A família de Glenn era vizinha dos meus avós desde antes de mamãe nascer e, enquanto ela e Vivian (mãe dele) cresciam, elas se consideravam primas. As duas famílias eram bem próximas e, anos depois, quando Glenn nasceu, Holly foi escolhida para ser a madrinha do menino.
Nós éramos muito amigos. Mesmo ele sendo quatro anos mais velho que eu e Caty, sempre cuidou de nós duas enquanto estudávamos na mesma escola. Ele nos considerava suas irmãs mais novas e o amor fraternal era recíproco.
Quando Agnes se mudou de Londres para lá, eu nem mesmo tinha perdido todos os dentes de leite. Eu tinha nove anos quando, no primeiro dia de aula dela, derramou água gelada no cabelo da minha irmã por acidente.
Uma pessoa desastrada em tal nível merecia uma segunda chance e Caty lhe deu. O que aproximou-nos ainda mais foi que Glenn e Agnes tinham aulas juntos e isso os tornou amigos também.
A amizade entre eles evoluiu de tal forma que, naquela noite, Catarina e eu entraríamos de braços dados na cerimônia de casamento dos dois.
Quando Glenn nos chamou para ir ao parque conversar seis meses atrás, não esperava que fosse para convidar-nos formalmente para sermos suas madrinhas de casamento e oficializar a notícia de que estava noivo de Agnes.
O sorriso que estampou meu rosto naquele dia ainda estava presente enquanto eu me dedicava a equilibrar as camadas do bolo que comemoraria a união, diante de Deus e diante da lei, de duas das pessoas que eu mais amava na vida.
Minhas mães saíram para trabalhar e minha irmã parecia estar em coma.
Eu já tinha dois dos três andares prontos quando fui verificar se a caçula da casa estava ao menos respirando.
Entrei em seu quarto silenciosamente e, ao examinar a cama, vi que aquele relevo debaixo das cobertas não era minha irmã.
Catarina nunca dormia de forma civilizada, sua cama era sempre uma bagunça de cabelos, cobertores e almofadas.
Peguei meu celular no bolso do moletom que eu usava e disquei seu número.
– Bom dia! – Catarina respondeu assim que atendeu a chamada.
– Posso saber onde a senhorita está?
– Peter terminou com a Brooke ontem, ela precisava de um ombro amigo.
– É errado eu estar feliz? – Perguntei, mordendo o lábio inferior.
– Não, ele é um cafajeste. Já estou indo pra casa.
– Como ela está?
– Ela vai ficar bem. – Respondeu e desligou.
Suspirei, dando meia volta e saindo do quarto de paredes amarelas.
Brooke era uma de nossas amigas de longa data. Morava no térreo de nosso prédio e, quando cresceu, descobriu um talento nato em escolher namorados ruins.
Eu a admirava pela coragem de ainda tentar.

🍰


Depois de entregar o bolo e os docinhos, maravilhar-me com a decoração da festa e receber cumprimentos do cerimonial que eu mesma havia indicado ao casal, voltei pra casa com o coração quentinho.
De banho tomado e cabelos presos em uma trança elegante, sentei em minha penteadeira e comecei a árdua tarefa de maquiar-me sem parecer um palhaço.
Quando estava satisfeita com meu reflexo – o que, sejamos sinceros, não demorou muito –, enfiei-me dentro do longo vestido azul escuro. O tecido aveludado era gostoso de usar, as alças finas que não permitiam o uso de sutiã e a fenda na lateral esquerda que chegava até a coxa transformaram meu reflexo no espelho em uma mulher elegante.
Passei meu perfume favorito e calcei os saltos finos pretos.
Era um belo dia para ser eu.
Saí do quarto já com a bolsa-carteira em uma mão e o celular em outra. Holly estava colocando a mecha solta do coque de Caty atrás da orelha quando eu entrei na sala.
– Uau, acho que trocamos os papéis. – Caty falou enquanto seus olhos verdes me analisavam dos pés à cabeça.
– Eu sou a gêmea sexy hoje, você fica com o papel de recatada.
– Vocês estão lindas. – Tom falou, entrando no apartamento.
– Sempre estou. – Marta rebateu, fazendo-nos rir.
Fomos os cinco no mesmo carro, afinal, era ridiculamente perto de casa.
– E a Brooke? – Sussurrei à minha irmã.
– Eu a deixei dormindo hoje de manhã, ela me mandou mensagem quando acordou e avisando que estava saindo pra cerimônia.
– Ok.
A cerimônia foi linda, a festa foi ótima. O estado de espírito de Brooke não estava nem perto de como eu pensei que estaria. Ela irradiava felicidade pelo momento de Agnes e Glenn, e eu a amei um pouquinho mais por isso.
Talvez fosse por costume de ter namorados ruins, ou porque ela não gostava de Peter de verdade.
Recebi elogios e até mesmo uma ou outra cantada. No mínimo, divertido, por mais que todas tivessem sido falhas. O primo de Agnes, responsável pelas cantadas, não era de todo mal. Tinha a pele branca e os cabelos negros cacheados curtinhos, feições bem desenhadas e um charme considerável, mas não era meu tipo. Ele era a personificação de um almofadinhas, e eu tiinha uma preferência por distância desse tipo.
Era tarde quando eu e minha irmã chamamos um uber e ela acabou cochilando antes mesmo que parássemos na frente do nosso prédio.
E eu já sabia que, no dia seguinte, nós nos atrasaríamos para chegar na estação de trem.


Capítulo 2

– Ai, calor! Até que enfim! – Minha irmã disse ao entrar pelas portas dupla da loja.
– Bem-vinda de volta ao lar. – Desejei, passando por ela ao atender uma mesa onde um casal de adolescentes estava decidindo sobre o que escolher. – Já sabem o que vão pedir?
Eu gostava da minha rotina. Sempre gostei de ter a vida sob controle e rotina era exatamente a confirmação de que tudo estava do jeito que eu queria.
Era corrido, claro. Ninguém consegue manter uma confeitaria com pouco pessoal sem, às vezes, chegar perto de um colapso nervoso por viver sempre correndo contra o tempo.
Mas ainda não dava para contratar ninguém, ficaríamos no vermelho se tivéssemos que cobrir um salário, então Caty e eu decidimos que aguentaríamos a pressão por mais algum tempo até que as coisas estivessem indo realmente bem e não fosse tão arriscado.
Enquanto isso, trabalho, trabalho e trabalho.
Meus dias de descanso eram sagrados, ninguém em sã consciência me importunava às segundas e quartas, eram meus dias de ser uma jovem desocupada e colocar minhas séries em dia.
– Estive estudando e já tenho tudo certo, então posso te contar. Podemos oferecer serviço de entrega. – Minha irmã disse enquanto eu me abaixava para tirar os pedidos recentes da vitrine.
– Sério? É viável mesmo?
– De acordo com a procura que estamos tendo nas redes sociais, não só vai cobrir os próprios gastos como também vai aumentar nossos lucros. Em algum tempo, podemos anunciar a vaga de atendente.
– Você está brincando comigo?
Aquela havia sido a notícia mais feliz que eu tinha recebido naquela semana. Não me sentia tão animada sobre algo desde que Glenn e Agnes voltaram da lua de mel três meses atrás e encheram nosso grupo de mensagens com fotos de todos os trocentos pontos turísticos que eles visitaram em Orlando.
– Eu vou levar esses pedidos e você vai me contar absolutamente tudo o que vamos fazer sobre isso. – Avisei e saí de trás do balcão com a bandeja em mãos.
Estávamos no final do que chamávamos de doldrums. O horário em que as coisas ficavam calmas, quase paradas e então, assim que os horários de almoço das pessoas estivessem perto do fim, elas brotariam na loja como um bando de formigas ordenadas em fila na frente do balcão.
Era o melhor horário do dia, seguido acirradamente pelo fim de expediente (deles, claro), onde a vitrine era esvaziada pela segunda vez no dia e, assim que o último cliente saía, nós fechamos a loja, normalmente, a mesma senhora que havia habituado-se a vir todos os dias e experimentar um quitute diferente.
Eu nem sabia se era saudável que ela comesse tanto doce assim, não são todos os idosos diabéticos?
Mas apesar de seu semblante sempre abatido, era sempre muito simpática ao fazer seu pedido e perguntar o que tinha naquele doce que estava levando para casa.
Eu nem realmente sabia se era ela que comia, ou qualquer outra informação que não fosse seu nome.

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– Oh, por favor, seja, no mínimo, educada! – Pedi a Brooke, que arrancou a sacola de papel da minha mão e voltou a jogar-se no sofá de higiene duvidosa da república que ela dividia com mais três estudantes.
– Eu estou morrendo, favor, não me cobrar nada. – Ela resmungou, voltando com a bolsa térmica para o colo, e eu senti um pouco de empatia por ela.
– Ah, foi por isso a emergência?
– Estou sofrendo por ter aula amanhã.
– Vou fazer te fazer um chá. – Caminhei até a pequena cozinha e coloquei-se a fazer o que disse. – E quando você estiver melhor, vai me contar o que aconteceu com aquele cara que você apresentou pra gente.
– Ele procurou vocês?
– Infelizmente, mas eu não sabia o que responder, então falei que ia tentar falar com você.
– Ele é muito emocionado, me levou para jantar com os pais dele! – Ela disse com a boca cheia.
– Você é um caso perdido, Rook. Quando os caras não querem nada com você, você vai atrás e sofre por eles. Quando eles querem, você corre deles.
– Eu quero alguém que vá devagar junto comigo.
– Ir devagar? Desde quando você vai devagar?
Parecia que eu estava em um universo paralelo, Brooke nunca ia devagar. Era do tipo que perdia horas fantasiando trocentas possibilidades depois do primeiro beijo que dava e sempre saía com o coração partido por suas próprias expectativas, mesmo se conhecesse o cara por uma semana.
Eu nunca entendi muito isso, mas acho que não tinha espaço para criticá-la, eu sempre virava amiga dos caras que eu beijava e, então, a gente se tornava amigo demais para ter uma relação não-platônica.
– Aqui está o seu chá, madame.
– Você é um anjo, .
– Daqui a pouco, você melhora. – Falei, fazendo um carinho em seu cabelo e levando um tapa na mão. – Ingrata.
Ficamos ali um tempo enquanto ela sentia o chá aliviar as dores, e eu estava até que entretida pela novela que passava. Nunca havia entendido a fixação que Rook e Caty tinham por Loveverse, mas dava pra distrair, e eu achava isso suficiente, então até conhecia alguns personagens por nome.
– Ele me levou para almoçar com os pais dele e eu entrei em pânico. Nunca cheguei nessa parte.
– Tadinho.
– Tadinha de mim!
– Não.
– Claro que sim!
– Eu não estou afim de pontuar todos os motivos de você ser uma lesada.
– O que você queria que eu fizesse? Deixasse as coisas acontecerem?
– Ele parece ser um cara legal, o primeiro que você apresentou para a gente desde o Peter, e ele até tinha cara de limpo! – Ela abriu a boca para dizer algo, mas eu a interrompi. – Nem vem, você tem um histórico de caras que parecem não conhecer o chuveiro da própria casa.
– E quem é você para criticar?
– Sua amiga que quer o melhor para você.
– Acha que devo ligar para ele?
– Manda uma mensagem, é mais despretensioso.
Enquanto ela começou um papo interessantíssimo com o rapaz, eu também peguei meu celular e fiquei passando pelas redes sociais até que o capítulo de Loveverse terminou e eu abri a Netflix, colocando a série que estávamos vendo juntas.
– Espera aí, esse não é o Donte da novela? – Perguntei quando o rosto do mesmo ator apareceu na tela.
– Sim. – Respondeu como se não fosse nada demais.
– Você quis ver essa série só por causa dele, não é?
– Talvez…
– Você sabe que a confeitaria fica perto de praticamente todos os estúdios da cidade e que, provavelmente, você pode ver ele na rua se for nos visitar mais vezes.
– Por que tudo não podia ser super pertinho? Que inferno de trabalho longe.
– A gente sempre vai ter um quartinho debaixo da escada para você, amiga. Leve o tempo que precisar para descobrir que é a meia hora de distância.
Assistimos um episódio inteiro e um pedaço de outro, o suficiente para fazer-me crer que o ator que eu reconheci seria, a partir dali, um personagem fixo na história.
, eu estou com muito sono. – Ela disse quando ainda faltavam alguns minutos para acabar o episódio.
– Espera só esse episódio terminar? Assim, eu vou para casa sem peso na consciência.
– Não vai dormir aqui?
– Suas colegas estão todas aí, sabe que não gosto de muvuca. E você acorda cedo amanhã. Nós duas sabemos que eu só saio da cama às onze.
– Certo.

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Era tarde demais para eu me aventurar num ônibus ou no metrô, então chamei um uber e despedi-me de Brooke, esperando o carro na porta da casa enquanto sentia o frio gelar meu corpo coberto por agasalhos insuficientes.
Era domingo, toda a rua de Brooke estava deserta e eu teria cerca de quinze minutos de carro até chegar em casa, onde dormiria sozinha, já que Caty estava na casa de nossos pais.
Pelo menos, o meu plano era dormir quando chegasse em casa, mas assim que o carro parou na frente da loja, eu vi que sossego não era a palavra certa para definir o que eu teria naquela noite.
Um caminhão de mudança estava parado no outro lado da rua e as luzes do segundo andar estavam acesas, os homens que descarregavam as caixas eram barulhentos e riam de algo entre eles.
– Quem faz mudança uma hora dessas? – O motorista perguntou enquanto finalizava minha corrida. – São seis libras.
– Eu não sei, só espero que não demorem a terminar. – Falei, entregando as notas. – Obrigada, tenha uma boa madrugada.
Assim que voltei a sentir o frio da cidade, corri até a porta de casa e destranquei-a, ouvindo o carro partir.
Larguei o casaco no aparador e tirei os sapatos, ligando o aquecedor do meu quarto e, então, subi direto para o mesmo.
Eu mal cheguei no quarto e arranquei as roupas que usava, substitui-as por um pijama e fui para a janela tentar descobrir se ainda demorariam muito com a barulheira do lado de fora.
Caixas e mais caixas saíam do caminhão mas, dali, eu não conseguia ver se ainda faltava muito. Desisti.
Saí de perto da janela e fui para a cama, liguei a tv em algum canal aleatório e apaguei as luzes, achando que o volume era suficiente para abafar o resto. Então assisti o que interessasse até às três da manhã, que foi quando a paz reinou completamente (ou o máximo possível) na Buchanan Street.

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– Você saiu dessa cama para alguma coisa? – Minha irmã perguntou com a cabeça para dentro quarto e a porta pouco aberta.
– Estou dormindo, volte mais tarde. – Murmurei e virei para o outro lado.
– Mamães mandaram dizer que estão com saudades.
– Hoje é segunda, esqueça que eu existo. – Pedi.
– Mal humorada. – A porta do quarto foi fechada e eu estava sozinha de novo.
Mas, infelizmente, o sono não veio, não depois de ter trocado mínimas palavras com minha irmã e ter afastado de vez o Sandman.
Olhei para a janela parcialmente coberta pela cortina fina, o tempo lá fora não parecia dos mais acolhedores e eu agradeci aos deuses por não precisar fazer nada fora do conforto de meu lar naquela fatídica segunda-feira.
Olhei as horas no celular e vi que já estava no horário de almoço, eu senti a fome junto com essa informação e obriguei-me a levantar para ver o que raios minha irmã queria comigo.
– O que você quer de mim, encosto?
– Ia te chamar para almoçar, mas você está com uma nuvem cinza em cima de você. O que aconteceu?
– Temos um vizinho novo e ele achou que seria socialmente aceito mudar-se de madrugada.
– Do prédio da frente?
– Sim, eu nem o conheço mas já estou alimentando ódio. Sabe que horas eu consegui dormir? Três da manhã! – Eu me exaltei, indignada, e minha irmã abriu um sorrisinho que deu-me vontade de estapeá-la. – Tire esse sorrisinho da cara! Eu estou puta!
– Você fica fofinha quando fica brava, é inevitável.
– Me erra! – Falei e enfiei-me na cozinha.
Os passos dela me seguiram.
– Você devia ter ido para o meu quarto, ou pro dos fundos, ia fazer menos barulho.
– E sair do conforto da minha cama porque temos um vizinho novo sem noção? Inadmissível! – Caty gargalhou. – Eu não estou vendo graça.
– Afinal de contas, por que não dormiu na Rook?
– Casa cheia, eu queria paz. Mas olha só! – Carreguei meu tom de ironia.
– Aproveita seu dia de folga e tenta dormir direito depois do almoço.
– Não posso.
– Por que não?
– Tenho um compromisso.
– Compromisso?
– Deixe de ser intrometida, Catarina!
– Então eu devo fingir que não vi uma tonelada de cheesecake de morango na geladeira?
– Exatamente.
– Anda logo, fala!
– Nem é nada demais.
– E por que o mistério?
– Porque eu te conheço e você vai me julgar.
, deixa de cu doce.
– Eu me meti em caridade por causa de um cara. – Falei rápido e minha irmã gargalhou. – Mas ele me ajudou a custear tudo e a gente vai fazer isso juntos.
– É aquele do cinema?
– Sim.
– Dou 24 horas para você me dizer que ele é seu novo melhor amigo.
– Talvez, só talvez, ele já seja.
– Irmã… Você não tem jeito!
– A gente nem flertou. Eu juro, a gente acabou batendo um papo aquele dia e, um dia desses de manhã, ele passou aqui na loja todo apressado falando que tinha que ir pro hospital, aí eu acabei perguntando, claro, sou curiosa demais pro meu próprio bem.
– E era isso o motivo do mistério todo?
– Você riu da minha cara segundos atrás, ridícula.
– Eu gosto quando você faz essas besteiras.
De acordo com Agnes, essas besteiras eram influenciadas pelo meu espírito de boa samaritana. Eu acreditava que gostasse de fazer boas ações porque carregava peso na consciência pelo que sabia sobre meus avós já terem feito com outras pessoas, então era como se eu não quisesse herdar um carma familiar maior do que o surto coletivo das minhas mães.
Os meus avós paternos fizeram muito dinheiro enquanto vivos, e meu pai nunca teve orgulho dos meios que eles usaram para tal, ele sabia que aquele dinheiro era sujo, assim como fez questão de contar tudo de errado que os pais dele fizeram para chegarem onde chegaram.
Acho que toda essa repulsa que meu pai tinha da própria família foi um dos motivos pelos quais ele topou tão facilmente participar de uma maluca como a nossa. Apesar dos pesares, o que nós tínhamos era um lar.
Enfim, poderia ser peso na consciência ou talvez só um bom coração, pode ser até um pouco dos dois. Mas, no fim das contas, eu gostava da sensação de fazer o bem para o próximo.
E acreditava que coisas boas atraíam boas coisas, assim como coisas ruins atraíam coisas ruins, e nossas ações sempre teriam reações.


Capítulo 3

– Não. – Respondi, direta ao ponto.
– Por favor! – Minha irmã implorou.
– Não. Sem chances.
!
– Não, Catarina. Não é não.
– Mas vai ser ótimo pra nossa marca!
– Eu não vou fazer isso.
– Eu preciso que você faça! – O motivo da pequena briga entre nós era um vídeo comercial para as redes socias.
– A minha parte nessa empresa é dar minha alma e suor na cozinha. Se você acha que isso não é o suficiente, problema é seu.
– Mas … – Ela começou de novo e eu parei de sovar a massa por um instante, olhando-a. – Certo, vou pedir de novo quando você não estiver de TPM.
– A resposta não vai mudar.
– Vou te vencer pelo cansaço. – Cantarolou, saindo da cozinha e indo para seu posto no balcão, de onde pude ouvir o sino da porta tocar. – Oi, ! – Minha irmã cumprimentou animada demais e eu quis afundar o rosto na farinha e, quem sabe, morrer asfixiada.
– A está aí?
– Está sim! Vou chamar, espere aí.
Assim que minha irmã passou de novo pelas portas da cozinha, eu comecei a cantarolar baixinho, ignorando-a.
– Não vai funcionar. – Ela avisou. – Ele trouxe flores.
– E eu não quero.
– Qual é, ? Vai ignorar o pobre coitado para sempre?
– Sim.
– Como você é insuportável!
– Obrigada. – Respondi, cínica, e ela me acertou com um batedor de mão na testa. – Você está maluca? Imagina se pega no olho?
– Vá vê-lo.
– Eu te odeio. – Reclamei enquanto ia lavar as mãos.
O sorriso de minha irmã era tão grande que eu quase podia ver seus sisos nascendo, que criaturinha irritante. Sequei as mãos no avental e fui para o lado de fora, onde tinha um pequeno vaso com uma mudinha de jacintos azuis nas mãos.
– O que você quer? – Perguntei direta e ele mordeu um sorriso que eu sabia que ele queria soltar.
– Vim te ver.
– Sério, ? Eu tenho mais o que fazer.
– Trouxe jacintos.
– Estou vendo, para quem?
– Você.
– Não combina com a loja.
– É um pedido de desculpas pela situação das fofocas na internet.
– Conviver com você é cansativo, sabia?
– Vai dizer que não vale a pena?
– Os contras estão sendo bem mais expressivos que os prós.
– Ah, qual é, ? – Fechei a cara ao vê-lo usar sua cara de piedade.
– Não venha com “” pro meu lado.
– Tenho uma proposta pra você.
– Da última vez, você me chamou para sair, eu parei em trocentos sites de fofoca e tinha uma horda de jornalistas fazendo alvoroço na porta da minha loja. Nós nem mesmos fomos vistos juntos na rua!
– Mas agora eles já superaram e está tudo normal de novo, certo?
– Tem dois celulares apontados pra gente nesse exato instante, você acha que isso é normal na minha vida? – Eu perguntei, ciente de que alguns clientes prestavam atenção em nossa interação.
Ele ergueu a cabeça e suspirou audivelmente enquanto eu tentava esconder meu divertimento com a situação. Era óbvio que eu já tinha sido comprada pelas flores, mas eu não poderia dar o braço a torcer tão facilmente. A verdade era que aquele vasinho colocado no meu balcão havia sido a coisa mais bonitinha que tinham feito por mim desde que superamos a fase de receber cartinhas no fundamental.
– Por favor, . Eu prometo até não te levar em um lugar público.
– E o que você tem em mente para caso eu aceite? – Perguntei, o sorriso que antes ele tentou esconder apareceu e eu derreti mais um pouco.
– Um jantar no meu terraço?
– Promete que não vai cozinhar?
– Promete que vai?
– Não antes de você prometer que não vai tentar cozinhar. – Devolvi.
– Vocês me cansam mais que meu personal. – Catarina falou, saindo da cozinha. – Ela vai. Mas é sério, não cozinha não, pede alguma coisa por delivery.
– Você está de folga amanhã?
– Mas hoje eu não posso.
– Por quê? – Catarina quem perguntou.
– Catarina, vai lavar umas louças? – Pedi e ela entendeu o recado, revirando os olhos.
– Hoje é aniversário da Brooke e, se a Catarina não fosse uma amiga tão ruim, lembraria disso. Vamos passar a noite em Londres. – Expliquei para o rapaz depois que ela sumiu para a cozinha de novo. – Mas se você preferir, a gente pode almoçar amanhã. Até faço o esforço de te encontrar no estúdio e a gente vai naquele restaurante que você jura ser incrível.
– Tem certeza? – Ele perguntou, realmente preocupado, e eu assenti. – A flor funcionou?
– É, pode agradecer a Caty depois.
– Como você…?
– Pra quem mais você perguntaria se não sua fã número um? – Arqueei a sobrancelha e ele abriu um sorriso culpado.
– Segunda ‘fã número um’. – Ele me corrigiu. – Está marcado então.
– Não se acostume. – assentiu. – E então, vai levar alguma coisa hoje?
– Já que não posso levar a confeiteira, separa um bolinho pra mim.
– O de sempre?
– Sim, senhora. – Assentiu e eu fui preparar o pequeno pacote para viagem.
O sino da porta tocou e eu vi a mochila quadrada antes de conseguir realmente distinguir a figura de Kian. Ele vivia correndo, acredito que a única vez que eu o vi sem pressa foi no dia em que foi contratado. Dali em diante, a memória dele pela loja era sempre seu vulto apressado recolhendo pedidos e notas e sumindo pela porta logo em seguida.
Já estava na hora de contratarmos mais gente, o orçamento dava conta de manter mais dois empregados e eu estava ansiosa para que Catarina parasse de enrolar e anunciasse logo a vaga para assistente.
– Kian, você pode esperar um pouquinho depois da última entrega do dia? Preciso conversar com você. – Pedi e ele parou seus passos no meio do caminho até o balcão, pálido como uma folha de papel. – Não precisa infartar.
– Não se fala que precisa conversar com alguém desse jeito, . Sobre o que é? – Ele terminou de aproximar-se. – E aí, cara! Conseguiu convencê-la?
– Era sobre arranjar outro entregador pra te ajudar. – Respondi, ignorando a interação entre os dois homens do outro lado do balcão. – Não aguento mais te ver voando pra cima e pra baixo. Está me irritando.
– Tudo está te irritando essa semana. Acho que você precisa dormir mais e tomar menos café. – Kian comentou e eu abri a boca, em choque.
– Isso lá é jeito de falar com sua chefe? Você mal saiu do período de experiência! – Acusei e ele riu da minha cara.
– É como diz o ditado quem avisa, amigo é. – comentou.
– E tem outro que diz que quem não ajuda também não precisa atrapalhar. – Retruquei e Kian riu mais ainda.
– Eu exijo falar com a gerência, esse tipo de tratamento é inaceitável. – reclamou e foi minha vez de soltar uma risada.
– Pelo amor de Deus, vocês vão afastar minha clientela.
Catarina saiu da cozinha com uma caixa enorme em mãos e depositou no balcão, indo até o caixa e tirando a nota daquela encomenda.
– É a última do dia, certo? – Kian perguntou pra ela.
– Isso, e aí você volta porque vou fechar seu vale.
– Sim, senhora. – Bateu continência e eu ri, entregando o pedido de .
– Aqui está, senhor. Te vejo amanhã?
– Com certeza!
Deixando algumas notas que pagariam por seu pedido, foi embora e Kian fez um barulho com a garganta.
– O que foi?
– Quando é que você vai parar de enrolar o cara?
– Aí, deixa de ser fofoqueiro. – Pedi com uma careta de desdém.
– Não é todo dia que eu vejo minha chefe flertando com um astro da TV.
– É como dizem, irmãzinha, dê dinheiro mas não dê intimidade. – Catarina me deu dois tapinhas no ombro antes de entregar a nota fiscal para Kian.

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– Essa foi a ideia mais burra que a gente já teve na vida. – Reclamei quando minha irmã me notificou que o próximo trem só sairia às cinco e pouca.
Ainda eram três horas da manhã.
– O que vamos fazer até lá? – Brooke perguntou e eu quis chorar.
– A gente pode esperar aqui ou procurar algum motel ou bar nos arredores. – Catarina ofereceu e Brooke pareceu ponderar.
– Duas horas num motel ou num bar?
– Eu voto no motel. Minhas pernas estão me matando e eu queria dormir um pouquinho que seja.
– Você dorme no trem. – Minha irmã sentenciou e eu resmunguei, sabendo que ela preferia o bar.
Brooke era minha última esperança e eu praticamente implorei mentalmente que ela tivesse piedade de mim. Se, antes, eu não acreditava em lei da atração, no momento que ela decidiu, eu passei a crer fielmente.
– Vamos achar um que tenha hidromassagem. – Ela pediu e eu respirei aliviada.
– Hm… Parece que temos um plano então.
Catarina tirou o celular do bolso novamente e começou a procurar por motéis que parecessem no mínimo limpos, e encontramos um perfeito, com direito a hidromassagem e mastro de pole dance no quarto a apenas 20 minutos de caminhada de onde estávamos.
– Eu vou chamar um uber. – Avisei.
Meus sapatos não me permitiriam chegar com os pés em casa e eu precisaria trabalhar no dia seguinte.
– Fica pertinho daqui, . – Minha irmã brigou quando ela me viu sentada no banco, com o celular nas mãos ,digitando o endereço da estação em que estávamos.
– E daí? Meus pés estão podres, vocês me arrastaram pra uma boate que nem uma cadeira disponível tinha, eu trabalhei o dia inteiro hoje e…
– Blá, blá, blá… – Brooke me interrompeu e pegou o celular da minha mão. – Me dê isso aqui.
Àquela altura do campeonato, o frio já tinha trazido de volta toda a minha sobriedade e meu cérebro privado de sono se tornava mais ranzinza que o normal.
Eu estava com frio, com sono e cansada, e o trem que levaria-me para casa ainda demoraria duas horas.
Não posso mentir dizendo que não nos divertimos. Dançamos e bebemos até cansarmos, e eu mal podia esperar para o aniversário de Brooke do ano seguinte mas, naquele momento, tudo que eu sentia era minhas digitais tão frias a ponto de doerem.

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– Caraca, que delícia de cama. – Falei, jogando-me no colchão confortável do motel enquanto minha irmã torcia o nariz.
– Imagina quantas pessoas já transaram nessa cama…
– Imagina quantas vezes as mães já não transaram nas nossas antigas camas? Aqueles colchões de solteiro eram relíquia da faculdade.
– Ai, que nojo, ! – Catarina jogou o próprio casaco em mim.
– Gente, olhem esse banheiro! – Brooke chamou e eu fiz o esforço de levantar.
O quarto era bonito, valia a fortuna que cobravam por ele, mas Brooke teve o bom coração de gastar o dinheiro dos pais dela conosco mais uma vez.
Eu estava numa suíte de luxo em Londres, sem pagar por nada. A sensação era interessante, não minto que cogitaria um sugar daddy se aquela situação virasse corriqueira.
– Eu não acredito que você vai tomar banho e vestir a mesma roupa. – Comentei com uma careta de nojo.
– Melhor do que nada.
– Tanto faz.
– E você, Caty? – Brooke perguntou pra minha irmã, que parecia extremamente deslocada.
– Eu… – Ela olhou entre nós duas. – Eu vou dormir com a .
Ela mal tinha terminado de falar meu nome e eu já estava na cama de novo. Não demorei mais que poucos instantes para cair no sono.

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– Essa foi a viagem de trem mais longa da minha vida. – Reclamei quando entramos em casa.
– Mas a gente se divertiu e é isso que importa.
– Mas a que custo? – Perguntei, deixando os sapatos no aparador perto da porta.
– Deu tempo de você dormir, sim? Até eu dormi.
– Deu. Agora tenho que correr. – Falei enquanto subíamos as escadas.
– Aonde vocês vão? – Ela perguntou com um sorrisinho irritante.
– Eu não sei exatamente, ele me pediu pra encontrá-lo no estúdio e, de lá, seguiríamos.
– Sinto cheiro de restaurante chique.
– Ele não faria isso comigo.
– Se meu crush famoso subitamente virasse meu vizinho e me chamasse pra sair, eu iria até o inferno com ele.
– É por isso que o pai pede pra eu cuidar de você. – Suspirei e coloquei o celular para carregar na cabeceira da cama enquanto ela estava escorada no batente da porta do meu quarto.
– O pai sempre pede pra gente cuidar uma da outra. – Ela retrucou.
– Mas, com você, é pior porque você é uma romântica incurável e se mete em enrascadas.
– Você também adora um clichê.
– E quem não? – Perguntei antes de bater a porta do banheiro.
Enquanto tirava minhas roupas para tomar um banho, minhas mãos tremiam. Não era mais frio, era a ansiedade.
Eu via quase todos os dias, visto que ele quase religiosamente tomava seu café da manhã na loja desde que havia mudado, mas aquela situação era diferente. Depois de alguns galanteios e flertes, iríamos nos ver fora da loja, fora da minha zona de conforto, e essa ideia fazia meu estômago se revirar de um jeito bom.
Durante o banho, consegui relaxar, e o calor da água quase amoleceu meu corpo demais. Quando saí da névoa quentinha do banheiro para o quarto, meus edredons pareciam muito acolhedores, mas resisti.
Vesti uma roupa quente para enfrentar o tempo do lado de fora e desci para a cozinha, onde minha irmã estava sentada atrás de um prato enorme de bolo de chocolate.
– Você devia almoçar ao invés de se empanturrar de doce.
– Não vou cozinhar só pra mim e esse bolo estava fazendo aniversário na geladeira.
– Que aniversário? Eu assei esse bolo sexta-feira.
– Hoje já é quarta!
– Se você morrer de anemia ou diabetes, saiba que eu me abstenho de qualquer responsabilidade, incluindo suas plantas.
– Eu sei que você não deixaria que elas morrerem.
– Ia vender todas, certeza que ia me render uma boa grana.
– Você só pensa em dinheiro, ! Você não tem alma não?
– Vendi. – Respondi rindo e peguei a colher que descansava em seu prato, roubando um pedacinho do bolo.
– Você devia almoçar ao invés de se empanturrar de doce. – Ela me imitou com voz idiota.
– Eu estou indo. – Exibi um sorriso vitorioso. – Com um cara da TV.
– Ah, eu te odeio. – Ela murmurou, tomando a colher da minha mão.
– Eu já estou indo, por sinal. Te vejo daqui a pouco. – Dei um beijo em sua bochecha e afastei-me, saindo da cozinha.
– Espera! – Gritou e eu virei, assustada. – Não demora tanto assim, a gente tem três candidatos pras vagas mais tarde.
– Nossa, eu bem pensando que ia poder dormir quando voltasse… Ser minha própria chefe é muito ruim porque eu não posso pedir demissão pra mim mesma. – Reclamei, vestindo o casaco que tinha largado no sofá quando desci.
– E se eu te pedir demissão e você me pedir demissão?
– Não confunde a minha cabeça agora não, Catarina. – Pedi, enfiando o celular no bolso e descendo as escadas.
– É uma coisa a se pensar! – Ela gritou e eu fingi que não tinha escutado.
Calcei meus sapatos e meu celular vibrou no bolso, eu tinha certeza de que era a notificação avisando que meu uber tinha chegado, então apenas enfiei os cadarços por dentro do sapato e saí, batendo a porta atrás de mim e ouvindo um “beija!” sendo gritado por minha irmã do lado de dentro.


Continua...



Nota da autora: "Quem é ? O que ele faz da vida? O que está fazendo aqui? Não percam, sexta no Globo Reporter.
Tá avulso, eu sei, mas tem que ser assim, vocês me perdoem e critiquem a , não eu, ela que narra a história."



Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.


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